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12/01/2018 A última paixão de Fernando Pessoa não foi Ofélia, foi uma inglesa loira – Observador

A última paixão de Fernando Pessoa não foi


Ofélia, foi uma inglesa loira
20 Dezembro 2017  1.142 

Rita Cipriano

No último ano de vida, Fernando Pessoa escreveu


uma série de poemas sobre uma mulher misteriosa
que lhe roubou o coração. O mais recente número da
"Pessoa Plural" desvendou finalmente o mistério.

1 A última paixão de Fernando Pessoa


2 O último poema de Fernando Pessoa?
3 Um pessoano “absoluto” e “apaixonado”
4 A importância de ser Leal
5 Começar onde a Persona acabou

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Fernando Pessoa conheceu Ofélia Queiroz em janeiro de


1920, numa das casas comerciais onde costumava colaborar.
Tinha 32 anos, ela apenas 19. A primeira carta que lhe
escreveu, datada de 1 de março desse ano, foi a primeira de
muitas que testemunham o “namoro simples, até certo ponto
igual ao de toda gente”, que durou até finais de 1920.
Publicadas pela primeira vez em 1978 num só volume, as
cartas surpreenderam “sobretudo ao revelar um Fernando
Pessoa apaixonado como um adolescente”, como escreveu
António Quadros. Eram de tal forma “ridículas” — como
todas as cartas de amor têm de ser —, que levaram Carlos
Queiroz, sobrinho de Ofélia que privou com Pessoa, a
questionar: “Como teria sido possível ao mais poeta dos
homens e ao mais intelectual dos poetas portugueses (e, aqui,
a palavra ‘portugueses’ tem uma importância muito especial)
libertar a tal ponto o coração de literatura?!”.

O fim daquela que é conhecida como a primeira fase do


namoro entre Pessoa e Ofélia deu-se em novembro de 1920,
sobretudo pela repugnância que o poeta sentia em integrar-se
na família da namorada. Como ela própria contou mais tarde,
durante os sete ou oito meses que durou o namoro, Fernando
Pessoa nunca foi a sua casa. De acordo com José Gil, o
namoro entre Pessoa e Ofélia revelou a incapacidade ou
impossibilidade de o poeta “‘amar Ofélia à maneira de
Ofélia’, de aceitar a máscara correspondente a um homem
‘comum, casado e tributável’”. “A aceitação desta máscara
teria obrigado Pessoa – na opinião de Eduardo Lourenço – a

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matar ‘o monstro sublime da nossa imaginação que nós


chamamos Literatura’”, escreveram os pessoanos Jerónimo
Pizarro, Patricio Ferrari e Antonio Cardiello, no quarto
número da Pessoa Plural.

Nove anos depois, em princípios de setembro de 1929, o


namoro recomeçou, depois de Carlos Queiroz ter levado para
casa um retrato de Pessoa a beber um copo no Abel Pereira da
Fonseca. Ofélia achou-lhe graça e, passados uns tempos,
Pessoa enviou-lhe uma cópia autografada com a frase que
depois se tornou famosa: “Fernando Pessoa em flagrante
‘delitro’”. Esta segunda fase durou cerca de quatro meses —
as cartas cessaram a 11 de janeiro de 1930. Terminava assim
a história de amor entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
que, por se desconhecerem outras aventuras amorosas,
costuma ser apontada como a única na vida do poeta. De
tal forma que, em 1978, David Mourão-Ferreira, um dos
responsáveis pela primeira edição das cartas de amor do
poeta, afirmou categoricamente que não se conhecia nem era
provável que tivesse existido qualquer outro “episódio
sentimental” na vida de Pessoa. Mas será que foi mesmo
assim?

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Fernando Pessoa em " agrante 'delitro'" no Abel Pereira da Fonseca. Foi esta
fotogra a que desencadeou a segunda fase do namoro com Ofélia Queiroz
(Wikimedia Commons)

Fernando Pessoa sempre foi conhecido como um homem


reservado. Apesar da dimensão da sua obra, conhece-se
melhor a sua literatura do que a sua vida. E isso sempre deu
aso a especulações (algumas delas infundadas). Exemplo
disso é um grupo de poemas que se refere a uma mulher
“loura” e “casada”, o que levou a que alguns estudiosos
tentassem descobrir a identidade desta mulher que Pessoa
terá amado. Um dos primeiros terá sido o poeta e ensaísta
espanhol Ángel Crespo, cujas pesquisas acabaram por não dar
em nada. Um dos rumores lançados pelo espanhol, o de que
Pessoa se teria apaixonado por Fernanda de Castro, mulher de
António Ferro, até foi desmentido pela própria. Nas suas
memórias, a poetisa considerou-o “absurdo” e descreveu o
poeta como “calado, ensimesmado, de uma timidez que

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chegava a incomodar-nos”. Mas, de acordo com Manuela


Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, o tio sempre sentiu
“grande admiração” por Fernanda de Castro.

A pesquisa, iniciada por Crespo, foi depois continuada por


José Blanco, que ponderou a hipótese de a mulher misteriosa
se tratar da mulher do advogado José de Andrade Neves, filho
do primo e médico de Pessoa, Jaime de Andrade Neves.
Quando Titita — como era conhecida entre os amigos — se
casou com José, Fernando Pessoa não compareceu à
cerimónia e enviou apenas um cartão. “Ciúmes talvez”,
especulou Blanco que, durante as suas investigações,
descobriu que, quando os dois foram apresentados, Pessoa
disse a Titita que era “o bêbedo da família”. Apesar da
estranha apresentação, os dois acabaram próximos. De tal
forma que, quando a mulher do primo ficava doente, Fernando
Pessoa ficava sentado à sua cabeceira, lendo-lhe livros.
Segundo conta José Paulo Cavalcanti na sua biografia do
autor da Mensagem, José Blanco conheceu Titita quando esta
já tinha os cabelos brancos e perguntou-lhe se, quando era
jovem, era loira. “Não. Os cabelos de Titita, como também os
da sogra Georgina Cardoso, eram escuros”, escreveu o
advogado brasileiro, lamentando-se que agora, também ele,
anda à procura da “loura” por quem Fernando Pessoa se
apaixonou.

Loiras à parte, a verdade é que a escrita de poemas de amor se


intensificou no final da vida de Fernando Pessoa. Em 1935,

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ano da sua morte, o poeta produziu um número invulgar de


versos apaixonados, o que faz levantar a hipótese de que,
quando morreu, Pessoa estava apaixonado. Mas quem seria o
alvo desta paixão tardia? José Barreto, historiador que se
tem interessado sobretudo pelo pensamento filosófico e
político de Pessoa, descobriu, por mero acaso, cartas
inéditas que parecem ajudar a desvendar o mistério. O
resultado da sua pesquisa, “A última paixão de Fernando
Pessoa”, foi publicado no último número da Pessoa Plural – A
Journal of Fernando Pessoa Studies, uma revista online de
Estudos Pessoanos co-editada pela Universidad de los Andes,
pela Warwick University e pela Brown University, onde existe
um importante núcleo de Estudos Portugueses. Apesar deste
último número ser dedicado à Coleção Fernando Távora, uma
das mais importantes sobre o modernismo português, e incluir
vários manuscritos inéditos — nomeadamente de poesia e
correspondência de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro,
Raul Leal, Alfredo Guisado e José Régio, entre outros —, o
contributo de José Barreto é um dos mais surpreendentes. É
que, afinal, o último grande amor de Fernando Pessoa não foi
Ofélia. Foi uma inglesa de cabelo “alourado” chamada
Margaret.

