PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PENAIS PERSPECTIVAS DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO CAMPO PENAL Cláudio José Palma SANCHEZ

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RESUMO: O presente artigo discute os princípios constitucionais e seus reflexos no Direito Penal, enfocando suas perspectivas e aplicabilidades traçadas pelo Direito Penal Mínimo. PALAVRAS CHAVE: Princípios constitucionais no Direito Penal. Perspectivas. Direito Penal Mínimo.

1 INTRODUÇÃO

A evolução do pensamento jurídico acompanha o desenvolvimento da própria sociedade. Na esteira do tempo, nota-se que por vezes uma se antecipa à outra, como que para apontar novos caminhos, e em outras ocasiões, lhe vem a posteriori para amparar juridicamente condutas que exigem tutela legislativa do Estado. A previsão de condutas humanas como delito devem ter como parâmetro a gravidade ofensiva do ato e a relevância do bem jurídico lesionado. No campo do Direito Penal, novos anseios sociais são diuturnamente tipificados como delitos, tendo em vista principalmente a realidade valorativa e fática. Porém, a elaboração excessiva de legislação penal pode promover a banalização do poder punitivo estatal. A doutrina pátria2 já aponta para a possibilidade de ser o direito penal subsidiário e voltado cada vez mais para a tipificação do que realmente é importante para a manutenção da paz social, valorizando os postulados da intervenção mínima3. O legislador responsável pela elaboração da disciplina punitiva deve-se pautar pelo direitos fundamentais consagrados no texto constitucional. especialmente o princípio da aplicação da pena individualizada e a privação da liberdade aos casos realmente justificáveis. No presente trabalho, serão abordados os valores constitucionais penais, que devem direcionar a aplicação do Direito Penal como solução eficaz de apenamento ressocializador, sem, contudo, deixar de observar as garantias e direitos fundamentais do cidadão. 2 VALORES CONSTITUCIONAIS PENAIS

com características garantidoras. que. nem pena sem prévia cominação legal". que preceitua: "Não há crime sem lei anterior que o defina. em seu artigo 8 também foi incluído o referido postulado.Desde o século XVIII. ou também chamados de valores constitucionais4 penais (postulados de Direito Penal Constitucional). Na Declaração Universal dos Direitos do Homem. da humanidade. também consagra tal princípio de maneira explícita no artigo 5. ganhou destaque em todos os ordenamentos jurídicos mundiais. de 26 de agosto de 1789. Como ensina Luiz Luisi5: Referem-se prevalentemente ao aspecto de conteúdo das incriminações no sentido de fazer com que o direito penal se constitua em um poderoso instrumento de tutela de bens de relevância social. inciso XII. somente a lei antes da ocorrência do fato criminoso pode definir os delitos e suas respectivas sanções. Podem. em 1724: "só as leis podem decretar as penas para os delitos. da intervenção mínima. 2. inclusive. que são os elencados de forma expressa e inequívoca no texto constitucional. da pessoalidade e da individualização das penas. o princípio da reserva legal começou a fazer parte dos textos constitucionais e dos Códigos Penais. da determinação taxativa e da irretroatividade. Dessa maneira. como limites ao legislador e aplicador dos postulados penais. as Constituições trazem em seu contexto princípios fundamentais.a Princípio da Legalidade O princípio da legalidade pode ser desdobrado em três outros: da reserva legal. o postulado da reserva legal. O marquês Beccaria6 já nos ensinava. Esta autoridade não pode residir se não no legislador. de 1988. Em nossa primeira Constituição. A Constituição Federal vigente. que representa toda a sociedade organizada por um contrato social". A partir do declínio das monarquias absolutistas e o início dos regimes democráticos. de 1824. já vinha expresso no artigo 179. sob a influência dos pensamentos iluministas. na teoria do contrato social. aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 foi inserido o princípio da legalidade com os seguintes dizeres: . ser divididos em explícitos. com isso. que estão contidos em normas constitucionais e delas são deduzidos. inciso XXXIX. O princípio da reserva legal nasce das idéias iluministas do século XVIII. e os implícitos. Os valores especificamente penais são aqueles relacionados exclusivamente com a matéria penal. Na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Neste contexto analisar-se-á os princípios da legalidade.

