Você está na página 1de 164

Diretoria

Leilah Landim Assumpção


Nair Costa Muls
Andres Christian Nacht
Antônio César Pimentel Caldeira

Secretaria Executiva
Pedro Strozenberg

COMUNICAÇÕES DO ISER n. 63

Conselho Editorial
Emerson Guimbelli
João Trajano
Napoleão Miranda
Pedro Simões

Organizadores deste número


Clemir Fernandes
Flávio Conrado
Flávio Wiik
Maria das Graças de Oliveira Nascimento

Assistente editorial
Marília Assad

Secretaria
Helena Mendonça
Cléber Victorino

Design Gráfico
Design Genuíno
Bernardo Lac, Maria de Oliveira

Revisão
Órbita Comunicação
Clarisse Viana

Foto de Capa
Betinho e MIR – Campanha Ação da Cidadania
contra a Fome e a Miséria e Pela Vida.
Acervo MIR, abril de 1993,
Rio de Janeiro.

Impressão
Milograph Gráfica e Editora
7 APRESENTAÇÃO
Emerson Giumbelli e Clemir Fernandes

9 INTRODUÇÃO
Flávio Conrado e Flávio Wiik

15 CRONOLOGIA
Maria das Graças de Oliveira Nascimento e André Porto

TRAJETÓRIAS, MEMÓRIAS E AVALIAÇÕES

21 Rubem César Fernandes

23 André Porto

26 Maria das Graças de Oliveira Nascimento

33 Prof. Hermógenes de Andrade Filho

35 Mãe Beata de Iemanjá

37 Narendra Das e Chandra Mani

44 Ana Lucia de Castro

52 Katja Bastos

55 André Mello

59 Cristina Brito

61 Wanda Linhares

64 Renato Chiera

70 Yalorixá Abigail Kanabogy

72 Nilton Bonder

76 Luís Fernando Barbosa Nobre

78 Geovana Nunes
80 Pedro Miranda

81 Alex Polari de Alverga

SERVINDO AO MUNDO
A PARTIR DO SAGRADO

91 O MIR e o Ensino Religioso


no Estado do Rio de Janeiro
Emerson Giumbeli

97 Reconhecendo e vivenciando
o sagrado na natureza
Maria das Graças de Oliveira Nascimento

108 O MIR e a Defesa dos Direitos Humanos


Rosane Griggi

112 A Experiencia
das Aldeias Sagradas
Maria das Graças de Oliveira Nascimento

114 Juventude e Espiritualidade


Flávio Soares

ABORDAGENS ANALÍTICAS DA
CONJUNTURA RELIGIOSA BRASILEIRA

117 As muitas moradas: crenças


e religiões no Brasil de hoje
Carlos Rodrigues Brandão

134 Entre o “inter” e o “exclusivo”


Edlaine de Campos Gomes

144 Política, Espiritualidade e Dádiva


Evandro Vieira Ouriques

161 AS TRADIÇÕES
RELIGIOSAS DO MIR
Maria das Graças de Oliveira Nascimento
e André Porto
Emerson Giumbelli
Antropólogo, Professor do IFCS/
Apresentação
UFRJ e Colaborador do ISER

Clemir Fernandes
Sociólogo e Pesquisador do ISER


mir
Nada mais adequado: um volume de registros e para este na condição de objeto de conhecimento.
perspectivas do Movimento Inter-Religioso do Com o MIR, esses grupos religiosos, a maioria
Rio de Janeiro publicado pelo ISER. Pois as afini- deles “novos”, na terminologia do programa dos
dades e os compromissos que os unem são fortes anos 80, passam a interpelar o ISER na condição
e dignos de uma celebração como esta. de sujeitos. São as suas vozes, principalmente, que
temos a oportunidade de frequentar com esta
É interessante notar que o surgimento do MIR, publicação de Comunicações do ISER.
além de ser um marco no universo do diálogo in-
ter-religioso, levanta reflexões sobre a história do Como foi dito acima o MIR representa um
próprio ISER, prestes a completar 40 anos. Como marco no universo do diálogo inter-religioso,
se sabe, o ISER tem sua origem caracterizada pela entendido como algo que amplia e valida os ide-
confluência de pessoas referidas basicamente a ais ecumênicos. Uma parte considerável desses
três universos: protestantes com vínculos com ideais é canalizada na tentativa do estabeleci-
o ideário ecumênico; católicos, “intelectuais de mento de convergências teológicas entre diversas
Igreja”; acadêmicos de instituições universitá- correntes e tradições religiosas, por caminhos
rias ou congêneres. Reunindo esse pessoal na sempre intrincados e delicados. No caso do MIR,
década de 1970, o ISER ensaiava uma proposta como já notou Marcelo Camurça em artigo
que procuraria, sempre, articular produção de publicado em Tempo e Presença (janeiro de 1994),
conhecimento e ativismo social. a aproximação privilegia outras possibilidades.
Elas apostam na convivência espacial, pela qual
Na segunda metade da década de 1980, juntamen- diferentes grupos religiosos, apresentando-se
te com o Centro Ecumênico de Documentação com suas características próprias, celebram um
e Informação – CEDI e o Conselho Nacional de encontro, sem a pretensão de um resultado
Igrejas Cristãs – CONIC, o ISER promoveu o teológico preciso.
programa Diversidade Religiosa do Brasil, com o
objetivo de avaliar o significado e as razões do apa- Essa configuração para o diálogo inter-religioso
recimento e crescimento de “novos grupos religio- possibilita uma amplitude inédita em termos da
sos” e seu impacto para se repensar os contornos diversidade de tradições religiosas reunidas. O
e características do campo religioso brasileiro. Os significado desse resultado no Brasil é valioso em
resultados desse esforço preencheram as páginas um contexto marcado pela histórica hegemonia
de três números de Cadernos do ISER (21, 22 e 23, católica e pelos avanços recentes de grupos evan-
anos 1989 e 1990). Grupos sobre os quais pouco gélicos. Nesse sentido, o MIR tem sido um ator
ou nada se sabia até então receberam descrições social importante na afirmação do pluralismo. O
e comentários por parte de estudiosos. mesmo pluralismo se afirma internamente, uma
vez que, em suas celebrações, o MIR não busca
O surgimento do MIR, em 1992, marca, então, um necessariamente uma unidade traduzível em
outro momento na história do ISER. Pois o MIR discursos que seriam assumidos por cada um de
mostrou-se capaz de articular uma variedade de seus participantes. Aí vale também a diversidade
grupos que ultrapassava grandemente as referên- das vozes e das cores, algo que esta publicação pro-
cias religiosas que haviam participado da funda- cura captar através de muitas palavras e algumas
ção do ISER e que até aquele momento só existiam imagens ilustrativas.
 Mas nem só de celebrações vive o MIR. Ou Este número de Comunicações do ISER foi pensado
melhor: muitas das suas celebrações estiveram e planejado para ser lançado em 2007, por ocasião
associadas a engajamentos em causas concre- dos 15 anos de existência do MIR. Vários foram os
Comunicações do ISER

