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Entrevista lúdica

Blanca Guevara Werlang


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F reud organizou a sua teoria sobre a sexuali-
dade infantil com base nos dados obtidos
na análise de seus pacientes adultos. Em fun-
o ego da criança infantil não estava suficiente-
mente desenvolvido para suportar o peso de
uma interpretação psicanalítica, e por saber
ção disso, durante muito tempo, estimulou que a criança não era motivada a procurar aná-
seus alunos e amigos, em Viena, a coletarem e lise, sendo encaminhada mais por ser um so-
a descreverem observações sobre a vida sexual frimento da família; portanto, a interpretação
de seus filhos, para poder obter um material não significaria nada para essa criança (Ajuria-
que desse provas evidentes daquilo que ele guerra, 1983; Bleichmar & Bleichmar, 1992;
afirmava. O resultado disso foi o caso do pe- Hinshelwood, 1992; Lebovici & Soulé, 1980).
queno Hans. Através dele, Freud (s/d) finalmen- Em compensação, Melanie Klein (1980),
te compreendeu as neuroses infantis e seu pa- desde o início, entendeu que as crianças pode-
pel na organização da neurose dos adultos, riam, sim, ser motivadas dentro de si mesmas
confirmando as hipóteses que havia levantado para a análise, insistindo que elas poderiam ser
no seu artigo Três ensaios sobre a teoria da analisadas, do mesmo modo que os adultos,
sexualidade (Freud, 1989). explorando os conflitos inconscientes, absten-
A exposição do tratamento do pequeno do-se de qualquer medida educativa ou de
Hans deu a Freud, sem dúvida, a oportunidade apoio. Neste sentido, Klein pode ser conside-
de fazer bem mais do que confirmar certas hi- rada como a iniciadora da técnica psicanalítica
póteses sobre a precocidade da vida sexual. para crianças, preconizando a aplicação do
Colocou, sem ser esta sua intenção, na roda jogo, por entendê-lo como o equivalente a um
das discussões psicanalíticas, a possibilidade de fantasma masturbatório.
aplicar os princípios da técnica psicanalítica à Contudo, foi Freud o primeiro estudioso que
criança. refletiu sobre a função e o mecanismo psicoló-
A partir do pequeno Hans, Hermine von gico da atividade lúdica infantil, quando inter-
Hug-Hellmuth observou que o jogo fornecia ex- pretou a brincadeira de seu neto de 18 meses
celentes possibilidades de compreensão dos de idade. O menino brincava com um carretel
fantasmas, instituindo uma primeira forma de amarrado em um barbante e, sempre seguran-
análise infantil que se vinculou, primeiramen- do o fio, lançava o carretel por cima de seu
te, à educação. Ela não utilizou interpretações berço, cercado por uma cortina, onde esse de-
como na análise de adultos, por entender que saparecia. Exclamava, então, “fora” (fort), pu-

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xando logo o barbante, até atirar o carretel para quedo é, então, um meio de comunicação, é a
dentro do berço, saudando seu aparecimento ponte que permite ligar o mundo externo e o
com um alegre “aqui” (da). interno, a realidade objetiva e a fantasia.
Freud compreendeu que essa criança esta- Pode-se dizer, pois, que Freud estabeleceu
va brincando de ir embora e voltar. Era a ma- os marcos referenciais da técnica do jogo, de-
neira que ela tinha para controlar a angústia monstrando que o brincar não é só um passa-
da ausência da mãe. Então, a criança não esta- tempo para viver situações prazerosas, mas
va meramente se divertindo. Pelo contrário, por também uma maneira de elaborar circunstân-
meio da manipulação do brinquedo, estava do- cias traumáticas. Prosseguindo nesse sentido,
minando uma situação que, de outra forma, Melanie Klein, como já mencionamos, colocou
seria impossível. Assim, para Freud (1976), as o brinquedo num lugar de destaque na luta
crianças repetem, nas suas brincadeiras, tudo contra a angústia mobilizada pelas pulsões
que na vida lhes causou profunda impressão sexuais. Segundo essa autora, ao brincar, a
e, brincando, se tornam senhoras da situação. criança domina realidades dolorosas e contro-
O menino do carretel tinha em seu jogo um la medos instintivos, projetando-os ao exterior,
representante da mãe atado ao cordão. Sim- nos brinquedos. Este mecanismo é possível,
bolicamente, deixava-a se afastar, até a atirava porque a criança, desde tenra idade, tem a ca-
longe e, depois, quando sua vontade o deman- pacidade de simbolizar. Assim, para Klein
dasse, a fazia voltar. Tinha, como Freud ressal- (1980), o brincar é a linguagem típica da crian-
tou, transformado a passividade de sua condi- ça, equiparando a linguagem lúdica infantil à
ção infantil em atividade. associação livre e aos sonhos dos adultos. Por-
As crianças, então, segundo Freud (1976), tanto, a neurose de transferência desenvolve-
brincam para fazer alguma coisa que, na reali- se da mesma maneira, não sendo as figuras
dade, fizeram com elas. Nas brincadeiras, após parentais atuais, mas as internalizadas, que são
idas a médicos, onde o corpo é examinado, ou projetadas no analista, que terá como princi-
após alguma cirurgia, muitas vezes, essas lem- pal função interpretar todo o material associa-
branças, mesmo sendo penosas, se transfor- tivo que a criança traz.
