Você está na página 1de 5

Objetivos e práticas de um museu itinerante: entre o real e o pretendido

Marcus Soares, Andréa Maia, Iby Montenegro, Isabel Gomes1 e Marcele A. P. M.


Rocha
Projeto Ciência Móvel/ Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ

Resumo
O “Ciência Móvel – Vida e Saúde para Todos” é um museu itinerante que
consiste em um caminhão o qual transporta uma exposição interativa a região
sudeste do Brasil. A partir de reuniões do Grupo de Estudos em Divulgação de
Ciências e Educação Não Formal em Museus Itinerantes – GEMIt, surgiram alguns
questionamentos a respeito da existência de diferentes olhares sobre os objetivos do
Ciência Móvel e de como esses influenciam de diversas maneiras sua prática. Esta
investigação visa rediscutir os objetivos do Ciência Móvel, a partir da análise dos
objetivos que constam no projeto original submetido ao MCT e de entrevistas feitas
com coordenadores e mediadores, buscando unificar os discursos e práticas desse
museu itinerante contribuindo para uma identidade mais consensual.

Introdução
Os museus de ciências fazem parte da nossa sociedade pelo menos há três
séculos e sofreram mudanças em sua concepção e no seu público (VALENTE, M.
E., 2003). Antes eram tidos como espaços de exposições de objetos e coleções e
hoje são considerados como lugares de lazer e aprendizado (VALENTE, M. E.,
2003). Estes se apresentam atualmente como fóruns especializados em realizar
ações de caráter de divulgação da ciência e contribuir com a alfabetização cientifica
da sociedade (CAZELLI, S. et. al., 2003). Outro aspecto importante em relação aos
Museus de Ciências é a possibilidade de contribuir no processo educativo de
crianças e jovens, tanto no ensino fundamental e médio como na formação inicial
docente, nas áreas de física, química, biologia e áreas afins (MARANDINO,
2003:73). Dessa maneira encontramos um ponto favorável para justificar o aumento
da quantidade de Museus de Ciências no país e/ou sua itinerância, pois uma nova
dimensão é incorporada às atividades desta instituição. E é nesta nova dimensão
que se insere o Ciência Móvel – Vida e Saúde para Todos 2, um projeto de
popularização da ciência, de caráter itinerante, que transporta exposições e
equipamentos interativos para cidades do interior da região sudeste do Brasil.
Para comunicar-se com seu público, o Ciência Móvel utiliza diferentes
estratégias e linguagens. Contudo, a maioria das atividades propostas não é auto-
explicativa e depende de mediadores para um melhor aproveitamento. Alguns
autores defendem que os mediadores ocupam papel central na mediação (LOPES,
J.T., 2006; MARANDINO et al, 2008), dado que são eles que concretizam a
comunicação da instituição com o público.
Como resultado de inquietações teóricas de coordenadores e mediadores do
Ciência Móvel, foi criado o Grupo de Estudos em Divulgação de Ciências e
Educação Não Formal em Museus Itinerantes – GEMIt. A partir das reuniões do
grupo, surgiram alguns questionamentos a respeito da existência de diferentes
olhares, muitas vezes divergentes, sobre os objetivos do Ciência Móvel e de como
esses olhares influenciam de diversas maneiras a prática desse museu itinerante.
Entendemos ser a prática do Ciência Móvel, o conjunto das atividades sugeridas
pelos coordenadores, pelos documentos que lhe deram origem e pelo trabalho
realizado pelos mediadores.
Nesta perspectiva, esta investigação visa rediscutir os objetivos do Ciência
Móvel, a partir dos objetivos que constam no projeto original submetido ao MCT, e
da concepção atual dos coordenadores e mediadores sobre quais os objetivos do
mesmo. Neste contexto, indagamos quais as semelhanças e diferenças entre o que
pensam estes atores a respeito do objetivo do projeto, qual a relação entre o
discurso oficial e a prática e quais destes olhares atualmente norteiam de fato o
trabalho.

