Você está na página 1de 17

FRANCIS

FUKUYAMA

LIBRETO
SÃO PAULO
A GRANDE VIRADA

TEMPORADA 2016
FRANCIS
FUKUYAMA
Expediente

Fronteiras do Pensamento©
Temporada 2016

Curadoria (Estados Unidos, 1952)


Fernando Schüler

Concepção e Coordenação Editorial Cientista político norte-americano. Autor do best-seller


Luciana Thomé
Michele Mastalir O fim da História e o último homem.
Pesquisa
Francisco Azeredo
Juliana Szabluk “Acho que nós estamos passando por um período difícil,
Editoração e Design
em que tanto a Rússia quanto a China se expandem. Mas
Lampejo Studio estou convencido de que é um fenômeno limitado, que,
Revisão Ortográfica a longo prazo, só existe uma ideia organizadora impor-
Renato Deitos tante: a ideia de democracia numa economia de mercado.
www.fronteiras.com Portanto, a longo prazo, eu continuo otimista.”
VIDA E OBRA

Nascido em Chicago, Francis Fukuyama é uma das impor- balho mais recente é The origins of political order – From
tantes figuras do conservadorismo no mundo. Graduado the Industrial Revolution to the globalization of demo-
em clássicos pela Universidade de Cornell, cursou pós- cracy, ainda sem publicação no Brasil e segundo volume
-graduação em literatura comparada em Yale e finalizou de sua obra sobre o pensamento político, no qual trata
seus estudos na Universidade de Harvard, mudando sua das disfunções da política contemporânea nos Estados
área de pesquisa para as ciências políticas. Sua tese de Unidos e os efeitos da corrupção, refletindo sobre o fu-
pós-doutorado, concluída em meados de 1970, abordava turo da democracia.
as forças soviéticas que intervinham no Oriente Médio.
Atualmente, vive em Palo Alto e é professor de ciên-
Em 1992, ganhou destaque mundial ao publicar O fim cias políticas na Universidade de Stanford, onde dirige
da História e o último homem, livro que se tornou best- os projetos The Governance Project e Leadership Aca-
-seller e foi traduzido para mais de 20 idiomas, no qual demy for Development, do qual foi criador. Também
defende que, um século depois da emergência e do de- é presidente do conselho editorial e colunista do The
clínio dos regimes fascistas e comunistas, o mundo si- American Interest, veículo de comunicação indepen-
nalizou a vitória do liberalismo ocidental. Em As origens dente que busca analisar a América contemporânea.
da ordem política – Dos tempos pré-humanos até a Re- Fez parte da equipe de planejamento político do De-
volução Francesa, livro de 2011, explica como os homens partamento de Estado dos Estados Unidos, e foi mem-
evoluíram das tribos à complexa política atual. Seu tra- bro do Conselho de Bioética norte-americano.

6 7
Segundo Fukuyama, a maior fonte de problemas do IDEIAS
mundo são os Estados falidos. Países como Afeganis-
tão, Somália e Haiti não possuem, ou possuíam há pou-
co tempo, um governo estabelecido ou forte, gerando “O fim da História é uma teoria sobre a modernização. Se
falta de atendimento básico em questões como saúde e você pensar nos últimos séculos, os intelectuais progressistas
viam uma direção para a História com a modernização, levan-
educação e podendo alimentar o terrorismo. Ele defen-
do a uma sociedade socialista. O que observei, em 1989, data
de que a evolução política da humanidade foi concluída do artigo original, foi que não estávamos na direção do so-
com a morte do comunismo e a vitória da democracia cialismo e que, se houvesse um ponto de encerramento, seria
liberal como modelo de governo. É membro do Fórum algo como a democracia ocidental liberal e um sistema dire-
Internacional para Estudos Democráticos, da Academia cionado ao mercado não planejado. É óbvio que temos novos
Mundial de Arte e Ciência e da Associação Norte-ameri- desafios, porque os sistemas democráticos não são perfeitos.
cana de Ciência Política, além de possuir títulos de dou- Temos um desafio ideológico no radicalismo islâmico, mas
tor honoris causa em diferentes universidades. a maioria das pessoas prefere sociedades modernas e acho
muito difícil imaginar uma sociedade moderna que não pre-
cise ter algum tipo de democracia e algum tipo de economia
de mercado. Nesse sentido, a base da tese se mantém, embo-
ra haja novas forças. A religião ganhou mais importância no
mundo, o que eu não previa quando escrevi o artigo.”

