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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Pike, Albert, 1809-1891.
Moral e dogma do rito escocês antigo e aceito /
Albert Pike ; tradução Celes Januário Garcia Junior,
Glauco Bonfim Rodrigues. -- Birigui, SP : Editora
Yod, 2011.
Título original: Morals and dogma of the ancient
and accepted scottish rite of freemasonry.
ISBN 978-85-63947-03-1
1. Maçonaria 2. Maçonaria - História
3. Maçonaria - Rituais 4. Maçons I. Título.
11-04444 CDD-366.1

EDITORA YOD
Corpo Editorial: Celes J. Garcia Junior
Glauco B. Rodrigues

editoorayod@gmail.com
www.editorayod.com.br
SUMÁRIO

PREFÁCIO

I. APRENDIZ

II.COMPANHEIRO

III.MESTRE
BIOGRAFIA

Albert Pike, nascido em 29 de Dezembro de 1809, era o mais velho dos seis
filhos de Benjamin e Sarah Andrews Pike. Pike foi educado em um lar cristão
e frequentava uma igreja Episcopal. Pike passou no exame vestibular em
Harvard quando tinha 15 anos de idade, mas não pôde prosseguir, porque não
possuía fundos suficientes. Após viajar para o oeste, até Santa Fé, Pike
situou-se no Arkansas, onde trabalhou como editor de um jornal antes de ser
admitido no tribunal. No Arkansas, conheceu Mary Ann Hamilton, e casou-se
com ela em 18 de Novembro de 1834. Dessa união nasceram 11 filhos. Ele
possuía 41 anos quando solicitou sua admissão na Western Star Lodge No. 2
(Loja da Estrela do Oriente) em Little Rock, Arkansas, em 1850. Membro
ativo na Grand Lodge of Arkansas, Pike assumiu os 10 Graus do Rito de
York entre 1850 e 1853. Recebeu os 29 graus do Rito Escocês em março de
1853, de Albert Gallatin Mackey, em Charleston, S.C. O Rito Escocês foi
introduzido nos Estados Unidos em 1783. Charleston foi o local do primeiro
Supremo Conselho, que regeu o Rito Escocês nos Estados Unidos até o
Supremo Conselho do Norte ser estabelecido na cidade de Nova Iorque em
1813.

A fronteira entre as Jurisdições do Norte e do Sul, ainda hoje reconhecida, foi


firmemente estabelecida em 1828. Mackey convidou Pike a participar da
Suprema Corte da Jurisdição do Sul em 1858, em Charleston, e nos anos
seguintes, se tornou o Grande Comandante da Suprema Corte. Pike manteve
suas funções até sua morte, apoiando-se em várias ocupações, tais como
editor do Memphis Daily Appeal, de fevereiro de 1867 a setembro de 1868, e
sua prática advocatícia. Mais tarde, abriu um escritório de advocacia em
Washington, DC, e defendeu uma série de processos perante o Supremo
Tribunal dos Estados Unidos. Pike empobreceu por conta da Guerra Civil,
permanecendo assim por grande parte da vida, frequentemente contraindo
empréstimos para despesas básicas do Supremo Conselho, antes do conselho
votar a seu favor , em 1879, uma anuidade de $1,200 por ano para o resto de
sua vida. Albert Pike faleceu em 2 de abril de 1892, em Washington, DC.
Percebendo que uma revisão do ritual era necessária para que o Rito Escocês
da Maçonaria viesse a sobreviver, Mackey encorajou Pike a rever o ritual,
para assim produzir um ritual padrão, para o uso de todos os estados da
Jurisdição do Sul. A revisão teve início em 1855 e após algumas alterações, o
Supremo Conselho aprovou a revisão de Pike, em 1861. Mudanças menos
significativas foram feitas em dois graus em 1873, após corporações do Rito
de York no Missouri contraporem objeções de que os graus 29º e 30º
revelavam os segredos do Rito de York. Pike é mais conhecido pela sua
grande obra, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of
Freemasonry, publicado em 1871. Morals and Dogma não deve ser
confundido com a revisão de Pike, do ritual do Rito Escocês. Estas são obras
separadas. Walter Lee Brown escreveu que Pike “destinou-o [Morals and
Dogma] a ser um suplemento para aquele grande ‘sistema interligado de
instruções morais, religiosas e filosóficas’ desenvolvido em sua revisão do
ritual Escocês.” Morals and Dogma era tradicionalmente dado ao candidato
após a sua recepção do 14º grau do Rito Escocês. Esta prática foi
interrompida em 1974. Morals and Dogma não é mais dado a candidatos
desde 1974. A Bridge to Light (Uma Ponte para a Luz), de Rex. R. Hutchens,
é concedido aos candidatos hoje. Hutchens lamenta que Morals and Dogma
seja lido por tão poucos Maçons. A Bridge to Light foi escrito para ser “uma
ponte entre as cerimônias dos graus e suas leituras de Morals and Dogma”.
PREFÁCIO DO AUTOR

A obra seguinte foi preparada com a autorização do Supremo Conselho do


Trigésimo Terceiro Grau, para a Jurisdição Sul dos Estados Unidos, pelo
Grande Comandante e agora é publicada por sua direção. Contém os
Ensinamentos do Rito Escocês Antigo e Aceito daquela Jurisdição, e é
especialmente destinado para leitura e estudo pelos Irmãos daquela
Obediência, em conexão com os Rituais dos Graus. Espera-se e expecta-se
que cada um se apresente com uma cópia, e se torne familiarizado com ela;
por este propósito, como o custo da obra consiste inteiramente em sua
impressão e encadernação, ela será fornecida a um preço moderado e
considerável.
Será proporcionada aos Irmãos do Rito Escocês nos Estados Unidos e no
Canadá, a oportunidade de comprá-la, mas não será proibida a outros
Maçons; porém não serão solicitados que comprem.
Ao preparar esta obra, o Grande Comendador foi quase Autor e Compilador,
igualmente; uma vez que extraiu uma metade inteira de seu conteúdo das
obras dos melhores escritores e dos pensadores mais filosóficos ou
eloquentes. Talvez tivesse sido melhor e mais aceitável se tivesse extraído
mais e escrito menos. Ainda, talvez metade dele seja de si próprio; e, ao
incorporar aqui os pensamentos e palavras de outros, modificou e adicionou
continuamente à linguagem, muitas vezes interligando, nas mesmas
sentenças, suas próprias palavras às deles. Não se destinando ao mundo em
geral, ele sentiu a liberdade de elaborar, a partir de todas as fontes acessíveis,
um Compêndio de Moral e Dogma do Rito, para re-moldar sentenças, alterar
e acrescentar palavras e frases, combiná-las com suas próprias e usá-las como
se fossem suas próprias, para serem tratadas ao seu prazer, e assim, úteis para
formar o conjunto mais valioso para os propósitos tencionados. Reclama para
si, portanto, pouco do mérito da autoria, e não se preocupou em distinguir o
que é seu próprio do que tomou de outras fontes, desejando, inteiramente, que
cada porção do livro, por sua vez, seja vista como tendo sido tomada
emprestada de algum escritor mais antigo e melhor.
Os ensinamentos destas Leituras não são sacramentais, na medida em vão
além do reino da Moralidade, para aqueles domínios do Pensamento e da
Verdade. O Rito Escocês Antigo e Aceito usa a palavra “Dogma” em seu
sentido verdadeiro, de doutrina ou ensinamento; não é dogmático no sentido
odioso do termo. Todos estão completamente livres para rejeitar e discordar
de qualquer coisa aqui que possa lhe parecer falsa ou insalubre. Apenas é
requerido que se pese o que é ensinado e que se dê uma audiência justa e um
juízo despreconceituoso. Obviamente, as antigas especulações teosóficas e
filosóficas não são incorporadas como parte das doutrinas do Rito; mas
porque é de interesse e proveito saber o que o Intelecto Antigo pensava sobre
estes assuntos, e porque nada prova tão conclusivamente a diferença radical
entre a nossa natureza humana e a animal, quanto a capacidade da mente
humana de entreter tais especulações sobre si mesmo e a Divindade. Mas,
quanto a essas mesmas opiniões, podemos dizer, nas palavras do douto
canonista Ludovico Gómez: “Opiniones secundum varietatem temporum
senescant et intermoriantur, aliaeque diversae vel prioribus contrariae
reniscantur et deinde pubescant.”
Os títulos dos Graus mostrados aqui mudaram em algumas instâncias. Os
títulos corretos são os seguintes:
1º Aprendiz
2º Companheiro
3º Mestre
4º Mestre Secreto
5º Mestre Perfeito
6º Secretário Íntimo
7º Preboste e Juiz
8º Intendente dos Edifícios
9º Eleito dos Nove
10º Eleito dos Quinze
11º Eleito dos Doze
12º Mestre Arquiteto
13º Real Arco de Salomão
14º Eleito Perfeito
15º Cavaleiro do Oriente
16º Príncipe de Jerusalém
17º Cavaleiro do Oriente e do Ocidente
18º Cavaleiro Rosa-Cruz
19º Pontífice
20º Mestre da Loja Simbólica
21º Noaquita ou Cavaleiro Prussiano
22º Cavaleiro do Real Machado ou Príncipe do Líbano
23º Chefe do Tabernáculo
24º Príncipe do Tabernáculo
25º Cavaleiro da Serpente de Bronze
26º Príncipe de Misericórdia
27º Cavaleiro Comandante do Templo
28º Cavaleiro do Sol ou Príncipe Adepto
29º Cavaleiro Escocês de Santo André
30º Cavaleiro Kadosh
31º Inspetor Inquisidor
32º Mestre do Real Segredo
I. O APRENDIZ

A RÉGUA-DE-DOZE-POLEGADAS E O MAÇO
A Força, desregulada ou mal regulada, não é apenas desperdiçada no vazio,
como a pólvora queimada a céu aberto, e o vapor não confinado pela ciência;
mas, golpeando no escuro, seus golpes encontrando apenas o ar, recuam e se
contundem. É destruição e ruína. É o vulcão, o terremoto, o ciclone; – não
crescimento ou progresso. É Polifemo cego, golpeando a esmo, precipitando-
se entre as afiadas rochas pelo ímpeto de seus próprios golpes.

A Força cega do povo é uma Força que deve ser economizada e também
gerenciada, assim como a Força cega do vapor, que levanta os pesados braços
de ferro e gira as grandes rodas, é feita para furar e tornear o canhão e tecer o
mais delicado laço. A força cega do povo precisa ser regulada pelo Intelecto e
o intelecto é para as pessoas, e para a Força das pessoas, o que a fina agulha
da bússola é para o navio – sua alma, sempre aconselhando a enorme massa
de madeira e ferro, e sempre apontando para o norte. Para atacar as cidadelas
construídas por todos os lados contra a raça humana por superstições,
despotismos, e preconceitos, a Força deve ter um cérebro e uma lei. Por isso,
suas façanhas conquistam resultados permanentes, e aí há progresso real.
Então ocorrem conquistas sublimes. O Pensamento é uma força, e a filosofia
deve ser uma energia, encontrando seu alvo e seus efeitos no aprimoramento
da humanidade. Os dois grandes motores são a Verdade e o Amor. Quando
todas estas Forças são combinadas, guiadas pelo Intelecto, reguladas pela
RÉGUA do Direito, e da Justiça, e com movimento e esforço combinados e
sistemáticos, a grande revolução preparada pelas eras começará a marchar. O
PODER da Própria Divindade está em equilíbrio com Sua SABEDORIA.
Em consequência, o único resultado é a HARMONIA.

Como a Força é mal regulada, as revoluções se provam falhas. Por isso é que,
tão frequentemente, insurreições vindas daquelas altas montanhas que
tiranizam o horizonte moral, a Justiça, a Sabedoria, a Razão e o Direito,
construídas da mais pura neve do ideal, após uma longa queda de rocha a
rocha, depois de terem refletido o céu em sua transparência e terem sido
enchidas por cem afluentes, no caminho majestoso do triunfo, repentinamente
se perdem em charcos, como um rio da Califórnia nas areias.

A marcha da raça humana adiante requer que as alturas ao seu redor fulgurem
com nobres e duradouras lições de coragem. Feitos de ousadia deslumbram a
história, e formam uma classe das luzes que orientam o homem. São as
estrelas e os coriscos do grande mar de eletricidade, a Força inerente nas
pessoas. Esforçar-se, enfrentar todos os riscos, perecer, perseverar, ser
verdadeiro para si mesmo, lutar corpo-a-corpo com o destino, surpreender a
derrota pelo pequeno terror que inspira, ora enfrentar poderes injustos, ora
desafiar o triunfo intoxicado – estes são os exemplos que as nações precisam
e a luz que as eletriza.

Existem Forças imensas nas grandes cavernas do mal sob a sociedade; na


horrível degradação, sordidez, desgraça e penúria, vícios e crimes que fedem
e lentamente fervem na escuridão nessa populaça inferior ao povo, das
grandes cidades. Aí o desinteresse desaparece, cada um uiva, procura, tateia e
se rói por si mesmo. Ideias são ignoradas, e não há pensamento de progresso.
Essa populaça tem duas mães, ambas madrastas – a Ignorância e a Miséria. O
querer é seu único guia – somente para o apetite desejam satisfação. Todavia,
até estes podem ser utilizadas. A humilde areia na qual pisamos, lançada na
fornalha, derretida, purificada pelo fogo, pode se tornar um cristal
resplandecente. Eles têm a força bruta do MALHO, mas seus golpes servem
à grande causa, quando desferidos dentro das linhas traçadas pela RÉGUA
controlada pela sabedoria e discrição.

Todavia, é esta mesma Força das pessoas, este poder Titânico dos gigantes,
que constrói as fortificações de tiranos e é incorporada em seus exércitos. Daí
então a possibilidade de tais tiranias, como as sobre as quais se tem dito que
“Roma cheira pior sob Vitélio do que sob Sula. Sob Cláudio e sob
Domiciano há uma deformidade de baixeza correspondente à feiura da
tirania. A sujeira dos escravos é um resultado direto da baixeza atroz do
déspota. Dessas consciências contraídas é exalado um miasma que reflete
seus mestres; as autoridades públicas são impuras, corações são colapsados,
consciências encolhidas, almas debilitadas. É assim sob Caracala, é assim
sob Cômodo, é assim sob Heliogábalo, enquanto do senado Romano, sob
César, emana apenas o odor espesso peculiar ao ninho da águia”.

É a força das pessoas que sustenta todos estes despotismos, o mais baixo e
também o melhor. Essa força age através dos exércitos; e estes mais
comumente escravizam do que libertam. O despotismo, aí, aplica a RÉGUA.
A Força é o MAÇO de aço no arco da sela do cavaleiro ou do bispo em
armadura. Pela força, a obediência passiva sustenta tronos e oligarquias, reis
Espanhóis e senados Venezianos. O Poder, em um exército manejado pela
tirania, é a enorme soma total da fraqueza absoluta; e assim, a Humanidade
trava guerra contra a Humanidade, a despeito da Humanidade. Assim um
povo se submete de bom grado ao despotismo, seus trabalhadores se
submetem a serem desprezados, e seus soldados a serem chicoteados; por
isso é que batalhas perdidas por uma nação são, frequentemente, progresso
alcançado. Menos glória é mais liberdade. Quando o tambor silencia, a razão
às vezes fala.

Tiranos usam a força do povo para acorrentar e subjugar – isto é, subjugam o


povo. Então, o fazem de arado, como os homens fazem com bois jungidos à
canga. Assim, o espírito de liberdade e inovação é reduzido por baionetas, e
princípios são assolados por tiros de canhão; enquanto os monges se
misturam com os soldados, e a Igreja militante e jubilosa, Católica ou
Puritana, canta Te Deums pelas vitórias sobre a rebelião.

O poder militar, não subordinado ao poder civil, novamente o MALHO ou


MAÇO da FORÇA, independente da RÉGUA, é uma tirania armada,
nascida adulta, como Ateneia brotada do cérebro de Zeus. Ele desova uma
dinastia, e começa com César para apodrecer em Vitélio e Cômodo.
Atualmente, tende a começar onde, antigamente, as dinastias terminavam.

O povo constantemente oferece imensa resistência, apenas para terminar em


imensa fraqueza. A força do povo é exaurida no prolongamento indefinido de
coisas mortas desde há muito tempo; ao governar a humanidade pelo
embalsamento de velhas e mortas tiranias de Fé; restaurando dogmas
dilapidados; redourando santuários desbotados e carcomidos; caiando e
maquiando superstições antigas e estéreis; salvando a sociedade pela
multiplicação de parasitas; perpetuando instituições aposentadas; reforçando
a adoração de símbolos como os meios reais de salvação; e atando o cadáver
do Passado boca a boca ao vivo Presente. Por isso é que uma das fatalidades
da Humanidade é ser condenada a eternas lutas com fantasmas, com
superstições, fanatismos, hipocrisias, preconceitos, as fórmulas do erro e os
argumentos da tirania. Despotismos, vistos no passado, tornam-se
respeitáveis, como a montanha eriçada de rochas vulcânicas, áspera e
horrenda, parece ser, através da neblina da distância, azul, macia e bela. A
visão de uma única masmorra da tirania vale mais, para dissipar ilusões e
criar um ódio sagrado ao despotismo, e direcionar a FORÇA corretamente,
do que os tomos mais eloquentes. Os Franceses deveriam ter preservado a
Bastilha como uma lição perpétua; a Itália não deve destruir as masmorras da
Inquisição. A Força do povo manteve o Poder que construiu suas celas
obscuras e colocou os vivos em seus sepulcros de granito.

A FORÇA do povo não pode, por sua ação irrefreável e existência


espasmódica, manter e continuar um Governo livre, uma vez criado. Tal
Força deve ser limitada, refreada, conduzida pela distribuição em canais
diferentes e por cursos indiretos, para escapes, de onde se questionaria quanto
à lei, ação e decisão do Estado; assim como os antigos sábios reis Egípcios
conduziram a canais diferentes, por subdivisão, as águas abundantes do Nilo,
e as compeliram a fertilizar e não devastar a terra. Deve haver o jus et norma,
a lei e Régua, ou Escala, da constituição e da lei, dentro da qual a força
pública deve agir. Faça-se uma brecha em qualquer uma delas e o grande
martelo a vapor, com seus golpes velozes e pesados, reduz todo o mecanismo
a átomos e, por fim, desconjuntando-se violentamente, repousam morto e
inerte em meio à ruína que forjou.

A FORÇA das pessoas, ou a vontade popular, exercida e em ação,


simbolizada pelo MALHETE, regulada, guiada por, e agindo dentro dos
limites da LEI e da ORDEM, simbolizada pela RÉGUA DE VINTE E
QUATRO POLEGADAS, tem como seu fruto: LIBERDADE,
IGUALDADE e FRATERNIDADE – liberdade regulada pela lei; igualdade
de direitos aos olhos da lei; irmandade com seus deveres e obrigações, bem
como com seus benefícios.

Você ouvirá falar em pouco tempo da PEDRA BRUTA e da PEDRA


PERFEITA, como parte das joias da Loja. A Pedra Bruta é dita como “uma
pedra, como retirada da pedreira, em seu estado rude e natural”. A Pedra
Perfeita é dita como “uma pedra preparada pelas mãos dos trabalhadores,
para ser ajustada pelas ferramentas de trabalho dos Companheiros”. Não
devemos repetir as explicações destes símbolos dadas pelo Rito de York.
Você poderá lê-las em seus manuais impressos. São declaradas para aludirem
ao autoaperfeiçoamento do trabalhador individual, – uma continuação da
mesma interpretação superficial.

A Pedra Bruta é o POVO, como uma massa, rude e desorganizado. A Pedra


Perfeita, ou Pedra Cúbica, símbolo da perfeição, é o ESTADO, os regentes
derivando seus poderes do consentimento dos governados; a constituição e as
leis dizendo a vontade do povo; o governo harmonioso, simétrico, eficiente, –
seus poderes propriamente distribuídos e devidamente ajustados em
equilíbrio.

Se delinearmos um cubo sobre uma superfície plana, assim:

Teremos visíveis três faces e nove linhas externas, desenhadas entre sete
pontos. O cubo completo tem três faces a mais, formando seis; três linhas a
mais, formando doze; e um ponto a mais, formando oito. Como o número 12
inclui os números sagrados 3, 5, 7, e 3 vezes 3, ou 9, e é produzido pela soma
dos números sagrados 3 e 9; enquanto seus próprios dois dígitos 1, 2, a
unidade ou mônada, e dúada, somadas juntas, geram o mesmo número
sagrado 3; ele foi chamado de número perfeito – e o cubo se tornou o símbolo
da perfeição

Produzido pela FORÇA, agindo pela RÉGUA; martelado de acordo com as


linhas mensuradas pela Escala, a partir da Pedra Bruta, é um símbolo
apropriado da Força do povo, expressa como a constituição e lei do Estado; e
as três faces visíveis representam os três departamentos do próprio Estado, –
o Executivo, que executa as leis; o Legislativo, que faz as leis; o Judiciário,
que interpreta as leis, as aplica e as reforça, entre pessoa e pessoa, entre o
Estado e os cidadãos. As três faces invisíveis são a Liberdade, a Igualdade e a
Fraternidade, – a alma tríplice do Estado, – sua vitalidade, espírito e intelecto.

Apesar da Maçonaria não usurpar o lugar nem imitar a religião, a oração é


parte essencial de nossas cerimônias. É a aspiração da alma em direção à
Inteligência Absoluta e Infinita, que é a Suprema Divindade Única, mais
delicada e desentendidamente caracterizada como um “ARQUITETO”.
Certas faculdades do homem são dirigidas para o Desconhecido – o
pensamento, a meditação, a oração. O desconhecido é um oceano, do qual a
consciência é a bússola. Pensamento, meditação, oração, são os grandes
misteriosos pontos apontados pela agulha. É um magnetismo espiritual que
assim conecta a alma humana com a Divindade. Estas irradiações majestosas
da alma penetram a sombra em direção à luz.

É um escárnio superficial dizer que a oração é absurda porque não nos seria
possível, por meio dela, persuadir Deus a mudar Seus planos. Ele produz
efeitos pré-conhecidos e pré-planejados, através da instrumentalidade das
forças da natureza, todas elas Suas forças. Nossa própria é parte destas.
Nossa livre agência e vontade são forças. Não deixamos absurdamente de
fazer esforços para alcançar riqueza ou felicidade, prolongar a vida, e manter
a saúde, só porque não podemos, por qualquer esforço, mudar o que está
predestinado. Se o esforço também é predestinado, não menos será o nosso
esforço, criado de nossa livre vontade. Portanto, do mesmo modo, oramos. A
Vontade é uma força. O Pensamento é uma força. A Oração é uma força. Por
que não seria da lei de Deus que a oração, tal como a Fé e o Amor, tivesse
seus efeitos? O homem não deve ser compreendido como um ponto de
partida, nem o progresso como um objetivo, sem essas duas grandes forças, a
Fé e o Amor. A oração é sublime. Preces que pedem e clamam são dignas de
pena. Negar a eficácia da oração é negar a da Fé, do Amor e do Esforço.
Apesar disso, os efeitos produzidos, quando nossa mão, movida por nossa
vontade, lança um seixo no oceano, nunca cessam; e toda palavra
pronunciada é registrada no ar invisível para toda a eternidade.

Toda Loja é um Templo, no todo e em seus detalhes, simbólica. O próprio


Universo forneceu ao homem o modelo dos primeiros templos edificados à
Divindade. O arranjo do Templo de Salomão, os ornamentos simbólicos que
formavam suas decorações principais, e o vestuário do Sumo Sacerdote, tudo
fazia referência à ordem do Universo, como então entendido. O Templo
continha muitos emblemas das estações – o sol, a lua, os planetas, as
constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor, o zodíaco, os elementos, e
outras partes do mundo. O Mestre dessa Loja, e do Universo, é Hermes, de
quem Khūrūm é o representante, que é uma das luzes da Loja.

Para instrução adicional quanto ao simbolismo dos corpos celestiais, dos


números sagrados e do templo e seus detalhes, você deve aguardar
pacientemente até seu avanço na Maçonaria, neste meio tempo exercitando
seu intelecto estudando-os por si só. Estudar e procurar interpretar
corretamente os símbolos do Universo é o trabalho do sábio e do filósofo. É
decifrar a escrita de Deus, e penetrar em Seus pensamentos.

Isto é o que é perguntado e respondido em nosso catecismo, no que diz


respeito à Loja.

Uma “Loja” é definida como uma “reunião de Maçons, pontualmente


congregados, tendo a escritura sagrada, o esquadro e o compasso, e um
alvará, ou certificado de constituição, autorizando-os a trabalhar”. A sala
ou lugar no qual se reúnem, representando uma parte do Templo do Rei
Salomão, também é chamada de Loja; e isto é o que nós agora estamos
considerando.

Diz-se que é suportada por três grandes colunas, SABEDORIA, FORÇA e


BELEZA, representadas pelo Mestre, o Primeiro Vigilante e o Segundo
Vigilante; e estas são as colunas que sustentam a Loja, “porque Sabedoria,
Força e Beleza são a perfeição de tudo, e nada pode perdurar sem elas”.
“Porque”, diz o Rito de York, “é necessário que haja Sabedoria para
conceber, Força para sustentar e Beleza para adornar todos os
empreendimentos grandes e importantes”. “Não sabeis”, diz o Apóstolo
Paulo, “que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?
Se algum homem profanar o templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo
de Deus é sagrado, e o templo sois vós”.

A Sabedoria e o Poder da Divindade estão em equilíbrio. As leis da natureza


e as leis morais não são meros mandatos despóticos de Sua vontade
Onipotente; pois então poderiam ser mudadas por Ele, e a ordem se tornar
desordem, e o bom e o certo se tornarem mau e errado; honestidade e
lealdade, vícios; e fraude, ingratidão e vício, virtudes. O poder Onipotente,
infinito, existindo só, necessariamente não seria forçado à consistência. Seus
decretos e leis poderiam não ser imutáveis. As leis de Deus não são
obrigatórias para nós porque são decretos de Seu PODER, ou expressão de
Sua VONTADE; mas porque expressam sua infinita SABEDORIA. Não são
certas porque são Suas leis, mas são Suas leis porque são certas. Do
equilíbrio entre a sabedoria infinita e a força infinita resulta a harmonia
perfeita, na física e no universo moral. Sabedoria, Poder e Harmonia
constituem uma tríade Maçônica. Eles têm outros e mais profundos
significados, que podem em algum tempo lhe ser desvelados.

Quanto a uma explicação mais normal e ordinária, pode-se acrescentar que a


sabedoria do Arquiteto é apresentada em combinação, como apenas um
Arquiteto hábil pode fazer, e como Deus tem feito em todo lugar, – por
exemplo, na árvore, na estrutura humana, no ovo, nas células do favo de mel
– força, com graça, beleza, simetria, proporção, leveza e ornamentação. Essa
é, também, a perfeição do orador e do poeta – combinar força, resistência,
energia, com a graça de estilo, as cadências musicais, a beleza das figuras, o
jogo e irradiação de imaginação e fantasia; e assim, em um Estado, a força
guerreira e industrial do povo, e sua força Titânica, devem ser combinadas
com a beleza das artes, com as ciências e com o intelecto, se o Estado quiser
escalar as alturas da excelência e o povo ser realmente livre. Harmonia nisto,
como em todo o Divino, material, e humano, é o resultado do equilíbrio, da
simpatia e ação oposta dos contrários; uma única Sabedoria sobre eles
mantendo o travessão da balança. Reconciliar a lei moral, responsabilidade
humana, livre arbítrio, com o poder absoluto de Deus; e a existência do mal
com Sua absoluta sabedoria e bondade e misericórdia, – estes são os grandes
enigmas da Esfinge.

Você ingressou na Loja entre duas colunas. Elas representam as duas que
estavam no pórtico do Templo, em cada lado da grande entrada oriental.
Esses pilares, de bronze, de quatro dedos de espessura, tinham, de acordo
com as descrições mais autênticas – estas no Primeiro e no Segundo Livro
dos Reis, e confirmadas em Jeremias – dezoito cúbitos de altura, com um
capitel de cinco cúbitos de altura. O eixo de cada uma delas era de quatro
cúbitos de diâmetro. Um cúbito tem 30 1/2 cm. Isto é, o eixo de cada coluna
tinha pouco mais de trinta pés e oito polegadas de altura, cada capitel pouco
mais de oito pés e seis polegadas de altura, e o diâmetro do eixo seis pés e
dez polegadas. Os capitéis estavam enriquecidos com romãs de bronze,
cobertas com redes de bronze, e ornamentados com grinaldas de bronze; e
parecem ter imitado a forma dos pericarpos do lótus ou lírio Egípcio, um
símbolo sagrado para os Hindus e Egípcios. O pilar ou coluna da direita, ou
do sul, era chamado, como a palavra Hebraica é reproduzida em nossa
tradução da Bíblia, JACHIN; e o da esquerda, BOAZ. Nossos tradutores
dizem que a primeira palavra significa “Ele estabelecerá”, e a segunda “nele
está a força”.

Essas colunas eram imitações, feitas por Khūrūm, o artista Tírio, das grandes
colunas consagradas aos Ventos e ao Fogo, na entrada do famoso Templo de
Malkarth, na cidade de Tiro. É costumeiro, em Lojas do Rito de York, ver-se
um globo celestial em uma e um globo terrestre na outra; mas estes não são
justificados, se o objetivo for imitar as duas colunas originais do Templo. O
significado simbólico dessas colunas deixaremos por agora inexplicado,
acrescentando apenas que os Aprendizes Iniciados guardam suas ferramentas
de trabalho na coluna JACHIN; e lhe dando a etimologia e significado literal
dos dois nomes.

A palavra Jachin, em hebraico, é ‫יכין‬. Era provavelmente pronunciada Ya-


kayan, e significava, como um substantivo, Aquele que fortalece; e por isso,
firme, estável, ereto.
A palavra Boaz é ‫בעז‬, Baaz. ‫ עז‬significa Forte, Força, Poder, Refúgio,
Fonte de Força, um Forte. O ‫ ב‬prefixado significa “com” ou “em”, e dá à
palavra a força do gerúndio Latino roborando – Fortalecendo.

A palavra anterior também significa ele estabelecerá, ou plantará numa


posição ereta, – do verbo ‫כון‬, Kūn, permaneceu ereto. Provavelmente
significava Ativo e Energia Vivificante e Força; e Boaz, Estabilidade,
Permanência, no sentido passivo.

Das Dimensões da Loja, nossos Irmãos do Rito de York dizem, “ilimitadas e


cobrem não menos do que a abóbada Celeste”. “A esse objeto,” dizem
eles,“a mente do Maçom é continuamente dirigida e para ali ele espera
enfim chegar pela a ajuda da escada teológica que Jacó, em sua visão, viu
ascendendo da terra para o Céu; as três voltas principais eram denominadas
Fé, Esperança e Caridade; e que nos admoesta a ter Fé em Deus, Esperança
na Imortalidade e Caridade para com toda a Humanidade”. Da mesma
forma, uma escada, algumas vezes com nove voltas, é vista no painel,
repousando na base da terra, e seu topo nas nuvens, com estrelas brilhando
sobre ela; é considerado que isto representa aquela escada mística que Jacó
viu em seu sonho, apoiada na terra, e seu topo alcançando o Céu, com os
anjos de Deus subindo e descendo por ela. O acréscimo das três primeiras
voltas ao simbolismo é totalmente moderno e impróprio.

Os antigos contavam sete planetas, assim arranjados: a Lua, Mercúrio,


Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Havia sete céus e sete esferas desses
planetas; sobre todos os monumentos a Mitra existem sete altares ou piras,
consagrados aos sete planetas, assim como as sete lâmpadas do castiçal
dourado do Templo. Que estes representavam os planetas, nos assegura tanto
Clemente de Alexandria, em seu Stromata, quanto Fílon, o Judeu.

Para retornar à sua fonte no Infinito, a alma humana, afirmavam os antigos,


tinha que ascender tal como havia descido, através das sete esferas. A Escada
pela qual reascende tem, de acordo com Marsílio Ficino, em seus
Comentários sobre as Enéadas de Plotino, sete degraus ou passos; e nos
Mistérios de Mitra, levados a Roma sob os Imperadores, a escada, com suas
sete voltas, era um símbolo referente a esta ascensão através das esferas dos
sete planetas. Jacó viu os Espíritos de Deus subindo e descendo por ela; e
acima dela a Própria Divindade. Os Mistérios Mitríacos eram celebrados em
cavernas, onde portais eram marcados nos quatro pontos equinociais e
solsticiais do zodíaco; e as sete esferas planetárias estavam representadas, as
quais as almas necessitavam atravessar na descida do céu das estrelas fixas
para os elementos que envolvem a terra; e sete portais eram marcados, um
para cada planeta, através dos quais elas passavam, descendo ou voltando.

Aprendemos isto de Celso, em Origem, que diz que a imagem simbólica


desta passagem entre as estrelas, usadas nos Mistérios Mitríacos, era uma
escada se estendendo da terra para o Céu, dividida em sete degraus ou
estágios, para cada um dos quais havia um portal, e na cúpula um oitavo, o
das estrelas fixas. O símbolo era o mesmo que o dos sete estágios de
Borsippa, a Pirâmide de tijolos vitrificados, perto da Babilônia, construída em
sete estágios, cada um de cor diferente. Nas cerimônias Mitríacas o candidato
atravessava os sete estágios da iniciação, passando por diversos processos
temíveis – e destes a escada alta com sete voltas ou degraus era o símbolo.

Você vê a Loja, seus detalhes e ornamentos, por suas Luzes. Você já ouviu o
que se diz serem estas Luzes, das maiores às menores, e como elas são
faladas por nossos Irmãos do Rito de York.