Metodologia
Este trabalho insere-se na perspectiva qualitativa de uma pesquisa, pois os
dados coletados são ricos em concepções, experiências, conhecimento e visões de
mundo. Outro fator que favorece a abordagem qualitativa desta investigação são
seus objetos de estudo: sujeitos que se manifestam através de suas palavras, suas
ações sociais, sua ideologia e sua subjetividade (CHIZZOTTI, 1998).
Esta investigação compreendeu três fases, descritas a seguir. A primeira foi
baseada na análise e discussão, pelo GEMIt, dos objetivos gerais e específicos
escritos no projeto original submetido ao Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT.
Na segunda fase foram realizadas entrevistas com os atuais coordenadores do
projeto Ciência Móvel – Vida e Saúde para Todos, e com alguns mediadores que
trabalham no projeto. A terceira compreendeu a análise das entrevistas.
A partir da leitura e análise dos objetivos do projeto, encontramos temas que
apareciam ao longo do texto de forma recorrente. Em uma tentativa de identificar os
principais objetivos do projeto original, organizamos estes temas em quatro
diferentes categorias que são: (i) Saúde - questões ligadas à conscientização e à
disseminação de informações sobre saúde; (ii) Divulgação da ciência – aspectos
ligados à divulgação e popularização da Ciência além do desenvolvimento,
implantação, avaliação e consolidação de um modelo de interiorização; (iii)
Formação crítica - aspectos relacionados à formação de um cidadão crítico e
consciente com capacidade julgar e tomar de decisões; (iv) Educação e Ensino de
Ciências – destaca-se questões relacionadas ao fortalecimento da qualidade de
ensino de ciências, ao aumento da curiosidade e gosto de aprender, adquirir e
construir conhecimento.
Estas categorias alicerçaram a construção de um roteiro de entrevistas semi
estruturadas. Fizemos uma entrevista-piloto com uma mediadora do Ciência Móvel,
afim de recolher dados para ajustes no roteiro de entrevistas final. Após esta etapa,
as perguntas das entrevistas foram:
1. Em sua opinião quais seriam os objetivos do projeto Ciência Móvel?
2. Você acha que o projeto Ciência Móvel ajuda a conscientizar os
visitantes sobre noções de saúde? Como?
3. Sendo o Ciência Móvel um projeto de divulgação de ciência, como você
acha que ele realiza este trabalho de divulgação? Quais os aspectos mais
importantes que você considera neste trabalho de divulgação de ciência?
4. Você acha que o Ciência Móvel contribui na formação do individuo
cidadão? De que forma?
5. Em sua opinião o Ciência Móvel está contribuindo para a Educação e o
ensino de Ciências? Como?

Coleta de dados
Para estas entrevistas selecionamos dois coordenadores do projeto e 6
mediadores em um universo de 38 cadastrados. Neste cadastro temos mediadores
que concluíram o ensino médio, graduandos e graduados em diferentes áreas do
conhecimento. O critério de seleção foi o de escolher aleatoriamente dois
mediadores que representassem os diferentes graus de escolaridade, que
trabalharam como mediador no ano de 2008 no projeto Ciência Móvel. Após esta
seleção, iniciamos as entrevistas com os coordenadores e com os mediadores. As
entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas.
Na análise buscamos identificar regularidades nas falas que foram
conceituadas e entendidas com referência a contextos e ambientes sociais e
culturais, bem como às suas trajetórias profissionais. Portanto, procuramos
categorizar as respostas dos entrevistados por meio da observação de temas
recorrentes nos discursos deles.