tas. Revelam-se, assim, como parte de ações esforços neste sentido, principalmente para con-
que marcam o comprometimento do MIR com seguir textos e entrevistas de líderes das diversas
certas ações sociais. Algumas delas são registra- tradições religiosas que compõem seu amplo es-
das e comentadas neste volume, cobrindo uma pectro. Identificar e localizar pessoas representati-
diversificada pauta de temas. Gostaríamos de vas que participaram do início do Movimento e ter
destacar uma, por sua força e sentido emblemá- sua participação nesta publicação foi uma tarefa
tico, que Emerson Giumbelli teve a oportuni- desafiadora e nem sempre exitosa. Dificuldades
dade de acompanhar, ocorrida em 1993 e nos pessoais de convidados a escrever, dar entrevistas
anos seguintes. Nesse período existiu o Fundo ou responder questionários, perdas de contatos e
Inter-religioso contra a Fome e pela Vida, que até falhas na memória foram fatores limitadores
formalizou a participação do MIR na Ação na feitura deste trabalho. Reconhecemos ainda que
da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. O a pluralidade de grupos religiosos que compuse-
Fundo Inter-religioso promoveu campanhas de ram e formam atualmente o MIR é mais amplo
arrecadação de recursos e selecionou pequenos que as Tradições aqui representadas.
projetos de geração de renda para serem apoia-
dos, responsabilizando-se pela distribuição dos Entretanto, cremos que conseguir chegar a esta
recursos e acompanhamento dos projetos. formatação, que reúne trajetória, memória,
análises e perspectivas para o MIR, é motivo
Em suas ações, o MIR desenvolveu múltiplas par- suficientemente seguro para contentamento e
cerias, envolvendo organizações e entidades, como celebração. Certamente esta publicação produzi-
o Viva Rio e a URI (Iniciativa das Religiões Unidas, rá alegria e boas lembranças a muitos leitores que
sigla em inglês). O ISER esteve entre essas parcerias participaram e atuam ainda hoje na caminhada
de um modo que podemos considerar especial (a do MIR, além de reflexões e ações positivas que
cronologia e vários outros textos desta publicação somente o futuro poderá revelar. Também será
testemunham isso). Desde janeiro de 2009, por uma fonte primária fundamental para novas
exemplo, mantém em sua estrutura uma secre- investigações de pesquisadores acerca do próprio
tária para servir ao MIR, possibilitando, assim, MIR e das circunstâncias que o forjaram, todas
avanços na comunicação interna e externa, maior no contexto do Rio de Janeiro de 1992, como a
articulação entre as tradições religiosas e fortaleci- Conferência Mundial das Nações Unidas sobre
mento geral das ações. O ISER disponibiliza ainda Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Fórum
seus recursos físicos para encontros regulares do Global das ONGs e a Vigília Inter-religiosa “Um
MIR, como as plenárias e as reuniões de trabalho novo dia pela Terra”, no Aterro do Flamengo.
da Comissão Executiva, além de outros eventos,
como a própria Aldeia Sagrada. Em suma, com esta publicação o ISER reafirma
e reitera seu apoio ao MIR, um compromisso
Mais importante que tudo isso talvez seja a que assume por formas que preservam e respei-
interlocução que o ISER faz com o MIR, princi- tam a sua autonomia.
palmente por intermédio da área de Religião e
Sociedade, visando sempre reafirmar no espaço O MIR já demonstrou de várias maneiras sua
público o respeito e reconhecimento da diversi- importância para o ideário do ecumenismo e do
dade, o valor da democracia e da tolerância reli- diálogo inter-religioso e sua contribuição para o
giosa, a necessidade de defesa de direitos, sejam enfrentamento de problemas sociais, sobretudo
eles sociais, de gênero, de etnicidade, sexuais ou na região do Rio de Janeiro. É o que leitor po-
ambientais. Sempre em busca de uma sociedade derá conferir, em registros e perspectivas, neste
mais justa e permeada pela cultura da paz. volume de Comunicações do ISER.
Flávio Conrado
Antropólogo e Pesquisador
Introdução
Associado do ISER

Flávio Wiik
Antropólogo, Professor da UEL e

Pesquisador Associado do ISER

mir
MIR 17 Anos: e novas concepções são utilizadas para persua-
dir, descrever ou ensinar como deve se promo-
Fé no Diálogo ver ou praticar o diálogo inter-religioso. Várias

e na Participação organizações internacionais, como Religions for


Peace, United Religions Initiative (URI), Parliament
of the World’s Religions, International Association
"Não haverá paz entre as nações, se não
for Religious Freedom (IARF), World Congress of
existir paz entre as religiões. Não haverá
Faiths (WCF) e Temple of Understanding (TOU),
paz entre as religiões, se não existir diálogo
promovem alguma ou várias dessas modalida-
entre as religiões. Não haverá diálogo entre
des. Há iniciativas de diálogos bilaterais, como
as religiões, se não existirem padrões éticos
entre católicos e judeus, entre muçulmanos e
globais. Nosso planeta não irá sobreviver,
judeus ou entre budistas e cristãos; ou ainda
se não houver um etos global, uma ética
trilaterais, como entre muçulmanos, judeus e
para o mundo inteiro".
cristãos. Cada contexto com sua diversidade e
trajetórias religiosas particulares, onde coexis-
Hans Küng
tência e conflito se interpenetram e ajudam a
definir perspectivas inter-religiosas de diálogo
Não há exagero em dizer que o Movimento
e cooperação.
Inter-Religioso do Rio de Janeiro (MIR) é
uma das experiências mais significativas do
O surgimento e desenvolvimento exemplar do
crescente interesse, por toda parte, em criar
MIR na década de 1990, fruto da emergência
espaços de diálogo e cooperação entre as
desse “movimento” no plano internacional,
diferentes religiões. Seja pela necessidade de
é marcado, com efeito, por um conjunto de
reunir esforços para enfrentar problemas
situações singulares que conformaram as
1 Para uma lista das sociais persistentes como a guerra, a fome,
principais organizações e últimas décadas no Rio de Janeiro, no Brasil e
a pobreza e, mais recentemente, a AIDS; seja
aspectos do diálogo inter- no mundo. Isso pra dizer que o MIR é parte do
religioso, ver Beversluis pelas imposições do inarredável pluralismo re-
que poderíamos chamar de “espírito de épo-
(2000). ligioso que se estabeleceu nas últimas décadas
2 O artigo de Carlos ca”. Dentre os sinais desse espírito de época,
na esteira dos deslocamentos humanos ou do
Rodrigues Brandão nesta poderíamos citar o aparecimento de formas
publicação ilustra de for- ativismo misionário em diferentes regiões do
de religiosidade semi ou des-institucionaliza-
ma extensa e perspicaz a planeta; ou ainda para desautorizar lideranças
diversidade dos modos das e a expansão de novas opções religiosas, a
extremistas que fazem uso da religião para
de ser e experimentar o presença da religião no espaço público con-
religioso na sociedade recrutar e mobilizar pessoas para atos e mo-
testando visões sociológicas já consagradas
brasileira. Sobre o tema da vimentos violentos; ou mesmo por um desejo
religião no espaço público, sobre o seu desaparecimento, a emergência
verdadeiro de “celebrar a diferença”, lideranças
ver Casanova (1994), Beyer de uma sociedade civil que busca redefinir a
(1994) e Birman (2003). religiosas de várias partes do planeta se enga-
agenda pública nacional e internacional, o
Sobre a sociedade civil jaram, sobretudo a partir da metade do século
internacional, ver Vieira ressurgimento de diferentes modalidades de
XX, na tarefa de inventar diferentes formas e
(2001). Sobre o “funda- 1 “fundamentalismo” religioso, entre outros.
mentalismo religioso”, plataformas de diálogo e cooperação.
Todos eles a ocupar a reflexão de estudiosos e
ver The Fundamentalism
Project, de Martin Marty analistas engajados em diferentes abordagens
Fala-se de diferentes níveis e formas de diálogo
e Scott Appleby. e produzindo, frequentemente, uma profusão
10 de ideias ora contraditórias ora complemen- e de novas relações com o Estado, entre outros
2
tares sobre esses fenômenos . Estaríamos, (Ioschpe, 1997; Landim, 1998).
então, diante de redefinições tanto no campo
Comunicações do ISER

