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SEMINÁRIO ADVENTISTA LATINO-AMERICANO DE TEOLOGIA

FACULDADE ADVENTISTA DA AMAZÔNIA

GUILHERME ELIAS CORREA

UMA ANÁLISE DO SÁBADO EM GÊNESIS 2:1-3:


LITERALIDADE, ESTRUTURA LITERÁRIA, SIGNIFICADO
E SIGNIFICÂNCIA PARA A CONTEMPORANEIDADE

BENEVIDES
2017
GUILHERME ELIAS CORREA

UMA ANÁLISE DO SÁBADO EM GÊNESIS 1:


LITERALIDADE, ESTRUTURA LITERÁRIA, SIGNIFICADO
E SIGNIFICÂNCIA PARA A CONTEMPORANEIDADE

Relatório submetido ao Seminário


Adventista Latino-Americano de
Teologia como parte dos requisitos
necessários para a disciplina de
Doutrina do Sábado da Faculdade
Adventista da Amazônia, sob
orientação do Prof. Dr. João Antônio.

BENEVIDES
2017
UMA ANÁLISE DO SÁBADO EM GÊNESIS 1:
LITERALIDADE, ESTRUTURA LITERÁRIA, SIGNIFICADO
E SIGNIFICÂNCIA PARA A CONTEMPORANEIDADE

Guilherme Elias Correa1

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo analisar o relato da criação do sábado em Gênesis 2:1-
3. Por ser a primeira menção ao sábado na Bíblia deve-se dar uma atenção especial para
tal texto. Em primeiro lugar será averiguado a semântica textual, a validade ou invalidade
do sábado depende do sentido conotativo ou denotativo do relato de sua criação (Gn 1-
11). Depois, a estrutura literária do texto de Gênesis 1 será investigada com o objetivo de
estabelecer uma unidade entre os sete dias, mas também realçar a importância que o autor
dá ao sétimo dia como clímax da criação. Em sequência, será realizado uma breve busca
pelo significado que o relato da criação do sétimo dia teve para os personagens bíblicos.
Por fim, um apelo para a urgência de busca por uma conservação do valor bíblico do
sábado, como selo de confiança em Deus como Criador.

Palavras-chave: Sábado. Estrutura Literária. Significado. Aplicação.

1 LITERALIDADE DE GÊNESIS 1-11


Com “literalidade do texto de Gênesis”, pretende-se dizer que:

1- Admite-se a criação da Terra em seis dias literais de 24 horas, incluindo a


criação do sol, lua e outras obras relatadas em Gênesis 1.
2- A mulher foi criada literalmente da costela de Adão.
3- Foi real a existência do fruto do conhecimento do bem e do mal, bem como a
tentação de Gênesis 3 pela serpente.
4- Houve um dilúvio real como condenação de um planeta ímpio, exceto a família
de Noé que foi salva em uma arca.
5- A tentativa falha de construir a Torre de Babel, bem como a interferência divina
confundindo as línguas é um fato histórico.

1.1 INTERPRETAÇÃO ALEGÓRICA DE GÊNESIS NO JUDAÍSMO

No judaísmo, as interpretações da Bíblia variavam principalmente entre a literal e a


alegórica. Filo de Alexandria, judeu helenista, ficou conhecido por seu método alegórico
de interpretar a Bíblia. Tal método vê em cada passagem da Bíblia uma multidão de
significados superpostos ao modo alegórico. Filo escreveu um livro chamado “Sobre a