Resultados
No projeto original, observamos que os objetivos relacionados à saúde
apontam para a necessidade de divulgar informações sobre o tema produzidas pela
Fiocruz, assim como apresentar a ciência como fonte de transformação da saúde
individual e coletiva, por meio da adoção de hábitos mais saudáveis e
posicionamento crítico em relação a problemas sociais que comprometam a
qualidade de vida da população.
Outros objetivos estabelecidos pelo projeto original são referentes à
Divulgação Científica, mais especificamente a popularização e interiorização da
ciência, a partir de práticas não formais de educação. Propõe também que o Ciência
Móvel contribua para a consolidação de um modelo de divulgação científica
itinerante e para a integração de várias ações que formariam um sistema nacional
de interiorização, popularização e educação em ciências.
Nele também consta que um dos objetivos do Ciência Móvel é contribuir na
formação do cidadão, para que esse possa posicionar-se de maneira crítica em
relação a questões polêmicas, tais como o uso de tecnologias e aproveitamento de
recursos naturais. Outro ponto importante que aparece no projeto original refere-se
ao fortalecimento do Ensino de Ciências, ao desenvolvimento da curiosidade e da
capacidade de utilizar diferentes linguagens, assim como fontes de informação e
recursos tecnológicos, pelo público-alvo.
A partir da análise das entrevistas, notamos que mediadores e coordenadores
tem uma percepção geral semelhante sobre os objetivos do Ciência Móvel. Quando
questionados a respeito das principais finalidades do mesmo, todos os entrevistados
citaram a popularização, interiorização e divulgação da ciência, o que condiz em
parte com o que consta no projeto original. Além desses aspectos, foi citada pelo
Coordenador 2 a importância da aplicação de um modelo de divulgação científica
itinerante. Outros objetivos descritos pelo documento oficial não foram citados por
coordenadores ou mediadores neste primeiro momento, mas surgiram quando foram
explicitados nas perguntas durante as entrevistas.
Em relação à conscientização sobre temas relativos à saúde, foi observada
uma diferença entre as opiniões dos coordenadores e mediadores. Os
coordenadores consideraram que o Ciência Móvel realiza em parte esse trabalho,
mas não alcança todo seu potencial, já os mediadores acreditam que esse objetivo é
alcançado.
É reconhecido pelo Coordenador 1 que conscientizar sobre saúde é um dos
objetivos iniciais do Ciência Móvel, e que este tema consta no nome do projeto:
“Vida e Saúde para Todos”. O coordenador justifica ainda o enfoque na saúde,
contextualizando o Ciência Móvel em suas instituições de origem, Fiocruz e Museu
da Vida, tradicionalmente ligadas às ciências da vida e da saúde.
Coordenadores e mediadores relacionaram diretamente equipamentos
interativos e atividades apresentadas pelo Ciência Móvel com a conscientização
sobre saúde. Ambos destacaram as exposições: “Vias do Coração” que aborda
temas ligados à hipertensão e hábitos saudáveis, e “Dengue” que discute a doença
como uma questão de saúde pública, e descreve o vetor Aedes aegypti. O módulo
“Microscopia”, que apresenta diversos vetores de doenças e microorganismos
patogênicos, também é destacado pelo Coordenador 2 e por mediadores como
ligado à conscientização sobre saúde.
Notou-se que os mediadores citaram uma maior variedade de equipamentos
e atividades relacionados à saúde. Provavelmente devido a sua prática, estes
reconhecem mais claramente a potencialidade de cada atividade em abordar
determinados temas. Alguns mediadores, em consonância com o projeto original,
reconheceram que alguns equipamentos interativos proporcionam a discussão
acerca de adoção de hábitos saudáveis.
A Divulgação Científica é destacada por todos os entrevistados como um dos
objetivos principais do Ciência Móvel e a maioria considera que o mesmo atinge
esse objetivo. Apenas o Coordenador 1 faz ressalvas, afirmando que o Ciência
Móvel realiza apenas em parte esse trabalho.
Os mediadores apontam que o Ciência Móvel realiza a Divulgação Científica
diretamente por meio das exposições e equipamentos interativos. Alguns
mediadores demonstraram um desconhecimento da área e do conceito de
Divulgação Científica, não sabendo especificar de que maneira esse trabalho é feito,
apesar de acreditarem que este seja um dos principais objetivos do projeto.
Os coordenadores demonstram ter uma percepção mais ampla de Divulgação
da Ciência. O Coordenador 2 destaca que o Ciência Móvel divulga trabalhos
realizados na Fiocruz e em outras instituições e acredita que o projeto divulgue
ciência básica. O Coordenador 1 destaca a influência da experiência do Museu da
Vida nas ações do Ciência Móvel e apresenta uma visão crítica da ciência que
espera ser divulgada pelo Ciência Móvel.
Quanto ao Ciência Móvel contribuir para a formação de um cidadão crítico, há
uma visão diferente entre os coordenadores. O Coordenador 1 diz desconhecer se o
projeto realiza tal feito, mas reitera que “...a proposta é essa e nosso esforço tem
que ser nesse sentido – de formar cidadãos críticos e conscientes das sua inserção
na sociedade e da sua possibilidade de intervenção”. O coordenador destaca ainda
a necessidade de desenvolvimento de um trabalho de avaliação que contribuiria
para a elucidar melhor se o Ciência Móvel de fato atinge esse objetivo.
O Coordenador 2, assim como os mediadores, acreditam ser o Ciência Móvel
formador crítico, pois desperta as pessoas para a ciência, estimulando o público a
estudar e buscar mais informações.
No que tange a educação em ciências, tanto os mediadores quanto os
coordenadores afirmaram ser este um trabalho praticado pelo Ciência Móvel em
totalidade. No entanto, para os coordenadores, esta prática se dá via os professores
das escolas visitantes. Os mediadores consideram, por sua vez, que isso ocorre por
meio da relação direta de seu trabalho com o público.
Diferentemente dos mediadores, os coordenadores não citaram a visita do
público-escolar, tipo de público majoritário do Ciência Móvel, como uma forma de
contribuir para a Educação e Ensino de Ciências. Ambos os coordenadores citaram
as oficinas voltadas especialmente para professores, como uma ferramenta do
Ciência Móvel para atingir tal objetivo. O Coordenador 2 destaca ainda o papel da
própria visita à exposição por professores que poderiam: “...aplicar e saber
reconhecer naquela visita certos elementos que ele pode explorar depois em sala de
aula” (Coordenador 2).
Considerações Finais
A partir da análise comparativa entre a fala dos entrevistados e os objetivos
que constam do projeto original, percebemos que os coordenadores são os que
mais se aproximam do texto original, o que pode ser explicado pelo fato destes
terem se envolvido em todas as etapas de desenvolvimento e implantação do
projeto. Apesar da realização de uma capacitação com os mediadores, assim que
estes são selecionados, onde é apresentado o projeto, de sua origem à suas
atividades, constatamos que estes sujeitos não se apropriaram, efetivamente, dos
objetivos do projeto. Entretanto, estes por vezes, reconhecem de imediato que a
prática dele está inserida na proposta inicial do Ciência Móvel.
Apesar da distância que percebemos em algumas falas daqueles que pensam
e gerenciam o projeto e aqueles que estão diretamente em contato com o público,
encontramos vários pontos de interseção entre seus discursos. Estas interseções
estão diretamente ligadas às questões relacionadas à divulgação da ciência,
conscientização da saúde e contribuição na melhoria da qualidade de ensino de
ciências, objetivos estes fundamentais e que vão ao encontro da missão da
instituição que gerencia o projeto, o Museu da Vida.
Outro aspecto que merece destaque é o avanço que a equipe do projeto terá
a partir destas reflexões, já que uma maior integração entre coordenação e
mediadores permitirá o fortalecimento da identidade do projeto, sem perder, no
entanto, a riqueza da multiplicidade de seus discursos. Consideramos fundamental
que o diálogo entre estes sujeitos precisa ser contínuo, possibilitando uma maior
aproximação entre os objetivos e a prática, entre o real e o pretendido.

