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ARIEL GARCIA CORRÊA

Contra Cultura e os desdobramentos do Rock: Led Zeppelin e


o Cromatismo

UNESP - FRANCA

2017

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Contra Cultura e os desdobramentos do
Rock: Led Zeppelin e o Cromatismo

Através da história do ocidente, vários estilos musicais se alternaram como


predominantes em cada período histórico. Entretanto, no século XX, com as
vanguardas artísticas e musicais, essa determinação de estilo se tornou mais
problemática, pois se buscou predominantemente a experimentação.
Para além das vanguardas de início do século, outro período cultural de
grande indeterminação de estilo no século XX foi o da Contra Cultura, que se
manifestou de 1960 a 1975. Nos conta James E. Perone que nesse período a
música pertinente ao movimento da contra cultura emergiu de várias influências
diversas que se ramificaram e se reorganizaram em novos experimentos sonoros. O
blues teria dado origem ao Rock’n’Roll entre as famílias negras empobrecidas do sul
dos Estados Unidos na década de 50. Por outro lado, a música Folk teria sido outro
estilo que previamente ao início do período estudado, era vinculado aos movimentos
de reivindicações sociais e de protesto. Entre as temáticas musicais do Folk, nos
anos 60, foi integrada a esse estilo a crítica à guerra e a integração das minorias
raciais. Um dos maiores ícones desse estilo foi Bob Dylan. Além do Folk, vários
grupos de rhythm and blues de Detroit foram significativos na década de 60,
apelidados de ‘’Motown’’, por causa do nome da cidade. Uma combinação da
música ‘’surf’’ com riffs de rock’n’roll e harmonias doo-wop surgiu na California e
passou a influênciar o estilo de vida americano, aponta Perone (2004, p. 19-21).
O prelúdio da formação das tendências predominantes na contra cultura, em
sua estruturação no campo abstrato, já havia tido início com os poetas beat dos
anos 50, que prepararam o significado simbólico do movimento, descreve Carlos
Alberto Messeder Pereira (1992, p.9). Não obstante, a contra cultura se manifestou,
durante os anos 60, não apenas no campo das ideias, mas também na música, no
estilo de vida e no visual das pessoas. Sobre essas características do movimento,
Pereira diz:
‘’Aos poucos, os meios de comunicação de massa
começavam a veicular um termo novo: contra-cultura. Inicialmente, o
fenômeno é caracterizado por seus sinais mais evidentes: cabelos
compridos, roupas coloridas, misticismo, um tipo de música, drogas e
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assim por diante. Um conjunto de hábitos que, aos olhos das famílias
de classe média, tão ciosas de seu projeto de ascensão social,
parecia no mínimo um despropósito, um absurdo mesmo.
Rapidamente, no entanto, começa a ficar mais claro que aquele
conjunto de manifestações culturais novas não se limitava a estas
marcas superficiais. Ao contrário, significava também novas
maneiras de pensar, modos diferentes de encarar e de se relacionar
com o mundo e com as pessoas. Enfim, um outro universo de
significados e valores, com suas regras próprias.
Começavam a se delinear, assim, os contornos de um
movimento social de caráter fortemente libertário, com enorme apelo
junto a uma juventude de camadas médias urbanas e com uma
prática e com um ideário que colocavam em xeque, frontalmente,
alguns valores centrais da cultura ocidental, especialmente certos
aspectos essenciais da racionalidade veiculada e privilegiada por
esta mesma cultura. Ainda que diferindo muito dos tradicionais
movimentos organizados de contestação social – e isto tanto pelas
bandeiras que levantava, quanto pelo modo como as encaminhava –
a contra-cultura conseguia se formar, aos olhos do sistema e das
oposições (ainda que gerando incansáveis discussões), como um
movimento profundamente catalisador e questionador, capaz de
inaugurar para setores significativos para a população dos Estados
Unidos e da Europa, inicialmente, e de vários países de fora do
mundo desenvolvido, posteriormente, um estilo, um modo de vida e
uma cultura underground, marginal, que, no mínimo, davam o que
pensar (PEREIRA, 1992, p.8-9).

