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DIREITO CIVIL IV – DOS CONTRATOS EM GERAL

DAS ESTIPULAÇÕES CONTRATUAIS EM FAVOR DE TERCEIROS

DAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 A regra geral é que os contratos só devem gerar efeitos entre as próprias


partes contratantes, não dizendo respeito, a priori, a terceiros
estranhos à relação jurídica contratual.

 Todavia, como toda regra parece comportar uma exceção (e talvez esta
regra também comporte exceções...), não é diferente com o princípio da
relatividade subjetiva dos efeitos do contrato. Nos próximos tópicos,
abordaremos três modalidades de estipulações contratuais relacionadas
com terceiros.

 Ao estudarmos os princípios fundamentais do direito contratual, vimos


que um deles é o da relatividade dos efeitos do contrato, que se funda
na ideia de que os efeitos do contrato só se produzem em relação às
partes, àqueles que manifestaram a sua vontade, vinculando-os ao seu
conteúdo, não afetando terceiros nem seu patrimônio. São previstas, no
entanto, algumas exceções, expressamente consignadas na lei:
correspondentes aos arts. 436 a 438 do Código de 2002, comuns nos
seguros de vida, em que a convenção beneficia quem não participa da
avença, e nas separações judiciais consensuais, nas quais se inserem
cláusulas em favor dos filhos do casal, bem como nas convenções
coletivas de trabalho, por exemplo, em que os acordos feitos pelos
sindicatos beneficiam toda uma categoria.

 Nessas modalidades, uma pessoa convenciona com outra que concederá uma
vantagem ou benefício em favor de terceiro, que não é parte no contrato.
Dá-se a estipulação em favor de terceiro, pois, quando, no contrato
celebrado entre duas pessoas, denominadas estipulante e promitente,
convenciona-se que a vantagem resultante do ajuste reverterá em
benefício de terceira pessoa, alheia à formação do vínculo contratual.
 A peculiaridade da estipulação em favor de terceiros está em que estes,
embora estranhos ao contrato, tornam-se credores do promitente.

 No instante de sua formação, o vínculo obrigacional decorrente da


manifestação da vontade estabelece-se entre o estipulante e o promitente,
não sendo necessário o consentimento do beneficiário.

 Tem este, no entanto, a faculdade de recusar a estipulação em seu favor.


Completa-se o triângulo somente na fase da execução do contrato, no
instante em que o favorecido aceita o benefício, acentuando-se nessa
fase a sua relação com o promitente.

 Embora a validade do contrato não dependa da vontade do beneficiário,


sem dúvida a sua eficácia fica nessa dependência.

 Também faz-se mister que o contrato proporcione uma atribuição


patrimonial gratuita ao favorecido, ou seja, uma vantagem suscetível de
apreciação pecuniária, a ser recebida sem contraprestação. A eventual
onerosidade dessa atribuição patrimonial invalida a estipulação, que há
de ser sempre em favor do beneficiário.

 Diverge a doutrina a respeito da natureza jurídica da estipulação em


favor de terceiro. Várias teorias são propostas para defini-la. A mais
aceita é a que considera a estipulação em favor de terceiro um contrato,
porém sui generis, pelo fato de a prestação não ser realizada em favor
do próprio estipulante, como seria natural, mas em benefício de outrem,
que não participa da avença. A sua existência e validade não dependem
da vontade deste, mas somente a sua eficácia, subordinada que é à
aceitação. A concepção contratualista da estipulação em favor de
terceiro não sofre contestação entre nós, uma vez que é consagrada no
Código Civil. Com efeito, os arts. 436, parágrafo único, 437 e 438 do
novo diploma referem-se a ela utilizando o vocábulo contrato.
 A promessa em favor de terceiro é, também, consensual e de forma livre.
O terceiro não precisa ser desde logo determinado. Basta que seja
determinável, podendo mesmo ser futuro.

REGULAMENTAÇÃO DA ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO

 A disciplina da estipulação em favor de terceiro encontra-se nos arts.