“A verdadeira questão nas democracias do mundo hoje é


lidar com problemas de longo prazo, como os déficits orça-
mentários e a alta das dívidas públicas, e ao mesmo tempo
combater a desigualdade econômica. Para combater esses
males de modo certo e eficiente, é preciso mudar a forma
como os países enxergam e mantêm o Estado do bem-estar
social, cortar benefícios, mudar o modo de vida das pessoas.
São decisões drásticas, que os políticos não gostam de tomar.”

8 9
“A verdadeira mudança política envolve mais do que pro- ESTANTE
testar. As redes sociais são muito boas para mobilizar, para
se opor a algo, como ocorreu nos protestos no Brasil e na Tur-
quia. Mas, para isso levar a duradouras mudanças no funcio-
namento da sociedade, esta energia tem de ser convertida em
algo mais duradouro. E, numa democracia, você precisa de
um partido político.”

“Há muitos assuntos caros às pessoas, mas não tão caros


a ponto de elas se envolverem politicamente. Há grupos mui- O FIM DA HISTÓRIA E O
to atuantes. Por exemplo, os bancos nos EUA se interessam ÚLTIMO HOMEM
muito pelo tema regulamentação bancária. Eles têm muito 1ª edição – 1992 /
dinheiro e podem pagar lobistas poderosos. E essas pessoas Edição no Brasil – Rocco, 1992
influenciam o Congresso. Provavelmente, 80% dos ameri-
canos têm raiva desses bancos por causa da crise financeira,
mas não são organizados o suficiente para demandar um
novo tipo de regulamentação, não concordam sobre que tipo
de regulamentação é necessário, é um assunto técnico. Acho
que é aí que nasce a crise de representatividade. Algumas mi-
norias bem organizadas na sociedade usam o sistema político
em benefício próprio e a grande maioria tende a ser ignorada.”
Em 1989, Fukuyama publicou um artigo
em que afirmava que o surgimento dos
movimentos reformistas na então União
Soviética e na Europa Oriental, além da
propagação da cultura do consumo em es-
cala mundial, marcava a vitória do Ociden-
te, do mundo capitalista. Os resultados
daquilo que ele percebera nos movimentos
emergentes começaram a se mostrar cor-
retos, e surgiu a base para esse livro, que
se tornou best-seller em todo o mundo.

10 11
ESTANTE

AS ORIGENS DA ORDEM FICANDO PARA TRÁS


POLÍTICA – DOS TEMPOS 1ª edição – 2008 /
Edição no Brasil – Rocco, 2010
PRÉ-HUMANOS ATÉ A
REVOLUÇÃO FRANCESA
1ª edição – 2011 /
Edição no Brasil – Rocco, 2013

Francis Fukuyama apresenta a longa trajetória Neste livro, Francis Fukuyama reúne histo-
das instituições políticas, das organizações tri- riadores e cientistas políticos para tentar ex-
bais até o Estado moderno. Neste primeiro vo- plicar a natureza da lacuna – política, econô-
lume, o autor propõe uma nova interpretação mica, tecnológica – existente entre os Esta-
para o aparente caos do sistema internacional e dos Unidos e a América Latina. Colonização
reafirma sua crença nas democracias ocidentais. exploratória, política autoritária, diferenças
sociais gritantes, religião e influências exter-
nas estão entre os aspectos que poderiam
explicar esse abismo.

