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ARTIGO ARTICLE 35

Situação do controle da transmissão vetorial


da doença de Chagas nas Américas

Current situation with Chagas disease vector


control in the Americas

Antonio Carlos Silveira 1

1 Organização Pan-americana Abstract This article identifies and describes various epidemiological aspects in the natural
da Saúde (OPAS/OMS/Brasil).
transmission of Chagas disease in the Americas. It also examines the relative importance of the
Setor de Embaixadas Norte,
lote 19, sala 19, Brasília, DF principal vector species in the disease’s transmission and the control levels that are feasible in
70800-400, Brasil. each instance. Estimations of the population at risk, number of infected cases, and number of
chronic cases are presented. Prospects for control are discussed on the basis of past results to pre-
dict the expected results with introduced species like Triatoma infestans in the Southern Cone
and Rhodnius prolixus in Central America and with the other autochthonous species in areas
where they are found. Finally, the article discusses the role of other transmission mechanisms in
the maintenance of endemic Chagas disease.
Key words Chagas Disease; Triatominae; Insect Vectors; Vector Control; Prevention and Control

Resumo Este trabalho identifica e descreve distintas situações do ponto de vista epidemiológico
em relação à transmissão natural da doença de Chagas no continente. A importância relativa
das principais espécies de vetor na veiculação da doença e o nível de controle que se pode pre-
tender em cada caso são examinados. Apresentam-se as estimativas existentes no que concerne à
população sob risco, bem como ao número de casos de infecção e de doença crônica. Por fim dis-
cutem-se as perspectivas do controle, com base nos resultados obtidos e que podem ser colhidos
com a introdução de espécies – como Triatoma infestans, no Cone Sul, e Rhodnius prolixus, em
parte da América Central – e com as demais espécies, autóctones das áreas onde são encontra-
das. Além disso, questiona-se o papel que os demais mecanismos de transmissão poderão repre-
sentar na manutenção da endemia chagásica.
Palavras-chave Doença de Chagas; Triatominae; Insetos Vetores; Controle de Vetores; Prevenção
e Controle

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Introdução provada vulnerabilidade ao controle, a priori-