Como já foi aqui exposto, foram os beatniks ou poetas beat que deram início
ao movimento, sendo Allen Ginsberg um dos mais famosos dentre eles. Escreviam
seus poemas em meio a um estilo de vida excêntrico, regado ao uso de drogas e
sexualidade, e isso os desviava do modo de vida tradicional. Suas críticas eram
principalmente à sociedade de consumo e à alienação na qual as pessoas estavam
submetidas na sociedade capitalista, explica Luana Caroline Sossmeier e Larissa
Cristina Parizotto (SOSSMEIER; PARIZOTTO, 2013, p. 1-2). O Rock, que esteve
presente naquela década de 1960 e que acompanhou ideologicamente a contra
cultura teve um papel muito proeminente nesse movimento:

‘’Falar do movimento contracultural envolve falar do Rock que


acompanhou a contracultura nesse período histórico e que mostrou
de forma expressiva seus mais conhecidos nomes. Nos anos 60 o
rock contava com suas raízes nos EUA, porém já não pulsava mais
como antes, foi nessa mesma época que a juventude do Reino Unido
começou a ser influenciada e os jovens ansiavam por uma
renovação. Foi então que The Beatles e The Rolling Stones
marcaram a reinvenção do rock. No início os Beatles faziam suas
letras de forma mais ingênua, enquanto The Rolling Stones já
demonstravam sua postura rebelde e crítica. Um exemplo foi a
música “Street Fightin Man”, onde Mick Jagger e Keith Richards

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falam sobre os protestos ocorridos na Guerra do Vietnã, esse caráter
é facilmente identificado nos versos “Hey! Think the time is right for a
palace revolution” (Hei, Acho que é a hora certa para uma revolução
palaciana) ou “(...) the time is right for fighting in the street” (é a hora
certa para lutar na rua”.’’ (SOSSMEIER; PARIZOTTO, 2013, p.4)

Entre as influências no Rock predominantes na década de 60 estavam em


especial, a psicodelia, que acoplou elementos orientais e da música hindu, assim
como o uso da cítara. Nessa tendência era comum o uso de drogas e de roupas
coloridas, assim como o pensamento ocultista e o misticismo oriental. Por meio do
uso das drogas, os artistas psicodélicos procuravam uma expansão da percepção e
da consciência, que se tornaria o método para novas abordagens criativas, no qual
se alcançaria um estado mental semelhante ao êxtase religioso, demonstra Marina
Varela (VARELA, 2015, p.1-2). Sobre a dimensão dessa arte psicodélica Varela
argumenta:

‘’A arte psicodélica já existia desde da descoberta do LSD por


Albert Hofmann, na década de 1940, mas ganhou força com o
movimento de contracultura quando os artistas da década de
sessenta e setenta começaram a implementar estes elementos
psicodélicos em pôsteres de concertos, capas de álbuns, lightshows,
murais, histórias em quadrinhos e jornais. As características desta
arte são padrões de fractais ou caleidoscópicos, com cores brilhantes
e/ou altamente contrastantes. A arte ainda apresenta elementos
inspirados pela Art Nouveau, Victoriana, Dadaísta, Pop Art, Op Art e
Horror Vacui. O movimento de arte psicodélica pode ser considerado
semelhante ao movimento surrealista em que prescreve um
mecanismo para obter inspiração. Considerando que o mecanismo
de surrealismo é a observância dos sonhos, um artista psicodélico
transforma a alucinações induzidas por drogas.’’ (VARELA, 2015,
p.2).