436 a 438 do Código Civil. Dispõe o primeiro:
Art. 436. O que estipula em favor de terceiro pode exigir o cumprimento
da obrigação.
Parágrafo único. Ao terceiro, em favor de quem se estipulou a obrigação,
também é permitido exigi-la, ficando, todavia, sujeito às condições e
normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não o inovar nos
termos do art. 438.

 Por meio da estipulação em favor de terceiro, ato de natureza


essencialmente contratual, uma parte convenciona com o devedor que este
deverá realizar determinada prestação em benefício de outrem alheio à
relação jurídica-base.

 A estipulação em favor de terceiro “origina-se da declaração acorde do


estipulante e do promitente, com a finalidade de instituir um iuris
vinculum, mas com a peculiaridade de estabelecer obrigação de o devedor
prestar em benefício de uma terceira pessoa, a qual, não obstante ser
estranha ao contrato, se torna credora do promitente”.

 Nessa modalidade contratual especial, as partes são chamadas de


estipulante — aquele que estabelece a obrigação — e promitente ou
devedor — aquele que se compromete a realizá-la. Já o terceiro ou
beneficiário é o destinatário final da obrigação pactuada.

 Percebe-se, com isso, que o terceiro, estranho ao negócio, será por ele
afetado, situação esta que excepciona a regra geral da relatividade dos
efeitos do contrato.
 O principal efeito peculiar desta modalidade especial de contratação é
a possibilidade de exigibilidade da obrigação tanto pelo estipulante
quanto pelo terceiro; registre-se, porém, que esta dupla possibilidade
somente é aceitável se o terceiro anuir às condições e normas do
contrato, na forma do transcrito art. 436 do CC/2002.

 Assim, anuindo o beneficiário com as “condições e normas do contrato”,


o que deve ser feito de forma expressa, ou seja, assumindo as obrigações
dele decorrentes, incorpora ao seu patrimônio jurídico o direito de
exigir a prestação, o que se infere da interpretação conjunta do
mencionado dispositivo com o art. 437.

 A obrigação assumida pelo promitente pode, assim, ser exigida tanto


pelo estipulante como pelo beneficiário, que assume, na execução do
contrato, as vezes do credor, ficando, todavia, sujeito às condições e
normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não houver reservado
a faculdade de o substituir. É que o aludido art. 438, caput, proclama
que “o estipulante pode reservar-se o direito de substituir o terceiro
designado no contrato, independentemente da sua anuência e da do outro
contratante”.

Art. 438. O estipulante pode reservar-se o direito de substituir o


terceiro designado no contrato, independentemente da sua anuência e da
do outro contratante.
Parágrafo único. A substituição pode ser feita por ato entre vivos ou
por disposição de última vontade.

 Caso se estipule que o beneficiário possa reclamar a execução do


contrato, o estipulante perde o direito de exonerar o promitente (CC,
art. 437). Destarte, a estipulação será irrevogável. A ausência de
previsão desse direito sujeita o terceiro à vontade do estipulante, que
poderá desobrigar o devedor, bem como substituir o primeiro na forma do
art. 438. O direito atribuído ao beneficiário, assim, só pode ser por
ele exercido se o contrato não foi inovado com a sua substituição
prevista, a qual independe da sua anuência e da do outro contraente.
 Verifica-se, portanto, que, no silêncio do contrato, o estipulante pode
substituir o beneficiário, não se exigindo para tanto nenhuma
formalidade, a não ser a comunicação ao promitente, para que este saiba
a quem deve efetuar o pagamento. Basta, portanto, a declaração
unilateral de vontade do estipulante, por ato inter vivos ou mortis
causa, como previsto no parágrafo único do art. 438 supratranscrito.
 Art. 437. Se ao terceiro, em favor de quem se fez o contrato, se deixar
o direito de reclamar-lhe a execução, não poderá o estipulante exonerar
o devedor.