Você está na página 1de 58

RA

SC
U NH
O
RA
SC
UN
HO
Entre Contos do Rio
Todos os direitos estão reservados e protegidos por Lei. Nenhuma
parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da ******,
poderá ser reproduzida ou transmitida. A violação dos Direitos
Autorais é crime estabelecido na Lei n°9.610/98 e com punição de
acordo com o artigo 184 do Código Penal.
O

O
ISBN: **************
H

H
Realização
Instituto Ekloos
UN

UN
Produção Executiva
**********
Diagramação
Amanda Pereira
SC

SC
Ilustração
Nathália Závoli
Capa
Nathália Závoli
RA

RA
Revisão
*********
Parceria
Imprensa Oficial
***************
Introdução
Nulpa sinctem ut odis ipiti consequiatur magnatem quas eostest iamus, simint, assit re ipsum fugitia aboruptiamus quam utem dit aut ut elecatus est facitatem-
ommod ellaborios re nos iusaniatecae doloreste et asin necaepudisto in nos secus por solor adis volupti nvelenis eos ea quam exped que pelignimus ducimen imen-
molo occaestia comnis adis ellantis et odit magnihi cimaior epudio cus. tiumquo moloriandis nusa nosapic imodioriat pratum restem quam qui quam dunt
Ita que consenduntor am eum nonsenis et volorae riassintiam, cuptat aute min ped essit volecus, simusandam facestrunt porem fugiam qui cus aut latecae
consequ iatur, sunt molorum aut aditia nis autem resciis mi, consequis aperum pturia natur,Ovitate nobit a sitinve raturep repraecae sitiores doluptam voluptae
iuscil inctusam, et odis et quosaecus explabo ribus. iniamus dus re, odipiendae volorepedis doloreperum sinctorro eictect orporum,
Dit, quo conseque non cum, expla non elenia dolorpore niat. sumeturit id quatet eaturiatur ad eiustias enduci occus dolo diorrori dolupta ture-
Parum inctur mos et volorror sapis quatur rat ant. reribus places solenihil excerum et od ut eveliqui dolupta sperchi llacest, quatur,
Enditas pedisit aut libusantemo volorporere pratecto que evelendaes et adis que natae res as dessimenihit mod quae opta sequae conectu riatio. Nam autes
apisquas periaes et modiscid quate nist quam, saesci doluptatet, endellant aut aliti blaborem doloriae. Luptas dunt earum sunde repta que evenitiost la volupta
omnis moluptatum iliqui to quiasperat. dolum ut ma nonem rat venissin ea doluptas ut omnis doluptibus, sim que aut
Caeribus diciusa ndamentiunt utae doloraepudit min perum rem ut aut volup- rerspidebis magnam aciur, none volesci aut et pos parume necate exerror rovitium
tate ea nobis sae ped mi, natio. Faccatiurit pro omnimodia quo disto demquos natas velentument poribus name verspic idebis eum as imolora cuptam facea-
doloribea ipsam, ut rerovidebis et dolorio rumquidebit labor mo tem veniae offic- quam am nitatio quunt porae peris et qui accaes reiuntibus doluptatint alicita con
tatus ium doluptas nobit exceriore pliquis dolendi pitassime dolupta volo tenihi- estrupis aut vellores expedit, quos exces aditassit volorib ustiur?
lis re mi, experibus eius utem fuga. Agnis rerumquias is ut dic to tet hicipsam Mus sit, cone estrum simusciet eium del inimus consequia is doluptatem quam
qui sam volupta tiunte rem nonem doluptur, santo bla volo comniae. Ut as diae. volestruptas dolorum facearum aut as vit optataquam lam dolupta teceaturem sit
Igendit et magnis esed et voluptatios aces cum id eatis elignih itatiam fuga. Unt optaerferem excearum volenturem consenis exerum eture coribus rest apel is ad
quid eossum re volecatur mo voloreped unt, ima quis res maximi, qui sumquo ma volores digenim usdam, od que prae incimus.
omnis aut etus, qui debitassinci nat. Ut aut eos unt venes pedisi to explibusam, cus sequo dit pro inis eatur rem-
Nulla nis serate eum il id modigen istibea quae voluptus doluptat ipsam eum poruntiis molorem in corestr uptatur sunt, solluptas ad ut porem re volorepel ex
nobisqui ad et que dictotatur, volessunt que illaborio. Aruptas aut et, nullab is volo- eum fugitaquae nimillo riamendero quatis modis duntem. Sam facerferiam, asit,
rerum cum ipsum re voluptatur, cus int ipsam sumquod eossit optasi accusdaes ommolup taquibus.
dolenient fugias apitae et pre, nesti doloribus sintibus et renihic totat que que etur, Isit dolestium que repellaborro molupta taectatemque parum quam, vente veli-
volo et, cupta atatiumquam si cus reic te eum qui doluptat abo. Nemquamus inum quae erciatqui cum et quodipi dunduciatur, ommoluptam eatemporum .
4 5
Sumário
O

HO
H
UN

UN
SC

SC
10 A Estrela Solitária
SERGIO PORTO 36 Porto Maravilha
VERA KAEL 62 Sonhos de Clarissa
GIOVANNA GHIRARDI LOPEZ 92 Enigma Gigante
MÁRCIA COSTA
Um Mineiro na
14 Corcovado
42 Presente de Natal
66 Cidade Maravilhosa 96 Sangue na Maré
RA

RA
NICE NEVES BUTTA ANA PRADO ARLENE COSTA
ANGELICA DE OLIVEIRA PASSOS
20 Escombro
SERGIO BERNARDO 46 Rio de Janeiro
TÂNIA MARIA RODRIGUES 72 Um Passeio Inesquecível
JULIANA PERAZZINI DE SÁ 100 Tibum
LÚCIA HELENA RAMOS
Um Ticuju na
26 Memórias Assombradas
THAMIRES F. BONIFÁCIO 50 Sinal Fechado
JOSELÉA GALVÃO ORNELLAS 78 Uma Menina Chamada Dora
DANIELA TOULIN 106 Cidade Maravilhosa
JOSELÉA GALVÃO ORNELLAS
32 No Banco do Posto Seis
LUÍSA AVANCI LAVAL 56 Sobras da Lapa
LUISA BENEVIDES VALLE 84 Volta
CILENE ALVES DE OLIVEIRA
O

HO
H
UN

UN
SC

SC
RA

RA
Contos vencedores
corcovado
NICE NEVES BUTTA
CORCOVADO
A ntes que o despertador tocasse, ela acordou. A alma estava cansada. Não abria
mão do coar o café cujo aroma invadiu a pequena casa com três cômodos. O
céu avermelhado prometia um lindo dia de sol.
Foi até a cama que dividia com o filho e o acariciou. O uniforme estava no cabide.
O velho calçado perfeitamente engraxado. O lanche na geladeira. Pedro estava
contando os minutos para o dia do passeio da escola que finalmente chegou. Iriam
ao Cristo Redentor.
De onde morava, no alto de um morro da Pavuna, podia ver lá no horizonte
o Corcovado. Um dia, quem sabe, iria até lá. Mas o ingresso era tão caro e havia
tantas coisas a fazer... Consertar o chuveiro, por exemplo. O filho estava realizando
seu sonho, e isso a deixava feliz.
Fez mil recomendações ao filho. Que ficasse colado com a professora, não falasse
com estranhos nem encostasse na beirada. Afinal de contas, eram tantas crianças.
Seria bonito ver o Rio lá de cima. O azul do céu e do mar juntos numa só pintura. Um
Cristo de braços abertos, testemunha das alegrias e tristezas da Cidade Maravilhosa.
Saiu cedo a fim de recolher as garrafas pet do bairro. Na verdade, recolhia o que
aparecesse como, por exemplo, papelão ou latinha para complementar a pensão
que recebia. Outro dia, encontrou um cartão postal justamente do Cristo Redentor
junto com os livros didáticos que estavam na sacola.
Os livros passaram a ficar na mesa, ao lado da televisão, e o cartão postal ao
lado da imagem de Nossa Senhora de Aparecida, da qual era devota. Com fé, pediu
à Santa que olhasse pelas crianças e que pudessem retornar sãs e salvas. Tinha
medo de bala perdida. Olhou o cartão postal e o coração sossegou.
Naquele dia, sua imaginação voou feito um passarinho recém-liberto. Quis
ganhar o mundo, bater as asas sem fim. Como se plainasse lá de cima do Corcovado
em um balé solitário em forma de asas.
À noite, cansados pelo passeio e trabalho, deitaram na cama para dormir. Pedro
relatou, novamente, em detalhes cada momento daquele dia. A vista maravilhosa.
Será que, de binóculo dava pra ver a casa deles lá de longe? A mãe ouvia encantada.
Pedro abraçou a mãe e disse:
-Mãe, obrigado por me deixar ir ao passeio. Eu adorei ver o Cristo lá de cima.
Com uma lágrima que teimava corajosamente em cair, Maria do Socorro da
Silva sussurrou no seu ouvido:
-Obrigada, meu filho. Eu vi o Cristo através do teu olhar.
E dormiram felizes com a alma dos passarinhos.
12
escombros
SERGIO BERNARDO
SERGIO BERNARDO
— Saio, não, Inácia.
Com essa decisão verbalizada, pernas magras se arrastando pelas lajotas
seculares, a velha vai abrir o baú.
— Leve esses dobrões e venda – ela estende uma sacola de feltro. — Alugue um
quartinho e vá comendo até chegar a sua hora. Eu fico.
A negra Inácia calada, o ouro reluzindo entre os panos da trouxa, dá a derradeira
espiada no aposento e no rosto da patroa. A lágrima única escapa do choro que
brota ao contrário: escorre por dentro.
“Diabo de velha teimosa”, pensa, porque a inconformidade não tem coragem de
sair pela boca. Sai depressa e fecha a pesada porta, como pondo um ponto final em
80 anos de sua vida.
Laura de Sá fez 92 anos, idade mais que suficiente para, digna e resoluta, apenas
olhar pelo janelão a ex-escrava Inácia descendo a ladeira ao lado de uma gente
pobre, à frente de bestas de carga e carroças que levam móveis e utensílios. É o
último grupo de moradores — os mais resistentes — a ser retirado. Após o meio-dia
subirá a guarda para a inspeção final.
De novo debruçada sobre o baú, apanha a espada. Passados três séculos e
meio, ainda brilha e assusta a lâmina que trespassara índios e flibusteiros na
conquista da Baía de Guanabara. Agora a relíquia sumirá com ela e tudo em volta.
“Não te respeitaram, guerreiro, e muito menos a História...” – rumina enquanto
vai polindo o metal. “Corja de inescrupulosos... bando de sacrílegos... canalhas!”
De uns tempos pra cá, deu de maldizer assim, amarga. “Bom que chegue o fim.”
Na cristaleira, junto à jarra branca de porcelana, repousam os tantos mil-réis
com os quais comprará o silêncio do soldado em vistoria no casarão. Na trempe,
a sopa ainda está fumegando. Estranhíssima a iminência da última refeição.
Lembra os condenados à morte: “Comer para quê? Para que, ainda por cima, um
último desejo?” Nega-se o prato quente de misericórdia que a velha Inácia deixou
pronto minutos antes de partir. E um último desejo, pudesse ter, seria ver o prefeito
Carlos Sampaio cozinhando nas chamas do inferno.
Espreguiçando-se, de repente a gata sai de trás do fogão, pula para o colo da
velha, que sentou à cabeceira da grande mesa onde depositou a espada. O pelo é
macio e limpo. Ela o afaga por um tempo que será quase todo o restante da sua
vida, e a bichana dorme.
17
ESCOMBROS SERGIO BERNARDO
— Tem alguém aí? – a porta se move nas dobradiças gastas. — Ei, senhora, MORRO DO CASTELO É NECESSÁRIA A FIM DE DEIXAR MAIS FRESCO O AR NAS
não foi com os outros?! É preciso que venha comigo já! Barbaridade a terem ÁREAS CENTRAIS”.
abandonado.. Já cercaram todo o morro com dinamite. Eu ajudo, venha... No sopé um soldado com uma gata ao colo se recusa à primeira detonação. Mas
— Saio, não, meu filho – ela se ergue, os olhos dela mostrando-se duros. — Aqui ela acontece...
nasci, aqui nasceram meus pais e avós, aqui meu tataravô assentou a primeira A explosão estoura os tímpanos de Laura. Tudo em torno vira uma nuvem de
povoação desta cidade do Rio de Janeiro, consagrada a São Sebastião... fumaça, o chão de lajotas engole seus pés, na cabeça pisca a última indignação:
Benze-se. “Alguém vai achar a espada nos escombros...”
— A casa tem quase trezentos anos, a igreja ali em cima é ainda mais antiga...
Se vai abaixo o Morro do Castelo, acabando com a memória dos de Sá, escolho
morrer junto. Ademais, tenho idade, filho, e a vida lá embaixo não é para mim.
Pegue esse dinheiro que está aí na cristaleira. É bastante. Diga que na revista
final não viu ninguém.
Ele ameaça um passo, indeciso se a pega à força ou não.
— Não! Fique aí! Essa espada que pertenceu a Estácio de Sá tem ainda um fio
capaz de lhe cortar o pescoço...
Com um golpe preciso (talvez nascido da vontade férrea e da herança do
sangue guerreiro) a velha corta no ar linguiças penduradas sobre as trempes,
provando ter réstia de força para sangrar um homem.
— Essa gata sobre a cadeira, leve-a junto.
O guarda pensa mais um instante. Muito breve. “Meu soldo é um nadinha. Ela
que quer morrer...” Vem e abraça o bicho, mete os mil-réis na algibeira.
— Bruxa louca! – xinga e sai, trancando a porta a chave, conforme o capitão
instruiu como sinal da vistoria feita.
A velha permanece no lugar, triste, não por ela, que nada tinha contra a vida
até o fiscal da prefeitura ter vindo há alguns meses com a ordem de despejo.
Triste, e muito, por saber o Morro do Castelo prestes a ser demolido, sepultando
um rosário de lendas e memórias, diversas construções históricas e relíquias
como a espada que foi do fundador da capital da república, neste ano da graça
de 1922.
Do janelão assiste à debandada dos soldados. Ao longe, olha o Morro Cara de
Cão, que dizem ser o verdadeiro marco da fundação do Rio de Janeiro.
“Qual o quê!” – ironiza para consigo. “Vosmicê aí, intocável, debochando dessa
pedra de cá, condenada...” O pensamento é senil e a velha até sorri...
Milhares de segundos e ela no mesmo lugar, mirando a paisagem, que não
endossa a justificativa do prefeito, publicada nos jornais: “A DEMOLIÇÃO DO
18
estrela
solitária
SERGIO PORTO
ESTRELA SOLITÁRIA SERGIO PORTO
A cordou e começou a arrumar a casa. Vivia sozinha no Rio de Janeiro, no mesmo
apartamento em Botafogo de seu duradouro casamento, desde que enviuvou
de Guilherme. A filha morava no interior de São Paulo e lhe dera duas netas, que