12 13
ESTANTE NA WEB

TWITTER
@fukuyamafrancis

PERFIL NO SITE DA UNIVERSIDADE DE STANFORD


NOSSO FUTURO https://fukuyama.stanford.edu/
PÓS-HUMANO
1ª edição – 2002 / WIKIPEDIA
Edição no Brasil – Rocco, 2003 https://en.wikipedia.org/wiki/Francis_Fukuyama
(em inglês)

ENTREVISTAS

“Ainda tenho razão”, afirma Francis Fukuyama,


filósofo do “fim da História”
Entrevista para o site da Deutsche Welle, publicada em junho
de 2014
Neste livro, Fukuyama faz uma advertência ao http://is.gd/Fukuyama1
http://www.dw.com/pt/ainda-tenho-raz%C3%A3o-afirma-francis-fukuyama-fil%C3%B3sofo-do-
mundo – o avanço da tecnologia tem sido mais fim-da-hist%C3%B3ria/a-17730414
rápido que nossa capacidade de discutir a cria-
ção de instituições nacionais e internacionais “Mudanças políticas envolvem mais do que
que lidem com os frutos desse progresso. protestar”
Entrevista para a revista IstoÉ, publicada em agosto de 2013
http://is.gd/Fukuyama2
http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/320540_
MUDANCAS+POLITICAS+ENVOLVEM+MAIS+DO+QUE+PROTESTAR+

14 15
“A democracia liberal precisa de reformas” Terrorismo
Entrevista para a revista Época, publicada em maio de 2012 Entrevista para o site Sábado de Portugal, publicada em maio de
http://is.gd/Fukuyama3 2015 (legendas em português de Portugal)
http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2012/05/francis-fukuyama-democracia-liberal- http://is.gd/Fukuyama8
precisa-de-reformas.html
http://www.sabado.pt/Iframes/detalhe_multimedia.
aspx?contentName=Multimedia&contentID=24368
Primeiro conceito
Entrevista para o site Primeiro Conceito, publicada em abril Roda Viva
de 2012 Participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, exibido em
http://is.gd/Fukuyama4 setembro de 2006 (legendado)
http://www.primeiroconceito.com.br/site/?p=1536 http://is.gd/Fukuyama9
http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/214/entrevistados/francis_fukuyama_2006.htm

Francis Fukuyama insiste em teoria do fim da


História A História venceu: Francis Fukuyama joga a toalha
Entrevista para o jornal Folha de S.Paulo, publicada em Matéria da revista Exame, publicada em junho de 2011
setembro de 2001 http://is.gd/Fukuyama10
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/993/noticias/a-historia-venceu
http://is.gd/Fukuyama5
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29838.shtml

VÍDEOS E LINKS

The American Interest


Links para os textos de Fukuyama no site do veículo The
American Interest
http://is.gd/Fukuyama6
http://blogs.the-american-interest.com/byline/fukuyama/

“Terroristas devem ser combatidos no terreno”


Entrevista em vídeo para o site português RTP Notícias, publicada
em maio de 2015 (legendas em português de Portugal)
http://is.gd/Fukuyama7
http://www.rtp.pt/noticias/especial-informacao/terroristas-devem-ser-combatidos-no-terreno-
defende-francis-fukuyama_v832976

16 17
ARTIGO

O FIM DA HISTÓRIA E
OUTRAS HISTÓRIAS
POR EDUARDO WOLF

Bacharel e mestre em Filosofia pela UFRGS e doutorando em Filosofia pela


USP, tendo sido pesquisador visitante na Universidade Ca’Foscari (Veneza,
Itália). É articulista do jornal Zero Hora e da revista Veja, onde escreve sobre
temas de cultura, ética e filosofia política. Editou, entre outros, os volumes
Pensar a filosofia e Pensar o contemporâneo (este em parceria com Fernando
Schüler), lançados pela Arquipélago Editorial. Traduziu os ensaios de T. S. Eliot
(“Notas para uma Definição de Cultura” e “A Ideia de uma Sociedade Cristã e
Outros Ensaios”) e diversos títulos de filosofia (A filosofia antes de Sócrates,
de Richard McKirahan, A invenção da Filosofia, de Néstor-Cordero, entre
outros). É assistente da curadoria do projeto Fronteiras do Pensamento.