mam em conteúdo de jogo. Por quê? Porque, Na mesma época, Anna Freud, seguindo
através do brinquedo, a criança tem a possibi- ensinamentos de Hug-Hellmuth, colocou-se
lidade de realizar o desejo dominante para sua numa posição contrária à de Melanie Klein.
faixa etária, por exemplo, o de ser grande e de Desse modo, com uma concepção diferente da
fazer o que fazem os adultos. Desta maneira, mente infantil, afirmava que a criança não pos-
na situação anterior relatada, a criança poderá sui consciência de doença, estando ainda pre-
ser o médico que estará atacando um corpo, sa a seus objetos originais (pais), pelo que não
passando a provocar, num objeto/brinquedo ou poderia estabelecer uma neurose de transfe-
num companheiro de seu grupo de iguais, a rência com o terapeuta. Afirmava que o tera-
sensação desagradável por ela experimentada. peuta deveria apenas reforçar os aspectos po-
Então, passando da passividade do fato para a sitivos do vínculo, sempre num nível de orien-
atividade do jogo, estará representando, com tação educativa, considerando, ainda, que
algum brinquedo ou companheiro, o que não em nada o brincar da criança poderia ser
pode exercer sobre a pessoa do médico. É, comparado aos sonhos ou à associação livre
portanto, na situação do brinquedo, que a do adulto.
criança procura se relacionar com o real, expe- As discrepâncias entre Melanie Klein e Anna
rimentando-o a seu modo, procurando cons- Freud e o debate dos respectivos pontos teóri-
truir e recriar essa realidade. cos perduram, de certa forma, até hoje, lem-
Através do brinquedo, a criança não só rea- bra Hinshelwood (1992), nas teorias da psica-
liza seus desejos, mas também domina a reali- nálise kleiniana e da psicologia do ego. Mas,
dade, graças ao processo de projeção dos pe- mesmo que discrepantes, ambos os posiciona-
rigos internos sobre o mundo externo. O brin- mentos ajudaram em muito na conceitualiza-

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ção e no desenvolvimento da psicoterapia in- terpretação, porque podem se romper as de-
fantil. Certamente envolvida no mesmo intui- fesas, cuja fragilidade ou rigidez ainda não
to, a conceituada psicanalista argentina Armin- conhecemos, e, como conseqüência, desper-
da Aberastury (1978) entendeu que a criança tar muita ansiedade e/ou culpa, bem como ali-
não só estabelece uma transferência positiva mentar fantasias de que seus impulsos podem
e/ou negativa com o psicoterapeuta, como ex- atacar ou destruir a relação com o psicólogo,
pressava Klein, como também é capaz de es- sentimentos estes que ficariam sem resolver,
truturar, através dos brinquedos, a represen- se a decisão for a de não acompanhar psicote-
tação de seus conflitos básicos, suas principais rapicamente a criança.
defesas e fantasias de doença e cura, deixan- Desta maneira, cabe ressaltar, como expres-
do em evidência, já nos primeiros encontros sam Efron e colegas (1978), que a hora de jogo
do acompanhamento, o seu funcionamento diagnóstica, fundamentada num referencial
mental. Aberastury sugeriu, ainda, que possi- teórico psicodinâmico, é um recurso técnico
velmente esses fenômenos surgem devido ao que o psicólogo utiliza dentro do processo psi-
temor da criança de que seu psicoterapeuta codiagnóstico, que tem começo, desenvolvi-
repita com ela a conduta negativa dos objetos mento e fim em si mesmo, operando como
originários que lhe provocaram a perturbação, unidade para o conhecimento inicial da crian-
prevalecendo agora o desejo de que o psicólo- ça, devendo interpretá-la como tal, e cujos
go assuma uma função através da qual lhe dê dados serão ou não confirmados com a testa-
condição para melhorar. gem. Entretanto, a primeira hora de jogo tera-
Aberastury evidenciou, assim, o valor diag- pêutica é apenas um elo dentro de um contex-
nóstico da entrevista lúdica, falando, pela pri- to maior, onde irão surgir novos aspectos e
meira vez, no nosso meio mais próximo, sobre modificações estruturais em função da inter-
a hora de jogo diagnóstica, estabelecendo di- venção ativa do terapeuta.
ferenças com a primeira hora de jogo terapêu- No psicodiagnóstico infantil, costuma-se
tica. entrevistar os pais, antes de ver a criança, com
Para fins diagnósticos, segundo essa auto- o objetivo de obter informações o mais abran-
ra, não há necessidade de uma caixa com ma- gentes possíveis sobre o problema e sobre
terial lúdico exclusiva para cada criança, con- como a criança é. Após as entrevistas com os
siderando que qualquer tipo de brinquedo, pais, mantém-se o primeiro contato com a
mesmo que sejam os mais simples, oferecem criança, que pode ser por meio de uma entre-
possibilidades lúdicas projetivas para o diag- vista lúdica. Nas entrevistas que foram realiza-
nóstico. Entretanto, quando se trata da primei- das com os pais, deve-se combinar que eles
ra hora de jogo de tratamento, ao finalizar a conversem com a criança a respeito do motivo
sessão, além do terapeuta estabelecer as con- pelo qual é levada ao psicólogo. Assim, esse
dições do contrato psicoterápico, deverá guar- pode ser o início do diálogo com a criança,
dar junto com a criança todo o material lúdico dentro da sala de jogo, sendo importante, en-
numa caixa, que ficará fechada e à qual só te- tão, perguntar se sabe o que está fazendo ali,
rão acesso a criança e o terapeuta. Essa caixa, porque veio ou o que os pais falaram da sua
sem dúvida, se transforma durante o tratamen- vinda ao psicólogo. Esclarecendo esse aspec-
to no símbolo do sigilo, similar ao contrato to, compreender-se-ão as fantasias da criança
verbal que se estabelece com o adulto quando a respeito do processo de avaliação, e, se a res-
se inicia o tratamento. posta for negativa, deve-se fazer um breve re-
Na entrevista lúdica, Aberastury (1978) con- lato do que foi falado com os pais, sem deta-
sidera também conveniente não interpretar, já lhes muitos profundos, mas sempre explicitan-
que ainda não temos como saber se a criança do a verdade.
será tratada ou não e, em caso de encaminha- As instruções específicas para uma entre-
mento, qual a técnica mais adequada para apli- vista lúdica consistem em oferecer à criança a
car. Então, é muito delicado arriscar uma in- oportunidade de brincar, como deseje, com

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todo o material lúdico disponível na sala, es- na como observador, mas também é ativo, na
clarecendo sobre o espaço onde poderá brin- medida em que sua atitude é atenta na com-
car, sobre o tempo disponível, sobre os papéis preensão e formulação de hipóteses sobre a
dela e do psicólogo, bem como sobre os obje- problemática do entrevistado, assim como na
tivos dessa atividade, que possibilitará conhe- ação de efetuar perguntas para esclarecer dú-
cê-la mais e, assim, poder posteriormente aju- vidas sobre a brincadeira. Ainda, dependendo
dá-la. de cada situação, o psicólogo poderá não par-
A entrevista lúdica de cada processo psico- ticipar do jogo ou brincadeira, ou poderá de-
diagnóstico é uma experiência nova, tanto para sempenhar um determinado papel, caso seja
o psicólogo como para a criança, em que se o desejo da criança (Efron, Fainberg, Kleiner et
refletirá o estabelecimento de um vínculo trans- alii, 1978).
ferencial breve. Nos brinquedos oferecidos pelo Em função das características da atividade,
psicólogo, a criança deposita parte dos senti- é mais adequado trabalhar em uma sala que
mentos, representante de distintos vínculos não seja o consultório de adultos. É mais con-
com objetos de seu mundo interno (Efron, Fa- veniente, então, realizar a atividade em uma
inberg, Kleiner et alii, 1978). Assim, muitos fe- sala preparada para brincar, ou seja, uma sala
nômenos que não seriam obtidos pela palavra fácil de limpar, razoavelmente ampla, para não
poderão ser observados através do brincar, prejudicar a liberdade de expressão, e, sempre
onde a criança, segundo Logan (1991), proje- que possível, próxima a um banheiro e/ou co-
tará suas questões-chave, tanto no aconteci- zinha, onde a criança possa ter acesso fácil à
do do jogo quanto na maneira como usa os água, caso deseje brincar com ela, assim como
materiais e os brinquedos. possa limpar a sujeira de material de tinta, ca-
As crianças, de maneira geral, agem, falam netinhas, argila e semelhantes.
e/ou brincam de acordo com suas possibilida- O material lúdico deve ser apresentado sem
des maturativas, emocionais, cognitivas e de uma ordem aparente, em caixas e/ou armários,
socialização, e é pela sua ação (ativa ou passi- sempre com as tampas ou portas abertas, de-
va) que elas exprimem suas possibilidades, des- vendo ser adequado para atender crianças de
cobrindo-se a si mesmas e revelando-se aos diferentes idades, sexo e interesses.
outros. Em função disso, algumas aceitam ra- Procurando representar os objetos mais
pidamente acompanhar o psicólogo até a sala comuns do mundo real circundante, os brin-
de entrevistas, começando facilmente a brin- quedos mais usados são: papel, lápis preto e
car, conversar e interagir com o interlocutor. colorido, canetinhas, borracha, apontador, ré-
Outras podem resistir a se separarem dos pais, gua, cola, fita adesiva, corda, tesoura, massa
ou ficam na sala de entrevista muito inibidas, para modelar, argila, tinta, pincéis, bonecos e
tanto na ação como na fala, tornando-se ne- famílias de bonecos, casa de bonecos, mario-
cessário que o psicólogo faça algum assinala- netes, família de animais selvagens e domésti-
mento, com a finalidade de ajudá-las a lidar cos, blocos de construção, carros, caminhões,
com a angústia. Existem também ocasiões em aviões, bola, armas de brinquedo, soldados,
que a criança, devido à sua problemática emo- super-heróis, cowboys e índios, equipamentos
cional, rompe o enquadramento, exigindo por de cozinha, de enfermagem e de ferramentas
parte do entrevistador a colocação de limites. domésticas, quebra-cabeças, telefone, panos,
A postura do psicólogo deve ser, em todos os jogos de competição e quadro-negro.
casos, a de estimular a interação, conduzindo Analisar e interpretar uma hora de jogo
a situação de maneira tal que possa deixar diagnóstica não é uma tarefa fácil. Requer que
transparecer a compreensão do momento, res- o profissional esteja bem familiarizado com o
peitando e acolhendo a criança, de forma que material teórico de cunho analítico sobre a base
esta se sinta segura e aceita. fundamental do marco teórico-técnico forne-
Em parte, o papel do psicólogo na entrevis- cido por Freud, Melanie Klein e Arminda Abe-
ta lúdica diagnóstica é passivo, porque funcio- rastury, sendo, então, a linha central de inter-

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pretação a análise das fantasias inconscientes um autoconhecimento para o conhecimento e
a partir do jogo. exploração do mundo que o cerca. O surgimen-
Kornblit (1978) salienta que uma análise to de novas etapas indica aumento da vivência
detalhada da hora de jogo permite: “a) a con- e do conhecimento da criança, mostrando a
ceitualização do conflito atual do paciente; b) passagem de seu conhecimento corporal para
coloca em evidência seus principais mecanis- o ambiental, até o início da socialização e aqui-
mos de defesa e ansiedades; c) avalia o tipo de sição de noções simbólicas.
rapport que pode estabelecer a criança com Os brinquedos e jogos, então, devem ser
um possível terapeuta e o tipo de ansiedade analisados do ponto de vista evolutivo, regis-
que contratransferencialmente pode despertar trando cada uma das manifestações de con-
nele; d) põe de manifesto a fantasia de doen- duta lúdica, classificando-as conforme as ida-
ças e cura” (p.225). Por outro lado, a autora des correspondentes dentro de algum dos re-
considera também importante compreender a ferenciais da psicologia do desenvolvimento.
hora de jogo como uma história argumental Erik Erikson, citado por Melvin e Wolkmar
da criança, construída em resposta a uma si- (1993), por exemplo, descreve três fases suces-
tuação de estímulo, avaliando, então, o modo sivas na evolução dos brinquedos das crianças:
como ela se inclui em dita situação. Isso possi- auto-esfera, microesfera e macroesfera. Na
bilita considerar aspectos ou indicadores por auto-esfera, o brinquedo da criança é centrali-
ela chamados de “formais”, que, muitas vezes, zado na exploração do próprio corpo e/ou nos
ficavam esquecidos ou abafados pela princi- objetos que estão imediatamente a seu alcan-
pal preocupação na inferência de conteúdos ce; na microesfera, a criança expressa suas fan-
inconscientes. Alguns desses indicadores for- tasias através de pequenos brinquedos repre-
mais seriam: a maneira como a criança se apro- sentativos; e, na macroesfera, por incorporar a
xima dos brinquedos, a sua atitude no início e vivência social, passa, através de suas relações,
no final da hora de jogo, a sua localização no a dividir o mundo com os outros.
consultório, a sua atitude corporal e o manejo Por outro lado, Piaget, conforme Ajuriaguer-
do espaço. ra (1983), também propõe uma classificação
Efron e colegas (1978) lembram que não que leva em conta, ao mesmo tempo, a estru-
existe um roteiro padronizado para analisar tura do jogo e a evolução das funções cogniti-
esse método de avaliação. Por isso, propõem vas da criança. Conseqüentemente, fala de brin-
um guia de oito indicadores que possibilitam quedos e jogo de exercício (até os 2 anos), em
estabelecer critérios mais sistematizados e co- que a conduta lúdica é destinada exclusivamen-
erentes para orientar a análise com fins diag- te para a obtenção de prazer; de brinquedos e
nósticos e prognósticos, em especial, para a jogos simbólicos (entre 2 e 8 anos), em que a
classificação do nível de funcionamento da criança desenvolve a capacidade de represen-
personalidade, sempre dentro de um entendi- tar uma realidade que não está presente no
mento dinâmico, estrutural e econômico. Os seu campo perceptivo; e, por último, de brin-
indicadores são: escolha de brinquedos e jo- quedos e jogo de regras (a partir dos 8 anos),
gos, modalidade do brinquedo, motricidade, que são uma imitação das atividades dos adul-
personificação, criatividade, capacidade simbó- tos e que pertencem ao domínio do código
lica, tolerância à frustração e adequação à rea- social.
lidade. Sugere-se, pois, que cada uma das condu-
A escolha de brinquedos e jogos está rela- tas lúdicas, identificadas de acordo com a cro-
cionada com o momento evolutivo emocional nologia de cada fase evolutiva corresponden-
e intelectual em que a criança se encontra. Ao te, seja, ainda, comparada, dentro do referen-
nascer, o bebê é um ser passivo, que fica a cial psicanalítico, com as fases de evolução da
maior parte do tempo deitado. Mas, à medida libido (oral, anal, fálica e genital), o que pro-
que se desenvolve, passa a sustentar a cabeça, porcionará uma compreensão mais abrangen-
a sentar-se e assim por diante, passando de te do funcionamento infantil.

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Cada criança, segundo Efron e colegas nha de bonecas, passando o resto do tempo
(1978), estrutura uma modalidade de brinque- organizando os móveis de forma indecisa,
do que lhe é própria, baseada nas formas de mudando-os tantas vezes de lugar que o tem-
manifestação simbólica de seu ego e de seus po da entrevista se esgota.
traços de funcionamento psíquico. Entre as A ação repetitiva de Renata, a sua excessi-
principais modalidades, temos a plasticidade, va necessidade de ordem e perfeccionismo,
a rigidez, a estereotipia e a perseveração. certamente cumpre a finalidade de afastar ou
A plasticidade pode ser observada quando conter algum perigo ou ameaça imaginária,
a criança consegue expressar suas fantasias deixando transparecer uma modalidade de
através de brincadeiras organizadas, com se- brincar rígida, não adaptativa, própria de crian-
qüência lógica, utilizando brinquedos ou ob- ças com componentes neuróticos.
jetos que podem modificar a sua função de Por outro lado, os jogos estereotipados e
acordo com a sua necessidade de expressão, perseverantes são a modalidade mais patoló-
mostrando uma variedade de recursos egóicos gica do funcionamento egóico, típica de crian-
e uma significativa riqueza interna, sem neces- ças com funcionamento psicótico, como é o
sidade de recorrer a mecanismos de controle caso de Antônio, que é um menino de 4 anos,
excessivos. encaminhado para avaliação psicológica pelo
Entretanto, quando a criança fixa certos neurologista para ajudar na classificação diag-
comportamentos ou ações lúdicas de maneira nóstica. Embora tenha aceitado facilmente se
rígida para expressar uma mesma fantasia, separar dos pais para entrar na sala de entre-
mostra grandes dificuldades para aproveitar e/ vista, não realizou nenhum intercâmbio verbal
ou modificar os atributos dos brinquedos e um ou contato visual com o examinador, evitando
ego pobre em recursos frente à ansiedade, re- qualquer tentativa de aproximação por parte
sultando na escolha de brinquedos e jogos deste. Não atendeu a qualquer solicitação di-
monótonos e pouco criativos, como, por exem- reta, desprezando blocos, carrinhos e outros
plo, é o caso de Renata. brinquedos oferecidos, usando apenas um
Renata é uma bonita menina de 7 anos e 6 boneco para bater na sua própria cabeça. Pas-
meses, muito bem arrumada, mostrando sinais sou a maior parte do tempo ora correndo pela
evidentes de cuidados com sua aparência, sala, ora andando em círculos, ora andando
muito perfumada e com uma exigente combi- na ponta dos pés, balançando as mãos e mo-
nação de cores, desde a tiara nos cabelos até vendo os seus dedos, indiferente ao ambiente
os sapatos. Seus pais a trouxeram para avalia- onde estava inserido.