Preparava tudo com cuidado, deixando o quarto de hóspedes pronto para recebê-las
com nova pintura, novas colchas e lençóis.
Foi receber as netas no aeroporto Santos Dumont: Giovana e Luisa, duas belas
ela ajudou a cuidar no primeiro ano de cada uma. Mas retornava sempre para casa moreninhas de 10 e 15 anos, respectivamente.
e ficava à distância curtindo o crescimento das duas. As visitas eram esporádicas O primeiro passeio foi na proximidade do bairro, pegaram as bicicletas de
e sempre dela, pois a filha médica estava comprometida ora com sua agenda de aluguel na Estação Voluntários da Pátria. “Vó, você também ainda anda de bike?”
consultas e urgências, ora com as aulas na Faculdade de Medicina da Universidade “Claro”, confirmou vó Regina, providenciando o aluguel de três bicicletas mediante
de São Paulo de Ribeirão Preto. o uso do cartão de débito. Dirigem-se com cuidado, atravessando as pistas, em
Desta vez, as netas viriam passar com ela um período para conhecer melhor direção à Ciclovia Mané Garrincha. Lá ela apressa-se em contar a história do mito
a cidade e irem aos Jogos Olímpicos, que se realizariam pela primeira vez na botafoguense, homenageado pelo apelido com que era conhecido o jogador das
América do Sul. Ela comprou ingressos pela internet para as provas de atletismo, pernas tortas que fazia a alegria das torcidas.
pois mostraria de uma só vez o incrível Usain Bolt e o estádio do seu glorioso Vão em direção à Urca. Quando passam, quase 11 horas, pela curva do Morro da
Botafogo. E também para o Maria Lenk, nas provas de nado sincronizado. De Viúva, face norte do Pão de Açúcar, ela comanda uma parada.
Olimpíada presencial era o bastante. No mais seria explorar a Cidade Maravilhosa. – O que foi, vó? Cansou?
ESTRELA SOLITÁRIA SERGIO PORTO
– Quero lhes mostrar uma coisa. Olhem para aquele paredão. – diz, apontando No dia seguinte, de manhã, rumam as três para a estação da Praia Vermelha, na
para o Pão de Açúcar. – O que estão vendo naquela sombra? Urca. Giovana acordou muito cedo e desde logo, excitadíssima, chama as duas que
– Parece um pássaro! – diz Giovana rapidamente. se levantavam preguiçosamente, pois queria pegar o primeiro bondinho, às 8h10.
– Um pássaro com pescoço esticado pra cima. – completa Luísa. Chegaram cedo, mas nem tanto quanto ela queria. E com tantos turistas pela cidade
– Esse pássaro é igual a uma íbis, pássaro que não temos aqui, mas era comum e sendo esse um dos pontos turísticos mais requisitados, o cartão postal carioca, a
no Antigo Egito, tido como um pássaro sagrado. E na mitologia egípcia há uma fila está enorme. Precisarão de muita paciência, embora o primeiro trajeto de 538m
imagem de um gigante, representando a humanidade, deitado, tendo aos pés, seja percorrido em 6 minutos, levando de cada vez 65 pessoas no bondinho, é muita
acorrentada, a íbis. Acontece que o montanhoso relevo carioca visto do oceano gente esperando. Com o público das Olimpíadas a procura foi exponencial.
apresenta-se como a silhueta de um gigante deitado, onde a cabeça é a Pedra da Muita demora na fila, as meninas começam a ficar impacientes. E a reclamar!
Gávea, o tronco é o Maciço da Tijuca (e falando baixinho com um sorriso maroto e Vó Regina então dispara:
com as mãos postas como que em oração) em que o Corcovado indica o gênero... – Vocês sabem o porquê do nome de Pão de Açúcar? Continua: E o nome do
– Vó!!!, exclamam em coro, rindo, as netas. primeiro morro onde vamos chegar?
– E, continua a Vó Regina, o pé é o Pão de Açúcar. Então diz a lenda que muito – O morro é Cara de Cão e foi entre ele e o Pão de Açúcar que Estácio de Sá
antes do nascimento de Cristo os egípcios estiveram por aqui, viram essa imagem lançou o que seria o fundamento da cidade, pois oferecia mais segurança tanto
e voltaram com essa versão mitológica. Já pensaram? Muito antes de vocês o Rio pela posição que lhes permitia ter uma visão privilegiada de embarcações que se
recebeu os primeiros turistas! aproximavam da entrada da baía de Guanabara, quanto pela situação favorável
– Vó, você sabe cada história... Vamos amanhã ao Pão de Açúcar? para se defender de invasores.
– Vamos, vamos! – grita Giovana. – E o nome do Pão de Açúcar? – pergunta a esperta e atenta Giovana.
– Os portugueses plantavam a cana açúcar que era espremida, o caldo
fervido e apuravam blocos de açúcar, colocados em uma forma de barro
cônica a que chamavam de pão-de-açúcar e que assim eram levados para a
Europa. Ora, como a rapadura tinha a mesma cor e formato da pedra acabou
dando-lhe o nome.
– Interessante!
– Vó, você tá parecendo minha professora de História! – falou Luísa, num muxoxo.
– Então vou lhes contar uma história que não está nos livros, uma história da vida:
“Era muito cedo. Eles estavam absortos, cruzaram-se na Rua Marquês de Abrantes
sem se notarem e sem saberem que tinham o mesmo destino. Ele, solitário convicto,
subiria o paredão sul do Pão de Açúcar pra pregar uns grampos que facilitariam a
escalada dos montanhistas do CMRJ. Ela foi de bondinho. Fila e mais fila. Demora nas
duas estações, pois, na época, os bondinhos tinham menor capacidade e eram mais
lentos. Porém, nada a importunava. No alto, subiu na amurada num ponto menos
procurado, lado do oceano. Gui emergiu na pedra. Olharam-se. Sorriram...”
– Vô Gui?!?! Abraçaram-se com a avó...E foram assim abraçadas, sem reclamar,
até chegar sua vez...
25
memórias
assombradas
THAMIRES F. BONIFÁCIO
THAMIRES F. BONIFÁCIO
P ouco me lembro dos detalhes daquele dia. Era um dia comum dos anos de
1984, eu ainda morava em Marechal Hermes e trabalhava como diarista num
apartamento na Penha. Era de costume seu Aldo, apelido carinhoso para seu
Josoaldo, o porteiro e zelador mais querido do Edifício São Marques, ir comigo
para o trabalho.
Eram cinco horas da manhã e ele me esperava pontualmente na estação
de trem, mas ele estava diferente. Cansado, com respiração ofegante e os olhos
avermelhados. – O senhor voltou a beber? – Perguntei tentando acabar com a
tensão. Ele não me respondeu, virou-se e saiu andando.
Na época eu tinha ouvido dizer que ele tinha voltado a beber, fora expulso de
casa e que iria voltar a morar no edifício, mas na realidade aquele não era
o problema. Aldo estava metido numa tal seita que não me recordo o nome e da
qual ele participava em reuniões secretas, realizando estudos de livros, traduções
e ritos de conjuração ao demônio.
Fiquei meio receosa quando ele me contou isso, na verdade nem acreditei de
primeira, mas não demorou muito para eu perceber que se tratava de um pedido de
socorro e, quando percebi, coisas estranhas começaram a acontecer. Nos primeiros
dias após Aldo ter voltado de férias, ele começou a demonstrar sintomas de
palpitação, mas ele dizia que não era nada, depois esse quadro avançou para
desmaios e ele continuava a afirmar que não havia nada.
No dia seguinte eu o vi diante do espelho no banheiro de funcionários,
estava bastante pálido e com os lábios roxos. Decidi me aproximar, pus a mão
em seu ombro e ao olhar para o espelho tive a sensação de ter tido contato
com o demônio. Os olhos do homem ficaram completamente negros, seu rosto
enrijeceu e sua boca ressecou.
Fiquei extasiada, olhando hipnoticamente para a feição tão monstruosa,
quando sonoramente como uma música a figura soltou uma voz rouca as seguintes
palavras “- Eu sou a morte, vim buscá-lo! Não acreditas no demônio? Pois ele está
agora diante de ti, maldita!”
Com as pernas bambas andei devagar sem perder de vista tal figura que
continuava parada de forma estática com as mãos sobre a pia. Ao encostar as mãos
na maçaneta, abri a porta com força e corri pelo corredor sem olhar para trás. Subi
as escadas e só parei quando estava no décimo terceiro andar.
O lugar estava escuro e no momento eu só ouvia os sons da minha respiração,
o coração continuava acelerado e a boca não tardou a ficar seca, a sede naquele
29
momento era inevitável. Sentei-me para acalmar, abaixei a cabeça e passei os caso de amarração, feitiçaria ou algo do gênero. Era a mais alta magia, aquilo ao
dedos pela raiz do cabelo, massageando o couro pouco a pouco. lado dele era a morte de carne e osso, que veio pessoalmente amaldiçoar, destruir
Repentinamente, ouvi o estalo de passos na escada que se tornavam cada vez mais e ceifar a vida de meu amigo e só havia uma solução para acabar com aquilo.
fortes. Levantei-me assustada e, num olhar rápido do alto da escada caracol nada vi, Decidi lutar, era a vida de um grande amigo que estava em jogo. Já era noite, fui
a minha visão estava turva e perturbada pela ilusão de óptica causada pelo formato até o cemitério como a cartomante orientou, demorei a achar o jazigo do qual ela
confuso da escadaria. me falou, o que estava marcado com sangue. Ela não falhou, de fato alguém havia
Subi mais alguns degraus, ainda entontecida. Então veio o susto maldito! Lá feito tal barbaridade. Ao me aproximar encontrei a foto de Aldo sob uma caveira
estava ele, parado, ferindo-me com seus olhos negros cor de piche. Com as poucas com uma cruz fincada no centro e de cabeça para baixo, joguei gasolina sobre os
forças que me restavam, o peguei pelos braços e, de forma ágil, consegui jogá-lo objetos e queimei rezando o Pai Nosso.
escada abaixo, ele rolou a escadaria e só parou na entrada do edifício. Encontrava-se Voltei à casa, tomei aquele banho de sal grosso e fui relaxar feliz por ter
desacordado. A Polícia e a Emergência foram chamadas, não tive que prestar ajudado meu amigo.. Para minha surpresa, na manhã seguinte após o ocorrido,
esclarecimentos e o caso foi interpretado como legítima defesa. lá estava Aldo pontualmente me aguardando na estação de trem. Após ter me
Na volta pra casa, deparei-me com um anúncio pintado à mão em um muro, deixado falando sozinha, quer dizer, aquela coisa que estava com ele esbravejou
nele estava escrito “Mãe Dinah: joga-se tarô, búzios e cartas. Resolvo problemas e, dando saltos animalescos começou a dar socos no ar até que finalmente o
de amores, vícios e perturbações”. Era o que eu precisava! Imediatamente liguei arremessou. Agora só me recordo do trilho rangendo, das pessoas gritando e do
e marquei a consulta. sorriso largo do homem de terno preto com feições nítidas de prazer na morte
A consulta demorou vinte e cinco minutos e foi suficiente para resolver meu olhando para mim.
problema. A cartomante informou-me que aquilo que nós tratávamos não era um
30 31
no banco do
posto seis
LUÍSA AVANCI LAVAL
LUÍSA AVANCI LAVAL
L á está Roberto, sentado, conversando com seu melhor amigo, como de costume.
Desde 2002, ele visita o amigo todos os dias, faça chuva, faça sol, terremoto ou
enchente, exatamente às 9 em ponto, pois sabe que gosta muito de sua companhia,
mas não pode pessoalmente encontrá-lo: perdeu a capacidade de andar. Portanto,
Roberto sempre desce no ponto de ônibus do Posto 6, vestindo seu terno de
executivo, e vai ao encontro do colega para contar-lhe as novidades do mundo,
boas e ruins, e também umas linhas que, volta e meia, escreve para pedir conselho
além de fazê-lo passar uns momentos agradáveis.
Hoje não é diferente, e Roberto senta-se ao lado de seu amigo para debater os
assuntos do dia: corrupção, violência e poesia, tudo ao mesmo tempo!
— Sabe, a política no Brasil está cada vez pior! Não se salva um político naquela
Brasília! A gente vê cada coisa nos jornais!
Silêncio como resposta. Roberto o interpretou como um gesto de afirmação pen-
sativa. Já está acostumado: o amigo nunca foi de falar muito, prefere ficar na dele.
— Tenho saudade dos velhos tempos, em que podíamos sentar aqui e contemplar
este mar sem medo da violência, de ladrão, de drogado, de polícia! Lembra como era, né?
Outra vez silêncio.
— Cara, eu sei que já falei isso, mas vou repetir: sempre te admirei por saber
escutar as pessoas e refletir. O mundo precisa disso! Hoje em dia o povo só quer
saber de teclar no celular, acompanhar tudo ao vivo, tirar foto do prato de comida...
Enquanto Roberto desabafa com o amigo, algumas pessoas param para observar
a dupla, e alguns não conseguem se conter e começam a gravar o diálogo.
— Viu, só? Nem a gente tem privacidade para bater um papo bom de amigo! Pelo
menos, deve estar interessante, já que tanta gente grava isso!
Já se passaram 15 minutos. Roberto tem que ir para o trabalho e não pode se
atrasar. Levantando-se e se dirigindo para a parada novamente, ele se despede:
— Falou, Carlinhos! Até amanhã! Se cuida, hein? Não vai perder seus óculos de
novo! Até!
Roberto vai embora, sorridente após a conversa boa que teve com o amigo. Mal
pode esperar para encontrá-lo novamente e contar as boas de seu trabalho.
Agora que o diálogo terminou, as pessoas que observavam a cena também vão
embora, continuando suas vidas normais e rotineiras e, lógico, quem gravou já
mandou o vídeo de Roberto e Carlinhos para todos os seus grupos de amigos.
Mais uma vez, Carlos está só. A única companhia que lhe resta agora é a frase
que está escrita ao seu lado: “No mar estava escrita uma cidade”.
35
maravilha
VENERA KAEL
PORTO MARAVILHA VENERA KAEL
P raça Mauá, sexta-feira de feriado com sol leve e vento fresco. Tinha poucas pessoas O senhor apavorou-se e todos se afastaram dele como se fosse portador
presentes entre os museus do Amanhã e o MAR. Um senhor de meia-idade com de uma doença contagiosa e mortal. Porém, com o nervosismo balançou
um tamborim na mão, uma jovem mãe com seu filho de quatro anos e três turistas mais e mais o tamborim.
franceses, duas mulheres e um homem. Um cheiro forte de podre começou a pre- O esqueleto caminhou em ziguezague, lentamente arrastando a bacia e ficou
encher todos os lugares da praça. Através do olfato, as janelas das memórias dos em silêncio diante do senhor. Muito nervoso e autômato, tocou o tamborim em
transeuntes abriram, pois pensaram quando sentiram aquele cheiro pela última vez. ritmo lento, suave e sem solavancos. O esqueleto vibrou seus ossos saindo deles
Os turistas tamparam os narizes. Os outros fizeram cara feia e falaram mal do governo sons de várias baleias.
carioca. O dia era bonito, mas a Baía de Guanabara era coberta por águas tristes, turvas e Todos observaram absortos diante do sobrenatural
escuras. A opacidade da água era o espelho de uma urbanização desenfreada e caótica. em silêncio, mas as mentes em processo acele-
De repente, do meio do nada surgiu um esqueleto humano de 33 vértebras, rado e repetitivo fizeram a mesma pergunta. O
quadril e cóccix de 8 metros de altura no meio da Praça. Caminhou se arrastando que está acontecendo? Seria sonho coletivo?
pelo chão, mas não era uma cobra. Seu cântico era como o canto das baleias, De fato, ninguém soube a resposta. A única
mas na percepção humana era um choro pavoroso. certeza era de terem visto com os próprios
Todos ali presentes se assustaram. Os três franceses gritaram “Mon Dieu! olhos algo novo, diferente, exuberante e
Mon Dieu!! Mon Dieu!!” A mãe segurou o filho no colo com firmeza e começou a medonho no centro da cidade.
rezar. O senhor ficou paralisado com as mãos trêmulas segurando o tamborim. Todos ali eram compostos de uma
As testemunhas daquela manhã especial se juntaram em frente ao Museu do vida ordinária e testemunharam um
Amanhã e olharam fixamente para o esqueleto de grande escala. momento inacreditável. Como
Ele moveu-se somente em forma circular com muita lerdeza, os ossos pesados consequência, foram preenchidos
emitiram sons de baleias e entre as vértebras escorreu um líquido viscoso rosado de fantasia, imaginação, fábula,
que marcou no chão o seu movimento. invenção e utopia. Ao fundo, uma
Chegaram mais pessoas em desespero perguntando de onde tinha vindo aquilo. música incidental surgiu com-
A criança apontou o dedinho para o céu, os franceses tiraram fotos e filmaram em posta de barulho das sirenes da
suas câmeras a enorme estrutura óssea. A canção era intensa, oca e contínua. A policia e helicópteros da defesa
pisada de cada vértebra fez o solo tremer. O vento leve propagou a música civil sobrevoaram a Praça.
insólita em repetidos ecos e o cheiro desagradável se desvaneceu. O esqueleto se agitou muito
Todos tentaram adivinhar que animal ou coisa era aquilo com afirmações e rastejou em forma de espiral
histéricas. É um ET! É um animal marinho desconhecido! É um ser vivo que em direção à Baía de Guanabara
sofreu uma mutação genética! ao lado do Museu do Amanhã.
A jovem mãe começou a chorar com seu filho nos braços e ainda afirmou que Parou por três segundos e mergu-
aquele era seu último momento, pois o fim dos tempos chegara. O senhor muito lhou, deixando apenas seu líquido
nervoso deixou o tamborim cair no chão. no chão. Todos correram para vê-lo
O esqueleto parou e as sonoridades das vértebras ficaram mais espaçadas. imergir, mas não encontraram nada.
Quando pegou o tamborim no chão, o balanço fez um som seco que chamou a Havia apenas o lixo flutuante sobre
atenção do esqueleto para sua direção. as águas negrumes a exibir somente
38
PORTO MARAVILHA
sombras borradas das pessoas no espelho d´agua. Logo após, o
cheiro pútrido voltou.
O senhor continuou hipnotizado com tudo que vira e a
mãe beijou o filho no rosto muitas vezes, clamando que o
demônio partiu para sempre. Já os três turistas franceses
tiraram mais e mais fotos e postaram no Facebook a mara-
vilha da viagem. Os demais resmungaram especulando que
animal seria aquele, quanto ganhariam caso o capturassem,
as glórias e desventuras de viver numa cidade delirante e se
sentiram importantes por terem avistado algo enigmático.
Um repórter chegou atrasado e entrevistou o senhor com
seu tamborim. Ainda muito nervoso, trocou o R pelo L, gague-
jou e contou histórias de seu avô, que foi pescador no Rio
Grande do Norte. Todos o cercaram, o que o fez sentir-se uma
pessoa importante naquele imenso mundo de 15 minutos. Os
franceses mostraram as fotos tiradas e tentaram falar algumas
palavras em português do tipo: “A cidade é maravilhosa!”
O repórter tinha uma cara decepcionada, pois sabia que
havia perdido a oportunidade de realizar uma grande matéria
exibicionista. Com as mãos trêmulas, falou no microfone
casos anteriores: dois turistas ingleses que encontraram uma
cobra na Praia de Copacabana em frente ao Hotel Copacabana
Palace e um jacaré nadando na Lagoa Rodrigo de Freitas, junto
com os remadores do Clube Botafogo. E ainda comparou o
espetáculo com o Monstro do Lago Ness, da Escócia. Porém,
aquele animal era diferente de tudo que já fora visto.
O único que ficou na beira da baía foi o senhor para dar
esclarecimentos, pois todos foram expulsos pela polícia. A
área sofreu isolamento durante 15 dias para análise do material
viscoso, que era a única prova da existência do enorme osso
branco. Mesmo assim, todos tinham na memória coletiva a
mesma pergunta que perdurou até o último dia de suas vidas:
o que era aquilo?
41
resente
de natal
ANA PRADO
ANA PRADO
Não se pode deixar de lembrar que dezembro é o mês em que começa o verão
oficialmente, mas, muito tempo antes a atmosfera da cidade já anuncia o que
vem pela frente. É quase impossível de se encontrarem temperaturas abaixo de
35 graus, salvo quando algumas frentes frias aparecem e os termômetros baixam
para em torno dos 30 graus.
Toda a atividade natalina acontece embaixo de um sol escaldante, o sol brilha no
céu até tarde. Apesar do calor, as decorações natalinas das lojas e prédios seguem a
tradição que veio do frio, neve feita de algodão pode ser vista à distância por toda a
cidade. A inventividade é tanta que este ano foi montado em um grande condomínio
na Barra da Tijuca, em frente à praia, uma decoração enorme do Papai Noel sentado
no trenó puxado por duas renas, sobre o portão de entrada principal do prédio. O
que mais me chamou a atenção foi a monumentalidade da homenagem: a escultura
era exageradamente grande. Pensei imediatamente que, diante daquela praia com o
calor escaldante, naquele vai-e-vem de férias e aquela multidão de biquíni e sunga,
que Papai Noel iria se distrair do seu rumo na distribuição de presentes.
Por um instante ri muito, e lembrei que uma querida amiga e artista que mora na
Noruega havia enviado pelo correio um presente de Natal, que deveria ter chegado
O s últimos quinze dias daquele ano de 2015 no Rio de Janeiro tiveram um sabor
diferente em relação aos anos anteriores. Como sempre, os preparativos para
o jantar dos dias 24 e 31 de dezembro foram a vedete, mas a compra dos presentinhos