Bibliografia

CAZELLI, Sibele.; MARANDINO, Martha.; STUDART, Denise. Educação e


Comunicação em Museus de Ciência: aspectos históricos, pesquisa e prática. In:
In: Guaracira Gouvêa; Martha Marandino; Cristina Leal. (Org.). Educação e
Museu: a construção do caráter educativo dos museus de ciência. Rio de
janeiro: Access, 2003. p. 83-106.
CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciência Humanas e Sociais. 3 ed. São Paulo:
Cortez, 1998.
MARANDINO, Martha. A formação inicial de professores e os museus de ciências. In
SELLES, Sandra e FERREIRA, Marcia. (org) Formação docente em Ciências:
memórias e práticas. Niterói: EDUFF, 2003.
__________________ (org). Educação em museus: a mediação em foco. 1 ed. São
Paulo: FEUSP, 2008.
VALENTE, Maria Ester. A Conquista do Caráter Público do Museu. In: Guaracira
Gouvêa; Martha Marandino; Cristina Leal. (Org.). Educação e Museu: a
construção social do caráter educativo dos museus de ciência. 1 ed. Rio de
Janeiro: ACCESS editora, 2003. p. 21-46.

1. Bolsita Pró-Gestão da Casa de Oswaldo Cruz/Faperj

2. Este projeto foi financiado inicialmente pelo Ministério de Ciência e Tecnologia –


MCT e desenvolvido pelo Museu da Vida / Fiocruz e pela Fundação Cecierj,
instituições diretamente ligadas ao ensino não-formal e a divulgação da ciência.