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05/02/2018 Repressão às drogas e os efeitos na segurança pública - Jornal do Comércio

JORNAL DA LEI

ESPECIAL Notícia da edição impressa de 23/08/2016. Alterada em 23/08 às 19h42min


Repressão às drogas e os efeitos na segurança pública

Dez anos depois de criada, Lei de Drogas tem e cácia contestada e está em vias de ser substituída
FLAVIA VILELA/ABR/JC

Catharina Signorini, especial

De e cácia contestada e em vias de ser substituída por uma nova legislação, a Lei nº 11.343, popularmente conhecida como Lei de Drogas, foi
sancionada no dia 23 de agosto de 2006 e completa, na data de hoje, a sua primeira década de existência. Neste período, o texto normativo foi
regulamentado pelo Decreto nº 5.912, de 27 de setembro de 2006, e alterado pela Lei nº 12.219, de 2010, e pela Lei nº 12.961, de 2014.

O texto em questão trata da temática de uma forma ampla. Entre as suas determinações está a instituição do Sistema Nacional de Políticas Públicas
sobre Drogas (Sisnad). Além disso, traz a prescrição de medidas para a prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e
dependentes; e o estabelecimento de normas para a repressão ao trá co e à produção não autorizada de drogas.

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Série Drogas (3): Repressão e efeitos na segurança pública

A legislação antecedente datava de 1976; e, para Salo de Carvalho, professor de Direito Penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o texto
normativo que está em vigor operou duas reformas mais contundentes. A primeira delas foi a extinção da previsão de pena privativa de liberdade para
o usuário de drogas. Ou seja, aquele que porta drogas para consumo próprio não pode ser preso. "O artigo 28 da nova lei determina que as penas para
o sujeito que porta drogas para uso pessoal devam ser alternativas e, inclusive, veda, expressamente, a prisão", explica Carvalho, que é autor do livro "A
Política Criminal de Drogas No Brasil - Estudo Criminológico e Dogmático". A segunda reforma diz respeito à previsão de penas maiores para o trá co
de drogas. O artigo 33 da Lei nº 11.343, que trata das modalidades de trá co, aumentou as penas, que antes eram de três a 15 anos e passaram a ser
de cinco a 15 anos de reclusão.

Para o presidente da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (Abramd), Rubens de Camargo Ferreira Adorno, a mudança na Lei
de Drogas, recrudescendo a punição para o trá co e diminuindo para o uso, teve um resultado contrário ao esperado. "Isso tem a ver com um certo
olhar que a polícia tem sobre jovens da periferia e negros. Alguns estudiosos falam em racismo institucionalizado. O jovem que vive na periferia ou que
é pobre e tem uma pele mais escura, se for encontrado com poucas gramas de maconha, acaba sendo enquadrado como tra cante." O resultado
disso, conforme o sociólogo, é o aprisionamento em massa de jovens pobres e negros no País. "É uma das maiores injustiças sociais contemporâneas
que ocorrem no Brasil. Os sociólogos costumam chamar de violência estrutural. É aquela violência que o Estado promove contra as classes
desfavorecidas."

A polêmica a respeito da legalização do consumo de drogas está vinculada ao uso das substâncias para ns recreativos, sendo esta a única nalidade
vedada pela legislação. A decisão pela manutenção, ou não, da política de repressão aos entorpecentes apresenta re exos nas áreas de saúde,
economia e, principalmente, na segurança pública, cuja luta contra o trá co é a que gera maiores perdas, tanto econômicas quanto sociais.

A repressão ao trá co no Brasil


É inquestionável que o trá co de drogas apresenta re exos em diversas áreas, sendo
mais intensos na segurança pública. Anualmente, milhares de pessoas são presas pela
prática deste crime, e milhões de reais são gastos para a repressão do ilícito e de
outros crimes, aos quais o trá co serve como alicerce, como, por exemplo, lavagem de
dinheiro, evasão de divisas, homicídios, e outros delitos de natureza patrimonial.