conceitual quanto das práticas, a exigir-nos As mudanças descritas acima são o pano
novas posturas e mentalidades. de fundo sobre o qual atores religiosos têm
buscado redefinir o seu lugar na sociedade
Esta publicação é resultado do interesse em a fim de influir sobre a “religião civil”. E essa
valorizar uma experiência singular que des- redefinição não nos permite supor uma única
taca a capacidade que as religiões têm de se direção, já que não é tão simples — como geral-
reinventar a partir do redescobrimento de mente se supõe — traçar fronteiras claras entre
suas raízes fundantes, no diálogo entre si e assistencialismo e política ou entre caridade
com as questões prementes do saeculum, como e solidariedade social. Isso porque as motiva-
a luta pela democracia, os direitos humanos, ções e as representações que delas fazem os
a paz e a justiça social, a ética na política e a seus agentes permitem muitos arranjos entre
luta ecológica. Experiência que reflete deter- lógicas de reciprocidade (humanitárias ou reli-
minados valores que o ISER tem trabalhado giosamente motivadas) e a lógica da cidadania
para disseminar na sociedade brasileira, como (Novaes, 2005).
tolerância, respeito à diversidade e democracia
participativa. Buscando caracterizar as novas formas de
solidariedade e ativismo social na Améri-
A emergência da sociedade civil e ca Latina, Rubem Cesar Fernandes (1994)
a religião da cidadania reconhecia que as chamadas organizações
não-governamentais, que corresponderiam à
Vale a pena lembrar, portanto, que, nas últimas “sociedade civil organizada”, mobilizadoras
duas décadas, “solidariedade”, “cidadania”, de ações privadas, porém com forte interesse
“terceiro setor”, “filantropia empresarial” e público, comporiam apenas a ponta do iceberg
“ONG” são palavras que pouco a pouco foram social. Existiriam outras articulações e formas
se tornando corriqueiras no vocabulário da de solidariedade que estariam “abaixo da
mídia e do senso comum. Multiplicaram-se, linha d’água”, principalmente em contextos
da mesma forma, publicações e pesquisas de religiosidade e magia, dinâmicas religiosas
acadêmicas nas quais essas categorias contri- associadas aos serviços de cura e ajuda mútua
buem para incrementar ainda mais o debate — relações de reciprocidade, obras de caridade
acerca do papel da “sociedade civil” no mundo católica e espírita, uma densa rede social com
contemporâneo. Esse debate tem assumido suporte institucional dos evangélicos, “um
contornos complexos no Brasil e na América campo pleno de vida simbólica e de dinâmi-
Latina, já que referidos a processos de longo cas criativas” que precisam ser levadas à sério,
curso nessas sociedades, tais como a gestação abrindo-se para suas linguagens e valores.
de um campo plural de interações entre grupos
3
sociais distintos, de parcerias e de levantamento Alguns estudos empíricos do fenômeno
de recursos na ação social; a re-semantização ou corroboram a afirmação de Burity (2000) de
publicização do campo da ação assistencial; a que, durante os anos 1990, houve uma pau-
visibilidade e valorização de organizações e ini- latina abertura para a aceitação e estímulo à
ciativas voluntárias da sociedade, formalizadas contribuição da ação de grupos religiosos na
ou não, diante de problemas sociais; a revisita a área social e que houve significativa alteração
formas de sociabilidade referidas a valores como nas relações entre Estado e sociedade, bem 3 Mariz (1994), No-
vaes (1995; 1998), Gium-
solidariedade, confiança, gratuidade, ou a práti- como na configuração da ação coletiva, com-
belli (1994; 1995; 1998),
cas baseadas na reciprocidade; a conformação e binando elementos tradicionais e inovadores, Landim (2001), Conrado
disseminação de uma ideia de “sociedade civil” especialmente em um contexto em que a des- (2003; 2006).
regulamentação e despolitização das políticas Creio que podemos dizer que o MIR ilustra 11
sociais recolocaram na agenda a relevância das de modo interessante essa noção, na medida
ações filantrópicas. em que atualiza e conecta o Brasil com pro-

mir
cessos emergentes de estruturação do diálogo
O MIR é, como vários dos depoimentos e inter-religioso, fundamentais sobretudo em
artigos vão destacar, fruto desse processo de partes do mundo conflagradas por diferenças
intensificação da incursão dos atores religio- religiosas ou nas quais a religião é um dos
sos na constelação de redes e estratégias de elementos diacríticos no conflito. Seu surgi-
enfrentamento da pobreza e da violência ou mento durante a ECO 92 marca a disposição
da luta pelos direitos de cidadania, sobretudo e o ethos de um movimento com profundos
civis, sociais e ambientais. Não é por acaso compromissos locais, mas positivamente
que o “mito fundacional” do MIR começa na inseridos em espaços globais de trocas e expe-
4
Conferência das Nações Unidas para o Meio riências inter-religiosas.
Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida
como ECO 92, mais especificamente no Fórum Outro aspecto particular do vanguardismo do
Global das ONGs, onde as diferentes religiões MIR se relaciona com a presença de diferentes
presentes realizam a Vigília Inter-Religiosa religiões num mesmo espaço de trocas; reli-
pela Terra, com a presença do Dalai Lama e de giões que, embora pouco representativas no
Dom Hélder Câmara, entre outros. campo religioso brasileiro, são significativas
do ponto de vista de sua presença no mundo
Mais do que isso, o MIR ganha momentum ao contemporâneo e recobram o que o rabino
longo da década de 1990 exatamente forta- inglês Jonathan Sacks chama de “dignidade
lecendo os movimentos cívicos de luta pela da diferença”. Uma vez que são valorizadas e
cidadania e pela pacificação do Rio de Janeiro, postas lado a lado, na mesma “aldeia sagra-
ora através do manto profético da religião que da”, expressões religiosas já profundamente
denuncia, ora do manto integrador da religião estabelecidas, numericamente e/ou cultu-
que unifica. Nos dois casos, a sacralização e ralmente majoritárias no Brasil — como as
celebração da diversidade do MIR em meio ao tradições cristãs e afro-espíritas — e tradições
caos da violência e injustiça características do espirituais orientais ou neorientais só recente-
Rio de Janeiro das duas últimas décadas seriam mente presentes em terras brasileiras — como
particularmente poderosas e legitimadoras Ananda Marga (hindu), Zen Budismo ou Fé
para esses movimentos. Bahá’í —, estamos diante de uma outra forma
de organizar a relação entre as religiões. Uma
O diálogo na multiplicidade das forma que subverte os modos normativos de
vozes: como se faz inter-religioso estruturação do campo religioso referenciados
“glocal” no monopólio católico encompassador e, mais
recentemente, no ecumenismo institucional
Alguns autores têm usado o termo “glocalis- das igrejas cristãs no continente.
mo” para se referir ao modo como tempo e
espaço parecem estar “entrando em colapso” O MIR agencia e abre espaço para a diversidade
— aquilo que Giddens chama de compressão e a multiplicidade de vozes, ritos, símbolos
4 Uma das suas prin- espaço-temporal ao caracterizar, segundo sua e variadas expressões de crer, de participar e
cipais lideranças foi, até
2009, o coordenador da concepção particular, a modernidade contem- de ser religioso no Brasil contemporâneo. Ao
Iniciativa das Religiões porânea —, produzindo efeitos e processos re- fazê-lo, ressignifica nossa autoimagem de país
Unidas — URI para Amé- flexivos nas práticas e concepções dos sujeitos, tolerante e aberto ao diferente e redefine os
rica Latina e Caribe. Não
foi à toa que a Assem- de modo que dicotomias como local/global contornos do pluralismo à brasileira, alargan-
bleia Mundial da URI, em não fazem mais tanto sentido como antes do as fronteiras do “religioso” e construindo
2000, foi realizada no Rio (Brodeur, 2004). nossa versão da religião globalizada.
de Janeiro.
12 Este número de Comunicações do ISER, por- Sociais de Recife, Vol.16, n. 1, pp 29-53.
tanto, comporta muitos significados que estão
impressos nos depoimentos e entrevistas de CASANOVA, Jose. (1994), Public Religion
Comunicações do ISER

