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Historiografia

Contemporânea em
perspectiva crítica

Natália Verdeli
11/04/07

PROVA 1

(Notas e referências aplicadas)


Historiografia
Contemporânea em
perspectiva crítica

Jurandir Malerba /
Carlos Aguirre R. (Orgs.)

Tradução

Revisão Técnica
SUMÁRIO

PREFÁCIO
Jurandir Malerba e Carlos António Aguirre Rojas

CAPÍTULO 1
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20: uma visão
numa perspectiva de longa duração
Carlos António Aguirre Rojas

CAPÍTULO 2
Novas tendências na historiografia russa e o problema da correla-
ção entre micro e macro-história
Lorina Repina

CAPÍTULO 3
Historiografia alemã no século 20: encontros e desencontros
Estevão Rezende Martins

CAPÍTULO 4
Um certo número de idéias para uma história social ampla,
geral e irrestrita
Antônio Luigi Negro

CAPÍTULO 5
Convite a outra micro-história: a micro-história italiana
Carlos António Aguirre Rojas
Sumário

CAPÍTULO 6
Os historiadores espanhóis e a reflexão historiográfica (c. 1880-2000)
Gonzalo Pasamar Alzuria

CAPÍTULO 7
A renovação historiográfica francesa após a “guinada crítica”
Helenice Rodrigues da Silva

CAPÍTULO 8
Historiografia portuguesa contemporânea
Francisco J. C. Falcon e Marcus Alexandre Motta

CAPÍTULO 9
A historiografia latino-americana da questão nacional: nações
inacabadas; inimigos da nação e a ontologia da nacionalidade
Claúdia Wasserman

CAPÍTULO 10
História e Nação: trajetória da historiografia cubana no século 20
Oscar Zanetti Lecuona

CAPÍTULO 11
Os fundadores da historiografia marxista na América Latina
Sergio Guerra Villaboy

CAPÍTULO 12
História, memória, historiografia: algumas considerações sobre
história normativa e cognitiva no Brasil
Jurandir Malerba
PREFÁCIO

Qualquer proposta de abordagem de tema tão vasto e complexo como


a história da historiografia do século 20, tomada de uma perspectiva global e
abertamente crítica, implica uma série de desafios e estabelece inevitáveis limi-
tes. Uma chave para sua boa execução será o enfoque que Braudel chamou de
“longa duração”.
A empresa de se distinguir e entender quais teriam sido os itinerários
essenciais da trajetória dos estudos históricos durante o século 20 exigirá mirá-
lo com grande abertura de visão. Seria imperioso colocar-se em discussão, em
primeiro lugar, o que representou essa historiografia em relação a toda traje-
tória anterior dos estudos históricos, toda a herança que a precedeu, e de que
ela é herdeira, em toda sua diversidade.
De um ponto de vista estritamente epistemológico, os modos como
entendemos a História são muito diversos de como Heródoto, Tucídedes,
Santo Agostinho ou Vico, por exemplo, a compreendiam. Tanto no que se refe-
re ao estatuto da disciplina dentro do conjunto das Ciências Humanas, assim
como a seus modelos globais de explicação, teorias, conceitos, métodos, pas-
sando até pelas técnicas de pesquisa que emprega, a História transformara-se
de maneira radical nos últimos cem anos. O percurso da historiografia no últi-
mo século explicará seu papel particular dentro da história global do conheci-
mento histórico, desde que este termo fora cunhado pelos gregos até o cenário
historiográfico atual.
É preciso destacar que a história da historiografia do século 20 não
coincide com o mesmo século cronológico, mas se identifica com os processos
históricos específicos que delineiam sua própria temporalidade. Neste caso
particular, falamos de uma temporalidade iniciada por volta de 1848, com o

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Prefácio

surgimento do projeto crítico do marxismo original e seus efeitos profundos


no universo dos estudos históricos que a ele se seguiram, e que ainda não
encontrou seu termo derradeiro. Essa temporalidade encontra-se em plena
marcha em virtude de que o conjunto de suas linhas de força e processos ine-
rentes, deflagrados com o aparecimento do marxismo no contexto do ápice da
modernidade industrial do século 19, ainda não se esgotaram completamente,
encontram-se ativos mesmo nos dias de hoje.
No decorrer desse “longo século 20”, surgiram estruturas e perfis mais
importantes que demarcam o cenário historiográfico mundial atual. Esse é
mais um motivo para buscarmos compreender a paisagem historiográfica
atual com base na observação de sua trajetória no último século.
Com isso, nosso projeto poderia incluir-se dentro de um segmento
importante dos estudos históricos atuais, que é o da história da historiografia.
Embora há muitas décadas explorado por toda parte, trata-se de território cul-
tivado de modos desiguais e que têm levado a resultados também diversificados
em profundidade e qualidade. Se na Itália e Alemanha, por exemplo, os estudos
no campo da história da historiografia contam com uma longa tradição de
reflexões teórico-metodológicas e estudos concretos, há outros países em que,
embora presentes, explorações naquele campo são totalmente marginais, prati-
cados à risca do entusiasmo do pesquisador, mas sem conhecimento de toda
uma longa tradição anterior. Há mesmo países em que praticamente – e talvez
deliberadamente – ignora-se a existência desse campo, ao lado de outros em
que se produziram trabalhos mais propriamente quantitativos, descritivos e
monográficos da história da historiografia, principalmente a mais atual.
Não é raro encontrar tanto no México, na Espanha, mesmo na França e
no Brasil, trabalhos que pretendem inserir-se nessa tradição da história da his-
toriografia, mas que acabam sendo meras enumerações descritivas de autores,
obras, ou supostas correntes, grupos ou tendências historiográficas, que se limi-
tam a reproduzir dados biográficos de um autor, datas de edição de um livro ou
ensaio seminal, uma suposta lista de “representantes” desta ou daquela corren-
te historiográfica. Falta muitas vezes, a tais trabalhos descritivos, aprofundar a
análise sobre os vários contextos, sociais, culturais, políticos e econômicos que
marcam a produção do autor, obra ou vertente em foco.
Isso quer dizer que, mesmo dentro do ramo específico da história da
historiografia, impera ainda um certo “positivismo” na abordagem, que, ao
evitar interpretar seu objeto, opta a elaborar inventários e descrições que,
além de efetivamente pouco agregarem à reflexão teórica forte e à própria his-

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Prefácio

tória da historiografia, não raro culminam na banalização dos diferentes


autores e suas obras, reduzindo-os a etiquetas desgastadas e pouco explicati-
vas, e em classificações simplistas e esquemáticas dos diversos e complexos iti-
nerários historiográficos.
Nossa concepção de história da historiografia vale-se de uma longa tra-
dição que poderíamos remontar ao filósofo e historiador italiano Benedetto
Croce, que a define simplesmente como “a análise crítica da evolução do pen-
samento histórico”, ou seja, o estudo compreensivo – e comparativo – das
transformações que experimentam conceitos, teorias, métodos, perspectivas e
os produtos resultantes do ofício dos historiadores. Embora parcial, tal defini-
ção é correta e nela agora podemos acrescentar que a investigação das mudan-
ças e permanências que se verificam no pensamento e na obra dos historiado-
res deve ser apoiada em estudo que insira tais obras e autores nos sucessivos
contextos historiográficos, intelectuais, sociais, políticos, enfim, nos diversos
contextos históricos a que pertencem. Somente assim poderá estabelecer-se
com precisão periodizações referenciais da curva da historiografia em foco, e
também uma classificação categórica das diversas tendências, “escolas” ou cor-
rentes historiográficas, junto àqueles autores igualmente originais e inclassifi-
cáveis, não rotuláveis, que encontramos na história da historiografia. Esta
deverá ser capaz de reconstruir criticamente os principais pontos de conver-
gência, filiações, influências, empréstimos e redes de circulação que caracteri-
zam as dinâmicas da historiografia em geral.
Uma história crítica da historiografia deverá ainda buscar resgatar as filia-
ções intelectuais dos diversos autores dentro de uma determinada tendência ou
corrente, as matrizes intelectuais das diferentes obras, bem como os processos de
intercâmbio, “aclimatação” e transferência cultural de perspectivas e horizontes
que impactam nas diversas práticas historiográficas ao longo do tempo.
Além de ser capaz de situar, de maneira criativa e sistemática, obras,
autores e correntes ou tendências historiográficas dentro dos múltiplos e com-
plexos contextos em que acontecem, uma história crítica da historiografia deve
procurar igualmente estabelecer com cuidado e precisão os vínculos sutis de
mediação que conectam aqueles vários elementos. Deve também estar apta a
identificar aqueles autores, digamos, pouco suscetíveis de se incluir sob rótu-
los ou classificações; autores, como Michel Foucault ou Norbert Elias, por
exemplo, que, por serem depositários de uma multiplicidade imensa de
influências e contribuições culturais específicas, acabam sendo esquivos ao
enquadramento dentro de qualquer “escola” ou corrente de pensamento histo-

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Prefácio

riográfico de sua época. Tais autores, que são poucos, é certo, afastando-se dos
paradigmas dominantes do momento em que escrevem, acabam tornando-se
eles mesmos fundadores de novos sistemas de pensamento, que ocasionalmen-
te espraiam-se por outros grupos sociais.
O presente conjunto de ensaios aqui reunidos tem limites muito claros.
Seria simplesmente impossível pretender mapear o cenário historiográfico
contemporâneo numa pequena coletânea como esta. O ensaio introdutório de
Carlos Aguirre Rojas procura fornecer alguns parâmetros para se tomar, numa
perspectiva global, o percurso histórico das matrizes historiográficas mais
influentes no século 20.
Basicamente, foram dois os critérios maiores de inclusão para a compo-
sição do presente conjunto. Por um lado, considerando-se o público a que se
destina esta obra, relevamos a ascendência e influência de algumas matrizes
historiográficas vis-à-vis à historiografia brasileira. Assim, sem se preocupa-
rem com apresentar o inventário completo de autores e obras, mas uma refle-
xão de fundo sobre as historiografias que analisam, Estevão Martins, Gonzalo
Pasamar, Francisco Falcon e Marcus Motta oferecem profundas análises críti-
cas das historiografias alemã, espanhola e portuguesa, respectivamente. Apesar
de muito influentes no Brasil, por aqui não circulam balanços, sinopses ou
roteiros historiográficos para os neófitos nesse campo – o que tornam esses
artigos absolutamente fundamentais para os acadêmicos brasileiros.
Duas importantes matrizes, a francesa (particularmente ligada ao movi-
mento dos Annales) e a inglesa (nomeadamente o chamado marxismo britâni-
co) são muito mais divulgadas e debatidas no Brasil. Motivo por que seria inó-
cuo repetir em artigo o tema de importantes livros, como o de José Carlos Reis,
sobre os Annales, por exemplo. Por isso, o ensaio de Helenice Rodrigues da Silva
focaliza a trajetória da Escola (sobre o que há inúmeras e excelentes obras, inclu-
sive traduzidas) no momento posterior ao chamado tournant critique, de 1989,
atualizando para o público brasileiro o debate em torno da prestigiosa corrente
francesa. Antonio Luigi Negro oferece um belo ensaio sobre como se deu a “acli-
matação” dos ensinamentos dos historiadores sociais britânicos, nomeadamen-
te E. P. Thompson, na América Latina como um todo, e particularmente no
Brasil. Longe de mero decalque teórico, pastiche intelectual, a apropriação do
referencial marxista britânico fora sistematicamente pensada e aplicada no estu-
do de realidade absolutamente distinta da que se aplica à matriz original.
Os micro-historiadores italianos estão presentes em dois ensaios aqui
incluídos. Carlos Aguirre Rojas oferece um diagnóstico conceitual e uma breve

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Prefácio

história da difusão dessa escola, enquanto Lorina Repina insere-a no contexto


da recente historiografia russa. O texto de Repina é inspirador não apenas pela
análise inteligente que oferece do problema da correlação entre macro e micro
na recente historiografia russa, mas simplesmente por oferecer ao público bra-
sileiro algum contato com esta riquíssima historiografia, que infelizmente des-
conhecemos, salvas raríssimas exceções.
E por mais que isso venha se amenizando sensivelmente nos últimos
anos, os historiadores brasileiros ainda têm um diálogo muito curto com os
colegas latino-americanos. Conhecemos muito mais as matrizes européias e
mesmo americanas do que o que estão produzindo nossos vizinhos hispâni-
cos. Prova disso é a classificação da História da América Latina como “área
carente” para as agências de fomento. Desconhecemos a História da América
Latina, como desconhecemos sua historiografia. E, infelizmente, o inverso
também é verdadeiro. Poucos historiadores brasileiros são exceções à regra,
como a Professora Cláudia Wasserman, que oferece minuciosa análise histo-
riográfica da questão nacional na América Latina. O mesmo tema é tratado
pelo Professor Zanetti Lecuona, com foco na historiografia cubana, especifica-
mente. Seu colega Guerra Vilaboy oferece um verdadeiro programa de pesqui-
sa para a história da historiografia marxista, tão profundamente marcante na
América Latina de fala espanhola, como no Brasil.
Por fim, o ensaio de Jurandir Malerba, partindo de duas breves reflexões
sobre a memória historiográfica brasileira, procura pensar os fundamentos
cognitivos e normativos da escrita histórica e, ao mesmo tempo, relativizar
dicotomizações rigorosas entre essas atitudes gnosiológicas. Procura também
sugerir alguns problemas culturais de fundo que enfrentará para buscar se
inserir a historiografia brasileira num contexto mais amplo.
Seria imponderável justificar todas as ausências deste livro. A historio-
grafia americana seria o exemplo paradigmático e mais flagrante. Mas aqui
perdemos por excesso. O universo de análise é tão gigantesco que escapa a
uma única abordagem, mesmo a mais ensaística – e nem mesmo todo um
livro não será suficiente para se mapear sequer os estudos historiográficos
dos brazilianists.
Ao se pensar o volume de material produzido e a qualidade da histo-
riografia brasileira, sua história é praticamente um campo virgem no Brasil.
Acreditamos que sua exploração será tanto mais fértil se feita, desde já, em
permanente sintonia com as mais dinâmicas historiografias praticadas no
planeta – e particularmente na América Latina –, com o conhecimento das

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Prefácio

melhores tradições de pesquisa em história da historiografia e, desde já, de


maneira sempre crítica e construtiva. Com tal objetivo, oferecemos este pri-
meiro esforço coletivo.

Jurandir Malerba e Carlos Aguirre Rojas

12
Capítulo 1

TESE SOBRE O ITINERÁRIO DA


HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO 20: UMA
VISÃO NUMA PERSPECTIVA
DE LONGA DURAÇÃO

Carlos Antonio Aguirre Rojas*

Tentar explicar o enorme problema dos perfis assumidos pela história


da historiografia do século 20 numa perspectiva de longa duração implica
atender, como propôs Braudel,1 às grandes curvas evolutivas, às grandes linhas
que formam o conjunto dos progressos que os estudos históricos foram reali-
zando ao longo deste século. Implica também a necessidade de concentrar a
atenção, sobretudo nas grandes transformações, nas modificações verdadeira-
mente profundas que foram redefinindo de maneira radical a atividade histo-
riográfica nesse período do século 20.
Para nos introduzirmos nesse problema, é pertinente indagarmos o que
aconteceu com a historiografia mundial nos últimos 150 anos. E, se falamos de
um período de 150 anos e não de 100, é porque admitimos como válida a pers-
pectiva da historiografia francesa, segundo a qual os séculos históricos nunca
coincidem com os simples séculos cronológicos.2 Assim, a historiografia atual
não começou, a nosso ver, a definir os seus perfis nem em 1968, nem em 1945,
nem tampouco em 1900. Começou a definir os seus perfis fundamentais jus-
tamente naquela conjuntura crítica privilegiada da história européia, que é a
conjuntura de 1848 a 1870. E não se trata, como é evidente, de datas inócuas:
1848 é a época das grandes revoluções européias, enquanto 1870 é a data fun-
damental da experiência da Comuna de Paris. Se nos perguntarmos seriamen-
te, então, quando começou a se construir o que hoje constitui a historiografia
contemporânea, a resposta mais pertinente seria: a partir de 1848. Porque é a

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Capítulo 1

partir dessa data que os elementos que hoje vigoram na paisagem historiográ-
fica começaram a se definir.3 Então, observando com mais minudência a his-
toriografia destes últimos 150 anos, de 1848 até agora, poderíamos reconhecer
quatro grandes momentos, quatro grandes etapas que parecem definir esses
elementos que são essenciais nos estudos históricos contemporâneos.
Quatro etapas distintas que a historiografia contemporânea teria per-
corrido ao longo do seu complexo périplo recente e que nos dariam, vistas no
seu conjunto, a totalidade das “heranças” ou das tradições e formas de exercer
o ofício de historiador, que hoje é possível encontrar nos diferentes âmbitos
das historiografias nacionais de todo o planeta.
Desse modo, e percorrendo com “botas de sete léguas” esse itinerário da
historiografia contemporânea, fica claro que tal percurso principiou com uma
conjuntura ou um momento de ruptura fundacional, a conjuntura que vai de
1848 a 1870 e que, sendo uma etapa também muito importante da própria his-
tória geral da Europa, deu nascimento ao primeiro esboço ou tentativa siste-
mática e orgânica de fundar, por meio do projeto crítico do marxismo origi-
nal, uma verdadeira ciência da história. Uma primeira etapa é o ciclo da histo-
riografia contemporânea, que será seguido por um segundo momento, o qual,
abarcando desde 1870 até 1929, aproximadamente, foi o momento da consti-
tuição de uma primeira hegemonia historiográfica que, situando seu centro de
irradiação fundamental no espaço de fala alemã da Europa ocidental, vai ser-
vir de “modelo” geral para o conjunto das demais historiografias da Europa e
do mundo daquele tempo.
Todavia, esse segundo momento da historiografia recente vai terminar
com a crise terrível desencadeada na cultura alemã pela trágica ascensão do
nazismo, dando lugar a uma terceira etapa, que se caracterizará pela emergên-
cia de uma segunda hegemonia historiográfica, situada agora, em termos gerais,
no espaço do hexágono francês. Uma terceira hegemonia ou modelo geral que
serviu de inspiração e de referência obrigatória para todos os âmbitos histo-
riográficos daquela época e que culminou, por sua vez, nessa profunda revolu-
ção cultural, de alcance planetário e de conseqüências civilizatórias maiores,
que foi a revolução de 1968.
Finalmente, e coroando todo esse complexo percurso dos estudos his-
tóricos contemporâneos, seguiu-se uma quarta e última etapa, filha direta das
grandes e profundas transformações que 1968 trouxe em todos os mecanismos
da reprodução cultural da vida social moderna e na qual já não existe nenhuma
hegemonia historiográfica, mas, sim, pelo contrário, uma nova e inédita situa-

14
Capítulo 1

ção de policentrismo na inovação e no descobrimento das novas linhas de pro-


gresso da historiografia e que se prolonga até os nossos dias. Tentemos, pois,
examinar, mas com o devido cuidado, esses quatro momentos fundamentais
do itinerário contemporâneo da historiografia recente.4
Se definirmos muito brevemente os traços que caracterizam essas qua-
tro etapas principais, veremos que se trata ao mesmo tempo da definição
daqueles elementos fundamentais que permitem entender os diferentes tipos
de história que hoje compartilham o panorama historiográfico, os diferentes
tipos de história que atualmente se desenvolvem não apenas na Alemanha ou
na França, mas também, e claramente, em toda a Europa e no mundo inteiro
(e portanto, também, evidentemente, na América Latina e no México).
Diferentes modos de exercer o cada vez mais complexo, embora também cada
vez mais apaixonante, ofício de historiador, que em suas confrontações diver-
sas, mas também em suas complexas imbricações ou espaços de coincidência,
disputam entre si de maneira permanente as preferências de todos os que nos
dedicamos à difícil empresa presidida pela musa Clio.
O ponto de partida da historiografia que genuinamente podemos cha-
mar de contemporânea situa-se então nessa conjuntura de 1848 a 1870, que é a
conjuntura do nascimento e da primeira afirmação do marxismo. O marxis-
mo nasce entre 1848 e 1870 e se define, como disse certa feita um importante
marxista francês da época do auge do estruturalismo, como o momento do
nascimento do continente “História” dentro do espectro das Ciências
Humanas, como o início do moderno projeto de fundação e abertura de uma
verdadeira ciência da História.5 O que significa, no tocante ao problema aqui
abordado – o das origens dos perfis atuais dos estudos históricos do século 20
–, que o projeto crítico de Marx e Engels é, na verdade, o momento em que a
história dessa longa etapa em que havia vivido durante séculos e até milênios,
e na qual se confundia, sem demasiado conflito, com o mito, a lenda e o
mundo da ficção e da literatura, passa, enfim, ao empenho de tentar consti-
tuir-se em verdadeira “empresa raciocinada de análise”,6 numa verdadeira ciên-
cia cujo objeto de estudo é a reconstrução crítica das diferentes curvas evolu-
tivas percorridas pelas sociedades humanas dentro do vastíssimo arco tempo-
ral em que elas se desdobraram. Momento de fundação de uma nova ciência,
ou de abertura de um novo espaço dentro do sistema dos saberes científicos
contemporâneos, que inaugura ao mesmo tempo essa história particular
daquela, esse segundo momento da historiografia recente que é hoje a histo-
riografia contemporânea.7

15
Capítulo 1

E não há dúvida de que, sem o exame do marxismo, dificilmente pode-


ríamos compreender o que são os estudos históricos do século 20 e da atuali-
dade. Porque, apesar das desencantadas visões pós-modernas, e sem embargo
da enorme, e em certas ocasiões maciça, reviravolta da sensibilidade da opi-
nião pública, e ainda da reviravolta da sensibilidade de amplos setores da inte-
lectualidade outrora crítica, em todo o mundo a reviravolta das posições de
esquerda que tiveram tanta força e arraigamento nos anos de 1960 e 1970 para
as posições mais conservadoras e de renúncia características dos anos 1980 e
1990, fica claro que é impossível entender os estudos históricos atuais se não
levarmos em conta a influência e os ecos que tiveram o marxismo em todo
desenvolvimento da historiografia de 1848 até esta data.8
O que se torna evidente se pensarmos, por exemplo, em todas as corren-
tes historiográficas declaradamente marxistas que são hoje fundamentais nos
estudos históricos, como a corrente da revista Past and Present, de Eric
Hobsbawm e todo o seu grupo de marxistas tradicionais, ou também na obra
de E. P. Thompson e de Perry Anderson e nas contribuições de sua revista New
Left Review, o mesmo sucedendo na historiografia socialista e crítica de Raphael
Samuel e do seu History Workshop. E o mesmo se dá com autores como Pierre
Vilar ou Immanuel Wallerstein, que são declaradamente marxistas embora ao
mesmo tempo sejam capazes de incorporar, em suas diferentes contribuições
históricas e historiográficas, as mais interessantes contribuições e desenvolvi-
mentos de outras perspectivas ou horizontes intelectuais. E há também o caso
complexo, mas muito interessante, de alguns historiadores que, na origem de
sua formação, tiveram uma forte marca marxista que depois pôde evoluir e se
misturar com outros elementos para produzir obras e resultados historiográfi-
cos tão originais e interessantes, como se vê nas obras e nos ensaios metodoló-
gicos de Carlo Ginzburg ou nos trabalhos inovadores de Giovanni Levi.9
E o mesmo sucede com toda essa vasta gama de histórias e correntes
historiográficas que algumas vezes pretenderam desenvolver-se sob o nome do
marxismo, como ocorreu com a historiografia soviética, ou polaca, ou húnga-
ra, ou romena, mas também com a chinesa, albanesa, vietnamita; vale dizer,
todo esse conjunto diverso e multifacetado das diferentes historiografias de
todos os países do chamado mundo “socialista” e ao longo de todo o breve ou
pequeno século 20 que vai de 1914-1917 a 1989. E há que considerar, enfim,
também dentro deste vasto espectro de heranças e presenças do marxismo na
historiografia contemporânea, os resultados produzidos pelo enorme impacto
que a cosmovisão marxista teve na historiografia do México e da América

16
Capítulo 1

Latina nos anos 1970 e 1980 e que vem somar-se a todos os diferentes núcleos
que, através do mundo capitalista e durante todos os períodos que menciona-
mos anteriormente, manteve os diferentes projetos e esforços historiográficos
igualmente iluminados pela perspectiva de Marx e de seus diversos epígonos.
Porque, embora depois de 1989 esse impacto parecesse estar um pouco mais
distante, estamos falando na verdade de uma aparência superficial e derivada
da mera experiência imediata, que além do mais se vê desmentida se remon-
tarmos tão-somente a um período de dez ou quinze anos.
O marxismo impregnou então, de maneira igualmente profunda e radi-
cal, toda a historiografia latino-americana posterior a 1968, e é por isso que,
sem uma consideração desse comportamento marxista e das múltiplas tradi-
ções e escolas que ele ajudou a criar, e que derivam todas desse momento fun-
dacional do moderno projeto de construção de uma ciência na História, não é
possível entender adequadamente a fisionomia complexa do panorama histo-
riográfico mais contemporâneo.10
Quanto ao mais, é claro que a data dessa arrancada do moderno projeto
de constituição de uma ciência histórica – e, por conseguinte, dos perfis da his-
toriografia hoje vigentes, data associada às revoluções européias de 1848 e ao
nascimento do marxismo – não tem nada de casual. Porque 1848 é o ponto his-
tórico que mudou o sentido da curva global e secular da modernidade, o momen-
to em que se esgota a longa fase ascendente dessa modernidade, iniciada no sécu-
lo 16, para dar lugar ao ramo descendente dessa mesma modernidade, que se
estende desde essa conjuntura de 1848-1870 até hoje. O que significa então que
toda a historiografia contemporânea se desenvolveu, nos seus diversos momen-
tos, dentro do horizonte desse ramo descendente da modernidade e, em conse-
qüência, dentro de um espaço marcado pela possibilidade de avançar num sen-
tido crítico, numa direção oposta à concepção tradicional que prevaleceu duran-
te a fase ascendente dessa modernidade burguesa e capitalista.11
E é precisamente essa reviravolta fundamental do longo ciclo vital da
modernidade – que alcança o seu clímax nessa conjuntura de 1848-1870 – que
vai explicar duplamente tanto esse processo complexo do nascimento do mar-
xismo – a expressão negativo-crítica dessa mesma modernidade – como tam-
bém o projeto de superação crítica das antigas formas de conceber a História
e a edificação inicial e simultânea desse projeto, vigente ainda hoje e ainda em
via de construção, de uma verdadeira perspectiva científica para os estudos his-
tóricos. É nesse exato sentido que se deve entender a crítica sistemática das
principais variantes do antigo modo de abordagem da história; vale dizer,

17
Capítulo 1

tanto de toda possível filosofia da história, crítica que encontrou seu primeiro
expoente sistemático, e não casualmente, no próprio marxismo, como de
todos os discursos históricos antes amplamente difundidos, já como discursos
narrativos e empíricos, já como discursos míticos ou lendários sobre a
História, igualmente desconstruídos e transcendidos por esse mesmo marxis-
mo. Desse ponto de vista, o marxismo lança as bases de todos os ulteriores pro-
jetos modernos de construção de uma ciência da História.
E, da mesma sorte que o marxismo em geral – como cosmovisão do
mundo e como doutrina que iluminou diversos movimentos políticos e
sociais, mas também diferentes correntes e tendências intelectuais em todo o
vasto campo das ciências sociais – sofreu um complexo processo de pluraliza-
ção e readaptação às mais heterogêneas e diferentes experiências e circunstân-
cias – que vão desde a sua conversão em ideologia dominante e sua redução a
um conjunto de apotegmas simplificados até a sua verdadeira recuperação crí-
tica e o seu aprofundamento criativo e inovador –, também as historiografias
que se reivindicaram como “marxistas” ao longo desse périplo da historiogra-
fia do século 20 cobriram igualmente um variado e diversificado leque de pos-
sibilidades que vão desde exercícios muito sofisticados e intelectualmente
muito elaborados (como, por exemplo, no caso da Escola de Frankfurt) ou
esforços de excelente nível que alimentam sempre as linhas e as perspectivas
críticas e marginais da historiografia (como nos trabalhos já mencionados de
Carlo Ginzburg ou de Immanuel Wallerstein) até as aplicações muito elemen-
tares de um marxismo mais simplificado e até “vulgar” que, reduzindo a com-
plexa visão do marxismo a um conjunto de fórmulas de “manual”, reproduzi-
ram trabalhos muito esquemáticos e pouco originais.
Passemos agora ao segundo momento, a esse momento que se constitui
depois de 1870 em torno da progressiva afirmação de uma primeira hegemo-
nia historiográfica, a hegemonia do universo de fala alemã. Hegemonia que,
coagulando numa proposta historiográfica coerente todos os progressos que
os estudos históricos haviam realizado entre a Revolução Francesa de 1789 e
essa conjuntura de 1848-1870, vai representar, em certa medida, uma espécie
de regressão com respeito ao momento fundador explicado anteriormente.
Com a derrota da Comuna de Paris, fecha-se essa conjuntura revolucio-
nária que dera nascimento ao marxismo, iniciando-se na história européia
uma nova etapa que ficará marcada pela exacerbação dos nacionalismos e pela
emergência de uma certa “contra-ofensiva” intelectual contra os movimentos
críticos e as posturas intelectuais de impugnação. E, em consonância com isso,

18
Capítulo 1

a nova hegemonia historiográfica que se vai constituir dentro do espaço da


cultura alemã alimentará uma visão dos fatos históricos que pretende ser exa-
geradamente “objetivista”, ao mesmo tempo em que se volta para funções de
educação cívica e nacionalista e se esquece um pouco das contribuições prin-
cipais da conjuntura anterior.13 E isso, junto ao fato de que o marxismo, duran-
te essas épocas, jamais penetrou na academia nem nos âmbitos universitários,
permanecendo antes vinculado aos movimentos sociais e políticos revolucio-
nários da Europa daqueles tempos.
Então, e nesse clima intelectual de signo inverso ao da conjuntura ante-
rior de 1848-1870, é que vai prosperar esse segundo ciclo da historiografia
contemporânea, marcado agora pela emergência de um sistema em que uma
nação ou um espaço ou área intelectual funciona como centro principal da
inovação historiográfica e as demais historiografias o imitam ou o seguem
mais de perto ou mais de longe para constituírem-se como diferentes perife-
rias ou semiperiferias desse mesmo centro. Visto numa perspectiva mais
ampla, torna-se claro que, entre 1870 e 1930 aproximadamente, foi quase sem-
pre o mundo de fala alemã que desempenhou esse papel de domínio hegemô-
nico na historiografia européia e mundial. Pois quem gera as pesquisas, os
temas, os debates e a historiografia de vanguarda em 1880, 1900 e 1920 é, sem
dúvida, nove em cada dez vezes, a cultura alemã ou austríaca dessas datas. Os
autores mais importantes da historiografia mundial, às vésperas da 1ª. Guerra
Mundial e logo depois dela, são novamente, em sua esmagadora maioria, ale-
mães ou austríacos.
Por isso é perfeitamente lógico que seja no interior dessa historiografia
de fala alemã, que vai deter a hegemonia ou o domínio historiográfico nos
estudos históricos entre 1870 e 1930, que se vai desenvolver a célebre polêmi-
ca em torno da Methodenstreit e em que se vai encenar igualmente toda a dis-
cussão acerca das diferenças entre as ciências naturais e as ciências do espírito.
E é também esse universo cultural de matriz alemã que vai prosperar o proje-
to da Kulturgeschichte e de outras diversas linhas da então inovadora história
social alemã e austríaca,14 mas também esse tipo de historiografia dominante
em certos âmbitos que chega aos nossos dias e que foi qualificado com o termo
“positivista”. E, conquanto fique claro que o termo historiografia positivista
não seja o mais adequado, dado o abuso que dele se fez e dada a muito diver-
sa quantidade de significações heterogêneas que se fizeram passar sob a sua
enunciação, é certo, não obstante, que o termo historiografia positivista tem um
sentido importante que devemos conservar porque alude àquele tipo de histo-

19
Capítulo 1

riografia originalmente alemã que foi dominante primeiro nas universidades


de fala alemã para depois se converter rapidamente, através do esquema já des-
crito da primeira hegemonia historiográfica, no modelo amplamente difundi-
do e também vigente, de maneira dominante, em todas as universidades do
mundo europeu e ocidental.
Visto que, como dissemos mais anteriormente, essa historiografia
dominante que bem podemos chamar de rankiana ou positivista – reconhe-
cendo embora que o próprio Ranke, que formulou o seu lema de batalha “nar-
rar as coisas tais quais aconteceram”, não se ajusta por inteiro em sua obra ao
que essa denominação implica – e que se desenvolve, em essência, entre 1870
e 1929, era de algum modo o resultado condensado de certos processos impor-
tantes que aconteceram na historiografia européia entre 1789 e 1870. Pois é
bem sabido que foi em 1789 que a Revolução Francesa democratizou pela pri-
meira vez, de maneira surpreendente, o acesso a uma quantidade de informa-
ção verdadeiramente enorme, que a partir dessa data vai constituir parte regu-
lar da matéria-prima básica da historiografia contemporânea.
Se antes de 1789 os arquivos de todos os Estados europeus são segredos
de Estado, depois dessa mesma data os historiadores têm à sua disposição
absolutamente tudo o que se relaciona com esses Estados e também com os
departamentos, e até com as paróquias. A revolução de 1789, entre muitas e
benéficas conseqüências, implicou também a abertura imensa de uma torren-
te verdadeiramente considerável de nova informação, agora acessível aos his-
toriadores, e sobretudo ao trabalho dos historiadores, fato que explica porque
foi precisamente no século 19 que se desenvolveu, nesse mundo de fala alemã
a que antes nos referimos, o interessante projeto dos Monumentae Germaniae
Historicae, ao mesmo tempo em que na França prosperava um projeto como
o da empresa historiográfica de Augustin Thierry, que dedicou a vida inteira a
compilar os documentos e a fazer a história do Terceiro Estado. A historiogra-
fia positivista, que se vai caracterizar, entre outros traços importantes, por um
culto fetichista e exagerado do texto,15 que ela considera como a única e exclu-
siva fonte legítima do trabalho histórico, condensa efetivamente todo um sécu-
lo de compilação de documentos, um século de classificação e atualização da
informação que antes não era acessível aos historiadores.
E é claro que essa historiografia positivista, que condensa ao mesmo
tempo os grandes progressos alcançados pela erudição histórica nesse século 19
posterior à Revolução Francesa, mas que retrocede com respeito à enorme
revolução que implicara o marxismo no campo da história, vai possuir certas

20
Capítulo 1

virtudes importantes, vinculadas ao fato de insistir na importância de apren-


der o trabalho paciente da busca de fontes e a distinção entre fonte histórica e
fonte literária, ensinando-nos também os procedimentos habituais da crítica
externa e da crítica interna dos documentos e dos textos, e mostrando-nos
como distinguir um documento verdadeiro de um falso. Adestrando-nos, em
suma, em tudo o que se relaciona com a dimensão erudita da história, essa his-
tória positivista rankiana alimentou também, por vezes em excesso e com uma
força e tenacidade surpreendentes, o conjunto dos âmbitos historiográficos e
das historiografias nacionais das mais diversas partes do mundo.16
Mas, como já sublinhamos antes, o limite dessa historiografia positivis-
ta da História, que foi dominante em termos gerais no período de 1870-1930,
estriba-se no fato de ser uma historiografia baseada num único tipo de fonte.
E também no fato de que, no fundo, ela é mais uma expressão resumida dos
principais progressos que a história logrou conquistar durante esse século 19
que foi chamado “o século da História” e, em conseqüência, que é mais um
tipo de historiografia estritamente oitocentista, que no entanto sobreviveu a si
mesma para se integrar como um componente ainda presente na historiogra-
fia do século 20. E, assim como o marxismo, desenvolvido no século 19 crono-
lógico, é na verdade uma antecipação clara de muitos dos traços mais profun-
dos dessa historiografia do século 20, assim a história positivista vai funcionar
como uma espécie de “anacronismo” ainda vivo ao longo de toda essa última
centúria de vida dos estudos históricos contemporâneos. O que explica tam-
bém porque essa história positivista, em sua árdua busca de uma objetividade
muito estrita e só aparentemente possível diante dos fatos históricos, haja
desembocado finalmente numa clara renúncia a toda a dimensão interpretati-
va e explicativa da ciência histórica, dimensão que, por outro lado, havia sido
sublinhada como central pelo projeto marxista da conjuntura anterior, já ana-
lisada, para se converter depois em um dos traços mais característicos de todas
as diversas correntes historiográficas do último século.
E foram essas, entre muitas outras, as limitações que já na mesma etapa
de 1870-1930 suscitaram as críticas mais radicais a essa versão positivista da his-
tória, tanto no próprio universo de fala alemã como fora dele. Pois é bem conhe-
cida, por exemplo, a dura crítica que Lucien Febvre, e com ele todo o grupo dos
“primeiros Annales”, vão dirigir a essa célebre afirmação que é possível encontrar
no tão difundido manual francês de Ch. Langlois e C. Seignobos, publicado em
1898 e intitulado Introdução aos Estudos Históricos, manual que é, quanto ao
mais, apenas a variante francesa dessa mesma historiografia positivista rankiana:

21
Capítulo 1

“A história se faz com textos, e um historiador sério jamais se atreveria a afirmar


algo que não possa respaldar com um documento escrito”. E essa sentença foi
tomada tão seriamente que se encontra na origem de uma distinção hoje clara-
mente obsoleta, mas que continua vigente e é aplicada em nossas concepções
habituais e nos ensinos históricos: a distinção tradicional entre a História e a
pré-História. Pois é bem sabido que o fato que distingue a História da pré-
História, e que marca o início da primeira, é justamente a invenção da escrita.
Então, e seguindo essa mesma lógica, nenhum historiador sério iria estudar essas
sociedades em que não existia a escrita porque não haviam textos escritos e, por-
tanto, não seria possível reconstruir solidamente a sua história.
E os autores admitem tão radicalmente o valor dessa afirmação que
propõem seriamente a questão de saber o que vai acontecer quando os histo-
riadores tiverem esgotado e interpretado todos os documentos escritos que
têm à mão, para responder enfaticamente e sem titubear que então se acabará
o ofício de historiador, embora busquem tranqüilizar imediatamente os histo-
riadores, afirmando que, felizmente, ainda têm pela frente uns cem anos de
trabalho paciente e meticuloso.
Essa historiografia positivista é então a história que, baseando-se numa
única fonte, também se vai concentrar, limitadamente, no estudo e no exame
apenas de certas dimensões do tecido social, dos fatos biográficos, políticos,
diplomáticos e militares. E também vai ser, como observamos antes, uma his-
tória com uma função muito memorística, muito nacionalista e até “chauvinis-
ta”, vinculando-se de perto aos interesses do Estado e às suas visões e aos obje-
tivos daqueles tempos, de preparar “bons cidadãos” e reforçar neles a consciên-
cia nacional e até patriótica. E, finalmente, essa mesma história que dominou o
ensino das universidades européias e do mundo nas últimas décadas do século
19 e no primeiro quartel do século 20 foi também uma história muito descriti-
va, muito narrativa, muito erudita e muito encerrada ou acantonada em suas
próprias e limitadas visões dos problemas sociais e históricos.17
Isso, entretanto, não impede o fato de que, como já afirmamos, seria
impossível entender a paisagem dos estudos históricos atuais sem levar igual-
mente em conta a contribuição dessa historiografia positivista. É claro que não
pode haver história sem erudição, embora também seja evidente que a história
nunca se reduz a uma condição apenas erudita e que, para chegar a ela, é
necessário transcender a simples condição de “antiquário” ou amante e cole-
cionador das “curiosidades do passado”, como no-lo assinalam os historiado-
res mais avançados desde o princípio do século 20.18

22
Capítulo 1

E é evidente que, ao caracterizar essa história positivista, se aborda tão-


somente a linha dominante dessa historiografia de fala alemã. Pois é igualmen-
te bem conhecido o fato de que, entre 1870 e 1930, se desenvolveu também
nesse mesmo universo de matriz cultural alemã todo um conjunto complexo
e diverso de outras posturas historiográficas e de outras tradições intelectuais
na história, como se observa na historiografia marxista de autores como Karl
Kautsky, Heinrich Cunow, Otto Bauer, etc., ou em outra vertente, como no
caso da historiografia acadêmica crítica de Max Weber, Alfred Weber ou Karl
Lamprecht, entre outros. E esse é também o caso daqueles interessantes deba-
tes e agudas polêmicas sobre questões tão cruciais como a da “compreensão”
da História (o tema da Verstehen), ou sobre a especificidade e o estatuto espe-
cial das “ciências da cultura” de W. Dilthey, G. Simmel, Rickert, etc. E, embora
em todos esses casos se trate sempre de linhas marginais, face à tendência
dominante, hegemônica, dessa variante positivista de matriz justamente han-
kiana, fica claro que não é possível compreender adequadamente essa mesma
hegemonia de fala alemã sem considerar também as ricas e estimulantes con-
tribuições historiográficas provenientes dessas linhas marginais e críticas do
universo alemão e austríaco daquelas épocas.19
Assim, após afirmar essa hegemonia historiográfica na Europa e no
Ocidente, é sabido que a Alemanha perdeu a guerra de 1914 para conhecer
depois a maior tragédia de sua história, que foi justamente a ascensão do nazis-
mo. Isso mostra, e não está muito longe de nós, o que as ditaduras são capazes
de fazer com a cultura. Essa historiografia hegemônica do mundo de fala
alemã terminou com os golpes sucessivos da 1ª. Guerra Mundial e, em seguida,
com a ascensão do nazismo. Depois, com o fim da 2ª. Guerra Mundial, a cul-
tura alemã sofreu um golpe de que não se recobrou de todo até a atualidade.
Pois os alemães ainda não digerem por completo o que o nazismo foi dentro
de sua história, e a historiografia alemã ainda não se recuperou daquele golpe
terrível que foi o nazismo.
Aliás, creio que essa hegemonia não estava ligada apenas à atividade his-
toriográfica. Não me atreveria a postular, como hipótese, que esse domínio ou
hegemonia se dá em todo o campo das ciências sociais: cumpre assinalar que,
quando falamos dessa hegemonia na historiografia, estamos falando exata-
mente da época em que se desenvolve a psicanálise de Freud e da época do
Círculo de Viena e da obra de L. Wittgenstein, e estamos falando também, evi-
dentemente, da Escola de Frankfurt e de toda essa riqueza enorme da cultura
alemã e austríaca que ainda hoje nos surpreende.

23
Capítulo 1

Passemos à terceira etapa, que decorre diretamente da mencionada crise


da segunda. Depois desses golpes sucessivos, vai-se constituir uma segunda e
diferente hegemonia historiográfica européia e ocidental. E, se me perguntarem
de novo quem domina a paisagem historiográfica em 1950, a resposta será que
nove em cada dez vezes os autores mais inovadores e mais relevantes da histo-
riografia desses tempos são agora historiadores de fala francesa. Pois é justamen-
te o hexágono francês que agora se tornou hegemônico, mercê de um novo pro-
jeto dominante, que é o projeto conhecido como a corrente dos Annales. Porque
são os Annales franceses que vão dominar a paisagem historiográfica entre 1929
e 1968,20 e isso a partir de um projeto que se constitui como contraponto perfei-
to da historiografia positivista dominante atrás referida. E não só porque os
Annales vão criticar essa história rankiana direta e explicitamente, mas também
porque, ante essa história concentrada somente no militar, no biográfico, no
político e no diplomático, a nova perspectiva dos Annales propõe uma história
do tecido social no seu conjunto. E, então, em vez de estudar apenas os grandes
homens e as grandes batalhas e tratados que constituem os fatos “ressonantes”
da História, os historiadores da corrente dos Annales vão começar a estudar as
civilizações, as estruturas e as classes sociais, as crenças coletivas populares ou o
moderno capitalismo numa nova perspectiva analítica e epistemológica.
Porque, diante da história positivista, para a qual o objeto de estudo dos
cultores de Clio é apenas o passado, e além disso o passado registrado em fontes
escritas, os autores da corrente dos Annales vão reivindicar a célebre definição de
que o objeto do historiador é “toda marca humana existente em qualquer
tempo” e, portanto, de que a história é uma história global, cujas dimensões
abarcam desde a mais distante pré-história até o presente mais atual, abrangen-
do também absolutamente todas as diferentes manifestações dos homens em
toda a complexa gama de realidades geográficas, territoriais, étnicas, antropoló-
gicas, tecnológicas, econômicas, sociais, políticas, culturais, religiosas, artísticas,
etc. Uma história, então, não pode limitar-se a uma única fonte para se construir,
a fonte escrita, mas deve propor necessariamente uma multiplicidade de fontes,
recuperando, por exemplo, a técnica da dendrocronologia e o uso da iconogra-
fia, a análise do pólen ou a técnica do Carbono 14, entre tantas outras.
E, em face da história predominantemente narrativa, monográfica e des-
critiva, com que está a se confrontar, o projeto dos Annales d’Histoire Économi-
que et Sociale vai propor uma história fundamentalmente interpretativa, pro-
blemática, comparativista e crítica. Ou seja, uma história que, jogando sistema-
ticamente com os benefícios da aplicação do método comparativo, seja capaz

24
Capítulo 1

de estabelecer de forma permanente tanto a singularidade e especificidade dos


fenômenos que estuda como os seus elementos comuns e universais, entrete-
cendo assim a dialética complexa do particular e do geral dentro das grandes
curvas evolutivas dos processos humanos analisados. E também uma história
que, empenhando-se conscientemente na construção de modelos gerais de
explicação e na formulação de conceitos, teorias e hipóteses gerais, renuncie ao
mesmo tempo à ingênua e impossível busca de uma objetividade “absoluta” do
historiador. Em vez dessa empresa ilusória, os Annales vão explicitar o paradig-
ma da história-problema, que, pelo contrário, afirma que toda investigação his-
tórica séria começa justamente pela delimitação do “questionário” ou da pes-
quisa a empreender, que determina até certo ponto o próprio trabalho de eru-
dição. Pois, como “só se encontra o que se busca”, e como “os textos falam
segundo os interrogamos”, toda verdade histórica é relativa, e todo resultado
historiográfico é sempre suscetível de aprofundamento, enriquecimento e até
mesmo, ocasionalmente, de uma revisão total e radical.21
Assim, o relevo da hegemonia historiográfica de fala alemã, entre 1929
e 1968, foi constituído exatamente por esse projeto dos Annales d’Histoire Éco-
nomique et Sociale, de Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel. Projeto
que, enquanto estabelecia e difundia a historiografia francesa como a historio-
grafia dominante na Europa e no Ocidente, abria os novos campos da história
quantitativa, da história das mentalidades, da história da vida ou civilização
material e das novas formas da história econômica e social.
Então, desenvolvendo esses novos paradigmas da história comparada,
global, problemática e de longa duração a que nos referimos brevemente, bem
como seus modelos originais de interpretação da sociedade feudal, do século
16, das Reformas ou do capitalismo, essa historiografia de matriz francesa e
mediterrânea pôde determinar, entre 1929 e 1968, as linhas principais da ino-
vação historiográfica, assim como os grandes debates, temas, desenvolvimen-
tos e campos principais dos historiadores da Europa e do mundo ocidental.
E talvez não seja necessário insistir demasiado no fato evidente de que
tampouco seria possível entender os perfis atuais dos estudos históricos con-
temporâneos sem considerar todo esse vasto conjunto de contribuições dos
Annales, contribuições que hoje são moeda corrente de toda historiografia
séria e à altura do nosso tempo.22
Enfim, a quarta etapa abrange o período que vai desde a revolução cul-
tural de 1968 até a atualidade. Depois de 1968 voltaremos a fechar o capítulo
da hegemonia historiográfica francesa para passar à situação que domina a

25
Capítulo 1

paisagem historiográfica atual. O que acontece depois de 1968? O ano de 1968


é efetivamente uma fratura definitiva em todas as formas de reprodução cul-
tural da vida moderna. Não é então um simples movimento estudantil, nem
um movimento de diferença geracional. É, antes, uma revolução cultural e
civilizatória das principais formas da reprodução cultural de toda a moderni-
dade atual. Isso foi muito bem estudado por Braudel e, sobretudo, por
Immanuel Wallerstein.23
Depois de 1968, passamos à outra situação: a página volta a virar e cria-
se então outra situação historiográfica radicalmente diversa. E, se em 1950 a
historiografia dominante é a historiografia francesa, qual é então a historiogra-
fia dominante em 1990? A resposta é tão original como, em princípio, descon-
certante: a resposta a essa pergunta é nenhuma. Pois em 1990 já não há uma his-
toriografia hegemônica, e aí é tão importante a “Escola” da micro-história ita-
liana – com suas diferentes variantes de história cultural, de um lado, e história
econômica e social, do outro – como a quarta geração dos Annales, o mesmo
sucedendo com a historiografia socialista britânica, a antropologia histórica
russa, a história regional latino-americana, a psico-história anglo-saxônica, etc.
Depois de 1968, algo importante se rompeu e terminou esse regime de longa
duração da hegemonia historiográfica de um espaço cultural ou de um espaço
nacional, criando-se então a nova modalidade de funcionamento da historio-
grafia a cujo desenvolvimento assistimos na situação atual. Ninguém é hegemô-
nico na historiografia contemporânea, o que nos convoca a todos por igual a par-
ticipar na inovação historiográfica. Porque hoje vivemos uma situação de poli-
centrismo na inovação historiográfica. E de policentrismo na inovação cultural.
Termino com duas idéias conclusivas que me parecem muito importan-
tes. Quando dizemos que terminou o regime da hegemonia historiográfica,
adentramos um problema muito mais profundo, que não estudamos o bastan-
te e que faz referência ao fato de que, depois de 1968, terminou também quase
todo tipo de centralidade na sociedade, e de maneira global. Pois antes de 1968
sabíamos bem que o sujeito social por excelência que devia operar a mudança
revolucionária era a classe operária, mas depois de 1968 já não sabemos ao
certo quem é esse sujeito social, ou se agora há vários sujeitos sociais, ou
mesmo se essa mudança não será antes o resultado de processos novos e iné-
ditos cujos protagonistas “centrais” sejam também diversos.
Antes de 1968, a base da economia predominava no protesto dos movi-
mentos sociais contestatórios, porém agora todos os níveis se politizaram e são
fundamentais nos movimentos sociais de contestação anti-sistêmica. Antes de

26
Capítulo 1

1968, sabíamos que havia economias dominantes no seio da economia ociden-


tal e no seio das economias-mundo, mas depois do “68” não existe nada disso
e estamos entrando numa situação policêntrica em todos os âmbitos. O
importante, para terminar esta primeira conclusão, que deixo aberta, está tal-
vez no fato de que a humanidade está talvez atravessando uma etapa de “bifur-
cação”24 e de que estamos então na ante-sala de uma mudança tão monumen-
tal que estaria provocando a formação de um novo padrão de funcionamento,
evidentemente não só na historiografia nem tampouco em todo o espaço da
cultura, mas no funcionamento social em sua globalidade, e isso é mais ou
menos o que estou tentando expor.
A segunda idéia conclusiva me permite vincular mais explicitamente a
minha exposição ao tema, muito mais próximo de nós, da maneira como essas
etapas da historiografia geral do século 20 se refletiram na historiografia lati-
no-americana.
Se analisarmos esta última em termos gerais, e para além das evidentes
defasagens “nacionais” que os ritmos de seu desenvolvimento apresentam,
veremos que ela assimilou e reproduziu essas linhas, correntes, autores e pers-
pectivas da historiografia do século 20 que em cada etapa eram dominantes
com um pequeno atraso temporal derivado obviamente dos tempos de tradu-
ção e publicação das obras principais dessas correntes e enfoques historiográ-
ficos, mas também do tempo de reprocessamento e assimilação críticas dessas
mesmas contribuições.25
Ao mesmo tempo, e com um traço que chama prontamente a atenção,
é evidente que a recuperação crítica e a implantação dessas contribuições
externas nas diferentes historiografias da América Latina se deram sempre a
partir de uma postura excepcionalmente cosmopolita que integrava facilmente
e sem barreira alguma tanto as contribuições da historiografia alemã quanto
as lições dos Annales, mas também os diversos ensinamentos dos múltiplos
marxismos, da Europa e dos Estados Unidos, assim como os progressos decor-
rentes da micro-história italiana, da história socialista britânica ou da antro-
pologia russa, entre muitos outros.
Portanto, e assumindo radicalmente essa nova situação historiográfica
criada no panorama dos estudos históricos mundiais depois da revolução cul-
tural de 1968, esperamos que a historiografia latino-americana comece agora
a produzir um conjunto de trabalhos que terão de constituir, no futuro próxi-
mo, a participação específica da América Latina no atual processo de renova-
ção historiográfica mundial que, desde 1989, já está definindo os perfis do que

27
Capítulo 1

haverá de ser o “ofício de historiador” no complexo mas apaixonante século e


milênio que despontam no horizonte de todos nós.

NOTAS
* Pesquisador do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Nacional Autônoma
do México.
1 Sobre essa perspectiva da longa duração histórica, cf. Fernand Braudel, “Historia y
Ciencias Sociales. La Larga Duración” no livro Escritos sobre Historia. México:
Fondo de Cultura Económica, 1991. Pode-se consultar também, de Carlos Antonio
Aguirre Rojas, “La Larga Duración: In Illo Tempore et Nunc” no livro Braudel a
Debate. México: JGH, 1997, e o livro Fernand Braudel y las Ciencias Humanas.
Barcelona: Montesinos, 1996. cap. 2.
2 Para citar apenas dois exemplos dessa postura dos historiadores franceses: Fernand
Braudel vai falar de um “longo século 16”, que iria de 1450 a 1650, em vários de seus
textos – por exemplo, no ensaio “European Expansion and Capitalism. 1450-1650”,
no livro Chapters on Western Civilization. New York: Columbia University Press,
1961 –, enquanto Emmanuel Le Roy Ladurie fala de um “longo século 13” no seu
livro Montaillou, aldea occitana de 1294 a 1324. Madrid: Taurus, 1988.
3 Existem poucos estudos de conjunto da historiografia do século 20, malgrado a
enorme relevância do tema. Por isso, este ensaio tem apenas o caráter de uma pri-
meira abordagem do problema. Sobre essa historiografia, cf. IGGERS, Georg G.
New Directions in European Historiography. Revised version. Hannover: Wesleyan
University Press, 1984, e Historiography in the Twentieth Century. Hannover:
Wesleyan University Press, 1997.
4 Trata-se evidentemente de uma esquematização muito geral, que atende apenas às
principais linhas de evolução dessa historiografia dos últimos 150 anos, considera-
da no seu conjunto e de maneira global.
5 Sobre essa idéia, cf. ALTHUSSER, Louis. La revolución teórica de Marx. México:
Siglo XXI, 1975.
6 Conforme a define Marc Bloch em seu belo livro Apologia para la historia o el oficio
de historiador. México: Fondo de Cultura Económica: Instituto Nacional de
Antropología e Historia, 1996.
7 Sobre a vigência do marxismo atualmente, e sobre a sua história durante o século
20, cf. WALLERSTEIN, Immanuel. El marxismo después de la caída del comunis-
mo. La Jornada Semanal, México, n. 294, enero 1995, e ECHEVERRÍA, Bolívar. Las
ilusiones de la modernidad. México: UNAM: El Equilibrista, 1995.
8 Sobre essa importância do marxismo para a história, cf. AGUIRRE ROJAS, Carlos
Antonio. El problema de la historia en la concepción de Marx y Engels. Revista
Mexicana de Sociología, México, v. XLV, n. 4, 1983, e também, Economía, escasez y
sesgo productivista. Boletim de Antropología Americana, México, n. 21, 1991.
9 A esse respeito, é interessante a tese de Jean-Paul Sartre, que define o marxismo
como “o horizonte insuperável de nossa própria época” no seu ensaio Cuestiones de
método”, incluído em sua Crítica de la razón dialéctica. Buenos Aires: Losada, 1970.

28
Capítulo 1

10 Vale a pena insistir no fato de que várias das correntes historiográficas atuais mais
importantes são ou declaradamente marxistas, como é o caso dos historiadores mar-
xistas – por exemplo, a micro-história italiana, ou a história radical norte-americana.
11 Desenvolvemos mais amplamente essa idéia em Carlos Antonio Aguirre Rojas,
“Convergencias y divergencias entre los Annales de 1929 a 1968 y el marxismo.
Ensayo de balance global” no livro Los Annales y la historiografía francesa. México:
Ed. Quinto Sol, 1996.
12 Sobre esses múltiplos marxismos do século 20, cf. WALLERSTEIN, Immanuel.
Braudel, los Annales y la historiografía contemporánea. Historias, México, n. 3,
1983, e AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. Marxismo, liberalismo y expansión de la
economía-mundo europea. Diário El Financiero, 15 y 29 de julio y 5 de agosto de
1991. (Série de três artigos.)
13 Uma síntese dos traços desse modelo alemão de historiografia pode ser visto em
VÁZQUEZ GARCÍA, Francisco. Estudios de teoria y metodologia del saber histórico.
Cádiz: Ed. Universidad de Cádiz, 1989.
14 Sobre esse ponto, cf. o artigo de OESTREICH, Gerhard. Le origini della storia socia-
le in Germania. Anali del Istituto Storico-tedesco di Trento, n. 1, 1977.
15 Como bem assinalou Lucien Febvre nos seus Combats pour l’histoire. Paris:
Armand Colin, 1992.
16 O manual que vai condensar essas contribuições no horizonte francês será o livro
de LANGLOIS, C. V.; SEIGNOBOS, C. Introducción a los Estudios Históricos. Buenos
Aires: Ed. La Pleyade, 1972. Valeria a pena empreender uma investigação mais séria
e sistemática sobre as razões da sobrevivência desse tipo de história, peculiar ao
século 19, que é a história positivista, razões essas que se ligam em parte ao seu cará-
ter inócuo e acrítico em face dos poderes dominantes.
17 Essa é a história oficial, “gloriosa” e autocelebratória que também será criticada, no
momento próprio, por Michel Foucault, que a oporá à “contra-história” e à “con-
tramemória” críticas derivadas do seu enfoque arqueológico-genealógico. Cf., por
exemplo, o seu livro Genealogía del racismo. Madrid: Ediciones de La Piqueta, 1992.
18 Cf. PIRENNE, Henri. ¿Que és lo que los historiadores estamos tratando de hacer?
Revista Eslabones, México, n. 7, 1994, e também BERR, Henri. La Síntesis en
Historia. México: Uteha, 1961.
19 Pensemos, para mencionar só um exemplo possível, nos interessantes trabalhos de
Norbert Elias, El proceso de la civilización e la sociedad cortesana. A esse respeito, cf.
Carlos Antonio Aguirre Rojas,“Norbert Elias, Historiador y Crítico de la Modernidad”,
no livro Aproximaciones a la Modernidad. México: Ed. UAM Xochimilco, 1997.
20 Sobre essa corrente dos Annales, cf. DOSSE, François. La historia en migajas.
Valencia: Edicions Alfons el Magnanim, 1988, e BURKE, Peter. La revolución histo-
riográfica francesa. Barcelona: Gedisa, 1993.
21 Desenvolvemos mais amplamente esse argumento em Carlos Antonio Aguire Rojas,
“Entre Marx y Braudel: hacer la historia, saber la historia”, no livro Los annales y la
historiografía francesa. México: Ed. Quinto Sol, 1996.
22 Para constatar, por exemplo, a vigência atual do pensamento de Braudel, pode-se
consultar os livros Primeras Jornadas Braudelianas. México: Ed. Instituto Mora,
1993, e Segundas Jornadas Braudelianas. México: Ed. Instituto Mora, 1995.

29
Capítulo 1

23 Sobre a profunda significação da revolução cultural de 1968, cf. WALLERSTEIN,


Immanuel. 1968: tesis e interrogantes. Estudios Sociológicos, México, n. 20, 1989;
BRAUDEL, Fernand. Renacimiento, Reforma, 1968: revoluciones culturales de larga
duración. La Jornada Semanal, México, n. 226, oct. 1993; DOSSE, François. Mai 68:
les effets de l’histoire sur l’Histoire. Cahiers de l’IHTP, Paris, n. 11, 1989; e
AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. 1968: La Gran Ruptura. La Jornada Semanal,
México, n. 225, oct. 1993.
24 No sentido desenvolvido por Immanuel Wallerstein em seu livro Después del liberalis-
mo. México: Siglo XXI, 1996.
25 Desenvolvemos um exemplo particularmente instrutivo dessa assimilação e refun-
cionalização de tais influências em AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. La recepción
del metier d’historien de Marc Bloch en América Latina. Revista Argumentos,
México, n. 26, 1997.

30
Capítulo 2

NOVAS TENDÊNCIAS NA HISTORIOGRAFIA


RUSSA E O PROBLEMA DA CORRELAÇÃO
ENTRE MICRO E MACRO-HISTÓRIA*
Lorina Repina

A renovação da historiografia contemporânea e da cultura histórica, em


geral, vem ocorrendo num quadro de decadência do moderno racionalismo
europeu. Significa isso a rejeição do determinismo, de todas as pretensões à
objetividade e à busca da verdade, de quaisquer tentativas de usar as “leis
gerais” da evolução histórica. Ao longo do século 20, o mundo mudou numa
velocidade nunca vista e o progresso científico desempenhou o papel princi-
pal nesse desenvolvimento. Tais mudanças, no entanto, adquiriram o status de
ciência nova, pois foi instalada num pedestal dentro de um sistema de valores
sociais, mas, ao final do século, suas bases passaram a ser questionadas. Por
outro lado, o pós-modernismo iconoclasta abre caminho para novas aborda-
gens cognitivas. Em todas as disciplinas, a ênfase passa das leis e regras para os
eventos únicos, as individualidades, os acasos. Ao mesmo tempo, novas formas
de generalização estão sendo procuradas.
O problema da síntese histórica ainda ocupa o posto central em nume-
rosos debates sobre métodos. Pensa-se que a síntese histórica pode restaurar a
coerência do passado, reintegrando as abordagens estruturais, socioculturais e
psicológicas que ficaram isoladas no campo da pesquisa prática. Na última
década, a pesquisa da síntese tem se voltado para o papel do individual e do
coletivo, do nacional e do universal na História. Tentativas sérias foram feitas
para superar a dicotomia do indivíduo e da massa, do particular e do geral no
âmbito da teoria da História. Um dos primeiros indícios desse processo intelec-

31
Capítulo 2

tual na historiografia russa surgiu na abordagem da civilização, com o seu enfo-


que na idéia de civilizações múltiplas coexistindo no quadro da totalidade da
humanidade. A segunda abordagem adotou os princípios da Escola Francesa
dos Anais em sua forma clássica. Na interpretação dos historiadores russos,
esses princípios pareciam próximos da tradição historiográfica de Marx. A
situação atual, porém, forçou os historiadores a decisões mais radicais.
Embora o processo de modelar um novo paradigma histórico para
substituir o antigo tenha se revelado complicado e contraditório, uma coisa
parece óbvia: agora parecem mais promissoras as abordagens baseadas na
noção de cultura. O enfoque na cultura conduz a uma nova compreensão dos
objetivos do estudioso, a mudanças na escolha dos temas de pesquisa, do apa-
rato conceitual e dos métodos, e, finalmente, à reformulação das normas aca-
dêmicas e da imagem da disciplina histórica. Na Rússia, esse processo foi
acompanhado e deformado pelo resultado ambíguo das mudanças radicais no
sistema político, na estrutura social e na cultura.
Durante a crise social e política de fins da década de 1980 e início da
década de 1990, os mecanismos que então regulavam as relações entre o grupo
profissional de historiadores e a sociedade foram destruídos e os critérios de
pesquisa até então aceitos, desacreditados. Os historiadores precisaram mobi-
lizar todas as suas energias intelectuais para preservar a identidade profissio-
nal. Em resultado, estrutura e linguagem do conhecimento histórico se altera-
ram, tanto quanto os modos de sua tradução. Apesar de tudo, as regras corpo-
rativas básicas puderam ser cuidadosamente preservadas, pois os historiadores
consideravam-nas uma “barreira” entre os tipos profissional e amador de
conhecimento: a fé nas fontes, a zelosa reconstituição de fatos históricos, a cau-
sação, etc. Por outro lado, o final dos anos 1990 assistiu a um grande número
de estudos históricos cujos autores apelavam para os mesmos critérios disci-
plinares, mas chegavam não raro a resultados de pesquisa inteiramente diver-
sos. Por isso, os historiadores profissionais passaram a rejeitar cada vez mais os
argumentos teóricos e metodológicos. Essa atitude era demonstrada pela rea-
bilitação da idéia de história como disciplina empírica e factual, e pelo apelo
“de volta a Heródoto”. Tais pretensões, entretanto, suscitaram críticas graves,
com os adversários reafirmando a história como disciplina teórica. De fato, a
sociedade e a comunidade acadêmica estão às voltas com um processo de
desenvolvimento paralelo: já surgem numerosas imagens da disciplina históri-
ca, algumas baseadas em diferentes abordagens da natureza, conteúdos e fun-
ções do conhecimento histórico. As tentativas foram feitas para resolver o pro-

32
Capítulo 2

blema da auto-identificação correlacionando-se a pesquisa contemporânea


com a historiografia soviética, sendo esta última denunciada para se obterem
resultados mais interessantes. Ao mesmo tempo, as práticas de pesquisa vigen-
tes são comparadas ao modelo ideal (normativo) da disciplina histórica, cujo
papel pode ser desempenhado, ou pela “historiografia ocidental” de qualquer
tipo, ou pela vaga imagem de uma “disciplina do futuro”, suposto alvo da prá-
tica historiográfica contemporânea.
Duas tendências principais podem ser rastreadas na historiografia russa
da última década. A primeira liga-se à eliminação das “lacunas” da história
russa mercê da exploração de arquivos até então inacessíveis e ao tratamento de
temas antes impopulares e proibidos. Esse processo começou nos primeiros
anos da perestroika. Ele ajudou a rever algumas interpretações históricas que
passavam por quase sagradas, e a enorme quantidade de documentos, mono-
grafias e literatura popular veio preencher os espaços em branco com surpreen-
dente velocidade. A abundância da literatura impressa, contudo, não lhe garan-
tiu a excelência. Ao contrário, revelou um curioso jogo de opiniões antiquadas
e sua rejeição; com efeito, descobertas sensacionais transformaram-se em argu-
mentos nos conflitos sociais e políticos. Essa última tendência misturou-se à
intolerância e às pretensões à verdade absoluta. Somente se exploraram os
aspectos do problema que pareceram plausíveis para a principal linha de argu-
mentação do autor; os outros foram ignorados. Todavia, rejeitar abordagens
tradicionais não bastou para abrir um espaço inteiramente novo à pesquisa his-
tórica. A denúncia de uma visão política inculcada de fora não eliminou os pre-
conceitos políticos dos estudiosos e jornalistas; todos os acontecimentos, movi-
mentos e personagens da história russa foram avaliados por um único critério:
em que medida eles favoreciam ou impediam a realização do modo preferido
de desenvolvimento histórico russo?
A mudança mais óbvia foi o distanciamento do paradigma histórico
marxista e a atribuição do status de “metodologia” ao senso comum elemen-
tar. Isso foi uma conseqüência natural de processos que evoluíram fora da
comunidade acadêmica durante a perestroika. Todo esse tempo, só se valoriza-
ram evidências “aprovadas” pela percepção humana ou que influenciavam
consideravelmente a vida das pessoas comuns. As mudanças sociais obrigaram
os historiadores a compreender a importância de acontecimentos cotidianos,
comezinhos, “não históricos” e a interpretá-los no contexto da experiência
prática, não no contexto da teoria. A metodologia marxista, após denunciar o
positivismo, transformou-se em instrumento nas mãos da maioria dos histo-

33
Capítulo 2

riadores russos. Supõe-se que documentos publicados “falem por si mesmos”


e bom número de historiadores prefere refugiar-se por trás desses textos,
vendo-os como a verdade última e fazendo de seus livros manuais anotados.
Trata-se de livros oportunistas, divulgadores de uma espécie de “conhecimen-
to negativo”: eles declaram que certos eventos históricos não ocorreram do
modo como se descreveu. Não surpreende, pois, que o programa de história
mais popular irradiado pela emissora Ecos de Moscou ostente o nome “Não foi
assim!”. A importância social e científica dessa tarefa é indubitavelmente eleva-
da e a missão de rejeitar clichês ideológicos ou erros cometidos por historia-
dores deve prosseguir. No entanto, isso não dá à historiografia russa nenhuma
oportunidade de elaborar uma imagem completamente nova.
A segunda tendência é bem mais promissora. Ela se destacou em mea-
dos dos anos 1990, buscando novas abordagens e métodos de pesquisa origi-
nais. A criatividade de alguns estudiosos e grupos acadêmicos abriu caminho
para a evolução da historiografia russa com base num diálogo proveitoso com
as principais escolas do Ocidente. A ânsia de renovação radical na metodolo-
gia é demonstrada por inúmeras conferências, pelo aparecimento de novos
periódicos (Odysseus, Casus, Diálogo com o Tempo, Adão e Eva, etc.) e de diver-
sas publicações em que se discutem problemas teóricos de conhecimento his-
tórico, afora tentativas de incorporar novos métodos ao currículo. Um “plura-
lismo metodológico” fortaleceu as posições de novas metodologias nas práti-
cas de pesquisa russas e, nessa base, novas escolas surgiram.
Antes, alguns historiadores preferiam enfatizar a ação humana na his-
tória, o que justificava a popularidade da antropologia histórica. Embora essa
abordagem tivesse uma sólida tradição na erudição russa (lembrem-se a obra
pioneira de B. A. Romanov, Povos e costumes da velha Rússia, inicialmente
publicada em 1947, as monografias de A. J. Gourevich, As Categorias da
Cultura Medieval, Os Problemas da Cultura Popular Medieval e suas publica-
ções das décadas de 1970-1990), a popularidade dela em finais dos anos 1980-
1990 deveu-se principalmente à sua ligação com o Seminário de Antropologia
Histórica (dirigido por A. J. Gourevich) no Instituto de História Mundial da
Academia Russa de Ciências e com o periódico Odysseus: O Homem na
História (a partir de 1989). Papel de destaque na posterior abordagem de
novos métodos de pesquisa coube ao Seminário, ao Grupo de Pesquisa da
História da Vida Privada (organizado no mesmo instituto em 1994, sob a dire-
ção de J. L. Bessmertny) e à publicação de Casus: O Individual e o Único na
História (a partir de 1997). Novas tendências revelaram-se interessantes para

34
Capítulo 2

diferentes estudiosos. Uma discussão a respeito do problema-chave teórico e


metodológico da microanálise do número de projetos de pesquisa completa-
dos com sucesso (O Indivíduo no seio de sua Família, O Indivíduo num mundo
de emoções, etc.), bem como das obras dos historiadores desse grupo (reno-
meado mais tarde como Centro para a História da Vida Privada), revelou um
novo nível de qualidade.
No atual debate metodológico, o problema da correlação entre micro e
macro-história, e de sua possível combinação, ocupa um lugar importante.
“Um historiador em campo: micro e macroabordagens de estudos históricos”
foi o título de uma conferência proferida no Instituto de História Mundial em
1998; seus resultados influenciaram consideravelmente os conteúdos e métodos
da nova pesquisa. Talvez valha a pena examinar um novo projeto do Centro
(iniciado em 2000), “Ideais socioculturais e cotidiano na Europa Ocidental e na
Rússia em princípios do século 20: os estereótipos e o único”. O principal obje-
tivo do projeto é estudar o conflito entre ideais socioculturais e sua interpreta-
ção individual, além da correlação entre o geral e o específico numa estratégia
de comportamento humano, que se esboçava na Europa Ocidental e na Rússia
em conseqüência desse conflito. Os historiadores preferem não enfocar o poder
coercitivo dos valores culturais gerais e enfatizar, isso sim, uma estratégia indi-
vidual de comportamento em situações de mudança, de vez que a primeira
abordagem insere o indivíduo no mecanismo social e não lhe permite fazer
escolhas. Já o projeto sugere uma análise paralela da força dos valores aceitos e
de sua interpretação ativa por parte de indivíduos de diferentes estratos sociais.
Comparando interpretações estereotipadas e individuais (mesmo exclusivas)
dos valores, os historiadores intentam estudar o comportamento humano em
vários períodos do passado e revelar a possibilidade que o indivíduo tem de
influenciar a História. Uma comparação das práticas culturais européias e rus-
sas exibe a diversidade das opções individuais e seu potencial.
Assim, o projeto enfatiza a análise de ideais socioculturais vigentes no
Ocidente e na Rússia em diversos períodos de sua história, incluindo situações
em que ideais aceitos eram materializados apenas por parte da população. O
projeto pretende ainda analisar o papel do poder (político, religioso e ideoló-
gico) e dos estereótipos mentais na preservação de ideais tradicionais em
sociedades com diferentes tipos de autoridade. Por último, o projeto intenta
estudar os meios por que indivíduos de diferentes grupos sociais interpretam
esses ideais nas mais variadas situações, questionando tradições e propondo
novos objetivos de vida.

35
Capítulo 2

É óbvio que as fontes sobreviventes não contêm informação direta


sobre os motivos que levaram pessoas de diferentes épocas e estratos sociais a
tomar suas decisões. Daí a necessidade de empregar meios indiretos de análi-
se. Esses podem incluir o estudo das reflexões explícitas e implícitas de um
autor sobre seus próprios atos e opiniões; a análise da avaliação direta e indi-
reta das ações de um indivíduo quando elas se tornam tema de investigação da
família ou de seus inimigos; e o estudo das atitudes frente a um estranho (e a
um alienígena em geral), que pode revelar os desejos e medos de um autor (ou
de seus “heróis”). Podemos estudar reflexões sobre o mais cobiçável (“felicida-
de”) ou o mais temível e indesejável (“infelicidade”). É possível comparar
comentários abonadores ou desabonadores sobre os atos de uma pessoa, além
de determinar que ação deve ser glorificada ou censurada em textos didáticos.
Descrições de execução “correta” ou “incorreta” de um ritual, procedimento
jurídico ou cerimonial, podem ser usadas da mesma maneira. Outro objeto de
análise é a atitude dos príncipes frente às ações de seus súditos e cortesãos. Em
todas as circunstâncias anteriormente mencionadas, o ponto de partida da
análise é um princípio da Escola Russa de Semiótica (Lotman-Uspensky),
segundo o qual o comportamento cotidiano é um sistema de símbolos por
cujo intermédio se podem estudar valores aceitos ou desvios. De acordo com
esse princípio, todo ato humano é visto como um elemento do sistema e como
reflexão implícita sobre o mundo interior de um membro da sociedade. Nesse
caso, as fontes do estudo histórico podem incluir obras de autores famosos e
textos de arquivo comuns, mesmo inéditos.
Inúmeros estudos foram levados a cabo nos termos do projeto. Eles
abarcam longos períodos da história ocidental e russa, desde a antiguidade até
começos do século 20, incluindo os seguintes tópicos: atitudes humanas fren-
te à “felicidade” e “infelicidade”, até que ponto se pensava sobre elas, seu signi-
ficado implícito e explícito, sua conexão com as prioridades da vida e as pre-
ferências emocionais, e correlação entre estereótipos e interpretações indivi-
duais, que são traços comuns e específicos das atitudes ocidentais e russas
perante tais problemas.
A descrição pormenorizada de um projeto revela a originalidade e o
potencial heurístico do princípio subjacente de análise: estudar as formas da
vida social e suas normas por meio de sua incessante reinterpretação ou trans-
formação na prática individual. Talvez seja a história do indivíduo a que apre-
senta o problema metodológico capital da correlação entre micro e macroaná-
lise no cenário adequado, bem como de sua compatibilidade. Até hoje, a antro-

36
Capítulo 2

pologia histórica desdenhou o problema da auto-identificação individual, do


interesse privado, da escolha individual racional. Em última instância, a ques-
tão de como tradições culturais, costumes e opiniões herdados influenciam o
comportamento humano em situações concretas (e, conseqüentemente, a
cadeia de eventos com seus resultados) leva ao estudo dos atos do indivíduo.
O mecanismo da escolha individual deveria ser incluído num modelo
complexo de interpretação que considerasse não apenas a determinação social,
estrutural e cultural, mas também a determinação individual e acidental, a fim
de restaurar a coerência psicossocial de um indivíduo histórico. Assim, parece
justificável a nova mudança do “típico” ou “comum” para os indivíduos con-
cretos. Usualmente, os estudos se concentram numa pessoa extraordinária ou,
pelo menos, numa pessoa apta a tomar decisões extraordinárias em situações
complexas. Em resultado da mudança, uma nova abordagem vem surgindo,
com suas tarefas e seus métodos específicos – a nova história biográfica ou pes-
soal, uma vez que o tema de pesquisa é a vida de um indivíduo (o mesmo se
aplica à biografia histórica tradicional).
Os tipos de biografia diferem segundo as tarefas de pesquisa. O impulso
geral rumo à abordagem “pessoal” foi dado pela desconfiança, por parte dos
estudiosos, da desumanização e despersonalização não apenas dos estudos
sociologicamente orientados, mas também da antropologia histórica. As estra-
tégias positivas, contudo, são moldadas por padrões bastante diferentes. Hoje
podemos vislumbrar duas imagens da história pessoal na historiografia russa,
com diferentes temas. Uma pesquisa concentra-se ou na reconstrução do
mundo humano interior e sua dinâmica, na experiência existencial exclusiva
(“biografismo existencial”, no dizer de D. M. Volodikhin), ou na situação cultu-
ral e social, em que uma vida descrita assume importância de história.
A metodologia personalista da primeira abordagem está talvez mais
próxima da crítica literária (com sua ênfase na exclusividade, sua preferência
por resultados de atividade conscientemente criativa, a submissão absoluta do
historiador ao texto em que se concentra a experiência individual da pessoa, a
atmosfera sociocultural vista como mero pano de fundo e a história dos even-
tos constituindo um quadro para a reconstrução da biografia psicológica).
Insistamos na segunda variante da história pessoal, ou seja, em suas ver-
sões que apresentam algumas características comuns: à diferença das biogra-
fias tradicionais e “existenciais”, essa pesquisa modela o estudo do mundo inte-
rior, de vidas individuais ao mesmo tempo como objetivo de pesquisa estraté-
gica e como meio adequado de conhecer uma sociedade histórica que as

37
Capítulo 2

abrange e foi por elas criada. Em outras palavras, essa pesquisa sugere o estu-
do de um contexto social.
A “história pessoal” usa quase sempre diferentes tipos de fontes que con-
tenham reflexões sobre assuntos pessoais (cartas, diários, memórias, autobiogra-
fias) e evidências indiretas, inclusive outras visões dos mesmos acontecimentos e
a “informação objetiva” oriunda do campo social e cultural. Decerto, ela coloca
limitações às biografias de pessoas da Antigüidade e Idade Média (afora as bio-
grafias dos nobres). A falta de textos de origem pessoal cria obstáculos não menos
sólidos que as complexidades da hermenêutica. Assim, o interesse do biógrafo
por arquivos pessoais e certos textos literários do período moderno é bastante
compreensível, pois essas fontes habilitam os historiadores a definir meios de vida
escolhidos no quadro de papéis sociais prescritos, a sondar preferências em ter-
mos de valores, e a atinar com visões coletivas de êxito social em formas pessoais
de “biografia-modelo”, de “destino feliz” invariavelmente ligado a personagens
históricas famosas. Um dos principais objetivos da “história pessoal” é revelar um
processo de individuação da consciência humana e do comportamento que pode
ser demonstrado pelo fortalecimento de metas pessoais a expensas dos valores de
grupo. Essa abordagem sugere uma análise textual apta a mostrar relações huma-
nas, identidades individuais e estratégias de comportamento. É óbvio que uma
biografia se concentra primordialmente na vida emocional e espiritual da pessoa,
bem como nas relações dessa pessoa com a família e os amigos. A pesquisa, quase
sempre, enfoca o comportamento divergente, que rompe as normas tradicionais
e os modelos alternativos aceitos pela sociedade, e as ações que pressupõem o
impulso da vontade numa situação de escolha consciente.
A categoria de “passado individual” (isto é, de experiência individual vivi-
da e acumulada na mente da pessoa) desempenha um papel de integração por
compensar resultados de procedimentos analíticos que dividem a atividade e a
personalidade humana em seus elementos constituintes, criando uma falsa opo-
sição entre pessoa e sociedade – uma antinomia do “individual” e do “social”. O
tema de pesquisa (o indivíduo) era elemento importante da realidade passada,
aquele que continuamente transformava essa realidade e a si próprio. Ele existia
num núcleo de diferentes vínculos sociais e, em torno dele, situavam-se todos os
campos do conhecimento histórico. Além disso, essa abordagem enfatiza o papel
ativo, criativo de uma pessoa histórica confiante na memória haurida das gera-
ções anteriores, que armazenara a experiência do passado coletivo, e na expe-
riência de sua própria vida. Assim, a história de uma vida transforma-se em his-
tória biográfica, mostrada por intermédio de uma pessoa.

38
Capítulo 2

A fertilidade da nova história biográfica está fora de dúvidas; mas, no


nível da generalização, problemas metodológicos de conexão entre o indivi-
dual e o coletivo ainda existem. Um conjunto de questões metodológicas colo-
cadas pelos historiadores que vêem a biografia como uma estratégia cognitiva
da história pode ser dividido em dois grandes grupos. O primeiro consiste de
problemas ligados à generalização. A questão crucial é saber se convém gene-
ralizar observações feitas a respeito de vidas individuais e extrapolá-las para a
experiência coletiva (e, depois, para as características gerais do contexto social
e histórico). Decerto, em seus estereótipos mentais e comportamentais, este
último fixa apenas a parte da experiência individual socialmente aprovada.
Deve-se observar, porém, que os modelos rejeitados viveram na memória cole-
tiva, embora com caráter negativo, e algumas decisões foram concebidas como
padrão alternativo.
O segundo grupo está ligado ao mecanismo de tomada de decisões indi-
vidual. Depois que diferentes escolhas foram comparadas, cumpre definir se
houve desvios em situações típicas ou casos de comportamento divergente em
situações muito diversas. Também é importante saber se uma sociedade/grupo
adotava um padrão de comportamento considerado automaticamente aceitá-
vel por todos os membros ou se tinha dois ou três modelos aceitáveis. Portanto,
a concretização de um modelo (isto é, um resultado de escolha individual)
poderia ser definida pela combinação de circunstâncias externas que capacita-
ram determinada pessoa a escolher uma estratégia correspondente às suas
intenções e à situação em si. No último caso, pode-se sugerir o padrão de com-
portamento situacional para a relativa liberdade de escolha.
Nos casos em que imperam esses padrões, cumpre fazer escolhas por si
mesmo e definir os próprios atos: assim se concretiza a criatividade pessoal. A
eficácia social da última circunstância depende da situação que favorece a
“tomada” de decisões individuais inovadoras no âmbito da experiência coleti-
va, ou seja, ela deve facilitar sua adaptação pela sociedade. Em resultado desse
desenvolvimento complexo, uma personalidade histórica, pela prática (e inde-
pendentemente de sua consciência do fato), forma o passado e revela sua sub-
jetividade frente a ele. De que modo ações seletivas e inovadoras podem ser
incorporadas a uma análise dos atos coletivos, eventos históricos e macropro-
cessos? Sintetizar micro e macro-histórias é um problema crucial que não
pode ser solucionado por uma simples composição de episódios e biografias.
Um longo processo de tradições mutáveis implica a etapa na qual uma escolha
que foi considerada divergente (de vez que todos os padrões, inicialmente, o

39
Capítulo 2

são) passa a ser imitada ou aceita de modo automático na esteira de imitações


de comportamentos bem-sucedidos. Mais tarde, ela se torna a base para a
construção de um estereótipo alternativo de comportamento ou, talvez, de
nova tradição. Deve, portanto, percorrer o longo caminho do único para o
particular e, finalmente, para o tradicional. Esse processo ocorre dentro do
“campo gravitacional” das normas e tradições vigentes, consistindo seus
momentos dinâmicos na freqüência crescente das situações em que escolhas
individuais “divergentes” ganham a aceitação da experiência coletiva.
A grande maioria das fontes não fala aos historiadores de períodos
remotos sobre como se tomaram decisões, apenas os informam dos resultados
das ações empreendidas depois que as decisões foram tomadas. Semelhantes
lacunas costumam levar a explicações simplistas, havendo, portanto, uma real
necessidade de buscar modelos para essa operação complexa em diários, car-
tas e memórias, onde estejam descritas as reais situações de escolha e suas per-
cepções subjetivas. A ferramenta do historiador é uma análise situacional mul-
tifacetada que lhe permite reconstituir um evento em sua coerência (inclusive
o mecanismo de tomada de decisões), a saber, demonstrar uma combinação de
condições, motivos, atos, emoções, percepções e reações, tanto quanto as con-
seqüências de tudo isso.
Todo evento histórico portentoso consiste de milhares de acontecimen-
tos importantes, comuns e elementares que ocorrem em diversos níveis: nas
vidas das pessoas, na sociedade, nas instituições sociais. A diferença de escala é
que impede tais eventos (chamados “fatos históricos”) de se organizarem em
cadeia consecutiva, mas eles podem inserir-se numa cadeia mais complexa de
situações históricas quando pessoas, com sua experiência, crenças e preconcei-
tos, estão presentes e agem. A consciência individual e coletiva sempre dispõe
de um fértil substrato de idéias, valores e modelos comportamentais vindos do
passado e/ou estabelecidos pela experiência pessoal. Daí a pergunta: como pas-
sar da visão, da consciência coletiva e mesmo da subconsciência para uma aná-
lise de eventos históricos que pretende estudar atos, não resultados de atos?
Evidentemente, há aí a necessidade de um novo paradigma de análise históri-
ca. Suponhamos um modelo que consideraria não apenas as condições mate-
riais e espirituais de vida, mas também a função criativa da personalidade, os
mecanismos da escolha pessoal e a transformação da atividade do indivíduo
incluído numa sociedade, sujeito à sua coerção, em atos sociais de sujeitos his-
tóricos coletivos. A interação de indivíduo e sociedade pode ser demonstrada
por uma hierarquia de procedimentos de pesquisa que apresentaria os seguin-

40
Capítulo 2

tes elementos: 1) análise de uma situação comum ou incomum que estabele-


ceu condições e limitou as soluções possíveis (inclusive modelos alternativos e
seu valor social relativo); 2) reconstrução da história pessoal – a experiência
prévia da pessoa que determinou a percepção individual de uma tradição
sociocultural baseada em experiência herdada e ainda dominante na consciên-
cia social; 3) estudo da propensão psicológica da pessoa a uma linha de con-
duta, seu grau de senso comum e intuição prática, suas emoções (ou seja, as
condições da escolha individual e a correlação dessa escolha com o modelo ou
norma coletiva dominante); 4) descrição de atos pessoais, sem esquecer sua
motivação, seu processo de tomada e concretização de decisões, com os resul-
tados positivos e negativos; 5) mudança do particular para o coletivo, junta-
mente com uma mostra de decisões análogas ou alternativas (divergentes) que
tenham sido aceitas na prática, tornando-se novos estereótipos de comporta-
mento, e, portanto incorporadas na atividade de grupo ou massa; 6) análise
das mudanças operadas na estrutura social.
As conclusões dos historiadores geralmente vão do resultado para o
evento, da conseqüência para a causa, e não vice-versa, dando assim a impres-
são de uma determinação rígida, de uma inevitabilidade. Entretanto, podem-se
percorrer as situações históricas em outra direção: a partir de uma “causa aci-
dental”, oculta no acervo das variações potenciais do comportamento indivi-
dual. Toda situação histórica apresenta um leque de padrões comportamentais
e a concretização de um dado padrão depende de inúmeras condições ou fato-
res, que às vezes parecem casualidades. Em situações de livre escolha, um ato
humano consciente quase sempre depende não apenas da percepção da reali-
dade passada e presente, mas também da compreensão ou percepção intuitiva
de causas possíveis e da ânsia de evitar intervenções indesejadas. A pessoa pode
escolher entre diferentes linhas, enquanto a ação (ou sua ausência) transforma
variações potenciais em unicidade real. A adaptação às condições sempre prin-
cipia pelas mudanças de comportamento, quando o indivíduo opta por um
modelo que difere do vigente: então, as mudanças funcionais ocorrem, redefi-
nindo as relações humanas até que o processo termina com a reforma morfo-
lógica modificando a estrutura mental do sujeito e do sistema social.
As estruturas sociais surgem em resultado de atos precedentes e, em toda
situação nova, condicionam eventos e atos humanos conscientes, inconscientes,
intencionais, coordenados ou contradirigidos. Em tais casos, os indivíduos
podem agir pessoalmente ou como sujeitos sociais, corporações e bandos. Os
eventos políticos ocupam a ponta do iceberg de motivos, intenções, decisões,

41
Capítulo 2

esperanças e frustrações dos homens. A análise das diversas camadas de um


evento histórico tende a revelar diferentes cenários de acontecimentos, de vez
que os agentes do drama histórico poderiam ter feito outras escolhas. O drama
da história faz sentido graças à combinação das biografias de suas personagens,
das histórias de vida; em seu contexto, elas assumem seu significado histórico.
Em outras palavras, o historiador estuda a biografia individual como uma
dimensão particular da história, seu aspecto subjetivo e pessoal que reflete o
desenvolvimento de um sujeito ativo, associando desvios e inovações indivi-
duais à experiência coletiva herdada. Isso não exclui (na verdade, obstrui) a
ênfase na importância dos estudos estruturais e culturais: as três perspectivas
deveriam combinar-se para fornecer um quadro coerente do passado. Um “pri-
vilégio” óbvio da abordagem pessoal e de outras estratégias microanalíticas é
que elas trabalham no interior de um “campo experimental” apto a resolver os
problemas teóricos complicados da historiografia contemporânea. Além disso,
a necessidade de responder a perguntas-chave – o que condicionou, limitou e
definiu o processo de tomada de decisões, quais foram seus motivos íntimos e
explicações, até que ponto os estereótipos e os atos pessoais se correlacionavam,
como isso era percebido, que força tinham os fatores externos e os impulsos
internos – arranca o historiador de um pequenino “nicho” de microanálise e o
empurra para o campo de pesquisa da macro-história.
A especificidade da micro-história não consiste em seu objeto (embora
alguns historiadores digam isso), nem mesmo no tratamento dos detalhes. O
mesmo objeto pode ser submetido à micro ou à macroanálise. Tudo depende
do ponto de vista do pesquisador, já que a posição teórica e o modelo aceito
de processo histórico condicionam a escolha. Em suma, a especificidade con-
siste no desdobramento do raciocínio do historiador: do presente para o pas-
sado (para seguir retrospectivamente a construção do mundo atual) ou a par-
tir do passado (visto como em processo de formação). No último caso, o racio-
cínio se desdobra “prospectivamente” (do passado para o presente). O histo-
riador busca respostas para outras perguntas: quais possibilidades existiram
em situações de escolha histórica; como e por que tais possibilidades foram
concretizadas; de que modo as percepções subjetivas, pensamentos, habilida-
des e intuições individuais atuaram num campo limitado pela objetividade
das estruturas coletivas criadas pelas práticas culturais do passado. O primei-
ro ponto dá-nos uma projeção linear da realidade passada: vemos apenas a his-
tória que aconteceu em sua versão concretizada. No segundo caso, tentamos
vislumbrar a realidade pretérita com o seu futuro “aberto”, não-predestinado,

42
Capítulo 2

com o seu potencial múltiplo, às vezes contraditório: vemo-lo, portanto, em


sua máxima diversidade e plenitude.
A “inversão de perspectiva analítica” que descrevemos robustece consi-
deravelmente o potencial cognitivo e enriquece nosso conhecimento porque,
em vez de inserir o indivíduo no grupo social como fato e considerar as rela-
ções entre sujeitos como fixadas a priori, o historiador examina o modo por que
tais relações geraram interesses comuns e criaram grupos sociais. A “perspecti-
va invertida” afeta da mesma maneira a história política, econômica e intelec-
tual, dando corpo a abordagens em que um acidente, um caso estranho consti-
tui tema de pesquisa privilegiado; mas, paralelamente, os historiadores tentam
descortinar no evento único algo mais a fim de revelar processos ou tendências
explícitas que enriqueçam a visão atual do passado. Ao estudar um caso concre-
to, o historiador procura responder às seguintes perguntas: de que modo as pes-
soas fizeram suas escolhas, quais eram seus motivos, até que ponto concretiza-
ram suas intenções, em que medida conseguiram manifestar suas personalida-
des e “imprimir” aos acontecimentos o seu “selo” pessoal.
Sem dúvida, os experimentos com métodos não são fins em si mesmos.
Só fazem sentido por permitir ao pesquisador aproximar-se mais dos proble-
mas com que se acha às voltas. Uma das tarefas mais complicadas do historia-
dor é conceituar interações entre indivíduos e sociedade, além de correlacio-
nar o concreto e o abstrato, o particular e o geral. O que se pretende é contem-
plar o total sem deixar fugir o parcial, sem eliminar a individualidade de seus
elementos constitutivos – como na dialética de Platão.
Diga-se, finalmente, que a “diversificação” e a complementaridade
das micro e macroabordagens da História é que tornam a combinação des-
tas tão promissora.