dade conferida à doença de Chagas foi sempre
A distribuição de triatomíneos, vetores da do- menor ou apenas precária e instável. O fato de
ença de Chagas, não se limita ao continente a doença apresentar caráter crônico e ser pre-
americano, ainda que, em ambiente domici- dominantemente rural – afetando populações
liar, apenas haja transmissão natural da enfer- quase sempre à margem do processo produti-
midade ao homem na região compreendida vo e sem qualquer canal de reivindicação quan-
desde o sul dos Estados Unidos – onde foram to ao atendimento de suas necessidades – é de-
reportados apenas poucos casos – até a provín- terminante para que a decisão política pelo
cia de Chubut, na Argentina (Marsden, 1983; controle seja – ou, em certos casos, tenha sido –
WHO, 1991). Disso decorre a designação de Tri- dificilmente lograda (Silveira, 1994).
panossomíase Americana para a entidade mór- Apesar disso, estudos de custo-benefício ou
bida descrita por Carlos Chagas. de custo-efetividade têm mostrado o quanto é
Mesmo nas Américas, a área de dispersão compensador o controle relativamente aos gas-
de vetores no ambiente silvestre é bem mais tos com a atenção ao paciente chagásico (Scho-
extensa do que aquela com transmissão veto- field & Dias, 1991). Análise recente do progra-
rial. São encontrados triatomíneos entre os 40o ma brasileiro de controle da doença de Chagas
de latitude norte (Zeledón, 1972) e 45o de lati- chegou à estimativa de que, entre 1975 e 1995,
tude sul (Jörg, 1957; Bonet, 1972). teriam sido prevenidas 2.339.000 novas infec-
Evidentemente, a veiculação da doença no ções e 337.000 óbitos ou 11.486.000 Anos de Vi-
ambiente domiciliar resulta de outras variá- da Ajustados para Incapacidade (AVAI). Esses
veis. É indispensável que o vetor esteja presen- números indicam gastos prevenidos de cerca
te, infectado e colonizando a habitação huma- de US$ 17,00 para cada US$ 1,00 aplicado nas
na. Tal situação, por sua vez, está condicionada atividades de controle. Semelhante relação co-
primariamente à existência de circunstâncias loca as ações de controle da doença de Chagas
favoráveis à domiciliação dos vetores, que são na categoria das intervenções com alta efetivi-
condições relacionadas ao ambiente, à ação do dade (Dariush, 1998).
homem sobre o ambiente e a atributos do pró- Em função do baixo nível de prioridade po-
prio vetor. lítica que mereceu o controle da doença de
A doença de Chagas ocorre caracteristica- Chagas, a situação epidemiológica foi sendo
mente em espaços abertos, naturais ou como agravada em muitos países, mesmo quando já
produto de ação antrópica. A domiciliação do era disponível tecnologia suficiente para o con-
vetor está relacionada a maior ou menor pre- trole da transmissão domiciliar pelo vetor.
servação de seus ecótopos naturais, do tipo de
habitação na área e, então, da possibilidade de
abrigo para os triatomíneos, do hematofagis- A doença
mo estrito deles e da oferta alimentar existen-
te, bem como do diferente grau de antropofilia A prevalência da infecção chagásica nas Amé-
de cada uma das espécies (Forattini, 1980). ricas é conhecida, com maior precisão, no co-
O ambiente onde se dá a transmissão do- ne sul e Venezuela por intermédio de inquéri-
miciliar da doença de Chagas é aquele em que tos sorológicos mais extensos, os quais servi-
as populações sob risco sobrevivem em estado ram para demonstrar a importância da doença
o mais precário e em casa mal construída, aca- como problema de saúde pública, tendo sido
bada ou conservada, expressão da baixa condi- determinantes para a instituição ou implemen-
ção econômica e social desses estratos popula- tação das ações de controle. Em virtude de ser
cionais. Assim, o mapa da distribuição da doen- doença de evolução crônica – dificilmente diag-
ça de Chagas coincide, quase sempre, com o da nosticada na fase aguda inicial, porque conta
pobreza. com pouca expressão clínica – exigiu que estu-
Estima-se que os portadores de infecção dos mais extensos de prevalência fossem pro-
chagásica no continente americano sejam en- movidos como condição para a decisão de fa-
tre 18 a 24,7 milhões (Hayes & Schofield, 1990), zer o controle.
ao passo que a população exposta ao risco seja Para todos os demais países, as informações
de 90 milhões (UNDP/World Bank/WHO, 1990). são parciais, produto de inquéritos de peque-
Há grande massa de doentes crônicos, o que no alcance e do conhecimento de casos, quase
corresponde a casos produzidos ao longo de sempre já na fase crônica, ou mediante os ser-
muitos anos em que as ações de controle foram viços de hemoterapia e de fontes como a he-
apenas pontuais, quando existiram. Apesar da moscopia para o diagnóstico de outras enfer-
grande magnitude, da transcendência e da com- midades. Com base nessas informações frag-

