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Misael

Batista
do
Nascimento

Para
Que
Todos
Sejam

UM
Para Que Todos
Sejam UM
Um Estudo Sobre Unidade e
Diversidade

... a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu
em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu
me enviaste. Jesus Cristo (João 17.21)

Misael Batista do Nascimento


1

Introdução
O presente texto nasceu de algumas palestras que ministrei em
um retiro em Caldas Novas-GO., nos dias 15 e 16 de novembro
de 1996, com a participação das mocidades presbiterianas de Vila
Formosa, Anápolis-GO., e Gama-DF.
Fui convidado a abordar a temática da unidade e da diversi-
dade, tendo em vista a necessidade específica da Igreja de Anápolis,
que estava recuperando-se de uma dolorosa divisão. Naqueles dias
pude, junto com aqueles jovens, aprofundar alguns conceitos e
levantar algumas questões, sempre buscando entender o que a
Bíblia tem a dizer sobre o assunto. E o resultado foi edificante,
graças a Deus.
Depois daquele acampamento, participando da equipe pas-
toral da Igreja Presbiteriana Central do Gama, pude perceber o
quanto precisamos praticar a Unidade e respeitar a Diversidade.
Uma vida em contato com as outras pessoas, e com nós mesmos,
torna imperativa a compreensão e a vivência dessa dinâmica da
união e da aceitação, do Uno e do Múltiplo dentro do Corpo de
Cristo.
Admito que o assunto me apaixona. O amigos já sabem que
a eclesiologia é minha disciplina preferida. Por isso meu ânimo
(talvez presunção adolescente) de publicar estes escritos, numa
forma muito parecida com as palestras originais. Nada muito
extenso ou polido; nada selado com o imprimatur da infalibili-
dade. Tudo questionável à luz das Escrituras. Desta forma, escrevo
não apenas para compartilhar letras, mas para aprender com a
correção dos irmãos. E, quem sabe, para ajudar alguém. Quem eu
não sei. Mas Deus, às vezes usa galhos secos e tortos para produzir
calor e luz. Espero que assim seja com este livreto.
Sou grato aos irmãos de Anápolis, que, de certo modo, foram
os fomentadores destas reflexões. Agradeço também à Mirian,
Carol e Bruna, minha família, por compreenderem minha neces-
sidade de usar tanto tempo escrevendo, e por me amarem assim
mesmo.
O que escrevi, escrevi (Jo 19.22).
Misael Batista do Nascimento
Abril de 1998
3

01
O Propósito de Deus para a Igreja

O tema proposto para nossa análise e reflexão é “Para que


Todos Sejam UM: Um Estudo Sobre Unidade e Diversi-
dade da Igreja”. Esse é um dos aspectos mais práticos da vida cristã
e, para mim, um dos mais empolgantes. Gosto de estudar sobre a
Igreja porque ela é, na minha opinião, um dos temas centrais das
Escrituras e, principalmente no Novo Testamento, ocupa um dos
mais importantes lugares dentro do Plano de Deus.
A Igreja é a noiva de Cristo. Nos capítulos finais de Apocalipse
João tem uma magnífica visão: “Então veio um dos sete anjos que
têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo,
dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro” (Ap
21.9). Em 19.7-8 lemos acerca de uma celebração: “Alegremo-
nos, exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas
do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi
dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o
linho finíssimo são os atos de justiça dos santos”. Tais designações
mostram que o Senhor Jesus Cristo nos considera importantes e
amados. O noivo ama a noiva e deseja desposá-la. Como noivo
“Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que
a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água
pela palavra, para a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mácula,
nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef
5.25-27).
O plano de Deus é que a Igreja ocupe papel central na mani-
festação de sua fulgurante glória nesses finais dos tempos. Uma das
4 dimensões do “mistério” que esteve oculto e que só se revelou após
a ressurreição é esta: “para que, pela igreja, a multiforme sabedoria
de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades
nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que se estabele-
ceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3.10-11, grifo meu).
Quero chamar a atenção, em Ef 3.10, para a expressão “mul-
tiforme sabedoria”, assim traduzida nas versões Contemporânea,
Nova Versão Internacional, Revista e Atualizada e Revista e Cor-
rigida. Na Bíblia na Linguagem de Hoje lemos “a sabedoria de
Deus em todas as suas formas”, e na Bíblia Ecumênica “a múltipla
sabedoria de Deus”. A expressão grega utilizada (polupoikilow)
significa literalmente algo multicolorido, de muitas faces, e era uti-
lizado para descrever roupas (Rienecker & Rogers, 1985: 32).
William Hendriksen, estudioso do Novo Testamento, afirma
que aqui o apóstolo Paulo busca descrever a “infinita diversidade
e a resplandecente beleza da sabedoria de Deus” (Hendriksen,
1992: 200). A sabedoria de Deus, afirmou Paulo, é cheia de
beleza, colorido e diversidade. E ele planejou na eternidade que
essa sabedoria fosse manifesta a todas as dimensões mediante o seu
povo, a Igreja.
Essa é a questão. A Igreja é o instrumento revelador, o canal
mediante o qual Deus mostra ao mundo o quanto ele é sábio,
bondoso, justo, santo, amoroso e perfeito. A Igreja é, conforme
veremos adiante, a encarnação de Cristo na terra – o seu Corpo.
Acerca disso alguém levantou importantes questões: “Onde está
Deus no mundo? Como é Ele? Não podemos apontar mais para o
Santo dos Santos ou para um carpinteiro de Nazaré. Nós formamos
a presença de Deus no mundo, mediante a habitação do Seu Espírito”
(Brand & Yancey, 1989: 212, grifo meu).
É sob esse enfoque que analisaremos o tema Igreja: Unidade
e Diversidade. Há aqui uma revelação de um grande mistério
divino. Há aqui um chamado ao crescimento espiritual e à missão:
a Igreja é Cristo no mundo. A abordagem se dará numa inversão:
primeiro verificaremos a diversidade, e só então trataremos da
questão da unidade, com suas devidas implicações e aplicações.
5