ção por estarem achando-a muito angustiada O comportamento de Antônio, na entrevis-
com suas atitudes repetitivas, contando que a ta lúdica, deixa clara a falta de resposta afetiva
menina não consegue brincar, arrumar seu e a presença de maneirismos e movimentos
quarto ou concluir seus temas escolares, pois estereotipados, assim como de ações auto-
perde muito tempo na tentativa de organizar agressivas, evidenciando uma desconexão com
a atividade proposta. Durante a entrevista lú- o mundo externo, tendo como única finalida-
dica, mostrou-se insegura, pedindo licença para de a descarga de impulsos do id sem fins co-
levantar, sentar ou pegar os brinquedos e mui- municacionais.
to preocupada em não sujar ou amassar sua O desenvolvimento motor é, segundo Mel-
roupa. Em vez de brincar, passou a maior par- vin e Volkmar (1973), uma seqüência de está-
te do tempo arrumando os brinquedos que se dios ordenados, que inicia com o controle pos-
encontravam na prateleira de um armário, pro- tural do pescoço, por volta da terceira ou quar-
curando deixá-los organizados, como se fosse ta semana de vida, até o caminhar indepen-
a exposição de uma vitrine, com a justificativa dente, ao redor dos 18 meses. Aos poucos, as
de ser esta a forma mais fácil de enxergá-los, habilidades motoras tornam-se cada vez mais
para depois poder decidir com quais deles brin- sofisticadas, tornando-se possíveis várias ha-
caria. Finalmente, decide brincar com a casi- bilidades de autocuidado (vestir, desvestir-se,

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pentear-se, comer com utensílios, etc.), assim sintonia com a realidade de seu mundo inter-
como habilidades de parar num pé só, subir e no. A análise desse indicador permitirá com-
descer escadas, pular e dançar. As habilidades preender o equilíbrio existente ou não entre o
percepto-motoras também se aperfeiçoam, superego, o id e a realidade, verificando tam-
sendo que, em torno dos 2 anos, a criança pode bém a capacidade de fantasia na definição de
copiar um círculo, aos 3 anos pode copiar uma determinados papéis, que, com o auxílio da
cruz, aos 5 anos é capaz de desenhar um qua- mágica lúdica, possibilitará, pelo menos por um
drado e, aos 7, um losango. No período entre período limitado, a satisfação dos desejos mais
os 6 e 11 anos, tanto os aspectos quantitati- grandiosos que seu eu consciente, em outras
vos como os qualitativos se consolidam, sen- circunstâncias, não lhe permitiria.
do que partes do desenvolvimento anterior se Marcelo é um menino de 4 anos e 11 me-
organizam subitamente, passando a funcionar ses, que foi trazido para avaliação psicodiag-
de forma fluente e integrada, até que, perto nóstica, por dificuldades para se separar da
dos 9 anos, as habilidade motoras se tornam mãe, tanto em casa como na escola. Na entre-
automáticas e estabelecidas. vista lúdica, desenvolveu uma brincadeira em
Dessa maneira, parece importante que o psi- que ele próprio assumiu o papel de um “gi-
cólogo que conduz a hora de jogo diagnóstica gante”. Um gigante muito forte, corajoso, bra-
tenha, além dos conhecimentos essenciais da vo e malvado, que entra na casa da família das
psicologia evolutiva, conhecimentos básicos de bonecas, à noite, quando todos dormem, para
fisiologia, neurologia e psicomotricidade, que derrubar, esconder e trocar todos os objetos
lhe possibilitem identificar e descrever as pau- de lugar, deixando, como ele mesmo expressa,
tas motoras da criança que está avaliando, para “Tudo bagunçado! Tudo espalhado!”. Expres-
verificar a adequação destas à etapa evolutiva sa claramente satisfação, quando espalha os
em que a criança se encontra. Em casos espe- pequenos móveis e os diversos bonecos, mis-
cíficos de imaturidade ou dificuldades moto- turando-os com os blocos lógicos, carrinhos e
ras, com interferência na aprendizagem esco- demais brinquedos, exclamando: “O temporal
lar, torna-se conveniente a solicitação de ava- do gigante!”. Frente à observação do psicólo-
liação complementar psicopedagógica ou neu- go sobre a proximidade do final da entrevista,
rológica, que auxiliam tanto no diagnóstico Marcelo rapidamente olha ao seu redor e jun-
principal como no diferencial. ta alguns brinquedos, montando, com parte
A avaliação da motricidade é, pois, de es- dos móveis e objetos da cozinha, uma mesa,
pecial importância, uma vez que o manejo ade- com xícaras, pratos, colher, copos e jarras,
quado das possibilidades motoras, no que diz mencionando: “O gigante sumiu. Ele fez uma
respeito à integração do esquema corporal, mágica. Olha o pão, olha a xícara. Eles vão acor-
organização da lateralidade e estruturação es- dar. O pai ficará bravo. A mãe ‘junta’ o filho,
paço-temporal, possibilitará à criança o domí- mas tem café na mesa, todos vão lanchar. Tia,
nio dos objetos do mundo externo no campo foi só uma brincadeira, agora vou arrumar”.
