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HERMENÊUTICA JURÍDICA

Unidade 2: Hermenêutica Filosófica

SUMÁRIO: E XPOSIÇÃO S INTÉTICA DA U NIDADE (33) T EMA : H ERMENÊUTICA F ILOSÓFICA C ONTEMPORÂNEA (34) 1. H ERMENÊUTICA M ETODOLÓGICA OU E PISTE -
MOLÓGICA EM S CHLEIERMACHER E D ILTHEY (34) 2. H ERMENÊUTICA O NTOLÓGICA OU E XISTENCIAL EM H EIDEGGER E G ADAMER (39) 3. C ONTRIBUIÇÕES DE J EAN
P AUL S ARTRE E P AUL R ICOEUR (42) T EMA : H ERMENÊUTICA F ILOSÓFICA NA T EORIA DO C ONHECIMENTO (47) 1. O C ONHECIMENTO (47) 2. N ORMA , C ULTURA ,
V ALOR E S ENTIDO (55) 3. C ONHECIMENTO E I NTERPRETAÇÃO (58) 4. I NTERPRETAÇÃO E F ORMAÇÃO P ROFISSIONAL (62) R EFERÊNCIAS B IBLIOGRÁFICAS (66)

Exposição Sintética da Unidade

Começamos agora a segunda unidade da disciplina de Hermenêutica Jurídica.


Durante esta unidade, iremos apresentar, inicialmente, as principais correntes
filosóficas da hermenêutica contemporânea, que tiveram influência direta sobre
a hermenêutica jurídica. Em seguida, faremos a aplicação destes estudos para a
hermenêutica, por ser a interpretação algo que faz parte de um ato de conhecimento.
Para tanto, iniciaremos abordando o conceito de conhecimento, os vários tipos e graus
do conhecimento, suas metodologias, seus sujeito e objetos.

Evoluindo para a relação entre conhecimento e cultura, iremos demonstrar que todo
conhecimento é uma atividade interpretativa dos fatos, pela qual buscamos compreender os
acontecimentos e objetos da vida cotidiana e, através de uma análise cultural, atribuímos a estes
os padrões valorativos sociais vigentes. Neste contexto é que surgem a norma jurídica, como
disciplinadora desses padrões, e o Direito como estudo sistemático da norma, ambos essencialmente
vinculados à sociedade e à cultura.
Assim, para que você possa compreender melhor o nosso estudo, faz-se importante conhecer
quais são os objetivos desta unidade:

Objetivo

Analisar as elaborações filosóficas do problema hermenêutico e suas repercussões


no campo jurídico.
A hermenêutica jurídica se afirma, assim, como atividade de referência para alcançar a dimensão
valorativa dos fatos presentes na cultura, da qual se depreende o sentido conferido às ações humanas,
sentido este passível de ser captado pelo exercício da interpretação. A interpretação é uma verdadeira
recriação da norma, no momento concreto de sua aplicação, evidenciando assim o dinamismo do Direito
na tentativa de alcançar a contínua evolução social.
Desse modo, a seguir examinaremos os momentos constitutivos do ato de interpretar e o
modo como atuam nele os elementos objetivos do mundo jurídico e subjetivos da formação do
intérprete. Acompanhe!

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Hermenêutica Jurídica

TEMA: HERMENÊUTICA FILOSÓFICA CONTEMPORÂNEA

1 Hermenêutica Metodológica ou Epistemológica em Schleiermacher


e Dilthey
Desde a antiguidade até a era moderna, as teorias da hermenêutica não tiveram evolução significativa,
permanecendo sempre o entendimento da hermenêutica enquanto exegese, ou seja, interpretação literal.
Foi no âmbito da filosofia contemporânea, por influência do pensamento de Hegel e Schleiermacher,
que começaram a surgir as novas tendências do estudo da hermenêutica. Hegel contribuiu com o seu
novo conceito de razão histórica, conforme foi explicitado na primeira unidade e Schleiermacher fez a
adaptação do método histórico-crítico, que era utilizado na teologia protestante, para o plano geral do
conhecimento científico, aplicando-o primordialmente no processo de compreensão interpessoal. Desse
modo, examinemos brevemente a teoria de Schleiermacher.

O interesse de Schleiermacher pela hermenêutica surgiu a partir da necessidade de fundamentar


os procedimentos práticos de tradução e interpretação de textos antigos. Embora esta seja uma atividade
humana bastante antiga, ainda não havia sido abordada de uma maneira sistemática, de modo a ser
considerada científica. O que havia era um conjunto de princípios e técnicas que verificavam apenas o
aspecto objetivo, literário, gramatical, sem levar em conta o processo interior mental que se passa no
pensamento do intérprete. Ele afirma que é impossível dissociar o que está escrito de quem o escreveu,
na medida em que a linguagem escrita de alguém é uma interpretação pessoal dos fatos que são descritos.
A hermenêutica visa não apenas a explicação das palavras do texto, mas, também, e principalmente, a
apreensão do pensamento que está contido no texto escrito.

Então, Schleiermacher iniciou o trabalho de elaboração de uma teoria hermenêutica geral, que
não se limitasse a regras e procedimentos práticos de interpretação, mas que também e principalmente
demonstrasse as razões implícitas destes procedimentos, tornando a hermenêutica um estudo acerca
da compreensão em geral. Ou seja, em vez de perguntar “como” se interpreta um texto, ele pergunta
primeiramente o que significa interpretar e compreender e de que modo isso ocorre na nossa mente. Só
depois de esclarecidas estas questões fundamentais, deve-se partir para a parte prática da formação de
regras específicas de interpretação.

Importante

Assim, a atividade da hermenêutica não será mais determinada pelo objeto a ser
interpretado, mas pelas condições subjetivas daquele que faz a interpretação. Ele
desloca a hermenêutica de uma posição essencialmente técnica e científica para
um domínio filosófico argumentativo, relacionando-a com o fenômeno geral da

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Hermenêutica Jurídica

compreensão humana, estritamente conectada com a arte de pensar e de falar.


Visto que a arte de falar é apenas o lado exterior da arte de pensar, será sempre
necessário procurar compreender, junto com a linguagem (falada ou escrita) o
pensamento elaborado por quem falou ou escreveu.

Processo Hermenêutico

duas etapas conjuntas e complementares

Interpretação do texto Interpretação do conteúdo


(falado ou escrito)

apreende descobre

signos e símbolos linguísticos utilizados pensamento desenvolvido pelo autor


pelo autor (aspecto da literalidade) na produção do texto (processos
mentais da produção)

Interpretação gramatical Interpretação da genialidade


do texto do autor

Como visto no esquema, entende-se deste modo que o processo hermenêutico pode ser
distinguido em duas etapas conjuntas e complementares: a interpretação do texto (falado
ou escrito) e a interpretação do seu conteúdo. À primeira vista, a apreensão dos signos e
símbolos linguísticos utilizados pelo autor, ou seja, o aspecto da literalidade; a segunda procura
descobrir o pensamento desenvolvido pelo autor ao produzir aquele texto, os processos mentais
envolvidos na sua produção. A primeira é a interpretação gramatical do texto; a segunda é a
interpretação da genialidade do autor do texto.

Para Schleiermacher, portanto, a interpretação e a compreensão (aqui entendidas como sinônimas)


deveriam enfocar não apenas as palavras faladas ou escritas, mas a questão do porquê de certas ideias
serem expressas de uma maneira e não de outra (compreensão genética). O foco primeiro da compreensão
não é a validade do que está sendo dito, mas sua individualidade, enquanto pensamento de uma pessoa
em particular, expressada de uma forma particular, num momento particular. Mas para que isso seja
possível, isto é, para que se compreenda a individualidade de quem fala, Schleiermacher acreditava que
se deve retroceder até a gênese das ideias, como se pudesse repetir na mente do intérprete aquilo que se
passou no pensamento original do autor.

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Hermenêutica Jurídica

A ênfase na compreensão de produtos mentais individuais trouxe à tona, então, uma nova
preocupação: a hermenêutica psicológica. Deve-se notar, entretanto, que o tipo de conhecimento
psicológico em questão não se refere ao conhecimento de uma psicologia experimental, baseada em
leis do comportamento, mas de uma “psicologia descritiva” de acordo com a qual a mente, a sociedade
e os processos históricos são aspectos de um domínio psíquico geral. Esta nova visão do problema
hermenêutico teve grande importância na formação da ciência psicológica, até então vinculada à filosofia.

No que diz respeito ao Direito, afirma o Professor Glauco Magalhães (2004, p.34):
“Percebemos aqui um intenso psicologismo no método proposto. Isto repercutiu posteriormente
no Direito, através da ênfase exagerada dada à vontade do legislador como referencial necessário
à interpretação correta da lei (subjetivismo), ensino praticamente já superado pelo objetivismo de
caráter evolutivo e sociológico, o qual procura o sentido da norma jurídica na vontade nela objetivada
e que acompanha a dinamicidade dos fatos sociais.”

Em seguida a Schleiermacher, outro pensador que contribuiu para o desenvolvimento da


hermenêutica filosófica foi Wilhelm Dilthey. Ele foi discípulo e biógrafo de Schleiermacher, aprofundando-
se nas teorias deste, evoluindo, porém, e buscando demonstrar como a experiência histórica pode tornar-se
ciência, ou seja, como é possível a história ser considerada uma ciência. Através do método hermenêutico
proposto por Schleiermacher, os estudiosos da psicologia ganharam força para que este estudo fosse
considerado científico, o que não era até então. Dilthey, então, procurou demonstrar que, pelo mesmo
método, a história também poderia ser estudada cientificamente.

Afirma Dilthey que todas as manifestações humanas, e não apenas os textos escritos, fazem
parte de um grande contexto sócio-temporal, que nós chamamos de cultura. O grande empecilho para
que os estudos dos fenômenos humanos fossem considerados científicos era a falta de um método
adequado a eles, já que estes estudos não se enquadravam no método científico clássico, baseado na lógica
matemática, como acontecia com as ciências da natureza. As teorias de Hegel, demonstrando a existência
de uma racionalidade humana própria presente na histórica (razão histórica), já haviam modificado o
conceito antigo de história como simples relato de fatos.

O método hermenêutico iniciado por Schleiermacher demonstrara a possibilidade de uma análise


científica dos fenômenos psicológicos. Considerando que a pessoa humana, enquanto indivíduo, tem
necessariamente uma vida pessoal dentro de um determinado contexto temporal e social (cultura), Dilthey
viu que seria possível ampliar o método hermenêutico para alcançar esse contexto mais amplo em que se
passa a vida humana e, com isso, se alcançaria o plano da história.