antes das festividades. Imediatamente, meu pensamento se voltou para o coitado


do Papai Noel e para aquelas renas que não estavam acostumados ao calor carioca.
Não pude deixar de imaginar a possibilidade de que o lugar de onde vieram era
também teve seu espaço. Mesmo não sendo muito adepta do consumismo desta muito longe e que, ao chegarem em terras sul-americanas, precisavam se refrescar,
época, respeito o momento, e me divirto na aventura de escolher coisas simples fugindo do destino traçado naquele GPS da modernidade, que já sinalizava que,
para presentear alguns amigos e familiares. por aqui , não iriam encontrar neve.
Peço desculpas pela afirmação que vou fazer agora, mas não gosto dos produtos Então deduzi que a causa por não ter recebido meu presente que vinha do frio,
chineses ou coreanos. Tenho uma certa implicância com tudo o que eles vendem, foi realmente aquele cenário praiano no alto verão, em que o Papai Noel e suas
primeiro, porque, normalmente, são produtos descartáveis que não primam pela renas não tiveram condição de descer pela chaminé - até porque chaminé nesta
qualidade; segundo, porque cada centavo que gastamos com eles deixamos de cidade só se for para churrasco... Acho que as renas, desconfiadas, se desviaram
investir em um artesão brasileiro. do seu rumo, sabendo muito bem qual seria o destino Delas por aqui.
Sempre que posso, compro presentinhos em feira de artesanato, mas este ano Triste e decepcionada, vi que os meses se passavam e nada do presente chegar.
me aventurei na compra de um produto chinês, tanto por causa do preço quanto De vez em quando, até pedia aos céus para que nevasse. E foi assim que, em abril
pela praticidade do objeto, um porta-cartão de crédito. de 2016, mesmo sem neve, quando a temperatura se tornou mais agradável, Papai
Pode parecer uma coisa careta, mas os chineses são muito inventivos nas Noel e suas renas desceram pela chaminé e trouxeram meu lindo presente: um
estampas, e este foi o motivo que me atraiu. A diversidade de desenhos são enormes, calendário com desenhos e pinturas exclusivos para cada mês, criados por esta
listra de onça, zebra, pata de cachorro, flores, borboletas, símbolos psicodélicos entre artista que um dia me visitou.
outros. Tamanha era a variedade que pude comprar um de cada modelo.
44 45
TÂNIA MARIA RODRIGUES
TÂNIA MARIA RODRIGUES PETERS
Tento não pensar em você,
Tento imaginar que você já não existe, pelo menos nos meus pensamentos,
pois, se penso em você, minha alma deveria cantar, como diz a cancão, mas agora,
minha alma chora e não é fácil seguir sabendo que não estamos mais juntos.
Caso de amor? Sim, sim, sim!
O nosso é um caso de amor.
Meu amante latino e “caliente“ hahaha.
Rio, rio tanto quando estou com você, em você.
Rio, rio de lágrimas salgadas, rio de alegria de viver, pois você é vida, é sensação
de prazer.
Meu querido Rio de Janeiro, te amo mesmo não sendo carioca.
Sou uma paulistana apaixonada por você, que sempre te visitava nos fins de
semana, lembra-se de mim?
Lembra-se de quando eu nadava no seu mar de alegria?
Caminhava sonhadora pelas suas praias de areia fina e quente?
Você é um caso de amor bem resolvido, ouvido, vivido.
Rio, você é um sonho concreto, concreto no meio a um mar intenso.
Você é vida, é luta, é paz.
Começou o inverno aqui na Europa, faz muito frio lá fora, enquanto escrevo,
pela janela vejo a neve, e no mesmo momento recebo imagens suas, são amigos
cariocas que me mandam, isso faz o frio mais prazeroso, tomo um chocolate
quente enquanto eles tomam uma caipirinha.
É tudo tao distante e ao mesmo tempo tao próximo.
A tecnologia nos aproxima de forma surpreendente.
Mas nenhuma tecnologia pode me dar a sensação única de estar nas suas
praias, de sentir o calor das suas areias, de rir com os vendedores criativos que
de tudo fazem para vender suas cangas, chá gelado ou mesmo sombra, Rio de
criatividade, de originalidade.
Rio, que saudade!
Te amei no passado e te amo no presente, no futuro...sempre, sempre Rio!
Mesmo com um oceano nos separando.
Rio do meu passado, de minhas lembranças!
Te amo!
49
JOSELÉA GALVÃO ORNELLAS
SINAL FECHADO JOSÉLEA GALVÃO ORNELLAS
M anhã de outono! Um azul intenso, uma luz radiante e uma brisa suave invadem
o carro e a alma daquela mulher! No rádio, a velha música de Paulinho da
Viola, pouco a pouco, preenche todo o interior da sua alma e do carro. Que segue...