Falar sobre trá co de drogas remete, geralmente, a uma determinada imagem social,
construída ao longo do tempo, vinculada à gura do tra cante. Ou seja, em regra, se
imagina aquele sujeito que realiza um grande comércio de drogas e que participa de
uma organização criminosa. Para o jurista Salo de Carvalho, é a intenção de lucro que
move as pessoas a fazerem essa imagem do trá co. "As pessoas não sabem o que é
trá co. Elas têm uma imagem, que, na verdade, é uma imagem distorcida de uma
modalidade. Têm outras situações com grau muito inferior de reprovabilidade e que
possuem a mesma pena", enfatiza.

Em se tratando desse tipo penal, os criminosos não possuem um per l homogêneo,


variando, inclusive, de acordo com a substância tra cada. Para o delegado da Polícia
Civil gaúcha Mario Souza, quando se trata de crime organizado, existe uma diferença
entre o per l do criminoso que faz parte de uma quadrilha que tra ca drogas sintéticas
- ecstasy, lança-perfume e LSD - e o que integra uma quadrilha que trabalha com as
substâncias tradicionais - crack, cocaína e maconha. Geralmente, o tra cante de
drogas sintéticas não anda armado, circula no meio universitário, tem mais condições
nanceiras e frequenta lugares que são mais caros. Já aquele que tra ca drogas
tradicionais costuma fazer parte de uma facção, andar armado, e possui menos
condições nanceiras.

A Lei de Drogas, em seu artigo 33, estabelece que 18 condutas podem con gurar
trá co de drogas, e a todas elas é imposta a mesma pena, de cinco a 15 anos de
reclusão. Partindo desta premissa, quem fornece gratuitamente drogas a alguém
estará sujeito à mesma punição de quem importa as substâncias. Neste sentido,
Carvalho acredita que existe uma notória desproporcionalidade, pois a lei punirá com a
mesma pena um sujeito que lucra com a atividade e outro que, eventualmente, em uma
festa, fornece drogas a outra pessoa sem qualquer interesse nanceiro.

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A a rmação de que a lei é desproporcional, ao elencar 18 verbos (veja arte) que con guram o trá co de drogas, é contestada por Souza. Para o diretor
da Divisão de Investigações do Departamento Estadual de Narcotrá co (Denarc), é necessário visualizar a questão a partir de uma situação especí ca.
"Não é verdade, é só mudar o caso concreto. Dar drogas para uma criança de 12 anos ou vender para um sujeito que já é viciado, o que ofende mais a
sociedade? Dar drogas para a criança", enfatiza. Souza argumenta que a questão da pena será avaliada pelo juiz, em outra fase da aplicação da lei.

Quadrilhas estão cada vez mais violentas


Outra percepção constada pelas autoridades policiais é que as quadrilhas estão adotando, cada vez mais, um comportamento violento. "As quadrilhas
estão brigando cada vez mais entre elas", a rma o delegado da Polícia Federal Roger Cardoso. Algumas vezes, a violência não está na reação contra a
polícia, mas sim na defesa de território.

A conduta violenta pode ser veri cada, principalmente, em duas situações: na utilização de armamento pesado - muitas vezes, oriundo do trá co
internacional de drogas - e na prática de homicídio. Sobre o armamento pesado, Cardoso conta que, há dez anos, não se ouvia falar da apreensão de
um fuzil em Porto Alegre, mas que o quadro mudou. "Isso era uma coisa muito rara. Hoje, é comum. Acredito que 90% dos casos, ou mais, estão
relacionados a quadrilhas do trá co de drogas." A percepção do delegado é a mesma de Souza, que a rma ter constatado um aumento de apreensões
de fuzis pela Polícia Civil, principalmente no âmbito do Denarc.

Compartilhamento de informações de inteligência é fundamental para ações policiais


Quando o assunto é repressão às drogas, a atuação integrada das polícias Federal, Civil e Militar é fundamental. O
contato permanente, principalmente na área de inteligência, com troca de informações, auxilia na tomada de
decisões.

O foco principal da atuação da Polícia Federal (PF) é o trá co internacional. Em algumas situações, também atua no
trá co doméstico, mas a prioridade é scalizar a droga que entra e sai do País. Conforme Roger Cardoso, delegado
da PF no Rio Grande do Sul, as delegacias localizadas em zonas de fronteira são centros integrados de repressão
ao trá co de drogas. "Todos trabalhamos juntos com essas unidades, principalmente no que se refere à inteligência
policial", esclarece.