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Dilthey

propôs divisão do conhecimento científico

Ciências da Natureza Ciências do Espírito

Método Analítico Esclarecedor Procedimento de Compreensão Descritiva

Ato de Conhecimento na: Ato de Conhecimento na:

Explicação Compreensão

Interpretação Esclarecedora se opõem Interpretação Compreensiva

Exemplo: Exemplo:

Natureza = Esclarece-se Vida Humana = Compreende-se

Evoluindo
Ciências
Ciências
Humanas ou
Naturais
Sociais

Como visto nesse outro esquema, observamos que com o resultado das suas teorias,
Dilthey foi o primeiro pensador a propor a divisão do conhecimento científico entre
ciências da natureza e ciências do espírito, que se distinguem por um método analítico-
esclarecedor (as primeiras) e um procedimento de compreensão descritiva (as segundas).
O ato de conhecimento próprio das ciências naturais é a explicação, enquanto o ato de
conhecimento próprio das ciências do espírito é a compreensão. Esclarecemos por meio de
processos intelectuais, mas compreendemos pela cooperação de todas as forças sentimentais
na apreensão, pelo mergulhar das forças sentimentais no objeto.

Dilthey estabelece assim uma interpretação compreensiva, que se opõe explicitamente


à interpretação das ciências naturais, naturalmente esclarecedora. A natureza, nós a
esclarecemos, mas a vida humana, nós a compreendemos. Esta distinção entre os grupos
de ciências evoluiu posteriormente para ciências naturais e ciências humanas ou sociais,
nomenclatura atualmente mais utilizada.

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Hermenêutica Jurídica

Uma das ideias que Dilthey procura deixar claro é que tanto o mundo externo afeta o conteúdo
da nossa mente quanto é afetado por ela. Neste sentido, tanto o conhecimento quanto as estruturas
objetivas do mundo (social, cultural, linguística) devem ser concebidos como um processo histórico, e o
papel da filosofia e das ciências do espírito deveria ser o de refletir sobre os pressupostos que estão na
base do desenvolvimento histórico da consciência, de analisar os dados da consciência humana ou, em
outros termos, iluminar o processo da vivência. Isto porque, por um lado, a experiência humana é sempre
formada por vivências, isto é, por experiências de caráter histórico, e, por outro, toda ciência, assim como
toda filosofia, deve se referir à experiência. Foi desta maneira que Dilthey procurou justificar a história
como ciência, sendo considerado o pai do historicismo.

De acordo com Dilthey, a perspectiva na qual a pergunta pela cientificidade da história é feita
é inteiramente distinta daquela na qual se pergunta pela possibilidade da ciência natural. A diferença
está no seguinte: a ciência natural trata de um mundo exterior ao homem e não produzido por ele, daí
que o grande problema da verdade científica é a adequação entre os conceitos e os fatos do mundo
natural. Dilthey chama a atenção para o fato da existência de dois mundos: um mundo “dado”, ou seja,
que não foi feito pelo ser humano, e outro mundo “construído”, ou seja, produzido pelo homem, seja
modificando os aspectos do mundo dado, seja constituído de conteúdos que o próprio homem produz.

Importante

Se no caso do mundo dado, no qual atua a ciência natural, a verdade científica


está na adequação entre o pensamento e a realidade externa, no caso da ciência
histórica, não é necessário, em princípio, se perguntar pela razão segundo a qual
nossos conceitos históricos se adequam ao mundo externo, pois o mundo histórico é
um mundo produzido e formado pelo próprio espírito humano. Ou seja, os objetos
do mundo exterior guardam certa distância do ser humano, mas os objetos históricos
não, pois o ser humano, que os produziu, está totalmente inserido neles. Assim, será
mais acessível ao homem conhecer o mundo histórico do que o mundo natural.

As teorias de Dilthey tiveram também ampla repercussão no mundo científico, contribuindo


para o reconhecimento dos estudos de humanidades como ciências, tornando-se clássica a distinção
entre a compreensão e esclarecimento, caracterizando a diferença do conhecimento histórico ou
de ciência do espírito em relação aos métodos de ciências naturais. Esclarecer significa descobrir
as relações de causalidade (causa e efeito), enquanto compreender significa penetrar no âmago dos
fatos, buscando atingir as suas motivações mais profundas.

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Hermenêutica Jurídica

Em relação ao Direito, a hermenêutica jurídica moderna, desenvolvida inicialmente por Savigny


e voltada para o Direito Privado, foi influenciada por essas teorias. Assim, teve início uma hermenêutica
metodológica expressa em diversas técnicas de interpretação. A interpretação histórica encontrava
apoio no método histórico-crítico de Schleiermacher. A interpretação sistemática, cujo amadurecimento
ocorreu no pensamento de Dilthey, via as produções do espírito na unidade da vida e conhecia a unidade
da vida nas produções do espírito, compreendendo o todo pela parte e a parte pelo todo, inspirada na
concepção da circularidade hermenêutica. Mais tarde, Ihering explicitou a interpretação teleológica e
as escolas sociológicas se reportaram à interpretação sociológica, sendo que tanto uma como as outras
levaram em conta a evolução do sentido da norma na sociedade.

Na próxima unidade, estudaremos as escolas hermenêuticas contemporâneas


e, assim, esclareceremos melhor sobre o desenvolvimento dessas teorias da
hermenêutica e da filosofia sobre o Direito.

2 Hermenêutica Ontológica ou Existencial em Heidegger e Gadamer


Continuando na evolução da hermenêutica filosófica contemporânea, veremos as contribui-
ções de Heidegger e Gadamer, que tiveram forte influência sobre a hermenêutica jurídica, especial-
mente a hermenêutica constitucional.

Heidegger discordava dos dois mestres anteriores, entendendo que o objetivo da hermenêutica
não era pesquisar regras e métodos para a compreensão, mas aprofundar a própria compreensão, o
compreender em si mesmo, qual a mudança interior que ocorre no ser humano quando ele compreende
algo. Ou seja, ele entendia que a compreensão está diretamente ligada à existência, porque é na vida
concreta que nós a desenvolvemos. Compreender as coisas não é algo que o ser humano pode fazer ou
deixar de fazer, ao contrário, o ato da compreensão faz parte da própria essência do homem, porque é
com base na compreensão que o homem se forma como ser humano e constitui a sociedade.

Assim, a compreensão não trata apenas de regras para melhor entendimento de falas ou textos, mas
por ela é possível penetrar na essência mais profunda do ser humano. Isso significa que a hermenêutica,
para Heidegger, não é apenas uma metodologia de conhecimento, mas um esforço de compreensão do
próprio ser humano. Desse modo, Heidegger transformou a hermenêutica em um estudo ontológico,
relacionado com a existência das pessoas.

Reflexão

Vamos tentar explicar melhor a teoria de Heidegger. Segundo ele, quem quer
compreender um texto não está interessado apenas em técnicas ou regras, mas
antes de tudo o leitor faz certo “projeto” de leitura. Quem lê um texto tem sempre

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certas expectativas na busca de um determinado sentido que está ali oculto. Ou


seja, o leitor de um texto não tem em vista apenas regras gramaticais de ortografia
e sintaxe, vai mais além, realiza uma incursão mais profunda no texto tentando
encontrar ali uma mensagem de quem o escreveu. De acordo com Heidegger, a
compreensão do texto consiste exatamente na realização deste “projeto”, e aquelas
expectativas iniciais vão se confirmando ou não, de modo que a tarefa principal da
compreensão é a confirmação ou reforma desse projeto inicial. A essas expectativas,
Heidegger chama de pré-opiniões ou pré-conceitos, que serão confirmados ou não,
ao passo que vamos aprofundando nosso conhecimento na leitura.

Com isso, Heideger quer significar que toda compreensão que passamos a ter de
algo é antecedida de certa pré-compreensão (pré-opiniões ou pré-conceitos) acerca
daquilo, de modo que o compreender seria exatamente confirmar ou desfazer essa
pré-compreensão. Seria, então, o caso de perguntarmos a Heidegger de onde vêm
essas nossas pré-opiniões ou pré-conceitos, que formam a pré-compreensão?

A resposta será: provêm da nossa cultura, as nossas percepções culturais apreendidas


na vida em comunidade são o ponto de partida da nossa pré-compreensão, que
por sua vez está na base de toda compreensão de algo que fazemos depois. Nós
compreendemos algo sempre de acordo com as expectativas da nossa formação
cultural, pois é dentro dela que o nosso pensamento se gera e se desenvolve. Cada
intérprete, de acordo com o panorama de suas vivências anteriores, tem uma
percepção diferenciada das coisas que vê no mundo e entende este mundo de acordo
com isso. Segundo Heidegger, cada ser humano tem dentro de si, na sua capacidade
racional, uma parcela da racionalidade geral presente no mundo. Ele chama isto
de horizonte do Ser, isto é, cada ser humano vive neste cenário em que, ao mesmo
tempo em que detecta a razão em si mesmo e nas outras pessoas, capta também
certa razoabilidade geral que está presente em todas as coisas.

Esse cenário fornece as expectativas dos nossos conhecimentos futuros e nos prepara para
a aquisição desses novos conhecimentos. A cultura, como produção coletiva dessa racionalidade
humana, é uma forma de manifestação do Ser no mundo, através da existência humana. Desse
modo, em cada compreensão de algo haverá sempre, indiretamente, certa compreensão deste Ser,
pois a compreensão manifesta não apenas o sentido racional presente no objeto conhecido, mas vai
além e alcança também o nível da racionalidade geral, que é o Ser.

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Hermenêutica Jurídica

Evoluindo mais nesta linha de pensamento, Gadamer irá dizer que a compreensão de um texto é
resultado de certo diálogo entre o intérprete e o próprio texto. Não interessa tanto o autor do texto, mas
o próprio texto em si mesmo, o qual tem uma objetividade que permite a busca de um sentido no seu
conteúdo, já que tem existência autônoma. Desse modo, ao mesmo tempo em que o texto “responde” as
perguntas do intérprete, essas respostas se incorporam ao seu campo mental, suscitando novas perguntas
que, ao serem respondidas, novamente se incorporam ao patrimônio mental do intérprete, formando
uma espécie de movimento circular contínuo e interminável.

Importante

Com isso, Gadamer desenvolve o conceito de círculo hermenêutico,


demonstrando que todo conhecimento nosso sobre qualquer objeto tem
como ponto de partida uma pré-compreensão e se desenvolve em busca da
compreensão; uma vez atingida a compreensão de um determinado objeto, esta
se torna pré-compreensão para a compreensão de outros objetos, de modo que
assim o nosso processo compreensivo se constitui num movimento constante de
pré-compreensão para a compreensão e posterior retorno à pré-compreensão, para
depois seguir adiante. Considerando que um determinado texto é ou pode ter sido
compreendido por muitas pessoas, essas compreensões se reúnem e se fundem em
um grande cenário interpretativo, que ele chama de horizonte da compreensão.
Esta fusão de horizontes demonstra a riqueza de sentido de um texto, após
sucessivas interpretações no decorrer da história, compreensão esta que se
expande sempre mais em cada época histórica e com as ações de novos intérpretes.

Cada vez que nós lemos um texto e colocamos nele a nossa interpretação, estamos colaborando
para que esse horizonte compreensivo se torne cada vez mais ampliado. O resultado disso é que o círculo
hermenêutico não tem a figura de um círculo geométrico, mas de uma espiral, na medida em que a
cada nova leitura e compreensão o seu sentido vai se manifestando em novas formas, de acordo com a
mentalidade dos intérpretes e o momento cultural em que este ato é realizado.