ainda. a impossibilidade de se utilizar o direito costumeiro e a analogia no campo do Direito Penal. dando lugar a arbitrariedade. pois define o delito e a pena. Tal princípio. Com leis penais de teor claro e preciso os cidadãos ficam protegidos do arbítrio do juiz. ficando a cargo da administração o seu delineamento. Extrai-se do princípio da reserva legal. dispõe sobre a exigência das leis penais. especialmente da aplicação individualizada da pena . Outro desdobramento do princípio da legalidade é o da determinação taxativa. que deverão ser elaboradas de forma clara. O princípio em questão tem sua origem no espírito presente na Constituição Italiana. que como ensina Luiz Luisi7: a legalidade substancial seria anterior. ficando os cidadãos cientes de que só pelos fatos anteriormente delineados como crimes poderão ser responsabilizados criminalmente e apenas naquelas sanções previamente fixadas podem ser processados e condenados. Com isso. posto que só no aspecto formal da lei é que se pode explicitar o princípio em análise. que apregoa ser a liberdade pessoal inviolável e que a privação da liberdade só será permitida nos modos previstos na lei. Distingue-se. Tão pouco se imporá pena mais grave que a aplicável no momento da comissão do delito. por se referir a normas penais incriminadoras. onde apenas a lei pode disciplinar a matéria penal. visto ser encontrado na Constituição Federal evidências a esse respeito. a legalidade formal da legalidade substancial. O terceiro corolário do postulado da legalidade é o princípio da irretroatividade da lei penal. e reserva relativa. O princípio da reserva legal delimita o poder punitivo do Estado e dá ao Direito Penal uma função garantista. no qual o legislador prevê os traços fundamentais do campo criminal. em especial as incriminadoras. que o princípio da reserva legal também deve ser observado na execução das penas. equívocas e vagas. O primordial alicerce do princípio da determinação taxativa é político. tendo como fonte uma espécie de direito natural. Destacam-se os artigos 13. . Alguns ramos da dogmática jurídica dividem este princípio em reserva absoluta. e poderia ser mesmo contra a lei. salvo se forem aplicados in bonam parte ( em benefício do réu ). a ser pesquisado na natureza das coisas. certa e precisa. ficando delimitada a discricionariedade do aplicador da lei penal. evita-se que o legislador elabore normas penais com palavras ambíguas. É evidente que a chamada legalidade substancial implica na negação prática da reserva legal. Não há dúvidas.ninguém será condenado por atos ou omissões que no momento em que se cometerem não forem crimes segundo o direito nacional ou internacional.

constituída da certeza jurídica. mesmo já decorrido esse período. De se destacar que desde a Declaração Francesa dos Direitos do Homem. em especial a liberdade. ou de não ser punido mais severamente. para que o princípio da legalidade seja observado sem causar prejuízo à tutela penal de bens coletivos e da própria justiça. Tal postulado. incumbindo de assegurar a específica eticidade do direito. inaplicável a criminalização. foi introduzido o princípio da necessidade ou da intervenção mínima. Mantovani8 assevera que: a irretroatividade da lei penal. O Código Penal brasileiro. qual pressuposto objetivo de cognoscibilidade da norma. da Cunha Luna10. e com os fundamentos do Estado de Direito se impõem ao legislador. O postulado da legalidade convive de maneira harmoniosa com os anseios dos Estados Democráticos Sociais. dispõe que as leis excepcionais e temporárias se aplicam aos fatos ocorridos durante o tempo que foram eficazes. inciso XL: "A lei penal não retroagirá. não tendo aplicabilidade a fatos pretéritos. se houver outras formas suficientes para defendê-lo. assevera que a criminalização de um fato só é autorizada quando não houver outro meio de se proteger um bem jurídico. que visam garantir os valores trazidos pelos pensamentos iluministas. Como bem salienta Francesco Palazzo9: o princípio da legalidade funciona como garantia diante do poder punitivo-judiciário. ou o eram de forma mais branda. A Constituição Federal de 1988 não se desviou desse caminho e estampou no artigo 5. e de operar. em seu artigo 3. Dessa forma. o princípio da irretroatividade da lei. de não ser punido. Portanto. em 1789. além de assegurar exigências racionais de certeza do direito. dá ao cidadão a segurança. por fatos que no momento de sua comissão.b Princípio da Intervenção Mínima Com a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão. de forma expressa. que traduzam os valores e interesses primários dos cidadãos. 2. as Constituições vêm trazendo em seu texto. Defende Luiz Flávio Gomes11: . Na lição de E. ante às mudanças de valorações do legislador. não eram apenados. que só é aplicada aos fatos ocorridos durante a sua vigência. e mesmo ao hermeneuta". salvo para beneficiar o réu". o princípio da intervenção mínima é: "um princípio imanente que por seus vínculos com outros postulados explícitos.Este princípio traz em seu bojo a necessidade da atualidade da lei. é necessário que o legislador elabore normas claras e precisas. uma valorização e responsabilidade do homem.