A última paixão de Fernando Pessoa

No livro Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, José


Paulo Cavalcanti relatou que um dos sobrinhos de Fernando
Pessoa lhe contou que o tio teria tido uma “relação

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misteriosa” com uma inglesa chamada Madge. “Ao que


consta, teria havido uma certa simpatia recíproca”, admitiu
João Maria Nogueira ao biógrafo brasileiro. “Mulher muito
inteligente, consta que durante a última Guerra Mundial
trabalhava na descodificação de mensagens cifradas dos
alemães. Era muito culta mas tinha um ‘feitio’ algo
complicado. Talvez por isso tivesse interessado ao meu tio
Fernando.”

Não foi a primeira vez que o nome de Margaret Anderson —


conhecida apenas por Madge entre os familiares e amigos
mais próximos — veio à baila. Antes da publicação da
biografia de Cavalcanti, em 2002, Manuela Nogueira já se
tinha referido “vagamente a Madge” nas Cartas de amor de
Ofélia a Fernando Pessoa, “identificando-a como ‘a inglesa’
de quem Ofélia falava numa das suas cartas para Pessoa”,
refere José Barreto neste número da Pessoa Plural. Na altura,
a hipótese não passava disso mesmo — de uma hipótese —,
dada a falta de provas mais concretas. Além do mais, o
sobrinho de Pessoa tinha garantido a Cavalcanti que a
inglesa tinha “o cabelo castanho alourado”, não se
podendo tratar, por isso, da “loura” de que Pessoa falava
nos seus poemas. Só recentemente é que foi possível unir as
pontas soltas e ligar definitivamente Madge a Fernando
Pessoa. Tudo graças à descoberta de dois rascunhos de cartas,
ainda na posse da família do poeta, e de uma terceira missiva
guardada na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em
Lisboa.

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A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boa


Que queria casar comigo…
Que pena eu não ter casado com ela…
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do
que teria sido Do que teria sido, que é o que nunca
foi?”
— Excerto de um poema datado de junho de 1930,
atribuído a Álvaro de Campos

Curiosamente, a descoberta não coube a nenhum especialista


em literatura, mas a um historiador. “Não sou um homem das
literaturas nem nada disso”, admitiu José Barreto em conversa
com o Observador. Mas quis o destino que fosse o
investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade
de Lisboa, especialista em história social e política portuguesa
do século XX, a encontrar “umas cartas inéditas” que
desvendaram um dos muitos mistérios que pairam em torno de
Fernando Pessoa e a fazer uma “pequena digressão” pela vida
amorosa do poeta, dando continuidade ao trabalho iniciado
por Ángel Crespo e José Blanco, muitos anos antes.

Ángel Crespo foi um escritor, poeta e ensaísta espanhol “que


se dedicou muito a Fernando Pessoa”. No final dos anos 80,

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publicou a biografia A Vida Plural de Fernando Pessoa, a


primeira sobre o poeta escrita fora de Portugal. Foi mais ou
menos nessa altura que “formulou uma hipótese que até
então nenhum português tinha formulado, a partir dos
poemas dos últimos anos de vida, sobretudo de 1935 —
que Fernando Pessoa, sobre o qual já se dizia que a vida
amorosa se reduzia a uma única história, a história de
Ofélia Queiroz, morreu apaixonado”, explicou o o
investigador, autor de Fernando Pessoa —Associações
Secretas e Outros Escritos. Só que, apesar das inúmeras
tentativas, Crespo não conseguiu identificar “o alvo da
paixão”. “Depois dele, seguiram-se mais uns tantos,
nomeadamente José Blanco, que nunca chegaram a resultado
nenhum. Nunca conseguiram dados plausíveis sobre quem
seria essa mulher casada, essa mulher loira.”

Mas José Barreto teve mais sorte. “Com base nestas três cartas
inéditas que encontrei — uma encontra-se no espólio de
Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional e as outras duas no
espólio que está na posse da família —, formulo uma hipótese
de identificação.” Segundo Barreto, essa “mulher inglesa”
seria nada mais nada menos do que a irmã de uma das
cunhadas de Pessoa, Eileen Anderson, casada com o irmão
mais novo do poeta, João Maria Nogueira Rosa, um
bancário que vivia em Londres. Entre 1929 — quando já
estava em vias de se divorciar do marido inglês — e meados
de 1935, Madge fez “um número indeterminado” de viagens a
Portugal. “Não consegui apurar se ela só veio duas vezes a

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Portugal ou se, entre essas duas datas, veio mais vezes”,


admitiu o investigador. “Parece que sim, pelo que o sobrinho e
sobrinha de Pessoa, ainda vivos, deram a entender, mas não
encontrei provas. Baseei-me apenas em provas documentais.
Não pretendi dar asas à imaginação. A minha investigação foi
feita com base na correspondência e não me interessa mais do
que isso.” O que é certo é que, algures nesse período, os dois
começaram uma troca de correspondência que durou até à
morte de Pessoa, no final de novembro de 1935. Pelo meio, o
poeta escreveu dezenas de poemas de amor.

"Ángel Crespo formulou uma hipótese que


até então nenhum português tinha
formulado — que Fernando Pessoa, sobre
o qual já se dizia que a vida amorosa se
reduzia a uma única história, a história de
Ofélia Queiroz, morreu apaixonado."
José Barreto

Mas quem era esta Madge Anderson?

Margaret Mary Moncrieff Anderson nasceu a 7 de setembro


de 1904, em Cathcart, nos subúrbios de Glasgow, no seio de

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uma família irlando-escocesa “com plaid” e “muito


conservadora”, de acordo com Isabel Murteira França,
sobrinha-neta de Fernando Pessoa e sua biógrafa, que José
Barreto cita no seu artigo. A sua irmã, Eileen, era três anos
mais velha. Depois de completar uma licenciatura geral de
três anos na University of St. Andrews, na Escócia, começou a
trabalhar no Foreign Office, em Londres, tendo sido nomeada
junior assistant desse mesmo ministério apenas três anos
depois, em 1929. Aos 35 anos, depois de um casamento
falhado com um jovem inglês, casou-se novamente com
Frederick William Winterbotham, responsável por chefiar a
Air Section do Secret Intelligent Service (SIS), de 1929 a
1945.

Foi mais ou menos nessa mesma altura que, segundo


conseguiu apurar José Barreto, foi admitida em Bletchley Park
(também conhecido como Station X), nos arredores de
Londres, onde funcionou, durante a Segunda Guerra Mundial
a Cypher School, onde eram decifrados os complexos códigos
alemães. Meses depois, foi transferida para a sede do SIS, em
Londres. Isto significa que o boato que circulava na família
era mesmo verdade — Madge trabalhou mesmo na
descodificação de mensagens alemãs durante a guerra.
Depois do final do conflito, continuou vinculada ao Foreign
Office. O seu casamento, contudo, terminou em 1946 e não
existem indícios de que tenha tido filhos. Morreu a 3 de julho
de 1988, aos 83 anos. “Ou seja, semanas depois do centenário
do nascimento de Fernando Pessoa”, frisou José Barreto.

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O historiador acredita que a troca de correspondência com


Fernando Pessoa começou no verão de 1935, depois de o
poeta ter recebido um “enigmático postal ilustrado inglês”
assinado por Madge. Ou melhor, “aparentemente” assinado
por Madge. É que, apesar de o nome da inglesa aparecer no
final da mensagem, escrita em inglês, a caligrafia não
corresponde à sua. O postal sem data, nome ou endereço do
destinatário, “foi aparentemente enviado de Inglaterra dentro
de um envelope e o destinatário terá sido, muito
provavelmente, Pessoa, uma vez que se encontra no seu
espólio. A caligrafia poderá eventualmente ser de Eileen”,
avançou o historiador. Depois disso, sabe-se que foram
trocadas, pelo menos, duas cartas “em cada sentido”.