vários dos membros da primeira e da segunda in the Modern World. Chicago: Chicago
5
geração do MIR. Trata-se, então, menos da University Press.
preocupação em dar uma contribuição para
o debate acadêmico sobre as relações entre Conrado, Flávio. (2003), Evangélicos e
religião e cidadania ou sobre as formas de co- Ações Voluntárias: Notas sobre o campo da ação
municação e entendimento entre as religiões social protestante e seu ativismo. Relatório Final
no Brasil contemporâneo que de oportunizar, da Pesquisa “Voluntariado no âmbito das
aos que têm participado dessa experiência, instituições religiosas e das comunidades
uma celebração desses 17 anos, recontando populares”. Rio de Janeiro: ISER.
uma interessante trajetória que constrói o
diálogo na base da abertura ao outro e à di- CONRADO, Flávio. (2006), Religião e
versidade religiosa brasileira. A exceção são Cultura Cívica. Um estudo sobre modalidades,
dois textos, de Edlaine Gomes e de Carlos oposições e complementaridades presentes
Rodrigues Brandão, que nas suas análises nas ações sociais evangélicas no Brasil. Tese
põem em perspectiva as dinâmicas do campo (doutorado) – UFRJ, Programa de Pós-
religioso brasileiro e, ao fazê-lo, nos permitem graduação em Sociologia e Antropologia,
entrever o pano de fundo das transformações, Rio de Janeiro.
dos jogos e deslocamentos nos significados de
ser religioso no Brasil. Fernandes, Rubem César. (1994), Pri-
vado, porém Público: o terceiro setor na
Referências Bibliográficas América Latina. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará.
BEYER, Peter. (1994), Religion and Globali-
zation. London: Sage. GIUMBELLI, Emerson. (1998), Caridade,
Assistência Social, Política e Cidadania:
BEVERSLUIS, Joel. (2000), Sourcebook of práticas e reflexões no espiritismo. In:
the World's Religions: An Interfaith Guide to LANDIM, Leilah (org.). Ações em Sociedade.
Religion and Spirituality. Novato: New World Militância, caridade, assistência etc. Rio de
Library. Janeiro: Nau Editora.

BIRMAN, Patricia (org.). (2003), Religião e GIUMBELLI, Emerson. (1995), Em Nome 5 Considero a primeira
geração do MIR aquela
Espaço Público. São Paulo: Attar Editorial. da Caridade: Assistência Social e Religião nas que foi a geração funda-
Instituições Espíritas ─ Vol I. Projeto Filantropia dora. Entre estes, Nilton
BRODEUR, Patrice. (2004), “From Post- e Cidadania: Textos de Pesquisa, Rio de Bolder, Pe Renato Chiera,
Mãe Beata de Iemanjá,
modernism to ‘Glocalism’: Toward a The- Janeiro: ISER. Prof. Hermógenes, Ana
oretical Understanding of Contemporary Lúcia, Narendra Das e
Arab Muslim Constructions of Religious GIUMBELLI, Emerson. (1994), Faces e Chandra Mani. Após
1999, a formação de uma
Others” In: SCHAEBER, B. & STENBERG, Dimensões da Campanha contra a Fome. Pro- coordenação executiva e a
L. Globalization and the Muslim World: Culture, jeto Ação da Cidadania: Memória, Rio de filiação à URI inicia uma
Religion, and Modernity. Syracuse: Syracuse Janeiro: ISER. nova fase e novas lideran-
ças surgem, o que poderia
University Press. ser considerada uma se-
o
IOSCHPE, Evelyn. (1997), 3 Setor: Desen- gunda geração. Há relatos
BURITY, Joanildo. (2000), “Redes Sociais volvimento Social Sustentado. São Paulo: Paz das seguintes lideranças:
Evandro Euriques, Graça
e o lugar da Religião no enfrentamento de e Terra. Nascimento, Rosane Gri-
situações de pobreza”. Cadernos de Políticas gi, Katja Bastos.
LANDIM, Leilah. (2001), “Generosidades 13
brasileiras e os tempos que correm”. Praia Ver-
melha, n. 5, segundo semestre, pp.88-117.

mir
LANDIM, Leilah (org.). (1998), Ações em
Sociedade. Militância, caridade, assistência etc.
Rio de Janeiro: Nau Editora.

MARIZ, Cecília. (1994), Coping with Poverty:


pentecostals and Christian base communities
in Brazil. Philadelphia: Temple University
Press.

Novaes, Regina. (2007), “Hábitos de


doar: motivações pessoais e as múltiplas
versões do ‘espírito da dádiva’”. In: BRITO,
M. & MELO, M. (orgs), Hábitos de Doar
e Captar Recursos no Brasil. Rio de Janeiro:
CICLO; São Paulo: Peirópolis.

NOVAES, Regina. (org.). (1995), Pobreza e


Trabalho Voluntário – estudos sobre a ação católi-
ca no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: ISER.

Novaes, Regina. (1998), “Juventude e


Ação Social no Rio de Janeiro: resultados
de pesquisa”. In: LANDIM, Leilah (org.),
Ações em Sociedade. Militância, caridade, assis-
tência etc. Rio de Janeiro: Nau Editora.

VIEIRA, Listz. (2001), Os Argonautas da Cida-


dania. A sociedade civil na globalização. Rio de
Janeiro/São Paulo: Editora Record.
Maria das Graças de
Oliveira Nascimento
Membro da Comissão
Cronologia
Executiva do MIR

André Porto
15
Ex-coordenador do MIR e

Ex-coordenador da Iniciativa das

mir
Religiões Unidas (URI) para a

América Latina

Linha do Tempo | 1992 – 2009


1992 –1997 | Bases para o Diálogo Inter-Religioso

Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – ECO 92


(CNUMAD), 3 a 14 de junho de 1992. Rio de Janeiro, RJ.

Forum Global de ONGs no Aterro do Flamengo, 3 a 14 de junho de 1992. Rio de Janeiro, RJ.

Vigília Inter-religiosa Um Novo Dia Pela Terra, organizada pelo ISER, reunindo 25 mil pessoas
de 25 tradições, de 4 para 5 de junho 1992. Rio de Janeiro, RJ.

Fundação do MIR. 5 de junho de 1992, Rio de Janeiro, RJ.

Vigília Inter-religiosa Pela Ética na Política, na Fundição Progresso. Movimento pelo impeach-
ment de Fernando Collor de Mello. 7 de setembro de 1992, Rio de Janeiro, RJ.

Campanha Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e Pela Vida. Show no Arpoador com
Caetano Veloso, Betinho e MIR. Abril de 1993, Rio de Janeiro, RJ.

Criação do Fundo Inter-religioso Contra a Fome e Pela Vida, associado ao MIR. 1994, Rio de
Janeiro, RJ.

Campanha Vamos Começar de Novo - 2 Minutos de Silêncio pela Paz na Cidade do Rio de Ja-
neiro. Nasce o Movimento Viva Rio, com as bênçãos do MIR. 17 de dezembro de 1993, Rio
de Janeiro, RJ.

Orações pela Paz no Aterro, Cinelândia e Corcovado, organizado pelo MIR. 18 de dezembro
de 1993, Rio de Janeiro, RJ.

Reage Rio, manifestação pela paz, com participação do MIR, organizada pelo Viva Rio, que
reuniu 300 mil pessoas no Centro do Rio. Novembro de 1995, Rio de Janeiro, RJ.