02
Criação e Diversidade

V oltando a Ef 3.10, observamos que a Igreja tem algo muito


específico a expressar: a multiforme ou multicolorida sabe-
doria de Deus. Entendo que “multiforme” é uma das mais impor-
tantes palavras bíblicas no contexto da diversidade da Igreja.
Ela aponta para o fato que Deus mesmo é cheio de criatividade
e multiforma. Ele é um Deus multifacetado, uma pessoa cheia
de beleza, glória, majestade e virtudes criadoras. Isso é evidente
quando analisamos a estrutura do próprio homem, de acordo com
as observações de Brand e Yancey:
As células ósseas vivem em rígida estrutura que irradia força.
Cortados em secções transversais, os ossos parecem-se com os anéis
formados pelos troncos das árvores, sobrepondo força e oferecendo
inflexibilidade e firmeza. Em contraste, as células da pele formam
padrões ondulados possuidores de maciez e textura que se elevam e
se abaixam, dando forma e beleza aos nossos corpos. Elas se curvam
e formam saliências em ângulos imprevisíveis, de forma que as
impressões digitais de cada pessoa – para não mencionar a sua face
– são peculiares.
Parece certo presumir que Deus gosta da variedade, e não apenas no
nível celular. Ele não parou quando atingiu mil espécies de insetos;
fez aparecer, como por mágica, trezentas mil espécies, só de besouros
e de gorgulhos [...] Ele esbanjou cor, desenho e textura no mundo,
dando-nos pigmeus e watusis, escandinavos louros e italianos more-
nos, russos de ossos longos e pequenos japoneses” (Brand & Yancey,
1989: 29, 30, 34).
6 No exercício de sua “multiforme sabedoria”, Deus criou tudo
o que existe. As Escrituras enfatizam a necessidade de observarmos
Deus como Criador: “Lembra-te do teu Criador nos dias de tua
mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos nos
quais dirás: Não tenho neles prazer” (Ecl 12.1, grifo meu). A fé no
Deus Criador nos fortalece até mesmo para que enfrentemos as
lutas cotidianas: “O nosso socorro está em o nome do SENHOR,
criador do céu e da terra” (Sl 124.8).
De um modo mais específico, Deus é o criador de um povo. Em
Is 43.15 encontramos a sua solene asserção: “Eu sou o SENHOR,
o vosso Santo, o Criador de Israel, o vosso Rei”. Vemos que nesse
texto Yahweh cria um povo, Israel, e revela-se a ele como o Santo
e seu Rei. Em outro lugar achamos um aprofundamento desse
conceito. Além de Santo e Rei, Deus é o esposo de seu povo: “Porque
o teu Criador é o teu marido; o SENHOR dos Exércitos é o seu
nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; ele é chamado o Deus
de toda a terra” (Is 54.5).
Em suma, fomos criados por Deus. E mais especificamente, foi
ele quem criou o seu povo, a Igreja, e nesse processo ele usou sua
sabedoria “multiforme”.
Qual a implicação prática disso? Quando a Bíblia afirma que
fomos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-27),
isso significa que como criaturas dele nós refletimos muitos dos seus
traços de raciocínio, virtudes e caráter, mesmo que numa gradação
muito pequena. E não apenas isso. Somos “imagem de Deus” nas
diferenças, ou peculiaridades que possuímos. Ele fez a cada pessoa
como uma obra de arte única, de modo que em cada uma há traços
distintivos, nuances próprios, “toques especiais” provindos da mão
do Artista Eterno:
Pois tu formaste o meu interior. Tu me teceste no seio de minha
mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravi-
lhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o
sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no
oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Sl
139.13-15.
Há alguém insatisfeito com suas peculiaridades e diferenças?
Às vezes fantasiamos, achando que “se fôssemos como fulano
seríamos melhores, mais queridos ou mais felizes”. Ou é possível
que verdadeiramente detestemos a nós mesmos. Alguns pais fazem 7
questão de “deixar claro” para seus filhos que eles são idiotas,
imprestáveis, feios, ridículos, totalmente ineptos e inadequados
— pessoas que “não prestam e nunca prestarão pra nada”. Isso
às vezes resulta numa auto-imagem intensamente prejudicada. A
canção que diz que “você tem valor, pois o Espírito Santo se move
em você” expressa a verdade bíblica de que Deus nos valoriza
muito, do jeito que somos porque, num certo sentido, elimi-
nando-se as deformações decorrentes do pecado, ele fez questão de
nos criar “como somos”.
03
Diferenças e Tecitura Emocional