A Bíblia Sagrada, o Esquadro e o Compasso não são somente estilizados


como Grandes Luzes na Maçonaria, mas também são tecnicamente chamados
de Mobília da Loja; e, como você viu, se assegura que não existe Loja sem
eles. Isto, algumas vezes, tem sido um pretexto para excluir Judeus de nossas
Lojas, porque eles não podem estimar o Novo Testamento como um livro
sagrado. A Bíblia é parte indispensável da mobília de uma Loja Cristã,
apenas porque é o livro sagrado da religião Cristã. O Pentateuco Hebraico
numa Loja Hebraica, e o Alcorão numa Muçulmana, pertencem ao Altar; e
algum destes, mais o Esquadro e o Compasso, propriamente entendidos, são
as Grandes Luzes pelas quais um Maçom deve andar e trabalhar.

A obrigação do candidato deve sempre ser tomada sobre o livro ou livros


sagrados de sua religião, qual seja que ele considere mais solene e
obrigatório; e por isso lhe perguntaram qual era a sua religião. Não temos
nenhuma outra preocupação quanto a seu credo religioso.
O Esquadro é um ângulo reto, formado por duas linhas retas. É adaptado
somente a uma superfície plana e pertence unicamente à geometria, à
medição da terra, à trigonometria que lida apenas com planos, e com a Terra,
que os antigos supunham ser plana. O Compasso descreve círculos, e lida
com a trigonometria esférica, a ciência das esferas e céus. O primeiro,
portanto, é um emblema do que concerne à terra e ao corpo; o ultimo, do que
concerne aos céus e à alma. Ainda assim, o Compasso também é usado na
trigonometria plana, para se erigir perpendiculares; por isso, você é lembrado
de que, apesar de neste Grau ambas as pontas do Compasso estarem sob o
Esquadro, você está agora lidando apenas com os significados morais e
políticos dos símbolos, e não com suas significações filosóficas e espirituais,
ainda assim o divino sempre se mistura com o humano; o espiritual se mescla
com o terreno; e existe algo espiritual nos deveres mais comuns da vida. As
nações não são apenas corpos políticos, mas também espíritos políticos; e ai
dos povos que, buscando apenas o material, se esquecem de que possuem
uma alma. Neste caso temos uma raça petrificada em dogma, que pressupõe a
ausência de uma alma e a presença somente da memória e do instinto, ou
desmoralizada pelo lucro. Tal natureza nunca pode liderar a civilização. A
genuflexão perante o ídolo ou perante o dinheiro atrofia o músculo que
caminha e a vontade que se move. A absorção hierática ou mercantil diminui
o brilho de um povo, abaixa seu horizonte ao abaixar seu nível, e o priva do
entendimento do objetivo universal, ao mesmo tempo humano e divino, que
forma as nações missionárias. Um povo livre, se esquecendo de que tem uma
alma a cuidar, devota todas as suas energias ao avanço material. Se faz
guerra, esta é subserviente aos seus interesses comerciais. Os cidadãos
copiam o Estado, e estimam a riqueza, a pompa e luxo como os grandes bens
da vida. Tal nação cria fortuna rapidamente e a distribui muito mal. Daí os
dois extremos, de monstruosa opulência e monstruosa miséria; todos os
prazeres para alguns, todas as privações para o resto, quer dizer, para o povo;
Privilégio, Exceção, Monopólio e Feudalismo emergem do próprio Trabalho:
uma situação falsa e perigosa, que, fazendo do Trabalho um Ciclope cego e
acorrentado, na mina, na forja, na oficina, no tear, no campo, entre gases
venenosos, em celas miasmáticas, em fábricas sem ventilação, alicerça seu
poder público sobre a miséria privada, e planta a grandeza do Estado no
sofrimento do indivíduo. É uma grandeza mal constituída, na qual todos os
elementos materiais estão combinados, e na qual não entra nenhum elemento
moral. Embora um povo, qual uma estrela, tenha o direito de eclipsar, a luz
deve retornar. O eclipse não deve degenerar em noite.

As três menores, ou as Luzes Sublimes, você ouviu que são o Sol, a Lua e o
Mestre da Loja; também ouviu o que nossos Irmãos do Rito de York dizem a
respeito delas, e porque acreditam que são as Luzes da Loja. Mas o Sol e a
Lua em nenhum sentido iluminam a Loja, senão simbolicamente, e portanto
não são eles as luzes, mas sim as coisas das quais são símbolos. O Maçom do
Rito de York não diz do quê são símbolos. Nem a Lua, em qualquer sentido,
governa a noite com regularidade.

O Sol é o símbolo antigo do poder vivificante e generativo da Divindade.


Para os antigos, a luz era a causa da vida; e Deus era a fonte da qual toda a
luz fluía; a essência da Luz, o Fogo Invisível, desenvolvido como chama
manifesta como luz e esplendor. O Sol era a Sua manifestação e imagem
visível; e os Sabeus, adorando o Deus-Luz, pareciam adorar o Sol, no qual
viam a manifestação da Divindade.

A Lua era o símbolo da capacidade passiva da natureza de procriar, a fêmea,


da qual o poder e energia fecundante era o macho. Era o símbolo de Ísis,
Astarte, e Ártemis, ou Diana. O “Mestre da Vida” era a Divindade Suprema,
acima de ambos, e manifesto através de ambos; Zeus, o Filho de Saturno, se
torna Rei dos Deuses; Hórus, filho de Osíris e Ísis, se torna o Mestre da Vida;
Dionísio ou Baco, tal como Mitra, se torna o autor da Luz, da Vida e da
Verdade.

Os Mestres da Luz e da Vida, o Sol e a Lua, são simbolizados em todas as


Lojas pelo Mestre e pelos Vigilantes: e isto torna dever do Mestre dispensar
luz aos Irmãos, por si próprio, e através dos Vigilantes, que são seus
ministros.

“Nunca mais se porá o teu sol”, diz ISAÍAS a Jerusalém, “nem a tua lua
minguará, porque o Senhor será a tua luz perpétua, e os dias do teu luto
findarão. E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a
terra.”. Tal é um modelo de povo livre.

Nossos ancestrais nórdicos adoravam uma Divindade tri-una; ODIN, o PAI


Todo-Poderoso; FREA, sua esposa, emblema da matéria universal; e THOR,
seu filho, o mediador. Mas acima de todos estava o Deus Supremo, “o autor
de tudo o que existe, o Eterno, o Antigo, o Ser Vivo e Terrível, o Buscador de
coisas ocultas, o Ser que nunca muda”. No Templo de Elêusis (um santuário
iluminado apenas por uma janela no teto, representando o Universo), estavam
representadas as imagens do Sol, da Lua e de Mercúrio.

“O Sol e a Lua”, diz o erudito Ir.·. DELAUNAY, “representam os dois


grandes princípios de todas as gerações, o ativo e o passivo, o macho e a
fêmea. O Sol representa a verdadeira luz. Ele derrama seus raios fecundos
sobre a Lua; ambos projetam suas luzes sobre sua descendência, a Estrela
Flamejante, ou HÓRUS, e os três formam o grande Triângulo Equilátero, no
centro do qual está a letra omnífica da Cabala, pela qual se diz que a
criação foi realizada.”.

Os ORNAMENTOS de uma Loja são o “Pavimento Mosaico, a Orla


Dentada e a Estrela Flamejante”. O Pavimento Mosaico, axadrezado com
quadrados ou losangos, representa o andar térreo do Templo do Rei Salomão;
e a Orla Dentada, “aquela linda orla que o envolvia”. Diz-se que a Estrela
Flamejante no centro é um “emblema da Divina Providência, e
comemorativa da estrela que surgiu para guiar os homens sábios desde o
Oriente até o local de nascimento de nosso Salvador”. Mas “não se via
pedras” no Templo. As paredes eram cobertas com pranchas de cedro e o
piso com pranchas de abetos. Não existe evidência de que tivesse existido tal
pavimento ou piso no Templo, nem tal madeiramento; na Inglaterra,
antigamente, a Tábua de Traçar era envolta por uma orla dentada; e somente
na América tal orla é colocada em volta do pavimento Mosaico. As tésseras,
na verdade, são os quadrados ou losangos do pavimento. Na Inglaterra,
também, “a borda dentada ou denticulada” é chamada de “tesselado”
porque tem quatro franjas (em inglês, “tassels”), que representam
Temperança, Força, Prudência e Justiça. Foi chamada de Orla Dentada, mas
trata-se de um uso impróprio das palavras. É um “pavimento tesselado” com
uma borda dentada o envolvendo.

O pavimento, alternadamente preto e branco, simboliza, intencionalmente ou


não, os Princípios do Bem e do Mal do credo Egípcio e Persa. É o combate
entre Miguel e Satã, entre os Deuses e os Titãs, entre Balder e Lóki; entre a
luz e a sombra, que é a escuridão; Dia e Noite; Liberdade e Despotismo;
Liberdade Religiosa e Dogmas Arbitrários de uma Igreja que pensa por seus
devotos, da qual o Pontífice se declara infalível, e da qual os decretos de seus
Conselhos se constituem um evangelho.

As faces desse pavimento, se losangulares, serão necessariamente dentadas


ou denticuladas, como um serrote; e para completá-lo e finalizá-lo uma
bordadura é necessária. É complementado por tesselas como ornamentos aos
cantos. Se estes e a bordadura têm algum significado, ele é fantasioso e
arbitrário.

Encontrar na ESTRELA FLAMEJANTE de cinco pontas uma alusão à


Divina Providência é igualmente fantasioso; e fazê-la um comemorativo da
Estrela que guiou os Magos, é dar-lhe um significado comparativamente
moderno. Originalmente, representava SÍRIUS, ou a estrela-Cão, o precursor
da inundação no Nilo; o deus ANÚBIS, companheiro de Ísis em sua busca
pelo corpo de OSÍRIS, seu irmão e marido. Então, se tornou a imagem de
HÓRUS, o filho de OSÍRIS, ele mesmo também simbolizado pelo Sol, o
autor das Estações do Ano, e o deus do Tempo; Filho de Ísis, que era a
natureza universal, ele próprio a matéria primitiva, fonte inexaurível de Vida,
centelha de fogo incriado, semente universal de todos os seres. Era
HERMES, também, o Mestre do Conhecimento, cujo nome em grego é o do
Deus Mercúrio. Tornou-se o caráter ou sinal sagrado e poderoso dos Magos,
o PENTALFA, e é o emblema significativo da Liberdade, flamejando com
uma radiação constante em meio a elementos tumultuosos de bem e de mal
das Revoluções, e de céus promissoramente serenos e estações férteis para as
nações, após as tormentas de mudanças e tumultos.

No Oriente da Loja, sobre o Mestre, incluída em um triângulo, está a letra


hebraica YOD [‫ י‬ou ]. Nas Lojas Inglesas e Americanas, a Letra G.·. a
substituiu como a inicial da palavra GOD, com tão pouca razão quanto seria
se, ao invés da letra própria, fosse usada a inicial D de DIEU em Lojas
Francesas. O YOD é, na Cabala, o símbolo da Unidade, da Deidade Suprema,
a primeira letra do Nome Sagrado; é, também, um símbolo das Grandes
Tríades Cabalísticas. Para compreender seus significados místicos, você deve
abrir as páginas do Zohar e do Siphra Dtzenioutha, e outros livros
cabalísticos, e ponderar profundamente sobre seu significado. É suficiente
dizer que ela é a Energia Criativa da Divindade, e que é representada como
um ponto, esse ponto no centro do Círculo da imensidão. É para nós, neste
Grau, o símbolo da Divindade não manifestada, do Absoluto, que não possui
nome.

Nossos Irmãos franceses colocam esta letra, YOD, no centro da Estrela


Flamejante. E, em velhos ensinamentos, nossos antigos Irmãos Ingleses
disseram “a Estrela Flamejante ou Glória, no centro, nos remete ao grande
luminar, o Sol, que ilumina a terra, e por sua influência genial dispensa
bênçãos à humanidade”. Também nos mesmos ensinamentos, o chamavam
de emblema da PRUDÊNCIA. A palavra Prudentia significa, em seu
sentido original e completo, Previsão; e, adequadamente, a Estrela
Flamejante tem sido considerada como emblema da Onisciência, ou o Olho
que Tudo Vê, que, para os Iniciados Egípcios, era o emblema de Osíris, o
Criador. Com o YOD no centro, tem o significado cabalístico da Energia
Divina, manifestada como Luz, criando o Universo.

As Joias da Loja são em número de seis. Três são chamadas “Móveis”, e três
“Imóveis”. O ESQUADRO, o NÍVEL e o PRUMO eram, antiga e
propriamente, chamados de Joias Móveis, porque passam de um Irmão para o
outro. É uma inovação moderna chamá-las de imóveis, só porque elas devem
sempre estar presentes na Loja. As joias imóveis são a PEDRA BRUTA, a
PEDRA PERFEITA ou PEDRA CÚBICA, ou, em alguns Rituais, o CUBO
DUPLO, e a TÁBUA DE TRAÇAR.

Sobre estas joias nossos Irmãos do Rito de York dizem: “O Esquadro inculca
Moralidade; o Nível, Igualdade; e o Prumo, Retidão de Conduta.” Suas
explicações das Joias imóveis podem ser lidas em seus manuais.

Nossos Irmãos do Rito de York dizem que “em toda Loja bem dirigida existe
um certo ponto representado, dentro de um círculo; o ponto representando
um Irmão, individualmente; o Círculo, a linha delimitadora de sua conduta,
além da qual ele nunca sofrerá danos ou paixões que o traiam”.
Isto não é interpretar os símbolos da Maçonaria. Alguns dizem que, com
uma abordagem mais próxima a fim de interpretação, o ponto dentro do
círculo representa Deus no centro do Universo. É um sinal Egípcio comum
para o Sol e Osíris, e ainda é usado como sinal astronômico do grande
luminar. Na Cabala, o ponto é YŌD, a Energia Criativa de Deus, irradiando
com luz o espaço circular que Deus, a Luz universal, deixou vago para criar
os mundos, ao retirar de lá Sua substância de Luz e concentrá-la em todos os
lados, a partir de um ponto.

Nossos Irmãos acrescentam que “esse círculo é limitado por duas linhas
perpendiculares paralelas, que representam São João Batista e São João
Evangelista, e no topo estão as Sagradas Escrituras” (um livro aberto). “Ao
circundar esse círculo”, dizem eles, “tocamos, necessariamente, essas duas
linhas, assim como às Sagradas Escrituras; e enquanto um Maçom se
mantém circunscrito a seus preceitos, torna-se impossível que possa
concretamente errar”.

Seria uma perda de tempo comentar a respeito. Alguns escritores imaginaram


que as linhas paralelas representam os Trópicos de Câncer e de Capricórnio,
que o Sol toca, alternadamente, nos solstícios de Verão e de Inverno. Mas os
trópicos não são linhas perpendiculares, e a ideia é meramente fantasiosa. Se
as linhas paralelas, alguma vez, pertenceram ao símbolo antigo, elas
possuíram algum significado mais recôndito e mais frutífero. Provavelmente,
elas teriam o mesmo significado das colunas gêmeas Jachin e Boaz. Este
significado não é para o Aprendiz. O adepto pode encontrá-lo na Cabala. A
JUSTIÇA e a MISERICÓRDIA de Deus estão em equilíbrio, e o resultado
é HARMONIA, porque uma Única e Perfeita Sabedoria preside sobre
ambas.

As Escrituras Sagradas são uma adição inteiramente moderna ao símbolo,


como os globos terrestre e celestial nas colunas do pórtico. Assim, o antigo
símbolo foi desnaturalizado por adições incongruentes, tal como Ísis
chorando sobre a coluna quebrada que continha os restos de Osíris em Biblos.

A Maçonaria tem seu Decálogo, que é uma lei para seus Iniciados. Estes são
seus Dez Mandamentos:
1. ⊕.·. Deus é a SABEDORIA Eterna, Onipotente e Imutável, INTELIGÊNCIA Suprema e
AMOR Incansável.
Adorá-Lo-eis, reverenciá-Lo-eis e amá-Lo-eis!
Honrá-Lo-eis praticando as virtudes!
2. ○.·. Vossa religião será fazer o bem porque é um prazer para vós, não simplesmente porque seja
um dever.
Para que sejais amigos das pessoas sábias, obedecereis seus preceitos!
Vossa alma é imortal! Nada fareis para degradá-la!
3. ⊕.·. Guerreareis incessantemente o vício!
Não fareis para outros o que não quereis que façam a vós!
Sereis submissos às vossas venturas, e mantereis acesa a luz da sabedoria!
4. ○.·. Honrareis vossos pais!
Respeitareis e homenageareis os velhos!
Ensinareis os jovens!

Protegereis e defendereis a infância e a inocência!

1. ⊕.·. Afagareis vossa esposa e vossos filhos!


Amareis vosso país e obedecereis às suas leis!
2. ○.·. Vosso amigo será vossa segunda metade!
O infortúnio não vos afastará dele!
Fareis em sua memória tudo o que faríeis se ele estivesse vivo!
3. ⊕.·. Evitareis e fugireis de amizades insinceras!
Refrear-vos-eis de todos os excessos.

Temereis ser a causa de qualquer mácula em vossa lembrança!

1. ○.·. Não permitireis que paixões sejam vossos guias!


Fareis das paixões dos outros lições de proveito para vós!
Sereis indulgentes ao erro!
2. ⊕.·. Escutareis muito; falareis pouco!
Agireis corretamente!
Esquecereis as injúrias!

Fareis o bem em retribuição ao mal!


Não usareis indevidamente vossa força nem vossa superioridade!

1. ○.·. Estudareis para conhecer as pessoas; com isso podereis conhecer a vós mesmos!

Sempre buscareis a virtude!


Sereis justos!
Evitareis a preguiça!

Mas o grande mandamento da Maçonaria é: “Dou-vos um novo


mandamento: Amareis uns aos outros! Aquele que disser estar na luz e
odeia seu irmão, ainda estará na escuridão”.

Tais são os deveres morais de um Maçom. Mas é também dever da


Maçonaria assistir na elevação do nível moral e intelectual da sociedade;
cunhando conhecimento, trazendo ideias à circulação e motivando a mente da
juventude a crescer; colocando a raça humana em harmonia com seus
destinos, gradualmente, mediante o ensinamento de axiomas e a promulgação
de leis positivas.

Para este dever e trabalho o Iniciado é aprendiz. Não deve imaginar que não
pode afetar nada e, portanto, desesperando-se, permanecer inerte. É assim
nisto, como na vida diária de um homem. Muitos grandes feitos são
executados nas pequenas lutas da vida. Existe, nos informam, determinada,
porém invisível bravura, que se defende passo a passo, na escuridão, contra a
invasão fatal da necessidade e da baixeza. Existem triunfos nobres e
misteriosos, que os olhos não veem, que não têm recompensas renomadas e
que nenhuma fanfarra de trompetes saúda. A vida, o infortúnio, o isolamento,
o abandono, a pobreza, são campos de batalha que têm seus herois, – herois
obscuros, mas algumas vezes maiores do que aqueles que se tornam ilustres.
O Maçom deve lutar da mesma maneira, e com a mesma bravura, contra
aquelas invasões da necessidade e da baixeza que atingem as nações, bem
como aos homens. O Maçom deve enfrentá-las também passo a passo,
mesmo na escuridão, e protestar contra os erros e a insensatez nacional;
contra a usurpação e as primeiras invasões desta hidra, a Tirania. Não há
eloquência mais soberana do que a verdade indignada. É mais difícil para um
povo manter do que ganhar sua liberdade. Os Protestos da Verdade são
sempre necessários. O direito deve continuamente protestar contra o Fato.
Existe, na realidade, Eternidade no Direito. O Maçom deve ser o Sacerdote e
o Soldado desse Direito. Se sua pátria tiver roubadas as suas liberdades, não
deve se desesperar. O protesto do Direito contra o Fato persiste para sempre.
O roubo de um povo nunca prescreve. A reclamação desses direitos nunca é
barrada. Varsóvia não pode mais ser Tártara do que Veneza Teutônica. Um
povo pode suportar usurpações militares, Estados subjugados se ajoelharem a
Estados e usarem a canga, enquanto sob pressão da necessidade; mas, quando
a necessidade desaparece, se o povo estiver preparado para ser livre, o país
submerso virá à tona e reaparecerá, e a Tirania será adjudicada pela História
por ter assassinado suas vítimas.

Seja lá o que ocorrer, devemos ter Fé na Justiça e na Sabedoria soberana de


Deus, Esperança no Futuro e Benevolência Afetuosa para com os que erram.
Deus torna Sua vontade visível às pessoas através de acontecimentos; um
texto obscuro, escrito numa linguagem misteriosa. As pessoas traduzem-na
imediata, rápida e incorretamente, com muitos erros, omissões e
interpretações falhas. Vemos tão resumidamente um caminho ao longo do
arco do grande círculo! Poucas mentes compreendem o idioma Divino. Os
mais sagazes, os mais calmos, os mais profundos, decifram hieróglifos
lentamente; e, quando voltam com seu texto, talvez a necessidade há muito
desaparecera; já existem vinte traduções em praça pública – a maioria é
incorreta e, é claro, são as mais aceitas e populares. De cada tradução nasce
um partido; de cada interpretação falha, uma facção. Cada partido acredita ou
finge que detém o único texto verdadeiro, e cada facção acredita ou finge que
apenas ela possui a Luz. Além disso, facções são gente cega, que apontam
retamente, e erros são projéteis excelentes, atingindo habilmente, e com toda
a violência que salta de argumentos falsos, onde quer que uma falta de lógica
naqueles que defendem o direito os faça vulneráveis, como uma falha em
uma couraça.

Portanto, muitas vezes seremos frustrados ao combater o erro diante do povo.


Anteu resistiu a Hércules por longo tempo; e as cabeças da Hidra cresceram
tão rapidamente quanto foram cortadas. É um absurdo se dizer que o Erro,
ferido, se contorce em dor, e morre em meio aos seus adoradores. A
Verdade conquista lentamente. Há uma vitalidade fantástica no Erro. A
Verdade, de fato, na maioria das vezes, atira por sobre as cabeças das massas;
ou, se um erro estiver prostrado por um momento, levantar-se-á num instante,
tão vigoroso como nunca. Não morrerá quando o cérebro lhe tiver sido
arrancado, e os erros mais estúpidos e irracionais serão os mais longevos.

Não obstante, a Maçonaria, que é Moralidade e Filosofia, não deve deixar de


cumprir seu dever. Nunca sabemos em que momento o sucesso aguarda
nossos esforços – geralmente quando menos esperamos – nem com o que
nossos esforços serão, ou não, recompensados. Sucedida ou falha, a
Maçonaria não deve ceder ao erro, nem sucumbir sob o desânimo. Existiram
em Roma alguns soldados Cartagineses, aprisionados, que se recusaram a se
curvar para Flamínio, e tinham um pouco da magnanimidade de Aníbal. Os
Maçons devem possuir uma igual grandeza de alma. A Maçonaria deve ser
uma energia; encontrando seu alvo e efeito na melhoria da humanidade.
Sócrates deve entrar em Adão e gerar Marco Aurélio; em outras palavras,
produzir, do mesmo homem de prazeres, o homem de sabedoria. A
Maçonaria não deve ser uma mera torre de observação, construída sobre o
mistério, para daí fitar o mundo à vontade, sem outro resultado senão a
conveniência para o curioso. Manter a caneca cheia de pensamentos nos
lábios sedentos das pessoas; dar a todos as ideias verdadeiras da Deidade;
harmonizar a consciência e a ciência – são as províncias da Filosofia. A
Moralidade é a Fé em plena florescência. A contemplação deve levar à ação,
e o absoluto se tornar prático; o ideal se transformar em ar, alimento e bebida
para a mente humana. A Sabedoria é uma comunhão sagrada. É apenas nessa
condição que cessa de ser um amor estéril à Ciência, e se torna o método
único e supremo para unir a Humanidade e despertá-la para a ação
combinada. Então a Filosofia se transforma em Religião.

E a Maçonaria, tal como a História e a Filosofia, tem deveres eternos –


eternos e, ao mesmo tempo, simples – se opor a Caifás como Bispo, a Draco
ou a Jeferias como Juízes, a Trimalcião como Legislador e a Tibério como
Imperador. Estes são os símbolos da tirania que degrada e esmaga, da
corrupção que avilta e infesta. Nos trabalhos publicados para uso na Ordem
somos informados que os três grandes princípios da ocupação de um Maçom
são Amor Fraternal, Assistência e Verdade. E é verdade que afeição e
bondade Fraternais devem nos governar em todos os tratos e relações com
nossos irmãos; e a filantropia generosa e liberal nos orientar em relação a
todas as pessoas. Aliviar os angustiados é peculiarmente um dever dos
Maçons – um dever sagrado, o qual não pode ser omitido, negligenciado e
tampouco aceito de forma fria ou ineficiente. É também muito verdadeiro que
a Verdade é um atributo Divino e o alicerce de toda a virtude. Ser verdadeiro
e procurar encontrar e aprender a Verdade são os grandes objetivos de todo o
bom Maçom.

Como faziam os Antigos, a Maçonaria molda Moderação, Força, Prudência e


Justiça, as quatro virtudes cardeais. Elas são tão necessárias às nações quanto
aos indivíduos. O povo que quer ser Livre e Independente deve possuir
Sagacidade, Prudência, Previsão e Circunspeção cuidadosa, todas estas
abrangidas pelo significado da palavra Prudência. Ele deve ser moderado ao
defender seus direitos, temperado em seus conselhos e econômico em suas
despesas; deve ser destemido, bravo, corajoso, paciente sob reveses,
desassombrado perante desastres e esperançoso durante calamidades, como
Roma, quando entregou o campo no qual Aníbal teve seu acampamento. Nem
Canas, nem Farsália, nem Pávia ou Agincourt ou Waterloo podem
desencorajá-lo. Deixe seu Senado permanecer sentado até que os gauleses o
puxem pelas barbas. Ele deve, acima de todas as coisas, ser justo e abster-se
de bajular os fortes e de guerrear ou saquear os fracos; deve agir no esquadro
com todas as nações e com as tribos mais débeis; sempre mantendo sua fé,
honesta em suas leis, justa em todos os seus assuntos. Quando existir tal
República, ela será imortal: pois temeridade, injustiça, intemperança e luxo
na prosperidade, desespero e desordem na adversidade, são as causas da
queda e da dilapidação de nações.
II. O COMPANHEIRO

No Antigo Oriente, toda a religião era mais ou menos um mistério, e não


existia o seu divórcio com a filosofia. A teologia popular, tomando como
realidade a multidão de alegorias e símbolos, degenerou numa adoração dos
luminares celestiais, de Deidades imaginárias com sentimentos humanos,
paixões, apetites e luxúrias, de ídolos, pedras, animais, répteis. A Cebola era
sagrada para os Egípcios, porque suas diferentes camadas eram um símbolo
das esferas celestiais concêntricas. Obviamente, a religião popular não podia
satisfazer os desejos e pensamentos mais profundos, as aspirações mais
sublimes do Espírito, nem a lógica da razão. A religião, portanto, era
ensinada aos iniciados nos Mistérios. Ali, também, era ensinada através de
símbolos. A imprecisão do simbolismo, capaz de muitas interpretações,
alcançava o que o credo palpável e convencional não conseguia. Sua
indefinição reconhecia a abstrusão do assunto: tratava tal assunto misterioso
misticamente: tentava ilustrar o que não conseguia explicar; excitar um
sentimento apropriado, se não conseguisse desenvolver uma ideia adequada;
e fazer da imagem um mero veículo subalterno da concepção, que por si só
nunca se tornou óbvia nem familiar.

Assim, o conhecimento hoje comunicado por livros e letras, antes era


veiculado por símbolos; e os sacerdotes inventavam ou perpetuavam uma
série de ritos e exibições que não eram apenas mais atraentes aos olhos do
que palavras, mas muitas vezes mais sugestivos e mais prenhes de significado
para a mente.

A Maçonaria, sucessora dos Mistérios, ainda segue a maneira antiga de


ensinar. Suas cerimônias são como as antigas apresentações místicas, – não a
leitura de um ensaio, mas a abertura de um problema, exigindo pesquisa, e
constituindo a filosofia como sua arquiexplicadora. Seus símbolos são a
instrução que ministra. Seus ensinamentos são esforços, muitas vezes parciais
e unilaterais, para interpretar esses símbolos. Quem quer se tornar um Maçom
completo não deve ficar contente meramente em ouvir, ou mesmo em
entender, os ensinamentos; deve, auxiliado por eles, e estes como que
sinalizando-lhe o caminho, estudar, interpretar e desenvolver esses símbolos
para si próprio.

Embora a Maçonaria seja idêntica aos antigos Mistérios, o é apenas neste


limitado sentido: que apresenta apenas uma imagem imperfeita de seu
resplendor, somente as ruínas de sua grandeza, e um sistema que
experimentou alterações progressivas, fruto de acontecimentos sociais, de
circunstâncias políticas, e da imbecilidade ambiciosa de seus aperfeiçoadores.
Depois de deixar o Egito, os Mistérios foram modificados pelos hábitos das
diferentes nações entre as quais foram introduzidos, e especialmente pelos
sistemas religiosos dos países para os quais foram transplantados. Em todo
lugar era a obrigação do Iniciado manter o governo estabelecido, as leis e a
religião; e em todo lugar, eles eram heranças dos sacerdotes, que de modo
nenhum estavam dispostos a fazer das pessoas comuns seus co-proprietários
da verdade filosófica.

A Maçonaria não é o Coliseu em ruínas. É antes um palácio Romano da


Idade Média, desfigurado por melhorias arquitetônicas modernas, porém
ainda construído sobre um alicerce Ciclópico projetado pelos Etruscos, e com
muitas pedras da superestrutura obtidas de moradas e templos da era de
Adriano e de Antonino.

O Cristianismo ensinou a doutrina da FRATERNIDADE; mas repudiou a da


IGUALDADE política, por continuamente inculcar obediência a César e às
autoridades legais. A Maçonaria foi o primeiro apóstolo da IGUALDADE.
Nos Monastérios existe fraternidade e igualdade, mas nenhuma liberdade. A
Maçonaria adicionou esta também, e reclamou para as pessoas a tríplice
herança: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE.

Foi apenas um desenvolvimento do propósito original dos Mistérios, que era


ensinar as pessoas a conhecer e a praticar seus deveres, consigo mesmas e
para com seus companheiros, a grande finalidade prática de toda filosofia e
de todo conhecimento.

As Verdades são as fontes de onde os deveres jorram; e faz algumas centenas


de anos desde que uma nova Verdade começou a ser vista claramente: que O
HOMEM É SUPREMO SOBRE AS INSTITUIÇÕES, E NÃO ELAS
SOBRE ELE. O homem tem um império natural sobre todas as instituições.
Estão para ele, de acordo com o seu desenvolvimento; e não ele para elas.
Parece-nos um enunciado muito simples, com o qual todos, em todo o lugar,
devem assentir. Mas isto um dia foi uma grande e nova Verdade – não
revelada até que governos tivessem pelo menos cinco mil anos de existência.
Uma vez revelada, impôs novos deveres às pessoas. O ser humano debitou-se
para consigo mesmo de ser livre. Debitou-se para com sua pátria de lhe dar
sua liberdade ou mantê-la em sua posse. Isto fez da Tirania e da Usurpação
os inimigos da Raça Humana. Criou uma proscrição universal de Déspotas e
Despotismos, temporais e espirituais. A esfera do Dever foi imensamente
alargada. O Patriotismo passou a ter, daqui para frente, um significado novo e
mais amplo. Governo Livre, Livre Pensamento, Livre Consciência, Livre
Expressão! Todos esses vieram a se transformar em direitos inalienáveis, que
aqueles que foram deles apartados ou os tiveram roubados, ou que cujos
ancestrais os perderam, passaram a ter o direito de os retomar sumariamente.
Infelizmente, como Verdades sempre são pervertidas em falsidades, e são
falsidades quando mal aplicadas, esta Verdade se tornou o Evangelho da
Anarquia, logo após ter sido pregada pela primeira vez.

A Maçonaria compreendeu muito cedo esta Verdade, e reconheceu seus


próprios deveres ampliados. Seus símbolos, então, passaram a ter um
significado mais abrangente; mas ela também assumiu a máscara de “arte dos
pedreiros”, e tomou emprestadas suas ferramentas de trabalho, assim
recebendo novos e apropriados símbolos. Ajudou a causar a Revolução
Francesa, desapareceu com os Girondistas, renasceu com a restauração da
ordem e apoiou Napoleão, porque, apesar de Imperador, reconheceu o direito
do povo de escolher seus governantes e esteve à frente de uma nação que se
recusava a receber de volta seus velhos reis. Ele defendeu, com sabre,
mosquete e canhão, a grande causa do Povo contra a Realeza, o direito do
povo Francês de até fazer de um General Corso seu Imperador, se isto o
agradasse.

A Maçonaria sentiu que esta Verdade tinha a Onipotência de Deus ao seu


lado; e que nem Papa nem Potentado poderiam sujeitá-la. Era uma verdade
que se desprendeu para dentro do grande tesouro do mundo, fazendo parte da
herança que cada geração recebe, aumenta, mantém em custódia, e
necessariamente lega à humanidade; o patrimônio pessoal do homem,
herdado da natureza para o fim dos tempos. E a Maçonaria cedo reconheceu
como verdadeiro, que apresentar e desenvolver uma verdade, ou qualquer
excelência de dom ou crescimento, é tornar ainda maior a glória espiritual da
raça; que qualquer coisa que auxilia a marcha de uma Verdade e faz do
pensamento um fato, escreve na mesma linha com Moisés, e com Aquele que
morreu na cruz, e tem afinidade intelectual com a Própria Divindade.

A melhor dádiva que podemos outorgar às pessoas é o humanismo. É o que


Deus ordena à Maçonaria para entregar aos seus devotos: não sectarismo e
dogma religioso; não uma moralidade rudimentar que pode ser encontrada
nos escritos de Confúcio, Zoroastro, Sêneca e dos Rabinos, nos Provérbios e
em Eclesiastes; mas humanismo, ciência e filosofia.

