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Psico-USF, v. 8, n. 2, p. 215-216, Jul./Dez.

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Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil

Audauto Garcia de Jesus Junior1


Carone, I. & Bento, M. A. S. (Orgs.). (2002). Psicologia social do racismo. Petrópolis: Vozes, 189 p.

A Psicologia Social no Brasil se caracteriza por informando, na seqüência, dados como os autores de
seu afastamento, quando não ausência, das questões cada capítulo, seus respectivos enfoques e ainda um
raciais e suas conseqüências na estrutura psíquica breve comentário sobre cada tema.
individual ou coletiva da população envolvida no O capítulo seguinte (capítulo 2), escrito por
contexto da discriminação, seja no papel de vítima ou Maria Aparecida Silva Bento, trata do tema
agente discriminador. Raimundo Nina Rodrigues Branqueamento e branquitude no Brasil, explorando as
iniciou um trabalho pioneiro sobre a população negra questões relacionadas ao padrão ideal de
no Brasil há mais de 100 anos. Porém, muito pouco branqueamento, fornecido pela elite branca à sociedade,
tem-se realizado desde então, no tocante a estudos que e projetado como um problema do negro. Este padrão
investigam os fenômenos psicológicos que permeiam as retrata uma estratégia de proteção (um pacto social) dos
relações sociais e abrangem questões raciais. Diante das privilégios da dinâmica racista para a classe branca,
lacunas deixadas pelas ciências sociais em relação a tais advindos de interesses e medos, produzidos no espaço
temas, torna-se importante que a Psicologia Social do enfrentamento e constatação do outro, ou seja, das
participe mais ativamente na produção de conhecimento demais raças. Aborda também o conceito de
que venha contribuir para o processo de construção da branquitude como as características da identidade racial
identidade coletiva da sociedade brasileira. do branco brasileiro, suas estratégias e mecanismos de
O livro a que esta resenha se refere trata-se de preservação da situação discriminante.
um esforço significativo de contribuição neste sentido. Porta de vidro: entrada para a branquitude é o título
Os capítulos são de autoria de diversos pesquisadores, e do capítulo 3, de autoria de Edith Piza, e fornece dados
o trabalho foi organizado por Iray Carone e Maria de uma pesquisa que buscou captar a percepção de
Aparecida Silva Bento. mulheres brancas em relação a negras. As idéias que
A obra é composta por um prefácio e 9 levaram a autora a pesquisar este aspecto das relações
capítulos, escritos por sete pesquisadoras, incluindo as sociais racistas vieram por meio da constatação de que o
organizadoras, e o prefácio foi escrito por Kabengele branco não se posiciona e sequer se reconhece como
Munanga e busca justificar a relevância do tema do agente no processo discriminatório. O negro é
preconceito racial, contextualizando-o no cenário da evidenciado como raça, focalizado em estudos partindo
história político-social brasileira, bem como das ciências da visão do branco, enquanto este último se coloca
sociais, especialmente a Psicologia. numa posição de “invisibilidade”, não se identificando
Os capítulos do livro são o resultado de um como raça e parte responsável na relação
projeto integrado, apresentado por uma de suas preconceituosa. Em seguida, o texto analisa dois
organizadoras como “O maior empreendimento exemplos das vinte entrevistas realizadas pela autora
científico de compreensão das relações raciais no com mulheres brancas.
Brasil” (cap. 1). Cada capítulo retrata a contribuição da O capítulo 4 – A cor nos censos brasileiros, retrata
pesquisa de um dos vários participantes envolvidos no um trabalho de levantamento de informações a respeito
projeto, como resultado quer de levantamentos de dos recenseamentos no Brasil e como eles refletiram,
dados bibliográficos e da mídia em geral, quer de por meio de ausência ou presença de itens, o processo
pesquisas de campo. Os textos apresentam, ainda, notas de auto e heteroatribuição de cor na realidade social do
informativas de rodapé e, ao final de cada um deles, Brasil. Edith Piza e Fúlvia Rosemberg discutem o
referências bibliográficas. movimento que envolve a questão do pertencimento
