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Walter Rodney – Como a Europa Subdesenvolveu a África

p.26-27

Todos os países do mundo ditos subdesenvolvidos são explorados por outros; e o


subdesenvolvimento que hoje escandaliza o mundo é produto da exploração capitalista,
imperialista e colonialista. As sociedades Africanas e Asiáticas seguiam o seu próprio
desenvolvimento quando foram directa ou indirectamente dominadas por países capitalistas. A
partir desse momento a exploração cresceu desenfreadamente e a exportação do sobretrabalho
dessas sociedades contrariou os benefícios do seu trabalho e das suas riquezas naturais. Esses são
elementos integrantes do subdesenvolvimento no sentido moderno da palavra.

p.36-37

A teoria que considera o subdesenvolvimento como resultado da vontade divina é


professada pela corrente racista de estudiosos europeus. Deriva dos preconceitos racistas que
declaram aberta ou implicitamente que os países desenvolvidos são desenvolvidos por causa da
superioridade inata do seu povo e que o atraso econômico da África se deve à inferioridade genética
dos povos negros. O pior é que os povos da África e de outras regiões do mundo colonizado,
desmoralizados e psiquicamente cilindrados, aceitaram em parte a explicação que a Europa lhes
oferecia. Quer isso dizer que o próprio africano passou a duvidar da sua capacidade de transformar
e desenvolver o meio ambiente. Com tais dúvidas, troçam muitas vezes dos outros irmãos africanos
que afirmam que a África pode e há-de ser desenvolvida pelos esforços do seu próprio povo. Se nós
conseguirmos buscar as raízes do subdesenvolvimento, ser-nos-á possível desmistificar as teses
racistas e similares e, ao mesmo tempo, achar a possibilidade de desenvolvimento.

Quando os intelectuais ocidentais não alinham com as teses racistas, confundem contudo a
questão, apresentando como causas do subdesenvolvimento factos que na realidade são suas
consequências. Afirmam, por exemplo, que o subdesenvolvimento da África se deve à falta de
pessoal técnico especializado. É evidente que, por carência de engenheiros, a África não pode
construir pelos seus próprios meios, estradas, pontes e centrais eléctricas. Mas isso não é a causa
do seu subdesenvolvimento, excepto no sentido de que as causas e efeitos se confundem e
integram. O ponto fundamental da questão é que as raízes do subdesenvolvimento de um dado país
africano não podem ser pesquisadas dentro desse mesmo país. Tudo o que se poderá encontrar
serão dos sintomas do subdesenvolvimento e os factores secundários que produzem pobreza.

p.38

[...] As relações comerciais que a África desenvolve com os países ocidentais são de troca desigual e
exploração.

Ainda mais importante que os termos da troca é a apropriação dos meios de procução dum
país por cidadãos do outro. Quando os cidadãos europeus se apropriam das terras e das minas de
África estão sugando dum modo directo o continente africano. Sob o Colonialismo, a apropriação
era total e garantida pelo domínio militar. Hoje, em muitos países de África, a apropriação por
estrangeiros ainda se mantém, apesar de os exércitos e bandeiras terem sido retirados. Enquanto a
terra, as minas, as fábricas, bancos, companhias de seguros, meios de transporte, usinas, etc.,
pertencerem a estrangeiros, as riquezas de África serão completamente canalizadas para o exterior.
Por outras palavras: na ausência de controlo político directo, os investimentos estrangeiros
promoverão a exploração de riquezas naturais e do trabalho africano na produção de valor
econômico que não aproveitará ao continente.

p.39

De há uns tempos a esta parte os investimentos têm adoptado formas muito mais subtis e perigosas.
Abarcam uma vasta gama de matizes, desde a chamada <<ajuda>> até a administração de
companhias por técnicos capitalistas estrangeiros.

p.70.71

Em certa medida pode dizer-se que se atribuiu importância exagerada ao aparecimento de Estados.
Especialmente na Europa, onde o Estado nacional atingiu um estágio bastante avançado e os
europeus tendiam a considerar a ausência ou a presença de Estados bem organizados como um
índice de <<civilização>>. Isso não é completamente correcto porque existiram em África pequenas
unidades políticas não estatais que, entretanto, conseguiram uma cultura material e não material
relativamente avançada. Por exemplo, nem o povo Ibo do Norte da Nigéria nem o Kikuyu
constituíram governos centralizados sobre as suas sociedades tradicionais. Mas ambos tiveram
sofisticados sistemas políticos baseados nos clãs (no caso dos Ibo) em oráculos religiosos e
sociedades secretas. Ambos foram agricultores eficientes e peritos no trabalho do ferro e os Ibo
manufacturavam o latão e o bronze desde o século nono depois de Cristo, se não ainda mais cedo.