No verão norte-americano de 1989, o muro de Berlim ain-


da não havia caído, a União Soviética ainda era o “império
do mal”, o presidente republicano Ronald Reagan era a
cara e a voz da luta final da Guerra Fria e a geopolítica
mundial era basicamente a mesma desde a descida da
“cortina de ferro” após a Segunda Guerra Mundial. Foi
nesse ambiente que um jovem de 37 anos ousou fazer
um diagnóstico radical: não, o mundo não era o mesmo
do início da Guerra Fria nos anos de 1940; não, o conflito

18 19
entre os Estados Unidos – bastião do mundo livre – e a no chão; a União Soviética persistia, mas todas as análi-
União Soviética – o “império do mal” – não continuaria ses apontavam que as reformas introduzidas pela aber-
indefinidamente; e não, não teríamos grandes surpre- tura de Mikhail Gorbachev, no mínimo, transformariam
sas no cenário mundial dali em diante. O autor do arti- o cenário político e econômico russo definitivamente.
go, publicado em uma pequena revista neoconservadora Se somarmos a isso as transformações que, no final dos
chamada The National Interest, era Francis Fukuyama. O anos 1980, alteravam a paisagem ideológica da América
artigo, como o leitor já vai adivinhando, era “The end of Latina e da África, com a gradativa transição de regimes
History?” (“O fim da História?”), assim, com um diplo- autoritários ou segregacionistas (caso da África do Sul do
mático ponto de interrogação. Sua tese, muito menos apartheid) para democracias mais ou menos duradouras,
diplomática, era complexa, sofisticada e espetaculosa: a veremos que o clima de otimismo com o triunfo final do
História havia chegado ao fim, e as democracias liberais capitalismo liberal sobre o socialismo autoritário era per-
capitalistas eram sua forma acabada. feitamente razoável e, não por acaso, vinha sendo objeto
de discussão tanto em esferas governamentais quanto
Não é difícil supor que, como uma tese dessas, o até en-
no debate público pela imprensa.
tão discreto cientista político Francis Fukuyama, um ana-
lista da RAND Corporation (um think tank de formulação Tudo isso torna, portanto, mais intrigante o sucesso do
de políticas governamentais) e diretor da área de formu- artigo de Fukuyama, e menos evidentes as razões para
lação de políticas do Departamento de Estado america- o inegável fenômeno que veio a ser. Em parte, as expli-
no, tenha se tornado uma celebridade intelectual e polí- cações para o grande impacto político e intelectual da
tica digna do show business. Menos óbvio é entender as sua tese do “fim da História” podem ser encontradas no
razões para esse fenômeno, ao menos do ponto de vista modo como seu autor formulou suas ideias, dando-lhes
da análise política. Afinal, apesar de uma consolidada uma expressão surpreendente para o pensamento polí-
percepção do senso comum de que aquele era ainda um tico norte-americano, quer no plano da linguagem, quer
mundo bipolar – norte-americanos e soviéticos – e em no plano conceitual e das referências ideológicas. Outra
tensão permanente, os indícios de mudança eram tan- parte da explicação, no entanto, encontramo-la na con-
tos e tão evidentes que muitos analistas já alardeavam fusão e na má compreensão das ideias do autor – o que,
o triunfo dos Estados Unidos e do seu modelo de política convenhamos, não é raridade alguma.
e de organização social. O muro de Berlim ainda estava
de pé, mas todos os sinais indicavam que a economia e a
política nos países socialistas do leste europeu estavam