S omos diferentes também graças ao modo como são estrutura-


das as nossas emoções. As experiências que tivemos em nosso
ambiente familiar e nossas relações com outras pessoas em nossa
primeira infância influem tremendamente em nossas vidas,
tecendo as redes que formam o nosso caráter. Tais influências
podem ser negativas ou positivas. Falando de Amom, rei que reinou
dois anos em Jerusalém, as Escrituras afirmam que ele “fez o que
era mau perante o SENHOR, como fizera Manassés, seu pai” (2
Cr 33.22, grifo meu). Acerca de Josafá, rei justo que reinou vinte
e cinco anos em Jerusalém, lemos que “ele andou no caminho de
Asa, seu pai, e não se desviou dele, fazendo o que era reto perante
o SENHOR” (2 Cr 20.32, grifo meu).
A Bíblia, no entanto, discorda de algumas correntes psicológi-
cas, ao ensinar que as influências das experiências e do ambiente,
apesar de relevantes, não são determinantes para o caráter da pessoa.
O ser humano, com o auxílio da graça divina ou sob a ingerência
da natureza pecaminosa, pode reagir a elas. Assim é que vemos nos
livros dos Reis e das Crônicas filhos maus de pais piedosos e bons
e filhos bons de pais maus (Josias, um rei bom, filho de Amom,
um péssimo rei – 2 Cr 33.22, 34.1-2. Jeocaz, um rei mau, filho de
Josias, um rei bom – 2Cr 32.1,5). Isso significa que não podemos
colocar a culpa de nosso mau procedimento em nossos “traumas”,
“experiências negativas” ou “influências ruins de um ambiente
familiar problemático”. Precisamos nos esforçar por amadurecer e
crescer, de acordo com a vontade de Deus:
Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e cumprirdes tudo quanto
está escrito no Livro da lei de Moisés, para que dela não vos aparteis,
nem para a direita, nem para a esquerda. Js 23.6, grifo meu.
Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante de
meus olhos; e cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem. Is 1.16-
17, grifo meu.
Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que
muitos procurarão entrar e não poderão. Quando o dono da casa se
tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes
a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta, ele vos responderá: Não
sei donde sois. Então direis: Comíamos e bebíamos na tua presença,
e ensinavas em nossas ruas. Mas ele vos dirá: Não sei donde vós
sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniquidades. Lc
13.24-27, grifo meu.
No dia-a-dia da igreja vemos as diferenças motivadas pelos
diversos níveis de maturidade emocional. No entanto, devemos
ter em mente que a imaturidade e, principalmente, as dificuldades
advindas de bloqueios emocionais devem ser vencidas pelo poder
de Cristo em nós.
Satanás e a deturpação das diferenças
Satanás sabe que as nossas diferenças são uma expressão da beleza
criativa de Deus, e por isso busca deturpar esse aspecto da “mul-
tiforme sabedoria” divina. Por exemplo, ele vê alguém com um
temperamento forte e o estimula a ser um déspota, cheio de ambi-
ção por poder. Ele verifica que alguém é introvertido e cuidadoso,
devido a situações de sua infância, e insufla nessa pessoa tendências
e hábitos degeneradores: covardia, bajulação, vícios, pensamentos
impuros e violentos etc. Ele observa que alguém é dado a respon-
der rapidamente aos desafios e transforma esta virtude em preci-
pitação, para que a causa de Cristo seja movida na direção oposta
à vontade de Deus (1 Cr 21.21; Mt 16.21-23).
Na Igreja é comum Satanás trabalhar por meio da imaturidade
e do pecado. Ele não apenas estimula o pecado (pois é chamado
de tentador em Mt 4.3 e 1 Ts 3.5), como também opera através
do pecado. Por isso é que a Escritura ensina-nos que quando peca-
mos, estamos “dando lugar” ao diabo (Ef 4.27). Assim é que, com
base nas diferenças pessoais, muitas divisões ocorrem nas igrejas locais.
Superficialmente, os motivos dessas divisões são a “doutrina” ou
10 o “sistema de governo”, ou o “modo de ministrar as ordenanças”.
No fundo, o problema relaciona-se ao caráter, à formação emocio-
nal deformada, à carnalidade incitada por Satanás e pelo inferno:
Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e
sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a
verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena,
animal e demoníaca. Pois onde há inveja e sentimento faccioso, aí
há confusão e toda espécie de coisas ruins. Tg 3.14-16.
11

04
A Unidade e a Obra de Cristo

C hegamos agora ao ponto de analisarmos o significado da


expressão “sabedoria de Deus” de Ef 3.10. Já vimos que ela é
“multiforme”, e daí as diferenças. Agora precisamos entender em
que consiste tal sabedoria divina. Para isso vamos voltar, na mesma
carta aos Efésios, ao capítulo 2, analisando-o em dois blocos dis-
tintos, os vv. 1-10 e 11 a 22.
O capítulo 2 de Efésios apresenta-nos um paralelismo temá-
tico. De modo geral, vemos aqui uma ênfase na salvação, reconhe-
cida nos diversos termos teológicos vinculados à soteriologia, quais
sejam, vida (vv. 1, 5), salvos (vv. 5,8), paz (vv. 14, 15, 17) etc.
Nos dois blocos de versículos, lemos acerca de nossa situação
sem Cristo: individualmente estávamos mortos em nossos delitos
e pecados, segundo o curso do mundo, do diabo e da carne, e por
conseguinte éramos “filhos da ira” (Ef 2.1-3).
Não é patente hoje, ao abrirmos os jornais, que a humanidade
mostra cada vez mais evidências de que é “filha da ira”? Obser-
vando a exacerbação dos índices de violência, o recrudescimento
do esoterismo e satanismo, a derrocada da ética e o fortalecimento
de uma cultura que a cada dia mostra-se mais anticristã, a impres-
são que temos é que o inferno subiu à terra e que as portas do hades
estão escancaradas em cada esquina. Daniel Goleman, autor do
best-seller Inteligência Emocional, capta essa deterioração de modo
correto:
As notícias de todo dia chegam pejadas de informações sobre a
desintegração da civilidade e da segurança, uma onda de impulso
mesquinho que corre desenfreada. Mas as notícias apenas nos
12 refletem de volta, em maior escala, um arrepiante senso de emoções
descontroladas em nossas vidas e nas das pessoas que nos cercam.
Ninguém está protegido dessa instável maré de descontrole e arre-
pendimento, que alcança nossas vidas de uma maneira ou de outra
(Goleman, 1995: 10).
Sem Cristo, estávamos “mortos” (Ef 2.1). Isso denota a morte
espiritual mas vai além: fala da morte de nossa qualidade existen-
cial. “Vidas mortas” (um oxímoro) é a temática de grande parte
das músicas jovens, que expressam a realidade sem Cristo, o vazio
e a morte.
A realidade sem Jesus é também de alienação, solidão, desespero,
dificuldades relacionais e distanciamento (v 12-13). O homem pós-
moderno vive isolado, sozinho. Chafurda-se em atividades e diver-
sões, ou no consumo de toda parafernália eletrônica no intuito
de “esquecer o dia-a-dia”. Isso na verdade é uma outra forma de
“esquecer quem é, para quê existe e para onde vai”.
Mas graças a Deus por Jesus Cristo! Deus nos deu vida junta-
mente com ele. Fomos salvos pela graça, dignificados, valorizados,
amados e colocados numa posição de autoridade espiritual —
assentados com Cristo nos lugares celestiais, para praticar as boas
obras que Deus tem preparado para nós (vv 4-10). Cada pessoa,
quando crê em Cristo, aceitando-o como seu Senhor e Salvador,
chegando a ele com arrependimento sincero e desejo de profunda
entrega e mudança, com fé autêntica, recebe gratuitamente tal
salvação! O Deus vivo se alegra em ministrar vida em nossos
corações, em tirar-nos da escuridão, em livrar-nos de Satanás, em
ajudar-nos a vencermos a nós mesmos — nosso pecado arraigado,
nossas tendências malignas, nossos ódios guardados, nossas amar-
guras enraizadas. O Senhor tem prazer em salvar para que sejamos
bênçãos em suas mãos:
E há de acontecer, ó casa de Judá, ó casa de Israel, que, assim como
fostes maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis bênção;
não temais, e sejam fortes as vossas mãos. Zc 8:13
Essa salvação tem também dimensões corporativas, comu-
nitárias. A aliança de salvação, no “sangue de Cristo”, gera
reconciliação, aproximação familiar e paz (vv. 13-18). Em suma,
o sangue e a cruz de Cristo, geram a unidade no Espírito. Somos
“um” porque, em Cristo, nossa diversidade foi aglomerada numa 13
unidade. Nossas diferenças foram entrelaçadas, como numa bela
tapeçaria — fios diferentes, harmonizados num só lindíssimo
quadro, entrelaçados no tecido púrpura do sangue do Cordeiro.
O apóstolo Paulo, iluminado pelo Espírito Santo, pôde discernir
esse mistério: os diferentes se unem num mesmo corpo, mediante
a obra consumada de Cristo (Ef 3.4-6).
14