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mentadas é que as estimativas do número de taxonômicos possa alterar esse quadro, sempre
casos existentes de infecção vêm sendo reali- sujeito a modificações pela permanente atuali-
zadas (Ponce & Zeledón, 1973; Velazco et al., zação das informações (Lent & Wigodzinsky,
1992; Schmunis, 1994; Guhl, 1997). 1979; Carcavallo et al., 1997).
De acordo com o Banco Mundial, o peso re- Sob o ponto de vista epidemiológico, várias
lativo da doença de Chagas – consideradas ou- categorizações têm sido feitas no sentido de
tras enfermidades transmissíveis endêmicas na melhor orientar as operações de controle, uma
América Latina e Caribe e medido por “Anos de vez que servem à determinação da maior ou
Vida Ajustados à Incapacidade” (AVAI) – só é su- menor importância relativa de cada uma das
perado pelo conjunto das enfermidades diar- espécies na transmissão da doença ao homem.
réicas, infecções respiratórias e AIDS, correspon- Assim, interessa o agrupamento em função
dendo a mais do que o dobro da soma de malá- da maior ou menor adaptação ao domicílio,
ria, esquistossomose, leishmanioses e hanseníase. classificação mais comumente empregada (Ze-
Assumindo que 10% das infecções evolui- ledón, 1974; WHO, 1991; Dias, 1992), que aqui
riam para formas crônicas com graus variáveis se procurou atualizar a partir de acontecimen-
de comprometimento, estima-se que sejam de tos mais ou menos recentes (Tabela 1), como a
aproximadamente 1,8 a 2,5 milhões os portado- detecção de colônias intradomiciliares de Tria-
res de doença clínica, com cardiopatia e/ou ma- toma rubrovaria e Rhodnius neglectus em áreas
nifestações digestivas, quase sempre megaesô- originalmente infestadas por Triatoma infes-
fago ou megacólon. Tomando-se em conta que tans (Diotaiuti & Silveira, 1983; Silveira & Rezen-
esses casos demandam algum tipo de assistên- de, 1994), ou o achado de exemplares – mesmo
cia médica – com freqüência, especializada e que raros e que fossem exclusivamente adultos
cirúrgica –, pode-se inferir os custos resultantes. – de Psamolestes coreodes e de Microtriatoma
É preciso mencionar que a reiteração com trinidadensis no ambiente domiciliar (Silveira
que a infecção se manifesta clinicamente é va- et al., 1984), ou ainda o processo incipiente de
riável, consideradas diferentes áreas geográfi- colonização em ecótopos artificiais de Pans-
cas. Há evidências a respeito da desproporção trongylus lutzi (Silveira, 1984) e Panstrongylus
entre os casos de infecção e doença no sul do geniculatus (Valente, 1995).
Brasil e Uruguai – o que ganha consistência pe- O certo é que mudanças ambientais, inclu-
lo relativamente pequeno número de óbitos sive aquelas decorrentes das próprias ações de
atribuídos à doença de Chagas – ou em países controle, podem implicar o reposicionamento
da América Central, como algumas vezes refe- de determinada espécie. Com isso, qualquer
rido para a Costa Rica. classificação que se venha a fazer, estará sem-
Por sua vez, tudo indica haver diferente tro- pre sujeita a revisão.
pismo de distintas cepas de Trypanosoma cru- Além da adaptação ao domicílio, é evidente
zi, o que explicaria, por exemplo, o fato de ser que a capacidade vetorial depende de outras
mais comum o diagnóstico de formas digesti- variáveis como, por exemplo, antropofilia, in-
vas na região central do Brasil ou de ser baixa a fectividade ou o tempo entre repasto e dejeção
prevalência de cardiopatias no norte do Equa- para diferentes espécies (Silva et al., 1993). Em
dor em relação à região sul (WHO, 1997). função disso, classificações diferentes têm sido
A crença de que a doença teria caráter “be- adotadas na definição de prioridades para efei-
nigno” em determinadas áreas pode decorrer to de intervenção (MS, 1994; Silveira, 1997).
do desconhecimento ou da falta de melhor in- Uma categorização possível e que importa
vestigação. Em nenhuma hipótese, tal argu- para o controle – em especial, para que se defi-
mento pode servir para que não se faça o con- nam claramente os objetivos ou o nível de con-
trole, uma vez que se tenha conhecimento do trole que se pode esperar – considera a área de
risco de transmissão. origem da espécie presente (Silveira, 1985).
Nesse caso, duas são as situações possíveis: es-
pécies nativas e introduzidas. Espécies nativas
Vetores são aquelas autóctones ou indígenas daquele
ecossistema natural e que, como tal, podem
São muitos os vetores potenciais da doença de reinvadir e recolonizar domicílios submetidos
Chagas, mas a maior parte das espécies de tria- a tratamento químico com inseticidas. O tem-
tomíneos conhecidas não tem participação di- po para que isso ocorra é função da densidade
reta na transmissão domiciliar da doença. das populações do vetor em ecótopos silves-
Aqui admite-se a existência de 112 espécies tres, da própria densidade desses ecótopos e
no continente americano, bem como a possibi- da relação que o homem tem com eles. Assim
lidade de que mudanças em alguns conceitos sendo, não é possível sua eliminação definitiva

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Tabela 1

Espécies de triatomíneos segundo sua adaptação à habitação humana.