agora lado a lado, são obrigados a parar. Sinal Fechado. Era esse o nome daquela
canção! Ele acena, desce o vidro do carro e lhe oferece uma revista. Era escritor e
professor de literatura na cidade onde ela morava. Esticando-se sobre o banco do
Nem à direita, nem à esquerda, mas justo ali, na pista do meio. A pista central da carona, Helena desce o vidro da janela e recebe a revista. Na capa está o número de
longa e velha ponte que une aquelas duas cidades, tão próximas e tão distantes! Sem um celular escrito à mão e às pressas.
correria, mas também, sem lentidão ela segue adiante. Na velocidade certa para -“Quando é que você telefona”?
sorver toda a magia daquela manhã de outono iluminada. Segue, fazendo coro com - Precisamos nos ver por aí,
Paulinho naquela canção antiga e eterna sobre o reencontro casual de ex-amores - Pra semana, prometo talvez nos vejamos.
num sinal de trânsito.fechado. - Quem sabe...
-“Olá como vai? - Quanto tempo... Pois é...
- Eu vou indo, e você, tudo bem? - Quanto tempo...”
- Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro...E você? Sinal aberto. Helena acena para ele e dobra à direita em direção ao elevado que
- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo! conduz ao longo túnel que terá que atravessar. Ele segue em frente, naquela longa
- Quem sabe...” avenida em direção ao centro da cidade.
A luminosidade e a brisa suave daquela manhã a encantam e inebriam. Helena Bem depressa, ela volta ao CD de Paulinho da Viola para, mais uma vez, ouvir
deixa-se levar pelas lembranças de momentos felizes que a canção, pouco a pouco, aquela canção. E, uma vez mais, bem alto, quase aos berros, ela faz coro com
desperta em sua memória. Absorta, sequer percebe o carro emparelhado ao seu na Paulinho, cantando:
pista da direita. A buzina, ainda que sem estardalhaço, consegue sacudi-la. Ela olha -“Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas...
rapidamente para o lado e o vê. Ele a olha e acena. - Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança! ”
- O que ele estaria fazendo ali naquela manhã, na contramão do seu percurso E nessa cantoria ela segue, percorrendo o elevado e atravessando as duas
habitual, se eles seguiam sempre em direções opostas! Teria mudado de cidade? galerias do túnel em direção à zona sul da cidade. Naquele dia, sequer conseguira
Mudara-se para a “cidade sorriso”? Logo ele, que tanto se orgulhava de morar na extasiar-se com a paisagem deslumbrante da Lagoa como sempre acontecia
“cidade maravilhosa”? em suas idas para a Universidade, onde os alunos a esperavam para mais uma
Há anos não se encontravam sequer se viam, mas, ainda assim, ela reconhece aula de História da Arte. Era artista plástica, e como ele, professora universi-
aquele olhar. Intenso! Insinuante! Penetrante! Olhar que a invadia, desnudava a sua tária nessa cidade maravilhosa onde ele morava. Estaciona o carro no pátio
alma e despertava o seu corpo, seu desejo e seus sonhos de mulher. da Universidade e, bem depressa, pega a revista, confere o número do celular
Desce a pista em direção à zona sul do Rio de janeiro. Ele a segue. Na longa e passa os olhos rapidamente no título de alguns artigos publicados. Era uma
avenida que conduz ao Elevado Paulo de Frontin e ao túnel Rebouças, os dois carros, revista acadêmica de literatura, usada por ele, provavelmente, apenas para
SINAL FECHADO JOSÉLEA GALVÃO ORNELLAS
escrever e passar para ela o número do seu novo celular. O título do artigo “As artigo até o último parágrafo, onde a autora narra um fragmento da triste história
Máscaras da Mulher”, de imediato, despertam sua curiosidade. Mas, atendo-se do renomado escritor André Gide e sua esposa Madeleine:
inicialmente ao número do celular – não era mais o mesmo – deixa a artigo “Madeleine, esposa de André Gide, é uma verdadeira mulher em sua integridade
para ler mais tarde, com calma, quando terminassem as aulas daquela manhã. de mulher quando queima todas as cartas de amor que Gide havia lhe enviado. Ela
Durante o almoço, talvez! Costumava almoçar com os colegas, professores ou era prima e esposa de Gide, com quem mantinha um casamento branco. Ao des-
alunos, mas naquele dia decidira que iria sozinha a um restaurante um pouco cobrir a traição do marido numa de suas viagens, desesperada ela põe fogo nas
mais distante da universidade. cartas recebidas durante trinta anos, após lê-las, uma por uma... O homem que
Mais uma vez olha para o número do celular e pensa: ganhara o Prêmio Nobel dedicava à mulher amada, porém não desejada, o que ele
- Como seria bom ouvir aquela voz outra vez! declarava, abertamente, ser o melhor de sua obra. Madeleine planeja sua vingança,
- Não! Melhor não remexer nesse velho baú! acabando com o que Gide tinha de mais precioso: ela queima suas cartas, que para
- Melhor deixar como está! ele representavam sua alma, um filho, a alegria de viver. Em seu diário ele conta
- Quem sabe ligar de um telefone público, ouvir a voz dele e desligar? que estas eram as mais belas cartas de amor já escritas e que elas seriam o seu
- Não! Melhor deixar como está! legado destinado à posteridade. Elas eram únicas, não havia cópias. Queimada
Durante toda a manhã, sentira uma grande inquietação, mal conseguindo toda correspondência, Gide entra em processo melancólico que culmina com a
concentrar-se nas aulas que tão bem preparara. E pensar que no início da travessia morte de Madeleine. Gide não percebe que Madeleine faria tudo por seu amor,
da ponte sentia-se tão leve e serena! Todo aquele azul, aquela luz e aquele frescor, exceto ter que dividi-lo com alguém... E parafraseando o psicanalista francês,
onde foram parar? Perdera-se no meio do caminho. Perdera-se naquele olhar. Lacan, ela finaliza o artigo: ‘uma mulher não mede sacrifícios para o seu homem:
Naquela voz, que há tantos anos não mais escutava, mas que agora ecoava não há limites às concessões que cada uma faz para um homem: de seu corpo, de
incessante em sua memória. sua alma, de seus bens’... Mas a mulher precisa estar certa de que o homem a ama,
Como e por que, depois de tantos anos, ele ainda conseguia tirar-lhe a serenidade, de que ela é a mulher dele”.
deixando-a, assim, parada naquele sinal de trânsito fechado? E, num sussurro, Helena conclui: - E a única.
- Melhor telefonar e pronto! Quem sabe a voz já não é mais a mesma? Quem Fecha a revista. Paga a conta. Levanta-se. Sai à procura de uma lixeira. Rasga a
sabe suas palavras e sua retórica já não tenham mais qualquer efeito sobre mim?” revista em pedacinhos, caprichando nas páginas do artigo e da capa com o número
Pensa Helena. do celular. Joga todos os pedacinhos no lixo.
-“Quem sabe? Caminha lentamente de volta à Universidade.
- Quanto tempo! E sorvendo todo o azul e toda luz daquela
- Pois é...Quanto tempo!” deliciosa tarde de outono, segue, depu-
Término das aulas. Hora do almoço. Estancada diante de um telefone público, rando-se pelo caminho, sem máscara,
Helena não resiste. Disca o número do celular, deixa tocar uma única vez...Desliga. sem nada. Uma brisa fresca e suave
-“Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas... acaricia o seu rosto. Passada a
-Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança! limpo, segue em frente, e decidida
-Por favor, telefone – eu preciso beber alguma coisa rapidamente...” sussurra baixinho a última estrofe
Apressa-se na direção do restaurante, esquivando-se dos colegas. Recolhe-se daquela canção:
numa mesa escondida num canto da parede e pede a comida, que mal prova. Bem -“Adeus!
depressa, abre a revista e, bem devagar, degusta cada palavra, cada frase daquele - Adeus!”
54
LUISA BENEVIDES VALLE
O carnaval de Maria era na quarta-feira de cinzas. Ela e o sol de fevereiro
acordavam juntos, arregalados pro dia. Lá fora, a cidade cheirava a promessas
feito manhã de Natal. Descia a rampa de um fôlego só. Braços abertos, cabelos soltos, sacolas
A menina desgrudava as costas do colchão sem lençol e, com passos de garça, infladas ao vento. A ladeira era o pedaço de Maria no mundo. Já diziam seus
desviava dos sonos dos irmãos até alcançar o vestido mais próximo. Em seguida, joelhos carimbados.
rumava pro banheiro. Água no rosto, nos cabelos e debaixo dos braços. A rua debaixo se chamava Riachuelo, assim mesmo, de língua enrolando no
Ia pra cozinha de banho forjado, onde a mãe e um pão com manteiga a final. Era só pisar no asfalto que seus olhos eram todos chão. Prédios pichados
esperavam. Enquanto engolia o miolo dormido, ouvia conselhos de café: acinzentavam a menina. Os botecos pareciam unhas carcomidas com focos de
- Presta atenção nos carros na hora de atravessar, não chega tarde, não traz lixo poeira. Mas ao redor de seus pés... Bueiros, calçadas e sarjetas salpicavam as cores
pra dentro de casa, vê se acha coisa que presta na rua, não esquece as latinhas. do carnaval que já foi.
Juízo, menina. As pupilas de Maria eram adestradas pra brilhos. Catar latinhas? Nos outros
- Benção, mãe. trezentos e sessenta e quatro dias do ano, seu olhar se treinava pro reflexo do
- Deus te abençoe, minha filha. metal sob o sol. Mas na quarta-feira de cinzas, ela esquecia. Latinha não tem
Beijo na testa e Maria escancarava pra rua, munida de sorrisos e de sacolas purpurina. Nem paetê.
entre os dedos. Durante os quatro dias de carnaval, a alegria era dos outros: Seguia distraída pra Rua do Lavradio. Enquanto a faxina prosseguia, ela se
- Só tem bêbado lá fora, é muita confusão, se o povo te leva, você não volta mais. camuflava nas ruas da Lapa. Se bobeasse, a varriam em meio a serpentinas e
Trancada em casa, a garota imaginava o bloco sambando pra longe, tão longe até garrafas vazias de cerveja. Seus pés descalços tinham um quê de invisível.
não voltar mais. Que maneiro, ela pensava, um lugar cheio de gente perdida de A menina preferia assim, sem ninguém pra encher o saco. Quando os adultos
carnaval. Quando eu crescer, me perco assim. a viam sozinha por aí, viravam logo pai e mãe: lugar-de-criança-é-na-escola,
Seus dedos curtos contavam os dias pra quarta-feira de cinzas. Era quando o tem-que-estudar, não-deve-ter-família, coitadinha-dela. Maria encasquetava. Que
carnaval a pegava de jeito. Em meio a retalhos de fantasias, confetes encardidos e mania chata de meter o bedelho na vida dos outros.
lixeiros atarefados, Maria se deixava levar por restos de foliões. Mas, em dia de faxina, os outros nunca tinham tempo pra criança. E foi assim,
A menina enchia a boca pra falar o nome de sua rua: Rua da Ladeira. Nada de de pele transparente, que ela viu chutarem um isqueiro. Correu até ele, olhou pra
