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HISTÓRIA DA MÚSICA PORTUGUESA II

5.2 A vida musical nos reinados de D. José I e D. Maria I

5.2.1 A ópera na corte e nos teatros públicos

Com a subida ao trono de D. José, em 1750, inicia-se um novo capítulo da história operática em
Portugal. Diretamente de Itália para a corte portuguesa contratou:

 O castrado Gizziello, um dos melhores cantores do seu tempo;


 O tenor Anton Raaf, que viria a tomar parte na estreia do Indomeneo de Mozart;
 O arquiteto Giovanni Bibiena, da principal família de arquitetos teatrais do séc. XVIII;
 O compositor David Perez, napolitano compositor de ópera séria, que veio assumir o
cargo de diretor musical da corte.

Bibiena chegou a lisboa em 1752 e trouxe consigo um cenógrafo e um maquinista teatral.


Começou por construir três teatros:

 Teatro do Forte, de caráter provisório situado no Paço da Ribeira;


 Teatro no Palácio de Salvaterra de Magos, de caráter permanente;
 Teatro da Ajuda, de caráter permanente;
 Ópera do Tejo que foi inaugurado a 31 de março de 1755 com uma récita de Allessandro
nell’Indie (ópera séria) de David Perez. Reuniu quase todos os maiores cantores italianos
da época numa produção que incluía cavalaria no palco.

O terramoto de 1 de novembro de 1755 fez ruir a Ópera do Tejo e a reconstrução feita por
Marquês de Pombal não viria a incluir nem a Ópera do Tejo nem a Capela Real da Patriarcal. O terramoto
provocou uma interrupção de uns 8 anos nos espetáculos de ópera, que seriam retomados numa escala
mais modesta e com um caráter mais de entretenimento privado do que de representação política. O
teatro que estava no ativo era o Teatro da Ajuda, mas que apenas tinha capacidade para umas 150
pessoas. No verão montavam-se ocasionalmente teatros provisórios no Palácio de Queluz e no Carnaval
faziam-se umas temporadas de maior dimensão no Teatro de Salvaterra de Magos.

Continuou-se a contratar um grande número de cantores em Itália sendo as vozes femininas


sempre substituídas por castrados. Vinham também bailarinos, instrumentistas e as partituras, assim
como os guarda-roupas e adereços, e os instrumentos.

Fontes musicais: na Biblioteca da Ajuda conservam-se mais de 700 partituras de ópera italiana da
segunda metade do séc. XVIII provenientes dos teatros reais, o que constitui uma das maiores coleções
do género existente em todo o mundo.

A partir da segunda metade do séc. XVIII a orquestra da corte começou a ser conhecida pelo nome
de Real Câmara. Nenhuma outra instituição do género, incluindo a do próprio papa, possuía uma tal
coleção de admiráveis músicos. Neste período a Real Câmara chegou a ter 51 instrumentistas. O caráter
internacional dessa orquestra manteve-se ao longo de todo o século: a maioria desses músicos eram
italianos, mas haviam também portugueses, espanhóis e germânicos.

Até ao terramoto o repertório dos teatros de corte foi essencialmente constituído por óperas
sérias de David Perez, mas quando os espetáculos foram retomados a partir de 1763 a ópera cómica/buffa
tornou-se muito mais popular, de acordo com uma tendência que se generalizara entretanto em toda a

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Europa. Porém, a corte portuguesa continuou a interessar-se pela ópera séria em especial pelas obras de
Niccolò Jommelli:

 Foi um importante agente da reforma do género dramático da ópera séria na segunda


metade do séc. XVIII;
 Em 1769 foi-lhe oferecida uma pensão de 400 sequins para que enviasse para Lisboa
anualmente uma ópera séria e uma buffa, a ainda algumas obras religiosas;
 Características do seu estilo que influenciaram os compositores portugueses da época:
 Utilização de recitativos acompanhados por toda a orquestra;
 Substituição de árias finais de cada ato por conjuntos vocais;
 Integração de coros, recitativos, conjuntos vocais e comentários
orquestrais em cenas dramáticas complexas.

