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O CÁLICE MISTERIOSO

O iniciado que afrontou as provas simbolizadas pelas três


viagens e sofreu a tríplice purificação dos elementos, libertou-
se de todas as escórias de sua natureza inferior e tem agora o
dever e o privilégio de manifestar o mais alto e divino de seu
ser.

Este dever e este privilégio, que já fazem dele potencialmente


um maçom, devem ser selados com uma primeira obrigação (o
reconhecimento dos deveres) que precede ao juramento
propriamente dito, e consiste em dar-lhe de beber um cálice
de água que de doce se transforma em amarga.

Nesta tríplice obrigação, que pode considerar-se como uma


confirmação do testamento, aprende e reconhece as condições
nas quais será recebido maçom: o segredo sobre o que há de
mais sagrado; a solidariedade e devoção para com seus
irmãos; e a fidelidade à Ordem, com observância de suas
Regras e Leis tradicionais.

O cálice da amargura descreve-nos de forma eficaz, as


desilusões que encontra quem desce das regiões puramente
ideais, do Oriente simbólico, para enfrentar as realidades
materiais.

A doçura inefável dos sublimes conhecimentos adquiridos e


dos planos ou programas de atividade que foram formulados
na mente, não podem transformar-se na amargura que nasce
quando tudo parece ir contra nossos projetos e nossas
aspirações.

Então, não devemos estranhar-se num momento de


debilidade, a alma cede momentaneamente sob o peso
envolvente dessa aparência e brota do fundo do coração o
grito: "Pai, se for possível, afasta de mim este cálice!".

Mas o cálice não pode ser afastado, já que deve ser servido
até a última gota. O contato com a realidade externa não pode
ser evitado, e neste contato deve demonstrar-se praticamente
o valor de suas aquisições ideais e sua confiança na Verdade
na qual se estabeleceu. A realidade exterior deve ser
transmutada pela simples influência silenciosa de sua
consciência íntima, fixada na visão de uma Realidade de
ordem superior ou transcendente.
Em outras palavras, o iniciado que foi purificado pelos três
elementos, deve ter sido convertido e deverá agir como um
verdadeiro filósofo. Deve portanto, com sua atitude interior,
ser a pedra filosofal que tudo transmuta pela simples
influência de sua própria presença. Assim, pois, longe de
evitar e afastar de si a poção amarga que lhe é oferecida pela
ignorância dos homens, deve levá-la a seus lábios
serenamente, como se fora a mais doce e agradável das
bebidas. É, quando, então, cumpre-se o milagre: a amargura
converte-se em doçura, e a visão espiritual triunfa sobre as
sombras da ilusão que se desvanecem.

Fonte: Sociedade das Ciências Antigas

Colaboração: Renato Burity