nome de General, palavra difícil na língua da gente. Sua ladeira tinha nome de um lado e pro outro. Ninguém deu por mim, concluiu. Acendeu o fogo. A chama
ladeira. Simples, não? trouxe um frio na barriga.
58 59
SOBRAS DA LAPA LUISA BENEVIDES VALLE
E se... Bem debaixo dos Arcos da Lapa, notou um montinho rebentando
Desceu a Mem de Sá, enquanto os olhos vasculhavam no chão algo em coloridos, em contraste com a paisagem que se encardia ao redor. Ela foi
específico. Achei! Era um cigarro pela metade e com marca de batom. Melhor que se achegando de mansinho, pra ter certeza de que não via coisa. O estômago
seja de mulher. vazio pregava suas peças.
Maria escolheu um canto de calçada sem lixeiros nem mendigos por Mas não. Era mesmo de verdade. Uma montanha de confetes só pra ela!
perto. Sentou-se na beira e foi tirar uma curiosidade sua de pequena. Achava tão Olhou em volta. Nenhum homem de laranja por perto. Juntou depressa
bonito fumaça saindo da boca... bolos coloridos e jogou pro alto. E de novo. E de novo.
Limpou o filtro do cigarro na barra do vestido, até sobrar somente um borrão Maria jogou até ser só ela e confete no mundo. Depois deitou, se afundando
rosado. O suor gelava entre os dedos, mas ainda assim ela fez bico de gente crescida, no monte de bolinhas. Um sorriso mole bagunçava seu rosto.
botou a bituca na boca e acendeu. A menina era toda carnaval.
- Cof! Cof! Cof! Coooooof!
Tossiu por todos os buracos do corpo. A cabeça era um bule d’água fervendo:
apitava por dentro e explodia pelas orelhas, olhos e nariz. Maria jogou longe o
cigarro, mas guardou o isqueiro na sacola. Adulto tem cada uma... Que bom que
sou criança.
Quando a tonteira passou, veio um gosto alegre de ser pequena. Ela sambava e
cantarolava, os olhos bem fechados pra ver carnaval. Enquanto rodopiava, sentiu
espetar a sola do pé. O olho esquerdo espiou miúdo, enquanto o bloco continuava
pulando no direito.
Lantejoulas rosas e douradas formavam uma máscara. Penas laranjas murcha-
vam no topo, feito fruta que madura demais. A garota abriu grande os dois olhos e
o carnaval fugiu com medo da claridade.
- Nossa, que linda!
As mãos formigavam enquanto davam um nó no elástico arrebentado e vestiam
o adereço. Com os olhos tapados, se sentia mais invisível do que nunca.
Mais à frente, um nariz de palhaço rolava solto no asfalto. Foi só vestir que
ela sentiu pinicar. Guardou na sacola. Quando mamãe me der bronca, vou virar
palhacinha, aí vamos ver se ela aguenta. Maria sorriu pequeno ao ver a mãe
tentando se segurar. A bolinha vermelha era danada pra afrouxar o riso.
Aqui e ali, a menina catava miudezas. Batom azul, sapatilha sem par, chapéu
de pirata, dente de vampiro, asa rasgada de anjo, pistola d’água quebrada, coroa de
princesa, medalhinhas enferrujadas de cigana. Pra sacola, pra sacola e pra sacola.
Lá pelas tantas, ela estava entulhada de nadas. Hora de ir pra casa, pensou. Só
quero ver a cara da minha irmã quando eu botar a coroa de princesa. Já rumava
toda prosa pra Riachuelo, quando...
60
sonhos de
clarissa
GIOVANNA GHIRARDI LOPEZ
SONHOS DE CLARISSA
C larissa é uma garota curiosa. Ela tem 10 anos e sabe de muita
coisa. A menina nasceu e mora no Rio de Janeiro e, como era de
se esperar, sempre pergunta várias coisas sobre o lugar onde nasceu.
Um dia estava brincando com alguns amigos no clube. Eles estavam
brincando de adivinhar para onde a pessoa estava olhando, e o jogo
funciona da seguinte maneira: Uma pessoa olhava para um lugar e
descrevia, e a outra tentava adivinhar para onde ela estaria olhando.
Quando chegou a vez de uma menina chamada Júlia, Clarissa descobriu
para onde a amiga estava olhando, e era o Cristo Redentor.
Clarissa, curiosa como sempre, quis saber por que e como o Cristo
estava ali. Foi perguntar para sua mãe, e as duas foram procurar na
internet. Elas acharam muitas versões, mas a que mais chamou
atenção da garota foi a que há muito tempo atrás, foi criada essa estátua
para homenagear a Princesa Isabel. Ela gostou muito do fato de terem
criado uma estátua para a princesa, ainda mais uma tão grande! Já
tinha ido duas vezes para lá e tinha gostado muito, até que um pensamento
surgiu na cabeça da menina: o que aconteceria se a estátua do Cristo
Redentor não estivesse ali, ou pior, e se ela não existisse?
A garota ficou pensando muito sobre o assunto, até que anoiteceu
e a mãe a mandou dormir.
No meio da noite, ela teve um sonho muito estranho. Ela era a prin-
cesa Isabel, mas ninguém havia construído nada para ela, e a cidade não
era a mesma. Não tinha aquela beleza de antes, as pessoas não tinham o
privilégio de olhar para cima e ver o Cristo Redentor iluminando a cidade
maravilhosa. Depois de um tempinho naquele sonho que mais parecia
um pesadelo, a garota acordou e fez um último pensamento sobre aquele
assunto. Realmente era muito bom viver naquela cidade maravilhosa
com aquela estátua no lugar onde ela está.
Mais tarde descobriram a verdadeira versão. Uma parte da estátua
foi moldada em outro país, depois trazida para o Brasil e inaugurada
em 1931. Foi construído o corpo como um prédio, e a outra parte
moldaram junto com o corpo. De qualquer forma, ela estava muito feliz
e orgulhosa de ser brasileira e carioca.
64
um mineiro
na cidade
maravilhosa
ANGÉLICA DE OLIVEIRA PASSOS
UM MINEIRO NA CIDADE MARAVILHOSA
J oão, pedreiro no interior de Minas Gerais, cansado de tanto carregar peso e
receber um salário miúdo, decide tentar a vida numa cidade grande. Pega
carona num caminhão e vai para o Rio de Janeiro.
Carteira de Trabalho sem assinatura de nenhum patrão, roupas manchadas de
cimento e cal...Dentro de uma mochila, gasta pelo tempo, leva suas roupas surradas
e sua esperança.
De longe, a mulher e os filhos acenam com a mão. “Vai com Deus, pai!”, “Vai com
Deus, João!”
João enxuga uma lágrima na manga da camisa e acena com sua mão calosa.
Caminhão estrada afora e, no coração, um turbilhão de ideias se emaranhando.
Não sabia onde iria morar, onde iria trabalhar...Só sabia que estava indo...Lá no
Rio, seu amigo Mateus, que já tinha ido um ano antes, iria recebê-lo...
Menos mal. Não estaria tão sozinho.
Depois de horas rodando, João enxerga, através de um buraco da lona do caminhão,
um morro cheio de casas miúdas. Olhos curiosos, coração em disparada, vai engolindo
sua ansiedade...
De repente, o caminhoneiro fala: “É aqui, João. Pode descer. ”
Desce da carroceria com sua mochila de pedreiro mal pago.
“E agora, para onde vou? ”
Apesar de tanta carência, tinha um celular barato, presente de sua mulher Luísa,
empregada doméstica em casa de patrões generosos. Ganhara no último Natal.
Ligou para o Mateus. O amigo o recebeu no seu barracão pobre e no seu
coração generoso.
Foram dias para conhecer aquelas belezas todas da Cidade Grande, até que
arrumasse uma colocação.
O olhar deslumbrado, o coração galopando, subiu as escadarias do Cristo
Redentor e, lá de cima, sua vista se iluminou.
Nunca vira o mar. De repente, diante daquele cenário deslumbrante, sentiu-se
gente, sentiu-se vivo.
O que João conhecia eram canteiros de obra, carrinho de carregar cimento,
pá...E nada além de sua cidade pequena e de sua vida pequena.
O mar com sua beleza deslumbrante ia esparramando espuma na areia branca.
“Que beleza!”
Depois, Mateus o levou para conhecer o Pão de Açúcar. Da janela do bondinho,
via abismado a paisagem misteriosa da Cidade Grande.
68
UM MINEIRO NA CIDADE MARAVILHOSA ANGÊLICA DE OLIVEIRA PASSOS
E João queria ainda conhecer mais. Quinta da Boa Vista e os casais namorando Passeavam com o pai, quando ele estava de folga no serviço, e, aos poucos,
deitados na grama bonita. Pensou consigo mesmo: “ Lá na minha cidade, nunca vi seus olhos meninos foram conhecendo os encantos do Rio de Janeiro e deslum-
isso...Que lindeza! ” brando-se com o mar e a beleza da água espumante lambendo as areias brancas.
Mas as praias, o mar de Copacabana, o mar de Ipanema, o Arpoador, a Vista João mudou-se para a cidade grande..No posto de gasolina, conheceu pessoas
Chinesa... “Ai, meu Deus, que beleza!” que acreditaram nele. Não demorou muito, foi trabalhar numa rede de lojas de
Como, até então, João só conhecia estádio pela Televisão, seu amigo Mateus materiais de construção. Desse assunto ele conhecia.
foi com ele ao Maracanã. Era dia de jogo importante. Nem acreditava no que via. Todos os domingos, subia as escadas do Cristo Redentor
Tantas pessoas juntas, os gritos, os aplausos, as vaias e os jogadores correndo num e, de joelhos, agradecia pela felicidade de ter chegado
“sem parar” de tirar o fôlego. onde chegou.
Aquilo é que era jogo. Ver de perto as artimanhas do futebol, os fogos, e a E o Mateus, que lhe estendera a mão
multidão, mãos para o alto, vibrando enlouquecida... quando chegou ao Rio de Janeiro,
Mas chegou o dia de procurar serviço. Só servia de pedreiro ou servente de ficou sendo inquilino do seu
pedreiro. Era o que ele sabia fazer e o fez desde criança, ajudando o pai, lá em coração, a morada do
Minas Gerais. afeto e da gratidão.
Andou, andou, andou, subiu morro, desceu morro e nada...
Quase desanimando, querendo voltar pra Minas, pegar carona no caminhão de
novo, João ainda teve um lampejo de lucidez.
“Se não consigo nada no que sei fazer desde menino, posso pedir emprego num
posto de gasolina...”
E conseguiu. Com poucos dias já tinha aprendido direitinho o seu novo ofício.
E até assinaram sua carteira de trabalho.
“Que beleza! Até hoje, minha carteira estava em branco”.
Tempo passando e João trabalhando duro como frentista. Conheceu pessoas,
conheceu lugares bonitos nos dias de folga. Mas o mar, as ondas, as praias, a
espuma se espraiando na areia...nunca antes tinha visto tanta maravilha assim...
Tempo passando e o pedreiro do interior de Minas cada vez conhecendo mais
gente, fazendo amigos, surpreendendo-se com a beleza do novo, da Cidade Grande,
da Cidade Maravilhosa!
Finalmente, foi a Minas e pôde trazer sua mulher e seus dois filhos. De mudança.
Botaram os trens num caminhão e desceram sua mudança simples em um barraco
na periferia. Com sua persistência, sua garra, foi melhorando de vida. Luiza, sua
mulher dedicada, foi trabalhar num salão de beleza. Como faxineira. Com carteira
assinada. Esse era o seu sonho.
Os filhos foram para a escola com suas mochilas novas..E até tinham celular.
70
JULIANA PERAZZINI DE SÁ
UM PASSEIO INESQUECÍVEL JULIANA PERAZZINI DE SÁ
F azia uma bela manhã na Cidade Maravilhosa: pássaros voando, crianças
brincando e eu... ESTUDANDO! Mas que grande ironia, não é mesmo? Tantos
dias na semana para o Sol aparecer e justamente no dia em que eu resolvo