Repertório teatral durante o reinado de D. José (5 obras) e D. Maria I (4 obras):

João Cordeiro da Silva:

 L’Arcadia in Brenta (1764)


 Lindane e Dalmiro (1789)

Pedro António Avondano: No entanto, a atividade destes


 Il mondo della luna (1765) compositores foi muito mais
produtiva com campo da
João de Sousa Carvalho: serenata e da oratória pois,
por razões de economia, estas
 L’amour industrioso (1769)
substituíram a ópera como
 Eumene (1772)
géneros favoritos da corte
 Testoride Argonauta (1780)
neste último reinado.
 Nettuno ed Egle (1785)

Jerónimo Francisco de Lima:

 Lo spirito di contradizione (1772)


 La vera costanza (1785)

Compositores mais importantes destes dois reinados:

João Cordeiro da Silva:

 Terá estudado em Nápoles, que na altura era o mais importante centro de


formação de compositores de ópera italiana;
 Foi organista e compositor da Capela Real da Ajuda;
 Responsável pela adaptação das óperas de Jomelli para os teatros da corte;
 Mestre no Seminário da Patrialcal.

Pedro António Avondano (1714-1782):

 Filho de Pietro Giorgio Avondano;


 Violinista da Real Câmara;

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 Principal responsável pela reorganização da Irmandade de St. Cecília (corporação
dos músicos de Lisboa) após o terramoto.

João de Sousa Carvalho (1745-1798):

 Foi o mais destacado compositor deste período;


 Iniciou os seus estudos musicais no Colégio dos Santos Reis de Vila Viçosa
prosseguindo depois para o Seminário da Patriarcal
 Foi bolseiro num conservatório em Nápoles, juntamente com os irmãos Braz e
Jerónimo Francisco de Lima
 Estreou a sua ópera La Nitteti em Roma antes de regressar a Lisboa.
 Sucessor de David Perez como mestre de música dos Infantes,
 Diretor não oficial da música da corte;
 Mestre no Seminário da Patriarcal.

Mestres do Seminário da Patriarcal no final do séc. XVIII:

 João Cordeiro da Silva;


 João de Sousa Carvalho;
 António Leal Moreira (1758-1819);
 Marcos Portugal (1762-1830);
 João José Baldi (1770-1816).

Devido à política de economia e à progressiva crise do regime absolutista, a decadência dos


teatros e de todo o estabelecimento musical da corte acentuou-se ao longo do reinado de D. Maria I. Com
a abertura do teatro de S. Carlos termina o ciclo da ópera de corte que havia durado 70 anos.

Os teatros do Bairro Alto e da Rua dos Condes, reconstruídos após o terramoto, recomeçaram a
partir de 1761 a alternar teatro declamado em português com óperas italianas e bailados representados
por companhias visitantes. Nestes dois teatros várias atrizes portuguesas apresentaram-se também como
cantoras, tal como Luísa Todi, uma das maiores cantoras internacionais da segunda metade do séc. XVIII.

Em 1771 criou-se uma Sociedade para a subsistência dos Teatros Públicos para gestão operática
e teatral segundo o modelo italiano. Os estatutos estabeleciam que teatro declamado em português
fosse apresentado apenas no Teatro do Bairro Alto e a ópera italiana no Teatro da Rua dos Condes.
Defendia ao mesmo tempo uma função educativa e civilizacional do teatro numa perspetiva que já
revelava uma influência iluminista. O breve período de existência da sociedade (1771-1774/75), foi
decerto o mais intenso em termos de produção operática nos teatros públicos de Lisboa na segunda
metade do século e antes da abertura do S. Carlos. Porém, as grandes despesas com os cantores e
bailarinos, depressa levaram à sua extinção, o que provocou um novo hiato de 15 anos na atividade
operática dos teatros públicos. Somente entre 1790-92 surge de novo ópera italiana no Teatro da Rua
dos Condes, dirigida pela primeira vez nos teatros públicos pelo português António Leal Moreira, que em
1793 assumiu a direção do recém-inaugurado Teatro de S. Carlos.

