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Balanças, barômetros e outras analogias: as compreensões da dinâmica econômica por Babson e 

Fisher 
Ariel Kessel Akerman e Matheus Genaro Dantas Xavier 
 
Introdução 
Quem  eram  os  “previsores”1  econômicos  do  início  do  século  passado?  É  procurando  responder  a 
essa  pergunta  que  Walter  Friedman  (2014) nos apresenta, entre outras, as carreiras de Irving Fisher (1867 
forecaster ​
­  1947)  e Roger Babson (1875 ­  1967), dois  americanos ligados à profissão de ​ de formas muito 
distintas:  enquanto  o  primeiro  seria  um  economista  de  grande  importância  acadêmica  que,  com  uma 
elaboração  teórica,  estatística  e  analiticamente  consistente  e  adequada  à  ciência de seu tempo (Friedman, 
forecaster​
2013,  p.  51),  também  dedicou   parte  da  carreira  ao  trabalho  como   ​ ,  o segundo seria um homem 
de  negócios  que  construiu  um  método  “pseudo­científico”  (Friedman,  2013,  p.  30)  de  fazer  previsões, 
calcado em análises estatísticas e gráficas, e, com ele, fez fortuna. 
É  devido  a  essa  fundamental  distinção  entre  esses  dois  autores  e  à  curiosidade   por ela despertada 
que,  no  presente  trabalho,  procuramos  discutir  conjuntamente  as  formas  com  que  compreendiam  a 
dinâmica  econômica.  Com  isso,  esperamos  uma  maior  profundidade  não  nas  questões  já  cobertas  por 
Friedman  a  respeito  da  capacidade  fazer  previsões,  mas  sim   em  algo  anterior2 :  a  forma  com  que 
pensavam  a  economia,  com  que  sistema  concebiam  o  mundo  e  de  que  instrumentos  dispunham  para 
raciocinar3. 
Para  tanto,  fundamentaremos  nossa  análise  na  leitura  das  seguintes  obras:  de  Fisher,  escolhemos 
The  Purschasing  Power  of Money​
seu  clássico  ​ , publicado originalmente em 1911 com reedição em  1922,  
Business  Barometers  and  Investment​
além  de  um  breve  artigo  publicado  em  1913;  de  Babson  tomamos  ​ , 
cuja  primeira  edição  data  1940.  A  escolha  por  tais  obras  foi  dada  na  medida  em  que,  ainda  que  não 
sintetizem  minimamente  toda  a  produção  de  seus  autores  (ambos  escreveram  muito  ao  longo  de  suas 
vidas)  nem  sejam  “obras  teóricas”,  permitem  que  nos  aproximemos  do  que  pensavam,  de  quais  forças 
seriam  as  mais  relevantes  nos  movimentos  econômicos  e  de  como  apreender  e  representar  as  pressões 
envolvidas nas variações da atividade dos negócios. 
Com  isso  em  vista,  à  seguir  teremos  uma  seção  em  que  esmiuçamos  a  compreensão  de  Fisher, 
outra  em  que  nos  voltamos  à   de  Babson,  uma  em  que  tratamos  de  compará­los  mais  atentamente  e,  em 
seguida, uma conclusão. 

1
 Usaremos essa palavra como tradução do termo ​forecaster​

2
 Ainda que nem um pouco distante, é certo. 
3
 Em especial, as analogias. Conforme Friedman (2014) explicita, as analogias com a física eram, para ambos os 
autores, um recurso de grande valia. 
Fisher e suas analogias: 
O  livro  de  Fisher  aqui  tomado  para  discussão  é  uma  tentativa  de  reconstrução  da  “velha  teoria 
quantitativa  da  moeda”  (Fisher,  1963  [1922],  p.  viii),  de  forma  a  entender   como  a  quantidade  de  papel 
moeda  em  circulação,  sua  velocidade,  o  volume  de  depósitos  bancários,  sua velocidade de circulação e o 
volume  total  de  comércio  estariam  relacionados.  Para  ele,  tratar  dessas  cinco  variáveis  deveria  ser 
reconhecido  como  “​
an  exact  science,  capable  of  precise  formulation,   demonstration,  and  statistical 
verification​
” (Ibid., p. viii), e é esse o tom da análise por ele elaborada.  
Partindo  de  uma  série  de  definições  e  princípios  claros  em  relação  à  matéria  com  a  qual  está 
lidando,  Fisher  toma  como  pedra­de­toque  de  sua  elaboração  da  equação  quantitativa  da  moeda,  aqui 
escrita  como  M .V + M ′.V ′ = Σ p.q  = P .Q 4 .  Com  essa  identidade  clara,  para  ele  óbvia 5,   entre  fluxos 
monetários  e  o  consequente  equilíbrio  entre  os  dois  lados  da  equação,  o  autor   apresenta  ao  leitor  uma 
interessante  representação  de  sua  “lei”  –  posteriormente  reproduzida  em  seu  artigo  de  1913  –  na  qual  as 
quantidades são os pesos de uma balança e as distâncias ao polo são as velocidades e o nível de preços. 

