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Estudo do tema Memória na Obra de Camões

Nathália Macri Nahas


Prof. Adma Murana

A memória é um tópico da poesia quinhentista que encontra na obra camoniana


diversas realizações (como fama, reminiscência, imortalização etc), consoante as
principais concepções filosóficas e poéticas do período. Interprete seu significado na
estrutura das redondilhas Sôbolos rios que vão, confrontando-o com o que aparece
em outros poemas, em particular, Os Lusíadas.

A obra de Luis Vaz de Camões reflete a concepção cultural de sua época – o


neoplatonismo, dentro da concepção renascentista – e também um conceito criado a partir
de suas verdades particulares, nascido de fatos e da vivencia pessoal do autor. Para o
poeta, tudo é expresso de maneira intemporal, ou seja, o tempo e o homem que o ocupa.
A idéia da fama e da glória abordada na Idade Média está intimamente ligada aos feitos
realizados e obtidos através das armas, das letras e da virtude dos homens. Os heróis são
imortalizados através de seus feitos de coragem e de fé. A fama é o que move os homens.
O medo do esquecimento é maior que o medo da morte. Segundo Camões, tudo se
submete a lei do esquecimento. O papel das letras, nesse aspecto, é manter vivo, através
dos cantos, os feitos de heróis. A fama e a glória só são reconhecidas através de um poeta,
cujo papel fundamental é cantar os grandes atos, as grandes conquistas que devem ficar
eternamente na memória do povo. O canto seria então a única arma contra a lei do
esquecimento.
Através do conceito de que a arte seria a grande responsável pela manutenção da
memória de grandes atos da historia de um povo e de um país, sendo reais ou não-reais,
podemos verificar na obra de Camões diversas realizações. A memória é tratada de pontos
de vistas diferentes, como visto no confronto do assunto nas redondilhas Sôbolos rios que
vão e o épico Os Lusíadas.
O poema Sôbolos rios que vão é inspirado no salmo 137 de Davi, que canta a
lamentação e a tristeza dos judeus expulsos de Jerusalém (Sião) e exilados na Babilônia. A
poesia se constitui, inicialmente, de uma imagem bíblica: correm aos pés do poeta os rios da
Babilônia, em cujas águas os israelitas misturaram suas lagrimas, na saudade da pátria
longínqua Sião. Esta cidade é vista como tempo passado e a Babilônia é o mal presente.
Junto aos rios que vão pela Babilônia, o eu lírico chora as lembranças do que se passou em
Sião. Ao chorar e repassar todas as lembranças contentes, o eu lírico conclui que o bem
passado é doloroso:

“vi que todo o bem passado


não é gosto, mas é magoa.”

Aqui, nota-se um motivo comum à obra de Camões: a transposição de aspectos da


realidade do autor metaforizados em termos de subjetividade. O autor, como os judeus,
também experimentou o desterro de seu país, uma existência frustrada e a tristeza e o
desengano do presente com as ilusões e esperanças do passado. O que resta é expressar
em versos suas saudades.
N´Os Lusíadas, também é inegável a presença do infortúnio pessoal como o infortúnio
da época em que o autor viveu. Em toda sua poesia, ressoa como uma música de fundo a
confissão de uma frustração causada pelo mundo, pelos homens e pelo tempo em que se
vive.
A idéia de memória proposta em Sôbolos rios que vão é desenvolvida através da
ordinária saudade de um povo de sua terra natal e do passado transfigurado, que se
transforma em saudade metafísica de uma realidade humana apenas suspeitada, em
nostalgia que explica-se pelo não-conformismo. O poema revela-se, portanto, como uma
antítese entre o bem e o mal, entre o presente e o passado. O bem é ligado ao passado. O
mal é o presente, única realidade; o mesmo que a alma do eu lírico passa no momento.

Ah, dura estrela minha! ah grão momento!