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5.2.2 A Música Religiosa

O género operático italiano influenciou o estilo da música religiosa portuguesa produzida no séc.
XVIII. Os principais modelos de referência terão sido as obras dos napolitanos David Perez (Mattutini dei
Morti) e Niccolò Jommelli (Missa de Requiem).

Compositores:

 João de Sousa Carvalho (1745-1798)


 Te Deum (1792): nitidamente clássico, monumentalidade coral, duplo coro.

 José Joaquim dos Santos


 Mestre de música do Real Seminário da Patriarcal e compositor da mesma;
 Compôs um Sabat Mater.

 Jerónimo Francisco de Lima

 Luciano Xavier dos Santos


 organista e mestre da Real Capela da Bemposta

 António da Silva Gomes e Oliveira


 Organista da Real Capela da Ajuda

Todos eles representam aspetos do estilo pré-clássico italiano e napolitano:

 Leveza e simplicidade do estilo galante;


 Virtuosismo muito ornamentado de certas passagens vocais solísticas;
 Escrita fugada dos andamentos corais nas obras religiosas;
 Expressividade sentimental evocadora da Empfindsamkeit.

5.2.3 Música instrumental e música doméstica: os concertos públicos e a modinha

A quantidade de música instrumental portuguesa que chegou até nós da segunda metade do séc.
XVIII é relativamente pequena por esta se ter conservado na posse dos próprios instrumentistas.

O principal compositor de música orquestral deste período foi Pedro António Avondano:

 2 sinfonias para orquestra de cordas


 3 concertos para violoncelos e orquestra
 Diversas sonatas para cravo
 Diversas sonatas para violoncelo e baixo contínuo.

Estava encarregue de compor música para os bailados das óperas do corte.

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Escreveu ainda minuetes para 2 violinos e baixo contínuo destinados aos bailes que que promovia
na sua própria casa, onde funcionava a Assembleia das Nações Estrangeiras, uma espécie de clube das
colónias estrangeiras. Aqui se realizavam também por vezes concertos públicos, nalguns casos antes dos
bailes. O mesmo começou a acontecer no intervalo das representações nos Teatros da Rua dos Condes
e do Salitre nas últimas décadas do século e no intervalo das óperas do após a inauguração do S. Carlos.
O programa desses concertos incluía árias e duetos de ópera, alternando com sinfonias e concertos para
um instrumento solista e orquestra.

Para além de concertos públicos, também eram comuns os concertos privados e a prática musical
doméstica nas casas da nobreza e da burguesia lisboeta durante a segunda metade do séc. XVIII e durante
o reinado de D. Maria I.

A música para conjuntos de câmara teve um especial desenvolvimento nos finais do séc. XVIII.
Em 1780 coleções de trios, quartetos, quintetos e serenatas de Haydn e Boccherini foram adquiridas para
uso da corte. João Pedro de Almeida Mota foi o único autor português de quartetos de cordas desta
época; esteve ao serviço de várias catedrais espanholas e da corte de Madrid.

A partir de 1770 começou a surgir no repertório dos salões aristocráticos e burgueses um género
de canção musical designado por MODINHA. Na primeira metade do séc. XIX o estilo musical da modinha
será cada vez mais influenciado pela ópera italiana, havendo inclusive várias modinhas que são evidentes
paráfrases de árias de óperas. A partir dos finais do séc. XIX a modinha começou a difundir-se em edições
impressas, em especial através de publicações periódicas como o Jornal de Modinhas. Compositores:
Marcos Portugal, António Leal Moreira e António da Silva Leite (1759-1833), mestre de Capela da Sé do
Porto, e o guitarrista Manuel José Vidigal.