Meu nome é Luna, tenho 16 anos, não tenho irmãos, sou carioca da gema e,
pelo que me parece, estou por um triz em Matemática. Meus testes finais são em
uma semana e, bem, eu não diria que estou cem por cento preparada para eles.
estudar, a temperatura chega na casa dos 40 graus! Pode-se dizer que é uma Para melhorar a tensão, meus pais estão comemorando 25 anos de casamento e,
grande falta de sorte, mas quando se trata de Matemática, nada me surpreende. com isso, devem estar nesse momento embarcando em um cruzeiro magnífico
a caminho da Grécia. Estou feliz pelos dois, de verdade, mas essa viagem não
poderia vir em um momento melhor? Enfim, eles me deixaram aqui na casa da
vó Luzia, na Urca, há uma meia hora e, desde então, sofro com o calor e a falta de
vontade de decorar fórmulas difíceis.
- Lua, querida, preparei um almoço divino para nós duas! - dizia minha avó ao
adentrar o cômodo que seria meu quarto durante a semana.
- Vovó, já lhe falei que meu nome é LUNA e, não, Lua!, informei-lhe rindo e
recebendo uma risada gostosa como resposta. - Estou indo em um minuto, só vou
terminar a conta e te encontro na sala. Tudo bem?
- Tudo sim, só venha rápido, minha neta, já que a comida corre o risco de esfriar.
Enquanto ela se retirava do aposento, finalizei o cálculo e me levantei da escri-
vaninha branca em que me encontrava. Ao levantar, me deparei com a janela e por
ela vi o Pão de Açúcar, graciosamente funcionando e com os inúmeros turistas
se aventurando. Sempre gostei de visitar a minha avó, a vista daqui é esplêndida!
Cheguei à sala e encontrei um banquete maravilhoso:
- Nossa vovó, o cheiro está incrível!, exclamei.
- Fiz especialmente para você, netinha! Para comemorar sua estadia e para
você ficar feliz, já que está vendo tantos números. - Disse Vó Luzia risonha.
- Muito obrigada, estava divino o sabor da comida. Realmente, com tantas contas
e números, estava precisando de mais energia, falei desanimada.
Minha avó me olhou pensativa tentando encontrar uma maneira de me
animar. Olhou a janela perto da mesa em que nos encontrávamos e exclamou,
anunciando a sua ideia:
-Já sei, querida! Que tal dar um passeio pela Urca hoje? O dia está lindo... Poderíamos
ir ao Bondinho e apreciar a vista do Pão de Açúcar e também conversar bastante! O que
me diz?
Ela parecia muito entusiasmada, levando em conta que não fazíamos passeios
juntas há bastante tempo. Seria adorável sair um pouco daqui e aproveitar o dia,
mas, infelizmente, eu possuo um medo ridículo de altura e, por isso, meus pais
nunca tinham me levado ao Pão de Açúcar antes...
75
UM PASSEIO INESQUECÍVEL JULIANA PERAZZINI DE SÁ
Como assim uma carioca nunca foi visitar um dos pontos turísticos mais Ainda nervosa e um pouco insegura, prosseguíamos o nosso caminho na fila
famosos de sua cidade? Absurdo, não é mesmo? Eu sei disso, porém toda vez que para pegar o primeiro bondinho, que nos levaria ao Morro da Urca. Quando dei por
eu tomo coragem para ir, desisto sem antes mesmo subir no bondinho. Apesar mim, éramos as próximas da fila.
de possuir uma beleza incrível, nem mesmo essa me distrai do que vem a seguir, Tentava lembrar-me do que minha avó havia me dito, mas sentia meu coração
que é perceber o quão longe está o chão. E além desse problema básico de medo, querendo sair pela boca.
tinha o fator estudo. Entramos no espaço do bondinho e eu corri para ficar perto de uma barra de apoio,
Se meus pais descobrissem que eu, ao invés de estudar, fui passear com a não me atrevendo a olhar para baixo. Quando o mesmo começou a se locomover, não
minha avó e que, consequentemente, ia ser reprovada em Matemática; estaria de aguentei e segurei a mão da minha avó, como uma criancinha assustada. Aos poucos
castigo eternamente sem ver a luz do sol de novo. Um pouco dramática? Talvez. fui me acalmando e percebendo que, na verdade, andar de bondinho era bem seguro e
Mas nada ia me fazer mudar de opinião, eu tinha dois convincentes argumentos: possuía uma vista estonteante!
-Poxa Vovó, hoje com certeza não vai dar, eu tenho um teste muito difícil de Chegando ao Morro da Urca, aproveitamos a brilhante vista juntas, conver-
Matemática chegando e, se eu não estudar, vou ser reprovada. A senhora não quer ter sando sobre amenidades e localizando cada ponto do Rio. Após esse momento,
uma neta em apuros, quer? - argumentei fazendo a minha melhor cara de cachorro continuamos nossa aventura indo em direção ao próximo bondinho. Foi uma
que caiu da mudança. Porém a minha vó não é conhecida como uma pessoa que viagem amena e eu nem me lembrava mais do que era sentir medo.
desiste tão fácil e logo rebateu dizendo que eu poderia estudar após o passeio, já que Chegar ao topo do Morro do Pão de Açúcar foi um marco em minha vida. Nunca
o teste estava ‘’chegando’‘, mas não era no dia seguinte. pensei que fosse um dia superar meu medo para ver, assim, essa beleza exuberante
Tentei apelar para o meu medo de altura, mas devido à experiência de anos da paisagem carioca. Sou mais do que grata à minha avó por ter me convencido a
da minha avó em psicologia, ela conseguiu provar que se um medo te impede relaxar um pouquinho e esquecer da minha prova, temporariamente, para poder
de fazer alguma coisa boa para si mesma é porque ele já não está saudável. Com vivenciar de perto essa maravilha que é poder morar nessa cidade abençoada.
isso, fomos as duas, eu aceitando a minha nota baixa, mas feliz, e ela toda sorridente, Com o nosso passeio terminado, de forma estupenda, voltamos para casa
ao famoso Pão de Açúcar. felizes da vida e realizadas. E eu, então, retomei os meus estudos em paz com o
Chegando à base do mesmo, na Praia Vermelha, já me tremia toda. Minha meu ser e com mais orgulho de ser carioca do que nunca, nesse dia tão belo que se
avó percebendo a minha hesitação, disse: fazia na Cidade Maravilhosa.
-Luna, quando se está com medo, a melhor coisa a fazer é respirar fundo e
pensar em coisas felizes. Qual é a lembrança da sua vida que te deixa mais alegre?,
indagou Vó Luzia.
-Bom, nunca havia pensado nisso... Mas quando eu mentalizo momentos
alegres, eu sempre me lembro de praias.
E ao dizer isso, me veio à cabeça uma memória muito feliz da minha infância:
me recordei do meu aniversário de cinco anos, que foi um dia todinho aproveitado
na praia de Copacabana junto aos meus pais. Nós três andando pelo calçadão,
sorrindo felizes, com certeza é a memória escolhida.
-Ótimo, minha neta! Agora toda vez que o medo estiver te vencendo, feche seus
olhos, conte até dez e imagine essa cena! Com certeza o medo irá sair correndo!,
disse ela sorrindo.
76
uma menina
chamada dora
DANIELA TOULIN
UMA MENINA CHAMADA DORA DANIELA TOULIN
T odas as manhãs, antes do sol nascer, Dora espreguiçava languidamente o
pequeno corpo moreno na cama. Abria os olhos lentamente, acostumando-se com
a pouca claridade que adentra pelas frestas da janela. Preguiçosamente movia-se

Três conduções depois, e duas horas de um trânsito quase infernal, permi-


tiram a Dora chegar ao seu ponto de trabalho: a praia. Como muitos brasileiros,
arrumara uma solução alternativa para driblar a crise: a venda de lanches na
com lascívia, enquanto preparava o espírito para começar o dia. praia de Ipanema. Dois meses gerenciando seu pequeno negócio permitiram a
Os pés pequenos tocavam o chão frio, provocando arrepios. Suspirava ela pagar o aluguel de seu novo e modesto lar. Deram-lhe a chance de recomeçar,
enquanto encaminhava-se para o banheiro. Outro dia, mais um dia. Uma nova de conseguir, de forma digna, seu sustento. Sem contar que trabalhava na praia,
chance. No pequeno espelho pendurado na parede admirava a face redonda, os sonho de muitos brasileiros.
olhos profundamente negros, e os cabelos rebeldes, enrolados, que tinham vida Tocava os pés na areia macia, acompanhando
própria. Abria um imenso sorriso, mostrando os dentes brancos emoldurados o movimento dos primeiros turistas que
pelo carmim dos lábios. Ligava o chuveiro e deixava a água morna tocar seu estavam no local. Localizada na zona
corpo inteiro, envolvendo-a num abraço aconchegante. Sul da cidade do Rio de Janeiro,
Envolta na toalha saía do banheiro cantarolando uma música de Tom Jobim. Ipanema é uma das praias mais
Escolhia um vestido branco leve, com rosas vermelhas miúdas estampadas. bonitas e famosas do Estado,
Uma rasteirinha e muitas pulseiras completaram o visual. Rodopiava pelo quarto e serviu de inspiração para
enquanto ajeitava os cabelos que caíam, generosamente, pelos ombros. Vinícius de Moraes compor
Colocava no fogão o bule com água. Separava o pão francês, abria e passava a a famosa canção “Garota de
manteiga. Mordia, fechando os olhos, deliciando-se com o sabor. Preparava o café e Ipanema”, imortalizada na
sentava-se à pequena mesa (uma caixa de papelão invertida), arrumando a garrafa voz de Tom Jobim.
de refrigerante que servia de vaso para as margaridas em cima da toalha colorida Aos dezoito anos, Dora
e sentava, ajeitando-se em cima de uma almofada. Degustava o aroma, o sabor, a aprendera a identificar o
simplicidade. Fazia carinho no gato, que se enroscava em suas pernas. público que frequentava a
Pegava a bolsa onde cabiam todos os seus sonhos, o dinheiro para o ônibus, praia para oferecer-lhes
fechava a porta do seu lar e descia o morro, transpirando alegria e fé, rumando petiscos que agradassem
para mais um dia de trabalho. o paladar. Descobrira
O ano de 2015 havia sido realmente conturbado, e Dora fora demitida. Numa que quanto mais natu-
tentativa de assalto, ela perdera o único companheiro, o pai. Diante dos fatos, e rais eram seus lanches,
com a crise econômica, despejaram Dora do apartamento onde morava, e viu-se de melhor eram aceitos pelos
mudança para o morro. Inutilmente buscou recolocação profissional. Ou não tinha praticantes de skiboard
experiência e qualificações exigidas para o cargo, ou a pouca idade não dava a surf, frescobol, vôlei, futebol
credibilidade que seus empregadores queriam. Chorou por dias seguidos, por e futevôlei. E conquistara
longas noites, principalmente de saudades do seu super herói. E descobriu que a seu espaço, com maestria e
vida seguia em frente, com ou sem ela, e que estar sozinha era diferente de sentir-se muita simpatia.
só. Dora havia perdido tudo, ou quase tudo: permanecia nela, teimosamente, uma Engana-se quem pensava que
alegria de viver e uma vontade de mudar o seu destino que a faziam enfrentar todas o dia de Dora era fácil. Com a bolsa
as dificuldades, e enfeitar tudo à sua volta. térmica a tiracolo, começava o dia
80
UMA MENINA CHAMADA DORA DANIELA TOULIN
antes do nascer do sol, e só parava depois de ele se pôr, pois, durante a noite, entre Dora subia o morro, todas as noites, como se dançasse. O corpo balançava
um evento ao ar livre e outro, distribuía deliciosos sanduíches e sucos naturais. suavemente ao som de uma música que seu coração cantava. Corpo cansado, alma
Voltava para casa cansada, mas com o coração em paz. No ônibus, Dora olhava para livre, coração em paz. No seu lar, doce lar de apenas três peças, Dora abaixava-se para
o céu, e ficava admirada com o brilho das estrelas. Sorria porque sabia que entre elas acarinhar Tom, seu gato sapeca e amigo inseparável. Sob a cândida luz da lua que
havia duas especiais que estavam sempre olhando por ela: seus pais. entrava pelas frestas da janela, Dora preparava as guloseimas para o dia seguinte.
Dora não fazia parte das estatísticas negativas. Ela não queria ser apenas No cardápio, misturavam-se pães, galinha desfiada, cheiro verde e outras iguarias.
mais um número numa página policial, negava-se a escolher o caminho aparen- Ao mexer na panela a menina misturava amor, esperança e fé.
temente mais fácil e cômodo. Sabia o quanto era bonita e que isso poderia lhe Todas as noites, quando a lua já brilhava no céu, Dora espreguiçava languidamente
abrir muitas portas. Porém eram passagens que não a levariam a lugar algum. o pequeno corpo moreno, antes de deitar entre os lençóis macios de sua pequena
Queria voltar a estudar. Queria trabalhar com idosos ou crianças, ser útil, ajudar cama. Fechava os olhos lentamente, não se importando com a claridade lunar que
as pessoas a encontrarem seu próprio caminho. Queria ser professora, ensinar adentrava pelas frestas da janela. Mentalmente, agradecia o dia que se findava e
a beleza das letras e o mundo mágico da leitura. Por isso, nas suas horas de preguiçosamente acomodava-se abraçando o travesseiro, e preparava o espírito
folga, Dora viajava nas páginas dos livros que pegava emprestados na Biblioteca para as novas oportunidades que estavam por vir, no outro dia, mais um dia. Uma
Pública de sua cidade. nova chance de viver e ser feliz.
volta
CILENE ALVES DE OLIVEIRA
VOLTA CILENE ALVES DE OLIVEIRA
U ma mochila basta!
Não queria muita bagagem. Queria a sensação de liberdade! Se precisasse de
outras coisas, compraria. E, se resolvesse voltar, teria menos espaço para a decepção.

