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CATOLICISMO TRADICIONAL, PODER E CONFLITOS: A CAPELA COLLADA

DA FREGUESIA DO TAMANDUÁ, SEU DECLÍNIO E A TRANSFERÊNCIA PARA


A FREGUESIA DA PALMEIRA NO INTERIOR DO PARANÁ (1813-1837)

Ronualdo da Silva Gualiume1


Universidade Estadual de Ponta Grossa – Paraná

Resumo: O objetivo dessa comunicação esta na elucidação dos sujeitos e autores


responsáveis pela formação e transferência da Freguesia de Tamanduá para a de
Palmeira, no século XVIII, em que a pessoa do Padre Antônio Duarte dos Passos,
vigário local de Tamanduá acabara por entrar em conflito com a Ordem dos
Carmelitas, presentes com um convento na região, pela apropriação da Capela de
Nossa Senhora da Conceição. Sob a responsabilidade do vigário local, sendo que o
mesmo teve que dispor dos bens recebidos pertencentes à Capela e da
administração secular, para deixá-los nas mãos dos Carmelitas que conseguiram tal
relevância e poder através do Bispo D. Matheus da Diocese da Província de São
Paulo e erigir outra capela em outra localidade. A investigação parte de como tais
sujeitos solucionaram os conflitos envolvendo a capela e como se deu o processo de
construção e mudança da Freguesia. O discurso do Padre secular e da ordem
religiosa faz-se através do conceito de representação (Roger Chartier) – busca-se
na história das interpretações, a maneira pela qual os indivíduos e a sociedade
concebem (representam) a realidade e de como essa concepção orienta suas
praticas sociais. Os discursos historiográficos são determinados pelos interesses dos
grupos dominantes.

Palavras-chave: Catolicismo; História local; Campos Gerais; Freguesia do


Tamanduá

1
Mestrando em História, Cultura e Identidades – Universidade Estadual de Ponta Grossa - PR
Ronualdo_gualiume@hotmail.com
1700
Introdução

Esse comunicação justifica-se na intenção de evidenciar como foi o processo


de ocupação e formação da Freguesia Collada do Tamanduá no século XVIII - na
antiga 5ª Comarca da Província de São Paulo, hoje atual Estado do Paraná –
investigando as demandas políticas e sociais, um conflito religioso pela posse e
apropriação da Capela, até seu descrédito regional resultando na transferência da
freguesia para o nascimento da cidade de Palmeira a partir do ano de 1819.
Nos meados do século XVII, os Portugueses e paulistas pertencentes à
Província de São Vicente, iniciam um movimento de ocupação pela exploração do
ouro no litoral do Paraná Tradicional, formando-se as primeiras pequenas vilas como
as de Paranaguá e Curitiba.
Já no início do século XVIII, do Paraná Tradicional, dá-se a povoação da
região do interior, conhecida como Campos Gerais. Motivados pelo interesse na
exploração do comércio pecuário, foram concedidas sesmarias para a ocupação do
território com o surgimento dos primeiros núcleos e freguesias como Castro,
Tamanduá, Guarapuava e Ponta Grossa. As sesmarias eram concedidas pela Coroa
portuguesa, através de seus representantes na administração colonial.
Em 1709 dá-se a construção da capela Collada da Freguesia do Tamanduá
pela Ordem dos Jesuítas. Um dos principais fatores da ocupação da região do
Tamanduá foi a passagem de uma estrada dos Tropeiros percorrendo o caminho de
Viamão (RS) à Sorocaba (SP), além da expansão territorial do Governo Português
através da Igreja Católica, na sistematização do Padroado Régio. Instituído ainda no
século XV, o padroado colocava nas mãos do Império português a expansão da fé e
a catequização dos povos que desconheciam a fé católica. Ao mesmo tempo dava
poder de coordenação do Rei sobre as atividades da Igreja, obrigavam-no a realizar
os investimentos para a implantação e manutenção de igrejas, paróquias e dioceses.
Ao mesmo tempo em que o rei de Portugal tinha direitos, passou a ter
obrigações em relação à expansão do catolicismo no mundo. Certamente essa
relação de trocas teve muitos benefícios para a Igreja e para a coroa. No entanto, na
medida em que o padroado passou a existir, a autonomia da Igreja em sua gestão
ficou comprometida. A partir desse instituto, o rei de Portugal passou a coordenar de