social, escolar e emocional, satisfazendo suas Marcelo certamente está tendo dificulda-
principais necessidades com autonomia, en- des de enfrentar as frustrações e a ansiedade
quanto dificuldades nesse âmbito provocarão típica de sua faixa etária, que surgem com seu
certamente limitações e frustrações. inevitável crescimento e exigência por parte dos
A personificação é a capacidade da criança pais de alcançar mais autonomia, o que lhe
para assumir e desempenhar papéis no brin- deve provocar insegurança e desejos de man-
quedo. É um elemento comum em todos os ter o aconchego materno. Ao se envolver rapi-
períodos evolutivos, através do qual as crian- damente com a tarefa proposta de “brincar
ças transformam seus brinquedos ou a si mes- como o desejasse”, liberou a sua onipotência,
mas em personagens imaginários ou não, de identificando-se com uma figura poderosa, “o
acordo com sua faixa etária, expressando afe- gigante”, para poder fazer tudo aquilo que as
tos, tipos de relações e conflitos, sempre em figuras de autoridade não aprovariam, como

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forma de denunciar seu descontentamento e Com o aprendizado escolar, aparecem no-
castigá-los. Extravasa, assim, seus conteúdos vos jogos, em que se combinam a capacidade
agressivos de ataque e domínio, nem que seja intelectual e o azar, sendo o período da com-
quando a autoridade está dormindo, ou quan- petição e de partilha de papéis com seu grupo
do o superego está mais permissivo, deixando de iguais. Mas, em todos os períodos evoluti-
o ego, dominado pelo id, satisfazer desejos e vos, o simbolismo habilita a criança a transfe-
impulsos. Mas, quando a realidade se impõe, rir interesses, fantasias, ansiedades, culpa, ten-
novamente de forma onipotente, faz uma má- dências destrutivas para outros objetos e/ou
gica para amenizar o caos instalado, com ob- pessoas, revelando preocupações e ansiedades,
jetos e alimentos reparadores, como uma for- aspirações e desejos, na tentativa de obter, atra-
ma de aplacar a culpa provocada pelos seus vés da ação lúdica, o domínio do mundo exter-
impulsos agressivos. no, e, como indicador avaliativo, possibilita
Através dessa personificação, houve clara- compreender também a capacidade expressi-
mente uma regressão a serviço do ego, que, por va da criança e a qualidade do conflito.
meio do relaxamento dos controles internos, fa- Tentando exemplificar, lembramos o caso de
cilitou ao Marcelo a projeção de fantasias e de- João, de 6 anos de idade, que apresenta medo
sejos, desprendendo-se transitoriamente das rí- de dormir sozinho e do escuro, necessitando
gidas regras do processo secundário, represen- ainda dormir com seus pais. Desenvolve, na
tando simbolicamente conteúdos internos. entrevista lúdica, a seguinte brincadeira e diá-
Criar é inventar ou transformar a partir da logo:
própria capacidade. Quando a criança constrói Pega uma caixa que contém madeiras de
um novo objeto ou transforma um já existen- diversas formas e tamanhos e monta o que ele
te, mostra a sua capacidade de relacionar ele- chama de um “dormitório”. Coloca dentro do
mentos novos no brinquedo a partir da reor- cercado de madeiras uma cama de casal, duas
ganização de experiências anteriores. Assim, a mesinhas de cabeceira e dois abajures. Procu-
criatividade é um processo mental de manipu- ra, noutra caixa, os bonecos da família e, en-
lação do ambiente do qual resultam novas quanto isso, fala:
idéias, formas e relações. J – “Este é o pai (boneco maior). Esta é a
Quando a criança utiliza uma variedade de mãe (mostrando uma boneca). Sabes? Estes
elementos para se expressar no brinquedo, está pais vão ter um filho!”
exercitando a sua capacidade simbólica. O jogo E – “É mesmo?”