Não que Filosofia ou Ciência estejam em oposição a Religião. Porque a


Filosofia nada mais é do que o conhecimento de Deus e da Alma, que deriva
da observação da ação manifesta de Deus e da Alma, a de uma analogia
sábia. É o guia intelectual que o sentimento religioso necessita. A verdadeira
filosofia religiosa de um ser imperfeito não é um sistema de credo, mas,
como SÓCRATES pensou, uma busca ou aproximação infinitas. Filosofia é
aquele progresso intelectual e moral que o sentimento religioso inspira e
enobrece.

Quanto à Ciência, não pôde caminhar sozinha enquanto a religião esteve


estacionária. Ela consiste das inferências maduras da experiência que toda
outra experiência confirma. Concretiza e une tudo o que era realmente
valioso em ambos os velhos esquemas de meditação, – um heroico, ou o
sistema de ação e esforço; e a teoria mística da comunhão contemplativa,
espiritual. “Escutem-me”, diz GALEN, “como à voz do Hierofante Eleusino,
e creiam que o estudo da Natureza é um mistério não menos importante do
que os dele, nem menos adaptado para mostrar a sabedoria e o poder do
Grande Criador. Suas lições e demonstrações eram obscuras, mas as nossas
são claras e inequívocas”.

Avaliamos ser o melhor conhecimento que podemos obter da Alma de outra


pessoa, aquele que é fornecido por seus atos e por sua conduta ao longo da
vida. Uma evidência em contrário, fornecida por aquilo que outra pessoa nos
informa que essa Alma tenha dito à dele, pesaria muito pouco em
comparação à anterior. As primeiras Escrituras para a raça humana foram
escritas por Deus na Terra e nos Céus. A leitura dessas Escrituras é a Ciência.
A familiaridade com a grama e as árvores, os insetos e os protozoários, nos
ensina lições mais profundas de amor e fé do que as que podemos colher dos
escritos de FÉNELON e AGOSTINHO. A grande Bíblia de Deus está
sempre aberta perante a humanidade.

Conhecimento é conversível em poder, e axiomas em regras de utilidade e


dever. Mas conhecimento em si não é Poder. Sabedoria é Poder; e seu
Primeiro Ministro é a JUSTIÇA, que é a lei aperfeiçoada da VERDADE.
Portanto, o propósito da Educação e da Ciência é tornar as pessoas mais
sábias. Se o conhecimento não o fizer, é desperdiçado, como água derramada
nas areias. Conhecer as fórmulas da Maçonaria, por si só, é de tão pouca
valia quanto conhecer muitas palavras e sentenças em algum dialeto bárbaro
Africano ou Australasiano. Conhecer mesmo o significado dos símbolos é
quase nada, a não ser que contribua à nossa sabedoria e também à nossa
caridade, que é para a justiça o que um hemisfério do cérebro é para o outro.

Não perca de vista, então, o verdadeiro objetivo de seus estudos na


Maçonaria. É contribuir para seu patrimônio de sabedoria, e não
simplesmente para seu conhecimento. Uma pessoa pode passar toda uma vida
estudando uma única especialidade de conhecimento, – botânica,
conquiliologia ou entomologia, por exemplo, – se comprometendo em
memorizar nomes derivados do Grego, classificando-os e reclassificando-os;
e ainda assim não ser mais sábia do que quando começou. São as grandes
verdades que mais preocupam as pessoas, assim como seus direitos,
interesses e deveres, que a Maçonaria procura ensinar aos seus Iniciados.

Quanto mais sábia uma pessoa se torna, menos estará inclinada a se submeter
mansamente à imposição de grilhões ou cangas, seja sobre sua consciência ou
pessoa. Pois, com o aumento da sabedoria, não só conhecerá melhor seus
direitos, mas também os valorizará mais, e será mais consciente de seu valor
e dignidade. Seu orgulho, então, a encoraja a declarar sua independência.
Tornar-se-á mais capaz de fazê-lo, também; e mais capaz de ajudar os outros
e sua pátria, quando eles ou ela apostarem tudo, até suas existências, na
mesma declaração. Porém o mero conhecimento não torna ninguém
independente, nem o prepara para ser livre. Na maioria das vezes, o faz um
escravo mais útil. A Liberdade é maldição para o ignorante e bruto.

A ciência política tem como objetivo averiguar de que maneira e por meio de
quais instituições a liberdade política e pessoal pode ser assegurada e
perpetuada: não a permissão ou o mero direito de qualquer um votar, mas a
liberdade completa e absoluta de pensamento e opinião, igualmente livre do
despotismo do monarca, da gentalha e do prelado; liberdade de ação dentro
dos limites da lei geral decretada para todos; os Tribunais de Justiça, com
Juízes e júris imparciais, abertos igualmente para todos; fraqueza e pobreza
tão poderosos nesses Tribunais quanto poder e riqueza; as avenidas para os
cargos e para a honra igualmente abertas a todos os que mereçam; os poderes
militares, na guerra ou na paz, em estrita subordinação ao poder civil;
impossibilidade de prisões arbitrárias por atos não reconhecidos pela lei
como crimes; desconhecimento de Inquisições Papistas, Câmaras-Estreladas
e Comissões Militares; meios de instrução ao alcance dos filhos de todos;
direito de Livre Expressão; e obrigação de prestar contas de todos os
funcionários públicos, civis e militares.

Se a Maçonaria precisasse de justificação para impor deveres políticos, bem


como morais, a seus Iniciados, bastaria apontar para a triste história do
mundo. Não seria sequer necessário voltar as páginas da história para os
capítulos escritos por Tácito: nem recitar os incríveis horrores do despotismo
sob Calígula e Domiciano, Caracala e Cômodo, Vitélio e Maximino. Precisa
apenas apontar para os séculos de calamidade pelos quais a alegre nação
francesa passou; para a longa opressão das épocas feudais, dos egoístas reis
Bourbons; para aqueles tempos quando os lavradores eram roubados e
abatidos como ovelhas por seus lordes e príncipes; para quando o lorde exigia
as primícias do leito matrimonial do lavrador; para quando a cidade capturada
sucumbia a estupros e massacres impiedosos; para quando as prisões do
Estado gemiam com vítimas inocentes e a Igreja abençoava os estandartes de
assassinos cruéis, e cantava Te Deums para a misericórdia coroada da Noite
de São Bartolomeu.

Podemos virar as páginas para um capítulo mais adiante, – o do reinado de


Luís XV, quando jovens meninas, pouco mais que crianças, eram raptadas
para servir às suas luxúrias; quando as lettres de cachet enchiam a Bastilha
com pessoas acusadas de crime nenhum, com maridos que obstruíam o
caminho dos prazeres de esposas lascivas e de vilões trajando ordens de
nobreza; quando o povo era esmigalhado entre a mó superior e inferior das
taxas, da alfândega e dos impostos; e quando o Núncio Papal e o Cardeal de
La Roche-Aymon, ajoelhando-se devotadamente, um de cada lado de
Madame Du Barry, a prostituta abandonada do rei, colocavam os chinelos em
seus pés descalços, conforme ela se levantava da cama adulterina. Então,
deveras, sofrimento e trabalho eram as duas formas de homem, e as pessoas
nada mais eram do que burros de carga.

O verdadeiro Maçom é o que trabalha incansavelmente para ajudar sua


Ordem efetivar seus grandes propósitos. Não que a Ordem consiga alcançá-
los sozinha; mas que ele, também, possa ajudar. Ela também é um dos
instrumentos de Deus. É uma Força e um Poder; e seria uma vergonha se não
pudesse se empenhar e, se necessário, sacrificar seus filhos na causa da
humanidade, tal como Abraão esteve pronto para oferecer Isaque no altar do
sacrifício. Ela não esquecerá aquela nobre alegoria de Cúrcio saltando, de
armadura completa, para o grande abismo bocejante que se abriu para engolir
Roma. Ela TENTARÁ. Não será sua culpa se nunca chegar o dia no qual as
pessoas não mais terão que temer uma conquista, uma invasão, uma
usurpação, uma rivalidade de nações à mão armada, uma interrupção da
civilização dependendo de um casamento real, ou um nascimento nas tiranias
hereditárias; uma separação das pessoas por um Congresso, um
desmembramento pela queda de uma dinastia, um combate entre duas
religiões, cabeceando-se como duas cabras de escuridão sobre a ponte do
Infinito: Quando não mais terão que temer a fome, a espoliação, a
prostituição a partir da miséria, a miséria a partir da falta de trabalho, e todo o
banditismo do acaso na floresta dos eventos; quando as nações gravitarão ao
redor da Verdade, como astros ao redor da luz, cada qual em sua órbita, sem
choque ou colisão; e em todos os lugares a Liberdade, cinturada por estrelas,
coroada com os esplendores celestiais, e com a sabedoria e a justiça em cada
mão, reinará suprema.

Em seus estudos como Companheiro você deve ser guiado por RAZÃO,
AMOR e FÉ.

Não discutiremos agora as diferenças entre Razão e Fé, nem nos


responsabilizaremos por definir os domínios de cada uma. Mas é necessário
dizer que, mesmo nos assuntos mais comuns da vida, somos governados
muito mais pelo que acreditamos do que pelo que sabemos; por FÉ e
ANALOGIA, do que pela RAZÃO. A “Era da Razão” da Revolução
Francesa ensinou, sabemos, que grande insensatez é entronar a Razão,
sozinha, como suprema. A Razão é falha quando lida com o Infinito. Aí
devemos venerar e crer. Não obstante as calamidades dos virtuosos, as
misérias dos merecedores, a prosperidade de tiranos e o assassinato de
mártires, precisamos crer que existe um Deus sábio, justo, piedoso e
amoroso, uma Inteligência e uma Providência, supremas sobre tudo, que
cuidam das coisas e eventos mais minúsculos. A Fé é uma necessidade para o
homem. Ai daquele que não crê em nada!

Acreditamos que a alma de alguém tenha uma tal natureza e possui tais
qualidades, que tal pessoa é generosa e honesta, ou penuriosa e desonesta,
que outra é virtuosa e amigável ou viciosa e mau-humorada, somente a partir
do semblante, de pouco mais que um relance, sem meios de conhecimento.
Arriscamos nossa sorte na assinatura de alguém do outro lado do mundo, a
quem nunca vimos, na crença de que esta pessoa seja honesta e confiável.
Cremos que acontecimentos ocorrem, pela afirmação de outros. Cremos que
uma vontade age sobre outra, e na realidade de uma multidão de outros
fenômenos que a Razão não consegue explicar.

Mas não devemos acreditar no que a Razão nega autoritariamente, no que


revolta o senso de direito, no que é absurdo ou contraditório, ou em
desacordo com a experiência ou com a ciência, ou no que degrada o caráter
da Divindade e que pode fazê-La vingativa, maligna, cruel ou injusta.
A Fé de uma pessoa é tão particular quanto a sua Razão. Sua Liberdade
consiste tanto em sua fé ser livre quanto em sua vontade não ser controlada
pelo poder. Nenhum dos Sacerdotes e Áugures de Roma ou da Grécia teve o
direito de pedir a Cícero ou a Sócrates que acreditassem na mitologia absurda
do vulgar. Nenhum Imã do Islamismo tem o direito de pedir a um Pagão que
acredite que Gabriel ditou o Alcorão ao Profeta. Nenhum dos Brâmanes que,
em algum tempo, viveram, se reunidos num conclave como os Cardeais,
receberia o direito de compelir um único ser humano a crer na Cosmogonia
Hindu. Nenhuma pessoa ou grupo podem ser infalíveis, nem autorizados a
decidir em que outras pessoas devem acreditar como doutrina de fé. Exceto
para aqueles que a recebem em princípio, toda religião e a verdade de todos
os escritos inspirados dependem do testemunho humano e de evidências
internas, a serem julgadas pela Razão e pelas analogias sábias da Fé. Cada
pessoa deve, necessariamente, ter o direito de julgar suas verdades por si
mesmo; porque nenhuma pessoa pode ter qualquer direito maior ou melhor
do que outra que tem igual informação e inteligência.

Domiciano alegou ser o Deus Soberano; e foram encontradas estátuas e


imagens suas, em prata e ouro, por todo o mundo conhecido. Reivindicou ser
visto como o Deus de todas as pessoas; e, de acordo com Suetônio, começava
suas cartas assim: “Nosso Senhor e Deus ordena que deva ser feito assim e
assim;” e decretou formalmente que ninguém se dirigisse a ele de outra
forma, fosse por escrito ou por palavra falada. Palfúrio Sura, o filósofo, que
era seu delator principal, acusando os que se recusavam a reconhecer sua
divindade, acreditasse ele o quanto fosse em tal divindade, não tinha o direito
de exigir que um único Cristão em Roma ou nas províncias fizesse o mesmo.

A Razão está longe de ser o único guia, na moral ou na ciência política. O


Amor, ou a bondade amorosa, deve manter-se em sua companhia, para
excluir o fanatismo, a intolerância e a perseguição, de tudo ao que levam,
invariavelmente, uma moralidade demasiadamente ascética e princípios
políticos extremos. Devemos também ter fé em nós mesmos, em nossos
companheiros e no povo, ou seremos facilmente desencorajados pelos
reveses, e nosso ardor esfriado por obstáculos. Não devemos escutar somente
a Razão. A Força vem mais da Fé e do Amor: e é com a ajuda destes que o
homem escala as alturas mais elevadas da moralidade, ou se torna Salvador e
Redentor de um Povo. A Razão precisa segurar o leme, mas Fé e Amor
devem suprir a força motriz. Eles são as asas da alma. O entusiasmo é
geralmente irracional; mas sem ele, nem Amor e Fé, não teriam existido
RIENZI, ou TELL, ou SYDNEY, ou nenhum dos outros grandes patriotas
cujos nomes são imortais. Se a Divindade tivesse sido mera e simplesmente
Todo-sábia e Todo-poderosa, nunca teria criado o Universo.

É o GÊNIO que obtém Poder; e seus primeiros-tenentes são a FORÇA e a


SABEDORIA. O mais desregrado dos homens curva-se diante do líder que
tem o senso para ver e a vontade para fazer. É o Gênio que governa com o
Poder Divino; que desvela, com seus conselheiros, os mistérios humanos
escondidos, e com suas palavras, corta em pedaços os nós enormes e
reconstrói as ruínas desmoronadas. Ao seu relance caem os ídolos sem
sentido, cujos altares estiveram em todos os lugares altos e em todos os
bosques sagrados. A desonestidade e a imbecilidade se envergonham diante
dele. Seu simples Sim ou Não revoga os erros das eras e é ouvido entre
gerações futuras. Seu poder é imenso, porque sua sabedoria é imensa. O
Gênio é o Sol da esfera política. Força e Sabedoria, seus ministros, são os
globos que levam sua luz para as trevas, e respondem a ele com sua Verdade
sólida e refletora.

O Desenvolvimento é simbolizado pelo uso do Malho e do Cinzel; o


desenvolvimento das energias e do intelecto, do indivíduo e do povo. O
Gênio pode se estabelecer na liderança de uma nação ignorante, deseducada e
sem energias; mas num país livre, o único modo de assegurar intelecto e
gênio para os governantes é cultivar o intelecto dos que os elegem. Quase
nunca o mundo é governado pelos grandes espíritos, exceto depois de uma
dissolução e renascimento. Em períodos de transição e convulsão, os
Parlamentos Longos, os Robespierres e Marats, e as semirrespeitabilidades
do intelecto, muitas vezes retêm as rédeas de poder. Os Cromwells e
Napoleões vêm depois. Depois de Mário, de Sula e do retórico Cícero,
CÉSAR. O grande intelecto muitas vezes é aguçado demais para o granito
desta vida. Legisladores podem ser pessoas muito ordinárias; porque a
legislação é um trabalho muito ordinário; é apenas a publicação final de um
milhão de mentes.

O poder do dinheiro ou da espada, comparado ao do espírito, é pobre e


desprezível. Quanto às terras, pode haver leis agrárias e repartição igual. Mas
o intelecto de um homem é inteiramente seu, recebido diretamente de Deus,
como um feudo inalienável. É a mais poderosa das armas nas mãos de um
paladino. Se as pessoas compreendem a Força no sentido físico, quanto mais
não reverenciariam a Força intelectual! Pergunte a Hildebrando, a Lutero ou a
Loyola. Eles caem prostrados diante desta como diante de um ídolo. A
supremacia da mente sobre a mente é a única conquista que vale a pena. A
outra força fere a ambas e se dissolve num sopro; rústica como é, a grande
corda cede e finalmente se rompe. Mas isto se assemelha de modo turvo ao
domínio do Criador. Não requer um tema como o de Pedro, o Eremita. Se o
fluxo apenas for brilhante e forte, varrerá o coração do povo como uma maré
de primavera. A fascinação reside não apenas na palavra, mas no ato
intelectual. É a homenagem ao Invisível. Este poder, amarrado com Amor, é
a corrente de ouro colocada na nascente da Verdade, ou a cadeia invisível que
prende unidas as classes da humanidade.

A influência de um homem sobre outro é uma lei da natureza, quer seja


através de uma grande propriedade de terra ou de intelecto. Pode significar
escravidão, uma deferência ao eminente julgamento humano.
Espiritualmente, a sociedade se une como as esferas giratórias do alto. O país
livre, no qual o intelecto e o gênio governam, durará. Quando o intelecto e o
gênio são servis, e outras influências governam, a vida nacional é curta.
Todas as nações que tentaram se autogovernar por seus menores, pelos
incapazes, ou meramente respeitáveis, vieram ao zero. Constituições e Leis,
sem o Gênio e o Intelecto para governar, não prevenirão a decadência. Neste
caso, estão carunchadas e suas vidas se esvaem gradualmente.

O único modo seguro de perpetuar a liberdade é concedendo à nação a


franquia do Intelecto. Esta compelirá ao empenho e ao cuidado generoso por
parte dos que ocupam as cadeiras mais altas, e à lealdade honorável e
inteligente dos mais abaixo. Assim, a vida política pública protegerá todas as
pessoas da autodegradação em buscas sensuais, de atos vulgares e de torpe
ganância, desenvolvendo a ambição nobre de um governo imperial justo.
Elevar o povo através do ensino da bondade amorosa e da sabedoria, com
poder a quem ensina melhor: e assim desenvolver o Estado livre a partir da
Pedra Bruta: este é o grande labor ao qual a Maçonaria deseja estender uma
mão auxiliadora.

Todos nós devemos trabalhar na construção do grande monumento de uma


nação, a Casa Sagrada do Templo. As virtudes cardeais não podem ser
repartidas entre as pessoas, tornando-se propriedade exclusiva de alguns,
como as profissões. TODOS são aprendizes destes sócios: o Dever e a
Honra.

A Maçonaria é uma marcha e uma luta em direção à Luz. Para o indivíduo,


bem como para a nação, Luz é Virtude, Humanismo, Inteligência e
Liberdade. A tirania sobre a alma ou sobre o corpo é escuridão. Os povos
mais livres, como as pessoas mais livres, estão sempre em perigo de reincidir
na servidão. Guerras quase sempre são fatais às Repúblicas. Criam tiranos e
consolidam seu poder. Irrompem, na maioria das vezes, de conselhos
nocivos. Quando os pequenos e os ignóbeis são incumbidos do poder, a
legislação e administração se tornam duas séries paralelas de erros estúpidos,
terminando em guerra, calamidade, e na necessidade de um tirano. Quando a
nação sente seus pés escorregando para trás, como se andasse sobre o gelo, é
chegado o momento de um esforço supremo. Os tiranos magníficos do
passado são meros modelos dos do futuro. Pessoas e nações sempre se
venderão à escravidão para gratificar suas paixões e obter revanche. O
pretexto do tirano – a necessidade – está sempre disponível; e uma vez o
tirano no poder, a necessidade da garantia de sua segurança o faz selvagem.
Religião é um poder e o tirano precisa controlá-lo. Independentes, os
santuários religiosos podem se rebelar. Então passa a ser ilegal às pessoas
adorar a Deus a seu próprio modo, e os velhos despotismos espirituais
revivem. As pessoas devem crer como o Poder quer, ou então morrer; e,
mesmo que cressem como quisessem, tudo o que teriam, terras, casas, corpo
e alma, estaria carimbado com a marca real. “O Estado sou eu”, disse Luís
XIV aos seus camponeses; “até as camisas em vossas costas são minhas, e
eu posso tirá-las, se quiser”.

E dinastias assim estabelecidas duram, como a dos Césares de Roma, a dos


Césares de Constantinopla, a dos Califas, dos Stuarts, dos Espanhóis, dos
Godos, dos Valois, até que a raça se desgaste e termine com os lunáticos e
idiotas, que ainda governam. Não há concórdia entre os homens que acabe
com a horrível servidão. O Estado cai internamente, bem como pelos golpes
exteriores dos elementos incoerentes. As furiosas paixões humanas, a
dormente indolência humana, a fleumática ignorância humana, a rivalidade
de castas humanas, são tão úteis para os reis como as espadas para os
Paladinos. Os adoradores têm-se curvado por tanto tempo ao velho ídolo que
não podem sair às ruas e escolher outro Grande Lama. E assim o Estado
infértil flutua na corrente enlameada do Tempo, até que a tempestade ou a
maré percebam que o verme consumiu sua força e o Estado desmorone no
esquecimento.

Liberdade civil e religiosa devem andar de mãos dadas; e a Perseguição


amadurece a ambas. Um povo satisfeito com os pensamentos criados para ele
pelos sacerdotes de uma igreja estará satisfeito com a Realeza por Direito
Divino, – a Igreja e o Trono sustentando-se mutuamente. Abafarão o cisma e
colherão infidelidade e indiferença; e, enquanto a batalha por liberdade se
passa ao seu redor, tanto mais afundarão apaticamente na servidão e num
transe profundo, talvez interrompido ocasionalmente por furiosos ataques de
frenesis, seguidos de exaustão desamparada.

Despotismo não é difícil numa terra que, desde sua infância, conheceu apenas
um mestre; mas não há problema mais complexo do que o povo aperfeiçoar e
perpetuar, por si só, o livre governo; pois não será necessário um só rei: todos
devem ser reis. É fácil erguer Masanielo, que em poucos dias cairá mais
abaixo do que estava antes. Mas um governo livre cresce lentamente, como
as faculdades humanas individuais; e como as árvores das florestas, desde o
âmago até o exterior. A Liberdade não é apenas o direito comum natural de
todos, mas é perdida tanto por não-usuários quanto por maus-usuários.
Depende muito mais do esforço universal do que de qualquer outra
propriedade humana. Ela não tem nenhum santuário ou nascente sagrada para
onde a nação peregrine; pois suas águas devem brotar livremente de todo o
solo.

O poder popular livre é um dos que só são conhecidos em sua força na hora
da adversidade: pois todos os seus processos, sacrifícios e expectativas lhe
são intrínsecos. É treinado para pensar por si mesmo, e também agir por si
mesmo. Quando o povo escravizado se prostra na poeira ante o furacão,
como animais do campo amedrontados, o povo livre se mantém ereto perante
ele, com toda a força de unidade, em autoconfiança, em confiança mútua,
com insolência contra tudo, salvo a mão visível de Deus. Não é derrubado
pela calamidade nem exultado pelo sucesso.

Este vasto poder de persistência, de continência, de paciência e de


desempenho somente é adquirido pelo exercício contínuo de todas as
funções, como o saudável vigor físico humano, como o vigor moral
individual.

E a máxima é tão velha quanto verdadeira, que o preço da liberdade é a eterna


vigilância. É curioso observar o pretexto universal pelos quais os tiranos de
todos os tempos tiram as liberdades nacionais. Está expresso nos estatutos de
Eduardo II que os juízes e os xerifes não mais poderiam ser eleitos pelo povo,
por conta das manifestações e dissensões que aconteceriam. O mesmo motivo
foi dado muito antes para a supressão da eleição popular dos bispos; e existe
uma testemunha desta inverdade em tempos ainda mais antigos, quando
Roma perdeu sua liberdade, e seus cidadãos indignados declararam que a
liberdade tumultuada era melhor que a tranquilidade desgraçada.

Com os Compassos e a Régua podemos traçar todas as figuras usadas na


matemática dos planos, ou no que chamamos de GEOMETRIA e
TRIGONOMETRIA, duas palavras que, em si mesmas, são deficientes de
significado. GEOMETRIA, que na maioria das Lojas é dito ser o significado
da letra G.·., significa medição de terra ou da Terra – ou Agrimensura; e
TRIGONOMETRIA, a medição de triângulos, ou figuras de três lados ou
ângulos. Este último nome é de longe o mais apropriado para a ciência que
visa ser expressa pela palavra “Geometria”. Nenhum desses nomes tem um
significado suficientemente amplo: pois apesar das vastas medições dos
grandes espaços da superfície da terra, e costas terrestres, a fim de serem
evitados naufrágios e calamidades pelos marinheiros, serem efetuadas por
meio de triangulação; – e ter sido pelo mesmo método que os astrônomos
franceses mediram um grau de latitude e então estabeleceram uma escala de
medidas numa base imutável; apesar de a distância de Júpiter, ou Sirius, à
Terra ter sido calculada por meio do imenso triângulo que tem por sua base
uma linha imaginária traçada entre a posição da terra agora no espaço e sua
posição daqui a seis meses, e por seu ápice um planeta ou estrela; e apesar de
existir um triângulo ainda maior, sua base se afastando de nós em ambas as
direções, ultrapassando o horizonte em imensidão, e seu ápice sobre nós,
infinitamente distante; ao qual corresponde, a seguir, um triângulo infinito
semelhante – o que está acima é igual ao que está em baixo, imensidade
igual a imensidade; – e mesmo assim a Ciência dos Números, à qual
Pitágoras deu tamanha importância e cujos mistérios podem ser encontrados
em todo lugar nas religiões antigas, principalmente na Cabala e na Bíblia, não
é suficientemente expressa nem pela palavra “Geometria” nem pela palavra
“Trigonometria”. Pois aquela ciência inclui estas juntamente com a
Aritmética, e também com Álgebra, Logaritmos e Cálculo Diferencial e
Integral; e por meio dela são elaborados os grandes problemas da Astronomia
ou as Leis dos Astros.

A Virtude é uma bravura heroica, é fazer a coisa pensada se tornar realidade,


a despeito de todos os inimigos de carne e osso ou de espírito, a despeito de
todas as tentações ou ameaças. As pessoas estão responsáveis pela
sinceridade de sua doutrina, mas não pela certeza desta. O entusiasmo
devotado é muito mais fácil do que uma boa ação. O fim do pensamento é
ação; o único propósito da Religião é uma Ética. A teoria na ciência política é
inútil, exceto pelo propósito de ser realizada na prática.

Existem duas regiões em todo credo, religioso ou político, dentro das almas
das pessoas, a Dialética e a Ética; e somente quando as duas estão
harmoniosamente misturadas, uma disciplina perfeita é desenvolvida.
Existem pessoas que, dialeticamente, são Cristãs, tal como existe uma
multidão de homens que, dialeticamente, são Maçons, porém eticamente
Infiéis, pois são eticamente Profanos, no sentido mais estrito: crentes
intelectuais, mas ateus práticos; – pessoas que lhe escreveriam “Evidências”,
em perfeita fé em suas lógicas, mas que não são capazes de cumprir a
doutrina Católica ou Maçônica, devido à força, ou fraqueza, da carne. Por
outro lado, existem muitos céticos dialéticos, mas eticamente crentes, como
existem muitos Maçons que nunca passaram pela iniciação; e, como a ética é
o fim e o propósito da religião, estes crentes éticos são os mais valiosos.
Aquele que faz o certo é melhor do que o que pensa certo.

Mas você não deve agir sob a hipótese de que todas as pessoas, cuja conduta
não estiver alinhada com seus sentimentos, sejam hipócritas. A inexistência
do vício é a mais rara, pois nenhuma tarefa é mais difícil do que a hipocrisia
sistemática. Quando o Demagogo se torna um Usurpador, isto não resulta
dele ter sido hipócrita todo o tempo. Pessoas superficiais, apenas, julgam
outras assim.

A verdade é que o credo tem, em geral, influência muito pequena sobre a


conduta; na religião, sobre a do indivíduo; na política, sobre a do partido.
Genericamente, o Maometano, no Oriente, é muito mais honesto e confiável
do que o Cristão. Um Evangelho de Amor nos lábios é um Avatar de
Perseguição no coração. Pessoas que acreditam em maldição eterna e num
mar literal de fogo e enxofre incorrem a certeza deles, de acordo com seu
credo, à menor tentação de apetite ou paixão. A Predestinação insiste na
necessidade de boas obras. Na Maçonaria, ao menor fluxo de paixão, um
falará mal do outro pelas costas: e a “Fraternidade” da Maçonaria Azul
estará longe de se tornar real e de serem cumpridas as promessas solenes
contidas no uso da palavra “Irmão”, e serão feitos esforços dolorosos para
mostrar que a Maçonaria é uma espécie de abstração, que desdenha a
interferência em assuntos terrenos. A regra pode ser entendida como
universal, que onde houver escolha a ser feita, um Maçom dará seu voto e sua
influência, na política e nos negócios, ao profano menos qualificado em
preferência ao Maçom mais qualificado. Um jurará se opor a qualquer
usurpação ilegal de poder e então se tornará o instrumento pronto, e até
ansioso, de um usurpador. Outro chamará alguém de “Irmão” e logo em
seguida fará o papel de Judas Iscariotes, ou feri-lo-á como Joabe feriu Abner,
abaixo da quinta costela, com uma mentira cuja autoria não poderá ser
descoberta. A Maçonaria não modifica a natureza humana e não consegue
criar homens honestos a partir de patifes natos.

Enquanto você ainda está envolvido na sua preparação, e acumulando


princípios para uso futuro, não se esqueça das palavras do Apóstolo Tiago:
“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao
homem que contempla ao espelho o seu rosto natural, porque se contempla a
si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era, aquele, porém, que atenta
bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte
esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.
Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes
engana o seu coração, a religião desse é vã... Fé, se não tiver as obras, é
morta em si mesma. Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e
não somente pela fé... Os demônios o crêem – e estremecem... Como o corpo
sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.”

Em ciência política, ademais, governos livres são erigidos e constituições


livres são emolduradas sobre alguma teoria simples e inteligível. Qualquer
que seja a teoria sobre a qual estejam baseados, nenhuma conclusão sólida
poderá ser alcançada exceto se a teoria for realizada sem hesitação, assim na
discussão de questões constitucionais como na prática. Recue, por timidez, da
teoria verdadeira, ou desvie-se dela por causa de escassez de faculdade
lógica, ou mesmo transgrida-a por meio da paixão, ou sob a alegação de
necessidade, ou conveniência, e você terá negação ou invasão de direitos, leis
que ofendem princípios primários, usurpação de poderes ilegais ou
abnegação e abdicação da autoridade legítima.

Não se esqueça, também, de como o exibicionista, superficial, impudico e


convencido será quase sempre preferido a pessoas de profundos
conhecimentos, amplo intelecto e simpatias católicas, mesmo na extrema
tensão do perigo e na calamidade do Estado, pois ele estará mais próximo do
nível comum, popular e legislativo, de modo que a verdade mais alta não será
aceitável à massa da humanidade.

Quando perguntaram a SÓLON se havia dado aos seus patrícios as melhores


leis, respondeu: “As melhores que eles são capazes de receber”. Esta é uma
das expressões mais profundas já registradas; e, tal como todas as grandes
verdades, tão simples que raramente é compreendida. Ela contém toda a
filosofia da História. Expressa uma verdade que, se houvesse sido
reconhecida, teria evitado às pessoas uma imensidade de disputas vãs e
inúteis, e, no Passado, as teria levado por caminhos mais límpidos ao
conhecimento. Significa que, – todas as verdades são Verdades de Período,
não verdades de eternidade; que qualquer grande fato que tenha tido força e
vitalidade suficientes para se fazer real, – seja religioso, moral,
governamental ou outro qualquer – e para encontrar lugar neste mundo, fora
uma verdade para seu tempo, tão boa quanto as pessoas seriam capazes de
receber.

É assim, também, com grandes homens. O intelecto e capacidade de um povo


têm uma medida única, – a dos grandes homens a quem a Providência os dá e
de quem os recebe. Sempre houve pessoas grandiosas demais para seu tempo
ou seu povo. Todo povo faz de tais pessoas seus ídolos, na medida em que é
capaz de compreendê-las.

Será sempre uma especulação vã e vazia impor a verdade ou a lei ideal a uma
pessoa incapaz, ou meramente real. As leis da afinidade a governam, assim
como no que diz respeito às pessoas que são postas como cabeça do governo.
Não sabemos ainda quais qualificações as ovelhas exigem de um pastor. Com
pessoas intelectualmente muito altas, a massa tem tão pouca afinidade quanto
tem com as estrelas. Quando BURKE, o estadista mais sábio que a Inglaterra
já teve, ergueu-se para falar, a Casa dos Comuns esvaziou-se, como sob um
sinal combinado. Existe tão pouca afinidade entre a massa e as VERDADES
mais elevadas. A verdade mais elevada, assim como o homem mais elevado,
sendo incompreensíveis ao homem de realidades, – e sendo grandemente
superiores a ele – parecerão irrealidades e falsidades enormes para um
homem não-intelectual. As doutrinas mais profundas da Cristandade e da
Filosofia seriam meros jargões e balbucios para um índio Pottawatomie. As
explicações populares dos símbolos da Maçonaria se adéquam à multidão que
enxameia os Templos, – chegam apenas até o limite de sua capacidade. O
Catolicismo foi uma verdade vital em épocas antigas, mas se tornou obsoleto
e o Protestantismo nasceu, floresceu e se deteriorou. As doutrinas de
ZOROASTRO foram as melhores que os antigos Persas estavam em
condições de receber; as de CONFÚCIO se adequaram aos Chineses; as de
MAOMÉ aos Árabes idólatras de sua época. Cada qual foi uma Verdade a
seu tempo. Cada qual foi um EVANGELHO, pregado por um
REFORMADOR; e, se algumas pessoas são tão desafortunadas a ponto de
se satisfazerem apenas com elas, enquanto outras alcançaram uma verdade
mais elevada, tal é seu infortúnio, mas não sua culpa. Merecem piedade, não
perseguição.