1
Graduando em Teologia pela Faculdade Adventista da Amazônia – SALT FAAMA.
guilhermecorrea.sda@gmail.com
Criação: Interpretação Alegórica de Gênesis 2 e 3” em que fica explícito sua abordagem
hermenêutica.
Augustus Nicodemus (2014, p. 20) faz uma análise da interpretação alegórica de
Filo em Gênesis:
A criação do jardim do Éden (Gn 2: 8 -14) (grifo meu) – O rio Gion
(2:13) significa “coragem” e circunda a terra de Cuxe, que significa
“humilhação”; o sentido alegórico é que a coragem dá demonstrações
de bravura diante da covardia. Já rio Tigre (2:14) significa temperança,
pois como um tigre, resiste resolutamente ao desejo. Eufrates (2:14) não
se refere ao rio. O sentido alegórico é justiça. O rio Pisom (2:11)
significa “mudança na boca”, que é o falar com prudência!
A criação e queda o homem (Gn 2—3) (grifo meu) – Filo considera
fábula a narrativa da criação da mulher da costela de Adão, após o
mesmo haver adormecido. Ele rejeita a interpretação literal da
passagem. O sentido verdadeiro é que Deus tomou o poder dos sentidos
externo (Eva) e o conduziu à mente (Adão). Esse poder é sempre
ameaçado pelo prazer (a serpente). A promessa messiânica: “este te
ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (3:15) é interpretada como
Deus dizendo ao prazer (serpente) que a mente (o homem) vai vigiá-la
e que em troca, o prazer (serpente) vai atacar a mente (homem)
oferecendo os prazeres mais básicos (morder o calcanhar)!

Como afirma Carlos Nougué em sua apresentação da biografia de Filo 2, a


importância do pensamento de Filo para a teologia cristã existe porque ele “é um
encruzamento de caminhos. É dele que se bifurcam ou trifurcam as principais correntes
[teológicas] que vão [se] digladiar ao longo dos séculos”.

1.2 INTERPRETAÇÃO ALEGÓRICA DE GÊNESIS NO CRISTIANISMO


No cristianismo Orígines de Alexandria também utilizou uma interpretação
alegórica das Escrituras, conforme Olson (2000, p. 108):

Orígenes identificou três níveis de significado nas Escrituras e três


maneiras de compreedê-las e de interpretá-las. Os três níveis
correspondem aos três aspectos da pessoa humana: corpo (físico), da
alma (racional e ético) e do espírito (relacionado à salvação no sentido
mais sublime).

Transferindo a analogia tricotômica para a hermenêutica, Orígenes afirma que o


corpo é a interpretação literal do texto, a alma é o seu significado moral, enquanto que o
espírito, que era o principal objeto de estudo deste pai da igreja, buscava alcançar um
sentido místico do texto.

2
Para ver o vídeo, acessar: <https://www.youtube.com/watch?v=GVLrS0imTqc>.
Segundo Hasel (s.d, p. 1), Orígenes optou por uma interpretação alegórica dos
dias da criação em detrimento da interpretação literal. Não que ele apoiasse o conceito
evolucionista, mas porque ele encontrava contradições entre o Deus atemporal de suas
pressuposições filosóficas e o relato de seis dias de criação. Como o autor afirma, “na
filosofia grega Deus é [a]temporal. Como os “dias” da criação incorporam-se à atividade
divina, supunha-se que eles também deviam ser entendidos num sentido não temporal”
(Ibidem).

1.3 INTERPRETAÇÃO LITERAL NA REFORMA PROTESTANTE


Grant (1963, p. 128, 29) afirma que os reformadores negaram o sentido plural das
Escrituras, afirmaram o claro significado literal da mesma, contrariando a hermenêutica
católica medieval que reconhecia um significado quádruplo das Escrituras, a saber,
alegoria, anagogia, tropologia e o literal.
Kraeling (1969, p. 9 – 32) admite que a Reforma também negou em grande medida
o uso da filosofia como chave de interpretação externa para as Escrituras.
Em seu comentário sobre Gênesis, Lutero afirma “que Moisés falou no sentido
literal, e não alegórica ou figurativamente, isto é, que o mundo, com todas as suas
criaturas, foi criado em seis dias, como se lê no texto” (HASEL, s.d, p. 1).

1.4 EVIDÊNCIAS BÍBLICAS PARA A INTERPRETAÇÃO LITERAL

1.4.1 O Termo Yom

No final de cada dia, o autor inspirado adiciona ‫י־ב ֶקר יֶ֥ ֹום‬
ֹ֖ ‫י־ע ֶרב וַֽ ְי ִה‬
ֶ֥ ֶ ‫ ָׁש ָׁ ָ֑מיִ ם וַֽיְ ִה‬-