Situação Espécies

Espécies estritamente domiciliadas, ausentes Triatoma infestans


ou raramente detectadas em ecótopos silvestres Triatoma rubrofasciata

Espécies capturadas tanto em ecótopos silvestres Rhodnius prolixus Triatoma maculata


como artificiais, com constituição freqüente de Rhodnius pallescens Triatoma longipennis
colônias domiciliares Panstrongylus megistus Triatoma pseudomaculata
Triatoma barberi Triatoma phylosoma
Triatoma brasiliensis Triatoma sordida
Triatoma dimidiata Triatoma guasayona

Espécies capturadas em domicílios, mas ainda Triatoma rubrovaria Rhodnius ecuadoriensis


predominantemente silvestres Triatoma vitticeps Rhodnius nasutus
Triatoma lecticularia Rhodnius neglectus
Panstrongylus lutzi Rhodnius pictipes

Espécies silvestres, com exemplares adultos Triatoma protracta Triatoma guazu


eventualmente encontrados em domicílios Triatoma tibiamaculata Triatoma sanguisuga
Triatoma malanocephala Triatoma patagonica
Triatoma circunmaculata Microtriatoma trimidadensis
Triatoma pallidipennis Rhodnius robustus
Triatoma mazzottii Rhodnius domesticus
Triatoma carrioni Panstrongylus diasi
Triatoma breyeri Panstrongylus geniculatus
Triatoma platensis Psamolestes coreodes

Espécies exclusivamente silvestres Alberprosenia sp. Cavernicola sp.


Belminus sp. Hermanlentia sp.
Bolbodera sp. Mepraia sp.
Dipetalogaster sp. Paratriatoma sp.
Parabelminus sp.
Todas as demais espécies dos gêneros Microtriatoma,
Psamolestes, Rhodnius, Panstrongylus e Triatoma

da habitação humana vulnerável à infestação. 2) Brasil Central


Espécies introduzidas são, ao contrário, aliení- Vetor: Triatoma sordida
genas, estranhas àquele ambiente silvestre e 3) Brasil Nordeste
que ingressaram na área por transporte passi- Vetores: Triatoma brasiliensis e Triatoma
vo, estando aí presentes apenas no ambiente pseudomaculata
domiciliar. Estas são, por isso, passíveis de eli- 4) Brasil Litoral
minação pela aplicação regular, durante algum Vetor: Panstrongylus megistus
tempo, de inseticidas com atividade residual. 5) Pacto Andino (Colômbia, Equador,
Reconhecem-se distintas situações epide- Venezuela e norte do Peru)
miológicas no continente em função da(s) es- Vetores: Rhodnius prolixus, Triatoma
pécie(s) presente(s). Consideradas em cada área maculata e Triatoma dimidiata
apenas aquelas que representam maior risco 6) Guianas e Suriname
para a transmissão natural da doença, poder- Vetores: Rhodnius prolixus e Triatoma
se-ia distinguir: maculata
1) Cone Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, 7) América Central
Chile, Paraguai, Uruguai e sul do Peru) Vetores: Rhodnius prolixus, Triatoma
Vetor: Triatoma infestans dimidiata e Rhodnius pallescens

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8) México A melhoria da habitação, no entanto, em ra-