António da Silva Leite publicou em 1792 Seis Sonatas de guitarra com acompanhamento de um
Violino e duas Trompas ad libitum e também um Estudo de guitarra (1795), ambos destinados a um
instrumento particular semelhante ao cister inglês que viria a ser o protótipo da atual guitarra portuguesa.
Foi também compositor de várias modinhas publicadas no Jornal de Modinhas.

À modinha se tem atribuído de certo modo o papel de antecessora do fado. Um outro instrumento
particular na época era a guitarra de 5 ordens, para o qual também foram publicados vários métodos para
aprender a tocar esse instrumento.

O abade António da Costa foi também um guitarrista e compositor da música do séc. XVIII e que
foi forçado a fugir do Porto em 1750.

Da restante música instrumental escrita na segunda metade do séc. XVIII destaca-se a produção
para instrumentos de tecla nomeadamente para o pianoforte que começava a substituir o cravo.
Compositores:

 Francisco Xavier Batista (-1797)


 Doze Sonatas com Variações, Minuetos para Cravo, únicas obras para tecla que
se publicaram em Portugal durante o séc. XVIII.

 João de Sousa Carvalho


 O mais notável compositor de música para tecla da segunda metade do século;
 Sonata em Sol menor.

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 Frei Manuel Elias
 Organista do convento dos Paulistas de Lisboa
 Compôs 3 sonatas

Manuais para instrumentos de tecla que ensinam essencialmente a realizar acompanhamentos


segundo a técnica do baixo continuo, numa altura em que essa técnica já se encontrava no esquecimento:

 Alberto José Gomes da Silva


 Regras de acompanhar para cravo, ou órgão(…)

 Francisco Inácio Solano


 Novo tratado de música métrica e rítmica, o qual ensina a acompanhar no cravo,
órgão ou outro qualquer instrumento (…)

SÉCULO XIX
A importância dos Teatros de São Carlos e São João na vida musical do século XIX

A partir da última década do século XVIII a vida musical portuguesa foi dominada pela atividade
dos teatros de ópera na cidade de Lisboa e do Porto, o que irá constituir o eixo central de toda a vida
musical ao longo do século XIX.

A abertura dos Teatros de São Carlos (Lisboa) e de São João (Porto) na última década do século
XVIII, marca o aparecimento de casas de espetáculo públicos, construídos segundo o modelo
arquitetónico italiano e que irão funcionar até ao final do século de acordo com o sistema produtivo
que essa mesma Itália exportava para quase toda a Europa. Ambos os teatros eram alugados a
empresários que montavam toda a temporada e dirigiam a companhia lírica, formada na sua maioria
por cantores italianos, recebendo simultaneamente um subsídio do estado.

Até aos últimos anos do século XVIII o repertório do Teatro de São Carlos era quase unicamente
composto por óperas cómicas e drama giocosi, começando a partir daí a incluir também ópera séria. O
único compositor português representado durante os primeiros 5 anos de funcionamento do teatro foi
António Leal Moreira, na altura seu diretor musical, com o drama joco-sério em um ato A Vingança da
Cigana em 1794, cujo libreto é da autoria de Domingos Barbosa e no ano seguinte com o drama per
musica l’eroina lusitana.

Era também comum a inclusão de bailados entre dois atos de cada ópera e nos dias em que
não haviam espetáculos de ópera, uma companhia dramática apresentava teatro declamado em
português.

Em 1796 é inaugurado um salão no primeiro andar (Salão Nobre) destinado à apresentação de


oratórias e outras peças de música sacra durante a quaresma, altura em que não era autorizada a
representação de óperas.

No último ano do século o teatro apresentou pela primeira vez uma ópera de Marcos Portugal,
compositor cujas obras já se haviam celebrizado em toda a Itália e noutros pontos da europa e em 1800
o mesmo assume o cargo de diretor musical do teatro.