NOTAS
* Ensaio para o Nanjing Symposium on Historiography of the 20th Century.

43
Capítulo 3

HISTORIOGRAFIA ALEMÃ NO SÉCULO 20:


ENCONTROS E DESENCONTROS

Estevão de Rezende Martins

Nie geraten die Deutschen


so außer sich, wie wenn sie zu
sich kommen wollen.

Kurt Tucholsky

Como as ciências sociais em geral, a historiografia passou por um pro-


cesso extraordinário de transformação depois da 2.ª Guerra Mundial. É possí-
vel que o impulso não tenha bastado para gerar o que o historiador alemão
Jörn Rüsen chamou de “matriz disciplinar” uniforme. Mas há claros indícios
de um modelo básico fortemente difundido, cujo efeito foi indispensável ao
progresso global da historiografia como investigação social auto-suficiente e
coesa e ainda o é para sua compreensão.1 A ciência histórica conheceu, na
segunda metade do século 20, um avanço prodigioso: renovação, enriqueci-
mento das técnicas e dos métodos, dos horizontes e dos domínios. Esta refle-
xão se centra primordialmente na “época de ouro” que representou o salto
qualitativo operado na segunda metade do século 20. Embora não se possa
afirmar que a história seja disciplina recente, os contornos que assumiu, nas
duas fases decisivas do século 20, nos anos 1920-1930 e a partir dos anos 1950,
constituem uma renovação e mesmo uma redefinição contemporânea2.

45
Capítulo 3

Ainda no século 19, as concepções de história e de historiografia passa-


ram por uma mudança gigantesca e decisiva. Consagrou-se assim o século 19
como “o século da História”. Sem dúvida, foi ainda mais decisivo – embora essa
perspectiva nem sempre tenha estado presente – o salto dado no segundo terço
do século 20 e seus prolongamentos até nos anos setenta. Não obstante, a aná-
lise dos progressos da historiografia em nosso tempo deve ser feita mediante o
contraste com o século 19, sem o qual não se pode perceber o alcance das
mudanças do século 20.
A evolução decisiva para a historiografia se dá com o que se pode cha-
mar de fundamentação metódico-documental, basilar para a disciplina “acadê-
mica” contemporânea, produzida pelos tratadistas do século 19 e da primeira
década do século 20. Tem-se aqui a origem da grande corrente historiográfica
que se chamou – de forma algo exagerada, mas não totalmente imprópria – de
historiografia positivista, intimamente entrelaçada com a forte tradição do his-
toricismo alemão. É no século 19 que aparecem os primeiros grandes tratados
do que se poderia chamar de normativismo histórico, um tipo de reflexão novo
sobre a História, chamado de Historik por Johann Droysen. Essa reflexão defi-
ne os parâmetros metódicos estipulados como obrigatórios para que a História
se enquadre no que se tinha, então, por padrão de “ciência”. Essa é a razão por
que esses tratadistas tomam como referência específica do estudo de história a
ciência natural. Essa mudança profunda e duradoura do horizonte dos estudos
historiográficos, cuja influência se estende até os anos trinta do século 20, é
habitualmente creditada às contribuições trazidas por uma corrente chamada,
sem esforço maior de precisão, de positivismo. De outro lado, o historicismo
alemão é, amiúde, considerado a maior contribuição do século 19 em matéria
de concepções da natureza do histórico e da identidade da historiografia.
A “disciplina” da historiografia, no sentido moderno do termo, surge na
transição do século 19 para o século 20, mediante um primeiro corpo de regras
e normas metodológicas fixado sob influência do positivismo e do historicismo.
Pode-se dizer que até o primeiro grande conflito armado do século 20, a guerra
de 1914-1918, a ortodoxia historiográfica foi ditada pela escola metódico-docu-
mental. Seus principais representantes estavam na França e na Alemanha.
Nas Alemanhas que se sucedem no século 20, o período do segundo
pós-guerra é determinante para essa evolução. Com efeito, o século se inaugu-
ra com a Alemanha imperial em um curso triunfal. Nada parecia poder reter a
sucessão de êxitos políticos, econômicos, sociais e culturais alemães. A tradi-
ção do historicismo, construção típica da teoria e da metodologia da História,

46
Capítulo 3

desenvolvida no espaço cultural alemão, vê-se confortada com esse estado de


coisas. Malgrado os violentos e traumáticos conflitos políticos até 1945 – des-
moronamento do império, República de Weimar entre 1918 e 1933, nazismo
de 1933 a 1945 –, o historicismo foi a escola historiográfica que prevaleceu na
ciência histórica de língua alemã, praticamente sem rivais, até o início dos anos
1950. No breve século 20 de Eric Hobsbawm, a Alemanha e seu espaço cultu-
ral trocaram quatro vezes de regime político, jamais reencontraram as frontei-
ras iniciais do Império Alemão de 1871 e perderam substancial parte de sua
autonomia econômica e social.
A Alemanha que surge após a 2.ª Guerra Mundial e o trauma do regime
nazista não é uma, nem una. Dois Estados alemães reproduzem, em suas cos-
movisões e em suas atividades científicas, as linhas de fratura que cortam o
mundo alemão, na política, na economia, na sociedade, na cultura. Mais do que
na Alemanha, as rupturas fragmentam o mundo todo, na lógica implacável da
Guerra Fria, cuja sombra se deita sobre o espaço público até a década de 1990.
Na República Federal da Alemanha, desenvolve-se intenso trabalho de renova-
ção historiográfica, nitidamente marcado pela concepção da história como
ciência social e pela temática da história social. O intercâmbio e a multiplicida-
de das questões abordadas pela pesquisa indicam a abertura ao Ocidente e o
diálogo com os desenvolvimentos teóricos e metódicos na França, na Inglaterra
e nos Estados Unidos. Na outra Alemanha, na da República Democrática
Alemã, formada na zona de ocupação soviética, prevalecem a ortodoxia políti-
ca e a ideologia soviéticas com os vieses inevitáveis nesse tipo de regime. A his-
toriografia alemã-oriental ficou assim aprisionada dos pressupostos do pensa-
mento marxista-leninista que impregnaram todo o funcionamento institucio-
nal do ensino e da pesquisa em suas universidades. É assim indispensável dis-
tinguir o pensamento teórico inspirado na filosofia de Karl Marx, em geral, de
sua versão politizada nos regimes social-comunistas.
Trata-se o tema aqui em quatro itens: o período até a tomada do poder,
no Reich alemão, pelos nazistas (da 1.ª Guerra até 1933); a historiografia alemã-
ocidental e de suas fases e tendências (1946-1990); a historiografia alemã-orien-
tal (1949-1989); as perspectivas a partir de 1990, quando a Alemanha Oriental
cessa de existir e suas províncias (Länder) aderem à Lei Fundamental da
República Federal, fundindo-se com ela. Três grandes polêmicas metódicas
sacudiram os três primeiros desses períodos. No primeiro, tem-se a repercussão
da polêmica em torno de Karl Lamprecht. No segundo, são duas as polêmicas:
uma se desenvolveu a propósito da obra de F. Fischer, publicada em 1961;3 a

47
Capítulo 3

outra – conhecida como a “querela dos historiadores (Historikerstreit)”, mobili-


zou, nos anos 1980, a discussão sobre a especificidade do itinerário nacional
alemão, a partir de um duro núcleo traumático da consciência histórica alemã:
o holocausto dos judeus no período nazista.4

A ALEMANHA DESORIENTADA (1918-1933):


A HISTORIOGRAFIA DAS IDÉIAS E O
HISTORICISMO METÓDICO
O desmoronamento do Império Alemão em 1918 representou uma rup-
tura de paradigma cultural. O desordenamento político, econômico e social
subseqüente à proclamação da república e a experiência de reconstruir um
mundo sob as regras da democracia representativa e da multiplicidade liberal
transformaram o dia-a-dia alemão em uma aventura cheia de riscos. A eclosão
da violência política no cotidiano em nada contribuiu para assentar as bases das
Ciências Sociais, dentre elas a História. O espaço público da República de
Weimar era feito de contradições e de riscos. A pressão por reencontrar um
norte político para a Alemanha, um meio de recuperação econômica e um sen-
tido cultural para a identidade de uma sociedade esgarçada, era fortíssima.
O convencionalismo historiográfico da herança historicista do século 19,
que Karl Lamprecht (1856-1915) desafiava a superar, era resistente e renitente.
Lamprecht foi, na virada do século 19 para o século 20, certamente o historia-
dor alemão mais polêmico. Seu nome designa a primeira grande polêmica teó-
rico-metódica da historiografia alemã do século 20. A “polêmica Lamprecht” se
originou, em 1891, na proposta de superar a crise dos fundamentos das
Ciências Sociais, em especial da História. Essa crise nasce da comparação com
as ciências naturais e com seus métodos. Lamprecht propõe a hipótese das
regularidades históricas. Essa hipótese, que se origina na Psicologia e em seus
progressos, enuncia regularidades psicossociais na História. A proposta de
Lamprecht, nitidamente enraizada nas tradições positivistas francesa e inglesa,
incluía uma redefinição do objeto mesmo da História. Contra a historiografia
tradicional, Lamprecht propõe a idéia de uma história cultural, que abrangeria
a totalidade dos fenômenos sociais, econômicos, políticos e culturais.5 Friedrich
Meinecke (1862-1954), um dos mais importantes historiadores alemães da pri-
meira metade do século 20, opõe-se decididamente a tal proposta, rejeitando –
com outros historiadores – o materialismo histórico que pensa ver no pensa-

48
Capítulo 3

mento de Lamprecht. Este perde influência na historiografia alemã, embora


participe ativamente da vida política do Império, formando nas fileiras dos
pacifistas e dos social-democratas.
Meinecke é conhecido como o fundador da história das idéias políticas e
o principal representante da história intelectual. Editor da tradicional revista
alemã de História, Historische Zeitschrift (fundada em 1859), desde 1893,
Meinecke se notabilizou pela obra Cidadania universal e estado-nação, de 1907.6
Profundamente partidário do pensamento racional e do método argumentati-
vo, Meinecke, durante a 1.ª Guerra Mundial, engajou-se por uma paz negociada
e por reformas políticas na Alemanha. Malgrado suas nítidas simpatias monar-
quistas, compõe racionalmente com a incontornável república de 1918. O esfor-
ço analítico de conciliar o longo prazo da legitimidade política e social alemã
com o novo sistema estatal republicano levou Meinecke a publicar, em 1924, sua
segunda maior obra, fundamental para a racionalidade política dos regimes de
democracia representativa: A idéia de razão de Estado na História Moderna.7
A persistência do método histórico tradicional entre os historiadores
alemães da primeira metade do século tem de ser entendida no contexto da
evolução político-social da Alemanha nesse período. A posição relativa da
Alemanha, tanto no plano interno quanto no concerto das nações, é um tema
recorrente na pesquisa historiográfica – desde Ranke. O historiador tem por
tarefa investigar – despido de qualquer juízo de valor – os interesses objetivos
de poder dos grandes Estados, a começar pelo alemão. As tensões sociais da
Alemanha imperial subsistem e mesmo se agudizam no período de Weimar,
confortam essa tradição historiográfica, cujas raízes, contudo, estavam nas
condições da Prússia da Restauração pós-napoleônica, completamente diver-
sas. Os historiadores dessa tendência, habitualmente titulares de cátedra nas
universidades, provêm de um círculo relativamente pequeno de famílias de
altos funcionários, pastores protestantes, eventualmente advogados ou médi-
cos. A maioria era de protestantes, mas universidades tradicionalmente católi-
cas, como a de Munique (Baviera), também abrigavam historiadores de peso.
Muito raramente encontram-se profissionais oriundos da comunidade judai-
ca. Todos esses profissionais tiveram formação muito semelhante, freqüenta-
ram o ginásio clássico e a universidade de perfil humanístico, identificavam-se
com os projetos sociais e políticos da burguesia intelectual protestante.8 O pri-
meiro a destoar dessa tônica, no programa metódico, foi Meinecke. A derrota
na 1.ª Guerra Mundial serviu à consolidação do conservadorismo historiográ-
fico e político nas universidades alemãs. Se Meinecke representou uma sorte de

49
Capítulo 3

conservadorismo mitigado, sua proposta de evoluir de uma história factual


para uma história intelectual não chegou a modificar radicalmente a tendên-
cia majoritária da história política estatizante e nacionalista. Os vieses concei-
tuais, sociais e econômicos na consideração do Estado não bastam para afetar
significativamente esse quadro.9
Com efeito, a República de Weimar ensejou o surgimento de um esbo-
ço de posicionamento crítico com relação ao passado alemão recente, que no
entanto ainda permaneceu inserida no âmbito da história política convencio-
nal, centrada em acontecimentos e indivíduos. A tradição historiográfica, com
Meinecke à frente, continuava a valorizar a vida política e intelectual alemã
como melhor do que o padrão ocidental. A crítica liberal, representada, por
exemplo, por Franz Schnabel,10 considerava ter sido um erro trágico da
Alemanha não ter seguido o modelo político ocidental da parlamentarização.
O período que se abre com a tomada do poder pelos nazistas em 1933
não traz mudanças substanciais no panorama da historiografia alemã. A deter-
minação ditatorial da padronização política da cultura e da comunicação
(Gleichschaltung) não acarreta ruptura sensível.11 A geração de historiadores
mais antiga não era, por certo, popular no sentido da discriminação e da prefe-
rência raciais, mas apoiava sem grandes ressalvas o Estado autoritário.
Sobretudo a política externa do 2º. Reich, parecia-lhes estar na linha de continui-
dade da política nacional tradicional. É fato que Meinecke foi forçado a abando-
nar a editoria da Historische Zeitschrift (publicada desde 1859) e que alguns cate-
dráticos foram aposentados compulsoriamente (como no caso de Hermann
Oncken12) ou experimentaram a prisão (como se passou com Gerhard Ritter13).
Por outro lado, todo esboço de um desenvolvimento crítico não-conformista era
reprimido, o que acarretou o desbaratamento da geração emergente de historia-
dores críticos, cuja carreira estava começando, que deixaram a Alemanha para
não mais voltar a ela como pesquisadores, como Hans Rosenberg.14
O Instituto do Reich para a História da Nova Alemanha, dirigido por
Walter Frank, órgão central da historiografia “partidária” da Alemanha nazista,
não produz nada de relevante para a historiografia crítica, na medida em que
está a serviço de opções político-ideológicas, a cuja sustentação vincula o traba-
lho de pesquisa.15 A tomada absoluta do poder pelos nazistas fez da revisão da
história alemã um tema crucial, que os historiadores no exílio passaram a se
dedicar. O estudo das grandes personagens da história alemã (notadamente
Bismarck) e a concentração nas grandes idéias indicam a manutenção de proce-
dimentos metódicos bastante tradicionais. A compreensão e a explicação das

50
Capítulo 3

condições de possibilidade do fenômeno nazista e de suas origens intelectuais


foram o objeto de trabalhos importantes, como The Crisis of German Ideology,
de George Mosse, publicado em Nova York, em 1964.16 Como o título do livro já
indica, o papel reservado às idéias e às mentalidades é de escol. Assim, os traba-
lhos dessa linhagem procuram demonstrar a vinculação de toda e qualquer
representação de comportamento ou de todo e qualquer padrão do agir a uma
estrutura social sempre determinada de alguma forma. Tanto os autores liberais,
como Mosse, quanto os marxistas, como Abusch17 ou Lukács18, atribuem ao fra-
casso da burguesia alemã dos séculos 19 e 20 em alcançar o poder político e a
falência do liberalismo na Alemanha os descaminhos de Weimar e do 3.º Reich.

O VAZIO RECALCADO: DO FIM DA GUERRA


À CRIAÇÃO DA REPÚBLICA FEDERAL
DA ALEMANHA (1945-1949)
A derrota do 3.º Reich e o vazio provocado pela desagregação territo-
rial, social, política, econômica e cultural da Alemanha de 1945, pode-se ima-
ginar, deveriam ter acarretado mudanças igualmente radicais na historiogra-
fia. No entanto, Iggers sublinha que, como em 1933, a ruptura não foi radical.19
E, sobretudo, não se deu uma inversão do fluxo migratório dos refugiados do
regime nazista. A ocupação militar e a divisão da Alemanha em quatro zonas,
associadas ao choque decorrente do desvelamento das atrocidades cometidas
pelo regime antes e durante a guerra, provocaram, isso sim, um imenso vazio.
A administração militar das zonas de ocupação e a separação entre as zonas
ocidentais (inglesa, francesa e americana) e a oriental (soviética) tornam-se
mais e mais evidentes. Ademais, a ordem do dia destes anos é marcada pela
desnazificação e se concentra na reorganização política e econômica das zonas
ocidentais. Embora o capítulo da desnazificação incluísse uma revisão dos
conteúdos trabalhados no sistema educacional, não houve uma dedicação
especial à questão histórica. Teve-se assim uma espécie de lacuna consentida.
Esse vazio, paradoxalmente, encobriu a circunstância de que, nos departamen-
tos universitários de História, tradicional reduto da historiografia, pouco ou
nada se alterou. A discussão crítica do passado recente da Alemanha se deslo-
ca para os institutos de Ciência Política, de concepção metodológica inovado-
ra – mediante a importação das teorias sociológicas para a crítica da história
política – e de criação administrativa recente, sob influência da politologia

51
Capítulo 3

anglo-saxã. Assim, a reflexão politológica ganha o passo sobre a histórica,


combinando, por exemplo, teorias da decadência política para a análise dos
elementos institucionais, ideológicos, sociais e econômicos da desagregação
moral da sociedade. O recalque historiográfico somente começa a ser supera-
do com a geração que passa à atividade a partir dos anos 1960. E a compensa-
ção historiográfica crítica ampla, no espaço de língua alemã, somente começa-
rá a aparecer na agenda da pesquisa e da discussão forçada por uma nova polê-
mica, a partir de meados dos anos 1980, conhecida como o Historikerstreit, em
torno do período nazista e do Holocausto judeu.

A HISTORIOGRAFIA NA ALEMANHA FEDERAL


(1949-1990): A REDEFINIÇÃO E A INDEPENDÊNCIA
O nascimento da nova república alemã de feitio ocidental ocorre, pois,
sob o manto de determinado grau de alienação política da historiografia.
Nenhum dos historiadores de espírito liberal, exilados da Alemanha nazista, vol-
tou definitivamente, dentre eles o próprio Georg G. Iggers.20 Outros historiado-
res, de corte mais conservador, mas perseguidos por motivos raciais, reassumi-
ram posições nas universidades alemãs. Assim, Hans Herzfeld (1892-1962),
Hans Rothfels (1891-1976) e Hans-Joachim Shoeps (1909-1980) após 1946. O
nacionalismo triunfal e o antidemocratismo político, tal como representado por
Rothfels, por exemplo, contribuíram para minar os fundamentos da República
de Weimar no espaço acadêmico. A instrumentalização inescrupulosa desse tipo
de historiografia teutocêntrica pelos nazistas não acarretou, contudo, a adesão
de um homem como Rothfels (que teve de fugir da Alemanha em 1938), mal-
grado ter havido forte polêmica em torno dele após a guerra.
Apesar de alguns atritos, o sistema universitário alemão, ao menos no
lado ocidental, não sofreu modificações notáveis. O modus operandi para o
recrutamento e para a seleção, para a promoção e para a titulação continuou o
mesmo. Até início dos anos 1970, quando há uma vaga de criação de novas uni-
versidades, o sistema secular da universidade alemã manteve o instituto da cáte-
dra e da “habilitação” (livre-docência) vinculada aos catedráticos. A inovação
principal, nos anos 1950, correspondentes ao resgate da independência crítica
da historiografia, vem do esforço metódico de utilizar as teorias sociológicas (e
politológicas) para estudar a República de Weimar e o 3.º Reich. Dois dos repre-
sentantes mais destacados desse período são Hans Mommsen (1930) e seu

52
Capítulo 3

irmão gêmeo Wilhelm J. Mommsen, filhos do historiador Wilhelm Mommsen


(1892-1966, afastado em 1945) e bisnetos do grande Theodor Mommsen
(1817-1903), Prêmio Nobel de 1902. Especialista em História Contemporânea,
Hans Mommsen (aposentado desde 1996) e seus discípulos passaram a se inte-
ressar de perto pelos fatores econômicos, sociais e institucionais que pesaram
sobre o período de 1918 a 1945. Sob a orientação de Mommsen, foram realiza-
dos estudos marcantes sobre a República de Weimar e sobre o regime nazista,
que se poderia qualificar de um primeiro grande movimento de “acerto de con-
tas” com o passado alemão recente. O fenômeno da modernização econômica
pela industrialização com as tensões que provocou na cena política, aliado à
inexperiência e ao menosprezo com respeito à república e à democracia, nesse
período crítico, dá o tom dessas pesquisas.
Hans Mommsen é tributário da proveitosa influência de Werner
Conze (1910-1986), sob cuja orientação doutorou-se. Conze, contudo, como
Otto Brunner (1898-1982) ou Theodor Schieder (1908-1984), já havia diag-
nosticado as limitações de uma história factual e pugnavam por uma abor-
dagem estrutural. Essa abordagem estrutural, fortemente dependente da
sociologia alemã de G. Ipsen e H. Freyer, logo evoluirá para a marca registra-
da da inovação historiográfica alemã do século 20: a história social. Animado
por um extraordinário dinamismo, Conze motivou um amplo leque de dis-
cípulos a adotar a perspectiva da história social, em seu Grupo de Trabalho
de História Social Moderna, em Heidelberg, a partir de 1957. Essa perspecti-
va se concretizava pela investigação empírica, pelas análises metódicas e pela
organização prática de grupos e instituições de pesquisa. Conze marcou a
concepção da história social como ciência integradora, como síntese do
mundo histórico, buscando superar as diferenças entre História e Sociologia.
A plataforma teórica, metódica e empírica do Grupo de Trabalho, algo como
sua vitrine de resultados, é a monumental obra Conceitos históricos funda-
mentais. Léxico histórico da linguagem político-social na Alemanha, editada
por Conze conjuntamente com Reinhardt Koselleck e Otto Brunner, a partir
de 1972.21 Outros resultados marcantes aparecem na série Mundo Industrial
(Industrielle Welt),22 abrangendo sistematicamente os temas do movimento
operário na era industrial, da história social da Alemanha Federal, da histó-
ria das famílias e da história dos intelectuais. Esse leque temático permitiu
tratar a história alemã, estruturalmente, como parte da história social
moderna e contemporânea da sociedade industrializada ocidental, mediante
recurso aos métodos habituais da pesquisa empírica e do modelo racionalis-

53
Capítulo 3

ta da ciência moderna. Essa abordagem não perde de vista, todavia, as ori-


gens do estado nacional alemão, sublinhando sua versão reequilibrada no
formato da república federal de 1949. Nessa república, a historiografia vê
realizada, politicamente, a meta da conciliação socioeconômica, consciente
das origens e das tensões nacionais, mediante a qual os conflitos de classe se
podem superar. Surgem, assim, nesse modo de considerar a Alemanha pós-
1945, dois elementos fundamentais da maneira de produzir história social:
de um lado, a tese da especificidade do caminho percorrido pelos alemães.
De outro, a impossibilidade de entendê-los sem situar a história alemã no
conjunto maior da história do Ocidente moral e político.
A discussão da especificidade e da comunidade alemãs tornou-se um
problema central da historiografia pós-1945. O nó górdio a ser cortado era o
equacionamento do 3.º Reich: entendê-lo, explicá-lo, enfim, exorcizá-lo sem
negá-lo nem minimizá-lo. Os historiadores liberais emigrados, como George
Mosse (1918-1999),23 não admitiam considerar o 3.º Reich um produto casual
de um concurso de circunstâncias excepcionais. Os historiadores mais con-
servadores, como Meinecke e Ritter, que estiveram aprisionados do assim
chamado “exílio interno”, ou os perseguidos por motivos raciais, como
Rothfels, que acabaram por ter de fugir, vêem o período nazista como uma
ruptura e uma descontinuidade com o que consideram ser as estruturas de
longo prazo da história alemã.24 Para essa corrente, o nacional-socialismo ter-
se-ia originado, não de uma característica alemã, de uma mescla das tradições
da democracia política, do socialismo e da industrialização, cujas raízes se
encontrariam na Revolução Francesa. Dessa forma, a ocasião para a mistura
explosiva do nazismo irromper na Alemanha não teria sido a falta, mas o
excesso de democracia em uma república inexperiente e demasiado desorga-
nizada, como teria sido a de Weimar. O Instituto de História do Tempo
Presente, de Munique, dedica-se a documentar essa tese, tomando como refe-
rência inicial a eclosão da 1.ª Guerra Mundial. Essa tendência pensa ter-se
desvencilhado, dessa forma, do lastro do passado nacional-socialista como
exclusividade alemã, sem entretanto negar-lhe a crueldade e a desumanidade.
É justamente contra esse pano de fundo que surge a segunda grande
controvérsia historiográfica do século 20 alemão. Em 1961, Fritz Fischer
(1908-1999), professor da Universidade de Hamburgo, lança um livro que
abala a “boa consciência” da historiografia até então com respeito ao nazismo.
A tese da descontinuidade do nacional-socialismo no longo prazo da história
alemã não se recuperará do choque provocado por Griff nach der Weltmacht

54
Capítulo 3

(Ambição de grande potência).25 Baseado em amplo material de arquivo, o livro


de Fischer expõe solidamente a tese de que a linha de longo prazo da política
alemã, pelo menos desde o período guilhermino, era a da ambição de predo-
mínio europeu e internacional, dentro da qual se situaria, por via de conse-
qüência, o expansionismo nacionalista nazista. A polêmica que se inaugura
com este livro inunda a corporação dos historiadores e transborda para o
mundo político de uma Alemanha às voltas com a crise da construção do
Muro de Berlim e com o crepúsculo da era Adenauer.26 Ela representa uma
virada notável na historiografia alemã, tanto pelo aporte teórico-metodológi-
co quanto por ter provocado o retorno da investigação do próprio passado
nacional. Fischer trabalhou o tema de modo convencional, recorrendo à docu-
mentação arquivística pública. Descobriu um memorando de 9 de setembro
de 1914 (entrementes famoso), em que Theobald von Bethmann Hollweg,
Chanceler do Império e Primeiro-Ministro da Prússia entre 1909 e 1917, for-
mulou pela primeira vez explicitamente os objetivos de guerra alemães. Esse
documento havia sido sempre deixado de lado pelos historiadores de viés con-
servador. Tomando-o como referência, Fischer articula dois argumentos
nodais para a virada historiográfica: a dependência mútua entre política inter-
na e política externa, de uma parte, e de ambas com relação a interesses eco-
nômicos. Para a historiografia ocidental até então, essa argumentação asseme-
lhava-se a uma verdadeira revolução, já que só apareciam em autores de inspi-
ração marxista. O terremoto causado por Fischer se deveu a duas claras afir-
mações: primeiramente, que o governo imperial, em julho de 1914, não corria
apenas o risco de entrar em guerra mas se havia preparado intencionalmente
para ela. Em segundo lugar, evidenciou que os objetivos expansionistas da
guerra eram apoiados pelos extremistas pangermânicos (como o futuro aliado
de Hitler na tentativa de golpe de 1923, general Luddendorf), como dispunha
de vasto espectro de simpatias populares e políticas. O congresso nacional ale-
mão de História, em 1964, reconheceu – após debates intensos e acalorados –
que Fischer afinal tinha boa dose de razão. Sua argumentação demonstrou que
a política alemã de 1914 provinha de continuidades e gerou continuidades
que, ainda nos anos 1960, careciam de análise crítica, tanto quanto ao passado
como quanto ao presente. A polêmica em torno de Fischer sinaliza uma troca
de guarda na historiografia alemã ocidental e a emergência de uma nova gera-
ção. A estabilidade econômica e o desenvolvimento positivo da convergência
social no espaço público alemão-ocidental abriram a reflexão para o processo
de modernização também no aparelho intelectual e universitário.

55
Capítulo 3

A análise categorial das teorias sociológicas recebe o reforço das teorias


econômicas do crescimento e o fermento crítico da Escola de Frankfurt (em
especial Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, Jürgen Habermas e Alfred
Schmidt) abrem as portas para uma aproximação diferenciada de Marx, cuja
dependência de Hegel é fortemente destacada. Essa combinação crítica indica
uma tomada de consciência, não apenas entre os historiadores, dos limites dos
métodos quantitativos, sem os rejeitar, a priori, como demasiado restritos. A
Escola de Frankfurt recusa a preferência “unidimensional” (Herbert Marcuse)
pelos “fatos” – comum a positivistas, comportamentalistas e historiadores quan-
titativistas – e defendem uma “teoria crítica”, que denuncia a irracionalidade da
situação política e social e promove a transição das relações sociais para uma
comunidade de homens autônomos, emancipada das coerções e dominações
irracionais.27 A visão de Marx de um homem não alienado é associada, pela
Escola de Frankfurt, ao pessimismo freudiano quanto aos limites de uma reor-
ganização social com sentido. A Escola fornece, assim, a uma geração ávida de
preservar o rigor documentalista do historicismo sem ter de arcar com o ônus
do conservadorismo positivista a ele associado, uma teoria crítica independente
e criativa, que permita admitir também a militância política sem comprometer
a qualidade científica e a autoridade acadêmica. A influência da Escola de
Frankfurt sobre a historiografia foi bastante difusa e, por conseguinte, de difícil
mensuração – na medida em que os integrantes da Escola não produziram mui-
tos trabalhos de história das idéias ou da cultura. Dentre os historiadores con-
temporâneos que reconhecem a influência da teoria crítica em seus trabalhos,
destacam-se Hans-Ulrich Wehler e Dieter Groh. O movimento de análise crítica
da história presente e passada a partir do final dos anos 1960, representada por
esses historiadores, inclui o importante fator do interesse na construção de uma
sociedade futura organizada racionalmente.28 A teoria crítica se mescla, na ativi-
dade historiográfica de enquadramento da memória alemã sob as condições
políticas e econômicas dos anos 1970-1980 com duas correntes fundamentais: o
pensamento de inspiração marxiana e o de inspiração weberiana. Essa tríade
compõe uma síntese da ênfase na clareza conceitual com o rigor empírico de
pesquisa, que correspondia à tradição das ciências sociais anglo-saxãs e da busca
de compreensão dos processos sociais de preservação e transformação.
O caldo de cultura da querela em torno de Fischer fez frutificar assim o
interesse pela análise crítica do passado alemão recente, com quadro referencial
teórico e procedimentos metódicos renovados. O fenômeno do nazismo e de
sua explicação carreia água para o moinho dos pesquisadores que defendem a

56
Capítulo 3

tese da continuidade (mesmo se relativa) na história alemã, ao menos desde a


fundação do Reich, em 1871. Bismarck e Guilherme II, tanto como as relações
políticas e sociais de Weimar, são fontes inesgotáveis de inspiração e de investi-
gação. As grandes estruturas sociais e os jogos de poder entre empresariado,
partidos políticos, aristocracia, forças armadas e assim por diante, são os obje-
tos que ocupam a primeira posição, mais do que indivíduos. Um dos textos
mais representativos dessa história social-estrutural do longo prazo é
Deutschlands Weg zur Grossmacht (Alemanha: a caminho da superpotência),29 de
Helmut Böhme, um discípulo de Fischer, publicada em 1966. O principal do
material de arquivo pesquisado por Böhme diz respeito à política comercial dos
Estados alemães. Diversos outros trabalhos seguem a mesma inspiração, res-
pondendo assim às questões levantadas por Fischer acerca da influência de gru-
pos de interesse econômico na política exterior. Muitos dos autores desses tra-
balhos são doutorandos de Fischer, em Hamburgo, de Gerhard A. Ritter, em
Berlim ou em Münster, ou ainda de Theodor Schieder e Werner Conze. Além
do impulso desses orientadores, os pesquisadores lançam mão de trabalhos –
até hoje pouco difundidos na Alemanha – de historiadores socioeconômicos do
período de Weimar, como por exemplo Eckhart Kehr, precocemente falecido
em Washington, em 1933, aos 31 anos de idade.30 Kehr antecipa uma história
inspirada em uma “teoria crítica” que combina as idéias de Weber sobre a buro-
cracia e a estratificação social com as de Marx sobre o papel do Estado como
promotor da dominação de classe. A publicação de Kehr em meados dos anos
1960, por iniciativa de Wehler, indica o novo vento que sopra sobre a historio-
grafia alemã, em direção à história social e à história cultural, integrando o fator
econômico na moldura maior do pensamento e da forma de vida.
Os trabalhos se enfileiram. Por exemplo: política, economia e sociedade
são os protagonistas estudados por Hans J. Puhle ao se debruçar sobre as alian-
ças dos agricultores,31 a social-democracia e seu papel na conformação institu-
cional da Alemanha a partir da fundação do Reich é o tema que publica Dieter
Groh,32 e o fenômeno do império alemão como um todo, para Hans-Ulrich
Wehler.33 Cabe mencionar que o crescimento exponencial do interesse pela his-
tória social e pela sua função na “domesticação” da turbulenta memória alemã
do século 20 conduz à fundação da talvez segunda maior revista de história da
Alemanha contemporânea: Geschichte und Gesellschaft, em 1975. O título e o
subtítulo consagram a tendência teórica da historiografia: História e Sociedade.
Revista de Ciência Social Histórica. Os índices dessa revista indicam como ela
passou a reunir o amplo espectro da preocupação social de apreensão e crítica

57
Capítulo 3

do passado (não só alemão, mas principalmente o da Alemanha) expresso na


nova geração de historiadores. Nesta, destaca-se o trabalho de Jürgen Kocka, for-
temente marcado pelas idéias de Max Weber. É de Kocka, então professor na
Universidade de Bielefeld, verdadeira Meca da escola alemã de história social, o
artigo inaugural da revista. Titular da Cátedra Meinecke na Universidade Livre
de Berlim desde 1988, Kocka é certamente o segundo maior representante da
escola de história social de Bielefeld.34 A tônica desses trabalhos não se situa na
influência direta ou preponderante dos interesses econômicos, mas no problema
mais profundo do predomínio social e político de grupos. A combinação do
método histórico tradicional da compreensão com a análise crítica textual apli-
ca-se doravante a problemas novos e a novos materiais. A estrutura e a mudan-
ça sociais são o cerne da questão. O desenvolvimento de pesquisas dessa nature-
za, contudo, acentua a necessidade de examinar mais detidamente o fundamen-
to teórico desta virada. Nos anos 1970, surgem, assim, estudos e pesquisas cada
vez mais especificamente voltadas para a teorização e metodização em História.
A teoria e metodologia da História, com sua aplicação empírica à pes-
quisa estrutural do pensamento, das idéias e dos movimentos sociais, passa a
ocupar uma posição de destaque nas preocupações da comunidade historio-
gráfica. A historiografia trabalha, admitidamente, com a concepção weberiana
do agir humano racional e intencional, a partir de valores. A História, como a
Sociologia, pode ser compreensiva, não de elementos psicológicos da subjeti-
vidade individual, mas de elementos intencionais da teleologia racional autô-
noma dos agentes. Os “tipos ideais” concebidos por Weber tornam-se, para a
historiografia, idéias regulativas, instrumentos heurísticos que auxiliam na
construção interpretativa da evolução histórica real. A Alemanha sedia – ao
lado dos Estados Unidos e da Inglaterra – o maior movimento de sistematiza-
ção teórica da ciência histórica do século 20. Reinhart Koselleck deve ser refe-
rido como o chefe de fila desse movimento. Sua obra é marcante e concilia
rigor empírico e estruturação do substrato teórico da história social e intelec-
tual como fatores de constituição da identidade temporal da sociedade alemã.35
Historicidade e historicização são constantes que Koselleck quer ver localiza-
das no tecido da formação social alemã, tanto pela cultura quanto pela lingua-
gem ou pela interdependência temporal entre passado, presente e futuro.
Semelhantemente ao medievalista francês Georges Duby, que afirmou ser a
História apenas o sonho controlado do historiador; Koselleck vê na constru-
ção historiográfica uma atividade em que o risco do subjetivismo é constante.
Somente o procedimento metódico preserva o historiador do risco do desva-

58
Capítulo 3

rio e do ficcionismo. A metodologia possui, assim, uma função corretora, ao


manter presente que a história não é auto-evidente, mas um artefato do histo-
riador, por certo nutrido pela autocrítica e pela ética da pesquisa. Koselleck
trouxe para a ribalta da historiografia as características do conhecimento his-
tórico como consistindo em algo mais do que o mero inventário das fontes. A
noção de constructo historiográfico e a teoria das múltiplas histórias possíveis
(a partir do mesmo estoque de fontes) devem sua sistematização a Koselleck.
Para o vivo debate que envolve a questão epistemológica da cientifici-
dade da história e a questão filosófica da historicidade da razão contemporâ-
nea, as pesquisas de Jörn Rüsen e os resultados por ele obtidos são fundamen-
tais e indispensáveis.36 Dentre os membros de um ativo grupo de pesquisas que
reuniu, na Alemanha, de 1973 até 1989, historiadores, filósofos, sociólogos e
politólogos, dedicado a dissecar atentamente a questão da história37, é Rüsen
apresenta um sistema moderno, abrangente e coerente de teoria da história.
Não resta dúvida de que a produção do grupo de trabalho (seis volumes) tor-
nou-se obra de referência, no mundo contemporâneo, para qualquer estudio-
so da teoria e da metodologia da ciência histórica. Em 1989, saiu o sexto volu-
me, organizado por Karl Acham e Winfried Schulze, marcado pela amplitude
filosófica da problemática relativa ao “todo” e à “parte”. Esse volume completa
um ciclo que ao mesmo tempo especializou-se e estendeu-se, numa demons-
tração do duplo aspecto que caracteriza a história: sua especificidade científi-
ca e sua abrangência racional. Da questão acerca da objetividade e do partida-
rismo na ciência histórica passou-se à dos processos históricos, à da teoria e
narrativa na história, à das formas da historiografia e, em 1988, à questão do
método histórico. Entre esses trabalhos e os de Rüsen subsiste uma relação de
dependência mútua: dificilmente aqueles volumes teriam sido possíveis sem a
contribuição decisiva de Rüsen e este, sem dúvida, não teria amadurecido e
formulado sua posição sem o debate e o desafio dos colegas, bem como, logo
após as primeiras publicações, sem a cordial e atenta expectativa do público.38
Detenhamos-nos no volume de Rüsen sobre a história viva. Já o título intro-
duz o leitor num universo radicalmente diferente daquele em que habitual-
mente se ouve falar de história, em que o passado (em certo sentido “morto”)
é determinante. Na abordagem sistêmica contemporânea, a função do presen-
te, por conseguinte dos interesses ativos atuais, é indispensável para a elabora-
ção de qualquer saber reconhecidamente válido. Nesses termos, um saber his-
tórico “a-histórico” seria um paradoxo cuja exigência metodológica careceria
de sentido. Assim, não há saber histórico sem forma; o saber histórico exerce

59
Capítulo 3

sempre funções na vida cultural do presente, e ambos desempenham um papel


essencial no trabalho do historiador. Para Rüsen, a forma e a função da histó-
ria são sua vida. Somente na medida em que o resultado (quantas vezes “seco”,
“árido”, “difícil”) da competência científica logra assumir forma socialmente
convincente e, portanto, exercer função de orientação, tanto para o especialis-
ta como para o grande público, ele vive. Sem essa dupla condição, considera
Rüsen – com razão –, de pouco adiantaria à História ter-se esforçado por obter
resultados que ficariam sepultados sob a poeira dos arquivos.
A interação pragmática entre saber e experiência histórica, de uma
parte, e a realidade presente do agente racional humano (seja ele o historiador
profissional, seja ele o cidadão comum que se depara com a historiografia ou
com o uso dela), de outra parte, inclui, nas tarefas da teoria da história, a refle-
xão sobre a questão do saber se e como a ciência histórica e sua produção se
relacionam praticamente com o agir social concreto do historiador. Assim, a
História, como ciência especializada, está continuamente em relação íntima
com educação, política e arte. Decerto, toca Rüsen aqui justamente um dos cír-
culos concêntricos mais amplos da ação historiográfica profissionalizada: a
difusão e o uso do saber histórico no discurso social, sobretudo na definição
da ação político-governamental, nas concepções pedagógicas (fundamentais
para o processo social de aprendizado dos papéis de identidade que são desem-
penhados na organização social e política dos homens, entre si e no Estado) e
na estilística narrativa (em que se resgata a candente questão literária, relativa
à historiografia narrativa, na perspectiva do discurso fundador e instituidor de
sentido), cuja função é igualmente importante no processo de convencimen-
to. Desde sua perspectiva integral, Rüsen propõe uma expressão globalizante
para apreender a complementaridade das operações históricas (apreensão,
compreensão, explicação): Geschichtskultur (cultura histórica). Não se trata de
mera erudição, mas da articulação sistemática do aspecto cognitivo praticado
pela ciência com os aspectos político e estético do mesmo trabalho sem que se
dê a (infelizmente) freqüente instrumentalização de um pelo outro.
Como Koselleck e Rüsen, muitos outros historiadores dedicaram-se ao
trabalho de fundamentação de seus construtos historiográficos. A diversidade
temática se amplia, mas a tônica continua recaindo sobre a estrutura de longo
prazo da Alemanha, ad intra, como organização nacional da sociedade,39 e ad
extra, como Estado ativo no contexto internacional40 e cuja sociedade é com-
parável e comparada com as demais em sua evolução política, econômica e
cultural. Nesse contexto é de recordar a monumental História Alemã (Deutsche

60
Capítulo 3

Geschichte)41 de Thomas Nipperdey. O autor evita, intencionalmente, utilizar a


expressão “História da Alemanha” ou “História dos alemães”, como outros his-
toriadores (alemães ou não). Nipperdey, como H. Schulze42 ou J.
Osterhammel43 são exemplos da história social crítica da Alemanha ao final do
século 20, que consolida a visão culturalista e estrutural do longo prazo, em
perspectiva compreensiva, enraizada entretanto em amplíssimo e pormenori-
zado trabalho de coleta em arquivos, sem tabus nem interditos.
Restava contudo, na Alemanha, às vésperas da reunificação em 1990,
um grande tabu. Se o período de Weimar e o do nacional-socialismo já se
haviam aberto ao corte crítico da análise, o holocausto dos judeus permanecia
velado sob um pudico véu constrangido. Desde 1985-1986 o tratamento da era
nacional-socialista trazia consigo dificuldades e divergências. Foi preciso que
biografias de Hitler, por assim dizer, desbravassem o caminho e desmitificas-
sem o tema.44 Em 1996, a publicação do livro do historiador americano Daniel
J. Goldhagen, sobre o Holocausto, desencadeia a terceira grande polêmica his-
toriográfica na Alemanha contemporânea, conhecida como a Historikerstreit.
A tese de Goldhagen é simples e dura: todos os alemães são corresponsáveis
pelo nazismo e pelo Holocausto. A reação é viva e arrasta atrás de si uma res-
ponsabilidade científica fundamental dos historiadores, sobretudo dos ale-
mães: existe culpa coletiva irrestrita? Corda sensível da memória e da cons-
ciência – privada e pública – alemãs, a questão levantada suscita um vendaval
de discussões e de posições contrárias. Sem que se entre no mérito do acerto
ou do desacerto da tese de Goldhagen, pode-se constatar que essa polêmica
tem o mérito de ter arrancado quem sabe o último véu da historiografia alemã
contemporânea. Essa é ao menos a clara conseqüência que se pode tirar, por
exemplo, dos ensaios de Hans Ulrich Wehler45 ou de Jörn Rüsen.46 Esse capítu-
lo da historiografia alemã ainda está sendo escrito – e sob a influência direta
de inúmeros impulsos vindos, de certa maneira, de fora, como no caso de Saul
Friedländer47 – e de modo menos passional ou interessado.

A HISTORIOGRAFIA NA ALEMANHA
ORIENTAL: MATERIALISMO HISTÓRICO
E ORTODOXIA POLÍTICA
O ano de 1949 viu nascer uma segunda Alemanha. A República
Democrática Alemã (DDR) emergiu da zona de ocupação soviética subse-

61
Capítulo 3

qüente à 2.ª Guerra Mundial. À semelhança da unificação política e da padro-


nização cultural impostas pela administração soviética, a vida universitária e
científica da Alemanha Oriental passa a estar submetida à ortodoxia doutri-
nária do marxismo-leninismo e do materialismo dialético. Assim, a historio-
grafia alemã-oriental dedica-se ao acerto geral de contas com um passado ale-
mão, regra geral recusado, e com a construção ideológica do “Estado dos tra-
balhadores e dos camponeses” como formato ideal da sociedade socialista.
“O passado, repete-se amiúde, deve ser domesticado. [...] Passado – eis
algo que não se apreende com golpes de machadinha ou vassouradas, incine-
rando o ruim e punindo o culpado.” Fritz Klein, o autor dessas linhas, certa-
mente sabe do que está falando. Ao publicar suas memórias em 2000,48 esse
reconhecido historiador da DDR, especialista na 1.ª Guerra Mundial, reconhe-
ce não ter sido crítico do Estado unipartidário na Alemanha Oriental. A expe-
riência da perseguição sob o regime nazista o transforma em um convicto
socialista. Ingressa no Partido Comunista da Alemanha em 1946, aos 22 anos,
por considerar haver sido este o único a ter resistido incondicionalmente aos
nazistas, a ter sofrido a mais brutal das perseguições e a ser os mais coerentes na
reconstrução política. Como Klein, muitos intelectuais da Alemanha Oriental
têm esse passado e essa disposição combativa. Confiante e otimista, o jovem
intelectual na Alemanha Oriental recém-dividida tem esperanças e expectati-
vas. Ilusões totalitárias parecem-lhes impossíveis. Esse otimismo – considerado
por alguns ingênuo – se transpõe para uma historiografia emancipatória e
libertária. Deficits de liberdade e de direitos não embaraçam os que se vêem
como arautos de um futuro melhor e construtores de uma sociedade igualitá-
ria. No entanto, o rigor crítico da pesquisa, que forja o especialista, logo põe a
dura prova o historiador. O redator-chefe da revista de História da DDR
(Zeitschrift für Geschichtswissenschaft) em 1953, é afastado em 1957 por motivo
de insuficiente fidelidade às diretrizes partidárias oficiais. Regra geral, contudo,
malgrado afastamentos e ostracismos, a absoluta maioria dos profissionais de
História na DDR manteve-se submissa à regulação partidária – independente-
mente da qualidade técnica que houvessem adquirido para a pesquisa docu-
mental. Um exemplo marcante dessa dependência, dessa subserviência está no
Atlas de História, de 1970, publicado por uma comissão do Partido Socialista
Unificado da Alemanha: no prefácio do primeiro volume, esclarece-se o leitor
de que os mapas mostram ao leitor “as linhas principais da luta de classes”, em
particular “as grandes batalhas de classe, a começar pela revolução, e, em rela-
ção com ela, a economia, as modificações político-territoriais, mas também os
processos intelectuais e culturais. Em seguida, a ênfase se dá “à formação e à

62
Capítulo 3

evolução das três poderosas correntes revolucionárias”... “que promovem o pro-


gresso da humanidade: o sistema socialista universal, o movimento internacio-
nal dos operários e o movimento nacional de libertação dos povos”.49 A histo-
riografia na DDR, pois, dispôs – isoladamente – de especialistas em campos res-
tritos (notadamente em História Antiga), mas no seu conjunto ficou escrava da
“segunda ditadura alemã do século 20” (Jürgen Kocka).50

A ALEMANHA REENCONTRADA:
A RECONSTRUÇÃO DE UMA
IDENTIDADE COMUM
Ao discursar na cerimônia pública solene de comemoração da reunifica-
ção alemã, em 3 de outubro de 1990, o ex-chanceler federal Willy Brandt, afir-
mou: “Agora cresce novamente junto o que pertence um ao outro”. As ciências
sociais alemãs, na página que se abriu em 1990, têm-se dedicado a escrever uma
história em que as rupturas sejam pensadas, interpretadas, entendidas, explica-
das e, sobretudo, culturalmente processadas. E não apenas no plano formal da
ciência, mas também no das consciências. Assim, a história como ciência da cul-
tura consolida-se como fator social de coesão e de articulação crítica do passa-
do. A interação com o ensino da história nas redes escolares, com o espaço públi-
co (museus, exposições, cinema, televisão), com o mundo editorial e periodísti-
co está igualmente sendo mais e mais valorizada. A história da Alemanha, dos
alemães, da sociedade e da cultura de expressão alemãs são variantes da historio-
grafia mais recente.51 Nela está presente também o aspecto multicultural compa-
rativo, tanto com respeito às sociedades implantadas na Alemanha (após o
período de imigração econômica provocado pelos “Trinta Gloriosos”, por exem-
plo: a comunidade turca) como relativamente à sociedade internacional, espe-
cialmente no caso da construção política da União Européia. A opção preferen-
cial da Alemanha Federal pela ocidentalização, em 1949-1995, transformou-se
em uma europeização decidida, que abriu também a historiografia.52

NOTAS
1 RÜSEN, Jörn. Historik. v. 1: Razão histórica (1983). Brasília: Ed. da UnB, 2001; v. 2:
Rekonstruktion der Vergangenheit (1986). v. 3: Lebendige Geschichte (1989).
Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht.

63
Capítulo 3

2 O primeiro grande balanço “clássico” dos caminhos da história no século 20 está em


SAMARAN, Charles (Org.). L’Histoire et ses méthodes. Paris: La Pléiade, 1961. Cf.
também: CARBONNELL, Ch.-O.; WALCH, Jean (Org.). Les sciences historiques de
l’Antiquité à nos jours. Paris: Larousse, 1994.
3 Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland
1914/1918. Düsseldorf: Droste, 1961. (3. ed. rev. 1967.)
4 Georg I. Iggers apresenta uma boa síntese das tendências historiográficas até meados
dos anos 1970: Neue Geschichtswissenschaft. Vom Historismus zur Historischen
Sozialwissenschaft. München: DTV, 1978. (ed. orig. Wesleyan University Press, 1975.)
5 Deutsche Geschichte. Berlin: R. Gaertners Verlagsbuchhandlung, 1895-1909. 12 v.
6 Weltbürgertum und Nationalstaat. Studien zur Genesis des deutschen Nationalstaates.
München: R. Oldenbourg, 1907.
7 Die Idee der Staatsräson in der neueren Geschichte. Berlin: R. Oldenbourg, 1924.
8 Cf. por exemplo, RINGER. F. K. The Decline of the German Mandarins. The German
Academic Community 1890-1933. Cambridge: Harvard University Press, 1969.
9 HINTZE, Otto. Wesen und Wandlung des modernen Staates. Berlin: Sitzungsberichte
der Preußischen Akademie der Wissenschaften, 1931.
10 Deutsche Geschichte im 19. Jahrhundert. Friburgo i. B.: Herder, 1929; Deutschland
in den weltgeschichtlichen Wandlungen des letzten Jahrhunderts. Leipzig: B. G.
Teubner, 1925.
11 Cf. diversas contribuições em FAULENBACH, B. Geschichtswissenschaft in
Deutschland. München: Beck, 1974.
12 1869-1945. Idoso, Oncken não sobreviveu para ver o renascimento alemão após
1945. Uma coletânea interessante de seus textos sobre o Estado, a nação e a história
está em: Nation und Geschichte; Reden und Aufsätze, 1919-1935. Berlin: G.
Grote'sche Verlagsbuchhandlung, 1935.
13 1888-1967. Ritter, ao retornar à cátedra, marcou – com seus numerosos discípulos
– o início do processo crítico de reflexão historiográfica.
14 1904-1988. Rosenberg somente retornou à Alemanha aposentado de Berkeley, em
1977. Sua obra mais marcante é Bureaucracy, aristocracy, and autocracy; the Prussian
experience, 1660-1815. Cambridge: Harvard University Press, 1958.
15 Cf. HEIBER, H. Walter Frank und sein Reichsinstitut für Geschichte des Neuen
Deutschlands. Stuttgart: Kohlhammer, 1966. W. Frank foi o historiador oficial do
partido nazista. Para o período nazista, sua atividade foi claramente política e os
textos publicados, discursos ou apologias político-partidárias como: Zur Geschichte
des Nationalsozialismus. Hamburg: Hanseatische Verlagsanstalt, 1934. Kämpfende
Wissenschaft. Mit einer Vorrede des Reichsjugendführers Baldur von Schirach.
Hamburg: Hanseatische Verlagsanstalt, 1934. Zunft und Nation; Rede zur Eröffung
des "Reichsinstituts für Geschichte des neuen Deutschlands”. von Walter Frank.
Hamburg: Hanseatische Verlagsanstalt, 1935.
16 Do grupo de historiadores no exílio, G. Iggers lembra ainda F. Stern:
Kulturpessimismus als politische Gefahr (Berkeley, 1963) e outros. Citado, p. 105.
17 ABUSCH, A. Der Irrweg einer Nation. Berlin, 1946 [em: Schriften. Berlin: Aufbau-
Verlag, 1967. v. 3].

64
Capítulo 3

18 LUKÁCS, G. Die Zerstörung der Vernunft. Berlin: Aufbau-Verlag, 1954.


19 Citado, p. 106.
20 Nascido em 1926, Iggers emigrou com seus pais ainda criança. Estudou, fez carrei-
ra e aposentou-se em Nova York.
21 Geschichtliche Grundbegriffe. Historisches Lexikon zur politisch-sozialen Sprache in
Deutschland. Stuttgart: Klett-Cotta, 1972-1997. v. 1-8/1 e 2.
22 Industrielle Welt. Schriftenreihe des Arbeitskreises für Moderne Sozialgeschichte.
Stuttgart: Klett-Cotta, 1962 (v. 1-59); Köln: Böhlau (v. 60 em diante).
23 1919-1999.
24 MEINECKE, F. Die deutsche Katastrophe. Zürich: Aero-Verlag, 1946. RITTER, G.
Carl Goerdeler und die deutsche Widerstandsbewegung. Stuttgart: Deutsche
Verlagsanstalt, 1955. ROTHFELS, H. Die deutsche Opposition gegen Hitler.
Frankfurt: Fischer, 1960.
25 Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18.
Düsseldorf: Droste, 1961.
26 Konrad Adenauer (1876-1967), 1º. chanceler federal alemão (1949-1963).
27 HORKHEIMER, Max. Traditionnelle und kritische Theorie. Zeitschrift für
Sozialforschung 6, p. 245-294, 1937. É o primeiro artigo em que o autor expõe o
cerne da teoria. Junto com três outros, é republicado em Traditionelle und kritische
Theorie. Frankfurt am Main: Fischer, 1970.
28 WEHLER, Hans-Ulrich. Bismarck und der Imperialismus. Frankfurt: Suhrkamp,
1984 (2. ed. de bolso; ed. orig. 1969). GROH, Dieter. Kritische Geschichtswissenschaft
in emanzipatorischer Absicht. Stuttgart: Kohlhammer, 1984.
29 Deutschlands Weg zur Grossmacht. Studien zum Verhältnis v. Wirtschaft u. Staat
während d. Reichsgründungszeit, 1848-1881. Köln: Kiepenheuer & Witsch, 1966.
Die Reichsgründung. München: DTV, 1967. Prolegomena zu einer Sozial-und
Wirtschaftsgeschichte Deutschlands im 19. und 20 Jahrhundert. Frankfurt:
Suhrkamp, 1968.
30 Der Primat der Innenpolitik. Gesammelte Aufsätze z. preuss.-dt. Sozialgeschichte im
19. u. 20. Jahrhundert. Hrsg. Hans-Ulrich Wehler. Berlin: De Gruyter, 1965.
31 Agrarische Interessenpolitik und preussischer Konservatismus im Wilhelminischen
Reich 1893-1916. Hannover: Verlag für Literatur und Zeitgeschehen, 1966.
32 Negative Integration und revolutionärer Attentismus; die deutsche Sozialdemokratie
am Vorabend des Ersten Weltkrieges. Frankfurt am Main: Propyläen, 1973.
33 Das deutsche Kaiserreich, 1871-1918. Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1973.
34 Unternehmensverwaltung und Angestelltenschaft am Beispiel Siemens 1847-1914.
Stuttgart: [Klett], 1969. Klassengesellschaft im Krieg. Deutsche Sozialgeschichte 1914
bis 1918. Göttingen: [Vandenhoeck und Ruprecht], 1973. Unternehmer in der deuts-
chen Industrialisierung. Göttingen: [Vandenhoeck und Ruprecht], 1975.
Sozialgeschichte. Begriff, Entwicklung, Probleme. Göttingen: [Vandenhoeck und
Ruprecht], 1977. Angestellte zwischen Faschismus und Demokratie. Zur politischen
Sozialgeschichte der Angestellten. USA 1890-1940 im internationalen Vergleich.
Göttingen: [Vandenhoeck und Ruprecht], 1977. Die Angestellten in der deutschen
Geschichte 1850-1980. Vom Privatbeamten zum angestellten Arbeitnehmer.

65
Capítulo 3

Göttingen: [Vandenhoeck und Ruprecht], 1981. Lohnarbeit und Klassenbildung.


Arbeiter und Arbeiterbewegung in Deutschland 1800-1875. Berlin: [J. H. W. Dietz],
1983. Bürgertum im 19. Jahrhundert. München: [DTV], 1988. Weder Stand noch
Klasse. Unterschichten um 1800. Bonn: [J. H. W. Dietz], 1990. Arbeitsverhältnisse und
Arbeiterexistenzen. Grundlagen der Klassenbildung im 19. Jahrhundert. Bonn: [J. H.
W. Dietz], 1990. Vereinigungskrise. Zur Geschichte der Gegenwart. Göttingen:
[Vandenhoeck und Reprecht], 1995.
35 Kritik und Krise. Eine Studie zur Pathogenese der bürgerlichen Welt. Frankfurt:
Suhrkamp, 1973; Vergangene Zukunft. Zur Semantik geschichtlicher Zeiten.
Frankfurt: Suhrkamp, 1979; Zeitschichten. Studien zur Historik. Frankfurt:
Suhrkamp, 2000.
36 Jörn Rüsen foi professor de Teoria da História nas Universidades de Bochum e de
Bielefeld (onde sucedeu a R. Koselleck em 1989). Preside, desde 1996, o Instituto de
Estudos Avançados de Essen. Destacam-se, entre suas obras: Grundzüge einer
Historik. Göttingen: [Vandenhoeck und Reprecht], 1983-1989. 3 v. O primeiro volu-
me (Razão histórica) está publicado pela Editora da Universidade de Brasília (2000).
Os outros dois volumes seguirão, Zeit und Sinn. Strategien historischen Denkens.
Frankfurt am Main: Fischer, 1990). Konfigurationen des Historismus. Studien zur
deutschen Wissenschaftskultur. Frankfurt am Main: [Suhrkamp], 1993. Studies in
Metahistory. Pretoria: [Human Sciences Research Council], 1993. Historische
Orientierung. Über die Arbeit des Geschichtsbewußtseins, sich in der Zeit zurechtzufin-
den. Köln: [Böhlau], 1994. Historisches Lernen. Grundlagen und Paradigmen. Köln:
[Böhlau], 1994. Historische Sinnbildung. Co-autoria com Klaus E. Müller. Reinbek
bei Hamburg: [Rowohlt], 1997. Zerbrechende Zeit. Über den Sinn der Geschichte.
Köln: [Böhlau], 2001. Kann Gestern besser werden? Essays zum Bedenken der
Geschichte. Berlin: [s.n.], 2002. Geschichte im Kulturprozess. Köln: [Böhlau], 2002.
37 Cf. minha análise: Atualidade e relevância da teoria da história. Um debate contem-
porâneo. Revista da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, 1, p. 49-58, 1983.
38 Outras obras de J. Rüsen de relevância para a questão da teoria e do método da ciên-
cia histórica, são: Begriffene Geschichte (1969), Für eine erneuerte Historik (1976),
Ästhetik und Geschichte (1976), além de diversos outros artigos em obras coletivas.
39 Por exemplo: FRIED, Johannes. Der Weg in die Geschichte. Berlin: Ullstein, 1998.
40 Cf. BOOCKMANN, H. et al. Mitten in Europa. Berlin: Siedler, 1999.
41 München: Beck, 1983-1992. 3 v.
42 Der Weg zum Nationalstaat. München: DTV, 1997.
43 Geschichtswissenschaft jenseits des Nationalstaats. Göttingen: Vandenhoeck und
Ruprecht, 2001.
44 Hitler. Eine Biographie. Berlin: Ullstein, 1973.
45 Entsorgung der Vergangenheit. Ein polemischer Essay zum “Historikerstreit”.
München: Beck, 1988.
46 Trauer und Geschichte. B. Liebsch und Jörn Rüsen (Hg.). Köln: Böhlau, 2001.
47 Nazi Germany and the Jews: The Years of Persecution 1933-1939. Griedlander:
[s.n.], 1999.
48 Drinnen und Draussen. Frankfurt: Fischer, 2000.

66
Capítulo 3

49 Atlas zur Geschichte. Berlin-DDR: VEB-Druck, 1970.


50 Die Auswirkungen der deutschen Einigung auf die Geschichts-und
Sozialwissenschaften. Conferência perante o Círculo de Estudos de História da
Fundação Friedrich Ebert, em Bonn, 29 de janeiro de 1992. [ed. eletrônica; Bonn:
FES Library, 1999.
51 WEHLER, H.-U. Historisches Denken am ende des 20. Jahrhunderts. 1945-2000.
Göttingen: Wallstein, 2001.
52 Cf., a título de exemplo, JEISMANN, K.-E.; RIEMENSCHNEIDER, R. (Org.).
Geschichte Europas für den Unterrricht der Europäer. Braunschweig: Westermann, 1980.

67
Capítulo 4

UM CERTO NÚMERO DE IDÉIAS


PARA UMA HISTÓRIA SOCIAL
AMPLA, GERAL E IRRESTRITA
Antonio Luigi Negro1

DEPOIS DA QUEDA
“Que o número de nossos membros seja ilimitado”, reza a primeira das
diretrizes da Sociedade Londrina de Correspondência.2 Ao citar esta conheci-
da passagem de Formação da Classe Operária Inglesa, não deveria constituir
grande surpresa reparar que dois dos mais lidos e inovadores estudiosos sobre
trabalho, no Brasil, também recorreram a ela quando se pronunciaram a res-
peito da influência de E. P. Thompson. O fato de José Sérgio Leite Lopes, em
uma mesa denominada Tributo a Edward Thompson, e Sidney Chalhoub,
noutra mesa (chamada E. P. Thompson no Brasil), terem invocado esse episó-
dio inglês é um traço do prestígio – mais abrangente – de toda a historiogra-
fia marxista britânica entre nós.3 Mesmo com a irritação que isso pode provo-
car em especialistas estrangeiros,4 E. P. Thompson, Christopher Hill e Eric
Hobsbawm têm sido – ao lado de outros mais (como C. Castoriadis, E.
Genovese, M. Perrot, R. Williams) – 5 uma vívida fonte de inspiração e referên-
cia, aqui e em outros países da América Latina.6
Vale reparar, a despeito disso, que o mais famoso livro de Thompson foi
citado apesar da inexistência de um diálogo longamente estabelecido entre os
estudos da classe trabalhadora brasileira, em geral divididos entre seu passado
autóctone e o influxo da imigração européia. Embora se verifique um consen-
so de que um tal diálogo seja necessário – e que já segue seu curso –,7 é notá-

69
Capítulo 4

vel encontrar a Sociedade Londrina de Correspondência como ponto de inter-


seção dos nossos estudos sobre trabalho nos séculos 19 e 20. Usada para tomar
de assalto as muralhas que dividiam os séculos 18 do 19 na historiografia da
Inglaterra,8 está servindo também para escrever uma história do Brasil não só
a partir da luta de classes mas a partir de uma classe trabalhadora que não seja
branca, industrial e urbana.
A título de provocação, pode ser argumentado que Chalhoub e Leite
Lopes não se confrontem, que dão de ombros para a questão; enquanto o pri-
meiro está voltado para o século 19, o segundo se interessa pelo 20 – e somen-
te a partir da Revolução de 1930. Precisamente, meu propósito é manter-me
na oposição a este raciocínio.9 A historiografia marxista britânica não é apenas
um recurso para nós brasileiros conhecermos a história social anterior e pos-
terior às ondas imigratórias européias mas também é da mais alta valia para
conhecermos o processo multicultural, interétnico e internacionalista de for-
mação da classe trabalhadora.10
De acordo com Chalhoub,11 os trabalhadores escravos do século 19
exibiam uma indefectível consciência da sua situação de classe. Uma tal per-
cepção acurada, ele argumentou, era informada por sua própria linguagem
de classe, que era produto de sua cultura de classe. Antes da defesa do ofício,
sua causa política era a liberdade, a emancipação. Ao se mobilizarem em fun-
ção disso, quando suas organizações se dirigiam ao Conselho de Estado
imperial demandando reconhecimento, podiam bem receber uma negativa
como resposta.
Em contraste com sua cultivada aura de tolerância, a recusa do Império
ante a requisição de reconhecimento por parte das organizações dos trabalha-
dores se revestiu de um alarme de classe. Os conselheiros de D. Pedro II expri-
miram apreensão acerca de uma “classe separada”, em vias de descolamento do
corpo nacional, uma formação que podia ser não só coesa mas também anta-
gônica. Como conseqüência, o imperador foi instruído a encomendar à polí-
cia uma infiltração entre os peticionários, o que providenciaria informações à
Sua Majestade.
Em seu livro,12 Leite Lopes nos interpela a dirigir a atenção para um
núcleo pioneiro de nossa industrialização, as fábricas têxteis (muitas delas de
tecnologia e capital britânicos). Ele então demonstra que a propalada origem
rural do operariado fabril não é tão desservida de recursos como se supõe
nem constitui “o” grande obstáculo à formação de uma consciência de classe
entre os trabalhadores.13

70
Capítulo 4

Ao examinarem casos bem distintos, Chalhoub e Leite Lopes eviden-


ciam os procedimentos democráticos para a incorporação de um número ili-
mitado de membros (ao menos teoricamente). Nesse sentido, ambos exami-
nam os padrões de associativismo, os direitos e deveres dos membros afiliados,
a exortação a um moral político elevado, o acesso à voz e à representação e prá-
ticas de auxílio mútuo. Pensando processos históricos particulares, analisam
uma história em que os trabalhadores se servem da lei não só para ganhar pro-
teção para seus costumes em comum mas também para criar direitos inco-
muns. Demonstram, ainda mais, como as ações dos trabalhadores podiam
levantar barreiras ao domínio senhorial ou patronal ao mesmo tempo em que
se revelam como uma classe subalterna.
Portadoras de dignidade à vida cotidiana de seus associados, as organi-
zações que Chalhoub e Leite Lopes abordam são evidência de que a emancipa-
ção dos operários é obra da própria classe operária. No Brasil oitocentista, isso
significa dizer que, com ou sem liberdade, os trabalhadores haveriam de se
defrontar com a inviolabilidade da voz de comando senhorial, num quadro de
relações sociais tingidas de paternalismo, mas nem por isso removidas de lutas
de classe.14
Esse vetor estrutural da sociedade e política brasileiras, na verdade, sobre-
viveria ao declínio do Brasil escravocrata e cafeicultor. No pós-30, a idéia de uma
regulação das relações capital-trabalho por uma lei universal, que determina
direitos e deveres recíprocos, confrontou-se, com freqüência, com valores e prá-
ticas cultivados, com arbitrariedade e na vida privada, pelas classes dominantes.
Esse fenômeno foi desde logo observado nos estudos sobre industrialização e
sindicalismo: a respeito do surgimento de um sindicato entre operários têxteis,
L. M. Rodrigues escreveu que sua constituição foi encarada “pelas empresas
como a quebra de uma relação de lealdade e respeito para com os patrões”.15
Retirar o inconteste arbítrio pessoal do senhor ou do patrão – ambos
mediados pelo “feitor” no trato com seus trabalhadores – e introduzir a dispu-
ta na esfera pública não provocava repulsa entre esses mesmos trabalhadores,
livres ou não, industriais ou não. Rompendo com a lógica da dominação de
classe, afirma Chalhoub, trabalhadores negros e escravos apresentavam seu
próprio conhecimento de como recorrer à lei e de como “encontrar aliados
eventuais em setores do governo e da burocracia empenhados em submeter o
poder privado dos senhores ao domínio da lei”.16
Em ambos os períodos históricos, os legisladores se deram conta de que
a lei podia servir para personagens que forçavam sua entrada no cenário públi-

71
Capítulo 4

co, desafiando ou desligando relações de classe privadas longamente estabele-


cidas. O temor de que, a partir daí, os trabalhadores podiam se organizar
melhor e se tornar progressivamente licenciosos e dissidentes – uma “forma-
ção” separada do “corpo” da nação – em geral, aqui no Brasil, acabou condu-
zindo os donos do poder a lançarem contra-ofensivas punitivas.
Nesse sentido, não pensemos, como algo excepcional, o conselho que
sugeria ao imperador munir-se de informações preparadas pelo seu chefe de
Polícia. Pois os trabalhadores têm sido classificados como uma classe perigosa
e, portanto, têm figurado constantemente, em múltiplas formas, na agenda das
diversas divisões policiais.17 É, por conseguinte, intrigante reparar que “tor-
nou-se comum” que os trabalhadores “na segunda metade do século XIX, na
Corte, (...) fugissem para a polícia – ao invés de fugir da polícia, experiência
mais marcante dos trabalhadores ditos “livres” – para confrontar seus senho-
res”.18 No período republicano, não deixa de ser igualmente intrigante encon-
trar trabalhadores industriais em mobilização por suas reivindicações invo-
cando a autoridade de um delegado de polícia como canal mediador de suas
questões trabalhistas – e isso tanto em contato com sindicalistas moderados
quanto com comunistas.
Enfim, nesse processo de recorrer à institucionalidade para responder
à experiência da conflituosidade de uma sociedade de classes – para surpre-
sa ou dissabor das classes dominantes –, os trabalhadores, ao se colocarem
em movimento visando à sua organização coletiva, servindo-se de suas pró-
prias forças, imediatamente dispararam um alarme de classe entre senhores
de terras e capitães de indústria, pois estes muito bem diziam que as institui-
ções não eram coisa para trabalhador e que o trabalhador não iria se ater ao
terreno institucional.

PRIMEIROS PASSOS
Apesar de toda a recepção oferecida, os estudos que os historiadores
marxistas influenciaram e motivaram por aqui ainda não foram objeto de uma
avaliação historiográfica sistemática. Isso exigiria tratá-los, por um lado, não
só em conjunto mas também em suas peculiaridades e, por outro lado, em suas
diversas repercussões, igualmente, sobre o conjunto e sobre áreas específicas
dos assuntos históricos brasileiros. Para falar um pouco do que já existe no
Estrangeiro, nossas editoras dão sinal de apostar mais na tradução do rentável

72
Capítulo 4

nicho das biografias, publicando a biografia de Thompson (escrita por


Palmer) e, recentemente, a autobiografia de Hobsbawm.19 Enquanto isso, livros
introdutórios ou balanços críticos, em que se destaca a atuação de Harvey
Kaye, têm se restringido aos leitores do inglês ou do espanhol.20
Oportunamente, o gradativo fortalecimento nacional dos programas de
pós-graduação, juntamente com o surgimento de revistas, têm propiciado a
difusão de traduções, resenhas, conferências e entrevistas, ampliando a base
para o especialista que deseja fazer aquele estudo.21 Em acréscimo, as listas ele-
trônicas de discussão também têm circulado material de relevo, sendo boa
parte o repasse de matérias de jornais.
Nesse sentido, sem almejar à guinada alguma, este capítulo pretende ape-
nas fortalecer os debates, para tal detendo-se em E. P. Thompson. As primeiras
citações que se fazem deste historiador marxista britânico acontecem, até onde
pude inventariar, no Rio de Janeiro e em São Paulo, em meados dos anos 1970.
No Rio, seus interlocutores hão de ser encontrados entre os pós-graduandos em
Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ). Acompanhando o encontro
entre Antropologia e História acontecido na obra de Thompson nessa mesma
década de 1970 (quando ele se pôs a esmiuçar o século 18 inglês), esses pesqui-
sadores lidavam com grupos de trabalhadores do Nordeste, rurais ou urbanos,
camponeses ou proletários, que, na época, eram invariavelmente responsabiliza-
dos pelo “atraso” da classe operária brasileira empregada no setor “moderno” da
economia. (Pois haviam, mediante sua migração, brecado com o ímpeto rebel-
de do operariado urbano de origem européia.)
Não só por causa de Thompson, mas certamente devido à sua obra,22 os
estudos antropológicos contribuíram para renovar as pesquisas sobre grupos
sociais com expectativas culturais marcadas pelo costume, para questionar e
superar a tese da passividade do proletariado de origem rural, para inserir, em
definitivo, a necessidade de considerar as classes sociais em suas mútuas rela-
ções de influência e poder e, por fim, para atestar que classe trabalhadora é um
fenômeno histórico e cultural.23
Em São Paulo, A Formação da Classe Operária Inglesa é citada por
Boris Fausto, mas não suscita maiores desdobramentos.24 No interior do
estado, a Unicamp se beneficiaria com a chegada de três professores estadu-
nidenses herdeiros da efervescência dos anos 1960 e 1970: Peter Eisenberg,
Michael Hall e, antes passando pela UFF, Robert Slenes. Por terem o inglês
como idioma materno – e ainda por estarem inseridos no campo cultural
cosmopolita e de debates do Atlântico Norte –, todos os três conheciam bem

73
Capítulo 4

de perto a obra da historiografia marxista britânica.25 A partir daí, a história


social teve uma evolução bifronte, servindo para o reexame do papel dos
afro-descendentes na história da escravidão e para o estudo da formação da
classe trabalhadora brasileira com a chegada dos imigrantes italianos nas
fazendas de café.26 Nessa época, a obra dos historiadores marxistas britânicos
soaria aos alunos e pesquisadores brasileiros ruidosa e inexplicavelmente
empirista, um estranhamento advindo de sua familiaridade com longas
exposições acerca da “natureza teórica e metodológica do percurso intelec-
tual do conhecimento histórico”. De maneira frustrante, Hill, Hobsbawm e
Thompson não forneciam esquemas categóricos, que “arrumavam” os proje-
tos em curso.
A certa altura, o que era bifronte veio a se delinear em bifurcação, que
se prolongou e distanciou caminhos. Apesar de não ter sido premeditada,
pouco a pouco se instaurou uma divisão. De um lado, os estudos sobre a escra-
vidão priorizaram os conceitos de luta de classes e experiência e, ao que pare-
ce, se ativeram na deslizante indagação de Thompson a respeito da luta de clas-
ses sem classes, hoje quase transformada em afirmativa. No entanto, a questão
está em delinear, em algum momento, a emergência da classe trabalhadora,
haja vista que a luta de classes não pode acontecer sem a presença das classes
sociais, indefinidamente.27
De outro lado, os estudos dos grupos operários em que as clássicas ins-
tituições operárias (sindicatos e partidos) já são um dado empírico silencia-
ram quanto ao embranquecimento que encontraram e não se perguntaram
pela presença de trabalhadores não europeus. Não questionaram a exclusão,
aludida por Silvia Lara, através da qual “não figura o trabalhador escravo”, a
personagem de três séculos de nossa história.28 Ainda mais, os anos 1980
foram marcados pela procura da autonomia operária e esta busca abateu a
curiosidade acerca dos trabalhadores descendentes da mestiçagem entre
brancos, índios e negros, que aparecem com toda a força na mão-de-obra
industrial do pós-45 em diante.29
Afinal, esse paralelismo está prestes a se transformar de modo quali-
tativo. A proposta da Formação da Classe Operária Inglesa – de derrubar as
muralhas que separam os séculos 18 e 19 ingleses – se situa hoje em vias de
se efetivar, por aqui, entre os séculos 19 e 20, descompartimentando as pes-
quisas e os debates. Sente-se, amplamente, a necessidade de integrar a inves-
tigação a propósito da luta de classes, classes sociais e consciência de classe
num esforço combinado.

74
Capítulo 4

Voltando ao passado, após aquele duplo desembarque, uma extensa disse-


minação tomou seu curso à medida que a universidade brasileira fortalecia o sis-
tema de pós-graduação. Tanto a solidez quanto a circulação das pesquisas e de
alunos e professores se intensificaram, propiciando renovação e diversificação, o
que exige um esforço cujos resultados não caberiam nos limites deste capítulo.30

PATERNALISMO, POPULISMO, TRABALHISMO


Em seu livro dedicado ao século 18 inglês, no capítulo “Patrícios e
Plebeus”, Thompson submete o conceito de paternalismo ao ambivalente exer-
cício de afunda e acode.31 Ele primeiro afirma que o paternalismo nada mais
serve do que para nomear fenômenos totalmente díspares entre si, não sendo
operacional para construir comparações ou contrastes elucidativos, mas ape-
nas para estabelecer confusões. Seu uso, ele prossegue, tem levado ao abuso, a
uma amplitude equivocada, confirmando sua ineficiência. Depois, sua própria
perspectiva – estabelecida a partir de cima (não sugere uma relação, mas uma
“sociedade de uma só classe”) – omite da História as classes subalternas. Uma
outra restrição é acrescentada – quanto à sugestão de um clima aconchegan-
te – : “o termo não consegue escapar de implicações normativas: sugere calor
humano, numa relação mutuamente consentida; o pai tem consciência dos
deveres e responsabilidades para com o filho, o filho é submisso ou compla-
cente na sua posição filial”. Na seqüência, chega-se a mais uma objeção: como
mito ou ideologia, o paternalismo promove uma visão retrospectiva, ideali-
zando o passado, o que mistura “atributos reais e ideológicos”.
Porque os historiadores marxistas britânicos são fundamentais para o
conhecimento dos costumes em comum assim como dos episódios de colisão
e mudança, outra reserva de Thompson merece destaque: paternalismo inibe
o reconhecimento da luta de classes. E foi precisamente explicitando a impor-
tância da luta de classes que essa geração transformou a visão de seu povo
acerca de sua própria história. A propósito, apresentando Hill ao leitor brasi-
leiro, Renato J. Ribeiro sublinha:

“se nós, brasileiros, devemos continuamente lidar com o mito do povo bom, cor-
dial, submisso, os ingleses têm um mito parecido, talvez ainda mais forte em sua
cultura: o da sociedade na qual as mudanças se fazem de maneira consensual, na
qual a gentileza (termo que remete à pequena nobreza, à gentry) prevalece sobre os
.32
conflitos, e estes não desandam em confronto.”

75
Capítulo 4

Hoje em dia, na mira de vários críticos, a operacionalidade do concei-


to de populismo com vistas a analisar diversos períodos da história latino-
americana tem sofrido censuras muito semelhantes àquelas feitas, acima, ao
uso de paternalismo. No entanto, enquanto os historiadores da escravidão
mantiveram a atitude de crítica e resgate, os disparos têm sido carregados
com intenções letais.33
Distintamente, não é esse o caso de um esforço concertado de repen-
sar a presença do operariado na história republicana.34 Argumentando que
não houve sindicalismo populista mas que havia populismo na política, tal
empreitada, que se inscreveu na organização dos episódios relatados a seguir,
é resultante desse amplo processo de ocupação dos espaços institucionais da
universidade, de debate sobre a historiografia marxista britânica e de “recons-
tituição detalhada” da história (a partir do convite de sair da sala de aula e
conhecer os trabalhadores).35
Reflexo disso tudo, em 1992, no auditório do Sindicato dos Químicos
de São Paulo, a mesa a respeito da Era de Hobsbawm reuniu José Sérgio Leite
Lopes, Marco Aurélio Garcia, Michael Hall e Nicolau Sevcenko, na companhia
do próprio Hobsbawm, para avaliar a importância de sua obra. Nessa mesma
vinda ao Brasil, perguntou-se a ele como iam os velhos camaradas. “Somos
amigos”, respondeu,

os vejo com alguma freqüência, estamos todos na esquerda, ainda somos militantes
e pesquisadores. Continuamos na luta e pensamos sempre na ligação profunda
entre o trabalho acadêmico e o militante, sem diferenciá-lo. Isto, eu acho, nos aju-
dou a ser bons historiadores.36

No ano seguinte, Leite Lopes, Maria Célia Paoli e Michael Hall integra-
ram outra mesa (já citada), Tributo a Edward Thompson. Ambas as ativida-
des foram promovidas pelo Instituto Cajamar (uma escola de educação
popular) e se desdobraram em duas publicações. A Era de Hobsbawm foi
transcrita por História Social, uma revista dos alunos da pós-graduação em
História da Unicamp (iniciativa editorial que possui congêneres Brasil
afora).37 Por sua vez, o pretexto para a sessão sobre Thompson, que foi o lan-
çamento da primeira edição doméstica de “As Peculiaridades dos Ingleses”,
resultou em outras duas edições domésticas e, afinal, na coletânea As
Peculiaridades dos Ingleses e Outros Artigos.38 Curiosamente, o ensaio “As
Peculiaridades dos Ingleses” – densamente empírico e historicista – fora reti-
rado da tradução de A Miséria da Teoria.39

76
Capítulo 4

Além disso, alguns dos pesquisadores citados aqui se somaram a outros


e, individualmente, colaboraram com o décimo segundo número da revista
Projeto História, dedicado a E. P. Thompson, discutindo sua influência por
ocasião de seu falecimento, em agosto de 1993. Também a palestra de José
Sérgio Leite Lopes se desdobrou numa atividade de maior fôlego, sobre pater-
nalismo industrial.40
Certamente, em nome do antagonismo a uma inventiva dos paulistas
ou, similarmente, em nome da recusa a uma construção da universidade esta-
dunidense, não vale muito a pena descartar populismo. Sob controle e refor-
mulado, pode ser útil; assim como tem sucedido ao paternalismo.41 Sem dúvi-
da, a oferta do abandono possui aspecto positivo: deixar de etiquetar tudo
como populista e reconhecer a diversidade interna, a especificidade e o confli-
to político do cambiante período 1930-1964, com isso deixando transparecer
um movimento operário, o trabalhismo.42

OUTRAS QUESTÕES
Quais as outras questões que a historiografia marxista britânica nos
ajuda pensar, formular e entender? Em poucas palavras, lá como cá, sua inter-
locução é indispensável para definir a forma e o conteúdo de concebermos a
História. Nesse processo, talvez hoje estejamos revivendo a experiência de
principiar com uma ofensiva bifronte e passar para uma bifurcação, opondo
cultura de classe à política da classe, o que, quanto às linhas de pesquisa, pode
dar origem a compartimentos institucionalizados. Em acréscimo, quanto à
própria maneira de formular o problema da existência das classes, isso pode
deixar de lado o fato de classe ser um fenômeno histórico e cultural, assim
como econômico. Numa banda, a história da cultura; noutra, a do trabalho.
Será que o ícone história social não é capaz de agrupá-las?
Ao analisar os costumes de lazer, os modos de vestir e as habitações da
classe trabalhadora inglesa dos anos 1870-1914, Hobsbawm notou que teria sido
possível “compilar uma grande antologia com os escritos socialistas (...), expres-
sando horror, desprezo e ridicularizando a estupidez e a indolência das massas
proletárias”.43 Em artigo notório, um velho princípio é afirmado: a história da
classe trabalhadora é maior que a história das ideologias revolucionárias, dos
sindicatos, dos partidos e dos seus movimentos reivindicatórios.44 A menor con-
seqüência que isso acarreta é retirar o foco das cúpulas e lançá-lo sobre suas

77
Capítulo 4

bases: os despolitizados, os simpatizantes, os ativistas, aqueles que não lutaram


todo uma vida – não sendo os imprescindíveis - ou que sequer “lutaram”.
Apesar desses ensinamentos, as pesquisas de grupos operários cujos
membros dispõem de sindicatos e partidos ainda precisam se esforçar para
não fazer dessas instituições verdadeiros biombos de representação, atrás dos
quais, em prejuízo do conhecimento, os trabalhadores são posicionados. De
todo modo, se a história do trabalho tem se renovado muito lentamente e em
grau insatisfatório (deixando a descoberto um amplo arco temático dos mun-
dos do trabalho), a história da cultura tem sua forte sedução desvanecida ao
desperceber as relações de classe vigentes nesses mesmos mundos.
De fato, os estudos do trabalho estão desafiados pela urgência de dar
conta de outros sentimentos e aspectos da experiência operária afora o proces-
so de trabalho e a revolta contra a exploração capitalista.45 Não precisam se
livrar dos sindicatos, das lideranças ou partidos, mas carecem de reconhecer e
refletir sobre aquilo que acaba sendo deixado de lado. Enquanto isso, os estu-
dos da cultura, ao afirmarem que cultura não é reflexo mecânico da experiên-
cia, abordam processos em que há luta de classes “sem” classes, recorrendo, em
compensação, à polarização elite-popular. Contudo, a questão é saber o que é
classe, o que pode constituir a razão de, supostamente, não haver classes num
processo de lutas de classe.
Pois a história dos trabalhadores extrapola definições rígidas ou pré-
noções descuidadas. Se o modelo se choca com a história, é ele quem deve ser
interrogado e refinado. Se a pesquisa e a análise partem de uma classe dos tra-
balhadores ancorada – como um ditame – no “sentido marxista clássico” (isto
é, a classe trabalhadora inglesa do século 19, ou a classe trabalhadora brasilei-
ra de carteira assinada, braços cruzados e macacão),46 estamos fadados a nunca
encontrá-la e a pensar os trabalhadores como uma massa. Em outras palavras,
aqueles fenômenos coletivos que não são urbanos, industriais nem galvaniza-
dos por multidões sindicalizadas podem ser, perfeitamente, fenômenos da his-
tória operária. Como a capoeira, por exemplo.47
E sua horizontalidade, enfim, é de classe.
Resta ainda o fato de a classe trabalhadora não ser um acontecimento
que se põe em congelador. De caráter nacional e processual, demanda tempo e
lugar amplos; classe é uma ocorrência que se delineia num largo período muito
além desse ou daquele grupo operário. Não só escapa aos números e às tabelas,
mas também não se enquadra facilmente em universos restritos ou de curta
duração, constituindo isso um problema para abordagens micro-históricas. No

78
Capítulo 4

entanto, a história social assim como a microanálise italiana, ao buscarem no


entrelaçamento das fontes o “vivido” (a experiência), visam à reconstituição de
redes de relações, encarnando-as em pessoas concretas.48
Indubitavelmente, várias maneiras de se abordar temas operários foram
ultrapassadas por feitos acontecidos dos frontes “da escravidão” ou “da cultu-
ra”, mas a classe, se está em formação, ou apesar de oferecer escassa correspon-
dência empírica, precisa, em algum momento, dar as caras (haja vista o Brasil
ter sido e ser uma sociedade de classes). É claro que popular, massas e traba-
lhadores pobres são termos úteis, mas apresentam a tendência a, indefinida-
mente, fazer de operariado, proletariado e classe trabalhadora um termo rude,
do facciosismo político ou não-brasileiro.
Outros sim, os pesquisadores têm dado, aqui e ali, a popular ou a ope-
rário, um papel histórico demasiado subterrâneo, tenaz, alheio ao institucio-
nal, às outras classes, aos políticos e governos. Sua história é sempre teimosa e
rebelde ao que, numa relação, vem de cima; sua carapaça cultural os deixa
imunes a ideologias e à hegemonia das classes dominantes, varrendo-se pro-
blemas e dissonâncias para debaixo do tapete da resistência.
Como observou Thomas Jordan,49 a divisão de ordem social da polícia
política não só vigiava sindicatos e “células” dos partidos, mas ainda controla-
va informações acerca de clubes e associações operárias, como escolas de
samba, times de futebol, sociedades literárias, etc. Ou outro departamento
policial ainda fornecia tolerância para encontros religiosos, batuques e festas,50
dando ouvidos às “rodinhas”, os voláteis círculos que os trabalhadores arruma-
vam para conversar seus que tais. Portanto, não precisamos forjar nada de
radicalmente novo, mas atravessar as fronteiras ou, adicionalmente, nos posi-
cionar de modo a contemplar todo o conjunto.
Desse modo, times de futebol tirados em fábricas não são, forçosamen-
te, uma armadilha dos patrões nem apenas área de infiltração de militantes
com vistas à agitação e ao recrutamento. Ativistas podiam usar seu tempo livre
para gozar o futebol, o samba e o carnaval e os trabalhadores podiam ver nos
times de futebol um espaço próprio de sua sociabilidade, sem o controle
patronal e das células revolucionárias.51
Concluindo, desse ou daquele matiz, os adeptos da história social have-
rão de desconfiar de suas narrativas quando se depararem com uma história
do conflito pautada entre a “resistência” e a crueza da exploração. (Mesmo o
estimulante conceito de cultura pode consistir em registro unificador e pacifi-
cador.) Não há mais espaço para a romântica expectativa da formação da clas-

79
Capítulo 4

se como um processo de marcha adiante, ininterrupto e irresistível. Assim,


embora seja um fenômeno observável (mas extraordinário), a “percepção
crescente de uma classe operária única, aglutinada através de um destino
comum sem levar em consideração suas diferenças internas”,52 não pode ser
um totem dos estudos históricos. Quer dizer, a classe trabalhadora de fato
pode hegemonizar outras classes, absorvendo-as, tornando-se uma classe no
sentido social, mas a “invisibilidade” das classes que lhe fornecem apoio (ou de
suas diferenças internas) não pode ser estendida no tempo.53 Quando isso
acontece, não é infinitamente duradouro. E quando deixa de acontecer, trans-
parece a reivindicação da diferença.
Para encerrar, uma revelação do casal Thompson. Na apresentação à cole-
tânea The Essential E. P. Thompson, Dorothy comenta o título do artigo “History
from Below” (já traduzido em português). Ela diz que tal título foi cunhado pelo
editor do Times Literary Supplement, etiquetando, no fim das contas, o tipo de
abordagem histórica a que ambos se afiliavam. Porém, Dorothy revela que
Thompson nutria reticências, pois o termo induzia a negligenciar “as estruturas
de poder na sociedade”. A História, enfim, nem sempre vem de baixo.54

GREVES, DISPUTA CULTURAL E MIGRAÇÃO


Consideremos as greves agora. Estas têm sido, notoriamente, uma cir-
cunstância para a expressão aberta de visões e interesses. E relevantes também
têm sido para unificar os trabalhadores em torno de valores e reivindicações
universais. Ao mesmo tempo, abrem a possibilidade para disputas culturais
entre esses, evidenciando, de novo, visões e valores conflitantes.
Simultâneas a demarcações de caráter étnico e profissional, várias dispu-
tas que observamos acontecendo em episódios grevistas versavam sobre a iden-
tidade de “bom trabalhador”, em geral homem e adulto.55 Para começar, a cren-
ça de um bom destino para um bom trabalhador era compartilhada por ope-
rários, feitores e patrões. Por conta disto, muitos empregados não aderiam a
mobilizações de protesto e de parada, preferindo manter-se alinhados com seus
superiores, vários deles ex-operários. Ser um bom trabalhador, neste caso, sig-
nificava manter a produção, preservando o bem-estar da firma e, assim, sua
parte no benefício gerado pela iniciativa privada, o próprio emprego e salário.
Dando outros significados à sua experiência, outros apreciavam a definição de
bom trabalhador e feriam a expectativa patronal quanto ao papel a ser seguido.