Vetores: Triatoma barberi, Triatoma zão do relativamente alto custo e de dificulda-
dimidiata e Triatoma phyllosoma. des de outra natureza – como a posse da terra –
Em alguns dos países do Caribe e nos Esta- tem uso restrito e deve ser reservada a situa-
dos Unidos da América há vetores naturalmen- ções particulares. Entre essas, a persistência de
te infectados, sabendo-se que existe o ciclo en- focos residuais de infestação em áreas subme-
zoótico de transmissão, com a infecção com- tidas a sucessivos ciclos de tratamento domici-
provada em animais silvestres. A infecção no liar com inseticidas, ou a presença de espécies
homem tem caráter esporádico e acidental. nativas em alta densidade no ambiente silves-
É evidente que cada uma dessas situações tre e com grande capacidade invasiva da habi-
deve merecer tratamento diverso e ajustado ao tação humana.
diferente comportamento dos vetores e de sua A comprovada eficácia do controle pela bor-
maior ou menor transcendência e vulnerabili- rifação sistemática de casas infestadas reco-
dade às ações de controle. menda seu emprego extensivo como primeira
alternativa a ser observada. Tal eficácia desde
há muito foi demonstrada. Em 1947 provou-se,
Controle dos vetores em laboratório, a alta ação tóxica do isômero
gama do hexaclorociclohexano para triatomí-
Por limitações do conhecimento e por peculia- neos (Busvine & Barnes, 1947). No ano seguin-
ridades próprias da epidemiologia da doença te, no Brasil e na Argentina, foi confirmada em
de Chagas, o controle de populações domicilia- campo a possibilidade de controle de popula-
das do vetor é, até o presente, a única possibili- ções domiciliadas do vetor pelo uso regular da-
dade de reduzir ou, em alguns casos, interrom- quele “novo” inseticida clorado de ação resi-
per a transmissão domiciliar da doença. dual, o “Gamexane P 530” (Dias & Pellegrino,
Entre as limitações de natureza epidemio- 1948; Romaña & Abalos, 1948).
lógica, a primeira consiste em a doença de Cha- Como conseqüência dos resultados obtidos
gas ser primitivamente uma enzootia e, como com essas provas de campo, a partir de 1950 fo-
tal, dever subsistir, havendo sempre o risco de ram promovidas, no Brasil, as primeiras “Cam-
domiciliação de vetores desde o ambiente sil- panhas contra a doença de Chagas” pelo então
vestre, além da possibilidade de infecção huma- Serviço Nacional de Malária.
na acidental. Isso determina que a doença não Na Argentina, trabalhos de caráter ainda
seja erradicável. Outro importante fator limitan- experimental e de pequeno alcance foram ini-
te é o grande número de reservatórios animais, ciados na década de 50, conduzidos por Cecilio
domésticos e silvestres, o que faz com que não Romaña na província do Chaco, por Carlos So-
se possa pretender o controle pelo esgotamento ler em La Rioja e por Carlos Bravo em Catamar-
das fontes de infecção. Afora isso, como já men- ca. Em 1962, as atividades de controle foram
cionado, é preciso tomar em conta a pouca ou assumidas institucionalmente em caráter prio-
nenhuma expressão clínica da infecção aguda, ritário e ganharam dimensão nacional, com a
quando se sabe o tratamento específico eficaz. criação do “Servicio Nacional de Chagas”.
Por sua vez, não se conhece vacina, e as drogas Outro país com história mais remota de
disponíveis não podem ser utilizadas em larga controle é a Venezuela. Apesar de a doença de
escala, em função dos paraefeitos que produzem. Chagas ter sido pela primeira vez aí reportada
Assim, como medida de proteção específi- em 1919 por Tejera, as ações de controle foram
ca no período pré-patogênico, resta apenas o instituídas apenas em 1966, quando se estrutu-
controle do vetor, o qual pode ser exercido tan- rou formalmente a “Campaña Nacional de la
to pelo tratamento químico de habitações in- Enfermedad de Chagas”, o que deu seqüência à
festadas com inseticidas de ação residual quan- luta de Gabaldón, que vinha fazendo, desde
to pela melhoria das condições de habitação, o 1948, a defesa da prioridade que deveria mere-
que, no caso particular da doença de Chagas, cer o controle da enfermidade, ou seja, desde
pode ser entendido não apenas como medida quando se demonstrou haver instrumentos efi-
de promoção de amplo alcance, mas também cazes de combate aos triatomíneos.
como ação precípua de proteção – em particu- Esses países foram os precursores do con-
lar, quando localizada e ajustada a hábitos de trole da transmissão vetorial – ao menos, em
determinado vetor. Exemplos disso seriam a mais larga escala –, mas as ações não obede-
substituição da cobertura de palha em casas ciam, de início, aos requisitos de continuidade
infestadas por Rhodnius prolixus ou a constru- no tempo e contigüidade espacial, condições
ção de pisos em casas com infestação por Tria- necessárias à sustentabilidade ou permanên-
toma dimidiata (Zeledón, 1981). cia dos resultados, que foram, desse modo, qua-