05
Diferenças e Missão

Q uando Deus define sua obra da nova criação, sua Igreja, em


termos de diversidade e unidade, ele busca realizar o seu
“eterno propósito” (Ef 3.11). Esse propósito é específico. Como
diz Paulo em Ef 2.10, existem boas obras destinadas aos filhos de
Deus, preparadas “de antemão”. É interessante considerarmos as
afirmações de Ef 1.5-6, 11-12:
“[Ele] nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de
Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da
glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado
[...] no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo
o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da
sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que
de antemão esperamos em Cristo”.
Isso nos faz lembrar a clássica pergunta nº 1 do Breve Cate-
cismo, utilizado nas igrejas reformadas: “Qual o fim principal do
homem?” A resposta é “Glorificar a Deus e desfrutar dele para
sempre”. Nessa expressão curta, “glorificar a Deus”, encontra-se
um enorme tesouro prático. Deus quer nos usar para a sua glória,
na prática de obras que o agradem e o glorifiquem (Mt 5.16).
Nesse aspecto, a diversidade e a unidade são elementos da
estratégia de Deus para a efetivação de seu plano na terra. Há uma
ligação entre diferenças e missão. Aquelas foram dadas para que
cada pessoa possa cumprir um propósito, servindo de um modo
especial. Considerando a realidade do mundo atual nós vemos o
quanto ambas, unidade e diversidade, são necessárias. Ao meu ver,
essa é uma das grandes questões que deveriam estar ocupando as
lideranças das igrejas e, sem medo de exagerar, esses são os princí-
pios determinantes para o sucesso ou o fracasso da Igreja de Jesus
Cristo no século XXI.
A pós-modernidade criou uma estrutura social onde as pessoas
estão isoladas e segmentadas em nichos. A disciplina de marketing
está sofrendo uma grande revolução por causa disso. Os tempos
em que se produzia um produto direcionado a uma grande massa
de consumidores acabou. A fidelidade às marcas não existe mais.
Os hábitos de consumo estão cada vez mais individualizados. As
estratégias de publicidade e propaganda precisam conseguir alcan-
çar as pessoas diferentes através de técnicas e instrumentos cada vez
mais personalizados e individuais.
Pois bem. Uma igreja que entende a realidade da diversidade
não será ameaçada pela situação atual. Pelo contrário, ela crescerá
ainda mais. O Senhor concede às igrejas locais pessoas muitíssimo
diferentes, estruturadas em diferentes padrões de formação, perso-
nalidade e capacitação espiritual (dons) para alcançar os diferentes
nichos ministeriais existentes.
Sob essa ótica, a diversidade atende às necessidades externas. O
desafio missionário local exige a diversidade. Igrejas com minis-
térios monolíticos fracassarão, enquanto igrejas com ministérios
múltiplos, criativos e sempre renovados obterão a bênção de Deus
quanto ao seu trabalho — Deus confirmará a “obra de suas mãos”
(Sl 90.17).
Essa diferença entrelaçada pela unidade no Corpo de Cristo
atende a necessidades internas: enriquecimento, impacto transfor-
mador, auxílio e transporte mútuo de cargas. Crentes diferentes
compartilham de seus dons, possibilitando o conforto por inter-
médio “da fé mútua” (Rm 1.11-12, 12.9-16; Gl 6.2; 1 Ts 5.11;
Hb 10.24-25).
Diferença e unidade são aspectos cruciais da vida de cada igreja
local. São marcas da mão criadora de Deus em nós. São decorrên-
cia da obra completa de Cristo em nosso favor. São úteis e funda-
mentais para a prática de nossa vida cristã. Em suma, existem para
a glória de Deus.
16 Questões para reflexão
Considerando aquilo que foi dito, leia Fp 2.1-4 e responda:
1 Quais as implicações das Diferenças e da Unidade da Igreja
para a prática do culto?
2 Como é que, na maioria das vezes, a diferenças são vistas nos
grupos sociais, inclusive na igreja?
3 Você é verdadeiramente autêntico, sem medo de mostrar as
suas diferenças? Pode ser chocante para nós descobrirmos o
quanto sutilmente buscamos apagar a nossa individualidade
com o intuito de sermos aceitos pelo grupo, de modo que
este modela muito do que somos. Veja algumas coisas que
são regularmente afetadas:
√ O corte ou a cor de nossos cabelos.
√ As roupas que usamos.
√ Os cosméticos que usamos.
√ Nosso jeito de falar, ou de calar.
√ Nossos gostos pessoais (o que comemos, o que fazemos
nas horas livres etc.).
O que você pode fazer para tornar-se mais autêntico? Que
tal começar agora?
4 Descreva em uma anotação uma parte de si mesmo (ou uma
área de sua personalidade) da qual você não gosta. Anote
o que poderia ser feito para mudar. Escreva uma oração a
Deus agradecendo-lhe por você ser “quem você é”, peça-lhe
para mudar tudo o que ele desejar mudar, para a sua glória.
5 Em algumas situações, teremos de fazer a oração da jovem
que estava cima do peso: “Senhor, se não há como me ema-
grecer, faze com que minha amigas pareçam mais gordas!”
Ou seja, algumas coisas de que não gostamos continuarão a
fazer parte de nós, até o dia em que formos para a glória. São
espinhos na carne, permitidos por Deus para que não fique-
mos orgulhosos e confiemos somente na graça do Senhor
(2 Co 12.7-10). Agradeça ao Senhor por seu poder, que se
“aperfeiçoa na fraqueza”.
17