80
Capítulo 4

Numa pioneira fábrica de nossa industrialização automobilística – a


unidade São Bernardo da Willys-Overland do Brasil –, um dos pontos de
maior sensibilidade para a gerência era seu temor à transformação daquilo que
chamava de a “máquina de trabalho que o povo brasileiro criou”56 em engre-
nagem de greve, um componente da (igualmente receada) “República
Sindicalista”. Em nível mais geral, indiferentes à nacionalidade ou ao estágio
tecnológico, as empresas industriais fabris não acreditavam que podiam exis-
tir trabalhadores conscientes de seus desejos e direitos naqueles ameaçadores,
móveis, barulhentos e agressivos “esquadrões”, os piquetes.
Os bons trabalhadores não haveriam de ser encontrados em palestras,
assembléias ou em greves. Quando o eram, só estavam comparecendo porque
vinham constrangidos pela pressão dos radicais ou porque estavam implica-
dos à barganha clientelística “populista”. No entanto, quando o protesto social
vencia seus obstáculos internos e denotava unidade e força, a imagem da mul-
tidão era assim repelente que os patrões automaticamente deploravam a dis-
solução de supostos laços de cordialidade, serventia e obediência – tão carac-
terísticos no operário humilde – e, em seguida, cessavam com sua indulgência
mediante telefonemas para a polícia (civil, política ou de choque), requisitan-
do repressão.
Chegamos aqui a um ponto significativo: a Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT) deixou o local de trabalho a descoberto de direitos sindicais.
Todo trabalhador de carteira assinada possuía o sagrado direito à agremiação
e à associação, assim como os sindicatos receberam garantias de funcionamen-
to, mas ambos não dispunham de prerrogativas para o exercício do sindicalis-
mo no local de trabalho, estando esse arranjo na base de inúmeros conflitos.
Em aliança com a polícia política, o empresariado via na emergência do sindi-
calismo uma fratura no relacionamento com seus funcionários. Sua atitude
era de enxotar para a rua os envolvidos, os militantes, os dirigentes e as mobi-
lizações. Nas mesmas ruas, era comum o confronto com a repressão.
Também por conta disso, havia um tipo de luta que levava a produção a
uma certa paralisia, ao invés do seu completo bloqueio. A dificuldade tanto de
mapear líderes e bases quanto de encontrar uma representação para conhecer
as reivindicações e, muitas vezes, o fato de a paralisação não ter sido anunciada
publicamente eram suas características. Com acréscimo de uma fundamental:
por ser parcial, seu cenário era o recinto do trabalho. Chamada “greve branca”,
seu desenrolar não era pacífico. O caráter de surpresa e discrição era replicado,
novamente, com a ação policial, que era encarregada de dirimir a autoria, as

81
Capítulo 4

razões, os envolvidos. Se a ação combinada de chefes e policiais não fosse sufi-


ciente para debelar a resistência, precisavam ambos ter os operários nas ruas.
Agora agindo sozinha, a polícia havia distanciado os trabalhadores das depen-
dências patronais, salvaguardando-as, e estava pronta para agir com ainda
maior firmeza. Face a face com a repressão política, os trabalhadores eram mais
criminosos do que bons empregados. Agentes faziam detenções ou piquetes de
choque aguardavam enfileirados para intimidar e dispersar. Aí os grevistas
escolhiam entre ser trabalhadores em luta ou, sob pitos e apitos, recuavam.57
O que seria uma greve não-branca?58 Oposta ao tipo anterior, haveria de
ser maciça, convocada previamente e publicamente coordenada. Ressurgido
no segundo governo Vargas, tal tipo de luta se colava a campanhas sindicais,
geralmente por salários e pelo direito de greve. Nesse momento, a população
rural ou interiorana chegava às cidades. De contingentes diversos, certos
migrantes aparecem nas suspeitas de um investigador: “integrado na maioria
por nortistas”, e em “grande alarido”, um piquete fecha a Rayon Matarazzo.59
Apesar disso, é comum encontrar dirigentes sindicais de origem
migrante reclamando do “conformismo” ou da hostilidade de seus conterrâ-
neos. Desenhando a figura de um pobre refugiado de horizontes estreitos, sua
descrição é similar à representação da personagem Zé Brasil, um “pobre coita-
do”.60 É também semelhante ao menosprezo de sir John Russell que, em 1968,
se perguntou: “Irá o Brasil para o comunismo?”

O camponês pobre, ignorante e sem voz, a passar fome - deploravelmente - no


árido sertão, arando uma vida miserável na savana ressecada, devendo sua alma ao
armazém; qual interesse pode ele ter no “comunismo”… a não ser que seja algo
para comer?61

De qualquer modo, as pesquisas já têm demonstrado que sertanejos


não escapavam desordenadamente da seca e que eram capazes de controlar as
etapas de seu percurso. Ao migrante fugitivo resgatado pela indústria, devemos
contrapor a memória dos trabalhadores, com seus detalhes e explicações acer-
ca de suas estratégias ante o recrutamento patronal e seu preparo para o tra-
balho que, freqüentemente, rural ou urbano, requisitava esforço, resistência e
versatilidade.
Diferenças culturais dentro desse grupo operário mostram divisões
políticas concretas, bem distintas do confronto entre a politização do militan-
te e a falta de sofisticação do migrante. Tomado como um incluído na abun-
dância capitalista, para um migrante que se empregara numa metalúrgica, ele

82
Capítulo 4

se tornara paulista. São Paulo era “progresso” e ele mantinha o mesmo passo
ao refazer a identidade; sua fé em São Paulo era crença na empresa privada. Ao
explicar o fato de não ser sócio do sindicato de sua categoria, ele argumentou
que faltava autenticidade ao grêmio, que este era “político”, pois sustentava
posições pró-Cuba.62 Neste caso, a máquina de trabalho criada pelo povo bra-
sileiro não viria a ser uma máquina de greve.
Ocorre que outras fusões já seguiam seu curso, inclusive em fábricas do
setor “tradicional”, e longe do “urbano”. No final dos anos 1940, quando a divi-
são de ordem social da polícia política carioca devassou o Comitê Distrital do
Partido Comunista Brasileiro (PCB) em Vila Inhamorim, três células operárias
caíram em suas mãos. Se alguns de seus membros foram classificados como
“ativos”, “orientadores”, “agitadores”, “propagandistas”, outros foram descridos
como “manhosos” donos de “truques e disfarces”, “maneirosos”, “destemidos”.
Provavelmente, um bom quadro melhor seria se fossem espertos e valentes.63
Mais ainda, o encrenqueiro podia ser diverso do que lhe era atribuído pelo
outro, ou a partir de cima, alguém cuja ousadia e destemor colhia a atenção ou
a contrariedade da vigilância disciplinar. E alguém temido a partir de cima
podia ser admirado entre seus pares subalternos.
Em contraste com outras experiências históricas (principalmente a
européia), no Brasil, os operários de ofício não foram os artífices da agremia-
ção sindical dos operários não-qualificados. Sabedores disso, os estudos histó-
ricos estão construindo outras teses. Em 2001, no XX Congresso da Associação
Nacional de História (Anpuh), as exposições e os debates tanto registraram,
como já foi dito, a importância da historiografia marxista britânica quanto, em
paralelo, refletiram sobre a classe trabalhadora transatlântica, o encontro de
migrantes, imigrantes e locais na formação do operariado, os trabalhadores
escravos e livres, o regional, o nacional e o internacional, entre outros assuntos.

EM MOVIMENTO
Atravessando linhas fronteiriças de tempo, lugar e nações, a programa-
ção acima é, em grande medida, resultado da constituição do Grupo de
Trabalho (GT) Mundos do Trabalho, hoje estruturado em todo o Sul, São
Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. Seguramente, esse GT é crucial para reunir
esforços para a superação dos impasses e para o alargamento da renovação a
que alude Batalha.64

83
Capítulo 4

Para sua efetivação, vale refletir não só sobre a remoção das barreiras que
apartam nosso conhecimento da experiência das classes subalternas, mas tam-
bém sobre o debate interdisciplinar, os marcos e os conceitos históricos. Parte do
programa do GT Mundos do Trabalho no congresso supracitado, a conferência
de Marcel van der Linden reúne interessantes elementos nesse sentido.65 Antes de
tudo, pluralismo, por este ser inevitável bem como intelectualmente estimulan-
te. Em seguida, atenção e consideração para com dimensões transnacionais e
transcontinentais da história social, seja para o estudo das relações de produção
seja no que toca aos movimentos sociais. Sem ignorar o “outro lado” – as classes
dominantes e suas instituições -, há mais um “outro lado”, a família e a comuni-
dade, ambas juntas da experiência do trabalho, que, aliás, pode ser livre ou não,
assalariado ou não, arcaico ou moderno. Por fim, quanto mais preciso for recuar
no passado para o conhecimento histórico, assim acontecerá.
A análise precisa ser complexa e abrangente porque os conceitos e os
fenômenos que os embasam, além de específicos, podem ser construções exclu-
dentes. Essa sensibilidade foi entreaberta na própria Formação da Classe
Operária Inglesa, em que Thompson frisa não ser possível descurar a tenacidade
da autopreservação das classes subalternas, dispensando, por conseguinte, curio-
sidade aos “seus traços mais robustos e desordeiros” e descentralizando a impor-
tância dada aos sóbrios “antecedentes constitucionais do movimento operário”.
Pois os “sem-linguagem articulada”, isto é, aqueles grupos cuja história mal con-
segue transparecer em atas de reuniões partidárias ou sindicais “conservaram
certos valores - espontaneidade, capacidade para a diversão e lealdade mútua -,
apesar das pressões inibidoras”, vindas de cima.66 Trabalhadores de rua ou oca-
sionais, a própria população de rua, os sem-tetos ou a prostituição encontram
seu lugar no movimento operário somente após muita luta.67
Tudo isso é fundamental para assegurar que as classes subalternas não
sejam destituídas de sofisticação no seu ato de fazer cultura, história e produ-
zir o novo (quando isso é reconhecido). Desde há muito já se sabe que a migra-
ção não é a ponte com que o arcaísmo da tradição brasileira inunda e perver-
te a modernidade, infectando-a com passividade, ignorância e vivas ao popu-
lismo. A história social tem condições de formular uma nova equação geral
para repor uma outra, ainda estabelecida: o escravo como uma coisa dócil ou
brutalizada, substituído pelo imigrante anarquista, mas reposto pelo migrante
de origem rural, este último finalmente empurrado à verdadeira consciência
pelo arrocho salarial da ditadura militar, num movimento de retorno evocati-
vo do conteúdo libertário da República Velha.68

84
Capítulo 4

Nas palavras de Weffort, depois da “profunda cesura” inserida pelo pri-


meiro governo Vargas, com sua estrutura sindical corporativa, uma fase herói-
ca se encerrara; o movimento operário estava completamente esquecido de sua
história.69 Esta inclinação romântica ante o operariado da República Velha não
se sustenta mais: a historiografia tem demonstrado que os trabalhadores têm
muito boa memória e que não se acovardaram.70 Portanto, causa uma certa per-
plexidade ler que Vargas era detestado pela esquerda por conta da “construção
de uma máquina trabalhista que esmagou os antigos sindicatos anarquistas, só
prometendo benefícios aos trabalhadores dispostos a abandonar a militância”.71
Primeiro, desde os anos 70, temos progressivamente nos inteirado da
heterogeneidade e da competição políticas no meio operário, somente de
modo errôneo redutível a “anarquismo”.72 Em segundo lugar, houve desconti-
nuidade… e continuidade. Correntes reformistas não eram opostas visceral-
mente à presença reguladora do Estado, nas relações capital-trabalho. As pes-
quisas, inclusive, apontam para casos de grêmios que foram voluntariamente
refundados de acordo com a leis varguistas, sem maiores problemas, sem
serem destruídos, sem abdicar da militância política.73
Indubitavelmente, Vargas esmagou alternativas e antagonismos. No
entanto, a letra da lei, ao fornecer garantias legais de funcionamento aos sindi-
catos, não extinguiu sua independência. Isto só aconteceu da repressão à
Intentona Comunista, em 1935, em diante, até 1942, quando, defronte a um
quadro desalentador, Getúlio teve de inventar o trabalhismo. Sem abrir mão da
repressão política, combinou clientelismo, cooptação, conflito e consenso. Em
suma, o livro de Levine é injusto com os operários legendados de “pelegos”
(FIGURA 13). Na verdade, estão em torno da placa do Sindicato dos Estivadores
do Rio de Janeiro, um grêmio que merece um pouco mais de cautela.
Não nos tem parecido, em terceiro lugar, que o plano getulista de
“cidadania regulada” – pioneiramente identificado por Wanderley G. dos
Santos – foi capaz de abolir o reclame pela cidadania plena, em absoluto.
Historicamente, o operariado brasileiro se comportou de modo sensível a
demandas por direitos universais. O que, a partir de cima, é mais uma evidên-
cia de que a chanchada cucaracha pode se transfigurar na abordagem da his-
tória social, revelando a marcha do trabalho. Desde A Invenção do
Trabalhismo, a engenharia da política brasileira não precisa ser lida, a todo o
momento, como troca utilitária e manipulatória de vantagens materiais cor-
porativas por obediência eleitoral.74 Em acréscimo, como propõe Michael
Hall,75 trata-se reler a dinâmica política do ponto de vista de uma sociedade

85
Capítulo 4

de classes e em conflito. Por conseguinte, podemos formular o problema da


reinvenção do trabalhismo.76
Finalmente, nos anos 1930 e 1940, nem todas as forças esquerdistas
eram filosoficamente avessas ao corporativismo – e isso não constitui peculia-
ridade brasileira alguma.77

LEVANTAR AS BARREIRAS
Do final dos anos 1970 em diante, a história social no Brasil foi impeli-
da adiante pela força irresistível das lutas sociais. Movimentos de massas se
imiscuíram na política nacional e rearrumaram todo o sistema político,
reconstituindo instituições, fundando outras novas. Aquilo que Marco Aurélio
Garcia denominou de “ilusão social democrata” do novo sindicalismo não
pôde passar despercebido. Os primeiros anos do partido que esse movimento
ocasionou foram planejados com a expectativa de arrebatar os votos das clas-
ses subalternas a partir da crescente militância de um maciço proletariado
industrial que florescera, quantitativamente, durante a ditadura.
No entanto, o ímpeto militante revelou limites ante a própria rejeição
encontrada nas classes subalternas, por conta de seu conservadorismo ou de
sua baixa auto-estima. Em segundo lugar, recessões econômicas e o desgaste
do modelo de desenvolvimento trouxeram novos desafios. Em síntese, nem
todos os trabalhadores votavam em seus pares, ferindo as expectativas neles
depositadas. A frustração desse chamado foi interpretada como evidência de
preconceito, dominação e apatia. O que os historiadores sociais têm também a
dizer é que um metalúrgico militante – ou apenas um metalúrgico – não é um
brasileiro igualzinho a qualquer outro. A propósito, os historiadores marxistas
britânicos são uma referência para não ignorarmos a irrelevância de uma his-
toriografia ingênua em que a classe trabalhadora evolui indiferente à sua pró-
pria constituição interna, atropelando tudo que a negue.
Em uma de suas visitas ao Brasil, sob o impacto da dessindicalização
européia, Hobsbawm se avista com Luís Inácio Lula da Silva e toca no tema dos
trabalhadores pobres e o movimento sindical. Ele principia perguntando
como fazer para organizar os excluídos da economia formal.78 Lula reconhece
a procedência da pergunta e a inexistência de uma resposta de comprovada efi-
cácia, relacionando bons desempenhos nos pleitos à presença de sindicatos
fortes. Com certo saudosismo, recorda: “Fazíamos assembléia na porta de
fábrica, no estádio, mas também nos bairros; íamos conversar com o dono do

86
Capítulo 4

boteco, da quitanda”. O declínio da aguerrida politização do cotidiano, que


passou com a Nova República, a institucionalização das novas personagens e o
descrédito dos políticos contribuem para Lula ir bem só entre o eleitorado que
percebe de três a quinze salários mínimos. No entanto, ele informa: “mais de
65% da população vivem com menos de três”.
Sem almejar a receituários, a história social tem algo a fazer, podendo
contribuir à reflexão e ao conhecimento desses trabalhadores pobres. Estes, por
exemplo, se interessavam na objetivação de outros conflitos e de outras questões
além das “políticas”, não necessariamente “econômicos”. Na antiga Guanabara,
os favelados integravam a classe operária, disso sabia muito bem o pecebista
Moisés Vinhas.79 Muitas vezes, não exatamente a gosto dele, conduziam a uma
polarização “de massas populares num lado único, ou simétrico, frente às classes
dominantes”, absorvendo o proletariado e as camadas pauperizadas das classes
médias, formando um “contingente popular”. No Recife, os subempregados e os
marginalizados também imprimiam seu caráter “individualista, instável e explo-
sivo”. Dilatando as fronteiras da classe, formavam “aglomerados de ‘mocambos’”
com pressões que davam “lugar à luta de classes”.
“Causas (...) perdidas na Inglaterra”, escreveu Thompson, podem ser
“ganhas na Ásia ou na África”.80 Por aqui, os historiadores marxistas britânicos
são lidos e abraçados. Seduzem os leitores não só por conta da proposta de
uma história social, mas por darem respostas ao ceticismo que as pessoas sen-
tem quanto ao que lhes é dito ou ensinado. Prova disso foi a História Brasileira
Oficialmente Correta desafiada pelas próprias classes subalternas, nas come-
morações dos nossos 500 anos. Esse compromisso político não fica só na
empatia: seduz, ainda, pela própria maneira de formular o estudo, a pesquisa,
a transmissão e a defesa da História. Em todas essas coisas que nos são favori-
tas, os historiadores marxistas britânicos são cruciais.
Pão ou aço?, pergunta Josué de Castro em seu mais famoso livro.81
Vamos ter alimentos para todos e vamos nos agigantar economicamente? Não
é surpresa que a irresolvida questão social mantenha a atualidade dos concei-
tos de luta de classes e classe social. Com medo e cinismo, parte das classes
médias e, seguramente, as dominantes, em sua maioria, acorrem rumo ao
Primeiro Mundo, no Brasil mesmo, e mantêm os brasileiros fora de ordem
atrás de divisórias. “Paternalismo”, “populismo” e “modernização” não inibi-
ram o conflito de classes. Ainda há muita pesquisa e discussão a fazer sobre a
instalação das ocasiões - históricas - em que é possível implantar e consolidar
a cidadania como marca de nossas relações políticas e cotidianas.

87
Capítulo 4

NOTAS
1 Departamento de História, Universidade Federal da Bahia. Este capítulo foi apre-
sentado no Congresso “Making Social Movements. The British Marxist Historians
and the Study of Social Movements”. Ormskirk, 26-28 de junho de 2002. Desejo
expressar meu débito para com Michael Hall e Cristiana Schettini, pela ajuda e
interlocução permanentes. Aldrin Castellucci, Gabriela Sampaio e Maria Cecília
Velasco e Cruz contribuíram com comentários. Em acréscimo, registro o debate
feito no colóquio “Paternalismo, Consensos, Dissensos: Os Trabalhadores no
Brasil”. Fortaleza, 16 a 18 de outubro de 2002. Programa Nacional de Cooperação
Acadêmica (Procad) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes).
2 THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987. v. I, p. 15.
3 Tributo a Edward Thompson foi uma atividade levada a cabo pela equipe Mundos
do Trabalho, do Instituto Cajamar, em conjunto com a Secretaria Nacional de
Formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 28 de setembro de 1993.
Abonada mais adiante, a palestra de Sidney Chalhoub foi proferida no simpósio da
Associação Nacional de História (Anpuh), em Niterói, 2001.
4 BERGQUIST, Charles. Latin American Labor History in Comparative Perspective.
Notes on the Insidiousness of Cultural Imperialism. Labour/Le Travail, n. 25, 1990.
Diversamente das afirmações do autor, os nativos sabem o que fazer com as miçangas.
5 GENOVESE, Eugene. A economia política da escravidão. Rio de Janeiro: Pallas, 1976.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
CASTORIADIS, Cornelius. A experiência do movimento operário. São Paulo:
Brasiliense, 1985. PERROT, Michelle. Os excluídos da história. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1988. (De Williams, pela Nacional, já havia saído, em 1969, Cultura e sociedade.)
6 A obra de Williams ecoa na pesquisa de Daniel James. Ver: Ideologia populista e
resistência de classe: o peronismo e a classe operária, 1955-1960. Revista Brasileira
de História, 10, 1985. Para o Brasil, ver: CEVASCO, Maria. Para ler Raymond
Williams. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
7 EISENBERG, Peter. Escravo e proletário na história do Brasil. In: ______. Homens
esquecidos. Escravos e trabalhadores livres no Brasil, séculos XVIII e XIX. Campinas: Ed.
da Unicamp, 1989. ALENCASTRO, Luiz F. Escravos e proletários. Imigrantes portu-
gueses e cativos africanos no Rio de Janeiro, 1850-1872. Novos Estudos Cebrap, n. 21,
1988. RODRIGUES, Jaime. Índios e africanos: do “pouco ou nenhum fruto” do tra-
balho à criação de “uma classe trabalhadora”. História Social, Campinas, n. 2, 1995.
RODRIGUES, Jaime. Ferro, trabalho e conflito: os africanos livres na fábrica de
Ipanema. História Social, Campinas, n. 4/5, 1998. BATALHA, Cláudio. Sociedades de
trabalhadores no Rio de Janeiro do século XIX: algumas reflexões em torno da forma-
ção da classe operária. Cadernos AEL, n. 10/11, 1999. LONER, Beatriz. Negros: orga-
nização e luta em Pelotas. História em Revista, Pelotas, n. 5, 1999. VITORINO, Artur.
Escravismo, proletários e a greve dos compositores tipográficos de 1858 no Rio de
Janeiro. Cadernos AEL, n. 10/11, 1999. CRUZ, Maria Cecília Velasco e. Tradições
negras na formação de um sindicato: sociedade de resistência dos trabalhadores em
trapiche e café, Rio de Janeiro, 1905-1930. Afro-Ásia, n. 24, 2000. REIS, João. De olho

88
Capítulo 4

no canto: trabalho de rua na Bahia na véspera da abolição. Afro-Ásia, n. 24, 2000.


LONER, Beatriz. Construção de classe. Operários de Pelotas e Rio Grande (1888-1930).
Pelotas: Ed. da UFPel, 2001.
8 THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987. v. 1, p. 111.
9 “Há outros trabalhadores para se conhecer em suas peculiaridades, mesmo que não
afirmassem fazer parte de uma classe operária”. NEGRO, Antonio L. Imperfeita ou
refeita? O debate sobre o fazer-se da classe trabalhadora inglesa. Revista Brasileira de
História, v. 16, n. 31/32, p. 58, 1996. Ver também: LARA, Silvia. Escravidão, cidada-
nia e história do trabalho no Brasil. Projeto História, n. 16, 1998. Da mesma autora,
ver ainda: Trabalhadores escravos. Trabalhadores, n. 1, 1989.
10 A afirmação de que a classe trabalhadora é um processo e um fenômeno histórico
e cultural e de que é preciso considerar a experiência dos trabalhadores nos impli-
ca a sensibilidade para suas relações de disputa e unidade.
11 CHALHOUB, Sidney. A enxada e o guarda-chuva: a luta pela libertação dos escra-
vos e a formação da classe trabalhadora no Brasil. Palestra apresentada no XXI
Simpósio da Anpuh, Niterói, julho de 2001.
12 LOPES, José S. Leite. A tecelagem dos conflitos de classe. São Paulo: Marco Zero, 1988.
13 Em palestra no Brasil, Hobsbawm incluiu os grupos proletários compostos de
camponeses na análise do surgimento da consciência de classe, seja entre os minei-
ros andinos ou sul-africanos. Ver: Trajetória do movimento operário. Trabalhadores,
n. 2, p. 5, 1989.
Refletindo sobre outra abordagem – a micro-história –, que não é distante nem con-
trária à história social, Henrique Espada Lima F. anota que o ato da “troca” sobressai,
invariavelmente, nos estudos dos grupos camponeses. Comentando a obra de Grendi,
fala em “troca de bens, materiais e imateriais, isto é, como transação”, enfatizando-se
o exame das convergências e diferenças, a reconstrução das relações pessoais, tanto
verticais quanto horizontais, de união e conflito. Microstoria. Escalas, indícios e singu-
laridades. 1999 . Tese (Doutorado) – IFCH/Unicamp, Campinas, 1999. p. 204.
14 Ver: LARA, Sílvia. “Blowin” in the Wind. E. P. Thompson e a experiência negra no
Brasil. Projeto História, n. 12, p. 47, 1995.
15 Orelha de L. M. Rodrigues para LOPES, Juarez B. Crise do Brasil Arcaico. São Paulo:
Difel, 1967.
16 CHALHOUB, Sidney. A enxada e o guarda-chuva: a luta pela libertação dos escra-
vos e a formação da classe trabalhadora no Brasil. Palestra apresentada no XXI
Simpósio da Anpuh, Niterói, julho de 2001.
Ver também: XAVIER, Regina. A conquista da liberdade. Libertos em Campinas na
segunda metade do século XIX. Campinas: Centro de Memória: Ed. da Unicamp,
1996. AZEVEDO, Elciene. Orfeu de Carapinha. A trajetória de Luís Gama na
Imperial cidade de São Paulo. Campinas: Cecult: Ed. da Unicamp, 1999.
MENDONÇA, Joseli Maria N. Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os
caminhos da abolição no Brasil. Campinas: Cecult: Ed. da Unicamp, 1999.
17 A respeito da polícia política, ver: FONTES, Paulo; NEGRO, Antonio.
Trabalhadores em São Paulo: ainda um caso de polícia. O acervo do Deops paulis-
ta e o movimento sindical. In: AQUINO, Maria A. de; MATTOS, Marco A. V. Leme

89
Capítulo 4

de; SWENSSON JR., Walter C. (Org.). No coração das trevas: o Deops/SP visto por
dentro. São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2001.
18 CHALHOUB, Sidney. A enxada e o guarda-chuva: a luta pela libertação dos escra-
vos e a formação da classe trabalhadora no Brasil. Palestra apresentada no XXI
Simpósio da Anpuh, Niterói, julho de 2001.
19 PALMER, Bryan. Edward Palmer Thompson. Objeções e oposições. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1996. HOBSBAWM, Eric. Tempos interessantes. Uma vida no século XX.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
20 KAYE, Harvey. The British Marxist Historians. Cambridge: Polity Press, 1984. KAYE,
H.; McCLELLAND, K. E. P. Thompson. Critical Perspectives. Cambridge: Polity
Press, 1990.
21 Ver, por exemplo, o número 14 de Varia História (1995), dedicado a Bridgett Hill e
Christopher Hill. Ver também: A história feita de greves, excluídos e mulheres.
Entrevista com Michelle Perrot. Tempo Social, v. 8, n. 2, 1996. Certamente,
Hobsbawm está entre os mais entrevistados. Ver: O novo século. Entrevista a Antonio
Polito. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
22 A respeito da relação entre a historiografia marxista britânica e a sociologia de
Pierre Bourdieu (bastante influente no Museu Nacional), ver debate de José
Sérgio Leite Lopes com Roger Chartier: Pierre Bourdieu e a história. Topoi, n. 4,
p. 161, 163, 164, 2002.
23 Sumariamente, a respeito disso, ver, de LOPES, José Sérgio Leite. A formação de
uma cultura operária. Tempo & Presença, n. 220, 1987. História e antropologia.
Revista do Departamento de História, Belo Horizonte, n. 11, 1992.
24 FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). São Paulo: Difel,
1976. p. 9.
25 Ver relato de Hall em: Obra fascinante, mas perigosa! História Social, Campinas,
n. 4/5, 1998. Para quem o Atlântico fica mais ao sul, ver: LARA, Sílvia.
Peculiaridades no Brasil.Topoi, v. 3, 2001.
26 HALL, Michael. Immigration and the Early São Paulo Working Class. Jahrbuch für
Geschichte von Staat, Wirtschaft und Gesellschaft Lateinamerikas, band 12, p. 407,
1975. EISENBERG, Peter. Modernização sem mudança. A indústria açucareira em
Pernambuco, 1840-1910. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. SLENES, Robert;
MELLO, Pedro Carvalho de. Paternalism and Social Control in a Slave Society: The
Coffee Regions of Brazil, 1850-1888. Comunicação apresentada no IX Congresso
Mundial de Sociologia. Upsala, 1978. (Esta última referência é apontada por Lara
como pioneira análise da relação senhor-escravo a partir da abordagem de
Thompson do conceito de paternalismo. Ver: LARA, Sílvia. “Blowin” in the Wind.
E. P. Thompson e a experiência negra no Brasil. Projeto História, n. 12, p. 47, 1995.)
27 Thompson faz a pergunta se há luta de classes sem classes porque o século 18 inglês
é anterior ao fenômeno da classe trabalhadora inglesa, no sentido marxista clássico.
Em épocas ou sociedades em que as classes têm correspondência empírica rarefeita
com tal sentido, o conceito de luta de classes se revela de maior amplitude, mas
Thompson não deixa de falar numa relação entre classes realmente existentes, como
a gentry e a plebe. O fato de não ser possível encontrar formações de classe “madu-
ras” no século 18, “não quer dizer que aquilo que se expressa de modo menos deci-

90
Capítulo 4

sivo não seja classe”. THOMPSON, E. P. ¿Lucha de Clases sin Clases? In: ______.
Tradición, Revuelta y Consciencia de Clase. Barcelona: Crítica, 1989. p. 39.
Ele mesmo cita Hobsbawm: “no capitalismo, a classe é uma realidade histórica
imediata e em certo sentido vivenciada diretamente, enquanto nas épocas pré-
capitalistas ela pode ser meramente um conceito analítico que dá sentido a um
complexo de fatos que de outro modo seriam inexplicáveis”. HOBSBAWM, Eric.
Notas sobre consciência de classe. In: ______. Mundos do trabalho. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1987. p. 39. Nesse sentido, no Brasil, os escravos não formam uma
classe operária no sentido marxista clássico (um sentido específico, restrito a um
tempo e lugar), mas formam uma classe social, com sua cultura e linguagem de
classe e dona de sua própria história.
28 LARA, Sílvia. “Blowin” in the Wind. E. P. Thompson e a experiência negra no Brasil.
Projeto História, n. 12, p. 54, 1995.
29 Para mais detalhes, ver: FORTES, A.; NEGRO, A. L. Historiografia, trabalho e cida-
dania no Brasil. Trajetos. Revista de História UFC, Fortaleza, n. 2, 2002.
30 Novamente, cite-se aqui a atuação de Robert Slenes, já responsável pela orientação
de duas gerações bem definidas, em que figuram Sidney Chalhoub e Flávio dos
Santos Gomes.
31 THOMPSON, E. P. Patrícios e plebeus. In: ______. Costumes em comum. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998. p. 29 et seq.
32 RIBEIRO, Renato J. Apresentação. In: HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabe-
ça: idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987. p. 11. Apud SILVA, Fernando T. da. O paternalismo nos estudos de E. P.
Thompson sobre a Inglaterra do século XVIII. Campinas. Manuscrito, sem data.
33 Prós e contras são apresentados na coletânea organizada por FERREIRA, Jorge. O
populismo e sua história. Debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
34 Refiro-me aqui a grupo composto por Alexandre Fortes, Fernando Teixeira da Silva,
Hélio da Costa e Paulo Fontes e eu mesmo que, conjuntamente, editou o livro Na
luta por direitos. Estudos recentes em história social do trabalho. Campinas: Ed. da
Unicamp, 1999. As repercussões dessa coletânea podem ser verificadas, primeira-
mente, na resenha de Jorge Ferreira publicada em História Social (nº. 7). Ver tam-
bém: FRENCH, John. The Latin American Labor Studies Boom. International
Review of Social History, v. 45, pt. 2, p. 281, 2000. GOMES, Angela de C. O populis-
mo e as ciências sociais. In: FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história:
debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 57. WOLFE, Joel. The
Social Subject Versus the Political: Latin American Labor Studies at a Crossroads.
Latin American Research Review, v. 37, n. 2, p. 251-252, 2002. FERRERAS, Norberto
O. História e trabalho: entre a renovação e a nostalgia. Trajetos. Revista de História
UFC, Fortaleza, n. 2, p. 57, 58, 2002.
35 Ver: “‘Sair da sala de aula e ouvir os trabalhadores’. Movimentos Sociais, História e
Universidade na África do Sul”. Entrevista de Eddie Webster a Alexandre Fortes,
Antonio Luigi Negro e Paulo Fontes. História Social, Campinas, n. 3, 1996. A exor-
tação à reconstituição detalhada e de ida aos arquivos é feita por Slenes em: O que
Rui Barbosa não queimou: novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX.
Estudos Econômicos, v. 13, n. 1, p. 149, 1983. Semelhante chamada é feita pelo pró-

91
Capítulo 4

prio Thompson. Ver: NEGRO, A. L.; FORTES, A.; FONTES, P. Peculiaridades de E.


P. Thompson. In: THOMPSON, E. P. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos.
Campinas: Ed. da Unicamp, 2001. p. 48. Ver também: NEGRO, Antonio Luigi. O
fragmento como via de acesso à história social. Diálogos, v. 1, n. 1, 1997.
36 Brasil Agora, n. 30, 21 dez. 1992/24 jan. 1993.
37 Esse número de História Social (4/5) inclui artigo de Miles Taylor, “As guinadas lin-
güísticas da história social britânica”, uma polêmica não estabelecida plenamente por
aqui, ao menos no campo da história social. Apesar disso, ver: JAMES, Daniel. O que
há de novo, o que há de velho? Os parâmetros emergentes da história do trabalho
latino-americana. In: ARAÚJO, Angela (Org.). Trabalho, cultura e cidadania. São
Paulo: Scritta, 1997. Ver também: FONTES, Paulo. Classe e linguagem: notas sobre o
debate em torno de Languages of Class de Stedman Jones. Locus, v. 4, n. 2, 1998. A
grande diferença é que a história social britânica permanece um terreno valorizado,
em disputa, apesar do declínio do marxismo e da reestruturação contemporânea dos
mundos do trabalho. No Brasil, é freqüente o descarte do tema e da abordagem.
38 Para o interessado em consultar resenhas: FLORENTINO, Manolo. Exercícios de his-
tória total. Folha de S. Paulo, 24 jun. 2001. SEVCENKO. Nicolau. A mais estranha das
ilhas. Jornal de Resenhas, Folha de S. Paulo, 8 set. 2001. LARA, Sílvia. Peculiaridades
no Brasil. Topoi, v. 3, 2001.
39 Miséria da teoria foi o primeiro livro de Thompson publicado aqui, em 1981.
Possivelmente, o motivo de sua impressão foi a predominância de Althusser no
marxismo brasileiro. Foi sucedido por Exterminismo e Guerra Fria. São Paulo:
Brasiliense, 1985.
40 José Sérgio Leite Lopes destaca que, paradoxalmente, os “símbolos da dominação
tradicional são exagerados, teatralizados, reinventados”, muito mais utilizados do
que no contexto das grandes propriedades rurais. Ver: Uma teatralização tradicio-
nal da dominação industrial. In: ARAÚJO, Angela (Org.). Trabalho, cultura e cida-
dania: um balanço da história social brasileira. São Paulo: Scritta, 1997.
41 SILVA, Fernando T. da; COSTA, Hélio da. Trabalhadores urbanos e populismo: um
balanço dos estudos recentes. In: FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua histó-
ria. Debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
42 FERREIRA, Jorge. O nome e a coisa. O populismo na política brasileira. In:
FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história. Debate e crítica. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001.
43 HOBSBAWM, Eric. O fazer-se da classe operária, 1870-1914. In: ______. Mundos
do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 291.
44 HOBSBAWM, Eric. História operária e ideologia. In: ______. Mundos do trabalho.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 13, 18.
45 Um passo adiante foi dado por Adriano Duarte em Cidadania e exclusão, Brasil
1937-1945. Florianópolis: Ed. da Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.
46 “Classe como categoria histórica pertence ao preciso e dominante uso marxista”.
Em Marx, sobretudo em Capital, “é esta acepção dominante”, sendo “o pressuposto
de muitos, se não de todos, da tradição histórica marxista inglesa”. THOMPSON, E.
P. Algumas observações sobre classe e “falsa consciência”. In: ______. As peculiari-
dades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Ed. da Unicamp, 2001. p. 271.

92
Capítulo 4

47 PIRES, Antônio Liberac. Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá. Três personagens


da capoeira baiana. Tocantins: NEAB/Grafset, 2002.
48 GINZBURG, Carlo. O nome e o como. Troca desigual e mercado historiográfico. In:
______. A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989. p. 176, 178.
GRENDI, Edoardo. Ripensare la Microstoria? Quaderni Storici, n. 86, p. 540, 1994.
49 JORDAN, Thomas. Contesting the Terms of Incorporation. Labor and the State in Rio
de Janeiro; 1930-1964. 2000. Thesis (Ph. D.) – University of Illinois at Urbana-
Champaign, Urbana, 2000. p. 60.
50 Ver: SAMPAIO, Gabriela dos R. Pequenos poderes: disputas entre autoridades e tra-
balhadores pobres no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro em finais do Império.
Comunicação apresentada no colóquio Paternalismo, consensos, dissensos: os tra-
balhadores no Brasil. Fortaleza, 16 a 18 de outubro de 2002.
51 CORRÊA, Hércules. Memórias de um stalinista. Rio de Janeiro: Opera Nostra, 1994.
PEREIRA, Leonardo. Footballmania. Uma história social do futebol no Rio de Janeiro,
1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
52 HOBSBAWM, Eric. O fazer-se da classe operária, 1870-1914. In: ______. Mundos
do trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 288.
53 Ibid., p. 274.
54 THOMPSON, D. Introduction. In: ______. The Essential E. P. Thompson. New York:
The New Press, 2001. p. x.
55 Refiro-me à pesquisa realizada para Linhas de montagem. O industrialismo automo-
tivo e a sindicalização dos trabalhadores (1945-1978). 2001. Tese (Doutorado) –
IFCH/Unicamp, Campinas, 2001.
56 Noticiário Willys, n. 6, 1959.
57 Embora Sidney Chalhoub não volte suas reflexões para as fábricas, é hora de apro-
ximar as pesquisas sobre os “elementos” na mira dos policiais. Antes laborioso,
humilde e cordato, o trabalhador, ao assumir-se como grevista, cai na desordem,
vira uma ameaça. Ver: Classes perigosas. Trabalhadores, n. 6, p. 6 et seq., 1990.
58 Para greves de trabalhadores negros durante a escravidão, ver: REIS, João. A Greve
Negra de 1857 na Bahia. Revista USP, n. 18, 1993. Ver também: LONER, Beatriz.
Greve ou motim? As paralisações de trabalho de escravos e contratados. Comunicação
apresentada no V Encontro Estadual de História ANPUH/RS, Porto Alegre, 25-28
de julho de 2000.
59 Informe reservado, 18/10/57. Arquivo do Estado de São Paulo (Aesp), setor Deops,
30-B-7, fl. 79.
60 LOBATO, Monteiro. Zé Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1947.
61 RUSSELL, J. Communism and Brazil, 21/5/68. Foreign Commonwealth Office 7 286.
Public Record Office.
62 Viramundo, de Geraldo Sarno. São Paulo, 1965.
63 Listas de nomes, s.d. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), fundo
DPS, “Comitê Municipal de Magé”, D 596, fls. 2-5.
64 BATALHA, Cláudio. A historiografia da classe operária no Brasil: trajetórias e ten-
dências. In: FREITAS, Marcos. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo:

93
Capítulo 4

Contexto, 1998. p. 155-158. Outras recensões devem ser citadas. Ver: FRENCH,
John; FORTES, Alexandre. Urban Labor History in Twentieth Century Brazil.
Albuquerque: The Latin American Institute, The University of New Mexico, 1998.
LOBATO, Mirta (Dir.). Historia de los trabajadores (Argentina). Bibliografía.
Movimiento obrero y sectores populares. CD-Rom do Grupo de Trabajo (UBA,
UNCo, UNR). Buenos Aires, 2000. WOLFE, Joel. The Social Subject Versus the
Political: Latin American Labor Studies at a Crossroads. Latin American Research
Review, v. 37, n. 2, 2002. FERRERAS, Norberto O. História e trabalho: entre a reno-
vação e a nostalgia. Trajetos. Revista de História UFC, Fortaleza, n. 2, p. 57, 58, 2002.
65 LINDEN, Marcel Van der. Globalizando a historiografia das classes trabalhadoras e
dos movimentos operários: alguns pensamentos preliminares. Trajetos. Revista de
História UFC, Fortaleza, n. 2, 2002.
66 THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987. v. I, p. 61-62.
67 PEREIRA, Cristiana Schettini. “Que tenhas teu Corpo”: uma história social da pros-
tituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. 2002. Tese
(Doutorado) – IFCH/Unicamp, Campinas, 2002.
68 Ver: HALL, Michael. Trabalhadores imigrantes. Trabalhadores, n. 3, p. 11, 1989. Ver
também: GARCIA, Marco A. Os desafios da autonomia operária: São Bernardo a
(auto)construção de um movimento operário. Desvios, n. 1, 1982. GARCIA, Marco
A. Tradição, memória e história dos trabalhadores. In: CUNHA, Maria C. P. (Org.).
O direito à memória. São Paulo: DPH, 1992.
69 WEFFORT, Francisco. Origens do sindicalismo populista. Estudos Cebrap, n. 4,
p. 69, 70, 1973. Para uma crítica, conferir: FORTES, A.; NEGRO, A. L.
Historiografia, trabalho e cidadania no Brasil. Trajetos. Revista de História UFC,
Fortaleza, n. 2, p. 36, 2002.
70 COSTA, Hélio da. Em busca da memória. Organização no local de trabalho, partido e
sindicato em São Paulo. São Paulo: Scritta, 1995. SILVA, Fernando T. da. A carga e a
culpa. Os operários das Docas de Santos: direitos e cultura de solidariedade, 1937-
1968. São Paulo: Hucitec, 1995.
71 LEVINE, Robert. Pai dos pobres? O Brasil e a Era Vargas. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001. p. 145. Ver resenha: D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Getúlio Vargas
decifrado pelo olhar estrangeiro. O Globo, 27 jul. 2002.
72 HALL, Michael; PINHEIRO, Paulo S. Alargando a história da classe operária: orga-
nização, lutas e controle. In: PRADO, A. Libertários & militantes. Campinas:
Unicamp, 1985. (Coleção Remate de males, n. 5). BERTONHA, João F. Sob a som-
bra de Mussolini: os italianos de São Paulo e a luta contra o Fascismo, 1919-1943.
São Paulo: Anna Blume, 1999. TOLEDO, Edilene. O sindicalismo revolucionário em
São Paulo e na Itália: circulação de idéias, experiências na militância sindical trans-
nacional entre 1890 e o Fascismo. 2002. Tese (Doutorado) – IFCH/Unicamp,
Campinas, 2002.
73 BATALHA, Cláudio. Le Syndicalisme «Amarelo» à Rio de Janeiro (1906-1930). 1986.
Tese (Doutorado) – Universidade de Paris I, Paris, 1986. STOTZ, Eduardo. A união
dos trabalhadores metalúrgicos do Rio de Janeiro na construção do sindicato corpora-
tivista. 1986. Dissertação (Mestrado) – ICHF/UFF, Niterói, 1986. FRENCH, John.
The Origin of Corporatist Intervention in Brazilian Industrial Relations, 1930-34:

94
Capítulo 4

A Critique of the Literature. Luso-Brazilian Review, v. 28, n. 2, 1991. WOLFE, Joel.


Working Women, Working Men. São Paulo and the Rise of Brazil’s Industrial Working
Class, 1900-1955. Durham: Duke University Press, 1993. ARAÚJO, Angela. A cons-
trução do consentimento. Corporativismo e trabalhadores nos anos 30. São Paulo:
Scritta, 1998. FORTES, Alexandre. Revendo a legalização dos metalúrgicos de Porto
Alegre (1931-1945). In: FORTES, A. et al. Na luta por direitos. Estudos recentes em
história social do trabalho. Campinas: Ed. da Unicamp, 1999.
74 Ver: GOMES, Angela de C. O populismo e as ciências sociais. In: FERREIRA, Jorge
(Org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001. p. 48.
75 HALL, Michael. Resenha de Father of the Poor? Vargas and his Era, de Robert Levine.
International Review of Social History, v. 44, parte 3, 1999. Prefácio a Na luta por
direitos. Estudos recentes em história social do trabalho.
76 Ao investigar a interação das estratégias de industriais, políticos e partidos com o
movimento operário, minha tese de doutorado demonstra que a instalação de um
cinturão automobilístico de linhas de montagem assentou-se numa rede de alianças
patronal, policial, estatal e diplomática dedicada à neutralização dos esforços dos tra-
balhadores rumo a um sistema sindical independente da política estatal e dos patrões.
Em vista disso, as conquistas sociais dessa época são afirmadas no chão das fábricas,
e não benesses de acordos firmados em palácios. Ver: Negro, Linhas de, p. 79, 444.
77 HALL, Michael. Corporativismo e fascismo. As origens das leis trabalhistas brasilei-
ras. In: ARAÚJO, Angela (Org.). Do corporativismo ao neoliberalismo. Estado e clas-
se trabalhadora no Brasil e na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 18.
78 Brasil Agora, n. 30, 21 dez. 1992/24 jan. 1993.
79 VINHAS, Moisés. Estudos sobre o proletariado brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1970. p. 191, 198.
80 THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987. v. I, p. 13.
81 CASTRO, Josué de. Geografia da fome. O dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

95
Capítulo 5

CONVITE A OUTRA MICRO-HISTÓRIA:


A MICRO-HISTÓRIA ITALIANA

Carlos Antonio Aguirre Rojas*

“Não há razões, exceto as de uma tradição filosófica


nunca revisada, para supor que menos generalidade seja
o mesmo que menos valor epistemológico ou científico”.

Norberto Elias, Artigo “O Ócio no Espaço do Tempo Livre” (1986).

DA “MICRO-HISTÓRIA LOCAL” (MEXICANA) À


“MICRO-HISTÓRIA DE ESCALA” (ITALIANA)
Mencionar hoje no México, na comunidade de historiadores, o termo
micro-história é suscitar de imediato uma possível confusão. Porque, desde os
anos 1970 até hoje, e cada vez com mais força, o termo micro-história foi se
associando, pouco e pouco, ao projeto e ao modelo de história defendido e
explicitado pelo historiador mexicano Luis González y González, modelo que
encontra sua expressão e aplicação paradigmática no hoje bem conhecido
livro desse autor, intitulado Pueblo en Vilo.1
E, não obstante, quando se evoca o termo micro-história, tem-se em mente
a importante e cada vez mais difundida corrente historiográfica da micro-histó-
ria italiana, está se pensando num projeto intelectual que de fato se situa nas antí-
podas absolutas dessa “micro-história” de Luis González y González.

97
Capítulo 5

Abordando com cuidado as reflexões e a caracterização que o próprio


Luis Gonzálvez y González fez dessa mesma “micro-história mexicana”, é fácil
descobrir que nela se trata, fundamentalmente, de um retorno claro e explíci-
to aos horizontes e ao universo do muito antigo e amplamente difundido
ramo da história local. Retorno que, além do mais, não é concebido como sim-
ples volta atrás, no nível da história geral e dos modelos mais globais sobre a
história do México, como um retorno à tradicional história local e regional,
mas, sim, como uma reivindicação saudável da necessidade de regressar a esse
plano da história local e de âmbitos espaciais mais restritos como saída para o
esgotamento e a relativa falta de renovação dessas mesmas histórias gerais.
Assim, é o próprio Luis González y González que, para definir a sua ver-
são do que é a micro-história, vai recorrer à “história antiquária” de Nietzsche,
afirmando que esta última “[...] é a Borralheira do conto”. E depois, descreven-
do os traços e as raízes dessa micro-história, acrescenta: “[...] flui de manancial
humilde; origina-se no coração e no instinto. É a versão popular da história,
obra de aficionados de tempo parcial. Move-a uma intenção piedosa: salvar do
esquecimento a parte do passado que já está fora de uso. Procura manter a
árvore ligada às raízes. É a que nos conta o pretérito da nossa vida diária, do
homem comum, da nossa família e do nosso torrão natal”. E, para rematar a
frase: “sua manifestação mais espontânea é a história do povo, ou micro-his-
tória, ou história paroquial, ou história mátria”.2
Fica claro, portanto, que essa micro-história mexicana é, na sua essên-
cia, uma exortação explícita à volta e ao desenvolvimento da história local.
Exortação que, no contexto da profunda renovação historiográfica vivida pelo
México e sob os benéficos efeitos da importante revolução cultural de 1968,3
pareceria ter sido muito bem ouvida, atendida e respondida por todo um setor
dos historiadores mexicanos das últimas três décadas.
Mas, posto seja claro que não são nem o chamado conteúdo na obra de
Pueblo en Vilo nem os trabalhos de Invitación a la Microhistoria e Nueva
Invitación a la Microhistoria que provocam o importante apogeu da história
regional e local mexicanas posteriores a 1968, é igualmente certo que esse apo-
geu vai corresponder-se parcialmente e sustentar em parte a crescente e pro-
gressiva difusão dessa mesma “micro-história” proclamada e defendida pelo
historiador Luis González y González.4
Assim, é pertinente afirmar que a micro-história italiana está nas antípo-
das dessa micro-história mexicana. Pois se esta última é, em essência, apenas
uma nova versão da antiga história local, versão sofisticada e complexizada com

98
Capítulo 5

algumas das técnicas e dos métodos historiográficos desenvolvidos nos anos


1950 e 1960 pela história demográfica, pela história da vida cotidiana, etc., a
micro-história italiana é um projeto intelectual complexo que só utiliza o nível
do “local”, ou do “regional”, como simples e estrito “espaço de experimentação”.
Ou seja, a micro-história italiana não é, ao contrário do que o termo
micro poderia equivocadamente sugerir, uma história de microespaços, ou de
microrregiões, ou de microlocalidades – uma história local ou de espaços
pequenos e reduzidos –, mas, sim, uma nova maneira de enfocar a história que,
entre seus procedimentos principais, reivindica o da “mudança de escalas” do
nível de observação e estudo dos problemas históricos e, por conseguinte, utiliza
o acesso aos níveis “macro-históricos” – vale dizer, a escalas de observação
pequenas ou reduzidas, que podem ser locais mas também individuais ou refe-
ridas a um fragmento, a uma parte ou elemento pequeno de uma realidade
qualquer – como espaço de experimentação e trabalho, como procedimento
metodológico para o enriquecimento da análise histórica. Giovanni Levi é
muito explícito quando afirma: “A micro-história enquanto prática se baseia
em essência na redução da escala de observação, numa análise microscópica e
num estudo intensivo do material documental”, mas para esclarecer logo em
seguida que, “para a micro-história, a redução de escala é um procedimento
analítico aplicável em qualquer lugar, com independência das dimensões do
objeto analisado”, acrescentando que “o verdadeiro problema consiste na deci-
são de reduzir a escala de observação com fins experimentais”.5
E, não obstante, tanto a micro-história mexicana como a micro-histó-
ria italiana recuperaram e depois popularizaram, em seus respectivos âmbitos
nacionais – e, no caso da micro-história italiana, no âmbito europeu e depois
no de todo o mundo ocidental –, o termo micro-história, que, aliás, elas não
inventaram.6 E também ambas as histórias são filhas dos efeitos culturais e his-
toriográficos desencadeados pela Revolução Cultural de 1968, desdobrando
suas respectivas curvas de vida no mesmo lapso temporal das últimas três
décadas. O que explica, sem dúvida, porque no México a evocação do termo
se presta a confusão.
Mas também sublinha o fato de que apenas historiadores pouco atentos
ou pouco informados sobre os principais desenvolvimentos recentes da histo-
riografia mundial podem confundir a micro-história italiana com a micro-his-
tória mexicana. Pois a diferença clara e profunda que existe, por um lado, entre
uma versão mais ou menos sofisticada da antiga e tradicional história local ou
mesmo regional e, por outro, o complexo recurso do procedimento metodoló-

99
Capítulo 5

gico da “mudança de escala” e o acesso ao nível do “micro” como lugar de expe-


rimentação historiográfica é uma diferença que não pode escapar ao exame
cuidadoso de nenhum historiador atualizado no tocante ao estado geral dos
desenvolvimentos e das correntes da historiografia mais contemporânea.
Crise dos modelos gerais em ciências sociais que teve uma primeira
falsa saída no desenvolvimento das múltiplas posturas pós-modernas desen-
volvidas também depois de 1968. Uma falsa e cômoda saída que consistia sim-
plesmente em negar a validade ou mesmo a possibilidade de construir mode-
los “gerais”, aos quais qualificou de simples “meta-relatos” e ante os quais o que
se defende é um relativismo total das posições e do conhecimento historiográ-
fico – reduzido nessa ótica a meros relatos com pretensões de verdade –, rela-
tivismo que renuncia explicitamente ao caráter científico do conhecimento his-
tórico e reduz o resultado do trabalho do historiador à sua dimensão narrati-
va única e específica. Falsa alternativa pós-moderna que, não por acaso, será
duramente criticada e desmontada em seus pressupostos e implicações meto-
dológicas principais pelos expoentes da micro-história italiana.9
Diante dessa primeira resposta pós-moderna, que era um verdadeiro beco
sem saída para os historiadores confrontados com essa crise dos modelos gerais,
a micro-história italiana vai tentar outro caminho, completamente distinto, que
consiste em preconizar o retorno ao “micro” e a volta à história viva e vivida pelos
homens mediante a mudança de escala, mas sem renunciar em momento algum
à necessidade e até mesmo ao papel fundamental do plano do geral. Por isso,
Ginzburg vai definir a busca geral da corrente italiana, encarando-a como um
projeto cujo objetivo é a construção de um “paradigma geral capaz de explicar os
casos individuais e qualitativos, sem se reduzir à casuística”;10 vale dizer, restituir
o papel essencial do particular, das realidades diversas cujo intento de explicação
concreta gera justamente a construção desses modelos gerais, sem contudo aban-
donar ou negar a imprescindibilidade e a relevância dessa dimensão do geral.
Pondo, então, no centro de sua proposta historiográfica geral uma nova
forma de recuperação da complexa dialética entre as escalas macro-histórica e
micro-histórica da realidade social, os micro-historiadores italianos vão tam-
bém consolidar e afirmar de maneira definitiva o trânsito da historiografia ita-
liana para a sua condição de história social verdadeira e estrita. Já que, ao inda-
garmos sobre as razões que explicam o fato de a proposta macro-histórica
haver nascido e se desenvolvido na Itália, e não em qualquer outra parte do
mundo, abordamos também esse contexto historiográfico particular, que foi o
espaço de origem dessa corrente historiográfica que ora analisamos.

100
Capítulo 5

Fica claro, então, o porquê de a micro-história italiana se inscrever num


processo mais vasto, que a ultrapassa e a inclui, mas que também a determina e
a impacta e que é o processo já mencionado de desdobramento da historiogra-
fia da península italiana como história social renovada e estrita. Processo por
que todas as historiografias do século 20 tiveram de passar, mais cedo ou mais
tarde, e que na Itália se vê claramente retardada pela irrupção do fascismo e pelo
posicionamento italiano na 2.ª Guerra Mundial. Mas, como é bem sabido, na
Itália, o fascismo será vencido por uma profunda e organizada resistência social
popular, o que determinará o fato de que, ao sair da 2.ª Guerra Mundial, a tare-
fa imediata a cumprir pelos historiadores será a desse trânsito maciço e genera-
lizado dos espaços da historiografia jurídica, política e da filosofia da história
para os novos territórios da história econômica, social e cultural.11
Trânsito que não só explica a excepcional difusão e aceitação, na Itália
dos anos 1950 e 1960, do conjunto de trabalhos e contribuições feitos nesses
anos pela corrente dos Annales12 mas também o fato de a micro-história italia-
na ter sido formada e avalizada num clima altamente receptivo ao tipo de histó-
ria econômica, demográfica, social e cultural que ela vai desenvolver. E que
explica também o fato de algum autor ter caracterizado essa micro-história ita-
liana como o simples “caminho italiano” para essa mesma história social.
Mas a micro-história dos historiadores italianos, sendo sem dúvida
parte da nova história social da península e dela se alimentando, vai muito
além dela, conformando-se a uma proposta metodológica original e como
uma nova via da análise histórica que não por acaso ultrapassou os limites da
península itálica para se difundir com força na Europa e no resto do mundo
ocidental durante os últimos quatro lustros.
Torna-se difícil, portanto, entender essa originalidade e novidade da
proposta macro-histórica se não considerarmos certos dados que são caracte-
rísticos e singulares do contexto italiano dos anos 1950 e 1960 e que aludem,
num caso, a duas situações conjunturais dessa Itália do segundo pós-guerra e,
no outro, a realidades de longa duração da história italiana, que nessa mesma
conjuntura de pós-guerra se manifestaram também como elementos impor-
tantes e definidores dessa mesma micro-história.
Em primeiro lugar, não se pode entender a riqueza e a complexidade da
visão macro-histórica sem considerar a situação conjuntural de extremo cosmopo-
litismo cultural que a Itália conheceu nesses anos da conjuntura, que vai de 1945
a 1968, aproximadamente. Pois, como fruto do relativo declínio vivido pela his-
toriografia italiana, após o brilho dos trabalhos de Benedetto Croce e Antonio

101
Capítulo 5

Gramsci, entre outros, os historiadores da península se dedicaram a assimilar


tudo e a aclimatar tudo em sua paisagem historiográfica, recuperando tanto a
corrente dos Annales quanto a dos autores da Escola de Frankfurt, os resultados
da historiografia socialista britânica e a antropologia anglo-saxônica, assim como
suas próprias tradições italianas e as mais diversas correntes e autores da história
da arte, da crítica literária ou da antropologia dos diferentes países da Europa.
Uma abertura cosmopolita acendrada para os últimos desenvolvimentos do pen-
samento crítico nas ciências sociais contemporâneas, sem cuja assimilação e sín-
tese seria igualmente impossível entender essa mesma corrente da micro-história
italiana.13 Uma variedade e uma enorme multiplicidade das diferentes “fontes” ou
“raízes” intelectuais em que se apóia a proposta macro-histórica que constitui o
fundamento manifesto de suas complexas visões acerca da dialética macro/micro,
da própria definição do macro-histórico e do macro-histórico, de sua construção
progressiva da noção de cultura e de um novo modelo de história cultural, assim
como da profunda renovação imposta por ela às histórias econômica, demográ-
fica e social pelas quais incursionou. Complexidade de suas visões e propostas
teóricas, metodológicas e historiográficas que levou um historiador francês a
dizer que o lema dessa micro-história italiana é “por que fazer as coisas simples se
pode fazê-las de maneira complexa?”.14
Em segundo lugar, é óbvio que praticamente todos os representantes da
micro-história italiana se encontram situados em posições políticas ou ideoló-
gicas de esquerda, inserindo-se de múltiplos modos no leque de tradições e
filiações culturais dessa Itália do segundo pós-guerra, mas sempre em postu-
ras que questionam a sociedade existente e que denunciam o seu caráter injus-
to e explorador, reivindicando a necessidade e a vigência do pensamento
necessariamente crítico nas ciências sociais.15
Uma postura ideológica em perspectivas de esquerda que explica não só
o já mencionado distanciamento ante as posições e as falsas saídas pós-moder-
nas mas também o fato de os autores macro-históricos serem enérgicos pro-
motores da nova história social italiana, abordando temas ligados à história da
classe operária, da cultura das classes oprimidas, da formação e do funciona-
mento dos mercados nas origens do capitalismo, à história da formação das
elites e das classes dominantes ou ao papel dos saberes “indiciários” próprios
das classes populares na história, entre tantos outros.
Uma tomada de posição aberta nas fileiras da historiografia crítica con-
temporânea que, além de estar na base do caráter profundamente inovador e
revolucionário das teses macro-históricas, explica em parte tanto o espectro de

102
Capítulo 5

suas filiações intelectuais específicas atrás aludidas como a sua vasta difusão
fora da Itália, nos espaços da historiografia européia e ocidental – e até mesmo,
mais recentemente, japonesa.
Em terceiro lugar, e juntamente com esse cosmopolitismo cultural
acendrado e com a clara vocação de esquerda dessa historiografia italiana do
segundo pós-guerra, encontram-se também duas estruturas subjacentes de
longa duração que, manifestando-se com igual força nesses anos 1940, 1950 e
1960 recém-vividos, vão contribuir para definir os perfis específicos do proje-
to macro-histórico. Duas estruturas que, posto tenham estado presentes ao
longo de séculos e séculos, vão reatualizar precisamente a sua presença e o seu
impacto na cultura italiana depois do fim da 2.ª Guerra Mundial e justamen-
te como conseqüência da sua irrupção.
A primeira dessas arquiteturas de longa duração é a profunda e muito
amplamente difundida densidade histórica geral do espaço que hoje conhece-
mos como Itália. Densidade histórica extraordinária, que percebemos já de
imediato quando percorremos a cidade de Roma e nos deparamos, a poucos
metros de distância, com presenças e monumentos que nos resumem em
alguns quilômetros, como camadas estratigráficas que diríamos consciente-
mente ordenadas, a história européia pelo menos dos últimos vinte séculos.
Densidade que levou os historiadores a considerar a Itália “um livro aberto de
história”, um “arquivo vivo” que salta à vista quando percorremos as diferen-
tes áreas, zonas, povoados e cidades de toda a península itálica.16 Densidade da
história nacional italiana que é “anormal” em relação à média européia e oci-
dental e que se foi associando progressivamente à “identidade” da recém-cria-
da “nação” italiana; identidade que a ascensão do fascismo pôs em questão e
em crise e que se reatualizou nos seus efeitos e presenças justamente depois da
derrota de Mussolini e durante os anos de 1945 a 1968.
Concentração e caráter evidentes do “histórico” na cultura, na vida
cotidiana e na historiografia italianas que explicam em parte a construção da
micro-história italiana. Pois nesse espaço “cheio de histórias”, que é a Itália, é
mais fácil apreender essas múltiplas “escalas” da realidade histórica cujo jogo
e inter-relação estão no centro da proposta macro-histórica. Assim, a passa-
gem dos diferentes planos “macro-históricos” é mais fácil e fluida numa his-
toriografia que se enquadra numa realidade que é um verdadeiro repertório,
múltiplo, variado e quase inexaurível, de “exemplos”, de “casos”, de “indiví-
duos” e de “espaços” históricos da mais diversa ordem, tamanho, duração,
localização ou especificidade.

103
Capítulo 5

Finalmente, e como uma segunda estrutura de longa duração da reali-


dade social italiana que se atualiza também nas décadas imediatamente poste-
riores à 2.ª Guerra Mundial, há a extrema descentralização e multipolaridade
dessa unidade chamada Itália. Porque, como poucos países modernos, a Itália
é também “diversidade” e, portanto, uma paisagem que em verdade é uma sín-
tese complexa de regiões, zonas, cidades e espaços muito distintos. Mas, além
disso, junto à sua enorme diversidade estrutural, a Itália conta com o fato de
suas diferentes partes componentes se terem constituído, ao longo dos séculos,
em outros tantos pólos fortes de desenvolvimento e irradiação de fluxos histó-
ricos, provocando a circunstância de na península ser mais difícil pensar “o
geral” sem o particular, sendo mesmo mais difícil o próprio processo de cons-
trução epistemológica dessa dimensão da generalidade.17
Então, e como outro dos resultados criados pela situação da 2.ª Guerra
Mundial, que dilacerou também a Itália, dividindo-a entre a Itália fascista e a
Itália da resistência e reatualizando suas divisões e sua multipolaridade, é que
vai desenvolver-se a tentativa macro-histórica italiana que põe no centro essa
relação entre o modelo geral e o conjunto de casos ou realidades particulares
que o mesmo modelo pretende abarcar e explicar. Com o que se compreende
a bem-fundada crítica dirigida pelos micro-historiadores às insuficiências des-
ses modelos gerais e sua intenção de renová-los, injetando-lhes vida, mais uma
vez a partir do âmbito dessas realidades diversas, multipolares e específicas do
nível macro-histórico e particular.
Situações conjunturais e estruturais do contexto italiano de germinação e
gênese da micro-história italiana que talvez também expliquem em parte a hipó-
tese repetida por Fernand Braudel em diversas ocasiões, segundo a qual, depois
da 2.ª Guerra Mundial, o “centro cultural” da Europa se havia deslocado clara-
mente de Paris e da França, em geral, para Roma e a Itália, no seu conjunto.18

MICROBIOGRAFIAS, MICROLOGIAS
E MICRO-HISTÓRIA ITALIANA
Sem pretender reconstruir toda a história concreta dos principais
ramos ou vertentes da corrente macro-histórica italiana, nem tampouco seus
impactos e formas de difusão diferenciados na Europa, na América e no
Japão,10 tentaremos antes concentrar-nos no que consideramos o seu núcleo
duro epistemológico, constituído pelo procedimento macro-histórico da

104
Capítulo 5

mudança de escala e da reconstrução da complexa dialética entre o macro e o


micro em história, procedimento compartido pelos diferentes representantes
de seus diversos ramos ou variantes e que dá sustentação e consistência ao pró-
prio termo da dita “micro-história italiana”.
Com isso, não esquecemos que nos mais de quatro lustros de vida dessa
corrente historiográfica puderam evoluir e diversificar-se, derivando desse
ponto de partida ou matriz comum que é o procedimento macro-histórico,
tanto um ramo de autores que se aprofundaram sobretudo na linha da reno-
vação geral da história econômica, demográfica e social como também, em
outra vertente, uma linha que se desenvolveu privilegiadamente no espaço da
reconstrução e afirmação de uma proposta de história cultural nova e original.
A primeira, associada aos nomes de Eduardo Grendi, Giovani Levi e
seus discípulos, que incursionou preferencialmente no tema da relação entre
os indivíduos ou atores e seu contexto específico, entrando então no estudo do
que se chamou de análise das redes macro-históricas e reprolematizando a
partir daí temas como o da biografia e o da relação entre os diversos sistemas
de normas e os espaços possíveis de sua transgressão, os modos concretos de
ajuste do funcionamento de um mecanismo econômico, as formas de coesão
e comportamento das elites, a mudança geracional dos padrões de expectati-
vas e percepções de uma classe ou as formas específicas de inserção dos grupos
numa entidade urbana mais global entre outras.20
E a segunda, vinculada quase exclusivamente ao nome e à obra de
Carlo Ginzburg, que se empenhou em desenvolver um modelo de construção
novo e original para o estudo da história cultural, modelo que coloca no cen-
tro de atenção o resgate complexo da cultura dos oprimidos, da revalorização
do “ponto de vista das vítimas”, redescobrindo e explicitando o “paradigma
judiciário” como método de recuperação dessa cultura popular, ao mesmo
passo que insiste na necessária e iniludível inter-relação e interdependência
entre a cultura de elite e a cultura das classes submetidas, reproblematizando
os modos gerais e específicos de sua dialética complexa e permanente.21
Mas, para além das contribuições específicas dessas duas vertentes
macro-históricas, cuja análise mereceria um ensaio à parte, o espaço
comum compartido por ambas é o do já referido procedimento macro-his-
tórico. Procedimento que, como seu nome indica, implica, em princípio,
uma clara reivindicação de retorno ao nível macro-histórico, retorno preco-
nizado ante o esgotamento e a crise dos modelos globais e concebido como
um caminho possível para recuperar essa dimensão viva e vivida da histó-

105
Capítulo 5

ria, essa diversidade obliterada nos modelos globais questionados, retorno


que, sem cair na falsa saída pós-moderna, permitiria renovar e relançar a
história social italiana.
Todavia, longe de uma interpretação demasiado fácil desse retorno, o
que os autores italianos propõem é voltar à dimensão macro-histórica, mas
sem abandonar o nível dos processos macro-históricos, sem incluir-se total-
mente no espaço micro, porém antes, ao contrário, penetrar nele para recriar
um modo novo de assumir tanto o macro como o micro em história, redefinindo
também de um modo novo a sua complexa dialética. Porque, ao propor essa
volta ao âmbito das realidades macro-históricas, os autores que se vão concen-
trar durante um período em torno da equipe construtora e diretora da hoje
célebre revista Quaderni Stociri22 vêem como muito clara a necessidade de se
distanciar, criticamente, das duas formas tradicionais e mais difundidas de
enfrentar essa dialética macro/micro que foram tentadas no passado e que, no
fundo, resolvem o problema privilegiando apenas de um dos seus termos e
reduzindo o outro a esse primeiro termo.
Pois é uma redução da complexidade desse nexo macro/micro conceber
o nível macro-histórico como o mais importante ou fundamental, enfatizan-
do a primazia epistemológica do “geral” e reduzindo o nível macro-histórico à
condição de um simples conjunto de exemplos, casos ou concretizações diver-
sas dessa mesma “generalidade”. Assim, o plano micro vem a ser uma espécie
de simples “espelho” do geral, sendo obrigado a refleti-lo e a devolver passiva-
mente a sua imagem, talvez um pouco deformada ou defeituosa, mas sempre
correspondente a essa mesma dimensão geral.23
Redução do micro ao macro que, como contrapartida necessária,
engendrou igualmente o seu oposto, porque, ante essa minimização do micro,
desenvolveu-se também uma postura inversa que, privilegiando o nível do
micro ou do particular como o nível essencial e central da análise, acabou por
conceber o macro-histórico apenas como a soma, o conjunto ou o simples
aglomerado de casos, ou também, em outra variante possível, como o mero
“pano de fundo” – pouco relevante do ponto de vista epistemológico – dessas
mesmas realidades ou fenômenos macro-históricos ou particulares.24
Diante dessas duas formas de assumir a dialética macro/micro, que no
fundo reduzem um termo ao outro para simplificar falsamente o problema e
eludi-lo, a micro-história italiana propõe antes restituir a complexidade dessa
relação entre o micro e o macro, reivindicando a idêntica relevância de ambos
os planos em termos gnosiológicos e epistemológicos e propondo um modo

106
Capítulo 5

novo de conceber a sua articulação específica. Um novo modo de apreensão da


dialética macro/micro que, ao mesmo tempo em que se distancia das duas for-
mas de redução aludidas, se alimenta igualmente das experiências prévias rea-
lizadas por outras ciências sociais ou humanas que, antes dela, já se defronta-
ram com essa diferença de escalas referida.
Pois é evidente que não são os micro-historiadores italianos que inven-
taram o recurso ao nível micro, nem tampouco são eles os primeiros a aden-
trar os problemas suscitados pela diferença das escalas macro/micro. Mas, em
compensação, a eles corresponde o fato de haver tentado uma forma nova e
original de abordar esse problema, forma que ao mesmo tempo recupera e
suplanta as maneiras tentadas pela Economia, a Sociologia, a Arquitetura, a
Geografia, a Antropologia ou a história local ou regional anteriores.25
Assim, a Economia e a Sociologia já haviam criado os ramos diferencia-
dos da macroeconomia e da macrossociologia, por um lado, ante a microeco-
nomia e a microssociologia, por outro, que nessa perspectiva correspondiam a
dois níveis diferentes da realidade estudada e, portanto, eram concebidos como
espaços com atores, lógicas, regras, normatividades e situações completamen-
te distintas entre si. Afirmando então a absoluta autonomia e diferença desses
dois universos macro/micro econômico/sociológico, essas ciências não viam
conexão alguma entre ambas, separando-as como ramos independentes de sua
própria tarefa analítica.
Diferença radical do macro e do micro postulada pela sociologia e a
economia, que serão recuperada pela micro-história italiana ao se admitir
que se trata efetivamente de dois níveis diferenciados e irredutíveis um ao
outro, cada qual com uma lógica e uma especificidade que lhes são exclusivas
e singulares. Mas, diversamente da abordagem sociológica ou econômica, no
caso da micro-história, trata-se de uma única realidade histórica, presente em
níveis diversos e suscetível de ser observada e estudada nas suas manifestações
correspondentes às diferentes escalas em que se desdobra, mas que, dada a sua
unicidade originária, nos obriga a estabelecer e a recriar o modo de conexão
particular entre esses dois ou mais níveis ou escalas considerados. Desse
modo, o desafio será o de reconstruir essa conexão e esse movimento de uma
escala a outra, mas respeitando e admitindo ao mesmo tempo essas especifi-
cidades e diferenças decorrentes do procedimento da mudança de escala.
Procedimento que se enriqueceu igualmente a partir das lições da
Geografia e da Arquitetura, que, “reduzindo” as dimensões de um mesmo
objeto, nos demonstraram que, ao mudar a escala de observação ou conside-

107
Capítulo 5

ração, muda também necessariamente o nível de informação disponível em


torno desse objeto, modificando-se profundamente o que é perceptível e o que
não o é e transformando também a configuração da realidade analisada.
Mudanças que o geógrafo ou o arquiteto conhecem bem e que serão igualmen-
te incorporadas pelos micro-historiadores italianos, que, ao passar de uma
escala macro para uma escala micro, o farão justamente para ter acesso a infor-
mações novas e inéditas, descobrindo outros elementos da realidade histórica
considerada e estabelecendo novas conexões, vínculos ou configurações do
problema investigado. Mas, diversamente dos geógrafos e dos arquitetos, com
a plena consciência de que nessa passagem de uma escala para outra o que eles
investigam são níveis distintos de uma mesma realidade que está presente,
simultaneamente, em várias escalas ou dimensões, e não um mesmo objeto
que foi reduzido a proporções manejáveis pelos homens para sua mais fácil
apreensão. Reivindicando, então, o fato de que se trata de duas dimensões do
real, distintas mas interligadas, os micro-historiadores partem nesse périplo
interescalas em busca de informações, percepções e formas inacessíveis a par-
tir de um único nível dessa mesma realidade.
Enfim, e sempre nesse jogo de resgates e deslindamentos das formas
anteriores de abordagem do vínculo macro/micro, os autores da micro-histó-
ria italiana recolheram também a lição da antropologia, que, abandonando
radicalmente o nível do macro e denunciando os seus limites e a sua “pobre-
za” relativa diante das realidades particulares, se dedicou a mostrar e a
demonstrar a riqueza exuberante do micro, desdobrando análises exaustivas
e intensivas e construindo descrições densas e reconstruções totais que pro-
curam esgotar a descrição dos diferentes objetos abordados. Reconhecendo
então os limites da escala macro-histórica, mas negando a saída de obviá-la
ou abandoná-la, desenvolvida pela antropologia tanto quanto pela história
local ou regional, os micro-historiadores italianos vão recuperar toda essa
riqueza multifacetada do nível micro, mas justamente para utilizá-la na
reconstrução de um plano macro novo, mais complexo, rico, desenvolvido e
cheio de determinações.26

A ORIGINALIDADE DO PROCEDIMENTO
MACRO-HISTÓRICO ITALIANO
Se revisarmos com cuidado tanto as principais obras como os principais
ensaios metodológicos dos representantes centrais da micro-história italiana,

108
Capítulo 5

ser-nos-á fácil entender onde reside uma das contribuições revolucionárias mais
essenciais contidas no seu modo de propor e, depois, desdobrar operativamen-
te o tantas vezes referido procedimento macro-histórico italiano. Pois, assimi-
lando criticamente e superando ao mesmo tempo – sob o modo da clássica auf-
hebung hegeliana – as formas precedentes de abordar a dialética macro/micro,
o que os micro-historiadores italianos vão realizar consistirá em deslocar e
transcender claramente o tradicional pensamento dicotômico dos opostos.
É muito evidente que, seguindo nesse ponto as profundas lições de
Norbert Elias,27 os promotores dessa visão macro-histórica italiana vão aban-
donar totalmente as clássicas explicações que opõem o geral ao particular, pro-
pondo as falsas disjuntivas, explícitas ou implícitas, do indivíduo ou do con-
texto, a visão do social contra a do individual, o macro contra, à margem ou
em concorrência com o micro, a lei contra o caso ou, acima do caso, o caso
como forma de invalidar a lei, etc. Diante disso, e numa visão radicalmente
nova e ainda pouco explorada pelos cientistas sociais, os autores italianos vão
propor a construção do geral a partir do particular, ressituando então o indi-
víduo no contexto e dentro da sociedade. Com o que também é possível ver o
macro no micro, a partir do e no próprio micro, recolocando o caso na norma
e a norma atuando dentro do caso, etc.
Assim se desloca inteiramente o modo de abordar todas essas dialéticas
complexas, tão centrais e tão debatidas na história e em todas as ciências
sociais, superando o pensamento simples binário, de opostos rigidamente con-
trapostos e só excludentes, para dar lugar à construção de modelos mais com-
plexos e elaborados que reivindicam a nova biografia contextual, que decom-
põem o tempo nas múltiplas temporalidades, recriando os movimentos de
vaivém do indivíduo e da obra para o mundo e a época e vice-versa e recons-
truindo as múltiplas cadeias de interdependência em que se insere o indivíduo
ou o grupo específico estudados.28
Torna-se claro, portanto, que o fundamental aqui não é nem o “micro”,
considerado em si mesmo, nem o “macro”, concebido de maneira autônoma e
auto-suficiente. Então, a micro-história não é nem história local da aldeia de
Santena nem história biográfica tradicional de Menocchio ou de Piero della
Francesca, nem tampouco história clássica da obra de Galileu Galilei, mas, sim,
estudo complexo das formas concretas de funcionamento do mercado da terra
na Itália dos séculos 17 e 18 através do caso de Santena, ou também estudo da
cultura campesina e popular do século 16 ou, em outro caso, da cultura de elite
dessa mesma época através e por intermédio do moleiro Domenico Scandella ou

109
Capítulo 5

da obra e da vida do pintor autor de O Ciclo de Arezzo, assim como a história


da revolução das cosmovisões européias do mundo durante o Renascimento
testemunhadas na sorte e nos destinos da referida obra galileana.
E, de igual modo e no outro extremo, tampouco interessa apenas con-
tinuar repetindo as histórias gerais e as teses macro-históricas habituais sobre
o caráter necessariamente revolucionário da ideologia operária, a natureza
“irracional” dos mitos camponeses na modernidade ou os processos de centra-
lização política na formação do Estado moderno; o que interessa é analisar as
formas concretas de desdobramento e particularização desses processos e ten-
dências macro-históricos – por exemplo, na especificidade da classe operária
de Turim, primeiro pró-socialista e depois pró-fascista, ou ainda na complexa
construção, estratificada e muito densa, do rito/mito do sabá moderno e de
sua singular curva de vida na Europa e fora da Europa, ou, enfim, nos modos
concretos de transmissão do status, do privilégio e do poder numa pequena
aldeia do Piemonte moderno.29
Portanto, o que o verdadeiro núcleo do procedimento macro-histórico
italiano coloca no centro de sua preocupação não é nem apenas o micro nem
apenas o macro, mas, sim, a totalidade dessa complexa dialética entre os níveis
ou escalas macro-históricas e macro-históricas. E isso, para além das formas
tradicionais de enfocar esses níveis macro e micro sociais e numa perspectiva,
não binária dicotômica, nem de rígidas oposições e exclusões, mas, sim, a par-
tir de uma nova visão de verdadeira dialética e interpenetração e pressuposi-
ção mútua, em que o macro está no micro e o micro inclui o macro, sem eli-
minar suas diferenças específicas, mas também sem esquecer que um nível ou
escala só tem sentido e significação nessa mesma dialética que o inclui e deter-
mina como uma de suas partes componentes.
O que então nos permite, finalmente, compreender em que consiste
esse procedimento macro-histórico: nele se trata, segundo os cultores da
micro-história italiana, de partir da recuperação de uma tese ou conjunto de
teses já estabelecidas ou definidas no plano macro-histórico para depois, num
movimento que é justamente o da “redução da escala de observação”, levar
essas mesmas hipóteses a um plano distinto, plano de proporções sempre
menores em relação ao plano ou nível original e que será justamente o uni-
verso macro-histórico a trabalhar. Então, e considerando esse plano “reduzi-
do” ou macro-histórico como simples laboratório histórico ou “lugar de
experimentação”, terá que retrabalhar e submeter à prova essas hipóteses ou
teses macro-históricas, verificando sua validade, complexizando suas deter-

110
Capítulo 5

minações, matizando seus conteúdos e incorporando-lhe elementos cada vez


mais novos e mais sutis mediante os procedimentos antes referidos da “análi-
se microscópica” dos problemas e dos pontos estudados e mediante a investi-
gação exaustiva e intensiva de todo o material e de todos os elementos deri-
vados desse mesmo universo macro-histórico. Enfim, e para fechar o círculo
do percurso global dentro dessa dialética macro/micro, o microistoriador
deverá voltar à dimensão macro-histórica, restabelecendo e até reformulando
radicalmente, de maneira distinta, as hipóteses e teses originalmente subme-
tidas a esse procedimento ou exercício, restabelecimento ou reformulação que
após a passagem ou incursão pelo experimento macro-histórico deverá
redundar necessariamente na construção e elaboração de novas teses, mode-
los e perspectivas macro-históricas, muito mais ricas, complexas, finas e sutis
que as anteriormente existentes.
Procedimento macro-histórico que dá sentido à frase anterior citada de
Jacques Revel quando ele afirmou, para caracterizar o espírito geral dessa
micro-história italiana: “Por que fazer as coisas simples quando se pode fazê-
las de maneira complexa?”. E, visto que a realidade social – como, aliás, toda a
realidade – é sumamente complexa, e dado que o objetivo da ciência social é
captar da melhor maneira essa complexidade, fica clara a intenção geral que
busca essa promoção, defesa e popularização desse exercício macro-histórico:
trata-se, em geral, de avançar rumo à construção de modelos mais complexos
de explicação do social e do histórico, modelos mais sutis e desenvolvidos que
sejam capazes de recolher e, depois, reproduzir essa mutidimensionalidade,
flexibilidade, variabilidade e extrema riqueza das realidades concretas que tais
modelos tentam apreender.
Mas então, e para evitar possíveis confusões, vale a pena indagar sobre
as condições específicas em que é possível e pertinente a aplicação ou a prática
desse procedimento macro-histórico. Quando é possível falar de um plano ou
uma escala macro-histórica que inclua em si outros vários planos macro-his-
tóricos? E quando é possível esse movimento de “redução da escala de obser-
vação” e a concomitante descida ao micro? E de que “micro” estamos falando
quando o definimos como um laboratório de análise histórica ou um lugar de
experimentação do historiador? E o que se requer para que nessa dimensão
macro-histórica seja aplicável a “análise microscópica” e também o “uso e tra-
tamento exaustivo e intensivo dos materiais” disponíveis? E, enfim, como
garantir o movimento de retorno do micro ao macro e, depois, a reestrutura-
ção desse macro a partir dos resultados da viagem realizada até o nível micro?

111
Capítulo 5

Porque é evidente que nem todo problema é suscetível de ser submeti-


do ao exercício da mudança de escala e de aplicação do procedimento macro-
histórico, da mesma sorte que nem todo plano ou nível da realidade tem em
relação a qualquer outro uma relação de escalas interligadas que possamos
incluir na já referida dialética macro/micro.
Então, para entender melhor essa complexa dialética entre o macro-
histórico e o macro-histórico, pode ser útil voltar ao importante e debatido
conceito de totalidade histórica. Assim, a relação macro/micro pode ser espe-
cificada como a relação que existe entre uma certa totalidade histórica e social
complexa e uma de suas partes específicas, aquela que possa ser especialmen-
te “reveladora” do todo que se investiga. O que significa que a escolha das
dimensões macro-históricas e, depois, dos universos macro-históricos não é
de modo algum uma escolha casual, arriscada ou arbitrária. Porque a própria
realidade que estamos estudando se compõe de múltiplas dimensões ou
níveis, níveis ou escalas organicamente relacionados e entre os quais há dialé-
ticas e vínculos claramente estabelecidos.
Por isso, quando falamos da dimensão macro-histórica, referimo-nos a
essas totalidades histórico-sociais que já foram identificadas há muito tempo
pelas ciências sociais e cujas tentativas de explicação já geraram a construção de
múltiplos modelos, hipóteses e teorias diversas. E, igualmente, ao falar de uni-
versos micro-históricos, falamos então de certas dimensões, planos ou espaços
que são parte orgânica dessas totalidades globais e complexas e que também são
partes ou espaços particularmente reveladores dessas mesmas totalidades.
O que delineia e especifica as condições e os limites de explicação do
procedimento micro-histórico. Porque, ao falar de totalidades específicas e de
partes ou dimensões reveladoras, falamos, para ilustrá-lo com um exemplo
gráfico, do tipo de relação que pode existir, por exemplo, entre um quebra-
cabeça considerado como todo e uma das suas peças especiais, peça que, pelo
fragmento do desenho que inclui, permite decifrar de maneira mais evidente e
numa forma particularmente acentuada o sentido do desenho geral plasmado
no conjunto do quebra-cabeça.30
Assim, dado que uma totalidade não é um simples aglomerado ou con-
junto qualquer de elementos – à maneira, por exemplo, de um zoológico
qualquer, que é uma simples soma ou conjunto de animais, casual e capricho-
samente reunidos num mesmo lugar físico e que, portanto, não constitui uma
verdadeira totalidade –, mas é um conjunto complexo de elementos necessá-
rios e articulados de modo específico e cuja unidade e relações determinadas

112
Capítulo 5

constituem justamente a totalidade em apreço, então a tarefa do microistoria-


dor é, no início, a mesma da criança ou adulto que se defronta com o quebra-
cabeça: partir da imagem global já conhecida para começar colocando aque-
las peças-chave, especialmente “reveladoras” ou “decifradoras” da imagem de
conjunto, a partir das quais terá de se desenvolver a (re)construção de toda a
figura procurada.31
Destarte, fica claro que o procedimento macro-histórico não se aplica
indiscriminadamente a qualquer problema de história ou em qualquer cir-
cunstância. E, no entanto, é igualmente claro que tanto o seu desenvolvimen-
to como a sua possível difusão e extensão futura se referem a esse universo de
certos temas essenciais que, durante décadas e séculos, preocuparam os culto-
res dos territórios da musa Clio. Porque, ao propor uma nova estratégia episte-
mológica para resolver o velho e recorrente problema da relação entre os níveis
macro e micro na história, o que a micro-história italiana fez foi lembrar-nos
uma vez mais que o conhecimento histórico nunca se esgota e que as verdades
históricas, verdadeiro objetivo e sentido global do exercício da nossa ciência,
posto sejam perfeitamente alcançáveis e cognoscíveis, sempre encerram ainda
certos aspectos ou elementos por descobrir ou decifrar. Se a realidade e o pró-
prio universo são infinitos, não poderiam ser finitos nem as verdades históri-
cas nem o conhecimento histórico que delas temos. Mas é justamente aí que
reside, em parte, o imenso prazer do nosso ofício.

NOTAS
* Pesquisador do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Nacional Autônoma
do México.
1 Cf. Pueblo en Vilo. México: Fondo de Cultura Económica, 1968. A edição origi-
nal é dessa data, embora o livro tenha tido várias edições, algumas vezes com
grandes tiragens.
2 Cf., em particular, o artigo “Teoría de la microhistoria” no livro Nueva invitación a
la microhistoria. México: Fondo de Cultura Económica, 1982. p. 33. Pode-se ver
uma idéia semelhante no pequeno livro Outra invitación a la microhistoria. México:
Fondo de Cultura Económica, 1997, onde Luis González y Gonzálvez equipara
explicitamente a micro-história com, por exemplo, a local history inglesa ou ainda
com a petite histoire francesa, assinalando contudo os inconvenientes dessas denomi-
nações, mas insistindo na idéia de que para além de sua denominação essa história
local ou micro-história “foi exercida sem o ‘nome certo’ [...] durante mil anos” (cf.
p. 15), afirmação que nos ilustra claramente a idéia do próprio González y González
acerca da micro-história mexicana como simples nova versão dessa antiqüíssima
história local.