20 21
II uma área de estudos tão ampla das chamadas Humani-
dades; mais estranho ainda parece ter sido sua opção em
A tese do fim da História, que depois seria transformada
Yale: dedicou-se aos estudos de Literatura Comparada,
em livro em 1992 (The end of History and the last man)
o que o levou a estudar em Paris com ícones franceses
reconhecia que muito vinha se debatendo sobre o fim
como Roland Barthes e Jacques Derrida. Foi apenas a de-
da Guerra Fria ou o iminente colapso das economias so-
silusão com o hermetismo e com o formalismo vazio das
cialistas, mas poucos tinham oferecido qualquer análi-
teorias literárias francesas que o levou a uma guinada ra-
se conceitual mais abrangente e completa do que vinha
dical: resolveu dedicar-se aos estudos de Ciência Política
ocorrendo. O que Fukuyama buscou frisar em seu estudo
em Harvard, sob a orientação de dois gigantes na área,
não foi um evento episódico, mas uma transformação
Samuel P. Huntington e Harvey C. Mansfield. Da retórica
em escala muito maior:
desconstrucionista francesa à análise de política externa
soviética para o Oriente Médio, o filho de imigrantes japo-
neses perfeitamente assimilado e integrado à sociedade
“O que podemos estar testemunhando não é norte-americana percorrera, em sua formação acadêmi-
apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de ca, os grandes pilares dos estudos universitários de hu-
um período particular da história do pós-guerra, manidades: dos clássicos às relações internacionais, da
mas o fim da História enquanto tal: isto é, o pon- filosofia e da literatura à política e à economia.
to final da evolução ideológica da humanidade e
a universalização da democracia liberal ocidental Esse percurso intelectual é muito perceptível nas ideias
como a forma final do governo humano”. e nas articulações que animam a tese do fim da história.
Afinal, que intelectual norte-americano teria a ousadia
de Fukuyama, que foi buscar na filosofia idealista do ale-
As bases para a afirmação de Fukuyama não poderiam mão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) as bases
ser mais estranhas ao ambiente ideológico da época – e para sua análise do desfecho daqueles anos de Guerra
há uma razão para isso. Formado em Estudos Clássicos Fria? Mais: que pensador norte-americano teria se arris-
pela Universidade de Chicago, onde estudou com o im- cado a buscar obscura interpretação de Alexandre Kojève,
portante e polêmico pensador Allan Bloom, Fukuyama um pensador russo radicado na França, a chave de leitura
prosseguiu seus estudos na Universidade de Yale. É sur- para Hegel e para os eufóricos dias de triunfo do capita-
preendente, para os que o conhecem apenas por seu tra- lismo de livre mercado? Pois foi essa a grande aposta in-
balho como cientista político, que tenha se formado em terpretativa de Fukuyama.