que só deve atuar onde os outros segmentos do Direito forem incapazes de tutelar de forma satisfatória os bens jurídicos de vital importância para a própria existência do homem e da sociedade. Apenas a título de curiosidade. no sentido de evitar a definição desnecessária de crimes e a imposição de penas injustas. Até o presente momento. aduz que: Procurando restringir ou impedir o arbítrio do legislador. Além disso. só devendo intervir o Estado. O continente europeu tem se preocupado com o inchaço normativo e já implantou programas de despenalização. Saliente-se. Nesse sentido. e mesmo de bens instrumentais indispensáveis a sua realização social.582 tipos penais incriminadores. quando os outros ramos do Direito não conseguirem prevenir a conduta ilícita. tendo como finalidade tutelar bens jurídicos relevantes. A aplicação abusiva da previsão legislativa penal faz com que ela perca parte de seu mérito e. não se pode negar claro sentido político e limitador. o fato concretamente lesivo a bem jurídico relevante. ainda. segurança e propriedade ) somente se legitima se estritamente necessária a sanção penal para a tutela de bens fundamentais do homem. que apesar da idéia trazida com o princípio da necessidade a partir da segunda década do século XIX. os tipos penais incriminadores cresceram assustadoramente. Nesse sentido. em 1974 o Canadá tinha uma legislação que continha 41. Ademais. por intermédio do Direito Penal. conta com um número considerável de leis penais extravagantes. Damásio Evangelista de Jesus12.o princípio de ofensividade em sua máxima expressão garantista e material adverte que somente será objeto de criminalização e de sanção penal. a criação de tipos delituosos deve obedecer à imprescindibilidade. sua força intimidadora. desumanas ou cruéis. bem salienta Luis Luisi13: A restrição ou privação desses direitos invioláveis ( liberdade. já teve sua parte especial acrescida por outros delitos e. impôs ao legislador parâmetros que devem ser observados quando criminalizarem uma conduta. Não se pode negar a característica de subsidiariedade do Direito Penal. o respectivo princípio não vem sendo reconhecido explicitamente nos modernos e democráticos ordenamentos constitucionais. de 1940. No Brasil. ensina Maura Roberti14: . vida. o Código Penal em vigor. a respeito do citado postulado. assim. igualdade.

Destaca-se. cominar a sanção pertinente. todas as . Dentro dessas fronteiras. num segundo momento. que as idéias iluministas inspiraram a previsão dos direitos humanos nos textos constitucionais. Ainda mais enfatizante é o inciso XLVII. O próximo inciso do mesmo artigo assevera que: "às presidiárias são asseguradas as condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período da amamentação". Tem assento no artigo 1. a não ser que se pretenda subverter a hierarquia dos valores morais. como regra de determinação qualitativa abstrata para o processo de tipificação das condutas. que: "ninguém será submetido a tortura. a idéia de que só se deve criminalizar condutas de efetiva gravidade e que atinjam bens fundamentais. da Lei Maior. desumano e degradante". nem a tratamento ou castigo cruel.c Princípio da Humanidade Outro princípio de ímpar significância é o da humanidade. e) cruéis". que: "é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral". dispõe em seu artigo 10. salvo em caso de guerra declarada. da Constituição pátria. inciso III. num primeiro momento. Ensina Nilo Batista15: O Direito Penal não pode se identificar com o direito relativo a assistência social. valores básicos de convívio social. Destarte. fazendo com que receba a resposta merecida da Comunidade. A título exemplificativo. surge como tendência. d) de banimento. e deve por em relevo a responsabilidade do delinqüente por haver violentado o direito.o princípio da intervenção mínima está diretamente afeto aos critérios do processo legislativo de elaboração de leis penais. nos termos do artigo 84. de 1966. inciso XLIX. dispõe o artigo 5. impostas pela natureza de sua missão. e com o respeito que lhe corresponde por sua dignidade humana". XIX. servindo. A Declaração dos Direitos do Homem disciplina em seu artigo 5. inciso I. 2. No mesmo sentido. e fazer do crime uma ocasião de prêmio. A partir de ideologias que dominaram os séculos XVII e XVIII o princípio em tela alcançou sua consagração. que: "o preso deve ser tratado humanamente. e. Serve em primeiro lugar à Justiça distributiva. do citado artigo. que apregoa o reconhecimento da dignidade humana. c) de trabalhos forçados. que dispõe: "não haverá penas: a) de morte. E isto não pode ser atingido sem dano e sem dor principalmente nas penas privativas da liberdade. juntamente com o princípio da proporcionalidade dos delitos e das penas. b) de caráter perpétuo. a Convenção Internacional sobre Direitos Políticos e Civis. o que nos conduziria ao reino da utopia. A Constituição Federal de 1988 trouxe diversos dispositivos onde se constata a consagração do princípio da humanidade.

