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AO ILMO. SR.

SUPERINTENDENTE DA SUPRAM – ALTO SÃO FRANCISCO

Auto de infração nº: 92.286/2017

Conforme é de conhecimento de Vsa. esta peticionária foi autuada em 25


de novembro de 2017, por manter empreendimento de suinocultura, supostamente sem
a licença ambiental pertinente.

Ocorre que, conforme se verifica do contrato anexo, esta adquiriu o


empreendimento em questão, perante terceiro que se encontrava em processo de
regularização perante esta SUPRAM/ASF mediante assinatura de TAC, o qual vigorava
de pleno direito à época da transferência da titularidade.

Não obstante a clareza das obrigações descritas no aludido contrato, o


antigo proprietário houve por requerer o cancelamento do procedimento de
licenciamento ambiental o qual havia se iniciado por este, e que foi levado à efeito por
este Órgão, sem qualquer manifestação desta peticionária.

Em que pese o cuidado e a atenção dos policiais da PMMG, bem como


dos Ilustres servidores deste Órgão, entende a Vaccinar Indústria e Comércio Ltda. que
este licenciamento jamais poderia ter sido cancelado, sem que esta tivesse oportunidade
de se manifestar, pelas razões que se seguem:
Inicialmente, destaca-se entendimento de que o Licenciamento
Ambiental não é concedido em caráter personalíssimo, ou seja, não está vinculado à
pessoa que obtém a licença ambiental, e sim ao empreendimento, uma vez que o
objetivo do licenciamento ambiental é gerenciar os impactos ambientais do
empreendimento objeto da licença. À esse respeito, confira-se trecho de parecer do
IBAMA que tratou da questão:
O foco do licenciamento ambiental está no objeto e não na pessoa natural ou
jurídica requerente da licença ambiental. Isso faz todo o sentido, porque a
função do licenciamento ambiental é gerenciar os impactos ambientais do
empreendimento ou atividade licenciados e não das peossoas que os detêm.1

Ainda neste rumo, é importante destacar que não existe prejuízo ao bem
ambiental protegido, uma vez que a transferência da licença ambiental não implica em
alteração das condicionantes ou obrigações impostas ao licenciado. Confira-se:

Não existe prejuízo ambiental na transferência da titularidade do


licenciamento e da licença ambientais porque tal mudança não acarreta
alteração de nenhuma obrigação ou ação estabelecidas, especialmente as
condicionantes.2

Desta feita, não havendo prejuízo com a transferência do licenciamento,


e sendo esta perfeitamente admissível, como bem apontou o IBAMA, entende esta
peticionária que a transferência do licenciamento em questão não está condicionada à
anuência do Órgão licenciante, bastando, pois, a manifestação de vontade de ambas as
partes, conforme se verificou no contrato anexo.

Entrementes, com o devido acatamento, não seria razoável admitir-se o


cancelamento da licença ambiental do empreendimento em comento, sem qualquer
manifestação da Vaccinar Indústria e Comércio Ltda., uma vez que esta tem o direito à
estabilidade jurídica decorrente do princípio da não surpresa, que implica na
necessidade de previsão expressa dos atos administrativos ou o direito à notificação
prévia dos atos que visem extinguir ou modificar direitos.

Neste contexto, confira-se a posição doutrinária de Edis Milaré:

Em síntese, a licença ambiental, apesar de ter prazo de validade estipulado,


goza do carácter de estabilidade, de jure; não poderá pois, ser suspensa ou
revogada, por simples discricionariedade, muito menos por arbitrariedade
do administrador público. Sua renovabilidade não conflita com sua
estabilidade; está, porém, sujeita a revisão, podendo ser suspensa e mesmo
cancelada, em caso de interesse público ou ilegalidade superveniente ou,
ainda, quando houver descumprimento dos requisitos preestabelecidos no
processo de licenciamento ambiental. Mais uma vez pode chamar a atenção
para disposições peculiares do Direito do Ambiente, peculiaridades essas

1
IBAMA, Advocacia Geral da União 2016. Disponível em: <http://www.saesadvogados.com.br/wp-
content/uploads/2016/10/Parecer-82-2016-COJUD-PFE-IBAMA-SEDE-PGF-AGU-.pdf>. Acesso em: 21 dez. 2017.
2
IBAMA, Advocacia Geral da União 2016. Disponível em: <http://www.saesadvogados.com.br/wp-
content/uploads/2016/10/Parecer-82-2016-COJUD-PFE-IBAMA-SEDE-PGF-AGU-.pdf>. Acesso em: 21 dez. 2017.
fundadas na legislação e corroboradas por práticas administrativas
correntes na gestão ambiental.3

Por todo o exposto, requer esta peticionária o agendamento de reunião


com Vsa. em caráter de urgência, para o que ponto em questão seja melhor esclarecido,
ante a autuação concretizada no auto de infração em epígrafe, bem como o risco
eminente às atividades empresariais do empreendedor.

De Belo Horizonte/MG para Divinóplis/MG, 21 de dezembro de 2017.

3
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. A gestão Ambiental em foco. Doutrina. Jurisprudência. Glossário. 6. ed. rev.,
atual. e ampl. São Paulo: Editora RT, 2009, p. 426.