p.108

Devido à superficialidade de muitas abordagens do subdesenvolvimento e por causa das falsa


noções daí resultantes, torna-se necessário tornar a acentuar que desenvolvimento e
subdesenvolvimento não são simples conceitos comparativos mas que também contém uma
relação dialética entre si: isto significa que cada um ajuda a produzir o outro por interacção. [...] A
tese aqui defendida é que durante esse período [quatro ou cinco séculos a partir do século XV] a
África ajudou a desenvolver Europa Ocidental na mesma proporção em que a Europa Ocidental
ajudou a subdesenvolver a África.

p. 114-115

Nas sociedades mais simples, onde não havia reis, provou-se impossível aos europeus conseguir as
alianças necessárias para adquirir os carregamentos de escravos na costa. Nas sociedades onde
existiam grupos dominantes, a associação com europeus era facilmente estabelecida; e a partir daí
a Europa radicalizava as divisões de classe internas existentes e criava outras novas.
p.115-116

Em 1720 o Daomé opôs-se à escravatura e foi privado das importações europeias – algumas das
quais entretanto se haviam tornado necessárias. Agaja Trudo, o maior rei do Daomé, considerou
que a procura de escravos por parte dos europeus e a caça de escravos dentro e à volta do Daomé
entreva em conflito com o desenvolvimento do país. Entre 1724 e 1726 saqueou e queimou os fortes
e os campos de escravos dos europeus, e reduziu a escravatura da <<Costa dos Escravos>> a uma
mera gota, bloqueando as fontes de aprovisionamento no interior. Os comerciantes europeus de
escravos ficaram irritados e tentaram subornar alguns colaboradores africanos contra Agaja Trudo.
Falharam na tentativa de o derrubar ou derrotar o Estado de Daomé, mas em contrapartida Agaja
não conseguiu persuadi-los a estabelecer novos tipos de atividade econômica, como por exemplo,
plantações agrícolas locas; e ansiando por adquirir armas de fogo e caurins por imtermédio dos
europeus, deve de consentir o recomeço do tráfico de escravos.

p.116

A escravatura fez surgir muitos complexos de culpa. Os europeus tinham consciência do que era a
escravatura e os africanos sabiam que o tráfico não teria sido possível sem a cooperação de certos
africanos com os negreiros. Para descarregar essa consciência, os europeus tentam alijar para cima
dos africanos toda a culpa do tráfico de escravos. Um autor europeu dum livro sobre a escravatura
(apropriadamente intitulado <<Os pecados dos nossos pais>>, <<Sins of Our Fathers>>) explicou
que muitos outros brancos tentaram convencê-lo a provar que o tráfico de escravos era da exclusiva
responsabilidade dos chefes africanos e que os europeus iam ali simplesmente comprar prisioneiros
– como se caso não fora a procura europeia pudesse haver escravos sentados na praia na ordem
dos milhões. Pontos como esse não são o assunto principal deste estudo mas só podem ser
correctamente compreendidos depois de se ter compreendido que a Europa se tornou o centro do
sistema econômico mundial e que foi o Capitalismo europeu que desencadeou a escravatura e o
tráfico atlântico de escravos.

p. 118-119

Logo que o tráfico de escravos era iniciado em qualquer região de África cedo se tornava claro que
estava para além das possibilidades de qualquer Estado africano individualmente considerado,
mudar essa situação. Em Angola os portugueses empregaram um número desusado de tropas e
tentaram despojar os africanos do poder políticos. O Estado africano do Matamba, no rio Cuango,
fpoi fundado por volta de 1630 como reaccção directa contra os portugueses. Com a Rainha Nzinga
à cabeça, Matamba tentou coordenar a resistência contra os portugueses em Angola. Contudo, os
portugueses conseguiram a superioridade em 1648, o que isolou Matamba. Matamba não poderia
continuar a resistir. Na medida em que se opôs a negociar com os portugueses era objeto da
hostilidade por parte dos Estados vizinhos africanos que se tinham comprometido com os europeus
e com a escravatura. Assim, em 1656, a Rainha Nzinga aceitou ceder aos portugueses maior
concessão ao papel da dominação europeria na economia angolana.
p.120 (pra o pessoal que adora a Holanda)