O título do primeiro capítulo é Breve histórico de racial como construção cultural e os critérios de coleta
uma pesquisa psicossocial sobre a questão racial brasileira, de censitários ao longo da história, que evidenciam a
autoria de Iray Carone, e apresenta dados da história do relação da identidade racial e sua construção com a
racismo no Brasil. Seu objetivo é trazer informações forma como os indivíduos se autoclassificam em termos
sobre o desenvolvimento do projeto integrado de de cor.
pesquisa que deu origem aos temas do livro, Rosa Maria Rodrigues dos Santos faz uma
Endereço para correspondência:
1 E-mail: agjjunior@hotmail.com
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reflexão de questões sobre origem étnica e suas São apresentadas, também, informações sobre o
influências na constituição da subjetividade, trazendo conteúdo e a metodologia do curso.
no capítulo 5, intitulado De café e de leite..., o relato da O oitavo capítulo (Faíscas elétricas na imprensa
convivência com uma menina que apresentava problemas brasileira: a questão racial em foco), sob autoria de Iray
emocionais, no período de estágio realizado pela autora Carone e Isildinha Baptista Nogueira, constitui uma
em instituição especializada em tratamento de crianças. análise de como a imprensa brasileira elabora a questão
São apresentadas informações sobre o quadro clínico, a racial e como isso é apresentado nos meios de
intervenção e o progresso do caso, privilegiando o comunicação jornalísticos. As autoras selecionaram três
espaço de oficinas, especialmente a de artes, e assuntos que estiveram em evidência nas notícias veicu-
considerações por meio de um enfoque psicanalítico. ladas à sociedade, com base num trabalho de recorte de
O sexto capítulo, de Lia Maria Perez B. notícias, artigos e comentários da imprensa brasileira
Baraúna, foi escrito com base na experiência de uma dos anos 90, que pudessem demonstrar indícios de
pesquisa sobre a visão do próprio negro em relação a como o negro é mostrado e pensado neste contexto.
sua posição na sociedade racista. À flor da pele, portanto, O último capítulo do livro, A flama surda de um
é um texto que reflete o resultado de várias entrevistas olhar, foi escrito por Iray Carone e se constitui, como a
com negros, buscando captar em diferentes ângulos o própria autora registra, em homenagem póstuma a
universo dos aspectos ideológicos que embasam as Eduardo de Oliveira e Oliveira, militante negro de São
relações discriminatórias, etnocêntricas e preconcei- Paulo e que deixou material rico sobre aspectos
tuosas. Além disso, o capítulo descreve um exercício subjetivos da ideologia racial, em relatórios e
que buscou refinar o modelo de entrevistas da pesquisa, documentos recolhidos ao longo da preparação de sua
apresentando, como exemplo, duas entrevistas aplicadas dissertação de Mestrado, na década de 70.
de maneiras distintas. A primeira, conduzida com base Essa obra é recomendada a leitores
num roteiro preestabelecido, e a segunda, aberta. interessados pela psicologia social, mais especificamente
Em seguida, no capítulo 7, intitulado a quem procura informações sobre o perfil da
Branquitude – o lado oculto do discurso sobre o negro, Maria desigualdade racial e suas conseqüências individuais e
Aparecida Silva Bento escreve a respeito da experiência coletivas na sociedade brasileira. Os textos compilados
da aplicação do curso de relações raciais de uma oferecem uma ampla visão, sob vários ângulos, das
organização não-governamental em instituições e influências de ideologias discriminatórias racistas na
sindicatos. A autora faz reflexões sobre as construção e afirmação de uma identidade nacional e
manifestações da desigualdade racial que estão seu mapeamento. A linguagem facilita a compreensão e
camufladas na sociedade, analisando a realidade de um a diversidade de temas correlatos, enriquecendo o livro
curso que abrange, num mesmo espaço, pessoas de como um todo. Concluímos que trabalhos desta
diferentes etnias, assim como as dificuldades e natureza são necessários e relevantes para a psicologia
resistências inerentes a este contexto de enfrentamento. social.

Sobre o autor:
Adauto Garcia de Jesus Junior é pedagogo, especialista em Psicopedagogia e mestrando em Psicologia pela
Universidade São Francisco.

Psico-USF, v. 8, n. 2, p. 215-216, Jul./Dez. 2003