Não pense ser fácil convencer as pessoas da verdade, nem levá-las a pensar
corretamente. O sutil intelecto humano é capaz de lançar sua neblina até
sobre a visão mais clara. Lembre-se de que é bastante excêntrico pedir a
unanimidade de um júri; mas pedi-la para um grande número de pessoas, a
respeito de qualquer ponto de credo político, é espantoso. Você mal pode
fazer que duas pessoas de algum Congresso ou Convenção concordarem –
não! raramente você consegue fazer uma só concordar consigo mesma. A
igreja política que tenta ser suprema em todo lugar tem um número
indefinido de idiomas. Então, como podemos esperar das pessoas que
concordem quanto a um assunto fora do alcance de seus sentidos? Como
então podemos compreender o Infinito e o Invisível com alguma cadeia de
evidência? Pergunte às pequenas ondas do mar o que elas murmuram entre os
seixos! Quantas daquelas palavras, que vêm daquela praia invisível, estarão
perdidas como os pássaros na longa migração? Quão em vão forçamos nossa
vista através do longo infinito! Devemos ser contentes, como as crianças,
com as pedrinhas encalhadas na praia, pois nos é proibido explorar
profundidades ocultas.
O Companheiro é assim ensinado, especialmente para não se considerar
sábio. Orgulho em teorias sem solidez é pior do que a ignorância. A
Humildade faz um Maçom. Tome algum momento da vida, quieto e sóbrio, e
some as duas ideias, de Orgulho e de Homem; e observe-a, a criatura de um
instante, andando arrogantemente através do espaço infinito, em toda a
grandeza de sua pequenez! Empoleirada numa partícula do Universo, cada
vento do Céu injeta em seu sangue a frieza da morte; sua alma evola-se de
seu corpo, como uma melodia de uma corda de instrumento. Dia e noite,
como poeira na roda, ela é rolada pelos céus através de um labirinto de
mundos, e todas as criações de Deus fulguram por todos os lados, para além
do que até sua imaginação pode alcançar. Poderia essa criatura fazer para si
uma coroa de glória, negar sua própria carne, zombar de seu semelhante, que
com ela saiu daquela poeira, e para a qual ambas logo retornarão? Será que o
homem orgulhoso não erra? Não sofre? Não morre? Quando raciocina, nunca
é interrompido por dificuldades? Quando age, será que nunca sucumbe às
tentações do prazer? Quando vive, está livre da dor? Ou as doenças não o
reclamam como presa? Quando morrer, poderá escapar da sepultura? O
orgulho não é herança humana. A Humildade deve enfatizar a fragilidade e
reparar a ignorância, o erro e a imperfeição.

Tampouco deve o Maçom ser ansioso demais por cargo ou honraria, a


despeito de poder sentir com certeza que tem capacidade de servir o Estado.
Não deve buscar nem desdenhar honrarias. É bom apreciar as bênçãos da
sorte; e melhor é submeter-se à sua perda sem nenhuma fisgada. Os maiores
feitos não são executados à claridade da luz nem diante dos olhos da
população. Aquele a quem Deus presenteou com amor pelo retiro possui, por
assim dizer, um senso adicional; e entre os vastos e nobres cenários da
natureza, encontraremos o bálsamo para os ferimentos que recebemos em
meio às patéticas mudanças de política; pois o apego pela solidão é o
preservativo mais seguro contra os males da vida.

Mas a Resignação é o mais nobre em proporção, tal como é o menos passivo.


Solidão é apenas um egoísmo mórbido se proíbe os esforços pelos outros;
somente é digna e nobre quando for a sombra de onde os oráculos instruem a
espécie humana; e um retiro desta natureza é a única segregação que uma
pessoa boa e sábia irá desejar ou ordenar. A mesma filosofia que faz tal
pessoa desejar a quietude, a fará evitar a inutilidade do eremitério. O LORD
BOLINGBROKE teria parecido muito pouco louvável entre seus forrageiros
e lavradores se, dentre forrageiros e lavradores ele tivesse mirado com olhos
indiferentes para um ministro libertino e um Parlamento venal. Pouco
interesse teriam os seus feijões e ervilhas, se feijões e ervilhas o tivessem
feito se esquecer que, se era mais feliz em uma fazenda poderia ser mais útil
em um Senado, e o feito abrir mão de todos os cuidados, na esfera de diretor
de uma propriedade, para a reentrada como um legislador.

Lembre-se, também, de que existe uma educação que acelera o Intelecto e


deixa o coração mais oco ou mais duro do que antes. Existem lições éticas
nas leis dos corpos celestiais, nas propriedades, nos elementos terrestres, na
geografia, química, geologia e em todas as ciências materiais. Coisas são
símbolos de Verdades. Propriedades são símbolos de Verdades. A ciência,
não ensinando verdades morais e espirituais, estará morta e seca, com um
pouco mais de valor real do que cometer a memória com uma longa lista de
datas desconexas ou de nomes de besouros e borboletas.

É dito que a Cristandade começa do incêndio dos falsos deuses feito pelas
próprias pessoas. A educação começa com a queima de nossos ídolos
intelectuais ou morais: nossos preconceitos, noções, conceitos, nossos
propósitos sem valor ou ignóbeis. Especialmente, é necessário nos livrarmos
do amor pelas vantagens mundanas. Com a Liberdade vem a aspiração pelo
avanço secular. Nesta corrida, as pessoas estão em todo o tempo caindo,
levantando-se, correndo e caindo novamente. O desejo por riqueza e o horror
abjeto à pobreza cavam sulcos em muitas testas nobres. O apostador
envelhece à medida que observa as chances. Perigos legítimos afastam a
Juventude antes do tempo; e essa Juventude cobra pesadas letras de câmbio
sobre a Velhice. As pessoas vivem, assim como as máquinas, sob alta
pressão, cem anos em cem meses; o Livro Razão se torna a Bíblia, e o diário
se torna o Livro da Oração Matinal.

Por consequência, fluem extrapolações e ocupações questionáveis, tráfico


impiedoso no qual o capitalista compra lucros com as vidas dos
trabalhadores, especulações que cunham as agonias de uma nação em
riqueza, e todas as outras engenhosidades diabólicas de Mamom. Isto, junto à
ganância por cargos, são as duas colunas à entrada do Templo de Moloque. É
dubitável que esta última ganância, florescendo em falsidade, trapaça e
fraude, não seja mais perniciosa do que a primeira. Em todo o caso elas são
gêmeas, e adequadamente emparceiradas; e, quando qualquer uma das duas
ganha controle sobre um sujeito desafortunado, sua alma murcha, decai e
finalmente se desvanece. As almas da metade da raça humana a deixa muito
antes de morrer. As duas ganâncias são as pragas gêmeas da lepra, e tornam
as pessoas impuras; e a qualquer hora que irromperem, espalhar-se-ão até
“cobrir toda a pele do que tem a praga, desde sua cabeça até aos seus pés”.
Até a carne crua do coração se torna impura com ela.

Alexandre da Macedônia deixou atrás de si um ditado que sobreviveu às suas


conquistas: “Nada é mais nobre do que o trabalho”. O trabalho, somente,
consegue manter até os reis respeitáveis. E, quando um rei é verdadeiramente
um rei, lhe é uma tarefa honorável dar tom às maneiras e à moral de uma
nação; dar o exemplo de conduta virtuosa e restaurar em espírito as antigas
escolas da cavalaria, nas quais a virilidade juvenil possa ser educada para a
real grandeza. Nas instituições mais monárquicas, o trabalho e o salário
caminharão juntos nas mentes das pessoas. Precisamos sempre chegar à
ideia de trabalho verdadeiro. O descanso que segue o trabalho será mais doce
do que o descanso que segue o descanso.

Que nenhum Companheiro imagine que o trabalho dos humildes e dos pouco
influentes não tem valor. Não existe limite legal para as influências possíveis
de uma boa ação, de uma palavra sábia ou de um esforço generoso. Nada é
realmente pequeno. Quem estiver aberto à penetração profunda na natureza
sabe disto. Apesar de que, de fato, nenhuma satisfação absoluta possa ser
concedida à filosofia, não mais na circunscrição da causa do que na limitação
do efeito, a pessoa de reflexão e contemplação cai em êxtases imperscrutáveis
à vista de todas as decomposições de forças resultantes na unidade. Tudo
trabalha para tudo. A destruição não é aniquilamento, mas regeneração.

A álgebra se aplica às nuvens; a radiação da estrela é benéfica à rosa; nenhum


pensador se atreveria a dizer que o perfume do espinheiro-alvar é inútil às
constelações. Quem, então, pode calcular o caminho de uma molécula? Como
sabermos se as criações dos mundos não são determinadas pela queda de
grãos de areia? Quem, então, compreenderá o fluxo e refluxo recíprocos do
infinitamente grande e do infinitamente pequeno; o eco de causas nas
profundezas do início e as avalanches da criação? Um verme é levado em
conta; o pequeno é grande; o grande é pequeno; tudo está necessariamente
em equilíbrio. Existem relações maravilhosas entre os seres e as coisas; nesse
Todo inexaurível desde o sol até as larvas não existe escárnio: todos precisam
uns dos outros. A luz não leva perfumes terrestres às profundidades azul-
celestes sem saber o que fará com eles; a noite distribui as essências estelares
às plantas adormecidas. Todo pássaro voador tem um fiapo do infinito em sua
garra. A germinação inclui o choque de um meteoro e a batida do bico da
andorinha ao quebrar o ovo; e leva adiante o nascimento de uma minhoca e o
advento de um Sócrates. O microscópio começa onde termina o telescópio.
Qual dos dois nos dá uma visão mais grandiosa? Um punhado de terra é uma
Plêiade de flores – uma nebulosa é um formigueiro de estrelas.

Existe a mesma e a ainda mais maravilhosa interpenetração entre as coisas do


intelecto e as coisas da matéria. Elementos e princípios são misturados,
combinados, desposados, multiplicados uns pelos outros a ponto de trazerem
o mundo material e o mundo moral à mesma luz. Os fenômenos estão
perpetuamente voltados sobre si mesmos. Nas enormes mudanças cósmicas a
vida universal vem e se vai em quantidades desconhecidas, abarcando tudo
no mistério invisível das emanações, sem perder nenhum sonho de um único
sono, semeando um animálculo aqui, esfarelando uma estrela ali, oscilando e
volvendo-se em curvas; fazendo da Luz uma força, e do Pensamento um
elemento; disseminados e indivisíveis, dissolvendo tudo, salvo aquele ponto
sem comprimento, largura nem espessura, o EU; reduzindo tudo ao átomo-
Alma; fazendo tudo florescer em Deus; enredando todas as atividades, da
mais alta à mais baixa, na obscuridade de um mecanismo vertiginoso;
mantendo o voo de um inseto por sobre o movimento da Terra; subordinando,
talvez, apenas pela identidade da lei, as evoluções excêntricas do cometa no
firmamento ao rodopio dos protozoários na gota de água. Um mecanismo
formado de mente, seu primeiro motor é o mosquito, e sua última roda o
zodíaco.

Um menino camponês, guiando Blücher pela estrada correta, das duas que
havia, estando a outra intransitável por causa da artilharia, permite que ele
chegue a Waterloo em tempo de salvar Wellington de uma derrota que teria
sido completa; e assim possibilita os reis aprisionarem Napoleão em uma
rocha estéril no meio do oceano. Um ferreiro infiel, pelo ferramento
desleixado de um cavalo, causa a coxeadura de Napoleão, e, aos tropeços, a
carreira deste cavaleiro conquistador do mundo termina e os destinos de
impérios são mudados. Um oficial generoso permite ao monarca aprisionado
terminar sua partida de xadrez antes de levá-lo ao cadafalso; e, enquanto isso,
o usurpador morre e o prisioneiro reascende ao trono. Um trabalhador
inexperiente conserta a bússola, ou a malícia ou a estupidez a desarranjam, o
navio erra seu curso, as ondas engolem um César, e um novo capítulo é
escrito na história de um mundo. O que chamamos de acidente não é nada
mais do que a cadeia adamantina de conexões indissolúveis entre todas as
coisas criadas. O gafanhoto, nascido nas areias da Arábia, provoca fome no
Oriente, o pequeno verme que, destruindo a cápsula de algodão, fecha as
fábricas, levando à fome trabalhadores e seus filhos no Ocidente, causando
motins e massacres, são tão ministros de Deus quanto o terremoto; e o
destino das nações depende mais deles do que do intelecto de seus reis e
legisladores. Uma guerra civil na América acabará por fazer estremecer o
mundo; e tal guerra pode ser causada pelo voto de algum caça-prêmios
ignorante ou fanático enlouquecido em uma cidade ou em um Congresso, ou
de algum inculto estúpido em uma paróquia obscura. A eletricidade da
simpatia universal, de ação e reação, impregna tudo, os planetas e as
partículas sob os raios do sol. FAUSTO com seus modelos, ou LUTERO
com seus sermões, alcançaram resultados maiores do que Alexandre ou
Aníbal. Às vezes, basta um simples pensamento para derrubar uma dinastia.
Uma canção boba fez mais para depor Jaime II do que a absolvição dos
Bispos. Voltaire, Condorcet e Rousseau proferiram palavras que soarão, em
mudanças e em revoluções, através de todos os tempos.

Lembre-se de que, apesar da vida ser curta, o Pensamento e a influência do


que fazemos ou dizemos são imortais; e que, ainda, nenhum cálculo
pretendeu averiguar a lei da relação entre causa e efeito. O martelo de um
ferreiro Inglês, prosternando um oficial insolente, levou a uma rebelião que
chegou quase a se tornar uma revolução. A palavra bem dita, a ação bem
feita, mesmo que seja pelo mais fraco ou humilde, podem não ajudar, mas
têm seu efeito. Maior ou menor, o efeito é inevitável e eterno. Os ecos dos
maiores feitos podem se extinguir como os ecos de um grito por entre os
rochedos, e o que tiver sido feito aparenta, para o julgamento humano, ter
sido sem resultado. Um ato inconsiderado do mais pobre dos homens pode
incendiar o trem que vai à mina subterrânea, e um império ser despedaçado
pela explosão.
O poder de um povo livre está, muitas vezes, à disposição de um único
indivíduo, aparentemente sem importância; – um poder terrível e verdadeiro;
porque tal povo sente apenas com um coração e, portanto, consegue levantar
sua miríade de armas para um único ataque. Novamente, não existe escala
graduada para a medida das influências de intelectos diferentes sobre a mente
do povo. Pedro o Eremita não teve cargo e, ainda assim, que trabalho
realizou!

Do ponto de vista político, existe apenas um só princípio, – a soberania do


homem sobre ele mesmo. Esta soberania de si mesmo sobre si mesmo é
chamada de LIBERDADE. Aonde duas ou várias destas soberanias se
associam começa o Estado. Mas não existe abdicação nesta associação. Cada
soberania reparte uma certa porção de si mesma para formar o direito
comum. Esta porção é a mesma para todos. Existe contribuição igual de todos
para a soberania comum. Esta identidade de concessão que cada um faz para
todos é IGUALDADE. O direito comum não é nada mais e nada menos do
que a proteção de todos, derramando seus raios em cada um. E a proteção a
cada um por todos é FRATERNIDADE.

A Liberdade é o ápice, a Igualdade a base. A Igualdade não é toda a


vegetação em um nível, uma sociedade de grandes hastes de grama e
carvalhos atrofiados, um bairro de ciúmes, emasculando-se mutuamente. É,
civilmente, todas as aptidões tendo oportunidades iguais; politicamente, todos
os votos terem pesos iguais; e religiosamente, todas as consciências terem
direitos iguais.

A Igualdade tem um órgão; – a instrução gratuita e obrigatória. Devemos


começar com o direito ao alfabeto. A escola primária obrigatória para todos;
e a escola superior oferecida para todos. Tal é a lei. É da mesma escola para
todos que brota uma sociedade igualitária. Instrução! Luz! Tudo vem da Luz
e para ela retorna.

Se quisermos ser sábios e fazer alguma boa obra, devemos aprender os


pensamentos das pessoas comuns. Devemos olhar para as pessoas, não pelo
que a Sorte lhes tenha dado, com seus olhos cegos, mas pelas dádivas que a
Natureza, em seu regaço, lhes trouxe e pelo uso que as pessoas têm feito
delas. Professamos sermos iguais numa Igreja e na Loja: seremos iguais à
vista de Deus quando Ele julgar a Terra. Bem que poderíamos nos sentar aqui
no chão, juntos, em comunhão e conferência, durante os breves momentos
que constituem a vida.

Um Governo Democrático indubitavelmente tem seus defeitos, porque é


formado e administrado por homens e não pelos Sábios Deuses. Não pode ser
conciso e afiado, como o despótico. Quando a ira daquele é despertada, ele
desenvolve sua força latente e o rebelde mais resoluto estremece. Mas sua
regra doméstica habitual é tolerante, paciente e indecisa. As pessoas são
reunidas, primeiro para diferirem, e logo depois para concordarem.
Afirmação, negação, discussão, solução: estes são os meios de se chegar à
verdade. Com frequência, o inimigo estará aos portões antes que o balbucio
dos perturbadores seja afogado no coro da aprovação. No cargo Legislativo,
muitas vezes a deliberação derrotará a decisão. A Liberdade pode bancar a
tola assim como os Tiranos.

A sociedade refinada requer maior minuciosidade de regulação; e os passos


de todos os Estados em progresso estão, cada vez mais, a ser pinçados dentre
os refugos antigos e os materiais novos. A dificuldade repousa em se
descobrir o caminho certo em meio ao caos de confusão. O ajustamento de
direitos mútuos e infrações mútuas é também mais difícil nas democracias.
Não enxergamos nem estimamos a importância relativa dos objetos fácil e
claramente, tanto olhando a partir do solo raso ou ondulante quanto a partir
da elevação de um pico isolado, torreado acima da planície; porque cada um
enxerga através de sua própria neblina.

A dependência abjeta a eleitores, também, é demasiado comum. É algo tão


miserável quanto a dependência abjeta a um ministro ou à favorita de um
Tirano. É raro encontrar uma pessoa que fale alto, honesta e francamente a
simples verdade que existe dentro de si, sem medo, favor ou afeição, seja
para o Imperador ou para o Povo.

Além disso, nas assembleias de pessoas, a confiança recíproca está sempre


em falta, a não ser que haja coesão produzida por uma terrível pressão de
uma calamidade ou de um perigo exterior. Portanto, o poder construtivo de
tais assembleias é geralmente deficiente. Os principais triunfos dos dias
modernos, na Europa, têm sido em destruir e obliterar; não em construir. Mas
Repelir não é Reformar. O tempo trará consigo o Restaurador e o
Reconstrutor.

O discurso, também, é abusado grosseiramente nas Repúblicas; e, se o uso do


discurso é glorioso, seu abuso é o mais repugnante dos vícios. A Retórica, diz
Platão, é a arte de dirigir as mentes das pessoas. Mas, nas democracias, é
muito comum esconder o pensamento em palavras, encobri-lo e balbuciar
asneiras. Os reflexos e o brilho das bolas de sabão intelectuais são
confundidos com as glórias irisadas dos gênios. As piritas sem valor são
continuamente confundidas com ouro. Mesmo o intelecto condescende com o
malabarismo intelectual, que equilibra pensamentos tal como o malabarista
equilibra tubos em seu queixo. Em todos os Congressos temos um fluxo
incansável de balbucios e de safadezas partidárias clamorosas em discussão,
até que o divino poder do discurso, este privilégio do ser humano e grande
dádiva de Deus, não passe de algazarra de papagaios ou mímica de macacos.
O mero tagarela, todavia fluente, é estéril de proezas no dia do julgamento.

Existem homens e mulheres volúveis, todos hábeis em esgrimir com suas


línguas: prodígios no discurso, míseros em obras. Excesso de conversa, tal
como excesso de pensamento, destrói o poder da ação. Na natureza humana,
o pensamento só é perfeito pela ação. O silêncio é a mãe de ambos. O
trompetista não é o mais valente dos valentes. É o aço que ganha o dia, não o
latão. O grande realizador de grandes façanhas geralmente é lento e
desleixado no discurso. Existem pessoas nascidas e criadas para trair. Sua
mercadoria é o Patriotismo, seu capital o discurso. Mas nenhum espírito
nobre pode argumentar como Paulo e ser falso a si mesmo como Judas.

Muito comumente os embustes dominam nas repúblicas; parecem estar


sempre nas minorias; seus guardiões são autonomeados; e o iníquo prospera
mais do que o justo. O Déspota, assim como o rugir do leão noturno, afoga
todo o clamor das línguas de uma vez, e o discurso, direito de nascença das
pessoas livres, se torna a quinquilharia dos escravizados.

É bem verdade que as repúblicas apenas ocasionalmente, como que


acidentalmente, selecionam seus mais sábios, ou até os menos incapazes
entre os incapazes para governá-las e legislar por elas. Se o gênio, armado
com erudição e conhecimento, agarrar as rédeas, o povo reverenciá-lo-á; se
modestamente se oferecer para o cargo, será golpeado na face, mesmo
quando, em situações de dificuldades e nas agonias da calamidade, seja
indispensável para a salvação do Estado. Coloque-o sobre a trilha com o
exibicionista e superficial, o presunçoso, o ignorante e impudico, o trapaceiro
e charlatão, e o resultado não será, nem por um momento, dubitável. Os
veredictos das Legislaturas e do Povo são como os veredictos dos júris –
algumas vezes certos por acidente.

Os cargos, é verdade, chovem como as chuvas do Céu sobre os justos e os


injustos. Os Áugures Romanos, que costumavam rir na cara dos outros à
simplicidade do vulgar, eram também cocegados com seu próprio engano;
mas não é necessário nenhum Áugure para guiar o povo para fora do
caminho. Este facilmente se ludibria. Deixe uma República começar como
pode, e ela não sairá de sua menoridade antes que a imbecilidade seja
promovida para altos cargos; e a rasa ambição, se inflando em notícia,
invadirá todos os santuários. Prevalecerá o partidarismo mais inescrupuloso,
mesmo no que diz respeito a confianças judiciais; e constantemente serão
feitas as indicações mais injustas, apesar de que toda promoção incorreta, não
apenas concede um favor imerecido, mas também faz cem bochechas
honestas doerem por causa da injustiça. O país é esfaqueado na testa quando
aqueles que deveriam escapulir para o corredor turvo são trazidos para os
assentos abarracados. Cada carimbo da Honra, mal seguro, é roubado do
Tesouro do Mérito.

Ainda assim, a entrada para o serviço público, e a promoção nele, afeta tanto
os direitos individuais quanto os da nação. A injustiça em conceder ou reter
um cargo deve ser tão intolerável nas comunidades democráticas que o menor
traço dela deve ser como o cheiro da Traição. Não é universalmente
verdadeiro que todos os cidadãos de igual caráter tenham igual reclamo de
bater à porta de todo gabinete público e exigir admissão. Quando qualquer
pessoa se apresenta para serviço tem o direito de aspirar ao cargo mais alto
imediatamente, se for capaz de comprovar sua aptidão para tal começo, – e
que ela é mais apta do que as outras que se oferecem para a mesma posição.
Sua entrada no cargo só pode ser feita de forma justa através da porta do
mérito. E toda vez que alguém aspira e alcança tal posto elevado,
especialmente se for por meios injustos, irrespeitáveis e indecentes, e
posteriormente é encontrada uma falha notável, esse alguém deve ser
imediatamente decapitado. Ele é o pior entre todos os inimigos públicos.

Quando uma pessoa suficientemente se revela, todas as outras se sentirão


orgulhosas de lhe dar a devida precedência. Quando o poder de promoção é
abusado nas grandes passagens da vida, seja pelo Povo, pelo Legislativo ou
pelo Executivo, a decisão injusta recai sobre o juiz imediatamente. Não é
apenas uma falta de visão grosseira, mas também intencional não se descobrir
os merecedores. Se alguém observar profunda, longa e honestamente, não
falhará em discernir o mérito, o gênio e a qualificação; e os olhos e a voz da
Imprensa e do Público condenarão e denunciarão a injustiça onde quer que
ela erga sua cabeça horrenda.

“Ferramentas para os trabalhadores!” Nenhum outro princípio salvará uma


República da destruição, seja pela guerra civil ou pela deterioração. Elas
tendem a decair como corpos humanos, ainda que façamos tudo que
pudermos para impedir. Se as pessoas tentam a experiência de se
autogovernar pelos seus menores, escorregam para o abismo inevitável com
velocidade decuplicada; e nunca existiu uma República que não tivesse
seguido este curso fatal.

Mas, apesar de palpáveis e grosseiros os defeitos inerentes dos governos


democráticos, e fatais como são final e inevitavelmente os resultados,
carecemos apenas relancear os reinados de Tibério, de Nero e de Calígula, de
Heliogábalo e Caracala, de Domiciano e Cômodo, para identificar que a
diferença entre liberdade e despotismo é tão grande quanto a entre o Céu e o
Inferno. A crueldade, a baixeza e insanidade dos tiranos são incríveis. Deixe
aquele que reclama dos humores instáveis e da inconstância de um povo livre
ler o personagem Domiciano de Plínio. Se o grande homem em uma
República não consegue obter cargos sem descer a artes vis, sem
choramingar sua penúria, ou fazer uso judicioso de mentiras furtivas, deixe-o
ficar em aposentadoria e usar a caneta. Tácito e Juvenal não tiveram cargos.
Deixemos a História e a Sátira punirem o impostor tal como elas crucificam o
déspota. As vinganças do intelecto são terríveis e justas.

Deixemos a Maçonaria usar a caneta e a imprensa escrita no Estado livre,


contra o Demagogo; no Despotismo, contra o Tirano. A História dá exemplos
e encorajamentos. Toda a História, durante quatro mil anos, está repleta de
direitos violados e de sofrimento dos povos, cada período da história traz
consigo protesto tão grande quanto possível. Sob os Césares não houve
insurreição, mas existiu Juvenal. O estimulante da indignação substituiu os
Gracos. Sob os Césares há o exílio de Assuã; também há o autor dos Anais.
Como os Neros reinam sombriamente, devem ser retratados da mesma
maneira. O trabalho só com o buril poderia ser fraco; nos entalhes, deve ser
vertida uma narração concentrada, que punge.

Os déspotas são uma ajuda para os pensadores. O discurso acorrentado é um


discurso terrível. O escritor duplica e triplica seu estilo quando o silêncio é
imposto sobre o povo por um mestre. Desse silêncio brota certa altissonância
misteriosa que filtra-se nos pensamentos e se congela em metal. A
compressão na história produz concisão no historiador. A solidez granítica de
algumas prosas célebres é apenas uma condensação criada pelo Tirano. A
Tirania constrange o escritor a reduções no diâmetro que são aumentos na
força. O período ciceroniano, quase insuficiente com Verres, teria perdido
sua aresta com Calígula.

O Demagogo é o predecessor do Déspota. Um brota dos lombos do outro.


Aquele que bajula vilmente alguém que possui cargos a outorgar trairá, como
Iscariotes, e experimentará uma derrota miserável e lastimosa. Deixemos o
novo Júnio chicotear tais pessoas como merecem, e a História fazê-las
imortais na infâmia; uma vez que suas influências culminam em ruína. A
República que emprega e louva o raso, o superficial, o baixo,

“quem se agacha
Para as sobras de um cargo prometido,”

ao final chora lágrimas de sangue por seu erro fatal. O fruto óbvio de tal
insensatez suprema é a danação. Deixemos a nobreza de cada grande coração,
condensada em justiça e verdade, atingir essas criaturas como um raio! Se
você não puder fazer mais, pelo menos pode condená-las com seu voto e pô-
las no ostracismo pela denúncia.

É verdade que, como os Czares são absolutos, eles têm em seu poder escolher
os melhores para o serviço público. É verdade que o iniciador de uma
dinastia geralmente faz assim; e que quando monarquias estão em seus
primórdios, a pretensão e a baixeza não têm sucesso, nem prosperam nem
acumulam poder como fazem nas Repúblicas. Todos não tagarelam no
Parlamento de um Reino como no Congresso de uma Democracia. Os
incapazes não passam toda a vida lá sem serem detectados.

Mas dinastias rapidamente decaem e se esgotam. Finalmente, definham-se à


imbecilidade; e os Membros dos Congressos, estúpidos ou irreverentes, são
no mínimo os pares intelectuais da vasta maioria dos reis. O grande homem,
o Júlio César, o Carlos Magno, Cromwell, Napoleão, reina de direito. É o
mais sábio e o mais forte. Os incapazes e imbecis que sucedem são
usurpadores; e o medo os faz cruéis. Depois de Júlio veio Caracala e Galba;
depois de Carlos Magno, o lunático Carlos VI. E, assim, a dinastia Sarracena
definhou-se; os Capetos, os Stuarts, os Bourbons; estes últimos produziram
Bomba, o macaco de Domiciano.

Como os tigres, o homem é cruel por natureza. O bárbaro, instrumento do


tirano, e o fanático civilizado apreciam os sofrimentos dos outros, como as
crianças apreciam as contorções de moscas mutiladas. O Poder Absoluto,
uma vez temendo pela segurança de seu mandato, não pode ser senão cruel.

Quanto à habilidade, após algumas vidas, as dinastias invariavelmente


deixam de ter alguma. Elas se tornam meras falsidades, governadas por
ministros, favoritas ou cortesãs, como aqueles velhos reis Etruscos,
dormitando por longas eras em suas túnicas reais de ouro, dissolvendo-se
para sempre ao primeiro hálito do dia. Deixe aquele que reclama dos defeitos
da democracia se perguntar se ele preferiria uma Du Barry ou uma
Pompadour, governando em nome de um Luís XV, um Calígula nomeando
seu cavalo um Cônsul, um Domiciano, “aquele monstro mais selvagem” que
algumas vezes bebeu o sangue de parentes, outras vezes se empregando ao
morticínio dos cidadãos mais destacados, à frente de cujos portões o medo e
o terror mantinham vigia; um tirano de aspecto aterrorizante, orgulho em sua
testa, fogo em seu olho, constantemente buscando a escuridão e o sigilo, e só
emergindo de sua solidão para gerar solidão. Apesar de tudo, em um governo
livre, as Leis e a Constituição estão acima dos Incapazes, os Tribunais
corrigem suas leis, e a posteridade é o Grande Inquérito que lhes deixa o
julgamento. O que é a exclusão de valor, de intelecto e de conhecimento do
serviço civil comparada aos processos perante Jeffries, às torturas nas
cavernas escuras da Inquisição, às carnificinas do Duque de Alba na Holanda,
à Noite de São Bartolomeu e às Vésperas Sicilianas?

O Abade Barruel, em suas Memórias para a História do Jacobinismo,


declara que a Maçonaria na França deu, como seu segredo, as palavras
Igualdade e Liberdade, deixando para cada Maçom honesto e religioso
explicá-las como melhor se adequassem aos seus princípios; mas reteve o
privilégio de desvelar o significado daquelas palavras nos Graus superiores,
tal como interpretadas pela Revolução Francesa. Ele também excetua os
Maçons Ingleses de seus anátemas, porque na Inglaterra um Maçom é um
sujeito pacífico das autoridades civis, não importando onde resida, não
engajado em nenhum complô ou conspiração mesmo contra o pior governo.
A Inglaterra, diz ele, desgostosa com uma Igualdade e uma Liberdade,
consequências do que tinha sentido nas lutas de seus Lollardos, Anabatistas e
Presbiterianos, havia “purgado sua Maçonaria” de todas as explicações que
tendessem a subverter impérios; mas ainda permaneceram adeptos que,
desorganizando princípios, se ataram aos Antigos Mistérios.

Porque a verdadeira Maçonaria, não emasculada, portou os estandartes da


Liberdade e dos Direitos Iguais, e estava rebelada contra a tirania temporal e
espiritual, suas Lojas foram proscritas em 1735 por um édito dos Estados da
Holanda. Em 1737, Luís XV as proibiu na França. Em 1738, o Para Clemente
XII publicou contra elas sua famosa Bula de Excomunhão, que foi renovada
por Benedito XIV; e, em 1743, o Conselho de Berna também a proscreveu. O
título da Bula de Clemente é “A Condenação da Sociedade de Reuniões de
Liberi Muratori, ou dos Franco-Maçons, sob a penalidade de excomunhão
ipso facto, a absolvição está reservada unicamente ao Papa, exceto no
momento de morte”. E através dela todos os bispos, ordinários e inquisidores
obtiveram poderes para punir Maçons como “veementemente suspeitos de
heresia” e convocar, se necessário, a ajuda do braço secular, isto é, fazer a
autoridade civil executá-los.

Além disso, teorias políticas falsas e servis acabam brutalizando o Estado.


Por exemplo, adotam a teoria de que cargos e empregos devem ser dados
como prêmios por serviços prestados ao partido, e logo se tornam a presa e o
espólio do partido, o saque da vitória da facção; – e a lepra está na carne do
Estado. O corpo da nação se torna uma massa de corrupção, como uma
carcaça viva putrefeita com sífilis. No final, todas as teorias doentias se
desenvolvem em uma ou outra enfermidade imunda e asquerosa do corpo
político. O Estado, assim como as pessoas, deve envidar constantes esforços
para se manter nos caminhos da virtude e do humanismo. O hábito da
propaganda eleitoral e da mendicância por cargos culmina em suborno com o
cargo e em corrupção no cargo.