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O repertório das óperas da primeira metade do século XIX continua a ser dominado pelas
produções italianas quer do género sério quer do buffo e por algumas óperas francesas cantadas em
italiano.

Na temporada de 1806 foi apresentada pela primeira vez uma ópera séria de Mozart La
Clemenza di Tito.

Durante as invasões francesas o teatro encerra e reabre em 1815 apresentando as primeiras


óperas de Rossini que dominarão todo o repertório ao longo dos 10 anos seguintes.

Encerrado de novo durante a guerra civil reabre após a vitória liberal e o seu repertório assenta
principalmente em compositores como Rossini, Donizetti e Bellini.

Em 1839 o teatro vive um dos períodos mais brilhantes da sua história aquando da contratação
do compositor italiano Pietro Coppola que escreveu propositadamente para o teatro várias óperas
nomeadamente Inês de Castro.

Uma nova viragem dá-se em 1843 com a estreia de Nabucco de Verdi a qual inaugura um
predomínio das produções verdianas que se manterá durante os 40 anos seguintes.

A partir dos anos 80 do século XIX as óperas francesas começaram a entrar no repertório,
nomeadamente as de Massenet, mas que no entanto eram cantadas mais uma vez em italiano.
Começam também a ser introduzidas as primeiras óperas de Wagner. Esta transformação do repertório
rapidamente é contrariada pela corrente operática italiana, o verismo, com a representação de óperas
de Puccini.

Após a Implantação da República o teatro encerra juntamente com o fim do monopólio das
companhias italianas, após 120 anos desde a fundação do teatro lírico na capital.

MARCOS PORTUGAL (1762-1830)

Foi aluno de João de Sousa Carvalho no seminário da Patriarcal onde se havia formado segundo
a tradição clássica italiana. Iniciou a sua carreira musical em 1785 como diretor musical do Teatro do
Salitre. Parte para Itália 7 anos mais tarde onde rapidamente obtém uma bem-sucedida carreira de
compositor de ópera. Em 1793 estreou em Florença a sua ópera La confisione della somiglanza à qual
obtém grande sucesso.

Em 1800 estabelece-se em Portugal e substitui o seu cunhado António Leal Moreira no cardo de
diretor musical do Teatro de São Carlos e assume também a direção da Capela Real. Parte em 1810 para
o Brasil para se juntar à corte portuguesa onde assume o cargo de primeiro diretor do teatro de São
João recém-inaugurado. Dedicou a última fase da sua vida especialmente à música religiosa.

A sua personalidade musical parece não ter evoluído ao longo da sua carreira operática
setecentista que havia aprendido em Itália. É considerado o compositor português de todos os tempos e
cuja obra teve maior difusão internacional.

O Teatro de São João foi inaugurado em 1798 no Porto e o seu repertório parecia seguir as
tendências do São Carlos. A informação que existe é escassa devido ao incêndio que sofreu cerca de
100 anos depois. Porém sabe-se que a qualidade dos cantores e do repertório era inferior ao teatro
lisboeta de certa forma devido ao subsídio que este recebia ser bastante inferior. No entanto durante

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todo o século XIX este teatro manteve-se como principal casa de espetáculos do Porto com a função de
teatro lírico e teatro declamado.

O Teatro das Laranjeiras situado em Lisboa foi o mais importante teatro privado português. Foi
mandado contruir pelo conde de Farrobo e inaugurado em 1825. Foi palco de espetáculos de ópera em
que participaram tanto cantores profissionais como amadores, portugueses e italianos, incluindo o
próprio conde e outros membros da família.

Durante o primeiro quartel do séc. XIX o teatro musicado em português foi cultivado no Teatro
da Rua dos Condes, do Salitre e do Bairro Alto. Repertório:

 Dramas muitas vezes traduzidos de outras línguas;


 Peças ligeiras, tais como farsas, entremezes ou comédias;
 Adaptações portuguesas de óperas cómicas de autores italianos.