1º Julgamento do massacre de Vigário Geral. MIR e Afroreggae organizam marcha pela cidade
até o tribunal e fazem manifestação de pedido de justiça. 1997, Rio de Janeiro, RJ.

Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas, Rio+5, Cerimônia Inter-religiosa, Junho
de 1997, Rio de Janeiro, RJ.

Série de eventos inter-religiosos em que as tradições religiosas se alternam como anfitriãs


16 para compartilhar sua mística, cultura, culinária e arte. 1994-1997. Ocorridos na sede do
ISER, Rio de Janeiro, RJ.
Comunicações do ISER

1998 – 2003 | Compartilhando o Sagrado, Servindo ao Mundo

1º. Encontro Nacional da URI – Iniciativa das Religiões Unidas - Criando uma Visão de Diálogo no
Brasil. MIR tem uma participação significativa e protagonista. Maio de 1999, Itatiaia, Rio de
Janeiro, RJ.

Campanha 1 milhão de assinaturas em prol da Lei Estadual de Controle de Armas. MIR apoia
ação coordenada pelo Viva Rio. 1999, Rio de Janeiro, RJ.

Criação da Comissão Executiva do MIR. 1999, Rio de Janeiro, RJ.

Evento 72 Horas de Paz, coordenado mundialmente pela URI em 100 países. No Rio de Ja-
neiro o evento acontece no Corcovado, sob organização do MIR. 31 de dezembro de 1999
(passagem do milênio 1999/2000).

Campanha Basta Eu Quero Paz – Mural da Dor, organizada pelo Viva Rio no centro do Rio.
MIR organiza a cerimônia de encerramento no Largo da Carioca lotado. Julho de 2000, Rio
de Janeiro, RJ.

Processo de articulação política pela inconstitucionalidade da Lei do Ensino Religioso


Confessional, aprovada pela ALERJ no ano 2000 e pela aprovação de uma lei substituta em
concordância com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em parceria com o Deputado
Estadual Carlos Minc. Rio de Janeiro, RJ.

Seminário Diálogo entre as Civilizações: Modelos Concretos para a Integração Cooperativa da Humanida-
de, Uma Contribuição Brasileira, Centro de Informação das Nações Unidas (UNIC) e Organização
das Nações Unidas para Educação e Cultura (UNESCO). MIR integra a comissão organizadora.
Dezembro de 2001, Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro, RJ.

Assembleia Global da URI - Compartilhando o Sagrado, Servindo ao Mundo. O MIR participa


da coordenação do evento e promove simultaneamente a 1ª. Aldeia Sagrada, no Parque Lúcio
Costa (próximo ao hotel). Agosto de 2002, Hotel Gloria, Rio de Janeiro, RJ.

Conferência Rio+10 Brasil – Cerimônia Inter-religiosa. Junho de 2002, Rio de Janeiro, RJ.

Marcha em Copacabana pela aprovação do Estatuto do Desarmamento. MIR organiza uma


ala. Setembro de 2003, Rio de Janeiro, RJ.

2ª. Aldeia Sagrada, com o tema Cidadania Espiritual no Século 21. Parque Lúcio Costa, agosto de
2003, Glória, Rio de Janeiro, RJ.

2004 – 2009 | Irradiando Culturas de Paz

Criação do Fórum Permanente Estadual de Direitos Humanos - RJ (FOPEDH). MIR integra a


Comissão. 2004, Rio de Janeiro, RJ.
II Congresso de Ensino Religioso, organizado pela ONG Brasil Sadio, vinculada à Igreja Batis- 17
ta, na UNIG – Universidade de Nova Iguaçu. O MIR participa em três momentos: Oficina,
Exposição, Plenárias e Cerimônia Inter-religiosa. Junho de 2004, Nova Iguaçu, RJ.

mir
Lançamento da Cartilha Diversidade Religiosa e Direitos Humanos, Secretaria Especial de Di-
reitos Humanos da Presidência da República, com apoio do Movimento Inter-Religioso do
Rio de Janeiro – MIR e outras entidades. Novembro de 2004.

2ª Assembleia URI Brasil, Curitiba. Participação significativa do MIR. Novembro de 2004,


Curitiba, PR.

3ª. Aldeia Sagrada com o tema A Espiritualidade no Cotidiano, Parque Lúcio Costa. Agosto de
2004, Rio de Janeiro, RJ.

Programa de rádio Espaço Sagrado do MIR - Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro, Rádio Viva
Rio, AM 1180. Realizados 10 programas, tendo como principal parceira a Rádio Luteranos
Brasil, que os retransmite em rede nacional e internacional. Outubro a dezembro de 2004,
Rio de Janeiro, RJ.

Evento Espiritualidade e Sustentabilidade: Água o Elemento Comum,  patrocinado pelo Parlamento


Mundial das Religiões/Goldin Institute for International Partnership and Peace. Novembro
de 2004, Taiwan, China.

2ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, Secretaria de Direitos Humanos do Estado do


Rio de Janeiro. Julho de 2004, Rio de Janeiro, RJ.

9ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, promovida pela Secretaria Especial de Direitos


Humanos da Presidência da República. Estabelecidos os primeiros passos para o tratamento da
discriminação religiosa como instrumento de política pública. Junho de 2004, Brasilia, DF.

Realização do Calendário Inter-religioso 2004, Rio de Janeiro, RJ.

Projeto Espaço Sagrado da Curva do S, Parque Nacional da Tijuca, participando das discussões
sobre a necessidade de um relacionamento homem/Natureza mais harmonioso. MIR integra
7 mutirões de limpeza da área. Junho a dezembro de 2004, Rio de Janeiro, RJ.

Resolução nº 4-CONAD, de 4 de novembro de 2004, que dispõe sobre o uso religioso e sobre
a pesquisa da ayahuasca, incorporando sugestões encaminhadas na 1ª Aldeia Sagrada, Diário
Oficial da União de 8 de novembro de 2004, Brasília, DF.

Fórum Social Mundial, organizando o Eixo temático Ética, cosmovisões e espiritualidades – Resistências
e desafios para um novo mundo. Janeiro de 2005, Porto Alegre, RS.

Ato em Repúdio ao Assassinato da Missionária Doroty Stang. Fevereiro de 2005, Cinelândia,


Rio de Janeiro, RJ.

Comemoração dos 35 anos de ISER, Painel Inter-religioso. Junho de 2005, Rio de Janeiro, RJ.
18 4ª. Aldeia Sagrada, com o tema Construindo uma Cultura de Paz. Agosto de 2005, Parque Lúcio
Costa, Rio de Janeiro, RJ.
Comunicações do ISER

Projeto Gente que Faz a Paz, em parceria com UNESCO, Palas Atenas, Viva Rio. Lançado em
25 de agosto de 2005, sede do Viva Rio, Rio de Janeiro, RJ.

Dia Internacional da Paz. 21 de setembro de 2005, Praça Mahatma Gandhi, Cinelândia, Rio
de Janeiro, RJ.

Participação na Campanha pela realização do Referendo das Armas. Outubro de 2005, Rio
de Janeiro, RJ.

Cineclube MIR – Apresentação de filmes e série de debates. Maio a novembro de 2005, Rio
de Janeiro, RJ.

2º Encontro Anual da URI-Brasil. Março de 2006, Campinas, SP.

Campanha Religiões pelo Sim no Referendo do Desarmamento. Março de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

3º Encontro da Rede Desarma Brasil. Março de 2006, João Pessoa, PB.

Celebração do Aniversário de 14 anos do MIR. 5 de Junho de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

Seminário Educação, Cultura e Justiça Ambiental. Junho de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

Encontro de Zeladores de Casas de Santo e Terreiros: Lançamento da Campanha Elos de Axé - Natureza
Viva. Julho de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

Semana Em Defesa da VIDA. Julho de 2006, Rio de Janeiro, RJ.