“houve tarde e manhã o _____ dia” (1:5, 8, 13, 19, 23, 31, cf. 2:3). Tal expressão dá fim
a um dia e preanuncia o outro. Na semântica, o termo “yom” (dia) pode ter diferentes
significados, desde um dia literal de 24 horas até um período indefinido de tempo (Juízes
14:4), em um sentido mais geral “o tempo de um mês” (Gênesis 29:14), o “tempo de dois
anos” (II Samuel 13:23 e 14:28; Jeremias 28:3 e 11), o “tempo de três semanas” (Daniel
11:2 e 3). No plural pode significar “ano” (I Samuel 27:7), um “tempo de vida” (Gênesis
47:8), etc. Em suma, esta palavra pode “expressar tanto um instante quanto um período
de tempo” (HARRIS, 2012, p. 604).
Entretanto, algumas normas semântico-sintáticas tornam perceptível o real sentido
do termo em seu contexto. Botterweck e Ringgren (1978, v. 6, p. 15, 16) afirmam que o
vocábulo “yom” não terá significado literal quando o mesmo se encontrar conectado com
alguma preposição, expressões técnicas, combinações genitivas, frases construtivas, etc.
Os autores afirmam que das 2.304 ocorrências de yôm/yamîm no texto
veterotestamentário, 1.057 (45,9%) delas envolvem uma preposição. A preposição mais
comum é ‫( ב‬em, na, por, com), que aparece 728 vezes (68,9%), sendo 590 vezes no
singular e 138 no plural3. Este é “o uso mais importante” do vocábulo yom com
preposição: o infinitivo (Ibid). Com isto pode se afirmar que os dias da semana da criação
são literais.

1.4.2 A EXPRESSÃO “HOUVE TARDE E MANHÔ

A expressão “houve tarde e manhã” dicotomiza o dia referido. Ela ocorre 6 vezes
na Bíblia, todas elas em Gênesis 1 (v. 5, 8, 13, 19, 23, 31). “Tarde” (heb. ‘erev) é a noite,
primeira parte do dia, e “manhã” (heb. boqer) representa a parte clara. Segundo Hasel
(s.d, p. 1) “tarde e manhã é uma expressão temporal que define cada “dia” da criação
como um dia literal. Ela não pode significar nada mais”.

1.4.3 O GÊNERO DE GÊNESIS

O relato de Gênesis 1-11 deve ser considerado de uma perspectiva histórica


porque a Bíblia o faz. Quando se busca o conceito que os profetas e o próprio Cristo
tiveram das histórias de Gênesis percebe-se que eles possuíam uma concepção literal do
mesmo. O autor de Hebreus afirma que “pela fé, entendemos que foi o universo formado
pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”
(Hb 11:3), revelando sua concepção literal do relato da criação de Gênesis.
Adão e Eva, no Novo Testamento, são personagens reais que cometeram pecados
reais diante de Deus (Mt. 19:4-6; Mc 10:6-8; Lc 3:38, Rm 5:12, 14; 1 Cor 15:22, 45; 2
Cor 11:03; 1 Tim 2:13-14 e Judas 14). A própria obra de redenção do homem através do
sacrifício de Cristo se torna obsoleta quando se perde de vista a literalidade do relato da
entrada do pecado através de Adão (Rm 5:17; 1 Cor. 15:22-45). A própria genealogia de
Cristo é traçada a partir de Adão (Lc 3:23-38), o que seria impossível de conciliar, ou
Cristo também é um mito, ou ambos (Adão e Cristo) são personagens históricos.
A fim do mundo, julgamento divino e outros aspectos escatológicos são, por
vezes, relacionados com o julgamento do dilúvio. A vinda literal do “Filho do Homem”
será “como foi nos dias de Noé” (Mt 24:37; Lc 17:26). Paulo e Pedro também

3
Outras preposições também são adicionadas à yom no texto hebraico: ‘ad (121 vezes), le (71 vezes), ke
(76 vezes) e mim (66 vezes). Para um estudo mais detalhado da adição de preposições ao vocábulo yom,
ver: BOTTERWECK, G. Johannes. RINGGREN, Helmer. Theological Dictionary of the Old Testament. [s.l]:
Eerdmans, U.S., 1978. v. 6. p. 14 – 18.
consideravam sua historicidade (Hb 11:7; 1 Pe 3:20; 2 Pe 2:5). Tais evidências reforçam
a literalidade do relato de Gênesis.