é uma forma de expressão da capacidade sim- J – “Claro, tu não reparou?”
bólica, e a vida de fantasia se torna mais ob- E – “E tu, como reparaste?”
servável à medida que a criança se torna apta J – “Olha, fica quieta, que a criança precisa
para o jogo simbólico. dormir (fala em voz baixa). Ele vai entrar na
Durante o primeiro ano de vida, por exem- cama deles. Ele agora está quietinho entre os
plo, o brinquedo consiste simplesmente na dois (coloca um boneco pequeno entre os pais
manipulação de objetos; depois desse perío- e cobre a cama de casal com um pano). Psiu!,
do, passa a ser usado funcionalmente, numa Silêncio! Vou pegar outro brinquedo. Psiu! Ele
ação repetitiva, e, quando o jogo de faz-de- está dormindo (João pega do armário um ja-
conta aparece, a criança começa a usar vários caré e, mexendo um pouco ansioso nos outros
brinquedos simbolicamente, visando a objetos brinquedos, pega também um pequeno bone-
que representam outros objetos. Desta manei- co, que ele denomina de ‘diabo’). Olha! O que
ra, uma folha de papel pode se tornar um avião, vai acontecer! Este (diabo) está tentando en-
um pau pode se transformar em cavalo, uma trar no quarto.”
panela e uma colher, no melhor tambor, e o E – “E daí?”
nenê caçula da família pode ser afogado numa J – “Quer pegar a mãe do garoto, quer tirá-
piscina e, depois, levado a passear pelo amis- la da cama, mas isso não vai acontecer por-
toso e simpático irmão. que.... olha! O jacaré lhe morde a perna (faz a

PSICODIAGNÓSTICO – V 103
encenação) e o arrasta para fora do quarto e o projeta e desloca os impulsos agressivos para
fecha num cercado. Quase perdeu a perna!” o ambiente. Simbolicamente, transforma-se em
João monta um cercadinho com as outras diabo para ter coragem de roubar a mãe do
madeiras, sempre fazendo como se fosse o ja- pai, mas a fantasia de culpa e a ansiedade de
caré que estivesse montando o cercado, e co- castração facilitam o deslocamento do poder
loca dentro deste o diabo. Diz então: “Deu! da lei do pai para o jacaré, estabelecendo a
Tudo em paz”. ordem através do castigo.
João expressou, de forma inteligente, con- Por último, a tolerância à frustração e a
teúdos conflitivos através de elementos sim- adequação à realidade são indicadores que têm
bólicos adequados à sua idade evolutiva, dei- relação com a aceitação ou não das instruções
xando transparecer o estádio psicossexual que e enquadramento da hora de jogo, assim como
atravessa. Parece ser uma criança dependente, da aceitação dos limites, do próprio papel e
com traços fóbicos, que teme ser abandonada do papel do outro, da separação dos pais, do
ou rejeitada, especialmente pela figura da mãe, tempo de início e fim, do resultado dos jogos,
o que, de certa forma, se explica pela dinâmi- etc. Tudo isso está intimamente relacionado
ca da fase edípica que atravessa. A brincadeira com as possibilidades egóicas e com o princí-
organizada por ele deixa em evidência a sua pio de prazer e realidade.
preocupação com a relação afetivo-sexual dos Como se pode observar, a entrevista lúdica
pais. Sente-se excluído e vivencia a impossibi- diagnóstica é uma técnica de avaliação clínica
lidade de participar dessa união, através da muito rica, que permite compreender a natu-
fantasia da cena primária. Invadido pelos sen- reza do pensamento infantil, fornecendo infor-
timentos de ansiedade, ciúme e frustração fren- mações significativas do ponto de vista evolu-
te aos rivais (pai e novo filho), precisa se de- tivo, psicopatológico e psicodinâmico, possi-
fender com uma certa dose de atuação, inva- bilitando formular conclusões diagnósticas,
dindo a cama dos pais, mas imediatamente prognósticas e indicações terapêuticas.

104 JUREMA ALCIDES CUNHA