5ª Aldeia Sagrada, com o tema Irradiando Culturas de Paz. Agosto 2006, Parque Lúcio Costa,
Rio de Janeiro, RJ.

Lançamento da Cartilha OKU ABO Espaço Sagrado, Educação Ambiental para Religiões Afro-Brasi-
leiras. MIR como parceiro. Agosto de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

3º Encontro de Religiões e Filosofias do Rio de Janeiro. Setembro de 2006, Rio de Janeiro, RJ.
III Retiro Inter-religioso na UMAPAZ (Faculdade do meio ambiente). Tema: Ouvir para compre-
ender a natureza. Outubro de 2006, Parque do Ibirapuera, São Paulo, SP.

Desfile em Homenagem ao TD Singh, 15º Ratha Yatra, desfile/ passeio anual das Deidades
do templo Hare Krishna e da comunidade de devotos pelas praias do Leblon e Ipanema. No-
vembro de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

Lançamento do Calendário Inter-religioso de 2006. Dezembro de 2006, Rio de Janeiro, RJ.

MIR passa a integrar o Conselho Consultivo do Parque Nacional da Tijuca, Portaria 103 do
Ibama. Dezembro de 2006, Rio de Janeiro, RJ.
1º Fórum Espiritual Mundial, tema central: Valorizando a diversidade para a construção de uma soli- 19
dariedade planetária, tendo como resultado final a Carta da Cidadania Planetária. Dezembro de
2006, Brasília, DF.

mir
CRDR/Exibição e debate sobre o vídeo Diversidade Religiosa, da SEDH. 2006, Rio de Janeiro, RJ.

Calendário dos Direitos Humanos, Inter-religioso e Interétnico, Lançado pela RIP – Rede Inter
Paz, MIR como apoiador. Março de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Seminário Ensino Religioso nas Escolas Públicas, ISER. Maio de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Comemoração dos 15 Anos do MIR. Junho de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Seminário sobre Ensino Religioso no Chile: compartilhando a experiência brasileira. Junho de 2007,
Santiago do Chile, Chile.

III Encontro da Rede Inter-religiosa Latino-Americana de Educação para a Paz (RILEP). Agosto de
2007, Teresópolis, RJ.

4ª Caravana Comunidade Segura mobiliza organizações civis trabalhando com o tema O Impacto
da Violência sobre Crianças e Jovens. Setembro-novembro de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Lançamento da Campanha Elos de Axé – Natureza Viva como instrumento de política pública,
Superintendência de Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Ambiente do Estado do
Rio de Janeiro. Agosto de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Painel Brasil – Celeiro Espiritual Ontem, Hoje e Amanhã: Sonhando juntos o Brasil que queremos.
Novembro de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Celebração do Dia Mundial dos Direitos Humanos, Rio Com Vida. Dezembro de 2007, Rio
de Janeiro, RJ.

Audiência Pública sobre Ensino Religioso nas Escolas do Estado do Rio de Janeiro com a
presença de pessoas de diferentes religiões, estudiosos, professores, Assembleia Legislativa do
Estado do Rio de Janeiro. Novembro de 2007, Rio de Janeiro, RJ.

Vibrações de Paz para o Rio, Comunidade Unindo Corações, janeiro de 2008, Rio de Janeiro,RJ.

Assembléia Regional da URI, El Retorno a Ytu Saingo, agosto de 2008, Foz do Iguaçu, Paraná.

XVI Anos do MIR, junho, 2008, Rio de Janeiro, RJ.

I CAMINHADA EM DEFESA DA LIBERDADE RELIGIOSA, organizada pela Comissão de


Combate à Intolerância Religiosa formada pelas seguintes Instituições: CEAP, CEUB, CETRAB,
CIAFRO, IRMAFRO, CNEN, CEN, AMAR-RJ, CEDINE, CESJB, CASA BRASILEIRA, ILÈ ASÉ
OSALUFAN, MIR/ISER, CENTRO ESPÍRITA OGUNMEGÉ, entre outros, setembro de 2008,
Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, RJ.
20 Assembléia Extraordinária do MIR, Análise de Proposta de revitalizar o MIR, fortalecer os
laços com o ISER e estabelecer bases para a criação da Secretaria do MIR. Inicia-se um período
de transição do MIR, que irá culminar com o reconhecimento por parte do ISER, de que suas
Comunicações do ISER

atividades integram um projeto do ISER/Área de Religião e Sociedade, mantidas a indepen-


dência e autonomia do Movimento, novembro de 2008, Rio de Janeiro, RJ.

Assembléia Global da URI e Reunião dos Círculos de Cooperação, 30 de Novembro a 5 de


Dezembro de 2008, Mayapur, West Bengal, Índia,

André Porto deixa a Coordenação do MIR exercida durante 17 anos, fevereiro de 2009, Rio
de Janeiro, RJ.

Eleita Comissão Executiva 2009 do MIR, que passa a coordenar suas atividades, apoiada
pelo ISER, marco de 2009, Rio de Janeiro. Estabelece como prioridade a retomada da Aldeia
Sagrada, a ser realizada no período de 18 a 23 de agosto 2009, Gloria, Rio de Janeiro, RJ.

XVII Anos do MIR, 5 junho de 2009, Rio de Janeiro, RJ.


Trajetórias,
Memórias e Avaliações
O MIR em perspectiva 21

mir
Rubem César E uma forte marca do ISER era unir pessoas
que se interessavam ou estudavam religião sem
Fernandes que fossem religiosos. Mesmo quando eram
religiosos, a abordagem era científica. O ISER
Trajetória pessoal e militância pinçava pessoas que tinham esse mesmo inte-
resse pelo estudo e a revista Religião e Sociedade
Desde sempre tive interesse nos estudos de foi o principal instrumento para isso.
ciências sociais. Fiz História. E, naquela época,
dizíamos que só existia uma ciência — a ciência O ISER tem uma origem ecumênica, numa
da história. Tudo era história. Minha família era rejeição aos ritos e valorização do conteúdo,
religiosa e a havia um sentido meio missionário que no final é o mesmo — os direitos humanos.
de ser da família. Mais tarde, nos anos 60, isso se Quando entraram pessoas da Umbanda, dei-
cruzou com a história da revolução social. Então xou de ser ecumênico e passou-se a frisar que se
começou um outro jeito de ser missionário, que tratava de uma organização de estudos da reli-
era a militância social. Depois valorizei bastante gião, era sobre religião e não religioso. Porém,
o tempo de faculdade, de estudo, de pesquisa. eu não considero que o ISER era inter-religio-
Essas duas dimensões, da pesquisa e da militân- so. Havia uma diversidade entre os cientistas e
cia, sempre fizeram parte da minha vida. o mundo religioso. Havia uma tensão entre a
ciência e a fé, mas se reconhecia a importância
A revitalização da sociedade civil brasileira do sagrado, do rito, nessa temática.
se deu na metade dos anos 80, com auge no
início dos 90. Isso se expressou muito no “Fora MIR
Collor”, no movimento da Ação da Cidadania,
do Betinho, no MST, no Viva Rio também. É O MIR surgiu da Vigília da ECO-92. Na vigília
um momento de surgimento de organizações houve uma preocupação muito grande quanto
da sociedade civil que não se estruturavam em ao rito. Primeiro surgiu a ideia de aldeia, com
partidos políticos. Eu fui chamado a dirigir o muitas tendas diferentes. O rito durou a noite
ISER em 1978, pelo Rubem Alves. Eu estava na inteira. Tinha um início comum entre todas
universidade dando aula e ao mesmo tempo as religiões, era um chamado para que todas se
tinha a militância pelo ISER como secretário reunissem. Depois cada uma voltava para a sua
executivo, já no Rio de Janeiro. tenda. No meio da noite, as pessoas se encon-
travam novamente no espaço comum, faziam
Nos meus estudos, quando me tornei antro- trocas e depois, mais uma vez, cada um retor-
pólogo e precisei definir um tema de pesquisa, nava à sua tenda. E no final, com o sol já quase
escolhi a religião. Antes de voltar ao Brasil, es- nascendo, reuniam-se novamente no espaço
tudei filosofia. Mas no Brasil estudar filosofia comum. A dinâmica era muito interessante.
não era tão propício, por isso acabei migrando Nesse espaço comum havia muitas celebrações,
para a antropologia, para o estudo das repre- as religiões mostravam muito mais da sua parte
sentações sociais. No primeiro momento, estética, com músicas, danças. Foi muito rico,
pesquisei mais sobre religião popular. Era um pois como era um evento internacional, tivemos
tempo em que não se estudava muito religião. a sorte de presenciar coisas lindas.
22 Esse encontro e tudo que ele gerou favoreceu
muito o surgimento do MIR. E o MIR já tem
a ideia do inter-religioso, de juntar pessoas
Comunicações do ISER