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forma direta as ações da Igreja, inclusive determinando a nomeação e o papel dos
padres.
O primeiro fator de declínio da Freguesia do Tamanduá foi o econômico, uma
nova e segunda estrada dos Tropeiros, passando por outra região (Campos Gerais)
tirou o movimento econômico de subsídio das tropas que pernoitavam em
Tamanduá. O segundo fator era o atrito estabelecido no campo clerical, à
divergência estava entre o vigário local (administrador da capela), na pessoa do
Padre Antônio Duarte dos Passos com o Prior dos Carmelitas que possuíam um
convento nos arredores da Freguesia do Tamanduá. Ambos tecem um confronto
pela apropriação e administração da capela local do Tamanduá. Os Carmelitas em
contato com o Bispo da Província de São Paulo - D. Matheus de Abreu Pereira -
conseguem a permissão para a apropriação e administração dos bens materiais da
capela, tirando e incitando no padre Antônio Duarte dos Passos, sua mudança para
outra região, no caso os rincões de Palmeira. Processo esse, que se deu através de
forte amizade estabelecida com o sesmeiro Tenente Manoel José de Araújo, que
doa uma fazenda de nome de Palmeira, para o estabelecimento da nova capela.
Após a construção da nova capela, o mesmo Bispo da Província de São Paulo - D.
Matheus de Abreu Pereira – cede autorização para a transferência dos bens
materiais da capela do Tamanduá, assim como se dá a transferência populacional
da freguesia de Tamanduá para Palmeira nos anos seguintes à 1819.

Objetivos

- Investigar o processo de ocupação do território que seria o “Paraná” através da


empresa colonizadora, juntamente da esfera religiosa, que detinha a missão salvifica
de “conduzir as almas” nas primeiras freguesias do Paraná Tradicional;
- Elucidar o processo de ocupação dos Campos Gerais, através das políticas de
sesmeiros, na ocupação de novas regiões, assim como se deu a ocupação da
Freguesia do Tamanduá;
- Entender o conflito entre o Clero Religioso presente na Freguesia do Tamanduá,
na apropriação e administração da Capela;

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- Observar como se deu o processo de transferência da Freguesia do Tamanduá
para a Freguesia da Palmeira de Nossa Senhora da Conceição.

Catolicismo Luso Brasileiro no Paraná Tradicional e a Freguesia Collada do


Tamanduá

Sob o jugo da coroa portuguesa, afirma-se que o catolicismo foi imposto no


Brasil como religião oficial do Império, desde o início do processo colonizatório,
sendo a única com permissão para realizar cultos públicos ou domésticos. Negrão
(2008, p. 262) confirma que essa aliança entra a casa real portuguesa e o Vaticano
possibilitou ao império português legitimar seus interesses temporais e seus
métodos de atuação, sob o pretexto da salvação de almas e da difusão da fé e
cultura cristãs. Durante o período colonial, houve um “catolicismo guerreiro”,
segundo Hoornaert (1974, p. 31-65), intimamente ligado à conquista e à preservação
da nova terra e ao empreendimento colonial.
As cidades do Brasil, nascidas no período Colonial, foram definidas e
estruturadas através da influência do catolicismo luso brasileiro. Após a chegada dos
Portugueses ao Brasil a partir do século XV, a delimitação do território (por motivos
geográficos, sociais e econômicos) esteve fortemente ligada ao fator religioso, com o
catolicismo tradicional. Observa-se que as formas de evangelização desenvolvidas
pelas ordens clericais estavam intimamente interligadas ao processo de alargamento
de fronteiras, de construção de vilas e povoados. Assim, o “papel dos religiosos, do
sacerdote, tinha função dúbia de explorar os territórios e fundamenta-los na
construção/ocupação e também de legitimar o caráter religioso e devocional da
população” (AQUINO, 2011, p. 63). Faz-se mister mencionar que Negrão (2008, p.
262-263) contribui ao estudar o papel fundamentador do sacerdote no período
colonial, expressando de que “no resto da colônia, nos pequenos vilarejos e nos
bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, raramente
havia párocos locais.” O padre passava por eles apenas de quanto em quando, às
vezes apenas uma vez ao ano, para o „desobriga‟: batizar os nascidos, casar os
ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Neste sentindo Solange Ramos de
Andrade (2012, p. 240) realça afirmando que as cidades existentes no Estado do