Assim entendida, a compreensão de um texto não seria um simples ato intelectual, racional
que ocorre na mente do intérprete, mas tem uma implicação com a situação concreta em que
isso se realiza, ou seja, a compreensão de um texto não se esgota no ato mental, mas tem sempre
uma aplicação prática no nosso mundo existencial. Essa quase identidade entre interpretação e
aplicação, defendida por Gadamer, veio esclarecer que a atividade própria da hermenêutica não é
apenas uma ação teórica, mas um conjunto integrado de ações teóricas e práticas, uma forma de
atuação da atividade mental na vida concreta da pessoa.

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Essas teorias de Heidegger e Gadamer acerca da compreensão e da sua estrutura circular, aplicadas
à hermenêutica jurídica, conduzem à necessidade de que, na interpretação legislativa, devemos ter sempre
em referência o texto constitucional e, num plano mais distante, o todo sociocultural. A interpretação
legislativa se faz no horizonte constitucional, onde se delineiam os parâmetros culturais da sociedade que
esta constituição representa. Os princípios constitucionais sempre enunciam valores que devem receber
atribuição de peso correspondente à intensidade com que são vivenciados socialmente.

Desse modo, visto que os valores que interessam ao Direito são valores intersubjetivos, há a
pressuposição de que o jurista, membro da sociedade, terá uma pré-compreensão dos valores culturais
semelhante àquela que tem o restante da sociedade, o que o tornaria um autêntico intérprete dos
sentimentos e anseios da sociedade que ele representa. É nesse entendimento que a Constituição se torna
o ponto de encontro entre o Direito e a Sociedade, reproduzindo, na esfera jurídica, a circularidade do
movimento hermenêutico da filosofia.

3 Contribuições de Jean Paul Sartre e Paul Ricoeur


Jean Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo existencialista francês do século XX, foi casado
com Simone de Beauvoir, muito conhecida pela sua luta em favor do feminismo. Num de seus escritos
mais famosos, uma conferência com o título de “O existencialismo é um humanismo”, ele explica os
fundamentos dessa doutrina e daí retiraremos suas consequências para a hermenêutica.

A característica fundamental do existencialismo é a afirmação de que a existência precede


a essência, ou seja, é necessário sempre partir da subjetividade. Esta referência à subjetividade
demonstra que o pensamento de Sartre foi fortemente influenciado pela fenomenologia de Husserl
e Heidegger. Ambos criticaram o conceito de subjetividade formal, conforme explicada por Kant,
substituindo-o pela subjetividade intencional, ou seja, a razão do homem não é predefinida, mas
será o que ele fizer com o uso de sua vontade.

Exemplo
Partindo dessa ideia, Sartre critica o que ele chama de visão técnica do
mundo, em função da qual as coisas, antes de existirem, já tiveram sua
essência definida. Por exemplo: ao fabricar uma cadeira, o marceneiro se
serve de certo modelo mental, o qual ele concretiza num objeto. Desde a
antiguidade, esta mesma visão técnica foi aplicada ao homem, de acordo com
a noção de Deus criador, ou seja, os seres humanos foram criados de acordo
com uma ideia que existia na mente de Deus.

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Hermenêutica Jurídica

Sartre combate esse entendimento e defende o existencialismo ateu, dizendo que não existe um
Deus criador, mas o homem é quem cria a si mesmo através de suas decisões e ações durante a sua vida.
Portanto, no homem, sua existência vem antes da sua essência. O homem, de princípio, não é nada; só
depois ele vai se definindo e, por fim, será o que ele fez de si mesmo. O homem é o que ele faz de si
mesmo: este é o princípio do existencialismo.

Importante
Diferentemente de uma pedra ou uma mesa, que já estão definidos, o homem é
aquele ser que se projeta para o futuro e tem consciência disso. Nada existe antes
deste projeto. Isto quer dizer que o homem é responsável por aquilo que ele é,
responsabilidade total pela sua existência. Ser responsável por si é uma tarefa que
não se esgota no indivíduo, porque esta responsabilidade de si se estende a todos
os outros homens. Ao criarmos a nós mesmos, estamos simultaneamente criando
uma imagem ideal de homem tal como julgamos que todo homem deva ser, isto é,
um modelo que se aplica a cada um de nós e a todos também.

Isto significa que a nossa responsabilidade é muito maior do que a que temos por nós
mesmos, porque as nossas escolhas engajam a humanidade inteira. Por exemplo, ao decidir casar-
se, o homem está se engajando numa instituição representativa de uma forma da vida humana sob
o modelo da monogamia. Se sou cristão ou ateu, a minha escolha me engaja numa linha histórica
de compromisso que envolve toda a humanidade.

É verdade que nem todas as pessoas têm essa consciência e essa preocupação, mas Sartre diz que,
muitas vezes, essas pessoas mascaram a responsabilidade para não encará-la de frente. Tais pessoas não
podem ter paz na consciência, porque vivem na mentira e o fato de mentir implica atribuir à mentira um
valor universal, que ela não tem.

Reflexão

O homem se constrói num processo que dura toda a vida, através das decisões que
ele toma no decorrer da sua existência, ao escolher essas ou aquelas situações que
lhe são postas. A escolha é sempre possível, o que não é possível é não escolher.
Eu devo escolher sempre e devo estar ciente de que, mesmo não escolhendo,
assim mesmo eu escolho. Esta escolha/invenção também acontece no campo da
moralidade, onde não há regras prévias. O homem se constrói fazendo a sua
própria moral. É a liberdade como fundamento de todos os valores. Mas isso não
significa fazer o que se quer, porque a nossa liberdade depende integralmente da
liberdade dos outros, assim como a liberdade dos outros depende da nossa.

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Hermenêutica Jurídica

Em outras palavras, isso significa que a vida não tem um sentido a priori. A vida em si mesma não
é nada, é quem vive que deve dar sentido à vida. E o valor nada mais é do que este sentido escolhido.
Assim se explica porque o existencialismo é um humanismo.

As consequências dessa teoria para a hermenêutica são partem da afirmação de que não existe nada
‘a priori’, ou seja, desvinculado das condições concretas da existência. Isso significa que os significados que
as coisas têm estão relacionados com um tempo e um lugar determinados, não existindo ideias absolutas
e desligadas do momento histórico. Com o passar do tempo, as coisas vão mudando de significado, os
valores vão se transformando, e assim a interpretação é dinâmica e está sempre se modificando também.

Ao construir a sua essência no decorrer de sua existência, o homem constrói também os diversos
significados das coisas que ele realiza, isso se reflete nos campos da moral, da filosofia, da vida social, de
modo que não existe um sentido permanente e imutável, mas tudo está em constante transformação. A
interpretação dos fatos, assim, não possui uma regra fixa ou uma fórmula constante, mas vai também se
construindo e se aperfeiçoando ao longo do tempo.

Importante
As influências dessas ideias sobre o Direito são no sentido de que as normas devem
ser entendidas dentro desse constante movimento de mudança e construção da vida
humana na sociedade. Assim, as normas não são realidades abstratas e atemporais,
produtos da racionalidade pura como quer o positivismo, mas elas estão relacionadas
com um momento determinado no tempo e no espaço e o seu significado também
não é fixo, mas evolutivo. Desse modo, a hermenêutica jurídica não é uma simples
operação de lógica dedutiva, mas um esforço produtivo de construção de um novo
significado (valor) a cada vez que a norma deve ser aplicada a um fato concreto,
considerando sempre a dimensão espacial e temporal de ambos.

Paul Ricoeur (1913-2005) foi um pensador francês, contemporâneo de Sartre, que desenvolveu
estudos nas áreas de psicanálise, linguística e hermenêutica, dedicando-se especialmente a textos clássicos
do cristianismo. A sua contribuição à hermenêutica, portanto, situa-se na análise e crítica dos textos escritos.

Ricoeur contesta os pensadores do seu tempo que vinculavam a interpretação de um texto à


compreensão do seu autor ou do momento histórico, pois, segundo ele, os textos escritos vão além
disso, eles acrescentam um conjunto próprio de significados que ultrapassa o contexto sociocultural
do seu autor ou de sua época, envolvendo também a pessoa do intérprete. Assim, a intenção do
autor nunca é imediatamente dada, ao contrário do que pensava a hermenêutica romântica, nem
os signos são reflexos puros das condições e fatos empíricos da época e situações em que foram
escritos, contrariando a interpretação historicista.

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Importante
Portanto, o objeto da hermenêutica é a própria narrativa, o próprio
texto, que precisa ter reconhecida a sua autonomia, devendo o intérprete
concentrar-se nas categorias do discurso, da linguagem e voltar-se sobre
o seu conjunto de significados semânticos. Ricoeur chama isso passar
da “língua” para a “palavra”, ou seja, da linguística para o discurso, a
narrativa. É neste particular que deve ater-se o intérprete.

Nesse sentido, realiza-se uma espécie de diálogo entre o texto e o intérprete, através do qual
as polissemias manifestam seu sentido, pois o hermeneuta investiga a intencionalidade presente na
narrativa, e não os símbolos e signos linguísticos. Com isso, abre-se um novo campo de atividade, onde
interagem o fato narrado, o autor e o intérprete, surgindo daí a sua interpretação. Para que isso ocorra da
melhor forma, Ricoeur considera que é necessário fazer uma despsicologização , uma desistorização
e uma desabsolutização do texto. Desse modo, chega-se à autonomia do texto, pois o seu verdadeiro
significado não se encontra nem dentro nem fora dele, mas num movimento circular compreensivo que
envolve o próprio texto, o autor, o leitor, a história e a sociedade.

Ricoeur chama a isso uma multiplicidade de canais por meio dos quais flui o significado do texto.
Por isso, nunca será possível chegar a uma conclusão definitiva, a uma interpretação completa e terminativa,
mas o que se consegue perceber são sempre mediações parciais que nos dão várias perspectivas da obra,
mas nunca a sua totalidade de significados. Tal como uma obra de arte abstrata que a cada nova visão do
observador manifesta novas formas e percepções, a leitura do texto também confere ao seu intérprete
significados e visões novas em cada nova apreciação.

A hermenêutica de Ricoeur defende uma ideia de significação em que o sentido da obra escrita
não se encontra nem nos mundos físico, psíquico, histórico, social, ou particular do leitor, mas no mundo
próprio do texto, e nesse sentido, o conjunto de significados que ele possibilita encontra-se sempre
aberto e inconcluso. Todas as várias interpretações já produzidas não esgotam esses significados e nem

Despsicologização significa deixar de lado a preocupação com o aspecto psicológico do texto e não levar em conta o
entendimento do autor do texto na hora de interpretá-lo.

Desistorização significa deixar de lado a preocupação com o caráter histórico do texto e não levar em conta as influên-
cias do momento histórico sobre o autor do texto.

Desabsolutização significa considerar o texto escrito como algo que possui um sentido mutável, não um sentido único
que teria sido posto pelo autor ao escrever.

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Hermenêutica Jurídica

levam a uma mesma e imutável conclusão, permanecendo sempre a possibilidade de novas e diferentes
interpretações, dentro da ideia hegeliana da pluralidade e da inesgotabilidade do sentido. Cada interpretação
de um texto é uma espécie de apropriação, pelo leitor, do seu sentido atual, com a consciência de que
sempre novos sentidos são possíveis.

Ricoeur contesta também a famosa divisão feita por Dilthey entre ciências da natureza, que
buscam a explicação dos fenômenos, e ciências do espírito, que buscam a compreensão. Segundo ele, a
hermenêutica é uma atividade que circula entre o modo explicativo e o modo compreensivo, não se
encontrando totalmente nem no primeiro nem no segundo. Tanto a explicação quanto a compreensão são
necessárias e se completam. Sem a explicação, só temos uma compreensão mística; sem a compreensão,
a explicação não alcança seu significado mais adequado. Embora a compreensão tenha prioridade na
hermenêutica, esta precisa da intermediação da explicação.

Pode-se perceber que as ciências humanas (compreensivas) utilizam procedimentos explicativos


com muita propriedade; por outro lado, pode-se ver também que a intuição e a sensibilidade também
fazem parte do trabalho do cientista da natureza. Não se trata, portanto, de escolher um ou outro dos
procedimentos, mas adotá-los com critério e ponderação.

A importância dessa teoria para o Direito encontra-se em dois pontos. Em primeiro lugar,
na defesa da autonomia do texto, o que vem reforçar a corrente objetivista da interpretação, isto é,
a interpretação segundo a mens legis, pela qual o próprio texto da norma possui um sentido próprio e
autônomo, desvinculando-se da intenção original do legislador e podendo o seu sentido ser encontrado
no conjunto da sua própria configuração linguística. Em segundo lugar, na indicação de que toda
interpretação de um texto é sempre parcial e incompleta, assim a interpretação e aplicação da norma se
renova a cada aplicação ao caso concreto, não havendo um sentido único e imutável para ser aplicado a
todos os casos. A ideia de uma interpretação sempre incompleta e sempre em processo de construção leva
à compreensão da norma como um texto capaz de produzir uma interpretação sempre renovada e sem
repetição, de modo que cada interpretação que já foi realizada servirá como mediação ou instrumento
para as novas interpretações que ainda serão construídas no futuro.

Este novo conceito da hermenêutica produtiva vem superar a noção de hermenêutica reprodutiva,
do positivismo jurídico, pela qual a interpretação era entendida como uma técnica de subsunção do fato à
norma, por um processo lógico racional e silogístico. A hermenêutica produtiva possibilita que, na análise
valorativa, a subsunção do fato à norma se faça por um processo criativo e renovador, buscando sempre
descobrir a melhor realização da justiça.

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Hermenêutica Jurídica

Tema: Hermenêutica Filosófica na Teoria do Conhecimento

Pelo que pudemos observar, a hermenêutica está inserida num processo


de conhecimento, apoiando-se naquilo que a filosofia chama de teoria do
conhecimento. Todo ato interpretativo está determinado por certa compreensão
e esta está comprometida com o conjunto dos conhecimentos prévios do
intérprete (pré-compreensão). Desse modo, para um melhor esclarecimento
da importância que tem a hermenêutica filosófica para o Direito, faremos um
estudo resumido da teoria filosófica do conhecimento. Acompanhe!

1 O Conhecimento
Todos nós praticamos essa atividade básica humana, que se chama conhecimento. Aristóteles já
dizia, no início de sua metafísica, que “todos os homens desejam ardentemente conhecer” (Aristóteles,
Metafísica, I, 1). Mas, o que é o conhecimento? Para responder a esta pergunta, utilizaremos duas metáforas:
• Conhecimento é a fabricação do ideal sobre a terra.
• Conhecimento é o caminho de busca e de regresso à tenda de convivência com todos os seres.

Agora, vamos compreender o que significa “fabricação do ideal”? O que é


o “ideal”? Esta palavra remete, de imediato, ao conceito de algo perfeito,
algo longínquo que se pretende, um dia, alcançar. Mas não é neste sentido
que aqui empregamos. Ideal é aquilo que pertence ao campo das ideias.
Assim, fabricação do ideal significa produção de ideias novas. Toda vez que
adquirimos um novo conhecimento, a nossa mente fabrica novas ideias. Essa
fábrica não para nunca, trabalha em cada um de nós durante a vida inteira.
Assim, conhecer algo ou alguém é sempre fabricar conceitos, produzir ideias,
transformar um ser do mundo material em representações mentais.

Dessa forma, como se dá o caminho de busca e regresso à tenda comum? Toda vez que procuramos
conhecer algo, precisamos sair de nós mesmos em busca de novos objetos do mundo exterior. Esta é
a primeira parte do caminho: a busca. Ao encontrarmos o objeto procurado, nós o transformamos em
conceito, ou seja, fazemos o retorno ao nosso próprio interior, ao nosso mundo mental. Esta é a segunda
parte do caminho: o regresso. Ora, conhecer algo do mundo exterior leva sempre a um conhecimento
indireto de nós mesmos, da nossa subjetividade. A tenda de convivência de todos os seres é, assim, a

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Hermenêutica Jurídica

consciência que o homem adquire de si mesmo, toda vez que conhece algo. Quando nós conhecemos
um objeto, percebemos também que ele se distingue de nós mesmos, ou seja, o conhecimento de algo
exterior a nós é também um conhecimento indireto do nosso próprio ser.

Este pensamento reflexo produz a nossa consciência de “ser-no-mundo”, de fazer parte


de um determinado mundo físico e social, no qual convivemos com objetos, pessoas, costumes,
instituições, valores, espíritos e significados. Esta é a tenda da convivência comum, onde nós e
outros seres do mundo nos encontramos instalados. Por isso, conhecer o mundo é sempre conhecer
também, indiretamente, a nós mesmos.

Mas como se produz o conhecimento, isto é, de que modo o conhecimento se processa na nossa
mente? Dizemos que o conhecimento se perfaz em etapas sucessivas, denominadas:
• Intuição sensível
• Memória
• Experiência
O primeiro momento é a captação das “coisas”’ (objetos, pessoas, comportamentos, valores,
costumes etc.). A intuição sensível é o ato de apreensão ou de percepção da realidade. Não cria a
realidade, recebe-a do mundo exterior, através dos nossos órgãos sensoriais. Por isso, a intuição sensível
é sempre receptiva e passiva. Por conseguinte, a sensibilidade desempenha um papel de mediação
indispensável entre o nosso interior e o mundo fora de nós.

O segundo momento do ato do conhecimento está na memória. Sua função é conservar e


lembrar o que já esteve ao alcance da intuição sensível. Se não existisse a memória, não haveria acúmulo
de percepções e, portanto, todos os conhecimentos chegariam até nós sempre como se fosse a primeira
vez. É a memória que permite a contínua construção do conhecimento. “A memória é o tesouro e o lugar
de conservação das imagens”. (S. Tomás, Sum. Th., I, q. 29, 7)1.

O terceiro passo constituinte do conhecimento está na experiência: esta é a síntese ordenada


do material captado nas intuições sensíveis e depositado na memória. É ponto de partida para
conhecimentos mais elaborados, como são as artes e as ciências.

Importante
Assim, nota-se que este fenômeno chamado de conhecimento ocorre em todos
os seres humanos, através de um exercício espontâneo da inteligência natural,
independentemente de frequência a uma escola ou de leitura nos livros. É o
conhecimento como ato existencial. A vida é um contínuo processo de percepção

1 Expressão: S. Tomás, Summa Theologica, pars prima, quaestio 29, articulum 7 (Suma
Teológica, primeira parte, questão 29, inciso 7).

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Hermenêutica Jurídica

e acumulação de conhecimentos. Pelo simples fato de vivermos, estamos a todo o


momento adquirindo novos saberes. Por isso, mesmo as pessoas analfabetas têm a sua
produção de conhecimentos e, algumas vezes, até se destacam com a sua sapiência
natural. Todos conhecem as figuras, por exemplo, do cego Aderaldo, do Patativa de
Assaré, que são pessoas simples, de pouca instrução e mestres do saber popular.

Nesse sentido, coloca-se aqui também a utilização prática do saber popular na produção de
receitas típicas regionais, na produção de medicamentos com raízes, frutos e folhas, na produção do
artesanato, na técnica rudimentar dos sertanejos que atuam na agricultura, sem nunca terem estudado
agronomia, dos jangadeiros que pilotam embarcações sem nunca terem estudado navegação, dentre
outros. Todas essas manifestações exemplares da nossa cultura popular nordestina são confirmações
da existência desse conhecimento espontâneo, que provém do uso natural da inteligência e que, em
todos os lugares e em todas as épocas, os seres humanos sempre foram capazes de desenvolver,
interagindo com o seu meio ambiente.
O primeiro conhecimento produzido pelo homem é o mito, que já foi estudado na primeira
unidade. Dos mitos primitivos se originaram os diversos saberes humanos, inclusive esse tipo especial
de conhecimento chamado de ciência. O conceito original de ciência era bem diferente do que hoje se
tem. Na Grécia, no século VII a.C., a mitologia começou a ser substituída pelo pensamento racional dos
primeiros filósofos, que utilizavam a matemática para explicar os fenômenos do mundo. Naquela época,
ciência era sinônimo de filosofia e assim continuou durante toda a Idade Média.

Curiosidade

Para se ter uma noção do conceito antigo de ciência, quando esta era sinônimo
de filosofia, podemos tomar o exemplo de Tales. É comum os historiadores
da filosofia apontarem Tales de Mileto como o primeiro pensador ao qual
se atribui o qualificativo de “filósofo”. Mas se estivéssemos estudando a
história da astronomia, verificaríamos que Tales foi também o primeiro
“astrônomo” do Ocidente, por ter previsto através de cálculos um eclipse solar
(aproximadamente 585 a.C.). Já nos livros colegiais de geometria, há sempre
a referência a um famoso teorema atribuído a Tales, o que o faz também um
“geômetra”. Tales foi ainda a primeira pessoa a medir a altura das pirâmides
do Egito, e o raio da terra, o que faz dele também um “matemático”.

O que se observa disso tudo é que Tales não era um “especialista” em um determinado

conhecimento, como hoje costuma ocorrer. Na verdade, ao fazer suas extraordinárias descobertas, Tales

estava exercitando um conhecimento generalista, porque naquela época os campos do conhecimento

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Hermenêutica Jurídica

eram todos integrados: ao exercer astronomia, ele também exercia a geometria, era também matemático

e filósofo, tudo ao mesmo tempo. Somente nos tempos modernos, com a busca de maior precisão do

conhecimento, os estudiosos vieram a particularizar cada vez mais, distinguir sempre mais, diferenciar

cada vez mais os ramos do saber, afastando-se dessa experiência universalizante dos gregos, modificada

pelo Renascimento e que o pensamento contemporâneo procura historicamente reconstruir.