22 23
Hegel, o autor da Fenomenologia do Espírito, afirmou que O muro de Berlim caiu ainda naquele ano de 1989. A União
a História havia se realizado plenamente em 1806 com a vi- Soviética viria a se esfacelar em 1992, ano em que o arti-
tória de Napoleão, afinal, ali estava definido o triunfo dos go de Fukuyama virou livro. Desde as primeiras reações à
valores de igualdade e de liberdade da Revolução Francesa. tese do fim da história até nossos dias, foram inúmeras
Fukuyama, seguindo as análises de Alexandre Kojève (que as polêmicas em torno de O fim da História e o último ho-
tiveram grande êxito na França das décadas de 1930 e 40), mem, atestando a vitalidade e a importância das análises
afirmava em sua tese sobre o fim da história que não ape- de seu autor. E se é verdade que a incompreensão ajudou
nas Hegel estava certo, mas que o triunfo final do capitalis- sua obra a se tornar conhecida, não é menos verdade que
mo de livre mercado sob a forma das democracias liberais do isso tenha obrigado Fukuyama a retornar ao tema, ainda
Ocidente era a derrota definitiva de qualquer ideologia que que sob diversos aspectos.
tentasse rivalizar com esse modelo. O revolucionário Karl
Marx estava parcialmente certo: a “marcha da História” he-
geliana apontava para a superação das contradições e para
III
a realização máxima de um ideal humano. Seu erro foi acre-
ditar que essa superação final seria um regime comunista. A acusação de estar falando como “porta-voz” da era Re-
agan, ou de ser o “ideólogo” do governo de George Bush
A formulação elegante e erudita da tese de Fukuyama, so-
(pai), é pouco séria, pertencendo antes ao campo do
mada ao inusitado de suas bases intelectuais, responde,
folclore político. Nada de mais. Mas outras dificuldades
como disse acima, por muito do sucesso da tese do fim da
conceituais estavam no horizonte da interpretação de
história. Com ela, seu autor tornou-se uma verdadeira cele-
Fukuyama. Já em 1989, o historiador Simon Schama, que
bridade. No entanto, muito da incompreensão que ela cau-
julgava a tese do fim da História interessante, ainda que
sou foi também motor do sucesso e da fama, ainda que para
sem concordar com ela, questionava como Fukuyama
combater a tese – e, frequentemente, também seu autor. O
não tinha percebido o ressurgimento poderoso do funda-
próprio editor da revista que publicara o artigo de Fukuya-
mentalismo islâmico e dos nacionalismos.
ma, Irving Kristol, afirmou que não acreditava em uma única
palavra do artigo. Christopher Hitchens, inglês radicado nos Esse foi, de fato, o grande desafio para as influentes
Estados Unidos e, à época, um intelectual de esquerda, afir- ideias de Francis Fukuyama. Apesar de ter se dedicado a
mou que “os anos Bush encontraram seu [Edmund] Burke, diversos outros temas em sua obra como cientista políti-
ou seu Pangloss”, em uma referência ao personagem ultrao- co e historiador das ideias políticas – incluindo um auda-
timista de Voltaire em sua novela Cândido. cioso volume sobre as origens de nossa organização polí-

24 25
tica em sociedade, The origins of political order (2011) –, a final da grande modernização humana – e o terrorismo
cada novo acontecimento histórico de monta Fukuyama internacional, hoje, apenas parece confirmar isso.
é chamado novamente a defender sua tese ou reavaliar
Certo ou errado, as muitas histórias do autor de O fim da
sua interpretação. Quando fundamentalistas islâmicos
História ainda provocam e estimulam. E é isso o que nos
atacaram os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001,
faz continuar: a vivacidade do pensamento.
destruindo as torres gêmeas do World Trade Center e ma-
tando mais de 3 mil civis inocentes, a história parecia ter
se iniciado novamente, desafiando o modo de vida oci-
dental triunfante.

Fukuyama se manteve um atento analista da cena po-


lítica internacional, escrevendo combativamente sobre a
administração de George W. Bush e sua guerra no Iraque
– a qual condenou com veemência –, sobre a consolida-
ção da China como segunda potência econômica mun-
dial e até mesmo sobre as ameaças éticas e políticas dos
avanços da biotecnologia (Our posthuman future: Conse-
quences of the Biotechnology Revolution, 2002). Mas a
insistência com que a História seguia acontecendo – o 11
de Setembro, a Guerra no Iraque, a Rússia de Putin e o Es-
tado Islâmico – fez com que muitas das outras Histórias
que poderiam envolver sua biografia e seu pensamento
dependessem desta outra: o fim da História, tal como
descrito por ele, não era o fim dos conflitos, muito menos
uma utopia colorida de paz e harmonia. Antes, e como
o próprio autor frisara, era uma “época muito triste”, em
que não veríamos nenhuma alternativa de vida suficien-
temente forte para rivalizar com o capitalismo de livre
mercado e seu modo de vida, a não ser reações arcaicas
e regressivas, que eclodiriam como rejeição ao processo

26 27
ANOTAÇÕES

28 29
ANOTAÇÕES

30
Parceria Institucional