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Paraná apresentam a “Igreja Matriz como marco fundador e socializador das
cidades, palco dos ofícios religiosos, da vida cotidiana”. Ao fundar um povoado, uma
vila, o europeu colonizador erigia às pressas uma capela (muitas vezes pequena e
de forma improvisada), para a legitimação do povoado, através da denominação
católica determinava a ocupação territorial, econômica e social daquela região.
As capelas no período colonial eram a representação inconfundível do poder,
no universo colonial, que se firmava aos poucos. No século XVII, ao sul, elas
simbolizavam, juntamente com o curral, as bandeiras paulistas. Por trás de uma
capela que vingava estava um grupo de colonos preocupados com sua salvação e
sua vida após a morte, ou um bandeirante que queria ter seu arraial reconhecido
pelas instâncias do poder colonial. Só com um determinado poder era possível
construir uma capela a partir de uma série de movimentos que passavam por
doações de terra e obrigações de missa pela alma do fundador. Essas igrejas
rústicas materializavam sentimentos e promessas dos seus idealizadores.
As capelas que conseguiam sobreviver constituíam uma forma de exigência
da presença de um sacerdote. O envio de um padre ou pároco dependia em boa
parte, da vontade dos bispos, mas principalmente da capacidade dos colonos de
manterem e sustentarem seu pároco ou vigário. Quando não conseguiam ter um
representante sacerdotal, improvisava com rezadores e especialistas religiosos que
guiava as cerimônias no templo. Esse vácuo trouxe diversas consequências que
iriam marcar a trajetória do catolicismo no Brasil. Com a dificuldade da presença de
sacerdotes foi aberto espaço para a intervenção dos leigos na administração do
sagrado. (LONDOÑO, 1997: 53-54).
A presença da Igreja e do pároco era tão importante na colônia, pois se fazia
autoridade no plano civil e no religioso. A paróquia se diferenciava dos curatos e
capelanias. As paróquias coladas eram feitas e financiadas pelo padroado, indicava
o reconhecimento, por parte das autoridades coloniais e pela coroa, consolidando o
direito de ocupação com certa representatividade econômica ou expressão política.
A exemplo disso os 10% do dízimo que eram retirados de tudo que era produzido na
colônia e de direito da coroa. (HOORNAERT, 1994: 12. LONDOÑO, 1997: 52 à 57).
As paróquias coladas só seriam implantadas e consolidadas durante o
processo de colonização, ou por pressões dos fregueses que queriam ter seu

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reconhecimento de sua condição por parte do Estado. Isso significava a existência
de instituições permanentes, como a administração de sacramentos e a produção de
registros assegurados legalmente, como os registros de batismo, casamento e óbito.
A nomeação conferida pelo rei de vigários colados assegurava no marco do
padroado, a legitimidade das paróquias que já existiam.
Assim, as primeiras Freguesias Coladas no Paraná Colonial foram erguidas
no tocante marcado pelos primeiros habitantes que recebiam as Sesmarias do
Governo Imperial para a composição e povoamento da 5º Comarca da Província de
São Paulo2, definição estabelecida para o Paraná, que pertencia, na época, à
Província de São Paulo. O povoamento dos Campos Gerais teve início no Século
XVIII e a principal característica que fundamentou o nascimento das primeiras
Freguesias foi o movimento econômico do Tropeirismo juntamente com a concessão
de Sesmarias, ligando o Rio Grande do Sul à cidade de Sorocaba, na Província de
São Paulo. A travessia das tropas dava início aos primeiros povoados e núcleos
urbanos, nos quais muitos tropeiros edificaram suas moradas formando currais,
rincões e coxilhas nas fazendas espalhadas pelo caminho das tropas. DITZEL et al.
(2013) contribui para a melhor compreensão:

Motivados por um interesse na exploração do comércio pecuário, os


pedidos para concessão de sesmarias nos Campos Gerais atingiram um
total superior a 90 até meados do século XVIII. Tais pedidos, porém, não
indicavam necessária intenção dos sesmeiros em estabelecer residência
fixa na região. Isso se comprova pelo alto índice de absenteísmo dos
sesmeiros que, não residindo em suas terras, entregavam a administração
aos "fazendeiros". As sesmarias se diferenciavam pela extensão e
localização, formando fazendas, sítios e chãos urbanos. O recenseamento
de 1772 indicou a existência de 50 grandes fazendas e 125 sítios na região
dos Campos Gerais. Foi o gradativo processo de partilha dessas sesmarias,
por venda, herança e doação, que contribuiu para a valorização da terra e
fixação das populações campeiras. A respeito da origem dos sesmeiros, as
diferentes análises existentes permitem concluir que tinham procedência
múltipla - São Paulo, Santos, Paranaguá e Curitiba - pertencendo a famílias
ricas e poderosas desses locais. As sesmarias eram concedidas pela Coroa
portuguesa, através de seus representantes na administração colonial.
Impunha-se como condição para a doação que o pretendente comprovasse
dispor de cabedais. Sua concessão conferia o direito de uso da terra,

2
Em 1660, o governo do Rio de Janeiro criava a Capitania de Paranaguá, extinta em 1710, sendo
incorporada à Capitania de São Vicente e Santo Amaro, posteriormente Capitania de São Paulo.
Devido à grande extensão, a capitania foi dividida em duas comarcas, ficando ao sul com sede em
Paranaguá; em 1812 a sede foi transferida para Curitiba, denominando-se Comarca de Curitiba a
Paranaguá. Emancipou-se pela Lei nº 704, de 29/08/1853, surgindo assim a Província do Paraná
(WACHOWICZ, 1972, p. 79-85).
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reforçando o prestígio e poder das famílias proprietárias e ampliando as
3
distinções sociais.

Um dos centros mais importante nos Campos Gerais do Século XVIII era a
Freguesia Collada do Tamanduá. Conforme José Carlos Veiga Lopez4 (2000, p. 163
e 164), a “fazenda do Tamanduá era inicialmente de propriedade do capitão Antônio
Luiz Lamim (Capitão Tigre), natural de Parnaíba, casado com Ana Rodrigues
França. A primeira capela foi construída em madeira pelos Frades Jesuítas, em
1709, executores da vontade do capitão Tigre”. Raul Braz de Oliveira (2001, p. 25)
complementa,

Antônio Tigre ganhou uma imagem de Nossa Senhora da Conceição do


Capitão João de Carvalho Pinto, que era neto de Antônio de Goes, esposa
de Mateus Leme, um dos povoadores de Curitiba, cuja imagem havia
pertencido à mesma e deixada em testemunho a seu filho Matheos, para
que esse construísse uma capela para essa imagem. [sic]

A Freguesia Collada do Tamanduá foi perdendo seu esplendor econômico e


social a partir de 1819, “um dos motivos foi a construção de uma outra estrada dos
tropeiros que não passava mais em Tamanduá” (MACEDO, 1940, p. 24) Um outro
fator que gerou a queda do esplendor econômico e social foi o próprio processo de
transferência da Freguesia de Tamanduá para o rincão de Palmeira, processo este,
que se deu através de uma disputa de interesses do clero religioso existente na
Freguesia do Tamanduá. Astrogildo de Freitas (1984, p. 13) discorre que a
divergência estava entre o vigário local, na pessoa do Padre Antônio Duarte dos
Passos com o Prior dos Carmelitas que possuíam um convento nos arredores da
povoação do Tamanduá. Complementando tal afirmação, consta-se no Livro Tombo
nº 1, p. 10 (1818) de que os Carmelitas solicitaram ao Bispado de São Paulo a
apropriação da Capela Collada do Tamanduá:

3
DITZEL, Carmencita de Holleben Mello; LAMB, Roberto Edgar. Dicionário Histórico e Geográfico
dos Campos Gerais. Disponível em: < http://www.uepg.br/dicion/verbetes/a-
m/campos_gerais_ocupacao.htm >. Acesso em: 31 de julho de 2013.
4
Em sua obra „Raízes da Palmeira‟, José Carlos Veiga Lopez faz uma investigação minuciosa da
formação da Freguesia de Palmeira com a transferência da Freguesia do Tamanduá desenvolvendo
análise à partir dos testamentos e inventários dos pioneiros das Freguesias de Tamanduá e Palmeira.
Exemplo como do inventário do Padre Antônio Duarte dos Passos datado de 1825 – disponível na 1º
vara do cível de Curitiba (LOPEZ, 2000, p. 206).
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D. Matheus de Abreu Pereira , lançado no livro das Pastorais ,( c ....) a folha
9 , em virtude do dito mandado foi entregue aos Religiosos do Carmo da
Cidade de São Paulo . a Seo Procurador Frei Joaquim de Santa Clara
ACapella de Tamanduá todos os ornamentos , e Alfaias constantes do
Inventario lançado neste livro a Folha 4 ( e de seguencia ) a folha 8 . [sic]

Após o mandato expresso do Bispado de D. Matheus de Abreu Pereira,


referente à apropriação e os bens da Capela do Tamanduá pelos Carmelitas, o
Padre Antônio Duarte dos Passos muda-se para a fazenda Palmeira, de propriedade
do Tenente Manoel José de Araújo, desobrigado de quaisquer compromissos
religiosos para com o Tamanduá. Eis que tomou início a construção da nova capela,
com autorização do Bispo de São Paulo, D. Matheus de Abreu Pereira, e, também, a
sede da nova localização que seria a Freguesia da Palmeira de Nossa Senhora da
Conceição. (FREITAS, 1984, p. 16). Conforme o Livro Tombo nº 1, p. 12 faz registro
do termo de concessão para a construção da Matriz de Palmeira em cinco de julho
de 1820:

Aos que esta N. Provisam virem saúde , e benção em o Senhor fazemos


saber que attendendo Nos ao que por sua Petição representou o Padre
Antonio Duarte Passos Vigário Collado da Freguezia de Nossa Snra da
Conceiçam de Tamanduá deste Nosso Bispado .Havemos por bem pela
prezente conceder-lhe Faculdade para fazer erigir , fundar e edificar a sua
Igreja Matriz com a Invocação de Nossa Senhora da Conceiçam no lugar da
Palmeira ,com tanto que seja o lugar decente , alto livre de humidades ,
desviado quanto possa ser de lugares imundos , e sórdidos , e de cazas
particulares , com âmbito suficiente em roda para andarem as Procissoens ,
e por esta mesma lhe Concedemos Com missão para assignalar o lugar ,
obeservando o que determina a Constituição do Bispado .
E depois de acabada Senão poderâ nella celebrar a Missa sem nova
Licença para a qual precederâ informação sua da Capacidade da dita
Igreja . Dada em S. Paulo sob Nosso sinal , e sello das Nossas Armas ãos
5 de Julho de 1820 .E eu OPadre Fernando Lopes de Camargo Escrivão
Ajudante da Camera de Sua Excelência Reverendíssima. [sic]

Com a construção e instituição da capela na Freguesia de Palmeira de Nossa


Senhora da Conceição, dá-se o processo de transferência, inicialmente das
primeiras famílias de Tamanduá para Palmeira. Primeiramente pelo fator da nova
estrada dos tropeiros circundar os Campos Gerais e segundo pelo translado da
Imagem de Nossa Senhora da Conceição, legitimando a importância religiosa da
nova freguesia, levando toda a população do Tamanduá à migrarem para a

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Freguesia de Palmeira, ou até mesmo à de Castro ou Curitiba, que eram Freguesias
próximas e bem desenvolvidas.

Considerações finais

A pesquisa histórica, como área de conhecimento, tem passado por


transformações significativas, sobretudo, nas últimas décadas, sendo que, com isso,
antigos cânones têm cedido espaço a novos objetos, a novas problemáticas e
abordagens temáticas.
Tal perspectiva não tem sido diferente no campo da historiografia religiosa. O
tratamento antes restrito ao interior das instituições religiosas foi se deslocando para
o estudo de suas práticas, num vigoroso leque de novas possibilidades, rompendo
com as prerrogativas anunciadas pelo cientificismo, que a partir de meados do
século XIX, pressagiava que, quanto mais o mundo absorvesse ciência e erudição,
menos seria o papel da religião. Neste sentido BENATTE (et al) (2013, p. 9-10),
elucida que:

[...] a história das religiões emergiu, com o Iluminismo, afirmando o projeto


de elaboração de uma certa história científica das crenças religiosas.
Produzir história científica significa, então, conceber e praticar a
historiografia sob o controle da razão, com métodos e objetos próprios,
desembaraçada de atitudes fideístas. No século XIX, historicistas e
positivistas reforçaram o status científico do saber histórico em geral. Os
modelos explicativos modernos implicavam a relativização dos conteúdos
de verdade do discurso religioso.

Assim percebe-se na perspectiva de entender e estudar a concepção


religiosa que parte da análise da Capela Collada da Freguesia do Tamanduá. No
campo religioso, percebe-se um conflito estruturado entre os Frades Carmelitas e o
Padre Secular na apropriação e representação da administração dos bens materiais
da capela, assim como na condução dos rituais religiosos na freguesia. Nota-se que
o conflito legitima e inspira a transferência da Freguesia, assim como determina a
construção de uma nova capela em outra região, como forma de emancipação e
ocupação territorial. Conforme Livro Tombo nº 1, p. 10:

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Por cujo motivo aos doze de Agosto de 1818 mudei a freguezia para o
Rincão da Palmeira onde estou forcejando a edificar a Matriz.
Por consulta que fis a Sua Exª Reverendíssima por elle servido mandar que
eu entregasse tão somente aquelles bens que pertencião à Capella , e não
aquelles que forão dados pelo Povo , e que são os seguintes . [sic]

Para entender esse processo de investigação que se dá no bojo da análise


das construções sociais, econômicas, familiares e até políticas da religiosidade,
deve-se primeiro compreender como a historiografia passou a mensurar e
considerar a história das religiões entre as linhas conceitos dos estudos históricos na
contemporaneidade. Conforme ROUSSELE, (1993, p. 669), afirma:

O estudo das religiões leva o historiador ou o antropólogo a ver funcionar


em indivíduos e no seio das sociedades o conhecimento do invisível, e a
colocar entre parênteses se pressuposto pessoal que é a fé na razão.

