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A celebração do casamento nos grupos étnicos angolanos

“Quem educa uma mulher, educa um povo”, este provérbio africano de autor
desconhecido, sentencia o papel da mulher na formação da família através do
casamento, sobretudo a formação da mulher para esse tão importante momento. O
casamento na cultura africana é uma das instituições mais antigas e apresenta-se
em diversos grupos étnicos e por isso, o ritual se reveste de grande prestígio,
constituindo tanto para o homem quanto para a mulher, um importante rito de
passagem.
É importante realçar, embora o alambamento seja uma prática tradicional comum
entre os diferentes países africanos, no que diz respeito a sua veracidade e
legitimidade, as opiniões entre os estudiosos divergem, devido às várias
interpretações sobre suas representações simbólicas. Há também uma variedade de
práticas ritualísticas que são modificadas a partir de factores culturais, religiosos e
etnográficos.
De acordo com Mbambi1 o alambamento é um neologismo criado pelos angolanos
para preencher a lacuna verificada na língua portuguesa para designar ovilombo
(pedido de casamento) em umbundu, o termo ovilombo segundo o autor, surge do
verbo okulomba que significa “pedir” em português. Há também uma variação
linguística para a pronúncia alembamento, termo que surge da palavra okulemba
(alegrar para consolar) em que de acordo com depoimentos “a retirada da filha para
o seu novo lar pode causar alguma tristeza aos pais, e há que consola-los (com um
presente) ” Mbambi, 2014, p.2.
Este refere-se a um conjunto de preparativos e entregas que a família do noivo faz à
parentesco (também chamados laços de afinidade ou aliança). Consiste na entrega
de quantias em dinheiro, roupas, calçados, bebidas, animais e determinados
objectos, que são comumente solicitados pelas tias da noiva.
A cultura Bantu Umbundu (também tratados por Ovimbundu) como muitos povos
africanos, encontram-se espalhados pelo mundo, mas registram uma forte presença
nas províncias do Huambo, Bié, Benguela e uma parte das províncias de Huíla e
Kwanza Sul. É um grupo com suas especificidades, que podemos classificar não

1
MBAMBI, Moisés_Prof. Auxil. de Direito, na Universidade Agostinho Neto, e Advogaado, no Lubango: Mestre
em Ciências Histórico-Juridicas pela Universidade de Lisboa.
somente como um grupo, mas um povo no sentido antropológico da palavra,
denominada por Ukwatchali (s.d., p.13) como Nação Umbundu.
O casamento neste grupo étnico é antecedido pelo alambamento2 que é uma
garantia de que o namoro entre o casal passa a ser encarado com mais seriedade,
pois espera-se o matrimónio. Uma vez que o matrimónio é um sacramento por
excelência na cultura bantu, o alambamento é celebrado com muita pompa, pois é o
pronúncio da união de dois seres que, por toda a vida, partilharão da alegria de
fazerem parte da “Força Vital”, de forma directa pelo nascimento dos seus filhos.
No alambamento os pais da noiva são elogiados pelo trabalho de educarem sua filha
e esta é vista como uma pérola e pede-se que o compromisso selado entre as
famílias dos noivos seja aceite por Deus e todos os ancestrais de ambas as partes e
depois prossegue o casamento propriamente dito.
Na tradição oral africana, o casamento envolve três sujeitos, é uma relação a três,
uma mulher e dois homens, um que dá essa mulher, e outro que a recebe. É uma
forma de comunicação entre as tribos, grupos étnicos que de outra forma estariam
em antagonismo. O casamento estabelece a norma em relação à legitimidade dos
filhos e o tabu do incesto cria a norma em relação ao facto biológico das relações
sexuais.
Sobre os elementos culturais presentes na cerimônia de casamento, identifica-se
uma variação desses elementos no tempo e no espaço. Todavia, tais variações não
modificam sua importância nas sociedades africanas uma vez que exercem
profundas influências sobre os indivíduos, assim como norteiam não só os modos de
união conjugal, mas também os requisitos, as normas e papéis sociais a serem
cumpridos de acordo com os saberes, valores e costumes que os identificam.
Para os grupos étnicos angolanos assim como a maioria dos países africanos, a
procriação é o principal objectivo do casamento e tal condição é fomentada em uma
espécie de preparação que ocorre quando os meninos e meninas ainda estão na
puberdade, conhecido como iniciação. Em tradições como essas, a ideia de não ter
filhos é considerada como um factor negativo ou até mesmo uma maldição:

2
Do verbo umbundo Okulemba, que significa “consolar”, “agradecer”. É um reconhecimento e gratidão, isto é um
prêmio à noiva e seus pais pelo seu bom comportamento e virtudes familiares. Não há pois nenhuma ideia
mercantilista da compra da noiva Cf MBABI, Moisés, O Casamento ao longo dos tempos, (Tese de Mestrado
em Ciências Histórico-Jurídicas, na Universidade de Lisboa), p.71-82.
Dentro dessa tradição a escolha de não ter filhos é algo impensável, a
falta de filhos para uma família é vista como uma mensagem, muitas
vezes um aviso por parte dos antepassados ou ainda uma dificuldades
imposta por um espirito que quer prejudicar aquela família. Para
relembrar, dentro da tradição Bantu, o fim de existência de alguém está
vinculado à falta de descendência (Malandrino, 2010, p.65-66).
Nessas tradições existem pelo menos mais dois importantes ritos para o processo da
constituição familiar, são eles: A iniciação a Puberdade e a Nomeação do recém-
nascido.
Um casamento só se realiza com o acordo dos pais, principalmente do chefe do clã
ou família materno chamado Nkulubundu e dificilmente se trata com os noivos, mas
sim com os mais velhos destes com a presença das testemunhas chamadas
Ntetembua, representados pelos sábios e anciãos da comunidade.
As descrições aqui mencionadas pertencem a práticas contidas na tradição Bakongo
e Ovimbundo que por sua vez, sofreram influência dos bantu. No entanto, os povos
bantu exerceram forte influência na formação cultual e etnográfica de Angola.
Sendo o casamento a base da família natural e as relações dele resultante entre os
cônjuges, pais e filhos a sua dissolução (divórcio), nos grupos étnicos verifica-se com
o falecimento de um dos membros, mas, a continuidade da relação é estabelecida na
relação de subordinação, onde a transmissão do poder é feita por via consanguínea,
geralmente por via matrilinear (de tio materno ao sobrinho ou entre irmãos) que
passará a conviver com a viúva, dando assim continuidade da prole; outra tradição
oral, defendida pelos antropólogos neste processo, é a crença de que os filhos da
última relação do falecido, estarão condições melhores quando estes são
acompanhados ou criados de algum familiar da mesma tripo ou clã, situação esta
que não se verificará se a viúva for contrair um novo relacionamento com um homem
de uma tribo e clã diferente.

UKWATCHALI, José Adriano, NO fenómeno religioso na cultura umbundo como


processo de desenvolvimento de Angola. Benguela: Bom Pastor, s.d
COPANS, Jean, Antropologia Politica, in Antropologia Ciências das Sociedades
Primitivas? Povoado Varzin, 1974.
LÉVI-STRAUSS, C. As estruturas elementares do parentesco. Paris, Mounton,
1967