113
Capítulo 5

3 Cf., a esse respeito, o nosso artigo “Los Efectos de 1968 en la historiografía occiden-
tal”, na revista La Vasija, México, n. 3, 1998, onde tentamos estabelecer as coordena-
das gerais desse contexto pós-68 no mundo ocidental e seus efeitos gerais nas his-
toriografias de todo o Ocidente.
4 Vendo-o numa perspectiva temporal mais ampla, é evidente que tanto a obra como
o projeto de “micro-história” de Luis González y González, por um lado, e o enorme
apogeu da história local e regional mexicana, por outro, são meras expressões de um
processo mais global, que ultrapassa o México, abarca toda a América Latina e con-
densa os efeitos da Revolução Cultural de 1968, no nosso continente, sob a forma de
um intenso desenvolvimento de uma história regional original e muito pujante.
Infelizmente, ainda falta à pessoa ou às pessoas que extraiam as lições gerais teóri-
cas, metodológicas e historiográficas – dessa imponente produção de história regio-
nal latino-americana das últimas três décadas, que por certo singulariza as nossas
historiografias em relação às demais historiografias do mundo ocidental. Sobre a
força e o desenvolvimento dessa história regional latino-americana, cf. o artigo de
KNIGHT, Alan. Latinoamérica: Un balance historiográfico. Revista Historia y Grafia,
México, n. 10, 1998, ou também o de BANDIERI, Susana. Entre lo micro y lo macro:
la historia regional. Síntesis de una experiencia. Revista Entrepasados, Buenos Aires,
n. 11, 1996, para mencionar apenas dois exemplos entre os muitos possíveis.
5 Sobre essas citações, cf. o artigo de Giovanni Levi, “Sobre la Microhistoria”, no livro
Formas de Hacer Historia. Madrid: Aliança, 1993. p. 122, 124. Em algumas entrevis-
tas, Giovanni Levi foi ainda mais explícito quanto à contraposição entre história
local e a micro-história italiana. Diz ele, por exemplo: “A micro-história nada tem a
ver com a história local. Ou seja, pode-se fazer micro-história de Galileu Galilei ou
de Piero della Francesca [...] a história local é outra coisa distinta, a história local
estuda uma localidade [...] nesse sentido, jamais direi micro-história ou história
local, são duas coisas totalmente distintas, inimigas; eu me ofenderia muito se fosse
considerado um historiador local. Os dois povoados aos quais em particular dedi-
quei muitos anos são dois povoados que considero sem nenhum interesse, dos quais
não escrevi a história. Escrevi uma história neles” (cf. entrevista “Antropologia y
microhistoria: conversación con Giovanni Levi” em Manuscrits, n. 11, p. 17, 18, enero
1993, Levi insiste nessa distinção também em outras duas entrevistas “Il piccolo, il
grande e il piccolo”, Meridiano, n. 10, p. 223-224, 1990 e “La microhistoria italiana”,
La Jornada Semanal, n. 283, p. 36, nov. 1994.
6 Carlo Ginzburg revisou agudamente a história do termo micro-história em seu
artigo “Microstoria: due o tre cose che so di lei”, na revista Quaderni Storici, n. 86,
ano XXIX, ago. 1994. Nesse artigo, Ginzburg caracteriza também a “micro-história
mexicana” como uma simples variante da história local, estabelecendo sua diferen-
ça radical em relação ao projeto intelectual dos micro-historiadores italianos.
7 Sobre a caracterização de 1968 e seus impactos na cultura e na historiografia poste-
riores, cf. Fernand Braudel, “Renacimiento, Reforma, 1968: Revoluciones Culturales
de Larga Duración” (entrevista a L’Express, nov. 1971), em La Jornada Semanal,
México, n. 226, oct. 1993; WALLERSTEIN, Immanuel. 1968: Revolución en el
Sistema-Mundo. Tesis e interrogantes. Revista Estudios Sociológicos, México, n. 20,
1989; DOSSE, François. Mai 68, les effets de l’Histoire sur l’histoire. Cahiers de
l’IHTP, Paris, n. 11, avril 1989; Mai 68, mai 88: les ruses de la raison. Revista Espaces
Temps, Paris, n. 38-39, 1988, assim como nossos artigos: AGUIRRE ROJAS, Carlos

114
Capítulo 5

Antonio. 1968: La Gran Ruptura. La Jornada Semanal, México, n. 225, oct. 1993; Los
Efectos de 1968 en la historiografía occidental. La Vasija, México, n. 3, 1998;
Repensando los Movimientos de 1968. In: 1968. Raíces y Razones. Ciudad Juárez:
Ed. Universidad Autónoma de Ciudad Juárez, 1999.
8 Nesse sentido do esgotamento dos “modelos gerais” esvaziados de conteúdo e redu-
zidos a esquemas simplificados da realidade, vale a pena voltar a revisar o livro pio-
neiro de Jean-Paul Sartre, Crítica da razão dialética. Ali Sartre vai enfrentar aqueles
marxistas “vulgares” e seus modelos empobrecidos, que pensavam que, para explicar
Flaubert, bastava dizer que era um “pequeno-burguês” da época do Segundo
Império. Mas, como houve dezenas de milhares desses pequenos-burgueses e só um
foi Gustave Flaubert, e só um escreveu A educação sentimental, esse modelo de expli-
cação não basta. Assim, Sartre antecipa uma das críticas recorrentes de todos os
micro-historiadores italianos a esses modelos gerais, constituindo-se em um dos seus
antecedentes intelectuais importantes, embora um antecedente não-explícito e não
assumido conscientemente por esses mesmos micro-historiadores. Sobre a relação
entre essa crise dos modelos gerais e o nascimento da micro-história, cf. o texto de
Carlo Ginzburg, já citado: Microstoria: due o tre cose che so di lei, p. 517-521.
9 Cf., a esse respeito, as duras críticas de Carlo Ginzburg às posições de Hyden White
em seus artigos “Provas e possibilidades à margem de ‘Il ritorno de Martin Guerre’
de Natalie Zemon Davis” e “Exphrasis e citação”, no livro A micro-história e outros
ensaios. Lisboa: Difel, 1989, e também em seus artigos “Solo un testigo”, na revista
Historias, México, n. 32, 1994, e “Revisando la evidencia: Giovanni Levi a las postu-
ras posmodernas en su microhistoria”, já citado, e em seu artigo “I pericoli del
Geertzismo”, na revista Quaderni Storici, n. 58, ano XX, 1985.
10 Cf. o brilhantíssimo artigo de Carlo Ginzburg “Indícios. Raíces de un paradigma
de inferencias indiciales”, no livro Mitos, emblemas, indicios. Barcelona: Gedisa,
1994. Valeria a pena ver também, nessa mesma e complexa linha de investigação, o
interessante debate suscitado posteriormente por esse artigo e do qual é apenas
uma pequena amostra a transcrição recolhida na revista Quaderni di Storia, n. 12,
ano VI, 1980. Lamentavelmente, não nos podemos deter, neste artigo, na análise
que mereceria esse ensaio excepcional.
11 Cf. os artigos de Daniela Coli “Idealismo e marxismo nella storiografia italiana degli
ani ’50 e ’60”, de Alberto Caracciolo, “La storiografia italiana e il marxismo”, e de
Pasquale Villani, “La vicenda della storiografia italiana: continuità e frature”, todos
incluídos no livro La storiografia contemporanea. Indirizzi e problemi. Milano: Il
Saggiatore, 1989, e também o artigo de BANTI, Alberto M. Storie e microstorie: l’his-
toire sociale contemporaine en Italie (1972-1989). Genèses, Paris, n. 3, 1991, e ainda o
livro de MASELLA, Luigi. Passato e presente nel dibattito storiografico. Bari: Ed. De
Donatto, 1979.
12 Falta um trabalho satisfatório que reconstrua globalmente essa presença e essa rede
complexa de influências dos Annales franceses na Itália. À espera dele, pode-se,
entretanto, ver os desenvolvimentos interessantes incluídos no livro de
MASTROGREGORI, Massimo. El manuscrito interrumpido de Marc Bloch. México:
Fondo de Cultura Económica, 1998. Cf. também o artigo de GINZBURG, Carlo;
PONI, Carlo. El nombre y el cómo: intercambio desigual y mercado historiográfi-
co. Revista Historia Social, Valencia, n. 10, 1991; AYMARD, Maurice. Impact of the
Annales School in Mediterranean Countries. Review, v. 1, n. 3/4, 1978; L’Italia-

115
Capítulo 5

mondo nell’opera di Braudel. Crítica Marxista, n. 1, 1987; La storia inquieta di


Fernand Braudel. Passato e Presente, n. 12, 1986. Por exemplo, até hoje ninguém
sublinhou o fato de que Fernand Braudel, protagonista essencial desses Annales dos
anos 50 e 60, tinha relações importantes e mais ou menos permanentes de inter-
câmbio e colaboração com Federico Melis, Federico Chabod, Franco Venturi ou
Delio Cantimori, e também que teve como discípulos, nos seus seminários parisien-
ses, Ugo Tucci, Alberto Tenenti ou Riggiero Romano, entre muitos outros, numa
rede que cobria praticamente os centros principais da inovação historiográfica e dos
desenvolvimentos mais significativos dessa historiografia italiana do segundo pós-
guerra. O que levou Braudel a dizer: “Quis o acaso que os meus livros sejam lidos,
sem dúvida, mais na Itália que na França. Não sei muito bem por que razões” (cf.
essa declaração no livro Ecrits sur l’histoire. Paris: Arthaud, 1990. p. 285). Em nossa
opinião não se trata de um acaso, e o que explica isso é justamente essas transfor-
mações da historiografia italiana que aqui nos limitamos a evocar de maneira muito
geral. Trata-se, no entanto, de uma linha de investigação ainda aberta e que valeria
a pena desenvolver muito mais amplamente.
13 Para perceber esse cosmopolitismo excepcional, basta ver as referências de pé de pági-
na ou contidas nos ensaios de Edoardo Grendi, Giovanni Levi ou Carlo Ginzburg. Por
exemplo, é bem conhecido o enorme trabalho de recuperação que Edoardo Grendi
levou a cabo para introduzir nos debates da cultura italiana um conjunto importan-
te das contribuições da antropologia anglo-saxônica e, de maneira geral, de alguns
autores relevantes do pensamento social anglo-saxônico, como, por exemplo, Norbert
Elias, Karl Potanyi, Edward P. Thompson ou Frederick Barth, entre outros. A esse res-
peito, pode-se consultar GRENDI, Edoardo. Polanyi. Dall’antropologia economica alla
microanalisi storica. Milano: Etas Libri, 1978, assim como sua compilação de textos
L’antropologia economica. Torino: Giulio Einaudi, 1972.
14 Cf. a referência contida no artigo já citado de Giovanni Levi “Sobre la microhisto-
ria”, p. 142, e a referência original, que é uma afirmação do historiador francês
Jacques Revel no seu prefácio “L’histoire au ras du sol” ao livro de Giovanni Levi
intitulado Le pouvoir au village. Paris: Gallimard, 1989.
15 Sobre essa filiação de esquerda da micro-história italiana, basta revisar os testemu-
nhos explícitos tanto de Giovanni Levi na sua “Entrevista a Giovanni Levi”, em
Estudios Sociales, Santa fé, n. 9, 1995, como de GINZBURG, Carlo. Carlo Ginzburg:
an Interview. Radical Review, n. 35, 1986.
16 Cf. o artigo atrás mencionado de Carlo Ginzburg e Carlo Poni “El nombre y el
cómo: intercambio desigual y mercado historiográfico”, onde se sublinha essa den-
sidade histórica excepcional da própria paisagem da península italiana.
17 Sobre esse ponto, cf. o artigo de Carlo Ginzburg “História da arte italiana” no livro
já mencionado A micro-história e outros ensaios, onde Ginzburg enfatiza essa con-
dição multicentrada ou multipolar da história italiana na longa duração, assim como
suas conseqüências para a construção de uma história da arte na Itália.
18 Cf. no livro coordenado por Fernand Braudel L’Europe. Paris: Arts et Métiers, 1982,
o capítulo 8, intitulado “Culture et civilisation. Le splendeur de l’Europe”, falsamen-
te atribuído a Folco Quilici e redigido na realidade pelo próprio Braudel.
19 Trata-se de dois temas que mereceriam ensaios à parte. Para uma primeira revisão
geral dessa história da micro-história italiana, de suas diversas vertentes e de suas

116
Capítulo 5

difusões desiguais, pode-se consultar o bem-documentado artigo de Anacler Pons e


Justo Serna “El ojo de la aguja: ¿de qué hablamos cuando hablamos de microhisto-
ria?”, incluído na revista Ayer, n. 12, 1993. Pode-se consultar igualmente o ponto 3
do capítulo 3, “Microenfoques de la historia: lo cualitativo, la experiencia humana
y lo ‘excepcional normal’”, no livro de SANDOICA, Elena Hernández. Los caminos
de la historia. Madrid: Síntesis, 1995. Para se ter uma idéia mais direta dessa histó-
ria da micro-história, pode ser útil revisar alguns dos seus textos hoje já “clássicos”
que seriam os de GRENDI, Edoardo. Micro-analisi e storia sociale. Quaderni Storici,
n. 35, ano XII, 1977, e Ripensare la microstoria? Quaderni Storici, n. 86, ano XXIX,
1994; Giovanni Levi, “Sobre la microhistoria”, citado anteriormente; Carlo
Ginzburg, “Microstoria: due o tre cose che so di lei”, já referido; “Indicios. Raíces de
un paradigma de inferencias indiciales”, igualmente já mencionado, assim como a
“Introducción” de seu livro Historia nocturna. Barcelona: Muchnik, 1991. Sobre a
difusão desigual da micro-história no mundo, é curioso observar que, enquanto na
França está mais difundido o ramo de história social, econômica e demográfica
desenvolvida por Grendi e Levi, ou também por Mauricio Gribaudi ou Simona
Cerruti, entre outros, nos Estados Unidos são muito mais populares e difundidos os
trabalhos de Carlo Ginzburg. Para comparar essa difusão desigual, pode-se ver, por
exemplo, o livro coordenado por Jacques Revel Jeux des échelles, co-editado por
Gallimard e Le Seuil, Paris, 1996, onde Carlo Ginzburg só é citado de maneira mar-
ginal duas vezes em todo o livro. No outro extremo, ver também o livro organiza-
do por MUIR, Edward; RUGGIERO, Guido. Microhistory and the Lost Peoples of
Europe. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1991, publicado nos EUA e
onde predominam os ensaios do mesmo Ginzburg. No México, no Japão e no
Brasil, como na Espanha, a obra de Carlo Ginzburg parece ser mais conhecida que
a dos demais micro-historiadores italianos, enquanto na Argentina parece haver
uma situação mais equilibrada quanto ao conhecimento e à difusão dos resultados
das duas principais vertentes da micro-história italiana. Eis um tema interessante,
que valeria a pena desenvolver ulteriormente.
20 Falamos nesse caso dos textos bem conhecidos de GRENDI, Edoardo. I Balbi.
Torino: Einaudi, 1997, La herencia inmaterial. Barcelona: Nerea, 1990. GRIBAUDI,
Mauricio. Itinéraires ouvriers. Espaces et groupes sociaux à Turín au début du XXe siè-
cle. Paris: EHESS, 1987, ou CERRUTI, Simona. La Ville et les métiers. Paris: EHESS,
1990, para mencionar apenas alguns dos exemplos mais difundidos.
21 Sobre essa linha pode-se ver o trabalho de REDONDI, Pietro. Galileo herético.
Madrid: Alianza, 1990, e também e sobretudo os trabalhos de GINZBURG, Carlo.
El queso y los gusanos. Barcelona: Muchnik, 1981, Historia nocturna, já citado,
Mitos, emblemas, indicios, também já mencionado, Les batailles nocturnes. Paris:
Flammarion, 1984, El Juez y el Historiador. Barcelona: Muchnik, 1993, Pesquisa
sobre Piero. Barcelona: Muchnik, 1984, e, com PROSPERI, Adriano. Giochi di
pazienza. Torino: Giulio Einaudi, 1975. Também vale a pena consultar os trabalhos
mais recentes Occhiacci di legno. Milano: Feltrinelli, 1998, e History, rhetoric, proof.
Hannover: Brandeis University Press: University Press of New England, 1999, onde
Ginzburg amplia suas perspectivas para refletir sobre algumas das categorias cen-
trais da história cultural, sobre a diversidade e o diálogo intercultural e sobre as
próprias condições e a natureza geral do ofício de historiador e de suas implicações
mais essenciais.

117
Capítulo 5

22 É bem sabido que a revista Quaderni Storici, que acabará por se associar à corren-
te micro-histórica como o seu mais importante órgão de expressão e difusão,
começou sua história em 1966, chamando-se então Quaderni Storici delle Marche
– e publicando em seu primeiro número, coisa digna de assinalar, a primeira tra-
dução italiana do célebre artigo de Fernand Braudel “Historia y Ciencias Sociales.
La Larga Duración”. Mas só nos anos 70, após uma reorganização de seu comitê,
de algumas mudanças e de perder o apelativo “delle Marche”, é que começou a fun-
cionar como o principal espaço de concentração e irradiação da corrente da
micro-história. O que não impede, ademais, que já nos anos 80 tenha começado a
ser um pouco abandonada ou deixada de lado por alguns dos principais represen-
tantes dessa mesma micro-história, como no caso do próprio Giovanni Levi ou de
Carlo Ginzburg, perdendo uma parte de sua força de inovação e de seu caráter de
“núcleo estruturador” e de “foro de concentração” das principais descobertas dessa
micro-história. Eis um tema que valeria a pena aprofundar com mais minudência.
23 Redução que é justamente o objeto da crítica de Jean-Paul Sartre em seu livro
Crítica da razão dialética, a que aludimos na nota 8.
24 Uma crítica adequada desse procedimento que reduz o geral a uma simples soma dos
casos e das dificuldades e implicações dessa passagem pode ser vista no artigo de
LEPETIT, Bernard. Les Annales aujourd’hui. Review, Binghamton, v. XVIII, n. 2, 1995.
25 No argumento dessa idéia, faço um resumo das idéias que me suscitou a leitura do
brilhante ensaio de LEPETIT, Bernard. Architecture, géographie, histoire: usages de
l’échelle. Genèses, Paris, n. 13, 1993. Considero que essa é uma versão algo mais tra-
balhada do que aquela que, com algumas diferenças, se inclui no livro já referido
Jeux d’échelles com o título “De l’échelle en histoire”.
26 Para nós é evidente que a influência das diversas vertentes da antropologia do sécu-
lo 20, desde os trabalhos de Frederick Barth até os de Claude Lévi-Strauss, e passan-
do pelas lições de Clifford Geertz, entre outros, foi decisiva na construção das dife-
rentes perspectivas dos diversos autores da micro-história italiana. No entanto, o
desenvolvimento adequado desse ponto mereceria por si só todo um novo ensaio,
que não podemos incluir aqui. Sobre esse ponto, pode-se consultar o artigo de Paul-
André Rosental “Construire le ‘macro’ par le ‘micro’. Frederick Barth et la microsto-
ria”, no livro Jeux d’échelle antes citado. Também se pode consultar vários dos ensaios
incluídos no livro Tethnologies en miroir. Paris: Maison des Sciences, 1992, e muito
particularmente o artigo de Christian Bromberger “Du grand au petit. Variations des
échelles et des objets d’analyse dans l’histoire récente de l’ethnologie de la France”.
Ver também a “Introducción” do livro de Carlo Ginzburg Historia nocturna, já cita-
da, e o artigo também referido de Giovanni Levi “I pericoli del geertzismo”.
27 Cf. a esse respeito e sobretudo o livro de ELIAS, Norbert. Sociologia Fundamental.
Barcelona: Gedisa, 1982, e, de maneira mais geral, todo o conjunto da sua obra,
incluindo seus livros sobre The Germans, deporte y ocio en el proceso de la civiliza-
ción, El proceso de la civlización ou La civilización de los padres y otros ensayos, entre
vários outros. Ademais, é claro que sem a consideração da obra de Norbert Elias
fica muito difícil entender as contribuições e o conjunto da proposta dos micro-
historiadores italianos.
28 Referimo-nos, evidentemente, às obras bem conhecidas de Lucien Febvre, Fernand
Braudel, Jean-Paul Sartre ou Norbert Elias, para mencionar apenas alguns exem-
plos de autores que, nesse ponto da superação do pensamento binário ou dicotô-

118
Capítulo 5

mico rígido, antecipam e preparam essa conclusão específica desenvolvida pela


micro-história italiana.
29 Referimo-nos, nesses exemplos dos últimos parágrafos, às obras bem conhecidas de
Giovanni Levi, La herencia inmaterial; de Carlo Ginzburg, El queso y los gusanos,
pesquisa sobre Piero e Historia nocturna; de Pietro Redondi, Galileo herético; ou de
Mauricio Gribaudi, Itinéraires ouvriers. Espaces et groupes sociaux à Turin au début
du XXe siècle, todas elas mencionadas nas notas anteriores.
30 Portanto, talvez não seja por acaso que um dos livros importantes de Carlo
Ginzburg, escrito em co-autoria com Adriano Prosperi e infelizmente ainda não
traduzido para o espanhol, seja intitulado justamente Giochi di pazienza, livro que
já citamos anteriormente.
31 Quando falamos de parte especialmente “reveladora” do todo, isso não quer dizer
de modo algum parte “representativa” do todo. Porque, depois de Michel Foucault,
é bem sabido que as “margens” de uma totalidade qualquer ou seus elementos
“excluídos” – e, portanto, muito pouco “representativos” – podem ser tão revelado-
ras ou mais das suas estruturas essenciais como seus elementos mais “típicos” ou
característicos. Um ponto que se vincula ao célebre oxímoro popularizado pelos
micro-historiadores italianos do “excepcional normal” e que, sem embargo, não
podemos desenvolver mais amplamente neste ensaio. A esse respeito, cf. o artigo de
Edoardo Grendi “Microanalisi e storia soziale”, citado anteriormente, onde se enun-
cia pela primeira vez o referido oxímoro. Sobre as lições de Foucault em torno do
ponto mencionado, cf. VÁZQUEZ GARCÍA, Francisco. Foucault o la crítica de la
razón. Barcelona: Montesinos, 1995, e também Foucault y los historiadores. Cádiz:
Universidad de Cádiz, 1987.

119
Capítulo 6

OS HISTORIADORES ESPANHÓIS E A
REFLEXÃO HISTORIOGRÁFICA*
(C. 1880-2000)
Gonzalo Pasamar Alzuria**

O DEBATE DA HISTÓRIA COMO CIÊNCIA


OU O NASCIMENTO DA REFLEXÃO
HISTORIOGRÁFICA NA ESPANHA
No nosso país, a moderna reflexão sobre a historiografia apareceu ao
compasso da lenta configuração da mesma como disciplina acadêmica.
Somente quando os eruditos e os historiadores profissionais descobriram a
“metodologia histórica” foi possível dar por concluído o velho gênero de nor-
mas sobre as “utilidades” da História e a “maneira” de escrevê-la, talvez um dos
mais duradouros produtos da tradicional concepção da historiografia como
complemento da retórica.
A mencionada transformação não se iniciou na Espanha antes das
décadas de 1960 e 1980 do século passado.1 A partir desse momento, e mais
concretamente entre o final do século e a Grande Guerra, assistiu-se ao surgi-
mento de uma curiosidade por esses temas, presentes em discursos acadêmi-
cos e universitários, artigos, resenhas e notícias de revistas, ensaios, documen-
tos e inclusive traduções de temas de teoria e metodologia da História assina-
das por eruditos profissionais, historiadores e cultivadores das chamadas
“Ciências Morais e Políticas”, chegando inclusive a suscitar-se certa polêmica,
expressão do nascimento da própria historiografia profissional espanhola.

121
Capítulo 6

O efeito global desta publicidade – que, como se verá, formava parte de um


fenômeno intelectual exterior – foi reforçar o valor de identidade da discipli-
na nascente, ajudar a enquadrá-la em uma concepção em que se ia desenhan-
do uma divisão entre erudição, historiografia e filosofia, em um contexto em
que as novas ciências sociais quase não se impuseram no terreno universitário,
não passando de um mero estado de opinião acadêmico.
Mas esse interesse auto-reflexivo não tem somente um ponto de partida.
Depois de tudo, a historiografia profissional espanhola deve seu surgimento à
convergência – com clara importância – da erudição profissional, das tradições
do nacionalismo historiográfico, das concepções epistemológicas do krausismo
espanhol... Basicamente, além de constatar a recepção dos documentos sobre o
“método histórico”, publicados na França e no mundo germânico, poderíamos
destacar as seguintes fontes de procedência do proferido empenho:
Em primeiro lugar, a importância que a Academia estava concedendo,
nos anos 1990, à “nova concepção da história”, isto é, a noções como o “méto-
do histórico”, as “monografias”, ou as “coleções documentais”. Em segundo
lugar, a influência do positivismo filosófico, cujas manifestações mais impor-
tantes para a historiografia se repartiram muito desigualmente em núcleos iso-
lados e dispersos da geografia espanhola (Barcelona, Sevilha, Zaragoza, etc.) e
ajudaram a recepção dos debates franceses sobre o problema da “história
como ciência” nos anos de mudança de século. E, em terceiro lugar, a particu-
lar influência do krausismo, que se enfrentava com os problemas da entrada
brusca das ciências sociais e da constituição da história como disciplina nos
anos da Restauração.
O primeiro destes âmbitos mostra como a erudição profissional havia
dado novos traços e modificado a tradicional autopercepção do historiador do
século 19, o intelectual iluminado pelo “gênio da História”. Os resultados de tal
exaltação da atividade erudita foram a apreciação absolutamente excepcional
de historiadores “geniais” ou de amplos vôos e uma tendência a identificar a
historiografia com as normas da erudição profissional ou com uma visão res-
tringida do “método histórico” (restringida na sua vertente técnica). Esta visão
impunha uma contraposição entre “as idéias preconcebidas” ou “as hipóteses”
e o ideal do “estabelecimento dos fatos com precisão”; uma prioridade dos tes-
temunhos ou das “monografias”, inclusive das “coleções gerais”, sobre a “histó-
ria geral”, horizonte longínquo e estranho a esta classe de historiadores, etc.2 O
caso mais extremo desta tendência podemos encontrar no discurso do oficial
do arquivo da Corona de Aragón, Andrés Giménez Soler, futuro professor da

122
Capítulo 6

universidade zaragozana, em sua recepção na Academia de Buenas Letras de


Barcelona (1899), em que ele confessava sua convicção de que a “maneira mais
própria e perfeita de escrevê-la (a História) é a coleção diplomática”.3 Poucos
meses mais tarde, Soler reconhecia em tom provocativo não haver lido “livros
especiais de crítica histórica” e, sim, ter se deixado levar pelos “ditados do
senso comum” no estudo e na interpretação de documentos.4 Mas este exem-
plo, que data de épocas em que ainda faltava o entrosamento entre eruditos e
professores universitários de disciplinas históricas (ocorrida nos anos subse-
qüentes), é mais sintomático pelo que tem de defesa do trabalho erudito que
pelo que significa como norma metodológica (uma concepção do mesmo
estreitamento corporativista que, em efeito, contrasta com as definições muito
mais generosas oferecidas pelos fundadores da erudição profissional espanho-
la umas décadas antes). O discurso de Giménez Soler era uma aposta por uma
visão restringida da erudição histórica em um momento em que se estava pro-
duzindo a recepção de ensaios de metodologia e epistemologia das Ciências
Sociais e da História, sobre os quais existia uma maior receptividade que aque-
la que pudera indicar o comentado discurso.
Efetivamente, no final do século no mundo latino – França em concreto
–, começava-se a assistir ao nascimento da filosofia da ciência; fenômeno apre-
sentado por um de seus mais ilustres iniciadores, Émile Boutroux, mestre de
Durkheim, como “um movimento da filosofia para as ciências e a vida” e vice-
versa.5 A essa busca de relações com o conhecimento científico não foram indife-
rentes às novas disciplinas sociais (Sociologia, Antropologia, Lingüística,
Economia...), que lutavam fervorosamente para abrir caminho em um receoso
mundo universitário.6 Com forte necessidade de argumentos históricos, elas aca-
bariam propondo o problema lícito do “caráter científico da história”. O debate
de fim de século começou destrinchando a obra de Paul Lacombe, De l´historie
considerée comme science (1894), ambicioso intento de fundamentação psicológi-
ca da História, de feitio positivista, que buscava nas instituições “o efeito de uma
constituição de forças psíquicas” e que concedia a prioridade às “instituições eco-
nômicas”.7 Até mesmo os historiadores profissionais membros da “école métho-
dique” francesa, muito melhor instalados que as nascentes disciplinas sociais, não
puderam distanciar-se desse estado de inquietude e de polêmica.
No caso espanhol, não é curioso constatar como, a finais de século,
historiadores ideologicamente liberais, ao mesmo tempo em que exaltavam
o método histórico em seus discursos acadêmicos, mostravam-se receptivos
ou confiantes na Sociologia, embora recusassem os “excessos naturalistas”.

123
Capítulo 6

Dos exemplos antes resenhados, Vidarte havia tido palavras favoráveis para
aquela, porque “veio (...) recolhendo e concretizando estas iniciativas par-
ciais [a história como obra coletiva] construindo de forma consistente a teo-
ria da organização e funções dos povos como pessoas sociais”.8 O marquês de
la Fuente Santa del Valle havia considerado “proveitoso” ainda que “exagera-
do” o método de Taine.9 Segundo ele, o catedrático da Universidade de
Zaragoza, Eduardo Ibarra, em um discurso de tom positivista e marcada-
mente regeneracionista (1897), atreveu-se a prognosticar que “surge (...)
relação tão estreita entre a Sociologia e a História que não é difícil perceber
que em um futuro ambas ciências difundir-se-ão em uma só”, pois “quando
as leis do desenvolvimento social estiverem fixadas de um modo definitivo,
os feitos históricos servirão de comprovantes à exatidão das mesmas e, uni-
das em um estreito abraço, nos oferecerão o quadro, não suspeitado sequer
pelos historiadores antigos, de uma ciência completa que investigue e expo-
nha cientificamente o desenvolvimento e a vida das sociedades humanas”. 10
Devemos considerar esse diagnóstico, menos estranho daquilo que possa
parecer, com independência de seu otimismo, como resultado da autoper-
cepção e da confiança de alguns dos primeiros profissionais, que viam no
historiador um personagem destinado a um labor transcendental na instru-
ção pública e até mesmo na orientação das jovens disciplinas sociais.
A introdução da Sociologia na Espanha, que se estabeleceu nos meios
acadêmicos de quase todas as tendências ideológicas, especialmente entre
intelectuais liberais e republicanos, teve um efeito apreciável (ainda que efê-
mero) sobre os historiadores regeneracionistas nos finais do século. Talvez
quem de forma mais correta o diagnosticou foi Manuel Sales y Ferré (que
passou a ser o primeiro “sociólogo” universitário espanhol) ao opinar que
essa sociologia não era mais que a antiga filosofia da história “depurada de
sua tendência metafísica e tomada em sentido prático e experimental”.11 Ou
seja, a leitura de autores positivistas mencionados pelos historiadores espa-
nhóis em seus discursos e artigos, os de Spencer, Buckle, Flint, Taine, Renan,
Lacombe, Tarde, Gumplowicz ou Nordau, – a maioria traduzidos, mas cujas
vicissitudes literárias na Espanha não são bem conhecidas –, para além de
suas teses específicas, que praticamente todos se sentiram impelidos a criti-
car por seu excessivo biologismo, teve o efeito de revelar um pensamento
reprimido em um escolasticismo tradicional; sinal evidente de que estava
diminuindo o desconhecimento e o receio acerca das Ciências Sociais, embo-
ra ambos tenham seguido presentes.

124
Capítulo 6

Todavia, os anos que mediaram a mudança de século e a Grande Guerra


foram decisivos na constituição da historiografia universitária espanhola,
tanto no terreno institucional e de projetos editoriais como no terreno de con-
tatos e carreiras pessoais. Durante esse tempo, algo superior a uma década se
instalou na historiografia à imitação da escola francesa e da “escola rakeana”,
fracassando as expectativas do desenvolvimento universitário das ciências
sociais. O otimismo sociológico regeneracionista experimentaria um rápido
retrocesso e a reflexão historiográfica adquiriria uns traços completamente
ecléticos, inimigos do positivismo filosófico, que teriam grande destino.
Um caso ilustra perfeitamente este fenômeno, porque o mesmo autor
mudou de opinião sobre esses temas aproximadamente no lapso da mudança
de século. Em 1897, o catedrático de árabe da Universidade de Zaragoza, Juliá
Ribera, publicou um conjunto de conferências de pretensões regeneracionis-
tas, talvez as mais coerentemente influenciadas pela inquietude epistemológi-
ca do fim do século, sob o título Orígenes del Justicia de Aragon. Sua influência
imediata teve parte na abertura do Curso 1897-1898 daquela universidade,
auxiliada por seu amigo Eduardo Ibarra (ver parágrafo anterior). O autor mos-
trava-se convencido da existência de “leis de imitação”, “leis primárias e funda-
mentais para a história”,12 das quais a instituição de Justiça aragonesa – em sua
opinião de origem muçulmana – seria um caso concreto; de modo que, se
acertava-se formulá-las, “bastariam por si mesmas a dar caráter rigorosamen-
te científico à História”13 e seriam possíveis inclusive as “previsões históricas”.14
Na realidade, as “leis de imitação” constituíam, naquele tempo, uma das
vertentes da nascente disciplina sociológica na França (talvez a mais conserva-
dora, se desejamos de um lado a influência do catolicismo social), sobretudo,
através da figura e das concepções psicológicas de um palestrante como Gabriel
Tarde, quem Ribeira previsivelmente conheceu através do também palestrante
Paul Lacombe e somente de modo direto, já avançado o curso de suas conferên-
cias.15 No entanto, poucos anos depois, os artigos da Revista de Aragón, publi-
cação que reconhecia ser influenciada pela Revue de Synthèse Historique, e o
contato com essa classe de debates do país vizinho, levaram Ribera a publicar
Lo científico en la historia (1906). Nessa obra, confessaria que “novas reflexões
me levaram por novos caminhos: hoje creio que a História nem é, nem foi, nem
nunca será ciência”.16 Este ensaio era uma defesa do caráter específico do traba-
lho historiográfico, sobre o qual, de algum modo, deveriam pivotar as ciências.
Além disso, era uma amostra das hesitações, já superadas, sobre a definição e o
uso da mesma expressão “ciência” entre os historiadores do final do século.17

125
Capítulo 6

Nas novas conclusões do professor de árabe, a História necessitava dos requisi-


tos de uma “ciência particular”18 tanto no terreno metodológico19 como no teó-
rico. Constituía-se mais de um conjunto de “conhecimentos, dispostos e arru-
mados na forma mais apropriada para que a mente humana descubra seme-
lhanças ou relações para enriquecer a essência das ciências já formadas”, ou
ainda, “a arte de observar os feitos passados, de modo indireto e a uma distân-
cia conveniente, com a finalidade de descobrir princípios não averiguados, ou
de comprovar verdades aceitáveis”.20 Mas Lo científico não era somente uma
manifestação de desconfiança para com a sua anterior e quase incondicional
perspectiva sociológica, ou um reflexo do nascimento da historiografia univer-
sitária espanhola no início do século; também era uma manifestação da
influência de escritores já traduzidos no momento de defender uma concepção
teórica e metodológica da disciplina histórica: essencialmente Langlois y
Seignobos, na metodologia, e o filósofo romeno Xénopol, na teoria.
No terreno da metodologia, os autores espanhóis logo se sentiram sufi-
cientemente seguros para imitar os ensaios das escolas francesa e alemã. Em
1913, foi editado o manual de Langlois y Seignobos, traduzido para o castelha-
no por Domingo Vaca, erudito profissional, membro da Instituição Livre de
Ensino e tradutor para o editor Daniel Jorro de numerosas obras de História e
Psicologia. Já de modo pioneiro, Rafael Altamira havia incluído em seu
Enseñanza de la Historia muitas referências à “metodologia histórica”,21 mas, em
1912 e 1913, publicaram-se sucessivamente o manual do jesuíta Zacarias García
Villada, Como se aprende a trabajar cientificamente, Lecciones de metodologia y
crítica histórica (ampliado em 1921) e las Cuestiones históricas, de Antonio e Pío
Ballesteros. Esses trabalhos estavam edificados sobre uma série de suposições
que os profissionais consideravam incontestáveis: por um lado, aceitavam silen-
ciosamente a existência de uma “filosofia da História”, concedendo a tal expres-
são, como ocorria naquele tempo na Europa, um significado que oscilava entre
o tradicional do “sentido da história” e o novo de “epistemologia”.22 Neste âmbi-
to, García Villada rejeitava as “idéias filosóficas” da obra de Bernheim;23 na
seguinte edição, introduziria uma epígrafe sobre o providencialismo.24 Em
segundo lugar, admitiam, de modo pragmático, a existência e expressão de uma
“ciência da história” que Ballesteros se esforçava por argumentar através de “a
história, ciência das causas” de Xénopol25 (infra), e García Villada – que também
citava o autor romeno – desconversava rapidamente afirmando que “não vale a
pena discuti-lo muito”.26 Um pragmatismo que já invocou rapidamente e pre-
viamente quem, naquele momento, havia se tornado o maior especialista em

126
Capítulo 6

“questões modernas de história” e metodologia, Rafael Altamira. Em 1904, este


havia publicado, entre outros, um breve ensaio, também bastante inspirado na
leitura de Xénopol, aplicando à História as conseqüências oportunas da con-
temporânea relativização do conceito de “ciência”.27 Finalmente, os trabalhos
comentados aceitavam um terreno especial do historiador composto de nor-
mas, o “método histórico”, onde procuravam combinar – utilizando exemplos
espanhóis – os dois documentos canônicos da época: o Lehrbuch, de Bernheim
(em sua versão bastante ampliada de 1908) e a Introduction (1898) de Langlois
y Seinobos, obra mais familiar para os autores espanhóis. A maior identificação
de García Villada entre disciplina histórica e método histórico – que o levava
inclusive a desqualificar os trabalhos de Altamira – representou posições mais
restritivas vinculadas às tradições da erudição.28 Segundo ele, o manual de
Ballesteros, igual ao que ocorria com os tratados metodológicos europeus, não
permitia entender precisamente que a historiografia tinha um valor diretivo,
organizador perante as outras ciências; entre elas, naturalmente, estavam as
nascentes Ciências Sociais.29
No terreno da teoria, a obra mais influente de até então foi a do filóso-
fo romeno Xénopol – traduzida por Vaca, da edição de 1908. Este autor situa-
va-se nas coordenadas do pensamento positivista no mesmo sentido que
Langlois y Seignobos: crítico da história como ciência de “leis”, do positivismo
filosófico e das concepções sociológicas da história, contraditor de Paul
Lacombe – considerava a história política em sentido amplo, “a vida do
Estado” como eixo da historiografia; mas era, ao mesmo tempo, adversário do
individualismo metodológico germânico (de Ernest Berheim e de Heinrich
Rickert). Com sua teoria dos “fatos de sucessão”, propunha um acordo ou uma
terceira via entre ambas tendências e, mesmo que reconhecendo inclusive a
necessidade de certa generalização por parte do historiador, não chegava à for-
mulação de “leis”. A “série”, como denominava essa categoria capaz de repre-
sentar os “fatos de sucessão no tempo”, representava tal opção: “geral no que
diz respeito à forma, individual no que diz respeito ao tempo”. Constituída
“mediante a ação do meio e das individualidades”, permitiria “encadear os fei-
tos individuais no fio condutor da causalidade”. 30
O estudo de Xénopol foi um ecletismo epistemológico que sintonizava
com a école méthodique e que lhe faria conquistar as simpatias dos historiado-
res da Gália.31 No caso espanhol, ocorreu uma influência similar: a capacidade
da obra do romeno para formular a especificidade da disciplina histórica man-
tendo o termo “ciência da história”, que se impunha rapidamente após algu-

127
Capítulo 6

mas dúvidas, também lhe assegurou um posto relevante. Põe à prova as idéias
de Xénopol a tradução da obra El sentido de la História (1911), de Max
Nordau, renomado apologista do decadentismo de fim de século, publicada
nesse mesmo ano na mesma editora e a última das manifestações do positivis-
mo filosófico traduzida para o castelhano até então. Este texto, radicalmente
biologista e de expressão do darwinismo social, depreciava e criticava comple-
tamente o caráter científico da historiografia e o sentido teleológico da filoso-
fia da história.32 Segundo ele, a comentada obra de Xénopol, também perten-
cente ao mundo intelectual do positivismo, não resistiria ao passo do tempo.
Terminou caindo no esquecimento ao longo das décadas posteriores com o
desaparecimento do pensamento positivista, e somente um autor tão delibera-
damente eclético como José Antônio Maravall o tiraria, de certo modo, desse
esquecimento em sua Teoria del saber histórico.33
Essa consolidação, na Espanha, da noção de “ciência da história” deveu,
provavelmente, suas formulações mais coerentes aos intelectuais krausistas.
Como se sabe, durante a Restauração, o krausismo espanhol havia deixado de
ser uma “escola filosófica” para se converter em uma tradição relativamente
dispersa, inclinada para o direito e para os “estudos de literatura e arte”, no
que se refere aos interesses filosóficos.34 Mas seria aberta às ciências sociais e
à sociologia em particular, fenômeno que Adolfo Posada acertaria em quali-
ficar de “krausopositivista”.35
Em conformidade com essa atitude, uma preocupação manifestada pela
epistemologia começou a caracterizar esses intelectuais nos últimos anos do
século. Os estudos de Sociología y filosofia, de Francisco Giner (Obras
Completas, v. XI, 1925), repertório de ensaios publicados naquele momento
(reunidos em 1904 em uma obra de idêntico título), revelavam uma típica
inquietude pelas Ciências Sociais: uma curiosidade filosófica em direção à
Sociologia, entendida como uma “filosofia social” parceira da filosofia da his-
tória. A contribuição mais destacada nestes anos, o discurso de entrada na
Academia de Ciências Morais e Políticas, de Gumersindo de Azcárate
(Concepto de la Sociologia, 1891), era tributária de uma concepção parecida.36
Os mais ortodoxos krausistas abordaram a leitura de doutrinas sociais de cará-
ter naturalista – especialmente a de Spencer – e de tratados sobre a “ciência da
história” com a convicção de que a “história social” e a sociologia, portadoras
de uma imprescindível função moral, estavam ligadas, em última instância, a
uma “ciência dos princípios” ou metafísica que lhes dava sentido. Para eles, a
paternidade das Ciências Sociais seria atribuída a Krause e à tradição idealista.37

128
Capítulo 6

A consideração filosófica daquelas tinha, além do mais, repercussões no con-


ceito da História, que era vista como metafísica e história universal na mais
pura tradição idealista (à maneira de Ideal de la Humanidad para la vida, de
Krause, traduzido por Sanz de Rio, 1860, ou do Compendio razonado de
História General, 1863-1876, de Fernando Castro).38 Mas, nos anos 1890, tam-
bém houve alusões à “história social”, isto é, a um domínio sociológico de limi-
tes imprecisos relacionado com o “reformismo social” ou modo de entender a
“história da civilização”. Com esta segunda acepção, Adolfo Posada referiu-se
à “Sociologia como História”, e Rafael Altamira, na revista britânica The
Athenaeum, referiu-se aos dois autores e obras mais importantes, em sua opi-
nião, de “nossa história social”. São elas: Instituciones sociales de la Espana goda,
de Eduardo Pérez Pujal (1894, obra póstuma), e Colectivismo agrario, de
Joaquín Costa (1898).39
Apesar das novidades, ou precisamente, graças a elas, no período refe-
rido, o krausismo estava necessitado de uma reflexão que delineasse perfis
mais definidos da sociologia e reconhecesse a novidade e os traços tradicionais
da historiografia profissional. A aparição de quem quer que visse na “ciência
da história” um modo de referir-se à “sociologia” não fazia outra coisa senão
aumentar essa necessidade. Alguns discípulos “emancipados” ou autores inde-
pendentes, ainda que próximos ao krausismo, como Manuel Sales y Ferré ou
Pedro Dorado Montero, críticos da metafísica ou da “filosofia da história”,
haviam entrado em controvérsia nesse debate sobre a história. Nesta, viam o
componente das ciências sociais que pareciam estar surgindo bruscamente e
rompendo com as velhas formas de pensamento, mais que uma nascente dis-
ciplina devedora da Academia, da erudição e das escolas européias.40
Sales y Ferré (catedrático de sociologia da Universidade Central desde
1899, quando jovem discípulo predileto de Fernando de Castro e, já há tem-
pos, desligado pessoalmente do núcleo sevilhano krausista) havia chegado a
conceber a Sociologia não tanto como um procedimento novo da filosofia e
das tradicionais Ciências Morais e Políticas (a moral, a economia, o direito...),
tal como a consideravam os krausistas mais ortodoxos. De modo diverso, con-
siderava-a como uma ciência completamente diferenciada, de marcada orien-
tação histórica, desligada e superior à filosofia e à filosofia da história. Com
estes argumentos, objeto de censura por parte de outros krausistas, Sales fica-
ria completamente isolado.41 Algo parecido havia ocorrido com Dorado
Monteiro, que publicou em La Lectura – outra revista de começos de século
atenta à epistemologia histórica – um artigo “sobre o caráter científico da his-

129
Capítulo 6

tória” (1908). Uma vez que o autor havia recusado o conceito krausista da
ciência, pois “só há ciência dos fenômenos, aquilo que não é observável não
pode ser objeto da ciência”, 42 tentaria justificar uma dupla acepção de “ciência
da história”: história como substrato de todas as ciências e história como dis-
ciplina específica, equiparável em método e objeto às outras, caracterizada
“pela observação” e com “iguais aspirações mentais de catalogação e classifica-
ção, generalização e indução, de que resultam os conceitos, as idéias, os juízos,
os raciocínios de índole geral e abstrata que tende a formular o homem de
ciência”, 43 dado que “os feitos humanos são (...) igual que os fenômenos res-
tantes produzidos pelos demais seres naturais, objeto de observação e conhe-
cimento conseqüente por parte dos homens”.44
O reconhecimento do caráter específico da sociologia e da historiogra-
fia acabaria tendo seus próprios protetores entre os krausistas mais ortodoxos.
Nesta direção, discorreram os Estudos de Sociologia (1908) de Adolfo Posada
que, sem renunciar completamente à metafísica, reconhecia a procedência
positivista da sociologia, definia a historiografia através de Seignobos e
Xénopol, ressaltava as diferenças de ambas com a Filosofia da História, e
defendia a compatibilidade entre todas elas.45 No entanto, foi Rafael Altamira
o encarregado de firmar o estatuto epistemológico da nascente historiografia
profissional espanhola. Sua contribuição consistiu em conciliar, até onde era
possível, as tradições krausistas com a erudição e a metodologia histórica,
valendo-se de seus vínculos com os eruditos e de um tardio, mas proveitoso,
contato com as escolas históricas francesa e alemã (1890). As idéias expressa-
das em La eseñanza de la Historia (1891, 1895), De historia y arte. Estúdios crí-
ticos (1898) ou Cuestiones modernas de historia (1904), logo divulgadas entre o
público culto,46 acompanharam a difusão da “ciência da história” no mundo
universitário e reformularam os conceitos de “história geral” e “história nacio-
nal”. A obra de Altamira, nesse sentido, singularizou-se pela tentativa de unir a
história de feitos políticos dos eruditos profissionais e acadêmicos com o con-
ceito krausista de “história da civilização” (aquele citado em sua própria lin-
guagem sociológica, com “a unidade orgânica da vida social”), perseguindo
uma história geral em que o “interno” e o “externo” permanecem equilibrados:

Em uma história geral (...) não se pode suprimir a história política (....) como
se o desenvolvimento da personalidade jurídica, territorial e militar dos povos não
tivessem nada a ver com sua civilização. Há (....) que se dar a esta parte da história
um lugar próprio e adequado à sua importância (....) mas, sob a condição de estu-
dá-la conforme o processo natural de sua formação, é dizer, começando pelo seu

130
Capítulo 6

aspecto interno (elementos que ocorrem para criá-la: idéias, classes sociais, etc.)
para que se veja claramente a geração e o porquê do resultado externo (os feitos
políticos, revoluções, guerras, mudanças de dinastia, etc.). 47

Nessa nova estratégia de examinar as diferenças, mas também as com-


patibilidades entre filosofia, sociologia e historiografia, o discurso de entrada
à Academia de la Historia de Gumersindo de Azcárate (1910) encerrou o
período das contribuições krausistas à reflexão historiográfica. Carácter cientí-
fico de la historia, atentamente considerada por alguns historiadores desejosos
de demarcar a distância entre a “ciência da história” e a erudição,48 constituiu
a tentativa mais madura de formular uma epistemologia que conciliasse os
princípios krausistas, a sociologia e a historiografia. Reconhecendo três cate-
gorias de “objetos científicos” – “os princípios”, as “leis” e os “fatos” – corres-
pondentes às respectivas ciências – a Filosofia (da história, do direito....), a
Sociologia e a História (social ou da civilização) –, Azcárate estabelecia suas
diferenças e pontos comuns.49 Seu discurso, em suma, foi uma das mais impor-
tantes provas de que o “krausopositivismo”, por sua capacidade de adaptação
às novidades e aos arcaísmos do mundo intelectual espanhol, havia acabado
impondo-se a outras concepções positivistas mais radicais e reticentes à meta-
física e à historiografia profissional.

AO ENCONTRO DO INDIVÍDUO HISTÓRICO


OU AS SOMBRAS DO PENSAMENTO
GERMÂNICO
Depois deste período inicial, uma vez afirmada a noção de método e
proposta a de causalidade histórica, a auto-reflexão da historiografia espa-
nhola entraria, a partir dos anos 1920, em uma longa fase da qual não saiu
definitivamente até a década de 1960, com a lenta vitória da “história social”.
Tal reflexão consentiu um terreno relacionado com as filosofias do “sujeito”,
as morfologias históricas e algumas histórias especiais. Foi uma verdadeira
reviravolta intelectual, um reflexo indireto das vicissitudes políticas e sociais
espanholas e mundiais, e uma manifestação da ausência de raízes universitá-
rias das Ciências Sociais. Do ponto de vista epistemológico, uma prolongada
reação “antipositivista” que adquiriu verdadeiros traços políticos depois da
Guerra Civil.

131
Capítulo 6

O interesse que despertava no passado a metodologia histórica foi dimi-


nuindo à medida que esta se consolidava. Precisamente, depois da publicação
dos primeiros trabalhos sobre esta matéria, alguns inclusive reeditados e
ampliados como o de García Villada, predominou a solução intermediária de
traduzir obras estrangeiras, em que se incorporavam referências e exemplos
espanhóis: em 1923, a obra de Seignobos sobre a História e as Ciências Sociais,
preparada por Domingo Vaca; em 1937, a Introdución al estudio de la historia;
síntese da obra de Benheim e, em 1944, a versão da obra de Wilhem Bauer,
também Introducción al estúdio de la historia (1921), com amplas anotações de
Luis García de Valdeavellano. A esta lista se somaram os primeiros manuais de
“ciências auxiliares”, de paleografia ou arqueologia, herdeiros dos trabalhos de
cátedra da antiga Escuela Superior de Diplomática. Consolidadas no período
entre guerras, as seções do Centro de Estúdios Históricos e as “cátedras de
doutorado” da Universidad Central, fundadas as principais revistas especiali-
zadas apadrinhadas pela Junta para Ampliación de Estudios, tem-se como
resultado que, até finais dos anos 1940, a metodologia histórica havia mereci-
do uma publicação notória. Quando a teve, repetiram os ensinos anteriores
(os cursos dados por professores da Universidad Central no Servicio Histórico
Militar, infra). Cabe excetuar, talvez, a atividade de Rafael Altamira no exílio
com a metodologia para a História do Direito.50
A diminuição da reflexão historiográfica foi devida, sem dúvida, ao
assentamento da profissão em um panorama em que o positivismo filosófico
não havia ajudado a iluminar nada duradouro e no qual as reformas da instru-
ção pública haviam ficado curtas no mundo universitário. Como constatou elo-
qüentemente José Deleito Piñuela, um dos poucos historiadores capaz de seguir
atento ao espírito interdisciplinar surgido no país vizinho, “hoje que a febre do
especialismo vai superando as construções sintéticas, parece que uma conspira-
ção de silêncio se estende sobre a obra de Sales y Ferré”.51 Não é por acaso que
das obras teóricas de orientação positivista – ainda que não exclusivamente –
publicada nesses anos possamos destacar as reedições ampliadas dos Principios
de Sociologia, de Adolfo Posada (1908, 1929), e das Cuestiones Modernas de
Historia, de Rafael Altamira (1904, 1935). Não faltaram, de fato, as invocações
deste último à divulgação, ao ensino e aos valores liberais da historiografia,
como se pode observar nessa segunda edição. Mas, naquele momento, as fon-
tes da curiosidade reflexiva já teriam outros lugares de procedência.
Após a Grande Guerra, visível o declínio do krausismo como grupo inte-
lectual e visível a expressão de alguns projetos em um contexto de mobilização

132
Capítulo 6

política dos intelectuais,52 o panorama universitário espanhol começou a se


abrir mais aos estímulos estrangeiros e a se sentir atraído pelos ecos de um
fenômeno já conhecido no mundo germânico pelo menos desde finais do sécu-
lo: a busca de um rearmamento intelectual da tradicional “concepção germâni-
ca da história” ou, como lhe chamavam seus protagonistas, “o problema do his-
toricismo”. Era um objetivo em que o mundo germânico contava com empe-
nhados filósofos e historiadores; todos inimigos declarados dos “métodos gene-
ralizantes” das Ciências Sociais e todos eles entregues a recuperar as raízes idea-
listas do “historicismo” sem renunciar a seu princípio básico: “totalidade indi-
vidual” versus “ciências matemáticas e mecânicas” (Ernest Troelsh).53 Um de
seus efeitos de maior destaque foi o de elevar a importância da “história inte-
lectual” (Geistesgeschichte) na mesma escola alemã – ilustrado pela trajetória do
próprio Friedrich Meinecke. Mas, sobretudo, teve o efeito de influenciar através
das histórias especiais. Tal influência seria constatada por um dos mais atentos
a esta problemática, Johan Huizinga, descoberto na Espanha nos anos 1930 e
1940. Na sua apresentação em nosso país entre o público universitário, dizia:

Parecia mesmo que, freqüentemente, a importância da História política fosse


deixada em segundo plano; crescia, no entanto, a demanda pela História do comér-
cio e da indústria, da arte e das idéias; também, da cultura. A conseqüência deste
processo de especializar e diferenciar foi que, no tempo moderno, os nomes dos
grandes pensadores históricos se encontram mais freqüentemente nos terrenos
54
especiais do que nos da História em geral.

Quando os supostos idealistas da “concepção germânica da história”


entraram em crise nos anos do Império, um dos mais importantes argumentos
para confrontar e defender esse “método individualizante”, ante a aparição das
Ciências Sociais, foi a de que a tradição idealista alemã – e não as tradições posi-
tivistas francesa e anglo-saxã – haveria sido a autêntica inventora das Ciências
Sociais. Este raciocínio, talvez familiar a alguns krausistas espanhóis (supra),
cobrava um significado completamente defensivo na pena dos escritores tradu-
zidos a partir dos anos 1920. Encontramo-lo transformado no elemento prin-
cipal de suas polêmicas, algumas traduzidas ao castelhano, como a do especia-
lista em história constitucional Georg von Below, exacerbado defensor do idea-
lismo, adversário das Ciências Sociais e muito reconhecido no Anuario de
Historia del Derecho Español, ou a do economista e sociólogo tradicionalista
austríaco Othmar Spann.55 Não menos importante era a conseqüência que
acompanhava ao referido argumento: o assumir que as historiografias especiais

133
Capítulo 6

(social, da economia, da arte...), sem deixar de pertencer a suas corresponden-


tes disciplinas idealistas, seriam mais dadas a manejar categorias conceituais
que o historiador geral, “que há de deixar atuar sobre si mesmo a plenitude da
intuição histórica” (F. Meinecke).56 Na escola francesa, não importando que a
historiografia acabasse definida através de critérios não idealistas – mesmo que
em parte críticos como positivismo filosófico – pressupunha-se também uma
diferença epistemológica entre história geral e as histórias especiais que apon-
tavam em direção semelhante. Seignobos expressou isto, em sua obra sobre a
História e as Ciências Sociais, da seguinte maneira: enquanto as histórias espe-
ciais (dos costumes, das artes, das religiões, das instituições....) “não dão mais
que uma descrição das abstrações sucessivas”, “o caráter” da história geral é “ser
uma descrição da realidade concreta, de contar os atos ou as aventuras do con-
junto dos homens que formaram a sociedade”.57
Na Espanha, a recepção do fenômeno já referido foi “monopolizada”
por uma personagem já notória como Ortega Y Gasset.58 Seu perseverante
interesse pela História, que data do início dos anos 1920, do “triênio bolche-
vista” e do início do período da Ditadura, foi interpretado de modo contradi-
tório: de um lado, com uma deserção “anti-revolucionária” da prioridade
outorgada naquele momento à política; de outro, como um modo de protesto
intelectual contra a Ditadura.59 Seja qual for o significado de tais invocações à
História, o certo é que, a partir desse momento, Ortega aventurou-se em uma
febril atividade para dar a conhecer distintas obras históricas representativas
das “ciências do espírito” de inspiração germânica. “Vá para passado que nos
meus errantes escritos – sinalava em 1935 –, nas edições da Revista de
Occidente e nas de ‘Espasa Calpe’, dou ao público os empurrões que posso para
induzir-lhes ao estudo da história”.60 Com a colaboração de Manuel García
Morente, de seu discípulo José Gaos e de outros, Ortega esforçou-se em apre-
sentar e selecionar para sua tradução um repertório que incluía desde o filó-
sofo neokantiano Heinrich Rickert (1922) até historiadores como Heinrich
Wölfflin (1924) ou Johan Huizinga (editado e dado a conhecer em 1934 e
1935), passando por especialistas em etnologia, sociologia e psicologia como
Léo Frobenius (comentado em El Sol e na Revista de Occidente em 1924),
Georg Simmel (freqüente na mesma revista e cuja Sociologia foi editada em
1927), Hans Freyer (do qual a Revista de Occidente reuniria, em 1931, sua
introdução teórica à História Universal de Espasa-Calpe), Wilhelm Dilthey
(apresentado na revista em 1933 e 1934) ou Eduard Spranger (editado em
1935). De fato, Ortega não se esqueceu de La decadencia de Occidente de

134
Capítulo 6

Oswald Spengler (1923-26, 4 vols.), da qual García Morente publicara em 1923


“um guia ou carta geográfica para orientar o leitor”; nem da “Filosofia da
História” de Hegel, que saiu à luz em 1928.61
Foi aquele um esforço benéfico para filosofia e para algumas histórias
especiais, continuado e potencializado pelo exílio intelectual do pós-guerra,
mas ao qual os historiadores contemporâneos mais importantes quase não
dedicaram publicamente atenção. Fosse pela escassez de revistas interessadas
na história, fora das publicações profissionais assentadas com abandonado
otimismo nas normas do “método histórico” – excetuando-se a Revista de
Occidente –; fosse pela agressividade com que Ortega atuou em ocasiões no
“grêmio de historiadores”,62 ou pelas reservas com que havia sido acolhida a
interpretação histórica de sua España invertebrada (1921),63 o certo é que sua
proposição não passou, em princípio, de uma mera exigência ou plano pes-
soal. A pretensão orteguiana ficou expressa de modo esquemático no artigo
intitulado “A filosofia da história de Hegel e a historiologia” (1928), em que
foi reivindicada uma “autêntica” ciência histórica com o neologismo “histo-
riologia” capaz de superar a proposta neokantiana de uma “reflexão lógica”
da história mas sem cair na “metafísica” ao modo hegeliano: “uma análise
imediata dos feitos heróicos, da realidade histórica”.64 As categorias dessa
“realidade histórica” já havia abordado em alguns ensaios, ao menos desde a
publicação de España invertebrada – texto nietzcheano e como um claro esti-
lo de Splengler. Mas, a sua visão morfológica somente se expressou nas con-
ferências En torno a Galileo (1933). Este ensaio sobre a problemática intelec-
tual do renascimento – tema recorrente para esta tradição historiográfica –,
em que Ortega exporia categorias de caráter psicológico como “geração”,
“crise histórica”, ou diversos “tipos vitais” históricos, pode se considerar o
início da influência orteguiana na historiografia espanhola. Essa influência
que não se produziu isoladamente, foi, pelo contrário, produzida pela mão
de alguns dos autores antes mencionados. En torno a Galileo foi, até o pós-
guerra, o mais conhecido na Espanha da “historiologia” orteguiana – com-
plementado talvez com Ideas y creencias (1934), breve ensaio de “sociologia
do conhecimento” de influência nieztscheana e ressaltada crítica das ideolo-
gias. No ensaio História como sistema, de forte pretensão analisadora, surgi-
do em inglês, em 1935, mas inédito em nosso idioma até 1941, deixaria para
trás, no entanto, o morfologismo spengleriano, uma vez que a concepção
orteguiana da história alcançava um marcado tom existencialista, produto
da atração por Heidegger.65

135
Capítulo 6

A influência de Ortega e de alguns dos autores antes aludidos consoli-


dou uma base fundamental para a reflexão de certos historiadores após a
Guerra Civil. Salvo algumas exceções, esse interesse não veio dos profissionais
de maior conhecimento acadêmico e erudito e, sim, de autores e histórias
especiais dispersos ainda que notórios. Os nomes de Santiago Montero Díaz,
autor de várias facetas, interessado especialmente na Filosofia da História e nas
idéias do mundo antigo; Pedro Laín Entralgo, historiador intelectual e da
Medicina; Enrique Lafuente Ferrari, especialista em História da Arte; Carmelo
Vinñas Mey, procurador incansável de uma “história social” ou sociologia his-
tórica; ou Luís Díez del Corral e José Antônio Maravall, estudiosos da história
do pensamento político e social moderno e contemporâneo, constituem pon-
tos de referência imprescindíveis para seguir a pista dessa influência germâni-
ca semeada por Ortega.66 Quando em 1947-1950, um grupo relevante de his-
toriadores da Universidade Central proferiu dois cursos de “Metodologia e crí-
tica históricas sobre formação técnica do moderno historiador” no Serviço
Histórico Militar; os autores que deram maior cunho filosófico a suas confe-
rências foram precisamente Montero e Carmelo Viñas.
Para contextualizar melhor esta ascensão do pensamento histórico ger-
mânico depois da Guerra Civil, devemos fazer mais dois esclarecimentos. A
influência de Ortega no mundo universitário a partir de 1940, marginalizado
da Cátedra de Metafísica Central, teve repercussões política de excederam
muito sua atividade intelectual: tido primeiro como “sênior” dos intelectuais
falangistas durante os chamados anos da “não-beligerância” – apelação que
remonta ao fundador da Falange, José Antônio Primo Rivera; seria invocado
como mentor dos setores não intreguistas a partir dos anos de isolamento
internacional, especialmente em vésperas da crise de 1956, coincidindo com
seu falecimento no ano anterior. Por outro lado, após a Grande Guerra, houve
uma invasão das concepções da direita católica – tradicionalismo, neotomis-
mo... – no terreno universitário e da alta cultura, que não só estimulariam
certa reflexão sobre a História, mas também exerceriam autênticas censuras e
críticas com um pensamento germânico – e em particular com o orteguiano –
ao qual acusariam seu “paganismo” ou sua convivência intelectual com os fas-
cismos derrotados, acusação estendida às traduções do exílio em Ultramar.
O que os autores do pós-guerra fizeram foi aprofundar no receio antipo-
sitivista presente em Ortega e nos pensadores por ele admirados, para dirigir a
reflexão ao terreno do sujeito, da biografia e do psicológico, exaltando o irracio-
nal em alguns casos, e descartando outro tipo de categorias e problemas. Como

136
Capítulo 6

evocava José Antonio Maravall, a leitura de História como sistema, obra em que
“se punha em destaque a singularidade, a individualidade dos feitos históricos
considerados como próprio objeto de conhecimento da história (...), acompa-
nhadas estas circunstâncias de uma temporada de atenção especial à linha
Dilthey-Meinecke, fizeram-me cair em um nominalismo histórico que podia ser
grave”.67 Por outro lado, realçar traços como a “descontinuidade”, “singularida-
de”, “liberdade” ou “personalidade” da história tinha, além do mais, uma clara
leitura política naquele tempo. Introduzia a busca de uma “genuína doutrina da
história”, seja de pretensões tradicionalistas seja de inspiração falangista.
Em 1940, o co-fundador das JONS e historiador profissional, Santiago
Montero Díaz, adiantou-se em expor essa necessidade de uma “doutrina da his-
tória”. Isso também podemos encontrar, por aquelas datas, na revista Escorial,
em que em alguns artigos se encontra aquela frase de Nietzsche: “O passado não
deve ser interpretado sem a suprema força do presente”.68 Integración del arte em
uma doctrina de la histtoria (1940) era uma reflexão sobre a idéia da “história
universal” e suas manifestações historiográficas baseada em uma precisa apela-
ção ao “voluntarismo histórico”, à “personagem” como sujeito da história, e ins-
pirada na teoria dos “tipos básicos da individualidade” de Eduard Spranger –
psicólogo vitalista dado a conhecer nos anos 1930 por Ortega. Ali, como uma
invocação tipicamente fascista, cobrava prioridade a “história estética” e o homo
aesteticus, por ser neste “mais espontâneo e vivo o livre jogo do fator pessoal”.69
Anos mais tarde, repassando o fundo filosófico do “método histórico”, da “his-
toriografia espanhola medieval e moderna” ou “a divisão da história”, em sua
conferência de “Primeiro Curso de metodologia e crítica histórica”, este nietzs-
cheano seguiria insistindo que a “essência da história é a singularidade históri-
ca”, sem aliviar em nada seus prejuízos contra as tradições positivistas:

Recusamos os métodos naturalistas para a explicação da história universal por


sua notória insuficiência. A criatividade humana, o espírito, a liberdade que atua
decisivamente nos destinos do homem, escapam totalmente da previsões de tais
métodos. E, cabalmente, nesses imponderáveis reside o motor da História.70

À insistência na individualidade se acrescenta a insistência da empatia e da


intuição, carregadas de irracionalismo em alguns casos, cuja procedência geral
encontramos em Spengler. Para ele, a compreensão de uma “cultura” implicava
identificar-se intuitivamente com ela.71 Também neste terreno teve influência de
Dilthey, o autor germânico que mais valorizava Ortega e o que descobriu através
de Heidegger. Além de lhe dedicar um artigo de apresentação na Revista de

137
Capítulo 6

Occidente, chegou a falar dele em sua História como sistema, que era “o pensador
mais importante da segunda metade do século XIX”,72 e, anos mais tarde, que “os
‘pseudo-intelectuais’, praga de gafanhotos cultural, caíram sobre ele”.73
Em efeito, Dilthey também proporcionou argumentos recorrentes para
realçar essas características de “singularidade” e “liberdade” da história e da
“intuição” no trabalho historiográfico. Seus ecos, junto com os de Spengler,
são informados nos artigos publicados em 1942 pelo franquista convertido
Manuel García Morente. Também neste caso, um antipositivismo militante
servia para fundamentar a tese de que “sobre sua vida biológica vive cada
homem outra vida – a chamemos histórica – que é a série de transformações
pelas quais passa seu ser humano (...) vida [que] não pode ser reduzida a leis
gerais (...) vida peculiar, própria, íntima...”.74 Nesse momento, a biografia pas-
sava a se constituir no gênero historiográfico por excelência, em que o histo-
riador devia “interpretar os feitos na trajetória total da vida através da própria
intuição da continuidade na vida narrada”.75 Os trabalhos de García Morente,
oculta crítica à orteguiana “História como sistema”, foram também um elo na
influência da filosofia da história providencial e tradicionalista. Tal filosofia foi
iniciada com a tradução do filósofo russo Nicolas Berdiaeff, El sentido de la his-
toria (1936, 1943) (morfologia cultural com forte dose de tradicionalismo e
exaltação do “intuitivo”76), a obra de P. García Villada, El destino de España em
la Historia Universal (1936, 1940, 1948),77 e foi cultivada por autores como
Rafael Gambra – assíduo em diversas revistas do Consejo Superior – e de
modo esporádico por historiadores ideologicamente ligados ao tradicionalis-
mo como Luciano de la Calzada, o Martín Almagro.
Talvez tenha sido Pedro Laín Entralgo quem mais insistentemente ser-
viu-se da influência de Dilthey, Heidegger e Ortega em seus estudos, de claro
significado político, sobre o pensamento e a obra de Menéndez Pelayo, que lhe
mantiveram no foco dos furores mais integristas em meados dos anos 1940.
Laín havia se visto atraído durante a Guerra pelo pensamento germânico e
pela história da medicina, reivindicando-a como “ciência cultural” ou “idio-
gráfica” ao modo de Windelband e Rickert em Medicina e História (1941).78
Mas no momento de escolher um procedimento para essas “ciências culturais”
esse intelectual falangista preferia mais a Dilthey que aos neokantianos, auto-
res aos quais o próprio Ortega Havia considerado “antiquados”.79 Em conso-
nância com isso, nas oposições à cátedra de História da Medicina da
Universidade Central (1942), Laín afirmaria que “a aplicação do método de
Rickert serviria se as sucessões históricas tivessem a veracidade imperturbável

138
Capítulo 6

dos processos físicos, nos quais são possíveis juízos sintéticos anteriores à
experiência. Para o livre acontecer do homem, o processo é imprestável, nos
deixa em maus lençóis”.80 Sua biografia de Menéndez Pelayo, não obstante, foi
a obra que mais terminantemente o levou ao terreno da história intelectual e
da epistemologia histórica. Menéndez Pelayo. Historia de sus problemas intelec-
tuales (1944) iniciava-se com três capítulos teóricos de influência diltheyana e
heideggeriana sobre o significado e os elementos da “compreensão”, o papel
capital da biografia na historiografia e a proposta de junto aos hábitos psico-
lógicos e éticos do biografado, “nosso problema é saber o que quis fazer uma
pessoa com sua vida inteira”, pois “se adquiriu em sua existência temporal estes
ou aqueles hábitos, foi precisamente graças a esse empenho espontâneo seu ou
influenciado com fazer algo de e com sua vida”.81
Ainda mais clara foi a influência diltheyana em Las generaciones em la
historia (1945), do mesmo autor. Este ensaio, salpicado dos lugares comuns da
história como domínio da “liberdade”, “singularidade” e “descontinuidade”,82
era uma tentativa de “desbiologizar” a categoria de “geração”, de corrigir a “his-
toriologia” orteguiana em uma direção mais obcecada pelo problema da
“vivência”,83 de levar aquela categoria a um terreno psicológico definindo-a
como uma “forma que adota a consciência histórica do homem ante uma
determinada época”.84 A matéria das gerações estava tendo, naquele momento,
um inusitado destino intelectual, iniciada primeiro entre filólogos e historia-
dores da arte e logo entre outros historiadores. Sua divulgação levou ao orte-
guiano Julián Marías, sob o apadrinhamento de seu mestre, a reivindicar tal
achado em El método histórico de las generaciones (1949, 1960, etc.), importan-
te peça para a divulgação do conceito, cuja gênese encontrava-se em autores
franceses do século passado e ao que acrescentava uma certa dimensão socio-
lógica inexistente nos escritos orteguianos mais além das referências nietzs-
cheanas, ainda que o discípulo se esforçasse em manter o contrário.85 A nova
referência ficou expressa neste texto:

Os usos sociais, as crenças, as idéias do tempo se impõem automaticamente aos


indivíduos; estes se encontram com eles e com sua pressão impessoal e anônima; não
quer isto dizer que forçosamente hajam de ceder aos conteúdos vigentes; mas têm
que contar com eles (...) e isso quer dizer ter vigência.86

A influência de Ortega e Dilthey foi especialmente importante para o


conceito de “história da arte”. Na realidade, as primeiras reflexões sobre as ciên-
cias históricas especiais datam do pós-guerra (infra). No caso da arte, vários

139
Capítulo 6

fatores haviam acompanhado sua configuração profissional e universitária, con-


vertendo-se em uma parte da história geral: o abandono definitivo do conceito
de “Belas Artes” de raízes do século 18, a separação completa da arqueologia ou
a vinculação à disciplina da estética.87 No entanto, ainda não existia uma refle-
xão sobre a matéria e só lentamente se começava a sentir a necessidade de cate-
gorias específicas. Alguns passos haviam tomado essa direção: a tradução, em
1912, da Estética, de Benedetto Croce, de que participou Unamuno, ou a tradu-
ção de Os conceitos fundamentais na história da arte, de Heinrich Wölfflin (1924,
edição alemã de 1916), realizada por José Moreno Villa a pedido de seu amigo
Ortega. História da arte sem nomes, Los conceptos, proporcionariam, pela primei-
ra vez, uma linguagem conceitual aos especialistas espanhóis, além de sintonizar
com o interesse orteguiano pelas morfologias históricas.88 Entretanto, até o dis-
curso de Enrique Lafuente Ferrari na Academia de Bellas Artes em 1951, não se
pode falar de uma reflexão em profundidade sobre a disciplina. Nesse momen-
to, este orteguiano reivindicava uma concepção inimiga de qualquer evolucio-
nismo e projeto morfológico, em que se uniram a história cultural e o interesse
pela estética e a criação individual: “Personalidade, criação como elemento pri-
mordial da história artística [Croce] (...). Compreensão a Dilthey e não explica-
bilidade ou causalidade. Interpretação e não evolução...”.89
Esta tendência de considerar a história domínio do individual permane-
ceu combinada no caso de Carmelo Viñas Mey, historiador cuja reflexão situa-
va-se no terreno aparentemente mais propício da Sociologia, embora também
completamente periférico ou “auxiliar” desde sua aparição na Espanha, em
finais do século 19. Além do mais, quando teve começo a carreira acadêmica de
Viñas nos anos 1930, a cátedra de sociologia da Universidade Central estava
ocupada por Severin Aznar Embid (1916-1936), sucessor do krausopositivista
Manuel Sales Y Ferré e figura destacada do catolicismo social, completamente
desinteressada pela sociologia histórica que um contemporâneo caracterizou
como “sociólogo para ação”.90 A fundação, em 1942, do Instituto Balmes del
Consejo Superior criaria o âmbito propício para o cultivo de uma sociologia de
orientação católica com certa vocação teórica e historiográfica, de que necessi-
tava até então, e constituída, entre outros, por um interesse na teoria e morfo-
logia culturais e na “história social”. A maturidade da sociologia e a renovação
da historiografia, nos anos 1960, foram fatores determinantes na decadência de
tal domínio. Mas o principal sustentador desse interesse historiográfico seria
precisamente Carmelo Viñas, herdeiro das tradições do reformismo social do
final do século que convocara a conservadores e a krausistas (se bem que, a

140
Capítulo 6

estes, últimos, devemos as páginas mais inovadoras de historiografia). Viñas era


um conhecedor in situ do “problema agrário” (com alguns reformistas sociais),
antes de sua chegada à universidade compostelana91 e, finalmente, um contagia-
do dos empenhos teóricos das “ciências do espírito” germânicas.
Viñas não empreendeu sua reflexão a partir da história intelectual e, sim,
a partir das formulações da Kulturgeschichte e a sociologia histórica, dirigindo
seus dardos contra a “tradicional” história institucional, o que realça ainda mais
seu desejo de sincretismo antipositivista. Como escreveu no necrológio de
Johan Huizinga, a História e a Sociologia compartilhavam o mesmo objeto, “o
grupo humano”, e estavam “separadas pelos limites que há ‘entre o descritivo e
o normativo’, entre a realidade contingente e o projeto conceitual”, de modo que
“o historiador percebe no passado – e descreve – certas formas ideais (...) de
sociedade, de arte, de veneração de Deus, de direito, de indústria, de vida nacio-
nal e popular, de vida e cultura. Uma função reside em cada forma, e o soció-
logo as define”.92 Anos mais tarde, acrescentaria a partir de idênticos pressupos-
tos que “a sociologia clássica é um produto das correntes do idealismo em suas
várias modalidades, do romantismo, da escola histórica, do tradicionalismo e
da nova biologia espiritualista, em maior medida que do positivismo propria-
mente dito”.93 Em concordância com ele, veria nas categorias sociais e econômi-
cas – ou institucionais – mais que fenômenos “coletivos” em si mesmos, expres-
sões das “formas da individualidade”, manifestações da união das idéias de
“comunidade” e “individualidade”. Estas formulações lhe permitiam reivindicar
ao mesmo tempo a psicologia social e a sociologia do conhecimento de proce-
dência germânica, os “tipos sociais”, ou “vitais” e a idéia de geração.94 Enfim,
para Viñas, a “história social” seguiu constituindo um domínio sociológico de
limites inconsistentes na linha do reformismo social de finais do século 19, em
que, por razões ideológicas, se prendia em certas doutrinas sociais e substituía
as tradicionais categorias institucionais por visões morfológicas.
A atração exercida pelas morfologias culturais, salpicadas de fundo exis-
tencialista – origem parcial desse interesse com a renovação historiográfica –,
revelar-se-ia, em médio prazo, incompatível com a renovação historiográfica.
Não obstante, o contexto cultural dos anos 1940 e 1950, de escassez e de miséria
econômicas, assegurou-lhes uma ascendência singular. Os autores mais radicais,
ou mais identificados com os fascismos derrotados, desacreditados, deixaram
passagem a outros autores. Spengler, Berdiaeff e Heidegger cederam o posto a
Toynbee, Dawson e Jaspers. Em qualquer caso, as doutrinas do “individualismo
metodológico” seguiram imóveis. A influência de Toynbee em particular consti-

141
Capítulo 6

tuiu o mais importante exemplo de como razões ideológicas, preconceitos pro-


fissionais, confusão na busca de teorias históricas, e inclusive o isolamento polí-
tico e cultural, deram um passageiro impulso ao interesse pela “filosofia da his-
tória” durante os primeiros cinqüenta anos. Jaime Vicens Vives, que reconheceu
em seus estudos sobre “Geoistória” ou “Geopolítica” que Toynbee lhe havia pro-
porcionado os “mais sólidos embargos filosóficos”, resenhou com toda a espécie
de elogios à obra do filósofo e historiador britânico concluindo que “renuncia
por completo ao sonho spengleriano e volta a colocar a fecunda individualida-
de criadora no plano que sempre lhe correspondeu”.95
Desde a teoria cultural e a sociologia, tanto os irracionalismos mais
chamativos como a obsessão pela psicologia histórica já haviam sido criticadas
nos anos 1940. Na Revista Internacional de Sociología não faltaram, naquele
momento, as críticas a Spengler nem a filosofia vitalista em geral. Como escre-
veu em 1947 um de seus mais assíduos colaboradores, “o ‘espiritualismo’ e o
culturalismo de Dilthey e outros autores alemães nos colocou em um momen-
to aflitivo de ver extinguir-se completamente a ciência sociológica, já que em
sua reação antinaturalista estiveram a ponto de injetarmos outra vez o famo-
so espírito objetivo de Hegel, cuja eliminação é um dos supostos básicos da
sociologia”.96 A partir de 1945, a sociologia histórica reforçou-se com as formu-
lações de Hans Freyer, que acabaram no acervo de alguns historiadores inquie-
tos, convertidos por José Antônio Maravall em sua Teoria do saber histórico
em uma das principais propostas sobre os conceitos históricos.97 A obra de
Freyer era fiel representante dos lampejos finais da sociologia histórica alemã
de começos de século: discípulo de Spengler, descobridor tardio de Dilthey,
empenhado em superar a formulação – ainda inimigo da sociologia – da obra
diltheyana Introducción a las ciencias del espíritu (1883). Defensor da indepen-
dência daquela a respeito das “ciências do espírito de caráter sistemático”, con-
siderava-a ciência matriz de caráter histórico frente às outras “ciências do espí-
rito” alheias ao tempo, e a assentava em formulações existencialistas insistindo
em que “as formas sociais são os fundamentos de nossa existência”.98

A SAÍDA DO TÚNEL OU A RECEPÇÃO DA


HISTÓRIA SOCIAL
Nos anos 1950, os historiadores espanhóis começaram a conhecer em
alguns casos, a criticar publicamente em outros e a se deixar influenciar em

142
Capítulo 6

menos casos, pela escola dos Annales. Deixando de lado o seu mais decidido
partidário, Vicens Vives, a sensação que a escola deve ter causado entre os
menos passivos deve ter sido de auto-afirmação: uma “escola” cariz “unilate-
ral”, que, entretanto, ratificava uma necessidade largamente propugnada a
ampliar os horizontes do historiador. Em 1953, a revista Arbor traduziu um
artigo do medievalista belga Charles Verlinden, em que, pela primeira vez, apa-
recia uma tentativa ambígua de delimitar o conceito de “história social”: dis-
tinto da sociologia histórica, da etnologia e da geografia humana, mas, próxi-
mo à história econômica, ainda considerava o conceito definição de uma his-
tória especial.99 Já em 1960 (pouco antes de se publicar na Annales E. S. C., o
conhecido artigo de Braudel, “Histoire et sciences sociales. La longue durée”
(1958), editado em castelhano uma década depois), Carmelo Viñas Mey, dire-
tor naquele momento da Revista Internacional de Sociología e notório adversá-
rio de Vicens Vives, mandou transcrevê-lo “por sua grande significação cientí-
fica e o desejo de nossa revista de suscitar na Espanha o interesse por todas as
vertentes da sociologia”.100 Nesses momentos, já estava na sua segunda edição
aquele que se pode considerar o ensaio teórico mais importante desde o come-
ço do século, a Teoria del saber histórico, de José Antônio Maravall (1958,
1960); uma obra em que se alinhavam o pensamento orteguiano e as “ciências
do espírito” com as influências dos Annales. Por suas páginas desfilava um
elenco de nomes desde Ortega, Dilthey, Max Weber ou Freyer, até Braudel,
passando por alguns quase esquecidos como Xénopol. Sua crítica ao “método
individualizador” lhe permitia considerar a “história social” em sentido globa-
lizador como a futura tendência da historiografia:” sua concepção como um
estudo das relações estruturadas entre os indivíduos e os grupos, há de tomá-
la como um eixo de toda a área historiográfica...”.101
Em médio e largo prazo, a influência da escola dos Annales – em reali-
dade, a de Febvre, Bloch, Braudel, Labrousse e Vilar – seria essencial para esti-
mular a reflexão sobre a história econômica e social. Sem dúvida, talvez por
desconfiança e como recusa a uma “filosofia da história” fortemente centrada
na história intelectual, ou, talvez, devido à vigência de uma estrutura acadêmi-
ca onde cátedras universitárias, Conselhos Superiores e sociedades eruditas
locais eram os pilares de reconhecidos usos metodológicos e eruditos; a partir
dos anos 1950, a reflexão deliberada sobre a História foi uma atividade despre-
zada inclusive por parte dos mais receptivos historiadores. Um Vicens Vives
influenciado pela escola dos Annales considerou mais importante a organiza-
ção de projetos e a reinterpretação da história da Espanha e da Catalunha

143
Capítulo 6

moderna e contemporânea que a reflexão teórica, uma vez abandonado seu


interesse pela morfologia histórica e o diagnóstico cultural.102 De seus conta-
dos trabalhos naquela vertente, podemos destacar o artigo que publicou em
Hispania, Hacia uma nueva historia económica de España (1954), por motivo
de sua nomeação como professor encarregado da disciplina de História
Econômica de España da Facultad de Ciencias Económicas de Barcelona.103
Aquele foi um breve escrito sobre a importância da história econômica e social
para a história geral, em que o professor das costas ampurdanesas, lembrando
que “em geral os historiadores (...) esculpimos no vazio ou nos entretemos em
descrever epidermes”, propunha “ir ao centro da questão (...) partindo destes
dois princípios fundamentais: história econômica de um lado; história da
mentalidade social outro”.104
O comentário de Vicens adquire toda a sua importância se observarmos
que, entre os mentores do Instituto de Estúdios Políticos, do Instituto Sancho
de Moncada del Consejo e da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas,
contavam-se bastantes adeptos das teorias econômicas “neoclássicas”, críticos
das concepções “historicistas” de tradição germânica divulgadas por, entre
outros, Antonio Flores de Lemus antes da guerra.105 Segundo ele, os professo-
res de história econômica daquela Faculdade, ainda que estimulados pela
notória obra de Hamilton, seguiam construindo necessariamente uma prolon-
gação da “história econômica” de caráter institucional nascida nas Faculdades
de Direito. Também da “história da economia política” ao estilo de Colmeiro,
embora já longe da orientação ideológica deste. Sem uma tradição historiográ-
fica recente aos especialistas colaboradores da revista do Consejo Annales de
Economia, a delimitação de sua especialidade e sua função não parecia apre-
sentar-lhes maiores problemas. Nem sempre ocorreu o mesmo entre as histó-
rias especiais, tal e como o demonstram os singulares esforços de Alfonso
García Gallo por reinterpretar, em sentido restritivo e de costas à história geral
e a qualquer classe de influência procedente das correntes historiográficas
européias, o conceito de “história do direito” e a tradição espanhola ou o que
é o mesmo, a “´Escola de Hinojosa”.106
Porém, os historiadores espanhóis não leriam as mais criativas páginas
sobre a problemática da história econômica e social até uns anos depois, atra-
vés de Pierre Vilar, sobre cuja trajetória Vicens Vives fez a seguinte predição,
em 1950: “é um dos mais sólidos historiadores da economia espanhola, embo-
ra não tenha ainda nem o prestígio nem a autoridade, nem os recursos finan-
ceiros de um Hamilton, embora seja possível que possa chegar a compará-

144
Capítulo 6

lo”.107 A partir de 1960, com “Croissance économique et analyse historique”, seu


mais importante trabalho teórico durante essa década, lido na Premiére
Conférence Internationale d´historie économique de Estocolmo, Vilar havia se
transformado não somente em um notável discípulo marxista de Annales,
como também em um dos autores mais preocupados com o momento que
atravessava a historiografia e a economia e, por extensão, no problema das
relações entre a história geral e a história econômica; interesse que se remon-
ta aos anos trinta e de pós-guerra com o impacto de Labrousse e Hamilton.108
Em segundo lugar, na repercussão do estruturalismo e, por último, nas dife-
renças entre a “filosofia da história” e o marxismo entendido como “teoria his-
tórica”. Suas propostas derivavam da convicção de que somente este havia sido
capaz de assegurar um autêntico programa de “história total”.109 Em nosso país,
o mais conhecido das reflexões do autor de La Catalogne dans l’Espagne moder-
ne, circunscrevia-se, até começos dos anos 1960, em pouco mais que o relato
de Estocolmo, traduzido e divulgado pelos discípulos de Vicens (1964), e a um
sucinto, mas muito representativo ensaio das preocupações do hispanista.
Efetivamente, a conferência que pronunciou, em 1968, na Casa de Velázquez
“Historia geral e historia económica”, pode ser considerada um resumo de suas
polêmicas em diversas frentes: as precauções com o caráter restritivo dos
modelos econômicos e sociológicos ou, o que é o mesmo, o perigo de “fazer
história econômica como outros fazem história militar ou história da arte,
esquecendo de introduzir de novo todas essas histórias na totalidade históri-
ca”.110 Os “excessos da epistemologia” – a leitura marxista de Althusser e o espí-
rito anti-histórico de Lévi-Strauss; o risco das técnicas refinadas entendidas
como fim em si mesmas.111 Desses aspectos, o mais importante para os autores
espanhóis era a aposta pela “história total”.
Começados os anos 1960, a influência da escola dos Annales, a inércia e a
decadência das velhas concepções filosóficas e metodológicas haviam se estendi-
do até o ponto de suscitar a elaboração de um ensaio teórico, em que a balança
das influências e das reflexões permanecia inclinada. Comprendre el món (1967),
de um dos discípulos de Vicens melhor situados no terreno acadêmico, Joan
Reglá Campistol, ideologicamente liberal como seu mestre, representava um
tipo de reflexão menos sofisticada que o tradicional “ensaio orteguiano”. Tal
reflexão deixava para trás quase todas as velhas concepções. Editado em caste-
lhano três anos depois, situava-se no limiar de um período de renovação histo-
riográfica. A formulação aberta de Reglá podia aproximá-lo de historiadores
marxistas, justamente como ocorria a Vilar com respeito a alguns leitores espa-

145
Capítulo 6

nhóis não marxistas. Quando começaram a aparecer esporadicamente os pri-


meiros autores marxistas na revista Hispania (1968), Enrique Sebastiá, colabo-
rador de Reglá na universidade de Valência, pode iniciar a crítica daquela obra
escrevendo que “é somente possível que se compartilhem as motivações cientí-
ficas em favor de uma teoria histórica que integre a práxis de investigação”.112
Efetivamente, o trabalho de Reglá evitava um posicionamento teórico ou ideo-
lógico expresso, insistindo no relativismo e presentismo do historiador, especta-
dor dos grandes temas da década, do degelo das relações entre o leste e o oeste,
das novas orientações da Igreja Católica, mas alheio a todo interesse no diagnós-
tico cultural.113 As reflexões epistemológicas ficavam circunscritas às referências
à “história problema”, à “história integral” e à concepção braudeliana de tempo
plural.114 No entanto, Reglá não pretendia uma ruptura completa com as velhas
concepções. Em um adiantamento do ensaio citado, havia assegurado que
“podemos considerar que as contribuições decisivas para a elaboração do con-
ceito atual da História procedem da sistematização do historiador alemão
Wilhelm Bauer (...) e da grande atividade empregada por Lucien Febvre e Marc
Bloch...”.115 De fato, Comprendre el món conservava ainda certos traços “arcaicos”:
pretendia estabelecer um nexo – em forma de apêndice final –“entre a reflexão
historiográfica” e “as grandes visões da história universal”; e dedicava uma parte
específica ao problema das “gerações”, embora procurasse relativizá-lo e adaptá-
lo à história social como já tentara Vicens alguns anos antes. Seu argumento
principal contra a consideração orteguiana das “gerações” como categoria supre-
ma era a observação da aceleração do “ritmo histórico” e o progressivo incre-
mento na duração da vida humana a partir da época contemporânea.116
O triunfo definitivo da “história social” na Espanha, o que José Maria
Jover chamou em termos genéricos “a absorvente primazia da história social”,
teve lugar durante os anos da crise do franquismo e da Transição.117 Em apro-
ximadamente uma década, as transformações do panorama historiográfico
foram inconfundíveis: um maior consumo de revistas e obras de história, que
alguém relacionou com a “aceleração da história da Espanha”;118 uma preocu-
pação pelo “ensino da história” produto dos câmbios na política e no sistema
educativo; a aparição de uma plêiade de jovens historiadores, animada por
velhos e novos mestres, muito interessada pelo contemporâneo; por último,
uma renovada preocupação com a metodologia histórica. A reflexão historio-
gráfica espanhola saiu, assim, de uma etapa de letargia pública, naturalmente,
sem o excepcional brilhantismo que caracterizou os historiadores da
República Federal da Alemanha nos anos 1970.