[...] O ouro africano foi também a principal fonte para a cunhagem de moedas de ouro holandesas
no século XVII, ajudando Amesterdão a tornar-se a capital financeira nessa época.

p.126

A Europa manteve a escravatura em regiões geograficamente afastadas da sua sociedade. Dessa


forma, as relações capitalistas foram desenvolvidas dentro da própria Eueopa sem serem afectadas
adversamente pela escravatura nas Américas. [adversidades da escravatura: pouco
desenvolvimento no capitalismo local e acima de tudo, para os europeus racistas, o enegrecimento
da população era evitado a todo custo]

p.127-128

Contudo, pode afirmar.se sem reservas que o racismo branco que invadiu o Mundo faz parte
integrante do modo de produção capitalista. Não se trata da mera questão de como o branco tratava
o negro. O racismo europeu foi um conjunto de generalização e preconceitos sem nenhuma base
científica mas que foram racionalizados em todas as esferas, desde a teologia à biologia.

p. 128

A opressão do povo africano no campo estritamente racial acompanhou, fortaleceu e tornou-se


praticamente indistinguível da opressão por causas econômicas.

p. 134

Quando se tenta medir os efeitos do tráfico negreiro europeu sobre o continente africano é
essencial ter-se presente que se está a tentar medir os efeitos da violência social e não da troca, em
nenhum sentido normal do termo.

P. 138 -139

A violência também significa insegurança. As oportunidades de violência concedidas pelos


traficantes europeus de escravo tornaram-se um (mas não o único estímulo para o incremento da
violência social entre diferentes comunidades africanas e mesmo dentro duma dada comunidade.
Tomou mais a forma de arremetidas e raptos do que a guerra regular e esse fenómeno agigantou o
medo e a incerteza.
p. 146

Seria preferível, num certo sentido, ignorar esse lixo e afastar os nossos jovens desses insultos; mas,
infelizmente, um dos aspectos do actual subdesenvolvimento africano é o facto de os editores
capitalistas e os académicos burgueses dominarem a cena cultural e assim ajudarem a moldar as
opiniões do Mundo inteiro. É precisamente por isso que, escritos desse calibre que justificam o
tráfico de escravos devem ser denunciados como propaganda racista burguesa absolutamente
afastados da realidade e da lógica. E esta é uma questão não meramente histórica mas da actual
luta de libertação de África.

p.156 – O comércio europeu destruiu a integração comercial regional em África.

p. 157

Na África Oriental, por exemplo, os portugueses usaram da violência para arrancar o comércio
marítimo das mãos dos árabes e dos Swahilis. O desmoronar do comércio africano entre a Costa do
Marfim e a Costa do Ouro seguiu esses moldes.

p. 160 [o colonialismo é que é realmente anti-ecológico, ou sobre aquela ilustração que um


rinoceronte arranca o nariz de um homem africano magro como “ironia anti-especista]

Em segundo lugar, a limitação decisiva do comércio do marfim provém do facto de não ser em nada
determinado pelas necessidades e produção locais. Nenhuma sociedade africana se dedicava à caça
do elefante e recolha do marfim em grande escala antes de ter surgido a procura europeia e asiática.
Qualquer sociedade africana que se dedicasse seriamente à exportação do marfim tinha que
reestruturar a sua economia de modo a tornar lucrativo esse comércio. Isso, por seu lado, conduzia
a uma dependência excessiva e indesejável do mercado externo e da economia estrangeira.

p.193-194

Foram esses os males principais do Capitalismo que convém não serem esquecidos, mas, no balanço
da comparação económica, o que é relevante é que o que foi uma diferença quando os portugueses
aproaram à África Ocidental em 1444, era já um profundo abismo 440 anos após, os homens de
estado europeus se sentaram em Berlim para decidir qual deles iria roubar que parte de África. Foi
este abismo que criou a necessidade e a oportunidade para a Europa alcançar a era imperialista,
colonizar e subdesenvolver a África.