Tentativa de criação de uma ópera nacional

Só a partir dos anos de 1860, o teatro lírico em Portugal conheceu raras tentativas de criação de
óperas sobre temas de raiz nacional e ainda menos a utilização da língua portuguesa em espetáculos de
ópera.

O único exemplo relevante a mencionar, no campo das tendências nacionalistas é o drama lírico
Os Infantes em Ceuta, com música de António Miró e libreto de Alexandre Herculano.

Francisco Sá Noronha é o primeiro compositor português a inspirar-se diretamente em fontes


pré-existentes da nossa literatura romântica, centrando-se especialmente na obra de Almeida Garrett,
escritor este que levou a cabo anos antes um projeto reformador do teatro português.

Serrana (1899) é considerada a primeira ópera nacionalista portuguesa. Foi composta pelo
pintor e compositor Alfredo Keil que se inspirou em Camilo Castelo Branco. Foi a primeira ópera a ser
impressa com texto português mas no entanto, esta revela influência de compositores franceses como
Massenet ao qual a obra é dedicada e algumas características da tradição da ópera romântica italiana,
nomeadamente a utilização de um coro de abertura para cada um dos atos. b devem-se principalmente
à adaptação de práticas populares como o tocar dos sinos e a utilização de melodias que sugerem
várias cantigas tradicionais portuguesas.

A música instrumental portuguesa

JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO (1775-1842) único autor de relevo no campo da música instrumental do séc. XIX

A música instrumental portuguesa deste período (transição do séc. XVIII para o XIX) é dominada pela
figura deste pianista e compositor. Introduziu em Portugal a música instrumental de raiz germânica,
boémia e francesa, contribuiu para reforma do ensino musical segundo o modelo laico do

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conservatório de Paris e contribuiu ainda para a criação de uma sociedade de concertos, a Sociedade
Filarmónica em 1822.

Bomtempo terá começado a sua formação musical com o pai que era oboísta da Real Câmara.
Segue os seus estudos musicais em Paris onde começa a publicar as suas obras e a apresenta-las em
concertos. A sua carreira musical alternou-se entre Paris, Londres e Lisboa. Em 1819, compõe e publica
em Paris a sua obra mais conhecida, o Requiem à memória de Camões. Em 1820 regressa
definitivamente a Lisboa e apresenta algumas das suas obras sacras.

Depressa se transformou no compositor oficial do novo regime e consegue levar a cabo o seu
projeto da criação da Sociedade Filarmónica. Em 1834 foi nomeado diretor do novo Conservatório de
Música (posteriormente integrado com escola de música no Conservatório Geral de Arte Dramática, criado por Almeida Garrett). Os
últimos anos da sua vida dividem-se entre a sua atividade no conservatório e saraus no paço e nas
principais casas de Lisboa.

Obras: 2 sinfonias; 6 concertos para piano e orquestra; sonatas; fantasias e variações para
piano; obras vocais religiosas.

Processos pelos quais o polo central da vida musical portuguesas se deslocou do teatro lírico
para a música instrumental desde o final do século XIX.

A principal mudança ocorrida na vida musical portuguesa parece residir na deslocação do seu
polo central do teatro lírico para a música instrumental. O fator determinante desta deslocação deve-se
à progressiva aproximação dos músicos portuguesas à música alemã. A importação da cultura musical
germânica, considerada como sendo de qualidade superior face à cultura operática italiana e aos seus
derivados, irá constituir uma ideia base da formação dos músicos portugueses que estabeleceram a
ponte entre o séc. XIX e XX. A escolha da Alemanha como destino de estudo começou a intensificar-se
entre os músicos portugueses, principalmente os instrumentistas. No Porto os maiores vultos de finais
de século como Bernardo Moreira de Sá, Guilhermina Suggia e Raimundo Macedo estudaram nesse
país, e o mesmo aconteceu em Lisboa com figuras como Alexandre Rey Colaço e o maestro Vitor Hussla.

Associações de concertos como ponto de partida para o desenvolvimento da música


instrumental

O aparecimento das sociedades de concertos acentuou-se a partir da década de 1860. Em


Lisboa a primeira foi a Sociedade de Concertos Populares, fundada por Augusto Neuparth e Guilherme
Cassoul, logo de seguida a Orquestra 24 de Junho, a Sociedade de Concertos de Lisboa (Viana da Mota)
e já no final do século e a mais importante a Real Academia de Amadores de Música.

Orquestra 24 de Junho (1870): foi dirigida por vários maestros estrangeiros destacando-se
Francisco Barbieri ao interpretarem obras de Haydn, Mozart e Beethoven, entre outros.

Sociedade de Concerto de Lisboa (1875): dedicou-se especialmente à música de câmara.

Real Academia de Amadores de Música (1884): foi fundada por um grupo de melómanos com o
objetivo de fazer difundir o gosto pela boa música através do ensino, concertos e conferências. A sua
orquestra contava inicialmente com 62 músicos sob a direção de Filipe Duarte mais tarde com Vitor
Hussla, e ainda maestros estrangeiros. Colaboraram ainda cantores internacionais que visitavam o São
Carlos e concertistas portugueses como Viana da Mota, Guilhermina Suggia e Óscar da Silva. A
academia desenvolveu uma componente pedagógica, numa espécie de conservatório paralelo, sendo

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de realçar a formação germânica dos vários professores que lá ensinavam, à academia esteve também
ligado Alexandre Rey Colaço como pianista e compositor. O período áureo desta instituição terminou
após a Primeira Guerra Mundial em parte devido à extinção da orquestra que era o seu polo principal.

Na primeira década do séc. XX, a atividade concertística na capital foi marcada pela visita de
grandes orquestras estrangeiras destacando-se Orquestra Filarmónica de Berlim e todas elas
apresentavam no seu repertório obras de Wagner.

No Porto a influência germânica fez-se sentir de uma forma bastante acentuada, traduzindo-se
numa intensa atividade docente e concertística cujos principais agentes foram Bernardo Moreira de Sá,
Guilhermina Suggia e Raimundo Macedo.

Instituições fundadas por Bernardo Moreira de Sá:

Sociedade de Quartetos (1874): foi das primeiras instituições do género a existir em todo o país.

Sociedade de Música de Câmara

Quarteto Moreira de Sá (1884): viria a integrar a jovem violoncelista Guilhermina Suggia;


primeiras audições em Portugal dos quartetos de Beethoven.

Orfeão Portuense (1891): promovia originalmente concertos corais e sinfónicos; sessões de


música de câmara com músicos portugueses e estrangeiros.

Conservatório do Porto (1917): Bernardo Moreira de Sá elaborou um plano de estudos que terá
servido de base à reforma levada a cabo por Viana da Mota no Conservatório de Lisboa.

Figuras importantes da cidade do Porto:

BERNARDO MOREIRA DE SÁ (1853-1924)

Foi um importante violinista, maestro, pedagogo e musicógrafo. Começou por estudar violino
no Porto e partiu depois para Berlim onde trabalhou com o grande violinista Joachim. Tornou-se um
wagneriano convicto. Como violinista efetuou digressões artísticas na companhia de Viana de Mota.
Quando regressou ao Porto fundou diversas instituições. Como musicógrafo escreveu e publicou
diversas obras sobre a história da música.

GUILHERMINA SUGGIA

Nascida no Porto, aos 12 anos já era chefe de naipe dos violoncelos da Orquestra Sinfónica do
Orfeão Portuense e aos 13 viria a integrar o Quarteto Moreira de Sá. Em 1901 partiu para a Alemanha
para estudar violoncelo. Apresentou-se com êxito em várias capitais europeias tendo-se estabelecido
em Londres, onde viveu vários anos.

Regressou mais tarde ao Porto retirando-se praticamente da vida artística. Dedica-se ao ensino
privado e toca algumas vezes para instituições culturais e de beneficência. Um ano antes de morrer
realizou ainda concertos com a Orquestra Sinfónica Nacional em Lisboa.

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Guilhermina Suggia contribuiu fortemente para o desenvolvimento musical do Porto tendo
levado a cabo uma brilhante carreira musical internacional.

RAIMUNDO MACEDO (1889-1931)

Desenvolveu uma ação importante como pianista e chefe de orquestra. Estudou no Porto
prosseguindo os seus estudos na Alemanha. Como concertista apresentou-se em vários países optando
mais tarde por fixar-se no Porto. Em 1910 funda a Sociedade de Concertos Sinfónicos, a qual dirige
durante 8 anos. Mais tarde muda-se para o Brasil onde acaba por falecer.

ÓSCAR DA SILVA (1870-1958)

Começou os estudos de piano no Porto com Félix Moreira de Sá. Matricula-se depois no
Conservatório de Lisboa para estudar piano e na Real Academia de Amadores de Música para estudar
harmonia com Victor Hussla. Estudou na Alemanha com Clara Schumann. Pretendeu dar ao
romantismo germânico um caráter português. A maior parte da sua obra destina-se ao piano solo, mas
escreveu uma ópera Dona Mécia que agradou fortemente ao público de Lisboa aquando da sua estreia
no coliseu em 1901.

Figuras importantes da cidade do Lisboa:

ALEXANDRE REY COLAÇO (1854-1928)

Foi um pianista e compositor marroquino naturalizado português. Estudou no Conservatório


de Madrid e completou os seus estudos em Paris, partindo depois para Berlim. Em 1887 fixou-se
definitivamente em Lisboa dedicando-se especialmente ao ensino no Conservatório de Lisboa e na Real
Academia de Amadores de Música. Compôs também algumas obras na sua maioria danças e melodias
populares, sempre dentro de um contexto estético nacionalista ainda de raiz romântica.

VIANA DA MOTA (1868-1948)

Foi um pianista, compositor, pedagogo e musicógrafo responsável pela mudança no gosto do


público e do ensino, da influência da ópera italiana para a influência da música instrumental
germânica.

Nascido em S. Tomé, completou os seus estudos no Conservatório de Lisboa e depois recebeu


uma bolsa para continuar a sua formação em Berlim. Em Weimar teve várias aulas de piano com Liszt
nos últimos anos da vide deste. Em Berlim faz várias tournées, mas devido à primeira guerra mundial
mudou-se para Genebra onde para a lecionar no conservatório. Regressa a Portugal para ser diretor do
Conservatório de Lisboa e elabora, em conjunto com Luís Freitas Branco uma importante reforma no
ensino desta instituição (tal como Moreira de Sá já tinha feito no Porto).

Se enquanto pianista se encaixa na tradição germânica, enquanto compositor parte da


estética romântica alemã para a criação do folclore nacional e integração de temas populares na
música instrumental. A sua sinfonia À Pátria encaixa-se nesta corrente, sendo a primeira sinfonia
bitemática desde Bomtempo.

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Na área do espetáculo, o grande objetivo de Viana da Mota foi substituir a ópera italiana pela
música instrumental e para tal fundou a Sociedade de Concertos de Lisboa à qual se seguiram outras.

SUMA

No entanto, a longo prazo a ação germanizante destes músicos foi insuficiente para que se
estabelecesse uma massa crítica que permitisse efetivar essa mudança a nível do público. Por outro
lado, se estas figuras representam um novo perfil de músico culto, socialmente respeitado, a profissão
de músico continuou a não gozar de um modo geral de grande prestígio.

A76587 – Joana Isabel Ribeirinho Fernandes -19 de abril de 2017 12