O exemplo de Tales nos ajuda a compreender o surgimento histórico do saber filosófico-

científico. Na sua época, era costume atribuir-se a origem dos fenômenos a feitos grandiosos de

heróis e deuses, cujos desígnios escapam ao controle dos homens e são governados por forças

sobre-humanas. Com Tales, inaugura-se uma nova visão desses fatos, que podem ser medidos e

previstos. Com ele, a mitologia foi substituída pela matemática, o irracional pelo racional. A previsão

caracteriza o saber que surge com Tales: o saber medir, que em nossos dias caracteriza mais a

ciência do que a filosofia. Esta mudança de mentalidade introduzida por Tales, que chamaremos de

princípio da medida, foi o grande diferencial histórico que marca o início da filosofia grega e, a

partir dele, de todo o pensar filosófico e científico no mundo ocidental.

A partir do Renascimento
(século XV)

Física ou Filosofia Com o tempo pas- Ciência


da Natureza sou a se chamar: Natural
Explicação se divide: Metafísica Com o tempo pas- Filosofia
ou Filosofia sou a se chamar:
das Coisas
Sobrenaturais

A partir do século XIX

Além das Ciências


Físicas agregou:

Física ou Metafísica ou Ciências


Filosofia da Filosofia das Coisas Sociais
Natureza Sobrenaturais

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Hermenêutica Jurídica

Física ou Filosofia da
Natureza

Metafísica ou Conhecimentos
Atualidade Filosofia das Coisas administram: diferentes e
Sobrenaturais importantes

Ciências Sociais

Ciências Filosóficas
A solução dos
Pelo conhecimento problemas é o
científico Ciências Naturais comum: resultado da
articulação de
Ciências Sociais algum método

Como podemos verificar no esquema acima, a partir do Renascimento (séc.


XV), surgiu uma divisão da filosofia em duas partes: a física (physica ou
filosofia da natureza) e a metafísica (metaphysica ou filosofia das coisas que
estão para além da natureza). Esta filosofia física (depois chamada de ciência
natural) foi cada vez mais se distanciando da filosofia metafísica (que depois
também foi chamada simplesmente de filosofia). A partir do séc. XIX, agregou-
se paralelamente às ciências físicas outro grupo de conhecimentos, que são os
conhecimentos sobre a sociedade, as chamadas ciências sociais (contribuição de
Dilthey, na qual já estudamos antes). Hoje, portanto, esses três grupos administram
conhecimentos diferentes e importantes, porque todas as valorações da vida
passam, necessariamente, pelo crivo da filosofia e das ciências. Na linguagem
atual, aplicando um conceito genérico de conhecimento científico, esses três grupos
denominam-se: ciências filosóficas, ciências naturais e ciências sociais.

O que há de comum entre todas as formas do conhecimento científico é que a


solução de problemas é sempre o resultado da articulação de algum método, ou
seja, de algum mecanismo ou instrumental, que possa determinar os critérios da
veracidade ou falsidade. Entretanto, deve-se considerar que, em todas as áreas
do saber, ainda há muitos problemas para os quais não temos nem solução, nem
método para obter uma solução. Aliás, métodos que servem para solucionar um
conjunto de problemas podem ser totalmente inoperantes para solucionar outros.

51
Hermenêutica Jurídica

Nesse sentido, vários métodos têm surgido no decorrer dos séculos, mas há algumas
constantes que sempre aparecem nessa variedade de métodos. Dizemos que o fundamento e a base
de todos os métodos é o bom senso, a razão natural, o conhecimento compartilhado por todos,
aquele que aprendemos no meio em que vivemos e que forma a nossa identidade cultural. Esta é a
fonte do conhecimento mais fundamental, o ponto de partida de toda reflexão. Podemos aprimorá-
lo, mesmo ultrapassá-lo, porém nunca dispensá-lo.

Porém, o bom senso por si só não basta, sendo necessário um suporte para a razão natural, de
modo que seja possível alcançar as evidências das coisas. Todo método sempre se apoia numa evidência.
Evidência é aquela situação em que a nossa mente sente completa segurança diante dos resultados do
conhecimento. Um conhecimento evidente é aquele que está livre de dúvidas.

Exemplo

Quando, por exemplo, medimos uma distância utilizando apenas a visão, temos
um resultado impreciso e inseguro, mas quando utilizamos uma fita métrica,
temos um resultado preciso e seguro. Esta segurança é proporcionada pelo
instrumento utilizado (a fita métrica), que nos traz maior certeza. Isso é resultado
da evidência. Havendo evidência a favor de uma ideia, o pensador assume
a atitude de mantê-la; havendo evidência contrária, a atitude de revê-la ou
rejeitá-la; e na falta de evidência a favor ou contra, assume a atitude de dúvida,
continuando assim na sua busca de dados evidentes.

A busca da evidência através dos processos de raciocínio se realiza através de dois caminhos ou
métodos opostos e complementares. Esses caminhos foram estabelecidos ainda por Aristóteles, no séc.
IV a. C. e são reconhecidos por todos os pensadores desde a antiguidade até hoje. São as duas formas
básicas de o nosso pensamento evoluir:

A primeira, partindo de ideias gerais que vão sendo simplificadas por um processo de divisões
e subdivisões até chegar aos fatos concretos. A isso se chama dedução ou pensamento dedutivo. É o
método comum utilizado nas ciências teóricas, tendo sua aplicação mais perfeita nas matemáticas; e

A segunda forma é aquela que parte dos fatos concretos e, por um processo de generalização
com base nas semelhanças encontradas, procura formular princípios gerais ou hipóteses, que necessitam
de comprovação através da experiência. A isso se chama indução ou pensamento indutivo. É o método
utilizado nas ciências da natureza e ciências aplicadas.

Nas ciências sociais, pratica-se uma metodologia mais complexa, resultado de uma síntese entre
dedução e indução, integrada com referências de caráter histórico e cultural, motivo pelo qual os seus
resultados não são apresentados em termos absolutos, mas sempre dentro de parâmetros flexíveis, onde
predomina mais a probabilidade do que a certeza.

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Hermenêutica Jurídica

No que diz respeito à ciência jurídica, a questão do método ainda é polêmica. Há aqueles
que defendem a estruturação do saber jurídico de acordo com o padrão das ciências da natureza,
atribuindo-lhe excessivo rigor lógico e exagerado formalismo, como é o caso do positivismo jurídico.
Por outro lado, há aqueles que defendem uma maior aproximação entre o Direito e as ciências
sociais, conferindo-lhe maior flexibilidade, com a aplicação de padrões valorativos relacionados com
a cultura, como é o caso da sociologia jurídica. Da nossa parte, dizemos que a ciência jurídica tanto
pode adotar o rigor lógico e formal das ciências da natureza quanto a flexibilidade valorativa das
ciências sociais, dependendo da matéria em questão.

Assim, por exemplo, nas questões tributárias e outras que envolvem conhecimentos técnicos,
deve-se priorizar uma metodologia com maior rigor lógico formal; já nas questões que envolvem direitos
pessoais subjetivos ou coletivos, a prioridade deve ser para a metodologia aberta das ciências sociais,

considerando o contexto fático sociocultural.

Até aqui, fizemos uma análise conceitual e histórica acerca do conhecimento


humano. Passemos, então, a considerar o conhecimento sob o aspecto
que mais interessa à hermenêutica, isto é, o conhecimento visto dentro de
um sistema interpretativo, aproximando assim os conceitos relacionados
ao conhecimento com uma teoria da interpretação, uma vez que o
conhecimento não se realiza de forma isolada, mas faz parte de um conjunto
de ações corporais e mentais, integradas à vida do ser humano.

Diz-se que o conhecimento é um processo, isto é, uma ação que se realiza numa série de etapas
e não se faz de uma única vez. Além disso, sempre que se ocorre um ato de conhecimento, tem-se a
presença de três elementos necessários: o EU (sujeito) que conhece, a ATIVIDADE em si mesma e o
OBJETO a que se dirige a atividade desenvolvida.

O conhecimento é uma ação. Isso quer dizer que não é algo estático, mas essencialmente
dinâmico, em movimento. Já a atividade é o próprio motor do processo do conhecimento. O sujeito
é sempre o ser humano, o eu pensante, a consciência cognoscente, a pessoa dotada de racionalidade, a
realidade subjetiva. E o objeto é tudo aquilo que está ao alcance da atitude consciente do eu pensante,
tudo aquilo acerca do qual se possa elaborar uma explicação, um raciocínio lógico. Resumidamente, o
sujeito é o eu (indivíduo), o objeto é o mundo. Até o próprio eu pode ser objeto da atividade cognoscente,
num processo que se chama de autoconhecimento.

53
Hermenêutica Jurídica

O sujeito do conhecimento, portanto, é singular. O objeto, porém, é plural e complexo, podendo


assumir variadas formas, as quais são agrupadas em quatro grandes classificações: objetos naturais,
ideais, culturais e metafísicos.

Os objetos naturais são os que têm existência no tempo e no espaço e que se apresentam à
nossa experiência, sendo captados pelos nossos órgãos sensíveis. Essa captura se dá por meio da intuição
fundada em critérios empíricos, isto é, a intuição sensível. São os seres da natureza física, tais como
existem no mundo, sem interferência do homem.

Objetos ideais são aqueles que não têm existência no mundo físico, podendo ser apreendidos
apenas racionalmente. São puros conceitos formados pela nossa razão. Por exemplo, os números e as
relações matemáticas (maior do que, menor do que), os conceitos geométricos (esfera, cone, retângulo)
são objetos ideais. São expressões simbólicas, que são representadas em figuras desenhadas ou corpos
materiais, para efeito de comunicação entre os homens.

Os objetos culturais também têm existência no tempo e no espaço e são acessíveis à experiência
sensível. Diferem, porém, dos objetos naturais porque são moldados pela mão e/ou pela inteligência do
homem. Podemos dizer que são aqueles objetos em princípio naturais, mas aos quais a ação do homem
agrega um determinado valor com o seu trabalho muscular ou intelectual. O valor está presente na
essência dos objetos culturais, uma vez que se pode observar neles uma característica supra sensível ou
um sentido que a ação do homem faz aderir a eles. Todas as produções humanas, materiais ou imateriais,
realizadas ao longo da história, formam o acervo de objetos culturais, dos quais hoje somos guardiães.

E os objetos metafísicos, tais como os objetos ideais, também só podem ser alcançados pelo
pensamento racional, todavia diferem destes por serem entes puramente racionais, de representação
material ou gráfica impossível. Existem apenas na mente e não podem ser materializados. Assim são os
conceitos tradicionais de divindade, liberdade, de imortalidade, de verdade, de bondade, equidade, de
justiça, de valor, dentre outros. São entes de pura razão, cujo conteúdo nos é transmitido sociologicamente
e cuja existência se verifica em todos os povos de todas as épocas, razão pela qual outrora eram classificados
como conceitos absolutos, universais e imutáveis. Atualmente, está superado esse entendimento, que foi
substituído por uma visão histórica e evolutiva deles, de acordo com os parâmetros desenvolvidos e
aceitos na sociedade em contínuo desenvolvimento.