Esse movimento da contra cultura, propagado pelos artistas, também existiu


no Brasil durante as décadas de 60 e 70, enquanto o país estava submetido a uma
ditadura militar. As produções artísticas desse gênero, em terras tropicais, eram
produzidas para uma divulgação pelo público underground. Muitos jovens do
movimento estudantil também empregavam os valores da contra cultura e eram
inspirados pela nova esquerda norte americana. O movimento da Jovem Guarda de
1965 teria sido o grande expoente do rock’n’roll brasileiro, trazendo em suas
composições elementos da contra cultura. Não obstante, outra tendência dentro
desse movimento surgiu com o nome de tropicália, e procurava fazer seu protesto
através de um hibridismo musical, nos conta Felipe Flávio Fonseca Guimarães

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(2012, p. 1-10). O mesmo faz uma descrição das características marcantes da
tropicália:

Por possuir ligação com a cultura popular brasileira, e ao


mesmo tempo com os mesmos ideais da contracultura, a tropicália
nos chama atenção pois, diferentemente da Jovem Guarda, não
tenta se tornar cópia do que era produzido de arte no exterior, mas
sim produzi-la baseando-se na cultura popular do Brasil e
mesclando, interligando com o que era produzido fora do país
(GUIMARÃES, 2012, p. 1-10).

No velho mundo também se formaram tendências especificas, de 1966 a


1970, no cenário underground da comunidade britânica. Jovens de classe média e
média alta formavam conjuntos musicais influenciados por essa psicodelia da contra
cultura, e juntamente com a influência do rock’n’roll, blues, jazz e a música folk que
agiram sobre a música norte americana, eles também beberam da herança
europeia, da música barroca, clássica e até medieval. Várias bandas emergiram
nesse período, sendo talvez os mais famosos: Led Zeppelin e Pink Floyd. Dessa
vertente musical britânica teria se desdobrado um estilo musical especifico
denominado Rock Progressivo, nos conta Edward Macan (MACAN, 1997, p.15-37).
Esses grupos da cena musical inglesa desse período teriam buscado inspirações no
álbum do Sg.Pepper, dos Beatles:

‘’…It was in the Beatles’ music of 1966 and 1967 – particularly


in their album Seargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band – that
many of the elements that later characterized English progressive
rock first appear. One sees in this album a self-conscious eclecticism,
a mixing of many different musical styles in witch devices derived
from several styles of classical music figured proeminently. If there
are references to Baroque chamber idioms (‘’She’s Leaving Home’’),
there are also references to the avant-guarde electronic
experimentation of Karlheinz Stockhausen, whose face appears
among the crowd that has come to witness the Beatles’ “funeral” on
the back of the album cover.
One also sees a new concert for large-scale structure. The
different songs of Seargent Pepper are part of an overall song cycle
unified by the recurrence of the opening song in varied form near the
end of the album, by the imaginative use of taped effects to tie the
different songs together, and above all by the adherence to a specific
concept that is developed from song to song. In short, Seargent
Pepper was generally recognized as the firs concept album. The
practice of tying a series of together by using both a recurring melodic
theme and program – that is, a unifying idea or concept which is
developed in the lyric of the individual songs – can be traced back to
the song cycles of early-nineteenth-century composers such as Franz
Schubert and Robert Schumann. Not surprisingly, critics were quick
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to comment on Seargent Pepper’s “classical” conception of structure
(MACAN, 1997, p. 20-21).