146
Capítulo 6

Podemos personificar o fenômeno em dois pólos de atenção: Manuel


Tuñón e Josep Fontana Lázaro. Ligada a tal tradição, uma divulgação de auto-
res estrangeiros que ganhou força aproximadamente desde meados da década
consolidaria a notoriedade de Pierre Vilar. No caso de Tuñón, os anos 1960
foram seus anos mais fecundos: “besta negra” dos historiadores franquistas,
mestre de historiadores espanhóis e retornado do exílio, mas assentado na
Universidade de Pau, sua reflexão sobre a “história social” representou a mais
profunda tentativa realizada até então, autêntico ponto de partida para poste-
riores exercícios reflexivos. E quanto a Josep Fontana, transformado no mais
importante discípulo de Vicens – Joan Reglá havia desaparecido prematura-
mente em 1973 – e representante de uma historiografia econômica assentada
como especialidade do ofício de historiador, iniciou publicamente uma refle-
xão que em substância não variaria mais tarde. Historiadores marxistas
ambos, os dois iriam mais além da reflexão “metodológica” em busca de uma
concepção da história pluricasual, orientada teoricamente e “comprometida”
criticamente com o presente.
A obra de Tuñon inclinou-se mais em direção à problemática metodo-
lógica, publicando em 1973 sua Metodología de la historia social de España
(1974, 1977, etc.). Em tal empenho havia uma razão de ordem cultural em pri-
meiro lugar: Tuñon proporcionava um esforço conceitualizador e sistematiza-
dor procedente do “diálogo” que os historiadores franceses haviam sustentado
com o estruturalismo – em particular com Althusser. Uma pretensão que caía
em terreno abandonado, pois, como sabemos, a moderna teoria da ciência e,
por extensão, o estruturalismo do país vizinho haviam começado a se difundir
no mundo universitário espanhol desde finais da década de sessenta.119 Mas,
assim mesmo, Metodología chegava às livrarias espanholas em um momento
em que as invocações à “metodologia” haviam se transformado em um proble-
ma prioritário da renovação historiográfica no nosso país.120 A velha imagem
do método histórico procedente dos manuais e textos clássicos havia se torna-
do irreconhecível. Os autores espanhóis se inclinavam por uma nova, e mais
de acordo com o proceder das ciências sociais, expressa, por exemplo, nesse
comentário de José Angel García de Cortazar, que foi a primeira obra conjun-
ta de reflexões historiográficas publicadas na Espanha:

Realmente, a investigação histórica atual está demonstrando a cada dia como a


perspectiva global condiciona a totalidade do processo investigador (...) ela constrói
o modelo teórico, influi na formulação de hipóteses, domina a seleção dos fatos e a
sua classificação, a construção de tipologias, a integração dos detalhes...121

147
Capítulo 6

Mas a metodologia de Tuñón também formava parte da influência de


uma historiografia de tradição francesa, o que imprimia o selo à sua definição
de história social. Como já viram certos especialistas, o professor da
Universidade de Pau não estabelecia uma delimitação da matéria em um sen-
tido estrito. Um mensurado recensionista, Manuel Pérez Ledesma, destacaria
que Tuñón admitia, ao mesmo tempo, que “toda a história é história social”, à
maneira annalista, e que “a história social implica um conhecimento setorial
específico”.122 Na realidade, aqui residiam a virtualidade da obra de Tuñón, sua
capacidade para entrar em contato com os mais preocupados historiadores
espanhóis, possivelmente as razões de sua popularidade e um indício do que a
historiografia marxista estava contribuindo para a renovação espanhola.
Como marxista e historiador, Tuñón não acreditava que a metodologia aca-
basse em uma questão de classificação conceitual, tipológica ou de “metodolo-
gia da ciência”. No entanto, concedia a este aspecto um lugar primordial. Uma
visão “excessivamente” delimitada da história social chocava-se não só com a
tradição dos Annales e com as características da renovação espanhola, mas
também com a interpretação marxista da História. Para Tuñón, a história
social se configurava com uma especialidade na medida em que abordasse “o
conflito social (...), as condições de trabalho, a condição trabalhista e operária
(...) [e] dos grupos sociais que se definem por sua afinidade de classe ou pro-
fissão”, acrescentando a tudo isso, “o estudo dos grupos de familiares e múlti-
plas atividades sociais”.123 No entanto, a preocupação do professor de Pau esta-
va referida às categorias do materialismo histórico, a uma teoria histórica em
que a “formação social histórica” constituiria “a verdadeira categoria do pen-
samento histórico que pode permitir as classificações”.124
Esta noção, citada somente de passagem em Metodología, que em
mudança se classificavam conceitos marxistas como os de “estrutura histórica”,
“crise orgânica”, “conjuntura histórica” e “câmbio estrutural” sob as influências
de Althusser, Gramsci ou Vilar,125 havia começado a difundir-se na historiografia
espanhola, proposta como a maior garantia dessa “história total”. Naquela que
podemos considerar a primeira obra destinada a um grande público sobre estes
temas, Josep Fontana também havia incidido no conceito de “formação
econômico-social” como elemento fundamental para “o estudo histórico das
sociedades”.126 A referida obra, publicada em 1973, implicava a entrada deste
professor catalão no âmbito da reflexão pública sobre a História, situado nas
coordenadas do marxismo e com uma maior capacidade para relativizar as
influências francesas. Posicionado na especialidade da história econômica, em

148
Capítulo 6

que não era precisamente a reflexão “metodológica” a que urgia enfrentar, desco-
briu, de repente, outras tradições da história social. Reconhecendo-se como
“seguidor” da tradição francesa, e de Pierre Vilar em específico, recusaria uma
“história econômica que não se interessava pelos homens que intervinham nos
fatos econômicos e, sim, pelos fatos em si mesmos. No entanto, Fontana con-
templaria com distanciamento e forte sentido crítico o estruturalismo e as pro-
postas braudelianas. Como escreveu no mencionado ensaio, recusava “uma
história que se limitara a descrever as estruturas existentes e que, ao pretender
imobilizá-las para mostrar-nos sua anatomia, asfixia-as e nos oferece somente
sua carapaça e seu esqueleto”.128 Mas ainda, para o professor catalão, “a hora da
escola dos ‘Annales’ havia passado”, submergida numa confusão de métodos e
incapaz de forjar ou utilizar-se de uma teoria da história.129 Em La Historia,
preferia o termo “história integradora” ao de “história total” e, trazendo ao
debate a obra de E. P. Thompson, ainda desconhecida para o público espanhol,
com suas páginas sobre a natureza histórica das classes sociais, indicaria que “O
historiador (...) não chegará a compreender jamais a dinâmica da evolução de
uma sociedade se não entende os enfrentamentos entre as distintas classes que o
integram” e, também, “deve buscar os critérios definidores dessas classes, e as
razões objetivas de seus ataques , no plano de suas respectivas posições em
relação ao processo produtivo”.130
Após uma inclinação no começo dos anos 1980, como se o final da
Transição houvesse obrigado aos historiadores a estabelecer balanços e conclu-
sões – incluindo Foºntana com sua Historia. Análisis do pasado y proyecto social
(1982) –, encontramos-nos com as reflexões atuais, devedoras dos menciona-
dos mestres, mas também produto de fatores novos e inevitáveis. Sua caracte-
rística: a de formar parte de um processo de influências mais rico e pondera-
do assim como de um notável aumento da atividade profissional e de espírito
associativo. Seu desafio: o de dar resposta a algo tão imprevisível para a histo-
riografia espanhola anterior como a chamada “crise da historiografia”.

EPÍLOGO: A REFLEXÃO HISTORIOGRÁFICA


NA ESPANHA, 1980-2002
O seguimento da “reflexão historiográfica” constitui-se, cada vez
mais, em um instrumento útil para valorizar o grau de renovação da discipli-
na histórica ou nascimento de grupos inovadores. Não se pode compreender

149
Capítulo 6

a fundo o panorama atual sem constatar o enorme interesse que suscita a refle-
xão sobre as formas de escrever a história e sobre suas repercussões. No caso
espanhol, esta premissa é, hoje, inegável. Na última década, assistiu-se a uma
eclosão destes temas, concretizada na infinidade de artigos, na organização de
alguns Congressos e incluídos na publicação de certos ensaios. Não se trata de
um fato casual, já que nestes anos pode-se afirmar, sem dúvida alguma, que a
historiografia espanhola acompanhou as correntes internacionais. Assim, por
exemplo, para a reedição de seu ensaio La historia social y los historiadores
(Barcelona, Crítica, 1991), Julián Casanova revisou a metáfora com que esti-
mava os anos 1960 e 1970 (“o deserto espanhol”) e chegou à conclusão de que
“os anos noventa constituem-se em um ponto de inflexão importantíssimo na
historiografia espanhola sobre a idade contemporânea”.131
Este apogeu é o resultado de um processo muito mais demorado,
desenvolvido desde os anos setenta (supra) e que se acelera notavelmente no
decorrer da década de 1980. De fato, nos recentes balanços da historiografia
espanhola (ao menos os relativos aos estudos de história contemporânea),
associa-se o último quarto de século de democracia com um desenvolvimento
inusitado dos estudos históricos. Afirma-se que nós nos encontramos diante
de uma “idade de prata para a nossa profissão”, na qual “superou-se o atraso
produzido pelo isolamento e pela repressão intelectual durante a ditadura
franca”.132 Já nos anos 1970, na fase final da ditadura, uma parte da vitalidade
da historiografia espanhola procedia do fato de ter-se acelerado notavelmente
a recepção da escola dos Annales e da historiografia marxista. Isto é, procedia
da difusão do que se denomina “o paradigma da história econômica e social”.
Todavia, a construção das bases definitivas para a mudança institucional, asso-
ciativa e inclusive de geração de historiados e historiadores espanhóis, come-
çou verdadeiramente nos anos 1980.
No entanto, não é surpreendente que ainda nesta década, em termos
gerais, a historiografia espanhola fosse desconhecida da maioria das correntes
que estavam modificando o panorama internacional; sobretudo, das várias
formas da história política e sociocultural. Não é estranho, insistimos, posto
que, os 15 anos, aproximadamente, em que a história sociocultural se consoli-
dou (1975 a 1990), constituem um dos períodos de maiores mudanças da
época contemporânea. Além do mais, nunca houve uma historiografia tão
compartilhada como a proporcionada pelos estudos culturais nos anos 1980.
Assim, em 1992, Josep Fontana podia publicar um livro em que pretendia “aju-
dar aos que estudam a história, e em especial aos que se dedicam a ensiná-la,

150
Capítulo 6

a se orientar no labirinto de correntes que vieram para substituir aquele mapa


tão claro de nosso território”.133 La historia después del fin de la historia não foi
em absoluto um ensaio meramente informativo e, sim, também um balanço
crítico. No entanto, contribuiu de modo notável para que muitos historiado-
res espanhóis conhecessem expressões, hoje familiares, como “micro-história”,
“eco-história” ou “giro lingüístico”.
Para além desses problemas de recepção, o certo é que o panorama da
historiografia espanhola dos anos 1990 mal se parece com a dos anos 1970: tal
historiografia necessita de “centralismo” propriamente dito. Isto é, formam a
historiografia numerosos grupos conectados entre si graças a um ativo asso-
ciacionismo e a certas revistas especialmente relevantes (a mais importante é
Historia Social. Fundação Instituto Social. Valência, fundada em 1998).
Além do mais, mantém abundantes vínculos com historiadores e historiado-
ras de outros países (sem dúvida, a difusão pela Internet contribuiu para
aumentá-los). Naturalmente, apesar de todas estas mudanças, continua
havendo questões pendentes que distanciam, em geral, a maioria dos estudio-
sos espanhóis dos grupos dominantes da esfera internacional: uma excessiva
rigidez acadêmica que margeia, em boa medida, os professores e bacharéis e
coloca travas à interdisciplinaridade; escassez de debates; uma presença, tam-
bém rara, nas grandes revistas de projeção internacional, e, enfim, uma con-
centração ainda excessiva em temas relativos à história doméstica e suas rela-
ções com outros países.
Os estudos de historiografia constituem, sem dúvida, um reflexo deste
jogo de luzes e sombras: escasseiam os especialistas em história da historiogra-
fia e se tornam abundantes o que Ignacio Peiró chamou “uma literatura sem
objeto”. Isto é, um repertório de traduções de ensaios historiográficos de
conhecidos autores de projeção internacional (como por exemplo, Edward P.
Thompson, Eric Hobsbawm, Jürgen Kocka, Roger Chartier, Jacques Le Goff e
Joan Scott) e de reflexões escritas pelos próprios historiadores espanhóis,
geralmente, sob a inspiração desses autores estrangeiros.134 Trata-se, sem dúvi-
da, de um panorama desigual, em que a reflexão desempenha um papel muito
importante. E a história da historiografia, propriamente dita, é cultivada
somente por uma minoria, que, por sinal, costuma mostrar preferência pelas
biografias de historiadores. Contudo, o que não está tão claro é que tal situa-
ção deva ser considerada anômala ou um sintoma de atraso. Na realidade, dei-
xando de lado os casos anglo-saxão e germânico, na maioria dos países se
observa uma desigualdade parecida.

151
Capítulo 6

O desenvolvimento bastante lento dos estudos da história da historio-


grafia espanhola não significa que eles não interessem aos historiadores ou que
careçam de respeito intelectual. De fato, nos anos 1990, não somente se reivin-
dicou a importância das tradições espanholas, mas também o que os comen-
taristas constatam “a história da historiografia espanhola constitui um campo
de estudos com um futuro promissor”.135 A recente publicação do Diccionario
de historiadores españoles contemporâneos (Madrid, Akal, 2002), de Gonzalo
Pasmar e Ignacio Peiró, pode animar a penetração dessa classe de estudos,
porém o mais previsível é que ele atue exclusivamente como uma obra de con-
sulta – tal como foi projetada.
Por outro lado, não podemos esquecer que a citada especialidade é
somente uma variedade dentro do panorama dos estudos de historiografia; e
que, além do mais, aquela não é absolutamente auto-suficiente quando se
defronta com os problemas teóricos da “historiografia imediata” (que, afinal
de contas, são os que mais interessam aos historiadores espanhóis). Tampouco
resultou em um fato inusitado a combinação da história da historiografia com
a reflexão teórica. Tal combinação pode encontrar-se, por exemplo, na compi-
lação de trabalhos de Juan José Carreras – pioneiro na Espanha nos estudos de
historiografia –, intitulada Razón de historia. Estúdios de historiografia
(Madrid, Marcial Pons-Prensas Universitárias de Zaragoza, 2000); ou no
manual de Gonzalo Pasamar, La historia contemporânea: aspectos teóricos e his-
toriográficos, (Madrid, Síntesis, 2000).
O que predomina no panorama espanhol é o ensaio de reflexão historio-
gráfica. Este desempenha um papel notável já que é um modo de manifestar a
preocupação pelos problemas internacionais da disciplina e preencher as neces-
sidades de informações de muitos professores. Possivelmente, o grupo “História
a Debate”, coordenado por Carlos Barros desde Santiago de Compostela
(www.h-debate.com), constitui atualmente a iniciativa mais importante nessa
direção. Os dois congressos organizados por tal grupo (1993 e 1999), particu-
larmente o segundo, são uma amostra eloqüente do interesse crescente suscita-
do pela reflexão historiográfica na Espanha. Nas atas do Congresso de 1993,
publicadas dois anos depois (seis volumes), podem encontrar-se as interven-
ções de autores que haviam sido pioneiros no interesse pelos problemas teóri-
cos da história: Julio Valdeón, Santos Juliá, Julián Casanova, Julio Aróstegui ou
Antonio Morales Moya. No Congresso de 1999 (atas em três volumes, 2000), a
forte presença de professores de bacharelado e da universidade, bem menos
conhecidos, mostra como cresceu esse interesse ao longo da década.

152
Capítulo 6

No entanto, o comportamento da reflexão historiográfica atual se


baseia cada vez menos na possibilidade de conhecer as correntes internacio-
nais, e cada vez mais na necessidade de estabelecer um balanço crítico dessas
mesmas correntes. O citado grupo “História a Debate” nunca ocultou que não
se conforma com um simples exame do pensamento histórico ou uma mera
história da historiografia. Segundo demonstra o recente “Manifesto de
História a Debate” (11/9/2001), este grupo pretende tomar o pulso da situação
atual da disciplina histórica e encontrar um modo de influenciá-la. Algo pare-
cido ocorre como o recente livro de Josep Fontana, La historia de los hombres
(Barcelona, Crítica, 2001), que constitui uma revisão profunda da História.
Análisis del pasado y proyecto social (1982). Possivelmente, o mais original desta
nova obra esteja em seu balanço crítico da historiografia internacional dos
últimos 20 anos; no intuito de mostrar em que medida as “novas histórias”
geraram uma série de problemas que colocam em xeque a inspiração clássica
ao considerar a história como “análises do passado e projeto social”.
Na Espanha, os outros autores de ensaios de historiografia normal-
mente são historiadores com uma diversificada investigação empírica que, por
diversas razões, sentiram a necessidade de viajar ao âmbito da teoria. Salvo
exceções, não se consideram nem “teóricos” nem “historiógrafos”. Dado que a
possibilidade de se informar a respeito da bibliografia internacional não apre-
senta limites ou obstáculos intransponíveis, normalmente suas obras são bas-
tante sugestivas e documentadas, se bem que a maioria delas se apresentam
mais como textos universitários em um sentido mais amplo, que como mono-
grafias dirigidas a especialistas em historiografia ou epistemologia. Alguns des-
tes autores, por diferentes circunstâncias, transitaram do artigo ao ensaio em
forma de livro, ou publicaram em revistas de repercussão internacional. Tais
são os casos, por exemplo, de Ignacio Olábarri, pesquisador das “novas histó-
rias” e dos problemas relativos à “memória”; ou Miguel Angel Cabrera, que
defende em um livro recente posições em favor da “história discursiva” e do
pós-modernismo; ou Justo Serna e Anaclet Pons, especialistas na problemáti-
ca da micro-história e na obra de Carlo Ginzburg; ou Elena Hernández
Sandoica, que assina um ensaio sobre os modelos da epistemologia e seu refle-
xo na historiografia atual; ou, enfim, Julio Aróstegui e Enrique Moradiellos,
autores de curtas sínteses de metodologia e teoria da história de grande
influência entre os professores universitários e bacharéis.136
Menção à parte merece, sem dúvida, Francisco Vázquez García. Este
autor, membro do grupo “História a Debate”, é um dos poucos filósofos pro-

153
Capítulo 6

fissionais que se movem com facilidade – e de modo reconhecido – no âmbi-


to dos historiadores (uma tendência mais freqüente em outras latitudes). Tal
autor, partidário de aproximar os historiadores dos critérios pós-modernistas,
contribuiu de maneira importante para a divulgação do pensamento de
Michel Foucault entre os mesmos.137 Ultimamente, penetrou, também, na obra
do recentemente falecido Pierre Bordieu, cujas teorias foram consideradas
uma sugestiva receita para conciliar os tradicionais dilemas do pensamento
social (estrutura versus atitude; objetivo versus subjetivo, etc.).138
Também tem peculiaridades muito interessantes a obra de José C.
Bermejo Barrera. Este professor de História Antiga da Universidade de São
Tiago de Compostela é, possivelmente, o historiador profissional espanhol que
desenvolveu um pensamento mais profundo e original em matéria de teoria da
história. Seus trabalhos sobre o que denomina “História Teórica” pretendem ser
uma síntese de problemas filosóficos, epistemológicos e relativos à história da
historiografia. Sua mesma obra já se tornou objeto de investigação e reflexão.139

NOTAS
* Tradução do original espanhol por Gabriela Cristina B. Engler Pinto.
** Universidade de Zaragoza.
1 A última das manifestações do velho gênero seria exposta por Marcelino Menéndez
Pelayo em seu discurso de entrada na Academia de la Historia, intitulado “A História
considerada como arte bela” (1883). Nesse texto, o escritor santanderino não preten-
dia propriamente recuperar a velha noção da História como instrumento da elo-
qüência, e, sim, estudar o tradicional papel daquela situando-o na disciplina nascen-
te da estética ou na história das idéias artísticas. No entanto, o discurso deixou uma
impressão de anacronismo em um momento em que os eruditos profissionais, pro-
fessores e alunos da Escola Superior Diplomática aceitavam a importância do “méto-
do” como traço básico da historiografia (a recepção deste discurso, em PEIRÓ, L.;
PASAMAR, G. La Escuela Superior de Diplomática. Los archievos en la historiografía
española contemporánea. Madrid: ANABAD, 1996. p. 170-171).
2 Vide MENENDÉZ PELAYO, Marcelino. Contestación a “Ambrosio de Spínola. Primer
marqués de los Balbases”, leído ante a Real Academia de la Historia en la recepción
pública de D. Antonio Rodríguez Villa, el dia 29 de octubre de 1893. Madrid: Imp.
Fortanet, 1893. p. 106-107; VIDART, Luis. “Ulitidad de las monografias para el cabal
conocimiento de la Historia de España”, Discursos leídos ante la Real Academia de la
Historia en la recepción pública del Excmo Sr. … el día 10 de junio de 1894. Madrid:
Tip. de San Francisco de Sales, 1984. p. 27-28; FUENSANTA DEL VALLE, Marqués
de la. “El progreso de las ciencias historicas à consecuencia de los nuevos descubrimien-
tos llevados à cabo en el siglo actual”, Discursos leídos ante la Real Academia de la
Historia en la recepción pública del Excmo Sr. ... el domingo 13 de enero de 1895.
Madrid: Imp. de José Perales y Martínez, 1895. p. 52-53, 58. Sobre o significado

154
Capítulo 6

dessa nova linguagem acadêmica: PEIRÓ MARTÍN, Ignacio. Los guardianes de la


Historia. La historiografía académica de la Restauración. Zaragoza: Institución
“Fernando el Católico”, 1995. p. 81-84.
3 GIMÉNEZ SOLER, Andrés. “Formas actuales de la Historia”, Discurso leído en la real
Academia de Buenas Letras de Barcelona en la recepción pública del Sr. D. ... el día 26
de marzo de 1899. Barcelona: Hijos de Jaime Jepús imps., 1899. p. 13-14.
4 GIMÉNEZ SOLER, Andrés. El Justicia de Aragón? es de origen musulmán? Revista
de Archivos, Bibliotecas y Museos, (tercera época) 4 , p. 205-206, abr. 1901.
5 BOUTROUX, Émile. La philosophie: VVAA. In: Un demi siécle de civilisation fran-
çaise, 1870-1915. Paris: Hachette, 1916. p. 14. Cf. POLIZZI, Gaspare.
Sull’epistemologia allo stato nascente. La “Revue de Métaphisique et de Morale tra
1893 e 1914”: Studi Storici, 1, p. 167, enero/marzo 1993; LUKES, Steven. Émile
Durkhein, su vida y su obra. Estudio histórico crítico. Madrid: Siglo XXI, 1984. p. 57.
6 Sobre a introdução das ciências sociais na universidade de fim de século na França,
LUKES, Steven. Émile Durkhein, su vida y su obra. Estudio histórico crítico. Madrid:
Siglo XXI, 1984. p. 99-107, 287-318; KARADY, Victor. Strategie de réussite et modes
de fairevaloir de la sociologie chez les durkheimiens. Revue française de sociologie, 1,
p. 49-82, janv./mars 1979; WEISZ, George. L’idéologie républicaine et les sciences
sociales. Les durkheimiens et la chaire d’histoire d’economie sociale à la Sorbonne”,
Ibid., p. 83-112.
7 Sobre a concepção de Paul Lacombe, ALLEGRA, L.; TORRE, A. La nascita della storia
sociale in Francia. Dalla Comune alle “Annales”. Torino: L. Einaudi, 1977. p. 120-122. A
obra de Lacombe foi publicada em castelhano no editorial Espasa-Calpe, em 1948.
Passou completamente desapercebida em Espanha no pós-guerra, sem que fosse cita-
da por um único autor, talvez devido a que fora impressa na Argentina, mas princi-
palmente devido ao próprio clima intelectual da época (infra). Além do mais, o pró-
prio nome do autor está equivocado na versão espanhola (“Pierre Lacombe” em vez
de “Paul Lacombe”). No entanto, não é uma tradução de má qualidade (as referências
à psicologia como ciência auxiliar da história e à base psicológica das instituições,
Ibid., p. 34-47, 115, 195-205; a importância da economia, p. 64 et seq., 305 et seq.).
8 VIDART, Luis. “Ulitidad de las monografias para el cabal conocimient de la Historia
de España”, Discursos leídos ante la Real Academia de la Historia en la recepción
pública del Excmo Sr. … el día 10 de junio de 1894. Madrid: Tip. de San Francisco
de Sales, 1984. p. 20.
9 FUENSANTA DEL VALLE, Marqués de la. “El progreso de las ciencias historicas à con-
secuencia de los nuevos descubrimientos llevados à cabo en el siglo actual”, Discursos leí-
dos ante la Real Academia de la Historia en la recepción pública del Excmo Sr. ... el
domingo 13 de enero de 1895. Madrid: Imp. de José Perales y Martínez, 1895. p. 53-54.
10 IBARRA Y RODRÍGUEZ, Eduardo. “Progresos de la ciencia histórica en el presente
siglo”, Discurso leído en la solemne apertura del curso académico de 1897 à 1898 en la
Universidad de Zaragoza por el Dr. D. … Zaragoza: Imp. de Ariño, 1897. p. 62.
11 SALES Y FERRÉ, Manuel. Estudios de Sociología. Evolución social y política. Madrid:
Lib. de Victoriano Suárez, 1889. p. VIII, primera parte.
12 RIBERA TARRAGÓ, Julián. Orígenes del Justicia de Aragón por el Dr. D. ... Con un
prólogo de D. Francisco Codera. Zaragoza: Tip. de Comas hermanos, 1897. p. 289.

155
Capítulo 6

13 Ibid., p. 201.
14 Ibid., p. 291 et seq.
15 Ibid. Conferências V e VI. p. 195-300; a referência expressa a G. Tarde, Ibid., p. 282.
Seu discípulo Miguel Asin asseguraria, anos mais tarde, que Ribera havia chegado à
teoria da imitação em torno de 1893 e de maneira independente do sociólogo fran-
cês (ASÍN Y PALACIOS, Miguel. Introducción. In: RIBERA, Julián. Disertaciones y
opúsculos. Edición colectiva que en su jubilación del profesorado le ofrecen sus discípu-
los y amigos. Madrid: Estanislao Mestre, 1928. v. I, p. XLVI-LII).
16 RIBERA TARRAGÓ, Julián. Lo científico en la Historia. Madrid: Imp. P. Apalategui,
1906. p. 23 (o livro é uma compilação dos nove artigos, cada um com título dife-
rente, que publicou Ribera na Revista de Aragón entre finais de 1902 e 1905).
17 Em seus discursos, Vidart recusava a expressão (p. 8). Gimenez Soler a manipula
(p. 4, 24, 31) e o marquês de la Fuensanta del Vale a utiliza em plural e deixa o sin-
gular para se referir ao “método científico” (p. 8, 52-53).
18 RIBERA TARRAGÓ, Julián. Lo científico en la Historia. Madrid: Imp. P. Apalategui,
1906. p. 102-103, 107.
19 Ibid., p. 85-96.
20 Ibid., p. 105.
21 ALTAMIRA, R. La enseñanza de la historia. Madrid. Librería de Victoriano Suárez,
1895. p. 214-247.
22 Este último significado é o que, por exemplo, utilizava Croce contemporaneamen-
te – recusando o primeiro (Teoría e historia de la historiografía [1914]. Buenos Aires:
Imán, 1966. p. 64); ou o mesmo que havia adotado Berheim na edição de 1903 de
seu Tratado del método histórico (SCHLEIER, Hans. Ranke in the manuals on histo-
rical methodos of Droysen, Lorenz, and Bernheim. In: Leopold Ranke and the
Shaping of the Historical Discipline. Edited by G. G. Iggers, J. J. M. Powell. New York:
Syracusa U. P., 1990. p. 119).
23 GARCÍA VILLADA, Zacarías. Cómo se aprende a trabajar científicamente. Lecciones
de metodología y críticas históricas por el… Barcelona: Tip. Católica, 1912. p. 31.
24 GARCÍA VILLADA, Zacarías. Metodología y crítica históricas. Barcelona: Sucesores
de Juan Gili, 1921. p. 11.
25 BALLESTEROS, Antonio; BALLESTEROS, Pío. Cuestiones históricas. Edades antí-
gua y media (metodología). Madrid: Est. Tip. Juan Pérez Torres, 1913. p. 41-49.
26 GARCÍA VILLADA, Zacarías. Metodología y crítica históricas. Barcelona: Sucesores
de Juan Gili, 1921. p. 15.
27 ALTAMIRA, Rafael. La ciencia de la historia (1904). In:______. Cuestiones moder-
nas de Historia. Madrid: Aguilar, 1935. p. 124-125. Sobre a influência de Xénopol
em Altamira, o comentário, talvez necessitado de certos traços, de CARRERAS, Juan
José. Altamira y historiografía europea. In: ALBEROLA, A. (Ed.). Estudios sobre
Rafael Altamira. Alicante: Instituto de Estudios “Juan Gil Albert”, 1988. p. 408.
28 GARCÍA VILLADA, Zacarías. Metodología y crítica históricas. Barcelona: Sucesores
de Juan Gili, 1921. p. 43; Cómo se aprende a trabajar cientificamente. Lecciones de
metodología y críticas históricas por el… Barcelona: Tip. Católica, 1912. p. 38-41. No
caso do jesuíta, tratava-se de uma preocupação metodológica de “procedência vie-

156
Capítulo 6

nesa” que, segundo recordaram seus biógrafos, “concebia a disciplina histórica


como simples contribuição de datas e documentos submetidos à crítica e à máxima
exatidão” (Cf. GARCÍA IGLESIAS, L. El P. Zacarías García Villada, académico, his-
toriador y jesuita. Madrid: UPCO, 1994. p. 96).
29 Idéia expressamente acolhida e tese global da obra de SEIGNOBOS, Ch. La méthode
historique apliquée aux sciences sociales. Paris: Felix Alcan, 1901. p. 14, 121-124, 163.
30 XÉNOPOL, A. D. Teoría de la historia. Segunda edición de “Los principios fundamen-
tales de la historia”. Madrid: D. Jorro, 1911, as três referências respectivamente,
p. 150, 454-457 e 152. A importância de “a vida do Estado”, que, para o autor, era
perfeitamente compatível com a “história da civilização”. Ibid., p. 484-487.
31 ALLEGRA, L.; TORRE, A. La nascita della storia sociale in Francia. Dalla Comune
alle “Annales”. Torino: L. Einaudi, 1977. p. 122.
32 NORDAU, Max. El sentido de la historia. Madrid: Daniel Jorro, 1911. p. 385-407.
Deve-se advertir que Nordau era um social-darwiniano do século 19. Considerava,
efetivamente, que “o verdadeiro sentido da história é a manifestação do curso de
vida da humanidade”, mas reconhecia a existência de certa evolução moral e não
manipulava imagens morfológicas e cíclicas da história, ao menos nesta obra. Sua
influência a encontramos, por exemplo, na “boêmia intelectual” de finais de século
(Cf. TUÑÓN DE LARA, Manuel. Medio siglo de cultura española, 1885-1936.
Barcelona: Bruguera, 1981. p. 159, 170).
33 Cf. MARAVALL, José Antonio. Teoría del saber histórico. Madrid: Revista de
Occidente, 1958, 1961. p. 148. Previamente, no ciclo de Conferências de 1947-1948
sobre “Metodologia histórica” pronunciadas por professores da Universidade
Central, somente Luís de Sousa faria uma quase inadvertida referência ao filósofo
romeno (Concepto de historia. In: Primer curso de metodología y crítica históricas
sobre formación técnica del moderno historiador. Madrid: Estado Mayor Central del
Ejército. Servicio Histórico Militar: C Bermejo Imp., 1948. p. 34).
34 Sobre o interesse pela filosofia do direito entre os krausistas espanhóis durante a
Restauração – que contrastou com o controle nulo exercido nas assinaturas univer-
sitárias desta matéria – GIL CREMADES, Juan José. El reformismo español.
Krausismo, escuela histórica, neotomismo. Barcelona: Ariel, 1969. p. 188-192. A aten-
ção filosófica à literatura e à arte foi outro traço persistente, ainda que de menor
relevância. A expressão do texto refere-se aos ensaios de Francisco Giner, titulados
Estudios de literatura y arte (1876, 1919).
35 POSADA, Adolfo. Los estudios sociológicos en Espana. Boletín de la Institución
Libre de Enseñanza, p. 220, 30 jun. 1899. Los rasgos del “krausopositivismo”, em
NÚÑEZ RUIZ, Diego. La mentalidad positiva en España: desarollo y crisis. Madrid:
Túcar, 1975. p. 79-109.
36 DIAZ, Elias. La filosofia social del krausismo español. Madrid: Edicusa, 1973. p. 229-230;
GIL CREMADES, Juan José. El reformismo español. Krausismo, escuela histórica, neoto-
mismo. Barcelona: Ariel, 1969. p. 234-235.
37 Cf. PÉREZ PUJOL, Eduardo. Historia de las instituciones sociales de la España goda.
Obra póstuma de ... T. I. Valencia: Est. Tip. de F. Vives Mora, 1896. p. 1-11.
38 Sobre esta concepção da história no krausismo espanhol, LÓEZ MORILLAS, José.
El krausismo español. Perfil de una aventura intelectual. México: Fondo de Cultura

157
Capítulo 6

Económica, 1980. p. 40-47, 69-71, 78-82; JEREZ MIR, Rafael. La introcucción de la


Sociología en España. Manuel Sales y Ferré: una experiencia frustrada. Madrid:
Ayuso, 1980. p. 73-88.
39 Respectivamente, POSADA, Adolfo. Principios de Sociología. Madrid: Daniel Jorro,
(1908), 1929. t. II, p. 244-246; CHEYNE, G. J. G. (Ed.). El Renacimiento ideal: epis-
tolario de Joaquín Costa y Rafael Altamira (1888-1911). Alicante: Instituto de
Cultura “Juan Gil Albert”, 1992. p. 195 (o texto está em inglês).
40 De Sales y Ferré pode-se dizer, sem dúvida, que foi um discípulo “emancipado do
krausismo, como já o caracterizou em sua época Adolfo Posada. De Dorado
Montero, pode-se dizer que a influência do krausismo vinha de seu passageiro con-
tato pessoal com Giner nos anos de doutorado (1883-1885) e, sobretudo, de sua
colaboração posterior com Posada (1891-1904), mas o caráter peculiar positivista
era anterior e sobrepassava a influência do próprio Posada, quem o distinguiu como
um autor influenciado pela filosofia do Direito de Giner mantendo “uma posição
original independente” (Las caracterizações de Sales y Dorado Montero, em POSA-
DA, Adolfo. Los estudios sociológicos en Espana. Boletín de la Institución Libre de
Enseñanza, 30 jun. 1899, respectivamente, p. 250 e 255). Sobre a tragetória de Sales,
JEREZ MIR, Rafael. La introcucción de la Sociologia en España. Manuel Sales y Ferré:
una experiência frustrada. Madrid: Ayuso, 1980. p. 44-48, 253-365. Sobre a tragetó-
ria de Dorado, SÁNCHEZ-GRANJEL, Gerardo. Dorado Montero y la “Revista de
Derecho y Sociología”. Salamanca: Europa Arts Grafs., 1985. p. 19-33.
41 Adolfo Posada criticaria sua excessiva adesão ao positivismo e ao evolucionismo (“Los
estudios...” p. 250-251), objeções que Rafael Altamira já havia feito no comentário da
obra, publicado em La España moderna (1889), dos Estudios de sociología (1889) de
Sales y Ferré (JEREZ MIR, Rafael. La introcucción de la sociología en España. Manuel
Sales y Ferré: una experiencia frustrada. Madrid: Ayuso, 1980. p. 289-290).
42 DORADO MONTERO, Pedro. Sobre el carácter científico de la historia. La Lectura,
II, p. 122, jul. 1908.
43 Ibid., p. 125.
44 Ibid.
45 POSADA, Adolfo. Principios de Sociología. Madrid: Daniel Jorro, (1908), 1929. t. II,
p. 239-265; as referências a Seignobos e a Xénopol. Ibid., p. 240-242; GIL CREMA-
DES, Juan José. El reformismo español. Krausismo, escuela histórica, neotomismo.
Barcelona: Ariel, 1969. p. 281-284.
46 Já em curso 1889-1890, Altamira pronunciou no El Ateneo de Madrid uma confe-
rência sobre “Tendências modernas da ciência histórica” (Cf. VILLACORTA, F. El
Ateneo de Madrid. 1885-1912. Madrid: Centro de Estudios Históricos, 1985. p. 257).
47 ALTAMIRA, R. La enseñanza de la historia. Madrid. Librería de Victoriano Suárez,
1895. p. 152. Deve-se realçar uma vez mais a concordância com as formulações de
Xénopol, que também pretendia compatibilizar a “história política” com a “história
da civilização” (XÉNOPOL, A. D. Teoría de la historia. Segunda edición de “Los prin-
cipios fundamentales de la historia”. Madrid: D. Jorro, 1911. p. 486). Sobre a concep-
ção de Rafael Altamira, VERGARA, Asín. La obra histórica de Rafael Altamira. In:
ALBEROLA, A. (Ed.). Estudios sobre Rafael Altamira. Alicante: Instituto de Estudios
“Juan Gil Albert”, 1988. p. 389-394; CARRERAS, Juan José. Altamira y historiogra-
fía europea. In: ALBEROLA, A. (Ed.). Estudios sobre Rafael Altamira. Alicante:
Instituto de Estudios “Juan Gil Albert”, 1988. p. 395-413; MARAVALL, José Antonio.

158
Capítulo 6

La concepción de la Historia en Altamira. Cuadernos Hispanoamericanos, 477-478,


p. 13-48, marzo/abr. 1990.
48 DELEITO PIÑUELA, José. Recención de ... La Lectura, p. 326-327, jul. 1910.
49 AZCÁRATE, Gumersindo de. “Carácter científico de la historia”, Discursos leídos ante
la Real Academia de la Historia en la recepción pública del Sr D. ..., el día 3 de abril
de 1910. Madrid: Imp. de los sucesores de Hernando, 1910. p. 36-37, 48-49.
50 ESET, Mariano. Rafael Altamira em México: el final de un historiador. In:
ALBEROLA, A. (Ed.). Estudios sobre Rafael Altamira. Alicante: Instituto de Estudios
“Juan Gil Albert”, 1988. p. 253-261.
51 DELEITO PIÑUELA, José. “La esenãnza de la historia en la universidad española y
su reforma posible”, Discurso leído en la solemne apertura del curso acadêmico de 1918
à 1919 en la Universidad Literaria de Valencia por ... Valencia: Tip. Moderna a cargo
de M. Gimeno, [18--]. p. 66.
52 Sobre este problema, SUÁREZ CORTINA, Manuel. El reformismo en España.
Republicanos y reformistas bajo la monarquía de Alfonso XIII. Madrid: Siglo XXI, 1986.
p. 114-128; LAPORTA, E. J. Adolfo Posada: política y sociología en la crisis del libera–
lismo español. Madrid: Edicusa, 1974. p. 156, 181-212; TUÑÓN DE LARA, Manuel.
Medio siglo de cultura española, 1885-1936. Barcelona: Bruguera, 1981. p. 232-239; etc.
53 DE SALIS, J. R. La théorie de l’historie selon Ernest Troelsch. Revue de Shynthése
Historique, 127-129, p. 5-13, juin 1927; RINGER, F. K. El ocaso de los mandarines ale-
manes. Catedráticos, profesores y la comunidad acadêmica alemana, 1890-1933.
Barcelona: Pomares-Corredor, 1995. p. 108. O significado político e filosófico da
crise do historicismo, em CARRERAS ARES, J. J. El historicismo alemán. In: Estudios
de Historia de España. Madrid: UIMP, 1981. v. II, p. 638-641; IGGERS, G. G. The
German Conception of History. The national tradition os historical thought from
Herder to the present. Middletown, Conneticut: Wesleyan U. P., 1983. p. 200-222.
54 HUIZINGA, Johan. Sobre el estado actual de la ciencia histórica. Cuatro conferencias.
Madrid: Revista de Occidente, 1934. p. 44.
55 BELOW, J. von (Org.). Comiezo y objetivo de la Sociología. Anuario de Historia del
Derecho Español, 3, p. 5-30, 1926; SPANN, Othmar. Filosofía de la sociedad. Madrid:
Revista de Occidente, 1933.
56 MEINECKE, Friedrich. Preussen und Deutchland im 19 und 20 Jahrhundert. Brosch:
[s.n.], 1918. p. 479 (cf. DIEZ DEL CORRAL, Luis. De Historia y Política. Madrid:
Instituto de Estudios Políticos, 1956. p. 152-153); BAUER, Wilhelm. Introducción al
estudio de la historia. Barcelona: Bosch, 1944. p. 128, 154.
57 SEIGNOBOS, Ch. La méthode historique apliquée aux sciences sociales. Paris: Felix
Alcan, 1901. p. 160-161.
58 Contra o que sugere Julio Aróstegui, o interesse de Ortega pela História não tem a
ver com a revolução historiográfica do nosso século. É um produto da influência da
crise filosófica do historicismo, em que historiadores e filósofos haviam tentado
redescobrir o caráter “idealista” das categorias historiográficas e buscar uma episte-
mologia sempre virada de costas aos conceitos positivistas de “leis” e “causalidades.
O artigo de ARÓSTEGUI, J. Historiografia y autorreflexión, la “Historiología” de
Ortega. Bulletin d’Histoire Contemporaine de L’Espagne, 21, p. 27-48, juin 1995.
59 A primeira das interpretações em ELORZA, Antonio. La razón y la sombra. Una lec-
tura política de Ortega y Gasset. Barcelona: Anagrama, 1984. p. 138-140. A segunda

159
Capítulo 6

interpretação em REDONDO, Gonzalo. Las empresas políticas de José Ortega y


Gasset. “El Sol”, “Crisol”, “Luz” (1917-1934). Madrid: Rialp, 1970. v. II, p. 70-81. Mais
recentemente, a separação entre cultura e política proposta por Ortega nesses pri-
meiros anos da Ditadura foi interpretada como um traço da ambígua posição do
professor ao regime, que mesmo sem ser um colaboracionista, permitia-se doutri-
nar-se como intelectual. (QUEIPO DE LLANO, G. Garcia. Los intelectuales y la dic-
tadura de Primo de Rivera. Madrid: Alianza, 1988. p. 243-253.)
60 ORTEGA Y GASSET, José. Introducción a dos ensayos de historiografía (1935). In:
______. Obras completas. Madrid: Revista de Occidente, 1955. t. VI, p. 355.
61 Esta enumeração, não exaustiva, não faz referência a fontes germânicas que inspi-
raram o penamento de Ortega – questão sobre a qual não há acordo – e, sim, a auto-
res dados a conhecer a pedidos do pensador espanhol e que este considerava de
grande interesse para a divuldação e renovação historiográfica.
A falta de acordo acerca das “fontes germânicas” de Ortega é uma característica dos
trabalhos sobre o filósofo – deixando de lado seus discípulos, que sempre as conside–
raram secundárias: Ciríaco Morón Arroyo aprecia sucessivamente as seguintes de
caráter básico: Cohen, Scheler, Spengler y Heidegger; e de modo secundário, Simmel
y Dilthey (El sistema de Ortega y Gasset. Madrid: Alcalá, 1968. p. 77-81, 299-306);
Nelson R. Orringer detecta outros autores muito menos conhecidos (Ortega y sus
fuentes germânicas. Madrid: Gredos, 1979); Gonzalo Sobejano considera fundamen-
tal e permanente a influência de Nietzsche (Nietzsche en España. Madrid: Gredos,
1967. p. 527-565). Sobre os traços políticos e intelectuais da influência de Ortega e de
alguns autores germânicos que acompanharam essa influência durante o pós-guerra,
PASAMAR, Gonzalo. Historiografía y ideología en la postguerra española: La ruptura
de la tradición liberal. Zaragoza: Prensas Universitarias, 1991. p. 92-117, 183-201.
62 Por exemplo em: La “Filosofia de la Historia” de Hegel, e la historiología. Revista de
Occidente, 56, p. 149-150, feb. 1928.
63 Testemunhos dessas reservas em SANCHEZ ARBORNOZ, Cláudio. Recuerdos
emocionales. Revista de Occidente (segunda época), 24/25, p. 242-243, mayo 1986;
PÉREZ VILLANUEVA, Joaquim. Ramón Menéndez Pidal. Su vida y su tiempo.
Madrid: Espasa-Calpe, 1991. p. 291-296.
64 ORTEGA Y GASSET, José. La “Filosofia de la Historia” de Hegel, e la historiología.
Revista de Occidente, 56, p. 171-173, feb. 1928.
65 Esta interpretação de Historia como sistema, como síntese entre sua “historiologia”
e a influência de Heidegger, em C. Morón Aroyo, citado, p. 305-306.
66 Note-se que nos referimos a historiadores profissionais: não tratamos de filósofos
orteguianos, que parecem não terem tido prestígio entre aqueles.
67 MARAVALL, José Antonio. Una experiencia personal de la obra de Ortega. Revista
de Occidente, (segunda época), 24/25, p. 181-182, mayo 1983.
68 Como se sabe, a influência de Nietzsche entre o público espanhol foi se difundindo
a partir dos anos de 1920, mas, em 1932, publicaram-se em castelhano suas Obras
completas, em uma tradução bem mais pobre e, naturalmente, o ensaio intitulado
De la utilidad y los incovenientes de los estudios históricos para la vida (Obras comple-
tas. Madrid: Aguilar, 1932. t. II, p. 72-154), cujo comentário, por exemplo, podemos
encontrar no artigo de FREYER, HANS. Los sistemas de la historia universal.
Revista de Occidente, 99, p. 249-255, sept. 1931. A crítica nietzscheana à “objetivida-
de histórica” está presente nas páginas de Escorial – e nos escritos de Montero – em

160
Capítulo 6

diversos artigos: ALONSO DEL REAL, Carlos. Sobre la “objectividad de la ciencia


histórica. Revista de Occidente,11, p. 383-395, sept. 1941. A isso deve-se acrescentar
o comentário realizado por Laín Entralgo de Historia como sistema de Ortega, em
que se afirma que “escrever inteligentemente sobre a História” constitui um “genuí-
no serviço nacional” e somente se critica este seu “relativismo” com respeito ao cris-
tianismo (Escorial, III, p. 304-313, abr. 1941).
69 MONTERO DIAZ, Santiago. Integración del arte en una doctrina de la historia.
Madrid: Imp. Marsiega, 1940. p. 22-23.
70 MONTERO DIAZ, Santiago. Historiografía y método histórico. In: Primer curso de
metodología y crítica históricas sobre formación técnica del moderno historiador.
Madrid: Estado Mayor Central del Ejercito. Servivio Histórico Militar: C Bermejo
Imp., 1948, a primeira idéia na página 53 e passim; a segunda na página 58.
72 ORTEGA Y GASSET, José. Historia como sistema. In: ______. Obras completas.
Madrid: Revista de Occidente, 1955. t. VI, p. 41; a mesma idéia em “Guillermo
Dilthey e la idea de la vida”, Ibid., p. 165.
73 ORTEGA Y GASET, José. La idea de principio en Leibniz y la evolución de la teoria
evolutiva (escrito em 1947). In: ______. Obras completas. Madrid: Revista de
Occidente, 1955. t. VIII, p. 308, nota.
74 GARCÍA MORENTE, Manuel. Ideas para una filosofía de la historia en España
(conferencia pronunciada na abertura do curso 1942-43 na Universidade Central).
In: Idea de Hispanidad. Madrid: Espasa-Calpe, 1961. p. 150; e La estructura de la his-
toria. Príncipe de Vianna, 8, p. 288-291, 3 trim. 1942.
75 GARCÍA MORENTE, Manuel. Ideas para una filosofía de la historia en España
(conferencia pronunciada na abertura do curso 1942-43 na Universidad Central).
In: Idea de Hispanidad. Madrid: Espasa-Calpe, 1961. p. 150; e La estructura de la his-
toria. Príncipe de Vianna, 8, p. 291, 3 trim. 1942.
76 Sobre Berdiaeff e sua influência no pós-guerra, SOROKIN, P. A. Las filosofías sociales
de nuestra época de crisis, el hombre frente a la crisis. Madrid: Aguillar, 1956. p. 182-190;
e PASAMAR, Gonzalo. Historiografía y ideología en la postguerra española: La ruptura
de la tradición liberal. Zaragoza: Prensas Universitárias, 1991. p. 104, 189-190.
77 O comentário desta obra em GARCÍA IGLESIAS, L. El P. Zacarias García Villada,
académico, historiador y jesuíta. Madrid: UPCO, 1994. p. 248-254.
78 LAÍN ENTRALGO, Pedro. Descargo de consciencia. Barcelona: Barral, 1976. p. 326-327.
79 ORTEGA Y GASSET, José. Prólogo a “Ciencia cultural y ciencia natural” (sic) de
Enrique Rickert. Revista Nacional de Educación, 42, p. 15, jun. 1944.
80 Parte de tal memória de oposições reunida em LAÍN ENTRALGO, Pedro. El méto-
do historiográfico en la obra de Enrique Rickert. Revista Nacional de Educación, 42,
p. 15, jun. 1944.
81 Cf. LAÍN ENTRALGO, Pedro. Manéndez Pelayo. Historia de sus problemas intelec-
tuales. Madrid: Instituto de Estudios Políticos, 1944. p. 32-33.
82 Cf. LAÍN ENTRALGO, Pedro. Las generaciones en la historia. Madrid: Instituto de
Estudios Políticos, 1945. p. 269-270 e passim.
83 Esta tentativa de orientar o programa orteguiano em uma direção mais psicológica
se pode observar também no artigo de Lain: Sobre el apoyo del hombre en la histo-
ria. Revista de Estudios Políticos, 17, p. 49 et seq., sept./oct. 1944.

161
Capítulo 6

84 A crítica ao conceito de “geração” entendido como categoria fundamental da histó-


ria em LAÍN ENTRALGO, Pedro. Las generaciones en la historia. Madrid: Instituto
de Estudios Políticos, 1945. p. 281-294.
85 Em El tema de nuestro tiempo (1923), texto de forte influência nietzscheana, Ortega
considerava que toda geração estaria composta de uma massa e uma minoria
(ORTEGA Y GASSET, José. Obras completas. Madrid: Revista de Occidente, 1955.
t. III, p. 147); no entanto, a aplicação realizada em En torno a Galileo (1933) esta-
va relacionada com a história intelectual – somente se referia à “minoria” – e neces-
sitava de toda referência sociológica.
86 MARIAS, Julián. El método histórico de las generaciones. Madrid: Revista de
Occidente, 1967. p. 88.
87 Estudamos este problema em “De la historia de las bellas artes a la historia del arte
(la profesionalización de la historiografía artística española)”, VII Jornadas de Arte.
Historiografía del arte español en los siglos XIX e XX. Madrid: Departamento de
Historia del Arte “Diego Velázquez”. Centro de Estudios Históricos, 1995. p. 137-149.
88 A conexão entre Ortega e a tradução de Moreno Villa da obra de Wölfflin, em
MORENO VILLA, José. Vida en claro. Autobiografía. Madrid: Fondo de Cultura
Económica, 1976. p. 114.
89 LAFUENTE FERRARI, Enrique. “La fundamentación y los problemas de la historia
del arte”, Discurso de ingreso leido en la sesión pública del dia 15 de enero de 1951 y
contestación del Excmo Sr. D. Elías Tormo y Monzó. Madrid: Real Academia de Bellas
Artes de San Fernando, 1951. p. 123.
90 RUIZ DEL CASTILLO, Carlos. Semblanzas de los Excmos señores Don Salvador
Mingüijón y Don Severino Aznar. Madrid: Imp. Juan Bravo, 1960. p. 42. Para o pen-
samento de Severino Aznar, VIÑAS MEY, Carmelo. La vida y la obra de Severino
Aznar. Revista Internacional de Sociología, 68, p. 525-543, oct./dic. 1959.
91 As obras que caracterizaram Viñas como herdeiro das tradições do reformismo
social de fim de século, La Reforma agraria en España en el siglo XIX. Santiago:
Tipografia de “El eco franciscano”, 1933; e El problema de la tierra en la España de
los siglos XVI y XVII. Madrid: Instituto Jerônimo Zurita, 1941.
92 VIÑAS MEY, Carmelo. In Memoriam. Huizinga. Revista Internacional de Sociología,
10, p. 313, abr./jun. 1945.
93 VIÑAS MEY, Carmelo. En torno a los orígenes de la sociología (ensayo de recons-
truccíon de un proceso doctrinal). XVII Congreso Internacional de Sociología,
Beyrut, 1957, p. 191.
94 A reivindicação manifesta do funcionamento de “tipos vitais” ou “formas coletivas da
individualidade” – que se podem observar em alguns de seus trabalhos a partir de
1940 – em: Critica interna. In: Segundo curso de metodología y crítica históricas para la
formación técnica del moderno historiador. Madrid: Estado Mayor Central del Ejército,
Imp. C. Bermejo, 1950. p. 148-150; a exaltação do “método das gerações”, sob a inter-
pretação de Laín, em: En torno a los Orígenes de la sociologia..., citado, p. 214-217.
95 Jaime Vicens Vives, comentário de A. J. Toynbee, A study of history (en Destino,
1949). VICENS VIVES, Jaime. Obra dispersa. Barcelona: Ed. Vicens Vives, 1967.
v. II: España. América. Europa, p. 442. A influência de Toynbee em Vicens Vives,
em MUÑOZ I LLORET, J. M. Jaume Vicens i Vives (1910-1960). Una biografía
intelectual. Barcelona: Eds. 62, 1997. p. 193-200.

162
Capítulo 6

96 Antonio Perpiñá, comentário de DILTHEY, W. Hombre y mundo en los siglos XVI y


XVIII. México: Fondo de Cultura Económica, 1944, Revista Internacional de
Sociología, 17, p. 261-262, enero/marzo 1947, também, PASAMAR, Gonzalo.
Historiografía y ideología en la postguerra española: La ruptura de la tradición liberal.
Zaragoza: Prensas Universitárias, 1991. p. 241-242.
97 MARAVALL, José Antonio. Teoría del saber historico. Madrid: Revista de Occidente,
1958, 1961. p. 152-155. Um exemplo do conhecimento de Freyer entre os historia-
dores dos anos cinqüenta é o de Miguel Artola, em sua Introducción a Los orígenes
de la España contemporánea (1959), que se refere ao autor alemão ao falar do con-
ceito de “sociedade estamental” (Madrid: IEP, 1975. v. I, p. 13).
98 FREYER, Hans. Introducción a la sociología. Madrid: Ed. Nueva Época, 1949. p. 5-31.
Sobre as idéias de Freyer, RINGER, F. K. El ocaso de los mandarines alemanes.
Catedráticos, profesores y la comunidad academica alemana, 1890-1933. Barcelona:
Pomares-Corredor, 1995. p. 221; PASAMAR, Gonzalo. Historiografía y ideología en la
postguerra española: La ruptura de la tradición liberal. Zaragoza: Prensas
Universitárias, 1991. p. 243.
99 VERLINDEN, Charles. ?Qué es la historia social? Arbor, 86, p. 164-177, feb. 1953.
Um exemplo dessa impresão sobre a Escola dos Annales, em OLIVAR BERTRAND,
R. Outra “nueva” escuela histórica. Arbor, 147, p. 407-411, mayo 1958.
100 Cf. Revista Internacional de Sociología, 70, p. 197, abr./jun. 1960. Os dados comple-
tos da publicação do ensino são os seguintes: Ibid., p. 197-214; e 71, p. 357-371,
jul./sept. 1960.
101 MARAVALL, José Antonio. Teoría del saber historico. Madrid: Revista de Occidente,
1958, 1961. p. 167 nota.
102 Cf. O programa do Prólogo do número um de Estudios de Historia Moderna (1951),
revestido com uma definição da historiografia em que se davam as mãos Bloch,
Febvre, Braudel e Ortega (VICENS VIVES, Jaime. Obra dispersa. Barcelona: Ed.
Vicens Vives, 1967. v. II, p. 523-529, especialmente p. 528-529). A tese de doutorado
dirigida a Juan Pérez Ballestar demonstra que Vicens não depreciava a reflexão teó-
rica. O resumo do trabalho se encontra recolhido em Estudios de Historia Moderna,
III (1953), sob o título de Ideas para uma ordenación metódica de la historiografía, p.
3-24; denso trabalho em que ressoam os ecos de autores como Jaspers, Dilthey e
Freyer.
103 MUÑOZ I LLORET, J. M. Jaume Vicens i Vives (1910-1960). Una biografía intelec-
tual. Barcelona: Eds. 62, 1997. p. 311 et seq.
104 VICENS VIVES, Jaime. Hacia uma nueva historia económica de España (1954). In:
______. Obra dispersa. Barcelona: Ed. Vicens Vives, 1967. v. II, p. 59.
105 Uma análise destes grupos em VERLARDE, Juan. Economistas españoles contemporá-
neos. Primeros maestros. Madrid: Espasa-Calpe, 1990. p. 32-61. Talvez o único autor
que pretendeu construir uma concepção histórica da economia foi o acadêmico e ex-
ministro de Franco, José Larraz, em La meta de dos revoluciones (Madrid: Blass, 1946);
conjunto de reflexões sobre o caráter histórico da economia, mescla de neotomismo
e de morfologia sociológica, crítica do marxismo e da teoria das espécies de Weber –
cuja Economía y Sociedad havia sido editada em castelhano no México em 1944.
106 Até o pós-guerra não se estava em desacordo sobre o fato de que a “história do direi–
to” fosse uma especialidade da história geral. Pelo contrário, entendida em um sen-

163
Capítulo 6

tido amplo como elemento fundamental da “história interna”, era considerada uma
manifestação relevante da própria renovação historiográfica. No pós-guerra, a distri-
buição pessoal e profissional do Consejo Superior, assim como a crítica às filosofias
da história de inspiração idealista e positivista, abriram o caminho a uma concepção
da história do Direito muito mais restritiva, formulada precisamente por Afonso
Garça Gallo. Este, em sua argumentação viria a negar que a História fosse ainda a
mestra das ciências ao estilo do século 19, como pretendeu o “positivismo” e, por-
tanto, assegurava que as histórias especiais deviam gozar de independência e se dedi-
ca exclusivamene ao objeto que lhes era próprio (GARCÍA GALLO, Alfonso.
Historia, derecho e historia del derecho. Consideraciones en torno a la Escuela de
Hinojosa. Anuario de Historia del Derecho Español, 23, p. 22-23, 25, 33, 1953). O
argumento teve um duradouro sucesso e somente foi posto em dúvida entre alguns
especialistas, com a renovação historiográfica dos anos de 1970 (CLAVERO, B.
Tomás y Valiente, una biografía intelectual. Milano: A. Giffré, 1996. p. 66, 164-170).
107 VICENS VIVES, Jaime. La transformación económica de Barcelona en el siglo
XVIII) (Destino 1950). In: ______. Obra dispersa. Barcelona: Ed. Vicens Vives, 1967.
v. II, p. 423-424.
108 Destacou sua análise crítica da influência do keynesianismo na historiografia em
“Problèmes de la formation du capitalisme” (Past and Present, 1953) (Une histoi-
re en construction. Approche marxiste et problématiques conjoncturelles. Paris:
Gallimard: Seuil, 1982. p. 125-153). Referências a essa influência nas obras de
Labrousse e Hamilon, em: Prefacio. In: VILAR, Pierre. Cataluña en la España
moderna. Investigaciones sobre los fundamentos económicos de las estructuras nacio-
nales. Barcelona: T. I. Crítica, 1979. p. 18-23.
109 Este é o pensamento que havia inspirado “Croissance économique et analyse histo-
rique” (Cf. Une histoire en construction. Approche marxiste et problématiques con-
joncturelles. Paris: Gallimard: Seuil, 1982. p. 14).
110 VILAR, Pierre. Historia general e historia económica. Moneda y Crédito, 108, p. 15,
marzo 1969.
111 As críticas ao estruturalismo, Ibid., p. 6-9; el “peligro de las técnicas”, Ibid., p. 11-13.
112 SEBASTIÁ DOMINGO, Enrique. La problemática del historiar. En torno a un libro
de Juan Reglà. Hispania. Revista Española de Historia, 110, p. 673, sept./dic. 1968.
Sobre o aparecimento de historiadores marxistas em Hispania, recordemos que
pouco antes Juan José Carreras Ares havia publicado um amplo estudo sobre “Marx
y Engels, (1843-47). El problema de la revolución”. Revista Española de Historia, 108,
p. 56-154, enero/abr. 1968.
113 REGLÀ, Joan. Comprendre el món (réflexions d’un historiador). Barcelona: Ed. A. C.,
1967. p. 17-18, 213-217 e passim. (A obra foi publicada em castelhano sob o título
Introducción a la historia. Socioeconomía-Política-Cultura. Barcelona: Teide, 1970.)
114 REGLÀ, Joan. Comprendre el món (réflexions d’un historiador). Barcelona: Ed. A. C.,
1967. p. 26-40.
115 REGLÀ, Joan. Notas sobre el concepto actual de la Historia. Revista de Occidente
(segunda época), p. 23, abr. 1966.
116 REGLÀ, Joan. Comprendre el món (réflexions d’un historiador). Barcelona: Ed. A. C.,
1967. p. 115-116. Seu mestre, Vicens Vives, passou a considerar o conceito de “gene-

164
Capítulo 6

ración” à maneira de Ortega e Laín – inclusive defendendo-o no Congreso


Internacional de Ciencias Históricas de Paris (1950) – relativizando-o e aplicando-
o à história social (respectivos testemunhos em VILAR, Pierre. Bulletin Historique.
Histoire Contemporaine de L’Éspagne, XVIII-XX siècles. Revue Historique, t. 206,
p. 307, oct./nov. 1951, e VICENS VIVES, J. Destino, 1954. In: ______. Obra disper-
sa. Barcelona: Ed. Vicens Vives, 1967. v. I, p. 467-469.
117 Cf. JOVER, José Maria. Corrientes historiográficas en la Espana contemporánea. In:
CARRERAS ARES, J. J. et al. Once ensayos sobre la historia. Madrid: Fundación Juan
March, 1976. p. 238.
118 RUIZ, David. La difusión del conocimiento histórico en la crisis del franquismo.
Estudios sobre Historia de España, citado, p. 388.
119 DIAZ, Elias. Pensamiento español en la Era de Franco (1939-1935). Madrid. Tecnos,
1983. p. 164-165.
120 As interessantes I Jornadas de Metodología aplicadas a las ciencias históricas
(Santiago de Compostela, 1973) coincidiram aproximadamente com outras que
ratificaram a renovação de determinadas especialidades historiográficas: o I
Coloquio de Historia económica de España (Barcelona, 1972), sobre “El crecimiento
económico en la España contemporánea, realizado con el patrocinio de Ramón
Carande y Pierre Vilar” (Cf. NADAL, J., TORTELLÁ, G. (Ed.). Agricultura, comercio
colonial y crecimiento económico en la España contemporánea. Barcelona: Ariel, 1974.
p. 7-8); e o I Coloquio Internacional de Historia del Derecho (Universidad de
Granada, 1973), cujo tema básico foram “as relações da história do Direito e as
recentes aquisições da chamada “história total” (Cf. Hispania, Revista Española de
Historia, 125, p. 717, sept./dic. 1973).
121 GARCÍA DE CORTÁZAR, José Angel. Los nuevos métodos de investigación histó-
rica” (1975). In: CARRERAS ARES, J. J. et al. Once ensayos sobre la historia. Madrid:
Fundación Juan March, 1976. p. 43.
122 PÉREZ LEDESMA, Manuel. Recensión de ...., Sistema. Revista de ciencias sociales, 4,
p. 149-150, enero 1974. As referências procedem de TUÑÓN DE LARA, M.
Metología de la historia social de España. Madrid: Siglo XXI, 1979. p. 4.
123 Ibid., p. 5.
124 TUÑÓN DE LARA, Manuel. La periodización en la historia socio-económica con-
temporánea de España. Cuadernos Aragoneses de Economia, curso 1975-1976, p. 10.
125 TUÑÓN DE LARA, Manuel. Metología de la historia social de España. Madrid: Siglo
XXI, 1979. p. 83-87. Como assinalou Julio Aróstegui, a reflexão tuñoniana não é
somente uma proposta metodológica, e, sim, que contém importantes elementos de
uma teoria da história (“Manuel Tuñón de Lara y la construcción de uma ciência
historiográfica”, DE LA GRANJA, J. L.; REIG TAPIA, A. (Coord.). Manuel Tuñón de
Lara. El compromiso con la historia. Su vida y su obra. Bilbao: Universidad del País
Vasco, 1993. p. 185 e passim).
126 FONTANA, Josep. La historia. Barcelona: Salvat, 1973. p. 127-128. Recordemos que
no mencionado o livro conjunto de reflexões historiográficas, outro historiador
marxista, Juan José Carreras Ares, proporcionava uma rápida contextualização e
definição do mencionado conceito, aludindo a seu valor totalizador (Categorias his-
toriográficas y periodificación histórica. In: CARRERAS ARES, J. J. et al. Once

165
Capítulo 6

ensayos sobre la historia. Madrid: Fundación Juan March, 1976. p. 60-61).


127 FONTANA, Josep. La historia. Barcelona: Salvat, 1973. p. 47.
128 Ibid., p. 114.
129 FONTANA LÁZARO, Josep. Ascenso y decadencia de la escuela de los “Annales” (en
catalán, Recerques, 1974), PARAI, Ch. et al. Hacia uma nueva historia. Madrid: Akal,
1985. p. 109-127.
130 FONTANA, Josep. La historia. Barcelona: Salvat, 1973. p. 110.
131 CASANOVA, J. El secano español revisitado. In: ______. La Historia social y los his-
toriadores. Barcelona: Crítica, [1991] (texto consultado graças à gentileza do autor).
132 PÉREZ GARZÓN, J. S. Sobre el espledor y la pluralidad de la historiografía españo-
la. Reflexiones para el optimismo y contra la fragmentación. In: DE LA GRANJA, J.
L. et al. Tuñón de Lara y la historiografía española. Madrid: Siglo XXI, [1999]. p. 336.
133 FONTANA, J. La historia después del fin de la historia, Reflexiones acerca de la situa-
ción actual de la ciencia histórica. Barcelona: Crítica, 1992. p. 8-9.
134 PEIRÓ, I. La historia de la historiografía en España: una literatura sin objeto. Ayer,
26, p. 129-137, 1997.
135 VÁZQUES, F. La historia social española y los nuevos paradigmas: encuentros y
desencuentros. In: BARROS, C. (Ed.). Actas del II Congreso Internacional “Historia
a Debate”. A Coruña, Ed Historia a Debate, 2000. t. I, p. 225.
136 Sem a intenção de sermos exaustivos, citamos algumas das obras destes autores:
OLÁBARRI, I. “New” New History: a “longue durée” Structure. History and Theory,
v. 34, n. 1, p. 1-29, 1995; CABRERA, M. A. Historia, lenguaje y teoria de la sociedad.
Madrid: Cátedra, 2001; SERNA, J.; PONS, A. Como se escribe la microhistoria. Ensayo
sobre Carlo Ginzburg. Madrid: Cátedra, 2000; SANDOICA, E. Hernández. Los cami-
nos de la historia. Cuestiones de historiografía y método. Madrid: Síntesis, 1995;
ARÓSTEGUI, J. La investigación histórica. Teoría y método. Barcelona: Crítica, 1995
(reeditado em 2001); MORADIELLO, E. Las caras de Clío. Una introducción a la his-
toria. Madrid: Siglo XXI, 2001.
137 Sobretudo, através de: Foucault y la historia social. Historia Social, 19, p. 145-159,
1997.
138 Vide VÁZQUEZ GARCÍA, F.; BOURDIEU, Pierre. La sociología como crítica de la
razón. Madrid: Montesinos, 2002.
139 Vide PRESEDO GARAZO, A. La historia teórica: algunas reflexiones en torno a la
propuesta historiográfica del profesor J. C. Bermejo. Obradoiro de Historia
Moderna, Santiago de Compostela, 10, p. 173-180, 2001.

166
Capítulo 7

A RENOVAÇÃO HISTORIOGRÁFICA
FRANCESA APÓS A “GUINADA CRÍTICA”1
Helenice Rodrigues da Silva*

Desde a década de 1990, a disciplina História conheceu inflexões consi-


deráveis do ponto de vista, sobretudo, epistemológico. Buscando-se dotar de
uma identidade própria, traduzida pelos “regimes de historicidade”, ela reabi-
lita duas noções fundamentais, que haviam sido eclipsadas durante a vigência
dos Annales: o acontecimento e a temporalidade (em sua articulação passa-
do/presente/futuro). Dentro dessa nova perspectiva, a História não pode ser
mais vista como uma ciência mas, essencialmente, como um conhecimento
revelado através de rastros e de vestígios. Conotando, portanto, acepções dis-
tintas: seqüência de acontecimentos e ato narrativo (discurso), esse duplo
objeto de reflexão, ou seja, disciplina ou conhecimento indireto, por um lado,
e rastros dos acontecimentos, por outro lado, a História mereceu uma atenção
especial por parte dos historiadores franceses, interessados, a partir de então,
em abordagens epistemológicas.
Praticada desde o século 19, por eruditos e filósofos, e a partir de mea-
dos do século 20 por profissionais de métier, a disciplina História, na França,
institucionaliza-se e se vulgariza graças à expansão dos lugares de produção e
a extrema “midiatização”, a partir da segunda metade do século 20, da profis-
são do historiador. Solicitado a intervir nos debates públicos sobre as tramas
do passado e as atualidades históricas,2 o historiador francês se vê investido de
múltiplos papéis: expert, magistrado e até mesmo juiz. Ao lado da função
pedagógica e cognitiva, o historiador ocupa, igualmente, uma função social.

169
Capítulo 7

No entanto, se os historiadores de métier se preocuparam, ao longo dos


tempos, com a interrogação de seus métodos de investigação, especialmente no
momento do triunfo dos Annales, a excessiva atenção com a prática histórica
fez com que ignorassem a reflexão de ordem epistemológica da disciplina. A
proximidade da História com as Ciências Sociais até meados dos anos 1980
distanciou os historiadores de um necessário diálogo com a Filosofia. Aliás, as
desconfianças dos primeiros em relação à Filosofia da História impediu que a
disciplina evoluísse em direção a uma maior conceituação e reflexão.
Escritos no início dos anos 1980, os três volumes de O Tempo e a
Narrativa, de Paul Ricoeur, passam praticamente despercebidos junto da cor-
poração dos historiadores. É somente na década de 1990 que autores como
Michel de Certeau, Jacques Rancière e Paul Ricoeur,3 responsáveis por um
reflexão filosófica e poética da História, vêem seus trabalhos valorizados por
uma pequena fração dessa corporação. Fundamentos para uma epistemologia
da História, a parte reservada aos modos de escrita, à narrativa, à argumenta-
ção, à subjetividade do historiador, ilustram a guinada hermenêutica (ou
interpretativa) que marcou a historiografia dos anos 1990. Graças aos traba-
lhos de Paul Ricoeur sobre o tempo histórico, os historiadores redescobrem a
dupla dimensão da História que, sob o mesmo vocábulo na França, insere a
própria narração e a ação narrada.4

O FINAL DAS CERTEZAS E DA HEGEMONIA DE


UM MODELO: A “GUINADA CRÍTICA”
Se os dois editoriais da revista Les Annales, publicados em 1988,5 sob o
título de Le tournant critique, constituem uma resposta à crise de paradigmas
em vigor nos anos 1970 e à nova conjuntura intelectual, eles representam,
sobretudo, uma “solução provisória [visando] a uma legitimação identitária”.6
Essa última passaria, segundo seus autores, por um posicionamento crítico em
relação ao modelo historiográfico dominante.
Sem dúvida, a necessidade de uma tomada de posição por parte de
membros dessa revista justifica-se em razão do constato eminente de uma crise
identitária por que atravessaria a disciplina na França. Externamente, a posição
hegemônica dos Annales encontrava-se ameaçada pelas novas correntes histo-
riográficas vindas do estrangeiro: social history inglesa, micro-história italiana,
linguistic turn americana e alltagsgeschichte alemã. Internamente, esse modelo já

170
Capítulo 7

havia sido alvo de críticas por A História em migalhas (1987) de François Dosse,
que diagnosticou e examinou a fragmentação do projeto dos Annales.
Preconizando uma renovação e os “novos métodos da pesquisa históri-
ca”, ou seja, a necessidade de se levar em conta não mais as estruturas, a longa
duração e os grupos sociais, mas as escalas de análise, os atores individuais e a
escrita da História, os diferentes textos da “guinada crítica”7 visam a romper
com as certezas metodológicas que marcaram os Annales. A modificação
mesmo do subtítulo da revista Annales, em 1993, de Économie, société et civili-
sation para Histoire et sciences sociales demonstra a necessidade de uma renova-
ção, que passaria, num primeiro momento, pela afirmação de identidade da
própria disciplina.
Deixando de lado a possibilidade de uma análise mais aprofundada,
propomos salientar somente os pontos mais relevantes que permearam esse
projeto crítico.
Se o primeiro editorial da “guinada crítica” propõe analisar a conjuntu-
ra historiográfica e elaborar propostas de renovação da prática dos historiado-
res, ele recusa pensar essa mesma conjuntura em termos de “crise da história” e
de fracasso de um “procedimento dominante”, o dos Annales dos anos 1970.
“[Essa é a característica] principal das proposições de redefinição que [preten-
de ser] uma ‘epistemologia de transição’, a partir de uma pressão identitária, ou
seja, em defesa de uma comunidade cuja legitimidade científica (e social) é
objeto de crítica.”8
Propondo estabelecer as bases renovadas do métier dos historiadores, a
“guinada crítica”, num primeiro momento, visa a buscar uma nova legitimidade
científica. Num segundo momento, no início dos anos 1990, o tournant critique
redireciona seu alvo, propondo um novo modelo historiográfico em torno do
paradigma pragmático. Para isso, ela investe, em particular, as propostas teóri-
cas da sociologia das periferias (Boltanski e Thévenot) e da economia das con-
venções”.9 Esse novo modelo paradigmático inscreve-se em uma conjuntura his-
toriográfica marcada pela existência de outros modelos de escrita da História.
Partindo de uma análise da conjuntura marcada pelas “incertezas” e
dúvidas, os textos do primeiro TC – tournant critique – têm, então, por objeti-
vo “estabelecer as bases renovadas” do métier do historiador, apreendendo um
“campo de forças”, composto pela evolução da disciplina, pela sua dinâmica
interna, pelo contexto geral das Ciências Sociais e pelo estado das relações
entre disciplinas.10 O estado de “incerteza” da História resultaria, segundo os
autores, de uma crise geral das Ciências Sociais e do esgotamento mesmo desse

171
Capítulo 7

modelo historiográfico dominante (quantitativo-antropológico) dos anos


1970. Insurgindo contra a prática “selvagem” e “homológica” da interdiscipli-
naridade, a “guinada crítica” insiste sobre o caráter irredutível das disciplinas.
Ameaçada de perder sua identidade, a História necessita questionar seus pos-
tulados e os protagonistas desse projeto crítico buscam, nesse primeiro
momento, elaborar uma “epistemologia de transição”.
No entanto, como bem mostra Christian Delacroix, “a legitimidade
científica passa pela legitimidade identitária, ela mesma conduzida pela comu-
nidade institucionalmente encarregada da revista dos Annales”.11 Na ausência
de um paradigma unificador, pelo momento, a continuidade se impõe pela
recusa de polêmicas e pela negação da existência de crises.12
Nesse primeiro momento, os promotores do TC rejeitam outras alter-
nativas de um discurso histórico, por exemplo, as teses de François Dosse, em
A História em migalhas. Constatando a perda, por parte da disciplina, de uma
identidade própria, em razão de seu esfacelamento, esse livro propõe uma rea-
bilitação do acontecimento como uma especificidade própria à História. Do
mesmo modo, os autores do TC evitam analisar duas propostas, julgadas insu-
ficientes: a do “retorno à narrativa” de Lawrence Stone13 e a do “retorno à his-
tória política” de Marcel Gauchet. A primeira dessas propostas, que critica o
mito da história científica, diagnosticada pela crise do “determinismo econô-
mico e demográfico”, propõe o deslocamento da noção do grupo em direção
ao indivíduo e do científico em direção ao literário. A segunda, fundamentada
no constato de uma “mudança de paradigma”,14 caracterizada pelo “retorno da
consciência” e da “parte explícita e consciente da ação”, preconiza uma história
mais simbólica (exemplo, Os Lugares da Memória, de Pierre Nora), ao lado de
uma “nova história política”.15
Sem dúvida, as propostas, de François Dosse, de Lawrence Stone, de
Marcel Gauchet e da “nova história política” constituem alternativas historio-
gráficas passíveis diante dos impasses da corrente dos Annales. Possibilitando
atribuir uma maior identidade à disciplina, através do retorno a uma outra
forma de temporalidade, elas sugerem a irredutibilidade da História em rela-
ção a outras disciplinas. Ora, a exploração de recursos teóricos exteriores à dis-
ciplina tornou-se prática corrente ao longo dos cinqüenta anos de hegemonia
dos Annales. Apropriando-se da sociologia e da antropologia, em nome do
déficit de cientificidade da história, os Annales não hesitaram em realizar uma
“autonomia teórica”, apoderando-se da sociologia durkheimiana e da antro-
pologia de Lévi-Strauss.16

172
Capítulo 7

Ao lado das denúncias de excesso de interdisciplinaridade, a “guinada


crítica” nesse primeiro momento reforça a sua “dupla recusa epistemológica”,
ou seja, a redução lingüística da História e o excesso de cientificismo. Se as
críticas ao modelo dos Annales são autorizadas, elas se fazem discretamente
a partir da crítica da própria disciplina, em nome do excesso da “ilusão cien-
tífica”, e não a partir de modelos historiográficos concorrentes. “O TC é o
dispositivo encarregado de construir as condições de emergência de um
novo modelo historiográfico estabilizado, com vocação de paradigma – no
sentido de matriz disciplinaria – a partir do constato de crise da identidade
da disciplina, evitando a confrontação direta com outros modelos historio-
gráficos desqualificados, [e isso] em nome da legitimidade científica dos
Annales”.17 Nesse primeiro editorial, o privilégio do tempo e da dimensão
temporal dos fenômenos são creditados como sendo o único objeto especí-
fico da História.
Os modelos de análise propostos, visando a romper com a “dupla recusa”
(os “velhos dualismos” ficção/ciência), são de natureza distinta. Um primeiro,
interno à disciplina, é feito sobre as escalas de análise e a micro-história, um
segundo, externo, apresenta a teoria da auto-organização e a corrente do cons-
trutivismo social, um terceiro volta-se para o procedimento hermenêutico.
Desde os anos 1950, Paul Ricoeur18 já havia assinalado as tensões ine-
rentes à prática da disciplina, marcada, por um lado pela objetividade, neces-
sária, de seu objeto e, por outro lado, pela inevitável subjetividade do seu his-
toriador. A hermenêutica corresponderia, então, nesse momento de desloca-
mento de categorias de temporalidades (a curta duração, as descontinuidades,
por exemplo) e de mutações da escrita histórica (a valorização do aconteci-
mento e do presente), do início da década de 1980, a uma tentativa de se arti-
cular a explicação histórica à sua compreensão narrativa. Interrogando, então,
“as diversas modalidades de fabricação e de percepção do acontecimento a
partir de sua trama textual”, o historiador operaria um trabalho de luto de um
passado, contribuindo para a atribuição de novos sentidos.19
Segundo os autores da “guinada crítica” (Bernard Lepetit e Jean-Yves
Grenier), a hermenêutica permitiria servir de modelo de análise, rompendo,
desse modo, com os procedimentos “simplificadores” da história serial, ou
seja, com o excesso de realismo histórico, o de se coisificar categorias. O recur-
so à hermenêutica representaria a possibilidade de se liberar de uma “fossiliza-
ção quantitativa do modelo “labroussiano”, dando margem a uma lógica de
“série de interpretações”.20

173
Capítulo 7

No início dos anos 1990, o TC propicia uma radicalização paradigmá-


tica, por parte de um pequeno grupo ligado aos Annales, provocando, do
ponto de vista institucional, uma recomposição da equipe da direção da revis-
ta.21 Os artigos publicados nos Annales, no entanto, continuam exprimindo
uma lógica de autonomia.

O PARADIGMA PRAGMÁTICO E
INTERPRETATIVO NA “GUINADA CRÍTICA”
Se o paradigma estruturalista (dos anos 1950 à metade dos anos 1970),
exprimindo pensamentos de “suspeita” e de estratégia, descentralizou o sujei-
to para melhor desvendar a idéia de uma verdade científica, o paradigma dos
anos 1990 reintroduziu não um sujeito transparente e soberano, mas a noção
da consciência e das ações capazes de explicar a consciência dos atores. Os tra-
balhos da pragmática e do cognitivismo (vindos dos Estados Unidos) inspi-
ram, então, esse novo modelo teórico que, abandonando as referências ao
inconsciente e às infra-estruturas, reinveste as Ciências Humanas.
Um segundo momento do TC (nov./dez. de 1989) marca a “conversão
pragmática dos Annales”, radicalizando, desse modo, o paradigma (pragmáti-
co e interpretativo) dos anos 1990. “O motor dessa conversão é essencialmen-
te o investimento de dois modelos teóricos, [já mencionados], o da sociologia
das “cidades – dormitórios” de Luc Boltanski e Laurent Thévenot e o da eco-
nomia das convenções”.22 Esses estudos evidenciam a importância concedida à
ação e à interpretação, a partir de uma pesquisa sobre a pluralidade de conjun-
tos habitacionais (cités), em que se encontra “diferentes mundos de pertença”,
no interior do qual o homem é pluralizado. O estudo evidencia a impossibili-
dade de qualquer reducionismo monocausal.23 Esse modelo de análise socioló-
gica serve, segundo o TC, de inspiração para as futuras análises históricas. Face
ao ecletismo da comunidade histórica, nesse início da década de 1990, o TC
reitera o desejo de defender uma identidade profissional e de construir uma
nova matriz disciplinar.24
Uma série de questões metodológicas, tais como a objetividade, o realismo
e a verdade, impõe-se aos promotores do TC como condição possível de “crista-
lização de um novo paradigma”. O relativismo (os trabalhos de Hayden White) e
os interesses em jogo relativistas do construtivismo25 são rejeitados como uma
impossibilidade de se atingir um conhecimento científico do passado.

174
Capítulo 7

Convém salientar que a produção de teses revisionistas ou negativistas


(por exemplo, sobre o Holocausto) na França nos anos 1980, abrindo caminho
a falsificações, interdita toda forma de relativismo histórico e abre espaço para
a valorização da questão da objetividade.26
O debate historiográfico, no início dos anos 1990, mobiliza alguns his-
toriadores fora dos Annales, Roger Chartier, Pierre Nora, Pierre Vidal-
Naquet,27 embora exprimindo posições diversas, atestam a necessidade de uma
renovação historiográfica que, segundo eles, passaria pela reconfiguração da
historicidade. O tema do ator, o método hermenêutico, a prática da micro-his-
tória prefiguram, assim, o dispositivo desse segundo TC pelo viés da historici-
dade. “É a noção de ‘regime de historicidade’ entendida como convenção que
regula a relação de toda sociedade com o seu passado, que dá coerência a esse
espaço de ‘tradutibilidade’ e que assinala essa transformação”.28 O realismo res-
trito (contra o relativismo) e a historicidade do objeto possibilitariam, então,
uma identidade teórica apropriada à disciplina História.
As mutações intensas que afetam as Ciências Humanas nos anos 1980
(o final do marxismo, do estruturalismo e do funcionalismo), levando-as a um
“processo de humanização”, conduzem a História a operar uma “conversão
pragmática”. Isso significa a revalorização, pelos historiadores, dos atores, o
que se traduz por uma reconfiguração mesmo do tempo histórico. A curta
duração e o acontecimento, deixados de lado, durante décadas, pelos Annales,
retornam então em força nas análises históricas, permitindo melhor situar a
noção da ação. A conversão da disciplina à pragmática, possibilitando abordar
a ação dos atores do passado, reabilita a noção de apropriação, de representa-
ção e de rastros. Desse modo, os historiadores abordam os modelos temporais
dos atores do passado, dialogando com a Filosofia e pedindo emprestado o
modelo da Sociologia da ação.
Em síntese, a “guinada crítica” abre possibilidades de um espaço teó-
rico próprio à História. “Essa parte explícita e refletida da ação, que retor-
nou em primeiro plano, tem por efeito situar a identidade histórica no cen-
tro do quadro de um triplo objeto privilegiado para o historiador: uma his-
tória política, conceitual e simbólica renovada”.29 Marcada pela pluralidade
de interpretações, a história francesa, na década de 1990, passa a ser domi-
nada pelas novas correntes da história política, da história conceitual e da
história simbólica .
A exigência de se pensar a historicidade e a necessidade de definir a ope-
ração histórica, a partir da “centralidade do humano, do ator e da ação situada”

175
Capítulo 7

(François Dosse) conduz, então, os historiadores a novas interrogações, em ter-


mos conceituais e filosóficos. A crise do causal e o princípio da subdeterminação,
demonstrados na teoria física por Pierre Duhem,30 assim como a noção de “irre-
duções” de Bruno Latour,31 influenciam novas pesquisas na área das Ciências
Humanas. Abrindo pistas para a apreensão do real, a partir da sua complexidade;
o princípio de indeterminação, portanto, permite múltiplas descrições.
Liberada da falsa alternativa entre cientificidade (esquemas causais) e
literatura (“derivas ficcionais”), a disciplina História redescobre, nos trabalhos
de autores como Michel de Certeau, Paul Ricoeur e de Reinhard Koselleck,32
por exemplo, novas possibilidades de se pensar o regime de historicidade.
Desde meados da década de 1970, Michel de Certeau apreendia a ope-
ração histórica como uma operação complexa, um misto de ciência e de fic-
ção. Lugar particular de enunciação, o discurso histórico seria uma prática ins-
titucionalizada, tributária de uma comunidade de pesquisadores e correlativa
à estrutura da sociedade que “traça as condições de um dizer”. Túmulo do pas-
sado, o discurso historiográfico teria por função honrar os mortos e participar
da eliminação do passado. “Esse revisitar histórico teria, então, por função a
abertura ao presente de um espaço próprio para marcar o passado, redistri-
buindo um espaço dos possíveis”.33
Os três volumes de O Tempo e a Narrativa, de Paul Ricoeur desenvol-
vem uma vasta reflexão sobre a temporalidade histórica. Intermediária entre
um tempo cosmológico, demonstrado por Aristóteles e por Kant, e um tempo
íntimo (ou psíquico), presente nos trabalhos de Santo Agostinho e de Husserl,
o tempo histórico equivaleria à sua própria narrativa. Entre esses dois tempos
encontra-se, então, o tempo histórico, ou seja, o tempo narrado pelos historia-
dores. Caracterizando-se pela tensão, própria a esse tempo, o discurso históri-
co situa-se entre a ambição da verdade e a identidade narrativa.
Partindo de uma leitura crítica de Mediterrâneo e o mundo mediterrâ-
neo na época de Felipe II, de Fernand Braudel, Paul Ricoeur detecta a “estru-
tura de transição” que assegura a coerência do conjunto dessa obra. A ambi-
ção de uma história total e a “história imóvel”, resultados de cortes epistemo-
lógicos operados pelos Annales, tinham, na verdade, por principal alvo a esco-
la metódica. A cientificidade de um discurso histórico, renovado pelas
Ciências Sociais, aparecem, assim, como um meio de se liberar do sujeito, do
acontecimento e de sua narrativa. Entretanto, como mostra Ricoeur, se
Braudel denunciou a curta duração exaltando o tempo longo, as regras da
escrita histórica (a narrativa pela mise en intrigue) o impediram de fazer uma

176
Capítulo 7

obra sociológica. Enquanto historiador, Braudel continuava tributário de for-


mas retóricas próprias à disciplina História. “O mediterrâneo figura um
quase-personagem que conhece as últimas horas de glória no século XVI
antes de assistirmos a um deslocamento em direção ao Atlântico e à América,
momento em que, ao mesmo tempo, o mediterrâneo abandona a grande his-
tória”,34 afirma Ricoeur. A narração constitui, portanto, uma mediação indis-
pensável em toda a escrita da História.
Entre os historiadores que pensaram as categorias de historicidade,
Reinhart Koselleck, redescoberto na França graças aos trabalhos de Paul
Ricoeur, articula o tempo passado à narração do historiador como possibilida-
de de associar o “espaço de experiência” e o “horizonte de expectativa”. Desse
modo, “a narração se desloca entre um espaço de experiência que evoca a mul-
tiplicidade dos percursos possíveis e um horizonte de expectativa que define
um futuro transformado em presente, não redutível a uma simples conse-
qüência da experiência presente”.35 Essa hermenêutica do tempo histórico
volta-se para um fazer humano, um agir sobre o presente e um dialogar entre
gerações. A perspectiva de abertura sobre o passado visa a “tornar nossas
expectativas mais determinadas e nossa experiência mais indeterminada”.36
Se a construção de uma hermenêutica histórica permite romper com
partes das tradições históricas, sobretudo, com as que consideram o passado
um tempo morto e a objetivação do historiador, excluindo sua subjetividade,
ela demonstra o caráter específico da História: reconstrução do passado.
Reaberta em função de sua escrita, ou seja, de suas diferentes fases e atualiza-
ções, a História se reapropria do passado e, em geral, de suas representações.
No início dos anos 2000, a epistemologia histórica, na França, funda-
menta-se, portanto, através da valorização das noções de historicidade, de
ruptura, de sujeito, a partir de um modelo hermenêutico que explicita o sen-
tido do acontecimento. A esse propósito, Paul Ricoeur propõe a distinção de
três níveis de abordagem do acontecimento: 1 – o acontecimento infra-signi-
ficativo; 2 – o limite do non-événementiel; 3 – a emergência dos acontecimen-
tos supra-significativos. O primeiro correspondendo às orientações da escola
metódica , a do estabelecimento crítico das fontes, descreve “o que acontece”.
O segundo, próximo às orientações dos Annales, insere o acontecimento no
interior de esquemas interpretativos, articulados às regularidades das leis.
O terceiro vê o acontecimento como parte integrante de uma construção nar-
rativa constitutiva de identidade fundadora, por exemplo, a Tomada da
Bastilha, e a negativa, Auschwitz.37

177
Capítulo 7

Centrada em direção do acontecimento e do presente, a escrita atual da


história contribui para que seu próprio sentido sofra mutações. A História é
recriada e o historiador torna-se esse mediador do sentido. “Ela se realiza no
trabalho da hermenêutica que lê o real como uma escrita cujo sentido se des-
loca ao fio do tempo em função de suas novas fases de atualização”.38
Dentro dessas novas perspectivas abertas à temporalidade, as noções de
rupturas e de descontinuidade, tributárias, em grande parte, dos trabalhos de
Michel Foucault (que mostrou as quebras dos valores instauradas pelos epis-
temes), reaparecem na apreensão da noção de acontecimento. Aliás, o “retor-
no ao acontecimento”, através da produção da mídia, já havia merecido a aten-
ção de Pierre Nora, em 1972, quando publica Fazer a história. Em pleno apo-
geu dos Annales, Nora preconiza esse retorno como condição necessária, por
parte do historiador, da desconstrução do próprio acontecimento.
Ora, os acontecimentos só se revelam, como tais, através de rastros dei-
xados, sejam eles discursivos ou não. Um exemplo interessante de interroga-
ção desses traços na busca de um sentido do acontecimento encontra-se no
livro de Georges Duby, O Domingo de Bouvines,39 em que esse autor analisa a
memória dessa famosa batalha. O acontecimento em si, ocorrido em 1214, só
pôde ser preservado graças a seu enquadramento na consciência coletiva. “As
metamorfoses dessa memória tornam então objeto da história do mesmo
modo que a efetividade do acontecimento nos seus estreitos limites tempo-
rais. O estudo dos jogos da memória e do esquecimento dos rastros desven-
da-se como ‘a percepção do fato vivido se propaga em ondas sucessivas’”.40
A fixação e a cristalização do acontecimento pode, igualmente, passar pela
sua apelação discursiva. Em um estudo sobre a imigração francesa e a construção
da identidade nacional, Gerard Noiriel41 mostra como os fenômenos sociais
podem existir através, não da sua visibilidade, mas da sua nomeação. Ora, no
século 19, a imigração já existia na prática, embora não fosse nomeada como tal.
A relação entre linguagem e história, explorada no momento atual, é
problematizada pelas correntes interacionistas, pela etnometodologia (que
investiga a relação entre as explicações científicas e aquelas fornecidas pelos
atores) e pela abordagem hermenêutica.
“Esse deslocamento da événementialité em direção de seu rastro e de seus
herdeiros suscitou um verdadeiro retorno da disciplina histórica sobre ela
mesma, no interior do que poderíamos qualificar de círculo hermenêutico ou de
guinada historiográfica”.42 Isso implica a interrogação sobre as diversas modali-
dades da “fabricação e da percepção do acontecimento a partir de sua trama tex-

178
Capítulo 7

tual”. Na França, essa tendência à revisitação do passado pela escrita da história


acompanha-se de um trabalho de produção de uma memória nacional.43

AS MÚLTIPLAS ABORDAGENS:
REPRESENTAÇÕES, SIMBOLISMO, MEMÓRIA
Alguns conceitos, tais como o de representação,44 o de apropriação e o
de simbolismo, restituídos às novas escalas de análises, servem de referência às
abordagens históricas atuais. Para melhor marcar a sua distância em relação às
“mentalidades” dos Annales, Roger Chartier (em um número consagrado ao
TC) concede à noção de representação um papel predominante na pluraliza-
ção da construção cultural. Restituído à dinâmica da luta de representação, ao
que se encontra em jogo nas estratégias simbólicas em confrontação, o concei-
to de representação pode ser de extrema eficácia se “concebido a partir de sua
capacidade em articular o espaço dos possíveis no interior do qual se inscre-
vem as produções, as decisões, as intenções explícitas”.45
Nesse processo de construção de sentido resultante do encontro entre o
“mundo do texto” e o “mundo dos leitores”, Roger Chartier propõe levar em
conta diversas formas de apropriação, deixando de lado o recorte unicamente
dualista, como o de dominante/dominados. A valorização da concepção de
apropriação deve-se, em grande parte, à redescoberta de Norbert Elias, ao estu-
do de Michel de Certeau sobre as práticas cotidianas e a Michel Foucault, quan-
do ele se interroga (Vigiar e punir) sobre as práticas não discursivas através do
discurso. Mas, como afirma Chartier, a noção de apropriação não deve corres-
ponder a uma simples automatização de equivalências generalizadas em rela-
ção às categorias sociais; ao contrário, ela deve estar ligada às práticas.
Entre a parte explícita e a parte inconsciente das representações, um
outro campo de investigação é aberto aos historiadores, o do simbolismo.
“Considerar que é possível ter acesso ao passado implica pensar que existe,
para além das variações, das mudanças e das rupturas entre a cultura de hoje
e a de ontem, alguma coisa que permite uma possível comunicação, logo uma
“humanidade comum”, o que permite, por exemplo, reencontrar o sentido da
beleza em Platão ou qualquer outro valor cultural de uma sociedade que não
é mais a nossa”.46 Assim, é dentro de uma perspectiva hermenêutica que o his-
toriador estabelece a ligação entre a compreensão do passado e a intersubjeti-
vidade do autor em relação ao outro, distanciado no tempo.47 Dentro desse

179
Capítulo 7

paradigma subjetivista, a noção de intencionalidade e de experiência vivida


passam a inspirar essa nova história social.
Preconizada por Pierre Nora nos anos 1980, os “lugares da memória” abri-
ram pistas para novas abordagens da história, rompendo com a concepção ingê-
nua, admitida pela escola metódica, de reflexo e de automatismo entre memória
nacional e Estado-nação. Com o final do modelo dos Annales, a atenção dos his-
toriadores em relação à questão do tempo possibilita uma reabilitação da catego-
ria da memória, como equivalente à idéia da presença de uma ausência. Liberada
dos esquemas durkeimianos de Halbwachs, que dissociavam memória e história,
os novos estudos nessa área acentuam a noção do rastro como um laço indizível
entre o passado e o presente. A partir desse rastro deixado na memória coletiva,
novos objetos despontam no território do historiador: emblemas, símbolos e
homens, “não mais os determinantes, mas seus efeitos, não mais as ações memo-
rizadas nem mesmo comemoradas, mas o rastro de suas ações e o jogo dessas
comemorações, não os acontecimentos por eles-mesmos, mas sua construção no
tempo, o apagamento e o ressurgimento de suas significações; não o passado tal
como ele se passou, mas seus reempregos permanentes, seus usos e desusos, sua
pregnância sobre os presentes sucessivos, não a tradição, mas a maneira pela qual
ela se constituiu e foi transmitida”.48 Essa problematização da memória pela his-
tória, ou seja, a própria historicidade da memória, atravessa, segundo Ricoeur, o
tempo cósmico e o tempo vivido. “A distância temporal não é mais, então, um
empecilho mas um trunfo para uma apropriação de diversas estratificações de
sentido de acontecimentos passados transformados em acontecimentos ‘supra-
significados’”.49 O caráter irredutível do acontecimento e o retorno da memória
reforçam a concepção de descontinuidade da história.