 
Representação da equação para os anos de 1896 a 1898. Fisher, 1963 [1922], p 307. 
 
Essa  representação física de sua equação, que ocupa um  espaço bastante relevante na apresentação 
de  sua  leitura  do  funcionamento  da  economia,  poderia  deixar   patente  a  proximidade  –  quando  não 
identidade  –  entre  leis  físicas  (no  caso,  questões  relacionadas  ao  equilíbrio  em  torque)  e  econômicas. 
Entretanto,  tal  percepção  não  procede.  No  argumento  de  Fisher,  todas  as  definições  têm  como 
fundamento  uma  leitura  estritamente  econômica.  Conforme  veremos,  o  entendimento  das  dinâmicas  do 
ajuste  de  preços,  questão  fundamental  nessa  obra  que  se  refere  ao  poder  de compra da moeda, tem como 

4
 Aqui, M e M’ seriam o papel moeda em circulação e os depósitos bancários, V e V’ seriam suas velocidades, p e q 
seriam o preço e a quantidade de cada produto, P e Q seriam o nível de preços da economia e a quantidade 
produzida. Em outra formulação, a equação seria também igual a ​ P.T, sendo que​
 T seria o volume de comércio. 
Todas essas variáveis diriam respeito a um determinado período. 
5
Sobre a obviedade dessa formulação, afirma: “​
 ​ To throw away contemptuously the equation of exchange because it 
is so obviously true is to neglect the chance to formulate for economic science some of the most important and 
exact laws of which it is capable​ ” (Fisher, 1963 [1922],  p. 157) 
origem  exclusiva  os  princípios  por  ele apresentados, além de séries de causações econômicas. Nesse caso 
específico  das  balanças,  podemos,  portanto,  sem  correr  o  risco  de   imprecisão,  afirmar  que  essas  não 
passam  de  uma  analogia  heurística.  O  mesmo  seria  o  caso  de  sua  explicação  da  lei  de  Gresham6 , 
discutindo  o  impacto  de  sistemas  monetários  com  mais  de  uma  moeda  no  poder  de  compra  do  dinheiro,  
na  qual  faz  uso  de   um  curioso diagrama em que constam fluxos de líquidos em recipientes distintos, cada 
um deles representando uma moeda. 

 
Fisher, 1963 [1922], p. 116. 
 
Os  recipientes  nas  laterais  de  cada  imagem  representam  os  estoques  de  ouro  e  prata  em  barras, 
enquanto  o  recipiente  central  é  a  moeda  cunhada  em  circulação,  sendo  a  distância  do  topo  ao   nível   da 
água  correspondente  ao  poder  de  compra  da  moeda.  Também  estão  representadas  as  perdas  de 
“vazamentos”  (por  destruição  de  moeda  por  exemplo)  em  cada  recipiente. A imagem à direita representa 
a  entrada  do  bimetalismo  no  sistema,  aumentando  a  moeda  em  prata  em  circulação  ao mesmo tempo em 
que  a  moeda em ouro é “expulsa”, enchendo o reservatório da esquerda (até alcançar o equilíbrio do nível 
da água entre os vasos comunicantes na linha divisória representada). 
Mais  uma  vez,  percebemos  que  o  papel  que  esse  tipo  de  representação  análoga  ao  universo  da 
física  é,  antes  de  qualquer  outra  interpretação  possível,  um  “mero”  recurso  expositivo.  Como ele mesmo 
afirma, 
It need scarcely be said that our mechanical diagram is intended merely to give a picture 
of some of the chief variables involved in the problem under discussion. It does not of 
itself constitute an argument, or add any new element ; nor should one pretend that it 
includes explicitly all the factors which need to be considered. But it does enable us to 
grasp the chief factors involved in determining the purchasing power of money. It enables 
us to observe and trace the following important variations and their effects.​
 (Fisher, 1963 
[1922], p. 108) 