2 ESTRUTURA LITERÁRIA DO RELATO DA CRIAÇÃO

O relato da criação vai de Gênesis 1:1 até 2:3. Tal perícope é reforçada por
evidências estruturais que apontam uma clara unidade literária.

2.1 PARALELISMO ENVELOPE (INCLUSIO)


Inclusio, também chamado de paralelismo envelope, é, segundo Nunes (2016, p.
107), “a repetição de uma palavra, conceito ou grupo de palavras no início e no final de
uma unidade poética”. Segundo Frey (2011, p. 21), tal subtipo de paralelismo é
encontrado no relato da criação. Para ela ‫ֱֹלהים‬
ִ֑ ‫ בָּ ָּ ָ֣רא א‬, “Deus criou”, presente em Gênesis
1:1 e 2:3 “mostra que o relato da criação” é “uma unidade literária”.

2.2 BERESHIT E LA’ASHUT


Além da estrutura inclusiva de Gênesis 1 -2:3, há mais evidências que favorecem
a unidade textual. O texto mosaico afirma: “No princípio (‫אשית‬
ִׁ֖ ‫ ) ֵר‬criou Deus”, o
substantivo ‫אשית‬
ִׁ֖ ‫ ֵר‬é colocado como ponto de partida para o texto, que culminará com o
substantivo ‫( ַלע ֲֽׂשֹות‬La’ashut), “fizera” (Gn 2:3).

2.3 MERISMA
Salisbury (2004, p. 17 apud NUNES, 2016, p. 113) afirma que merisma ocorre
“quando a totalidade é expressa em apenas duas de suas partes limítrofes e que podem
ou não ser ‘opostos polares’ (grifo meu) ”. Neste caso, a expressão “céu e terra” abre a
seção em 1:1 e se repete em 2:1. Para Doukhan (2016, p. 11), “na história da criação, a
frase “criou céus e terra” é usada na introdução (1:1) e na conclusão (2:4a) para marcar o
começo e o fim da unidade, mas também para relacionar a ampla criação do universo
(1:1) com a criação mais particular do mundo humano durante a semana da criação
(2:4a)” 4.

4
“In the creation story, the phrase “create heavens and Earth” is used in the introduction (1:1) and in the
conclusion (2:4a) to mark the beginning and the end of the unit, but also to relate the broad creation of
the universe (1:1) to the more particular creation of our human world during the creation week (2:4a)”
2.4 QUIASMO
Outra evidência que fortalece a continuidade entre os capítulos 1 e 2 é a estrutura
quiástica. Para Doukhan (Ibid, p. 67), a estrutura envolve o sábado com os seis dias:

A B
Deus Criou Os céus e a terra
(1:1)

B1 A1
Os Céus e a Terra Que Deus havia
criado (2:1-3)

2.5 CONCLUSÃO PARCIAL

Para Moskala (2002, p. 55), o texto da criação do mundo é construído ao redor de


dois substantivos: ‫( ֹ֙תהו‬sem forma) e ‫( ֹ֔בהו‬vazia), sendo que a criação irá, dia após dia,
respectivamente, preenchendo esses dois substantivos. O autor (Ibid, p. 57) apresenta tal
estrutura em um gráfico, destacado abaixo:

Percebe-se que, nesta estrutura, os dias 1-3 dão forma ao informe (‫) ֹ֙תהו‬, enquanto

que os dias 4-6 preenchem o vazio que recebeu forma (‫) ֹ֔בהו‬. Entretanto o sábado não se
enquadra em nenhuma das duas partes. Como será exposto mais adiante, tal estrutura não
diminui em nada a relação entre o sábado e os seis dias da criação. O objetivo do autor
era, entretanto, realçar o valor único do sábado para o povo de Deus.
Conclui-se, portanto, que o sábado é unido aos seis dias da semana, apesar de não
receber a qualificação de “bom” como os outros seis dias, ou não ter a frase finalizante
“houve tarde e manhã”, ainda assim, há evidências estruturais suficientes para mantê-lo
unido a semana da criação. Além disso, o sábado é distinto em sua natureza como clímax
da criação, dia de descanso e alvo de uma benção e santificação estabelecida pelo Criador.