Que mal pode ser mor, que no meu mal
Ter lembranças do bem que já é passado?
Sião, a eterna alma a que a alma espera, revela a felicidade do amor que o eu lírico,
não podendo atingir na realidade, sublimou em categoria do ideal. Babilônia, por ser o local,
o espaço e o tempo do exílio, mostra um eu lírico subjugado ao esquecimento, restando
apenas chorar as memórias e as esperanças vividas num outro tempo. A poesia canta o
desterro geográfico, o exílio interior e exterior, as paixões amorosas frustradas e a saudade
em todas as suas acepções.
Babilônia e Sião são símbolos fundamentais do poema que metaforizam os
sentimentos expostos pelo autor. Sião, primeiramente, é colocada como a felicidade
passada, um tempo psicológico inevitavelmente perdido. Depois, a cidade é colocada com a
“Terra da Glória”, a possibilidade da vida virtuosa e eterna junto a Deus. Neste âmbito,
Babilônia representa o mundo terreno, o viver humano e o amor mundano.
A memória nas redondilhas Sôbolos rios que vão revela a angústia do eu lírico por
sentir-se irremediavelmente separado das glórias e contentamentos já passados. É algo que
a vivência trouxe, algo angustiante e dilacerante do qual não se pode fugir. A idéia de
memória é abordada de forma diferente em outra obra de Camões, Os Lusíadas.
Nesta épica, a abordagem da memória é ligada diretamente à intenção da fama e da
glória. A obra narra a longa aventura dos navegadores portugueses à chegada às Índias,
lideradas por Vasco da Gama. O autor canta os grandes feitos para imortalizar sua lenda e
seus heróis. A verdadeira razão, segundo Camões, para os homens se lançarem ao perigo e
ao desconhecido é a glorificação de seus atos e a conseqüente fama.

“Buscas o incerto e o incógnito perigo


Por que a fama te exalte e te lisonje”

Os homens só se tornam dignos da memória através de feitos virtuosos, que são


alcançados apenas através de muito esforço e coragem, confrontados a desconhecidos
perigos. Essa coragem e esforço caracterizam a idéia de virtude da estilística do
quinhentismo, unida a um caráter firme e generoso dos heróis. A honra só é possível a um
homem com tais qualidades, declaradas pelo poeta ao longo de sua épica.
Aqui, verifica-se o papel fundamental do autor. É através dos cantos que verdadeiros
heróis escapam da lei do esquecimento. É o poeta que imortaliza o heroísmo através de
suas letras na mente de um povo e de uma nação, como ocorre em Os Lusíadas. Os
heróis, através do Canto, são imortalizados pela fama na memória do povo, que passa a
cultuar a façanha e suas conseqüências, alem da figura do próprio herói. A memória torna-
se, dessa forma, imperecível, já que é constituída de caráter físico, moral e intelectual. Essa
memória, unida à honra, constrói a nobreza do heróico, dignidade que se torna um grande
obstáculo e exemplo à decadência moral.
Dentro do Renascimento, nota-se a característica da imitação dos clássicos, revelando
outro ponto em Os Lusíadas: o nacionalismo ufânico, que exige a imortalização do herói, de
sua fama e glória através de um artista incomum. O homem é, portanto, dilatado às
dimensões do universal pela forca resistente da memória, cantada pelo poeta.
Camões exprime, através de sua obra, as características dominantes da estética
cultural estabelecida em sua época, o Renascimento. Contudo, estabelece também uma
identidade entre o conflito que habita e o contexto natural. A memória é vista aqui como um
topos comum à sua obra, sendo o meio possível de expor seus sentimentos de dor e
nostalgia de um tempo de bem que não faz parte mais do seu presente ou ainda, como na
épica, um meio de imortalizar os heróis de seu país. Com isso, o poeta imortalizou a lenda,
seu próprio pais e a si mesmo, livrando-o do esquecimento da memória do povo e de sua
historia, glorificando seus heróis e a si mesmo.

Referências Bibliográficas

CAMÕES, Luís. Os Lusíadas. 13ª Edição. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

LEAL, Vilma Eleonora de Souza. A idéia da fama e da glória n´Os Lusíadas. São
Paulo, 1979. Tese de Mestrado – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
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LOURENÇO, Eduardo. Poesia e Metafísica: Camões, Antero e Pessoa. Sá da


Costa Editora.

MARTINS, Cristiano. Camões: Temas e Motivos da Obra Lírica. Belo Horizonte:


Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.
SÉRGIO, António. A lírica de Camões: Textos escolhidos. 1ª Edição. Lisboa:
Editora Vega, 1995.

SILVA, Vítor Manuel de Aguiar. Camões: Labirintos e Fascínios. Lisboa: Edições


Cotovia, 1994.