6
A Lei de Gresham pode ser elaborada como “uma moeda ruim expulsa uma moeda boa do mercado”. Esse 
movimento aconteceria devido a diferenças entre os preços de mercado e os legalmente estabelecidos em um 
padrão bimetálico, por exemplo, e era um tema de preocupação enquanto vigia o padrão­ouro, no século XIX e 
início do XX (Eichengreen, 2008, p. 8­9). 
 
Dessa  forma,  o  entendimento   da  economia  deveria  passar  ao  largo  desse  tipo  de  esquema 
heurístico, como de fato o faz. Em sua explicação do funcionamento dos ciclos seguidos de uma expansão 
da  quantidade  de  moeda  –  questão  fundamental  a  ser explicada em  sua obra, em especial pelo seu caráter 
caro  à  possibilidade  de  se   fazer  previsões  –,  por  exemplo  Fisher  (Ibid,  pp.  58­60)  propõe   dedutivamente 
uma  cadeia  causal7 ,  a  partir  da  série  de  princípios  por  ele   propostos.  Entretanto,  sua  argumentação  vai 
além  de  uma  mera  enunciação  de  leis:  há  um  esforço  bastante  relevante  de  verificação  empírica  de  sua 
equação  quantitativa  da  moeda  e  de  outras  relações  e   dinâmicas  propostas.  Esse  esforço  empírico  é 
baseado  principalmente  na  leitura  não  apenas  de  séries  de  estatísticas  referentes  aos  EUA (Ibid., p. 264), 
como  também  se  sustenta  sobre  a  própria  história  econômica  do  país  e  do  mundo,  no  sentido  de  dar 
suporte  factual  a  sua  teoria.  Nessa  empreitada  estão,  por  exemplo,  a  análise  de  uma  operação  da  lei  de 
Gresham  na  França  oitocentista  (Ibid.,  p.  133­135)  e,  com  grande  destaque,  a  reflexão  sobre  a  emissão 
greenbacks,  ​
das  ​ apresentada  ​
para  dar  suporte  à  discussão  sobre  quais  seriam  os  melhores  sistemas 
monetários  (Ibid.,  p.  140­159).  Toda  essa  observação  empírica  e  histórico­estatística,  cabe  mencionar,  é 
complementada  por  uma  longa  discussão  metodológica  feita  nos  apêndices,  sobre   quais  os   melhores 
números­índice,  como auferir e mensurar mudanças nos níveis de preços, como coletar e apresentar dados 
e assim por diante.  
É  claro,  portanto,  que  a  leitura  de  Fisher  do  mundo  econômico  é  baseada  em  uma  interpretação 
científica,   tal   como  seria  feita  a  física.  As  leis  que  propõe,  testa e usa para tentar apanhar os movimentos 
do  presente  e do futuro,  assim, teriam o mesmo caráter que as leis que regem o comportamento dos gases, 
como ele mesmo afirma ao comparar sua lei quantitativa da moeda com a lei de Boyle: 
“But,  to a candid mind, the quantity theory, in the sense in which we  have taken it, ought 
to  appear  sufficiently  secure  without  such  checking.  Its  best  proof  must  always  be  a 
priori, not in the sense which applies to  the  proof of abstract  mathematical propositions, 
but in the sense which applies to the proof of Boyle's law. (...) 
Fortunately, just as Boyle's law has been established both deductively and inductively, we 
may  now  assert  that  the  equation  of  exchange  has  been  sufficiently  established  both 
deductively and inductively.​
” (Fisher, 1963[1922], p. 297­298) 
Seu raciocínio, assim, lhe parece completo. Há elementos suficientes em sua análise, estabelecidos 
tanto  pelo  raciocínio   hipotético­dedutivo  quanto  pelo  tratamento  estatístico,  que  lhe  permitem  a 
compreensão  de   certos  fenômenos  ligados  ao  poder  de  compra  da  moeda,  além  de  sua  consequência 