3 O SÁBADO E OS PERSONAGENS BÍBLICOS


A Bíblia apesenta cerca de 103 menções explícitas ao sábado. Desde o AT ao NT,
existem evidência suficientes sobre seu caráter santo e normativo para todos,
independentemente da época em que vive. A primeira citação do termo shabbat ocorre
quatro vezes em Êxodo 16. Neste capítulo é relatado uma promessa de Deus de que,
apesar de o maná sempre se estragar no outro dia, o maná de sexta-feira seria conservado
para não haver busca por comida ao sábado. A sexta seria o dia de preparação, estoque e
espera do sábado. Entretanto alguns israelitas desobedeceram a Deus, o que O indignou
levando-o a perguntar “até quando recusareis guardar os Meus mandamentos e as Minhas
leis? Considerai que o Senhor vos deu o sábado; por isso, Ele, no sexto dia, vos dá pão
para dois dias [...]” (Ex 16:28, 29). Antes mesmo de uma aliança no Sinai, o sábado já era
conhecido pelo povo de Deus.
Em Êxodo 20 o sábado é marcado como memorial da criação. Segundo Frey
(2011, p. 137) duas características distinguem o mandamento do sábado dos outros nove
mandamentos:
1- O quarto mandamento é o maior dos dez, possuindo 55 palavras no TM. Seu
foco é, primeiro na humanidade (vv. 8-10) e então em Deus (v. 11). Isso
mostra a posição estratégica que o sábado ocupa no Decálogo, sendo uma
“ponte” entre os mandamentos que focam em Deus (1-3) e nos que focam na
humanidade (5-10).
2- O mandamento do sábado possui um aspecto exclusivo dentro do Decálogo.
Oito dos dez mandamentos iniciam com a partícula negativa ‘lo (não). O
mandamento sobre respeitar aos pais inicia com o imperativo “honre”. Mas o
sábado “usa a forma atípica infinitiva absoluta” zakhar (lembre). Tal
imperativo pressupõe um conhecimento prévio do mandamento, tal
pressuposição recebe base quando se percebe uma estreita relação estrutural
entre Êx 20:8-11 e o relato do primeiro sábado na criação em Gênesis 2:1-35.

No Novo Testamento é encontrado repetidas vezes que Jesus frequentava a


sinagoga aos sábados (Mc 1:21; 6:2; Lc 4:16, 31; 13:10). Em sua declaração em Mateus
24:20 Jesus mostra que, “quarenta anos depois da [Sua] ressurreição, o sábado seria tão
sagrado quanto era quando [Ele] pronunciou estas palavras” (COMENTÁRIO BÍBLICO
ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA, 2013, v. 5, p. 533).
Brevemente observa-se o ato de Cristo realizar curas aos sábados. Quando os
judeus o viam fazer isto, logo o interrogavam. Mas, como observa Timm (2010, p. 57),
“em nenhum dos casos o ponto em discussão foi a validade do sábado como dia de guarda,
mas apenas a forma de ser ele observado”. Outros vários textos poderiam ser
mencionados, mas os já citados são suficientes para provar uma continuação, e não
exclusão, do sábado, ainda no Novo Testamento.

4 SIGNIFICÂNCIA

Osborne (2009, p. 28) adota uma perspectiva denominada “significado-


significação”, em que o primeiro reflete o conceito ou conteúdo pretendido pelo autor, e
o segundo, a aplicação deste significado original nas “circunstâncias diversas”. Neste
artigo foi observado que o sábado tem um significado muito profundo na aliança de Deus
com o Seu povo, mas e nos nossos dias?
O sábado é “um dia digno de servir de exemplo à humanidade sobre quem cumpre
o dever de imitar os caminhos de Deus” (CASSUTO apud IAN HART, 1995, pag. 1). O
Decálogo não pode ser fracionado, a obediência à Deus não pode ser parcial.
O sábado é encontrado como o sinal entre Deus e Seu povo também no fim dos
tempos (Ap 12:17; 14:6, 7). Como afirma Ellen White (2011, p. 449):

Quando, porém, a observância do domingo for imposta por lei, e o


mundo for esclarecido relativamente à obrigação do verdadeiro sábado,
quem então transgredir o mandamento de Deus para obedecer a um
preceito que não tem maior autoridade que a de Roma, honrará desta
maneira ao papado mais do que a Deus.