06
O Esforço Prático Pela Unidade
Vimos até agora quais são as bases para a diversidade e uni-
dade. Meu objetivo agora é que observemos o modo prático de
funcionamento das mesmas. Faremos isso adentrando em Efésios
4, observando alguns princípios gerais e logo depois alguns prin-
cípios específicos.
A primeira coisa a afirmar é que unidade já foi plenamente efeti-
vada através da obra de Deus em nosso benefício. Os vv. 1-6 falam
da unidade da fé, alertando para um fato: fomos profundamente
unidos através do chamado de Deus (a “vocação a que fostes
chamados” – v.1). Ao atendermos tal chamado, fomos mesclados
com o restante do Corpo de Cristo numa unidade indissolúvel
(vv. 4-6). Nesse sentido não precisamos fazer mais nada. Foi o
Espírito Santo que nos uniu de forma poderosa ao Corpo místico
do Senhor, para a glória de Deus. Nenhum cristão, em nenhum
lugar, precisa esforçar-se por produzir a unidade.
Outro ensino precioso do texto é este: devemos agir, andando
de “modo digno da vocação” a que fomos chamados (v.1). Tal
unidade espiritual precisa ser preservada com esforço (a palavra no
original é spoudazontez – lit. “fazer todo o esforço possível”,
usada também em Gl 2.10; 1 Ts 2.17; 2 Tm 2.15; Hb 4.11; 2 Pe
1.10, 15, 3.14 – Ginghich & Danker, 1984: 191-192). A Bíblia
Ecumênica traduz bem o versículo 3: “Aplicai-vos a guardar a uni-
dade do espírito pelo vínculo da paz”. Phillips traduz: “Tenham
como propósito ser um só no Espírito, e vocês estarão ligados uns
aos outros em paz” (Phillips, 1994: 114).
18 O esforço exigido denota um objetivo a ser perseguido pelos
cristãos, com muita vontade, firmeza e trabalho. A unidade é
espiritual mas não deve ser espiritualizada. Pelo contrário, precisa
manifestar-se de modo concreto, visível, palpável, e isso só se con-
segue quando agimos mediante uma forte motivação que alavanca
os músculos de nossa vontade obediente. Nossa motivação é a glória
de Deus. Nosso desejo deve ser andar de acordo com a vontade
desse Deus magnífico que nos alcançou e nos salvou mediante
Jesus Cristo. Daí nosso desejo de sermos fiéis, e lutarmos corajo-
samente, contra nós mesmos e o inimigo, de modo que a unidade
conquistada por Cristo seja revelada no universo, através da Igreja
(3:10).
19