A PROBLEMATIZAÇÃO DA MEMÓRIA
PELA HISTÓRIA50
O objeto memória, constitutivo do trabalho filosófico de Paul Ricoeur,
enquadra-se no chamado “momento memorial” que conhece a França, marca-
do pelas “rememorações” subjetivas e pelas comemorações sociais. Desse
modo, suas análises mais recentes (La mémoire, l’histoire et l’oubli51) contri-
buem para uma melhor apreensão desses dois fenômenos (“rememoração” e
comemoração) que, nesses tempos de crise e de incertezas do presente e do
futuro, vêm marcando a historiografia francesa.

180
Capítulo 7

Inspirando-se em análises filosófica (Agostinho) e psicanalítica


(Freud), Ricoeur questiona situações contrastadas, presentes, muitas vezes, na
prática dos analistas da memória e que dizem respeito ao trabalho da lembran-
ça e do luto. Confrontadas pelos historiadores do tempo presente, essas situa-
ções traduzem, em geral, os traumatismos da memória (individual e coletiva)
em relação a determinados acontecimentos históricos.
A primeira dificuldade, encontrada pelo historiador da memória, con-
cerne às situações de recalque e/ou do retorno do recalcado. Assim, da escassez
da memória sobre um momento sombrio da história nacional (por exemplo, o
governo de Vichy durante a Ocupação alemã – 1940/1944), passa-se a um
excesso de memória. Os múltiplos trabalhos, publicados nessas duas últimas
décadas sobre esse acontecimento, atestam esse deslocamento. Em outras pala-
vras, esse “passado que não quer passar” (título do livro de Henri Rousso sobre
o governo de Vichy), torna-se, então, uma obsessão historiográfica do presente.
A segunda dificuldade refere-se, ao contrário, à negação dos momentos
mais traumáticos do passado, sintoma de patologias coletivas ou individuais
da memória e que se traduzem não pelo esquecimento, mas pelo silêncio.52
Essa situação se manifestou, notadamente, em relação à shoah (genocídio dos
judeus) e à difícil transmissão, por parte dos seus sobreviventes, da narrativa
desse acontecimento.
Segundo Freud,53 o impedimento à tendência compulsiva de repetição
de um traumatismo, por parte de um paciente, é feito por meio de um “tra-
balho de lembrança”, cuja cura se dá pelo ato de transferência. Ao contrário,
o “trabalho de luto” se opõe à tendência autodestrutiva da melancolia; esse
“esquecimento” consiste no desprendimento de um objeto perdido (de amor
ou de ódio).
Na apreensão da relação da memória à história, Ricoeur detecta a ver-
dade como o elemento comum entre ambas. Segundo esse autor, a busca do
passado (característica da anamnèse aristoteliana), visando à exatidão, à fide-
lidade, à verdade, tende a invalidar a idéia, falsamente admitida na tradição
filosófica, da equivalência da memória à imaginação. Se essa última se identi-
fica com o irreal e com a ficção, a memória, apesar de sua fragilidade e de seus
enganos, visa, ao contrário, à fidelidade e à verdade. A História reencontra,
então, a memória nessa sua ambição da verdade.
A transmissão da memória à história processa-se, segundo Ricoeur,
pelo “mesmo médium lingüístico da narrativa, o qual organiza, met en intri-
gue, tanto as lembranças pessoais como as lembranças coletivas”.54 No entanto,

181
Capítulo 7

em razão mesmo de sua função crítica, cabe à história remediar e corrigir, ao


mesmo tempo, as fragilidades e os abusos da memória.55
A fragilidade da memória (individual e/ou coletiva) nas histórias nacio-
nais é passível de leituras distintas. Se em determinados países, como a França,
o excesso de memória, revelado pelo fenômeno das numerosas comemorações
de datas históricas e pelas múltiplas “rememorações” individuais (as narrativas
de vida), pode dar margem a abusos, em contrapartida, em países totalitários,
a insuficiência da memória, em razão de sua própria manipulação política,
propicia utilizações ideológicas do presente e do futuro desse mesmo passado.
Em ambos os casos, os abusos da memória são perceptíveis. Ao lado de um tra-
balho da lembrança, necessário à preservação da identidade nacional, um tra-
balho de esquecimento, visando a um justo equilíbrio da distância temporal,
torna-se, portanto, segundo Ricoeur, inevitável.
Desse modo, a História se confronta, por um lado com a fragilidade
afetiva da memória, por outro com seus abusos vinculados às manipulações
da História.
A esse propósito, Tzvetan Todorov, em seu livro Os abusos da memó-
ria, insiste sobre a indissociabilidade da memória a um trabalho de esque-
cimento. “A memória não se opõe absolutamente ao esquecimento. Os dois
termos contrastantes são o apagamento (o esquecimento) e a conservação;
a memória é, sempre e necessariamente, uma interação entre os dois”.56 Os
abusos da memória estariam ligados diretamente a perturbações e a feridas
da identidade dos povos; em outras palavras às crises identitárias (insegu-
ranças e medo das diferenças). Esses abusos remetem à confrontação da
identidade em relação ao tempo e ao outro. Ao lado dessas “feridas coleti-
vas”, em grande parte simbólicas, encontra-se a violência efetiva, cuja pre-
sença se manifesta na fundação das identidades, principalmente coletivas.
Essas feridas são assimiladas, na maioria das vezes, a guerras, uma vez que
as comunidades históricas se constituíram, em grande parte, por meio de
atos violentos (por exemplo, a colonização, a descolonização de alguns paí-
ses africanos e, por que não dizer, a Descoberta da América, seguida pelos
massacres indígenas).
Os acontecimentos fundadores de uma identidade nacional, objeto
mesmo de celebrações, pertencem, geralmente, a essa categoria de ferida coleti-
va. Associados à manipulação e à instrumentalização da lembrança, os abusos da
memória se traduzem, lembra Ricoeur, pela política abusiva das comemorações
das grandes datas, caracterizadas tanto pelas glórias como pelas humilhações.57

182
Capítulo 7

Em síntese, podemos constatar que se, as mutações internas às discipli-


nas e externas à conjuntura permitem ilustrar o reviramento dos paradigmas
ocorridos na França nos anos 1990, a produção historiográfica, quanto a ela,
marcada por esse novo modelo, continua exprimindo uma enorme diversida-
de. Da história demográfica à história das sensibilidades,58 passando pela histó-
ria das empresas, os pesquisadores, suscetíveis às mutações de modelos e à l’air
du temps, praticam diferentes métodos e adotam diversas escalas de análises.
Redescobrindo a sua parte humana, intrínsecas às mesmas, as Ciências
Humanas conhecem, nessa última década, uma renovação de modelos, de
métodos e de objetos que migraram de um domínio a outro. No campo da
História, se o final do modelo hegemônico dos Annales abre espaços teóricos
para uma necessária discussão sobre o estatuto mesmo da História, a partir de
um diálogo com filósofos que pensaram a historicidade, um tal diálogo pare-
ce restrito a uma fração da comunidade histórica. Lembramos que a guinada
crítica mobilizou um número ínfimo de protagonistas, pertencentes à institui-
ções de pesquisa, e, portanto, em contato mais direto com as Ciências
Humanas. Embora as questões, tais como a narrativa, os modos da escrita, a
subjetividade do historiador, a argumentação, ao lado da objetividade, requi-
sito para todo conhecimento histórico, passam a constituir referenciais de
uma epistemologia, as questões metodológicas, tais como a exploração das
fontes, tendem ainda a priorizar a pesquisa histórica.
A questão da objetividade da História permanece de grande atualidade
nas reflexões historiográficas. Não se trata mais de se conceber uma pesquisa his-
tórica objetiva, tal como a praticada pelo cientificismo dos anos 1950 – 1960
(sob a influência do marxismo ou do estruturalismo), pretendendo destacar
“leis” da História e defender um conceito de verdade histórica baseada na das
ciências naturais. Na opinião de Gerard Noiriel, “os historiadores deveriam
abandonar as doutrinas epistemológicas que se interessam unicamente ao obje-
to das ciências (como o positivismo e a hermenêutica) para se voltarem em dire-
ção das correntes filosóficas (como o pragmatismo) que apreendem o conheci-
mento científico como um conjunto das práticas sociais”.59 Contra os ataques
relativistas e as teses negativistas, o historiador, segundo esse autor, se pretende
atingir a objetividade, deve submeter seus trabalhos ao olhar crítico de seus
pares.60
Sofrendo, então, influências do pragmatismo e do cognitivismo, vindo
dos Estados Unidos, a historiografia francesa, que abandona as estruturas e a
longa duração, redireciona seus enfoques sobre novas abordagens: o aconteci-

183
Capítulo 7

mento, o tempo curto. A hermenêutica desponta no horizonte dos historiadores


como possibilidade de uma melhor interrogação entre passado e presente, por
meio da compreensão explicativa. Revelando, assim, o caráter da operação his-
tórica, ou seja, o de apropriação e de reconstrução dos acontecimentos, a herme-
nêutica fundamenta a chamada guinada historiográfica. No entanto, o método
hermenêutico, remetendo aos círculos hermenêuticos, impõe, como meio de se
evitar todo reducionismo, um mínimo de conhecimento, por parte dos historia-
dores, das obras de Ricoeur e de Gadamer. Ora, somente uma pequena fração de
historiadores parece capacitada a transitar facilmente de uma disciplina à outra.
Na perspectiva do pragmatismo, a sociedade deixa de ser vista dentro
de uma dimensão de produção (econômica e cultural), passando a ser defini-
da como uma categoria de práticas sociais, produto da interação dos atores.
Novas correntes historiográficas, vindas do estrangeiro, influenciam a
produção francesa, atualmente dominada pela história política, pela história cul-
tural renovadas, mas também voltada para outras áreas de pesquisas, como a
história social da memória, a história das sensibilidades, a história intelectual.
Mas, como adverte François Dosse, se, no momento atual, a História é
suscetível de interpretações plurais (devido aos diversos mecanismos de apro-
priação e às múltiplas mediações), ela jamais poderá se reduzir “a um puzzle pós-
moderno puramente eclético”. A razão para uma tal recusa residiria no constato
mesmo da impossibilidade de uma dissociação entre a memória e a sua função
de identidade e de fidelidade, e a história, em sua busca de verdade”.61

NOTAS
* Professora Adjunta da UFPR.
1 Sob o título de Tournant critique, ou seja, de “guinada crítica”, a revista dos Annales
publica a partir dos números de janeiro/fevereiro de 1988, (essa expressão só apare-
ce no número de março/abril de 1988), novembro/dezembro de 1989,
novembro/dezembro de 1990, novembro/dezembro de 1993, janeiro/fevereiro de
1994, março/abril de 1994, análises críticas sobre a historiografia francesa. O verda-
deiro número da guinada crítica é, no entanto, o de novembro/dezembro de 1989.
2 Os recentes processos judiciais de personalidades políticas (Maurice Papon, Paul
Touvier, Klaus Barbie), envolvidos em crimes durante a Ocupação alemã, mobilizou
os historiadores do tempo presente. Convocados a depor na pretória, alguns entre
eles recusaram o convite, em nome de sua própria função.
3 CERTEAU, Michel de. L’écriture de l’histoire. Paris: Gallimard, 1995. RANCIÈRE,
Jacques. Les mots de l’histoire: essai de poétique du savoir. Paris: Seuil, 1992.
RICOEUR, Paul. Temps et récit. Paris: Seuil, 1983, 1984, 1985. 3 v.

184
Capítulo 7

4 Ver DOSSE, François. L’histoire. Paris: Armand Collin, 2000. p. 54.


5 Bernard Lepetit, membro do comitê de direção da revista e autor, junto com Jean-
Yves Grenier, dos números: janeiro/fevereiro de 1988 e novembro/dezembro de
1989, foi o iniciador da guinada pragmática da revista.
6 Ver DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Les Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, 1995.
7 Christian Delacroix retém, para a sua análise, dois tipos de textos: 1 – os textos de apre-
sentação dos números dos Annales de janeiro/fevereiro de 1988, março/abril de 1988,
novembro/dezembro de 1989, novembro/dezembro de 1990, novembro/dezembro de
1993, janeiro/fevereiro de 1994, março/abril de 1994; 2 – alguns textos pessoais, não
necessariamente publicados nos Annales, de Bernard Lepetit, de André Bourguière, de
Jean-Yves Grénier, de Jacques Revel, membros do comitê de direção da revista.
8 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Les Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 88, 1995.
9 Sob a designação de “economia das convenções”, um grupo de pesquisadores (eco-
nomistas, sociólogos e filósofos da ciência) propõe um modelo geral de interpreta-
ção das relações sociais. Eles organizam uma publicação comum (L’économie des
conventions. Revue économique, v. 40, n. 2, mars 1989) tendo por objetivo refletir
sobre as regulações das economias nacionais e suas regras, sobre o ressurgimento do
“institucionalismo”, a partir de um grupo, de uma empresa, de uma coletividade.
Ver DOSSE, François. L’empire du sens: l’humanisation des sciences humaines.
Paris: La Découverte, 1995. p. 65, 66.
10 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Lês Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 88, 1995.
11 Ibid.
12 Ibid., p. 89.
13 STONE, Lawrence. The revival of narrative. Reflections on a new old history. Past
and Present, n. 85, 1979. Esse texto foi traduzido em francês: Retour au récit, réfléxions
sur une nouvelle vieille histoire. Le Débat, n. 4, 1980.
14 Ver GAUCHET, Marcel. Le changement de paradigmes en sciences sociales? Le
Débat, n. 50, 1988.
15 Ver igualmente, RËMOND, René (Dir.). Pour une histoire politique. Paris: Seuil, 1988.
16 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Lês Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 90, 91, 1995.
17 Ibid., p. 92.
18 Ver RICOEUR, Paul. Histoire et vérité. Paris: Seuil, 1952. Sobre a hermenêutica, ver
Du Texte à l’action: essais d’hermenéutique. Paris: Esprit: Seuil, 1986. II.
19 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 17.

185
Capítulo 7

20 Ibid., p. 95.
21 Em 1994, o comitê de direção da revista integra Laurent Thévenot e André Orléan.
Jean-Yves Grenier é nomeado secretário da redação e Bernard Lepetit reassume o
comitê de direção. (DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du
“tournant critique”. Espaces Temps (Lês Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au
risqué des historiens, n. 59/60/61, p. 99, 1995.)
22 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Les Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 98, 1995. Ver BOLTANSKI, L.; THËVENOT, L. De la justification: Les
économies de la grandeur. Paris: Gallimard, 1991.
23 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 3.
24 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Les Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 99, 1995.
25 A abordagem construtivista parte da idéia de uma edificação permanente do mundo
pelos indivíduos através de suas ações e reações recíprocas, através de suas represen-
tações que orientam suas condutas e suas ações. No entanto, “o construtivismo epis-
temológico não deve ser confundido com as modalidades simbólicas de existência
dos objetos da pesquisa histórica (nível ontológico)”(DELACROIX, Christian. La
falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”. Espaces Temps (Les Cahiers), “Le
temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens, n. 59/60/61, p. 93, 1995).
26 Ver NOIRIEL, Gerard. L’historien et l’objectivité. Sciences Humaines – L’histoire
aujourd’hui, n. 18, sept./oct. 1997.
27 Ver CHARTIER, Roger. Le temps de doute. Le Monde, 18 mars 1993; NORA, Pierre
(Dir.). Les lieux de la mémoire. Paris: Gallimard, 1993. t. III; VIDAL-NAQUET, P. Les
assassins de la mémoire. Paris: La Découverte, 1991.
28 DELACROIX, Christian. La falaise et le rivage. Histoire du “tournant critique”.
Espaces Temps (Les Cahiers), “Le temps réfléchi”. L’histoire au risqué des historiens,
n. 59/60/61, p. 107, 1995.
29 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 2.
30 DUHEM, P. La théorie physique, son objet, sa structure. Paris: Vrin, 1981.
31 LATOUR, B. Irréductions. In: Les microbes, guerre et paix. Paris: Métailié, 1984.
32 KOSELLECK, R. Le futur passé. Paris: EHESS, 1990. (trad.)
33 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 13.
34 Ibid., p. 14.
35 Ibid.
36 RICOEUR, Paul. Temps et récit. Paris: Seuil, 1985. t. 3. Apud DOSSE, François. Le dou-
ble tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes historiques et les sciences
socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR em 17 de abril de 2001, p. 14.

186
Capítulo 7

37 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes


historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 16.
38 Ibid., p. 14.
39 DUBY, G. Le dimanche de Bouvines. Paris: Gallimard, 1975.
40 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 11.
41 NOIRIEL, G. Le creuset français, l’histoire de l’immigration XIX, XX siècle. Paris:
Seuil, 1988.
42 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 17.
43 Ver NORA, Pierre (Dir.). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984-1993. 6 v.
44 Ver RODRIGUES DA SILVA, H. A história como “a representação do passado” – a
nova abordagem da historiografia francesa. In: CARDOSO, Ciro F.; MALERBA,
Jurandir (Org.). Representações: contribuição a um debate transdisciplinar.
Campinas: Papirus, 2000.
45 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 21.
46 Ibid.
47 Ibid.
48 NORA, Pierre. Les lieux de la mémoire. Paris: Gallimard, 1993. t. III, v. I, p. 24.
49 DOSSE, François. Le double tournant hermenéutique et pragmatique dans les etudes
historiques et les sciences socials en France. Texto da Conferência proferida na UFPR
em 17 de abril de 2001, p. 23.
50 Ver RODRIGUES DA SILVA, H. Rememorações/comemorações – as utilizações
sociais da memória. Revista Brasileira de História, n. 44, dez. 2002.
51 Paris: Seuil, 2000.
52 Ver POLLACK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, Rio de
Janeiro, 1989/3.
53 FREUD, Sigmund. Souvenir, répétition, perlaboration” (1914). In: ______. De la
technique psychanalytique. Paris: PUF, 1953; Deuil et mélancolie (1917). In: FREUD,
Sigmund. Métapsychologie. Paris: Gallimard, 1952.
54 RICOEUR, Paul. Entre mémoire et histoire. Projet, n. 248, p. 13, 1996.
55 Ibid., p. 10.
56 TODOROV, Tzvetan. Les abus de la mémoire. Paris: Arléa, 1995. p. 14.
57 RICOEUR, Paul. Entre mémoire et histoire. Projet, n. 248, p. 12, 1996.
58 Ver RODRIGUES DA SILVA, H. A história como “a representação do passado” – a
nova abordagem da historiografia francesa. In: CARDOSO, Ciro F.; MALERBA,
Jurandir (Org.). Representações: contribuição a um debate transdisciplinar.
Campinas: Papirus, 2000. p. 88, 89, 90.

187
Capítulo 7

59 NOIRIEL, Gerard. L’historien et l’objectivité. Sciences Humaines – L’histoire


aujourd’hui, n. 19, 20, sept./oct. 1997.
60 Ibid., p. 18.
61 DOSSE, F. L’histoire. Paris: Armand Colin, 2000. p. 198.

188
Capítulo 8

HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA
CONTEMPORÂNEA
Francisco J. C. Falcon*
Marcus Alexandre Motta **
com a colaboração da Prof.ª Ms. Ana Luiza Marques***

APRESENTAÇÃO
Este capítulo sobre historiografia contemporânea portuguesa não teria
sido possível sem a decisiva parceria de Marcus Alexandre Motta e a colabora-
ção de Ana Luiza Marques. Encarrega-se o primeiro da elaboração de peque-
nas análises baseadas em obra ou texto expressivo de cada um dos historiado-
res por nós selecionados; coube à segunda sintetizar a contribuição de Antônio
Sérgio no âmbito da vida intelectual lusa, até os meados do século 20; bem
como apresentar, de forma distinta, em grandes traços, a historiografia ante-
rior a 1974.
Tomamos como ponto de inflexão a Revolução dos Cravos, pois aí
situamos os começos da historiografia contemporânea portuguesa. Nossas
limitações, muitas, sem dúvida, a começar pelos limites materiais estabelecidos
pelos editores, impuseram escolhas bastante difíceis que não nos permitem
fazer justiça a todos aqueles historiadores que têm contribuído de modo sig-
nificativo, nas últimas décadas, para os grandes avanços da produção historio-
gráfica em Portugal. Nossas mais sinceras desculpas.
Na organização do capítulo, optamos por distribuir os assuntos da
seguinte forma: I– António Sérgio; II – A historiografia anterior a 1974; III– A
historiografia contemporânea.

189
Capítulo 8

I. ANTÔNIO SÉRGIO E A HISTÓRIA


CULTURAL EM PORTUGAL
Prof.ª Ms. Ana Luiza Marques

Antônio Sérgio de Sousa (1883-1969), filho de duas gerações de admi-


nistradores coloniais, teve formação técnica na Escola Naval. Apesar da carrei-
ra promissora, demite-se da Marinha em 1912. A partir de então, passa a admi-
nistrar a tipografia do sogro. Completa seu sustento com traduções, aulas e
adaptações de clássicos da literatura européia para roteiros de cinema.
Simultaneamente, publica seus ensaios e contribui em obras coletivas como
revistas e enciclopédias.
Participa ativamente da vida política portuguesa. Já nos primeiros
anos de República em Portugal, desentende-se com os governistas devido à
sua concepção de democracia e liberalismo econômico. Posteriormente, a dis-
cordância aumentará e Antônio Sérgio será preso e exilado por duas vezes.
Antes e durante os períodos de exílio político, com Jaime Cortesão, Raul
Proença e outros, contribui na Renascença Portuguesa e no Grupo da
Biblioteca Nacional. Interessa-lhe a finalidade da Renascença: “restituir
Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios; e promover em
todo o país [...] uma profunda ação cultural, junto de todas as camadas
sociais”.1 Nessa época, também escreve na revista Lusitânia e funda a Pela Grei,
precursora da Seara Nova. Além do que, tem seu nome cogitado (e não acei-
to) para a cadeira de pedagogia da Universidade de Lisboa; consoante desa-
venças e queixas, administra a pasta de Instrução Pública por dois meses no
final de 1923; e, no exílio na Espanha, leciona história e literatura portugue-
sa na Universidade de Santiago de Compostela.
A influência de Antônio Sérgio na historiografia portuguesa acontece
através de obras dedicadas à cultura em Portugal. Como salienta Vitorino
Magalhães Godinho,2 suas hipóteses sobre a história de Portugal não contri-
buem em termos documentais ou factuais, mas pela exigência de uma história
desmistificadora de fatos, “a resolver os problemas fora de carris obsoletos”.3
Destaca-se aqui a Introdução histórica4 escrita para o Guia de Portugal organi-
zado na Biblioteca Nacional de Lisboa. O que vem a ser a edição espanhola
História de Portugal, em 1929, e, posteriormente, a Breve Interpretação da
História de Portugal5. Onde se lê que os “Descobrimentos” é a “obra que nos
caracteriza a nós, Portugueses, como um povo realmente histórico”.6

190
Capítulo 8

Na condição de “pedagogista”, quer restituir os portugueses a seus “valo-


res espirituais próprios” por alinhamento à tradição dos “dias do
Quinhentismo”. Século em que “Portugal acompanha galhardamente o melhor
espírito europeu”.7 Importa, contudo, menos o fato que seu legado. De modo tal
que a consciência do feito vai se converter em ter antes na consciência a cultu-
ra dos Descobrimentos. Nas primeiras décadas do século 20, muitos historiado-
res se dedicaram ao estudo das navegações e dos Descobrimentos portugueses,
a singularidade da obra de Antônio Sérgio está em sua adequação ao que reco-
nhece ser a cultura em Portugal a partir do quinhentismo. O que pode ser nota-
do tanto nos livros dedicados à história de Portugal, quanto na obra Ensaios.
Antônio Sérgio reconhece no legado do quinhentismo uma tradição de
cultura que denomina “espírito crítico” ou crítica. Mediante a ânsia de adequar
sua obra a tal cultura, escreve ensaios ou a crítica de fatos passados e presentes.
Especula-se, a partir disso, que a crítica de fatos preconiza a escrita da história
por evocação da reforma como outra vanguarda em Portugal. Os atos políticos,
quer voltados para a sociedade, quer para a economia, constrangem a História.
Isso porque, se “quinhentismo” e “espírito crítico” coincidem naquilo que fez dos
portugueses “um povo realmente histórico”, a própria idéia de vanguarda passa a
ditar futuro e passado. A idéia de vanguarda em Portugal vai, enfim, habilitar a
escrita da história a se inteirar da tradição de cultura na atualidade.
Os Ensaios e a história de Portugal se afeiçoam à condição histórica desse
povo, que, como tal, não consegue abandonar a cultura palpável em obras e
ações. Tal qual Camões sentencia o declínio da empresa marítima na epopéia,
os estudos sociais e históricos, dedicados à divulgação da reforma social e polí-
tica, julgam as ações presentes. Ocorre que nenhum dos estudos tem por meio
senão a educação do povo em sua condição histórica. O reconhecimento da
cultura legada dos Descobrimentos não implica resistência, mas, sim, adequa-
ção. Deslocada de sua posição adversa e resistente, a cultura em Portugal trans-
forma-se em coisa crítica, ou melhor, a constante crítica das coisas.
A historiografia ensaísta ou crítica adotada por Antônio Sérgio pratica
a luta e o empenho político por mudanças no mundo. A intensidade política
dessa historiografia pode ser melhor sentida na própria forma de escrita que
escolhe: o ensaio. O que se define ora por forma literária que flerta com as
demais formas, ora por crítica. Sendo ainda prova ou teste na engenharia, mas
também a dinâmica de preparação da peça teatral. Talvez se opte por uma
escrita de tão difícil definição porque mais importa sua aptidão para o objeto,
ou seja, a cultura em Portugal. As obras historiográficas ensaístas retiram sua

191
Capítulo 8

plausibilidade e motivação da cultura que se identificam. Por um lado, a neces-


sidade de reforma se prova na idéia da vanguarda que habilita a escrita da his-
tória para a cultura; por outro, essa idéia só acontece como busca e descober-
ta. Fechada em si, por história e por futuro, a cultura critica e ensaia exausti-
vamente esta peça prometida: a vanguarda do mundo em Portugal.

II. HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA PRÉ-1974


SOB A TUTELA DO REAL GABINETE
PORTUGUÊS DE LEITURA
Estou a ferir a memória. Sim, agora não deixo mais de fazê-lo. Aqueles
livros devem estar ainda naquela Biblioteca; no suave tédio das estantes. Livros
portugueses, cujos autores viveram sob ameaça da sombria ignorância do
Estado Novo. Nunca passei por eles no conforto das prateleiras; tive-os nas
mãos e os estudei. Era apenas um graduando, sem recursos, cheio de desejo de
compreender essa intricada interdependência, hoje esquecida, entre os dois
lados do Atlântico.
Na presença daqueles ouvintes silenciosos, a leitura os aceitava como
meus. Estavam ali, sobre a mesa, a dizer mais do que diziam, pois assim os
entendia. Diziam realmente mais, porque se punham de fora, ou contra aque-
le desastre intelectual que a ditadura salazarista gabava-se – chame-o de regi-
me fascista, autoritário ou totalitário, pois, na verdade, as perdas nunca pode-
rão caber num conceito.
O Professor Falcon comenta que nas “longas tardes no Arquivo Nacional
da Torre do Tombo e no Arquivo Ultramarino, pesquisando a época pombalina,
(nos idos de 1969, na transição ao caetanismo; já numa abertura relativa, que per-
mitia a quase-vida intelectual de historiadores oposicionistas), sentia-se moder-
no a contemplar os colegas lusitanos, debruçados sobre gigantescos in-folios qui-
nhentistas, ou levantado documentos sobre as conquistas em Angola e
Moçambique – para aquela História política e militar, quando muito, institucio-
nal, dos anos 1960. Ambiente carregado, evidentemente, onde poucos espíritos
logravam produzir ou iniciar a produção de obra séria, não importando quão
polêmico fosse, eventualmente, o tipo de relacionamento com o regime em vigor.
E, naquele clima, perdiam o que era um dos elementos essenciais às novas ten-
dências da História: diálogo com outras ciências do homem” – graças a Salazar.
Ar impregnado de afã nacionalista com a Formação e Manutenção do
“Portugal Castiço”, a permitir cortes e recortes temáticos (autonomia, indepen-

192
Capítulo 8

dência, raízes pré-nacionais, desenvolvimento do comércio, despovoamento,


expansão marítima, restauração, despovoamento, decadência, pombalismo, libe-
ralismo e republicanismo) concernentes às muitas possibilidades de a História
legitimar direitos de exceção. Porém, aqui nos meus olhos, repleto de Biblioteca,
a importância dessa historiografia não alinhada à oficial mostrava-me como a
interpretação histórica (redimensionando temas, desenraizando mitos e propon-
do outros), responsabilizava-se pelo andamento das coisas do mundo. Em cada
um daqueles intelectuais, graus de resistência; estando exilado, fora ou dentro.
Em todo caso, sempre os requisitei; estavam sob a minha proteção e
entusiasmo – mesmo que soubesse que o Portugal da grei estivesse isolado das
novas correntes, e avesso às Ciências Sociais, como manda o receituário de
qualquer Ditadura. Esse processo de infinda busca, requerendo-os sempre,
criava na mente uma certa vontade de amigá-los ao meu futuro.
E nesse momento em que preciso tratar deles, historiograficamente,
sinto-os tão próximos que não me permito deixar de falar dos impactos que
provocaram. E, dessa maneira, acabo aceitando a intenção de dar, ao leitor, não
prontamente o que dizem tais livros, isso poderia afastá-los da obrigação da
leitura, mas o relacionamento que me sugere a recordação.
Sei que é inteiramente arbitrário que eu faça assim, baseando-me na
memória; essa elegante infiel. Esse processo (ou qualquer outro) é apenas um
desenho de dique contra a borrasca das lembranças pessoais. Posso até afirmar
que cada um daqueles livros, autores, confinavam-me ao caos. Sentia-me com-
promissado; refém dos pretéritos desprendidos naquelas linhas, em razão das
manchas impostas aos olhos, feitas de acaso e destino.
Quando lia António Sérgio, sentia-me adoecido de endividamentos e
repleto de vontade de me tornar um crítico e propor mudanças e pedagogia ao
meu país. O Reino Cadaveroso punha-me na mesma sensação experimentada
por alguém que tivesse perdido seus originais. Um único conhecimento daque-
les textos desordenava o catálogo das minhas idéias. Era algo adjacente, quase
possível de ver como espectros encarnados na bruta turba de roupa verde-oliva,
que faziam passear temores, perdas, crimes; evitando beijos, abraços e tudo de
mais comum e sério na vida; assim como foi naquele lado do Atlântico.
Nunca mais deixei de lê-lo. Anda ano, vem mais, e aquela ironia peda-
gógica, desprovida de sistematização, porém repleta de denúncias e criação,
parece grudada – de tal jeito, que digo coisas que parecem pertencer não a
António Sérgio, mas ao seu fantasma; irmão de diversos meus.
Assim ia, entre a ordem de aprender e a desordem de tê-los estudados.
Uma relação misteriosa se dava na leitura dos livros de Vitorino Magalhães

193
Capítulo 8

Godinho. Aquela certeza, o equilíbrio erudito e a obrigação de mundo produ-


ziam em mim anseios de história econômica; ser marxista e misturá-lo à
Escola dos Annales – pois o tinha de tal modo; representante da História Nova
em Portugal. Os quatro volumes da Economia Mundial, A economia dos desco-
brimentos henriquinos, os Ensaios e A estrutura da sociedade portuguesa apon-
tavam para a noção que tudo estava fora dos eixos; portanto, havia necessida-
de de justiça e muita história.
Muita história, tudo se tornava respondido por seus exemplos. E um
tipo de energia surgia desse excesso de leitura, aquela que, envolvida com o
tempo, permite pensar: no meio do que partiu e do que ainda não chegou,
articula-se uma responsabilidade e, após ela, se escreve História. Penhorava as
minhas idéias à exigência dessa justiça. Impaciente, intratável e incondicional
como ela, eu me tornei; nos tempos da Biblioteca, lendo Godinho.
Em livros que não diziam tais coisas, por que vim a olhá-los assim?
Talvez, por fascínio. Talvez, por estudá-los conjuntamente às minhas histo-
rietas. Talvez, por serem livros autorais; cujo maior destino é encontrá-los.
O que dizer, quando conheço nos olhos a postura elegante de Jaime
Zuzarte Cortesão, que no Brasil esteve exilado, a educar imagens com os seis
volumes de Os descobrimentos portugueses, com Alexandre de Gusmão e o
Tratado de Madri, O sentido da cultura em Portugal no século XIV, A geografia
e a economia da Restauração. Sem falar das suas preocupações em difundir
idéias e combater, que tão bem expressam as revistas Lusitânia e Seara Nova.
Nele, eu tinha o todo elogiável de uma cultura. As vastas páginas daque-
les livros confirmavam que eu poderia chagar a possuir algo; numa viagem de
leitura a afiançar um possível trajeto intelectual. Em Cortesão, recebi o direi-
to de esconderijo, traindo de alguma maneira a rigidez de impecável justiça. O
humanismo desse historiador tornava-se nítido e eu estava completamente
atrasado; sendo que nenhuma companhia soava mais amiga do que lê-lo.
Sentia-me seguro. Aquelas palavras descreviam um sentimento imemorial;
deveria acreditar nos homens.
E o mundo ia mal. Estava de estilo desgastado; mas isso nada proferia.
Entrando na Biblioteca, a velhice e juventude dos livros, ou do mundo, pouco
contava. Com evidência faltava-me medida; retinha crise e angústia. Lia ape-
nas. Duarte Leite: os Descobridores do Brasil e História dos Descobrimentos. Lia,
Luís Guilherme Mendonça Albuquerque.
Virgínia Rau desfilava o começo da minha medida por alguns anos.
Dela, a minha mente tomou aspecto: Feiras medievais portuguesas, Sesmarias

194
Capítulo 8

medievais portuguesas, Estudos sobre a história econômica do sal português,


Estudos sobre a história econômica e social do antigo regime. Tudo a balizar o
crescimento mesmo, isto é: o desdobramento de um processo pessoal.
Transformado em “português”, na tutela livre da Biblioteca, as expe-
riências de leitor encaminhavam-se; sem conversar tudo o que era necessá-
rio com aqueles livros. Pedia para descer A situação econômica no tempo de
Pombal, O bloqueio continental, Economia da guerra peninsular, e na capa
estava (está) Jorge Borges de Macedo. E tudo acontecia infinito, e deste,
nada se herda.
Como não se herda, aqueles espectros da leitura, na bela casa do Real
Gabinete, mantinham uma tortura originária – ferida de nascença. E por
mais paradoxal que pareça, nas linhas dos autores a aprendizagem, ou ins-
trução de viagem, aplicava a lição de se estar com e em algum lugar. Algo
irremediável; se chovia, quem sabe não era hora de ler aqueles sob a influên-
cia marxista: Barradas de Carvalho (era triste, não era?), António José
Saraiva e Armando Castro.
Com eles aprendi as constantes e as variáveis da teoria marxista. Num
momento, perspectiva geral da História; numa oitava acima, a situação de con-
flito histórico; no acorde, o caminho da solução no presente; e, no fecho, as
possibilidades futuras, sejam por história ou política. Tudo para constituir um
universo de sentido, que tende para uma ordem lógico-objetiva, cuja idéia
principal, mesmo escondida no íntimo da pesquisa, é despertar no seio dos
homens a consciência de liberdade – pois, o antes, é pré-história.
E porque não falar na importância do livro Discurso Engenhoso, de
António José Saraiva, que li anos depois. Peça historiográfica fundamental nos
estudos dedicados ao Padre Antônio Vieira. Muita influência causa aquele
capítulo destinado ao jesuíta. Todos dele se usam e abusam; e várias carreiras
acadêmicas se fizeram em lê-lo.
Naquele texto, as palavras, as imagens, as proporções e o texto tornam-
se fontes do discurso de Vieira. Cada um dos termos, uma mina para com-
preensão do fluxo discursivo do jesuíta. E em cada pormenor dessa leitura do
pregador luso-brasileiro, as qualidades do autor e do historiador conjugam-
se. Enfim, naquelas linhas toda nova historiografia se afirma e se descuida de
uma idéia expressa por António Saraiva: tudo é palavra e fala. Mas a fala não
conhece fronteira.
E se muito quente estava, há de ser o tempo da luz de Oscar Lopes; e sob
as nuvens de um dia morno, seria ou não o momento de olhar Jorge Dias,

195
Capítulo 8

Joaquim de Carvalho. Bem, quando o dia recebia o prêmio de ser o que é, a


memória me diz: você lia Joel Serrão e Oliveira Marques, José Sebastião da
Silva Dias. Belas, muito belas escritas. E com tais autores, findo essa tutela; pois
parece possível que meu desajuste em comentar a historiografia pré-1974 guar-
de um segredo. Idêntico àquele que, numa a-contemporaneidade, descreve a
procedência sobre os instantes não dóceis daquele momento de formação.
Depois das linhas anteriores, posso expor: muitas outras experiências
deve ter tido o Professor Falcon com esses livros e autores; mas, evidentemen-
te, a influência se fez. Pois, num cadinho de leitura, entre gerações e pátrias,
uma só coisa é passível de se pôr no lugar daquela, sem deixar de ser: o hiato –
o que ele já era capaz de entender com o coração. No belo adágio de Guimarães
Rosa, as súmulas das expectativas abrem letras, sejam elas historiografia ou não.
E se me cabe ainda falar desses três últimos historiadores (a Vitorino
Magalhães Godinho retorno depois), sem ficar sob o encanto da musa; assu-
mo a proposta do Professor Falcon de nos referir às visões gerais compostas
nas obras: Dicionário de Portugal, de Joel Serrão e História de Portugal, de A.
H. de Oliveira Marques – cujo destaque é mais do que significativo para his-
toriografia luso-brasileira. Como também, a Revista de História das Idéias (v.
1, 1977) sob a tutela da inteligência de Silva Dias.
Nesse ato de me aludir à memória e denunciá-la, tomando as conversas
com o Professor Falcon num inestimável arquétipo, chego a sugerir que dei-
xássemos ao leitor três intervenções em textos por nós escolhidos. Faríamos à
maneira indicada na apresentação desse Capítulo; mas, tomando a escrita, de
cada um, na forma de visão de história, de mundo ou de implícita teoria
(aproveitando essa trindade em todo o texto). Após aceite, conversas e seleção,
conformamos a importância de Joel Serrão, Silva Dias e A. H. de Oliveira
Marques em discurso na primeira pessoa do singular, como se quiséssemos,
imaginativamente, estabelecer um diálogo, muito próximo, com o ato de
escrever história (usando essa idéia no restante do trabalho) e agravar a idéia
de herança para tarefa dos historiadores pós-25 de Abril – por muitos anos sob
a atenção daquelas admiráveis escritas.

JOEL SERRÃO – APÓLICE HISTORIOGRÁFICA


É que todo e qualquer esquema interpretativo, incluindo o que é da história,
mesmo que esta aspire às fronteiras latas da estrutura, é uma violência cometida con-
tra a realidade sempre mais vasta e mais funda, que acaba por se nos furtar.8

196
Capítulo 8

Penso em sensibilidade humanística. E quando leio a passagem, encon-


tro expresso a humanitas do autor. Antiga tradição clássica, que, de quando
em quando, consulta as idéias de um escritor para ver se este pode lhe atuali-
zar a qualidade da estatura humana. Certamente, a consulta resultou em “ins-
crição historiográfica”.
Personificado o humanismo, a escrita histórica precisa se fazer de expe-
riência arriscada no âmbito público. Tal arrojo concerne à idéia de que Serrão pri-
meiro se preocupa com o mundo e, imediatamente após, escreve História. Mas o
que isso profere sobre ele? Diz: nada há que facilite a tarefa. Nenhum abono dis-
ciplinar merece tanta atenção. Pois, tudo o que se ergue por palavras não pode
deixar de responder ante a própria humanitas (mesmo que seja através do cole-
tivo Portugueses Somos). Logo, coisa alguma faculta ao historiador sair da luz
pública, onde se testa o indivíduo e o que pensa, e buscar esquema interpretativo
para obter apostilas institucionais aceitáveis – ou seja: tratar apenas da toga.
Violência, eis o termo. Forte como ato que, suprimindo dos homens boa
dose da fortuna encerrada, na realidade, facilita anseios. Contra, eleva-se Joel
Serrão. “Antes quebrar que torcer” – cita o autor em texto, do mesmo livro, em
que distingui a família de espíritos de eleição: Sá de Miranda, Mouzinho da
Silveira, Antero de Quental e António Sérgio (bem contíguo a seu mundo).
Nada me evita filiá-lo; mas seria apenas confete inútil, anverso ao nome
e às suas inquietações intelectuais. Contudo, isso alega retorno à forma da
escrita. Joel Serrão escreve. Escrevendo, ensaia, sem abafar a competência na
pesquisa – o desejo de liberdade é consciência: pensar até ao fundo os proble-
mas que nos são postos...9
Aloquei a palavra ensaio, qual pretexto me foi cedido para obtê-la? A idéia
fixa no espírito humanístico. Qual? Aquela que narra a sentença: em qualquer
pensamento histórico está expresso o ser da política; até em coisas tidas como
insignificantes à política. De fato, ensaiar refere-se à observância de retomar
caminhos, corrigir rumos, supor confabulações íntimas sobre a humanitas –
Oliveira Martins, Raul Proença, António Sérgio, Antero de Quental, Herculano,
Eugénio de Andrade, Camilo Castela Branco e, ainda, outros.
Diálogos culturais e História Política, criar espaços é autoria. Estando
ali, há a relação homem moderno e tradição, numa justaposição temporal, em
que a proximidade e a distância não mais dependem dos séculos que os sepa-
ram, mas, exclusivamente, do ponto livre a escolher. Seleto, a inteligência
chama a compreensão. Vindo, necessita assumir constância, sem apelação
catedrática possível. Chegando, ganha fiança humanística.

197
Capítulo 8

Mas o que se pode entender disso, pensando em Joel Serrão? A figura


impressa na sua escrita. Qual? A que conta a seguinte história: alguns homens
habitados de humanitas trazem um sonho que os excede. Ouvindo o relato, a
prosa metamorfoseia-se em arte e, às suas expensas, o combate historiográfico
exibe a verdade.

Alguns escritos do autor:

Temas Oitocentistas – I. Lisboa: Ática, 1959; Temas Oitocentistas – II.


Lisboa: Portugália, 1962; Temas de Cultura Portuguesa. Lisboa: Ática, 1960; Da
“Regeneração” à República. Lisboa: Livros Horizonte, 1990; O caráter social da
revolução de 1383. Lisboa: Horizonte, 1976; Do sebastianismo ao socialismo
em Portugal. Lisboa: Horizontes, 1983. Antologia do pensamento político por-
tuguês. Lisboa: Horizonte, 1980; Introdução à indústria portuguesa, do antigo
regime ao capitalismo. Lisboa: Horizonte, 1978.

A. H. DE OLIVEIRA MARQUES – BÊNÇÃO DO PERIFÉRICO


A história dos animais domésticos na sua relação com o homem – como a histó-
ria dos animais – é um tema relativamente novo nos estudos do cotidiano. Com a sua
integração na historiografia abre-se mais um campo nesse grande desdobrar de temas
que a tem caracterizado nos últimos cem anos (...) Fazer história animal equivale,
assim, a entrar num vasto somatório de histórias onde o já conhecido, o mal conhe-
cido e o totalmente desconhecido se interpenetram num entrechocar constante.10

Ao ler este fragmento da Comunicação de Oliveira Marques


(Congresso Internacional de Vida Cotidiana; Lisboa, abril 1993), percebo a
aceitação, sem reserva, da face historiográfica que assume a curiosidade do
público letrado como parâmetro. A história do cotidiano evidencia que a
estandardização da consciência gerou a sua subjetiva estética. E como ela é
adequação à alusão aos anseios por informações singulares, ativa o imperati-
vo dos antepassados – como se fossem as vidas pretéritas elementos de expo-
sição num zôo interativo.
Por mais paradoxal que pareça, tal perspectiva, com muitos trabalhos
produzidos e respeitabilidade inquestionável do autor, demonstra zelo histo-
riográfico. O fato é: sua atenção ao grande desdobrar de temas no conhecimen-
to histórico demonstra uma sensibilidade contemporânea pouco comum à
tradição portuguesa.

198
Capítulo 8

Ao falar do entrechoque entre o já conhecido, o mal conhecido e o total-


mente desconhecido, Oliveira Marques chama, para si, o pressuposto retórico
da absoluta aspiração que a curiosidade – como axioma da cultura de massa –
carrega. E, quando o faz, oferece fuga ao cotidiano das classes letradas através
do coloquial curioso que o periférico alcança; pois a diversão intelectualizada
favorece a resignação ou a ironia.
O tipo de agenciamento que o autor promulga revela tanto a inaudível
condição de perigo impresso na importância desse tipo de estudo, quanto
caracteriza o comum desdobrar temático da produção histórica. E como se ele
avivasse a idéia de que novas incorporações de assuntos na historiografia não
é algo tão distinto assim, marca os últimos cem anos da disciplina, e, portanto,
funda-se num interesse atual que deve aprender de novo a descobrir o passado e
fazer, muitas vezes, tábua rasa dos processos que sempre utilizamos.
Finalizando, não posso deixar incólume a advertência. Uma história ani-
mal encontraria a versão do mundo sem conceito, em que nenhuma palavra pode
identificar o fluxo dos fenômenos, em que nada permanece e, no entanto, tudo é
idêntico – como os adágios que o autor seleciona –; e isto não teria nada de simi-
lar com a apreensão genérica da História. Se assim poderia ser, a postura sensível
ao contemporâneo de Oliveira Marques, credita inquietações a individual consa-
gração de historiador, tornando-o, então, sismógrafo da historiografia portugue-
sa pós-1974, sem perder de vista o interesse que o mundo, tanto o doméstico quan-
to o selvagem, está a despertar nas preocupações de toda uma sociedade.

Alguns escritos do autor:

A nobreza nos séculos 14 e 15. Beira Alta, Viseu, v. 44, n. 2, p. 247-275,


1985; O povo nos séculos 11 e 15: contribuições para o seu estudo estrutural.
Separata de: Jornadas de Histórias Medieval, Lisboa, 1985; Las ciudades portu-
guesas en los siglos XIV. Separata de: Estudios de Historia y de Arqueologia
Peninsulares, Cadiz, 7-8, p. 77-102, 1987-1988; O clero nos séculos 11 e 15:
alguns aspectos. Separata de: Jornadas sobre Portugal Medieval, Leiria, 1983
[Actas], Leiria: Câmara Municipal, 1987; Portugal quinhentista: ensaios.
Lisboa: Quetzal, 1987. Introdução à história da agricultura em Portugal. Lisboa:
Cosmos, 1968. A unidade na oposição à ditadura, 1928-1931. Lisboa: Europa-
América, 1976; A primeira legislatura do Estado Novo – 1935-1938. Lisboa:
Europa-América, 1978; História da 1ª. República portuguesa. As estruturas de
base. Lisboa: Iniciativas Editoriais, [1978]; A Primeira República portuguesa.

199
Capítulo 8

Alguns aspectos estruturais. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1980; Guia de his-
tória da 1ª. República portuguesa. Lisboa: Estampa, 1981; Ensaios de história da
1ª. República portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte, 1988; História da maçonaria
em Portugal. Lisboa: Presença, 1990; Portugal. Da Monarquia para a República.
Lisboa: Presença, 1991.

J. S. DA SILVA DIAS – ADÁGIOS DE ABERTURA


Como explicar o desfazamento entre ponto de partida global da cultura portuguesa
no século XVI e o seu ponto de chegada global no século XVII? Como explicar as costas
voltadas da inteligência pátria à inquietação e aos conteúdos da filosofia e da ciência na
Europa durante esta época?11

Da ação comodata entre as perguntas, uma historiografia se fez. Num


lance de harmonia, Silva Dias assume interrogações que não podem ser alcança-
das, facilmente, pela realidade investigada, sem lhe impor graus correspondes de
compreensão. Uma reciprocidade perfeita entre aquelas indagações e o campo
histórico deixaria de conter a tensão reservada à problemática cultural.
E, nesse andamento, o trabalho de pesquisa sugestiona, sem ali estar, a
“estrutura da dúvida” intelectual. Na natureza deste arcabouço, o pensamento
se faz de único conceito basilar da investigação histórica. É como se dissesse
aos muitos historiadores formados sob a tutela de sua inteligência: entrem no
cerne dos eventos e divisem, questionando, os adágios dos agentes históricos;
assim procedendo, repensem em seu espírito aquelas idéias, o que acarretará a
apreensão da situação cultural em que os atores se achavam e a maneira como
a enfrentavam.
Nesse sentido, a escrita assume a perspectiva de configurar o espaço cul-
tural como problemática. E esta isola a cena histórica como assunto de estudo.
Assim, escrever é arcar com os temas como se fossem, eles, algo próximo à
emoção do escritor. Por mais que Silva Dias consiga eliminar o lado pessoal no
discurso, a seleção e a abordagem não deixam de se integrar à mais íntima bio-
grafia intelectual.
A personalidade do historiador, portanto, parece manter contíguo o
modo da problemática que trata. Isso quer dizer: Silva Dias identifica-se à
matéria de estudo, apresentando o compromisso do escritor com o leitor e, ao
mesmo tempo, revelando o pacto entre ele e seus temas problematizados. Assim
sendo, o autor passa ocupar o ponto de cruzamento entre a realidade histórica
que privilegia e a comunicação dos problemas eleitos para compreendê-la.

200
Capítulo 8

Com evidências, o profissionalismo de Silva Dias pôde fazer, e fez, mais


do que aqui expus. O regular intercâmbio entre suas preocupações e a cultura
que o envolvia, intervinha amiúde na seriedade dos compromissos assumidos.
A verdade desse fato é que ao definir critérios para uma História da Cultura –
na forma lata de História e Teoria das Idéias – trouxe à luz pública a objetivi-
dade de estudos que não se conferem, meramente, em laudatórios nacionais e,
tampouco, em consignações de dados; mas, comprometem-se na inteligência
explicativa capaz de compreender que escrever história é assumir problemas.
Eis a herança historiográfica.

Alguns escritos do autor:

Portugal e a cultura européia – séculos XVI a XVIII. Coimbra: [s.n.],


1981; Os descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Lisboa:
Presença, 1982. Os primórdios da maçonaria em Portugal. Lisboa: INIC, 1980.
4 v. O vintismo: realidades e estrangulamentos políticos. Análise Social, Lisboa,
v. 16, n. 61-62, p. 273-278, 1980; A Revolução Liberal portuguesa: amálgama e
não substituição de classes. In: Colóquio O Liberalismo na Península Ibérica na
primeira metade do século XIX, Lisboa, 1981. Comunicações. Lisboa: Sá da
Costa, 1982. v. I, p. 21-25.

III. HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA PÓS-197412

SOB TUTELA, SÓ A LIBERDADE.


Naquele dia – 25 de abril de 1974 – alguns intelectuais saíram de seus
“esconderijos” já cansados. Sabiam que o acontecimento havia tangenciado
a verdade histórica, passando ao lado, para, logo depois, preencher o vazio
com associações. Prudentemente, reconheciam estar em vias de adquirir
verdadeiro nome, como se fossem nascidos em data santa. Esqueciam,
porém, que, ao contraírem escrita farmacêutica para as necessidades, após
aquele momento oportuno, a paga instantânea era a apreensão genérica da
disciplina História.
Assim, mesmo não existindo coesão de posturas teórico-metodológicas
entre eles, havia pelo menos a unidade e a identidade da palavra História. Pode-

201
Capítulo 8

se até observar que as palavras postas em escrita eram tomadas num uso exten-
sivo; quer dizer, funcionavam através de um comum historiográfico que, poden-
do agora importar termos, abordagens, problemas e objetos, assegurava (contra
as próprias urgências de importação e contato) a unificação do conjunto que
elas subsumiam. E como cada historiador conta com balizas para estabelecer cri-
térios de ofício, cada um daqueles intelectuais escreveu o seu ponto de vista
sedentário, pois o nomadismo inerente à “revolução” duraria quadra festiva.
Disse-os cansados; e o que isto insinua? A maneira de dar conta da his-
toriografia portuguesa hoje.13 Algo como uma teoria do relato historiográfico
entre antecena das novidades e o plano de fundo formado pelo nome próprio
História; conforme se dê o detalhe estilístico da escrita de cada um. Para tanto,
escolho historiadores e, com eles, dialogo. Ao fazer, incomodo-os lendo-os. E,
ao lê-los, tomo suas passagens e, com elas, abro conversas, tentando pensar,
sem esclarecer, porque venceu a apreensão genérica da disciplina, após aquele
dia 25 de abril de 1974, sem ser desafiada.

A TEMÁTICA DA HISTÓRIA PÓS-MODERNA


Bem, as conseqüências já se conhecem quando se batiza algo de pós-
moderno. Mesmo assim, denominar o opositor, já muito pouco traz de impor-
tância. Entre um moderno e um outro após, a escrita da história oscila entre
uma pergunta e uma exclamação: isto é história? E, história é isto! Se o primei-
ro responde ou grita, estará sempre se referindo a um conceito determinado e
representativo, pousado como está sobre a noção de realismo (cujas fundações
não podem ser negadas; lá no século 19), condicionando o ofício a uma ques-
tão de convicção: faço história. Se o segundo rebate ou brava, traz à baila a
noção de que o conceito de história não prima por de identidade real possível,
pois, para este, não há como estabelecer critérios de certeza, tangibilidade e
exatidão; restando apenas criatividade narrativa, sem posse de expor, com
isenção, o que faz. Se o primeiro vai aos seus, supõe que a modernidade é um
projeto inacabado; o que o obriga a olhar para o passado e dizer: entendo-o.
Se segundo ironiza aquela postura, é porque vê o sistema de crenças, que sus-
tentou a modernidade, abalado e fala: penso-o.
Se o primeiro quase sempre prefere a exclamação à pergunta, é porque
a convicção corresponde a um ato de fé; escondendo o que professa nas cerca-
nias da deusa Ciência. Se, continuamente, o segundo, elege a pergunta às cus-
tas da exclamação, é porque, faltando convicção, resta-lhe uma postura filosó-

202
Capítulo 8

fica cínica, ou niilista, ou ainda, paralisia mental. De qualquer jeito, tudo se dá


entre a ética do primeiro e a intelectualidade do segundo. Logo, se é entre ética
e intelectualidade, uma prática comunicativa e um entendimento teórico “não
comunicativo”; fica em aberto o que por “natureza contemporânea” não pode
ser lacrado, nem pelo primeiro e nem pelo segundo.
O acima dito me permite fornecer a dois historiadores de fundamen-
tal importância na historiografia portuguesa contemporânea, José Mattoso e
António Manuel Hespanha, leituras de insuficiente acidez. Não darei a
medida, ela é óbvia. Apenas deixo o leitor sob a influência do texto anterior
e que, aquele, possa dimensionar as linhas abaixo. Se faço isso, é em respeito
e admiração a ambos; porém, cabe a crítica, num tom de apreciação e ine-
rência, motivar a imaginação, para que esta, olhando um pequeno fragmen-
to de textos dos historiadores em destaque, seja rigorosa – não no sentido de
denúncia ou aplauso; mas, no sentido de interromper a objetivação desses
discursos historiográficos.

JOSÉ MATTOSO – ENCARNAÇÃO DO LOGOS


A história escrita resulta, obviamente, da intensidade da descoberta. Por isso
insisto tanto no caráter triplamente emotivo e estético as experiências que tento
descrever. É-o desde a observação atenta e apaixonada do real até à produção emo-
cionada do texto, passando pela intensidade do cântico interior. Daí que o historia-
dor, se o é de verdade, não possa deixar de escrever, como o poeta de compor os seus
poemas, como o músico de criar as suas sinfonias, como o namorado de falar de sua
amada, como o místico de rezar e cantar. E, ao comparar, a história escrita com estas
diversas espécies de textos nascidos de uma experiência com um denominador
comum, a percepção poética, pretendo, evidentemente, insistir mais no caráter
artístico do texto histórico, do que no seu teor científico. Mas uma coisa não exclui
a outra, como tentei dizer a pouco, ao falar de representação mental. O que impor-
ta, aqui, é sublinhar que o texto histórico terá de ser rigoroso, objetivo, bem funda-
mentado, mas também claro, comunicativo, sugestivo, ou mesmo, no limite, funda-
dor de harmonia, construtor de evidências que seriam como que a expressão do
reconhecimento da ordem cósmica, ou, mais ainda, da potência criadora do Logos.
Por isso digo que a escrita da história é do domínio da arte, quer ela se considere
como uma techné, no sentido de um saber afeiçoar a matéria, que se considere
como uma espécie de dom carismático.14

Nas frases equilibradas do autor, a promoverem uma harmonia só pos-


sível por exclusão, o lirismo abarca tudo de cima. Ficar acima da existência,
agenciado por um caso de amor contemplativo, é simplesmente não vê-la e

203
Capítulo 8

apenas etiquetá-la. Ao tratar do mais delicado no pensamento, rejeitando por


ofício profissional a filosofia da história que promulga, como se aquilo que
escreve nada contivesse dela, Mattoso abonando-se no seu ato de fé.
O particularismo da cultura portuguesa reencontra o decalque lírico da
prece reflexiva, pois é do lirismo da oração revelar e objetivar palavras de
forma a sobreviver às vicissitudes da história nacional. O mundo das circuns-
tâncias é o reino da alma de um deus cantor – para usar uma expressão de
Santo Agostinho. Ou seja, Mattoso as apreende conforme a pronúncia que
individualiza o enunciador reflexivo e, por mais variadas que sejam as relações
que se estabeleçam na escrita, marcando a fronteira entre a interioridade do
autor e os “mundos sonoros na história”, o tema principal não deixa de ser o
movimento adequado aos sentimentos e meditações.
Mas como sua escrita não consegue sedimentar as escolhas que perpe-
tra (só o poderia fazer se o eu autoral se esquecesse na linguagem, evitando
convertê-la em abracadabra de símbolos), o que acontece é tematização fervo-
rosa da relação eu e sociedade – seja em que temporalidade estiver, segundo o
paladar da sociedade lusa por gestos de certa memória requerida. Seguir este
paladar é manter urgências de identidade, afirmada tanto no livro Identificação
de um País (Estampa, 1988) quanto na História de Portugal, sob a sua direção,
publicada a partir de 1992, em oito volumes.
Tal evidência traz ao palco os traços modais do seu formismo; em cer-
tos textos até comunga a integração orgânica. O medievalista parece ter em
mira a identificação dos tipos ímpares que habitam o campo histórico. Suas
explicações são estabelecimentos da unicidade de objetos particulares de um
certo anfiteatro histórico ou fenômenos que possam ser integrados por uma
descrição das multiplicidades cênicas. É como se ele fosse o alto-falante dos
leitores, tornando os objetos da percepção mais auditivos à mente, numa ten-
tativa de palingenesia, cuja “frotagem” da escrita absorve a qualidade sonora,
ricamente, variada.

Alguns escritos do autor:

Identificação de um País: ensaio sobre as origens de Portugal. Lisboa:


Estampa, 1985. 2 v. Fragmentos de uma composição medieval. Lisboa: Estampa,
1987; A nobreza medieval portuguesa – a família e o poder. Lisboa: Estampa,
1981; Ricos-homens, Infanções e Cavaleiros – a nobreza medieval portuguesa.

204
Capítulo 8

Lisboa: Guimarães, 1985; Religião e cultura na Idade Média Portuguesa,


Lisboa: Imprensa Nacional, 1985; O essencial sobre a formação da nacionalida-
de. Lisboa: Imprensa Nacional, 1985; O essencial sobre a cultura medieval por-
tuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1985; O essencial sobre os provérbios
medievais portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional, 1986.

ANTÓNIO MANUEL HESPANHA – CARGA SEMÂNTICA


A esta luz (dados empíricos), resulta-me mais do que problemático que um
volume sobre a Idade Média portuguesa possa terminar com a seguinte frase con-
clusiva: “em 1484 há território, passado, nação e pátria, tufo fortemente com-senti-
do e condensado em Portugal e Portugueses. Construí-se o Estado – parturição
muito lenta. Em 1484, o Regnum de D. Dinis é um Estado Moderno, organizativa-
mente complexo e seguramente centralizado {...} É um estado-povo-cultura às por-
tas de ser império e cantar-se em epopéia. Lusiadamente”.
A menos que “Estado” não tenha significado nenhum e se desconheça a carga
semântica que no conceito foi depositado por quase 200 anos de teoria política.15

A natureza da crítica é índice dos cuidados de uma mente atenta.


Hespanha receia a perda dos “bons modos” de se saber do que se fala. Talvez, tal
preocupação esteja fadada a ser desprestigiada por rotinas acadêmicas que legi-
timam antes de qualquer prova de competência – bastante regular hoje em dia.
Bem, mas o que aqui cabe não trata de tocar nesses assuntos. Embora a
seriedade de Hespanha os aponte. Se de algum jeito as aponta, o que isso pode
nos auxiliar para pensar a sua escrita da História Política de largo espectro? E,
ao mesmo tempo, de que maneira ela requer a identificação historiográfica em
outros textos de autoria?
A primeira coisa que vem à mente é ser a escrita de Hespanha um tipo
de comunicação simétrica aos conceitos propostos. Algo funcional à medida
de um contexto que lhes dá sentido e os recupera da simples utilização. Isso
quer dizer: escrever é pôr pensamento no discurso, de forma a dar peso semân-
tico aos conceitos. Logo, estes não são projeções indelicadas de recém-chega-
dos, desavisados da frouxa historicidade que lhes deu a conta, numa alarman-
te afinidade com o positivismo, mesmo que estejam felizes.
Hespanha se preocupa com a frouxidão discursiva, que a moda histo-
riográfica traz e se instala protegida da crítica. Sua escrita alerta sobre a distân-
cia necessária entre o pensamento e a realidade; pois ela é senão aquilo que a
História depositou nos conceitos.

205
Capítulo 8

Se as preocupações do autor vinculam-se ao estudo do aparato institu-


cionalizante do poder, sua produção historiográfica impede, para ter ares con-
temporâneos, a eliminação completa das categorias de validade, sentido e
valor – não só no plano metafórico, como também no empírico. A escrita da
história de Hespanha noticia, portanto, participar da contemporaneidade;
porém, reserva à filosofia da consciência o papel principal; o que significa
“clássica historiografia”.
Caso isso tenha lastro, na medida em que um certo grau de combate ao
historicismo lhe seja bastante particular, a forma da escrita do autor, tão con-
trária ao que pessoalmente posso pressupor como escrita, expressa a oposição
radical aos afagos provenientes do uso descuidado de conceitos. A verdade
dessa identificação historiográfica é um ensinamento que precede qualquer
disputa no ato conceber a escrita da História; ou seja: antes a consistência teó-
rica que me nega abadia, impondo diferenças absolutas, do que fazer parte de
algo que nem a idéia de espírito distraído é capaz de sobrepujar à escalada dos
juniores – tenham a idade que tiverem.

Alguns escritos do autor:

História das instituições: épocas medieval e moderna. Coimbra:


Almedina, 1982. Centro e periferia no sistema político português no Antigo
Regime. Ler História, Lisboa, 8, p. 35-60, 1986; Poder e instituições no Antigo
Regime: guia de estudo. Lisboa: Cosmos, 1992; Às vésperas do Leviathan: insti-
tuições e poder político: Portugal, século XVII. Coimbra: Almedina, 1994.
Justiça e administração nos finais do Antigo Regime. In: Hispania: entre dere-
chos propios y derechos nacionales. Milano: Giuffrè, 1989; A nobreza nos tra-
tados jurídicos dos sécs. XVI a XVIII. Penélope, Lisboa, 12, p. 24-42, 1993; Às
vésperas do Leviathan: instituições e poder político: Portugal século XVII.
Coimbra: Almedina, 1994 (Ed. espanhola. Madrid: Taurus, 1989).

Se fica em aberto o que por “natureza contemporânea” não pode ser


lacrado, poderia trazer, ao texto, dois outros autores. Penso em Armando Luís
de Carvalho Homem e Boaventura Soares Santos. Mas, de qualquer forma, o
tempo não é dos melhores e nem as páginas são suficientes. Contudo, deixo ao
leitor algumas referências aos seus escritos – a seguir.

206
Capítulo 8

Mas antes de terminar, devo consentir algumas considerações rápidas


sobre o pensamento de Boaventura Santos. A primeira coisa a se destacar é a
forma de auto-expressão ou elaboração de seu estilo; o que já é algo – digo –
uma pouco dissonante (antes fosse) à titulação de pós-moderno que se encar-
rega de ser. Ou seja: o uso que faz de seu paradigma crítico deveria diminuir
os riscos de reducionismo; entretanto, todo paradigma é, em si mesmo redu-
tivo. Logo, a qualidade, o próprio engano do autor, é a tentativa de oferecer um
protótipo para o pensamento que se quer aberto – pós-moderno poderia ser,
se não fosse assim.
A segunda é o que o autor comunica, prescrevendo uma determinação
na escrita, esquecendo-se da própria situação retórica. Esta atitude conserva,
por deslocamento, os mitos combatidos; pois, quando reduz a totalidade das
explicações anteriores a um algo a ser condenado, produz um vazio posterior,
a correção do autor, permitindo o replantio dos próprios mitos. Isto quer
dizer: caso Boaventura Santos fosse levar ao extremo a sua postura, deveria
abandonar o próprio dado Portugal e, apenas, enunciar, rapidamente, sem
capacidade de afirmação, a múltipla variedade dos localismos pós-modernos.
Por fim, a evidência de que o autor promulga um combate, cujas feri-
das são de todos os portugueses, permite-me argumentar sobre os precurso-
res, amados e temidos, de Boaventura Santos; pois estes se tornam o ato final
e definitivo da própria anterioridade da sua escrita. Isto é: a simbologia socio-
lógica do autor, cujo movimento crítico vai da desagradável sensação de carên-
cia do significado perdido à consciência ainda mais aflitiva da perda, demons-
tra, ainda, que o eu português reitera muito a representação do que é da parte
de um todo mutilado e epifânico.
De qualquer forma, a presença desse autor, como também, a de
António Manuel Hespanha e Armando Luís de Carvalho Homem, e de certo
modo José Mattoso, produz um desconforto nas escolas historiográficas de
matriz conservadora e positivista em Portugal. A crise do paradigma domi-
nante, a “bendita crise da história”, veio a permitir o surgimento de novas
abordagens ou tendências: seja a nova história econômica (Jaime Reis e Jorge
Borges de Macedo); seja o regresso à (nova) narrativa; seja àquela denomina-
da, sem qualquer sustento conceitual ou poético, de história pós-moderna –
até porque a apreensão genérica da disciplina não foi colocada em risco;
mesmo os historiadores considerados mais contemporâneos, na abordagem e
tendência, optam por escrevê-la à maneira sedentária, ousando pouco no
nomadismo que a Revolução dos Cravos poderia ter sugerido.

207
Capítulo 8

Alguns escritos dos autores:

Boaventura Soares Santos

Um discurso sobre as ciências. Porto: Afrontamento, 1988; Introdução a


uma ciência pós-moderna. Porto: Afrontamento, 1989; Estado e sociedade em
Portugal. Porto: Afrontamento, 1990; Pela mão de Alice: o social e o político.
Porto: Afrontamento, 1994.

Armando Luís de Carvalho Homem

O Desembargo Régio (1320-1433). Porto: INIC-CHUP, 1990; Portugal


nos finais da Idade Média: Estado, instituições, sociedade política. Lisboa:
Livros Horizonte, 1990. A propaganda republicana: 1870-1910. Coimbra:
Coimbra, 1990.

A HISTÓRIA ECONÔMICA E SOCIAL


Sendo cabível, posso afirmar que a narração, embora não seja capaz
proferir que inexista, nunca foi uma preocupação para essa área de saber. É por
demais evidente que os historiadores envolvidos nesse tipo de estratégia de
conhecimento histórico (com raras exceções) mantenham uma “voz das altu-
ras” como significante no discurso. Sua natureza escriturária realiza-se quan-
do a aproximação, quase radical, entre o conteúdo e o expresso subscreve o
campo de imanência da própria explicação. Isso quer dizer: no momento em
que se articula a noção de causalidade com a “prova de realidade”, arbitra-se o
encarregado da História.
De fato, a História econômica e social participa do anseio, indescrití-
vel, pela História científica. A esfera discursiva em que é passível de acontecer,
constitui-se através da inequívoca força que o discurso direto obtém aos
olhos de qualquer um que aceite a tangibilidade como pressuposto nas áreas
humanas. Por direito, esse tipo de historiador argumenta através do grau de
responsabilidade de mundo que prescreve para si e outros. De alguma manei-
ra, seja no aspecto quantitativo ou qualitativo, a escrita da História esteia-se
na tendência de desejar, classicamente, um realismo finalista e incólume –
com raras exceções.

208
Capítulo 8

O empenho dos historiadores, portanto, é apreender a realidade tal como


ela é de fato fundada, ou se supõe ser – segundo certa configuração a priori do
que é o real; independentemente que seja por atribuições conceituais ou empí-
ricas. Logo, as obras que produzem seguem a idéia de que elas são a imagem do
campo histórico, segundo confiança arraigada nos problemas que elegem.
No espaço historiográfico português, a Revista de História Econômica
e Social, a partir de 1978, possibilita fértil pesquisa nessa área. Em cada núme-
ro, as posturas da escrita estabeleciam métodos, perspectiva e objetos de estu-
do. Não obstante, pudesse persistir no comentário sobre o valor da revista, o
que seria tornar a aprender e discutir, escolho dar voz e nome a alguns histo-
riógrafos de destaque. Faço da seguinte forma: deixo, primeiramente, ao
sabor da crítica, a minha apreensão da escrita de Vitorino Magalhães
Godinho; depois, entrego ao leitor uma intervenção a propósito do texto de
Miriam Halpern Pereira e outra sobre José M. de Amado Mendes; por fim,
apresento alguns textos e obras Manuel Villaverde Cabral, Antônio de
Oliveira, Pedro Lains e Jaime Reis (personalidade da nova história econômi-
ca); e a inconfundível presença historiográfica de Borges Coelho, já na fron-
teira de outras “expectativas” historiográficas.
Cometo a deferência: Vitorino Magalhães Godinho. Tomo-a em dois
alcances: um que, rapidamente, supõe as características da escrita no espaço
dessa expectativa historiográfica; e outro, um pouco mais longo, que toma a
sua competente posição, historiador da economia e sociedade, como chave da
compreensão da leitura que faz da historiografia portuguesa. Conforme os
dois aspectos, pretendo homenageá-lo sem negar diversas formas de abarcá-lo;
e assim descrevo:
1 – a escrita do autor parece seguir o caminho da observação repetida –
até o esgotamento de leitura. A cada parágrafo, a comparação sistemática
(intrínseca à questão) apresenta a sua responsabilidade historiográfica em igno-
rar e quebrar a narrativa; de maneira a descrever, analisar e explicar. Magalhães
Godinho coloca em ênfase um tipo de “geografia gramatical” capaz de fixar rea-
lidades evidenciadas, por análise, cujo esforço de inteligibilidade tende a reconhe-
cer articulações, evoluções e similares sobre um espaço definido.
Os elementos do campo histórico são integrados num processo sintéti-
co que, assim sendo, orienta-se por determinações de fins. As cenas históricas,
portanto, comparecem como aparatos para as classes de fenômenos em exame,
capazes de fazer, num quadro de abstração admissível, surgir os princípios que
governam suas interações.

209
Capítulo 8

2 – no âmbito historiográfico, a escrita de Godinho persegue a tarefa


imposta à intelectualidade pela herança de alguns nomes próprios – Oliveira
Martins, António Sérgio. O autor busca estabelecer linhagens, identificar filia-
ções, como por exemplo, aqueles ligados ao espírito de Herculano (Braancamp
Freire, Sousa Viterbo, Pedro de Azevedo, etc.; todos aqueles reunidos em torno
da publicação Arquivo Histórico Português.) De algum modo, Magalhães
Godinho não perde de vista a disposição da “voz das alturas” como significan-
te do discurso. Se reconhece a contribuição inestimável de António Sérgio, a
tantas gerações de intelectuais portugueses; vê-o na posição de crítico cultural;
sem se consentir ser por completo; porque se obriga a compreendê-lo.
A escrita, portanto, insinua, diante do que concebe ser o ofício de his-
toriador, que o autor possui aquilo que falta a quem critica. Ocupando as lacu-
nas deixadas pela herança, a forma discursiva retoma as contribuições de auto-
res de relevância – condenando aqueles que nada acrescentam – para ter uma
matéria social de suas práticas e datá-las.
Assim, escrever sobre a historiografia portuguesa torna-se a exteriorida-
de do diagrama das atenções históricas que povoaram os discursos daqueles elei-
tos em seus textos (A historiografia portuguesa do século XX – orientações proble-
mas, perspectivas, In: Ensaios III. Teoria da história e historiografia, In: Revista de
História de São Paulo, v. 10, 1955) Logo, numa apreensão sinóptica, Magalhães
Godinho estabelece o cenário instituinte e interpretativo da posição do pensa-
mento histórico em Portugal. E, ao fazê-lo, promulga a afirmação de que a vali-
dade de um juízo é penhora da própria personalidade na crítica.

MIRIAM HALPERN PEREIRA – ESCRITA ÍNDICE


A minha hipótese global, já desenvolvida noutras ocasiões, é de que o contexto
institucional é decisivo na configuração do fenômeno emigratório. Determinados
vetores demográficos e socioeconômicos constituem terreno propício ao desenca-
dear da corrente migratória, a sua ocorrência não constitui porém uma derivada
simples, mas um fenômeno combinatório complexo.16

Na exposição da hipótese global, Miriam Halpern ajusta a exigência de


ter o fenômeno emigratório a partir da complexidade de um dado contexto
institucional. Tal tipo de enunciação a caracteriza como intelectual, preocupa-
da, como sempre esteve, em não facilitar apreensões simplistas dos problemas
históricos – demográficos e socioeconômicos. Claro que a investida nesse

210
Capítulo 8

espaço de saber da História sempre apresentou uma aridez condizente com as


circunstâncias dos seus métodos e correspondentes explicações.
Isso ocorre em razão da aparência de certeza que a quantificação e apu-
ramento conceitual permite. A despeito da existência entre os especialistas de
oferecer os resultados de análise como crônica explicativa, a prática historio-
gráfica da autora realiza a escrita índice. O que significa que Miriam Halpern
evita ater-se como vítima das “tabulações”.
Sua escrita da história assume todo o peso da explicação. As sentenças
provenientes da análise não pousam no ato contente de constatar; antes;
absorvem toda o enredamento que o pensar sobre produz. Logo, o acento
posto pela historiadora na locução contexto institucional revela a dinâmica das
situações – por exemplo, a atitude do Estado (conforme os grupos sociais
envolvidos) e o lugar da emigração familiar – que, tratadas no discurso, procu-
ram a forma da síntese.
Para Miriam Halpern, o histórico, nas áreas que a interessam, aparece
como campo de entidades integradas, cuja regência é proveniente de uma
estrutura de relações especificáveis. A forma de sua escrita, portanto, é um
paradigma explicativo que impulsiona os elementos de análise para um modo
de articulação sintético – numa atitude que teria estratégias de captura para,
novamente, forçar os limites da hipótese que defende.
Posso dizer que a autora, perante o julgamento do seu fórum profissio-
nal de franqueza e seriedade, prepara o próprio caminho para interpretações
mais complexas e apuradas no domínio da apreensão genérica da disciplina –
basta passar os olhos em sua biografia intelectual nos últimos 20 anos. A sua
contribuição para a elucidação epistemológica dessa forma de conceber o tra-
balho do historiador é muito maior do que geralmente se reconhece.

Alguns escritos da autora:

Obras. Coord. de Mouzinho da Silveira. Lisboa: Fundação Calouste


Gulbenkian, 1989. 2 v.; Negociantes, fabricantes e artesãos entre velhas e novas
instituições. Lisboa: João Sá da Costa, 1992. Miriam Halpern Pereira foi quem
dirigiu esse projeto de pesquisa; Livre câmbio e desenvolvimento econômico.
Portugal na segunda metade do século XIX. Lisboa: Sá da Costa, 1983 (1. ed.
Lisboa: Ed. Cosmos, 1971); Assimetrias de crescimento e dependência externa.
Lisboa: Seara Nova, 1974; Um crescimento agrícola sem industrialização.
Recerques, Barcelona, mar. 1977; “Decadência” ou subdesenvolvimento: uma

211
Capítulo 8

reinterpretação das suas origens no caso português. Análise Social, Lisboa, 2.


série, v. 14, n. 53, p. 7-20, jan./mar. 1978; Revolução, finanças, dependência
externa. Lisboa: Sá da Costa, 1979; A política portuguesa de emigração (1850-
1930). Lisboa: A Regra de Jogo, 1981.

JOSÉ M. AMADO MENDES – GABINETE DE ESTUDO


Com efeito, o êxodo de mais de quatro milhões de portugueses, desde meados
do séc. XIX (...) para além dos seus aspectos demográficos e econômicos, mais facil-
mente apreensíveis, envolve componentes sociais e culturais de enorme relevância.17

Nem sempre, ou quase nunca, o qualitativo se rende aos encantos dos


números, tabulações, aridez, etc. Amado Mendes escreve a advertência e pon-
tua a relevância dos aspectos culturais e econômicos. Mas o que isso me auxilia
para discorrer sobre a escrita do autor? Digo: permite-me abrigar o seu ato de
escrever nas imediações da leitura.
Isso exprime que os discursos de Amado Mendes se orientam pela voz
íntima de quem lê. E, ao se levar por ela, a escrita assume o trabalho de grafar
aquela ação; como se ela ao tocar no papel produzisse sons do “pensar alto”
envolvido por um específico ambiente. Essa característica alvitra a satisfação de
perseguir a leitura forte perante uma prateleira de livros. Tal procura remete aos
textos autorais, à necessidade de agenciar à acuidade da forma (escrita) através
do encargo em produzir analogias entre o gesto de indicar, de abordar e ler.
Quando o historiador escreve, portanto, exprime a interioridade da voz
e, ao fazê-lo indica localizações rigorosas e, em tal exercício, a abordagem con-
firma a segurança do conhecimento perante as estantes de livro. Em cada frase,
a apreciação do leitor é conduzida pela sensação de que o autor está a dialogar
com os seus pensamentos, como se estivesse confabulando ao espelho, num
espaço que apenas a ele é próprio.
Se for plausível o que anteriormente se disse, admito imaginar um equi-
valente estético para a sua escrita. Assumo-o da seguinte forma: Amado
Mendes conserva no ato de escrever os traços reflexos apurados no lugar natu-
ral da leitura – o gabinete de estudo. Quer dizer, instala-se na escrita a atmos-
fera do ambiente, depois da ação de leitura. Isso porque todo o andamento dis-
cursivo, do autor, é fabricado de maneira a apagar qualquer rastro da desor-
dem instaurada por papéis e livros. É esse aspecto da natureza da escrita que
sustenta o acordo entre autor e seus pensamentos.

212
Capítulo 8

A transferência daquele ambiente para o papel sugere, por fim, que


Amado Mendes deseja, de algum modo, prolongar os efeitos do equilíbrio
entre a leitura aclimatada e a escrita que se põe a público. E como esse equilí-
brio só existe nas imediações de um após, a autoria simula o que lhe ficou
arrumado na mente, numa proporção equivalente a um gabinete de estudo
pronto para que se entre e se realize o trabalho. Logo, as frases sintéticas que
usa nada mais são do que a imagem que quer deixar a quem o lê. E a imagem
é esta: uma mão retira da gaveta anotações de leituras feitas, e cada novo olhar
sobre a cena, lá estão elas postas nos papéis, elegantemente.

Alguns escritos do autor:

Para a história do movimento operário em Coimbra. Análise Social,


Lisboa, 2 ª. série, v. 17, n. 67-69, p. 603-614, 1981; As camadas populares urba-
nas e a emergência do proletariado industrial. In: MATOSO, José (Dir.).
História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. v. 5, p. 493-499; Sobre
as relações entre a indústria portuguesa e a estrangeira no século XIX.
Análise Social, Lisboa, 2 ª. série, v. 16, n. 61-62, p. 31-52, 1980; A área econô-
mica de Coimbra: estrutura e desenvolvimento industrial, 1867-1927.
Coimbra: Comissão de Coordenação, 1984; A indústria em Portugal na
segunda metade do século XIX. Biblos, Coimbra, 66, p. 179-191, 1990;
História econômica e social dos séculos XV a XX. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1993.

ANTÔNIO BORGES COELHO – SECO AJUSTE


António Homem foi garrotado e queimado em Lisboa como negativo sob a
acusação de sumo sacerdote dos judeus e, como se só não bastasse, lhe acrescenta-
ram a acusação de sodomia. As provas não convenceram o Pe. António Vieira: “não
há patranha em D. Quixote que não tenha mais probabilidade que esta”.18

Não resta equívoco, Borges Coelho coloca o discurso no limite do que


se pode denominar de denúncia. Quanto mais o pesquisador penetra nas
“astúcias” dos processos e papéis dos arquivos inquisitoriais, mais a escrita pra-
tica o acirramento das aberrações de um tipo de mundo português.
As cenas de força do Santo Ofício em Portugal são arranjadas de manei-
ra a constituir um tecido histórico, cujos fios, fabricados pela espetacularidade
dos processos, tramam o presente sociocultural do período. A interpretação se

213
Capítulo 8

encarrega de anunciar rígidas tendências no tema da pesquisa, num correlato


com os princípios denunciantes que regem a consciência do autor.
Borges Coelho encontra na natureza da Inquisição portuguesa, capaz de
ameaçar até soberanos, a ramificação mais lateral da tendência que pode sobre-
viver, em algum lugar, na cultura lusa. A raiz da censura e da repressão é ima-
gem que retroage ao solo de onde partiu. Sua produção historiográfica busca
um mimetismo com a situação dos agentes históricos que sofrem, repugnante-
mente, as ações originadas na cena inquisitorial. Se as ações são intensas num
momento e, noutro, frágeis, a única coisa que não deixa de ser autopresente é a
ameaça cênica – apta a contaminar outras instituições. Isso faz com que o
desenrolar dessa história dramática não apele para reiterações aflitas na com-
preensão, o que lhe permite impor a narrativa mais seca possível.
Assim, as composições do autor entregam-se à passagem selecionada;
pois é difícil conceber, como Vieira, um estado de coisas que nem a mais desa-
tenta mente não fosse passível de se horrorizar com falsificação dos processos.
Borges Coelho toma o ajuste ético (segundo penso) como atitude que leva a
sério a injustiça, de maneira a manter uma solidariedade com os protestos dos
que viveram perseguidos ou morreram nas mãos do Santo Ofício.

Alguns escritos do autor:

A Revolução de 1383. 5. ed. Lisboa: Caminho, 1984; O tempo e os


homens: séculos XII-XIV. In: MEDINA, João (Dir.). História de Portugal.
Amadora: Ediclube, D. L. 1994. v. 3, p. 93-193; O tempo e os homens. Lisboa:
Caminho, 1996. (Questionar a História, 3); Raízes da expansão portuguesa. 5.
ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985; Comunas e conselhos. Lisboa: Prelo, 1973;
Portugal na Europa do seu tempo. Lisboa: Seara Nova, 1978; A economia por-
tuguesa no século XX. Lisboa: Edições 70, 1979; Camões e a sua época. Lisboa:
Caminhos, 1980.

Alguns escritos dos autores mencionados no texto:

Manuel Villaverde Cabral

O desenvolvimento do capitalismo em Portugal no século XIX. Lisboa: A


Regra do Jogo, 1981 (1. ed. 1976, elaborada antes de 1974); O operariado nas
vésperas da República. Lisboa: Presença, 1977; Portugal na Alvorada do Século

214
Capítulo 8

XX. Lisboa: Regra do Jogo, 1979; Materiais para a história da questão agrária
em Portugal. Porto: Inova, 1974.

Antônio de Oliveira

O levantamento popular de Arcozelo em 1635. Separata de: Revista


Portuguesa de História, Coimbra, 17, 1977; Levantamentos populares no arce-
bispado de Braga em 1635-1637. Separata de: Bracara Augusta, Braga, v. 34, n.
78-91, jul./dez. 1980; Levantamentos populares no Algarve em 1637-1638: a
repressão. Coimbra: IHES, 1983; Contestação fiscal em 1629; as reacções de
Lamego e Porto. Separata de: Jornadas de História Moderna, 1ª. , Lisboa, 1986,
[Actas] v. 1, Lisboa, CHUL, [1989]; Oposição política em Portugal nas vésperas
da Restauração. Separata de: Cuadernos de Historia Moderna, Madrid, 11, 1991;
Poder e oposição política em Portugal no período filipino: 1580-1640. Lisboa:
Difel, 1991; O âmbito do poder e das oposições ao tempo com Espanha: 1580-
1640. In: Colóquio Internacional Rebélion y Resistência en el Mundo Hispânico de
el siglo XVII, Louvaina, 1991, [Actas] Louvaina, 1992, p. 79-94; Poder e socieda-
de nos séculos XVI e XVII. In: MEDINA, João (Dir.). História de Portugal.
Amadora: Ediclube, D. L. 1994. v. 7, p. 11-47; A restauração. In: MEDINA, João
(Dir.). História de Portugal. Amadora: Ediclube, D. L. 1994. p. 87-106.

Pedro Lains

O proteccionismo em Portugal (1842-1913): em caso mal sucedido de


industrialização “concorrencial”. Análise Social, 3ª. série, n. 97, p. 481-503, 1987;
A economia portuguesa no século XIX. Crescimento econômico e comércio exter-
no 1851-1913. Lisboa: INCN, 1995; Exportações portuguesas, 1850-1913: a
tese da dependência revisitada. Análise Social, n. 91, 1986; A evolução da agri-
cultura e da indústria em Portugal, 1850-1913. Interpretação quantitativa.
Lisboa: Banco de Portugal, 1990.

Jaime Reis

O atraso econômico português e perspectiva histórica: estudos sobre a


economia portuguesa na segunda metade do século XIX, 1850-1930. Lisboa:

215
Capítulo 8

INCN, 1993; A industrialização no país de desenvolvimento lento e tardio:


Portugal, 1870-1913. Análise Social, v. 23, n. 96, p. 207-227, 1987.