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“Muito obrigado pela tua carta simpaticamente agressiva do dia… — não,


não é de dia nenhum, pois veio femininamente não datada”, escreveu
Fernando Pessoa, em inglês, num rascunho datado de 9 de outubro. Esta
é a última carta que se conhece enviada pelo poeta a Madge Anderson
(Coleção Particular de Manuela Nogueira)

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A primeira carta que se conhece (o seu rascunho encontra-se


com a família do poeta) foi enviada por Pessoa, no verão ou
princípio do outubro de 1935. Nessa missiva, o autor da
Mensagem pede desculpa a Madge pelo seu
“desaparecimento” durante a sua estadia em Lisboa, em abril
ou maio, justificando-se com uma crise depressiva. “Esta
minha carta será simplesmente um pedido de desculpas.
Chegaste aqui quando eu estava a afundar-me e por cá
ficaste até eu me ter afundado”, escreveu Fernando Pessoa.
“Desde então, já voltei à superfície, mas teria dificuldade em
dizer que superfície se trata. Lamento muito tudo o que se
passou, isto é, a minha descortesia em ter desaparecido, mas
não perdeste nada com o meu desaparecimento, que foi a
melhor ação que alguns resquícios de decência poderiam ditar
a um homem praticamente perdido para tudo isso.”

Não se sabe qual foi a resposta de Madge a esta carta.


“Sabemos, porém, que ela realmente respondeu com uma
‘carta simpaticamente agressiva’, como Pessoa lhe chama em
nova missiva sua, datada de 9 de outubro de 1935”, escreveu
José Barreto. Esta mensagem — também ela um rascunho em
posse da família — é a última que se conhece escrita pelo
poeta à sua paixão inglesa. Até à publicação do artigo de
Barreto, esta ainda não tinha sido identificada como sendo
para Madge Anderson porque não inclui nenhuma referência
ao destinatário.

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Primeira página da carta enviada por Madge Anderson a Fernando


Pessoa, datada de 14 de novembro de 1935. Pessoa só a terá recebido
alguns dias antes da sua morte, a 30 de novembro (Biblioteca Nacional
de Portugal, Espólio 3)

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Madge demorou várias semanas a responder a Pessoa. A sua


resposta, datada de 14 de novembro, encontra-se no espólio
pessoano da BNP e já era conhecida de alguns investigadores.
Contudo, nunca tinha sido publicada, talvez por “ser muito
difícil de ler”. “Escapou aos chamados salteadores da arca
perdida”, brincou José Barreto. Nessa carta, a última que
Madge escreveu a Fernando Pessoa, a inglesa diz que
“adoraria estar novamente de partida em visita” a todos em
Portugal. “Escreve-me outro pequeno poema em breve e
ensina-me a levantar o ânimo, tal como eu tentei fazer
contigo!”, disse, referindo-se ao poema “D.T.”, que Pessoa
anexou à sua última carta. Mas isso nunca viria a acontecer.
Fernando Pessoa morreu poucas semanas depois, no Hospital
de S. Luís dos Franceses, em Lisboa. José Barreto não
encontrou indícios de que, depois disso, Madge Anderson
tenha voltado a Portugal, como tanto ansiava.

Se as cartas não forem suficientes para convencer os mais


céticos, ainda existem os poemas de amor, alguns deles
reunidos por José Barreto em “A Última Paixão de Fernando
Pessoa”. “Uma coisa que eu digo neste artigo é que Fernando
Pessoa era uma pessoa extremamente reservada”, afirmou o
historiador ao Observador. “Conhecia muita gente, mas
amigos íntimos tinha muito poucos. Portanto, a vida privada
era uma coisa sagrada para ele. Ninguém sabia onde morava,
etc. Preservava muito a sua intimidade e a sua vida pessoal. É
preciso notar que 90% da poesia que ele escrevia era para a
arca, não era para publicar. Nessa poesia, ele abre-se mais em

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Não, nada é certo.


O teu amor poderia
Tornar-se melhor do que eu
Posso ser ou tentar.
Mas nunca poderemos saber —
Querida, eu não posso saber
Se o açúcar do teu coração
Não se tornaria rebuçado…
Deixo, pois, o coração doer
E bebo aguardente.”
— Excerto do poema “D.T.” (abreviatura de Delirium
Tremens), traduzido por José Barreto, com
colaboração de Ricardo Vasconcelos

relação à sua vida afetiva”, como fez em “D.T.”, um poema


“alcoólico ou pós-alcoólico” que descreve “sucintamente a
encruzilhada psicológica do autor, posto perante a escolha
entre o alcoolismo e o amor, optando afinal pelo brandy,
embora saiba que lhe matará a alma”. Contudo, é sempre
preciso ter “um cuidado extremo” porque Pessoa tinha jeito
para disfarçar. “Introduz dados que, de certo modo, fantasiam
um pouco. Esconde aqui, esconde acolá. Nunca é
completamente claro e aberto e há que ter isso em conta”,
disse José Barreto, salientando, porém, que “são tantas as

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provas na poesia que escreveu em português, inglês e até em


francês nesse ano” que é difícil ignorar.

“De facto, a hipótese do Ángel Crespo era muito sólida”,


admitiu. “Parti desse princípio. Em 1978, quando foi editado
pela primeira vez o conjunto de cartas de amor de Fernando
Pessoa a Ofélia, David Mourão-Ferreira disse no prefácio
que, tanto quanto se sabia, era o único episódio
sentimental da vida de Pessoa e que era improvável que
houvesse outra história. Nunca acreditei nisso. De facto, a
poesia de amor não é muito abundante, mas há muita
coisa que não encaixa na história da Ofélia.” Mas, ainda
assim, a interpretação de Barreto não deixa de ser apenas uma
sugestão e o investigador faz questão de deixar isso bem
claro: “Não posso provar [que Pessoa estava realmente
apaixonado por Madge], nem provavelmente alguém poderá.
É uma hipótese que tem base, que tem fundamento e que é
preciso considerar”.

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“Quando foi editado o conjunto de cartas


de amor de Fernando Pessoa a Ofélia,
David Mourão-Ferreira disse que, tanto
quanto se sabia, era o único episódio
sentimental da vida de Pessoa e que era
improvável que houvesse outra história.
Nunca acreditei nisso.”
José Barreto

José Barreto acredita que ”a investigação ainda não está


completa” e que ainda é possível acrescentar novos
pormenores à história. “Ainda está em curso, digamos assim”,
afirmou. Madge “foi uma mulher que, aparentemente, não
deixou descendência e, portanto, deve ter guardado as cartas
de Fernando Pessoa” que não chegaram até nós e que Barreto
acredita que ainda podem vir a aparecer, permitindo saber um
pouco mais sobre a relação, algo misteriosa, da inglesa com o
poeta português. “Também não consegui uma fotografia de
Madge Anderson e com certeza que haverá. Se ela não teve
filhos, poderá ter tido sobrinhos e é natural que existam
fotografias na posse de alguém.” Por essa razão, o
investigador pretende, num futuro próximo, publicar o artigo
em Inglaterra, o que pode permitir a recolha de mais

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informações. A tradução já está a ser finalizada. Só resta


encontrar um sítio para o publicar.

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O último poema de Fernando Pessoa?

Poderá ter sido com Madge em mente que Fernando Pessoa


escreveu, a 22 de novembro de 1935, o poema “The happy
sun is shinning” (em português “O sol feliz brilha”). O texto
em inglês não é inédito — foi publicado pela primeira vez por
Ángel Crespo, em 1989, e depois incluído na edição de poesia
inglesa editada pela Assírio & Alvim em 2000 (com
organização de Luísa Freire) e na edição de 2016, da mesma
editora, organizada por Richard Zenith. Mas sempre com erros
ou omissões, que José Barreto corrigiu para este número da
Pessoa Plural. Os versos, como explicou o investigador, são
dirigidos “a uma amada ausente ‘faraway’, por quem o
coração do poeta anseia”. “Reforça o tom realístico desse
poema a circunstância de se somar a outros, de temas afins,
quiçá de ‘sinceridade’ variável, escritos no mesmo ano”,
escreveu o historiador no artigo “A última paixão de Fernando
Pessoa”.

