Você está na página 1de 6

1.

Introdução

O caso diz respeito a uma situação em que quatro membros de uma associação amadora
de exploração de cavernas são condenados à morte em decorrência do assassinato do
quinto participante dessa organização, Roger Whetmore. Tais homens, em uma de suas
expedições, ficaram presos dentro da caverna onde se encontravam e, após vinte dias de
permanência, receberam a informação da equipe de resgate que só poderiam ser
retirados do local depois de mais dez dias, aproximadamente. Tendo em vista a situação
deplorável dos sobreviventes, Whetmore sugere que por meio do lançamento de dados,
uma pessoa seja escolhida para servir de alimento aos outros. Entretanto, ao iniciar-se
tal processo, Roger muda seu posicionamento e tenta desistir, porém seus companheiros
não aceitam e lançam o dado na vez dele, que pela má sorte perde e é morto. Após
saírem da caverna, os quatro restantes encaminharam-se para um tribunal de primeira
instância, onde foram processados e condenados à morte pela forca. Recorreram então à
Suprema Corte de Newgarth em decorrência decisão do Tribunal do Condado de
Stowfield. (FULLER, 1976, p. 6-7).

O autor elabora nessa obra uma história fantasiosa, na qual os juízes e seus
posicionamentos permanecem somente no plano das ideias, ou seja, ele deixa claro no
epílogo da dissertação que os fatos expostos são fictícios, embora a significância que ele
queira passar extrapole a ficção. Assim, datas, locais e até nomes foram criados pelo
autor para exemplificar e analisar um enigma um tanto quanto complicado.

2. Desenvolvimento

Serão expostos o caso pelo presidente do tribunal, assim como os pareceres e as


opiniões mais pessoais de cinco juristas no tribunal de primeira instância estabelecido.
Estes visam esclarecer, assim como justificar, as ações dos quatro acusados e do
possível homicídio de Roger Whetmore.

Truepenny, presidente do tribunal, começa seu discurso narrando a situação e as


condições dos exploradores no cativeiro da caverna, dado que obteve provas na fala dos
quatro que sobreviveram. Depois de o júri ser dissolvido, alguns dos seus membros
enviaram uma petição ao chefe do Poder Executivo pedindo que a sentença fosse
comutada. O presidente Truepenny deixa claro aqui que nada foi feito pelo executivo,
pois era esperada a decisão deste tribunal de primeira instância. Ele justifica seu voto no
fato que o tribunal seguiu o único caminho que lhes restava. A lei que advoga sobre este
assunto fala “Quem quer que intencionalmente prive a outrem da vida será punido com
a morte” (N. C. S. A. (n. S.) § 12-A). Tal dispositivo não permite exceções, embora
Truepenny deixe claro que a condição trágica dos exploradores deve ser considerada e
que a clemência pode ser apropriada ao caso. Discursa também sobre a improvável
denegação das petições do júri e do juiz de primeira instância pelo Poder Executivo, já
que há chances de clemência, considerada a situação dos réus. Desse modo, Truepenny
vota pela confirmação da sentença definida pelo Tribunal do Condado de Stowfield de
pena de morte pela forca, porém reconhece que pode ser repensado o caso, assim como
sua sentença, mas deixa bem claro que se isto for feito, haverá uma sobreposição da lei,
ou seja, o espírito na lei, assim como seu real sentido, não vai ser seguido, graças a uma
solidarizarão com os acusados. (FULLER, 1976, p. 10).
O ministro e juiz Foster critica a decisão do presidente, afirmando que a lei vigente deve
ser condenada no tribunal de senso comum. Defende que se o Executivo adotar a saída
de inocentar os exploradores, será realizada a real justiça. Foster acredita fortemente que
a lei não conduza obrigatoriamente à “monstruosa conclusão” de que estes homens
assassinaram Whetmore. Argumenta sobre a inocência deles e, para isso, estabelece dois
princípios que são por si só independentes e suficientes. (FULLER, 1976, p. 11). O
primeiro fala que o direito positivo, aquele criado e regido pelos seres humanos, não se
aplica à referida situação dos membros em julgamento, consequentemente só o direito
natural poderia ser aplicado, ou seja, só as leis da natureza poderiam reger as atitudes
dos exploradores. Ele fundamenta seu argumento no fato de que os exploradores
estavam em um limite extraterritorial, onde só o direito natural poderia ser aplicado, ou
seja, o fato de estarem presos criou um território adverso, deixando-os distantes da
nossa ordem jurídica vigente. À vista dessa situação, Foster deixa claro que as decisões
tomadas dentro da caverna não foram influenciadas pelo direito positivo, mas sim pelo
direito natural, tornando-os inocentes do homicídio, considerada a situação de vida ou
morte que se encontravam. Isso pode ser verificado, pois o direito natural dá liberdade
aos exploradores para estabelecerem um contrato social regido pelas leis da natureza,
onde suas atitudes só poderiam valer dentro da caverna e, assim, foi feito, quando
Whetmore validou seu sacrifício para salvar quatro vidas. (FULLER, 1976, p. 18).