Um homem escolhido tem uma confiança visível de Deus, tão claramente


como se a concessão fosse endossada pelo tabelião. Uma nação não pode
renunciar a testamentaria dos decretos Divinos. Tão pouco pode a Maçonaria.
Ela deve trabalhar para cumprir seu dever inteligente e sabiamente. Devemos
nos lembrar de que em Estados livres, bem como nos despotismos, a
Injustiça, esposa da Opressão, é a fértil progenitora da Fraude, Desconfiança,
Ódio, Conspiração, Traição e Deslealdade. Mesmo arremetendo contra a
Tirania, devemos ter a Verdade e a Razão como nossas principais armas.
Devemos marchar para tal luta como os antigos Puritanos, ou para a batalha
contra os abusos que florescem no governo livre, com a espada flamante em
uma das mãos e os Oráculos de Deus na outra.

O cidadão que não consegue cumprir bem os menores propósitos da vida


pública não consegue perceber os maiores. O enorme poder da tolerância,
abstenção, paciência, e desempenho de um povo livre somente é adquirido
pelo exercício contínuo de todas as funções, como o saudável vigor físico
humano. Se os cidadãos, individualmente, não o tiverem, o Estado
igualmente ficará sem ele. É da essência de um governo livre que as pessoas
devam não só se preocupar em fazer as leis, mas também com sua execução.
Ninguém deve ser mais pronto para obedecer e administrar a lei do que
aquele que ajudou a fazê-la. Os negócios de governo são exercidos para o
benefício de todos, e cada parceiro deve aconselhar e cooperar.

Lembre-se também de que, como outro banco de areia pelo qual os Estados
são naufragados, Estados livres sempre tendem na direção do depósito dos
cidadãos em estratos, na criação de castas, na perpetuação do jus divinum aos
cargos em famílias. Quanto mais democrático o Estado, mais seguro este
resultado. Pois, à medida que Estados livres avançam em poder, existe uma
forte tendência rumo à centralização, não por má intenção deliberada, mas
pelo curso de eventos e indolência da natureza humana. Os poderes do
executivo se dilatam e crescem até dimensões desordenadas; e o Executivo
sempre é agressivo com respeito à nação. Cargos de todo tipo são
multiplicados para recompensar partidários; a força bruta do esgoto e dos
estratos inferiores da ralé obtém larga representação, primeiro nos cargos
mais baixos, e finalmente nos Senados; e a Burocracia ergue sua cabeça
careca, eriçada de canetas, cercada com óculos e enfeixada com fitas. A arte
de Governar se torna como que um Ofício e suas guildas tendem a se tornar
exclusivas, como as da Idade Média.

A ciência política pode ser muito aperfeiçoada como assunto de especulação;


mas nunca deve estar divorciada da real necessidade nacional. A ciência de
governar as pessoas deve sempre, acima de filosófica, ser prática. Aqui, não
existe a mesma quantia de verdade positiva ou universal como há nas
ciências abstratas; o que é verdadeiro em um país pode ser muito falso em
outro; o que é falso hoje pode se tornar verdadeiro em outra geração, e a
verdade de hoje ser revertida pelo julgamento de amanhã. Os fins apropriados
da política são distinguir entre o casual e o duradouro, separar o inadequado
do adequado e fazer o progresso ser mesmo possível. Mas sem conhecimento
e experiência reais, e comunhão de labor, os sonhos dos doutores em política
podem não ser melhores do que os dos doutores em divindade. O reinado de
tal casta, com seus mistérios, seus mirmidões e sua influência corruptora,
pode ser tão fatal quanto o dos déspotas. Trinta tiranos são trinta vezes piores
do que um.

Mais ainda existe uma forte tentação, para as pessoas que governam, de se
tornarem tão indolentes e preguiçosas quanto o mais fraco dos reis absolutos.
Dê-lhes apenas o poder para se livrarem, quando o capricho as incitar, das
pessoas grandiosas e sábias e elegerem os ínfimos, e para todo o resto
reincidirão em indolência e indiferença. O poder central, criação das pessoas,
organizadas e astutas se não esclarecidas, é o perpétuo tribunal montado por
elas para a reparação dos erros e para a regra da justiça. Logo se equipa com
todo o equipamento necessário e está pronto e apto para todos os tipos de
interferência. O povo pode ser uma criança por toda a sua vida. O poder
central pode não ser capaz de sugerir a melhor solução científica de um
problema; mas tem os meios mais fáceis de realizar efetivamente uma ideia.
Se o propósito a ser alcançado é amplo, requer uma ampla compreensão; é
próprio para a ação do poder central. Se for um objetivo pequeno, poderá ser
frustrado pelo desacordo. O poder central deve imiscuir-se como árbitro para
prevenir isso. O povo pode ser muito avesso às mudanças, muito preguiçoso
em seus próprios negócios, injusto para com uma minoria ou com a maioria.
O poder central deve tomar as rédeas quando o povo as largar.

O governo da França se tornou centralizado mais pela apatia e ignorância de


seu povo do que pela tirania de seus reis. Quando a vida paroquial mais
íntima for entregue à guarda direta do Estado, e o conserto do campanário de
uma igreja interiorana requerer uma ordem escrita do poder central, o povo
estará em senilidade. E assim as pessoas são educadas na imbecilidade, desde
o alvorecer da vida social. Quando o governo central alimenta parte da
população, prepara a todos para serem escravos. Quando dirige os assuntos
paroquiais e municipais, as pessoas já são escravas. O próximo passo será
regulamentar o trabalho e seus salários.

Apesar disso, sejam quais forem as insensatezes que o povo possa cometer,
mesmo a colocação dos poderes de legislar nas mãos dos pouco competentes
e menos honestos, o desespero não é o resultado final. A EXPERIÊNCIA,
professora terrível, escrevendo seus ensinamentos nos corações desolados
com a calamidade e espremidos pela agonia, os fará mais sábios no tempo
certo. Pretensão, trejeitos e mendicância sórdida por votos um dia cessarão
sua utilidade. Ter FÉ, e ir à luta, contra as influências malignas e os
desencorajamentos! A FÉ é a Salvadora e Redentora das nações. Quando a
Cristandade se tornou fraca, sem proveito e impotente, o Restaurador e
Iconoclasta Árabe veio como um furacão purificador. Quando a batalha de
Damasco estava prestes a iniciar, o bispo Cristão, ao amanhecer, em suas
vestimentas, à frente de seu clero, com a Cruz então erguida triunfalmente no
ar, desceu aos portões da cidade e abriu, em frente ao exército, o Testamento
de Cristo. O general Cristão THOMAS pôs sua mão sobre o livro e disse:
“Ó, Deus! SE nossa fé for verdadeira, ajude-nos e não nos entregue nas
mãos dos inimigos!” Mas KHALED, “a espada de Deus”, que vinha
marchando de vitória em vitória, exclamou para seus soldados cansados:
“Nenhum homem durma! Haverá bastante descanso nos abrigos do
Paraíso; doce será o repouso que nunca mais será seguido de trabalho!” A
fé do Árabe havia se tornado mais forte do que a do Cristão, e ele venceu.

A Espada também é, na Bíblia, um emblema da PALAVRA, ou da


exteriorização do pensamento. Assim, na visão ou apocalipse do sublime
exílio de Patmos, um protesto em nome do ideal, dominando o mundo real,
uma sátira tremenda em nome da Religião e da Liberdade, com suas
reverberações inflamáveis golpeando o trono dos Césares, uma espada de
duas lâminas afiadas sai da boca do Semblante do Filho do Homem,
circundada por sete castiçais dourados, e tendo em sua mão direita sete
estrelas. “O Senhor”, diz Isaías, “tornou minha boca semelhante a uma
espada afiada”. “Eu os matei”, diz Oseias, “com as palavras de minha
boca”. “A palavra de Deus”, diz o escriba da carta apostólica aos Hebreus,
“é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e
penetra até à divisão entre a alma e o espírito”. “A espada do Espírito, que é
a Palavra de Deus ” diz Paulo, ao escrever aos Cristãos em Éfeso; “E contra
eles batalharei a com a espada da minha boca”, está dito no Apocalipse ao
anjo da igreja, em Pérgamo.

O discurso oral pode rolar-se com tanta força quanto a grande onda da maré;
mas, tal como a onda, por fim morre fracamente nas areias. É ouvido por
poucos, lembrado por menos ainda e se desvanece como um eco nas
montanhas, não deixando nenhum sinal de poder. Não representa nada para
as gerações existentes e futuras da humanidade. Foi o discurso humano
escrito que deu poder e permanência ao pensamento humano. É esse que faz
de toda a história humana nada mais do que uma vida individual.

Escrever na rocha é escrever em pergaminho sólido, mas requer uma


peregrinação para vê-la. Só existe uma cópia, e até esta o Tempo desgasta.
Escrever em pergaminho ou em papiro, supostamente, era publicar uma
edição tardia a qual apenas os ricos podiam adquirir. Os Chineses
estereotiparam não apenas a sabedoria imutável dos antigos sábios, mas
também os acontecimentos transitórios. O processo tendia a sufocar o
pensamento e a impedir o progresso; pois há uma contínua divagação nas
mentes mais sábias e a Verdade escreve suas últimas palavras, não sobre
tabletes limpos, mas sobre os rabiscos feitos e muitas vezes remendados pelo
Erro.

A imprensa fez as letras móveis prolíficas. Desde então, o orador falou quase
que visivelmente para as nações ouvintes; e o autor escreveu, como o Papa,
em seus decretos ecumênicos, urbi et orbi, e ordenou que se os afixasse em
todos os mercados; permanecendo, se ele quisesse, inacessíveis à vista
humana. E desde então a condenação das tiranias foi selada. A sátira e a
diatribe se tornaram poderosas como exércitos. As mãos invisíveis dos Junos
podem lançar os raios e fazer os ministros tremer. Um sussurro deste gigante
enche a terra tão facilmente quanto Demóstenes encheu a Ágora. Logo será
ouvido pelos antípodas com tanta facilidade quanto do outro lado da rua.
Viaja com o raio sob os oceanos. Faz da massa uma única pessoa, fala a ela
na mesma linguagem comum e extrai uma resposta certa e única. O discurso
se transforma em pensamento e imediatamente em ação. Uma nação se torna
verdadeiramente una, com um grande coração e um pulso com batimento
único. As pessoas estão invisivelmente presentes para as outras como se já
fossem seres espirituais; e o pensador que se senta na solidão Alpina,
desconhecido ou esquecido por todo o mundo, em meio aos rebanhos e
montes silenciosos, pode lampejar suas palavras para todas as cidades e sobre
todos os mares.

Escolha os pensadores para serem Legisladores; e evite os tagarelas. A


Sabedoria raramente é loquaz. Peso e profundidade de pensamento não
favorecem a volubilidade. As pessoas rasas e superficiais geralmente são
volúveis e muitas vezes passam por eloquentes. Mais palavras, menos
pensamento, – é a regra geral. A pessoa que se esforça para, em cada
sentença, dizer algo que valha a pena nos lembrarmos se torna fastidiosa e
densa como Tácito. As pessoas vulgares amam um riacho mais difuso. A
ornamentação que não abrange força é a futilidade das baboseiras.

E a sutileza dialética nem é valiosa para os homens públicos. A fé Cristã a


tem, e antigamente a teve mais do que hoje; uma sutileza que poderia ter
embaraçado Platão, e que rivalizava de uma forma infrutífera com as
doutrinas místicas dos Rabinos Judeus e Sábios Hindus. Não é isto o que
converte os pagãos. É um esforço vão tentar equilibrar os grandes
pensamentos da terra, como palhas ocas, sobre as pontas dos dedos da
discussão. Não é o tipo de armamento que faz a Cruz triunfante nos corações
dos descrentes; mas o verdadeiro poder que vive na Fé.

Portanto, existe uma escolástica política que é simplesmente inútil. A


destreza da lógica sutil raramente mexe os corações das pessoas, nem as
convence. O verdadeiro apóstolo da Liberdade, Fraternidade e Igualdade faz
disto uma questão de vida ou morte. Seus combates são como os de Bossuet,
– combates até a morte. O verdadeiro fogo apostólico é como um relâmpago:
lampeja convicção para dentro da alma. A palavra verdadeira é realmente
uma espada de dois gumes. Assuntos de ciência governamental e política só
podem ser tratados corretamente com razão sólida e com a lógica do senso
comum: não o senso comum dos ignorantes, mas o dos sábios. Os pensadores
mais aguçados raramente têm sucesso ao se tornarem líderes do povo. Um
lema ou palavra-chave é mais poderoso com o povo do que a lógica,
especialmente se esta for o menos metafísica possível. Quando surge um
profeta político para bulir a nação sonhadora e estagnada, reter seus pés da
irreparável descida, elevar o terreno como um terremoto, e sacudir ídolos
bobo-rasos de seus assentos, suas palavras vêm diretamente da própria boca
de Deus e trovejam para dentro da consciência. Ele irá raciocinar, ensinar,
alertar e governar. A verdadeira “Espada do Espírito” é mais penetrante do
que a lâmina mais brilhante de Damasco. Tais pessoas governam uma terra,
na força da justiça, com sabedoria e com poder. Ainda, as pessoas com
sutileza dialética frequentemente governam bem, porque na prática esquecem
suas teorias finamente tecidas e usam a lógica afiada do senso comum. Mas,
quando o grande coração e o amplo intelecto são deixados a enferrujar na
vida privada, e advogados menores, queixosos na política, aqueles que nas
cidades seriam apenas ajudantes de notários ou advogados em tribunais sem
reputação, são transformados em Legisladores nacionais, o país está em sua
senilidade, mesmo que a barba nem tenha ainda crescido em seu queixo.

Num país livre, o discurso humano deve necessitar ser livre; e o Estado deve
escutar os resmungos da tolice, a guinchada de seus imbecis, e a zurraria de
seus asnos bem como os oráculos dourados de seus homens grandes e sábios.
Mesmo os velhos reis déspotas permitiam que seus sábios bufões dissessem o
que quisessem. O verdadeiro alquimista extrairá as lições de sabedoria dos
balbucios da insensatez. Escutará o que uma pessoa tem a dizer sobre um
determinado assunto, mesmo se o falante acabar provando ser apenas o
príncipe dos tolos. Mesmo um tolo acerta o alvo, às vezes. Existe alguma
verdade em todas as pessoas que não são compelidas a suprimir suas almas e
dizer os pensamentos de outras. Até mesmo o dedo de um idiota pode apontar
para a grande rodovia.

Um povo, bem como os sábios, deve aprender a esquecer. Se não aprender o


que é novo nem esquecer o que é velho, está condenado, mesmo que tenha
sido régio durante trinta gerações. Desaprender é aprender, e algumas vezes é
também necessário reaprender o que foi esquecido. As farsas dos bobos
fazem a insensatez atual mais palpável, à medida que costumes são
mostrados como absurdos pelas caricaturas, que então levam à sua extinção.
O bufão e o palhaço são úteis em seus lugares. O artífice e o artesão
engenhosos, como Salomão, buscam na terra seus materiais e transformam a
matéria disforme em mão-de-obra gloriosa. O mundo é conquistado mais pela
cabeça do que pelas mãos. Uma assembleia não falará para sempre. Depois
de algum tempo, quando tiver escutado o bastante, silenciosamente põe o
tonto, o raso e o superficial de lado; – ela pensa, e começa a trabalhar.

O pensamento humano, especialmente em assembleias populares, percorre os


canais mais singularmente curvos, mais difíceis de achar e seguir do que as
correntes cegas do oceano. Nenhuma percepção é tão absurda que não
encontre nele um lugar. O artesão-mestre deve amestrar estas noções e
caprichos com seu martelo de duas faces. Elas se contorcem para fora do
caminho dos que são empurrados pela espada; e sempre são invulneráveis à
lógica, até mesmo no calcanhar. O martelo, ou maço, o machado de batalha, a
grande e ambidestra espada de duas lâminas, devem lidar com as
insensatezes; contra eles, um florete não é melhor do que uma varinha
mágica, a não ser que seja o florete do ridículo.

A ESPADA é também o símbolo da guerra e do soldado. As guerras, assim


como as tempestades de raios, são muitas vezes necessárias para purificar a
atmosfera estagnada. A guerra não é um demônio sem remorso e sem
recompensa. Restaura a irmandade em letras de fogo. Quando as pessoas
estão sentadas em seus lugares confortáveis, submersas em facilidades e
indolência, com a Pretensão, a Incapacidade e a Pequenez usurpando todos os
lugares altos do Estado, a guerra é o batismo de sangue e fogo, somente pelo
qual elas podem ser renovadas. É o furacão que traz o equilíbrio elemental, a
concordância do Poder com a Sabedoria. Enquanto estes continuarem
obstinadamente divorciados, a espada continuará a castigar.

No apelo mútuo das nações para Deus existe o reconhecimento de Sua força.
Ilumina os faróis da Fé e da Liberdade, e aquece a fornalha através da qual os
ardentes e os leais passarão à glória imortal. Existe na guerra a condenação da
derrota, o insaciável senso de Dever, o comovente senso de Honra, o
sacrifício solene incomensurável da devoção e o incenso do sucesso. Mesmo
na chama e na fumaça da batalha, o Maçom descobre seu irmão, e cumpre as
sagradas obrigações da Fraternidade.

Dois, ou a Dúada, é o símbolo do Antagonismo; do Bem e do Mal, Luz e


Trevas. É Caim e Abel, Eva e Lilith, Jachin e Boaz, Ormuzd e Arimã, Osíris
e Tífon.

TRÊS, ou a Tríade, é mais significantemente expresso pelos triângulos


equilátero e retângulo. Existem três cores ou raios principais no arco-íris que,
pela mistura, formam sete. As três são o azul, o amarelo e o vermelho. A
Trindade da Divindade, de uma forma ou outra, tem sido um artigo em todos
os credos. Ela cria, preserva e destrói. É o poder generativo, a capacidade
produtiva e o resultado. O homem imaterial, de acordo com a Cabala, é
composto de vitalidade, ou vida, o sopro da vida; de alma, ou mente, e de
espírito. Sal, enxofre e mercúrio são os grandes símbolos dos alquimistas.
Para eles o homem era formado por corpo, alma e espírito.

O QUATRO é expresso pelo esquadro, figura de quatro lados e ângulos


retos. Do simbólico Jardim do Éden fluía um rio, se dividindo em quatro
correntes, – PISOM, que corre em torno da terra do ouro, ou a luz; GIOM,
que corre em torno da terra da Etiópia, ou as Trevas; HIDDEKEL, fluindo
para o leste, para a Assíria; e o EUFRATES. Zacarias viu quatro carruagens
vindo de entre duas montanhas de bronze, na primeira das quais havia
cavalos vermelhos; na segunda, negros; na terceira, brancos; e na quarta,
cinzentos: “e estes eram os quatro ventos dos céus, saindo donde estavam
perante o Senhor de toda a terra”. Ezequiel viu as quatro criaturas viventes,
cada uma com quatro rostos e quatro asas, as faces de um homem, de um
leão, de um boi e de uma águia; e as quatro rodas subindo em seus quatro
lados; e São João contemplou as quatro bestas, cheias de olhos na frente e
atrás: o LEÃO, o jovem BOI, o HOMEM e a ÁGUIA voadora. Quatro era
a marca da Terra. Portanto, no Salmo 148 daqueles que devem louvar o
Senhor na terra, existem quatro vezes quatro, e quatro criaturas viventes em
particular. A natureza visível é descrita como os quatro quartos do mundo e
os quatro cantos da terra. “Existem quatro” diz o velho ditado Judeu “que
estão em primeiro lugar neste mundo: o homem entre as criaturas; a águia
entre as aves; o boi entre o gado; e o leão entre os animais selvagens”.
Daniel viu quatro grandes bestas emergirem do mar.

CINCO é a Dúada adicionada à Tríade. É expressa pela estrela de cinco


pontas ou flamejante, o Pentalfa misterioso de Pitágoras. Está
indissoluvelmente conectado ao número sete. Cristo alimentou Seus
discípulos e a multidão com cinco pães e dois peixes, e dos restos sobejaram
doze, isto é, cinco mais sete, cestas cheias. Novamente, Cristo os alimentou
com sete pães e uns poucos peixinhos, e ali sobejaram sete cestos cheios. Os
cinco astros aparentemente pequenos, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e
Saturno, juntamente com os dois maiores, o Sol e a Lua, constituíam as sete
esferas celestiais.

SETE era o número peculiarmente sagrado. Existiam sete planetas e esferas


presididas por sete arcanjos. Existiam sete cores no arco-íris; e a Divindade
Fenícia era chamada de HEPTAKIS, ou Deus dos Sete Raios; sete dias da
semana; e sete e cinco perfaziam o número de meses, tribos e apóstolos.
Zacarias viu um candelabro dourado, com sete lâmpadas e sete tubos para as
lâmpadas, com uma oliveira de cada lado. Por isto diz que “os sete olhos do
Senhor se rejubilarão e verão o prumo na mão de Zorobabel”. João, no
Apocalipse, escreve sete epístolas para as sete igrejas. Nas sete epístolas
existem doze promessas. O que é dito das igrejas em louvor ou culpa é
completado no número três. O refrão “aquele que tem ouvidos ouça”, etc.,
tem dez palavras, divididas em três e sete, e os sete em três e quatro; e as sete
epístolas estão também, assim divididas. Também nos selos, trombetas e
cálices, nesta visão simbólica, o sete está dividido em quatro e três. Aquele
que manda sua mensagem para Éfeso “tem na sua destra as sete estrelas e
anda no meio dos sete castiçais de ouro”.

Em seis dias, ou períodos, Deus criou o Universo, e descansou no sétimo dia.


Noé foi orientado a levar os animais puros em grupos de sete à arca; e as aves
em grupos de sete; porque a chuva iria começar dentro de sete dias. No
décimo sétimo dia do mês, a chuva começou; no décimo sétimo dia do sétimo
mês, a arca pousou no Ararat. Quando a pomba retornou, Noé esperou sete
dias antes de enviá-la novamente; e mais sete até que ela voltasse com o ramo
de oliveira. Enoque foi o sétimo patriarca, incluindo Adão, e Lameque viveu
777 anos.

Havia sete lâmpadas no grande candelabro do Tabernáculo e do Templo,


representando os sete astros. Sete vezes Moisés aspergiu o óleo consagrado
sobre o altar. Foram em número de sete os dias da consagração de Arão e
seus filhos. Uma mulher era impura durante sete dias após o parto; alguém
infectado com lepra era trancafiado durante sete dias; sete vezes o leproso era
borrifado com o sangue de uma ave morta; e nos sete dias posteriores deveria
permanecer longe de sua tenda. Sete vezes, para purificar o leproso, o
sacerdote devia aspergir o óleo consagrado; e sete vezes deveria aspergir o
sangue da ave sacrificada para sua casa ser purificada. Sete vezes o sangue de
um boi sacrificado era aspergido sobre o propiciatório; e sete vezes sobre o
altar. O sétimo ano era um Sabbat de descanso; e ao cabo de sete vezes sete
anos chegou o grande ano do jubileu. Durante sete dias o povo comeu pão
ázimo no mês de Abib. Sete semanas eram contadas a partir do primeiro dia
da colocação da foice no trigo. A Festa do Tabernáculo durou sete dias.

Israel esteve na mão de Midian sete anos antes de Gideão os entregar. O boi
sacrificado por ele tinha sete anos. Sansão disse para Dalila atá-lo com sete
vimes; e ela teceu as sete tranças de sua cabeça e em seguida as rapou. Balaão
disse a Baraque para construir sete altares para ele. Jacó serviu durante sete
anos para conseguir Lea e sete para conseguir Raquel. Jó teve sete filhos e
três filhas, perfazendo o número perfeito dez. Também teve sete mil ovelhas
e três mil camelos. Seus amigos se sentaram com ele por sete dias e sete
noites. Foi ordenado a seus amigos que sacrificassem sete bois e sete
carneiros; e, novamente, ao final, ele teve sete filhos e três filhas, duas vezes
sete mil ovelhas e viveu cento e quarenta, ou duas vezes sete vezes dez anos.
Faraó, em seu sonho, viu sete vacas gordas e sete vacas magras, sete espigas
boas e sete espigas malditas de trigo; e houve sete anos fartos e sete anos de
fome. Jericó caiu quando sete sacerdotes, com sete trombetas, fizeram o
circuito ao redor da cidade por sete dias sucessivos; uma vez por dia durante
seis dias e sete vezes no sétimo. “Os sete olhos do Senhor ” diz Zacarias
“que percorrem por toda a terra”. Salomão construiu o Templo em sete
anos. Sete anjos, no Apocalipse, derramam sete pragas, de sete cálices de
fúria. A besta escarlate na qual a mulher se senta no deserto tem sete cabeças
e dez chifres. Também os tem a besta que se ergue do mar. Sete trovões
emitiram suas vozes. Sete anjos tocaram sete trombetas. Sete lâmpadas de
fogo, os sete espíritos de Deus, queimaram diante do trono; e o Cordeiro que
foi sacrificado tinha sete cornos e sete olhos.

OITO é o primeiro cubo, o de dois. NOVE é o quadrado de três, e é


representado pelo triângulo triplo.

DEZ inclui todos os outros números. Especialmente sete e três; e é chamado


de número da perfeição. Pitágoras representou-o com a TETRACTYS, que
tinha diversos significados místicos. Este símbolo é, algumas vezes,
composto por pontos, outras vezes por vírgulas ou yōds e, na Cabala, pelas
letras do nome da Divindade. Está assim organizado:

Os patriarcas, desde Adão a Noé, inclusive, são dez em número, que é o


mesmo número dos Mandamentos.

DOZE é o número das linhas de comprimento igual que formam o cubo. É o


número dos meses, das tribos e dos apóstolos; dos bois sob o Mar de Bronze,
das pedras no peitoral do grande sacerdote.
III. MESTRE

Compreender literalmente os símbolos e alegorias de livros Orientais como


assuntos ante-históricos é fechar deliberadamente os olhos contra a Luz.
Traduzir os símbolos para o trivial e para o lugar-comum é o despautério da
mediocridade.

Toda expressão religiosa é simbolismo; uma vez que podemos apenas


descrever o que vemos, e que os objetos verdadeiros da religião são OS
VISTOS. Os instrumentos mais antigos da educação foram os símbolos; eles
e todas as outras formas religiosas diferiam e ainda diferem de acordo com as
circunstâncias e imagens externas, de acordo com as diferenças de
conhecimento e cultivo mental. Toda linguagem é simbólica, na medida em
que é aplicada a fenômenos e ações mentais e espirituais. Todas as palavras
têm, primariamente, um sentido material; porém, podem receber mais tarde,
dos ignorantes, um significado espiritual sem sentido. “Retrair”, por
exemplo, é puxar para trás, mas quando aplicado a uma afirmação, é
simbólico, tal como seria a imagem de um braço sendo recolhido para
expressar a mesma coisa. A exata palavra “espírito” significa “respiração”,
do verbo latino spiro, respirar.

Apresentar um símbolo visível aos olhos de outrem não é necessariamente


informar o significado que esse símbolo tem para você. Consequentemente, o
filósofo logo sobrepôs aos símbolos explicações endereçadas ao ouvido,
suscetíveis de maior precisão, mas menos efetivas e impressivas do que as
formas pintadas ou esculpidas que envidou explicar. A partir dessas
explicações, se desenvolveu gradualmente uma variedade de narrativas, cujos
verdadeiros objetivos e significados foram paulatinamente sendo esquecidos,
ou perdidos em contradições e incongruências. E, quando foram
abandonadas, e a Filosofia recorreu a definições e fórmulas, sua linguagem
não passou de um simbolismo mais complicado, tentando, no escuro, pintar e
se atracar a ideias impossíveis de serem expressas. Pois tal como o símbolo
visível, qual como à palavra: pronunciá-la a você não é informar o
significado exato que ela possui para mim; e, assim, a religião e a filosofia se
transformaram, em grande parte, em disputas quanto ao significado de
palavras. A expressão mais abstrata de DIVINDADE que a linguagem pode
fornecer nada mais é do que um sinal ou símbolo para um objeto além de
nossa compreensão, não mais verdadeiro ou adequado do que as imagens de
OSÍRIS e VISHNU, ou seus nomes, exceto por ser menos sensível e menos
explícito. Evitamos a sensibilidade apenas recorrendo à simples negação. Ao
final, definimos espírito dizendo que ele não é matéria. Espírito é – espírito.

Um único exemplo do simbolismo das palavras indicará a você um ramo do


estudo Maçônico. Encontramos no Rito Inglês esta frase: “Sempre saudarei
(em inglês, hail), sempre ocultarei, e nunca revelarei;” e no Catecismo,
estas:

P.’. “Eu saúdo”


R.’. “Eu oculto;”

E a ignorância, compreendendo mal a palavra “saudar”, interpolou a frase,


“De onde saúdas!”

Mas a palavra é, na realidade, “hele”, do verbo Anglo-Saxão elan, helan, que


é cobrir, encobrir, ou ocultar. E esta palavra é traduzida pelo verbo Latino
tegere, cobrir ou telhar. “That ye fro me no thynge woll hele ” diz Gower.
“They hele fro me no priuyte ”, diz o Romance da Rosa . “Curar (heal) uma
casa” é uma frase comum em Sussex; e no oeste da Inglaterra, aquele que
cobre uma casa com ardósias é chamado Curador. Por conseguinte, “curar”
significa a mesma coisa que “telhar”, – por si só simbólico, significando,
primariamente, cobriruma casa com telhas, – e também cobrir, encobrir ou
ocultar. Assim, a linguagem também é simbolismo, e palavras são tão mal
compreendidas e mal utilizadas quanto os símbolos mais materiais.

O simbolismo tendeu, continuamente, a se tornar mais complicado; e todas as


forças do Céu foram reproduzidas na terra, até que uma teia de ficção e
alegoria foi tecida, parcialmente pela arte e parcialmente pela ignorância do
erro, que o saber do homem, com seus métodos de explicação limitados,
nunca irá desemaranhar. Até o Teísmo Hebreu se envolveu em simbolismo e
adoração de imagens, tomados emprestados, provavelmente, de um credo
mais antigo e de regiões remotas da Ásia, – a adoração da Grande Natureza-
Deus Semítica AL ou ELS e suas representações simbólicas do Próprio
JEOVÁ não foram restritas à linguagem poética ou ilustrativa. Os sacerdotes
eram monoteístas: as pessoas idólatras.

Existem perigos inseparáveis do simbolismo, que proporcionam uma lição


impressionante no que diz respeito aos riscos similares presentes no uso da
linguagem. A imaginação, chamada para auxiliar a razão, usurpa seu lugar ou
deixa sua aliada emaranhada desamparadamente em sua teia. Nomes que
representam coisas são confundidos com elas; os meios são confundidos com
os fins; o instrumento de interpretação com o objeto; e, assim, os símbolos
chegam a usurpar um caráter independente como se fossem verdades ou
pessoas. Embora, talvez, sejam um caminho necessário, eram um caminho
perigoso para se aproximar à Divindade; no qual muitos, diz PLUTARCO,
“confundindo o símbolo com a coisa significada, incorreram numa
superstição ridícula; enquanto outros, evitando um extremo, precipitaram-se
no golfo não menos detestável da irreligião e da impiedade”.

É através dos Mistérios, diz CÍCERO, que aprendemos os primeiros


princípios de vida; portanto o termo “iniciação” é usado com boa razão; e
eles não só nos ensinam a viver mais feliz e agradavelmente, como também
suavizam as dores da morte através da esperança de uma melhor vida futura.

Os Mistérios eram um Drama Sagrado, exibindo alguma lenda significativa


das mudanças da natureza, do Universo visível no qual a Divindade é
revelada, e cuja importação era, em muitos aspectos, tão aberta ao Pagão
quanto ao Cristão. A Natureza é a grande Professora do homem; pois é a
Revelação de Deus. Ela não dogmatiza nem tenta tiranizar compelindo a um
credo específico ou interpretação especial. Ela nos apresenta seus símbolos, e
não acrescenta nada pelo caminho da explicação. É o texto sem o comentário;
e, como bem o sabemos, é principalmente o comentário e a glosa que levam
ao erro, à heresia e à perseguição. Os instrutores mais antigos da humanidade
não só adotavam as lições da Natureza, mas aderiam o quanto possível ao seu
método de transmiti-las. Nos Mistérios, além das tradições atuais ou recitais
sacros e enigmáticos dos Templos, poucas explicações eram dadas aos
espectadores, que eram deixados, como na escola da natureza, a fazer
inferências por si mesmos. Nenhum outro método teria satisfeito todos os
graus de cultura e capacidade. Empregar o simbolismo universal da natureza,
ao invés das tecnicalidades da linguagem, recompensa o pesquisador mais
humilde e revela seus segredos a cada um na proporção de seu treinamento
preparatório e de seu poder de compreendê-los. Ainda que seus significados
filosóficos estivessem acima da compreensão de alguns, seus significados
morais e políticos estão dentro do alcance de todos.

Estas exibições e performances místicas eram não a leitura de um


ensinamento, mas a abertura de um problema. Requerendo pesquisa, elas
foram calculadas para despertar o intelecto dormente. Não implicam
hostilidade à Filosofia, porque a Filosofia é a grande explicadora do
simbolismo; ainda que suas antigas interpretações fossem amiúde infundadas
e incorretas. A alteração de símbolo para dogma é fatal à beleza da expressão,
e leva à intolerância e a uma infalibilidade presumida.

Se os antigos, ao ensinarem a grande doutrina da natureza divina da Alma, ao


tentarem explicar seus desejos de imortalidade, ao provarem sua
superioridade sobre as almas dos animais, as quais não têm aspirações
voltadas ao Céu, se esforçaram em vão para expressar a natureza da alma, por
compará-la ao FOGO e à LUZ, seria bom que considerássemos se, com todo
o nosso conhecimento ostentado, temos alguma ideia melhor ou mais clara de
sua natureza e se, desesperadamente, não nos refugiamos em não ter
nenhuma. Pois se eles erraram quanto ao seu lugar original de residência, e
compreenderam literalmente o modo e o caminho de sua descida, tais foram
apenas acessórios da grande Verdade e, provavelmente, para os Iniciados,
meras alegorias, projetadas para criar a ideia mais palpável e impressionante
à mente.