A escrita de “The happy sun is shinning” coincide com a


chegada à caixa de correio de Pessoa da última carta de
Madge, datada de 14 de novembro, dia das eleições
parlamentares em Inglaterra, às quais a inglesa se refere na
missiva. Partindo do princípio que Madge enviou a carta no

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dia em que a escreveu, esta terá chegado a Portugal a 20 ou 21


de novembro, supõe o investigador. Fernando Pessoa foi
internado a 26 desse mês, no Hospital de S. Luís dos
Franceses, tendo morrido poucos dias depois, a 30 de
novembro de 1935. Ao Observador, José Barreto explicou que
“Pessoa datava [sempre] os poemas”. “Ele escreveu dezenas
de milhares de poemas e 99% estão datados. Muitas vezes
não datava os outros textos, em prosa, mas a poesia datava
sempre. Este está datado de 22 de novembro, uma semana
antes de morrer, e não há nenhum poema que se conheça — a
obra poética foi toda estudada — com uma data a seguir.” Isto
significa que “The happy sun is shinning” é, “muito
possivelmente, o último poema que Pessoa escreveu em
qualquer língua”. Não há nenhum no seu espólio com uma
data posterior.

Mas o que impressiona em “The happy sun is shinning” é o


tom apaixonado com que Pessoa fala da mulher amada, a
única coisa que “importa”. “É claramente um poema
apaixonado”, salientou José Barreto. “Como eu digo no artigo,
estes não são sentimentos que se fantasiem, que se inventem.”
Além do mais, é “raríssimo” encontrar versos deste tipo “na
obra de um poeta como Pessoa”. “A poesia amorosa, na
primeira pessoa, não é vulgar, mas é ainda mais raro um
poema em que tão claramente manifesta a sua paixão. Foi isto
que levou o Ángel Crespo a dizer que era evidente que
Fernando Pessoa estava apaixonado.” Porque, apesar de
Pessoa ser geralmente descrito como um poeta racional, não

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12/01/2018 A última paixão de Fernando Pessoa não foi Ofélia, foi uma inglesa loira – Observador

O sol feliz brilha


Os campos estão verdes e alegres
Mas o meu pobre coração anseia
Por algo que está longe.
Anseia só por ti,
Anseia pelo teu beijo
Não importa se és el
A isto.
O que importa és só tu.”
— Excerto de “The happy sun is shinning”. A
tradução do inglês,”tanto quanto possível literal”, é
de José Barreto, com colaboração de Ricardo
Vasconcelos

quer dizer que não fosse capaz de se apaixonar perdidamente


por alguém.

De acordo com José Barreto, existem passagens nos


fragmentos dos diários que Pessoa escreveu por volta dos 20
anos que falam de questões amorosas e do “conflito entre o
amor e a obra”, que sempre o preocupou e que acabou por
ditar o final do relacionamento com Ofélia Queiroz: “O meu
destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha
nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a
Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário

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que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na


sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na
minha”, escreveu o poeta a jovem, a 29 de novembro de 1920,
quando terminou a primeira fase do namoro. “Ele achava,
desde muito jovem, que tinha uma missão como escritor que
era relevante”, disse José Barreto. “Tinha uma grande
opinião de si próprio e achava que a vida rotineira, igual à
dos outros, seria destrutiva para a sua missão, para a sua
obra poética. Escreveu sobre esse conflito, o que já é
indicativo de que não era um homem desprovido de
sentimentos e incapaz de se apaixonar.”

É que apesar de o autor de Mensagem ter “fama de fingidor”,


não quer dizer que fosse exatamente assim. “Adolfo Casais
Monteiro chamou-lhe o ‘insincero verídico’, que é uma coisa
um bocado contraditória”, afirmou o historiador. “Ele alertou
que se deve ter muito cuidado quando se interpreta a
poesia a partir da vida de Fernando Pessoa ou ao
contrário. Mas a poesia não está desligada da vida. Nunca
está. E mais: todos os poetas se apaixonam e escrevem
poemas amorosos. Pessoa não foi exceção.”

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“A poesia não está desligada da vida.


Nunca está. E mais: todos os poetas se
apaixonam e escrevem poemas
amorosos. Pessoa não foi exceção.”
José Barreto

Apesar de “The happy sun is shinning” ter sido o último


poema escrito por Pessoa, não é, contudo, o último escrito
atribuído ao poeta. Como se sabe — a história é famosa –,
antes de morrer, Fernando Pessoa terá escrito num papel as
palavras “I know not what tomorrow will bring”. A última
frase dita foi, porém, outra. Como relatou João Gaspar Simões
na sua biografia do poeta: “Agonizava, e no meio da sua
agonia, repuxando a dobra do lençol, teve, de súbito, uma
pausa de estranha inquietação. Abriu os olhos, olhou em roda,
e vendo que não via, serenamente, como quem não esquece
que os míopes, para ver, precisam de óculos, pediu que lhe
dessem as suas lentes: ‘Dá-me os óculos’, murmurou,
semicerrando os olhos enevoados. Foram estas as suas últimas
palavras”.

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Um pessoano “absoluto” e “apaixonado”

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“A Última Paixão de Fernando Pessoa” é apenas um dos


muitos artigos que enchem o número 12 da Pessoa Plural,
dedicado à Coleção Fernando Távora. Apesar de ter ficado
conhecido sobretudo pelo trabalho de arquiteto, Fernando
Távora foi um colecionador ávido, cuja extensa coleção,
repleta de preciosidades do modernismo português, já
permitiu desenvolver algumas novas leituras, divulgadas nesta
edição da revista de Estudos Pessoanos. Nascido a 25 de
agosto de 1923, no Porto, “o seu período de formação foi
intenso e doloroso”, escreveu o filho, José Bernardo Távora,
para a Plural. “As descobertas de Le Corbusier, Picasso e
Fernando Pessoa marcaram o seu destino, a sua vida. As
leituras, a escrita, as reflexões, as viagens, as coleções, a
História ganham durante este período da sua vida uma maior
solidez.” Interesses que o acompanharam ao longo da vida, a
par do desenho.

Começou a colecionar nos anos 40 — “tudo, tudo aquilo que


os outros ainda não colecionavam” —, quando os modernistas
ainda eram uma coisa de nicho. Apesar da revista Presença,
fundada em 1927 por João Gaspar Simões e Branquinho da
Fonseca, ter continuado, depois da morte de Fernando Pessoa,
a “disseminar um pouco” a sua imagem, levando a “uma certa
consagração no meio literário”, a verdade é que Pessoa e os
outros modernistas eram lidos e apreciados num meio
“relativamente restrito”. “Ainda havia muita gente que
continuava a escrever de costas voltadas para Pessoa, mas
havia a nata de intelectuais dessa época — dos anos 40, 50 —

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que o conhecia, o procurava e o lia”, explicou ao Observador


Ricardo Vasconcelos, que colaborou neste número especial da
Plural como editor convidado e também como autor. Apesar
disso, foi nesta altura que Fernando Távora começou a
aprender sobre Fernando Pessoa, o que mostra a perspicácia e
sensibilidade do colecionador.

“Vê-se que havia uma sensibilidade estética muito forte”,


comentou Ricardo Vasconcelos, que se tem dedicado ao
estudo da obra de Mário de Sá-Carneiro. “Havia um apelo às
questões estéticas, por ter sido o arquiteto que foi, mas era
evidentemente um grande leitor. Não procurava apenas os
materiais de alguém que era famoso — começou a pegar num
autor que apenas escritores conheciam e a sentir-se fascinado
por ele quando era ainda muito jovem.” No texto que
escreveu para a Plural, o filho, também arquiteto, conta
que o pai “lia muito, à noite, todas as noites”, enquanto ia
tirando pequenas notas que hoje podem ser encontradas
um pouco por todo o espólio. “Em todos os livros e
objetos.” Estas anotações incluem “várias informações — do
que é que se trata, onde comprou os materiais, a quem
comprou, se há alguma característica específica, se se trata de
um achado”. “E depois ainda fazia muitas vezes referência a
artigos ou livros que podiam ajudar a compreender aqueles
textos”, explicou Vasconcelos. “Quem entrar [na coleção] com
um conhecimento mínimo dos Estudos Pessoanos ou Sa-
Carneirianos e quiser saber mais, ele deixou uma espécie de
introdução teórica aos manuscritos”, afirmou o editor

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convidado da Pessoa Plural, um dos primeiros a consultar o


espólio, que se encontra no Porto. “O rigor das notas é
interessantíssimo.”

“Havia um apelo às questões estéticas,


por ter sido o arquiteto que foi, mas era
evidentemente um grande leitor. Não
procurava apenas os materiais de alguém
que era famoso.”
Ricardo Vasconcelos

Fernando Távora nunca foi egoísta. Apesar de as suas notas


nunca terem saído da sua casa, muitos dos objetos que
colecionou saíram. Ao longo de décadas — e principalmente
durante o boom dos Estudos Pessoanos, no final dos anos 70,
inícios dos anos 80 —, Távora “apoiou a divulgação de
documentos na sua posse, quer em edições organizadas
por diferentes pesquisadores, incluindo inéditos ou
documentos raros, quer mesmo em eventos públicos, como
a exposição associada ao Primeiro Congresso
Internacional de Estudos Pessoanos, organizado no Porto
em 1978”, escreveu Ricardo Vasconcelos na nota introdutória
do número 12 da Plural. Esta mostra foi, aliás, montada pelo
próprio arquiteto, com a colaboração do Centro de Estudos

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Pessoanos, que também ficava na Invicta. “Era um pessoano


absoluto, apaixonado e incrivelmente informado”, comentou
Vasconcelos, em conversa com o Observador.

Távora morreu em setembro de 2005, aos 82 anos. Colecionou


compulsivamente até ao final da vida, não só documentos
ligados ao modernismo português, mas muitas outras coisas.
Em entrevista à RTP, em 2001, disse que “viver é uma coisa
que não tem preço”. “Vou deixar uma coisa espantosa, vou
deixar isto tudo aqui… Tudo isto que vê aqui… Estas árvores,
estas pinturas, estas amizades, o pedreiro, o carpinteiro, sei lá!
O que eu deixo de gente, de relações, de amizades, de quadros
de textos, de, de, de… Da obra que eu fiz.” Essa obra que,
passadas quase duas décadas, permitiu abrir uma nova porta
para o modernismo português. Foi por essa razão que os
editores da Pessoa Plural lhe quiseram prestar homenagem. A
maioria dos artigos do novo número da revista publicada pela
Brown University, Warwick University e Universidad de los
Andes têm como base manuscritos encontrados na coleção do
arquiteto portuense. Esta Pessoa Plural tem mais de 740
páginas, mas os responsáveis garantem que ficou muito
material para analisar.

“Em termos de manuscritos, são mesmo milhares”, revelou


Ricardo Vasconcelos. “Digitalizamos, pelo menos, cerca de
mil páginas manuscritas e há muito mais que ficou por
digitalizar. Talvez umas duas, três mil páginas, com o Raul
Leal a assumir uma dimensão muito grande.” Mas há outros

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autores — Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Luís


de Montalvor, Alfredo Guisado, José Régio, entre outros.
Há manuscritos de poesia, correspondência, muitas
novidades e alguns textos já conhecidos dos investigadores.
Outra coisa que “é interessante notar é que Fernando Távora
foi reunindo o que o tempo foi dispersando”, afirmou Ricardo
Vasconcelos. Existem documentos de determinados autores,
como é o caso de Sá-Carneiro, cujo paradeiro era
desconhecido, mas que Távora reuniu na sua coleção.
Exemplo disso é a correspondência do autor de Dispersão
com o avô, que chegou às mãos do arquiteto em dois períodos
diferentes. “Fernando Távora acabou por fazer um serviço
comunitário”, afirmou o investigador.

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O número de outono da Pessoa Plural, publicada semestralmente pela


Brown University, já está disponível para consulta. É dedicado à Coleção
Fernando Távora e teve Ricardo Vasconcelos como guest editor (editor
convidado)

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Mas foi sobretudo a “dimensão e qualidade da coleção” que


impressionaram Ricardo Vasconcelos quando a visitou pela
primeira vez, quando estava a preparar a edição crítica da
poesia de Sá-Carneiro, editada pela Tinta-da-China em abril
deste ano. “É riquíssima, muito centrada em Pessoa e Sá-
Carneiro, mas também com grande relevo para o estudo de
Raul Leal. Fernando Távora adquiriu o espólio de Leal,
que é uma espécie de nova arca — mas não no estilo de
Pessoa — com manuscritos maioritariamente originais e
alguns deles inéditos. Há cópias de correspondência,
rascunhos que Leal foi guardando e há coisas que são
novas”, disse o investigador, professor na San Diego State
University. Materiais que, até então, eram desconhecidos. “O
espólio do Raul Leal andou perdido durante 40, 50 anos”,
referiu ao Observador Jerónimo Pizarro, um dos editores e
fundadores da Pessoa Plural, que garante que este número da
revista “podia ter sido apenas sobre Raul Leal”. Apesar de não
o ser, há uma boa parte que é dedicada ao autor de Sodoma
Divinizada.

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A importância de ser Leal

Raul Leal foi um escritor português que ficou sobretudo


conhecido pela participação no número dois do Orpheu —
com uma “novela vertígica” chamada Atelier —, e por ser o
autor do ensaio polémico Sodoma Divinisada, sobre António
Botto, que foi publicado em 1924 pela editora Olisipo de

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Pessoa. “Neste ano em que se celebrou o centenário da


Portugal Futurista, fizeram-se vários colóquios, no Rio de
Janeiro, em Pádua e em Lisboa. Leal acaba sempre por ser
posto de lado porque foi mais um autor de polémica devido
aos seus ensaios filosóficos, extravagância de comportamento
e de discurso também”, afirmou Ricardo Vasconcelos.
Personagem controversa, a vida de Raul Leal (com um enredo
digno de um filme) acabou por absorver toda a sua obra — em
grande parte desconhecida — e o seu papel na introdução do
Futurismo em Portugal desvalorizado.

Leal caiu no “esquecimento” e, por essa razão, existe a


“necessidade de se revisitar a sua obra e pensamento”. “Acho
que tem ideias muito interessantes e que são ilustrativas de um
certo período da nossa história literária”, frisou o investigador.
E foi exatamente isso que a Pessoa Plural tentou fazer — este
número, inclui três artigos dedicados a Leal. O primeiro, “um
texto muito bom do Enrico Martines”, analisa a troca de
correspondência entre José Régio e Raul Leal sobre a
publicação de textos deste na revista Presença. “José Régio
batalhou mesmo com os outros membros da Presença para
que publicassem o mais possível de Raul Leal”, da mesma
maneira que Pessoa, anos antes, o tentou defender
publicamente, publicando, inclusivamente, o texto de
Sodoma Divinizada, explicou Vasconcelos. E isso fica claro
nas cartas que trocaram, nas quais Régio diz que “se a revista
tivesse qualquer espécie de prurido moral, então não tinha
interesse”. “Fiquei fascinado com a coragem dele, de querer

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publicar o que lhe apetecesse”, salientou ainda o editor


convidado da Pessoa Plural. Um outro texto, assinado por
António Almeida, aborda a escrita de Raul Leal sobre as as
artes plásticas. O terceiro artigo é da autoria do próprio
Ricardo Vasconcelos, que examinou um rascunho de uma
carta escrita para Fernando Pessoa depois da morte de Mário
de Sá-Carneiro, a 26 de abril de 1916. Esta nunca tinha sido
publicada.

Raul Leal “tinha trocado correspondência com Sá-Carneiro,


que dizia que ele era doido, que era o mais Orpheu de todos,
na pior maneira”. Numa carta enviada a Fernando Pessoa, a 5
de novembro de 1915, o autor de Dispersão escreveu que,
apesar de Leal ter algum mérito, era “muita pena que o
rapazinho” fosse “um pouco Orfeu de mais” (com um só “f”).
“Como se Orpheu significasse só loucura”, explicou
Vasconcelos. Curiosamente, Sá-Carneiro era sempre,
juntamente com Pessoa, “o primeiro a querer a comoção
pública, o choque”. Apesar de ter começado por encarar Leal
como um maluquinho, Mário de Sá-Carneiro acabou por
“valorizar o pensamento” do filósofo, e os dois “acabaram por
se corresponder um pouco”. “Ficou fascinado com o que ele
lhe dizia”, chegando mesmo ao ponto de remeter algumas das
suas cartas para Pessoa, para que este as lesse.

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Mário de Sá-Carneiro morreu a 26 de abril de 1916, em Paris. Os manuscritos


que deixou no interior do quarto de hotel onde vivia permanecem
desaparecidos

Quando Sá-Carneiro se suicidou em Paris, foi Fernando


Pessoa que informou Raul Leal da sua morte. “Ficou muito
chocado. Ele próprio pensou em suicidar-se numa altura de
grande miséria em Espanha”, contou Ricardo Vasconcelos. E
reagiu de forma estranha — ao saber da notícia, decidiu
“fazer uma interpretação filosófica do suicídio”, que
depois terá enviado a Pessoa. Nesta teorização, Raul Leal
defende que o artista, ao pôr termo à própria vida, “está a
fazer uma espécie de autossacrifício, apontando uma
direção nova para os que o seguirão”. “A teorização de Leal
procura abarcar a sua própria espiritualidade, uma projeção
astral das suas emoções, que ecoa a então recém apresentada
teoria da relatividade, e a crença no valor redentor da obra
artística”, escreveu Vasconcelos em “Foi como se fôsse eu o

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Suicidádo”. “O mais marcante é o esforço filosófico que ele


faz para tentar compreender tudo e a forma como distorce a
linguagem de uma maneira ‘vertígica’”, disse o investigador
em conversa com o Observador.

Esta “interpretação filosófica” foi exposta numa carta dirigida


a Fernando Pessoa, hoje na Coleção Fernando Távora. A
missiva foi redigida quando Leal estava em Espanha, para
onde foi obrigado a fugir depois da publicação de O Bando
Sinistro, um manifesto político-literário sobre a revolução que
depôs o regime ditatorial de Pimenta de Castro, a 14 de maio
de 1915, que é analisado por António Almeida neste número
da Pessoa Plural. A missiva está datada de 7 de maio de 1916
e foi escrita, à mão, em papel timbrado do “elegante” Café
Lion d’Or, um importante centro de tertúlias da capital
espanhola. Apesar de se tratar, aparentemente, de um
rascunho, “não se pode descartar por completo a hipótese de
que se trate de uma carta efetivamente enviada a Pessoa e a
que Fernando Távora possa ter tido acesso”, escreveu Ricardo
Vasconcelos. Contudo, o investigador acredita que existem
“razões para crer que se trata de um rascunho de uma carta,
cuja versão passada a limpo possa ter sido enviada ou não”.

Além deste texto sobre Raul Leal, Ricardo Vasconcelos


escreveu outros dois artigos para este número da Pessoa
Plural, também relacionados com Mário de Sá-Carneiro.
“Porque é que não escreve Cartas?” revela correspondência
inédita entre o poeta e o seu avô paterno, José Paulino de Sá

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Carneiro, e “Uma Carta Inédita de Fernando Pessoa”,


também relacionado com a morte de Sá-Carneiro, fala
sobre a segunda carta de Pessoa ao gerente do Grand
Hôtel de Nice, onde Sá-Carneiro cometeu suicídio. Até agora,
só se conhecia a primeira carta escrita e enviada por Pessoa ao
gerente do Nice, a 26 de setembro de 1918, mais de dois anos
depois da morte de Sá-Carneiro. Existe uma cópia desse
documento na Coleção Fernando Távora, juntamente com
uma anotação que explica que o original “pertence ao espólio
de F[ernando] Pessoa e foi cedido para figurar na Exposição
Biblio-Iconográfica realizada quando do I Congresso
Internacional de Estudos Pessoanos”.

No horizonte solene,
No lívido horizonte
Já estremece um vago horror do dia
Do dia que vai ser aquela infrene
Tortura de agonia
A perturbar o mar, e vale e monte
Toda a paisagem angustiada e fria
Sente que lhe perpassa
Pela verde da carcaça
Uma luz irreal e de profecia.”
–Excerto do poema “No Horizonte Solemne”

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É também ao espólio do arquiteto que pertence esta segunda


missiva — anunciada na primeira, publicada Em Ouro e
Alma: Correspondência com Fernando Pessoa, volume
organizado por Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarro —,
que deveria funcionar como “credencial” para que Carlos
Ferreira, amigo de Sá-Carneiro em Paris, pudesse levantar os
manuscritos que se encontravam no hotel. Juntamente com
esta carta, encontra-se uma declaração em nome do avô de
Sá-Carneiro, José Paulino de Sá Carneiro, aparentemente
preparada por Pessoa, que reiterava as informações
fornecidas pelo autor da Mensagem ao gerente do hotel
parisiense. Apesar de não adiantar muito mais relativamente
aos papéis de Sá-Carneiro, que permanecem desaparecidos, o
documento releva outros pormenores sobre os esforços
levados a cabo por Pessoa e outros amigos do poeta para
reaver os seus bens. “É mais um elemento do puzzle”, frisou
Vasconcelos.

O número 12 da Pessoa Plural, onde são apresentados pela


primeira vez vários documentos, inclui ainda, entre outros,
dois artigos da autoria de Carlos Pittella — uma revisitação do
testemunho de Augustine Ormond, que conheceu Fernando
Pessoa quando este ainda vivia na África do Sul, e uma
análise dos fragmentos do poema “Juliano Apóstata”, de
Pessoa —, e uma discussão sobre a importância da caricatura
no período modernista, partindo da representação de Pessoa
por António Teixeira Cabral, da autoria de Nataliya
Hovorkova. Patrícia Silva, cujo texto encerra a secção da

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revista dedicada aos artigos, falou da estratégia editorial de


Orpheu e do contributo de Alfredo Guisado — poeta lisboeta
que participou com uma série de treze sonetos no primeiro
número da revista — para a divulgação do projeto literário,
apresentando poemas do escritor. Jerónimo Pizarro analisou
vários documentos de Fernando Pessoa na Coleção Fernando
Távora e apresentou um poema inédito, “No Horizonte
Solemne”. A fechar a publicação estão três recensões, uma
delas sobre o Arquivo Digital Colaborativo do Livro do
Desassossego, apresentado oficialmente na semana passada.

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Começar onde a Persona acabou

A Pessoa Plural nasceu a 13 de junho de 2012, data de


nascimento do poeta que lhe dá nome, com o objetivo de
servir de “veículo para a divulgação de materiais inéditos
recolhidos da vasta coleção de documentos do espólio” de
Fernando Pessoa, “assim como a correção e revisão de outros
já publicados”. Editada em conjunto pelos departamentos de
Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, de
Estudos Literários Comparativos da Warwick University e de
Humanidades e Literatura da Universidad de los Andes — a
que pertencem os professores e investigadores Onésimo
Almeida, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro,
respetivamente, responsáveis pela sua edição — é
essencialmente uma revista académica internacional dedicada
a Pessoa e aos outros que, juntamente com ele, fizeram o

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modernismo português. Ao contrário de outras publicações,


que a antecederam, a Pessoa Plural é exclusivamente online
(até agora, foi apenas publicado um número em papel). Não
que a edição impressa de edições críticas tenha perdido o
interesse, mas porque a publicação digital traz outras
vantagens.