07
Unidade e santidade

H avendo olhado alguns princípios gerais, vamos aos prin-


cípios específicos. O próprio texto, a partir do v. 7, vai
detalhar como podemos andar de modo digno de nossa vocação,
tornando prático o esforço necessário para guardarmos a unidade
da Igreja.
Primeiramente, a Igreja para expressar unidade e diversidade
precisa funcionar como um Corpo Vivo e não como uma instituição
morta. Isso é demonstrado nos vv. 7-16. Paulo fala da graça de
Deus e do dom de Cristo no v. 7, enfocando o aspecto soterioló-
gico que é o fundamento da unidade e diversidade. Cristo deu-nos
o dom da salvação que é ele mesmo e está presente mediante toda
a sua obra salvífica em nosso favor.
Logo depois, nos vv. 8-9, o apóstolo diz-nos que Cristo, após
sua ressurreição (expressada figuradamente na figura do guerreiro
vencedor, que, após haver descido às mais baixas regiões da terra,
sobe às alturas celestiais, e leva presa a própria prisão!), concedeu
dons aos homens. E, a partir de então, dos vv. 10-16, ele passa a
falar da aplicação desses dons à Igreja.
Os dons espirituais têm importante papel na questão da uni-
dade e diversidade. Isso porque eles são a própria expressão visível
da diversidade (Comp. 1 Co 12.4-11). Os dons são o modo de
expressarmos a multiforme sabedoria de Deus segundo o seu pro-
pósito eterno (Ef 3.10-11). Diante disso, torna-se ridículo que, em
algumas igrejas cristãs, esse assunto seja considerado desnecessário
ou até perigoso.
20 A síntese do ensino paulino é que Deus, graciosamente, con-
cede à Igreja “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas e outros para pastores e mestres”, com o objetivo de
aperfeiçoar os santos (v. 11). A tradução ecumênica diz: “a fim de
pôr os santos em condições de cumprir o ministério para edificar
o Corpo de Cristo”. Excelente tradução!
Essa é a situação: uma liderança dotada espiritualmente traba-
lha na igreja treinando as pessoas que querem servir a Deus com
os dons espirituais. A “Maria” sabe que tem o dom de ensino e
quer trabalhar para Cristo, realizando as boas obras que Deus
separou para ela (Ef 2.10). Ela procurará praticar esse seu dom na
igreja, e será capacitada, treinada, estimulada e orientada por sua
liderança.
Os dons têm um aspecto teleológico, ou seja, levam a um
objetivo: a edificação do Corpo (v. 12) até que todos cheguemos
à unidade e à maturidade espiritual (vv.12-13-14). Isso significa
que sem praticá-los nós não temos como aprofundar a unidade. Sem
eles nós não nos esforçamos para “preservar a unidade no vínculo
da paz” (v.3).
Mas qual a relação entre os dons espirituais e a maturidade
(vv. 13-14)? O infantil simplesmente não suporta trabalhar com
outras pessoas. Detesta ter de olhar o outro nos olhos, ministrar
e receber ministração numa situação de espontaneidade não fin-
gida. O infantilismo caracteriza-se por uma grande dificuldade
relacional, que exige do próximo que se adeque a um padrão de
perfeição. A pessoa imatura quer que os outros sejam do modo que
ela mais goste. O serviço na igreja, com base nos dons, força essa
aproximação promovendo um desnudamento diante do outro.
Descobrimos quem somos e quem são as pessoas que nos rodeiam
quanto mais convivemos, interagimos, servimos e somos servidos
por elas.
A verdade é que queremos que o sr. “Manoel” que está can-
tando um hino ao nosso lado seja um querubim dourado. No
entanto esse é o homem mau educado e indiferente que pisou
no “meu calo” hoje de manhã! Essa é a realidade da humanidade
finita e pecadora que compõe a Igreja. Queremos amadurecer?
Então talvez devamos nos perguntar: Sujeitamo-nos ao serviço no
Corpo de Cristo? Brand & Yancey, citando Frederick Buechner, 21
descrevem bem o ridículo da humanidade chamada por Deus:
Quem poderia ter predito que Deus não iria escolher Esaú, o rapaz
honesto e confiável, mas sim Jacó, o enganador e miserável; que Ele
iria valer-se de Noé, o beberrão; ou de Moisés, que estava tentando
fugir da polícia em Midiã, por ter “despachado” um homem no
Egito...?
E é claro que existe também a comédia, o caráter imprevisível da
própria eleição. Dentre todos os povos que Ele poderia ter escolhido
para ser o seu povo santo, ele elegeu os judeus, que, como alguém já
disse, são exatamente iguais a todo mundo, só que exageradamente
— mais religiosos do que qualquer pessoa, quando eram religio-
sos; e quando eram seculares, agiam como se tivessem inventado o
secularismo. E a comédia da aliança — Deus dizendo: “Eu serei o
vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Êxodo 6.7), para um povo
que, antes de tais palavras cessarem de ecoar em seus ouvidos, já
estava dançando ao redor de um bezerro de ouro como aborígenes,