7
 Que, sucintamente, consiste em aumento de preços, aumento da taxa de juros em menor magnitude, aumento dos 
lucros empresarias, aumento do volume de empréstimos, aumento dos depósitos maior do que o aumento da 
quantidade de moeda, aumento dos preços e assim por diante repetidamente, até que a taxa de juros atinja sua “cifra 
normal”. 
fundamental:  a   capacidade  de fazer previsões a partir de resultados presentes8 . Sua retórica, diz ele, é a da 
ciência,  com  raciocínio  cristalino  logicamente  apresentado,  leis  de  movimento  definidas  e  clareza 
conceitual. 
 
Babson e seus barômetros:  
A  obra  de  Babson  aqui  analisada  em  nada  se descola do espaço ocupado por seu autor como guru 
dos  negócios:  é  um  livro  direcionado  àqueles  que  procuram  investir  “corretamente”  e  versa  sobre  um 
grande  número  de   tópicos  relacionados  a  esse  assunto,  do  mercado  de   títulos  à boa economia doméstica. 
Entretanto,  o  autor   busca,  também,  apresentar  seu  entendimento  da  dinâmica  dos  negócios,  de  forma  a 
melhor aconselhar seus leitores acerca do que fazer. 
Para  Babson,  o  fundamental  seria  a  compreensão  do  movimento  em  grande  medida  cíclico  da 
economia.  Essa  ideia  não  adviria  de  uma  possível  ligação  entre  os  ciclos  econômico  e  solar,  como  teria 
sido  o  caso  de  Jevons,  mas  sim  da  percepção  de  que  a  terceira  lei  de  Newton  –  que  pode  ser  enunciada 
como  “para  cada  força  de  ação  há  uma  força  de  reação  igual  e  oposta”  –  poderia  ser usada para explicar 
um  grande  número  de  fenômenos:  do  ciclo  de  sono  do  ser  humano  (Babson,  1952,  p.  24)  aos 
ensinamentos  de  Jesus  (Ibid.,  p.  25­26),  passando  pela  Revolução  Francesa.  E  essa  aplicação  –  é 
importante  explicitarmos  –  significaria  que,  para  uma  imensa  gama   de  comportamentos  dinâmicos, 
haveria  uma  força  (ou  pressão)  que  invariavelmente  empurraria  o  movimento  no  sentido  contrário9 . 
Exemplo  disso  seriam  momentos  de  expansão  da  economia,  que  exigiriam  depressão  subsequente,  de 
forma  que  o  produtos  das  durações  pelas  intensidades  desses  períodos  levassem  a  resultados  opostos. 
Como  ele  mesmo  coloca,  após  explicitar  que  as  origens  dos  ciclos  de  diferentes  dimensões  são 
a​
determinadas  em  grande  medida  por  características  psicológicas  dos  seres  humanos,  “[​]  period  of 
overexpansion  produces  within  itself  a  poison  which  destroys  the  prosperity. Excessive prosperity makes 
men  extravagant  and  careless”  (Ibid.,   p.   31).  Seria  a  mudança  no  comportamento  humano  advinda  da 
downturn ​
riqueza que traria o ​ do ciclo. 
É  interessante  notar,  de  toda  forma,  que,  ainda  que  de  fato  mencione  quais  seriam  as  origens 
últimas  de  determinadas   flutuações,  há,  diferentemente  de  Fisher,  pouca  dedicação  ao  entendimento  do 
encadeamento   causal  desses  momentos10.  Em  uma  das  raras  digressões  em  que   isso  é   feito,  Babson 

8
 Como faz no artigo de 1913, analisando as estatísticas dos anos anteriores, trabalhando sobre elas e prevendo 
tendências aquele ano. 
9
 É curioso notar a forma com que o autor entende essa Lei de Newton. Enquanto o princípio físico diz respeito a 
forças opostas em um mesmo instante do tempo, Babson vê mais uma sucessão alternada de forças, tais como as 
que atuam em um pêndulo em movimento harmônico simples, por exemplo. Nesse sentido, Babson estaria 
apelando de forma imprecisa à física para fundamentar seu raciocínio. 
10
Muito menos em termos de “variáveis econômicas” ​
 ​ stricto sensu. 
relaciona  a  fase  de  expansão  do  ciclo  a  aumento  do  consumo  e  dos   preços,  bem  como da ostentação. Há 
consequente  elevação  do  desleixo  –  tanto  por  parte  de  empresários,  que  guiam  com  rédeas  soltas  a 
produção,  quanto  por  parte  dos  assalariados,  que  se  esforçam  menos  devido  à  grande oferta de postos de 
trabalho  –,  cujo  resultado  inevitável  é  a  ineficiência  e, com ela, diminuição da produtividade, dos ganhos 
esperados,  dos  investimentos  e  da  produção.  Com  isso,  Babson  apontaria  a  reversão  do  clima  dos 
negócios (Ibid., p. 31­34).  
De  tal  explicação  é  difícil  não  depreender  um  tom  punitivo  de  caráter  quase  divino 
veterotestamentário  do  ciclo  econômico:  o  crescimento  acompanhado  de  excessos  especulativos, 
invariavelmente, leva à contração econômica. Seu ponto, portanto, não era o de que haveria oscilações em 
torno  de  um  preço  natural  nem  de  que  haveria  flutuações  cíclicas  de  período  determinado,  mas  sim  se 
baseava na certeza de que a tendência presente se revertesse11 . 
Acrescenta­se  que,  para  ele,  a  reflexão   sobre  as  flutuações  econômicas não se resume à  dimensão 
de  punição  de  humanidade  pelos  seus  excessos  em  fases  de  ascensão  da  prosperidade:  para  o  homem de 
negócios,  a  quem  seu  livro  é  dirigido,  são  centrais  os  entendimentos  de  como  funcionam  os  ciclos  e  de 
como  descobrir  em  qual  de  suas  fases  está  a  economia  para,   assim,  realizar  bons  e  sérios  investimentos. 
Para tanto, é fundamental  a análise de aspectos quantitativos do ciclo econômico. É com esse objetivo que 
barômetros​
Babson  propõe  a  elaboração  de  várias  séries  de  estatísticas  (seus  ​ )  que  serviriam  para indicar 
pressões  ​
as  ​ sobre  os  níveis  de  negócios.   Com  isso,  há  um  grande  esforço  de  sua  parte  para  medir  e 
publicar índices que refletiriam a direção dos níveis de atividade.  
Vale  notar  sua  defesa  ardorosa  a  observação  do  mundo  econômico  como  um  todo  a  partir  da 
combinação  de  distintos  indicadores  (Ibid.,  p  47),  o  que,  da  perspectiva  do  investidor,  significaria nunca 
se prender a um único “barômetro”. O olhar deveria ser diverso,  considerando na análise do ciclo diversos 
dados  relativos às condições do comércio internacional, ao mercado de trabalho, à circulação monetária, a 
falências bancárias e inclusive a condições sociais e religiosas, como a relação do número de igrejas. Com 
alguma intuição a respeito do significado econômicos dessas variáveis seria possível saber se o que viria à 
frente  seria   expansão  ou  depressão,  desde  que,  obviamente,  os  dados  fossem  bem  coletados.  A  esse 
respeito,  é  fundamental  apontar  a  qualidade  de  seu  trabalho  com  a  montagem  de  séries  estatísticas, 
reconhecida,  inclusive,  pelos  seus  contemporâneos,  clientes  de  seu  escritório,  além  de  outros  nomes  tais 
como Fisher12. 

11
 E tal constatação, não nos esqueçamos, vale também para vários outros comportamentos da economia, incluindo, 
por exemplo, preços de títulos públicos entre eles (Babson, 1952, p. 37). 
12
 Fisher, em seu artigo de 1912 (p 342), por exemplo, faz uso das séries do nível de preço nos EUA construídas por 
Babson com o objetivo de estimar “sua equação” para o ano seguinte. 
   
babsonchart​
O ​ . Babson, 1952, p.40­41 
 
babsonchart​
Dessa  análise  quantitativa  seria  possível  elaborar  o  ponto  alto  de  sua  análise,   o   ​ .   O 
gráfico,  reproduzido  nos  relatórios  de  sua  empresa  de  consultória  econômica,  seria  feito  a  partir  da 
“value   of  business  index”​
plotagem  de  seu  ​ ,  um  índice  elaborado  a  partir  das  produções  e  preços  em  54 
setores  da  economia  (Ibid.  37­40),  sobre  outras  séries  de  preços  relevantes,  como  o  valor  de  títulos  do 
governo.  Essa  era  o  núcleo  de  sua  representação  do  clima  de  negócios  de  dado  período,  permitindo,  a 
partir  de  determinada  leitura  de  acordo  com  os  princípios  de  Babson,  a  elaboração  de  previsões  sobre  o 
arbitrária  ​
futuro.  Tais  previsões  fundamentam­se  na  construção  ​ da  “linha  normal”  por  um   método   de 
médias,  cuja  função   seria  a  de  separar  as  fases  de   expansão  e  declínio  segundo  o  princípio  – 
fundamentado  em  sua  concepção  da lei de ação e  reação – de áreas (hachuradas  e indicadas com letras do 
alfabeto)  iguais  para  estes  dois  momentos.  A  análise  das  áreas  formadas  pela  oscilação  dos  índices, 
segundo  o  autor,  seria  um  avanço  em  relação  a  procedimentos  anteriores,  que  focavam  apenas  na 
business  cycles​
dimensão  tempo  ou  na  intensidade  da  flutuação,  buscando  padrões  (periódicos)  nos  ​ ,  ao 
invés  de  olhar  para  o  produto  destas  variáveis.  A  representação  da   economia  feita  por  Babson, 
consequentemente,  recusa  a  noção  de  que  podemos  encontrar  ciclos  “perfeitos”  intrínsecos  à  atividade 
econômica13 .  O  distúrbio  ocorreria  apenas  quando  a  linha  normal  fosse  superada,  valendo 
necessariamente  a  “regra  de  ouro”14 ,  gerando  a  depressão  que  deveria  corrigir  a  fase  precedente  de 
superexpansão.  Essa   linha,   por  fim,  seria  também  susceptível  a  mudanças  “estruturais”,  exógenas  aos 

13
 ​ must​
“The idea that we ​  have periods of overexpansion and depression every few years is entirely untrue. In this 
sense there is no such thing as a business ‘cycle’.” (Babson, 1952,p.2) 
14
Nevertheless, one should not fail to ponder the miseries brought on the world by governments which consider 
 “​
themselves above God and disobey the Golden Rule” (Babson, 1952,p.99​ ) 
In a growing country like America, the figures to be normal ​
índices  que  usa  para  traçá­la:  “​ must increase  
in proportion to the increase in population, intelligence, industry and righteousness​
 ​
(...)” (Ibid., p. 44). 
O  estrondoso  sucesso  financeiro  de  Babson  com  suas  previsões  (muitas  vezes acertadas) torna­se 
um  fato  curioso  à  luz  do  uso de um instrumento, a nosso ver, metodologicamente fraco. Todo o centro de 
sua  capacidade  de  compreensão  e  previsão  – a elaboração do ​
babsonchart – caminha numa corda bamba.  
Afinal,  a  análise  baseia­se na certeza de  uma “lei” externa à esfera econômica recheada de moralidade e a 
consequente  construção  da  reta  média  sem  uma  regra  fixa,  passível  de  constante  deslocamento  para 
ad  hoc​
sempre  dividir  qualquer  flutuação  em  duas  áreas  iguais  –  ​ ,  portanto.  Dessa  maneira, toda subida e 
descida  podem  encaixar­se  em  seu  esquema  analítico,  reforçando  a  retórica  –  não difícil de enxergar nos 
discursos de economistas até hoje – de “tudo o que sobe, desce”.  
 
Babson e Fisher: base científica e representação 
Nossa  análise  dos  entendimentos  do  mundo   econômico  para  Babson  e  Fisher  perpassa  duas 
preocupações  centrais:  a  representação  e  previsão,  ambas  intimamente  relacionadas.  A  relação  da  física 
(ou  de  sistemas  físicos)  com  a  economia, em ambos os autores, envolve tanto a capacidade de síntese das 
características  fundamentais  da  dimensão  econômica   em  questão  quanto  a  possibilidade  de  gerar  algum 
grau  de  previsibilidade  em relação ao porvir. No caso, vimos em Babson que sua interpretação da terceira 
lei  de  Newton  transborda  as  fronteiras  do  mundo  físico,  valendo  em  todas  as  dimensões da vida humana 
e,  portanto,  também  no  sistema  econômico.  Esse  sistema,  por  sua  vez,  é  constituído  de  pessoas  com 
atitudes  e  comportamentos   próprios,  com  aspectos  sociais,  culturais,  morais  e  religiosos  igualmente 
relevantes  que  direcionam  o  curso  econômico,  sujeitos  unicamente  à   lei   suprema  da  ação  e  reação. A  lei 
física,  como  entendida  por  Babson,  todavia,  apresenta­se  de  forma  dupla:  tanto  como  transcendência 
divina  punidora – indissociada de uma concepção moral e religiosa do mundo – quanto como resultado da 
ação  profana  da  psicologia  durante  as  fases  de  expansão  e  depressão.  Assim,  Babson  nos  diz  que 
“​
Business  depressions  are  a  direct  result  of  extravagance,  recklessness,  waste,  greed,  and  irreligion, 
which  develop  during  the  so­called  boom  times​
.”  (Ibid.,  p.9)  e,  ao  mesmo  tempo,  “​
Business  conditions 
depend  chiefly  on  what  men  do.  What  men  do  depends  on  what  they  believe  and  think;  I  mean  that  men 
act  according  to  their  real  beliefs  and  valuations  –  not  necessarily  according  to  what  they  say  they 
believe and think​
.” (Ibid. p.28). 
No  que  diz  respeito  à  relação  entre  o  pensamento  dos  autores  em   questão  e  a  física, vemos que a 
relação  de  Fisher  com  a  disciplina  é  uma  inversão  em  relação  a  Babson.  Sua  representação da economia 
através  de  balanças  e  recipientes  não  busca  tratar  da  economia  como  esfera  sujeita  a  leis  físicas 
universais,  mas  sim  trazer  leis  físicas  que  possam  gerar  intuições  sobre  processos  econômicos.  Ocupam, 
destarte,  a  função  em  seu  raciocínio  como  analogias.  As  intuições obtidas por esse tipo de representação, 
no  entanto,  não  são  suficientes  para  uma  base  científica  do  conhecimento  e  nem  poderiam  ser  seu ponto 
de  partida.  É  o  ferramental  matemático  dedutivo  que  assume  essa   importância  em  sua  obra,  para 
estruturar o raciocínio e demonstrar proposições na economia, em geral pouco óbvias: 
We  now  come to  the  strict  algebraic statement of  the  equation  of exchange. An  algebraic 
statement  is  usually  a  good  safeguard   against  loose  reasoning;  and  loose  reasoning  is 
chiefly responsible for the suspicion under which economic theories have frequently fallen. 
If  it  is  worth  while in  geometry to  demonstrate carefully,  at the start,  propositions  which  
are  almost self­evident, it is a hundredfold more worth while to demonstrate with care the 
propositions  relating  to  price  levels,  which  are  less  self­evident  ;  which,  indeed,  while 
confidently assumed by many, are contemptuously rejected by others. ​
(Fisher, 1963 [1922], 
p. 24) 
Em  Fisher,  vemos  uma  economia  passível  de  ser  representada  por  “fotografias”,  descrita  por 
mecanismos  de  equilíbrio  (o  que  não  significa  que  a  dinâmica  não  tenha  importância),  dos  quais  seria 
possível  extrair  relações  (realizar  modelagens)  que  produzam  enfim  leis  econômicas.  Construindo 
modelos,  a  capacidade  de  predição  –  sendo  ou  não  o  objetivo  principal  –  é  apoiada  pela  dedução 
matemática  (algébrica)  somada  à  intuição  econômica  acerca  das  cadeias  de  causação  e  completada  pela 
verificação  empírica  estatística  e  histórica,  o  que  assegura  o  valor de seu caráter científico. Tal visão está 
fora  do  quadro  analítico  de Babson, que recorre quase que exclusivamente a dados “históricos” (trajetória 
de  índices  no  tempo)  –  com  os   quais,  segundo  seus  métodos,  representações  de  equilíbrios  estáticos  não 
caberiam  –  sem  a   finalidade  de  encontrar  leis  gerais da  sociedade além da circunscrita à  alternância entre 
ação e reação15 .  
Fisher e Babson, assim, apresentam nessas obras aqui  lidas não apenas duas concepções distintas a 
respeito  dos  movimentos  de  variáveis  relativas  ao  sistema  econômico,  como  também  duas  posturas 
metodológicas  distintas  –  ainda  que,  algumas  vezes,  consonantes,  como  na  defesa  da  investigação 
estatística  como  uma  forma  de  apreender  a  realidade.  A  esse  respeito,  nossa  exposição  consistiu  em 
atentar à utilização de algumas analogias e dos raciocínios a elas subjacentes, de forma que depreendemos 
um procedimento de análise mais “científico” de um em relação à argumentação do outro.  
É  fundamental,  finalmente,  fazer  uma  última  reflexão  sobre  esse  ponto.  De  fato,  comparando  o 
babsonchart  ​
com  as  balanças  de  Fisher,  é  inegável  que  o  segundo  faz  parte  de  uma  exposição a respeito 
de  um  truísmo  razoável,  cuja  justificativa  é  apresentada  em  termos   econômicos  e  explorada  dentro  do 

15
 Sobre a visão de Fisher sobre Babson, Friedman (2013) comenta: ​ Fisher could hardly present a greater contrast 
“​
to Roger Babson’s mail­order pieties and pseudoscience. Babson existed only on the fringes of academia and his 
work was often assailed in scholarly journals. ‘Babson is a nice gentleman,’ Fisher once remarked. ‘He receives 
great publicity and has a large following, but he has no academic standing’.” (Friedman, 2013, p. 51) 
arcabouço  da  disciplina,  enquanto  o  primeiro  (a  linha  normal,  mais  precisamente)  parece  ser  construído 
de  forma  inconsistente.  Entretanto,  é  inegável  que  uma  comparação  pura  e  simples  entre  essas  duas 
representações  –  e  mesmo  entre  os  dois  livros  aqui  postos  lado  a  lado  –  não  é  suficiente.  Isso  porque 
miram  distintos  públicos  e  foram  escritas   por  autores  díspares:  Fisher  era  acadêmico  e  procura  em  sua 
obra  pensar  acerca  de  certos  princípios  que  regem  a   economia,  enquanto  Babson  tem  com  seu  livro  o 
objetivo  de  bem  aconselhar  homens  de  negócio  a  prever  o  comportamento  do  mercado  e  realizar  os 
melhores  investimentos.  Com  isso,  a  distância   entre  os  dois  autores  ganha  outro  significado,  dado  que 
seus  comprometimentos  com  ciência,  entendimento  por  parte  do  leitor  ou  previsão  são  melhor 
contextualizados.  
 
Bibliografia 
BABSON, R. W. ​ Business Barometers and Investment. ​ 6ª Edição. Nova Iorque: Harper & 
Brothers Publishers, 1952. 
 
EICHENGREEN, B. ​ Globalizing capital​
: A history of the international monetary system. 2ª 
Edição. Princeton: Princeton University Press, 2008. 
 
FISHER, I. "The Equation of Exchange" for 1912, and Forecast​ . ​
The American Economic Review 
Vol. 3, No. 2 (Jun., 1913), pp. 341­345 
 
FISHER, I. ​The pruchasing power of money: ​ Its determination and relation to credit interest and 
crises. 2ª Edição. Nova Iorque: Augustus M. Kelley, 1963. Reimpressão. 
 
FRIEDMAN, Walter. ​ Fortune Tellers: The Story of America's First Economic Forecasters​ . 
Princeton University Press, 2014.  
 
HARRÉ, R. Analogy and metaphor. In BLUME, L. E., DURLAUF, S. N. ​ The New Palgrave 
Dictionary of Economics. ​ Palgrave Macmillan, 2ªEd. (digital), 2008. 
 
BIOGRAPHY of Roger Babson. Disponível em < ​ http://www.babson.edu/about­babson/ 
at­a­glance/babsons­history/Pages/biography­of­roger­babson.aspx >. Acessado em 5 de nov. de 2015