“A publicação tradicional, impressa, de edições críticas dos


textos de Pessoa e de estudos críticos sobre eles mantém-se
absolutamente necessária. No entanto, a publicação
electrónica da revista trará vantagens definitivas também”,
explicaram os editores numa nota de apresentação no primeiro
número da Pessoa Plural. “Possibilitará acesso fácil a novos
materiais e estudos a investigadores internacionais, que os
podem ler ou descarregar a partir das suas instituições;
permitirá a publicação mais rápida de textos e materiais, sem
os limites físicos de tamanho, qualidade gráfica e custo
normalmente associados com volumes impressos; e permitirá
ainda um grau maior de cruzamentos interdisciplinares, uma
vez que se espera que tanto os leitores como os colaboradores
possam ser estimulados pelas divergentes opções
metodológicas e teóricas.”

Curiosamente, a Pessoa Plural não nasceu em Portugal, mas


na Holanda. Ou pelo menos a ideia dela. Há cinco anos,
Jerónimo Pizarro deslocou-se até à Utrecht University — cujo
Departamento de Estudos Portugueses era então dirigido pelo
português Paulo de Medeiros —, na Holanda, para apresentar

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uma comunicação sobre Fernando Pessoa. Ao almoço, os dois


investigadores discutiram o que é que podia ser feito para
divulgar a obra de Pessoa. “Falámos sobre o que é que
poderíamos fazer, o que é que seria bom”, contou ao
Observador Paulo de Medeiros, atualmente professor na
University of Warwick, em Inglaterra. “A ideia surgiu desse
almoço.”

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Até à publicação do artigo de Ricardo Vasconcelos neste número da


Pessoa Plural, só se conhecia a primeira carta de Fernando Pessoa ao
gerente do Grand Hôtel de Nice, em Paris. Esta faz parte do espólio do
poeta da Biblioteca Nacional (Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio 3)

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A Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro veio depois juntar-se


Onésimo Almeida, professor da Brown University, em
Providence, e um dos responsáveis pela criação, nos anos 70,
do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros daquela
universidade. Além de ter sido o primeiro do género nos
Estados Unidos da América, o núcleo de estudos
portugueses da Brown permanece, ainda hoje, o mais
importante da América do Norte, desenvolvendo um
importante trabalho de divulgação da língua portuguesa.
Para Medeiros, a colaboração de Onésimo Almeida — que
entrou para o grupo mais ou menos na altura em que o
investigador e professor saiu de Utrecht para Warwick, depois
de o Departamento de Estudos Portugueses da universidade
holandesa ter fechado — veio garantir que “a revista saísse e
que saísse com o apoio da Brown e do Onésimo”, que foi
responsável por encontrar as melhores pessoas para tratar de
certos aspetos mais técnicos.

A revista, que já esteve sediada em Utrecht, é agora de


Warwick, Bogotá e Providence, uma realidade que acaba por
espelhar o “desejo de ultrapassar os limites de abordagens
estreitas à obra de Pessoa”, como escreveram os três editores
no primeiro número da revista. Foi também por isso que se
chamou à publicação Pessoa Plural porque, tal como os
investigadores, editores e diferentes abordagens que a
compõem, Fernando Pessoa também foi sempre múltiplo.
“São as três universidades dos três editores. É uma espécie de
triangulação anglo-americana-colombiana”, frisou por sua vez

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12/01/2018 A última paixão de Fernando Pessoa não foi Ofélia, foi uma inglesa loira – Observador

Jerónimo Pizarro, que Paulo de Medeiros considera ser o


grande “motor” da Plural. “Procuro que [a revista] fique nos
Estados Unidos da América porque as bibliotecas norte-
americanas fazem coisas extraordinárias e há um centro
digital dentro da biblioteca da Brown, o que torna tudo muito
mais fácil.”

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Na segunda carta escrita ao gerente do Nice, Fernando Pessoa refere que


Carlos Ferreira é capaz de dar “todas as informações necessárias e
quaisquer garantias escritas” para que os manuscritos “do falecido Sr.
Mario de Sá Carneiro” lhe sejam entregues (Coleção Fernando Távora)

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Jerónimo Pizarro considera que tudo aconteceu “numa altura”


em que os investigadores sentiam “muito a necessidade de ter
uma revista pessoana, não só sobre Pessoa, mas sobre a
geração de Pessoa, dos modernistas todos, mas focada em
Pessoa e em tudo o que ele pudesse abranger”. Desde que a
Persona, publicada pelo Centro de Estudos Pessoanos, no
Porto, foi extinta, que não existe uma revista académica
focada em Fernando Pessoa e no modernismo português.
De 1977 — o ano de nascimento de Pizarro — a 1985 — ano
em que assinalou os 50 anos da morte de Pessoa — foram
publicadas “quase 900 páginas” e a Persona tornou-se “na
grande referência em termos de uma revista académica para os
Estudos Pessoanos”. “Quando era aluno, costumava trabalhar
muito com a Persona”, confessou o investigador colombiano.
“E a Persona teve estes números todos”, disse Jerónimo
Pizarro, enquanto mostrava, uma a uma, os 11 volumes (um
deles duplos) da revista.

A Persona “durou muito tempo”, considerou Pizarro. “Nem


sempre conseguiu ser semestral, mas deixou quase 900
páginas com leituras de Fernando Pessoa, deu a conhecer
documentos, comentários sobre o Livro de Desassossego, as
cartas de amor, traduções e novidades. Lembro-me muito bem
disso tudo”, afirmou, acrescentando que “algumas coisas da
Coleção Fernando Távora tinham sido referidas e tinham
aparecido na Persona”. “Arnaldo Saraiva fez algumas coisas a
partir da coleção. Ele tinha uma relação muito próxima com o
arquiteto Fernando Távora.” Ao ponto de levar documentos do

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seu espólio e deixar pequenas notas a avisar “levei isto, deixei


isto”, que os investigadores encontraram no meio dos
manuscritos.

Nesse aspeto, Jerónimo Pizarro sente que a Pessoa Plural


está, de certo modo, a dar continuidade ao “trabalho histórico
muito importante da Persona” e até ao “relacionamento” que
a revista pessoana “tinha com a Coleção Fernando Távora”, a
que a Pessoa Plural presta tributo neste último número. “A
minha memória da Persona não é apenas da revista, é de três
ou quatro artigos que marcaram a minha leitura de Fernando
Pessoa. A minha esperança com a Pessoa Plural é a mesma —
que alguns artigos fiquem na memória de alguns leitores.”

Apesar de ser uma revista académica, tal como era a Persona,


a Pessoa Plural não é apenas dirigida a investigadores. Essa é,
aliás, a ambição dos editores — que a revista chegue a todos
os interessados em Fernando Pessoa e no modernismo
português, em todas as partes do mundo. Nesse sentido, “é
fundamental que a revista seja em open access”. “Qualquer
pessoa pode lê-la. Não é preciso assinaturas, não é preciso
pagar nada”, frisou Paulo de Medeiros. Todos os
investigadores — editores incluídos — trabalham sem receber
“qualquer remuneração seja do que for”. Tudo acontece por
amor à causa e por solidariedade para com o projeto. “Como
dizia o Pessoa, ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’.”