210. inclusive a brasileira. dispondo que: "a lei regulará a individualização da pena". que cabe ao serviço social "orientar e amparar. inciso XLVI. com o mal concreto da pena. quando necessário. como a vítima do delito. alternativa ou exclusiva. Na segunda fase. a judicial e a executória ou administrativa. estabelece regras que possibilitam ulteriores individualizações. Anote-se que a individualização da pena passa necessariamente por três fases distintas: a legislativa. A Carta Magna em vigor disciplina no artigo 5.d Princípio da Pessoalidade O princípio da pessoalidade é outro postulado consagrado nas constituições contemporâneas. de 11 de julho de 1984 ( Lei de Execução Penal ) dispõe em seu artigo 22. de forma cumulativa. afinidade ou amizade com o condenado. a lei delimita as penas para cada tipo de delito. impõe que o produto da remuneração do trabalho do preso deverá atender "a assistência à família". a individualização da pena deve ser entendida como o meio para "retribuir o mal concreto do crime. Não se pode olvidar. A lei 7. no artigo 29. guardando proporcionalidade com a importância do bem jurídico defendido e com o grau de lesividade da conduta. Além disso. A legislação constitucional pátria consagrou o dito princípio no artigo 5. entre outros objetivos. ao nosso estudo interessa o princípio da individualização da pena. o juiz vai decidir qual das penas deve ser aplicada e . 2. ocorre a individualização realizada pelos magistrados. A pena não se pode estender a pessoas que não participaram do delito. "b".relações humanas disciplinadas pelo direito penal devem estar presididas pelo princípio da humanidade. contudo. em especial a família. Nos dizeres do mestre Nelson Hungria16.. na concreta personalidade do criminoso". inciso XLV que: "nenhuma pena passará da pessoa do condenado (.e Princípio da Individualização da Pena Finalmente. Ainda. parágrafo 1. 2. ainda que haja laços de parentesco. Assim. Aduz que a pena não pode passar da pessoa que praticou o delito. Diante das diretrizes fixadas pela legislação. se estabelece as espécies de penas que podem ser aplicadas. determinadas legislações vêm disciplinando a criação de institutos que auxiliam tanto a família do sentenciado. inciso XVI.) ". No primeiro momento. que a pena pode gerar danos e sofrimentos a terceiros. ainda. Nesta fase.. a família do internado e da vítima".

De suma importância são as finalidades almejadas com a individualização da pena. Mas. elencando um amplo rol de fatos caracterizados como crimes. Já no inciso XLVIII. sendo oportuno salientar. determinando. dentro dos limites trazidos no preceito penal secundário. Não deve mudar quando . Não pode ser um instrumento qualquer a serviço da política. Tem que ser uma coisa acima da política. As regras básicas da individualização da pena. em uma entrevista concedida ao núcleo de pesquisas do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais: o Direito Penal deve ser uma coisa seríssima. Salienta Sebastian Scheerer19. assevera Aníbal Bruno17: "aí é que a sanção penal começa verdadeiramente a atuar sobre o delinqüente.qual a sua quantidade. não se pode negar que tal atitude enseja um perigoso grau de arbitrariedade e discricionariedade do aplicador do Direito. do mesmo artigo. devendo-se sempre ter em mente seu caráter ressocializador e retributivo. inclusive. que se mostrou insensível a ameaça contida na cominação". Os valores constitucionais terão como principal função no Direito Penal limitar a atividade do legislador. que nos tempos atuais. avaliando a legitimação dos postulados legai". No artigo 5. que servem de lastro para a interpretação de todo ordenamento jurídico. diz ser "assegurado aos presos o respeito a integridade física e moral". têm se elaborado tipos penais indeterminados e abrangentes. Defensor de tal proposta é Pérez Luños18: nenhuma norma infraconstitucional é facultada ignorar os valores constitucionais. 3 TENDÊNCIAS DO DIREITO PENAL Importante ressaltar na atualidade. o destaque ofertado pela doutrina aos princípios constitucionais na aplicação dos institutos do Direito Penal. inciso XLIX. estão previstas no artigo 59 e não podem deixar de ser observadas pelo juiz. A respeito desta última fase. orientando a hermenêutica teleológica e evolutiva da Constituição. que necessariamente deverá respeitar especialmente o princípio da intervenção mínima. A Lei Maior traz alguns preceitos que devem ser respeitados na etapa executória. A terceira e última etapa da individualização da pena ocorre com sua execução e é denominada de individualização administrativa ou individualização executória. o meio de sua execução. Não se pode olvidar. se impõe que o cumprimento da pena se dará em estabelecimentos que atendam "a natureza do delito. em nosso Código Penal. ou também chamado de princípio da ofensividade. a idade e o sexo do apenado". que tal corrente vem perdendo adeptos apontando para o caminho de um Direito Penal Mínimo.