De qualquer modo, não são mais passíveis de risos, pela arrogância de uma
ignorância vã – e a riqueza de cujo conhecimento consiste só de palavras – do
que o seio de Abraão, como lar dos espíritos dos justos que morreram; o
abismo de fogo verdadeiro, para a tortura eterna dos espíritos; e a Cidade da
Nova Jerusalém, com seus muros de jaspe e seus edifícios de ouro puro
semelhante a vidro límpido, suas fundações de pedras preciosas e seus
portões cada um de uma única pérola. “Eu conheci um homem”, diz PAULO,
“arrebatado ao terceiro Céu;... que ele foi arrebatado ao Paraíso, e ouviu
palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar”. E em nenhum lugar o
antagonismo e o conflito entre o espírito e o corpo são mais frequente e
forçosamente insistidos do que nos escritos deste apóstolo, em nenhum lugar
a natureza Divina da alma é mais fortemente afirmada. “Com a mente”, diz
ele, “sirvo à lei de DEUS; mas com a carne à lei do pecado... Todos os que
são guiados pelo Espírito de DEUS, esses são filhos de DEUS... A ardente
expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de DEUS... A
criatura será libertada da servidão da corrupção, da carne sujeita à
decadência, para a liberdade da glória dos filhos de DEUS”.

Duas formas de governo são favoráveis à prevalência da falsidade e da


fraude. Sob um Despotismo, as pessoas são falsas, traiçoeiras e enganadoras
por medo, como escravos temendo o açoite. Sob uma Democracia também o
são, como um meio de alcançar popularidade e cargos, e por causa da cobiça
por riqueza. A experiência, provavelmente, provará que tais vícios odiosos e
detestáveis crescerão mais patentes e se espalharão mais rapidamente numa
República. Quando o cargo e a riqueza se tornam os dois deuses de um povo,
e os mais indignos e ineptos aspiram mais ao primeiro, e a fraude se torna a
rodovia para a segunda, a terra irá feder com a falsidade e transpirar mentiras
e chicanas. Quando os cargos estão abertos a todos, o mérito, a integridade
austera, e a dignidade da honra imaculada os alcançarão só raramente e por
acidente. Ser capaz de bem servir ao país deixará de ser uma razão pela qual
os grandes, os sábios e os instruídos serão selecionados para prestar serviço.
Outras qualificações, menos honrosas, estarão mais disponíveis. Adaptar a
opinião de alguém à vontade popular; defender, apologizar e justificar as
tolices populares; advogar o conveniente e o plausível; afagar, lisonjear e
bajular o eleitor; mendigar como um cão por seu voto, por mais bárbaro que o
eleitor seja; professar amizade por um competidor e apunhalá-lo com
insinuações; estabelecer o que futuramente se tornará mentira, sendo primo-
irmão disso quando pronunciado e capaz, ainda, de ser explicado; – quem já
não viu estas artes baixas e ferramentas vis postas em prática, generalizando-
se, até que o sucesso não possa mais ser alcançado seguramente por meios
honrados? – o resultado é um Estado governado e arruinado pela
mediocridade ignorante e rasa, pela vaidade arrogante e pelo verdor do
intelecto imaturo, baldado pela noção superficial do conhecimento digna de
um aluno de colégio.
Os infiéis e os falsos na vida pública e política serão infiéis e falsos na vida
privada. O jóquei na política, assim como o jóquei no hipódromo, é podre
desde a pele até o coração. Em todo lugar ele olhará primeiro seus próprios
interesses, e quem depender dele será perfurado com um junco quebrado. Sua
ambição é ignóbil, como ele próprio; e, então, procurará conseguir o cargo
por meios ignóbeis, tal como procurará alcançar qualquer outro objetivo
cobiçado – terras, dinheiro ou reputação.

Lentamente, o cargo e a honra são divorciados. A posição que o pequeno e


raso, o patife ou o trapaceiro, são considerados competentes e aptos para
preencher, deixa de ser digna para os grandes e capazes; ou, se não, estes se
recuam da disputa, uma vez que as armas a se utilizar são impróprias para um
cavalheiro as manejar. E então, os hábitos dos advogados sem princípios nos
tribunais de justiça são naturalizados nos Senados, e ali os chicanistas
discutem em voz alta, quando o destino da nação e as vidas de milhões estão
em jogo. Os Estados são gerados até pela vilania e nascidos pela fraude, e as
canalhices são justificadas por legisladores que afirmam ser honrados.
Portanto, eleições contestadas são decididas por votos perjuros ou
considerações partidárias; e todas as práticas dos piores tempos de corrupção
são revividas e exageradas nas Repúblicas.

É estranho que a reverência pela verdade, o humanismo e a lealdade genuína,


o desprezo pela pequenez e pela vantagem injusta, a fé genuína, a piedade, e
a grande amabilidade diminuam entre os estadistas e as pessoas, conforme a
civilização avança e a liberdade se torna mais geral, e o sufrágio universal
implica valor e aptidão universais! Na época de Elizabeth, sem sufrágio
universal, nem Sociedades para a Difusão do Conhecimento Útil, nem
conferencistas populares, nem Liceus, o estadista, o mercador, o burguês, o
marinheiro, eram todos igualmente heroicos, temendo unicamente a Deus, e a
nenhum homem. Deixe uma ou duas centenas de anos se passarem, e numa
Monarquia ou República da mesma raça, nada é menos heroico que o
mercador, o especulador astuto e o buscador de cargos, temendo unicamente
os homens, e a nenhum Deus. A reverência à grandeza desaparece, e é
sucedida pela baixa inveja à grandeza. Cada um está no caminho de muitos,
seja no caminho da popularidade ou no da riqueza. Há um sentimento geral
de satisfação quando um grande estadista é deslocado, ou um general, que
durante suas breves horas tenha sido um ídolo popular, é desafortunado e cai
de seu alto posto. Torna-se um infortúnio, se não um crime, estar acima do
nível popular.

Supomos, naturalmente, que uma nação em angústia aconselhar-se-ia com o


mais sábio de seus filhos. Porém, pelo contrário, os grandes homens jamais
parecem ser tão escassos como quando são mais necessários, e os pequenos
nunca tão destemidos em insistir em infestar o lugar como quando a
mediocridade, a pretensão incompetente, o viço estudantil e a incompetência
exibicionista e vivaz são mais perigosos. Quando a França estava no extremo
da agonia revolucionária, era governada por uma assembleia de velhacos, e
Robespierre, Marat e Couthon governaram no lugar de Mirabeau, Vergniaud
e Carnot. A Inglaterra foi governada pelo Parlamento Restante, depois de ter
decapitado seu rei. Cromwell extinguiu uma corporação, e Napoleão a outra.

Fraude, falsidade, trapaça e engano nos assuntos nacionais são sinais de


decadência nos Estados e precedem convulsões ou paralisias. A política das
nações governadas pela mediocridade barata é tiranizar os fracos e se
encolher aos fortes. As artimanhas dos debates por cargos são reiteradas nos
Senados. O Executivo se torna o distribuidor da patronagem, principalmente
aos mais indignos; e as pessoas são subornadas com cargos, ao invés de
dinheiro, para a grande ruína da Comunidade. Desaparece o Divino na
natureza humana, e o interesse, a ganância e o egoísmo tomam seu lugar. É
uma alegoria triste e verdadeira, a que representa os companheiros de Ulisses
transformados em porcos pelo encantamento de Circe.

“Não podes”, disse o Grande Mestre, “servir a Deus e a Mamom”. Quando a


sede de fortuna se torna geral, esta será procurada tanto honesta quanto
desonestamente; por fraudes e extrapolações, pelas desonestidades do
comércio, pela crueldade da especulação gananciosa e pela especulação em
ações e mercadorias que logo desmoralizam uma comunidade inteira. As
pessoas especularão com as necessidades de seus vizinhos e com as angústias
de seu país. Bolhas que, arrebentando, empobrecem multidões, serão
estouradas pela desonestidade astuta, com a credulidade estúpida como sua
assistente e instrumento. Bancarrotas gigantes, que assustam um país como
os terremotos, porém são mais fatais, atribuições fraudulentas, engolfamento
da poupança dos pobres, expansões e colapsos da moeda, quebra de bancos,
depreciação de finanças governamentais, pilham as economias dos
abnegados, e preocupam, com suas depredações, o primeiro alimento da
infância e as últimas areias da vida, e enchem com internos os adros de
igrejas e os manicômios. Mas o velhaco e especulador prospera e engorda. Se
sua pátria está lutando, num levante em massa, por sua própria existência, ele
a “ajuda” desvalorizando sua moeda, a fim de que possa acumular quantias
fabulosas com poucos gastos. Se seu vizinho está angustiado, ele compra sua
propriedade por uma música alegre. Se administra uma herança, ele a torna
falida, e os órfãos se tornam indigentes. Se o seu banco explode, descobre-se
que ele se protegeu a tempo. A sociedade idolatra seus reis de papel-e-
crédito, como os Hindus e Egípcios adoravam seus ídolos inúteis, e muitas
vezes mais obsequiosamente quando, em meio a uma riqueza sólida, ela é
paupérrima. Não é de se admirar que as pessoas achem que deve existir outro
mundo, no qual as injustiças deste possam ser expiadas, quando veem os
amigos, com as famílias arruinadas, mendigando aos ricos mais espertos que
deem esmolas para evitar que vítimas órfãs morram de fome, até que
encontrem meios de se sustentar.

Os Estados são principalmente desejosos de comércio e de territórios. O


desejo territorialista leva à violação de tratados, invasão de territórios de
vizinhos frágeis e à rapacidade para com seus distritos, cujas terras são
cobiçadas. As Repúblicas são, nisto, tão gananciosas e sem princípios quanto
os Déspotas, nunca aprendendo com a história que a expansão desordenada
através de rapina e fraude tem suas consequências inevitáveis no
desmembramento ou na subjugação. Quando uma República começa a
saquear seus vizinhos, as palavras de condenação já estão escritas em seus
muros. Há um julgamento já proferido por Deus sobre o que ou quem é
injusto na condução dos assuntos nacionais. Quando a guerra civil rasga os
órgãos vitais de uma República, deixe-a olhar para trás e ver se não foi
culpada de injustiças; e, se tiver sido, deixe-a se humilhar no pó!

Quando uma nação se torna possuída por um espírito de ganância comercial,


além dos limites justos e corretos estabelecidos pelo devido respeito a um
grau moderado e razoável de prosperidade geral e individual, ela é uma nação
possuída pelo demônio da avareza comercial, uma paixão tão ignóbil e
desmoralizadora quanto a avareza no indivíduo; e como essa paixão sórdida é
mais baixa e inescrupulosa do que a ambição, é assim mais odiosa, e
finalmente faz com que a nação infectada seja vista como inimiga da raça
humana. Abocanhar a parte do leão no comércio sempre tem provado, no
final, ser a ruína dos Estados, porque invariavelmente leva a injustiças que
fazem um Estado detestável; a um egoísmo e política deformada que
impedem outras nações de serem amigas de um Estado que se preocupa
unicamente consigo mesmo.

A avareza comercial na Índia foi progenitora de mais atrocidades, de maior


violência, e custou mais vidas humanas do que a ambição mais nobre do
império estendido da Roma Consular. A nação que se agarra ao comércio do
mundo só pode se tornar egoísta, calculista, morta para os impulsos e
afinidades mais nobres que devem mover os Estados. Submeter-se-á a
insultos que mais ferirão sua honra do que colocarão em perigo seus
interesses comerciais pela guerra; enquanto, ao submeter-se a esses
interesses, travará uma guerra injusta, por pretextos falsos ou frívolos, e seu
povo livre se aliará alegremente a déspotas para esmagar um rival comercial
que ousou exilar seus reis e eleger seu próprio governante.

Assim, os frios cálculos de um sórdido interesse próprio, em nações


comercialmente avarentas, no final, sempre deslocam os sentimentos e
impulsos elevados de Honra e Generosidade pelos quais elas ascenderam à
grandeza; que fizeram igualmente Elizabeth e Cromwell serem os protetores
dos Protestantes, para além dos quatro mares da Inglaterra, contra a Tirania
coroada e a Perseguição mitrada; e, se tivessem durado, teriam impedido
alianças com Czares, Autocratas e Bourbons para re-entronizar as Tiranias da
Incapacidade, e armar a Inquisição novamente com seus instrumentos de
tortura. A alma da nação avarenta se petrifica, como a alma do indivíduo que
faz do ouro seu deus. O Déspota ocasionalmente agirá por impulsos nobres e
generosos, e ajudará os fracos contra os fortes, os certos contra os errados.
Mas a avareza comercial é essencialmente egoísta, sedenta, infiel,
extrapolante, velhaca, fria, mesquinha, egoísta e calculista, controlada apenas
por considerações de interesse próprio. Sem coração e sem misericórdia, não
tem nenhum sentimento de piedade, afinidade ou honra que a façam parar em
sua corrida sem remorso; e ela esmaga tudo que seja impedimento em seu
caminho, tal como suas quilhas de comércio esmagam embaixo de si as ondas
murmurantes e despercebidas.

Uma guerra por um grande princípio enobrece uma nação. Uma guerra por
supremacia comercial, sob um baixo pretexto, é desprezível e, mais do que
tudo, demonstra a que profundidades imensuráveis de baixeza as pessoas e as
nações podem descer. A ganância comercial valoriza as vidas humanas não
mais do que valoriza as vidas das formigas. O comércio de escravos é tão
aceitável para um povo cativado por tal ganância, quanto o comércio de
marfim ou de especiarias, se os lucros forem grandes. Depois de um tempo,
esforçar-se-á para se compor com Deus e aquietar sua própria consciência,
compelindo aqueles para os quais vendeu os escravos que comprou ou
roubou, a libertá-los, massacrando-os com hecatombes se se recusarem a
obedecer aos éditos de sua “filantropia”.

Justiça, de maneira alguma, consiste em distribuirmos a outrem a medida


exata de recompensa ou punição que pensamos e decretamos ser de seu
mérito, ou do que chamamos de seu crime, que muitas vezes é meramente seu
erro. A justiça do pai não é incompatível com o perdão aos erros e ofensas de
seu filho. A Infinita Justiça de Deus não consiste em distribuir medidas
exatas de punição às fraquezas e pecados humanos. Somos demasiado aptos
para erigir nossas próprias noções pequenas e estreitas do que é certo e justo
na lei da justiça, e insistir que Deus deva adotá-las como Sua lei; medir algo
com nossa própria trena minúscula, e chamar essa medida de amor de Deus
pela justiça. Continuamente, buscamos enobrecer nosso próprio amor ignóbil
pela vingança e retaliação, o chamando erradamente de justiça.

Tampouco justiça consiste em governar estritamente nossa conduta para com


os outros pela regras rígidas do direito legal. Se existisse, em algum lugar,
uma comunidade na qual todos se firmassem na rigorosidade dessa regra,
deveriam estar escritas sobre seus portões, como um aviso aos desafortunados
que desejam admissão a esse reino inóspito, as palavras que DANTE diz
estarem escritas no alto do grande portão do Inferno: “DEIXAI TODA A
ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!”. Não é justo pagar ao trabalhador, do
campo, da fábrica ou da oficina seu salário corrente e nada mais, o valor de
mercado mais baixo por seu trabalho, pelo tempo que precisarmos desse
trabalho ou que ele for capaz de trabalhar; pois quando a doença ou a velhice
o alcançam, isto significa abandoná-lo, junto com sua família, para morrer de
fome; e Deus amaldiçoará com calamidade o povo no qual os filhos do
trabalhador desempregado comem apenas a grama do campo cozida, e mães
estrangulam seus filhos, para que possam comprar alimentos para si mesmas
com a pensão caridosa dada para as despesas do enterro. As regras do que é
normalmente chamado de “Justiça” podem ser meticulosamente observadas
entre os espíritos caídos, que são a aristocracia do Inferno.

Justiça, divorciada da afinidade, é indiferença egoísta, nem de longe mais


louvável do que a isolação misantrópica. Existe afinidade até entre as
oscillatorias, uma tribo de plantas simples, semelhantes a cabelos, e exércitos
que podem ser descobertos com a ajuda do microscópio, na mais ínfima parte
da escuma de uma piscina estagnada. Porque vão se colocar, como se por
comum acordo, em companhias separadas, na lateral do recipiente que os
contenha, e parecem marchar para cima em filas; e quando um enxame se
cansa de sua situação e decide mudar seus quartéis, cada pelotão se mantém
em sua rota sem confusão e ou mistura, procedendo com grande regularidade
e ordem, como sob instruções de líderes sábios. As formigas e abelhas
prestam umas às outras uma assistência mútua, além do exigido para o que as
criaturas humanas são capazes de considerar como a estrita lei da justiça.

Certamente precisamos refletir um pouco, nos convencermos de que o


indivíduo é apenas uma fração da unidade da sociedade, e que ele está
indissoluvelmente conectado ao restante de sua raça. Não só as ações, mas a
vontade e os pensamentos de outras pessoas fazem ou arruínam sua sorte,
controlam seus destinos, e são para ele vida ou morte, honra ou desonra. As
epidemias, físicas e morais, contagiosas e infecciosas, a opinião pública, os
entusiasmos e decepções públicas, e os outros grandes fenômenos e correntes
elétricas, morais e intelectuais, provam a afinidade universal. O voto de um
único e obscuro homem, a manifestação de obstinação, ignorância,
convencimento, ou rancor, decidindo uma eleição e colocando a Insensatez,
ou Torpeza ou a Baixeza num Senado, envolve o país na guerra, varre nossos
bens, massacra nossos filhos, torna inútil o trabalho de uma vida, e nos
empurra, indefesos, com todo o nosso intelecto para resistir, ao túmulo.

Estas considerações devem nos ensinar que a justiça para nós e para os outros
é a mesma; que não podemos definir nossos deveres por linhas matemáticas
regidas pelo esquadro, mas que devemos preencher com elas o grande círculo
traçado pelos compassos; que o círculo da humanidade é o limite, e nós
somos apenas o ponto em seu centro, as gotas no grande Atlântico, o átomo
ou partícula, vinculados por uma lei de atração misteriosa que chamamos de
afinidade, a cada outro átomo na massa; que o bem-estar físico e moral dos
outros não pode ser indiferente para nós; que temos um interesse direto e
imediato na moralidade pública e na inteligência popular, no bem-estar e
conforto físico das pessoas de forma geral. A ignorância das pessoas, seu
pauperismo e destituição, e consequente degradação, sua brutalização e
desmoralização, são todos doenças; e não conseguimos nos erguer muito
acima das pessoas, nem nos afastar delas o suficiente, para escapar do
contágio miasmático e das grandes correntes magnéticas.

A justiça é peculiarmente indispensável para as nações. O Estado injusto é


condenado por Deus à calamidade e à ruína. Este é o ensinamento da
Sabedoria Eterna e da história. “A Honradez exalta uma nação; mas o errado
é uma vergonha para as nações”. “O Trono é estabelecido pela Honradez.
Que os lábios do Governante pronunciem a sentença que é Divina; e sua
boca não erre no julgamento!” A nação que adita província por província por
fraude e violência, que usurpa os fracos e saqueia seus bens, que viola seus
tratados e a obrigação de seus contratos, e substitui a lei da honra e da justa
conduta pelas exigências da ganância, pelos preceitos baixos de política e
pelas doutrinas ignóbeis da conveniência, está predestinada à destruição; pois
aqui, assim como com o indivíduo, as consequências do errado são
inevitáveis e eternas.

Uma sentença está escrita contra tudo o que é injusto, escrita por Deus na
natureza do homem e do Universo, porque está na natureza do Deus Infinito.
Nenhum mal é realmente bem sucedido. O ganho da injustiça é uma perda;
seu prazer, sofrimento. Muitas vezes a iniquidade parece prosperar, mas seu
sucesso é a sua derrota e vergonha. Se suas consequências passarem do
agente, recairão sobre seus filhos e os esmagarão. É uma verdade filosófica,
física e moral, em forma de ameaça, a de que Deus visita a iniquidade dos
pais sobre os filhos, até a terceira e quarta gerações daqueles que violaram
Suas leis. Depois de um longo tempo, o dia do cômputo sempre vem, para a
nação e para o indivíduo; e o patife sempre se engana, e se prova um
fracasso.

A hipocrisia é a homenagem que o vício e a ofensa prestam à virtude e à


justiça. É Satã tentando se vestir com a veste angelical de luz. É igualmente
detestável na moral, na política e na religião; na pessoa e na nação. Fazer
justiça sob a pretensão de equidade e justeza; reprovar o vício em público e
praticá-lo no particular; fingir opinião caridosa, mas condenar censoriamente;
professar os princípios da beneficência Maçônica e tampar os ouvidos ao
lamento da angústia e ao pranto dos que sofrem; elogiar a inteligência das
pessoas e maquinar ludibriá-las e traí-las por meio de sua ignorância e
simplicidade; falaciar sobre pureza e cometer peculato; sobre honra, e
abandonar baixamente uma causa em naufrágio; sobre desinteresse, e vender
seu voto por cargos e poder; são hipocrisias tão comuns quanto são infames e
desgraçadas. Furtar o uniforme da Corte de Deus para, além disso, servir o
Demônio; fingir crer em um Deus de misericórdia e em um Redentor do amor
e perseguir os de fé diferente; devorar casas de viúvas e, por fingimento,
fazer longas orações; pregar continência e chafurdar em luxúria; inculcar
humildade e ultrapassar Lúcifer em orgulho; pagar o dízimo, mas omitir as
questões mais importantes da lei: julgamento, misericórdia e fé; não deixar
passar um mosquito, mas engolir um camelo; manter limpo o exterior da
xícara e do pires, mas mantê-los cheios de extorsão e excessos;
exteriormente, parecer correto às pessoas, mas internamente ser cheio de
hipocrisia e iniquidade é, de fato, ser semelhante a sepulcros caiados, que
parecem belos por fora, mas por dentro estão repletos de ossos dos mortos e
de todas as impurezas.

A República cobre sua ambição com o disfarce do desejo e dever de


“estender a área de liberdade” e reclama ser seu “destino manifesto” anexar
outras Repúblicas, ou Estados ou Províncias de outrem aos seus, pela
violência aberta, ou sob títulos obsoletos, vazios e fraudulentos. O Império
fundado por um soldado bem sucedido reclama suas fronteiras ancestrais ou
naturais, e faz da necessidade e de sua segurança os argumentos para o roubo
escancarado. A grande Nação Mercante, ganhando apoio no Oriente,
encontra uma necessidade contínua de expandir seu domínio pelas armas, e
subjuga a Índia. As grandes Realezas e Despotismos, sem argumento,
dividem entre si um Reino, desmembram a Polônia, e se preparam para
disputar os domínios do Crescente. Manter o equilíbrio de poder é o
argumento para a obliteração de Estados. Cartago, Gênova e Veneza, cidades
apenas comerciais, adquirem territórios pela força e pela fraude, e se tornam
Estados. Alexandre marcha sobre os Hindus; Tamerlão busca um império
universal; os Sarracenos conquistam a Espanha e ameaçam Viena.
A sede de poder nunca é satisfeita. É insaciável. Nem os homens nem as
nações jamais têm poder suficiente. Quando Roma era a senhora do mundo,
os Imperadores se fizeram adorar como deuses. A Igreja de Roma reclamou o
despotismo sobre a alma, e sobre toda a vida desde o berço até o túmulo. Deu
e vendeu absolvições para pecados passados e futuros. Alegou ser infalível
em assuntos de fé. Dizimou a Europa para purgá-la dos hereges. Dizimou a
América para converter Mexicanos e Peruanos. Deu e tirou tronos; e, por
excomunhão e interdição, fechou os portões do Paraíso em face das Nações.
A Espanha, soberba com seu domínio sobre as Índias, se esforçou em
esmagar o Protestantismo na Holanda, enquanto Felipe II se casou com a
Rainha da Inglaterra, e o casal tentou conquistar este reino de volta à sua
aliança ao trono Papal. E mais tarde, a Espanha tentou conquistá-lo com sua
Armada “invencível”. Napoleão colocou seus parentes e capitães em tronos e
dividiu entre eles metade da Europa. O Czar governa um império mais
gigantesco que o de Roma. A história de todos é, ou será, a mesma, –
aquisição, desmembramento e ruína. Há um julgamento de Deus contra tudo
o que é injusto.

Buscar subjugar a vontade de outros e tornar suas almas cativas, porque este
é o exercício do mais alto poder, parece ser o maior objetivo da ambição
humana. Está na base de todo proselitismo e propaganda, desde o de Mesmer
até o da Igreja de Roma e da República Francesa. Este era o apostolado
semelhante ao de Josué e de Maomé. A Maçonaria apenas prega a Tolerância,
o direito do homem de acatar sua própria fé e o direito de todos os Estados de
se autogovernarem. Ela repreende igualmente o monarca que busca estender
seus domínios pela conquista, a Igreja que reivindica o direito de reprimir a
heresia pelo fogo e pelo aço, e a confederação de Estados que insiste em
manter a união pela força e restaurar a fraternidade pelo massacre e pela
subjugação.

É natural, quando somos injustiçados, desejarmos vingança; e persuadir-nos


de que a queremos menos para nossa satisfação do que para prevenir a
repetição da injustiça, da qual o agente seria encorajado pela impunidade
unida às vantagens da injustiça. Submetermo-nos à trapaça é encorajar o
trapaceiro a continuar; e somos inteiramente capazes de nos ver como
instrumentos escolhidos por Deus para infligir Sua vingança e, por Ele e em
Seu lugar, desencorajar a injustiça pela garantia certa de sua esterilidade e
punição. A Vingança é dita como sendo “uma espécie de justiça selvagem”;
mas ela sempre é feita com raiva e, portanto, não é digna de uma alma
grande, que não tolerará que sua equanimidade seja perturbada pela
ingratidão ou vilania. Os danos feitos a nós pelos maus são tão indignos da
atenção de nossa raiva quanto os danos feitos pelos insetos e animais; e,
quando esmagamos a víbora, ou matamos o lobo ou a hiena, devemos fazê-lo
sem sermos movidos pela raiva, e com menor sentimento de vingança do que
o que temos ao arrancar uma erva daninha.

E se não estiver na natureza humana não se vingar por meio da punição, que
o Maçom considere verdadeiramente que assim fazendo ele será o agente de
Deus, e então, que sua vingança seja medida pela justiça e temperada pela
misericórdia. A lei de Deus é que as consequências da injustiça, da crueldade
e do crime sejam sua punição; e que os injuriados, os injustiçados e os
indignados são tão Seus instrumentos para reforçar tal lei quanto as doenças,
a detestação pública, o veredicto da história e a execração da posteridade.
Ninguém dirá que o Inquisidor que torturou e queimou o inocente; o espanhol
que, com sua espada, talhou crianças indígenas vivas e deu os membros
mutilados aos seus sabujos; o tirano militar que fuzilou pessoas sem um
processo; o patife que roubou ou traiu seu Estado; o banqueiro fraudador ou
corrupto, que levou órfãos à indigência; o servidor público que violou seu
juramento; o juiz que vendeu injustiça; o legislador que permitiu que a
Incapacidade arruinasse o Estado, não deverão ser punidos. Que assim sejam;
e que os feridos ou seus simpatizantes sejam os instrumentos da vingança
justa de Deus; mas sempre como resultado de um sentimento maior do que a
mera represália pessoal.

Lembre-se que toda característica moral do homem encontra seu protótipo


entre as criaturas de inteligência mais baixa; que a maldade cruel da hiena, a
violência selvagem do lobo, a ira impiedosa do tigre, a deslealdade astuciosa
da pantera, são encontradas entre o gênero humano e que, quando
encontradas, não devem provocar emoção diferente do que quando as
encontramos nos animais. Por que deveria o verdadeiro homem ficar irritado
com os gansos que sibilam, o pavão que se empertiga, o burro que zurra e os
macacos que imitam e garrulam, ainda que vistam a forma humana? Além
disso, sempre permanece verdadeiro: que é mais nobre perdoar do que se
vingar; e que, em geral, devemos muito mais desprezar aqueles que nos
ofendem, do que sentir a emoção da raiva, ou o desejo de vingança.

Na esfera do Sol, você está na região da LUZ. * * * * A palavra Hebraica


para ouro, ZAHAB, também significa Luz, da qual o Sol é para a Terra a
grande fonte. Portanto, na grande alegoria Oriental dos Hebreus, o Rio
PISOM circunda a terra do Ouro ou da Luz; e o Rio GIOM, a terra da
Etiópia ou das Trevas.

O que a luz é, não sabemos mais do que nossos ancestrais. De acordo com as
hipóteses modernas, não é composta de partículas luminosas emitidas pelo
Sol com velocidade imensa; mas aquele astro somente imprime, no éter que
preenche todo o espaço, um poderoso movimento vibratório que se estende,
na forma de ondas luminosas, para além dos planetas mais distantes,
provendo-lhes luz e calor. Para os antigos, era um efluxo partido da
Divindade. Para nós, assim como para eles, é o símbolo apropriado da
verdade e do conhecimento. Também, para nós, a jornada ascendente da alma
através das Esferas é simbólica; mas somos tão pouco informados quanto
eles, sobre de onde vem nossa alma, onde teve sua origem, e para onde vai
depois da morte. Eles se esforçavam para ter alguma crença e fé, algum
credo, sobre estes pontos. Hoje em dia, as pessoas estão satisfeitas em não
pensar em nada do que diz respeito a tudo aquilo, e apenas crer que a alma é
algo separado do corpo e sobrevivente a ele, mas não se preocupam nem se
questionam se ela existia antes dele. Ninguém se pergunta se ela emana da
Divindade ou se é criada a partir do nada, ou se é gerada tal como o corpo,
por consequência das almas do pai e da mãe. Não riamos, portanto, das ideias
dos nossos ancestrais até que tenhamos uma crença melhor; mas aceitemos
seus símbolos como significando que a alma é de natureza Divina,
originando-se numa esfera mais próxima à Divindade, e para lá retornando
quando liberada do cativeiro do corpo; e que só poderá retornar quando
purificada de toda sordidez e pecado que fizeram parte de sua substância, por
sua conexão com o corpo.

Não é estranho que, há milhares de anos, as pessoas adorassem o Sol, e que


hoje essa adoração continue entre os Parses. Originalmente, elas olhavam
para além do globo, para o Deus invisível, de quem a luz do Sol,
aparentemente idêntica à geração e à vida, era a manifestação e efluxão.
Muito antes dos pastores Caldeus o verem sobre seus campos, já se levantava
regularmente, como faz hoje, pela manhã, como um deus, e novamente se
punha como um rei se retirando no oeste, para retornar no tempo devido com
a mesma exibição de majestade. Nós adoramos a Imutabilidade. É esse
caráter constante e imutável do Sol que as pessoas de Baalbek adoravam.
Seus poderes vivificantes e iluminantes eram atributos secundários. A única
grande ideia que compelia à adoração era a característica de Deus que viam
refletida em sua luz, e imaginavam ver em sua originalidade a imutabilidade
da Divindade. O Sol viu tronos ruírem, terremotos sacudirem a terra e
arremessarem montanhas ao chão. Além do Olimpo, além dos Pilares de
Hércules, ele ia diariamente à sua morada, e diariamente retornava, de
manhã, para observar os templos eram construídos para a sua adoração. O
personificaram como BRAHMA, AMON, OSÍRIS, BEL, ADÔNIS,
MALKHART, MITRA e APOLO; e as nações que assim fizeram
envelheceram e morreram. Cresceu musgo nos capitéis das grandes colunas
de seus templos, e ele brilhou no musgo. Grão por grão, a poeira de seus
templos ruiu e caiu, foi carregada com o vento e, ainda assim, brilhou na
coluna e na arquitrave que desmoronavam. O telhado caiu se espatifando no
chão, e ele brilhou no Santo dos Santos com raios imutáveis. Não é estranho
que as pessoas adorassem o Sol.

Há uma planta aquática, em cujas largas folhas as gotas de água rolam sem se
unir a elas, como gotas de mercúrio. Do mesmo modo, os argumentos sobre
assuntos de fé, política ou religião rolam sobre a superfície da mente. Um
argumento que convence uma mente não tem efeito sobre outra. Poucos
intelectos, ou almas, que são as negações do intelecto, têm qualquer poder ou
capacidade lógicos. Existe uma obliquidade singular na mente humana que
faz a falsa lógica mais efetiva do que a verdadeira, para nove décimos
daqueles que são vistos como pessoas intelectuais. Mesmo entre os juízes,
nem dez por cento consegue argumentar logicamente. Cada mente enxerga a
verdade distorcida por seu próprio meio. A verdade, para a maioria das
pessoas, é como a matéria no estado esferoidal. Assim como uma gota de
água fria, na superfície de uma lâmina de metal incandescente, dança, treme e
gira, mas nunca entra em contato com ela; a mente pode ser mergulhada na
verdade, como uma mão umedecida com ácido sulfúrico em metal derretido,
e nem mesmo ser aquecida pela imersão.

A palavra Khairiūm ou Khūrūm é uma palavra composta. Gesênio traduz


Khūrūm pela palavra nobre ou nascido-livre: Khūr significando branco,
nobre. Também significa a abertura de uma janela, o orifício ocular. Khri
também significa branco, ou uma abertura; e Khris, o globo solar, em Jó
8:13 e 10:7. Krishna é o Deus-Sol Hindu. Khūr, a palavra em Parse, é o
nome literal do Sol.

De Kur ou Khur, o Sol, vem Khôra, um nome do Baixo Egito. O Sol, diz
Bryant em sua “Mitologia”, era chamado de Kur; e Plutarco diz que os
persas chamavam o Sol de Kūros. Kurios, Senhor, em grego, como Adonaï,
Senhor, em fenício e hebraico, era aplicado ao Sol. Muitos lugares eram
consagrados ao Sol e chamados de Kura, Kuria, Kuropolis, Kurene,
Kureschata, Kuresta, e Corusia na Cítia.

