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Implicações missiológicas

Uma doutrina como a do fechamento escatológico da porta da graça tem


implicações extremamente sérias para a missão da igreja no contexto da pregação do
evangelho eterno (Apocalipse 14:6) a todo mundo (Mateus 24:14), e da devida
preparação para o encontro do Senhor nos ares quando ele regressar (1 Tessalonicenses
4:17; Mateus 24:42; Amós 4:12). A missão de pregação do evangelho, que Deus nos
concedeu em sua graça e amor, foi apresentada por Ellen White em inúmeros textos
inspiradores e interessantes, dentre esses textos está o que diz:

“Na proclamação das verdades do evangelho eterno a toda nação, tribo, língua e
povo, a igreja de Deus na Terra está hoje cumprindo a antiga profecia:
"Florescerá e brotará Israel, e encherão de fruto a face do mundo." Isa. 27:6. Os
seguidores de Jesus, em cooperação com inteligências celestiais, estão
rapidamente ocupando os lugares solitários da Terra; e como resultado dos seus
labores, uma abundante colheita de almas preciosas está em processo. Hoje,
como nunca dantes, a disseminação da verdade bíblica por meio de uma igreja
consagrada está levando aos filhos dos homens os benefícios prefigurados
séculos antes na promessa a Abraão e a Israel - promessa para a igreja de Deus
na Terra em cada século: "Abençoar-te-ei... e tu serás uma bênção." Gên. 12:2”
(Profetas e reis, p.703).

Muitos princípios importantes estão aqui evidenciados: 1) Hoje a igreja está


cumprindo profecias importantes da Palavra de Deus, florescendo e crescendo em todo
mundo proclamando o evangelho eterno; 2) A igreja age em cooperação com
Inteligências celestiais e como resultado disso é que colhe e colherá muitas almas para o
reino de Deus; 3) A disseminação da verdade bíblica é marca importante e distintiva da
igreja de Jesus Cristo; 4) A igreja consagrada leva as bênçãos de Deus com as quais ela
mesma é abençoada.

Seja em que área geográfica, étnica e religiosa em que a igreja esteja, se ela se
tornar efetivamente relevante às pessoas onde ela estiver estabelecida ela florescerá. O
contrário dessa afirmação também é um fato absolutamente verdadeiro e verificável. A
missão fica impossível de ser realizada satisfatoriamente num contexto onde, por
qualquer razão, ela (a igreja, a missão, a Palavra de Deus) tenha se tornado irrelevante
às pessoas, que são o alvo último da missão que o Senhor nos confiou. Esses fatos têm
conduzido muitos estudiosos e pregadores a pensar no evangelho, e a adaptá-lo para
então o apresentar às pessoas que vivem em seu redor.

São traçados planos, estabelecidos limites, idealizados programas, produzidos


conteúdos diversos, abordados de múltiplas formas e enfoques, com o objetivo de
manter viva a chama do evangelho que transforma a vida das pessoas de forma poderosa
e então dessas perspectivas e enfoques diferentes apresentá-lo a elas para sua salvação
num relacionamento de fé e amor com o Salvador. Existem princípios bíblicos que nos
permitem, ou até mesmo nos exigem fazer tudo isso: tornar relevante o evangelho
dentro de uma cultura, dentro de um momento histórico, a uma etnia, a um povo, a uma
nação, e isso tudo dentro de contextos políticos, econômicos, sociais, religiosos
específicos e singulares. E existe apenas uma única condição a ser considerada nessa
tarefa monumental: Nunca sacrificar o que seja a verdade em qualquer dimensão ou
aspecto da revelação.

Jesus disse que a Palavra de Deus é a verdade (João 17:17) e que sua igreja
devera ir por todo o mundo ensinando as pessoas a guardarem (crendo, obedecendo, e
aguardando o cumprimento de) todas as coisas que Jesus ensinou e ordenou (Mateus
28:20). “Todas as coisas que vos ordenei” é uma expressão que revela ser a pregação do
evangelho eterno às nações uma tarefa que exige mais do que eficiente adaptabilidade
em termo de abordagens e acomodação cultural de um evangelho “positivo” qualquer,
geralmente simplificado para ser facilmente assimilado, digerido e aceito. Tal filosofia e
atitude relativamente ao evangelho necessariamente abrem espaço para a manipulação
maldosa por parte de pessoas com objetivos indignos do espírito das boas novas em
Jesus como: o potencial de lucro financeiro, a mera promoção pessoal, ou outros muitos
motivos diversos, enganosos e desmascarados como malignos pela Palavra de Deus. A
pregação do evangelho de Cristo é uma tarefa que exige consciência aguçada e
apresentação clara e relevante do conteúdo pleno do evangelho, e não apenas na
apresentação e ênfase de alguns poucos aspectos relacionados ao mesmo.

Essa consciência clara do que seja o evangelho em sua essência, e uma visão
abrangente de suas múltiplas implicações naturais em todos os ramos da experiência de
vida de todos os seres humanos, é o passo inicial para a missão de então transmitir esse
conteúdo teórico e prático (que é o evangelho) aos seres humanos, cada qual em sua
realidade de forma relevante e potencialmente salvadora para que cada qual faça uma
escolha pessoal, responsável e pela qual possa ser responsabilizado.

O fato é que quando pensamos em tudo isso nos deparamos com realidades bem
estabelecidas e que fazem com que a “pregação do evangelho,” em muitos círculos
“cristãos,” tenha se tornado sinônimo da apresentação de uma mensagem de salvação
diluída, aguada, politicamente conveniente, economicamente mais fiel ao mercado (e
aos desejos pessoais) do que à Lei de Deus, espiritualmente comprometida com a não
condenação do pecado, e que deixa de lado qualquer apresentação sólida e coerente das
profecias bíblicas sobre as últimas cenas da história terrestre quando os homens
buscarão a morte, mas esta fugirá deles (apocalipse 9:6).

Já vimos que o fechamento da porta da graça não é algo com conotações


exclusivamente negativas, longe disso. Mas é fato que seus aspectos negativos devem
ser apresentados como fazendo parte das “todas as coisas” que Jesus nos ensinou com o
objetivo de que estejamos de pé diante dEle quando Ele retornar a esse mundo. Por isso
entendemos que a primeira implicação missiológica da doutrina do fechamento da porta
da graça é a pregação de uma mensagem impopular.

Essa mensagem impopular porém tem muitas concorrentes no mundo religioso.


Uma pretensa salvação eterna pela graça de Jesus Cristo que tire de diante dos olhos
essas cenas terríveis: de pessoas desmaiando de terror (Lucas 21:26), procurando a
morte e não a encontrando (apocalipse 9:6), de final de oportunidade de salvação para o
mundo que rejeitou a lei e a graça de Deus (Jeremias 6:19, 9:11-13, 16:11-13 e Marcos
16:16). E que não exija cumprimentos “ao pé da letra” da Palavra de Deus é atraente e
agrada aos seres humanos e muitos estão atrás de tais doutrinas sobre as quais basear
sua experiência com a verdade da Bíblia e com o Deus que se fez carne, Jesus (João 1:1-
3/14).