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“Conversa de bois”

(Sagarana, de João Guimarães Rosa)

época, fora premiado várias vezes por seus contos no


1. BIOGRAFIA concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Mas
eram textos que ainda não definiam seu estilo e sua
linguagem.
Em 1936, foi premiado, no concurso da Acade-
mia Brasileira de Letras, pelo livro de poemas Mag-
ma, que ainda permanece inédito. Em 1937, concorreu
com o livro Contos ao prêmio Humberto de Campos,
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obra que se transformaria mais tarde em Sagarana.


Sua paixão por vários idiomas levou-o a prestar
exame para o Itamarati em 1934. Em 1938, foi no-
meado cônsul-adjunto em Hamburgo. Chegou a ser
internado em Baden-Baden como preso de guerra,
tendo sido trocado por diplomatas alemães. Em 1946,
publicou Sagarana, obra que lhe rendeu vários prê-
mios importantes da literatura brasileira. Em 1952,
viajou pelo sertão de Minas Gerais com um grupo de
João Guimarães Rosa não foi uma pessoa co- vaqueiros. O chefe da comitiva era Manuel Nardes, o
mum, dessas que se conhece pelo mundo e se esque- Manuelzão, vaqueiro conhecido e respeitado, a quem
ce no grotão seguinte da passagem pelo viver. Deixou coube introduzir Guimarães Rosa nos mistérios e vi-
pegadas de mágico-mistério nas entrelinhas da litera- vências das passagens sertanejas. Manuelzão trans-
tura brasileira, marcas que não podem ser substituí- formou-se depois na personagem central da novela
das de vez em vez por aqueles que fazem da leitura Uma história de amor, que faz parte do livro Corpo
mais do que um ganha-pão, mas um ato de de baile (atualmente, Manuelzão e Miguilim).
(sobre)viver. Vamos marcar passo no comum e dizer Em 1956, publicou Corpo de baile, coletânea de
que foi único, e pronto, afinal nada mais seria neces- novelas. No mesmo ano, consagrou sua carreira lite-
sário acrescentar. Sua paixão viva pelo mundo do ser- rária com a publicação de sua obra-prima: Grande
tão das “geraes” consubstanciou-se no amor crescente sertão: veredas.
de muitos leitores. Fez-se mistério vivo do verbo que Em 1958, publicou Primeiras estórias. Em 1963,
renasce e conforta. Em suas próprias palavras: “As foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas
pessoas não morrem, ficam encantadas”. só resolveu tomar posse quatro anos depois. Esco-
Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, em 1908, lheu para a posse a data do aniversário de seu ante-
pequena cidade situada entre Curvelo e Sete Lagoas, cessor, João Neves da Fontoura, no dia 16 de
Minas Gerais. Cresceu nessa região de gado vacum, novembro. O discurso de posse foi premonitório, cau-
de onde saiu aos dez anos para estudar no Colégio sando espanto em todos que o conheciam. Faleceu
Arnaldo, em Belo Horizonte. Gostava de botânica, em 19 de novembro de 1967.
zoologia e literatura. Leu um livro em francês aos seis
anos. Por causa de sua figura circunspeta e estranhís-
sima, ganhou no colégio o apelido de “boi sonso”. 2. INTRODUÇÃO
Ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Ho-
rizonte. Os anos dedicados ao curso e, depois, ao exer-
cício da medicina em Itagurara, município de Itaúna, “Conversa de bois” pode ser considerada uma das
não lhe tiraram o gosto pela literatura. Já, naquela obras-primas na técnica da narrativa curta dentro da

1
produção de Guimarães Rosa. O conto focaliza uma do, Rodapião desafia as restrições para usufruir os
situação dramática em que um menino, Tiãozinho, prazeres do capim mais macio e da água mais fresca.
vê-se às voltas com uma realidade dolorosa: o adul- Prática da liberdade que só aos homens seria dado
tério da mãe, a morte do pai e a violência e maldade conhecer ou hedonismo aplicado a um boi com ca-
do patrão, Agenor Soronho. Diante da opressão, a ín- racterísticas mais do que humanas? O destino de Ro-
dole pacífica e passiva do menino projeta o desejo de dapião será determinado pelo seu desejo de liberdade.
morte daquele que é o responsável por sua dor: Age- A presença do fantástico, que surge exatamente
nor. Os bois parecem dividir com o menino os senti- da quebra do racional, é relevante no conto, pois pre-
mentos de ódio e o desejo de vingança contra o enche os requisitos essenciais observados por Todo-
opressor. rov para sua classificação dentro desse gênero: há uma
A partir dessa identificação entre o menino e os hesitação entre o natural e o sobrenatural; Tiãozinho
bois, ambos submissos e oprimidos por um ser domi- representa essa hesitação e o leitor enfrenta o texto,
nador e violento, os animais superam sua condição recusando-se à sua interpretação poética ou alegóri-
de seres castrados, mansos por natureza, servis ao seu ca, rompendo com a convenção estabelecida. Todo-
dominador, para determinar o fim da opressão e um rov considera que o fantástico surge da hesitação
destino àquele homem que os domina. A aproxima- diante de fatos inexplicáveis, o que gera a ambigüi-
ção entre Tiãozinho e os bois resulta da condição de dade, que será mantida durante toda a narrativa.
seres que servem de elos entre o real e o fantástico. A dúvida entre o real e o irreal não se resume apenas
“[…] as qualidades das pessoas e das coisas tam-