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se sempre limitados e provisórios. Semelhante da mais dramático, de 2 a 6%, em 1986, na po-


situação deveu-se basicamente ao aporte irre- pulação geral, para zero em 1996, no grupo de
gular de recursos, nunca suficientes para dar idade de 0 a 5 anos. No caso da Venezuela, as
integral cobertura à área com risco de trans- ações de controle sobre Rhodnius prolixus de-
missão vetorial. terminaram também redução importante na
No caso da Venezuela, os resultados foram prevalência da infecção humana. Entre 1990 e
bem mais duradouros em função dos investi- 1994, com mais de 6.300 reações sorológicas
mentos feitos em melhoria habitacional – ações em crianças de 0 a 4 anos, apenas 0,6 % dos so-
que antecederam o controle químico mais siste- ros foram reagentes (Salvatella, 1993; Silveira &
matizado e que não eram inicialmente dirigidas Rezende, 1994; Aché & Berti, 1995; WHO, 1997).
exclusivamente ao controle da doença de Cha- Esses resultados foram determinantes para
gas, além de terem tido mais o caráter de promo- que outros países, também organizados regio-
ção das condições de vida das populações rurais nalmente, passassem a priorizar o controle da
(“Programa Nacional de Vivienda Rural”, 1958). enfermidade a partir de 1991, com a iniciativa
Durante as décadas de 60 e 70 foram inau- dos países do Cone Sul para a “Eliminação do
guradas ações regulares de controle em países Triatoma infestans e controle da transmissão
do Cone Sul e Venezuela, as quais foram imple- transfusional da doença de Chagas”, compro-
mentadas na década de 80 e expandidas nos misso formalmente assumido pelos Ministros
anos 90, alcançando outros países. Em alguns de Saúde da sub-região. Assim aconteceu com
casos, isso dependeu da resolução, ao menos o Grupo Andino e os países da América Central,
parcial, de outros problemas de saúde pública, que se incorporaram ao esforço continental pa-
igualmente de grande magnitude, como a ma- ra o enfrentamento do problema, um dos mais
lária. A expansão do controle vetorial da doen- sérios no que se refere à saúde e que acomete a
ça de Chagas dependeu também da demons- população rural latino-americana.
tração de resultados, como aqueles colhidos na
Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Venezuela.
A dispersão por Triatoma infestans vem Perspectivas
sendo progressivamente focalizada. No Brasil,
dentre 711 municípios inicialmente infestados, É evidente que a solução definitiva da trans-
105 mantinham-se positivos em 1997, mas com missão vetorial domiciliar da doença de Cha-
taxas de infestação domiciliar e densidade ex- gas depende da melhoria das condições de vi-
tremamente baixas, com apenas 491 unidades da de grande parte da população do continen-
domiciliares infestadas e 1.080 exemplares cap- te, sobretudo no meio rural, mas é igualmente
turados. O mesmo observa-se para a Argenti- certo que há hoje acumulação técnica suficien-
na, Chile e Uruguai. te para impedir a produção de novos casos da
O impacto das ações de controle vetorial enfermidade.
vem sendo também avaliado através de inqué- A transmissão vetorial no caso de T. infes-
ritos sorológicos em grupos etários jovens ou tans e R. prolixus, quando domiciliado, pode
em estudos de coorte (WHO, 1997). ser completamente interrompida pelo trata-
Na Argentina, a sorologia em conscritos pa- mento químico das habitações (Dujardin et al.,
ra o serviço militar mostrou redução de preva- 1994; Schmunis, 1994).
lência da infecção de 4,6 a 1,2 em período que No caso de todos os outros vetores quase
corresponde aos últimos dez anos. Entre crian- completamente controlados, deve-se fazer a
ças de 0 a 4 anos de idade, a soro-reatividade aplicação de inseticidas e, a partir disso, impe-
foi de apenas 0,9%. No Brasil, as taxas iniciais – dir a recolonização dos domicílios pela manu-
determinadas mediante inquérito sorológico tenção de vigilância entomológica de caráter
nacional, que amostrou a população rural en- permanente, contínua, com a indispensável
tre 1975 e 1980 – foi de 4,2 % e tem revelado, até participação da população e o envolvimento
o presente, soropositividade média inferior a da rede de serviços de saúde (Souza et al., 1984;
0,2% em inquéritos entre escolares no grupo Paulone et al., 1988; García-Zapata & Marsden,
etário de 7 a 14 anos de idade, realizados em 1994). O retratamento das casas deverá ser fei-
municípios onde a transmissão estaria inter- to apenas quando detectada a presença de co-
rompida com base em indicadores entomoló- lônias no interior dos domicílios ou, em alguns
gicos. No Chile, a infecção em menores de 15 casos – como o de espécies com alto potencial
anos de idade, em 1986, foi de 9,1%, enquanto vetorial, em função de sua antropifilia e infec-
em inquérito recente foi de 1,9 % no mesmo tividade –, recomenda-se o tratamento perió-
grupo de idade. Para o Uruguai, o impacto so- dico peridomiciliar, no sentido de reduzir a
bre os níveis de prevalência da infecção foi ain- pressão de reinfestação.