O crescente fosso tecnológico e económico entre a Europa Ocidental e a África fazia parte
da tendência fundamental do Capitalismo de concentrar e polarizar riqueza e pobreza em dois
extremos opostos.
p.195

Imperialismo significa expansão capitalista; significa que os capitalistas europeus (e norte-


americanos e japoneses), foram forçados pela lógica interna do seu sistema concorrencial a procurar
nos países subdesenvolvidos, o controlo do fornecimento das matérias-primas, dos mercados e
campos de investimento lucrativo. Os séculos de comércio com a África contribuíram enormemente
para essa situação quando os capitalistas europeus foram obrigados a encarar a necessidade de se
expandirem largamente para fora das suas economias nacionais.

p.196

O abismo que entretanto se cavara no período do comércio pré-colonial deu à Europa o poder de
impor a dominação política em África.

[...]

Curiosamente, os europeus tentaram muitas vezes justificar moralmente o Imperialismo e o


Colonialismo pelas características da troca internacional tal como era conduzida até às vésperas do
domínio colonial em África. Os ingleses foram os mais acérrimos defensores da tese segundo a qual
o seu desejo de colonização derivava do seu empenho em pôr fim à escravatura no século XIX com
a mesma sanha com que a tinham defendido anteriormente. A evolução em Inglaterra tinha
transformado a necessidade de escravos no século XVII, na necessidade no século XIX de preservar
os remanescentes da escravatura em África para organizar a exploração local da terra e do trabalho.
Portanto, a escravatura foi rejeitada quando se tornou num freio para o desenvolvimento do
sistema capitalista;

p.197

Os sentimentos antiescravatura não passavam, no melhor dos casos, de puramente marginais e, no


pior, de calculada hipocrisia.

p.201

Um racismo penetrante, viciado, esteve sempre presente no Imperialismo como uma variante
independente da racionalidade económica que o gerou. Era a economia que determinava que a
Europa investisse em África e controlasse as matérias-primas e o trabalho no continente. O racismo
confirmava que a forma de controlo seria a dominação colonial directa.
p.205

É uma característica muito vulgarizada do Colonialismo encontrar agentes de repressão dentre as


próprias vítimas coloniais. Contudo, sem os séculos prévios da troca entre a Europa e a África, teria
sido impossível para os europeus o fácil recrutamento dos askaris, carregadores, etc., que tornaram
possível a sua conquista colonial.

p.210-211 (se alguém quer dizer que o proletariado era igualmente explorado em qualquer lugar do
mundo)

Na Europa, após o Feudalismo, o trabalhador não tinha nenhuns meios de subsistência para além
da venda da sua força de trabalho aos capitalistas. Em certa medida, o capitalista era
<<responsável>> na manutenção da sobrevivência do trabalhador, pagando-lhe assim um <<salário
para viver>>. Na África não se passou assim. Os europeus pagavam os salários mais baixos possíveis,
deixando à legislação repressiva a tarefa de manter essa situação.

p.211

A teoria racista de que os negros eram inferiores aos brancos levava à conclusão de que os primeiros
mereciam salários mais baixos; é interessante verificar que as populações árabes e berberes do
Norte de África, ainda que tendo a pele clara, eram trtadas como <<negras>> pelos racistas brancos
franceses.

p.211-212

Os salários recebidos pelos trabalhadores na Europa e na América do Norte eram muito mais
elevados do que os pagos aos trabalhadores africanos, para categorias idênticas. Na Nigéria, o
mineiro de Enugu recebia 4$00 por dia pelo trabalho no subsolo e 2$50 pelos trabalhos realizados
à superfície. Um salário tão miserável como este seria inaceitável para um mineiro escocês ou
alemão, que recebia numa hora aquilo que o mineiro de Enugu ganhava ao fim de uma semana de
trabalho. Existia a mesma disparidade em relação aos estivadores. Os registros da Farrel Lines,
importante companhia americana de navegação, indicam que em 1955 cinco sextos do total
despendido com as operações de embarque e desembarque de carga entre os portos de África e da
América destinavam-se aos trabalhadores americanos, contra apenas um sexto para os africanos.
Note.se que o mesmo volume de carga era embarcado nos dois continentes. Os salários pagos aos
estivadores americanos e aos mineiros europeus asseguravam já de si, uma elevada taxa de mais-
valia para os capitalistas. Queremos aqui destacar apenas a intensidade da exploração que eram
vítimas os trabalhadores africanos

Estas discrepâncias são <<atenuadas>> pelos defensores do Colonialismo, que se apressam


a dizer que o nível e o custo de vida nos países <<civilizados>> era incomparavelmente superios ao
das colónias, todavia, não nos dizem estes senhores que esse nível de vida mais elevado se tornou
possível pela exploração colonial, e que não existia justificação para manter os níveis de vida dos
africanos num ponto tão baixo

P.222

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