A HISTÓRIA DA CULTURA, DAS IDÉIAS


E DAS MENTALIDADES

Cometo aqui uma impropriedade. Isso se dá porque é nessa “expectati-


va” historiográfica que melhor a teoria do relato se debruça. Não quero aqui
esmiuçar apreensões distintas dos historiadores sobre os assuntos. Como tam-
bém, jogarei para o lado as definições das áreas. Quero tão somente apreciar
como, de que maneira, todos aqueles termos definidores de tipos de histórias
estão sob um território comum; cujos pedaços são, de um lado, a convidativa
palavra Idéias, em maiúscula e no plural é evidente, e outra atraente, a políti-
ca, em sentido amplo; confirmando a apreensão genérica da disciplina.
Evito dizer sobre os motivos, apenas tomo o problema do território a
partir de uma vaga e incompleta teoria do relato. E, assim, farei. Mas se vou
executar; devo antes reforçar a importância dos estudos de J. S. da Silva Dias
e, conseqüentemente, mencionar o valor da Revista de História das Idéias, do
Instituto de Teoria e História das Idéias, da Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra. Se os valoro, a revista e seu tutor, num quadro nar-
rativo que se diz impróprio, é porque algumas coisas devem estar longe de
ameaças – mesmo a mais pueril que seja.
Assim vou; cabe perguntar, como? Rapidamente, considero o óbvio nas
perspectivas: as áreas de concentração. Aquela a saltar às vistas, de imediato, é a
denominada História Social da Cultura, com os seus correspondentes estudos
sobre estrutura social, modos de vida, mentalidade social e pensamento social. Em
seguida, a dos Quadros Institucionais da Vida Cultural e seus saberes a propó-
sito de escolaridade, academias de intelectuais, sociedades de amigos e similares,
bibliotecas, museus, institutos de propaganda e imprensa. Depois, A Vida
Cultural, propriamente dita – idéias, tendências literárias e artísticas. Por fim, a
História das Instituições, o que provoca quase um retorno à primeira.
Dito onde se encontram os marcos, inicio de fato. Um tipo de pensamen-
to historiográfico, sob a égide das três noções do subtítulo (seja em que nação
estiver), ao contar o que conta nele e na leitura, introduz-se numa narrativa
acerca da qual se perguntará se aquele não se torna “novela”. Neste mínimo
conto, quatro desvios são possíveis, de maneira a evitar a adoção da pergunta.

216
Capítulo 8

O primeiro desvio é o que propõe um discurso como método, de modo


a conduzir o histórico sob a alça de mira da razão. Quer dizer: pratica, narra-
tivamente, a política de sua pesquisa, informação e posse teórica. No segundo,
as Idéias nada mais são do que discursos naturais à história; logo, os indícios
de época, período ou tempo tornam-se objetivados, numa manifestação das
existências formais do discurso histórico. O terceiro aproxima a filosofia da
narração, buscando uma evasão do último termo. O histórico acontece, por-
tanto, na verdade interior de um conceito. Por último, aquele que ao esclare-
cer deflora o histórico, a partir de duas línguas, uma correspondente ao ofício
e outra resultante do posicionamento do indivíduo no plano político. Nesse, o
narrar é uma propriedade dos fragmentos dos dois discursos, cuja relação pen-
sável se dá entre os meios economizados da primeira e o método da segunda.
Já terminei. Assim, digo: posso pensar que em nenhum dos historiado-
res portugueses, e também do lado de cá do Atlântico, mais ao sul, o que pode-
ria ocorrer não acontece, ou seja, a dificuldade do relato, narração ou histórias
– pois estas, estão no absoluto enigmático –, contêm todas as possibilidades do
ato de contar qualquer e mesma coisa, o homem. Explicando, a narração, os
relatos ou as histórias são artifícios que mudam, cuja singularidade é: ser um
objeto que muda seu objeto. Se ela muda sua ação, trata-se de explorar a rela-
ção mesma com o pensamento, com a linguagem, com a própria atuação e não
somente com o seu aspecto.
Uma história da cultura, mentalidades ou idéias, deveria pressupor aque-
la desobjetivação, em função do vigor teórico que os termos trazem; contudo, a
apreensão genérica da disciplina (História) impõe a objetivação nas palavras e
nenhuma dificuldade sequer é suposta. Deste modo, os quatro desvios anterior-
mente enunciados dão “conta” do enredo implícito nessa teoria do relato e decla-
ram a impossibilidade do surgimento historiográfico da expressão daquela difi-
culdade. E, se necessito dar nomes, posso admitir que no primeiro desvio se
encontram os historiadores Oliveira Ramos; no segundo, Fernando Catroga,
por exemplo; no terceiro desvio, Luís Filipe Barreto é destaque; no último, Reis
Torgal e são bons representantes, guardando as devidas distâncias entre eles.
Poderia citar outros de inegável relevância, Ana Cristina Araújo, Maria
Helena da Cruz Coelho, Amadeu José Carvalho Homem, José Esteves Pereira,
Romero de Magalhães, Humberto Baquero Moreno, Sérgio Cunha Soares ou
Antônio Manuel Hespanha, e ainda outros mais. Contudo, qualquer um des-
viar-se-ia daquelas quatro maneiras e cairia nos braços da apreensão genérica
da disciplina, evitando assumir a “novela”. Pois, o cansaço que nas primeiras
páginas se disse, não foi capaz de sustentar o que a Revolução dos Cravos exi-

217
Capítulo 8

giria, se fosse possível alimentar a sua atmosfera, o nomadismo do pensar –


caso se apreenda o acontecimento em combustão.

LUÍS REIS TORGAL – DOTE DO SIGNIFICADO


Creio poder aqui escolher um trecho da dissertação do autor, nos idos
de 1981. Faço porque o Prefácio do estudo sugere, antes de qualquer coisa, con-
ter o futuro das preocupações historiográficas de fato, extraio, retrospectiva-
mente, os anseios do representante da História das Ideologias, no sentido de
estrutura sociocultural das Idéias.

Toda obra, literária ou científica, tem um espaço dramático, um espaço que lhe
é intrínseco – e a história é profundamente dramática – e um espaço que lhe é
extrínseco, mas que condiciona a sua construção. Uma boa parte do trabalho de
anos que exigiu a preparação deste livro foi realizada em momentos extremamen-
te agitados e difíceis da minha vida. Em momentos de emotividade e ação devido
às alterações políticas de Abril...19

Graus de memória agarram-se à própria pesquisa. E o que se discursa


para lá, 1640 a 1670, ecoa, imperceptivelmente, nos anseios de cá. Nunca mais
Torgal deixa de impor a si a proeminência dos jogos de espelho anteriores à
escrita da História. Tanto é que seu caminho intelectual buscará no cinema e
na instrução pública a visa dramática dos anos de censura e repressão; como
também, os passos de historiógrafo se achegam à atualidade.
Evidentemente, essa feição do seu intelecto resulta da condição que a
palavra ideologia funda como meio associativo. Nela se inscreve o necessário
do antes e do agora, numa correspondência termo-a-termo que serve à causa
da redução do conteúdo ao significado. Isso quer dizer: as formas de conteú-
do e a escrita estão em estado pressuposição recíproca.
Num plano de quem traz para si o peso de um acontecimento pri-
mordial (o 25 de Abril o é de algum jeito), Torgal responsabiliza-se. Ao
fazê-lo, descreve a consistência que nada tem de relativo. Não o tendo, a
escrita tende à unidade discursiva que, de acordo com a noção de realida-
de-essência, retira das categorias sociológicas dotes constitutivos da signi-
ficação historiográfica.
Dessa maneira, a voz ativa do discurso coloca o leitor numa posição em
que, qualquer que seja a sua visão de mundo, é obrigado a praticá-la num esta-
do de aviso de consciência. Para Torgal, o senso de verdade no discurso histó-

218
Capítulo 8

rico incide (posso dizer) na contradição de que a vida pode ser querida livre,
mas há de especificar o quanto de argamassa existe nisso.

Alguns escritos do autor:

Ideologia política e teoria do Estado na Restauração. Coimbra: BGUC,


1981-1982. 2 v.; Acerca do significado sócio-político da “Revolução de 1640”.
Revista de Historia das Idéias, Coimbra, 6, p. 301-319, 1984. (Col. Isabel Nobre
Vargues). A Revolução de 1920 e a instrução pública. Porto: Paisagem, 1984;
Sobre a história do Estado Novo: fontes, bibliografia, áreas de abordagem e
problemas metodológicos. Revista de História das Idéias, v. 14, p. 529-554,
1992; Salazarismo, fascismo e Europa. Vértice, p. 41-52, jan./fev. 1993;
Salazarismo, Alemanha e Europa: discursos políticos e culturais. Revista de
História das Idéias, Coimbra, 16, p. 73-104, 1994; Ingresso no ensino superior –
um labirinto de Creta... Aveiro: Estante, 1986.

LUÍS A. DE OLIVEIRA RAMOS – ARTEFATOS DE ILUMINAÇÃO


Se, mesmo assim, os textos que representam essas parcelas, além de refazerem
tramos do pretérito provocarem críticas, desenvolvimentos e contrapropostas, ati-
çadas pela reflexão e pela pesquisa, bom será, pois a isso compelem. E a sua reedi-
ção conjunta justificar-se-á melhor se o revolver do passado despertar no leitor a
consciência da contemporaneidade, a que se deve agregar a meditação prospectiva
que a construção do porvir exige, sem sombras de dúvida.20

Em Nota Prévia, a passagem anterior se apresenta. Certa velocidade


impressa nos ritmos das frases caracteriza o andamento das perspectivas do
autor. Três capacitações dos textos, que irão compor o livro, saltam aos olhos:
a espera da crítica fundamentada, a consciência da contemporaneidade e a
prospecção do provir – cavar o passado. Em todas elas, fica demonstrado como
Oliveira Ramos coloca o problema da importância da História.
Independentemente desse pequeno trecho, a escrita do autor se encarre-
ga de configurar aquela postura, assumindo o que posso denominar de técnica
de iluminação: pôr à luz o cenário de dada época (seja Pombalina, Liberal, etc.).
Esse efeito garante, antes de tudo, a temporalidade do assunto a ser esclarecido.
Creio que a freqüência de rápidos e abreviados enfoques das frases em
seus textos provenha da finalidade da idéia de iluminação que anteriormente

219
Capítulo 8

sugeri; ou seja: consentir, ao leitor, a visualidade das mudanças de focos fami-


liares ao cenário, expondo assim, na leitura, os motivos essenciais que tecem a
História. Salientados nitidamente os “objetos” através da repetição de elemen-
tos de importância no discurso, o autor aclara cenas.
Se há elucidação das cenas, é porque as mesmas comparecem em forte
simplificação; pois o cenário favorece a ligeireza discursiva do autor. É como se
Oliveira Ramos adapta-se à “realidade histórica” a propósitos de elegância e
utilidade, contidos na noção de luz clássica.
Dessa maneira, a escrita histórica do autor estabelece um conjunto de
relações em que os agentes encarnam o que as cenas naturalizam. Esse curso
alude a tendência de Oliveira Ramos em fazer valer um processo singular de
“desenvolvimento” da parte, Portugal, em relação ao todo, Europa; o que
acaba demonstrando que a força da trama se dá por favorecimento do cená-
rio anteposto.
Nesse caso, a elucidação do processo torna-se mote privilegiado da nar-
rativa; o que me permite dizer: as últimas frases criadas por Oliveira Ramos,
nos seus textos, funcionam como cortinas a fechar raciocínios. Se assim é, a
fuga permitida pela ironia ganha o mesmo estatuto da seriedade da razão; pois
a última locução do trecho citado, em outros escritos isso se repete, parece
conter uma densa ambigüidade entre o tropo e a luz: sem sombras de dúvida.

Alguns escritos do autor:

Raízes do liberalismo portucalense: dados e observações. Revista de


História, Porto, I, 1978; Ilustração ao liberalismo: temas históricos. Porto: Lello
& Irmão, 1979; O Porto e a gênese do liberalismo. Porto: [s.n.], 1979; O Porto e
as origens do Liberalismo. Subsídios e observações. Porto: Gabinete de História
da Cidade, 1981; Portugal e a Revolução Francesa: 1717-1834. Revista da
Faculdade de Letras, História, Porto, 2ª. série, 7, p. 155-218, 1990.

FERNANDO CATROGA – FORMA FINAL


O século XIX foi o “século da história”, porque foi igualmente o “século dos
mortos”.21

Eis a primeira locução, a abrir o arremate do livro. Mas o que ela ofere-
ce à compreensão da escrita autoral? Se a vejo começar, atribuo-a figura de

220
Capítulo 8

chave; as frases que se seguirão atuam no tom mais baixo imposto pela clave
da sentença. Isso me permite dizer: os escritos do autor estão próximos à notí-
cia da forma final. Algo que implica o intenso approach entre a argúcia da
morte e a idéia de História.
Como assim? Catroga age na escrita como se a infinitude das conexões
de elementos históricos contivessem um aviso último de sentido, expresso no
caráter temporal que, em si, é inacabável; mas, no âmbito da escritura, se reco-
nhece na natureza tumular. Fico a refletir se o autor não imprimiu na mente a
especificidade mensageira da escrita e da história – a mortificação. Sendo esse
trabalho, de onde retirei a sentença, a evidência dessa qualidade intelectual na
área de História Social da Cultura.
Se assim for, a produção historiográfica de Catroga se individualiza por
cultivar, em solo acadêmico, a escrita jornalística. Por quê? Porque é da escrita
jornalística (numa idealização que não pode ser apreendida no meio que lhe
dá suporte) a subtração do “humor” dos acontecimentos, de maneira que, os
mesmos, sejam “ritualizados” numa dinâmica a partir das palavras que lhe dão
sobrevida – não faz o mesmo certo tipo de discurso histórico, segundo resso-
nâncias distintas, mas numa igual freqüência?
Então, admitindo o que anteriormente se disse, a escrita de Catroga,
em razão da atenção às advertências impressas num dado fluxo de tempo,
requer a mesma afinidade que o jornalista tem com os acontecimentos. Claro
que isso é feito de maneira culta, sendo a sua narrativa histórica a palingene-
sia das circunstâncias.
Mas se o solo do cultivo é acadêmico, em que o viés do imediato não
germina, a escrita de Fernando Catroga comparece sob o manto do luto; que
nessa obra é evidente, sem impedir comparecimento em outras. De fato, uma
escrita da história que se queira histórica, precisa, lutuosamente, “ontologizar”
(para usar um termo de Derrida) as ruínas dos testemunhos, de modo a apre-
sentá-los no discurso como comunicação identificável ao acontecido.
Este aspecto da escrita do autor, portanto, percebe a notícia da aproxi-
mação do pensamento histórico com a exaustão do valor da História na con-
temporaneidade. Se o século 19 foi, ao mesmo tempo, século da história e sécu-
lo dos mortos, é possível pensar que escrever no âmbito da disciplina, hoje, é
pressupor a silhueta fim de um pensar e de um valor herdado; não sendo à-toa
o achego do autor à Literatura.
Catroga escreve e, ao fazê-lo, indica. Indicado, a escrita aborda a forma
final. Porém, caso isso fosse levado ao extremo, o discurso entraria numa área
de desentendimento, pois desarrumaria apreensão genérica da disciplina

221
Capítulo 8

História. Se não entra em discórdia, nada nega que a sua intelectualidade já


apreendeu, de algum jeito, o esgotamento dos pressupostos que defende. Logo,
a “porta” citada, me ocorre ser tanto a entrada do saber autoral, expresso em
livro, quanto à abertura ao destino de tudo.

Alguns escritos do autor:

O republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de outubro de 1910.


Coimbra: Faculdade de Letras, 1991. 2 v. A militância laica e a descristialização
da morte em Portugal. Coimbra: Faculdade de Letras, 1988; A História da
História de Portugal. Em colaboração com Reis Torgal e José Amado Mendes.
Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.

LUÍS FILIPE BARRETO – ZELO TEÓRICO

Eis chegado o ponto de repouso em que essa Introdução se interrompe. O nosso


objetivo foi libertar alguns problemas do silêncio ou simplicidade a que tradicional-
mente estão condenados. Toda e qualquer questão aqui abordada teve seu horizon-
te de limite duma Introdução, isto é, uma iniciação a um território. Traçamos ape-
nas o esboço de guia para o acesso a uns poucos lugares do imenso continente for-
mado pela lógica histórica do cultural.22

Ao olhar esta passagem, é possível reconhecer que a historiografia


genealógica tem em Portugal a sua personalidade. Filipe Barreto demonstra
uma cuidadosa atenção aos complexos jogos de linguagem que fundam a pos-
sibilidade de pensar a cultura, através da lógica histórica. Isso requer que o
autor saiba ser sua escrita: tanto ato de abordagem, quanto ação nômade. Do
primeiro, provém a maneira como a escrita procura captar nuanças na análise
dos conceitos, conforme o plano epocal de seus funcionamentos; do segundo,
emana a vivacidade de migrar entre as “disciplinas humanísticas”.
Nesse sentido, a forma da escrita territorializa silêncios historiográficos
e, ao mesmo tempo, fomenta linhas de fuga para melhor problematização.
Qualquer um que leia os seus livros, com um pouco de zelo teórico, perceberá
o agenciamento produzido. É como se a escrita fomentasse complexidades e,
assim fazendo, estabelecesse conexões com outros livros.
Seus livros, portanto, configuram-se como árvores de conhecimento; o
que significa que mesmo sendo inovador na historiografia portuguesa, a orga-

222
Capítulo 8

nização imagética contém raízes clássicas – nada conspurca tal presença. Isso
quer dizer: seus trabalhos são belas interioridades orgânicas. Imitam mundos,
com arte conceitual e lógica histórica.
Tal aspecto historiográfico repercute círculos binários, em que a
influência imposta pelo verbo saber condiciona a análise de discursos altamen-
te selecionados, conforme um olhar problematizante e histórico que decom-
põe a tarefa em dois: documentos de época portadores de sentido e suspensão
dos privilégios do presente. Isso é: de um lado a singularidade epocal e, de
outro, a ação de pensar entregue ao próprio tempo – o que significa, evitar
qualquer presentismo histórico.
Assim sendo, a escrita de Filipe Barreto percebe a incapacidade de ins-
tituir enunciados que se refiram a algo como parâmetro individualizante; pois
a estrutura da lógica epocal fomenta intróitos históricos, que, por serem, guar-
dam a peculiaridade da abordagem e a especificidade nômade da teoria. Caso
isso tenha significação, escrever para o autor (me permito pensar) é pôr, na
imensa diversidade intelectual, estratos de sentido, cujas articulações espa-
lham-se no leitor como se fossem aprendizados empíricos – na ordem dos
conceitos ou dos problemas.

Alguns escritos do autor:

Descobrimentos e Renascimentos: formas de ser e pensar nos séculos XV


e XVI. Lisboa: INCM, 1983; Caminhos do saber no Renascimento Português:
estudos de história e teoria da cultura. Lisboa: INCM, 1986; Os descobrimen-
tos e a ordem do saber: uma análise sócio-cultural. Lisboa: Gradiva, 1987; A
ordem do saber dos descobrimentos portugueses. Tese (Doutorado) – FLUL,
Lisboa: Ed. A., 1992. 2 v.

Obras de alguns autores citados:

Humberto Baquero Moreno – sua importância historiográfica mere-


ceria uma outra forma de trato, que não se reduzisse à citação de suas obras
e textos; contudo, os limites do capítulo não me permitiram tal exercício.

Tensões sociais em Portugal na Idade Média. Porto: Athena, 1975; A


Batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico. Coimbra, BGUC,

223
Capítulo 8

1979-1980. 2 v.; Morte de D. Duarte: luta pela regência. In: SARAIVA, José
Hermano (Dir.). História de Portugal. Lisboa: Alfa, 1983. v. 3, p. 107-137; O
poder real e suas autarquias locais no trânsito da Idade Média para a Idade
Moderna. Revista da Universidade de Coimbra, Coimbra, 30, p. 369- 393, 1983;
Reflexos da Peste Negra na Crise de 1383-1385. Separata de: Revista Bracara
Augusta, Braga, 37 (83-84), jun./dez. 1983; O Norte na Revolução de 1383.
Separata de: Gaya, Vila Nova de Gaia, 2, 1984; Movimentos sociais antijudai-
cos em Portugal no século XV. Ler História, Lisboa, 3, p. 3-11, 1984;
Marginalidade e conflitos sociais em Portugal nos séculos XIV e XV: estudos de
história. Lisboa: Estampa, 1985; Os movimentos sociais em Portugal nos finais
da Idade Média. Revista de Ciências Históricas, Porto, 1, p. 219-225, 1986;
Contestação e oposição da nobreza portuguesa ao poder político nos finais da
Idade Média. Revista da Faculdade de Letras, História, Porto, 2ª. série, 4, p. 103-
118, 1987; Les Révolutions Portugaises de la Fin du Moyen Age. In: Colóquio
Histoire du Portugal, Histoire Européenne, Paris: 1986, Actes, Paris Fondation
Calouste Gulbenkian – Centre Culturel Portugais, 1987, p. 37-42.

João Medina – o mesmo dito para Baquero Moreno cabe ao autor


e, de algum jeito, dada a sua importância, as desculpas seriam despropo-
sitadas.

Eça político. Lisboa: Seara Nova, 1974; Herculano e a Geração de 70.


Lisboa: Terra Livre, 1977; (Pref. de José Relvas) Memórias políticas. Lisboa: Terra
Livre, 1977; Salazar em França. Lisboa: Ática, 1977; Os primeiros fascistas portu-
gueses: subsídios para a história dos primeiros movimentos fascistas em
Portugal anteriores ao nacional-sindicalismo: estudo antológico. Coimbra:
[Atlântica], 1978; Salazar e os fascistas: salazarismo e nacional-sindicalismo, a
história de um conflito 1932-1935. Amadora: Bertrand, 1979; Eça de Queiroz e
a Geração de 70. Lisboa: Moraes, 1980; Afonso Lopes Vieira: anarquista.
(Introdução e notas) Lisboa: António Ramos 1980; (Estudo introd. de Joaquim
Madureira, Augusto Viveiro e António de la Villa) Machado dos Santos: A
Carbonária e a Revolução de Outubro. Lisboa: História & Crítica, 1980; Manuel
Teixeira Gomes e Sidónio Paes. Clio, Lisboa, 2, p. 117-129, 1980; Cartas de José
Relvas a António Macieira. (Apresentação e notas) Alpiarça: Câmara Municipal,
1981; Um semanário anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa:
Terra Livre. Análise Social, Lisboa, 2ª. série, 17 (67-68-69), p. 735-765, 1981; O
Zé Povinho durante a República. Clio, Lisboa, 3, p. 103-126, 1981; O Congresso

224
Capítulo 8

fascista em Montreux: 1934. Separata de: Colóquio O fascismo em Portugal,


Lisboa, 1980. [Actas] Lisboa: A Regra do Jogo, 1982; As Conferências de Casino
e o Socialismo em Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1984; (Dir.). De História con-
temporânea de Portugal. Lisboa: Amigos do Livro-Multilar, 1985-1990; Un dou-
blé centénaire: “Os Maias” de Eça de Queiroz et Fortunata et Jacinta de Perez
Galdos. In: Coloque Eça de Queiroz et la Culture de son temps. [Actes] Paris:
Fundação Calouste Gulbenkian-Centre Culturel Portugais, 1988. p. 103-108;
Sérgio e Sidónio: estudo do ideário sergiano na revista Pela Grei (1918-1919).
In: Estudos sobre António Sérgio. Lisboa: CHUL, 1988; “Oh! A República!...”
Estudos sobre republicanismo e a Primeira República Portuguesa. Lisboa: INIC,
1990; Mystique: la Relique d’Eça de Queiroz. In: Sep. Mirroirs de l’Altérité et
Voyages au Proche Orient, Paris, 1990; John Bull and Zé Povinho: The Clash bet-
ween two national stereotypes: a centennial remembrance of the 1890 British
Ultimatum to Portugal. Separata de: Islenha, Funchal, 10, Jan./Jun. 1992; O Zé
Povinho, caricatura do “Homo Lusitanus”: estudo de história das mentalidades.
In: Estudos em homenagem a Jorge Borges de Macedo. Lisboa: INIC, 1992;
História de Portugal Contemporâneo: político e institucional. Lisboa: Univ.
Aberta, 1994; Morte e transfiguração de Sidónio Pais. Lisboa: Cosmos, 1994.

Ana Cristina de Araújo

Revoltas e ideologias em conflito durante as invasões francesas. Revoltas e


Revoluções, Coimbra: Instituto de História e Teoria das Idéias da Faculdade
de Letras, 2, p. 7-90, 1985.

José Esteves Pereira

Silvestre Pinheiro Ferreira: o seu pensamento político. Coimbra:


Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1974. Henriques Nogueira e
a conjuntura portuguesa (1846-1851). Coimbra: [s.n.], 1976; António Ribeiro
dos Santos e a polémica do “Novo Código”. Lisboa: [s.n.], 1982.

Maria Helena da Cruz Coelho

O mosteiro de Arouca do século X ao século XIII. Coimbra: Centro de


História da Universidade, 1977; O Baixo Mondego nos finais da Idade Média:

225
Capítulo 8

estudo de história rural. Coimbra: FLUC, 1983. 2 v.; Homens, espaços e poderes:
séculos XI-XVI. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. 2 v.

Joaquim Romero de Magalhães

O poder concelio das origens às cortes constituintes: notas de história


social. Colab. com Maria Helena da Cruz Coelho. Coimbra: CEFA, 1986; Os
conselhos. In: MATOSO, José (Dir.). História de Portugal. Lisboa: Círculo de
Leitores, 1993. v. 3, p. 175-185; As estruturas de enquadramento da economia
portuguesa de Antigo Regime: os conselhos. Notas econômicas, Coimbra, 4,
1994; 1637: motins da fome. Biblos, Coimbra, 72, p. 319-333, 1976; E assim se
abriu judaísmo no Algarve. Revista da Universidade de Coimbra, Coimbra, 29,
p. 1-73, 1984; O Algarve económico: 1600-1773. Lisboa: Estampa, 1988;
Algumas notas sobre o poder municipal no império português durante o sécu-
lo XVI. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, 25-26, p. 21-30, dez. 1988;
La Inquisición portuguesa: intento de periodización. Revista de la Inquisición,
Madri, 2, 1992; D. João II. In: MATOSO, José (Dir.). História de Portugal.
Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. v. 3, p. 513-521; D. João III. In: MATOSO,
José (Dir.). História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. v. 3, p. 530-
540; D. Manuel I. In: MATOSO, José (Dir.). História de Portugal. Lisboa:
Círculo de Leitores, 1993. v. 3, p. 521-530; A ilha da Madeira na economia
atlântica no tempo do infante D. Henrique. In: O Infante e as Ilhas do Atlântico.
Funchal: CEHA-SRTC, 1994. p. 15-34.

NOVAS TENDÊNCIAS
Bem, se a historiografia portuguesa escolheu para si mesma, sucessiva
ou simultaneamente, os quatro desvios anteriormente referidos, é importante
incluir, naqueles, as novas vibrações que lhe dão a sobrevida, confirmando o
espaço de apreensão genérica da disciplina. A primeira, que escapa para se
dizer nova, é retorno do político. Aspecto que incorpora uma dada narrativida-
de, mas que ainda se mantém presa à “distribuição das cartas” – categorias e
conceitos da ciência política ou de base antropológica.
Nessa outra exterioridade da velha história política, até porque a pala-
vra é no masculino o sinônimo de astúcia (o que significa ter mais historicida-

226
Capítulo 8

de do que a normalmente se dá “conta”), a escrita que se faz ainda continua a


evitar o problema teórico da linguagem como agente do próprio relato. Isto
quer dizer: o mito continua a sua vida estacionária, sem ruptura histórica; efei-
to dos desvios que evitam a dificuldade da narrativa.
Como preciso citar algum historiador, prefiro admitir a intervenção
sobre um texto de José Tengarrinha. O motivo é ser o autor um grande repre-
sentante de toda a historiografia dedicada ao assunto, velha ou nova, e, ao
mesmo tempo, figura intelectual que pode exemplificar o que se disse até aqui.

JOSÉ TENGARRINHA – DIGNO TRAJETO


A maior complexidade do relacionamento entre as forças políticas em Portugal
após a Segunda Guerra – comparativamente nos anos que de perto a precederam –
coloca à análise histórica problemas novos que julgo deverem motivar uma aborda-
gem específica e sistemática. Tal não aconteceu nos numerosos balanços a propósi-
to do recente 20º. aniversário do 25 de Abril, com a agravante de, por deficiente
informação ou ainda fortes preconceitos, quando o assunto foi tocado não raro se
ter assistido a deturpações de fatos e interpretações tendenciosas.23

Se uma escrita motiva-se na deliberação da abordagem específica e siste-


mática, é porque aspira ensinar. Tal aparência me parece distinguir o discurso
histórico de José Tengarrinha. O que significa que o autor determina as refle-
xões objetivando-as. Nesse andamento, a velha máxima da disciplina, “tal
como efetivamente aconteceu”, ganha nos seus trabalhos novo status.
Isso quer dizer: a forma da escrita de Tengarrinha assume o valor
daquela moral, não como dado subjetivo, mas como perfil do bem comum.
Nesse sentido, a palavra compreensão deve assumir o caráter de ferramenta
cognitiva; revelando a natureza da responsabilidade em escrever história.
Contudo, o ato de ensinar pressupõe dar estatura superior ao individual
– tanto na aparência pública dos textos, quanto na íntima convicção que os
motiva. Os fatos, então, precisam comparecer inteligíveis na escrita; avivados tais
e quais estariam se estivessem presentes na consciência de um suposto leitor.
Evidentemente, a pressuposição do compreensível só se torna o que é se
a escrita estabelecer, para si, um suporte. Esse apoio é o reconhecimento do
espírito democrático como ação da inteligência – sendo isso, o que estabelece
o grau de coerência historiográfica do autor.
Por estudar, já por muitos anos, a contemporaneidade portuguesa,
dedicando-se à História da Imprensa e às releituras da historiografia política

227
Capítulo 8

mais recente, Tengarrinha escreve adotando o fim e a norma do conhecimen-


to histórico. O discurso, portanto, se obriga representar a complexidade de um
problema histórico, conforme a intencionalidade pedagógica, de maneira a
efetivar o compromisso entre o saber e a imparcialidade ética.
Essa preocupação do autor estabelece um parâmetro narrativo que se
apresenta em blocos de sentido. Essa forma de escrita, se me for possível abu-
sar de uma imagem, é aquela que provém da seguinte situação educacional:
uma questão surge em sala e, após ouvir atentamente a demanda, o professor
levanta-se, toma nas mãos o giz, como se estivesse segurando a interrogação,
caminha para lousa e estabelece um raciocínio, provendo de claro àquilo que
é, em si, já intricado por natureza temporal.

Alguns escritos do autor:

Obra política de José Estevão. Lisboa: Portugália, 1962 e 1963. 2 v.;


História da imprensa periódica portuguesa. Lisboa: Portugália, 1965.
Movimentos populares agrários em Portugal. Mem Martins: Europa-América,
1994. 2 v., v. 1: 1751-1807, v. 2: 1808-1825; Estudos de história contemporânea
de Portugal. Lisboa: Caminho, 1983; Da liberdade mitificada à liberdade subver-
tida: uma exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a
1828. Lisboa: Colibri, 1993; Movimentos populares agrários em Portugal.
Lisboa: Europa-América, 1994. II: 1808-1825, p. 11-63. Regeneração: a vira-
gem indispensável no processo do capitalismo em Portugal. In: MEDINA, J.
(Dir.). História contemporânea de Portugal. [Lisboa: Amigos do Livro, 1985]
v. I, p. 127-136; 1870-1890: Charmeira entre o velho e o novo Portugal. In:
MEDINA, J. (dir.) História contemporânea de Portugal. [Lisboa: Amigos do
Livro, 1985]. v. I, p. 177-196. Movimento grevista e sociedade em movimen-
to: uma perspectiva histórica até 1920. In: Estudos de História Contemporânea
de Portugal. Lisboa: Caminho, 1983. p. 35-83; Os caminhos da unidade demo-
crática contra o Estado Novo. Separata de: Revista de História das Idéias,
Coimbra, 16, 1994; Combates pela democracia. Lisboa: Seara Nova, 1976.
Retornando, apresento a segunda tendência que se nomeia de “revalori-
zação da narrativa”. Quero primeiro citar três expressivos representantes, Nuno
Severiano Teixeira, Maria de Fátima Bonifácio e Vasco Pulido Valente; haveria
outros com certeza. Após tal recorrência, falo: a questão da narrativa ganharia
muitas páginas e pouca eficiência teórica no domínio historiográfico se, aqui, se

228
Capítulo 8

desejasse dar-lhe trato. Muitas coisas foram ditas, interessantes ou desprezíveis,


contudo, devo pensar a partir da teoria do relato. Sendo deste modo, apenas
aprecio a fixação ao infinito do horizonte narrativo como sua dificuldade.
Nela, os acontecimentos, os fatos, as questões, as hipóteses, as perspec-
tivas, sem evitar a pergunta se o pensamento não se torna “novela”, deveria
supor as potências narrativas em graus superpostos; de forma a criar uma con-
seqüência no absoluto. Ou seja: dar sentido vivificante a uma história em que
nenhum documento, conceito, categoria e similares pudessem, sequer ousar
em pedir equivalência à verdade na escrita.
Mas como tal grau de eficiência da dificuldade narrativa não acontece
na historiografia portuguesa, sendo muito difícil no meio de historiadores de
todos os lugares encontrar qualquer evidência disso, a apreensão genérica da
disciplina ganha mais um “filho legítimo”. A manutenção dos aparatos narra-
tivos admissíveis no ofício, mesmo que haja mais elasticidade, não chega
nunca a ser fábrica e, nem tampouco, mundo virtual.
Outra que se segue no âmbito das novas tendências é a denominada por
termos tais: Biografia, Prosopografia e Estudo das Elites. Entre seus representan-
tes se encontram Amadeu Carvalho Homem, Alexandre M. Flores, Pedro
Freiras e João Barroso da Cunha Montes.
Nessa ampla tendência historiográfica, conforme a teoria do relato, vê-se
o efeito narrativo que se nega a perceber o próprio movimento. Digo sobre o
mecanismo retórico que aprecia não a exploração da ação opaca da ficção, mas
a investigação dramatizada das vidas como alegoria fática dos dados históricos.
Em tal forma, longe de ser uma propriedade da historiografia portugue-
sa, concebe-se o benefício da sedução narrativa que vem impressa nos dados
históricos (como equivalente à curiosidade do leitor médio e letrado); ao preço
do abandono ou da mutilação das potências de interferência que se delimitam
as margens da comunicação escrita – expressão, sonhos, delírios, etc.
A próxima chama-se a Nova História Regional e Local. Seus maiores
representantes são Reis Torgal, Amado Mendes e António de Oliveira.
Encontra-se nessa tendência a questão de como fraturar a universalidade
expressa na palavra história. O condicionamento de particularidades, só loca-
lizadas num singular espaço, recomenda atenção e cuidado dos historiadores
envolvidos nessa perspectiva.
O risco de a proeza investigativa cair nos braços da descrição, conforme
um anseio antropológico, é bastante evidente, para que, aqui, se comente. Essa
“esperança historiográfica” talvez seja a mais pertinente garantia dos desvios

229
Capítulo 8

anunciados. A demarcação de um espaço regional, com dada identidade, pode


sugerir a sobrevida de um desígnio para a metamorfose do mercantil. Isto é:
numa sociedade de convergência absoluta à equivalência genérica entre as coi-
sas, homens e idéias, um certo produto exótico é mercadoria cara ou curiosa –
como a correspondência existente entre um diamante na vitrine, numa loja
cara, e o artesanato sob a barraca de rua; onde ambas atingem o mesmo aspec-
to social da curiosidade identificadora.
Sendo assim, o que cabe à teoria do relato dizer é: a mudança no pensa-
mento, sobre o pedestal ou o instrumento rústico daquele idêntico, arranca o
conteúdo objetivo de um problema e o modela num teatro. Logo, a escrita esta-
belece, por capacidade ilusionista, um pensamento de dentro daquela identida-
de regional. E quando o faz, forma um espaço mercantil onde os olhos do histo-
riador, suas mãos, e as coisas eleitas, entram numa curiosa economia política;
cujo valor de troca já se colocou como substituto inalienável da crítica.
Por fim, a tendência historiográfica denominada a História e as
Mulheres ou de Gênero. Alguns de seus maiores representantes historiográfi-
cos são: Manuela Silva, Joaquim Ferreira Gomes, Maria Regina A. Tavares
da Silva, Irene Maria Veguinhas. De acordo com o direito adquirido, nada há
a opor. Contudo, a forma da escrita quase sempre engajada, a priori, já
comunga um dos desvios enunciados. Falo do segundo, aquele em que as
Idéias nada mais são do que discursos naturais à história; mas que nessa
“esperança” é agravado.
Nesse tipo de escrita da história, o admissível é uma maneira de acesso
às operações que dissimulam a dificuldade narrativa. A miséria do discurso é
um padrão comum, pois o ato de discípulo aos imperativos do presente dirige
as reprovações a valores que os mesmo inventam. A abdicação imperiosa de
problemas afeta, enormemente, a posição da crítica nesse andamento históri-
co. Parece ser uma perspectiva muito presa ao que posso chamar de exporta-
ção cultural e a sua correspondente penúria discursiva.
Para que houvesse de fato uma historiografia com tal “esperança”, a ana-
cronia ou ucronia deveria tornar-se o ápice do processo narrativo. Isto porque,
lá onde falta equivalência, urge perceber as operações de desvelamento nos
relatos – teóricos sempre. Mas como as Idéias nada mais são do que discursos
naturais à História, a abordagem da dificuldade da narração não acontece. Se
ocorresse, a língua do pensamento encontraria a potência dos níveis de terre-
no, onde as marcas temporais demonstrariam a necessidade do cunho ocasio-
nal do traço de um problema.

230
Capítulo 8

Claro que era passível trazer ao texto outras tendências. Contudo, as


que não denominei estão – melhor seria dizer, deveriam – nos limites da
apreensão comum da disciplina. Digo sobre a História da Arte – tendo como
representantes, principalmente, José Augusto França; como também a Jorge
Henrique Pais da Silva, Paulo Pereira e Pedro Dias –; sobre a Arqueologia his-
tórica na pessoa de Jorge Custódio, Amado Mendes, Paulo Oliveira Ramos; e
até a denominada História e Cultura Pré-Clássica e seus dignos representantes:
Oliveira Jorge, Cláudio Torres, João Carlos de Sena Martinez e outros. Logo,
devo retomar a abertura dessa parte do capítulo sobre a historiografia pós-
1974, dando fim ao corpo do trabalho.
Os disse cansados e que a postura sedentária garantiu a permanência
do nome próprio História (agora na sua mais grave difusão: as muitas revistas
acadêmicas e as histórias gerais, ao gosto do leitor médio). Mas, ao falar, não
convoquei a máxima de que abril pode ser o mais cruel dos meses, mesmo
tendo toda a graça da liberdade; pois a mistura de memória e desejo aviva as
chuvas da primavera. Avivadas, secos tubérculos institucionais da História, que
ainda restavam vivos, ficaram em flor também.
Se antes alguns historiadores, pré-1974, que viveram os anos negros da
Ditadura, responsabilizavam-se pelo mundo e, depois escreviam História; pós-
1974, a maior tendência historiográfica é aceitar o encargo de ficar tomando
conta da disciplina (não só em Portugal). Nesse “novo” e tão recente lugar, as
tensões entre eras, épocas, períodos, qualquer coisa que valha, tão distintos,
quanto próximos, ficam à mercê da boba vigilância de quem é ou não anacrô-
nico; de quem é ou não empirista; de quem é ou não moderno e pós-moder-
no; de quem é ou não desta e daquela escola.
Assim sendo, a herança não pode receber mais a contemporaneidade
que lhe aguardava – este seria o seu tempo. Ou seja: narrar a dificuldade da
narração, perante aqueles historiadores não alinhados ao fascismo, é encontrar
recursos históricos, lá no limite, onde se aprende a maneira por que é dito o
desacordo entre os homens e o mundo. Mas como se está a se responsabilizar
pela matéria, a antecena daquele acontecimento, nunca mais possível, passou-
se à hora, é a medida grave da frouxidão dos problemas e das questões. O
nomadismo inerente à Revolução dos Cravos não pode impedir a institucio-
nalização da velha senhora, a História.

231
Capítulo 8

NOTAS COMPLEMENTARES
Os autores e as correspondentes obras que serão listados, por cortes tra-
dicionais à História, mesmo que já tenham comparecido no corpo do traba-
lho, apenas formam um panorama da historiografia portuguesa recente. Não
se quer, aqui, estabelecer critérios de valor, em desuso, para tê-los fora ou den-
tro do texto, e nem esgotar a bibliografia que o tema exige.
No entanto, muitos dos que a seguir estarão presentes assumiram
papéis de destaque na produção histórica em Portugal; confirmando a tendên-
cia historiográfica proveniente da liberdade pós-25 de bril. Caso alguma omis-
são aconteça, minhas sinceras desculpas. Caso meu conhecimento não seja tão
exaustivo como deveria ter sido necessário, novas escusas. Por fim, ao julga-
mento dos leitores a contribuição que se faz possível.

Estudos medievais

Aurélio de Oliveira

A Crise de 1383/85 e os fundamentos econômicos e sociais da


Expansão ultramarina portuguesa. Revista da Faculdade de Letras, História,
Porto, 2 ª. série, 3, p. 7-50, 1986.

Iria Gonçalves

O patrimônio do mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV. Lisboa:


UNL, 1989.

José Marques

Os municípios portugueses dos primórdios da nacionalidade ao fim do


reinado de D. Dinis: alguns aspectos. Revista da Faculdade de Letras, História,
Porto, 2 ª. série, 10, p. 71-90, 1983; D. Afonso IV e as jurisdições senhoriais.
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Capítulo 8

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Lisboa: Cosmos, 1992; Poder régio e liberdades eclesiásticas: 1383-1450. 1993.
Tese (Doutorado) – FLUL, Lisboa, 1993. 2 v.

Pedro Gomes Barbosa

Povoamento e estrutura agrícola na Estremadura Central: séc. XII a 1325.


Lisboa: Ed. A., 1988. 2 v.

Robert Durand

Os campos portugueses entre Douro e Tejo, sécs. XII e XIII. Lisboa:


[s.n.] 1982.

Valentino Viegas

Cronologia da Revolução de 1383-1385. Lisboa: Estampa, 1984; Lisboa, a


força da Revolução (1383-1385). Lisboa: Livro Horizonte, 1985; A Revolução de
1383-1385. In: ALBUQUERQUE, Luís (Dir.). Portugal no mundo. Lisboa:
Seleções do Reader’s Digest, D. L. 1993. v. 1, p. 89-100.

História moderna

Valentin Alexandre

Origens do colonialismo português moderno. Lisboa: Sá da Costa, 1976.

António Dias Farinha

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233
Capítulo 8

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António Marques de Almeida

Os livros de aritmética 1519-1679: subsídios para a história da mentali-


dade moderna em Portugal. Tese (Doutorado) – FLUL, Lisboa: Ed. A., 1989. 3
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Internacional de História da Madeira, 3º. , Funchal, 1992, [Actas] Funchal,
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Incunábulos portugueses em latim (1494-1500). Coimbra: [S. H.], 1979;


Das origens da imprensa em Portugal. Lisboa: IMCM, 1981.

Aurélio de Oliveira

A abadia de Tibães – 1630/80-1813: propriedade, exploração e produção


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Contabilidade monástica e produção agrícola durante o Antigo Regime: os dízimos
do mosteiro de S. Tirso 1626-1821. Porto: Ed. A., 1979; Contribuição para o estu-
do das revoltas e motins populares em Portugal: as sublevações de Viana do Castelo
em 1636. Porto: Ed. A., 1979; A renda agrícola em Portugal durante o Antigo
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258
Capítulo 8

Tereza Rodrigues

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NOTAS
* PUC-Rio de Janeiro.
** Prof. Visitante do Instituto de Letras da UERJ.
*** Doutoranda do PPGHSC da Puc – Rio.
1 LOPES, Fernando Fardo. Antônio Sérgio na “Renascença Portuguesa”. Revista de
História das Idéias, 5; Antônio Sérgio. Coimbra: Instituto de História e Teoria das
Idéias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1983. 2 v., p. 408.
2 GODINHO, Vitorino Magalhães. Antônio Sérgio: presença no passado, presença no
futuro. In: ______. Ensaios. Humanismo científico e reflexão filosófica. Lisboa: Sá da
Costa, 1971. v. 4, p. 263-270.
3 GODINHO, Vitorino Magalhães. Mito e mercadoria, utopia e prática de navegar.
Séculos XIII-XVIII. Lisboa: Difel, 1990. p. 19. Nesse mesmo texto Godinho nota a
influência de Antônio Sérgio na obra de Jaime Cortesão.
4 SÉRGIO, Antônio. Correspondência para Raul Proença. Lisboa: D. Quixote/Biblioteca
Nacional, 1987. Carta n. 77 de 9 ago. 1923, p. 167.
5 SÉRGIO, Antônio. Breve interpretação da história de Portugal. 10. ed. Lisboa: Sá da
Costa, 1981.
6 Ibid., p. 1.
7 SÉRGIO, Antônio. Obras completas: ensaios. 2. ed. Lisboa: Sá da Costa, 1977. t. II, p. 27.
8 SERRÃO, Joel. Poesia, invenção do homem (dedicado ao poeta Eugénio de
Andrade). In: ______. Portugueses somos. Lisboa: Horizonte, 1975.
9 Ibid., p. 119.
10 MARQUES, A. H de Oliveira. Introdução à História dos Gatos em Portugal. In: A his-
toriografia portuguesa hoje. Coord. José Tengarrinha. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 46-47.
11 DIAS, J. S. da Silva. Os descobrimentos e a problemática cultural do século XVI.
Lisboa: Presença, 1982. p. 261-262.
12 Essa parte do texto não teria sido possível sem a pesquisa bibliográfica dos alunos
Denise Pires de Andrade e Wanderlei Barreiro Lemos.
13 Além dos historiadores que estarão no corpo do texto, apresento outros em Notas
complementares. Faço-as localizando a produção historiográfica, conforme nomes e
obras sugeridas por José Manuel Tengarrinha no livro Historiografia luso-brasileira
contemporânea, publicado pela Edusc. Chamo-as de Notas complementares em
razão de serem, antes, anexos, sem qualquer influência nas linhas que se seguirão.

259
Capítulo 8

14 MATTOSO, José. A escrita da história: teoria e métodos. Lisboa: Estampa, 1988. p. 27.
15 HESPANHA, António Manuel. O debate acerca do “Estado Moderno”. In: A historio-
grafia portuguesa hoje. Coord. José Tengarrinha. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 144-145.
16 PEREIRA, Mirian Halpern. A política de emigração portuguesa (1850-1930). In: A his-
toriografia portuguesa hoje. Coord. José Tengarrinha. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 183.
17 MENDES, José M. Amado. A emigração portuguesa nas óticas de Alexandre
Herculano, Oliveira Martins e Afonso Costa. Separata de Revista Portuguesa de
História, Instituto de História Econômica e Social da Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, t. XXIV, p. 294, 1990.
18 COELHO, António Borges. Tópicos para o estudo da relação Universidade e
Inquisição (séculos XVI-XVIII). In: ______. Clérigos, mercadores, “judeus” e fidal-
gos. Lisboa: Caminho, 1994. p. 245-258.
19 TORGAL, Luís Reis. Ideologia política e teoria do estado na Restauração. Coimbra:
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1981. p. XI.
20 RAMOS, Luís A. de Oliveira. Sob o Signo das “Luzes”. Lisboa: Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 1988. p. 9.
21 CATROGA, Fernando. O céu da memória – cemitério romântico e culto cívico dos
mortos. [Coimbra]: Minerva, 1999. p. 315.
22 BARRETO, Luís Filipe. Caminhos do saber no Renascimento Português – estudos de
história e teoria da cultura. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986. p. 315.
23 TENGARRINHA, José. Os caminhos da unidade democrática contra o Estado
Novo. In: A historiografia portuguesa hoje. Coord. José Tengarrinha. São Paulo:
Hucitec, 1999. p. 229.

260
Capítulo 9

A HISTORIOGRAFIA LATINO-
AMERICANA DA QUESTÃO NACIONAL:
NAÇÕES INACABADAS; INIMIGOS
DA NAÇÃO E A ONTOLOGIA
DA NACIONALIDADE

Claudia Wasserman*

Esse artigo pretende discutir o percurso historiográfico da problemáti-


ca nacional na América Latina. Entender obras e trabalhos que se dedicaram à
questão nacional como parte de um conjunto articulado de estudos sobre o
mesmo tema permitem desvendar algumas das principais tendências historio-
gráficas presentes nos países latino-americanos, já que esses temas – naciona-
lismo, nacionalidade, construção das nações e identidade nacional – expres-
sam e simbolizam importantes problemas subcontinentais.
Por se tratar de um tema da História que já possui uma trajetória vasta
e importante, contendo tantas controvérsias e revisões, entendo a necessidade
de mapear e analisar o percurso e o desenvolvimento dos estudos históricos
acerca desse conhecimento específico.
O estudo da questão nacional na América Latina comporta dois
níveis discursivos que me interessam: o discurso político e o discurso histo-
riográfico. Suas análises devem contemplar a dimensão temporal-espacial,
as condições concretas da realidade circundante e a história de vida do
sujeito que enuncia. Sendo enunciados nas mesmas circunstâncias, os dis-
cursos cientifico e político se confundem e estão de tal maneira imbricados
que se pode aventar a hipótese da existência de uma certa influência de um
sobre o outro. No tocante à questão nacional, os trabalhos de Ciências
Sociais (História, Sociologia, Ciência Política) e os discursos políticos têm
traços muito semelhantes.

261
Capítulo 9

Num primeiro momento, até o período que se abre com a 1.ª Guerra
Mundial, os discursos político e historiográfico estiveram altamente influen-
ciados pelos modelos estrangeiros. As nações européias serviam de parâmetro
ideal para a análise das realidades latino-americanas e o paradigma civilizató-
rio era tido como meta a ser alcançada. A partir da 1.ª Guerra Mundial, polí-
ticos e intelectuais latino-americanos perderam as ilusões acerca dos modelos
estrangeiros, mas a desilusão não se traduziu na busca de alternativas viáveis
para o desenvolvimento interno. Embora o marxismo, de um lado, e o nacio-
nalismo, de outro, tenham feito sucesso na América Latina na primeira meta-
de do século 20, os discursos político e historiográfico mantiveram-se fiéis à
busca da almejada “civilização” contra a “barbárie” e do “desenvolvimento”
contra o “subdesenvolvimento”. O mito do progresso e das “luzes” continuou
sendo propalado no discurso modernizador e, sobretudo, o discurso político
seguiu exaltando os valores da sociedade moderna ocidental e isso teve efeitos
semelhantes no campo historiográfico.
Em relação à questão nacional latino-americana, a identidade entre os
dois tipos de construção discursiva pode ser identificada em pelo menos três
pontos: a idéia de que o processo de construção nacional na América Latina
ficou incompleto, a noção de que há obstáculos concretos para alcançar a for-
mação nacional e a identificação de inimigos da nação, ou seja, aqueles que
estariam em oposição à completude do processo. Essa semelhança entre o dis-
curso político oficial – enunciado por frações das classes dominantes latino-
americanas – e o pensamento historiográfico renovam a conclusão de que as
idéias não estão desfocadas ou “fora do lugar”, mas influenciadas direta ou
indiretamente pelos interesses das classes dominantes, ainda que não cons-
cientemente. Essas observações preliminares levam a pensar que, quando se
analisa a hegemonia das classes dominantes, ou o domínio das elites, esses pro-
cessos não ocorrem apenas e tão somente nos universos do mercado e da polí-
tica, mas também têm grandes implicações no mundo do saber.
A preocupação com a revisão da literatura acerca do tema tem como
objetivo não percorrer, sem necessidade, um caminho que muitos já traçaram;
mas, também se justifica pela observação de tendências historiográficas que
remetem a um equívoco de enfoque sobre a centralidade do problema nacio-
nal no subcontinente: a tendência a tomar exemplos históricos longínquos
como modelos ideais e da idéia de existência ontológica das nações latino-
americanas. Com base na teoria geral contemporânea sobre a construção das
nações modernas, desaprovo as idéias de existência ontológica e tento me

262
Capítulo 9

colocar mais próxima dos autores que pensam a nação como uma relação
social específica de um determinado momento no desenvolvimento econômi-
co, tecnológico e social de cada país.
Um dos temas mais discutidos entre os teóricos da questão nacional é o
que diz respeito às origens da nação moderna. Com poucas exceções,1 esses
autores situam seu aparecimento no período de transição ao capitalismo e
insistem na íntima relação dessas “novas unidades” com o Estado. Muito
embora a discussão da gênese das nações modernas gere um confuso debate
entre historiadores, sociólogos e teóricos da filosofia política, algumas premis-
sas básicas são aceitas integralmente.
Segundo Anderson, por exemplo, “a convergência do capitalismo e da
tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a
possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada”. Para ele, as
nações modernas são “comunidades imaginadas” e a possibilidade histórica de
imaginar esse tipo de unidade só ocorreu de fato quando três conceitos cultu-
rais básicos da sociedade medieval entraram em decadência: a idéia de uma
língua escrita monopolizada por elites religiosas, a crença da sociedade orga-
nizada de maneira natural em torno de dogmas hierárquicos e a concepção de
temporalidade, relacionada a paradigmas messiânicos.2
Hobsbawm também entendeu a necessidade de situar o aparecimento
do fenômeno nacionalidade na história. Ao discutir a conveniência do levan-
tamento de critérios que possibilitem distinguir uma nação de outras entida-
des, observa que: “Todas as definições objetivas falharam pela óbvia razão de
que, dado que apenas alguns membros da ampla categoria de entidades que se
ajustam a tais definições podem, em qualquer tempo, ser descritos como
nações, sempre é possível descobrir exceções.”3 O autor descarta também os
critérios chamados “subjetivos”, segundo os quais o que determinaria a exis-
tência de uma nação seria a “vontade” de ser dos habitantes de certo território
ou sua consciência de pertencer àquela unidade. Esses critérios, segundo
Hobsbawm, levariam a extremos de voluntarismo e somente serviriam para
determinar a existência de uma nacionalidade a posteriori. Neste sentido, con-
clui que: “a nação pertence exclusivamente a um período particular e histori-
camente recente. Ela é uma entidade social apenas quando relacionada a uma
certa forma de Estado territorial moderno, o Estado-nação: e não faz sentido
discutir nação e nacionalidade fora desta relação”.4 Hobsbawm ainda adverte
que “a questão nacional (...) está situada na interseção da política, da tecnolo-
gia e da transformação social”,5 ou seja, a existência da nação exigiu historica-

263
Capítulo 9

mente uma série de transformações tecnológicas que ocorreram justamente


no período de transição ao capitalismo, e mais especificamente à época da
criação da imprensa, da alfabetização e escolarização em massa que permiti-
ram a universalização do fenômeno e a própria adesão às novas entidades.
Ambos os autores citados, Hobsbawm e Anderson, recorrem, no entan-
to, a Ernest Gellner para explicar o aparecimento concreto das nações moder-
nas. Foi Gellner quem introduziu as noções de “invenção”, “artefato” e “enge-
nharia política” no debate em voga. Segundo ele, “

É o nacionalismo que dá origem às nações, e não o contrário. (...) é possível revi-


vificar línguas mortas, inventar tradições, restaurar antigas essências bastante fictícias.
No entanto, este aspecto, culturalmente criativo, imaginativo, positivamente inventi-
vo, do ardor nacionalista não deveria permitir que ninguém concluísse erradamente
que o nacionalismo é uma invenção ideológica, contingente e artificial(...)”.6

Ao advertir para o fato de que o nacionalismo não é uma “força


maquiavélica”, capaz de “despertar” nações adormecidas, Gellner quer dizer
que não se pode inferir dessas idéias uma existência ontológica para as nações,
pois o próprio nacionalismo é “conseqüência de uma nova forma de organiza-
ção social, baseada em culturas eruditas profundamente interiorizadas e
dependentes do fator educação, sendo cada uma delas protegida pelo seu pró-
prio Estado”.7 Ou seja,

“As nações, como modo natural e divino de classificar os homens, como um


destino político inerente, embora longamente retardado, são um mito. (...) As
nações não estão inscritas na natureza das coisas, não constituem uma versão polí-
tica da doutrina dos seres naturais. Nem tão-pouco os Estados nacionais represen-
tam o destino último dos grupos culturais e étnicos.”8

A título de conclusão,9 pode-se afirmar que as nações são, aos olhos dos
cientistas sociais contemporâneos, fenômenos objetivamente modernos e
situados historicamente no processo de transição ao capitalismo e que tiveram
sua origem no poder dos nacionalismos, ou melhor, na força de projetos
nacionalizantes, projetos que demandavam autonomia para determinada
região, ou que visavam unidade e centralização política, ou ainda, evocavam a
valorização cultural de determinados grupos sociais e outros.
Neste artigo, pretendo discutir como a historiografia latino-americana
contemporânea considera essa problemática: em que momento histórico
situam o surgimento das nações e nacionalidades latino-americanas? Quais os

264
Capítulo 9

elementos ou critérios eleitos pela historiografia para designar “nações” aos


países da América Latina? E, principalmente, vou discutir as questões que apa-
recem nos estudos latino-americanos sobre as identidades nacionais: as idéias
de existência ontológica das nações da América Latina, inimigos da nação,
incompletudes, desvios, deformações e outras.
Grande parte da historiografia latino-americana considera as identida-
des nacionais como dados empíricos concretos, e as nações, como entidades
sociais originárias, que estiveram presentes desde o período pré-colonial, para
alguns, desde a colônia, para outros e, no mínimo, desde as independências.
Muitas vezes, como no caso dos militares que participaram dos movimentos de
independência, essas idéias eram o fruto de um desejo de que existissem nações
e nacionalidades nesses territórios, e não da observação atenta e descompro-
missada desses políticos. Em outros casos, os políticos e pensadores que formu-
laram as idéias de identidades nacionais originárias estavam com sua visão obs-
curecida pela atração que os modelos francês, inglês ou norte-americano exer-
ciam sobre eles. Assim, ao se deparar com a realidade latino-americana e com
as dificuldades de implantação de ordenamentos estáveis em todo o subconti-
nente, os autores acabavam achando que a América Latina tinha desvios e defor-
mações no processo de formação nacional, ou que esses processos estavam
ainda inacabados.Essas características do pensamento latino-americano em
relação à questão nacional – existência ontológica de nações, atração por mode-
los externos, identificação de desvios e deformações no processo de formação
das nações e as idéias de incompletude e frustração na constituição dessas enti-
dades sociais – estão presentes em toda a história do subcontinente e trouxeram
conseqüências no campo da historiografia e também conseqüências político-
sociais, como por exemplo a idéia da existência de inimigos da nação, responsá-
veis pela obstaculização do processo de formação nacional, responsáveis pela
incompletude do processo, pelos desvios e pelas deformações.
“Classe e Nação” é título de pelo menos dois estudos sobre nações dos
anos 1980. O livro de Ricaurte Soler, editado na Espanha em 1981,10 e o de
Octávio Ianni, editado no Brasil em 1986,11 abordam a mesma temática e pos-
suem a mesma perspectiva de “nação incompleta”: “A nação da burguesia não
compreende a nação do povo. Os camponeses, mineiros, operários e outras
categorias sociais, ou índios, mestiços, negros, mulatos, brancos e outros cons-
tituem uma espécie de nação invisível; aparentemente invisível”.12

265
Capítulo 9

Ou de “nação frustrada”: “No obstante, sus limitaciones y contradicciones el


liberalismo constituyó un poder social nacional (...) Ese poder social, es sabido, fra-
casó en su intento de estructurar Estados nacionales económica y, por lo tanto, real-
mente independientes. Fracasó. Se conservatizó. Degeneró. Fue literalmente absor-
bido por el imperialismo.”13

As noções de incompletude e frustração, no que diz respeito à questão


nacional, estão presentes em outros autores, como por exemplo Luis Vitale: “La
burguesía criolla resolvió a medias la cuestión nacional. (...) La persistencia de
problemas nacionales irresueltos, como la variedad de etnias y lenguas, fue un
obstáculo para el desarrollo de una literatura nacional masiva en el siglo XIX.”14
São freqüentes na historiografia latino-americana as idéias de nações
incompletas, revoluções inacabadas ou movimentos sociais frustrados.15 Todas
estas denominações apresentam-se como uma espécie de premonição que não
foi cumprida conforme o esperado. O texto de Alejandro Serrano Caldera ilus-
tra perfeitamente esse entusiasmo na adoção de modelos: “La nación europea
que se forja en el siglo XVI, trata de formarse en los países de América Latina
en el siglo XIX y en el siglo XX sin haberlo logrado del todo.”16
Existem dois problemas a serem discutidos nessas concepções; em pri-
meiro lugar, está presente a premissa da frustração no processo de construção
da nação na América Latina, exemplificado também pelas denominações de
nação incompleta ou inacabada. E nota-se, também, a idéia subliminar, mas
não menos persistente, da preexistência de nações aos processos empíricos
escolhidos como referência para o seu aparecimento concreto. As duas ques-
tões problemáticas têm a mesma natureza, dizem respeito ao conceito de
nação e a definição dos termos correlatos, como identidade nacional, naciona-
lismo, integração nacional, etc. Além disso, remetem para o problema das ori-
gens da nação na América Latina. Enquanto Soler admite que os liberais do
século 19 tinham um projeto nacional que foi frustrado pelo processo de “con-
servantização” dessas elites,17 Ianni remete o problema para o século 20 e, mais
especificamente, aos processos de revolução burguesa que, com exceção do
México (1910), ele localiza a partir dos anos 1930 e 1940.18
A idéia de frustração no processo de construção da nação supõe que os
autores contemporâneos estão diante de um modelo pré-determinado.
Ricaurte Soler, por exemplo, atribui aos liberais do século passado o mesmo
papel que tiveram as burguesias européias ao longo do século 18, na progres-
siva dissolução das relações servis, expansão do modo de produção capitalista
e no processo de construção das nações modernas. Daí a impressão de frustra-

266
Capítulo 9

ção que emerge da conclusão do autor: os liberais não completaram o projeto


nacional; deixaram-no inacabado. Entretanto, sabemos que não o fizeram, jus-
tamente porque não eram burgueses, não estavam na Europa e não eram
porta-vozes de um processo revolucionário. Preocupado com um período his-
tórico posterior, localizado no começo do século 20, Octávio Ianni também
demonstra uma excessiva preocupação em submeter a problemática nacional
latino-americana a um modelo pré-concebido: “Em síntese, a revolução bur-
guesa latino-americana não resolve a questão nacional. Produz escassa articu-
lação da sociedade civil com o Estado. Pouco faz no sentido de favorecer, ou
generalizar, a metamorfose da população em povo, cidadãos.”19 Ianni está se
referindo, evidentemente, às revoluções burguesas européias e ao processo de
democratização política decorrente daqueles movimentos. A própria definição
de revolução burguesa para os países latino-americanos permanece em ampla
discussão, a maior parte dos autores que a discute prefere analisar se as tarefas
de implantação e consolidação do modo de produção capitalista foram ou não
cumpridas a se arriscar no duvidoso terreno da efetivação da revolução, a
exemplo dos processos europeus.20
A crítica que está se fazendo aqui não está relacionada com a adoção de
modelos históricos comparativos, mas, sim, com a idéia da existência de
modelos ideais. O continente europeu foi pioneiro no processo de desenvolvi-
mento do modo de produção capitalista, na constituição de Estados nacionais
e na discussão dos problemas relativos à nação e nacionalidades. Estudar e dis-
cutir outros casos empíricos com base no exemplo ocorrido em primeira mão
é altamente pertinente no processo de construção do conhecimento histórico.
Deve-se, no entanto, evitar a tentativa de encontrar os mesmos resultados. A
conseqüência deste tipo de análise, que toma como modelo ideal a construção
das nações européias, tem sido a inútil verificação de “deformações, desvios,
incompletudes e frustrações” no processo de construção da nação nos países
da América Latina, ou no subcontinente como um todo.
O texto de Marcos Kaplan ilustra o desejo implícito de cópia do
modelo e a verificação de sua impraticabilidade:

“A idéia nacional e a vontade de construir o novo Estado sobre e dentro de


grandes marcos geográficos conservam um caráter de abstração e impraticabili-
dade até hoje. Difundem-se e concretizam-se de modo lento e incompleto. (...)
Corresponde à integração superficial um fraco aparecimento do sentimento
nacional, não só a nível latino-americano mas também no plano mais localizado
dos novos Estados emergentes.”21

267
Capítulo 9

O paradigma europeu foi utilizado desde o período emancipacionista,


pelos militares que participaram dos processos de independência. Bolívar, San
Martin e Moreno foram exemplos de líderes dos processos de independência
que, diante da necessidade de afirmar os novos Estados que surgiram com o
fim da dominação metropolitana, ficaram fascinados com o modelo norte-
americano. Os exemplos da França e da Inglaterra também estimularam o
desejo de construção de uma grande nação latino-americana ou, pelo menos,
de várias grandes nações. O conteúdo do Plano Revolucionário de Operações
de 1810, atribuído a Mariano Moreno,22 dos escritos de José Maria Morelos,23
no México, e dos Manifesto de Cartagena e Carta de Jamaica,24 escritos por
Bolívar em 1812 e 1815, respectivamente, são documentos históricos que ates-
tam a adoção de idéias anti-hispânicas, o forte desejo de transpor a experiên-
cia norte-americana ao subcontinente e a convicção da existência de uma
comunidade nacional culturalmente identificada que antecedia a luta pela
emancipação. Nesses textos, identifica-se claramente a idéia de preexistência
de uma identidade coletiva, mas também o indício da confusão espacial que
acompanhou o pensamento do século 19: qual a dimensão da identidade exis-
tente? Continental, nacional ou provincial? Esse é um dos temas que a histo-
riografia contemporânea tentará responder.
A versão desses líderes dos processos de emancipação estava carregada
de subjetividade; são textos impregnados de adjetivos e imagens com forte
conteúdo valorativo; seus autores se propunham metas políticas e militares
que pareciam inadiáveis. Na realidade, entretanto, o acirramento dos localis-
mos e um processo de ruralização, iniciados no final do século 18 e aprofun-
dado na época das reformas bourbônicas, tornava cada vez mais difícil a apro-
ximação entre as diversas regiões do subcontinente e, até mesmo, a implanta-
ção de ordenamentos estáveis em países que no período colonial se consti-
tuíam como unidades administrativas.
Embora a realidade concreta dos países latino-americanos insistisse em
contrariar as afirmações de Bolívar, San Martin, Hidalgo, Morelos e Moreno,
entre outros, todas essas idéias acerca dos traços de identificação desses povos
passaram a fazer parte do repertório principal do pensamento político da
América Latina. Políticos e intelectuais passaram, então, a considerações sobre
quais eram os obstáculos que impediam a concretização do que era considera-
do um dado cujos elementos principais estavam presentes e que só faltava a
conclusão do processo: a constituição das novas nações.
A historiografia do século 19 esteve marcada pela caracterização dos

268
Capítulo 9

obstáculos à consolidação das nações latino-americanas e pelas tentativas de


solucionar os problemas que se apresentavam à construção das novas nacio-
nalidades. Uma das principais características do pensamento pós-independên-
cia foi a apreciação dos modelos políticos que tinham sido capazes de superar
as dificuldades de união nacional, centralização política ou imposição de orde-
namentos estáveis. Liberais ou conservadores no campo do pensamento polí-
tico, os autores desse período, como por exemplo, Sarmiento25 e Alberdi,26 na
Argentina; Lucas Alamán27 e José María Luis Mora,28 no México; e Francisco
Adolfo de Varnhagen,29 Capistrano de Abreu30 e Euclides da Cunha,31 no Brasil,
não eram historiadores ou acadêmicos propriamente ditos, mas suas obras
alcançaram alto grau de dedicação à investigação histórica e possuem grande
valor documental. Preocupados com os problemas constitucionais dos novos
países e com a orientação econômica dos governos, foram influenciados pelo
cientificismo que dominava a Europa e atribuíam aos fenômenos da natureza
– geografia e clima – e aos fatores raciais, como a mestiçagem, todas as causas
dos problemas latino-americanos.
Terra, clima e raça constituíam-se como chaves interpretativas dos movi-
mentos políticos, culturais e sociais e como explicações dos infortúnios dos novos
países e de seu desenvolvimento inferior frente aos Estados Unidos, por exemplo,
povoado por colonos anglo-saxões. Propugnavam o branqueamento da popula-
ção, através do extermínio do elemento índio ou negro e da imigração massiva de
europeus. As idéias de superioridade da raça branca eram tão marcantes no pen-
samento político da época que mesmo os espanhóis ou latinos eram preteridos
em relação ao tipo anglo-saxão. Essa geração de intelectuais repudiava os valores
ibéricos e preferia leituras francesas e inglesas. Mas o afastamento cultural das
antigas metrópoles não ocorreu com facilidade em todos os casos. Os autores do
século passado dividiam-se entre o alinhamento ou rompimento definitivo com
os valores da cultura metropolitana. Os liberais, influenciados pela Ilustração
francesa, consideravam a independência como um processo necessário e justifi-
cado, por isso pretendiam o rompimento definitivo com os valores ibéricos. Os
conservadores, católicos e tradicionalistas, por outro lado, tinham considerado os
processos de independência como algo inevitável, mas não aceitavam a ruptura
com os valores e tradições das antigas metrópoles, tidos como a essência da
nacionalidade.Em meados do século 19, valorizar a cultura ibérica ou qualquer
outra em detrimento dos valores locais significava, em todos os casos, corroborar
a idéia de que, em meio ao caos ocasionado pelas guerras de independência, exis-
tia algo de identificação coletiva entre esses povos a preservar, fosse retomando os

269
Capítulo 9

valores ofuscados pela colonização ou recuperando os valores perdidos pela inde-


pendência. A quantidade de intrigas políticas e golpes que assolavam os países
latino-americanos, neste período, levava liberais e conservadores a assumir pos-
turas semelhantes em relação à ordem pública.
As principais tendências do pensamento latino-americano do século 19
mantinham as idéias de existência ontológica de nacionalidades e buscavam
nos modelos estrangeiros, fossem eles tradicionais (ibéricos) ou progressistas
(norte-americano, inglês ou francês), a solução dos problemas enfrentados
pelos novos países. Esses problemas eram vistos como deformações e desvios,
atribuídos aos fatores climáticos, geográficos e raciais ou à história da domi-
nação espanhola e portuguesa. Embora concordassem na existência prévia de
nacionalidades, em relação ao período histórico em que viviam, uns pensavam
que essas nacionalidades eram frutos do período pré-colonial e por isso valo-
rizavam discretamente o elemento indígena; outros consideravam-nas como
resultado da fusão de vários elementos no período colonial, mas com o predo-
mínio indiscutível do colonizador.
A temática da identidade nacional, da nossa especificidade, das dificul-
dades de ordenamento de identidades tidas como originárias foi uma constan-
te nas discussões políticas e historiográficas latino-americanas. Todos recor-
riam à busca dos culpados pela situação. Sem fazer juízo de valor do pensa-
mento liberal radical ou moderado e do pensamento conservador, seus repre-
sentantes recorriam aos modelos externos e sua influência era tida como posi-
tiva ou negativa, dependendo da época e do viés ideológico do autor.
No começo do século 20, as idéias deterministas não desapareceriam e
continuariam por muito tempo influenciando os pensadores latino-america-
nos, mas o apogeu das economias primário-exportadoras e o desenvolvimen-
to mais acelerado de tecnologias capazes de “driblar” os problemas geoclimá-
ticos, acabariam cedendo espaço à identificação de outras causas para os males
das nações latino-americanas. A partir da primeira década do século 20, a his-
tória peculiar dos países da América Latina e a política mal orientada seriam
consideradas os problemas de origem dessas sociedades.
Consolidadas as oligarquias primário-exportadoras no poder, defender
a existência de nacionalidades originárias deixou de ter significado tão especial
quanto no período anterior. A existência das nações latino-americanas já não
dependia apenas dos fatores subjetivos ou da reunião de vontades de um gran-
de número de políticos ilustrados e historiadores comprometidos. As nações
deviam sua existência ao trabalho de uma geração da aristocracia fundiária

270
Capítulo 9

fortalecida por seu tipo de atividade econômica (monocultura) e pelo vínculo


que estabeleceram com o exterior (atividade exportadora). Essas oligarquias
tiveram que “fundar” as bases institucionais dos Estados políticos latino-ame-
ricanos, eliminando localismos caudilhescos prejudiciais às atividades primá-
rio-exportadoras, criando um sistema de pesos e medidas unificado, uniformi-
zando o sistema monetário e eliminando alternativas jacobinas (como as
representadas por Artigas no rio da Prata) e retrógradas (como as representa-
das por Antônio Conselheiro no Nordeste do Brasil).
O tipo de pensamento intelectual e as conseqüências historiográficas do
período de consolidação das oligarquias latino-americanas teriam pelo menos
duas vertentes no que diz respeito às idéias acerca das origens da nação e da
nacionalidade: o positivismo e o novo idealismo ou a corrente mais conheci-
da como “arielistas”. Pensadores como o brasileiro Alberto Torres (1865-
1917),32 os mexicanos Ricardo Rabasa33 e Justo Sierra34 e o argentino José
Ingenieros35 mantinham idéias racistas, de degeneração racial e hierarquia das
raças. No entanto, relativizavam o determinismo geoclimático e racial para
emprestar importância fundamental à política e à administração, como instru-
mentos para promoção da ordem. Os grupos positivistas eram formados por
minorias ilustradas, seguras de que detinham a verdade fundada na ciência e
na experiência dos países mais avançados. Seus temas centrais eram a razão, o
indivíduo, o progresso, a liberdade, a natureza e o endeusamento da ciência.
Quando transladados ao campo da política, esses conceitos eram utilizados
como forma de acabar com a anarquia e impor a ordem. O pensamento cor-
rente recomendava a “ordem positiva” como valor central a ser alcançado pelos
países latino-americanos para almejar a unidade nacional. Para eles, isso só
poderia ser obtido através de um programa político-administrativo “positivo”
que garantisse a ordem, a qualquer custo, para chegar ao progresso.
Governantes fortes e autoritários passaram a ser considerados como males
necessários para atingir essas finalidades.
A interpretação positivista da política latino-americana se baseava na
convicção de que os países do subcontinente eram incapazes de realizar prin-
cípios liberais e democráticos. Tinham uma visão pessimista do desenvolvi-
mento latino-americano e utilizavam termos das Ciências Biológicas, como
“continente enfermo” e “pueblo enfermo” para definir os males e anormalida-
des detectados. Os positivistas reconheciam que seus países tinham caracterís-
ticas singulares e as limitações da teoria evolucionista os obrigava a considerar
essas sociedades como inferiores em uma escala unilinear de civilização. É sin-

271
Capítulo 9

tomático que quase toda a literatura positivista apresentasse no título dos tra-
balhos a palavra “evolução”. A noção de uma história unilinear era corrente
para essa geração. A “religião do progresso” triunfou em quase todos os países
da América Latina. Entusiasmados com a possibilidade de seus próprios paí-
ses se equipararem à “civilização ocidental”, os autores diagnosticavam os
males da América Latina como problemas advindos da formação das raças, da
ignorância generalizada e da péssima administração dos governantes que se
seguiram aos processos de independência. Mesmo os autores positivistas mais
incrédulos na possibilidade de obtenção de uma homogeneidade cultural con-
sideravam a nação como um dado, advinda dos processos que ensejaram a
dominação oligárquica, como a reforma liberal no México, a proclamação da
República no Brasil ou a queda de Rosas na Argentina. Os positivistas confia-
vam na prosperidade obtida graças ao boom das atividades primário-exporta-
doras e defendiam os governos oligárquicos, fortes e excludentes, como os úni-
cos capazes de levar os países a atingir o patamar das nações civilizadas.
Por outra parte, ao mesmo tempo em que o positivismo se impunha
como filosofia política dominante, percebia-se a defesa do indigenismo e do
negro brasileiro, a valorização da cultura pré-hispânica, a negação do modelo
norte-americano e avaliação dos prejuízos que ele poderia causar. Essas idéias
apareceram no final do 19 e início do século 20 e seus principais expoentes
fizeram escola no pensamento político latino-americano: o cubano José Martí
e o uruguaio José Enrique Rodó. Inauguraram o que mais tarde ficaria conhe-
cido como “Hora americana” e achavam que o principal obstáculo à unidade
nacional era a adoção de modelos como o norte-americano. Pensavam que
essa adoção frustrava a possibilidade de colocar em prática os processos de
unificação nacional. Por isso mesmo, Martí propunha que se realizasse a
“segunda Independência”.
O ensaio Ariel, do uruguaio José Enrique Rodó (1871-1917), foi publica-
do em 1900 e evocava um “espírito” latino-americano, rechaçando o utilitaris-
mo e a mediocridade da democracia norte-americana. Proclamado como o pro-
feta do “novo idealismo” latino-americano, Rodó inspirou uma série de intelec-
tuais do subcontinente, chamados “arielistas”. No entanto, sua obra refletia, na
verdade, uma versão da interação contínua entre o empirismo (positivismo) e o
idealismo (espiritualismo), presentes no pensamento francês do século 18.36
Entre as dissenções do pensamento positivista dominante encontram-
se autores como o brasileiro Manoel Bonfim,37 os argentinos Paul Grossac
(franco-argentino), Ricardo Rojas, Manoel Gálves38 e os mexicanos Antonio

272
Capítulo 9

Caso (1883-1946), José Vasconcelos (1882-1959), o dominicano Pedro


Henríquez Ureña (1884-1946) e Alfonso Reyes (1889-1959), protagonistas do
“Ateneo de la Juventud”, sociedade fundada em 1909, que reunia os “utopistas”.
Esses autores defendiam o ensino da história nacional às gerações futuras
como forma de manter valores que não confundissem progresso com civiliza-
ção e, portanto, evitassem a valorização extremada do materialismo europeu;
enalteciam as raças indígena e negra como formadoras da nacionalidade e
identificavam a facilidade de miscigenação racial como uma das qualidades
herdadas dos povos conquistadores. Rechaçavam as teorias de inferioridade
racial e procuravam soluções para os problemas latino-americanos que não
passavam pelas tradicionais propostas de branqueamento, mas pela educação.
Representaram uma profunda renovação no pensamento intelectual dos seus
respectivos países, pois tinham preocupações cosmopolitas e americanistas.
A complexidade da vida intelectual latino-americana no começo do
século 20 refletia-se na existência concreta de idéias positivistas ao lado de
posições influenciadas por Rodó e Martí. Embora as duas correntes concor-
dassem no diagnóstico fatalista e pessimista acerca da realidade dos países da
América Latina e apontassem a educação como uma das panacéias para a cura
desses males, os positivistas permaneciam ligados às concepções racistas do
século 19 e a idéia de atingir o patamar de “civilização” dos países centrais do
capitalismo. Os arielistas, por outro lado, consideravam a influência estrangei-
ra, sobretudo dos Estados Unidos, como sintoma de uma dependência econô-
mica, política e cultural altamente prejudicial aos objetivos progressistas dos
povos latino-americanos. Achavam que a valorização das raças formadoras da
nacionalidade, sua educação para o exercício da democracia e a fusão dos
componentes “saudáveis” de cada raça (mestiçagem) seriam o melhor cami-
nho para atingir o progresso social e material.
É importante, no entanto, estabelecer os motivos que levaram pensado-
res como Rodó, Martí, Bonfim, Paul Groussac, Ricardo Rojas, Vasconcelos e
outros a discordar do pensamento positivista dominante. A dissidência dos
arielistas explica-se a partir do próprio rompimento da chamada “pax oligár-
quica”. Se o período que vai de, aproximadamente, 1800 a 1910 foi um
momento de apogeu das oligarquias primário-exportadoras, de prosperidade
econômica e de aparente eliminação dos elementos políticos dissidentes, a fase
que se seguiu demonstrou a fragilidade do poder oligárquico, exemplificado
nas oscilações de preços dos produtos primários no mercado internacional e
no crescimento de reivindicações políticas dos setores não contemplados pela

273
Capítulo 9

“prosperidade”. Enquanto os positivistas estavam destinados a justificar a


manutenção das oligarquias no poder, inclusive porque eles ocupavam cargos
importantes na administração de alguns países – científicos no governo de
Porfírio Díaz, Júlio de Castilhos, governador do Rio Grande do Sul, no Brasil,
e José Ingenieros, fiel colaborador dos governos oligárquicos argentinos –, os
arielistas ressentiam-se da falta de crítica a essa ideologia dominante e passa-
ram a representar setores sociais que exigiam o rompimento da excludência
oligárquica e a valorização nacional. E, mesmo que situados em campos dife-
rentes no que se referia à questão nacional, positivistas e arielistas tinham um
deslumbramento pelo progresso e pela civilização ocidental; atração que foi
um pouco questionada pelos arielistas, mas que só rompeu-se realmente após
a eclosão da 1.ª Guerra Mundial.
As décadas entre 1910 e 1940 foram fundamentais no tocante à ques-
tão nacional para os países latino-americanos. Neste ponto, é importante
retomar a diferenciação entre “movimentos que visavam fundar nações” e
“movimentos nacionalistas”. Segundo Hobsbawm, os primeiros consti-
tuíam-se de programas políticos que justificavam suas atividades por esta-
rem baseados nos últimos.39 As oligarquias primário-exportadoras dos dife-
rentes países da América Latina poderiam, imbuídas dos mesmos intuitos do
italiano Massimo D’Azeglio, da época da Unificação, repetir suas palavras:
“Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos”, e bastaria trocar os
substantivos Itália e italianos por Argentina e argentinos, México e mexica-
nos, Brasil e brasileiros, etc.
Até o início do século 20, não havia um verdadeiro movimento nacio-
nalista nos países da América Latina e o esforço oligárquico por organizar os
Estados políticos apenas supunha apoiar-se em uma identidade nacional. Na
verdade, e até esse momento, as repúblicas latino-americanas que substituíram
os impérios ibéricos refletiam um pouco mais do que as antigas divisões admi-
nistrativas metropolitanas. Os processos de independência haviam sido reali-
zados por grupos de elite, movidos por incompatibilidades econômicas em
relação aos comerciantes metropolitanos. Ainda segundo Hobsbawm, “mesmo
entre a minúscula camada dos latifundiários latino-americanos politicamente
decisivos, seria anacrônico falarmos nesse período de algo mais que o embrião
da “consciência nacional” colombiana, venezuelana, equatoriana etc.”40 Ele
completa dizendo que faltava aos países latino-americanos “condições sociais”
para o aparecimento concreto dos nacionalismos e da “consciência nacional”.
Essas “condições sociais” somente se manifestariam nos países subcontinentais

274
Capítulo 9

a partir do século 20, “no contexto de um estágio particular do desenvolvimento


econômico e tecnológico”,41 ou melhor, a partir da consolidação do modo de
produção capitalista através da modalidade oligárquico-dependente.42
O que se modificou substancialmente a partir de 1910 foi a intensida-
de dos debates acerca da questão nacional. Essa problemática apresenta-se
reiteradamente no curso da história subcontinental, mas se revela mais
importante do ponto de vista prático e teórico em conjunturas críticas como
aquela vivida pelos estudiosos latino-americanos do século 20. Essa conjun-
tura crítica foi determinada pelo impacto causado pela 1.ª Guerra Mundial,
Revolução Russa, Revolução Mexicana e a crise das oligarquias primário-
exportadoras em toda a América Latina. Conjugados, esses processos históri-
cos resultaram em efeitos de longa duração e grande intensidade no sentido
da transformação do pensamento político e social em relação aos países da
América Latina. Historiadores, cientistas sociais e políticos militantes foram
tomados por duas sensações contraditórias e complementares: o desencanto
e a esperança. A 1.ª Guerra Mundial foi chamada pelo historiador marxista
argentino Aníbal Ponce de la gran liberatriz ou melhor, “gracias a ella tuvimos
desde muy temprano la desconfianza del pasado”.43 Um setor importante da
intelectualidade latino-americana compreendeu a guerra como fracasso da
cultura européia, como incapacidade da civilização de manter intactas as con-
quistas materiais e humanas, como crise de um sistema de civilização até
então apreciado e tido como modelo ideal para se alcançar o progresso. O
desencanto do paradigma europeu vinha acompanhado internamente pela
crise da modalidade de desenvolvimento capitalista implantada pelas oligar-
quias exportadoras. O período anterior à guerra já revelara em alguns países
a vulnerabilidade do setor predominante da economia da América Latina em
relação às oscilações de preço e demanda dos produtos primários no merca-
do internacional. Em muitos países, como no Brasil, por exemplo, a 1.ª
Guerra e a crise econômica mundial acentuaram a vulnerabilidade e resulta-
ram na certeza de que a divisão internacional do trabalho, que impunha à
América Latina a condição de “celeiro do mundo”, era prejudicial e punha em
evidência a dimensão mais brutal da relação latino-americana com o resto do
mundo: a dependência.
As incertezas, a desorientação, o desencanto e o ceticismo causados pela
1.ª Guerra e pela crise do setor primário-exportador davam lugar a esperan-
ças, renovação de utopias, planos e encantamento com processos que ocorriam
simultaneamente e pareciam oferecer alternativas possíveis: a Revolução

275
Capítulo 9

Mexicana e a Revolução Russa. Enquanto a primeira constituía-se num teste-


munho exemplar de resgate da cultura nacional, a segunda apresentava ideais
novos para a redenção dos problemas europeus e propunha uma forma radi-
cal de romper a dependência econômica. Neste sentido, os intelectuais latino-
americanos começavam a questionar o paradigma da civilização ocidental, a
clausura política imposta pela ordem oligárquica e a vulnerabilidade do mode-
lo econômico primário-exportador. Entusiasmados com os processos revolu-
cionários mexicano e russo, vislumbravam a possibilidade de resgatar uma
cultura própria e um modelo de desenvolvimento alternativo.
Segundo Carlos Rama,

(...) el nacionalismo latinoamericano es simultáneo de una crisis reveladora de


la estructura social en que se alternan las relaciones antiguas entre sociedad rural y
urbana, y se aprecia a través de la industrialización el ascenso del proletariado y las
nuevas clases medias. No es extraño que – a menudo – nacionalismo y socialismo
aparezcan unidos, o entremezclados, y seguramente algo parecido sucede en otros
continentes del Tercer Mundo... asumiendo formas de reación política y cultural
frente a vieja dependencia exterior.44

Genericamente, o período que vai de 1910 a 1940 foi uma fase de agita-
ção social e política em todos os países da América Latina. Greves operárias,
formação de partidos socialistas e comunistas, anarquismo, radicalismo agrá-
rio e movimentos como a Revolução Mexicana, o Tenentismo no Brasil e a
Reforma Universitária na Argentina revelam que outros grupos sociais, além
dos grupos dominantes, estavam preocupados com a solução dos males latino-
americanos. E, muito embora, a forma e a intensidade dessas manifestações
político-sociais tenham sido diversas, bem como seus resultados tenham apa-
recido mais tardiamente em uns países do que em outros, do ponto de vista
intelectual, do pensamento acerca das questões nacionais, pode-se afirmar que
a busca das origens da nação, da essência da nacionalidade e de aspectos iden-
titários foram igualmente vigorosos em todos os países do subcontinente.
Após a eclosão da 1.ª Guerra, da crise das oligarquias, do início das
revoluções mexicana e russa, observava-se um rompimento importante em
relação ao paradigma anterior e ao modelo de civilização a ser alcançado,
mesmo que o positivismo não tenha desaparecido totalmente do pensamento
latino-americano. Nesta época, explodiu a temática nacional: Samuel Ramos,45
no México; Ezequiel Martinez Estrada,46 na Argentina; Gilberto Freire47 e Sérgio
Buarque de Holanda,48 no Brasil, são os exemplos mais importantes dessa ten-
dência. Inclusive o professor mexicano Abelardo Villegas considera que

276
Capítulo 9

“Samuel Ramos, Ezequiel Martínez Estrada y Gilberto Freire son los más gran-
des pensadores nacionalistas de América Latina, y destaca la coincidencia de la
aparición se sus primeras obras entre los años 1930 y 1940”.49
Consideravam o passado como um obstáculo e preconizavam a liquida-
ção das raízes como um imperativo do desenvolvimento nacional. Exploraram
conceitos polares como sociedade rural x sociedade urbana; tradicional x
moderno; personalismo x coletividade; público x privado; contrapunham-se à
tentativa de importação de idéias européias e à implantação de cultura forâ-
nea. Os brasileiros exaltavam os bandeirantes paulistas, assim como os autores
argentinos e mexicanos tentavam recuperar a imagem dos caudilhos, como
forças telúricas, que representavam a identidade nacional mais autêntica.
Identificavam a nação como entidade cuja existência era indiscutível, pelo
menos desde a independência, mas que possuía uma série de vícios e defeitos
de origem. Dentre as anomalias da formação do caráter nacional, considera-
vam o “ritmo lento”, “o despovoamento”, “a herança portuguesa ou espanho-
la”, a “tendência à imitação” e outros como os males que afetavam a constru-
ção da nacionalidade plena em seus países. A nação era vista como “provisó-
ria”, “mal feita e mal povoada”. O desprezo pelas massas populares, caracterís-
tico da literatura do período anterior, transformara-se nestes textos em neces-
sidade crescente de valorização e incorporação destas à nacionalidade.
No mesmo período, o marxismo latino-americano despontava como
importante tendência epistemológica no campo da história nacional. O histo-
riador brasileiro Caio Prado Jr.,50 por exemplo, representou um esforço de
interpretação da realidade nacional que tinha muito em comum com os auto-
res nacionalistas. Essa fase consagra-se pela absorção orgânica do marxismo
como epistemologia da história, a exemplo de Caio Prado Jr. e da obra do
peruano José Carlos Mariátegui (1895-1930), mas também como instrumen-
to de luta política. Do ponto de vista prático, os dirigentes socialistas latino-
americanos seguiam as tendências discutidas e decididas em foros distantes: os
congressos internacionais e a prática soviética. Mesmo assim, a questão do
nacionalismo e da liberação nacional ocupou papel preponderante na obra
dos principais escritores marxistas. Até 1935, proclamavam a necessidade de
lutar pela revolução socialista e antiimperialista, simultaneamente. Os movi-
mentos de El Salvador, em 1932, e a Insurreição de 1935, no Brasil, foram
exemplares neste sentido. A partir da consolidação de Stalin no poder soviéti-
co, os dirigentes latino-americanos passaram a pregar a “revolução por etapas”,
conquanto entendiam que o subcontinente precisava cumprir a fase ou etapa

277
Capítulo 9

“nacional democrática”. Entre os autores marxistas, comprometidos com a


militância, podemos citar o argentino Ernesto Giudici,51 o dirigente brasileiro
Luis Carlos Prestes,52 e o dirigente operário mexicano Vicente Lombardo
Toledano.53 As definições de “nacional”, presentes nesses autores, estavam liga-
das à idéia de colaboração entre as classes, tônica do movimento comunista no
entre-guerras. Apontavam os “inimigos internos” da nação, em oposição aos
capazes de satisfazer as necessidades das “massas”. Propunham a “liquidação
dos restos feudais”, para possibilitar o desenvolvimento nacional. A Nação era
tida como dado apriorístico e as soluções apresentadas estavam baseadas na
eliminação de “inimigos retrógrados”, ligados às reminiscências de um supos-
to feudalismo latino-americano.
Neste longo período histórico que começa com a crise do modelo pri-
mário-exportador, e das oligarquias que dele se beneficiavam, e se estende até
o fim da 2.ª Guerra Mundial, tanto os autores marxistas como os autores
nacionalistas demonstravam uma tendência à valorização da mestiçagem, do
autenticamente nacional e das classes populares. Preconizavam, ao contrário
dos autores do século passado, a necessidade de união das classes sociais como
forma de promoção de uma integração nacional. Na luta contra as oligarquias
aristocráticas, promoveu-se uma unidade discursiva entre as frações progres-
sistas das classes dominantes latino-americanas e as classes populares.
O período das guerras apontava para a crise da almejada civilização oci-
dental e colocou em xeque a admiração pelos modelos externos; a compreen-
são da vulnerabilidade do modelo de desenvolvimento capitalista baseado no
setor primário-exportador; a indignação contra a excludência oligárquica,
aliada ao vislumbramento da alternativa socialista; o consentimento e a coo-
peração das oligarquias no processo de sucção de excedentes foram os princi-
pais elementos para o aparecimento de movimentos nacionalistas não identi-
ficados com o nazi-fascismo, com a Igreja ou com idéias antiliberais, mas com-
postos inclusive por frações das classes dominantes latino-americanas que
compreenderam a necessidade de transformações profundas, sob o risco de
iminentes rebeliões populares. Não foi por acaso, portanto, que, diferentemen-
te dos autores do século anterior que faziam comparações e citavam os exem-
plos da Europa e Estados Unidos, a historiografia desse período preconizava a
necessidade de aproximação entre os países latino-americanos.
Entre os esforços analíticos por superar a tendência isolacionista e buscar
a solução conjunta para os problemas latino-americanos, destacou-se a Comissão
Econômica para América Latina (CEPAL), fundada em 1949. A Economia

278
Capítulo 9

Política da CEPAL foi expressa pela primeira vez em um estudo publicado em


Nova York, “Economic Survey of Latin America”. Nasceu para explicar a nature-
za do processo de industrialização que eclodira entre 1914 e 1945, para analisar
os problemas e desequilíbrios desse processo em países periféricos e com o obje-
tivo de alertar para a idéia de que a industrialização era o único caminho contra
a miséria e contra a dependência em relação aos centros mundiais do capitalis-
mo.54 Para os cepalinos – como Raul Prebisch, Celso Furtado, Anibal Pinto,
Oswaldo Sunkel, entre outros – a dependência e a miséria eram resultados da
situação periférica, frutos do “modelo de crescimento para fora”. Propunham
uma nova etapa no desenvolvimento latino-americano, de “desenvolvimento
para dentro”, cujo centro dinâmico da economia se deslocasse para “dentro da
Nação”.55 A partir da década de 1960, no entanto, o fracasso quase generalizado
das políticas de industrialização, a dificuldade dos governos denominados popu-
listas ou nacionalistas em colocarem em prática as chamadas “reformas estrutu-
rais”, a eclosão da Revolução Cubana e a escalada de terror militar implementada
a partir do golpe de 1964 no Brasil, foram os elementos concretos que fizeram
ruir parte das análises teóricas em voga. No plano teórico, surgiu a Teoria da
Dependência para explicar a “não-industrialização nacional”, com o livro de
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto.56 Além das inúmeras críticas que
surgiram a esse estudo – pouca análise econômica, tipologia insuficiente, escassa
análise pós-1945, não-modificação da periodização cepalina, semelhança em
relação à interpretação cepalina sobre os períodos de transição de uma fase a
outra da economia – ressalta, para os objetivos da presente discussão, a caracte-
rística marcadamente nacionalista da análise desenvolvimentista. A perspectiva
do progresso civilizatório, assim como a atração pelos modelos externos, não
haviam sido de fato superadas e os teóricos da dependência propunham, na rea-
lidade, o entendimento do conceito de “dependência” como forma de completar
a industrialização e o desenvolvimento nacional, através da união das classes
sociais. A “dependência” se erguia como dimensão única da análise e o conflito
entre países dependentes e Estados imperialistas ocupava parte central da discus-
são, deixando de lado importantes discussões como a luta de classes.
A teoria da dependência tornou-se hegemônica no pensamento latino-
americano e inculcou no grosso da intelectualidade da América Latina a con-
vicção de que a “nossa história” é tão original que não caberia encaixá-la den-
tro de conceitos e teorias (moldes) forâneos. Tratava-se naturalmente de justi-
ficar teoricamente certas vias políticas também originais. Em consonância
com as idéias intelectuais em voga, neste período, os governantes denomina-

279
Capítulo 9

dos populistas ou nacionalistas tentavam diluir a questão da luta de classes,


que apareceu com força na luta pelo socialismo (Revolução Cubana), e faziam
um discurso voltado para as aspirações de unidade ontológica. Esta foi a base
do moderno pensamento latino-americano.
Assim, inauguramos o tempo presente, o pensamento contemporâneo,
perguntando-nos sobre a nossa identidade, sobre a questão nacional e os auto-
res continuaram apegados às teses de existência prévia de uma identidade que
é, segundo eles, constantemente obstaculizada pelos “outros”. A partir da déca-
da de 1970-1980, os historiadores do subcontinente passaram a se dedicar
muito mais à história regional e a realizar estudos minuciosos e especializados.
Depois dos anos 1990, particularmente, a pretensão de realizar grandes sínteses
da história nacional cedeu definitivamente lugar a temas de história das regiões
de cada país. Em países imensos como Brasil, México, Argentina e outros, até os
anos 1980, o estudo das particularidades regionais havia ficado subsumido aos
grandes temas e problemas da nação como um todo. Por isso, a partir dos anos
1980, com uma tomada de consciência da necessidade de atender aos estudos
daquelas particularidades, o número de trabalhos que genuinamente ilumina-
vam a questão a respeito da problemática nacional tornou-se limitado.
A maior parte dos estudos que mantiveram sua atenção na questão da
nação, identidade nacional e nacionalidade demonstrava uma preocupação
“os inimigos da nação”, muito em função da bipolarização ideológica da época
e da escalada militar em quase todos os países. Também foram freqüentes estu-
dos das supostas características incompletas ou deformadas do desenvolvi-
mento nacional. Outra característica presente entre os autores do final do
século 20 foi a continuidade da atração pelos modelos externos, embora tam-
bém esteja sempre presente a perspectiva e a necessidade de criação de teorias
próprias para o estudo da história latino-americana.
Mesmo diante das supostas “distorções” no processo de construção das
nações latino-americanas, os autores contemporâneos, a exemplo dos autores
discutidos anteriormente, não debateram a própria existência das nações.
Apresentam-nas como um dado indiscutível, localizado antes ou logo depois
das independências, porém inacabado, como por exemplo, na obra de Luis
Vitale,57 Carlos Pereyra,58 Jaime Pinski,59 Octávio Ianni:60 “a nação não está
pronta, acabada” ou “Na América Latina, a história estaria atravessada pelo
precário, inacabado, mestiço, exótico, deslocado, fora do lugar, folclórico.
Nações sem povo, sem cidadãos, apenas indivíduos e população”.61 Outros
autores, cuja origem não se inscreve na linha historiográfica, mas, sim, intelec-

280
Capítulo 9

tual, literária, como Octávio Paz,62 poderiam ser citados como exemplo dessas
tendências. Nesta fase da produção historiográfica latino-americana destaca-
se a continuidade das tendências interpretativas dos períodos anteriores, mas
também algumas interpretações diferenciadas, cuja discussão sobre a origem
da nação estava acompanhada de estudos empíricos específicos que davam
sustentação às propostas teóricas.
Muito embora a historiografia latino-americana do século passado e a
contemporânea insistam em atribuir às divisões territoriais e de governo ameri-
canas o status de nações, uma análise cuidadosa dos processos empíricos que esti-
veram presentes na formação desses países, como unidades independentes das
respectivas metrópoles, será suficiente para comprovar a inexistência concreta
dessas unidades. Em primeiro lugar, existiam, no período anterior às emancipa-
ções políticas, muitas opiniões contrárias às independências, justamente pelo
temor das elites coloniais em perder a unidade imposta rigidamente pelas metró-
poles ibéricas. É muito difícil ainda definir as fases através das quais os portugue-
ses nascidos no Brasil, ou espanhóis nascidos no México e Argentina começaram
a tomar consciência de si mesmos como americanos, quanto mais como mexica-
nos, brasileiros ou argentinos. As idéias de fatalidade no nascimento extra-espa-
nhol acompanharam por muito tempo, e após os processos de independência, os
descendentes de portugueses e espanhóis na América e isso se deve ao fato de que
essa transição – modificação do sentimento de pertencimento – era obstaculiza-
da por diferenças étnicas e sociais que separavam a grande massa de índios e
negros, com variadas manifestações de mestiçagem, das elites coloniais proprie-
tárias. Os sentimentos antilusitanos e antiespanhóis – o sentir-se “americano” –
estiveram de fato presentes nos processos de emancipação do México, Brasil e da
Argentina, mas somente foram incorporadas pelas elites coloniais quando esses
processos demonstraram sua inevitabilidade.
No momento das independências, não existiam as identificações
nacionais e mesmo subcontinentais que existem atualmente. Essa ausência
permitia que os militares e líderes da independência de um “país” atuassem
em vários pontos do continente. Sobre isso, Edelberto Torres Rivas observa
que “a crise do Estado colonial foi o fim da nação hispânica ou hispano-ame-
ricana. O sonho de Bolívar foi apenas isso, um sonho”.63 Foram possivelmen-
te os sonhos, as paixões, os interesses políticos e o vislumbramento de alter-
nativas de uma “nação melhor” que levaram a maior parte dos pensadores
contemporâneos a identificar permanentemente as incompletudes do proces-
so e a identificação dos seus inimigos.