O segundo argumento disserta sobre a legítima defesa. Foster diz que os quatro
exploradores mataram e usaram Whetmore como alimento, pois estavam protegendo a
própria vida. Usando um variado agregado de casos jurisprudenciais para justificar sua
opinião, onde, em todos, os réus foram absolvidos da sentença por estarem protegendo o
direito que é dado a eles à vida, defende fortemente que os réus não são culpados.
Argumenta que as causas da legítima defesa não se concilia com que é dito na lei, mas
sim com seu propósito, ou seja, sair da caverna com vida. Foster, então, deixa seu voto,
afirmando que os réus não são culpados do crime de homicídio contra Roger Whetmore
e, desse modo, o caso dever ser reavaliado, assim como a sentença de primeira instância
deve ser reformada e os réus, absolvidos. (FULLER, 1976, p. 25).

Cabe salientar inicialmente que o juiz Tatting inclina-se para ambos os lados, pois
apesar de mostrar críticas à decisão do tribunal de primeira instância, traz pensamentos
que corroboram a culpa do homicídio de Whetmore aos outros quatro exploradores. Ele
declara, antes de expor suas ideias, que o fator emocional atinge muito na análise do
caso, dito que a situação dos exploradores, nunca antes vivida nas mesmas condições, é
comovente e deve ser considerada, já que a salvação deles custou muitos recursos e a
vida de operários que morreram no resgate. Segue deixando críticas fortes ao modelo de
Foster, afirmando que seu primeiro argumento cai, pois não há como o direito positivo
vigente e atuante da sociedade parar de atingir os exploradores porque estavam com
alguns metros de rocha os separando do exterior ou porque estavam famintos. Ele diz
que não é possível estabelecer em que momento o direito positivo não é mais efetivo e
quando o direito natural passou a vigorar, afirmando que estas ideias são do imaginário
de Foster, são fantasiosas. Não há como conferir validade aos exploradores de aplicar o
direito natural quando bem entenderem. (FULLER, 1976, p. 26-27). Ele derruba, logo
em seguida, o segundo argumento, quando diz que não há um caso de legítima defesa
aqui, já que quando alguém “ataca” para proteger sua própria vida, tal atitude é feita
sem intenção clara, ou seja, por impulso de salvar-se. Desse modo Tatting deixa
evidente que os quatro exploradores fizeram todo o processo intencionalmente, pois
houve o planejamento de como aconteceria o suposto “sacrifício”, a escolha do uso de
dados é um exemplo claro. Derruba também a análise jurisprudencial dizendo que os
casos anteriores expostos não são perfeitamente análogos ao dos exploradores, pois este
possui alguns aspectos únicos, trazendo para a pauta alguns procedentes que Foster
deixou de considerar. (FULLER, 1976, p. 35).

Tatting encerra sua exposição afirmando que não chegou a um consenso. Diz que, por
um lado, matar um homem que não queria ser sacrificado, para todo caso, é um crime
punido com morte e, por outro, punir quatro homens pela morte de outro naquelas
condições em que se encontravam é inaceitável, assim como seria jogar fora os esforços
do resgate. Ele diz que a análise do caso não é possível, já que se têm argumentos
muitos fortes dos dois lados e, dessa forma, Tatting se recusa a expor um voto, passando
a análise para outros juízes e se abstendo de participar do julgamento. É interessante
ressaltar que o presidente do tribunal pergunta, no final da exposição de todos os juízes,
se Tatting gostaria de estabelecer um voto para que, dessa forma, possa se desempatar a
votação e para que a decisão final siga, ou não, o tribunal de primeira instância. Tatting
continua sem se manifestar, abstendo-se da decisão, assim é mantida a decisão inicial de
punição.