e carregando nos ombros toda e qualquer divindade agrícola e deus
ou deusa de fertilidade que surgisse em cena (Buechner. Telling the
truth. Nova Iorque: Harper & Row, 1977, pp. 57,58, citado por
Brand & Yancey, 1989: 31-32).
Mais adiante, no mesmo livro, lemos a complementação desse
quadro:
A exceção parece ser a regra. Os primeiros seres humanos que Deus
criou saíram e fizeram a única coisa que Deus lhes pedira para
não fazer. O homem que Ele escolheu para gerar uma nova nação
conhecida como “povo de Deus” tentou penhorar a sua esposa para
um Faraó que de nada suspeitava. E a própria esposa, quando foi
informada, na idade madura de noventa e um anos que Deus estava
preparando-o para entregar-lhe o filho que lhe havia prometido,
irrompeu em gargalhadas convulsivas, diante da face de Deus.
Raabe, a prostituta, tornou-se reverenciada por sua grande fé. E
Salomão, o homem mais sábio que jamais viveu, saiu do seu próprio
caminho, negando todos os provérbios que havia composto de
maneira tão perspicaz.
Mesmo depois que Jesus veio, esse padrão continuou. Os dois
discípulos que mais fizeram para disseminar a palavra depois da Sua
partida, João e Pedro, foram os dois que Ele havia repreendido mais
freqüentemente por discussões bobas e por serem cabeças-duras. E
o apóstolo Paulo, que escreveu mais livros do que qualquer outro
escritor bíblico, foi escolhido para a tarefa enquanto estava levan-
tando poeira das estradas, de cidade em cidade, farejando cristãos
para torturá-los. Jesus teve muita ousadia, confiando os grandes
ideais de amor, unidade e comunhão a um grupo como esse. Não é
22 de admirar que os cínicos observaram a igreja e suspiraram: “Se acre-
ditam que esse grupo de pessoas representa Deus, eu me colocarei
contra ele, sem nem pensar”. Ou, como o expressou Nietzsche: “Os
discípulos dele precisarão parecer mais salvos, para que eu possa crer
no seu salvador” (Brand & Yancey, 1989: 32-33).
É com esse aglomerado de pessoas imperfeitas que eu e você
temos de lidar na prática da unidade, respeitando a diversidade.
Aliás, caso não tenhamos pensado nisso: nós somos tais pessoas. E
esse corpo de crentes, transformado pelo poder da graça de Deus,
movido pelo objetivo de “preservar a unidade”, deve praticar os
dons espirituais, de modo a obter excelentes resultados práticos:
maturidade e firmeza na fé (vv.13-14), a prática da “verdade em
amor”, crescimento integral “naquele que é a cabeça, Cristo” (v.
15) e o funcionamento do Corpo na base orgânica e multifuncio-
nal, com o “auxílio de toda junta, segundo a cooperação de cada
parte” (v. 16), o que gera crescimento contínuo e espontâneo.
O segundo princípio específico é a prática da santidade. Isso
está expresso a partir do v. 17 do capítulo 4, até o final da carta.
No restante dessa epístola Paulo está a tratar desse “andar de modo
digno”, da “preservação da unidade”. Todos os seus conselhos
– a necessidade do desenvolvimento da inteligência emocional (a
capacidade de relacionar-se bem com os outros), a pureza moral,
os princípios para o lar cristão, o relacionamento familiar e no
trabalho, bem como a conclamação à batalha espiritual no cap. 6,
aplicam-se a esse grande tema geral.
Aliás, o tema da batalha espiritual é digno de nota. Paulo o
insere no final da carta. É o ápice, o clímax de sua argumentação,
por um motivo simples: Satanás odeia a unidade na diversidade.
Memorize isso: o diabo odeia tanto a unidade quanto a diversidade.
Os cristãos estão praticando os princípios bíblicos acerca destas
questões? O que acontecerá? Crescimento da igreja e fortaleci-
mento dos santos. E não apenas isso. Acima de tudo, estaremos
praticando as obras que Deus preparou para nós (Ef 2.10) e,
conseqüentemente, o Senhor estará recebendo honra e glória (Ef
1.6, 12; Mt 5.16; 2Ts 1.11-12; 1Pe 4.10-11). Quando o apóstolo
diz-nos então para tomarmos toda a armadura de Deus, para que
possamos resistir no dia mau e, depois de termos vencido tudo,
permanecer inabaláveis (Ef 6.13), ele reporta-se à nossa postura 23
como cristãos: pessoas que louvam a Deus porque foram escolhi-
das por ele, salvas pela obra graciosa de Jesus. Pessoas dispostas a
pagar o preço de um alto esforço para seguir a Cristo, sabedoras
de que são únicas, e que cada irmão é único, respeitadoras da
individualidade e lutadoras em prol da unidade. Pessoas que
lutam contra o próprio ego – suas esquisitices e imaturidades, seus
dengos e meninices egocêntricas, seus hábitos egoístas, sua inveja
e seu fingimento — para serem mais autênticas, mais produtivas
e mais servas dentro do Corpo de Cristo. Essa é a vitória contra
Satanás proposta por Paulo em Ef 6. Trata-se da vitória de toda a
Igreja, santificada e produtiva para a glória de Deus.
24