É neste contexto que se confrontam as relações existentes entre a


apropriação e representação, caracterizando como conceitos e objeto da história
cultural que, segundo Chartier, “identificar o modo como em diferentes lugares e
momentos uma realidade social é construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER,
1990, p. 16). Este objeto decorre de uma definição dupla de “cultura”: (1ª) enquanto
obras e gestos que configuram e justificam uma apreensão estética, um princípio de
classificação e de demarcação intelectual do mundo; (2ª) enquanto práticas comuns,
“sem qualidades”, que exprimem a maneira pela qual uma comunidade produz
sentido, vive e pensa sua relação com o mundo (CHARTIER, 1999, p. 8-9; 2002, p.
93).
As representações são entendidas como classificações e divisões que
organizam a apreensão do mundo social como categorias de percepção do real. As
representações são variáveis segundo as disposições dos grupos ou classes
sociais; aspiram à universalidade, mas são sempre determinadas pelos interesses
dos grupos que as forjam. O poder e a dominação estão sempre presentes. As
representações não são discursos neutros: produzem estratégias e práticas
tendentes a impor uma autoridade, uma deferência, e mesmo a legitimar escolhas.
Ora, é certo que elas colocam-se no campo da concorrência e da luta. Nas lutas de
representações tenta-se impor o outro ou ao mesmo grupo sua concepção de

1709
mundo social: conflitos que são tão importantes quanto as lutas econômicas; são tão
decisivos quanto menos imediatamente materiais (CHARTIER, 1990, p. 17).
As representações permitem também avaliar o ser-percebido que um
indivíduo ou grupo constroem e propõem para si mesmos e para os outros. Chartier
segue de perto Bourdieu, citando-o quando menciona as determinações da
produção:

a representação que os indivíduos e os grupos fornecem inevitavelmente


através de suas práticas e de suas propriedades faz parte integrante de sua
realidade social. Uma classe é definida tanto por seu ser-percebido quanto
por seu ser, por seu consumo – que não precisa ser ostentador para ser
simbólico – quanto por sua posição nas relações de produção. (BOURDIEU,
La distinction. Critique sociale du jugement. 1979. Apud. CHARTIER, 2002
[1994c]: 177). As ênfases são do original.

Desse modo, Chartier incorpora de Bourdieu várias problemáticas


relacionadas às representações. As lutas de representações nas quais existem
imposições e lutas pelo monopólio da visão legítima do mundo social; a violência
simbólica que depende do consentimento (arbitrário) de quem a sofre; o ser-
percebido dos indivíduos e grupos sociais, firmemente arraigados nas
determinações sociais de produção e de classe – todas essas problemáticas indicam
que o conceito de representações coletivas proposto tem muito pouco a ver com as
noções pós-modernas de que o real não existe, a não ser na linguagem. As
representações não se opõem ao real; elas se constituem através de várias
determinações sociais para, em seguida, tornarem-se matrizes de classificação e
ordenação do próprio mundo social do próprio real.
Tais conceitos cunhados por Chartier tem relação pertinente ao estudar a
representação no conflito do clero religioso pertencente à Freguesia do Tamanduá,
na pessoa do Padre Antônio Duarte dos Passos em confronto com a Ordem dos
Carmelitas na manutenção do poder simbólico, conceito cunhado por (Pierre
Bourdieu, 2005), representado na Capela Colada do Tamanduá.
Outro conceito presente e relacionado nas aulas da disciplina de Discurso,
representação: produção de sentido é a conceito de campo de poder e campo
religioso. Na obra A Economia das Trocas Simbólicas, ao desenvolver um capítulo
intitulado “gênese e estrutura do campo religioso”, Bourdieu apresenta de modo

1710
original contribuições de Èmile Durkhein e Max Weber. Definindo a religião como um
conjunto de práticas e representações que se revestem de caráter sagrado,
Bourdieu aborda a religião como linguagem, isto é, sistema simbólico de
comunicação e pensamento.

Fontes
- Livro 1 e 2, batizados – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Palmeira

- Livro 1, casamentos – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Palmeira

- Livro 1, óbitos – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Palmeira

- ARQUIVO DA CURIA METROPOLITANA DE SÃO PAULO - ACMSP. Arquivo


Metropolitano Dom Duarte Leopoldo e Silva.

- AUTOS DE INVENTÁRIO DO PADRE ANTÔNIO DUARTE DOS PASSOS, 1825 –


Localizado na 1º vara do cível de Curitiba e cópia disponível no Museu Histórico Dr.
Astrogildo de Freitas.

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