Entretanto, alguns discos de conjuntos específicos, dessa


ramificação inglesa, escaparam da categorização de estilo e fizeram parte da
experimentação que compunha a contra cultura. Entre elas, o melhor exemplo talvez
seja o Led Zeppelin.
A banda foi formada em 1968, com Robert Plant nos vocais, John
Paul Jones como tecladista e baixista, John Bonham na bateria e Jimmy Page
tocando guitarra e sendo o maior responsável pela fundação do conjunto. A
visibilidade do Led Zeppelin foi favorecida pelo fato de Jimmy Page ter sido
anteriormente baixista do grupo Yardbirds, que era conhecido no meio musical
daquele período. Entre as influências das quais as composições da banda se
inspiravam estava a música folk, o blues, música soul, country, música indiana, rock
and roll e música celta. Um dos discos mais famosos da banda foi o Led Zeppelin IV,
com vinte e três milhões de cópias vendidas. Nesse disco, uma das canções mais
famosas talvez tenha sido ‘’Stairway to Heaven’’. A música teria sido composta por
Robert Plant e Jimmy Page. O solo elaborado por este último na constituição dessa
música foi considerado o melhor de toda a história e também alavancou a marca de
guitarras Gibson, usada por Page. Tocada de frente para trás, a música foi acusada
de emitir mensagens satânicas, descreve Julio Alonso Arévalo (p. 1, 80-82).
A letra revela um sentido abstrato que da margem a interpretações
subjetivas. De algum modo busquei interpretar da forma como me pareceu mais
lógica: a ideia central é uma mulher que compra uma escadaria para o paraíso e que
tudo o que brilha para ela é ouro. A letra também trata de duplicidade de sentidos,
de haver escolha entre dois caminhos para trilhar, do sentido filosófico e
possivelmente esotérico dos números (quando se diz que todos são um e um são
todos). Talvez haja mesmo um sentido de crítica à sociedade de consumo, tão
recorrente no movimento de contra cultura. Isso pode ser interpretado de forma que
a mulher em questão procura comprar algo e assim atingir a iluminação espiritual, o
que seria uma noção equivocada e entorpecida da realidade: presente nessa
sociedade voltada ao consumo. Essa noção de haver dois caminhos para trilhar
também poderia ser vinculada a uma escolha do individuo entre a alienação
consumista e materialista, ou a iluminação pelo êxtase transcendental. Parece-me

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coerente esta interpretação devido ao caráter orientalista que influenciou a contra
cultura, na qual se buscava a iluminação transcendental e a expansão da
consciência.
Em perfeita consonância com o sentido da letra, a composição da música
parece extrapolar, em geral, os limites impostos pela indústria, revelando o seu
vínculo com o movmento. Sobre essa característica de Stairway to Heaven Brad
Tolinski diz:
9) “Stairway to heaven” (Led Zeppelin IV)
Page passou por cima de duas regras da música pop nessa
obra-prima: ela tem mais de oito minutos, duração que já foi proibitiva
nas rádios pop, e o ritmo aumenta à medida que a música se
desenvolve. “Stairway ” é o epítome do brilhantismo de Page não só
como guitarrista, mas também como compositor e arranjador, pois
ele sobrepõe violões de seis cordas e guitarras elétricas de doze
cordas ao longo de uma bela composição que faz um crescendo
gradual até culminar no que muitos consideram ser o solo de guitarra
perfeito (TOLINSKI, 2012, p.226).

O desenvolvimento progressivo da música revela um cromatismo,


que vai diversificando a mesma e a direcionando a um destino desconhecido. Isso
ocorre porque dentro de uma estrutura tonal são tocadas notas da escala cromática,
desencadeando variações no desenvolvimento melódico da composição. Essa
escala cromática é estruturada através da progressão de semitons.
Tal estrutura musical é observável com maior frequência na
sociedade ocidental a partir das composições do alemão Richard Wagner, na
segunda metade do século XIX, quando manifestações mais intensas contra o
sistema tonal foram observadas. A fase de experimentação musical e artística no
século XX certamente perpetuou o uso desse cromatismo, e um dos seus
desdobramentos está na arte de contra cultura, exemplificada pela Stairway to
Heaven do Led Zeppelin.

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Bibliografia:

ALONSO ARÉVALO, JULIO. Led Zeppelin: Los Señores del Rock. Creative
Commons.
E. PERONE, JAMES. Music of the Counterculture Era. Greenwood Press, 2004.
MACAN, EDWARD. Rocking the Classics: English Progressive Rock and the
Counterculture. Oxford University Press, 1997.
M. PEREIRA, CARLOS ALBERTO. O que é contracultura. Editora brasiliense,
1992.
SOSSMEIER, LUANA CAROLINE; PARIZOTTO, LARISSA CRISTINA. Anos 60, o
avanço da contracultura e a influência do rock no movimento hippie. I
Congresso Internacional de Estudos do Rock – UNIOESTE, 2013.
TOLINSKI, BRAD. Luz e Sombra: conversas com Jimmy Page. Le Livros, 2012.
VARELA, MARINA. O Rock Psicodélico e a Cultura das Drogas. XVII Congresso
de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 2 a 4/07/2015.