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De Leandro Cunha para minha mãe

E se?

E se o dia fosse bem calmo? E se eu não precisasse sair agora? E se eu não estivesse
doente? E se eu pudesse fazer aquilo que quero? E se eu não sentisse isso? E se aquilo
não tivesse acontecido? Certamente, teria sido bem melhor. É da natureza humana sempre
querer o melhor. O problema é quando passamos mais tempo desejando o que não temos
do que aproveitando aquilo que de fato temos e, na maioria das vezes, nem sequer nos
damos conta.
E se eu não precisasse me preocupar com a música alta? E se eu não precisasse sentir
tantas dores? E se eu não precisasse lavar toda essa louça suja? Dentro destes
questionamentos que fazemos em nós mesmos, nunca perguntamos: “e se eu tivesse uma
audição para ouvir?”, afinal, temos a audição. “E se eu pudesse sentir?”, afinal, podemos
sentir. “E se eu tivesse alguns pratos?”, afinal, temos tais pratos. No entanto, não nos
damos conta de que muitas pessoas não podem ouvir, outras não podem sentir, e outras
não possuem pratos sequer para comer.
Apenas nos preocupamos com aquilo que nos aflige. Preocupamos apenas com estas
duas palavras: “e se”. E, por sempre desejar e pouco aproveitar, acabamos por passar mais
tempo olhando para as estrelas do que olhando o que existe de fato ao nosso redor. Não
somos gratos por poder respirar, por poder telefonar para nossa mãe, por poder estar ao
lado das pessoas que gostamos. Também não somos gratos por poder ter o prato de cada
dia, nem por poder tomar um banho com bons sabonetes e água quente. Não somos gratos
por termos água.
Apenas queremos aquilo que não temos, e é nisto que reside o sofrimento, pois nem tudo
o que desejamos pode, de fato, ser obtido naquele momento. Como podemos facilmente
comer se tivermos fome, não é algo que nos atrapalha. E se quisermos água? Ora, basta
abrir a torneira. No entanto, existem coisas que não podemos conseguir imediatamente.
E se quisermos paz dentro de casa? Neste caso, não é só apertar um botão ou abrir a
geladeira.
Às vezes, o dia está sendo difícil, cheio de trabalho e dor. Mas, já paramos para pensar
que ainda temos muita coisa? Muitas vezes, podemos não estar onde queremos, mas ainda
podemos estar em algum lugar, ou seja, podemos existir. Noutras vezes, não queremos
ouvir o que estamos ouvindo, mas, pense, podemos ouvir, e isso já nos permite apreciar
tantas coisas ao longo do dia. E as fortes dores na perna? De fato, são muito incômodas,
mas, não teríamos dores na perna se não tivéssemos uma perna. E, se temos, podemos
andar sem a ajuda de ninguém. Mas, destas coisas, pouco nos damos conta.
Isso porque fomos ensinados a passar mais tempo desejando o que não temos do que de
fato aproveitando aquilo que temos. Vivemos pedindo a Deus para que nos dê aquilo que
nos faz falta, mas não percebemos a enorme quantidade de coisas que ele já nos dá todos
os dias. Dormimos, sonhamos, acordamos pela manhã. Acordar pela manhã já não é algo
que deveria nos deixar feliz? Saber que mais uma chance de viver coisas boas nos foi
dada.
Por isso, devemos passar mais tempo buscando aproveitar o que temos do que desejando
aquilo que não temos. Mas, isso não significa que não podemos desejar. Significa apenas
que, além de desejar, temos também que aproveitar o que temos. Temos que perceber que
o indivíduo que passa a vida a desejar nunca chegou a ter algo de fato, pois sempre deseja
algo melhor. Ele pode ter um carro, mas fica deprimido por não ter um mais potente. Pode
ter uma casa, mas fica triste por desejar um jardim maior.
A consequência é que esse indivíduo passará o resto de seus dias buscando o melhor,
mas nunca vivendo o melhor. Não há nada mais precioso que a vida, pois todo o dinheiro
do mundo, toda a riqueza do mundo, ou toda a felicidade do mundo de nada valeriam se
não pudessem ser vividos por alguém. E, se Deus nos deu o dom da vida, já temos alguma
coisa. Podemos perder todas as riquezas materiais e até mesmo aquilo que nos faz feliz,
mas ainda temos nossa vida, e isso nos permite aproveitar sempre o mínimo que temos, e
permite-nos também buscar novas coisas para nos fazer felizes.
Acontece que, além da vida, temos diversas outras coisas e que nem nos damos conta.
Por isso, a grande mensagem até agora é: aproveite aquilo que você tem. Busque conhecer
aquilo que Deus já te fornece todos os dias e você nem se dá conta. Não deixe de pedir
graças a ele, ou de buscar sempre o melhor. Apenas não fique preso só a isso e entenda
que Deus é um grande arquiteto, e já deu a você todas as coisas que você necessita para
ser feliz.
E sobre nossa vida, temos que entender existem duas coisas: as que podemos controlar,
e as que não podemos. Podemos, agora, piscar os olhos, ou ir até a cozinha. Não podemos,
no entanto, resolver alguns problemas familiares da mesma forma. Também não podemos
acabar com a fome na África. Muitas vezes, não podemos escolher ficar em casa ao invés
de sair, ou evitar que determinadas coisas ruins aconteçam.
Mas, se sabemos que nossas ações em nada podem influir naquilo, por que ainda ficamos
preocupados? A resposta é fácil: porque queremos sempre o melhor para nós. Por isso,
ficamos preocupados. Porém, aqui vai uma pergunta: a preocupação que desenvolvemos
naquele momento pode alterar alguma coisa? Vejamos alguns exemplos disso.
Se ficarmos muito preocupados com a chuva, poderá parar de chover? E se ficarmos
preocupados com algo que pode acontecer ao longo do dia, deixará de acontecer?
Claramente, não. Isso porque não são coisas que estão ao nosso alcance. Por isso, a
preocupação ou a não preocupação não influem no resultado. Então, o melhor é que
tentemos ficar preocupados na menor medida possível.
E isso por um simples motivo: quando estamos preocupados, parte de nossa mente é
ocupada com aquilo. E é uma ocupação desnecessária, afinal, não poderemos mudar com
a preocupação. No entanto, a ocupação que sentimos nos impede de fazer outras coisas,
como estudar ou trabalhar. A preocupação em excesso, então, só nos dá vontade de ficar
deitados. E há algo de muito controverso nisso.
Muitas vezes, ficamos tristes por pensar que talvez não teremos tempo para fazer as
coisas que gostamos. Mas, ao invés de aproveitar o tempo, acabamos gastando esse tempo
pensando em como seria bom se tivéssemos mais tempo. Às vezes, chego tarde em casa
e penso: “perdi muito tempo hoje, e eu poderia ter estudado todo esse tempo. E se eu não
tivesse saído?”, e, o tempo que eu perco pensando isso, eu poderia ter usado para estudar
de fato.
E esse fenômeno acontece por algo que já foi dito acima: porque passamos mais tempo
preocupados com o “e se” do que de fato com o que temos. A preocupação age do mesmo
modo: ela ocupa nossa cabeça com pensamentos e nos impede de agir na vida real. Ela
nos faz pensar, por volta das 23:50, após um dia cansativo: “seria tão bom se eu pudesse
ter deitado mais cedo. Eu poderia ter dormido muito mais”, e, pensando desta forma, e
acrescentando os maus momentos do dia, acabamos por ir dormir bem mais tarde, até
mesmo depois de 01:00 da manhã.
É certo que 23:50 é tarde, mas, por que não aproveitamos esse tempo para dormir, ao
invés de reclamar mentalmente que não tivemos mais tempo para dormir? Afinal,
enquanto reclamamos, perdemos o tempo que temos para dormir. A grande mensagem de
todo este texto é que devemos aproveitar aquilo que temos, e nos preocupar menos com
aquilo que não podemos controlar.
Temos que ser sempre gratos pelas menores coisas que temos, e, sim, devemos desejar
coisas melhores, mas sem nos prender apenas a isso. Podemos não evitar que uma pessoa
que gostamos fique triste por algo que aconteceu na vida dela, mas podemos tentar deixá-
la feliz. Podemos não ter aquilo que queremos, mas temos alguma coisa, e, quando
tivermos consciência disto, veremos que aquilo que temos já possui em si muito valor.
Respire fundo, agradeça a Deus por tudo o que você tem, cuide daquilo que está ao seu
alcance e deixe aquilo que você não pode controlar nas mãos de Deus. E sempre que você
se ver desesperado quando aconteceu algo que você não queria, lembre-se de todas as
coisas boas que Deus já te deu, e que não foi pouca coisa. Saiba aproveitar e viver tudo
aquilo que Deus te deu. Mantenha sua fé e sua esperança naquilo que você não pode
controlar, e sua força e vontade naquilo que você pode. “E se” são duas palavras que
causam inúmeros sofrimentos. Por isso, devemos aprender a viver mais do que temos, e
menos de “e se”.