Importante

A partir do que foi dito anteriormente, classifica-se a norma jurídica como um


objeto cultural. Ela faz uma alteração sobre a conduta natural do homem, limitando
voluntariamente a sua liberdade inerente à própria natureza, através do uso da
racionalidade. Na sua liberdade natural, o ser humano pode, em princípio, fazer

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Hermenêutica Jurídica

tudo que quiser, no entanto, pela racionalidade, ele tem a capacidade de


eleger suas próprias alternativas de conduta; a possibilidade de escolher
por livre arbítrio o comportamento consciente a ser seguido. A vida na
sociedade só é possível se o homem impuser limites à sua liberdade, em prol
do bem de todos. Isso é feito através das regras de conduta, das normas de
comportamento e ação social. A norma jurídica faz parte deste conjunto de
normas, sendo assim um produto cultural.

Assim se classifica a norma jurídica pelo fato de que ela tem uma forma cultural de
expressão e exprime um conteúdo também cultural de caráter linguístico. Desta maneira, tanto
a norma enquanto regra de conduta, quanto a sua expressão escrita, são objetos culturais. Como
todos os objetos culturais, a ela está agregado um potencial de valor, que é o elemento axiológico
contido na norma. Em consequência disso, o Direito, que tem por finalidade de estudo a norma
jurídica, é também cultural. Não há um Direito eterno e imutável, válido para todo o sempre, mas
é sempre mutável e evolutivo, assim como a sociedade. Mais do que isso, na verdade, ao debruçar-
se sobre a norma, o Direito é cultura sobre cultura, porque é cultura que trata da cultura. Em
resumo, o Direito é uma sobre-cultura ou uma meta-cultura.

2 Norma, Cultura, Valor e Sentido


Na qualidade de objeto cultural presente na sociedade, a norma jurídica encontra-se sempre
referenciada a valores, na medida em que ela protege e estimula os comportamentos atinentes à
consecução das mais elevadas finalidades sociais, ou seja, os valores mais importantes para a sociedade.
Assim, deve entender-se que a norma associa-se sempre uma situação de natureza valorativa, que deve
ser interpretada e compreendida. O Direito é comprometido com valores e a norma jurídica, trabalhada
através do processo de interpretação, encontra-se relacionada a uma situação histórica da qual fazem
parte tanto o sujeito (intérprete) quanto o objeto a ser interpretado (fato e norma).

Por isso, podemos afirmar que todo processo de interpretação e aplicação das leis corresponde
a uma situação hermenêutica, ou seja, a uma apreensão de um sentido referenciado a um valor, cujo
resultado se expressa no fenômeno da compreensão.

Por conseguinte, toda conduta é axiológica, está ligada a valores, depende deles, e não existe
sem esta ligação estreita e intrínseca a algum tipo de valor. A palavra “conduta” vem do verbo latino
ducere (conduzir) associado à preposição cum (com), ou seja, cum + ducere, através do seu particípio passado
(cum+ductum - conduzido com), assumindo na língua portuguesa a forma de substantivo feminino. Isso
significa que não existe ser humano que não se conduza e não existe homem sem conduta.

55
Hermenêutica Jurídica

CONDUTA

se origina de:

Verbo ducere Preposição cum


+
(conduzir) (com)

através de:

Particípio Passado
cum + ductum
(conduzir com)

Por isso, não há ser humano indiferente ao valor. Se a conduta é axiológica, o homem é um
ser axiológico. Sendo racional, o homem possui em si a aptidão de eleger racionalmente alternativas de
conduta. Mas quando o faz concretamente, isto é, quando se conduz, quando se realiza concretamente,
sempre o faz movido por valorações.

Por outro lado, se a cultura é uma das consequências da conduta, e se a conduta contém
necessariamente valor, afirmamos que os objetos culturais possuem um valor intrínseco, de sorte que
a norma jurídica e o Direito, enquanto objetos culturais, são carregados de valores como consequência
de sua existência social. Em toda norma e em toda conduta regrada, existe sempre um valor subjacente,
funcionando como determinação e matiz da sua natureza. Ao agir, conscientemente ou não, o homem
sempre o faz em função de um valor, que confere sentido a este agir.

Podemos agora desenhar o seguinte esquema: onde se encontra o homem,


ali está o valor; onde está o valor, dali brota um sentido; da busca pelo
sentido inerente ao valor vem a interpretação. Portanto, concluímos: onde
está o homem, está a interpretação. Tendo em vista o dinamismo dos objetos
culturais, e, portanto, dos valores agregados, deduz-se que o sentido também
acompanha esse dinamismo, reformulando-se continuamente. Assim, a
interpretação, enquanto atividade que busca captar este sentido, será assim
também essencialmente dinâmica e interminável.

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Hermenêutica Jurídica

Toda manifestação de um sentido não se faz ao acaso, mas é orientada por uma espécie de “farol
social” que é tomado como referência para dimensionar graus de intensidade de sua claridade, o que
faz com que algumas coisas apresentem uma variação de luminescência no referencial do sentido que
indicam, tornando-se algumas delas mais atrativas, preferencialmente às outras. Este referencial é o que
chamamos de valor. Isto quer dizer que quanto mais “luminoso” for um determinado fato social, quanto
maior o interesse que ele provoca, quanto mais forte for o seu significado social, maior será o valor que
ele porta. O valor é um conceito indefinível, que representa uma espécie de vivência.

Quanto mais nos inserimos na vida social, mais aprendemos a reconhecer os valores que ali estão
presentes. E, embora não conseguindo definir claramente o que seja, todos nós estamos constantemente
tomando decisões em nossas vidas e o que orienta qualquer decisão é a noção de valor que temos.
Decidir é valorar. Quando decidimos algo, assumimos que a nossa escolha contém um valor de grande
importância. Quanto preferimos uma coisa em relação à outra, estamos reconhecendo naquele objeto
preferido um maior valor do que o rejeitado. Assim, se onde há o homem, há interpretação, da mesma
forma, onde há homem e interpretação, há valor. Toda decisão humana é inerente ao reconhecimento de
uma determinada faceta valorativa, sob a qual o sentido se nos apresenta.

Embora não seja uma definição adequada do valor, podemos reconhecê-lo como uma energia que produz
no homem uma atração irresistível por algo determinado, gerando assim os sentimentos e reações de aproximação,
aceitação, adesão, quando identificamos valores positivos, assim como também os seus opostos de afastamento e
recusa, quando há uma contradição entre o que é esperado e o que nos é oferecido. Inegavelmente, o valor é uma
força de natureza espiritual que o homem não consegue definir claramente com postulados racionais, mas que é
capaz de percebê-lo sem qualquer relutância toda vez que diante dele se apresenta.

É, assim, mais fácil classificar o valor do que defini-lo. Costuma-se classificá-los quanto ao seu
alcance, à sua duração, à sua legitimidade e à sua matéria. Acompanhe cada uma delas:

• Quanto ao seu alcance, há os valores universais, aqueles que exercem sua atração sobre os
homens em qualquer lugar onde estes estejam, e os valores individuais, isto é, aqueles que
uma pessoa elege como diretriz de sua existência. Atualmente, a sociedade tem dificuldade
em aceitar valores que seriam imutáveis e permanentemente válidos, preferindo reconhecê-
los como realidades mutáveis de acordo com o momento cultural. Mesmo reconhecendo a
universalidade de certos valores, admite-se uma relativização histórica e social, considerando-
se os alvitres das variadas culturas e a inevitável influência dos fatores temporais. É a
universalidade possível dentro da historicidade humana.

• Quanto à sua duração, os valores podem classificar-se como permanentes, duradouros ou


passageiros. Os permanentes se confundem com os universais citados acima, aqueles que
acompanham constantemente a humanidade desde sempre, embora com os compreensíveis

57
Hermenêutica Jurídica

percalços da historicidade. Isso não quer dizer que sejam eternos, porque são humanos. Os
duradouros são aqueles que, mesmo não permanentes, acompanham a humanidade por
longos decursos temporais, exercendo sua influência de forma marcante enquanto persistem.
E há os valores passageiros, efêmeros, de duração mais curta, como os modismos, que passam
muitas vezes sem fincar a sua marca.

• Quanto à sua legitimidade, os valores classificam-se como positivos ou negativos. Pode


parecer contrassenso falar-se em valores negativos. Mas esta positivação e negativação têm
como referência o todo da sociedade, ou seja, o ser humano genérico, não o indivíduo.
Positivos são os valores que contribuem para a manutenção, a melhoria, o aperfeiçoamento
da vida social e os negativos são aqueles que, ao invés, levam à desagregação e à insegurança.
O trabalho honesto, por exemplo, é valor positivo e permanente, na medida em que contribui
tanto para o bem-estar do próprio homem, quanto para o progresso do todo social. A
atividade ilícita, por outro lado, conquanto seja proveitosa para um indivíduo ou um grupo,
lesa as outras pessoas e produz revolta e insegurança social, tornando-se um valor negativo.

• Quando à sua matéria, os valores se classificam de acordo com a área social em que se
situam. Há os valores éticos, jurídicos, religiosos, políticos, econômicos, históricos, nacionais,
regionais e locais, referindo-se todos como desdobramentos dos valores humanos e sociais em
geral, sedimentados na atividade humana e presentes em todas as épocas históricas. Conclui-
se, portanto, que em qualquer lugar onde esteja presente o homem, ali estará também o valor.

3 Conhecimento e Interpretação
A interpretação decorre do livre exercício da razão. A este livre exercício da razão chama-se
pensamento. Portanto, pensar é interpretar. O ser humano naturalmente pensa, por isso, naturalmente
sempre interpreta. Nas rotinas do dia-a-dia, nas relações sociais, familiares, laborativas, o homem está
sempre revelando um sentido. Não é possível a identidade humana sem esta interpretação, porque o
homem só toma consciência de si mesmo interpretando. É por intermédio da interpretação do outro
e de si próprio que o ser humano se apercebe de sua própria realidade e da realidade do mundo. A
interpretação é necessária ao homem, faz parte da sua natureza humana.

Por causa dessa necessidade da natureza humana é que, desde a mais remota antiguidade, o
homem interpreta. As variadas formas de interpretação, criadas pela atividade incessante do homem,
produziram os vários conceitos de hermenêutica, apresentados pelos estudiosos ao longo dos tempos.
Fazemos, assim, uma diferença entre interpretação e hermenêutica, que não são sinônimas. Interpretação
é atividade prática, enquanto que a Hermenêutica é modelo teórico. Os procedimentos interpretativos
fundamentam as várias escolas de hermenêutica e os vários conceitos de hermenêutica orientam formas
diversas de interpretação. Aliás, os próprios conceitos diferenciados de hermenêutica são prova da
capacidade interpretativa humana.

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Hermenêutica Jurídica

Exemplo

Explicando com exemplos. Quando alguém quer obter sua carteira de


motorista, antes vai precisar submeter-se a uma série de exigências prévias
(exames de saúde, aulas de legislação do trânsito, lições elementares de
mecânica de veículos) e somente depois se sentará no banco do motorista,
para colocar em prática os ensinamentos teóricos.

Quando alguém adquire um novo aparelho eletroeletrônico, deve fazer


uma leitura do manual de instruções, para entender as diversas funções do
aparelho e somente depois vai operá-lo.