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No entanto, para o apuro da vigilância é ne- são transplacentária é responsável, no mo-


cessário o desenvolvimento de técnicas sim- mento, pela ocorrência de 9 a 10 mil novos ca-
ples, de baixo custo e mais sensíveis na detec- sos nas Américas a cada ano.
ção do vetor, sobretudo quando a densidade é O risco de transmissão, com o controle que
baixa. Apenas assim poder-se-á viabilizar as se considera perfeitamente possível das vias
ações na ausência da doença e ter oportunidade vetorial domiciliar, sangüínea e materno-in-
de êxito na intervenção com inseticidas quan- fantil, estará reduzida a transplante de órgãos
do necessário. ou a acidentes, entendendo-se a transmissão
A transmissão transfusional tende a ser con- “per os” também como acidental.
trolada pelo desenvolvimento de técnicas sem- A enzootia chagásica, contudo, seguirá exis-
pre mais sensíveis e de processamento em sé- tindo e, com isso, a transmissão ocasional pelo
rie de amostras de sangue na triagem de doa- vetor será sempre uma possibilidade mesmo
dores em serviços de hemoterapia. A cobertura no ambiente natural, como conhecido no caso
vem sendo progressivamente ampliada. de contato do homem com focos silvestres, fa-
Em termos relativos a outros mecanismos, to que, se estiver relacionado com atividade la-
a transmissão congênita não representa muito boral, como no extrativismo de palmeiras, po-
em áreas ainda com a transmissão natural man- derá ter significação epidemiológica (Silveira
tida, mas pode vir a ser a única via de manu- & Passos, 1986; Coura et al., 1994). Em vista do
tenção da endemia chagásica com a transmis- exposto, não se pode pretender a completa er-
são vetorial e transfusional controlada. É reco- radicação da doença de Chagas, mas o contro-
mendável tornar rotineira a investigação de le da transmissão endêmica, por toda a prática
gestantes chagásicas no pré-natal e garantir o de controle e experiência acumulada, é abso-
tratamento de recém-nascidos infectados. As lutamente factível com a tecnologia hoje dis-
estimativas existentes são de que a transmis- ponível.

Referências

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