5
Para um estudo mais detalhado sobre a relação entre os dois textos, ver, FREY, Mathilde. The Sabbath
in the Pentateuch: An Exegetical and Theological Study. 2011. 327 f. Tese (Doutorado) - Curso de Teologia,
Andrews University, Michigan, 2011.
O sábado mostra que Deus está constantemente com Seu povo. Este dia foi
instituído como dia santo. A santidade é a essência do relacionamento divino-humano
(FREY, 2011, p. 303), que nos capacita a sermos completamente aquilo que fomos
criados para ser: a imagem do Criador. Como observa Jamieson (2003, p. 21):

A instituição do sábado é tão velha como a criação, dando origem a


divisão semanal do tempo, que prevaleceu nas épocas mais remotas. É
uma lei sábia e benéfica, pois proporciona aquele intervalo regular de
descanso que a natureza física do homem requer, e a inobservância
deste mesmo traz [...] uma indignação prematura. Além do mais, se o
descanso foi necessário no estado de inocência primitiva, quanto mais
agora, quando o homem se inclina a esquecer a Deus e suas demandas.6

Tal reflexão é suficiente para expor o valar único do sábado. Sua natureza sui
generis é percebida desde sua criação até os dias da eternidade (Is 66:23). Pode-se
concluir, portanto, que o sábado, em síntese, possui três aspectos importantes para o
homem moderno:
1- Descanso físico: Em um mundo tão agitado “o descanso não é a apenas uma
opção, é uma necessidade do nosso corpo” (DDS ONLINE, [s.d], p.1). O
homem precisa de um dia para renovar suas forças. A necessidade de descanso
era uma verdade na época de Israel e é uma verdade em nossos dias também.
O exemplo de Deus em trabalhar em seis dias revela o tempo que nos foi dado
para o trabalho, enquanto isso, Seu descanso sabático prescrevem a atitude
esperada por Deus para todo aquele que O segue.
2- Relacionamento com o próximo: O sábado também é uma oportunidade de
reforçar os laços familiares. A família na sociedade moderna necessita
urgentemente de tempo para relacionamentos reais e construtivos. O sábado
semanal proporcionará uma oportunidade para fazê-lo.
3- Relacionamento com Deus: Após a entrada do pecado no mundo, o
relacionamento humano-divino ficou comprometido. O sábado permaneceu
mesmo após a queda como uma lembrança do interesse de Deus em se
relacionar com a humanidade. O santuário no tempo é um ponto de encontro

6
“La institución del sábado es tan vieja como la creación, dando origen a la división semanal del tiempo,
la que prevaleció en las épocas más remotas. Es una ley sabia y benéfica, pues proporciona aquel
intervalo regular de descanso que requiere la naturaleza física del hombre y de los animales empleados
en su servicio, y la inobservancia del mismo trae en ambos casos una decadencia prematura. Además, si
el descanso fué necesario en el estado de la inocencia primitiva, ¡cuánto más ahora, cuando el hombre
se inclina a olvidar a Dios y sus demandas!”
entre a criatura e o seu Criador. Neste momento o fraco pecador recebe forças
e paz das mãos do Onipotente.
REFERÊNCIAS

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BOTTERWECK, G. Johannes; RINGGREN Helmer. Theological Dictionary of the Old


Testament. [s.l]: Eerdmans, U.S., 1978.

DDS ONLINE. Temas para DDS: A importância do descanso. Disponível em:


<http://www.ddsonline.com.br/dds-temas/saude/263-a-importancia-do-descanso.html>.
Acesso em: 16 nov. 2017.

DEDEREN, Raoul (Ed.). Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. 1.ed. Tatuí:
Casa Publicadora Brasileira, 2011.

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FREY, Mathilde. The Sabbath in the Pentateuch: An Exegetical and Theological


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JAMIESON, Roberto, A. R. Fausset and David Brown: Comentario Exegético Y


Explicativo De La Biblia. v. 1. El Paso, TX: Casa Bautista de Publicaciones, 2003.
KNIGHT, George R.; NASCIMENTO, Josemir Albino do. Questões sobre doutrina: o
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KRAELING, Emil G. The Old Testament since the Reformation. New York: Schocken
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