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ao fato de os animais serem ou não capazes de falar e
bém se tornam transparentes aos olhos das crianças, pensar, eixo da fábula desde as primeiras palavras do
como se a experiência fosse um véu de opacidade que narrador, mas ao fim trágico de Agenor Soronho. Te-
aos poucos envolve o universo real.[…] A maturida- riam sido realmente os bois que determinaram sua
de pode acrescentar experiência e ampliar o conheci- queda ou tudo não passou de um simples descuido do
mento, mas esta será sempre uma forma imperfeita carreiro? O narrador faz questão de manter essa am-
da participação direta no universo — pois esta é um bigüidade a partir de certos indícios: o caminho pelo
privilégio da criança.[…] Para descrever essa concep- qual seguiam era perigoso, o que já fora anunciado
ção será necessário pensar na teoria da reminiscência anteriormente ao desfecho e comprovado pela queda
de Platão: a verdade não é aprendida, mas recordada. do outro carro de bois. Entretanto, no estado mental
Portanto a volta à infância não é uma tentativa de auto- de confusão em que se encontravam o menino e os
conhecimento, mas sim de conhecimento do univer- bois, o desfecho poderia ter sido a intervenção mági-
so, pois a criança está mais próxima da verdade. Para
ca ou sobrenatural para determinar o destino de Age-
usar uma imagem de Platão, seria possível dizer que,
nor Soronho.
na infância, somos capazes de ver diretamente os
objetos luminosos. Só depois de adultos os esquece-
mos e, acorrentados, aceitamos, como verdades, as
sombras projetadas no fundo da caverna.”1 3. ENREDO
Os bois sensibilizam-se com o sofrimento do me-
nino e resolvem agir. O papel dos animais é de vital — Lá vai! Lá vai! Lá vai!
importância dentro da narrativa, já que determina a — Queremos ver… Queremos ver…
ação e a provável mudança da situação vivida por to- — Lá vai o boi Cala-a-Boca
fazendo a terra tremer!…2 (p. 287)
dos.
A filosofia também está presente em “Conversa
Que já houve um tempo em que eles conversavam,
de bois”, pois caberá a uma micronarrativa inserida entre si e com os homens, é certo e discutível, pois que
no corpo do conto traduzir a visão de mundo dos ho- bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-
mens através dos bois. Ao boi Rodapião coube o pa- em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda a
pel de despertar a visão, entendida como epifania parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você,
por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!
diante do desconhecido, dos outros bois. Ele ultra- (p. 287)
passa o mundo obscuro dos animais e procura a luz
(ou sombra, considerado o mito) no final da caverna. O narrador conversa com Manuel Timborna, das
Ao contrário da mansidão contemplativa dos demais Porteirinhas, que afirma que os animais falam, prin-
bois que pastam juntos, sem desafiar o desconheci- cipalmente os bois: Boi fala o tempo todo. Timborna

1
LEITE. p. 116-177. O final refere-se ao “mito da caverna”.
2
A epígrafe sugere a caminhada de bois e de homens.

2
só aceita contar a história, depois de o narrador per- boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens… As coisas
mitir que ele conte o caso de forma diferente, enfeita- ruins são do homem: tristeza, fome, calor — tudo, pensa-
do, é pior… (p. 294)
do e acrescentando pouco a pouco. Segundo Manuel
Timborna, a história foi contada por uma irara (ca- No caminho passam por um carro de bois que ar-
chorrinha-do-mato), chamada Risoleta, e que só o fez rasta imenso toro acorrentado — um tronco de tam-
em troca da liberdade ao cair nas mãos dele. boril, tal de metros de diâmetro, lavrado no mato (p.
A história conta a tragédia que ocorre com o car- 296). Agenor manda Tiãozinho botar azeite no chu-
reiro Agenor Soronho que transporta o corpo do pai maço para que o carro faça menos barulho. Implica
de seu guia, o Tiãozinho. O corpo do morto segue em com o garoto só de maldade, já que ele mesmo aper-
cima do carro-de-bois sobre uma carga de rapaduras. tara a chaveta da cantadeira pela manhã. Com os ba-
Soronho aproveitaria a viagem para entregar a enco- lanços, o cadáver havia rolado para fora do esquife.
menda do major Fréxes e o defunto. Na volta, traria Estava horrendo. Agenor continuava a reclamar do
os rolos de arame farpado que esperavam por ele na calor, do trabalho, de Tiãozinho, ameaçando o meni-
estação. no ao dizer que a vida boa acabara-se. Tiãozinho lem-
Tiãozinho chora por causa da situação. Soronho brava-se do martírio do pai, que chorava à noite.
mantém um relacionamento adúltero com a mãe do O menino sentia até raiva da mãe.
menino, aproveitando-se do fato de que o marido há
Ah, da mãe não gostava!4… era nova e bonita, mas
muito está doente, cego e entrevado. Agenor só acei- antes não fosse… Mãe da gente devia de ser velha, re-
tou levar o corpo para ser enterrado porque podia
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zando e sendo séria, de outro jeito… Que não tivesse me-


aproveitar a carga de rapaduras. xida com outro homem nenhum… […] Ela deixava até que
A partir da mania do boi Brilhante de falar dor- o Agenor carreiro mandasse nele, xingasse, tomasse con-
ta, batesse… Mandava que ele obedecesse ao Soronho,
mindo, os bois conversam durante o trajeto. São qua- porque o homem era quem estava sustentando a família
tro parelhas: Buscapé e Namorado, Capitão e toda. (p. 299)
Brabagato: Dansador e Brilhante, Realejo e Canindé.
Brilhante perdeu seu irmão e companheiro de pare- Tiãozinho levava a cuia de feijão para comer jun-
lha, Tubarão, que morreu envenenado. É um boi tris- to com o pai, já que a mãe não tinha paciência para
te e boas maneiras ele não pode ter. Reclama do dar comida na boca de paralítico. E ela, com seu So-
trabalho dos bois-de-carro e dos outros bois de inver- ronho, tinham, para comer, outras coisas, melhores…
nada: Eles não sabem que são bois… (p. 292), afirma Deviam de ter… (p. 300) Sofria com o choro engas-
Brabagato. Dansador diz que foi chifrado pelo ho- gado do pai.
3 Agenor Soronho pica os bois à toa. É mau mesmo.
mem com o pau. Buscapé cita o homem, ao que é
também do homem: — O homem é um bicho esmo- Batia em Tiãozinho de cabresto, de vara-de-marme-
chado, que não devia haver. Tiãozinho clama silên- lo, de pau, sem ter motivo algum, porque o menino
cio a Buscapé. cumpria as tarefas direito, o dia inteiro, capinando,
Agenor manda Tiãozinho vigiar porque viu bicho tirando leite, buscando os bois no pasto, guiando,
raboso mexer no matinho. tudo… Quando crescer, quando ficar homem, vai
— Um homem não é mais forte do que um boi… E ensinar ao seu Agenor Soronho… Ah, isso vai!… Há-
nem todos os bois obedecem sempre ao homem… (p. de tirar desforra boa, que Deus é grande!… (p. 301)
293), comenta Capitão, confirmando que viu um boi O boi Brilhante começa a contar o caso do boi
grande pegar um homem. Rodapião: Pequeno ele, pouco chifre, vermelho café
O grupo depara-se com alguns cavaleiros. A moça de-vez… Era quase como nós, aquele boi Roda-
do silhão apieda-se com Tiãozinho por causa da mor- pião… Só que espiava p’ra tudo, tudo queria ver…
te do pai do menino, que volta a entristecer. E nunca parava quieto, andava p’ra lá e p’ra cá…
Depois de reiniciado o caminho, Canindé comen- (p. 301)
ta que os bois soltos não pensam como o homem. Só Tiãozinho lembra-se do caso do Didico da Extre-
nós, bois-de-carro, sabemos pensar como o homem! ma, que caiu morto diante de seus bois. Tinha só dez
(p. 294). Realejo comenta que é melhor não pensar anos e trabalhava muito.
como o homem. Brilhante retoma o caso. Rodapião tinha idéia de
homem, falava coisas compridas e mandava os ou-
— Pior, pior… Começamos a olhar o medo… o medo
grande… e a pressa… O medo é uma pressa que vem de tros bois prestarem atenção no que fazia e falava para
todos os lados, uma pressa sem caminho… É ruim ser aprenderem o que era importante.

3
Referência ao aguilhão utilizado para dominar os animais de carro.
4
Emprego do discurso indireto livre.

3
Tiãozinho lembra-se da noite antes da morte do ca em antes tinha sido. Quase que nem capim seco não
pai. Rezaram juntos. Estava com muito sono. Foi acor- tinha mais, e a gente comia gravetos, casca de árvores, e
desenterrava raiz funda, p’ra pastar. Foi ruim…” Então, os
dado pela mãe, com o pai já morto. Chorou. Sabia homens vieram, e chamaram todos os bois p’ra fora do
que a mãe não gostava do pai. Tiãozinho começou a pasto rapado, e foram levando a gente pra longe. Muitos
rezar, meio alto. dias, muito longe. Depois, chegamos… E puseram os bois
Brilhante retoma a história, lembrando das coisas nós todos num pasto diferente, desigual de todos os pas-
difíceis que dizia Rodapião: Todo boi é bicho. Nós tos, e que era todo num morro frio, serra a pique, sem ca-
pim conhecido de nenhum de nós… Aí a gente pegou a
todos somos bois. Então, nós todos somos bichos!”5 comer, quase sem levantar as cabeças… Mas, o boi
(p. 306). Ao contrário dos outros bois, Rodapião sa- Rodapião… (p. 310-311)
bia explorar sua capacidade de pensar, criando uma — O bebedouro fica longe, — disse o boi Rodapião. —
lógica sistemática para o comportamento: comer o Cansa muito ir até lá, pra beber… Vou pensar um jeito qual-
capim em direção da água; fingir não comer para ga- quer, mais fácil… Pensando, eu acho…
Aí, nós nem respondemos. Aquilo era mesmo do boi
nhar sal, aproveitando-se do que aconteceu com o boi Rodapião. Porque eu não tinha precisado de pensar, pra
Carinhoso. Brilhante dormiu. achar onde era que estava o bebedouro, lá embaixo, mais
Param num ribeirão para beber. Agenor apressa longe. (p. 310-311)
os bois. Depois reclama da pressa de Tiãozinho:
Seu Soronho chama Brilhante de vaca do diabo.
Tu não vai tirar o pai da forca, vai?… Teu pai já está Tiãozinho percebe que o carreiro caminha nas tira-
morto, tu não pode pôr vida nele outra vez!… (p. 307) deiras esticadas, “pulando entremeio às juntas” para
Tiãozinho olhou, assim meio torno. “Teu pai já morreu,

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tu não pode pôr vida nele outra vez…” Por que é que não
cutucar os bois com o aguilhão, e chega a pensar que
foi seu Agenor Carreiro quem a morte veio buscar?! Havia ele podia cair. A estrada fica pior, exigindo maior
de ser tão bom!… (p. 308) cuidado por causa do despenhadeiro e do barranco.
Tiãozinho sente vontade de matar o carreiro. Os …Mas boi Rodapião foi espiando tudo, sério, e falan-
bois começam a caminhar diferente, prestando aten- do:
— Em todo lugar onde tem árvores juntas, mato com-
ção na conversa de boi Brilhante, que repetia as falas prido, tem água. Lá, lá em riba, quase no topo do morro,
de Rodapião: estou vendo árvores, um comprido de mato. Naquele pon-
to tem água! — E ficou todo imponente, e falou grosso: —
— A gente deve de pensar tudo certo, antes de fazer Vou pastar é lá, onde tem aguada perto do capim, na grota
qualquer coisa. É preciso andar e olhar, p’ra conhecer o fresca!…
pasto bem. Eu conheço todos os lugares, sei onde o ca- Eu também olhei pra ladeira, mas não precisei nem de
pim é mais verde, onde os talos ficam quase o dia inteiro pensar para saber que, dali de onde eu estava, tudo era
molhados de orvalho […] Sei onde é que não dá tanto lugar aonde boi não ir. Mas boi Rodapião falou como o
mosquito, onde que a sombra, e o limpo do chão; e, pelo homem:
jeito do homem, sei muitas vezes o que é que ele vai fa- — Eu já sei que posso ir por lá, sem medo nenhum: a
zer… Olho p’ra tudo, e sei, toda hora, o que é melhor…[…] terra desses barrancos é dura, porque em ladeira assim
Vocês não fazem como eu, só porque são bois bobos, que parede, no tempo das águas, correu muita enxurrada, que
vivem no escuro6 e nunca sabem porque é que estão fa- levou a terra mole toda… Não tem perigo, o caminho é
zendo coisa e coisa. Tantas vezes quantas são as nossas feio, mas é firme. Lá vou…
patas, mais nossos chifres todos juntos, mais as orelhas Eu não disse nada, porque o sol estava esquentando
nossas, e mais: é preciso pensar cada pedaço de cada demais. E boi Rodapião foi trepando degrau no barranco:
coisa, antes de cada começo de cada dia… (p. 308) deu uma andada e ficou grande; caminhou mais, ficou
maior. Depois, foi subindo e começou a ficar pequeno, já
O boi Rodapião traduz a visão do conhecimento indo por lá, bem longe de mim…
adquirido pela experiência. Para Rodapião, o empi- — E daí? E foi?
rismo advém dos sentidos e da razão. O pensamento Escutei o barulho dele: boi Rodapião vinha lá de cima,
e a observação são as formas de se encarar a vida, ao rolando poeira feia e chão solto… Bateu aqui em baixo e
berrou triste, porque não pôde se levantar mais do lugar
contrário dos outros bois que não tinham conheci- das suas costas…
mento e apenas viviam conforme era determinado — E foi?
pelos homens, sem tirar proveito da travessia pelo Ajudar eu não podia e nem ninguém… Chamei os ou-
viver. tros, que não vinham e não estavam de se ver… Aí, olhei
pra o céu, e enxerguei coisa voando… E então espiei pra
Mas já Brilhante endureceu as orelhas, soslaiando baixo e vi que já tinham chegado e estavam chegando
Dansador: desses urubus, uns e muitos… E fui-me embora, por não
“— Chegou um dia, nós reparamos que já estava tre- gostar de tantos bichos pretos, que ficaram rodeando aque-
cho demais sem chover. Tempo e tempo. Coisa como nun- le boi Rodapião.

5
O discurso do boi Rodapião é um exemplo de silogismo completo (raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas propo-
sições, ditas premissas, das quais, por inferência, se obtém necessariamente uma terceira, chamada conclusão).
6
Referência ao “mito da caverna”.

4
— E nunca se soube se tinha água no alto do morro, Meu pai era bom. Ele está morto dentro do carro… Seu
então? Agenor Soronho é o diabo grande… bate em todos os
Contei minha história, agora vou cochilar… Sei não. meninos do mundo… Mas eu sou enorme… Hmou!
(p. 312) Houg!… Mas, não há Tiãozinho! […] Sou maior que todos
os bois e homens juntos. (p. 319)
A narrativa de Brilhante é entrecortada pela tra-
vessia do carro de bois através de cenários marcados Logo, os bois Namorado e Brabagato também es-
por profundo lirismo. Vale ressaltar o estilo digressi- tão seguindo o mesmo discurso do boi Capitão. De-
vo que domina todo o conto “Conversa de bois”, que pois é a vez de Dansador: […] Bato no seu Soronho,
é um recurso empregado pelo autor para criar certo de cabresto, de vara de marmelo, de pau… Até tirar
suspense em relação ao relato do boi Brilhante e do sangue… E ainda fico mais forte… Sou Tião… Tião-
próprio conto. A trágica história de Rodapião parece zinho!… Matei seu Agenor Soronho… […] Ninguém
traduzir o sentido moral da fábula, segundo o qual pode mandar em mim! Tiãozão… Tiãozão… Oung…
não cabe aos bois pensarem e agirem como os ho- Hmong… Mûh!… (p. 320)
mens, mas apenas seguirem sua trajetória de paciên- Realejo e todos os bois conversam. Percebem que,
cia, mansidão e obediência servil às leis da natureza se o carro desse um abalo maior, o homem-do-pau-
de cada ser. Entretanto, esse fundo moral parece não comprido rolaria para o chão; que, se Tiãozinho gri-
condizer com o final do próprio conto, cujo clímax tasse, eles teriam que correr, e o homem cairia.
desmente a narrativa encaixada, ao sugerir, ainda que — Namorado, vamos!!!… — Tiãozinho deu um grito e
de forma ambígua, a interferência dos animais no um salto para o lado, e a vara assobiou no ar… E os oito
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

destino humano. bois das quatro juntas se jogaram para diante, de uma vez…
No Morro do Sabão, encontram João Bala, com o E o carro pulou forte, e craquejou, estrambelhado, com um
guincho do cocão. (p. 322)
carro-de-bois da Estiva acidentado. Agenor Soronho
sentia certo prazer em olhar os estragos do carro do Agenor Soronho teve o pescoço colhido pela roda
outro. João Bala conta o acidente feio, do qual só saiu esquerda do carro. Tiãozinho sentiu-se culpado, mas
vivo por muito pouco. Critica as tiradeiras de pau, estava meio cochilando… Sonhei… Sonhei e gritei…
sem um palmo de corrente p’ra reforçar e diz que Nem sei o que foi que me assustou… Pediu perdão à
tinha de dar no que deu. Virgem Santíssima. Chegaram dois cavaleiros, Nhô
Em nada podendo ajudar, prosseguem o caminho Alcides e seu Quirino, e tentaram ajudar, mas já era
em direção à vila. Depois do perigo da subida, Age- tarde, Agenor Soronho estava quase degolado. Tião-
nor dorme na cabeça do carro, enquanto os bois con- zinho, jurando que não foi por querer e que estava
versam sobre Agenor e Tiãozinho. Este vai chorando. bem, acabou seguindo para a vila com o carro:
Chega a informação de que Agenor dorme na ponta
do carro e por isso parou de picar os bois. Tiãozinho Tiãozinho — nunca houve melhor menino candieiro —
vai em corridinha, maneiro, porque os bois, com a fresca,
também dorme, caminhando, como os bois sabem
aceleram. E talvez dois defuntos dêem mais para a viagem,
fazer. Daqui a pouco ele vai deixar cair o seu pau- pois até o carro está contente — renhein… nhein… — e
7
comprido, que nem um pedaço quebrado de canga… abre a goela do chumaço, numa toada triunfal. (p. 323)
Já babou muita água dos olhos… Muita. (p. 318)
Os bois percebem que Agenor está escorregando, O conto é uma fábula da vitória do bem sobre o
e que morrerá, se cair. Tiãozinho também corre peri- mal. A força da natureza, representada pelos bois, su-
go, mas está alegre em seu sono. Os bois identifi- pera a fraqueza do menino Tiãozinho para cumprir o
cam-se com o menino (bezerro-de-homem). Tem horas destino de Agenor Soronho. Guimarães Rosa defende
em que ele fica ainda mais perto de nós… Quando a bondade natural dos animais em confronto com a
está meio dormindo, pensa quase como nós bois… maldade dos homens. O conto alude à sabedoria dos
[…] Tenho medo de que ele entenda a nossa conver- animais que cumprem a fábula da justiça e a harmonia
sa. (p. 318-319) entre os seres do cosmos. A narrativa é aberta pela pre-
Buscapé chama a atenção dos outros bois para o sença da irara (cachorrinha-do-mato). O suspense é
que o boi Capitão está dizendo: mantido entremeando na ação a conversa dos bois, mar-
cada pela presença de onomatopéias, que acaba se con-
Mhu! Hmoung! Boi… Bezerro-de-Homem…. Mas, eu fundindo com os devaneios do menino. Percebe-se,
sou o boi Capitão? Não há nenhum boi capitão… Mas,
todos os bois. Não há bezerro-de-homem! Todos. Tudo… ainda, a humanização dos animais (antropomorfismo)
Tudo é enorme… Eu sou enorme! Sou grande e forte… e a aproximação dos sentimentos humanos com o mun-
Mais do que seu Agenor Soronho! posso vingar meu pai… do animal (zoomorfismo). Soronho personifica o Mal.

7
Fig. Prolepse: ocorrência precoce ou prematura de (algo); antecipação; previsão de algo ainda não conhecido ou acontecido; antevisão,
antecipação, prenoção. Seu emprego denota onisciência absoluta dos bois durante sua conversa.

5
2. Tiãozinho. Ajudante de carreiro, segue o car-
4. ESTRUTURA DA OBRA ro de bois como guia, um pedaço de gente, com a
comprida vara no ombro, com o chapéu de palha fu-
rado, as calças arregaçadas, a camisa grossa de ris-
O livro Sagarana é uma coletânea com nove con- cado, aberta no peito e excedendo atrás em fraldas
tos e novelas. “Conversa de bois” é o penúltimo conto esvoaçantes (p. 289). É chamado pelos bois de be-
do livro. Todos os textos apresentam a tendência de zerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-
Guimarães Rosa à pesquisa permanente da lingua- bois. Sua índole pacífica opõe-se ao temperamento
gem regional, mantendo-se ligado ao instrumenta- agressivo de seu patrão, Agenor Soronho. Represen-
lismo. tação do bem, simboliza ainda a infância, a criança,
No conto “Conversa de bois”, há a humanização sempre presente entre os temas de Guimarães Rosa.
dos animais (antropomorfização), ou seja, o autor dá 3. Os bois. Buscapé (boi-amarelo), Namorado
aos animais o poder de pensar e conversar, como o (caracú9 sapiranga,10 castanho-vinagre tocado a ver-
título já indica. melho), Capitão (salmilhado, mais em branco que
• Tempo. A história começa em plena manhã, por amarelo), Brabagato (mirim malhado de branco e de
volta das dez horas. preto, cardim11), Dansador (todo branco, zebuno cam-
• Espaço. O caso começa na encruzilhada de Ibi- braia), Brilhante (de pelagem braúna,12 retinto, liso,
úva, logo após a cava do Mata-Quatro, no interior de concolor), Realejo (laranjo13-botineiro, de polainas
Minas Gerais. de lã branca14) e Canindé (jaguanês, bochechudo, de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
• Foco narrativo. O conto é narrado em terceira chifres semilunares). Os animais são humanizados e
pessoa, de maneira onisciente. Entretanto, não cabe possuem o dom de falarem entre si e pensarem. Nes-
apenas ao narrador onisciente a função narrativa de se processo, Guimarães Rosa inverte o recurso que
“Conversa de bois”, já que uma das marcas dessa será utilizado depois em Grande sertão: veredas
narrativa é a polifonia, ou seja, a presença de vários (1956) de utilizar os bois para comparar os homens.
narradores, tais como Manuel Timborna, a cachorri- Aqui, são os bois que analisam os homens e que são
nha-do-mato, Risoleta, e também o boi Brilhante, ao comparados a eles. O menino Tiãozinho é compara-
qual cabe o papel de contar a história do boi Roda- do a um bezerro, Agenor é também comparado a bi-
pião. Ao atribuir a animais o papel da fala e dar um cho.
fundo moral à sua narrativa, Guimarães Rosa aproxi- 4. Risoleta. É uma cachorrinha-do-mato muito
ma-se da fábula, como espécie narrativa. O narrador curiosa e que presencia toda a ação.
dá voz ao menino Tiãozinho e aos animais nos mo-
mentos mais importantes da narrativa, aproximando
o leitor, tornando-o mais “submisso diante do poder
da narrativa”.
5. ESTILO DE ÉPOCA
• Personagens
1. Agenor Soronho. Carreiro, é um Homenzar- Guimarães Rosa pertence à terceira fase do Mo-
rão ruivo, de mãos sardentas, muito mal encarado, dernismo brasileiro, ou seja, ao Neomodernismo, ini-
mau e aproveitador. Indivíduo orgulhoso e perverso, ciado a partir de 1945. Pode-se destacá-lo como um
é visto pelos bois como o homem-do-pau-comprido- dos mais importantes escritores de toda a nossa lite-
com-o-marimbondo-na-ponta, referência evidente ao ratura. Sua obra Sagarana é um livro de contos inse-
aguilhão8 usado na aguilhada para dominar os bois rido nas perspectivas do instrumentalismo, pois tem
de carro. Sua índole negativa representa o mal dentro na palavra seu instrumento de constantes pesquisas.
do conto em confronto ao temperamento pacífico e Cabe, ainda, a classificação do livro e do respectivo
submisso do menino Tiãozinho. Agenor bate em to- conto “Conversa de bois” na tendência criada por Gui-
dos os meninos do mundo: Seu Agenor Soronho é o marães Rosa que chamamos universalismo regionali-
diabo grande. (p. 314) zante, uma vez que sua leitura do mundo regional faz-se
Agenor é amante da mãe do menino. a partir de um prisma universal.

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Vara comprida com ferrão na ponta, usada para picar os bois, guiando-os ou estimulando-os no trabalho.
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Castanho-avermelhado.
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Olho vermelho.
11
Que tem o pêlo preto e branco.
12
Pêlo muito escuro.
13
Da cor da laranja.
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Com as patas brancas.

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A linguagem é o ponto alto da prosa roseana, nas-
6.ESTILO INDIVIDUAL cida da combinação de elementos diversos, que ex-
ploram as máximas potencialidades do idioma,
aproximando a linguagem escrita da linguagem fa-
Guimarães Rosa é um escritor ímpar dentro de nos- lada (oralidade), circunscrevendo ritmo poético à fala
sa literatura, principalmente por causa dos recursos do sertanejo das Gerais (melopéia):
renovadores empregados em sua prosa regionalista, • Criação de neologismos. Outra característica
que dão vigor ao Modernismo da terceira fase. Ele marcante é a criação de neologismos por composição
renovou o conto e o romance por meio de uma lin- ou derivação, como o próprio título da obra, Sagara-
guagem pluricriativa, fruto de suas constantes pes- na, composto por hibridismo: saga, do alemão, que
quisas do mundo regional mineiro e de seu significa “narrativa épica”, “aventuresca”, e a locu-
conhecimento de vários idiomas. Não cabe dizer que ção rana, do tupi-guarani, que signfica “à maneira
inventou uma nova língua brasileira, como exagera- de”, o que sugere que os contos do livro são escritos
damente pretendem alguns críticos mais afoitos, mas à maneira de narrativas heróicas.
sim que recriou a língua literária pelo uso de expres- Os neologismos podem ser criados por:
sões lingüísticas surgidas a partir do meio regional e a) Derivação prefixal: rebufa, reajoelha, tresmo-
colhidas por sua inventividade. endo, desesquentou, reentestam, desdorme etc.
Ao refletir sobre o universal a partir de uma pers- b) Derivação sufixal: coisando, raboso, mesman-
pectiva do pitoresco regional, Rosa cria o chamado do (ficar absorto, com o pensamento perdido).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

regionalismo universalizante e expressa uma multi- c) Derivação parassintética (uso de prefixo e


visão metafísica da existência. A crença no manique- sufixo): esmochado, azebuado, despalpebrado, de-
ísmo de forma natural está presente em seus textos, sagerasão.
simbolizada por suas personagens, arquétipos do bem d) Abreviação: vam’; p’ra; atôa, Vam’bora.
(crianças e animais, por exemplo) ou do mal (Agenor e) Composição aglutinada: consiste na junção
Soronho). Assim, seus contos traduzem conceitos fi- de dois vocábulos de modo que percam a sua indivi-
losóficos e amplas contemplações de uma mística dualidade fônica. Repisonga (repisar + alongar = fala
cósmica, manifesta de forma um tanto mais evidente dormindo);
em algumas passagens. f) Composição justaposta: consiste na união de
É interessante notar a que ponto a obra de Guima- dois ou mais vocábulos em que se mantém a integri-
rães Rosa chega do estranhamento, da linguagem, da dade fônica de ambos: segue-seguindo; canga-de-
fabulação e de que maneira constrói o choque entre a cabeçada; tempo-das-águas; homem-do-pau-
verdade e a aparência, o bem e o mal. comprido-com-o-marimbondo-na-ponta, boi-grande-
A linguagem é, sem dúvida, o ponto mais alto das que-berra-feio-e-carrega-uma-cabaça-na-cacunda
conquistas roseanas. Sua linguagem ultrapassa o ma- (touro zebuíno); zebuíno-nelorino; couro-grosso;
terial da prosa para atingir a poesia mais pura. pesa-pendendo; chora-não-chora.
Assim vejamos alguns momentos e recursos poé- • Presença de arcaísmo. Emprego de vocábulos,
ticos. formas ou estruturas frasais fora de uso na língua
• Presença do lirismo: corrente. Guimarães Rosa utiliza os arcaísmos para
“De modo geral, as descrições de Guimarães (prin- recriar a linguagem popular, que é estática por causa
cipalmente as descrições) são entrecortadas por fra- da falta de contato com a linguagem urbana: banda
ses curtas e rápidas, dando especial atenção à frase (em lugar de lado); truncam (em lugar de dividem,
nominal. Trata-se de uma sintaxe telegráfica, ou, na separam); espevitada (agitada); vigiar (em vez de
expressão de David Hayman, ‘uma espécie de este- olhar); rechinar (ranger); solevou (em lugar de levan-
nografia literária.’”15 tou um pouco); rosnear (em lugar de rosnar); dan-
[…] árvores velhas, de todas as alturas — braçudas
sando (em lugar de dançando); tentear (em lugar de
braúnas, jequitibás esmoitados, a colher-de-vaqueiro em examinar); pelame (em lugar de pele dos animais com
pirâmides verdes, o lanço gigante de um angico-verda- pêlos); etc.
deiro, timbaúbas de copas noturnas, e o paredão dos • Figuras
açoita-cavalos, escuros. Cheiro bom de baunilha, som- a) Anacoluto. O bezerro de homem não sabe…
bra muito fresca, cantos de juritis, gorjear de bicudos, o
trilo batido da pomba-mineira, e, mais longe, mais den-
O nosso pensamento de bois é grande quieto… Tem o
tro, na casa do mato, o pio tristonho do nhambú-chororó. céu e o canto do carro… (p. 318); Não me chamem,
(p. 304) não sou mais… (p. 319); Não há bois… Tudo… To-

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PERUZZO, Lisângela Daniele. Submissão e poder: crianças e animais em Guimarães Rosa e Mia Couto.

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dos… A noite é enorme… Não há boi-de-carro… (p. bois, seres submissos e oprimidos pela violência de
319) um homem mau, Agenhor Soronho. A inocência do
b) Aliteração. braçudas braúnas (p. 304); belfos menino e dos bois contrapõe-se ao caráter maligno e
babosos dos bois de guia (p. 289); sombras songas; maldoso do carreiro, que tudo faz para maltratar esses
treta e teima. seres humildes que estão sob seu comando. O trauma
c) Onomatopéia. — nhein… nhein… renheinhein causado pela violência do tratamento dispensado a Tião-
— do caminho da esquerda, a cantiga de um carro-de- zinho, em vários momentos do conto é retomado na
bois (p. 288); … e pelos estalidos chlape-chlape das lembrança do menino, que apanhava sem justificativa,
alpercatas de couro cru (p. 290); Boi… Boi… Boi… também se estende aos animais, a toda hora picados
(p. 291); Cris-pim-cris-pim-cris-pim-crispim! (repre- pelo aguilhão do carreiro. Paradigmas da pureza e da
sentação do canto do joão-de-barro, p. 300). submissão ao mundo adulto dos homens, criança e bois
d) Metonímia. São vários os exemplos de meto- são maltratados para aplacar o desejo do mal, o que
nímias no conto, já que os bois procuram ver os ho- implica uma crítica evidente ao comportamento do
mens e a si mesmos em partes e não como um todo: homem, dito racional, o que é motivo de críticas dos
homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na- bois. Na análise da psiquê bovina, o comportamento
ponta (no lugar do carreiro); boi-grande-que-berra- parece ditado pela condição do animal: Péssima du-
feio-e-carrega-uma-cabaça-na-cacunda (em lugar de pla, esta da contra-guia: Brabagato, mal-castrado, tem
touro zebuíno); aquele-que-tem-um-anel-branco-ao- muito brio e é fogoso; e Capitão é um boi sonso, e pois
redor-das-ventas (em lugar de boi Capitão); o-que- mau como uma vaca na menopausa. (p. 295)

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tem-cabeça-grande-e-murundu-nas-costas (em lugar Caberá ao boi Rodapião ajudar o narrador nessa
de boi Dansador). análise da psicologia animal, mas por oposição, já
Outros recursos empregados pelo autor são: que seu papel dentro do conto será aproximar-se do
• Emprego de trocadilhos. comportamento humano, tão condenável pela visão
• Emprego de repetições binárias ou ternárias. dos animais, o que lhe determinará uma morte trági-
• Emprego da técnica de suspense. ca ao cair do barranco. Sua ousadia e seu raciocínio
• Presença de micronarrativas encaixadas no eixo contrapõem-se ao mundo do qual faz parte, sua lógi-
da narrativa principal: em “Conversa de bois”, en- ca e experiência de vida não lhe deram olhos para o
contra-se mais de uma “estória dentro da estória”, cuja perigo, mostrando que o pensar nem sempre é o me-
função principal é preparar o caminho da história prin-
lhor caminho para a vida, mas sim o exercício da pa-
cipal.
ciência e a aceitação das leis da natureza, que separa
• Outro aspecto que vale ressaltar é o emprego
homens e bois.
sistemático de pontuação excessiva, principalmente
O maniqueísmo é outro tema sempre presente na
vírgulas, ampliando as pausas para recriar o ritmo
obra roseana. O universo do Bem será representado
cantado da fala sertaneja (melopéia).
pela presença do menino e dos bois, em oposição a
• Emprego de discurso indireto livre:
Agenor Soronho, alegoria do Mal. A vitória do Bem
Arre! Que nunca foi tão penosa uma ida ao arraial. Tam- sobre o Mal determina o final trágico do carreiro.
bém, com tudo tão triste, carreando o pai para a cova, coi- A recorrência de personagens infantis como prota-
tado do pai… Mas deve de ter subido para o Céu, direito,
gonistas ou coadjuvantes na obra roseana torna-se ele-
na mesma hora… Na véspera de morrer, de-noite, ele ain-
da pedira para Tiãozinho tirar reza junto… (p. 303) mento de grande relevo, porque é pelas vozes dos mais
Mas, a mãe, por que é que ela havia de chorar?! Por fracos que nascem os desejos mais fortes. Por isso o
quê? Ela não gostava do pai… (p. 304) menino Tiãozinho e os bois, seres marginalizados pela
força dos homens, desempenham papel preponderante
no destino trágico. A possibilidade, ainda que ambí-
7. PROBLEMÁTICA E gua, de solução para o destino do menino e dos ani-
PRINCIPAIS TEMAS mais nasce de um processo de identificação pela
opressão, pela dor. Os animais parecem sentir e com-
padecer-se com o sofrimento da criança, cujo desejo
“Conversa de bois” é um conto, mas sua comple- de vingança contra o sofrimento do pai, o adultério
xidade ultrapassa a mera estrutura da narrativa curta. da mãe e as humilhações intensificadas durante o tra-
Guimarães Rosa deu a esse texto uma visão profunda jeto até a vila manifesta-se em seu estado de espírito,
da existência humana, pois homens e animais repre- e resolvem agir quando o opressor está desprovido
sentam arquétipos da vida comum e espiritual dentro de sua força, desarticulado de suas defesas, durante a
de seu universo regionalista. No conto, o autor pro- letargia do sono. Os animais servirão de ponte entre
cura analisar a psiquê do menino Tiãozinho e dois o real e o imaginário.

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Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. Se Sobre a análise de “Conversa de bois”, assinale a al-
pudesse matar o carreiro… Deixa eu crescer!… Deixa eu ternativa incorreta:
ficar grande!… Hei de dar conta deste danisco… (p. 308)
a) O clímax do conto estabelece um conflito entre o dese-
Álvaro Lins observa que “são os bichos os perso- jo de Tiãozinho cumprir uma vingança contra o indiví-
nagens mais comoventes, mais simpáticos e mais bem duo que subtrai a sua infância e a consciência social do
tratados de Sagarana. […] E nesse dom de tratar os erro e do crime.
bichos como personagens, de dar-lhes vitalidade e b) A vingança será cumprida de forma indireta, por meio
verossimilhança na representação literária, está uma dos bois, que funcionam como elementos do destino
das faculdades mais originais e poderosas da arte do para a realização de uma ação que pode ser considera-
da do bem.
Sr. Guimarães Rosa”. Os animais são transformados
c) A morte do carreiro é uma representação do mal que
em personagens, tornando-se os verdadeiros respon-
homens e animais são capazes de realizar para atingir
sáveis pela tríade provocação/conflito/reação, como desejos considerados inaceitáveis dentro da sociedade.
observa Lisângela Daniele Peruzzo. d) A presença do fantástico na narrativa é resultado da
A proximidade e a identificação dos bois com capacidade dada aos animais de falar e analisar com
Tiãozinho parecem criar um aparente estado de pos- consciência o mundo dos homens e dos bois.
sessão, a ponto de os animais assumirem os anseios
do menino e agirem para colocar um fim em seu so- Assinale a alternativa que não apresenta um indício
frimento. Ao contrário de sua condição de servidão e que coloca em suspeita ou gera certa dúvida quanto ao fato
força pacífica, os bois agem de forma decisiva em de os bois terem matado o carreiro Agenor Soronho:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“Conversa de bois”, tomando para si a decisão sobre a) O caminho era perigoso e muito acidentado.
o destino humano e colocando um fim à submissão b) O carreiro dormia no momento do acidente.
da criança e dos animais. Deve-se observar que a tra- c) O menino estava com muito sono.
jetória final, depois da morte de Agenor Soronho é d) Um outro acidente com um carro de bois sugere que o
tranqüila, seguindo, menino e animais, uma alegria fato possa se repetir.
de viver que chega até a projetar-se ao objeto inani-
mado, o carro-de-bois. É a vitória triunfal dos mais O sofrimento imposto a Tiãozinho pode ser considera-
do o fato gerador de seu desejo de morte contra o carreiro.
fracos…
Assinale a alternativa que não apresenta um acontecimento
que tenha servido para desencadear o estado de confusão
[…] o carro está contente — renhein… nhein… — e
mental do menino:
abre a goela do chumaço, numa toada triunfal. (p. 323)
a) O pai entrevado é desprezado pela mulher, que tem um
caso com Agenor Soronho no quarto ao lado de onde o
marido dorme.
Sobre o conto “Conversa de bois”, assinale a alterna- b) Agenor Soronho não respeita o morto, que é levado
tiva incorreta: com uma carga de rapadura para aproveitar a viagem.
a) O conto focaliza a infância do protagonista e sua dolo- c) Agenor maltrata Tiãozinho e ironiza o fato de o meni-
no ter pressa, já que o pai está morto.
rosa experiência com a morte de um familiar e os maus
d) A morte do pai de Tiãozinho foi determinada pela ação
tratos de seu patrão.
direta do próprio Agenor Soronho.
b) A sensibilidade da criança é captada pelos bois, que pare-
cem agir em conformidade com os desejos do menino. Respostas
c) O antagonista é um homem mau, que não se sensibili- 1. d
za com o sofrimento da criança diante da morte do pai. 2. c
d) A dolorosa aceitação da morte amadurece o menino, a 3. c
ponto de ele perdoar Agenor Soronho. 4. d