A PF também trabalha com o objetivo de apreender o patrimônio que sustenta o trá co. Entre 2010 e 2015,
sequestrou de tra cantes um total de R$ 739.693.111,49, contabilizando bens e valores. Deste montante, R$
29.610.693,00 são provenientes das ações no Estado.

A scalização também se dá na malha rodoviária nacional. O trabalho é feito pelas polícias rodoviárias dos estados
e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). No que diz respeito à atuação da PRF, o inspetor Antônio Marcos Martins
Barbosa, chefe substituto da seção de policiamento e scalização do órgão no Rio Grande do Sul, explica que a
principal medida é a scalização por amostragem. "A entrevista denuncia muito quando a história não bate. Vai para
onde? O que transporta? O que vai fazer lá? Quando percebemos que a história não bate, vamos além e veri camos
para-choque, tanque de combustível, bancos, painel, locais em que costumam esconder essas substância. Também
atuamos na área de inteligência, que é um dos principais trabalhos hoje e, apesar de não desenvolvermos um
trabalho conjunto com a rodoviária estadual, porque tanto eles quanto nós temos carência de efetivo, mantemos o
contato e, sempre que uma precisa da outra, esse auxílio é imediato", ressalta.

No âmbito da Polícia Civil gaúcha, o Departamento Estadual de Narcotrá co (Denarc) tem por atribuição atividades
referentes ao combate e à investigação dos delitos de trá co e uso indevido de substâncias entorpecentes. "A
vocação inicial do departamento é o combate ao crime organizado, ao narcotrá co, às facções mais perigosas que
atuam em todo o Estado e que, eventualmente, fazem o abastecimento de tra cantes menores", explica o delegado
Mario Souza. O Denarc se subdivide em Divisão de Prevenção e Educação (Dipe), Divisão de Informações Criminais
(DIC), Divisão de Investigações do Narcotrá co (Dinarc), e Divisão de Assessoramento Especial (DAE).

Além do combate ao narcotrá co organizado, o Denarc também atende às denúncias da comunidade, que são
feitas por meio do telefone 0800-518518. A ligação, gratuita, é atendida por um policial de investigação, e não é
possível identi car de onde a chamada foi realizada. O delegado também enfatiza que todas as denúncias são
veri cadas, sendo que, na Capital e na Região Metropolitana, a ocorrência é atendida pelo próprio Denarc, já no
Interior, é solicitado que outros órgãos da Polícia Civil façam a veri cação. O departamento também dá atenção
especial a uma operação que foi batizada de "Anjos da Lei", que combate o trá co de drogas nas proximidades de
escolas.

A droga que chega ao Estado é, geralmente, para ser consumida aqui. "Somos um estado consumidor. Atualmente, esta é a nossa vocação", enfatiza. A
constatação do delegado é compartilhada pelo inspetor Barbosa, que explica que o destinatário nal, em sua grande maioria, é o consumidor gaúcho.
"O cigarro, sim, boa parte é produzida no Paraguai e atravessa o Estado para ir ao Uruguai. Há várias quadrilhas especializadas em fazer esse
transporte, mas, quando se trata de droga ilícita - como crack, maconha, cocaína, ecstasy -, normalmente, o destino nal é o Rio Grande do Sul."

Em agosto de 2015, a PF gaúcha apreendeu, em uma chácara no interior do Alegrete, quase meia tonelada de cocaína. Segundo Cardoso, a droga era
produzida na Bolívia e chegava ao Brasil de avião. Depois, seria levada por caminhões até São Paulo, onde seria comercializa. "Imagino que, hoje, a
fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e com a Bolívia é relativamente bem protegida por diversos órgãos de segurança. Portanto, acredito
que esses tra cantes internacionais estão veri cando novas rotas que possibilitem a chegada da droga, principalmente, na região Sudeste, que é o
maior mercado consumidor do Brasil", explica. Para o delegado, a situação não era comum, mas é possível que passe a se repetir no Rio Grande do
Sul.

É
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'Não é o uso de drogas que causa a violência. É a guerra às drogas que causa a violência'

Estudiosos da área apontam a proibição das drogas como um dos motivos dos altos índices de violência
ALEXANDRE LIMA/AFP/JC

Juliano Tatsch

É quase um consenso entre estudiosos da área que a relação entre as drogas e os índices de violência passa pela proibição de uma grande gama de
entorpecentes. Sem o comércio legal e regulamentado, criou-se um mercado paralelo, alimentado pela grande quantidade de consumidores, o qual
fomenta a rede que, literalmente, municia a violência endêmica no País: o trá co de armas.