Ponto final. desatendendo ao critério de razoabilidade. que no Brasil. Luiz Flávio Gomes20 qualifica a norma penal: como um juízo acerca da realidade. O elevado número de normas penais incriminadoras significa a decadência do Direito Criminal. Destaca-se. pois. caracterizam-se por sua natureza reconhecidamente repressiva e coercitiva. atribuir culpa e responsabilidades como mais certezas. pode significar a existência de tipos penais iníquos e instituir penas vexatórias à dignidade da pessoa humana. Só deve visar comportamentos absolutamente inaceitáveis em qualquer tipo de sociedade. próprios das sociedades contemporâneas. daqueles setores da realidade que adquire relevância para vida social. Existe excesso de leis para impressionar a sociedade.da democracia para a ditadura e vice e versa. Não. características menos percebidas nos demais ramos do Direito. como uma lesão ou perigo para os interesses qualificados como bens jurídicos relevantes. necessitam de técnicas de controle para garantir um nível razoável de bem-estar coletivo. e para chegar a um resultado positivo para todos os indivíduos e para o público atingido e interessado. ofendendo inclusive os valores constitucionais. e. a cada dia aumenta o número de presídios e sua população chega a números alarmantes. pode gerar a realização de uma justiça substancial e responder aos anseios de uma sociedade que busca. a máquina legislativa já trabalhou demais. ponto final. No universo das normas jurídicas. será que o legislador poderia escolher qual comportamento que. Em contrapartida. Assim. Esta tese do Direito Penal mínimo defendida hoje por colegas excelentíssimos como Alessandro Baratta e Wolfgang Naucke. Com isso. determinados penalistas justificam o elevado número de leis penais que disciplinam condutas típicas.mudam os regimes políticos . mas. no fato de representar a melhor e mais fácil solução para enfrentar os problemas de uma sociedade que está em constante desenvolvimento. Existem métodos não-estatais para dar mais satisfação às vítimas. a qualquer custo. a seu ver. na ordem penal. o Direito Penal coativo excessivo e desumano arranha diretamente bem jurídico relevante do ser humano. menos radicalmente. sem levar em conta qualquer critério ? Efetivamente não. diminuir o índice de criminalidade. a caracterização do injusto como lesão objetiva das normas de valoração. A esta concepção corresponde. por outro lado. atenção especial merecem as normas penais. como meio de controle social. ou melhor. mereça punição. Não é muito sensato deixar a burocracia jurídica tentar tratar destas situações. Os conflitos de interesses. Eu acho . Contudo. Estupro. por parte de Winfried Hassener e de Peter-Alexis Albrecht.junto com alguns dos chamados abolicionistas como Louk Hulsnan. Um número maior de leis penais incriminadoras. Deve ele . Atos atrozes cometidos por uma pessoa contra outra. não. Assassinato.que o Direito Penal não tem a estrutura adequada para lidar com as complexidades deste tipo de comportamento grave em situações dificílimas. Nils Christie e outros . implica a sub-tese da absoluta necessidade do Direito Penal nesta área limitada. por vezes.

Desde as idéias de Beccaria convivemos com um Direito Penal Humanitário. Assevera Ana Cláudia B. O máximo que se vai conseguir com isso é ignorar o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana . em primeiro lugar. a reação estatal não pode exacerbar os valores constitucionais. Todas as condutas que afetem a ordem jurídica institucionalizada merece reprimenda para que o Direito possa cumprir sua função garantista. ao invés de apostar no paradigma de uma Justiça Penal. chega-se à conclusão evidente de que o legislador pátrio não vem observando o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. não colocar em perigo bens jurídicos não se faz necessária a atuação do Direito Penal. uma quantidade absurda de tipos penais. Com isso. com ferrenhos defensores. a cada dia. de forma especial. Alberto Silva Franco23 ensina que: a intervenção penal não pode ter uma missão expansionista: deve ser necessariamente mínima. Importante destacar a lição de Ana Cláudia B. vem surgindo. Há um inchaço legislativo no Brasil. corolário inafastável da legalidade estrita. obedecendo. opta-se por uma política paleorepressiva. voltado para defesa e garantia dos bens jurídicos fundamentais. os princípios da intervenção mínima ou da necessidade ou da susidiariedade. se vulgarizando. se a causa dessa violência não for estudada e tratada. ao fazer um breve arcabouço do manancial de leis penais hoje em vigor no Brasil. de Pinho22 que: Nada adianta fazer do Direito Penal a tábua de salvação para a violência urbana no Brasil. a Constituição Federal e seguir a orientação traçada pelos princípios valorativos. que vai. de Pinho21 que assevera: Infelizmente. expressando. Em contraposição à idéia de um Direito Penal Máximo. Contudo. a idealização de um Direito Penal Mínimo. contribuindo. Enquanto a conduta de um agente não lesionar ou.e o descrédito do próprio Direito Penal. assim.na medida em que a pena criminal estará sendo colocada na vitrine para ser utilizada indiscriminadamente . . a idéia de proteção de bens jurídicos vitais para a livre e plena realização da personalidade de cada ser humano e para a organização. com o jargão de que o Brasil é o país da impunidade. fundado na tutela apenas de bens jurídicos fundamentais. conservação e desenvolvimento da comunidade social em que ele está inserido.respeitar. apenas e esclusivamente. alguns deles já explicitados neste trabalho. Inegável que o Direito deve limitar-se a disicplinar condutas potencialmente prejudiciais a alguém. a pena deve ser a última ratio e não como prima ou sola ratio. Por conveniência. no mínimo. fundada num Direito Penal meramente simbólico.

sancionar condutas que atinjam os de menor valor caracterizaria uma afronta à dignidade e a função pacificadora do Direito Penal. apesar do excessivo número de condutas tipificadas como delitos. Eduardo Araujo da Silva24 aduz que: Em razão dos alarmantes indíces de criminalidade e da inércia do Estado em gerar políticas públicas eficazes para contornar a crise social sem precedentes que assola o país. 3 ed. se tem como certo que o Direito Penal tem como finalidade tutelar bens jurídicos relevantes para a sociedade. como se pode notar claramente na Lei dos Juizados Especiais Criminais. o legislador começa a dar mostras de evolução. que regulamentou institutos despenalizadores. em razão da falsa expectativa criada quanto ao seu papel de sanear todos os problemas que afligem a sociedade. 1996. o abuso na edição de leis penais tem levado à banalização do Direito Penal (. a chamada Lei das Penas Alternativas ( Lei n. de tal forma que o Direito Penal alcance a finalidade precípua de atuação eficaz na realização da paz social.Partindo do princípio de que a lei penal deve se destinar a proteger os bens fundamentais. contudo. importando-se com condutas delituosas realmente importantes que afetem os bens fundamentais. bem como a expansão da penas restritivas de direito. O pensamento jurídico mundial deverá caminha para o estabelecimento de um Direito Penal Mínimo. em detrimento das privativas de liberdade. Nilo. pode-se concluir que os princípios constitucionais penais são suporte básico para o legislador buscar cada vez mais o aprimoramento da criminalização das condutas. Introdução crítica ao direito penal brasileiro. das garantias e direitos fundamentais assegurados a todos os cidadãos. Em outras palavras. 9.) Entretanto. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Dessa forma. que não encontram em outros ramos do direito amparo efetivo. Por outro lado.099/95 ). com repercussão direta para todos os envolvidos no conflito. não se afastando. o primeiro passo se deu com a edição da Lei de Juizados Especiais Criminais ( Lei n. com a adoção do chamado Novo Modelo de Justiça Penal. Rio de Janeiro: Revan. No Brasil.714/98 ) que aumentou o âmbito de incidência das penas restritivas de direitos.. Recentemente. Nesse diapasão. . o Direito Penal aparece como o grande vilão. 9. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATISTA. o sistema penal brasileiro começa a dar sinais de reação. Sobejamente demonstrado que a quantidade de tipificações de condutas não é indicação segura de Direito Penal evoluído e capaz.. que é reivindicado pela moderna Criminologia e que enfoca o delito fato interpessoal e histórico.

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