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“A minha memória da Persona não é


apenas da revista, é de três ou quatro
artigos que marcaram a minha leitura de
Pessoa. A minha esperança com a Pessoa
Plural é a mesma — que alguns artigos
quem na memória de alguns leitores.”
Jerónimo Pizarro

O que Jerónimo Pizarro nunca pensou foi que a revista, que


começou por ter menos de 500 páginas, acabasse por ter quase
mil, tornando-se num “monstro de muitas cabeças”. “É uma
coisa que está a crescer de uma forma difícil de acompanhar e
que está a dar imenso trabalho. Andamos a trabalhar com
muitas imagens, a rever muitos textos, a trocar muitos
emails, e queria simplificar isso”, admitiu o editor,
acrescentando que não sabe se, no futuro, “dará para manter
este ritmo”. “Temos mantido um ritmo exagerado de mil
páginas porque ainda há muitíssimo material para dar a
conhecer e, na revista, sempre quisemos ter uma parte de
artigos mais teóricos, críticos e interpretativos, e uma segunda
parte para documentos. E sempre quisemos ter imagens.
Existe esta sensação de que há tanta, tanta coisa que os
números, que foram pensados para ter 200 páginas, cresceram

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espontaneamente ao ponto de terem mais de 700.” O que


acontece até com ele.

Para este número, Pizarro contribuiu com um artigo chamado


“Poemas e documentos inéditos: o lote 31 e a Coleção
Fernando Távora”, sobre alguns dos manuscritos pessoanos
que fazem parte do espólio do engenheiro portuense. O texto
— que inicialmente não era para ser da autoria de Jerónimo,
que acabou por escrevê-lo a pedido do editor convidado,
Ricardo Vasconcelos — era para ter entre 20 a 30 páginas,
mas acabou por ter quase 130 porque o investigador
“continuava e continuava a escrever”. Mas, por enquanto, os
editores da Plural não estão a colocar limites aos outros ou a
eles próprios. Jerónimo Pizarro pode continuar a escrever até
se cansar.

E o que é que reserva o futuro à Pessoa Plural?

Para Paulo de Medeiros, a grande dificuldade de manter


qualquer revista passa por perceber “se tem fogo” para
continuar mas, felizmente, a Pessoa Plural tem “conseguido
manter” isso. “Tem crescido bastante em tamanho e
também em qualidade. Além disso, tem conseguido manter
a regularidade, que penso ser essencial para uma revista
periódica e científica. Se não for regular, rapidamente vai
abaixo”, afirmou o professor universitário. “Modéstia à parte
— porque o trabalho duro é o que é feito pelo Jerónimo —,
penso que, dentro do campo dos Estudos Pessoanos, não há

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nenhuma revista que se lhe equipare.” Essa é uma das razões


pelas quais não está preocupado com o futuro da Pessoa
Plural e também porque “há toda uma geração nova de
pessoas que está a trabalhar muito bem, como o Ricardo
[Vasconcelos], o Carlos [Pittella ]”. “Penso que o futuro da
revista irá ficar assegurado por essas pessoas mais novas.”

Em 2018, Jerónimo Pizarro gostava de separar os números


especiais dos números regulares. “Temos tido muita coisa
híbrida, entre temática e números com contributos avulsos que
chegam simplesmente por submissão.” Por essa razão, o
pessoano gostava de separar as coisas e ter “números com o
que é submetido e números que são pensados desde o início”.
O próximo número da Pessoa Plural está agendado para
junho — altura em que se celebram os 130 anos do
nascimento de Fernando Pessoa — e o segundo deverá sair
em dezembro. “O que gostaria era de, em junho, termos um
número normal e, já no final do ano, termos novamente um
editor convidado e um número temático.” Além disso, a
revista irá continuar “com um grande compromisso com a
Coleção Fernando Távora”, o que significa que se voltará a
falar do arquiteto. Em 2018, também deverá voltar a revisitar
a Coleção Hubert Jennings, que tem ainda muito material que
vale a pena dar a conhecer, e brincar com a questão da
numerologia e astrologia em Fernando Pessoa, aproveitando
para isso o aniversário do nascimento do escritor.

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“Modéstia à parte — porque o trabalho


duro é o que é feito pelo Jerónimo
[Pizarro] —, penso que, dentro do campo
dos Estudos Pessoanos, não há nenhuma
revista que se lhe equipare.”
Paulo de Medeiros

Já Carlos Pittela espera que a revista continue a trabalhar com


arquivos, como o de Fernando Távora ou o de Hubert
Jennings. O brasileiro — que começou por estudar jornalismo
mas que se apaixonou definitivamente por literatura quando
estudou em Coimbra — começou a colaborar regularmente
com a Pessoa Plural a partir do número oito, publicado no
outono de 2015, onde participou como editor convidado. “Até
ao número sete, a Pessoa Plural não teve editores convidados.
Os editores eram sempre o Jerónimo, o Paulo e o Onésimo”,
explicou. “A ideia sempre foi a da revista ser internacional —
foi feita de propósito para estar fora de Portugal, para a
internacionalizar, apesar da maior parte dos contributos
sempre terem sido de portugueses. Mas, a partir do número
oito, foi tudo bastante orgânico. Foi quando foi descoberto o
espólio do Jennings” que, nesse ano, foi doado à Brown pela
família do investigador, um dos primeiros a interessar-se pela
obra inglesa de Pessoa. Nesse sentido, o número oito e 12 têm

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muito em comum — tratam de “duas coleções particulares,


dois espólios pessoanos, que foram encontrados” e que, apesar
de terem “muita coisa diferente entre si”, permitem realizar
novas abordagens à obra de Pessoa.

“O que eu acho interessante é que a Plural está a tornar-se


cada vez mais numa publicação de literatura comparada que
usa Pessoa como centro. Está a tornar-se cada vez mais
plural de diferentes formas — por estimular a colaboração
entre as pessoas (por vezes aparecem dois autores), por ter
editores convidados… É plural nesse sentido — entende
Fernando Pessoa como um ponto de encontro de diferentes
pessoas.” Em 2018, Pittela espera também ver a revista a
crescer de “outras formas”. “[Espero] que envolva mais vozes
que aparecem menos. Os Estudos Portugueses são muito
dominados por homens e eu e o Jerónimo queremos menos
disso. Queremos universidades da América Latina, da Ásia,
vozes de mulheres, embora este número não seja muito
representativo disso, por outras razões. Isso não é um
problema da Pessoa Plural, mas dos Estudos Portugueses no
geral.”

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A revista chama-se "Pessoa Plural" porque, tal como os investigadores,


editores e diferentes abordagens que a compõem, Fernando Pessoa também
foi sempre múltiplo (Wikimedia Commons)

E depois há a parte técnica, que tem sido da responsabilidade


de Carlos Pittella. É ele que tem supervisionado a passagem
da revista para o Brown Digital Repository, da universidade
de Providence, uma mudança vai permitir associar Digital
Object Identifiers (DOIs), isto é, bilhetes de identidade para
objetos digitais, aos artigos da Pessoa Plural. Além de dar
visibilidade e facilitar a publicação da própria revista (antes de
estar integrada no Brown Digital Repository, eram precisas
cerca de 40 horas para colocar a Pessoa Plural online, um
processo que agora demora apenas um dia), esta passagem vai
permitir tornar as coisas muito mais interativas. “O
repositório da Brown permite fazer coisas que nunca
pensámos. Podemos usar som, transcrições digitais,
publicar filmes. Pode tornar-se de facto numa revista

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multimédia, e gostava de brincar muito com isso”, admitiu


o investigador, dando como exemplo o que foi feito no
Arquivo Digital do Livro do Desassosego, uma plataforma
interativa que permite comparar diferentes edições da obra de
Bernardo Soares e criar edições digitais. “Queria aproveitar o
ano que vem e fazer uma coisa muito diferente”, acrescentou
Pittella. “Vou sempre querer que a Plural seja mais plural.” E
mais multimédia, claro.

Todos os números revista Pessoa Plural, incluindo o número


12, podem ser lidos aqui

Texto de Rita Cipriano, ilustração de Maria Gralheiro.


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