08
Alguns Obstáculos

Q uero terminar verificando algumas barreiras que podem ser


erigidas, impedindo a prática da unidade na diversidade:

1 Grupos de afinidade. Em algumas igrejas prevalecem as


“panelinhas”, verdadeiros guetos relacionais que excluem os
“estranhos” que tentam se aproximar, gerando a necessidade
de utilização de máscaras para a aceitação de “novos mem-
bros”. Isso é incompatível com tudo o que analisamos acima
acerca da obra de Cristo em nosso favor, e do empenho de
Deus em produzir unidade cheia de diversidade.
2 Imaturidade. Viver em torno de si prejudica a vida em
comum e impede o amadurecimento, como vimos acima.
Infelizmente, muitas vezes, nós, como Igreja, não estamos
sendo eficazes em nossa tarefa de formar discípulos de
Cristo. Vemos muito orgulho, egocentrismo e infantilismo
na cristandade atual. Precisamos enfatizar o discipulado não
apenas de aprendizado de doutrinas básicas, mas voltado
para uma mudança de cosmovisão, de dentro para fora. Isso
deve ser feito imediatamente, uma vez que verificamos a
necessidade gritante de alteração de caráter, entre os cristãos
hodiernos.
3 A síndrome da “doença emocional incurável”. Existem
seres humanos que aparentemente “nunca amadurecem” e
sempre dificultam a preservação da unidade, muitas vezes,
atribuindo suas falhas de caráter aos seus traumas e dificul-
dades emocionais. São indivíduos que sempre falam de sua 25
“necessidade de cura”.
Como eu já disse antes, a influência das experiências negativas
bem como dos traumas é importante na formação da estrutura
emocional humana. No entanto, biblicamente, ninguém pode
colocar a culpa de suas idiossincrasias, ad infinitum, em seus trau-
mas, ou em seu mau ambiente familiar etc. É preciso resgatar o
ensino da toda-suficiência da pessoa e da obra de Cristo na vida
dos crentes. Quem é cristão nascido de novo, tem o poder (mediante
as Escrituras e o Espírito Santo dentro de si) de vencer suas dificulda-
des interiores, praticar a Palavra de Deus e ser equilibrado e produtivo
na Igreja de Cristo. Quem é cristão nascido de novo é plenamente
responsável por “andar de modo digno de sua vocação”, contri-
buindo para guardar a unidade da Igreja.
Essa tendência de enfatizar a existência da doença emocional
na vida da Igreja tem um lado bom: o Corpo de Cristo torna-se
consciente de que é formado por pessoas limitadas, pecadoras, e
em constante processo de cura, transformação, libertação, purifi-
cação e educação espiritual e emocional — aquilo que nossos pais
puritanos chamavam de “santificação”. No entanto vemos hoje
um exagero nesse ponto que está criando uma geração de hipocon-
dríacos espirituais; uma multidão de pessoas que só se vê doente. E
na busca de cura muito tem utilizado remédios inadequados.
Um exemplo disso é a ênfase atual na demonização dos aspec-
tos pecaminosos de nosso caráter. As áreas problemáticas de nossa
vida interior são identificadas como demônios. Daí encontramos
gente buscando auxílio para expulsar de sua vida o demônio da
raiva, ou da preguiça etc. Cristãos problemáticos, ao invés de reco-
nhecerem sua necessidade de buscar a santificação, desenvolvendo
de modo gradual o caráter de Jesus em seus corações, e assim
esforçando-se para “preservar a unidade”, preferem ir receber uma
“oração poderosa” do último missionário carismático que esteja
ministrando em alguma igreja na cidade. O resultado disso é que
os problemas reais não são resolvidos. Depois de um certo tempo o
problema volta. Esse é um obstáculo enorme à prática da unidade
na diversidade.
26 4 Os traumas causados por divisões na igreja. Comunidades
que terminaram de passar por divisões têm grande difi-
culdade nesta questão da unidade na diversidade. Os dois
grupos culpam-se mutuamente. A ferida da divisão demora
a cicatrizar, e sempre restará uma cicatriz não muito bonita.
Esse obstáculo, no entanto, pode e deve ser vencido no
nome de Jesus, através da prática do perdão e da abertura
aos irmãos, dentro da orientação específica de Deus para
cada situação.
5 Os sistemas eclesiásticos monolíticos, que não dão espaço
para o exercício da diversidade. Em algumas igrejas o tradi-
cionalismo é muito forte, ao ponto de impedir o surgimento
e desenvolvimento de novos ministérios, impedindo a mani-
festação da diversidade.
6 Devoção insuficiente. Pouca oração, pouco contato com
as Escrituras, pouco quebrantamento e pouca santificação.
A prática devocional e contemplativa é necessária para o
desenvolvimento das virtudes interiores, produzidas pelo
Espírito Santo. Isso precisa ser enfatizado hoje, uma vez que
a correria cotidiana e o pragmatismo estão empurrando a
oração e a leitura das Escrituras para fora de nossas agendas.
O resultado é sempre a superficialidade. O coração estreita-
se, privado da experiência do transcendente. Isso produz um
recuo no aprofundamento de nossos relacionamentos (com
nós mesmos, com o próximo e com Deus) e a conseqüente
perda de alegria na comunhão do Corpo.
7 A ação de Satanás. Deixei esse item por último porque, nor-
malmente, ele é colocado em primeiro lugar, numa tentativa
nossa de jogar sobre o diabo as nossas culpas. A Igreja deve
batalhar incessantemente contra o inimigo em todas as suas
manifestações contra a unidade e diversidade do Corpo de
Cristo. Ele com certeza atacará sem cessar, mas a vitória já
é nossa através da obra poderosa do Senhor Jesus em nosso
favor (Lc 10.18-19; Cl 2.13-15; Ap 12.10-11).
Conclusão
Eternidade, Unidade e Diversidade
Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo, e os vencedores da
besta, da sua imagem e do número do seu nome, que se achavam em
pé no mar de vidro, tendo harpas de Deus; e entoavam o cântico de
Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo:
Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Pode-
roso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações!
Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só
tu és santo; por isso todas as nações virão e adorarão diante de ti,
porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos. Ap 15.2-4.

E sse é o cântico dos vencedores diante do Deus vivo — dos elei-


tos de Deus, comemorando a vitória final de Cristo sobre seus
inimigos. Estamos diante de um quadro de fim, de consumação.
Os cristãos estarão ali, de pé sobre um mar de vidro, glorificando
a Deus em unidade e diversidade.
A unidade e diversidade tem a ver com a eternidade. Iremos
passar a eternidade juntos, numa dimensão tanto teológica quanto
social-comunitária: estaremos para sempre com Cristo e uns com
os outros, nos novos céus e na nova terra que serão firmados por
Deus.
Pensemos nisso um pouco mais.
Sabe aquele irmão que não é muito simpático e poucas vezes
lhe diz “bom dia”? Ele vai estar lá, do seu lado, eternamente. Sabe
aquele pastor ou missionária que você de-tes-ta? Também estarão
lá em comunhão eterna, lado a lado com você, quer você queira,
quer não.
28 Em suma, a Igreja expressa, na terra, antecipadamente, uma
realidade que se consumará na eternidade. Daí a necessidade de
respeitarmos as diferenças e lutarmos para preservar a unidade.
Isso não apenas é importante no aspecto da funcionalidade do
Corpo, mas também da declaração da fé, da manifestação concreta
no “hoje” da glória se será revelada no “amanhã”, quando Jesus
voltar.
Talvez seja momento de analisarmos todo esse assunto à luz
de nossas experiência de salvação. Fomos alcançados pela graça?
Podemos testemunhar de que experimentamos em nós essa ação
do Espírito Santo, que gera unidade? Podemos falar a todos que
recebemos o perdão e aceitação de Deus, que nos leva a aceitar
e perdoar uns aos outros? Se podemos fazer isso, então fomos
realmente convertidos pelo poder do Senhor, e estamos aptos a
contribuir, para glória de Deus, para a manifestação da diversidade
e para a preservação da unidade na Igreja de Cristo.
29

Bibliografia
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Igreja refletida no corpo humano. São Paulo:Vida Nova.
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N.T. Grego/Português. São Paulo: Vida Nova.
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Testamento. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana.
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Rienecker, Fritz e Rogers, Cleon. (1985). Chave linguística do
Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova.