Você está na página 1de 8

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNA – UNIR

CAMPUS DE JI-PARANÁ
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS - DCHS
CURSO DE PEDAGOGIA

RESENHA: A HISTÓRIA DO PNE E OS DESAFIOS DA NOVA LEI DO PLANO


NACIONAL DE EDUCAÇÃO (2014-2024)

Discente: Franciele de Oliveira Nunes

Ji-Paraná-RO - Novembro de 2017


1. Introdução

O Plano Nacional de Educação (PNE), Lei nº 13.005/2014, é um


instrumento de planejamento do nosso Estado democrático de direito
que orienta a execução e o aprimoramento de políticas públicas do
setor.(BRASIL, 2014, p.7)

No ano de 2014 foi sancionada a Lei 13.005, o Plano Nacional de Educação


(PNE). Esse documento foi o segundo plano nacional aprovado por Lei na história da
educação brasileira. (BRASIL, 2014). O PNE é um documento que expressa por
escrito as intenções de Políticas Públicas para a Educação, estabelecendo diretrizes,
objetivos, metas e estratégias para cumprir desde o ano 2014 até 2024.
Conforme a Emenda Constitucional n° 059 de 2009, ao alterar o artigo 214 da
constituição Federal de 1988, o Plano Nacional de Educação terá duração decenal,
na qual tem como objetivo:
articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e
definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação
para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus
diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas
dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que
conduzam a:
I - erradicação do analfabetismo;
II - universalização do atendimento escolar;
III - melhoria da qualidade do ensino;
IV - formação para o trabalho;
V - promoção humanística, científica e tecnológica do País.
VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em
educação como proporção do produto interno bruto.

Nesse sentido, o artigo 214 da Constituição Federal de 88, apresenta em seus


incisos algumas das diretrizes previstas no PNE vigente na qual orientam e direcionam
todas as ações que serão desenvolvidas nos próximos dez anos 2014/2024. Assim,
para que as metas e estratégias sejam efetivadas durante esse período é necessário
a colaboração de todos os Entes Federados.

2. Planejamento, Plano e PNE


Ao abordar sobre o termo “planejamento” o PNE destaca que: “[...]o
planejamento envolve um esforço metódico e consciente ao selecionar e orientar os
meios e as estratégias para atingir os fins previamente definidos, com o objetivo de
aproximar a realidade do ideal expresso pelo modelo.” (BRASIL, 2014, p. 10). Assim
sendo, o planejamento é um meio no qual é necessário para que os objetivos a serem
alcançados se aproximem ao máximo da realidade, visto que o processo de planejar
compõe todas as etapas das ações que serão desenvolvidas para que se as metas e
efetivem no dia a dia. É necessário entendermos os termos planejamento e plano,
visto que:
[..] o planejamento é um processo político, pois envolve decisões e
negociações acerca de escolhas de objetivos e caminhos para
concretizá-los.Com ele, não se confunde o plano, o meio que
instrumentaliza o processo. Enquanto aquele coordena, racionaliza e
dá unidade de fins à atuação do Estado, este garante a coerência entre
meios e fins. Produto de decisão política, o plano é também uma peça
técnica que passa a ser a referência para a ação pública. Essa é a
natureza do Plano Nacional de Educação. (BRASIL, 2014, p. 10)
O plano assim, é o produto de discussões e decisões políticas, sendo o modelo
de referência para a ação do estado. De acordo com o PNE a execução do plano e o
cumprimento das metas previstas deverão ser objetos de avaliações e monitoramento
continuo, visto que a realidade está em constante mudança. Assim, dispõe-se de
quatro instâncias: “I − Ministério da Educação (MEC);II − Comissões de Educação da
Câmara dos Deputados e Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado
Federal; III − Conselho Nacional de Educação (CNE);IV − Fórum Nacional de
Educação.”(BRASIL, 2014, p. 11) Essas instâncias deverão acompanhar o
desenvolvimento PNE assegurando o cumprimento das metas previstas, visto que é
necessário verificar como está sendo desenvolvido na prática o plano para que
possam intervir e propor novas mudanças frentes aos desafios da educação.

3. O PNE na história
As primeiras intenções de estabelecer diretrizes para a educação nacional
surgiu a partir do ano de 1932 por intermédio do Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova, reunidos por meio da Associação Brasileira de Educação (ABE). O grupo de
pioneiros que criou esse documento e permaneceu na ABE, formou a “comissão dos
10” na qual foi presidida por presidido por Anízio Teixeira. De fato, o documento do
manifesto teve grande repercussão, e esse grupo de educadores foi responsável por
criar um anteprojeto para a Educação Nacional na Constituição Federal de 1934, na
qual: “propunha-se que a União fixasse um PNE, com o objetivo de oferecer
oportunidades iguais, segundo as capacidades de cada um.” (BRASIL, 2014, p. 12)
Desse modo, foi na constituição de 1934 que apareceu a primeira referência ao
PNE em seu artigo 150 conforme destaca PNE 2014/2024:
Constituição de 1934 atribuiu à União a competência para “fixar o
plano nacional de educação, compreensivo do ensino de todos os
graus e ramos, comuns e especializados; e coordenar e fiscalizar a
sua execução, em todo o território do país” (art. 150, a). O art. 152
estabelecia que o Conselho Nacional de Educação deveria elaborar o
Plano Nacional de Educação para aprovação do Poder Legislativo.
(BRASIL, 2014, p.12)

O Plano Nacional de Educação não apareceu nas duas constituições


posteriores a de 1934 (1937/1946). Entretanto, por intermédio da Lei de Diretrizes e
Bases Lei nº 4.024/1961, delegou ao Conselho Federal de Educação de elaborá-lo.
Desse modo no ano de 1962, então surge o primeiro PNE, porém não sob a forma de
lei. (BRASIL, 2014) Conforme descreve o PNE 2001, ao falar a respeito do o Plano
Nacional de 1962, era um conjunto de metas quantitativas e qualitativas que deveriam
ser alcançadas no prazo de oito anos. Durante esse período de vigência observa-se
que o plano passou por revisões alterando a distribuição de recursos federais.
Em 1967 ressurge a ideia de uma Lei a respeito do PNE proposta pelo
Ministério da Educação e Desporto, porém esse planejamento da educação foi
inserido como parte do planejamento global do governo. A constituição Federal de
1988 abordou o estabelecimento do PNE por Lei e posteriormente a LDB 9394/96
também assegura a criação do PNE, em regime de colaboração entre os entre
federados. (BRASIL, 2014)
No ano de 2001, pela primeira vez o Plano Nacional de Educação era aprovado
pela Lei 10172. O plano tinha vigência de dez anos, e conforme estabelece a
‘Exposição de Motivos (EM) nº 33, de 2010, que acompanhou a proposta do Executivo
para o PNE 2014-2024, “o PNE 2001-2010 contribuiu para a construção de políticas
e programas voltados à melhoria da educação, muito embora tenha vindo
desacompanhado dos instrumentos executivos para consecução das metas por ele
estabelecidas.” (BRASIL, p.14)

4. O projeto que tramitou no congresso nacional

A nova proposta do PNE para o decênio 2014/2024 teve aprovação da


presidente da república no ano de 2010, conforme expressa o documento: “[..]por
meio da Mensagem nº 701, acompanhada da EM nº 33, encaminhou ao Congresso
Nacional o projeto de lei que “aprova o Plano Nacional de Educação para o decênio
2011-2020 e dá outras providências.” (BRASIL, 2014, p.14,15) Entretanto, esse
projeto de Lei sofreu críticas por ser baseado nos seguintes termos: diagnóstico,
diretrizes e metas. As críticas eram a respeito do modo que foi apresentado as metas,
sem o devido acompanhamento das estratégias necessárias.
De fato o processo para a aprovação desse novo plano teve uma tramitação
lenta, passou por várias comissões e sofreu atrasos até ser aprovado pelo Congresso.
Ainda conforme as justificativas apresentadas no nesse tópico: [..] a tramitação do
PNE 2014-2024 consumiu três anos e meio, mas o projeto foi enviado no último mês
da legislatura. [...]” (BRASIL, 2014, p.16) A transição de governos influenciou na
demora para a aprovação do PNE, visto que: “[..] ao voltar a seu funcionamento, a
Câmara teria ainda que consumir tempo e realizar negociações para eleger o novo
presidente e os membros da Mesa, depois constituir as comissões permanentes,
definir a tramitação do PNE[...]” (BRASIL, p.16)
Foi criado logo no início de 2011 uma comissão especial para discutir os
assuntos relacionados ao PNE. Nesse período foram realizadas várias audiências
públicas e seminários nacionais. (BRASIL, 2014) Não temos a certeza de que por mais
que esse processo tenha passado por várias comissões o atraso em sua aprovação
se deva por causa dessas etapas, mas sim talvez por interesse de grupos políticos
em não aceitar alguns pontos abordados no PNE, principalmente quando se trata de
recursos destinados para a educação. A discussão do PNE no plenário teve início em
maio de 2014 e a sua aprovação ocorreu no mês de junho desse mesmo ano, com
alteração também do período de vigência, que passou a ser de 2014/2024.

5. ATORES NO DEBATE DO PNE (2014-2024)


Durante o processo de discussão e implantação do PNE (2014-2024)
participaram diversos atores do setor educacional, na qual tinham visões, interesses
e propostas distintas. Os inúmeros atores que participou dessa construção conforme
expressa Brasil (2014) se classificam em:
 Atores governamentais: Fazem parte o Poder executivo no plano federal e o
Congresso Nacional.
 Conselhos e fóruns de educação institucionais: CNE, FNCE, Uncme, FNE.
 Movimentos sociais: Entidades cientificas; Redes de Movimentos e Entidades
representativas da comunidade educacional.
 Sociedade civil (gestores).
 Sociedade civil vinculada ao setor privado na área educacional.
 Organizações da sociedade civil e think thanks voltadas à formulação de
políticas públicas.

Ainda, de acordo com Brasil (2014), foram encaminhadas diversas propostas


como sugestões de emendas por parte dos atores não governamentais. Propostas
estas, elaboradas pelas seguintes entidades: Campanha Nacional pelo Direito à
educação; Uncme e CNM. O poder executivo no Plano Federal, acompanhou de perto
a tramitação do Plano, fazendo pressões aos aliados da base para que no texto
original fossem mantidas aspectos centrais da proposta inicial.
Um fator que contribui para que as discussões a respeito do Plano Nacional
fossem construtivas, foi a presença de alguns representantes do Congresso Nacional,
que envolveu deputados e senadores: “que em sua maioria, vieram de trajetória ligada
à educação, muitos foram gestores [...] Assim, além de dialogar com o Executivo,
movimentos e atores da sociedade civil apresentavam suas próprias proposições.”
(BRASIL, 2014, p. 20)
6. POLÊMICAS EM DESTAQUE
Algumas polêmicas destacam-se durante a tramitação do texto base do PNE,
nas quais algumas emendas foram essenciais para o aprimoramento do plano. A
principal polêmica foi em relação ao financiamento destinado a educação, que
envolveu vários debates. Conforme Brasil (2014, p. 20): “O projeto original previa que
o investimento público em educação fosse ampliado progressivamente até atingir, no
mínimo, o patamar de 7% do produto interno bruto do país, ao final do decênio.”
Envolvida nessas discussões, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação
lançou uma nota técnica: ““Por que 7% do PIB para a educação é pouco?” (BRASIL,
p. 20). Essa nota, explica o porquê desse percentual ser pouco para que se cumpra o
que está previsto no Plano, visto que para que haja de fato uma melhoria na qualidade
da educação brasileira, é necessário mais investimento. Assim, em julho de 2012,
após vários debates foram apreciados os destaques, sendo aprovados os 10% do PIB
na Meta 20, conforme o que consta abaixo:
Meta 20: ampliar o investimento público em educação pública de forma
a atingir, no mínimo, o patamar de sete por cento do produto Interno
Bruto (PIB) do país no quinto ano de vigência desta lei e, no mínimo,
o equivalente a dez por cento do PIB ao final do decênio. (BRASIL,
2014, p.21)

Uma outra polêmica está relacionada também ao financiamento, na qual o


senado tinha retirado do plano a estratégia 20.10. Essa estratégia previa que a União
deveria complementar os custos com o CAQi e QAQ. Assim, a Fineduca (Associação
Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação) em 2013, lançou uma nota
técnica justificando a seguinte questão: “POR QUE A UNIÃO DEVE
COMPLEMENTAR O CAQi NO PNE?” (BRASIL, 2014, p. 21). Desse modo, a
associação traz a seguinte reflexão:
A pequena participação da União no financiamento das políticas
públicas de educação, especialmente na educação básica, é tema
antigo do federalismo brasileiro e obstáculo central à consagração do
direito à educação [...]o ente federado que mais arrecada, possuidor
de mais da metade da receita tributária líquida, é aquele que menos
contribui com a educação. (FINEDUCA, 2013, p.2)

Mediante esse episódio, observamos a falta de compromisso pela educação


por parte do poder executivo, em especial o Governo Federal e o Senado, na qual
retirou do texto a estratégia que propunha a complementação da União com os custos
do CAQi e QAQ. Porém, as discussões em prol da continuação dessa estratégia na
qual envolveram diversas entidades ligadas a educação, fez com que fosse mantida
a proposta inicial do texto base da Câmara Federal. E assim, a estratégia 20.10 foi
mantida.
Durante a discussão da Meta 4 (Educação Especial), alguns atores defendiam
que fosse retirada do texto em relação ao atendimento educacional especializado a
expressão “preferencialmente na rede pública”, termo este adotado na atual
LDB/9394/96. Dentre esses atores, alguns defendiam a educação inclusiva na rede
pública, já outros defendiam um atendimento especializado. Entretanto, após essa
polêmica a expressão foi mantida no texto. (BRASIL, 2014, p.22)
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS: DESAFIOS
A aprovação do segundo Plano Nacional de Educação foi um marco importante
para a educação brasileira, no qual: “aprovado por lei representa uma vitória da
sociedade brasileira, porque legitimou o investimento de 10% do PIB em educação e
adotou o custo-aluno-qualidade.” (BRASIL, 2014, p. 23). De tal modo, é notório nos
últimos anos o avanço das políticas públicas relacionadas a educação. A aprovação
do PNE 2014/2024 é o reflexo desse avanço. Todavia, sabemos que no nosso país o
investimento em educação nunca foi prioridade do governo.
Esse plano que está em vigor, possui muitos desafios que requerem um
compromisso de todos os sujeitos envolvidos nesse processo para que se cumpra as
metas estabelecidas. Desse modo, “O maior desafio refere-se ao papel que a
Constituição atribuiu ao PNE: articular o sistema nacional de educação.” (BRASIL,
2014, p. 23). Esse desafio requer a cooperação da União, estados, Distrito Federal, e
municípios para o acompanhamento da execução do plano e o cumprimento das
metas por meio das estratégias.

Referências:

BRASIL. Constituição Federal de 1988. Promulgada em 5 de outubro de 1988.


Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm#art214. acesso em
18 de nov. 2017.

BRASIL, Lei 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação


– PNE e dá outras providências. Disponível em:
http://www.observatoriodopne.org.br/uploads/reference/file/439/documento-
referencia.pdf acesso em 10 de out. 2017.

FINEDUCA. Porque a União deve complementar o CAQi No PNE. Associação


Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação. Disponível em:
http://www.redefinanciamento.ufpr.br/nota1_13.pdf acesso em 22 de out. 2017.