Antes de expor seu voto e seus argumentos, o juiz Keen deixa claro que, como cidadão,
ele concederia perdão total aos exploradores, porque estes já sofreram o suficiente para
pagar por qualquer delito que tenham cometido, mas como juiz, seu comportamento
deve e vai ser o oposto. Ele propõe uma análise filosófica acerca dos poderes do país e
da observância rigorosa das normas criadas. Desse modo, disserta que é competência do
executivo decidir o caso e não deste tribunal, deixando claro que todo esse processo é
uma confusão de funções governamentais, já que o judiciário deveria ser o último a
incorrer. Ele fala também que não importa se o que foi feito pelos exploradores:
necessário ou não, injusto ou não e agressivo ou não, a lei existe e deve ser seguida.
Assim, o papel de Keen, como juiz, é aplica-la. Os julgamentos de moral devem ser
postos de lado e o sistema normativo visto da forma mais simples: como a lei foi
transgredida, eles devem ser punidos.

Keen também critica Foster e diz que este tem argumentos falhos e fantasiosos,
mostrando que ele legisla livremente com suas próprias ideias e normas, sempre
procurando lacunas na lei. Discorda de Foster quando este aplica a lei da forma como
está redigida, mas refaz seu sentido conforme seus desejos e argumentos pessoais, o que
para Keen é um absurdo. De forma simples, observa-se que o juiz concorda com alguns
pontos de Tatting. Dentre eles se refere à norma exposta “Quem quer que
intencionalmente prive a outrem da vida será punido com a morte” (N. C. S. A. (n. S.) §
12-A). No entanto, apesar de dizer que esta não foi seguida e que os exploradores
devem ser punidos, ele disserta que a única questão a ser decidida, então, é se o
homicídio foi intencional ou não, o que, na opinião dele e com as provas que tem, não é
possível definir com clareza.

Keen considera a existência de duas vertentes: a rigorosa e a popular. Ele afirma que
uma decisão rigorosa nunca é popular. Desse modo, diante dessa dicotomia, uma
seguirá exatamente o que a lei fala e a outra julgará casos considerando aspectos
psicológicos e experiências desgastantes dos réus, mostrando que esta faz muito mal à
sociedade, devido as suas consequências futuras. Diz ainda que o correto é ser rigoroso,
não seguindo o exemplo de nenhum dos juízes que aqui falaram, dessa forma deve ser
tomada uma decisão certa e irrevogável, seguindo a lei da sua forma mais plena. Ele
argumenta que se nossos antepassados tivessem observado princípios e normas desde
sempre e tivessem sido rigorosos, nós teríamos um sistema jurídico muito mais eficaz.
Keen deixa seu voto, dispondo que o certo é manter o rito da sentença condenatória e
punir os quatro exploradores. (FULLER, 1976, p. 43-51).

Quanto à decisão do juiz Handy, são abordados múltiplos aspectos, principalmente


acerca do direito, suas aplicações e seu seguimento pela sociedade, ou seja, a
observância das normas. No entanto, discute como tema principal a importância da
análise de qualquer caso tomando sempre o senso comum em um plano primário de
visualização e, simplesmente, deixando a teoria abstrata jurídica para um segundo
momento, tarefa essa muito bem realizada pelo público geral. Traz para a pauta um
dado alarmante sobre o caso. Este dita que noventa por cento da opinião pública vai de
encontro à conclusão de que os acusados deveriam ser perdoados ou deixados sob uma
pena simbólica. Assim, ele considera uma tarefa do tribunal seguir a opinião destes,
pois é completamente razoável e decente considerar as experiências psicológicas
desgastantes dos acusados. Todavia, em um segundo momento ele é contraditório e
confuso, porque expõe possíveis pontos que podem superar seus argumentos como “a
opinião pública é fantasiosa e caprichosa; ou que esta se baseia em meias verdades, sem
ouvir testemunhas e sem ter provas; ou até que as leis foram esquecidas, assim como os
dispositivos jurídicos que regram o julgamento” (FULLER, 1976, p. 60-61).

Em seguida o autor expõe possíveis modos dos exploradores escaparem da punição:


pela decisão do juiz, onde se diz que não houve crime praticado; por uma decisão do
representante do ministério público, não requerendo que o processo seja instaurado; por
absolvição do júri; ou por perdão da pena pelo executivo. É exposto certa indignação de
Handy quando não são observados fatores emocionais e pessoais, sendo considerado
apenas estruturas formais e rígidas, por parte dessas quatro instâncias jurídicas no
momento da decisão. Isso quer dizer que o juiz não compreende uma circunstância onde
pelo menos uma delas não se comova com a situação emocional dos réus. Ressaltando
que deve ser evitado que a decisão fique na mão do chefe do executivo, já que ele tem
princípios muito rígidos e o clamor popular tem um efeito contrário nele, Handy fala
que a melhor solução seria que o destino desses homens ficasse fora do tribunal e fora
das mãos do presidente. Ele diz que a decisão deveria ser do júri popular, pois estes
consideram o emocional dos réus. Handy deixa seu voto declarando que se a decisão
fosse dele, se reuniria com o executivo examinaria conjuntamente o caso, parte por
parte, prova por prova. Ele aponta que os réus são inocentes da prática do crime e que a
sentença deve ser reconsiderada (FULLER, 1976, p. 72).

Desse modo, com um empate de votos “dois a favor, dois contra e uma abstenção”, a
decisão do tribunal de primeira estância é mantida e os réus são considerados culpados
pelo assassinato de Roger Whetmore, condenados a forca.

3. Análise Crítica

A referida obra é imprescindível para a introdução do estudo do Direito devido à


multiplicidade de correntes (como o Positivismo, o Jusnaturalismo e o Realismo)
dogmas, temas, preceitos e posições filosóficas recorrentes no campo jurídico,
mostrando-se tal diversidade mais significativa que a própria análise e decisão do caso
em questão. Essa exposição de posicionamentos estimula o aprendiz, dando-lhe uma
noção básica da prática jurisprudencial. As pronunciações de cada juiz representam, ao
longo do texto, tais correntes, proporcionando uma noção concreta, ainda que se trate de
um caso fictício, de como cada linha de pensamento encaixa-se nos postulados do
Direito.

A primeira corrente apresentada é o Positivismo, ainda que parcial, presente na fala do


presidente Truepenny, o qual segue a lei, porém não extirpando certo sentimentalismo.
Consecutivamente têm-se o Jusnaturalismo, defendido por Foster, que contraria a
positivação da norma tendo em vista a situação em questão. Tatting demonstra
influência do Realismo ao prezar pelas circunstâncias em detrimento da teoria, ainda
que se abstenha do voto. Keen é adepto ao Positivismo, uma vez que vê a norma como
algo impreterivelmente a ser seguido. Por conseguinte, Handy mostra-se tendencioso ao
Realismo. Quanto aos temas jurídicos, observa-se na obra questões relacionadas ao
contratualismo, aos limites territoriais e temporários para a efetivação das normas, às
lacunas normativas, à parcialidade, ao propósito da lei e à correlação entre a justiça e a
aplicação do Direito, que nem sempre convergem. Tais temas provocam a reflexão do
estudante, que será extremamente útil na sua carreira profissional.

O autor quis com o texto, apesar de ser fictício, focalizar certos comportamentos
filosóficos divergentes a respeito do direito e do governo. Tais comportamentos que
refletem problemas ainda remanescentes da raça humana (FULLER, 1976, p. 75).
Desejou-se, acima de tudo, colocar em pauta uma discussão solene: Apesar de cinco
homens estarem em condições de vida ou morte, o “sacrifício” de um pode ser
considerado homicídio? Ou melhor, gastar múltiplos recursos para salvar quatro vidas e
depois acabarem com as mesmas na forca por motivos de homicídio, tem coerência?

Esses são questionamentos difíceis de responder mas que, com os votos e opiniões dos
juízes aqui expostos, principalmente as ideologias do juiz Keen, é dito que os quatro
exploradores que sobreviveram ao evento são culpados. Dessa forma, como há provas
que Whetmore desistiu da ideia de sacrifício proposta por ele mesmo, fala-se em um
homicídio doloso por parte dos réus. É posto que apesar das condições dos exploradores
e de seus psicólogos profundamente abalados, eles escolheram uma atitude que não
respeitou a vida de Whetmore, já que ele não se sacrificou e sim foi morto.

Seguindo a proposta do autor, arrisco-me a posicionar-me em relação ao caso. Apenas


fazer uso de uma corrente jurídico-filosófica põe em risco a imparcialidade que um juiz
deve adotar, qualquer que seja o julgamento. Extremismos e excessos sempre perecem
por tornarem os profissionais inaptos a diferentes visões. Reduzir-se ao Jusnaturalismo
subestimaria a supremacia constitucional e legislativa que rege as sociedades. Já fixar-se
no Positivismo seria desconsiderar os inúmeros possíveis acontecimentos dentro de uma
situação que está relacionada a certa lei, extirpando suas interpretações e julgando que
não existem lacunas a serem resolvidas no Direito. Restringir-se ao Realismo seria
minimamente extinguir teorias jurídicas formuladas durante anos por pessoas
competentes para tal. Diante do exposto, podem-se citar exemplos de falhas nos
pronunciamentos dos juízes Keen e Handy devido à extrema redução de seus
argumentos a correntes, não buscando um limite entre a moral e a normatização. Meu
posicionamento seria a absolvição dos réus após a interpretação e a conciliação desses
dois fatores.

Referências Bibliográficas:

Você também pode gostar