Seguiu para a Lapa. Optou em ficar no Centro, coração da cidade. Queria


ter acessibilidade para a Zona Sul e Zona Norte. Queria percorrer seus velhos
caminhos. Hospedou-se num simpático hotel junto à Escadaria de Selarón:
Preferiu o ônibus ao avião. Queria prolongar ao máximo aquele misto de será que a cerâmica que doou ao artista ainda adornava a escadaria tantas
sentimento. Retorno? Busca? Reencontro? vezes modificada? Queria se perceber parte do Rio, seu lugar preferido no
Acomodou-se no assento à janela. Consigo só a mochila e os melhores mundo inteiro!
companheiros: o travesseiro e um livro. Já que era um retorno, levou o Pequeno No dia seguinte cedinho, sacou a mochila - agora já esvaziada de peso e medo,
Príncipe, repleto de lembranças e saudades. Lembrou do dia em que o ganhara. para uma caminha despretensiosa. Automaticamente pegou a Rua Joaquim
Sua prima Mary deliciosamente repetira o presente de todos os aniversários: Silva, desceu a Rua da Lapa, continuou pela Rua da Glória, Praia do Flamengo,
- Guarde-o com carinho! Ele vai te acompanhar por muitos momentos de sua atravessou as pistas sobre a passarela. Chegou ao Aterro. Deitou na grama e
vida! Ela tinha razão! Com ele nascia o prazer pela leitura. E depois, o abrigo de um sentiu o sol batendo na pele. A sensação provocou-lhe um arrepio: era um beijo
amor adolescente. Ele foi grafado, riscado e se tornou único. quente de Deus! Deixou-se ficar ali, naquela entrega até se sentir recarregada.
“Serás para mim único no mundo. Eu te olharei com o canto do olho e tu não Depois de tanto tempo na “cidade cinza”, já estava com esta demanda reprimida!
dirás nada.” Decidiu continuar a caminhada pela orla. O cheiro do mar era também um
E assim, em silêncio, seguiu viagem. Recostou no braço da cadeira, aninhada remédio para sua alma! Lembrou dos incontáveis pores de sol assistidos na praia
pelo travesseiro, também fiel amigo de infância e fechou os olhos, embalada pelos (“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr do sol.”).
movimentos do veículo na sinuosa estrada. Teve saudade de pisar na calçada mais famosa do mundo, a deliciosa Babel-
Acordou sobressaltada. O barulho do trânsito avisava que havia -Copacabana! Num impulso, correu para o ponto de ônibus ainda a tempo de pegar
chegado. Não reconheceu de pronto a Rodoviária de onde o que vinha chegando. Na janela, com os prédios e lojas, um filme em sua cabeça.
partira. Tudo tão mudado! Tão moderno! Foi interrompida pelo vendedor de balas:
Escovou os cabelos, retocou o batom, jogou a - Bom dia, meus senhores e suas senhoras. Desculpe interromper a paz de sua
mochila nas costas. Tinha pressa! Queria sorver o viagem. Estou aqui apresentando um novo produto do mercado alimentício da
Rio! Ver e provar de tudo! ordem dos caramelados. Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas
estou humildemente vendendo minhas balas pra alimentar o batalhão de filhos –
e sogras! – que eu tenho.
- Bem, agora realmente estou no Rio! pensou, rindo.
Chegando a Copa, resolveu saltar no primeiro ponto. Queria ganhar o bairro a
pé. A praia estava especialmente linda naquele dia! Apesar de ser dia “útil”, havia
muita gente por ali: idosos e seus acompanhantes, jovens mães com carrinhos
de bebês, atletas e casais davam vida ao lugar, num vai e vem lindo e saudável de
gente que escolheu o Rio para morar. Era a vida que desejava no momento!
Enquanto almoçava, reparava nas pessoas e imaginava suas histórias.
Porque estariam ali e para onde iriam. A senhora sozinha parecia enrolada
para servir os filhos agitados, indecisos e famintos! O casal oriental com
87
VOLTA CILENE ALVES DE OLIVEIRA
tantos aparatos tecnológicos! Estariam de férias? O simpático casal apaixonado: - Verônica, lembra? Sua colega de escola. A gente tem se falado no Face. É que eu
com certeza lua de mel! resolvi passar uns dias no Rio e pensei da gente dar uma volta. Caso dê pra você, claro!
Parou de imaginar as outras histórias para concentrar-se na sua! Impul- Mais alguns segundos de silêncio.
siva, deixou-se levar pela emoção, como tantas vezes. Lembrou dos bate- - Oi, gata! Que doideira você aqui! É que... eu estou meio enrolado... meu
-papos informais na internet com os amigos de escola. Acabou se envolvendo avô tá meio mal e... hoje é o meu dia de ficar no hospital com ele. Mas a gente pode
com um dos meninos (hoje não tão menino assim) de sua turma. Ele falou marcar qualquer dia. Você vai embora quando?
de sua vida, o quão bem sucedido se tornara, como seria bom caso se vissem Verônica percebeu a desculpa esfarrapada e a falta de ânimo de seu “amigo”
novamente. Acabou convidando-a para passar uns dias no Rio. “Em nome dos para o tão esperado reencontro.
velhos tempos”. - Não se preocupe não. Tô aqui com a maior galera e a gente está se
Estava mesmo com férias vencidas. E num grande estresse da rotina constante. divertindo bastante. Praticamente não parei desde que cheguei! Qualquer hora eu
Precisava de novos ares! Combinou o programa: os mesmos passeios escolares. ligo pra gente marcar. E olha... diz ao seu avô, (engoliu em seco) - que... eu espero
Inúmeros, uma vez que estudaram juntos praticamente todo o Ensino Fundamental! que ele melhore!
Lembraram-se do dia que entraram na caverna do Campo de Santana para ver as As lágrimas já desciam quando desligou. “A gente corre o risco de chorar um
estalactites e as estalagmites! Mesmo local onde ganhara, pela primeira vez em pouco quando se deixa cativar”.
sua vida, uma flor que, hoje seca, mora na latinha colorida com outras pequenas - Os homens são iguais em qualquer lugar do mundo!, pensou alto.
tralhas: reálias da infância e adolescência. Desta vez não escovou os cabelos, nem retocou o batom. Jogou a mochila nas
- Aproveitamos então para visitar a Biblioteca Pública ali ao lado – disse, costas e pediu um taxi para o Aeroporto Santos Dummont. Precisava voltar o
relembrando, saudosa, as tarde passadas entre os livros – Vi na TV que está linda, quanto antes para a sua rotina jacente e segura!
toda reformada!
E passavam horas relembrando as saídas, os tempos vagos que passavam perto
da Catedral Metropolitana, as esticadas para aplaudir o por do sol em Ipanema. E
tantas outras horas planejando aonde iriam pela primeira vez: Floresta da Tijuca,
Teleférico do Alemão, Real Gabinete Português de Leitura.
- Mais alguma coisa?
- Hã?
- A senhora deseja mais alguma coisa?
Nem se deu conta do tempo que passara. As pessoas já haviam saído e o garçom
já estava mal-humorado com a cliente que atrasava o fim do expediente.
Decidiu que aquele seria o Dia D! Ligaria para o amigo, marcando o tão esperado
encontro. Meio trêmula pegou o telefone, ao mesmo tempo segura e confusa. Sabia
o que queria, mas temia não empregar as palavras certas.
- Amadeus? Oi. É a Verônica, sua amiga de infância. Tô aqui no Rio! Silêncio no
outro lado da linha.
-Alô?, repetiu.
- Quem, replicou Amadeus.
88
O

HO
H
UN

UN
SC

SC
RA

RA
Contos convidados
MARCIA COSTA
ENIGMA GIGANTE MARCIA COSTA
N o ano de 1982, na cidade do Rio de Janeiro, morávamos com a vó em uma casa Um dia, aconteceu algo estranho. O sol muito quente e, de repente, o dia virou
em São Conrado, especificamente na Vila Canoas. noite, algo inexplicável. Todos correram com medo. Ficamos trancados dentro
Uma casa enorme, com paredes rústicas, piso de tacos antigos, no alto de casa e em silêncio. Porém, logo em seguida, deu uma ventania muito forte e
da floresta. Para chegar lá, caminhava por uma estradinha de chão barrento e ouvimos barulhos estranhos na floresta.
caminho de flores maria sem-vergonha, era um tapete bordado. Próximo à floresta existia uma grande pedra, que a vó dizia ser um gigante, que
A avó era de uma humilde família, mãe de treze filhos, sendo que dois eram sumiu nas nuvens, deixando o mar em fúria, formando ondas que pareciam chegar
adotados. Ela amava o Rio e dizia que nunca iria sair desse lugar. Gostava de ao céu, que se encontrava cinzento.
plantar e colher, cultivava ervas medicinais, hortaliças e frutas. Estávamos todos quietos dentro de casa quando, de repente, ouvimos um
Dizia que morar na floresta tinha seus encantos e ela amava morar entre árvores prááááááá: parecia serem árvores e galhos quebrando na floresta, como se
e flores, ouvindo o canto dos pássaros e o som das cachoeiras. Não sabia ler as letras, alguém estivesse abrindo caminho, muita coisa quebrando. Imaginamos que
mas era sábia nas histórias que contava para todos, herdadas de sua mãe. fosse a casa da velha desaparecida, desabando. E era... ficamos perplexos. A
Nesse lugar havia variedade de animais, como: macaco-prego, cobras diversas, avó disse:
tamanduá, tatu, cachorro- do- mato, entre outros. Um lugar cheio de vida! - Temos que respeitar a floresta, ela tem seres ocultos!
Existia uma casa antiga, a qual era famosa em incógnitas na redondeza e E hoje a avó continua morando em Vila Canoas, lugar de encantos, com as belas
sempre que recebíamos visita, as pessoas curiosas queriam saber sobre o que paisagens tropicais. Muitas coisas mudaram: novas casas, a vizinhança cresceu e
rondava nela. E a avó dizia que há muito tempo atrás existiu uma velhinha que ela mais sábia ficou.
morava sozinha, que falava com os bichos e as plantas. E a lenda da velha, ninguém sabe, ninguém viu. Só se sabe que sua casa o mato
cobriu. Foi uma incógnita que continua, até hoje as pessoas perguntam:
- Cadê a velha, alguém viu?
ARLENE COSTA
SANGUE NA MARÉ ARLENE COSTA
D ona Maroca morava no Ceará com seus sete filhos, o sonho dessa família era ir
para o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. Economizaram dinheiro e partiram
para a rodoviária, passaram três dias viajando, mas valeu todo esse esforço.