diferentes que celebram juntas. Muitas das


pessoas que participaram da montagem da
Vigília depois criaram o MIR. E mais à frente,
na criação do Viva Rio, houve também um mo-
mento que se chamou “Orações para o Rio”,
que seguia mesma lógica da Vigilia.

Com o MIR, além de trazer a Umbanda e o


Candomblé para junto dos grupos cristãos,
aproximaram-se também outras religiões mais
marginais, os chamados grupos de aquário,
mais alternativos. Todos estavam no mesmo
plano de legitimidade, era um círculo. Havia
uma valorização do diálogo, da igualdade no
campo religioso. A ligação desses grupos mais
com o social também aconteceu. No Viva Rio,
por exemplo, houve essa articulação com o
social. O MIR tornou-se um participante ativo
em várias atividades que o Viva Rio organizava
contra a violência. Tinha um significado muito
importante por mostrar vozes diferentes se
encontrando e também pela ideia do perdão,
do acolhimento, da aversão à violência, de
fazer a fala da paz. Sempre soubemos que era
possível contar com o MIR nos momentos em
que precisássemos de uma fala religiosa, nos
nossos eventos, nas horas críticas.

Eu considero muito importante o propósito


inter-religioso do MIR. Mas para o Movimento
não se enfraquecer, não ficar repetitivo, acho
que o caminho é explorar as diferenças. Traba-
lhar as diferenças internas é algo mais compli-
cado, que exige maior profundidade de reflexão.
Acho que o ISER poderia ajudar bastante nesse
processo. Para mim, o desafio do MIR é tentar
valorizar as diferenças de tradições, conteúdos,
valores, éticas, ethos, para que o estar junto vá
além de se reunir para pedir paz.

*Rubem César Fernandes é Diretor Executivo


do Viva Rio. Entrevista concedida em 08/2009 à
Marília Assad.
André Porto Então, é durante os anos 90 que a sociedade
civil começa a se sentir empoderada. Emergem
23

lideranças como o Betinho, por exemplo. O

mir
Trajetória pessoal e busca por clima era positivo, de corresponsabilidade com
espiritualidade o governo. Havia um discurso forte sobre cida-
dania. Como a ECO-92 foi no Rio de janeiro,
Eu nasci numa familia de ateus. Minha mãe
sofremos um impacto muito bom. Até aquele
era comunista e psicanalista. Então, não tive
momento as pessoas pouco sabiam o que era
muito contato com a religião e a espirituali-
uma Organização Não Governamental. A
dade na minha infância. Mas, no dia em que
partir daí, o brasileiro começou a entender
fiz 15 anos, eu comecei a estudar astrologia.
o que era ONG, qual sua importância. No
Foi algo que me mostrou a importância do
início ONG era mais ligada à ecologia ou aos
autoconhecimento, de se aperfeiçoar. E com 16
direitos humanos. Havia mais otimismo, um
anos fui iniciado na Ananda Marga, um grupo
pensamento de que sociedade, governo e reli-
de yoga e meditação, e me tornei vegetariano.
giões, juntos, podiam contruir uma sociedade
Fiquei por lá um tempo, mas não me senti
mais justa. Quanto ao inter-religioso, o Brasil
pertencendo. A partir de então, comecei uma
estava mais aberto à pluralidade e se percebia
busca inter-religiosa, de forma autodidata.
como um país de contrastes, um lugar onde
Estudei religião comparada. Buscava muito a
as diferenças ainda eram respeitadas.
vivência, frequentando diferentes grupos. Até
que em 1989 fui morar em Alto Paraíso (GO),
O MIR surgiu de uma boa oportunidade, pois
numa comunidade espiritual que nós funda-
foram 25 grupos religiosos participando da
mos. Nela havia uma creche para as crianças
ECO-92. Para muitos grupos religiosos a ques-
pobres. Criamos também um jornal ecológico.
tão ecológica já era algo estudado há muito
Quando eu voltei (para o Rio de Janeiro), já
tempo. Por isso eles puderam maifestar suas
havia os preparativos para a ECO-92 e estava
opiniões e estudos sobre o assunto. Foi um
começando o processo para a organizar a Vi-
marco também no compromisso das religiões
gília Inter-religiosa. E a Leilah Landim — que
com o meio ambiente.
trabalhava no ISER e até hoje é colaboradora
— era a melhor amiga da minha mãe, sabia
A partir da Vigília da ECO-92, o Rubem (César
que eu tinha muitos contatos e me interessava
Fernandes) , que na época coordenava um
sobre essa questão inter-religiosa. Então me
núcleo de pesquisa do ISER, teve a ideia de
apresentou ao Rubem (César Fernandes) e
fazer um livro sobre as religiões que haviam
me falou do ISER. Comecei a participar das
participado do evento e sobre a atuação desses
reuniões preparatórias da Vigília da ECO-92
grupos durante a ECO. Então eu e mais duas
e trouxe muitos grupos religiosos. O Rubem
pessoas fomos escolhidas para fazer as entre-
me chamou para ajudá-lo na condução das
vistas com os representantes religiosos. Mas o
atividades no palco. Nesse momento surgiu o
projeto acabou não sendo concluído. Porém,
MIR. Mas a ideia de um movimento inter-re-
os encontros com essas pessoas e a reunião
ligioso, mais formal e constituído, veio depois
dessas mesmas pessoas em outras atividades
da ECO-92.
ou manifestações da cidade, fazendo também
vigílias, fez surgir a ideia de um grupo inter-
A década de 90 e religioso mais articulado, com encontros mais
o surgimento do MIR frequentes. As reuniões passaram a ser men-
sais. Organizamos um calendário religioso em
A ECO-92 foi, talvez, o marco principal para a
que a cada mês uma religião, de acordo com
sociedade civil organizada. A Ditadura Militar
suas datas sagradas, era reponsável por receber
acaba em 1985. Em 1988, nasce a Constituinte.
as outras e mostrar um pouco seu universo,
24 através das celebrações. Esses encontros acon- das reuniões mensais. Mas, por conta de uma
teceram no ISER. aceitação mais fácil do brasileiro ao tema do
inter-religioso, o MIR pôde trabalhar com
Comunicações do ISER