281
Capítulo 9

A literatura contemporânea a respeito da questão nacional nos países lati-


no-americanos é majoritariamente ensaísta. Em geral, os intelectuais que discu-
tem a nação e a nacionalidade não deduzem suas “teses” de estudos empíricos.
Assim, as tentativas de entender a questão nacional na América Latina denota a
renovação de preocupações presentes nos autores do século 19: presença indis-
cutível das nacionalidades; nações inacabadas, frustradas ou incompletas; pro-
cesso de construção nacional carregado de desvios, deformações e anormalida-
des; presença de “inimigos da nação” que obstaculizam o processo; e, finalmen-
te, uma busca impressionante das origens do processo de construção nacional,
como se ela pudesse explicar todos os “males” do seu desenvolvimento.64
Alguns autores contemporâneos alertam para o perigo de buscar as ori-
gens da nação e os indícios de identidade nacional em períodos anteriores ao
desenvolvimento das condições materiais para a constituição desta unidade,
conseguindo diferenciar-se das tendências majoritárias.
José Murilo de Carvalho, em seu estudo sobre a simbologia republica-
na, alerta para a existência de um “anterior sentimento de comunidade, de
identidade coletiva, que antigamente podia ser o de pertencer a uma cidade e
que modernamente é o de pertencer a uma nação.”;

diz ele: “No Brasil do início da República, inexistia tal sentimento. Havia, sem
dúvida, alguns elementos que em geral fazem parte de uma identidade nacional,
como a unidade da língua, da religião e mesmo a unidade política. A guerra contra
o Paraguai na década de 1860 produzira, é certo, um início de sentimento nacional.
Mas fora muito limitado pelas complicações impostas pela presença da escravidão...
A busca de uma identidade coletiva para o país, de uma base para a construção da
nação, seria tarefa que iria perseguir a geração intelectual da Primeira República”.65

Torres Rivas, mais explicitamente, em um ensaio sobre a formação do


Estado na América Central, afirma que a condição essencial para a consolida-
ção nacional era a formação de um mercado interno. Ele adverte que,

“(...) ainda que a nação já existisse como uma realidade cultural, cujos valores
básicos eram uma língua comum, uma religião e uma relativa homogeneidade
racial, essa realidade só ganhou eminência a partir de determinadas situações de
poder. Em outras palavras, faziam falta a essa transformação as possibilidades reais
de uma experiência em partilhar instituições políticas comuns e, permeando todos
esses níveis societários, uma solidariedade econômica, uma condição de mercado
em que encontrassem respaldo os interesses dominantes”.66

Torres Rivas aponta os diversos fatores desintegradores que atuaram


após as independências e que, juntamente com a ausência de uma condição de

282
Capítulo 9

mercado, no sentido capitalista do conceito, impediam a integração nacional.


Segundo ele, esta integração somente ocorreria a partir da consolidação das
economias primário-exportadoras e impulsionada pelos Estados oligárquicos
que se constituem a partir da segunda metade do século 19.
José Carlos Chiaramonte, por sua parte, escreveu um artigo para com-
bater a idéia generalizada da historiografia latino-americana, segundo a qual a
profusão de projetos pós-independência implicava a existência prévia de
nacionalidades. Salienta que essa tendência é fruto de uma “necessidade de
afirmação de autonomias”, considera que “tal perspectiva es fruto de la volun-
tad nacionalizadora de la primera historiografía nacional del siglo pasado”, ou
seja: “El afán por afirmar los débiles estados surgidos del derrumbe ibérico,
fomentando la conciencia de una nacionalidad distinta, propósito explícito en
esa historiografía, facilitó la generalizada suposición de que la Independencia
fué fruto de la necesidad de autonomía de nacionalidades ya formadas”.67 Ele
também se refere à presença de três tipos de sentimentos que existiam no
período posterior às independências e que são freqüentemente confundidos, a
identidade hispano-americana, prolongamento do sentimento forjado duran-
te o período colonial; a provincial, forjada a partir da pequena localidade; e a
rio-platense, e, posteriormente, argentina.68 A coexistência dessas três identi-
dades territoriais e mais a existência de outros tipos de identidade, como fami-
liar, religiosa, de classe social e outras, foram freqüentemente motivo de con-
fusões na Argentina e em todos os outros países da América Latina.
O estudo de José Horta Nunes, “Manifestos Modernistas: a identidade
nacional no discurso e na língua”,69 remete às questões lingüísticas o processo
de formação da nacionalidade e afirma a época do modernismo como da fixa-
ção de sentidos nacionais, através da afirmação lingüística evocada pelos
manifestos culturais: “O contexto cultural da época dos manifestos se caracte-
riza pela afirmação da identidade nacional (...) intensifica-se a preocupação
com a questão da língua nacional, havendo um esforço para distinguir a lín-
gua brasileira das demais, principalmente da portuguesa”.70
Começam a surgir na América Latina dos anos 1990 estudos que diver-
gem das posições recorrentes de “desvios, anomalias, deformações, inimigos,
incompletudes”, como por exemplo o estudo sobre cidadania de Maria
Cristina Leandro Ferreira.71 As construções estereotipadas sobre o país e o seu
povo começaram a ser contestadas com base em trabalhos de “nova história
política”, especialmente através da análise de discurso e interpretação da reali-
dade simbólica do passado. Os novos aportes entendem a construção dos este-

283
Capítulo 9

reótipos como determinações históricas, circunstanciais. O conceito de cida-


dania passou a vincular-se diretamente ao de nacionalidade. Nesses estudos,
observa-se a necessária incorporação política e social dos trabalhadores como
modo de construir a nação e a nacionalidade, numa clara demonstração de
que a historiografia latino-americana vem compatibilizando os conceitos de
nação e de cidadania com as experiências históricas concretas.

NOTAS
* Professora Adjunto de História e pesquisadora (UFRGS); Drª. em História (UFRJ).
Cwasserman@via-rs.net.
1 AMIN, Samir. La nation arabe. Nationalisme et lutte de classes. Paris: Minuit, 1976.
p. 109. Oferece a idéia de uma nação milenar, que nasce e renasce. Os comerciantes-
guerreiros, por exemplo, já formariam uma nação que posteriormente seria destruí-
da, idéia a partir da qual o surgimento da nação não tem qualquer relação com uma
classe social ou com a gênese do capitalismo.
2 ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989. p. 9-56.
3 HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990. p. 15, afirma que língua, território, etnia, traços culturais comuns, religião e
outros podem ser importantes, mas não fundamentais para definir a existência des-
ses agrupamentos humanos.
4 HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990. p. 19.
5 Ibid.
6 GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismo. Trajectos. Lisboa: Gradiva, 1993. p. 89.
7 Ibid., p. 77.
8 Ibid., p. 78, 79. Grifos meus.
9 Essa introdução tem como objetivo apresentar algumas questões fundamentais
sobre a problemática da nação moderna, sem as quais seria impossível o rigor teó-
rico que se pretende nesse estudo; entretanto, não pretende dar conta de todos os
autores contemporâneos e tampouco de todas as discussões travadas por eles.
10 SOLER, Ricaurte. Clase y nación. Barcelona: Fontamara, 1981.
11 IANNI, Octávio. Classe e nação. Petrópolis: Vozes, 1986.
12 Ibid., p. 14-15.
13 SOLER, Ricaurte. Clase y nación. Barcelona: Fontamara, 1981. p. 61, 63.
14 VITALE, Luis. Introduccion e una teoria de la História para América Latina. Buenos
Aires: Planeta, 1992. p. 260-261.
15 Entre outros autores que compartilham desta visão estão KAPLAN, Marcos.
Formação do Estado Nacional na América Latina. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974;
BORDA, Fals. As revoluções inacabadas na América Latina (1809-1968). São Paulo:

284
Capítulo 9

Global, 1979; GILLY, Adolfo. La Revolución interrumpida. ed. aum. e corr. México:
Era, 1994. A primeira edição foi de 1971; RAMOS, Jorge Abelardo. La Nación incon-
clusa. Montevideo: Ediciones de la Plaza, 1994.
16 SERRANO CALDERA, Alejandro. La história como reafirmación o como destruc-
ción. In: ZEA, L. (Comp.). Quinientos años de História, sentido y proyección. México:
Fondo de Cultura Económica, 1991. p. 173, grifo meu, A noção de incompletude
aparece neste autor de forma explícita nesta passagem.
17 SOLER, Ricaurte. Clase y nación. Barcelona: Fontamara, 1981.
18 IANNI, Octávio. Classe e nação. Petrópolis: Vozes, 1986.
19 Ibid., p. 132.
20 Os autores clássicos dessa discussão são FERNANDES, Florestan. A revolução bur-
guesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1974; SAES, Décio. A formação do estado bur-
guês no Brasil (1888-1891). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; CUEVA, Agustín. El
desarrollo del capitalismo en América Latina. México: Siglo XXI, 1977; KOSSOK,
Manfred et al. Las Revoluciones Burguesas. Barcelona: Crítica, 1983.
21 KAPLAN, Marcos. Formação do Estado Nacional na América Latina. Rio de Janeiro:
Eldorado, 1974. p. 113. Grifos meus.
22 MORENO, Mariano. Plan Revolucionario de Operaciones. Buenos Aires: Plus Ultra,
1975. 3. ed. p. 24, 25, 26. Originalmente escrito em agosto de 1810.
23 J. M. Morelos, apud BRADING, D. A. Orbe indiano. De la monarquia católica a la
república criolla, 1492-1867. México: Fondo de Cultura Económica, 1991. p. 623.
24 BOLÍVAR, Simón. Escritos políticos. Lisboa: Estampa, 1977. p. 98, intitulada Cartas
de Jamaica: resposta de um americano meridional a um cavalheiro desta ilha.
Kingston, 6 de setembro de 1815.
25 SARMIENTO, D. F. Facundo o civilización y barbarie. 5. ed. Buenos Aires: Sopena,
1952. Primeira edição de 1845, p. 5.
26 ALBERDI, J. B. Bases y puntos de partida para la organización política de la República
argentina. 4. ed. Buenos Aires: Plus Ultra, 1981. Primeira edição de 1852, p. 136.
27 ALAMÁN, L. Disertaciones. In: BRADING, David A. Orbe indiano. De la monar-
quia católica a la república criolla, 1492-1867. México: Fondo de Cultura
Económica, 1991. p. 692.
28 MORA, J. M. L. México y sus Revoluciones. México: Ed. Agustín Yáñez, 1950. 3 v., v. II,
p. 230. Primeira edição em 1836.
29 VARNHAGEN, F. A. História geral do Brasil. Antes de sua separação e independência
de Portugal. 7. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1959, 6 t., t. I, p. 24. A primeira edi-
ção desse tomo data de 1852.
30 ABREU, J. Capistrano de. Ensaios e estudos, 1ª.série. Rio de Janeiro: Briguiet, 1931. p. 75-76.
31 CUNHA, E. Os sertões. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 30-89. A primeira edição
do livro é de 1901.
32 TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de orga-
nização nacional. 4. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1982. A primeira edição foi de 1914.
33 RABASA, Ricardo. La evolución histórica de México. México: Porrua, 1956. p. 263,
264, escritos de 1920.

285
Capítulo 9

34 SIERRA, Justo. Evolución política del pueblo mexicano. México: Fondo de Cultura
Económica, 1940. p. 192-282. Primeira edição de 1910.
35 INGENIEROS, José. La evolución de las ideas Argentinas. Buenos Aires: El Ateneo,
1951. p. 299. A primeira edição foi de 1918.
36 HALE, Charles A. Ideas políticas y sociales en América Latina, 1870-1930. In: BET-
HELL, L. História de América Latina (cultura y sociedad, 1830-1930). Barcelona:
Crítica, 1991. v. 8, p. 1-64.
37 BONFIM, M. A América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
p. 173. A primeira edição foi de 1903.
38 Apud HALE, Charles. Ideas políticas y sociales 1870-1930. In: BETHELL, L.
História da América Latina. Cultura y sociedad, 1830-1930. Barcelona: Crítica,
1991. v. 8, p. 36.
39 HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1979. p. 107.
40 HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1979. p. 162.
41 Ibid., 1990, p. 19.
42 CUEVA, Agustín. El desarrollo del capitalismo en America Latina. México: Siglo XXI,
1979. cap. 5.
43 Anibal Ponce apud PORTANTIERO, Juan Carlos. Estudiantes y política en
América Latina 1918-1938. El proceso de la Reforma Universitaria. México: Siglo
XXI, 1978. p. 29.
44 RAMA, Carlos M. Nacionalismo e historiografia en America Latina. Madrid: Tecnos,
1981. p. 14.
45 RAMOS, Samuel. El perfil del hombre y la cultura en Mexico. México: Espasa-Calpe,
1996. 26. Reimpressão, p. 21-22. A primeira edição deste livro é de 1934.
46 MARTÍNEZ ESTRADA, E. Radiografia de la pampa. 13. ed. Buenos Aires: Losada,
1991. p. 11. A primeira edição é de 1933.
47 FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala. 22. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1983. A
primeira edição é de 1933.
48 HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 13. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979. p. 3, 121.
A primeira edição é de 1936.
49 A. Villegas em RAMA, Carlos M. Nacionalismo e historiografia en America Latina.
Madrid: Tecnos, 1981. p. 147.
50 PRADO JR., C. Evolução política do Brasil. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972. p. 48.
A primeira edição foi de 1933.
51 GIUDICI, E. El imperialismo y la liberación nacional. Buenos Aires: Granica, 1974.
p. 3-5. A primeira edição é de 1940.
52 PRESTES, L. C. Os problemas atuais da democracia, 1944, apud CARONE, Edgard.
A Terceira República (1937-1945). Rio de Janeiro: Difel, 1982. p. 508.
53 LOMBARDO TOLEDANO, V. El Partido Popular, 1947, apud LÖWY, M. op. cit.,
1982. p. 161.
54 MELLO, J. M. Cardoso de. O capitalismo tardio. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.
p. 20, 21. A primeira edição é de 1982.

286
Capítulo 9

55 Ibid.
56 CARDOSO, F. H.; FALETTO, E. Dependência e desenvolvimento na América Latina.
Ensaio de interpretação sociológica. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. A primeira
edição é de 1970.
57 VITALE, Luis. Introduccion e una teoria de la História para América Latina. Buenos
Aires: Planeta, 1992. p. 204.
58 PEREYRA, C. El sujeto de la história. México: Alianza, 1988. p. 179-192.
59 PINSKY, Jaime. A formação do Estado nacional no Brasil: origens do problema. In:
BRUIT, Héctor H. (Org.). Estado e burguesia nacional na América Latina. São Paulo:
Icone, 1985. p. 69.
60 IANNI, O. O labirinto latino-americano. Petrópolis: Vozes, 1993. p. 75.
61 Ibid., p. 77, 78.
62 PAZ, Octávio. El laberinto de la soledad, Postdata e Vuelta a el laberinto de la soledad.
México: Fondo de Cultura Económica, 1996. p. 227. Esta é uma edição popular que
reúne três obras do autor, cujas primeiras edições foram publicadas respectivamen-
te em 1950, 1970 e 1979.
63 TORRES RIVAS, E. Sobre a formação do Estado na América Central (hipóteses e
questões fundamentais para seu estudo). In: PINHEIRO, Paulo Sérgio. O Estado na
América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 65.
64 Marc Bloch falava em “obsessão embriogênica” ou “mito das origens” e explicava
esse fenômeno como fruto de uma preocupação religiosa – necessidade de explicar
a origem da vida – que teria se estendido a outros campos de investigação, como à
História, por exemplo. Ainda segundo Bloch, isso provoca o aparecimento de outro
“inimigo satânico da verdadeira história: a mania de julgar”. BLOCH, M. Apología
para la história o el oficio de historiador. México: Fondo de Cultura Económica,
1996. p. 144, Edição crítica preparada por Étienne Bloch.
65 CARVALHO, José Murilo. A formação das almas. O imaginário da República no Brasil.
São Paulo: Companhia. das Letras, 1990. p. 32. O texto de Carvalho é extremamen-
te agradável e rigoroso na utilização de fontes não escritas – monumentos e símbolos
republicanos –, mas o que me interessa é que ele é um dos primeiros autores brasilei-
ros a situar o aparecimento da nação na fase de implantação e consolidação do modo
de produção capitalista no país, depois do advento da abolição, pelo menos.
66 TORRES RIVAS, E. Sobre a formação do Estado na América Central (hipóteses e
questões fundamentais para seu estudo). In: PINHEIRO, Paulo Sérgio. O Estado na
América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 66.
67 CHIARAMONTE, José Carlos. El problema de los origenes de los Estados hispa-
noamericanos en la historiografía reciente y el caso del Rio de la Plata. Porto Alegre:
Anos 90, UFRGS, n. 1, maio de 1993, p. 50.
68 Ibid., p. 51.
69 NUNES, José Horta. Manifestos modernistas: a identidade nacional no discurso e
na língua. In: ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso fundador. São Paulo: Pontes, 1993.
p. 43-57.
70 NUNES, José Horta. Manifestos modernistas: a identidade nacional no discurso
e na língua. In: ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso fundador. São Paulo: Pontes,
1993. p. 49.

287
71 FERREIRA, M. C. L. A antiética da vantagem e do jeitinho na terra em que Deus
é brasileiro (o funcionamento discursivo do clichê no processo de construção
da brasilidade) In: ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso fundador. São Paulo:
Pontes, 1993. p. 69-79.
Capítulo 10

HISTÓRIA E NAÇÃO:
TRAJETÓRIA DA HISTORIOGRAFIA
CUBANA DO SÉCULO 20
Oscar Zanetti Lecuona

Nas páginas que se seguem, tentaremos abordar o processo histórico em


Cuba durante o século 20 a partir de um ângulo específico: o discurso históri-
co da nação. O problema nacional constitui, a nosso ver, o eixo em torno do
qual a historiografia cubana articula, por mais de uma centúria, sua missão,
dando-nos assim a possibilidade de captar nesta síntese, forçosamente breve,
inúmeras manifestações e tendências. A perspectiva adotada, contudo, é, sem
dúvida, unilateral e inevitavelmente dá margem a reduções e omissões. As exi-
gências de espaço impõem também um limite às referências, que ficarão cir-
cunscritas a estudos precedentes de corte historiográfico, bem como a obras e
autores reconhecidamente representativos, mencionados à guisa de ilustração
sem que de modo algum pretendamos exaurir o assunto.

A CONSTITUIÇÃO DE UMA
HISTÓRIA NACIONAL
O século 20 iniciou-se para os cubanos sob um clima de incerteza. Após
décadas de combate pela liberdade, o pavilhão espanhol fora finalmente corri-
do da ilha, mas apenas para ser substituído pela bandeira de listas e estrelas,
símbolo de uma ocupação passageira e com prazo definido decorrente da
intervenção norte-americana que pusera termo à guerra de independência. A

289
Capítulo 10

preocupação pelo destino do país, que animava então a literatura política,


haveria também de calar fundo na historiografia do século nascente.
As definições que se impunham no momento ensejaram o esclareci-
mento das posturas historiográficas. O setor da intelectualidade que nunca
havia comungado com a independência desconfiava da capacidade dos cuba-
nos – considerando-os um povo social e etnicamente fragmentado, fruto de
séculos de opressão colonial – de edificar um Estado equilibrado e estável,
capaz de conduzir a sociedade insular na senda da modernidade. A alternativa
era óbvia, tanto mais que já se faziam ouvir opiniões influentes em
Washington. Em 1900, um autor cubano radicado nessa cidade, José Ignacio
Rodríguez, apressara-se a publicar seu Estudio histórico sobre el origen, desen-
volvimiento y manifestaciones prácticas de la idea de la anexión de la Isla de
Cuba a los Estados Unidos de América, relato da trajetória quase secular de uma
corrente política cujas aspirações o autor cria chegado o momento de concre-
tizar. Mas o sentimento de independência era profundo e suficientemente dis-
seminado para frustrar o projeto de anexação. Em seu lugar aplicou-se a fór-
mula republicana, posto que com a soberania explicitamente limitada pela
Emenda Platt, imposta como apêndice à constituição cubana. Para alguns, essa
república seria meramente uma espécie de “preparação” que adestraria os
cubanos até o momento de seu ingresso definitivo na União do norte.
Acreditou-se que a hora chegara em 1906, quando as discórdias internas rom-
peram a ordem estatal recém-criada e atraíram uma nova intervenção dos
Estados Unidos. A “incapacidade cívica” do cubano parecia óbvia e outro his-
toriador anexacionista, Francisco Figueras, encarregou-se de rastrear suas raí-
zes no passado colonial.1 As circunstâncias, contudo, se mostraram franca-
mente adversas ao anexacionismo, tendência que tanto na política quanto na
historiografia haveria de subsistir mascarada por uma literatura que exaltava
sistematicamente os valores da civilização norte-americana e defendia a neces-
sidade da tutela imperial.
Frente a essa tendência, outra tomava corpo, encarnada nos represen-
tantes mais coerentes do projeto independentista, cuja prédica fincava raízes
nos valores de uma cultura nacional forjada no próprio seio do colonialismo
espanhol. A defesa da república soberana, capaz de preservar e eternizar essas
tradições, encontrou sua manifestação historiográfica mais destacada na obra
de Enrique Collazo. General das guerras de independência, Collazo publica
durante a primeira década do século três obras: Cuba independiente (1900),
Los americanos en Cuba (1905) e Cuba intervenida (1910), nas quais, afora a

290
Capítulo 10

exaltação da épica libertadora, desvendava os antecedentes e as práticas da


política norte-americana na ilha, denunciando suas intenções de dominação
imperial.2 Os trabalhos de Collazo e seus seguidores mais imediatos – como
Julio Cesar Gandarilla – constituem os alicerces da historiografia nacionalista.
A república, porém, era filha de uma transação, plasmada no tortuoso
e dilacerante debate que conduziu à aceitação da Emenda Platt. A geração que
havia feito a guerra enfrentava agora a difícil tarefa de assegurar, fosse como
fosse, a continuidade de seu projeto e a sobrevivência da identidade cubana
dentro de moldes institucionais e condições funcionais provenientes do para-
digma modernizador norte-americano – e impostos por ele. De outro lado,
essa legitimação republicana, que tentava consolidar um Estado nacional pre-
cário, tornava-se indispensável para dar credibilidade à nova elite dirigente,
que assumia o governo do país em conivência com a dominação, maldisfarça-
da, de uma potência estrangeira.
Para a construção da história “pátria”, contava-se com uma literatura
cujos antecedentes remontavam à obra seminal de José Martín Felix de Arrate,
no século 18, e, sobretudo, com os estudos, as crônicas e os testemunhos da
epopéia da independência publicados pelos protagonistas desse conflito.3
Nociones de Historia de Cuba, obra editada por Vidal Morales, em 1901, e ado-
tada como texto oficial para o ensino primário, apresenta com clareza – talvez
por sua formulação singela – os lances da imagem histórica que pretende fixar.
Num estilo levemente moderado por laivos positivistas, Morales assume a
tarefa de expor as bases históricas do Estado nacional num tom que, em outras
partes do continente, fora o da historiografia romântica. Com óbvia intenção
idealizadora, o texto narra os feitos notáveis e enaltece as figuras portentosas
do processo histórico cubano, mas não esconde a intencionalidade implícita
no tratamento indistinto desses acontecimentos e personagens. Assim, ao
mesmo tempo em que exalta o heroísmo de um Céspedes, de um Agramonte
ou de um Maceo, o anexacionista Narciso López encabeça a lista dos mártires
da independência, de sorte que o comando autonomista ficava livre de seu
compromisso colonial.4
O melhor expoente do espírito que anima essa história nacional em ges-
tação é, porém, uma obra de tema contemporâneo: Cuba. Los primeros años de
independencia, publicada em 1911 e 1912. Seu autor, Rafael Martínez Ortiz,
médico de profissão, tece uma extensa e pormenorizada narração dos fatos
políticos ocorridos entre 1899 e 1909 (dos quais foi não raro testemunha ou
protagonista), unindo à sua visão pessoal dos acontecimentos o recurso a

291
Capítulo 10

numerosas e variadas fontes, que transcreve ou cita com o escrúpulo da


melhor tradição positivista. Sóbrio e mesmo superficial em suas interpreta-
ções, Martínez Ortiz traça uma imagem conformista da experiência republica-
na recente, que, a seu ver, ensinaria os cubanos a tirar o melhor partido possí-
vel da “lei fatal” que os sujeitava aos Estados Unidos.5
Quando essa obra veio a lume, o mundo intelectual cubano debatia o
valor das influências culturais – norte-americana e espanhola – a que se acha-
va submetida a sociedade insular e ensaiavam-se os primeiros passos rumo a
uma institucionalização que vinculasse as tradições nacionais e a atualidade.
No âmbito historiográfico, a Academía de la Historia de Cuba, criada por decre-
to presidencial em agosto de 1910, seria o órgão encarregado de outorgar san-
ção oficial aos relatos que integravam a “história pátria”. De caráter francamen-
te exclusivista – só podia contar com trinta acadêmicos e outros tantos corres-
pondentes, todos vitalícios –, a academia exibiu desde sua criação o perfil pró-
prio a instituições desse tipo, adotando por inteiro uma liturgia elaborada para
dar a maior respeitabilidade a seus atos. Em sua tríplice função de conservar,
divulgar e orientar, a academia não apenas se encarregou da exegese oficial da
história de Cuba como subscreveu um modo de ação afeito à tradição erudita,
de vez que consagrava o primado do paradigma positivista na produção histo-
riográfica. Após uma primeira década de atividade intermitente, a academia
desfrutou de um breve período de fastígio durante os anos 1920, quando, por
meio da concessão de prêmios, apoio a certos empreendimentos de pesquisa e
gestão editorial mais eficiente, ajudou a plasmar obras que representaram uma
contribuição substancial ao conhecimento da história pátria.6
Quase meio milhar de textos variados – livros, folhetos, ensaios, etc. –
relacionados de algum modo a temas históricos vem à luz durante as primei-
ras duas décadas republicanas. Trata-se de uma literatura de valor bastante
desigual, em que as de lavra profissional são as menos discutíveis, mas que pro-
picia e indiscutivelmente enriquece a imagem do passado cubano. Os proces-
sos políticos constituem a matéria-prima quase exclusiva dessas narrativas, em
que o sopro positivista, aliás um tanto vago, aparece muito mais no apego ao
factual do que no tratamento cuidadoso das fontes e na aplicação dos méto-
dos críticos. Embora o esforço de síntese esteja praticamente ausente, salvo em
um e outro texto escolar, alguns lances do discurso histórico nacional surgem
com nitidez suficiente para permitir uma caracterização.
Para começar, o interesse se volta de maneira muito desigual para a
dimensão temporal do objeto de estudo. Os primeiros séculos coloniais, que

292
Capítulo 10

recebem a todo instante os qualificativos de “obscuros”, “difíceis” ou “som-


brios”, merecem pouca atenção. Alardeando o mesmo desdém de Arango e
Parreño pelos “tempos primitivos”, a novel historiografia republicana assume
a perspectiva histórica da velha oligarquia e concentra sua análise no período
posterior à tomada de Havana pelos ingleses (1762), quando a participação
popular se torna evidente. Os cubanos são, pois, os atores principais do drama.
Mas não todos: somente os “ilustres”, aqueles que, em sua condição de “inicia-
dores” ou “fundadores”, impulsionam o futuro nacional.7 O homem do povo
raramente aparece nas páginas dessa história e, quando o faz, é sempre como
uma individualidade a quem as circunstâncias puseram em primeiro plano. A
história em gestação não é menos díspar no espacial que no cronológico.
Havana é o centro privilegiado, o teatro primordial do acontecer insular. Seus
feitos e circunstâncias não apenas são mais estudados como, amiúde, as con-
clusões desses estudos se generalizam arbitrariamente para todo o país. A par-
tir do instante em que a história regional passa a ter cultores, até acadêmicos
de nomeada como Emeterio Santovenia dedicam ao “torrão” os seus primei-
ros desvelos; mas esses relatos locais apenas se integram ao discurso histórico
nacional, que só se afasta da capital quando acontecimentos de peso – como as
guerras de independência – se dão em outro cenário.
Assim, a história oficial gerada e “oficializada” nos primórdios da repú-
blica mostra-se apta a salvaguardar certos valores essenciais à identidade cuba-
na sob circunstâncias das mais complexas. Contudo, seu discurso reflete tanto
as necessidades quanto as inconseqüências de uma classe dirigente que se des-
gasta e se corrompe no exercício do poder.

REAFIRMAÇÃO NACIONAL
E RENOVAÇÃO HISTORIOGRÁFICA
Na década de 1920, toma corpo uma mudança substancial na trajetória
da sociedade cubana. Após o entusiasmo desenfreado produzido pela 1.ª
Guerra Mundial, uma profunda e inesperada crise desmascara a fragilidade
estrutural da economia monoprodutora. A transferência maciça de proprieda-
des para mãos norte-americanas, provocada pela queda do preço do açúcar,
dissipa as ilusões de um progresso ilimitado até em certos elementos da bur-
guesia associados ao capital imperialista. Mergulhadas na corrupção e nas
lutas partidárias, as classes dirigentes republicanas deixam clara sua incapaci-

293
Capítulo 10

dade política e propiciam a intromissão do governo dos Estados Unidos, que,


por sistemática e despudorada, torna-se cada vez mais intolerável. Essas cir-
cunstâncias suscitaram o que para alguns autores foi o “despertar da consciên-
cia nacional”, fenômeno encarnado em amplos e multiformes movimentos de
reivindicação que evidenciam a irrupção cabal das classes trabalhadora e
média na arena política. Para dominar essas forças, a oligarquia se aproxima de
Gerardo Machado, cuja ditadura agravará a crise até provocar uma revolução
que, embora frustrada, consegue abalar profundamente a ordem republicana.
As necessidades da hora afetam o movimento intelectual. Estudos e
ensaios em profusão sobre a “crise” e a “decadência” refletem a inquietude e o
compromisso crescente de inúmeros intelectuais que, imbuídos das mais avan-
çadas tendências do pensamento mundial, concebem projetos políticos e cul-
turais destinados à recuperação (ou remodelação) do país. De modo algum
alheia a essas influências, a historiografia também dá mostras de impulsos
renovadores que se associam, na essência, ao trabalho de três personalidades
proeminentes: Ramiro Guerra, Fernando Ortiz e Emilio Roig de Leuchsenring.
O exercício do magistério e uma poderosa vocação impelem Ramiro
Guerra a uma tenaz e fecunda atuação historiográfica de quase meio século.
Afora a redação de alguns textos de finalidade docente, Guerra toma a peito o
ambicioso projeto de uma Historia de Cuba, de que só vieram a lume os dois
primeiros volumes (1921 e 1925). Na ocasião, o seu esforço fica restrito ao
período colonial mais recuado, época sobre a qual a historiadora norte-ameri-
cana Irene Wright andava pesquisando e publicando.8 Mas, à diferença de
Wright, sempre a descrever com franca antipatia o ambiente de preguiça e
relaxação moral que julgava característico do cubano, Guerra atribui impor-
tância primordial a essa etapa por considerá-la “o verdadeiro período de fun-
dação da coletividade cubana”. O processo constitutivo do povo-nação apre-
senta-se assim como o tema por excelência da historiografia guerriana, algo
que se tornará ainda mais evidente graças à publicação, em 1938, de seu
Manual de Historia de Cuba.9
Justamente na preocupação pelo destino nacional em condições tão crí-
ticas, como o eram as dos anos 1920, encontra-se a raiz de Azúcar y población
en las Antillas, livro publicado em 1927 que é, provavelmente, a obra mais
conhecida desse historiador. Em suas páginas, Guerra traça um paralelo assus-
tador entre o desenvolvimento das plantações nas Antilhas britânicas, ao longo
dos séculos 17 e 18, e a avassaladora expansão do latifúndio açucareiro na
Cuba da época. Ao analisar os males do latifúndio, o autor reflete as angústias

294
Capítulo 10

de muitos colonos e fazendeiros de açúcar cubanos ante o perigo de serem var-


ridos pelo capital estadunidense. No entanto, sua denúncia se sustenta antes de
tudo na ameaça que significa para a sociedade e o Estado cubanos uma insti-
tuição econômica – o latifúndio – que “mina, solapa, destrói a nacionalidade
no que ela tem de básico e essencial”.10 Preocupado com outro fenômeno de
expansão, o do Estado norte-americano, Guerra volta para aí seus estudos e,
em obras como En el camino de la independencia (1930) e La expansión terri-
torial de los Estados Unidos (1935), analisa os problemas que esse processo pro-
vocou para a constituição da nação cubana, assunto sobre o qual seus critérios
constituem bom exemplo da ambigüidade de sentimentos que os Estados
Unidos – em seu duplo papel de paradigma democrático e potência imperial
– suscitavam na maioria de seus contemporâneos.
As obras posteriores de Ramiro Guerra trazem uma imagem renova-
da dos espaços regionais e locais. Mudos testigos (1947) e Por las veredas del
pasado (1957), em virtude de sua sensibilidade toda especial, são lucubra-
ções, até certo ponto proféticas, sobre a micro-história. Mas os capítulos ini-
ciais de Guerra de los Diez Años (1950-1952) é que apontariam caminhos
para a difícil tarefa de captar as peculiaridades regionais e integrá-las ao teci-
do histórico nacional.
A distância entre a obra de Guerra e a historiografia forjada nas primei-
ras décadas da república é apreciável, não só por sua revalorização dos séculos
“obscuros” ou sua perspectiva dos processos regionais, mas também, e acima de
tudo, pelo fato de seus textos exibirem um peso interpretativo sem precedentes.
Inteirado das tendências da historiografia mundial, sobretudo a anglo-saxôni-
ca – Trevelyan, Stratford, Truslow Adams, os Beard –, Guerra mostra-se rigoro-
so no tratamento das fontes, valendo-se de um método de análise que deixa
entrever os critérios de seleção, abrindo algum espaço às explicações e genera-
lizações. Embora sua atenção permaneça concentrada nos fatos políticos, ele os
relaciona com fenômenos econômicos e sociais, desvendando os interesses que
animam os protagonistas históricos, e não perde de vista a influência dos acon-
tecimentos internacionais quando reconstitui os processos da história cubana.
O tom objetivo e a moderação de julgamento, entre outras características, man-
têm Ramon Guerra dentro das fronteiras do positivismo, mas sua obra supera
claramente a etapa narrativa da historiografia de princípios do século, impri-
mindo ao discurso histórico da nação traços modernos e perduráveis.
Fernando Ortiz não foi historiador de ofício, nem se pode qualificar de
historiográfica a maior parte de sua obra. Todavia, sua atividade intelectual,

295
Capítulo 10

tão erudita quanto imaginativa, renovou pela base as concepções históricas


acerca do futuro nacional. De sólida formação positivista, adquirida em prin-
cípios do século durante seus estudos de Direito e Sociologia em universida-
des da Espanha e da Itália, Ortiz encara a sociedade cubana com o intento de
investigar a criminalidade. Na esteira de seus mestres Lombroso e Ferri, busca
um fundamento atávico nas condutas criminosas, o que o conduz, em corres-
pondência com as circunstâncias do momento, a perquirir as práticas religio-
sas e mágicas de origem africana. Sua primeira contribuição, Los negros brujos
(1906), é um estudo de etnologia criminal que se esforça por compreender, em
bases científicas, a “primitividade psíquica” dos negros. Logo percebe que o
assunto não pode ficar circunscrito à sua matriz africana e que se torna indis-
pensável analisá-lo no quadro das condições históricas – habitualmente opres-
sivas – a que esteve submetido esse setor da população insular. Assim, a segun-
da obra concebida dentro do ciclo dedicado à “súcia afrocubana”, Los negros
esclavos (1916), revelará já uma intenção historiográfica predominante, por
mais que sua estrutura e freqüente consideração sociológica dos problemas a
distanciem do elemento convencional na literatura histórica da época. A par-
tir daí, renova-se o programa de Ortiz, que visará ao reconhecimento do negro
com seus valores culturais e dignidade plenamente respeitados, parte indisso-
lúvel que é da comunidade nacional.11
Definitivamente propenso à antropologia – em 1921, funda a Sociedade
de Folclore Cubano –, Ortiz abandona os estudos de criminologia para con-
centrar toda a sua atenção nos fatores constitutivos da sociedade e da cultura,
trabalho formidável em que conjuga a mesa e a tribuna, abarcando desde a
valorização das influências hispânicas e a edição dos “clássicos” do pensamen-
to cubano até o estudo incessante das contribuições africanas à formação
nacional. Com a publicação, em 1940, do Contrapunteo cubano del azúcar y el
tabaco, cristalizam-se numa síntese magistral as diversas sendas de trabalho
palmilhadas por esse autor. Concebida como um contraste histórico entre os
parâmetros fundamentais da produção cubana, a obra vai muito além disso e,
num verdadeiro alarde de erudição, examina tanto a estrutura da sociedade
cubana e os efeitos da monocultura quanto a evolução de hábitos, crenças e
imaginário, enfeixando tudo isso em torno de um conceito de “cultura” que já
não pode ser enquadrado nos limites do positivismo culturalista.
Graças a essa concepção dinâmica da cultura e exame dos fatores sociais
do processo nacional, Ortiz instalava sobre alicerces científicos o estudo da iden-
tidade cubana, de vez que via o problema histórico da nação em termos que

296
Capítulo 10

transbordavam de seu tradicional – e estreitíssimo – leito político. Nesse âmbito,


o sábio cubano encarregar-se-á de novas contribuições – La africanía de la músi-
ca folklórica de Cuba (1950), Los instrumentos de la música afrocubana (1952) – e
ainda terá tempo para, quase no ocaso de sua vida ativa, publicar a Historia de
una pelea cubana contra los demonios (1959), fascinante estudo sobre as supersti-
ções e o fanatismo numa aldeia do século 17, em que já se entremostram aspec-
tos do que mais tarde seria conhecido como a “história das mentalidades”.
Sem a industriosidade de um Ramiro Guerra ou a cosmovisão de um
Fernando Ortiz, Emilio Roig de Leuchsenring figura, não obstante e por direi-
to próprio, entre os renovadores da historiografia cubana. Também advogado
de profissão, Roig ensaia as armas no jornalismo de costumes e no direito inter-
nacional público. É nesse terreno que se insere seu primeiro livro, La ocupación
de la República Dominicana por los Estados Unidos y el derecho de las pequeñas
nacionalidades de América (1919), primícias do que será o centro de suas preo-
cupações ao longo de um trabalho historiográfico dos mais frutíferos.
Roig traz para a historiografia cubana seu pragmatismo peculiar. Para
ele, a história é, antes de tudo, um elemento formador da consciência nacio-
nal. E, nas circunstâncias difíceis de seu país, essa consciência devia ser alerta-
da para as ameaças que no correr do tempo os Estados Unidos sempre repre-
sentaram para o destino da nação cubana. La ingerencia norteamericana en los
asuntos internos de Cuba (1922), Historia de la Enmienda Platt (1935), Cuba no
debe su independencia a los Estados Unidos (1949), Los Estados Unidos contra
Cuba Libre (1959) são apenas os marcos principais de sua historiografia expli-
citamente antiimperialista. Com esse esforço, Roig retoma e robustece a cor-
rente nacionalista iniciada por Collazo, até fazer em pedaços a imagem de
“aliado leal e desinteressado” que dos Estados Unidos a narrativa histórica ofi-
cial divulgava. Seu trabalho não se restringe, porém, a essa temática: a cidade
de Havana, o pensamento de José Martí e as guerras de independência tam-
bém ocupam amplos espaços na rica bibliografia do historiador.12
Não bastasse a obra escrita, Roig influencia o movimento historiográfico
cubano graças a seus extraordinários dotes de incentivador. Na Oficina del
Historiador de la Ciudad de La Habana – instituição criada por iniciativa sua –,
ele apóia publicações, inspira sociedades e organiza congressos nacionais de
História, atividades em que congrega tanto figuras consagradas quanto historia-
dores iniciantes para afiançar o compromisso social de uma historiografia posta-
da à margem da Academia.13 Esse movimento externa o que de forma implícita e
fragmentada se pode notar na melhor produção historiográfica das décadas de

297
Capítulo 10

1920 e 1930; do mesmo modo que a revolução de 1933, embora frustrada, havia
sacudido a hegemonia oligárquica na república, o impulso renovador desse anos,
sem transformar radicalmente a elaboração e os fundamentos da historiografia
cubana, deu margem a um discurso alternativo da história nacional capaz de dis-
putar espaço com a tradição oficial na consciência histórica da sociedade.

FLORESCIMENTO E DIVERSIDADE
Os anos 1940 e 1950, sobretudo os primeiros, são um ponto culminan-
te no movimento historiográfico cubano que se expressa não tanto pela enver-
gadura e alcance das publicações quanto pela profusão e diversidade destas.
Em meio à atmosfera de democratização e recuperação econômica propiciada
pela 2.ª Guerra Mundial, surgem obras tradicionais e inovadoras, marca pre-
sença uma nova geração de historiadores, dilatam-se os espaços públicos de
debate e difunde-se um paradigma historiográfico – o marxismo – capaz de
orientar as tendências renovadoras rumo a metas mais ambiciosas e cruciais.
Em 1939, Emeterio Santovenia – então presidente da Academia – dá
início à publicação de sua Historia de Cuba, da qual, quatro anos depois, verá
a luz um segundo volume. A obra estaca no final do século 18, mas ainda assim
constitui uma boa mostra de que o discurso histórico tradicional não se sub-
trai ao influxo de certos ares renovadores, ampliando-se para abarcar alguns
processos econômicos e sociais, inclusive certos aspectos do modo de vida, sem
que seus textos percam o enfoque descritivo. Outros expoentes da historiogra-
fia acadêmica – J. M. Pérez Cabrera, F. Ponte Domínguez – nutrem também a
literatura histórica da época com monografias breves e estudos biográficos de
caráter mais ou menos tradicional. Os temas do século 19, bem como a abor-
dagem da vida e obra dos próceres, continuam predominando na produção
historiográfica – e não apenas na acadêmica – que, pela maior parte, flui pelo
desaguadouro aberto à história nacional.
O caso peculiar e até certo ponto contraditório de Herminio Portell Vilá
ilustra a heterogeneidade da orientação historiográfica da época. Esse historia-
dor, que havia mostrado interesse pela história diplomática em alguns breves
estudos publicados ao longo da década de 1930, deu a lume, entre 1939 e 1941,
uma Historia de Cuba en sus relaciones con Estados Unidos y España, obra alen-
tada em quatro volumes em que ele aproveita – e em boa medida reproduz –
a copiosa documentação consultada durante um longo período de trabalho

298
Capítulo 10

nos arquivos norte-americanos. Aplicando os melhores recursos do cânone


positivista, Portell Vilá reconstitui o processo histórico cubano – até 1909 –
seguindo uma lógica que associa de modo constante “a ação e a reação das for-
ças externas” que condicionam a evolução nacional. Elabora, assim, um texto
cujo apurado senso crítico parece aproximá-lo das posições de Roig de
Leuchsenring, embora num tom bem mais cauteloso e contido. Todavia, na
década seguinte, dará a público uma obra igualmente volumosa e bem-docu-
mentada, Narciso López y su época, com vistas não só a desonerar explicita-
mente de seu anexacionismo o controvertido general venezuelano, mas a des-
culpar – aqui, sim, de modo implícito – a corrente anexacionista por sua pro-
jeção antinacional essencial. Essa obra, até certo ponto, vinha reanimar uma
tendência que se acreditava extinta, suscitando acirradas polêmicas e gerando
uma repulsa bastante generalizada no meio historiográfico.14
Aqueles eram tempos de debate. Não se deve esquecer que, por essa
época, os congressos nacionais de História denunciavam que “[...] por maldade
ou inconsciência se fez crer ao cubano que ele é um povo infeliz, incapaz e des-
graçado a ponto de sequer conseguir com esforço próprio romper os laços que
o escravizavam à Espanha [...]”.15 Nas décadas de 1940 e 1950, como vimos, sur-
gem também algumas das obras mais significativas da corrente renovadora. Não
cabe agora reiterá-las, mas em troca é imprescindível mencionar o trabalho de
algumas figuras “menores” desse movimento que então se agitavam principal-
mente ao redor de Emilio Roig. É o caso de José Luciano Franco, arguto pesqui-
sador de formação autodidata animado por um crescente interesse em destacar
o papel da população negra no processo histórico; Enrique Gay-Calbó, estudio-
so tanto da história institucional e intelectual quanto dos movimentos políticos
na primeira metade do século 19, e Elías Entralgo, em cujas abordagens socioló-
gicas do futuro histórico cubano e interesse pelas figuras de proa da cultura
nacional se faz visível a influência de Fernando Ortiz. Do círculo de Roig proce-
de também Fernando Portuondo, autor do que consideramos o melhor texto
para o ensino da História de Cuba escrito no século passado. Publicada pela pri-
meira vez em 1943, essa obra constitui excelente prova do grau em que o esfor-
ço renovador estava transformando o discurso histórico nacional. O esquema de
síntese, de óbvio influxo guerriano, acompanha o eixo do acontecer político e se
concentra no século 19, mas sem excluir os processos econômicos e culturais
nem o exame da influência dos fatores externos sobre a evolução nacional.
Embora a narrativa não se demore em problemas e – talvez em virtude da fina-
lidade didática – siga fielmente a seqüência cronológica, de modo algum está

299
Capítulo 10

ausente a intenção explicativa ainda que esta, de um modo geral, capte apenas as
relações mais elementares. A exaltação dos valores nacionais, enfim, conserva o
sabor indistinto e às vezes ingênuo do discurso tradicional, mas ainda assim o
transcende graças a um manifesto espírito nacionalista que se detém exatamen-
te na fronteira com o antiimperialismo – algo compreensível em se tratando de
uma obra concebida como texto para o ensino oficial.
Portuondo pertence à nova geração de historiadores surgida ao final da
década de 1930, alguns dos quais haviam marcado presença num ciclo de con-
ferências de grande repercussão sobre a História de Cuba, editadas pouco
depois sob os auspícios de Emilio Roig.16 Nessa nova jornada, nota-se a
influência do marxismo, cuja difusão seria facilitada pela atuação legal do
Partido Comunista durante os anos 1940. A nascente historiografia marxista
cubana insere-se no movimento renovador, cujo primado, sobretudo em
Ramiro Guerra, alguns de seus membros reconheceriam de modo explícito.17
Os primeiros historiadores marxistas, carentes como seus colegas de uma for-
mação específica e provavelmente mais limitados nas possibilidades de exercí-
cio profissional, concentraram esforços na “reinterpretação” da História de
Cuba, trabalho que desenvolveram de maneira um tanto dispersa e fragmen-
tária, apoiando-se nos conhecimentos acumulados pela historiografia prece-
dente. A figura mais ilustrativa dessa novel historiografia marxista é Sergio
Aguirre com sua obra de estréia, Seis actitudes de la burguesía cubana en el siglo
XIX (1942). Aguirre manuseia a trama histórica tradicional para subvertê-la,
vislumbrando a origem das diversas posturas e correntes políticas na evolução
das condições socioeconômicas e no jogo dos interesses de classe. Nesse
mesmo estilo analítico, o historiador produziria, uma década depois, em
Quince objeciones a Narciso López, a crítica mais profunda e convincente à con-
trovertida – e já mencionada – obra de Portell Vilá.18
Por seu caráter interpretativo e aplicação explícita de uma teoria da his-
tória, o marxismo lança o primeiro desafio em regra ao primado positivista na
historiografia cubana. Entretanto, a penúria de pesquisas concretas fez com que
os primeiros historiadores marxistas dependessem do material factual disponí-
vel e impediu-os, por isso mesmo, de refundir na essência o discurso histórico
estabelecido.19 Em que pese à sua crítica geral da historiografia burguesa e seu
interesse pelo resgate do sujeito popular – a ação histórica do negro, por exem-
plo –, o núcleo dos historiadores comunistas permaneceu cativo das formula-
ções e valorizações tradicionais frente a alguns processos e personalidades.
Nisso pode ter influído também a conjuntura política, pois não se deve esque-

300
Capítulo 10

cer que o desenvolvimento inicial das interpretações marxistas coincidiu com a


era das frentes amplas antifascistas, circunstância que talvez haja obscurecido
em parte o tom classista de seus enfoques críticos. Assim é que os indícios de
uma ruptura mais clara com o discurso tradicional não se encontram nas filei-
ras comunistas, mas entre historiadores de influência marxista que se haviam
desengajado ou não militavam nelas. De momento, o ataque se concentrou
contra alguns liberais reformistas do século 19 proclamados “pais fundadores”
da nação, sem levar em conta os preconceitos raciais e o sentido excludente de
seus projetos. A crítica, viciada por um esquematismo iconoclasta em Rafael
Soto Paz, adquiriu mais equilíbrio e sensatez, afora uma ampla fundamentação
documental, em Raúl Cepero Bonilla, cuja obra Azúcar y abolición (1948) cons-
titui o mais rematado expoente cubano do que em outras partes da América
Latina seria conhecido como “revisionismo historiográfico”.
A variedade de enfoques e preferências temáticas, as divergências inter-
pretativas e sua confluência polêmica em espaços públicos reconhecidos, o
surgimento de novos paradigmas historiográficos: tudo isso são evidências do
processo de maturação por que passava a historiografia cubana, a que se deve
acrescentar a constituição das primeiras disciplinas históricas especializadas.
Em alguns casos, podia-se contar com antecedentes remotos, como na histó-
ria das idéias, que ora se sistematiza sobretudo nas obras de Medardo Vitier.20
Em outros, como o da história econômica, tudo era sem dúvida novidade. O
primeiro esforço de sistematização nesse terreno deveu-se a um conhecido
historiador alemão, Heinrich Friedlander, que durante uma breve passagem
pelo país empreendeu a redação de uma Historia Económica de Cuba, obra ina-
cabada que viria a público em 1944. Já então alguns jovens historiadores
davam mostras de interesse pelo tema e, entre eles, quem conseguiria plasmar
as realizações mais precoces e judiciosas seria Julio Le Riverend. Com forma-
ção profissional acadêmica no Colegio de México – uma das pouquíssimas
exceções na época – e dotado de indisfarçável inspiração marxista, Le Riverend
inicia sua pesquisa na década de 1940. Os resultados que obtém, difundidos
em artigos e monografias curtas, deram margem pouco depois a uma síntese
ampla e quase completa da evolução econômica de Cuba, cujos capítulos vie-
ram a lume em diferentes volumes de uma obra coletiva que comentaremos
mais adiante. A existência sonolenta da história regional, apenas sacudida pelo
esforço tenaz e isolado de algum cultivador como Rafael Martínez Fortún, não
poderia modificar-se só em virtude do concurso aberto pela Academia de la
Historia, nos anos 1950, incentivando a redação de uma história de cada pro-

301
Capítulo 10

víncia do país. Os resultados dessas “biografias” de províncias, totalmente dis-


paratados e geralmente pobres (com exceção do estudo de Havana devido a
Julio Le Riverend), pouco contribuíram para a constituição definitiva da tão
necessária especialidade dentro da historiografia nacional.
O florescimento historiográfico testemunhado pelos anos agora em
exame dá testemunhos visíveis de esgotamento à medida que a década de 1950
avança, em grande parte como reflexo das condições políticas criadas pela dita-
dura de Batista. É por isso que uma obra coletiva publicada para comemorar o
cinqüentenário da República, a Historia de la nación cubana (1952), pode ense-
jar um balanço do estado da historiografia na época. Com a intenção de pro-
duzir uma história geral de Cuba, os organizadores da obra – Santovenia, Pérez
Cabrera, Guerra e Juan J. Remos – convocaram mais de uma vintena de auto-
res das mais variadas especialidades e tendências, alardeando um espírito “ecu-
mênico” concorde com a ordem democrático-representativa então reinante,
mas que encontrou um limite preciso na exclusão daqueles cujas posições polí-
ticas ou historiográficas eram tidas por demasiado extremas. Sem unificar cri-
térios nem estabelecer parâmetros, a tarefa foi distribuída por temas, de acordo
com uma periodização de base igualmente confusa; e o resultado é que a obra,
em dez volumes, parece mais um compêndio de monografias que uma síntese.
A imagem do processo histórico nacional se apresentava, pois, inteiramente fra-
cionada em textos em que o predomínio do paradigma positivista era contudo
evidente, por mais que o próprio caráter da obra tentasse refrear os excessos
documentais. Embora, em algumas seções – a da história econômica devida a
Le Riverend, por exemplo –, se fizesse alarde de uma capacidade explicativa
consoante com as posições historiográficas mais avançadas, havia também
momentos de franco retrocesso, como se vê pelo emprego da expressão “Guerra
Hispano-Americana”, arbitrariamente adotada por Remos a fim de qualificar o
conflito de 1898, a despeito das teses de Roig e das resoluções dos congressos
nacionais de História. Por sua imagem fragmentada e sua incoerência óbvia, a
Historia de la nación cubana oferece uma prova inequívoca da decomposição do
discurso histórico nacional no ocaso da república burguesa.

O IMPACTO DA REVOLUÇÃO
A Revolução de 1959 constitui a reviravolta histórica capital do sécu-
lo 20 cubano. Mais que uma saída para a crise política encarnada na ditadura

302
Capítulo 10

de Batista, o movimento revolucionário desencadeou um processo de trans-


formações radicais destinado a superar os obstáculos ao progresso do país e a
estabelecer uma ordem social mais justa, mais igualitária. Tratava-se, na reali-
dade, de construir uma sociedade nova, processo abrangente e diversificado
que modificaria também as condições da criação historiográfica. Em 1962, a
instituição da carreira universitária de História representou o primeiro e deci-
sivo passo para a profissionalização do historiador; vieram em seguida a fun-
dação de centros de pesquisa e, mais tarde, a organização das redes nacionais
de arquivos e museus históricos, instituições em que o trabalho dos historia-
dores encontraria finalmente uma sustentação própria. Desse modo, a institu-
cionalização da historiografia, que desde meados do século ocorre em outros
países da América Latina, verifica-se em Cuba – talvez de maneira mais exten-
sa – sob a égide da Revolução.
Os motivos de um esforço de institucionalização que em certos
momentos ultrapassou a racionalidade econômica são, aliás, compreensíveis: a
Revolução tem na História de Cuba sua principal fonte de legitimidade. A rup-
tura dos antigos vínculos de sujeição, num enfrentamento tenaz e às claras
com os Estados Unidos, materializava o ideal independentista; a Revolução se
apresentou, assim, como o auge de um processo secular marcado por sucessi-
vas frustrações e reafirmações cuja continuidade histórica Fidel Castro formu-
laria em 1968 sob o conceito dos “cem anos de luta”.21 Mas, em sua orientação
socialista, o movimento revolucionário representava também a reivindicação
de classes e setores preteridos no seio da sociedade cubana, cujo resgate histó-
rico ele intentava assumindo de modo explícito uma postura ideológica – a
marxista – fundamentada numa teoria ampla do progresso social. Munida de
tais projetos, a revolução encontrará obviamente dois trunfos inapreciáveis no
campo historiográfico: de um lado, a tradição nacionalista, que na obra de
Roig havia alcançado sua expressão mais perfeita; de outro, a linha marxista,
de realizações ainda discretas, mas suficientes para oferecer uma perspectiva
diversa do passado cubano. Graças a uma simbiose completa e peculiar, ambos
os componentes participarão – com peso variado, segundo as circunstâncias –
da prolongada gestação da nova história nacional.
De início, o esforço se voltou para a reinterpretação do passado do país,
aplicando os conceitos do marxismo – em alguns casos, pressurosamente assi-
milados – ao material historiográfico disponível. Dessa tarefa, geralmente
acossada por necessidades pedagógicas, participaram tanto historiadores con-
sagrados quanto outros mais novos; os resultados, de valor muito desigual,

303
Capítulo 10

abarcaram desde sínteses bastante aceitáveis até obras francamente medíocres,


em que os processos da história nacional, malcompreendidos, mesclavam-se às
categorias e leis do materialismo histórico, que assim ficava reduzido a mera
terminologia.22 Mesmo nas obras mais bem-sucedidas dessa literatura tornava-
se evidente que a reformulação do discurso histórico nacional exigia não ape-
nas a crítica profunda e perspicaz da historiografia anterior como também
uma ampliação radical da base empírica dos estudos históricos. São duas as
obras que, a nosso ver, abriram caminho para tão formidável empresa: El inge-
nio (1964), de Manuel Moreno Fraginals, e El general Don Miguel Tacón y su
época, de Juan Pérez de la Riva.23 Tratava-se, em ambos os casos, de historiado-
res de formação profissional cujas publicações na era pré-revolucionária
haviam sido relativamente poucas; Moreno dava a lume o primeiro tomo de
um projeto, ambicioso e original ao mesmo tempo, com o qual se propunha a
estudar a plantação açucareira escravista como alicerce da sociedade cubana
na primeira metade do século 19; Pérez de la Riva, por seu turno, retomava um
tema-chave da história dessa mesma etapa para renovar algumas teses propos-
tas por Cepero Bonilla. De pontos de vista diferentes – e sem que fosse esse seu
objetivo principal –, os dois autores tratavam o tema da formação nacional em
Cuba a partir de um ângulo que se distanciava do enfoque corriqueiro, colo-
cando em primeiro plano um problema que daria margem ao mais interessan-
te debate historiográfico daqueles anos.24
Para além desse importante ponto de convergência, a tarefa historiográ-
fica revela um considerável enriquecimento temático na passagem dos anos
1960 para os anos 1970. Os processos econômicos, como é de supor, chama-
ram mais a atenção, sobretudo aqueles que eram tidos como fatores do subde-
senvolvimento e da dependência da nação (criação de uma estrutura mono-
produtora, penetração do capital norte-americano, etc.). De igual modo,
manifestava-se o interesse por temas sociais, principalmente a evolução do
movimento operário e os problemas históricos da população negra. Evoluíram
também os estudos sobre o período republicano, empenhados de um modo
geral em denunciar as conseqüências da dominação imperialista e as mazelas
da sociedade anterior – zelo compreensível, dadas as circunstâncias –, em que
se percebe acentuada preocupação com o processo revolucionário dos anos
1930, considerado o antecedente imediato da Revolução. Os frutos de todo
esse trabalho, transfundidos em monografias, ensaios e artigos de revista, eram
avalizados por nomes conhecidos (Le Riverend, Aguirre, Moreno Fraginals,
Pérez de la Riva, José Luciano Franco, José Rivero Muñiz, Fernando

304
Capítulo 10

Portuondo, Juan Jiménez Pastrana, Hortensia Pichardo, entre outros) a quem


se uniram estreantes como Jorge Ibarra, Oscar Pino-Santos, Pedro Deschamps,
José Tabares, César García del Pino e Walterio Carbonell, autores de formação
diversa, além de jornalistas, advogados e professores que nas novas condições
criadas haviam encontrado espaço para sua vocação.25
A agitação dos tempos mostra-se propícia ao acolhimento de influên-
cias variadas. Em primeiro lugar, temos o marxismo, vindo em manuais sovié-
ticos de feição mais ou menos dogmática, porém igualmente acessível nas
obras clássicas de Marx, Engels e Lenin, editadas e distribuídas profusamente,
e nas de alguns pensadores (Gramsci, Lukács, Althusser) ou historiadores
(Gordon Childe, Hobsbawm e Soboul) contemporâneos. A Escola dos Annales
se faz sentir não apenas com a publicação da Apología de la historia, de Bloch,
em 1971, mas também com a circulação dos trabalhos de Febvre, Braudel e
Pierre Vilar; sua inspiração é evidente na criação multifacetada de Pérez de la
Riva, que se formara em universidades francesas, e aparece nos métodos apli-
cados por outros historiadores. Por motivos óbvios, a “teoria da dependência”
deixa sua marca em várias obras dessa época e ainda animará concepções de
mais largo fôlego.26 Na agitação febril dos anos 1960, chegava a termo a pro-
longada hegemonia do paradigma positivista na historiografia cubana – ainda
que se notem até hoje notáveis sobrevivências –, que antecipava então o que
na América Latina começava a ser conhecido como “nova história”.
Após o fracasso da “Safra dos Dez Milhões” (1970), em Cuba, a experi-
mentação arrojada cede espaço a uma sociedade moldada cada vez mais pelas
normas aparentemente eficazes do chamado “socialismo real”.27 A nova orien-
tação, visível no planejamento econômico e na institucionalização política,
estendeu-se também ao plano ideológico. A vigência de um marxismo esclero-
sado por décadas de hibernação dogmática teve conseqüências nefastas para as
Ciências Sociais: muitas delas, como a Sociologia, desapareceram até dos cur-
sos universitários. Tanto na pesquisa quanto no ensino, a atenção devia se vol-
tar para as “regularidades” históricas, aquelas pautas universais que apontavam
o rumo inelutável da humanidade e sustentavam um único modelo possível de
construção socialista.
Na formação universitária dos historiadores, abriu-se considerável espa-
ço a disciplinas teóricas cujos métodos de abordagem da realidade eram fran-
camente dedutivos e reducionistas, ao mesmo tempo em que algumas cátedras
históricas adotavam modelos explicativos de notório esquematismo.
Felizmente, a obrigatoriedade simultânea da tese de graduação deixou aberta

305
Capítulo 10

uma válvula de escape para a pesquisa concreta, a ser melhor ou pior aprovei-
tada segundo as circunstâncias. Contudo, sem margem a dúvidas, a conseqüên-
cia mais lamentável da onda dogmática na esfera educativa seria a supressão da
História de Cuba como matéria específica do curso médio, com seus conteúdos
se dissolvendo numa disciplina histórica geral organizada de acordo com a
sucessão de formações econômico-sociais em escala mundial. Assim se elimi-
nou toda possibilidade de um estudo sistemático da história nacional, desapa-
receram os textos sobre o tema e, pior ainda, formou-se uma geração inteira
com limitadíssimos conhecimentos do processo histórico cubano.
Na pesquisa científica, privilegiaram-se certos campos e desestimula-
ram-se outros, conforme as concepções teóricas em vigor. Mas até aqueles a
que se dava prioridade ficaram paralisados por um enfoque claramente empo-
brecedor, como sucedeu com a história operária, tratada em termos estrita-
mente institucionais que deixavam de lado importantes problemas cuja eluci-
dação teria enriquecido a imagem do passado cubano. Os centros de pesquisa
adotaram métodos de direção que propiciavam a esterilidade intelectual e, em
sentido genérico, impôs-se uma atitude de reserva e suspeita com relação à
literatura histórica de países outros que não os da Europa do Leste – incluin-
do a de marxistas ocidentais – que isolava os historiadores e condenava-os a
ignorar os progressos da ciência histórica em escala mundial.28
Em que pese ao fato de se fazerem sentir restrições também no âmbito
editorial, que começaram a afrouxar após a criação do Ministério da Cultura,
em 1976, a publicação de monografias, ensaios e outros estudos iniciada nos
anos 1960 prosseguiu em escala ascendente, já agora nutrida pelas contribui-
ções de uma nova safra de historiadores formados nas universidades.29 Graças
às próprias peculiaridades do processo histórico cubano e à sua sólida tradição
nacionalista – inestimáveis obstáculos ao mimetismo –, a historiografia logra-
va rebater os golpes do dogmatismo e iniciava um movimento progressivo
rumo à consolidação. No evolver dessa tendência, expressa tanto no número e
na acuidade das pesquisas quanto em sua ampliação temática, algumas especia-
lidades historiográficas já estabelecidas cobram novo impulso, enquanto outras
se consolidam. A história econômica, que em 1973 haurira o sopro renovador
do estudo que Pino-Santos dedicou à atividade do capital monopolista norte-
americano em Cuba,30 consegue a sua mais alta realização, na época, com o sur-
gimento, em 1978, dos três volumes em que Moreno Fraginals concentra os
resultados de sua pesquisa sobre o complexo açucareiro escravista. Ambas as
linhas asseguram sua continuidade mercê das contribuições de novos pesquisa-

306
Capítulo 10

dores como Jesús Chía, Arnaldo Silva, Francisco López Segrera, Alejandro
García e Oscar Zanetti (em estudos estruturais e empresariais sobre a era capi-
talista), bem como de Fe Iglesias e Gloria García, entre outros, que se dedicam
aos problemas da economia baseada na escravidão. A isso se somam novas
indagações sobre o período colonial remoto, notadamente o trabalho de Le
Riverend a respeito dos problemas da formação agrária. A história demográfi-
ca nasce graças aos esforços de Pérez de la Riva, cujos estudos sobre os movi-
mentos migratórios constitutivos do povo cubano encontram seguidores em
Jesús Guanche, Sonia Catasús, Rafael López Valdés e outros. O conhecimento
das estruturas e classes sociais se aprofunda com as contribuições de María del
Carmen Barcia, Alejandro García e Eduardo Torres Cuevas, destacando-se este
último igualmente na esfera da história intelectual. Os estudos sobre as condi-
ções econômicas e sociais do negro, o tráfico de escravos e outros problemas
relacionados à presença negra na história cubana alimentam-se dos constantes
trabalhos de Franco e Deschamps, a quem se somam Rafael Duharte, Enrique
Sosa, Gabino La Rosa, Tomás Fernández Robaina e Rodolfo Sarracino. A temá-
tica operária chama especialmente a atenção, conforme dissemos, e embora
muitos estudos fluam pelo leito apertado do convencional, registra contribui-
ções notáveis assinadas por Carlos del Toro, Olga Cabrera, John Dumoulin e
Eddy Trimiño, além de uma síntese geral da história do movimento operário
realizada quase ao fim dessa fase.31
No quadro de tão vasto panorama, são os temas da história política que
continuam absorvendo o grosso da produção historiográfica. Os movimentos
políticos e as correntes ideológicas do século 19, em particular as lutas pela
independência sem excluir seus aspectos militares, mantêm a tradicional pri-
mazia no seio de uma geração nova que trará à cena nomes estreantes: Ramón
de Armas, Pedro Pablo Rodríguez, Francisco Pérez Guzmán, Eusebio Leal,
Diana Abad, Oscar Loyola, Salvador Morales, Mildred de la Torre, só para
mencionar alguns dos numerosos cultivadores dessa temática. Diversas perso-
nalidades do século passado são objeto de estudo biográfico, mas o foco da
atenção concentra-se em José Martí. Para examinar a vida e as idéias desse pró-
cer, cria-se um centro de pesquisas. Por outro lado, a caracterização do pensa-
mento de Martí suscita uma reveladora polêmica em que se esclarece uma vez
mais o contraste entre aqueles que enfatizavam as especificidades da história
nacional e aqueles que se esforçavam para traduzir essas especificidades em
categorias de alcance universal.32 Os processos republicanos constituem o
outro grande campo da historiografia política. Trata-se, é claro, de um terreno

307
Capítulo 10

bem menos conhecido em que se aventuram Teresita Yglesias, Joel James, José
Tabares, Lionel Soto, Federico Chang e Jorge Ibarra com estudos sobre perío-
dos ou personalidades das décadas mais recuadas, e Mario Mencía, Pedro
Alvarez Tabío e William Gálvez, pioneiros no estudo da luta insurrecional que
conduziu ao triunfo revolucionário de 1959, assunto responsável também por
farta publicação de perfil testemunhal. Embora esses trabalhos esclareçam
importantes questões do período neocolonial, a ânsia de contrastar passado e
presente, além de certa tendência a enfoques teleológicos, impediu o exame
dos problemas em todo o seu espectro, de sorte que o conhecimento da expe-
riência republicana continua apresentando deficits muito sensíveis para a
construção de uma imagem íntegra da história nacional. Mais notável ainda é
a virtual ausência de estudos históricos sobre a etapa posterior a 1959, de
modo que o passado recente vem sendo matéria de análise para sociólogos ou
economistas, mas continua carente de “historização”.
Embora suas origens remontem à década de 1960, cremos apropriado
consignar aqui um fenômeno inédito no século que abordamos: a existência
de uma produção historiográfica cubana fora de Cuba. Seu surgimento resul-
tou da atividade de alguns intelectuais e políticos como Santovenia, Calixto
Masó e Carlos Márquez Sterling, entre outros que, tendo abandonado a ilha
após o triunfo da Revolução, fazem e refazem suas obras sob o impacto do
acontecimento revolucionário. Trata-se, em grande medida, de uma retomada
da velha tradição historiográfica, mas agora viciada por uma insistência no
presente que, amiúde, torna difícil distinguir estudos estritamente históricos
de outros de perfil sociopolítico, cujo alcance científico acaba por isso mesmo
sendo bastante questionável.33
Com o passar do tempo, foram se definindo duas linhas nessa historio-
grafia. A primeira é representada por historiadores não-profissionais que, com
ânimo diverso, abordaram processos, acontecimentos e personalidades do pas-
sado cubano para criar uma literatura (quase toda publicada pela editora
Universal, de Miami) que inclui tanto monografias de valor quanto verdadei-
ros compêndios de bisbilhotice. A outra se baseia no trabalho de alguns histo-
riadores de origem cubana formados em universidades dos Estados Unidos
durante os anos 1970 e 1980, que revelaram interesse pelos problemas históri-
cos de seu país natal. Com freqüência inovadores por seus temas, fontes ou
métodos, esses trabalhos trazem apreciações novas sobre o processo histórico
da nação, ainda que de um modo geral tendam a se enquadrar mais nos mol-
des acadêmicos norte-americanos – quase todos são teses de doutorado – que

308
Capítulo 10

na tradição historiográfica cubana. Nesse contexto, merece citação à parte, por


sua grandiosidade, a obra Cuba: economía y sociedad, de Levi Marrero.
Professor universitário com alguma experiência em pesquisa, Marrero conce-
beu um ambicioso projeto de história geral que levou adiante com denodado
esforço – incluindo longas temporadas nos arquivos espanhóis – até conseguir
publicar doze volumes entre 1974 e 1990, quando, significativamente, deu a
obra por concluída: justamente no começo do período correspondente às
guerras de independência. Em Marrero, geógrafo de profissão, percebe-se a
influência da Escola dos Annales, posto que muito mais no plano da obra e na
determinação do objeto – reserva considerável espaço aos processos econômi-
cos e demográficos, bem como aos fenômenos sociais e ao modo de vida – que
no procedimento analítico, pois seus textos se caracterizam tanto pela descri-
ção ricamente documentada quanto pela penúria interpretativa.
No decorrer da década de 1980, tornou-se claro que os estudos mono-
gráficos iam modificando substancialmente o panorama da história nacional,
mas, na medida em que essas realizações não chegavam a uma síntese – nem
mesmo nos textos do ensino médio –, a visão de conjunto se diluía. Esta só
tomava corpo, até certo ponto, na divulgação de imagens históricas pela
imprensa e outros meios, imagens que, apesar do emprego de uma terminolo-
gia marxista, da inspiração popular e do óbvio teor antiimperialista, no fundo
ofereciam unicamente atualizações pragmáticas do discurso tradicional.
Cientes dessa situação, os historiadores começaram a formular no âmbito
das universidades e centros de pesquisas projetos de síntese que, como textos de
nível superior ou sob outra forma qualquer, pudessem preencher esse vazio gri-
tante. Depois de sua criação, em 1988, o Instituto de História de Cuba convocou
numeroso grupo de especialistas para levar a cabo a redação de uma história geral
planejada para cinco volumes. Redigida pela maior parte em curto espaço de
tempo, essa obra não veria a luz até estar bem adiantada a década de 1990, devi-
do às circunstâncias críticas daqueles anos.34 Independentemente de algumas
diferenças de critério entre os autores, o projeto repousava em fundamentos teó-
ricos comuns e num plano bem-definido, o que lhe permitia resolver com desen-
voltura os problemas de coerência tão freqüentes nos grandes empreendimentos
coletivos. A explicação oferecida na maior parte dos capítulos encadeia com habi-
lidade e profundeza aceitáveis os processos políticos, econômicos e sociais – estes
últimos, principalmente nos aspectos estruturais, demográficos e classistas –,
desentranhando toda uma lógica da evolução histórica da sociedade cubana, o
que por si só representa um progresso apreciável com relação a qualquer síntese

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Capítulo 10

precedente. No entanto, a periodização adotada, o espaço desigual concedido a


cada etapa, a presença vaga do sujeito popular – tanto em sua atividade quanto
em suas imagens e modo de vida – e, sobretudo, o tratamento superficial dos pro-
cessos culturais, base do futuro do país, indicam que como discurso histórico
nacional estamos diante de uma simples obra de transição.35

OS TEMPOS ATUAIS
O desaparecimento da União Soviética e do bloco socialista europeu em
princípios dos anos 1990 teve formidável impacto sobre a realidade cubana. O
país assistiu ao rompimento brusco de seus principais vínculos econômicos,
enquanto os Estados Unidos redobravam esforços para sufocar o processo revo-
lucionário. Afora a queda acelerada dos indicadores econômicos e a visível dete-
rioração das condições sociais, a crise apresentava também outra faceta, que,
para efeitos desta análise, vem a ser a mais importante: ao solapar realidades
tidas por irreversíveis, o giro histórico questionou os fundamentos do paradig-
ma marxista, projetando a crise para o âmbito ideológico e cultural. A busca de
novas fórmulas econômicas e os reajustes políticos precisavam cercar-se, pois, de
uma reavaliação dos pressupostos culturais do projeto revolucionário.
Enquanto o marxismo forceja por se reconstituir passando sua expe-
riência pelo crivo da crítica, em Cuba, a revolução se firma nos valores autóc-
tones e o discurso histórico se aferra ao tom nacionalista em seu duradouro
confronto com os Estados Unidos. Essa apreciação, que nos parece bastante
exata para definir a tendência mais geral, resulta, todavia, de uma nítida insu-
ficiência, se com ela pretendermos caracterizar o estado atual dos estudos his-
tóricos na ilha.
A atividade historiográfica, na segunda metade da década de 1990, foi
incentivada em grande parte pela comemoração do centenário da última guer-
ra de independência (1895-1898) e, na medida em que isso coincidiu com uma
certa recuperação econômica e editorial, temos aí realizações suficientes para
traçar um panorama da situação. Os problemas clássicos daquele período his-
tórico – estado e perspectivas do conflito quando da intervenção dos Estados
Unidos, razões dessa intervenção, tendências dentro do movimento libertador,
etc. – foram outra vez trazidos à baila para serem examinados à luz de novas
fontes, principalmente espanholas e norte-americanas, num esforço de revisão
cujo resultado mais visível é a obra em dois volumes de Rolando Rodríguez,

310
Capítulo 10

Cuba: la forja de una nación (1998). Também é notório o interesse por resga-
tar assuntos pouco estudados como a “reconcentração” – em Herida profunda
(1998), de Francisco Pérez Guzmán – e, sobretudo, dilatar a perspectiva dos
problemas, situando-os de maneira correta em marcos temporais mais
amplos, observando-os numa vasta rede de relações ou invadindo terrenos
inexplorados, principalmente na esfera social, conforme se vê nos trabalhos de
Fe Iglesias, Oscar Zanetti e María del Carmen Barcia.
E é no amplo espectro temático da chamada “história social” que se inse-
rem, em volume cada vez maior, os trabalhos mais recentes da historiografia
cubana. Problemas da História de Cuba, movimentos e conflitos sociais, menta-
lidades coletivas ou de sexo imbricam com linhas já estabelecidas, como a ques-
tão étnica e as estruturas sociais, numa dinâmica que vai ampliando gradativa-
mente o campo de pesquisa. Para o desenvolvimento dessa tendência, contri-
buem tanto trabalhos de figuras consagradas – Jorge Ibarra, por exemplo – e
especialistas conhecidos – como Carlos Venegas, Lohania Aruca e Ernesto
Chávez – quanto representantes da última geração de historiadores cubanos.
Fruto de cursos universitários durante a década de 1980, esses novos pesquisa-
dores vão encetar sua carreira nas complexas circunstâncias dos anos 1990. Em
trabalhos como os de María A. Marqués, J. Ibarra Guitart, Mercedes García,
Urbano Martinez, Rafael Rojas ou Eliades Acosta, fazem-se visíveis ao mesmo
tempo a continuidade e a vontade renovadora dos gêneros estabelecidos (histó-
ria política, econômica e intelectual), tanto quanto o interesse crescente por
áreas pouco exploradas da história social. Salta à vista a importância desse movi-
mento rumo à chamada “recuperação do sujeito” na constante renovação da his-
tória nacional, pois que traz à cena histórica atos, crenças e condições reais de
existência das pessoas comuns ou desvenda ângulos quase ignorados da cons-
ciência social. Desse modo, começa-se a suprir uma carência antiga, tornando o
discurso mais próximo e também mais acessível.37
A outra esfera em que atualmente se observa um dinamismo todo par-
ticular é a história regional. A renovação dessa valiosa especialidade historio-
gráfica já era perceptível nos anos 1980, graças às obras de autores como
Hernán Venegas, Olga Portuondo e Raúl Ruiz. A criação de centros superiores
de estudo em todas as províncias do país, bem como as redes de museus, arqui-
vos e bibliotecas, foram suportes fundamentais para esse movimento que vai
aglutinando historiadores das principais cidades e regiões. Suas realizações,
ainda discretas, aparecem em monografias ou revistas e dão vida a um progra-
ma de histórias provinciais ou municipais que busca resgatar as identidades

311
Capítulo 10

locais, aproximando o ensino da história do ambiente imediato dos estudan-


tes. Os problemas colocados pelo desenvolvimento da historiografia regional
são múltiplos e complexos; eles deram ensejo a importantes reflexões e ora
criam espaços de debate em encontros periódicos como os organizados pela
Casa do Caribe e o Instituto de História de Cuba.38 Todavia, resta ainda à his-
toriografia cubana um caminho a percorrer para que as histórias regionais,
transcendendo a imagem da região como cenário específico de processos
nacionais, consigam captar a lógica própria ao desenvolvimento local. Só
assim seus resultados poderão inserir a história nacional na dimensão espacial
múltipla e diversificada de que ela tanto necessita.
Os estudos de história social e regional constituem pontos de conver-
gência de diferentes ciências sociais e oferecem, por isso mesmo, possibilida-
des para uma profícua colaboração interdisciplinar. Neles se pode também
apreciar melhor o influxo que algumas correntes historiográficas contemporâ-
neas – como a micro-história ou a nova história cultural – exerce sobre os his-
toriadores cubanos, influência ainda limitada pelas carências materiais que
dificultam o acesso à bibliografia mais recente.
Este modesto resumo de todo um século de trabalho historiográfico, ape-
sar de suas lacunas inevitáveis, deixa um saldo que nos parece evidente: o discur-
so histórico nacional em Cuba é e continuará sendo uma “história em constru-
ção”. Como vem sucedendo há décadas, a pesquisa incessante iluminará recan-
tos desconhecidos, resgatará personagens ignorados e elaborará explicações cada
vez mais consistentes. Em virtude desse anseio inamovível – e irrealizável – de
abarcar todos os tempos e todos os cenários, todos os homens e todas as mulhe-
res, ir-se-á modelando uma história mais plena, cujos problemas mobilizem o
pensamento e permitam ao povo compreender de onde vem e para onde vai.
Essa história nacional que se constrói, despojada do falso vezo patriótico da ave-
lhentada historiografia republicana, representa um meio inestimável de preser-
var a identidade da nação em um mundo a cada dia mais globalizado.

NOTAS
1 Cuba y su evolución colonial. La Habana: Imp. El Avisador Comercial, 1907. Um ano
antes, Figueras publicara o folheto La intervención y su política, em que fazia uma
primeira avaliação dos fatores que impediam Cuba de levar existência independen-
te e, com gritante providencialismo, apontava para o destino de americanização da
ilha. Em Cuba y su evolución colonial, fundamentava essa tese no plano histórico
com um texto mais aliciante pela sugestão de certas interpretações sociológicas que
pela exatidão factual ou pelo peso da documentação.

312
Capítulo 10

2 Collazo já havia dado mostras de suas aptidões historiográficas precoces com a pu–
blicação de Desde Yara hasta el Zanjón (1893), um relato da primeira guerra de
independência. Embora não fosse historiador profissional, apoiava sua narração
tanto em experiências próprias quanto em documentos, dos quais reproduz na obra
longos trechos, como era costume na época. Seu esforço, por outro lado, tem fun-
damento pragmático bem explícito, conforme se vê na “Dedicatória” de Los ameri-
canos en Cuba: “Aprendamos, com a história de nosso passado, a desconfiar de nos-
sos protetores humanitários [...] se é que queremos conservar a independência
absoluta e a liberdade, pelas quais lutamos durante meio século”.
3 Embora os primeiros expoentes dessa literatura apareçam em fins do século 19, ela
se nutre cada vez mais, desde os primórdios da república, da publicação de obras
como La revolución de Yara, de Fernando Figueiredo (1902), Mi diario de la guerra,
de Bernabé Boza (1905), Las crónicas de la guerra, de José Miro Argenter (1909) e
Relieves, de Gerardo Castellanos (1910).
4 ALMODÓVAR, Carmen. Antología crítica de la historiografía cubana (período neo-
colonial). La Habana: Ed. Pueblo y Educación, 1989. p. 99-102.
5 YGLESIA, Teresita. The History of Cuba and its Interpreters, 1898-1935. The
Americas, XLIX, n. 3, p. 373-374, Jan. 1993.
6 Entre essas obras, figuram as monografias de Roque Garrigó e Adrián del Valle, de-
dicadas às primeiras conspirações independentistas, os estudos da historiadora
norte-americana Irene Wright sobre a Havana dos primeiros séculos coloniais e
importantes compilações documentais como o Centón epistolario de Domingo del
Monte e o Cedulario cubano, fruto de uma minuciosa pesquisa empreendida por
José María Chacón y Calvo nos arquivos espanhóis. Uma arguta avaliação das carac-
terísticas e realizações da Academia está no ensaio inédito de Ricardo Quiza, El
cuento al revés: historia, nacionalismo y poder en Cuba, 1902-1930, cujo texto pude-
mos consultar por gentileza do autor.
7 Quiza, p. 30-36.
8 The Early History of Cuba, 1492-1856. New York: [Macmillan], 1916; Historia docu-
mentada de San Cristóbal de La Habana. La Habana: Siglo XX, 1927. Para uma apre-
ciação, ver C. García del Pino e A. de la Fuente, “Apuntes sobre la historiografía de
la segunda mitad del siglo XVI cubano”, em Santiago, n. 71, p. 77-78, dic. 1988.
9 De maneira explícita, Guerra estabelecera esse critério na introdução ao primeiro
volume de sua Historia de Cuba (La Habana: Siglo XX, 1921. p. 3), ao afirmar que
“[...] a história tem como objetivo primordial explicar cientificamente o processo
de formação e evolução de uma comunidade nacional [...]”.
10 Azúcar y población en las Antillas. La Habana: Instituto Cubano del Libro, 1970. p. 80.
Sobre esse assunto, ver R. Rojas, “La memoria de un patricio”, em op.