Num exemplo mais simples, quando alguém quer aprender andar de bicicleta,
vai precisar que alguém lhe dê orientações sobre os movimentos do guidão, das
alavancas e dos pedais, somente depois irá tentar equilibrar-se nas duas rodas.

Nos exemplos citados, o primeiro momento é o conceitual ou teórico, no qual o interessado


aprende os requisitos básicos da atividade que vai desenvolver. O segundo momento é a execução prática
das orientações conceituais prévias. Trazendo para o tema em pauta, a hermenêutica corresponde
aos procedimentos conceituais, teóricos prévios, que servirão de roteiro e orientação para as
atividades práticas de interpretação. As duas estão inteiramente vinculadas, mas constituem atividades
distintas que não se confundem entre si. Os vários conceitos e escolas hermenêuticas ocorridas no
decorrer da história são fruto de diferentes maneiras de conceber e realizar a interpretação, sendo esta a
atividade que se apresenta em todas elas.

Importante

O estudo da hermenêutica é, portanto, uma atividade teórica. Neste estudo,


são analisados e discutidos os requisitos necessários para o ato de interpretar.
Antes de nos entregarmos a tal atividade, precisamos nos instrumentalizar e
nos familiarizar com princípios, procedimentos e técnicas que nos permitam a
realização de um trabalho competente e seguro. Devemos, porém, estar conscientes
de que, dada a constante evolução histórica e consequente transformação da
sociedade, não existem receitas infalíveis nem rotinas prontas, mas apenas
indicações e propostas. Algumas delas já foram utilizadas por longo tempo
e continuam válidas. Obviamente, passaram por processos de refinamento e
atualização permanentes. Outras estão sendo, a todo o momento, tentadas com
maior ou menor eficiência, conquistando adeptos ou adversários.

59
Hermenêutica Jurídica

Por seu turno, a sociedade está em incessante movimento evolutivo, com substanciais interferências
sobre a cultura e a mentalidade das pessoas. Aquilo que tem sentido e valor numa determinada época,
pode dali a pouco sofrer mutações. Novos padrões culturais e valorativos estão se manifestando a todo
momento. Disso tudo resulta que a tarefa humana de interpretar é historicamente inesgotável, na medida
em que a interpretação é a busca do sentido e este constantemente se transforma. A hermenêutica,
enquanto ciência e arte da interpretação, é entendida assim como uma atividade perene e incompleta.

Costuma dizer-se que “onde está a sociedade, aí está o Direito”. Em todas as épocas, sempre onde
houve grupos humanos reunidos num mesmo território, houve algum tipo de norma disciplinadora de sua
conduta, por mais rudimentar que tenha sido. De acordo com o Prof. Raimundo Falcão (2004), esta frase
deveria ser “onde está o homem, aí está o Direito”, considerando que não é a sociedade um sujeito concreto
de direitos, e sim a pessoa. A importância da sociedade deriva da importância das pessoas que a formam. A
referência à sociedade tem apenas a vantagem de chamar atenção para o fato de que o Direito se realiza na
convivência social. Melhor ainda seria adaptarmos a frase dentro do contexto delineado nos tópicos anteriores,
no qual demonstramos que a vida do homem na sociedade é um constante exercício interpretativo, para
dizermos “onde está o homem, aí está a interpretação”. O Direito, como todos os objetos culturais, não se
desenvolve sem a atividade do intérprete, não permanece vivo sem o contínuo trabalho da interpretação.

Historicamente, foi assim que aconteceu nas origens do Direito, em Roma. Foi a atividade
interpretativa dos juristas que deu alma e vida ao Direito Romano, cujo legado chega até nós. Os
jurisprudentes romanos foram os pioneiros na ciência e na arte de transformar a norma numa criação
permanentemente viva, fertilizando-a com suas experiências de vida e com seu apurado senso de
percepção da evolução da sociedade do seu tempo. Mesmo sem teorizar a respeito desta vital atividade
jurídica, eles nos deixaram exemplos práticos e concretos de elaboração da ciência jurídica, a partir da sua
capacidade de sempre interpretar de maneira nova antigos costumes e práticas, o que os transforma em
referência permanente para o estudo do Direito em todos os tempos.

Importante

Filosoficamente, a interpretação é um processo que faz parte do próprio ato essencial,


a partir do qual o homem se identifica ontologicamente como ser pensante e atuante
no mundo, tornando-se capaz de conhecê-lo e de transformá-lo. A capacidade racional
do ser humano se manifesta de forma mais expressiva exatamente na atividade
interpretativa. Não há racionalidade sem interpretação. Quer seja de forma consciente
ou inconsciente, é na atividade racional interpretativa que o homem conhece a si
mesmo, conhece o outro e conhece o mundo, ou seja, é através da interpretação que o
homem chega à consciência de si mesmo e dos outros, o que torna a interpretação uma
ação necessária, indispensável ao homem.

60
Hermenêutica Jurídica

A essência do ato de interpretar é o esforço de captação de um sentido. Este sentido, enquanto


epifania do absoluto, apresenta-se de infinitos modos nas coisas, nas pessoas, nos acontecimentos, e
sempre sem repetição, o que torna o sentido potencialmente inesgotável. Por ser dotado da capacidade
de perceber a sua presença, o homem pode ser considerado o portal do sentido do mundo, entendendo-
se com isso que todas as demais coisas existentes têm acesso ao sentido através do homem. Esse
entendimento transforma a atividade interpretativa na tarefa humana por excelência, conferindo-lhe um
lugar central entre todos os existentes e a responsabilidade pela exuberância interminável dos infinitos
desdobramentos nos quais o sentido se manifesta. Por isso, onde está o homem, aí está a interpretação.

Podemos concluir, então, que a interpretação é um momento constitutivo dessa realidade humana
chamada de conhecimento. A interpretação é o momento dinâmico do conhecimento da realidade, é o
ato de apreendê-la racionalmente, tal qual ela se apresenta à nossa percepção subjetiva. A hermenêutica,
enquanto conjunto de teorias formadas a partir da prática interpretativa desenvolvida pelos estudiosos ao
longo da história, é o momento teórico da atividade interpretativa. Ao estudar a hermenêutica, estaremos
repassando as tentativas e os caminhos seguidos pelos intérpretes no decorrer dos tempos, como etapa
de preparação para o exercício prático diante de casos concretos.

A hermenêutica e a interpretação em geral, portanto, são atividades complementares que ocorrem


no plano do conhecimento. Ora, qualquer conhecimento nunca é uma atividade totalmente individual,
solitária, mas sempre se realiza num contexto social. Disso resultam duas implicações imediatas:
1. O ato de interpretar se expressa por meio de signos e sinais expressivos;

2. o ato de interpretar se insere num contexto linguístico-comunicativo, portanto, cultural, na


medida em que a atribuição de significados aos signos e sinais é uma característica da atividade
noética do homem sobre a natureza.

Transferindo essa ideia para o âmbito do direito, dizemos que o ato de interpretar a lei e as
diferentes normas que compõem o ordenamento jurídico, inserido no contexto do que se denomina
Hermenêutica Jurídica, constitui-se neste esforço mental que se perfaz em quatro momentos integrados:

1. elevar para o plano da racionalidade os fatos sociais dotados de um significado valorativo;

2. aproximando-os e confrontando-os com as hipóteses legais previamente estabelecidas;

3. no intuito de correlacionar estes dois planos da realidade;

4. em busca da sua adequação ou inadequação.

Ao fazer isto, o intérprete estará colocado diante de certo número de possibilidades, dentro das
quais deverá adotar uma posição, de acordo com o seu convencimento e com os objetivos pretendidos.

Noético, derivado de nous, é um termo que em grego significa o espírito humano enquanto atividade pensante e articu-
ladora da relação entre o mundo das coisas e o mundo das ideias (Platão).

61
Hermenêutica Jurídica

4 Interpretação e Formação Profissional


O conhecimento que requer compreensão difere dos demais conhecimentos, dos quais
se busca uma explicação através da repetição previsível, como é o caso das ciências da natureza ou
ciências experimentais. Os objetos culturais, dos quais o Direito faz parte, pertencem àquela categoria
de conhecimentos chamada por Wilhelm Dilthey de ciências do espírito, que dizem respeito às
relações humanas e implicam uma relação de história e liberdade, relações que ocorrem no campo do
comportamento e fogem da repetição e da previsibilidade próprias dos fenômenos da natureza.

As novas tendências filosóficas do século XX, orientadas para a existência, a intersubjetividade e a


experiência histórica, vieram trazer novas luzes para a compreensão do Direito como ciência da sociedade,
aproximando-o das chamadas “ciências do espírito”, situação que passou a exigir dos profissionais do
Direito uma nova visão acerca da ciência jurídica e da hermenêutica jurídica.

O Direito se preocupa com as ações humanas e as ações humanas encontram-se inseridas


necessariamente num contexto histórico. Da mesma forma, o intérprete é também um ser historicamente
orientado e faz parte necessariamente de uma tradição social. Daí se conclui que a norma jurídica constitui-
se um fazer humano carregado de sentido e o Direito se apresenta jungido à hermenêutica, uma vez que
a sua existência depende da concretização ou da aplicação da lei em cada caso concreto. Como toda obra
humana, que corresponde a um processo de criação, o direito também tem a sua marca valorativa.

Importante

Desse modo, o direito tem como sentido não só os valores representativos da intenção
ou da vontade de quem faz a lei, como também os valores incorporados à tradição
histórica na qual a lei se insere. Por isso, a interpretação jurídica encontra referência
tanto na vontade do autor da lei, quanto na vontade do seu intérprete, enquanto seres
humanos pertencentes a épocas históricas muitas vezes distintas.

Assim, diz-se que o direito tem dois momentos de criação: o primeiro, no ato originário do
legislador; o outro, no ato decisório do juiz. Para aplicar a norma, o juiz precisa assegurar-se da vontade
do legislador, mas também precisa fazer a devida adequação desta ao caso concreto, através do seu
conhecimento e do seu convencimento. O Direito carrega assim um significado de natureza volitiva, que
precisa ser interpretado, exigindo um esforço hermenêutico.

Importante

No campo jurídico-decisório, a ação interpretativa surge de um conjunto de conceitos


e conhecimentos prévios, que constituem um arcabouço teórico condicionante da
interpretação. É o que tradicionalmente se chamava de dogmática jurídica e
atualmente chama-se ordenamento jurídico, composto pela lei, pela doutrina e pela
jurisprudência, que serve de parâmetro primeiro da interpretação.

62
Hermenêutica Jurídica

Quando qualificamos um fenômeno como “jurídico”, o estamos considerando em função


do ordenamento jurídico, cujo conteúdo, até mesmo por uma questão democrática e de segurança,
é por todos previamente conhecido. Os princípios extraídos da doutrina e da jurisprudência,
portanto, conhecidos pelos profissionais e estudantes do direito, permitem que a interpretação
se instaure dentro de limites que controlam a arbitrariedade, conferindo-lhe considerável dose
de previsibilidade, apesar das múltiplas possibilidades. Desta forma, a natureza normativa das
regras e princípios jurídicos positivados e os conceitos sedimentados pela tradição doutrinária
condicionam a ação do intérprete, impondo-lhe limites.

Ao longo da história e da prática do Direito, os juristas criaram padrões de interpretação


diversos, que são classificados genericamente em procedimentos fechados e abertos. Os
procedimentos fechados são mais comodistas, demandam pouco esforço intelectual e se
desenvolvem segundo a perspectiva burocrática e literal do texto legal. Os procedimentos abertos
evidenciam uma tendência inovadora e requerem capacidade reflexiva dos operadores do Direito,
para que se torne viável a adaptação das normas às novas situações e desafios postos pela sociedade.

Curiosidade

O Professor Willis Santiago Guerra Filho, da UFC, define os magistrados, segundo

as suas diversas posturas, em juiz tradicional, juiz tolerante e juiz revolucionário,

conforme a maneira de cada um proceder diante da aplicação das normas

jurídicas aos casos concretos. (In Revista do Processo, n. 70, 1993).

A hermenêutica fechada é baseada na literalidade, restringe a capacidade de adaptação do


direito às situações sociais inéditas e inovadoras, estabelecendo um divórcio entre o mundo do
direito e a dinâmica da sociedade. Esses procedimentos, herdados da tradição jurídica medieval,
limitam o trabalho interpretativo e reduzem o leque das possibilidades transformadoras que as
decisões judiciais podem ter na sociedade, no sentido da efetividade da justiça. Já a hermenêutica
aberta é aquela que está sempre visando aos fins sociais a que a norma se destina, muito mais do
que a sua expressão literal e o entendimento da dogmática tradicional. No dizer de Miguel Reale
(1979, p.285), “[...] interpretar uma lei importa previamente compreendê-la na plenitude dos seus
fins sociais, a fim de poder-se, desse modo, determinar o sentido de cada um dos seus dispositivos.
Somente assim ela é aplicável a todos os casos que correspondam àqueles objetivos”.

A hermenêutica jurídica brasileira, de longa tradição positivista, foi sempre permeada por
um reducionismo burocratizante do Direito, de modo que a interpretação dos problemas postos
ao exame do Judiciário esteve sempre tendente a decisões orientadas pela diretriz romanista
medieval. Do mesmo modo, a dogmática tradicional sempre privilegiou os institutos jurídicos

63
Hermenêutica Jurídica

provenientes do direito romano e a aplicação do direito construiu-se dando prioridade ao objetivo


da preservação, do conservadorismo, bem ao gosto dos princípios da razão formalista herdada
da filosofia grega. Daí se entende porque o direito privado tradicionalmente sempre teve maior
destaque entre os juristas brasileiros, deixando em plano inferior o direito público, tal qual fizeram
os juristas romanos. Só recentemente nota-se uma preferência dos novos doutrinadores por uma
análise do fenômeno interpretativo e de aplicação do Direito alicerçados nos princípios da justiça
social mais do que na racionalidade formal, tomando como bússola a função social da norma, à
luz das novas contribuições da filosofia contemporânea para o estudo da hermenêutica.

Esses novos doutrinadores, inspirados nos estudos de Dilthey, de Heidegger, de Gadamer e,


mais recentemente, de Habermas, vêm buscando novas alternativas para a compreensão do fenômeno
sociojurídico dentro da perspectiva da historicidade, abandonando a vetusta trilha da literalidade, bitolada
ao formalismo, ancorada numa suposta neutralidade e clareza da norma.

Curiosidade

Paula Batista, Professor da Faculdade de Direito do Recife no final do século


XIX, ensinava que “Interpretação é a exposição do verdadeiro sentido de uma lei
obscura por defeitos de redação, ou duvidosa com relação aos fatos, ou silenciosa.
Não tem lugar sempre que a lei é clara e precisa.” O prof. Carlos Maximiliano
discorda ao afirmar que “a nenhum jurista ficaria bem repetir hoje essas
definições... obscuras ou claras, deficientes ou perfeitas, ambíguas ou isentas de
controvérsias, todas as frases jurídicas aparecem aos modernos como susceptíveis
de interpretação.” (MAXIMILIANO, 2006, p. 29)

Notório neste contexto é que, desde o início do século XX, o professor Carlos Maximiliano, em
sua lapidar obra “Hermenêutica e Aplicação do Direito” (1a. Edição em 1924), já chamava a atenção para
os novos desafios que se colocavam para os intérpretes e aplicadores do Direito:

Dia a dia avulta em importância e complexidade a tarefa do hermeneuta. A interpretação,


que outrora parecia água plácida, estagnada, é hoje um mar assaz agitado. Precisa o exegeta
possuir um intelecto respeitoso da lei, porém ao mesmo tempo inclinado a quebrar-lhe a
rigidez lógica; apto a apreender os interesses individuais, porém conciliando-os com o
interesse social, que é superior e manter-se no difícil meio termo - nem rastejar pelo solo,
nem voar em vertiginosa altura (MAXIMILIANO, 2006, p.83).

E continua, discorrendo sobre o papel dos magistrados:

Cumpre escolher os magistrados entre os que bem conhecem as paixões humanas, as causas
próximas e remotas dos fenômenos jurídicos, a finalidade dos institutos e dispositivos,
os fatores sociológicos que influíram na elaboração ou na exegese dos textos. Devem ter
aprendido a substituir o egoísmo, cultivado outrora nos ginásios, pelos sentimentos éticos
inspirados pelos interesses comuns da coletividade e também dos povos, quer isolados, quer
no convívio das nações (MAXIMILIANO, 2006, p.84)

64
Hermenêutica Jurídica

Exemplo

Nesse sentido, é importante mencionarmos, a título de ilustração, apenas dois


fenômenos atuais com que se deparam os operadores do Direito na área do Direito
de Família, Previdenciário e Sucessório: as famílias constituídas por uniões de fato,
sem matrimônio formal e, muitas vezes, em concomitância com este e a união civil
de pessoas do mesmo sexo. Se acrescentarmos os problemas relativos ao aborto e
à eutanásia, à negociação de órgãos humanos e às pesquisas com células-tronco
teremos uma noção mais realista da complexidade e da abrangência do trabalho
dos hermeneutas jurídicos contemporâneos.

Com efeito, uma análise do contexto sociocultural e ideológico brasileiro permite inferir que, a
partir da Constituição Federal de 1988, novas situações fático-jurídicas vêm surgindo em nossos tribunais
e elas exigem uma interpretação mais flexível e consentânea com a realidade social contemporânea, para
que o mundo jurídico propicie tratamento justo aos conflitos que a sociedade lhe apresenta.

Coloca-se, assim, a necessidade de encontrarmos um paradigma hermenêutico que torne viável


significativa modificação da teoria jurídica contemporânea capaz de incorporar categorias conceituais
derivadas de uma leitura sociológica, filosófica, antropológica, psicológica e crítica do Direito tradicional
e de sua relação com a sociedade. A formação dos juristas deve ser enriquecida com essa ampla gama
de temas, com o objetivo de se alcançar a melhor interpretação à prática que desenvolvem e com que
convivem no dia-a-dia do seu trabalho, bem como o conhecimento e a discussão das novas teorias jurídicas
da pós-modernidade. O direito pós-moderno nasce a partir do momento em que o entendimento dos
juízes e demais operadores do direito possa ir além da literalidade da norma positiva, a fim de que se
constitua em instrumento de mudança social.

Sintetizando esta ideia, afirmou o Prof. Carlos Maximiliano, em sua lapidar obra
“Hermenêutica e Aplicação do Direito” (1a. Edição em 1924), que a interpretação jurídica exige
do intérprete a posse de três atributos cuja concomitância no mesmo cérebro não é, por assim
dizer, muito comum: probidade, ilustração e critério.

A probidade conduz ao esforço tenaz e sincero para achar o sentido e alcance da lei segundo
os ditames da verdadeira justiça. A ilustração auxilia, com uma grande soma de conhecimentos, a
solucionar todas as dúvidas possíveis e atingir os vários motivos de uma decisão reta. E o critério induz
ao discernimento entre o certo e o provável, o aparente e o real, o verdadeiro e o falso, o essencial e
o acidental. “Para ser hermeneuta completo, é mister entesourar profundo conhecimento de todo o
organismo do Direito e cognição sólida não apenas da história dos institutos, mas também das condições
concretas da vida em que as relações jurídicas se formam” (MAXIMILIANO, 2006, p.83).

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Hermenêutica Jurídica

Com a compreensão da interpretação e formação profissional, finalizamos


a unidade 2. Lembre-se de sempre participar dos fóruns e qualquer dúvida
procure o serviço de tutoria. Até a próxima unidade!

Referências Bibliográficas

BUZZI, Arcângelo. Introdução ao pensar. Petrópolis: Ed.Vozes, 2003.

CAMARGO, Margarida M. L.. Hermenêutica e argumentação. 3. ed. Rio de Janeiro:


Renovar, 2003.

CHAUÍ, Marilena et al. Primeira Filosofia. 6. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.

FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. São Paulo: Editora Malheiros, 2004.

GILES, Thomas R.. Introdução à Filosofia. São Paulo: Ed. USP/EPU, 1979.

MAGALHÃES Fº, Glauco B.. Hermenêutica e Unidade Axiológica da Constituição. 3.


ed. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004.

MAXIMILIANO, C.. Hermenêutica e aplicação do Direito. 19. ed. Rio de Janeiro:


Forense, 2006.

MELLO, Cleyson M.. Hermenêutica Jurídica e a Filosofia do Novo Código Civil Brasileiro.
In: O Novo Código Civil Comentado. Rio de Janeiro: Liv. Freitas Bastos, 2002.

REALE, M.. Lições preliminares do Direito. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1979.

SCHLEIERMACHER, F. D. E.. Hermenêutica - Arte e Técnica da Interpretação. 6. ed.


Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2008.

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HERMENÊUTICA JURÍDICA
Créditos

Núcleo de Educação a Distância

O assunto estudado por você nessa disciplina foi planejado pelo

professor conteudista, que é o responsável pela produção de conteúdo

didático, e foi desenvolvido e implementado por uma equipe composta

por profissionais de diversas áreas, com o objetivo de apoiar e facilitar o

processo ensino-aprendizagem.

Coordenação do Núcleo de Educação a Distância: Lana Paula

Crivelaro Monteiro de Almeida Supervisão Administrativa:

Denise de Castro Gomes Produção de Conteúdo Didático:

Antônio Carlos Machado Projeto Instrucional: Andrea Chagas

Alves de Almeida, Jackson de Moura Oliveira, Amália Campos Farias

Roteiro de Áudio e Vídeo: Andrea Chagas Alves de Almeida, José

Glauber Peixoto Rocha Produção de Áudio e Vídeo: Natália

Magalhães Rodrigues, Vaneuda Almeida de Paula, José Moreira de

Sousa Identidade Visual: Viviane Cláudia Paiva, Sávio Félix Mota

Arte: Geraldo Borges Programação: Antônia Suyanne Lopes

Alves Animação: Francisco Kaléo Mendes Liberato Editoração:

Sávio Félix Mota Analista de Mídias: Amália Campos Farias

Revisão Gramatical: Luís Carlos de Oliveira Sousa

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