Para o sociólogo e doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) Rubens de Camargo Ferreira Adorno, desestruturar o trá co de
drogas geraria um efeito direto nos números da violência urbana brasileira. "Acho que grande parte da violência, em torno de 50% a 60%, seria
combatida, pois é o trá co de drogas que propicia o trá co de armas. Grande parte do armamento mais pesado e so sticado é nanciado pelo trá co
de drogas", a rma.

O pesquisador, que é presidente da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas


(Abramd), destaca outro impacto importante que uma política antiproibicionista, com um
consequente abalo das estruturas criminosas organizadas, causaria. "Um fator importante seria
fazer com que a polícia realmente trabalhe para a segurança dos cidadãos. Outro problema é o fato
de ainda termos polícias militares. Com o conceito militar, a polícia funciona a partir da ideia de um
inimigo comum. Hoje, o grande inimigo é o tra cante, o usuário de drogas, é essa gura pintada
como 'marginal'. Precisamos de uma polícia que funcione a partir de um conceito de segurança e
não de um inimigo comum. Segurança é algo que precisa ser compartilhado. Esse seria um grande
passo rumo a paci cação da sociedade brasileira."

Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2015, o trá co de drogas representou 24,8%
dos atos infracionais cometidos no Brasil em 2013. O crime só ca atrás em ocorrências ao delito de
roubo. No Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública, no
ano passado, foram registradas 20.100 ocorrências relacionadas às drogas (posse e trá co). Destas, 3.049 apenas em Porto Alegre. A grande
quantidade de casos re ete no sistema prisional. Atualmente, conforme o Ministério da Justiça, 28% dos presos no Brasil cumprem pena por crimes
relacionados às drogas.

Adorno levanta uma outra questão pouco citada quando se fala sobre o comércio e uso de entorpecentes e o impacto na criminalidade. Uma das
linhas de pesquisa do acadêmico trata do aparecimento do crack na cidade de São Paulo. Segundo ele, desde o surgimento da droga, entre
populações em situação de rua ou em bairros periféricos, houve uma demonização da substância, transmitindo-se, desde então, uma imagem,
inclusive veiculada pela mídia, de que o crack era uma droga violenta. "As pesquisas mostram que os próprios usuários passaram a incorporar essa
imagem da violência. Não era o efeito da droga em si, mas como isso foi produzido", diz.

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Nas periferias das grandes metrópoles, drogas e violência caminham lado a lado. O imaginário de que é dessas áreas que saem os agentes
causadores da violência em todas as regiões já se internalizou na sociedade brasileira. O presidente da Abramd destaca o importante papel que os
meios acadêmicos têm em se aproximar das comunidades mais carentes e desmiti car essa relação. "Na mentalidade das periferias, a violência e as
mortes estão ligados às drogas. Como se drogas causassem isso. A droga é o grande mal. Temos de desconstruir essa ideia. Não é o uso de drogas
que causa violência. É a guerra às drogas que causa a violência. Precisamos desconstruir a ideia de que é a droga que mata. Não, quem mata é a
polícia ou os tra cantes em nome da guerra às drogas."

Combate nas cidades não pode recair apenas sobre a polícia


Quando se fala em medidas de combate ao trá co de drogas nas grandes cidades, geralmente se liga as ações com a atuação das polícias civis e
militares. O trabalho dos órgãos policiais é apenas o mais visível de uma rede que, ao menos em um cenário ideal, deveria ser composta por agentes
das áreas da saúde, da educação, da assistência social, entre outras.

O gaúcho José Mariano Beltrame está a frente, desde 2007, da Secretaria de Segurança Pública do Rio Janeiro. Sob a sua responsabilidade, estão as
políticas e ações públicas de combate à violência na segunda maior cidade do País, com mais de 6,4 milhões de habitantes e com áreas de
permanente con ito entre facções pelo comando do trá co de drogas.

Trabalhando com segurança pública desde 1981, Beltrame é hoje um ferrenho defensor de novas formas de se pensar o combate às drogas e ao
trá co. "Pelas vidas perdidas, entre policiais, inocentes e marginais, temos hoje mais derrotas do que vitórias."

O secretário carioca aponta a não regulamentação do artigo 144 da Constituição Federal, que trata de segurança pública, como um vício de origem nas
atribuições dos órgãos da área no Brasil. "Isso mostra o desinteresse que existe na segurança pública. Diz lá de maneira bonita que a segurança
pública é obrigação do Estado e responsabilidade de todos. O que é um dever de todos? Como pode ser medido e calculado em ações que sejam
mensuráveis? Aí ca nessa mesmice, a polícia enxugando gelo. O próprio conceito de ordem pública é extremamente subjetivo. Nessa esteira, estamos
perdendo o jogo", a rma.

Para o doutor em Direito Salo de Carvalho, a invisibilidade dos grandes importadores de drogas é outro fator-chave que impede um combate e ciente
ao trá co. "O grande nanciamento do trá co e do comércio de drogas cai naquilo que se chama de cifra oculta. Obviamente, há um interesse
econômico muito forte por trás, é um comércio extremamente lucrativo", observa.

Carvalho relaciona a criminalização das drogas com a violência urbana e enfatiza o papel nada honroso que alguns agentes públicos possuem neste
cenário. Segundo ele, a criminalização dos entorpecentes gera não somente um comércio ilícito lucrativo, mas também uma rede ilícita lucrativa, na
medida em que o dinheiro do trá co precisa ser "lavado". Assim sendo, conforme o pesquisador, a garantia da segurança da droga passa também pelo
trá co de armas. "A criminalização do comércio de drogas gera uma criminalidade secundária extremamente violenta e altamente lucrativa que acaba
criando uma blindagem no próprio debate da legalização. Isso sem falar, ainda, na rede de corrupção dos agentes da polícia. Não há, é impossível
termos, um comércio com o volume de drogas, com a importação, com as fronteiras que nós temos, sem uma blindagem das próprias forças de
segurança."

'O crime violento se cria onde o Estado não está'

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Para Beltrame, é necessário olhar para a segurança como um todo


MARCELO G. RIBEIRO/JC

Superior direto das polícias civil e militar do Rio de Janeiro há nove anos, Beltrame não nega a existência da corrupção policial. O secretário, porém,
salienta que o sistema brasileiro de segurança pública coloca sobre as costas do agente de segurança uma responsabilidade muito grande. "Quando
pensamos em alargar os horizontes, não dá para pensar em questões particulares, e sim em todo o conceito de segurança pública. Hoje, segurança
pública é sinônimo de polícia", diz.

Para ele, no universo de instituições com herança do Estado totalitário existente no Brasil durante o regime militar (1964-1985), a polícia é a parte mais
fraca. "Tudo que não funciona é jogado para a polícia. O adolescente não tem pai nem mãe, comete infração, vai para a polícia. E depois? A polícia
passa a ser o medidor da ine ciência de todo esse sistema. No ano passado, levamos 11,5 mil jovens para delegacias. O que foi feito com eles? Onde
estão? Que tipo de tratamento tiveram? Há um foco na polícia, e tem que ter, mas não há o mesmo foco no sistema de segurança. Se carmos só
nisso, você pode me cobrar: a situação só vai piorar", a rma.

Beltrame aponta a necessidade de se olhar para a segurança pública como um ponto essencial para o desenvolvimento. Ele exempli ca dizendo que
milhões de pessoas saíram da linha da pobreza no Brasil nos últimos anos, entretanto, os números de violência não diminuíram. "A discussão é mais
profunda, perpassa a questão especí ca de polícia, que tem seus problemas, inclusive de corrupção, mas o discurso não pode ser exclusivista.
Estudiosos pensam no fenômeno da violência, não só na polícia."

Para o gestor, o Estado brasileiro agora arca com os custos de décadas de descaso com as questões sociais e, mesmo precisando entender bem
como se processa a violência, não é a polícia que vai resolver o problema. "É uma situação bem complicada, e os governos são os culpados. Eles
isolaram essas pessoas, criaram guetos, e hoje temos muita gente desempregada, que foi para o vício, para o crime, e o País não acordou ainda para
esse tema. Falta integração, transparência e objetividade. Normalmente, o crime violento se cria onde o Estado não está."

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