telefone, era o Carlão, seu filho mais novo, explicando que estava tudo bem, pediu
desculpas. Disse que iria direto para o trabalho. A dona Maroca agradeceu a Deus
e voltou a dormir no sofá.
Chegaram no Rio de Janeiro, cidade encantadora. Alugaram uma pequena casa Amanheceu, tomou banho e foi comprar pão, encontrou com a Mari que trabalha
na favela da Maré, apesar da crise que o país estava passando, conseguiram trabalho na Biblioteca Comunitária Elias José, mesmo não sendo amiga dela, conversara
bem pertinho do seu novo lar. sobre o tiroteio da noite anterior. Mari estava com muita pressa, então convidou
Na favela da Maré existe muita violência, a qualquer momento pode começar dona Maroca para visitar a biblioteca e o Museu da Maré, onde trabalha. Dona
um tiroteio, por esse motivo dona Maroca recomendava aos filhos para não Maroca disse que iria arrumar a casa e passaria lá depois do almoço para pegar
chegarem tarde em casa, nem ficar à toa na rua. Seus filhos eram jovens pacatos livros emprestados.
e trabalhadores. Se demorassem na rua, sempre davam satisfação para sua mãe. Mari chegou na Biblioteca, recebeu a visita de trinta alunos de uma escola
O Rio de Janeiro comemora o seu aniversário de 450 anos no dia primeiro de próxima. Ela e sua equipe leram para os jovens, eles pegaram livros emprestados e
março. A cidade estava recheada de eventos em diversos lugares: Lapa, Copaca- foram embora. Ela estava arrumando a bolsa para sair e almoçar, quando de repente
bana, Leblon, Penha, Campo Grande. Nesse dia, os filhos da dona Maroca foram entrou na biblioteca um homem todo sujo de sangue. Ficou assustada, mas não
convidados através dos amigos para conhecerem a noite carioca: nem pensaram demonstrou e pediu para ele sentar. O homem sentou, olhou para ela e falou:
duas vezes e aceitaram o convite. - Costumo almoçar numa pensão e lá vi uma caixinha com vários livros onde
Enquanto eles se divertiam, dona Maroca não conseguia dormir. Estava tem o endereço da biblioteca, por isso consegui encontrar o local e vim fazer meu
preocupada com seus filhos já que às três horas da manhã ainda não havia recebido cadastro e fazer empréstimo de livros. Sou açougueiro!
um telefonema. E, de repente, começou um tiroteio. Era muito próximo, ela escutava Mari respirou aliviada. Nisso aparece a dona Maroca e ficou radiante quando
pisadas fortes em cima de sua laje, o coração de dona Maroca estava quase saindo encontrou com seu filho na biblioteca. Ela o abraçou e os dois foram conhecer
pela boca. Resolveu se esconder embaixo da cama e rezava todas as orações que sabia. o Museu da Maré. Saíram daquele lugar encantados na certeza que voltariam
O tiroteio acalmou, ela saiu de debaixo da cama. Olhava para o telefone e outras vezes.
nada de tocar. Tirou um cochilo sentada no sofá e foi acordada com o toque do
tibum
LUCIA HELENA RAMOS
TIBUM LUCIA HELENA RAMOS
D esceu a rua porque era preciso. Mal podia respirar. Precisava encontrar o mar.
Cheiro de maresia sempre lhe fazia bem, tanto quanto livrarias e bibliotecas.
Porque tem gente que quando está aflita vai a igrejas e templos, mas ela ia ver

terceira idade nos jardins do museu e encanta todo mundo, nem da loja de sucos
e do restaurante que avançavam com suas mesas e cadeiras sobre a calçada, nada
havia. Só o cheiro do mar.
livros e olhar o mar. Por isso morava perto dele, do mar. Não que fosse sempre à A água salgada da baía guiava-lhe o olfato e este, suas pernas, braços e desejos.
praia, mas como dizia o poeta Drummond, era bom saber que o mar estava perto. Haveria de encontrar o mar. Um dia feliz começaria, sem dúvida.
Só isso já acalentava. Ir vê-lo, colocar os pés em suas águas, pisar sua areia No sinal em frente ao Museu do Catete, encontra uma amiga de longa data
primordial, sentir seus ares, ouvir seu barulho, esse diálogo em uma língua tão que lhe fala sobre a política: - Tudo está um horror. Você viu o que estão fazendo?
antiga que data de antes de tudo, era o que lhe fazia o maior bem. O maior bem de Onde vamos parar? Cada dia uma notícia ruim, parece que não acabam com as
todos. Por isso o mar, naquele dia, era imprescindível. Os dias passavam opressores maldades! Gosta de discutir política. Atravessa a Rua do Catete confirmando o
em linhas de agenda, e esta já pequena para tantos afazeres. Os itens a cumprir discurso da amiga e ampliando os dados, informações, notícias. Citam as redes
seguiam-se ansiosos, um após outros, por semanas, meses, e quando mal se deu sociais, falam da televisão, dos jornais e suas falácias. Falam sobre Brasília, as
conta chegou o fim do ano, as festas, a necessária senhora Esperança a refazer mobilizações pelo país, o Estado, o Município, como anda em risco a Educação,
listas de intenções. E lá vamos nós de novo. as ocupações das escolas, a Saúde e a reforma da Previdência, a falta de Segurança,
Mas, precisa ver o mar, foi ver o mar. Preparar-se era preciso. Além da decisão, a retirada de Programas Sociais, as demissões em massa, os direitos civis, os
é claro. humanos, da parcela da sociedade mais conservadora, a redução das ações
Roupa confortável, sapatos fáceis de tirar, um top e um biquíni por baixo do sociais, os transportes, tudo, tudo destruído, uma tristeza... De vez em quando,
moletom – vai que chega na orla e bate vontade de dar um mergulho? Um “tibum” param quando o debate acalora, seguem dois passos, param de novo e assim
rápido, seguido de banho de chuveiro na praia... Nunca se sabe... Vai que a praia seguem até a esquina com a praia, em frente ao Hotel Novo Mundo. Nesse instante,
hoje está para banho, vai que acontece de encontrar amigos, papo vai, papo vem, a amiga já sem saber o que fazer com sua indignação, explode e diz: Por isso
uma caminhada mais longa e puxada para acompanhá-los e depois, obviamente, tenho vontade de ir embora daqui, desse inferno.
tibum, um banho. Já podia sentir os cabelos molhados escorrendo água pelas
costas abaixo até ensopar o moletom, empapar os sapatos confortáveis de borracha,
croc croc croc, e vir barulhando de propósito pelo caminho feito criança. E só isso
já lhe colocava um sorriso no rosto, quando pensava no olhar de estranhamento
das pessoas.
Descia a Silveira nessa expectativa e já sentia o cheiro do mar, um cheiro que
só a Primavera do Rio tem, e que carioca sabe ser o ar que respira. Existem outros,
mas esse é uma promessa. Do outro que vem depois. O do Verão. Inigualável.
E descia assim, toda carioca, Silveira para o mar. Nem reclamou do cocô de
cachorro no meio do caminho deixado por cuidadores pouco responsáveis, nem
do lixo do vizinho mal-educado que insistia diariamente em colocar os sacos de
plásticos cheios de lixinho de pia na calçada minutos depois do lixeiro passar,
nem da árvore tão linda que havia na Silveira e que caiu numa das tempestades
fortes e não foi replantada e só existe ainda na foto de capa do seu celular, nem do
carro que avançou o sinal e quase pegou o senhorzinho que canta no encontro da
102
TIBUM LUCIA HELENA RAMOS
Então, ela para, mas diferente das outras vezes, olha em volta, o Aterro do Fla- se acostumado com tudo isso. Mas não, porque isso lhe dói. Talvez seja louca, fora
mengo do outro lado da avenida ampla. A brisa de maresia já chega mais forte para da realidade, pensa.
acudir, o vento enche os pulmões quase já sem ar de novo. E há o som dos carros, – Talvez você tenha razão, mas essa é a minha casa, meu quintal. Não consigo
o jogo de futebol na quadra da praia, o jardim mal cuidado, mas ainda tão belo, o ver o inferno do qual você fala. Só vejo o mar, só sinto seu cheiro, só vejo as pessoas,
parque das crianças no Palácio da República, as palmeiras que esperam as maritacas esse jardim e sua promessa, como em tudo. E sinto um imenso afeto, um carinho,
arruaceiras que passam aos bandos gritando da montanha para a beira do mar. uma doçura pelo meu quintal da minha casa. Você entende?
Procura o inferno, mas não consegue identificá-lo. Talvez esteja escondido sob Os olhos de águas salgadas se encontram. Depois, olham o Pão de Açúcar.
as passarelas do Aterro, na violência que espreita e sempre espreita, sabe disso. Sentam-se as duas, de frente para a baía de águas turvas, sobre o Rio Carioca –
Talvez esteja nas populações de rua, sem teto, que usam arbustos para dormir uma hoje uma rede de esgoto canalizado com suas águas “tratadas” por uma usina de
noite de sono e enfrentam diariamente as ruas agressivas e, tantas vezes, pouco tratamento de efluentes.
solidárias da cidade. Talvez esteja na poluição dos carros, dos lixos deixados, dos E naquele dia não teve “tibum”.
canteiros destruídos, no ar da cidade por vezes tão difícil de respirar. Talvez tenha
na cidade
maravilhosa
LUCIA MORAES
UMA TUCUJU NA CIDADE MARAVILHOSA LUCIA MORAES
Ela veio de longe para estas bandas cariocas, em busca de uma nova vida. Ao Cada vez se dava conta de que o Rio de Janeiro foi desenhado com muito
chegar, se deparou com a cidade tão falada e retratada nos meios de comunicação zelo pelas mãos da natureza. As montanhas namorando o mar, que beijava a
e nos livros. Era um sonho, um lugar sedutor e diferente do que sempre viveu. areia em contraste com o céu. Sentia poesia, literatura, a imagem do criador
A cada coisa que via era um encanto, uma nova descoberta. Era fascinante em tudo que presenciava.
apreciar paisagens que nunca imaginara conhecer, a não ser pelos livros, televisão Viveu por alguns anos acorrentada, mas um dia se emancipou, caminhou,
e pela sua imaginação. alçou voos, transpôs os obstáculos e foi em busca de seus ideais.
Quando ela andava por ruas do Rio e se via diante de avenidas, museus, E foi na Cidade Maravilhosa que ela teve a oportunidade de estudar, de abrir os
praças e largos, era puro maravilhamento. Como era interessante conhecer ao horizontes e agarrou cada um que foi surgindo. E não foi fácil sair do comodismo,
vivo tanta belezura! ter que enfrentar os desafios, seus monstros internos e externos. Mas foi se embre-
Em vários momentos se via falando com seus botões e em voz alta: nhando, rompendo as barreiras, tropeçando e levantando.
- Nossa! Palácio do Catete! Um dia, no Curso Normal, uma das professoras pediu que escrevesse sobre
- Teatro Municipal! sua vida. Num determinado trecho, escreveu sobre aquele lugar que foi o pontapé
- Paço Imperial! inicial que despertou seus sonhos, onde começou a traçar sua independência
- Arpoador! profissional e deu a guinada em sua vida, o PRÓ SABER. Belo lugar, acolhedor, no
Humaitá. E ela escreveu numa folha de papel verde, que representava a esperança,
o princípio do sonho, emocionando a professora.
A partir desse pontapé, essa Tucuju não parou, foi se embrenhando pelo
universo do conhecimento cada vez mais, com novas descobertas. Foi passeando
por diversos espaços da cidade de encantos mil, desprendendo-a do vazio que
habitava para uma realidade que foi se modificando.
Quantas experiências, tantas histórias, muitas vidas passaram na sua. Novas
descobertas, sua mente que se abriu para o mundo, sonhos renovados, caminhos
mostrados, grandes ideais e oportunidades oferecidas.
Teve tristezas, sim, decepções também, muitas lágrimas de descontentamento
e de alegrias que formaram sua história.
A Mulher Tucuju sempre gritou aos quatro ventos que seu lugar de origem lhe
bastava. Hoje tem plena certeza que o Rio de Janeiro faz parte dela, tanto quanto
ela faz parte dele.
Nessa cidade, estudou, cresceu profissionalmente, realizou, realiza e realizará
seus sonhos.
E quando perguntam a ela:
- Tucuju ou Carioca?
Ela brinca:
- Tucujando carioquice pela Cidade Maravilhosa eu vou, eu vou apaixonadamente.
109
O
U NH
SC
RA

Este livro foi composto em Roboto Slab


e impresso pela Gráfica Oficial
para o Instituto Ekloos.
2017

Você também pode gostar