A Divindade egípcia chamada pelos gregos de “Hórus” foi Her-Ra, ou Har-


oeris, Hor ou Has, o Sol. Hari é um nome Hindu do Sol. Ari-al, Ar-es, Ar,
Aryaman, Areimonios, com “AR” significando Fogo ou Chama, são do
mesmo gênero. Hermes ou Har-mes (Aram, Remus, Haram, Harameias),
era Kadmos, a Luz Divinaou Sabedoria. Mar-kuri, diz Movers, é Mar, o Sol.

No Hebraico, AOOR é Luz, Fogo, ou o Sol. Ciro, disse Ctésias, foi assim
chamado a partir de Kuros, o Sol. Kuris, diz Hesíquio, era Adônis. Apolo, o
deus-Sol, era chamado de Kurraios, advindo de Kurra, uma cidade na
Fócida. O povo de Kurene, originalmente Etíopes ou Cutitas, adorava o Sol
sob o título de Achoor e Achōr.

Sabemos, através de um testemunho preciso nos anais ancestrais de Tsūr, que


a festividade principal de Mal-karth, a encarnação do Sol no Solstício de
Inverno, celebrada em Tsūr, era chamada de seu renascimento ou seu
despertar, e era celebrada por meio uma pira, sobre a qual se supunha que o
deus recuperaria, através da ajuda do fogo, uma nova vida. Esse festival era
celebrado no mês de Peritius (Barith), cujo segundo dia correspondia ao 25º
de dezembro. KHUR-UM, Rei de Tiro, afirma Movers, fora o primeiro a
executar esta cerimônia. Aprendemos estes fatos de Josefo, de Sérvio na
Eneida e nos Dionisíacos de Nono; e por uma coincidência que não pode ser
fortuita, o mesmo dia era em Roma o Dies Natalis Solis Invicti, o dia festivo
do invencível Sol. Sob esta denominação, HÉRCULES, HAR-aclesera
adorado em Tsūr. Assim, enquanto o templo estava sendo erigido, a morte e a
ressurreição de um Deus-Sol eram representadas anualmente em Tsūr, pelo
aliado de Salomão, no solstício de inverno, pela pira de MAL-KARTH, o
Heracles Tsūriano.

AROERIS ou HAR-oeris, o ancião HÓRUS, é da mesma velha raiz que, em


Hebraico, tem a forma de Aür, ou, com o artigo definido prefixado, Haür,
Luz,ou a Luz, esplendor, chama, o Sol e seus raios. O hieróglifo do jovem
HÓRUS era o ponto dentro de um círculo; o do Ancião, um par de olhos; e o
festival do trigésimo dia do mês de Epiphi, quando se supunha que o sol e a
lua estavam alinhados com a terra, era chamado de “O nascimento dos olhos
de Hórus”.

Em um papiro publicado por Champollion, este deus é intitulado “Haroeri,


Senhor dos Espíritos Solares, o olho benévolo do Sol”. Plutarco o chama de
“Har-pocrates”, mas não há nenhum vestígio da última parte do nome nas
lendas hieroglíficas. Ele é o filho de OSÍRIS e de Ísis, e é representado
sentado em um trono sustentado por leões; a mesma palavra, em Egípcio,
significando Leão e Sol. Deste modo, Salomão fez um grande trono de
marfim, revestido com ouro, com seis degraus, havendo um leão em cada
braço, e um leão em cada lado de cada degrau, perfazendo sete de cada lado.

Novamente, a palavra hebraica ‫יח‬, Khi, significa “vivente”; e ‫םאר‬, rām “era,
ou será, erguido ou levantado ”. A última é a mesma que ‫ םוח‬,‫ םורא‬,‫םור‬,
rōōm, arōōm, harūm, ou Aram, para Síria, ou Aramæa, Terra-Alta.
Khairūm, portanto, significaria “erguido à vida, ou vivente”.

Assim, em Arábico, hrm, uma raiz não usada, significava “era alto”, “feito
grande”, “exaltado”; e Hîrm significa boi, o símbolo do Sol em Touro, no
Equinócio Vernal.

KHŪRŪM, então, impropriamente chamado de Hiram, é KHUR-OM, o


mesmo que Her-ra, Her-mes e Her-acles, o “Heracles Tyrius Invictus”, a
personificação da Luz e do Filho, o Mediador, Redentor e Salvador. Da
palavra egípcia Ra veio a copta Oūro e a hebraica Aür, Luz. Har-oerié Hor
ou Har, o chefe ou mestre. Hor também é calor; e hora, estaçãoou hora; e,
conseqüentemente, em vários dialetos africanos, como os nomes do Sol:
Airo, Ayero, eer, uiro, ghurrah e similares. O nome real prestado ao Faraó
era PHRA, isto é, Pai-ra, o Sol.

A lenda da disputa entre Hor-ra e Set, ou Set-nu-bi, o mesmo que Bar, ou


Baal, é mais antiga do que a do conflito entre Osíris e Tífon; tão antiga, pelo
menos, quanto a décima nona dinastia. É chamado, no Livro dos Mortos, de
“O dia da batalha entre Hórus e Set”. O segundo mito se associa à Fenícia e
à Síria. O corpo de OSÍRIS chegou à praia em Gebal ou Biblos, por volta de
cem quilômetros acima de Tsūr. Você não deixará de notar que no nome de
cada um dos assassinos de Khūrūm encontramos o do Deus do Mal, Baal.

Har-oeri era o deus do TEMPO, e também o da Vida. A lenda egípcia conta


que o Rei de Biblos derrubou a tamareira que continha o corpo de OSÍRIS e
fez dela uma coluna para seu palácio. Ísis, empregada do palácio, obteve a
posse da coluna, retirou o corpo de dentro dela e o levou consigo. Apuleio a
descreve como “uma bonita mulher, sobre cujo pescoço divino seu cabelo
longo e espesso pendia em graciosos anéis”; e, na procissão, as mulheres
presentes, com pentes de marfim, pareciam pentear e ornamentar o cabelo
real da deusa. A palmeira, e a lâmpada na forma de um barco, apareciam na
procissão. Se o símbolo do qual estamos falando não for uma mera invenção
moderna, é para tais coisas que alude.
A identidade das lendas também é confirmada por esta pintura hieroglífica,
copiada de um antigo monumento egípcio, que pode, além disso, lhe
esclarecer quanto ao aperto da pata do Leão e ao malhete do Mestre.

‫בא‬, no antigo caractere Fenício, , e no Samaritano, , A B (as


duas letras que representam os números 1 e 2, ou Unidade e Dualidade),
significa Pai, e é um substantivo primitivo, comum a todas as línguas
semitas.

Também significa Ancestral, Originador, Inventor, Cabeça, Chefe ou


Governante, Gerente, Supervisor, Mestre, Sacerdote, Profeta.

‫ יבא‬é simplesmente Pai, quando está em construção, isto é, quando precede


outra palavra e, em português, a preposição “de” está interposta, como ‫אבי‬
‫אל‬, Abi-Al, o Pai de Al.

Além disso, o Yōd final significa “meu”; de modo que ‫ יבא‬por si só significa
“Meu pai”. ‫יבא דיוד‬, Davi meu pai, 2 Crôn. 2:3.

‫( ו‬Vav) final é o pronome possessivo “seu”; e ‫ויבא‬, Abiu(que lemos “Abif”)


significa “de meu pai”. Seu significado pleno, enquanto ligado ao nome de
Khūrūm, sem dúvida, é “antigamente um dos serviçais de meu pai”, ou
“escravos”.

O nome do artífice fenício é, em Samuel e em Reis, 2] – ‫ םריח‬Sam. 8:11; 1


Reis 5:15; 1 Reis 7:40]. Em Crônicas é ‫םרוה‬, com a adição de 2] ,‫ יבא‬Crôn.
2:12]; e de 2] ‫ ויבא‬Crôn. 4:16].

É simplesmente absurdo adicionar a palavra “Abif”, ou “Abiff”, como parte


do nome do artífice. E é quase tão absurdo adicionar a palavra “Abi”, que era
um título e não parte do nome. José diz [Gen. 45:8]: “Deus me constituiu ’Ab
l’Paraah, como Pai para Faraó, i.e., Vizir ou Primeiro Ministro.” Portanto
Hamã foi chamado de Segundo Pai de Artaxerxes; e, quando o Rei Khūrūm
usou a frase “Khūrūm Abi”, quis dizer que o artífice que mandou a Shlomoh
era o artífice principal, ou chefe, em sua linhagem em Tsūr.
Uma medalha copiada por Montfaucon exibe uma mulher amamentando uma
criança, com espigas de trigo em sua mão, e a legenda (Iao). Ela está sentada
em nuvens, com uma estrela em sua cabeça, e três espigas de trigo saindo de
um altar à sua frente.

HÓRUS era o mediador, que foi enterrado por três dias, foi regenerado, e
triunfou sobre o princípio do mal.

A palavra HERI, em sânscrito, significa Pastor, bem como Salvador.


KRISHNA é chamado de Heri, assim como JESUS se autodenominou o
Bom Pastor.

‫רוח‬, Khūr, significa uma abertura de uma janela, de uma cavernaou de um


olho. Também significa branco. Em siríaco,

‫ רח‬também significa uma abertura, e também nobre, nascido-livre, nascido-


alto.

‫םרח‬, KHURM, significa consagrado, devotado; em etiópico, .É o


nome de uma cidade [Jos. 19:38] e de um homem [Ez. 2:32, 10:31; Ne. 3:11].

‫הריח‬, Khirah, significa nobreza, uma raçanobre.

Declara-se que Buda compreende em sua própria pessoa a essência do


Trimurti Hindu; e daí se aplica o monossílabo triliteral Om ou Aum como
sendo essencialmente o mesmo que Brahma-Vishnu-Shiva. Ele é o mesmo
que Hermes, Tot, Taut e Teutates. Um de seus nomes é Heri-maya ou
Hermaya, que é, evidentemente, o mesmo nome de Hermes e Khirm ou
Khūrm. Heri, em sânscrito, significa Senhor.

Um Irmão instruído coloca sobre os dois pilares simbólicos, da direita para a


esquerda, as duas palavras, e , ‫ והי‬e ‫ באל‬, IHU e BAL:

seguido pelo equivalente hieroglífico, do Deus-Sol, Amun-ra. Será


uma coincidência acidental que no nome de cada um dos assassinos estejam
os dois nomes das Divindades hebraicas, do Bem e do Mal; pois Yu-bel nada
mais é do que Yehu-Bal ou Yeho-Baal? E que as três sílabas finais dos
nomes, a, o, um, fazem A∴U∴M∴, a palavra sagrada dos hindus,
significando Deus-Triuno, Doador, Preservador e Destruidor da vida:
representado pela letra mística ?

A genuína Acácia é também a espinhosa tamariz, a mesma árvore que


cresceu em torno do corpo de Osíris. Era uma planta sagrada entre os Árabes,
que dela fizeram o ídolo Al-Uzza, que Maomé destruiu. É um arbusto
abundante no Deserto do Thar: e dela foi composta a “coroa de espinhos”
que foi colocada na fronte de Jesus de Nazaré. É um modelo adequado de
imortalidade por conta de sua tenacidade de vida; pois se sabia que, quando
plantada como ombreira das portas, criava raízes novamente e estirava ramos
floridos sobre a soleira.

Toda comunidade deve ter seus períodos de processo e transição,


especialmente se ela se engaja na guerra. É certo, em algum momento, que
será totalmente governada por agitadores que apelam para todos os elementos
mais baixos da natureza popular; por corporações ricas; por aqueles
enriquecidos com a desvalorização dos títulos de dívida pública ou dos papéis
do governo; por baixos advogados, urdidores, agiotas, especuladores e
aventureiros – uma oligarquia ignóbil, enriquecida pelas angústias do Estado
e engordada nas misérias do povo. E então todas as visões enganosas de
igualdade e de direitos humanos fenecem; e o Estado injustiçado e saqueado
só pode recuperar uma liberdade real passando por “grandes variedades de
existências não experimentadas”, purificado em sua transmigração pelo fogo
e pelo sangue.

Numa República, logo ocorre que partidos se reúnam em torno dos pólos
negativo e positivo de alguma opinião ou noção, e que o espírito intolerante
de uma maioria triunfante não permita nenhum desvio do padrão de ortodoxia
que estabeleceu para si mesma. A liberdade de opinião será professada e
simulada, mas todos a exercerão sob risco de serem banidos da comunhão
política com os que mantêm as rédeas e prescrevem a política a ser seguida.
Servilismo ao partido e obsequiosidade aos caprichos populares andam de
mãos dadas. A independência política só ocorre em estado fóssil; e as
opiniões das pessoas não crescem além dos atos a que foram constrangidas a
executar ou sancionar. A bajulação, seja de indivíduos, seja de povos,
corrompe ambos os emissores e receptores; e a adulação não tem maior
utilidade para o povo do que para os reis. Um César, firmemente assentado
no poder, se importa menos com ela do que uma democracia livre; nem seu
apetite por ela crescerá à exorbitância, como crescerá o de um povo até se
tornar insaciável. O efeito da liberdade para os indivíduos é que eles possam
fazer o que aprouverem; para o povo é, em grande medida, a mesma coisa. Se
acessíveis à adulação, como esta é sempre interesseira e refugiada em
motivos baixos e vis, com propósitos maldosos, é certo que, tanto o indivíduo
quanto o povo, ao fazer o que quiserem, farão o que pela honra e consciência
não teriam feito. Não se deve sequer arriscar congratulações, que logo podem
se tornar reclamações; e como tanto os indivíduos como o povo são
propensos a fazer mau uso do poder, bajulá-los, que é uma maneira segura de
desviá-los, bem merece ser chamado de crime.

O primeiro princípio em uma República deve ser “que nenhuma pessoa ou


grupo tenha direito a emolumentos ou privilégios exclusivos ou separados da
comunidade, mas por consideração a serviços públicos; como estes não são
hereditários, tampouco devem ser os cargos de magistratura, de assembleia,
ou de juiz”. É um tomo de Verdade e de Sabedoria, uma lição para o estudo
das nações, incorporados numa única sentença e expressos numa linguagem
que todos podem entender. Se um dilúvio de despotismo derribar o mundo e
destruir todas as instituições sob as quais a liberdade está protegida, de modo
que não sejam mais lembradas entre as pessoas, esta sentença, preservada, já
seria suficiente para reacender os fogos da liberdade e reviver a raça dos
homens livres.

Mas, para preservar a liberdade, outra deve ser acrescentada: “que um


Estado livre não confira cargos como prêmio, especialmente por serviços
questionáveis, a não ser que busque sua própria ruína; mas que todos os
servidores sejam empregados por ele, em consideração somente à sua
vontade e habilidade de prestar serviços no futuro; e, portanto, apenas os
melhores e mais competentes serão sempre os preferidos”.

Porque, se deve haver qualquer outra regra, a da sucessão hereditária talvez


seja tão boa quanto ela. Por nenhuma outra regra é possível preservar as
liberdades do Estado. Por nenhuma outra regra é possível confiar o poder de
fazer as leis apenas àqueles que possuem o agudo sentido instintivo de
injustiça e de errado, que os possibilita detectar a baixeza e a corrupção nos
seus esconderijos mais secretos, e cuja coragem moral, humanismo generoso
e independência galante os fazem destemidos para arrastar os perpetradores à
luz do dia, e chamar sobre eles o escárnio e a indignação do mundo. Os
bajuladores dos povos nunca são tais pessoas. Pelo contrário, para uma
República sempre chega um tempo, quando não está satisfeita, como Tibério,
com um único Sejano, e precisará ter uma hoste deles; e quando os mais
proeminentes na liderança dos assuntos de governo são pessoas sem
reputação, estadismo, habilidade ou informação, meros picaretas de partido,
devendo suas posições a trapaças e falta de qualificação, sem nenhuma das
qualidades, no coração ou na mente, que façam deles homens grandes e
sábios, e são ao mesmo tempo cheios de todas as concepções limitadas e
intolerância amarga do fanatismo político. Estes morrem; e o mundo não é
mais sábio pelo que disseram e fizeram. Seus nomes mergulham no poço sem
fundo do esquecimento; mas seus atos de insensatez ou desonestidade
amaldiçoam o corpo político e, ao final, provam sua ruína.

Os políticos, em um Estado livre, são geralmente ocos, sem coração e


egoístas. Seu próprio engrandecimento é a finalidade de seu patriotismo; e
eles sempre observam com satisfação secreta o desapontamento ou queda de
alguém cujo gênio eminente e talentos superiores fazem sombra à sua
autoimportância, ou cuja integridade e honra incorruptível estão no caminho
de seus propósitos egoístas. A influência dos baixos aspirantes está sempre
contra o grande homem. Sua acessão ao poder pode dar-se por quase uma
vida inteira. Um deles será mais facilmente deslocado, mas cada outro
aspirará sucedê-lo; e assim, ao longo do tempo, ocorre que pessoas
incapacitadas até para o mais baixo secretariado aspiram impudentemente e,
de fato, conseguem os postos mais altos; e a incapacidade e mediocridade se
tornam os passaportes mais seguros para os cargos.

A consequência é que aqueles que se sentem competentes e qualificados para


servir ao povo, se recusam com desgosto a entrar na briga por um cargo, onde
a doutrina perniciosa e jesuítica de que tudo é válido na política é desculpa
para toda espécie de baixa vilania; e que aqueles que buscam mesmo os
postos mais altos do Estado não contam com o poder de um espírito
magnânimo, nos impulsos compassivos de uma grande alma, para bulir e
mover o povo para resoluções generosas, nobres e heroicas, e para a ação
sábia e humana; mas, tal como cães de caça eretos sobre as patas traseiras,
com as dianteiras obsequiosamente suplicantes, adulam, bajulam e realmente
mendigam votos. E ao invés de descerem a tanto, permanecem
orgulhosamente afastados, se recusando desdenhosamente a cortejar o povo,
e agindo com a máxima de que “as pessoas não têm o direito de exigir que as
sirvamos em despeito delas mesmas”.

É lamentável ver um país dividido em facções, cada uma seguindo este ou


aquele líder grandioso ou descarado com a adoração cega, irracional e
indiscutida como a um heroi; é desprezível vê-lo dividido em partidos, cujo
único fim são os despojos da vitória, e os baixos, pequenos e venais como
seus líderes. Tal país está nos últimos estágios da decadência e o fim está
próximo, não importa quão próspero possa aparentar ser. Ele luta sobre o
vulcão e o terremoto. Mas é certo que nenhum governo pode ser conduzido
pelos homens do povo, e pelo povo, sem uma rígida aderência àqueles
princípios que nossa razão elogia como firmes e sólidos. Estes devem ser os
testes dos partidos, das pessoas e das medidas. Uma vez determinados,
devem ser inexoráveis em sua aplicação, e todos devem ou se aproximar ao
padrão ou se declarar contrários. Homens podem trair: princípios, jamais. A
opressão é uma consequência invariável da confiança mal colocada em gente
traiçoeira, e nunca é resultado da elaboração o ou aplicação de um princípio
sólido, justo e experimentado. Compromissos que põem em dúvida os
princípios fundamentais, a fim de unir em um único partido pessoas de credos
antagônicos, são fraudes e terminam na ruína – a consequência justa e natural
da fraude. Sempre que você tiver baseado sua teoria e credo, não permita
nenhum desvio deles na prática, nem qualquer terreno de conveniência. É a
palavra do Mestre. Não se renda nem à lisonja nem à força! Que nenhuma
derrota ou perseguição o roubem dela! Acredite que aquele que um dia errou
gravemente no governo de estado, errará gravemente de novo; que tais erros
graves são tão fatais quanto crimes; e que a miopia política não melhora com
a idade. Sempre há mais impostores do que visionários entre os homens
públicos, mais falsos profetas do que verdadeiros, mais profetas de Baal do
que de Jeová; e Jerusalém está sempre sob o perigo dos Assírios.
Salústio disse que depois de um Estado ter sido corrompido pela luxúria e
indolência, ele pode, por sua mera grandeza, ainda resistir sob o peso de seus
vícios. Mas ainda enquanto escrevia, Roma, de quem falava, jogou fora seu
disfarce de liberdade. Outras causas, além de luxúria e preguiça, destroem
Repúblicas. Se pequenas, seus vizinhos maiores podem extingui-las por
absorção. Se de grande extensão, a força coesiva é muito fraca para mantê-las
unidas, e se despedaçam por seu próprio peso. A ambição sem valor de
homens baixos as desintegra. A falta de sabedoria em seus conselhos cria
discussões exasperadas. A usurpação de poder faz sua parte, a incapacidade
secunda a corrupção, a tempestade se levanta, e os fragmentos da jangada
incoerente se espalham pelas praias arenosas, lendo para a humanidade outra
lição a ser desconsiderada.

A Quadragésima Sétima Proposição é mais antiga do que Pitágoras. É assim:


“Em todo triângulo retângulo, a soma dos quadrados da base e da
perpendicular é igual ao quadrado da hipotenusa”.

O quadrado de um número é o produto desse número, multiplicado por ele


mesmo. Assim, 4 é o quadrado de 2, e 9 o de 3.

Os dez primeiros números são: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10; seus quadrados são


1, 4, 9, 16, 25, 36, 49, 64, 81, 100; e 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19 são as
diferenças entre cada quadrado e o que o precede, nos dando os números
sagrados 3, 5, 7 e 9.

Desses números, o quadrado de 3 e 4, somados, dá o quadrado de 5; e os de 6


e de 8 o quadrado de 10; se formarmos um triângulo retângulo, a base
medindo 3 ou 6 partes e a perpendicular 4 ou 8 partes, a hipotenusa terá 5 ou
10 partes; e se erigirmos um quadrado sobre cada lado do triângulo e
dividirmos esses quadrados em quadrados cujo lado tiver uma parte de
comprimento, haverá tantos deles no quadrado construído sobre a hipotenusa
quanto nos outros dois quadrados juntos.

Ora, os egípcios organizaram suas divindades em Tríades – o PAI ou o


Espírito ou Princípio Ativo ou Poder Gerador; a MÃE, ou Matéria, ou
Princípio Passivo, ou o Poder Conceptivo; e o FILHO, Resultado ou
Produto, o Universo, procedente dos dois princípios. Estes eram OSÍRIS,
ÍSIS e HÓRUS. Da mesma forma, PLATÃO nos dá o Pensamento, o Pai; a
Matéria Primitiva, a Mãe; e o Cosmos, o Mundo, o Filho, o Universo
animado por uma alma. Tríades da mesma espécie são encontradas na
Cabala.

PLUTARCO diz, em seu livro De Iside et Osiride: “Mas a natureza melhor


e mais divina consiste de três: a que existe apenas no interior do Intelecto, a
Matéria, e a que procede destes, que os gregos chamam Kosmos; a esses três
Platão costuma chamar de Inteligível, a ‘Ideia, Exemplar e Pai’; Matéria, ‘a
Mãe, a Enfermeira e o lugar e receptáculo da geração’; e o resultado desses
dois, ‘a Descendência e Gênese’”, o Kosmos, “uma palavra significando
igualmente Beleza e Ordem, ou o Universo em si.” Você não deixará de
notar que a Beleza é simbolizada pelo Segundo Vigilante, no Sul. Plutarco
continua dizendo que os egípcios comparavam a natureza universal ao que
chamavam de o mais belo e perfeito triângulo, como o faz Platão, naquele
diagrama nupcial, como é chamado, que apresentou à sua Comunidade.
Portanto ele acrescenta que este é um triângulo retângulo, e seus lados são
respectivamente são 3, 4 e 5; e diz: “Devemos supor que a perpendicular é
desenhada por eles para representar a natureza masculina, a base a
feminina, e que a hipotenusa deve ser vista como a descendência de ambos;
e, consequentemente, o primeiro deles representará adequadamente OSÍRIS,
ou a causa primária; o segundo, ÍSIS, ou a capacidade receptiva; o último,
HÓRUS, ou o efeito comum dos outros dois. Pois 3 é o primeiro número
composto de par e ímpar; e 4 é um quadrado cujo lado é igual ao número
par 2; mas 5, sendo gerado, supostamente, dos números precedentes 2 e 3,
pode-se dizer que tem relação igual com ambos, como seus pais em comum”.

As mãos enganchadas são outro símbolo usado por PITÁGORAS.


Representavam o número 10, o número sagrado no qual todos os números
precedentes estavam contidos; o número expresso pela misteriosa
TETRACTYS, um figura apropriada igualmente por ele e pelos sacerdotes
Hebreus da ciência sagrada egípcia, e que deve ser recolocada entre os
símbolos do Grau de Mestre, no lugar que pertence por direito. Os Hebreus
formavam-na assim, com as letras do nome Divino:

A Tetractys assim leva você não somente ao estudo da filosofia Pitagórica


quanto aos números, mas também à Cabala, e o ajudará na descoberta do
Mundo Verdadeiro, e no entendimento do que era chamado de “A Música
das Esferas”. A ciência Moderna confirma visivelmente as ideias de
Pitágoras no que diz respeito às propriedades dos números, e que eles
governam o Universo. Muito antes de seu tempo, a natureza havia extraído
suas raízes cúbicas e seus quadrados.
Todas as FORÇASà disposição do homem, ou sob seu controle, ou sujeitas à
sua influência, são suas ferramentas de trabalho. A amizade e simpatia que
atam coração com coração são uma força como a da atração ou coesão, pela
qual as partículas arenosas se tornam a rocha sólida. Se essa lei da atração ou
coesão fosse retirada, os mundos e sóis materiais dissolver-se-iam num
instante em fino vapor invisível. Se os laços de amizade, afeição e amor
fossem anulados, a humanidade tornar-se-ia uma multidão furiosa de animais
de rapina selvagens. A areia endurece e se torna rocha sob a imensa pressão
superincumbente do oceano, às vezes ajudada pela energia irresistível do
fogo; e, quando a pressão da calamidade e do perigo está sobre uma ordem ou
um país, os membros ou cidadãos devem ser mais estreitamente unidos pela
coesão da simpatia e da interdependência.

A Moralidade é uma força. É a atração magnética do coração em direção à


Verdade e à Virtude. A agulha da bússola, imbuída com sua propriedade
mística, apontando infalivelmente para o norte, transporta o marinheiro com
segurança por sobre o oceano sem rastros, através da tempestade e da
escuridão, até que seus olhos satisfeitos contemplem as os bondosos faróis
que lhe dão as boas-vindas a um porto seguro e hospitaleiro. E então os
corações daqueles que o amam são contentados e seu lar se torna feliz; e este
contentamento e alegria serão devidos à sua supervisora silenciosa, sem
destaque, inerrante, que foi a guia do marinheiro sobre as águas agitadas.
Porém, se a corrente o levar muito para o ártico, não mais julgará a agulha
como precisa, e apontando para outro lugar que não o norte, que sensação de
desamparo cairá sobre o marinheiro apavorado, que perda de energia e de
coragem! É como se os grandes axiomas da moralidade viessem a falhar e
não fossem mais verdadeiros, deixando a alma humana navegando à deriva,
cega como Prometeu, à mercê das correntes incertas e traiçoeiras das
profundezas.

Honra e Dever são as estrelas polares de um Maçom, os Dióscuros, pelos


quais, nunca perdidos de vista, ele poderá evitar um naufrágio desastroso.
Estes Palinuro observou, até que, vencido pelo sono, e o barco não sendo
mais verdadeiramente guiado, tombou e foi engolido pelo mar insaciável.
Dessa forma, o Maçom que os perde de vista, e não é mais governado por
suas forças potenciais e beneficentes, estará perdido, e afundando longe da
vista, desaparecerá sem honras e sem pranto.
A força da eletricidade, análoga à da afinidade, e por meio da qual os grandes
pensamentos ou as baixas sugestões, as manifestações de naturezas nobres ou
ignóbeis, brilham instantaneamente sobre os nervos das nações; a força do
crescimento, modelo adequado da imortalidade, repousa dormente por três
mil anos nos grãos de trigo enterrados com suas múmias pelos velhos
Egípcios; as forças de expansão e contração, desenvolvidas no terremoto e no
tornado, dando à luz as maravilhosas conquistas do vapor, têm seus
paralelismos no mundo moral, nos indivíduos, e nas nações. O crescimento é
uma necessidade para as nações como para as pessoas. Sua cessação é o
princípio da decadência. Na nação, bem como na planta, é misterioso, e
irresistível. Os terremotos que despedaçam nações, derrubam tronos e
engolfam monarquias e repúblicas, foram há muito preparados, como a
erupção vulcânica. Revoluções possuem longas raízes no passado. A força
exercida está na proporção direta da contenção e repressão anteriores. Os
verdadeiros estadistas devem ver no progresso as causas que, no devido
tempo, o produzem; e aquele que não o faz não é senão um líder cego dos
cegos.

As grandes mudanças nas nações, como as mudanças geológicas da terra, são


forjadas lenta e continuamente. As águas, caindo do Céu como chuva e
orvalho, desintegram lentamente as montanhas de granito; arranham as
planícies, deixando encostas e sulcos de erosão como seus monumentos;
cavoucam os vales, enchem os mares, limitam os rios, e após o lapso de
milhares e milhares de séculos silenciosos, preparam a grande aluvião para o
crescimento daquela planta, o envelope nevado cujas sementes empregarão
os teares do mundo, e a abundância ou penúria de cujas colheitas
determinarão se os tecelões e fiandeiras de outros reinos terão trabalho ou
passarão fome.

Assim, a Opinião Pública é uma força imensa; e suas correntes são tão
inconstantes e incompreensíveis como as da atmosfera. No entanto, em
governos livres, ela é onipotente; e a tarefa do estadista é encontrar os meios
de moldá-la, controlá-la e dirigi-la. Dependendo de como é feito, ela será
benéfica e conservadora, ou destrutiva e ruinosa. A Opinião Pública do
mundo civilizado é a Lei Internacional; e é uma força tão grande, apesar de
não ter fronteiras certas nem fixas, que pode até obrigar o déspota vitorioso a
ser generoso, ou ajudar um povo oprimido em sua luta pela independência.

O Hábito é uma grande força; é a segunda natureza, mesmo nas árvores. É


tão forte nas nações quanto nas pessoas. Mas também o são os Preconceitos,
que são dados às pessoas e às nações assim como as paixões; – como forças,
valiosas, se usadas correta e habilmente; destrutivas, se manuseadas sem
habilidade.

Acima de tudo, o Amor à Pátria, o Orgulho Estatal, o Amor ao Lar, são


forças de poder imenso. Encoraje todos eles. Insista neles para seus homens
públicos. A permanência do lar é necessária ao patriotismo. Uma raça
migratória terá pouco amor à pátria. O orgulho estatal é uma mera teoria e
quimera quando as pessoas se mudam de Estado para Estado com
indiferença, como os Árabes, que hoje acampam aqui e amanhã acolá.

Se você tem Eloquência, esta é uma força poderosa. Preocupe-se em usá-la


com bons propósitos – para ensinar, exortar, enobrecer o povo, e não para
enganá-lo ou corrompê-lo. Oradores corruptos e venais são os assassinos das
liberdades públicas e da moral pública.

A Vontade é uma força; seus limites são ainda desconhecidos. É


principalmente no poder da vontade que vemos o espiritual e o divino no
homem. Existe uma aparente identidade entre a sua vontade que move outras
pessoas, e a Vontade Criativa cuja ação parece tão incompreensível. São as
pessoas de vontade e de ação, não as pessoas de puro intelecto, que
governam o mundo.

Finalmente, as três maiores forças morais são a FÉ, que é a única


SABEDORIA verdadeira, e o próprio alicerce de todo o governo;
ESPERANÇA, que é FORÇA, e garante o sucesso; e CARIDADE, que é
BELEZA e que, sozinha, torna animado o possível esforço unido. Estas
forças estão ao alcance de todas as pessoas; e uma associação de homens,
movida por elas, deveria exercer um imenso poder no mundo. Se a
Maçonaria não o faz, é porque deixou de possuí-las.

A Sabedoria, no homem ou estadista, no rei ou sacerdote, consiste


grandemente na devida apreciação dessas forças; e a condenação de nações
frequentemente depende da não-apreciação geral de algumas delas. Quantas
hecatombes recaem frequentemente sobre a não consideração ou a
consideração insuficiente da força de uma ideia, tal como, por exemplo, a
reverência por uma bandeira, ou ao apego cego a uma forma ou constituição
de governo!

Quantos erros são cometidos na economia política e no estadismo em


consequência da superestimação ou subestimação de valores particulares, ou
pela não estimação de alguns deles! Tudo, afirma-se, é produto do trabalho
humano; mas o ouro ou o diamante que alguém encontra acidentalmente sem
trabalho não é. Qual é o valor do trabalho prestado pelo lavrador em suas
colheitas, comparado ao valor da luz do sol e da chuva, sem os quais seu
trabalho não valeria nada? O comércio praticado pelo trabalho das pessoas
aumenta o valor dos produtos do campo, da mina, ou da oficina, por seus
transportes para mercados diferentes; porém quanto deste acréscimo se deve
aos rios pelos quais esses produtos flutuam, e aos ventos que impulsionam as
quilhas do comércio por sobre do oceano!

Quem pode estimar o valor da moralidade e do humanismo em um Estado, da


moral digna e do conhecimento intelectual? Estes são a luz solar e a chuva do
Estado. Os ventos, com suas correntes mutantes, instáveis e flutuantes são
emblemas adequados dos humores variáveis da população, suas paixões, seus
impulsos heroicos, seus entusiasmos. Ai do estadista que não os estima como
valores!

Até a música e as canções possuem às vezes um valor incalculável. Toda


nação tem alguma canção de valor comprovado, mais facilmente
contabilizado em vidas que em dólares. A Marselhesa teve um valor para a
França revolucionária, quem dirá quantos milhares de vidas?

A Paz também é um grande elemento de prosperidade e de riqueza; um valor


que não se calcula. As relações sociais e a associação de pessoas em Ordens
beneficentes possuem um valor inestimável em moeda. Os exemplos ilustres
do Passado de uma nação, as memórias e pensamentos imortais de seus
grandes e sábios pensadores, estadistas, e herois, são o legado incalculável
desse Passado para o Presente e o Futuro. E todos estes possuem não só
valores da espécie mais elevada, excelente e inapreciável, mas também um
valor pecuniário real, uma vez que somente quando se coopera com estes, e
se é auxiliado ou capacitado pelos mesmos, é que o trabalho humano gera
riqueza. Estão entre os elementos principais da riqueza material, assim como
o são do humanismo, heroísmo, glória, prosperidade e reputação imortal da
nação.

A Providência apontou as três grandes disciplinas da Guerra, da Monarquia


>e do Sacerdócio, tudo o que o ACAMPAMENTO, o PALÁCIOe o
TEMPLOpodem simbolizar, para treinar as multidões em direção às
combinações inteligentes e premeditadas a todos os grandes propósitos da
sociedade. Com o tempo, quando a virtude e a inteligência se tornarem
qualidades das multidões, o resultado será governos livres entre as pessoas;
mas, por ignorância, tais governos são impossíveis. A humanidade avança
somente por graus. A remoção de uma calamidade premente dá coragem de
tentar a remoção dos males restantes, fazendo as pessoas mais sensíveis a
eles, ou talvez sensíveis pela primeira vez. Escravos que se contorcem sob o
chicote não se preocupam com seus direitos políticos; só depois de
manumitidos da escravidão pessoal eles tornam sensíveis à opressão política.
Libertos do poder arbitrário, e governados apenas pela lei, começam a
escrutinar a própria lei, e desejam ser governados, não somente pela lei, mas
pelo que consideram ser a melhorlei. E quando o despotismo civil ou
temporal tiver sido anulado, e a lei municipal tiver sido moldada pelos
princípios de uma jurisprudência esclarecida, poderão acordar para a
descoberta de que estão vivendo sob um despotismo sacerdotal ou
eclesiástico, e se tornarão desejosos de operar uma reforma aí também.

É bem verdade que o avanço da humanidade é lento, e que muitas vezes


pausa e retrocede. Nos reinados da terra não vemos despotismos se retirando
e cedendo o terreno a comunidades autogovernadas. Não vemos as igrejas e
sacerdócios da Cristandade renunciando à sua velha tarefa de governar as
pessoas por terrores imaginários. Em lugar nenhum enxergamos uma
populaça que poderia ser seguramente alforriada de tal governo. Não vemos
os grandes professores religiosos almejando descobrir a verdade para si e
para outrem; mas ainda dominando o mundo, satisfeitos e compelidos a
dominar o mundo, por qualquer dogma já acreditado; eles mesmos tão
amarrados a esta necessidade de governar quanto o povo à sua necessidade de
ser governado. A pobreza, em suas formas mais horrendas, ainda existe nas
grandes cidades; e o câncer do pauperismo tem suas raízes nos corações dos
reinos. Ali, os homens não medem suas necessidades e seu próprio poder de
supri-las, mas vivem e se multiplicam como as bestas do campo, – a
Providência tendo aparentemente deixado de lhes tomar conta. A inteligência
nunca os visita, ou então faz sua aparição como algum novo desenvolvimento
da vilania. A guerra não cessou; ainda existem batalhas e cercos. Lares ainda
estão infelizes; e lágrimas, raiva e despeito transformam em infernos o que
deveriam ser céus. Maior é a necessidade da Maçonaria! Mais amplo o
campo de seus trabalhos! Maior a necessidade de ela começar a ser
verdadeira consigo mesma, de reviver de sua asfixia, de se arrepender de sua
apostasia ao seu verdadeiro credo!

Indubitavelmente, trabalho, morte e paixão sexual são condições essenciais e


permanentes da existência humana, e fazem a perfeição e um milênio na terra
serem impossíveis. Sempre, – é o decreto do Destino! – a vasta maioria das
pessoas trabalhará arduamente para viver, e não conseguirá encontrar tempo
para cultivar a inteligência. O homem, sabendo que vai morrer, não
sacrificará o prazer do presente por um maior no futuro. O amor à mulher não
pode desaparecer; e ele possui um destino terrível e incontrolável, aumentado
pelos refinamentos da civilização. A mulher é a verdadeira sereia ou deusa
dos jovens. Mas a sociedade pode ser aprimorada; é possível governo livre
para os Estados; e liberdade de pensamento e consciência não é mais
totalmente utópica. Já vemos que Imperadores preferem ser eleitos por
sufrágio universal; que Estados são conduzidos a Impérios pelo voto; e que
Estados são administrados com algo do espírito de uma República, sendo
pouco mais do que democracias com uma única cabeça, governando através
de uma única pessoa, um representante, ao invés de uma assembleia de
representantes. E, se os Cleros ainda governam, agora vêm perante os laicos
para provar, pelo esforço da argumentação, que eles devem governar. São
obrigados a evocar a exata razão que estão empenhados em suplantar.

Em consequência, os homens se tornam cada dia mais livres, porque a


liberdade do homem reside em sua razão. Ele pode refletir sobre sua própria
conduta futura, e evocar suas consequências; pode ter visões mais amplas da
vida humana, e estabelecer regras para uma orientação constante. Assim ele é
liberto das tiranias do sentido e da paixão, e capaz a qualquer tempo de viver
conforme a inteira luz do conhecimento que está dentro de si, ao invés de ser
dirigido, como uma folha seca nas asas do vento, por cada impulso atual.
Nisto reside a liberdade do homem como vista em conexão com a
necessidade imposta pela onipotência e presciência de Deus. Quanto mais
luz, mais liberdade. Quando o imperador e a igreja apelam para a razão há
naturalmente sufrágio universal.

Portanto, ninguém precisa perder a coragem, nem acreditar que o trabalho na


causa do Progresso será trabalho desperdiçado. Na natureza não existe
desperdício, seja de Matéria, Força, Ação, ou Pensamento. Um Pensamento é
tanto a finalidade da vida quanto uma Ação; e um único Pensamento, às
vezes, consegue resultados maiores do que uma Revolução, ou mesmo as
próprias Revoluções. Mas não deve haver separação entre Pensamento e
Ação. O verdadeiro Pensamento é aquele em que a vida culmina. Mas todo
Pensamento sábio e verdadeiro produz Ação. É generativo, como a luz; e a
luz e a sombra profunda da nuvem passageira são dádivas dos profetas da
raça. O Conhecimento, adquirido laboriosamente, e induzindo hábitos de
Pensamento sólido, – o caráter reflexivo, – necessariamente será raro. A
multidão de trabalhadores não pode adquiri-lo. A maioria das pessoas atinge
um nível muito baixo dele. É incompatível com as distrações comuns e
indispensáveis da vida. Um mundo inteiro de erros, bem como de trabalho,
irá gerar um único homem reflexivo. Na nação mais evoluída da Europa há
mais ignorantes do que sábios, mais pobres do que ricos, mais trabalhadores
automáticos, simples criaturas do hábito, do que pessoas racionais e
reflexivas. A proporção é de, pelo menos, mil para um. A unanimidade de
opinião é obtida assim. Ela só existe entre a multidão que não pensa, e no
clero político ou espiritual que pensa por tal multidão, que pensa em como
dirigi-la e governá-la. Quando as pessoas começam a refletir, começam a
diferir. O grande problema é encontrar guias que não buscarão ser tiranos.
Isto é necessário até mais no que diz respeito ao coração do que à cabeça.
Hoje, toda pessoa ganha sua quota especial da produção do trabalho humano
por uma disputa incessante, por trapaça e fraude. O conhecimento útil,
adquirido honrosamente, é muitas vezes banal segundo um costume não
honesto ou razoável, de modo que os estudos da juventude são muito mais
nobres do que as práticas dos adultos. O labor do fazendeiro em seus campos,
as recompensas generosas da terra, os céus benignos e generosos, tendem a
fazê-lo cuidadoso, previdente e agradecido; a educação recebida na feira-livre
o torna rabugento, astuto, invejoso e um somítico intolerável.
A Maçonaria busca ser esse guia beneficente, sem ambição, desinteressado; e
é condição absoluta de todas as grandes estruturas que o som do martelo e o
tinido da trolha sejam sempre ouvidos em alguma parte do edifício. Com fé
no homem, esperança no futuro da humanidade e bondade amorosa por
nossos companheiros, a Maçonaria e o Maçom devem sempre trabalhar e
ensinar. Que cada um faça aquilo para o qual é mais bem preparado. O
professor é também um trabalhador. Tão louvável quanto o navegador ativo,
– que vai e vem e faz uma região partilhar dos tesouros de outra, e uma
pessoa participar dos tesouros de todas, – aquele que mantém o farol sobre a
colina também está em seu posto.

A Maçonaria já ajudou a derrubar alguns ídolos de seus pedestais e pulverizar


à poeira impalpável alguns dos elos das cadeias que mantinham as almas
humanas em cativeiro. De que houve progresso não é necessária outra
demonstração, senão a de que você pode hoje arrazoar com as pessoas, e
exortar-lhes, sem o perigo da cremalheira ou fogueira, e que nenhuma
doutrina pode ser apreendida como verdade se contradisser outra, ou
contradisser outras verdades nos dadas por Deus. Muito antes da Reforma,
um monge, que havia encontrado seu caminho para a heresia sem a ajuda de
Martinho Lutero, não se aventurando a sussurrar em voz alta em qualquer
ouvido vivo suas doutrinas antipapais e traidoras, escreveu-as em
pergaminho, e selando o perigoso registro, escondeu-o nas paredes maciças
de seu monastério. Não existia amigo ou irmão a quem pudesse confiar seu
segredo ou derramar sua alma. Foi algum consolo imaginar que numa época
futura alguém pudesse achar o pergaminho, e a semente ser descoberta, para
que não tivesse sido semeada em vão. O que ocorreria se verdade tivesse que
repousar dormente por tanto tempo antes da germinação quanto o trigo da
múmia egípcia? Fale-a, apesar disso, repetidamente, e deixe-a ter sua
oportunidade!

A rosa de Jericó cresce nos desertos arenosos da Arábia e nos telhados das
casas na Síria. Com apenas 15 cm de altura, perde suas folhas após a
floração, e seca na forma de uma bola. Então é desraigada pelos ventos e
carregada, soprada, ou lançada através do deserto, até o mar. Lá, sentindo o
contato com a água, se desdobra, expande seus ramos, e expele as sementes
de seus pericarpos. Estas, quando saturadas de água, são levadas pela maré e
postas sobre a praia. Muitas se perdem, como são inúteis muitas vidas
individuais de pessoas. Mas muitas são atiradas novamente da praia para o
deserto, onde, em virtude da água do mar que embeberam, suas raízes e
folhas rebrotam e elas crescem plantas frutíferas que, por sua vez, como suas
ancestrais, serão rodopiadas para o mar. Deus não é menos cuidadoso ao
prover a germinação das verdades que você poderá divulgar corajosamente.
“Lança”, disse Ele, “o teu pão sobre as águas, e depois de muitos dias ele
retornará a ti novamente”.

A iniciação não muda: encontramo-la repetidamente, e sempre a mesma,


através das eras. Os últimos discípulos de Martinez de Pasqually ainda são os
filhos de Orfeu; mas adoram o realizador da filosofia ancestral, o Verbo
Encarnado dos Cristãos.

Pitágoras, o grande divulgador da filosofia dos números, visitou todos os


santuários do mundo. Foi à Judeia, onde procurou ser circuncidado, para que
pudesse ser admitido nos segredos da Cabala, cujos profetas Ezequiel e
Daniel, não sem algumas reservas, lhe comunicaram. Em seguida, não sem
dificuldade, conseguiu ser admitido na iniciação Egípcia, sob a
recomendação do Rei Amasis. O poder de seu gênio supriu as deficiências
das comunicações imperfeitas dos Hierofantes, e ele mesmo se tornou um
Mestre e Revelador.

Pitágoras definiu Deus: uma Verdade Viva e Absoluta, vestida de Luz.

Disse que o Verbo era Número manifestado pela Forma.

Fez tudo descender da Tetractys, isto é, do Quaternário.

Deus, disse novamente, é a Música Suprema, cuja natureza é Harmonia.

Pitágoras deu aos magistrados de Crotona este grande preceito religioso,


político e social:

“Não existe mal que não seja preferível à Anarquia.”


Pitágoras disse, “Ao mesmo tempo em que existem três noções divinas e três
regiões inteligíveis, existe assim um mundo triplo, pois a Ordem Hierárquica
sempre se manifesta em três. Existem a palavra simples, a palavra
hieroglífica e a palavra simbólica; em outros termos, existe a palavra que
expressa, a palavra que oculta e a palavra que significa; a inteligência
hierática total está no conhecimento perfeito desses três graus”.

Pitágoras envolveu a doutrina com símbolos, mas evitou cuidadosamente


personificações e imagens, as quais, pensava, mais cedo ou mais tarde
produziriam idolatria.

A Sagrada Cabala, ou tradição dos filhos de Seth, foi trazida da Caldeia por
Abraão, ensinada ao sacerdócio egípcio por José, recuperada e purificada por
Moisés, dissimulada sob símbolos na Bíblia, revelada pelo Salvador a São
João, e acomodada, inteira, sob figuras hieráticas análogas àquelas de toda a
antiguidade, no Apocalipse deste Apóstolo.

Os Cabalistas consideram Deus como o Infinito Inteligente, Animado e Vivo.


Não é, para eles, nem o agregado de existências, nem a existência no abstrato,
tampouco um ser definível filosoficamente. Ele está em tudo, é distinto de
tudo, e maior do que tudo. Até Seu nome é inefável; e ainda esse nome
expressa somente o ideal humano de Sua divindade. O que Deus é em Si
mesmo, não é dado ao homem compreender.

Deus é o absoluto da Fé; mas o absoluto da Razãoé SER, ‫ חויח‬. “Eu sou o
que Eu sou”, é uma tradução paupérrima.

Ser, Existência, é em si mesmo, porque É. A razão de Ser é o próprio Ser.


Podemos indagar, “Por que algo existe?”, isto é, “Por que tal ou tal coisa
existe?” Mas não podemos, sem sermos absurdos, perguntar “Por que Ser
É?” Isto seria supor Ser antes de Ser. Se Ser teve uma causa, esta causa seria
necessariamente Ser; isto é, a causa e o efeito seriam idênticos.

A razão e a ciência nos demonstram que os modos de Existência e Ser se


equilibram reciprocamente de acordo com leis harmoniosas e hieráticas. Mas
uma hierarquia é sintetizada, em ordem crescente, e se torna sempre cada vez
mais monárquica. Mesmo assim a razão não pode parar num único chefe,
sem ficar alarmada com o enorme abismo que parece deixar acima deste
Supremo Monarca. Portanto é silenciosa, e dá lugar para a Fé adorá-lo.

O que é certo, mesmo para a ciência e para a razão, é que a ideia de Deus é a
mais grandiosa, a mais sagrada e a mais útil de todas as aspirações do
homem; que a moralidade repousa sobre esta crença, com sua sanção eterna.
Esta é a crença, então, na humanidade, que é o mais real dos fenômenos do
ser; e se fosse falsa, a natureza afirmaria o absurdo; o nada daria forma à
vida, e Deus, ao mesmo tempo, seria e não seria.

É para esta realidade filosófica e incontestável, chamada de A Ideia de Deus,


que os Cabalistas deram um nome. Neste nome todos os outros estão
contidos. Suas cifras contêm todos os números; e os hieróglifos de suas letras
expressam todas as leis e todas as coisas da natureza.

SER É SER: a razão de Ser está em Ser: no Princípio está o Verbo, e o


Verbo em lógica formulou o Discurso, a Razão falada; o Verbo está em Deus,
e é o Próprio Deus, manifestado à Inteligência. Eis o que está acima de todas
as filosofias. Nisto devemos acreditar, sob a pena de nunca sabermos
verdadeiramente nada, e reincidirmos no ceticismo absurdo de Pirro. O
Sacerdócio, guardião da Fé, repousa inteiramente nesta base de
conhecimento, e é em seus ensinamentos que devemos reconhecer o Princípio
Divino do Verbo Eterno.

A Luz não é Espírito, como os Hierofantes hindus acreditavam; mas apenas o


instrumento do Espírito. O corpo não é feito de Protoplastos, como os
Teurgistas da escola de Alexandria ensinavam, mas é a primeira manifestação
física da afllatus Divina. Deus a cria eternamente, e o homem, à imagem de
Deus, a modifica e aparenta multiplicá-la.

A alta magia é intitulada “A Arte Sacerdotal” e “A Arte Real”. No Egito, na


Grécia e em Roma, podia apenas participar das grandezas e decadências do
Sacerdócio e da Realeza. Toda filosofia hostil ao culto nacional e aos seus
mistérios, era necessariamente hostil aos grandes poderes políticos, que
perdem sua grandeza, se deixam, na visão das multidões, de ser as imagens
do Poder Divino. Toda Coroa é despedaçada quando se choca com a Mitra.

Platão, escrevendo a Dionísio, o Jovem, a respeito da natureza do Primeiro


Princípio, diz: “Devo escrever-lhe por enigmas, para que, se minha carta for
interceptada por terra ou por mar, aquele que a ler não possa, em nenhum
grau, compreendê-la”. E então diz: “Todas as coisas rodeiam seu Rei; estão
por conta d’Ele, e somente Ele é a causa de coisas boas, Segundas para os
Segundos e Terceiras para os Terceiros”.

Há nestas poucas palavras um sumário completo da Teologia dos Sefirotes.


“O Rei” é AINSOPH, Ser Supremo e Absoluto. A partir deste centro, que
está em todo lugar, todas as coisas irradiam; mas nós o concebemos,
especialmente, em três maneiras e em três esferas diferentes. No mundo
Divino (AZILUTH), que é o da Primeira Causa, e onde toda a Eternidade
das Coisas existiu no início como Unidade, para ser depois, durante a
Eternidade que se seguiu, revestida de forma e dos atributos que a
constituíram matéria, o Primeiro Princípio é Único e Primeiro, mas ainda não
é a VERDADEIRA Divindade Ilimitada, incompreensível e indefinível; mas
é Ela própria conforme manifesta pelo Pensamento Criativo. Seria comparar
pequenez com infinidade, – Arkwright, como inventor da spinning-jenny, e
não o homem Arkwrigt de forma diferente e além dessa. Tudo o que
podemos saber do Verdadeiro Deus é, comparado à Sua Totalidade, só uma
fração infinitesimal de uma unidade, comparada a uma infinidade de
Unidades.

No Mundo da Criação, que é o das Segundas Causas (o Mundo Cabalístico


BRIAH), a Autocracia do Primeiro Princípio está completa, mas concebemo-
la apenas como a Causa das Segundas Causas. Aqui, é manifesta pelo
Binário, e é o Princípio Criativo passivo. Finalmente: no terceiro mundo,
YEZIRAH, ou o da Formação, ela é revelada na Forma perfeita, a Forma das
Formas, o Mundo, a Suprema Beleza e Excelência, a Perfeição Criada.
Assim, o Princípio é ao mesmo tempo o Primeiro, o Segundo e o Terceiro,
uma vez que é o Tudo em Tudo, o Centro e Causa de tudo. Não é o gênio de
Platãoque admiramos aqui. Reconhecemos apenas o conhecimento exato do
Iniciado.
O grande Apóstolo São João não tomou a abertura de seu Evangelho
emprestada da filosofia de Platão. Platão, pelo contrário, bebeu das mesmas
fontes de São João e de Fílon; e João, nos versos de abertura de sua paráfrase,
declara os primeiros princípios de um dogma comum a várias escolas, porém
numa linguagem especialmente pertencente a Fílon, a quem é evidente que
tenha lido. A filosofia de Platão, o maior dos Reveladores humanos, poderia
ansiar pelo Verbo feito homem; mas apenas o Evangelho poderia dá-lo ao
mundo.

Dúvida, na presença do Ser e de suas harmonias; ceticismo, face à


matemática eterna e às leis imutáveis da Vida que fazem a Divindade
presente e visível por toda a parte, tal como o Humano é conhecido e visível
por suas expressões através de palavras e ações; – não seria esta a mais tola
das superstições, e a mais imperdoável, bem como a mais perigosa de todas
as credulidades? O Pensamento, como sabemos, não é resultado ou
consequência da organização da matéria, da química ou outra ação ou reação
de suas partículas, como a efervescência e as explosões gasosas. Pelo
contrário, o fato de que o Pensamento é manifesto e realizado na ação
humana ou ação divina, prova a existência de uma Entidade, ou Unidade, que
pensa. E o Universo é a Expressão Infinita de apenas um de um número
infinito de Pensamentos Infinitos, que só podem ser emanados de uma Fonte
Infinita e Pensante. A causa é sempre igual, no mínimo, ao efeito; e a matéria
não pode pensar, nem poderia ser sua própria causa, ou existir sem causa, e
tampouco o nada produz forças ou coisas; pois nenhuma Força pode inerir à
inexistência vazia. Admita-se uma Força autoexistente, e sua Inteligência, ou
uma causa Inteligente do que se é admitido, e imediatamente DEUS É.

A alegoria hebraica da Queda do Homem, que é apenas uma variação


especial de uma lenda universal, simboliza uma das mais grandiosas e mais
universais alegorias da ciência.

O Mal Moral é a Falsidade em ações; como a Falsidade é o Crime em


palavras.

A Injustiça é a essência da Falsidade; e toda palavra falsa é uma injustiça.


A Injustiça é a morte do Ser Moral, como a Falsidade é o veneno da
Inteligência.

A percepção da Luz é o amanhecer da Vida Eterna, ao Sermos. A Palavra de


Deus, que cria a Luz, parece ter sido expressa por toda a Inteligência que
pôde tomar consciência das Formas e se mostrar. “SEJA feita a Luz!” A Luz,
na verdade, existe, em sua condição de esplendor, apenas para aqueles olhos
que a contemplam; e a Alma, amante do espetáculo das belezas do Universo,
aplicando sua atenção àquela escrita luminosa do Livro Infinito, chamado de
“O Visível”, parece expressar, como fez Deus na manhã do primeiro dia, a
palavra sublime e criativa “HAJA LUZ!”

Não é além-túmulo, mas na própria vida, que devemos buscar os mistérios da


morte. Salvação ou reprovação começam aqui em baixo, e o mundo terrestre
também tem seu Paraíso e seu Inferno. Sempre, até aqui em baixo, a virtude é
recompensada; sempre, até aqui em baixo, o vício é punido; e o que nos faz
às vezes acreditar na impunidade dos que praticam o mal é que as riquezas,
esses instrumentos do bem e do mal, às vezes parecem ter sido concedidas ao
azar. Mas ai dos homens injustos, quando possuem a chave do ouro! Ela abre,
para eles, somente o portão do túmulo e do Inferno.

Todos os verdadeiros Iniciados reconheceram a utilidade da labuta e do


sofrimento.“Sofrimento”, diz um poeta alemão, “é o cão desse pastor
desconhecido que guia o rebanho de homens”. Aprender a sofrer e aprender
a morrer são as disciplinas da Eternidade, o Noviciado imortal.

O quadro alegórico de Cebes, no qual a Divina Comédia de Dante foi


esboçada no tempo de Platão, cuja descrição tem sido preservada para nós, e
que muitos pintores da Idade Média reproduziram a partir desta descrição, é
um monumento ao mesmo tempo filosófico e mágico. É uma síntese moral
das mais completas, e ao mesmo tempo a mais audaciosa demonstração já
dada do Grande Arcano, desse segredo cuja revelação subverteria a Terra e o
Céu. Que ninguém espere que demos sua explicação! Aquele que passa por
trás do véu que esconde este mistério entende que ele é, em sua própria
natureza, inexplicável, e que é morte para aqueles que o conseguem de
surpresa, assim como para aquele que o revela.
Este segredo é a Realeza dos Sábios, a Coroa do Iniciado a quem vemos
redescer vitorioso do cume dos Processos, na fina alegoria de Cebes. O
Grande Arcano faz dele mestre do ouro e da luz, que são basicamente a
mesma coisa, ele já resolveu o problema da quadratura do círculo, dirige o
perpetuum mobile e possui a pedra filosofal. Aqui, os Adeptos nos
compreenderão. Não existe interrupção na labuta da natureza, nem lacunas
em seu trabalho. As Harmonias do Céu correspondem às da Terra, e a Vida
Eterna realiza suas evoluções de acordo com as mesmas leis da vida de um
cão. “Deus organizou todas as coisas por peso, quantidade e medida”, diz a
Bíblia; e esta doutrina luminosa também era a de Platão.

Na verdade, a humanidade nunca teve mais do que uma religião e um culto.


Esta luz universal teve suas miragens incertas, seus reflexos enganosos e suas
sombras; porém sempre, depois de noites de Erros, vemo-na reaparecer, única
e pura como o Sol.

As magnificências do culto são a vida da religião e, embora Cristo queira


ministros pobres, Sua Soberana Divindade não quer altares de pouco valor.
Alguns Protestantes não compreenderam que o culto é um ensinamento, e
que não devemos criar na imaginação da multidão um Deus mediano ou
miserável. Esses oratórios que se assemelham a escritórios ou tavernas
parcamente mobiliados, e esses dignos ministros vestidos como tabeliães ou
escreventes, não motivariam necessariamente a religião ser vista como uma
mera formalidade puritana, e Deus como um Juiz de Paz?

Zombamos dos Áugures. É tão fácil zombar e tão difícil compreender bem.
Será que a Divindade deixou todo o mundo sem Luz por duas vintenas de
séculos, para iluminar apenas um pequeno canto da Palestina e um povo
brutal, ignorante e ingrato? Por que sempre caluniar Deus e o Santuário?
Nunca existiram outros a não ser patifes entre os sacerdotes? Não seria
possível encontrar homens honestos e sinceros entre os Hierofantes de Ceres
ou Diana, de Dionísio ou Apolo, de Hermes ou Mitra? Estariam todos estes
enganados, portanto, como o resto? Quem, então, os enganava
constantemente, sem se trair, durante uma série de séculos? – pois as trapaças
não são imortais! Arago disse que, fora da matemática pura, quem pronuncia
a palavra “impossível” é desprovido de prudência e bom-senso.

O verdadeiro nome de Satã, dizem os Cabalistas, é o de Yahveh invertido;


pois Satã não é um deus negro, mas a negação de Deus. O Diabo é a
personificação do Ateísmo ou Idolatria.

Para os Iniciados, ele não é uma Pessoa, mas uma Força, criada para o bem,
mas que pode servir o mal. É o instrumento da Liberdade ou Livre Arbítrio.
Estes representam esta Força, que preside sobre a geração física sob a forma
mitológica e chifruda do Deus PAN; daí veio o bode do Sabbat, irmão da
Antiga Serpente, e o portador da Luz ou Fósforo, do qual os poetas fizeram o
falso Lúcifer da lenda.

O Ouro, aos olhos dos Iniciados, é a Luz condensada. Intitulam os números


sagrados da Cabala de “números de ouro”, e os ensinamentos morais de
Pitágoras de seus “versos dourados”. Pela mesma razão, um livro misterioso
de Apuleio, no qual um asno aparece muitas vezes, foi chamado de “O Asno
de Ouro”.

Os Pagãos acusaram os Cristãos de adorar um asno, e não inventaram esta


acusação, porém ela veio dos judeus Samaritanos que, calculando os dados da
Cabala, no que se refere à Divindade, com símbolos Egípcios, também
representaram a Inteligência através da figura da Estrela Mágica adorada sob
o nome de Renfã, a Ciência sob o emblema de Anúbis, cujo nome trocaram
para Nibaz, e a fé vulgar ou credulidade sob a figura de Tartaque, um deus
representado com um livro, um manto e uma cabeça de asno. De acordo com
os Doutores Samaritanos, o Cristianismo era o reino de Tartaque, Fé cega e
credulidade vulgar erigidos a um oráculo universal, e preferidos no lugar da
Inteligência e Ciência.

Sinésio, Bispo de Ptolemais, um grande Cabalista, mas de ortodoxia


duvidosa, escreveu:

“O povo sempre zombará das coisas fáceis de ser mal-compreendidas; é


necessário haver imposturas”.
“Um espírito”, disse, “que ama a sabedoria e contempla a Verdade de muito
perto, é forçado a disfarçá-la para induzir as multidões a aceitá-la... As
ficções são necessárias ao povo, e a Verdade se torna mortal para aqueles
que não são suficientemente fortes para contemplá-la em todo seu esplendor.
Se as leis sacerdotais permitissem a reserva de julgamento e a alegoria das
palavras, eu aceitaria a dignidade proposta com a condição de que eu
pudesse ser um filósofo em casa, e um narrador de apologias e parábolas no
exterior...

Na realidade, o que pode haver em comum entre a vil multidão e a sabedoria


sublime? A verdade deve ser mantida em segredo, e as massas necessitam um
ensinamento proporcional à sua razão imperfeita”.

Desordens morais produzem feiura física, e de alguma forma tornam reais


aqueles rostos assustadores que a tradição atribui aos demônios.

Os primeiros Druidas foram os verdadeiros filhos dos Magos, e sua iniciação


veio do Egito e da Caldeia, isto é, das fontes puras da Cabala primitiva. Eles
adoravam a Trindade sob os nomes de Ísis ou Hesus, a Suprema Harmonia;
de Belen ou Bel, que em Assírio significa Senhor, um nome correspondente
ao de ADONAÏ; e de Camul ou Camaël, um nome que na Cabala personifica
a Justiça Divina. Embaixo deste triângulo de Luz eles supunham um reflexo
divino, também composto de três raios personificados: primeiro, Teutates ou
Teut, o mesmo que o Totdos egípcios, o Verbo, ou a Inteligência formulada;
em seguida, a Força e a Beleza, cujos nomes variavam tal como seus
emblemas. Finalmente, completavam o Setenário sagrado com uma imagem
misteriosa que representava o progresso do dogma e suas realizações futuras.
Esta era a de uma jovem coberta por um véu, segurando uma criança em seus
braços; e eles dedicaram esta imagem à “Virgem que se tornará mãe;
–Virgini pariturae”.

Hertha ou Wertha, a jovem Ísis da Gália, Rainha do Céu, a Virgem que


estava para dar à luz, segurava o fuso dos Destinos, preenchido com lã
metade branca, metade preta; porque ela preside sobre todas as formas e
todos os símbolos, e tece o vestuário das Ideias.
Um dos pantáculos mais misteriosos da Cabala, contido no Enchiridion de
Leão III, representa um triângulo equilátero reverso, inscrito num duplo
círculo. Estão escritos no triângulo, de modo a formar o Tau profético, as
duas palavras hebraicas tantas vezes anexadas ao Nome Inefável, ‫ אלחמ‬e
‫ צבאוה‬, ALOHAYIM, ou os Poderes, e TSABAOTH, os Exércitos
estrelados e seus espíritos guias; palavras que também simbolizam o
Equilíbrio das Forças da Natureza e a Harmonia dos Números. Aos três lados
do triângulo pertencem os três grandes Nomes ‫ י ​אדנ‬, ‫ חויח‬, e ‫ ​אגלא‬,
IAHAVEH, ADONAÏ e AGLA. Acima do primeiro está escrito em latim,
Formatio, sobre o segundo Reformatio e sobre o terceiro Transformatio.
Portanto a Criação está relacionada ao PAI, a Redenção ou Reforma ao
FILHO, e a Santificação ou Transformação ao ESPÍRITO SANTO, em
resposta às leis matemáticas de Ação, Reação e Equilíbrio. IAHAVEH
também é, em efeito, a Gênese ou Formação do dogma, através do
significado elementar das quatro letras do Tetragrama Sagrado; ADONAÏ é a
realização desse dogma na Forma Humana, no SENHOR Visível, que é o
Filho de Deus ou Homem perfeito; e AGLA (formado pelas iniciais das
quatro palavras Ath Gebur Laulaïm Adonaï) expressa a síntese de todo o
dogma e a totalidade da ciência Cabalística, indicando claramente, pelos
hieróglifos dos quais este nome admirável é formado, o Tríplice Segredo da
Grande Obra.

A Maçonaria, como todas as Religiões, todos os Mistérios, Hermetismo e


Alquimia, oculta seus segredos de todos, exceto os Adeptos e Sábios, ou
Eleitos, e usa explicações falsas e interpretações equivocadas de seus
símbolos para desorientar os que merecem apenas ser desorientados; para
esconder a Verdade, que chama de Luz, destes e para mantê-los dela
afastados. A Verdade não é para os indignos ou incapazes de recebê-la, ou
aos que a perverteriam. Dessa forma, o Próprio Deus incapacita muitas
pessoas, pelo daltonismo, de distinguir as cores, e dirige as massas para longe
da Verdade mais alta, dando-lhes o poder de alcançar apenas o suficiente que
lhes seja lucrativo saber. Todas as épocas tiveram uma religião adaptada à
sua capacidade.

Os Professores, mesmo os do Cristianismo, são, em geral, os mais ignorantes


do significado verdadeiros do que ensinam. Não existe livro do qual tão
pouco se saiba quanto a Bíblia. Para a maioria que a lê, é tão incompreensível
quanto o Zohar.

Assim, a Maçonaria oculta zelosamente seus segredos e desencaminha


intencionalmente os intérpretes presunçosos. Sob o sol não existe visão, ao
mesmo tempo, mais patética e ridícula, do que o espetáculo dos Prestons e
dos Webbs, sem mencionar as encarnações posteriores da Estupidez e do
Lugar-Comum, se responsabilizando por “explicar” os velhos símbolos da
Maçonaria, acrescentando e “aprimorando”-os, ou até inventando novos.

Ao Círculo contendo o ponto central, e ao mesmo, traçado entre duas linhas


paralelas, figura puramente Cabalística, essas pessoas adicionaram a Bíblia
superposta, e até edificaram sobre ela a escada com três ou nove voltas, e
então deram uma interpretação insípida do todo, tão profundamente absurda
que realmente excita admiração.