Mais tarde, a convite do Betinho, foi criado outros temas referentes à cidadania.
um Fundo Inter-religioso para a Fome. Era
um braço do MIR na campanha do Betinho Importância do MIR
contra a Fome.
Na minha opinião, falta muito do sagrado no
Diálogo do MIR com a sociedade mundo atualmente. O materialismo e o ime-
diatismo são as forças mais poderosas do pla-
Primeiro, é difícil falar do MIR sem o Viva neta. Então, qualquer esforço para trabalhar
Rio, pelo menos no início. O ISER e o Viva o conceito de uma cidadania espiritual é im-
Rio eram ONGs muito próximas. E eu era portante. Acho que o MIR ou qualquer outro
coordenador de eventos do Viva Rio e estava movimento inter-religioso significativo tem o
muito envolvido com o ISER por causa do mérito de trazer valores humanos para todas
MIR. O Rubem também atuava nas duas as outras discussões, seja de meio ambiente, de
ONGs. O MIR preencheu o espaço do sagrado direitos humanos ou justiça social.
na maioria dos eventos do Viva Rio: nos dois
minutos de silêncio no lançamento do Viva Além disso, o mundo tem um histórico terrível
rio, no Reage Rio, no Basta, no evento que de guerras por questões religiosas. E essa so-
fizemos no julgamento de Vigário Geral. Todos lidariedade entre as religiões, tão presente no
eles tinham um espaço para o sagrado, pois MIR, é muito positiva. Em muitos momentos,
eram momentos de dor e perda. Então o MIR quando atacaram terreiros de candomblé ou
preencheu um espaço muito importante, tra- quando houve o caso de ataque à sinagoga, o
zendo o sagrado para as demostrações cívicas MIR se posicionou. Em qualquer ato reconhe-
do Viva Rio. Isto na época era uma novidade, cido como intolerante, o MIR se posicionou.
fazer eventos que pediam paz. Dessa maneira
o MIR foi ocupando um espaço no imaginário Acho que o MIR ainda pode contribuir muito
da sociedade. Aos poucos, conseguiu mostrar mais. Uma das minhas frustrações foi não ter
para a sociedade, principalmente através dos conseguido realizar o projeto do consórcio
eventos que eram divulgados pela mídia, que inter-religioso. A ideia era mapear os grupos
era possível juntar diferentes líderes religiosos religiosos e todos os lugares onde eles atuam
para trabalharem na mesma causa. no Rio de Janeiro e entender suas ações sociais.
Porque, tendo essas informações, é possível
Mas o MIR não aparecia só nesses momentos fazer trocas, se articular melhor até politica-
de evento. É importante destacar que o Brasil mente em prol de causas comuns.
é conhecido como o país do sincretismo. Eu
não via uma dificuldade das pessoas aceita- O MIR sempre ajudou a dar sentido à minha
rem esse diálogo. É claro que havia algumas vida. Desde os meus 15 anos eu venho numa
tensões entre determinadas religiões, mas busca inter-religiosa. Eu realmente já acredita-
no geral era bem aceito. O MIR não precisou va nesse diálogo, entendia que você não precisa
fazer um grande esforço para conscientizar as ser de uma única religião para ser uma pessoa
pessoas sobre o respeito à diversidade religiosa. boa. O MIR confirmou a minha tese de que
Com isso, o Movimento pôde atuar também cada religião tem suas pérolas de sabedoria,
em outras questões: nas campanhas contra a seus valores e seus princípios e que, para ab-
fome, na discussão sobre o ensino religioso e sorver tudo isso, não é preciso negar uma ou
a atuação ambiental. A questão da convivên- outra. Essa vivência do plural, das diferentes
cia inter-religiosa estava sempre nas pautas convivências — e a experiência de ser mediador
em muitos momentos —, acabou por me pro- ou e-mail e por isso muito da articulação se 25
porcionar muitas riquezas e diversidades de perdia. Mesmo assim, a troca entre as duas
pensamentos. Eu só tenho a agradecer a todos instituições sempre foi intensa.

mir
esses anos em que fiz parte do MIR.
*André Porto é ex-coordenador do MIR.
Atuação na Iniciativa das Religiões Entrevista concedida em 08/2009
Unidas (URI) à Marília Assad.

Iniciativa das Religiões Unidas


Em 1997, o Viva Rio organizou o Rio + 5, um
balanço dos cinco anos que se seguiram à A URI - Iniciativa das Religiões Unidas é uma organização
fundada em valores humanos universais e dedicada a
ECO-92. Um representante da URI que fazia
promover o diálogo e a ação inter-religiosa. Está presente
alguns trabalhos no ISER participou do evento. em cerca de cinquenta países, desenvolvendo ações
Descobri que a URI já tinha ouvido falar do comunitárias com a participação de mais de oitenta
tradições espirituais. A agenda da URI compreende
MIR. Por conta disso, em junho daquele ano, direitos humanos, ecologia, economia justa, Cultura da
fui convidado como representante do MIR para Paz e a prática do diálogo inter-religioso.

a II Conferência da URI em São Francisco, nos A força da URI está na sua Carta e nos Círculos de
EUA. Em 1998, levei também a Mãe Beata, nós Cooperação, que são as unidades inter-religiosas locais
ou temáticas. Cada Círculo define suas prioridades
dois representávamos o MIR. Quando a URI e atua orientado pela Carta da URI. Seu potencial
nasceu de fato, em 2000, o MIR, que já vinha de transformação e coesão social, gerado a partir da
interação entre redes religiosas, ONGs e voluntários, é de
participando das conferências, passou a ser um
importância vital para o bem comum.
núcleo da URI aqui no Brasil, é o que eles cha-
Reunindo três ou mais grupos espirituais e um mínimo
mam de círculo de cooperação. Hoje a URI atua
de sete pessoas que subscrevam a Carta, é possível criar
em cinquenta paises e possui aproximadamente um Círculo de Cooperação e integrar a comunidade
quatrocentos círculos de cooperação espalhados internacional da URI. Na América Latina existem vinte
Círculos e ao redor do mundo são cerca de trezentos
pelo mundo. Eu sempre fiz a ponte, traduzindo — uma rede de solidariedade e ativismo inter-religioso
documentos, fazendo a troca de informações. pela Paz.

Em 2000, fui contratado para ser o coordenador Um dos princípios da URI é ouvir a voz de todos,
latino-americano da URI, onde fiquei até março incluindo jovens, mulheres, idosos, indígenas e minorias,
garantindo assim sua participação. O Conselho Global
de 2009, quando pedi demissão. da URI é composto por leigos, lideranças religiosas e
ativistas sociais, representantes escolhidos regionalmente
pelos Círculos de Cooperação. Servindo à sociedade e
O MIR sempre teve um papel significativo
praticando a unidade na diversidade, a URI cria pontes de
na relação com a URI porque a I Assembleia paz e entendimento.
Global da URI, em 2002, aconteceu aqui no
O propósito da Iniciativa das Religiões Unidas é promover
Rio de Janeiro, dirigida pelo MIR. Isso deu a cooperação inter-religiosa permanente e cotidiana, para
uma grande visibilidade ao Movimento. Foi erradicar a violência por motivação religiosa e criar culturas
de paz, justiça e cura para a Terra e para todos seres vivos.
nessa ocasião que surgiu a Aldeia Sagrada,
no parque Lúcio Costa, que acabou virando o Você está convidado a conhecer a comunidade da URI.
Para ter acesso à carta de princípios, acesse o site:
evento mais importante do MIR. Além disso,
www.uri.org/brasil.
o MIR sempre foi uma inspiração para a URI
pelo seu envolvimento nos eventos de paz, de Coordenação América Latina:

desarmamento, pela atuação na lei do ensino Yoland Trevino (therion93@earthlink.net)

religioso. E, por outro lado, para o MIR esse Conselheiros Globais para a América Latina:

contato com a URI foi interessante por mos- Rev. Elias Andrade Pinto – URI Brasil (rev.elias.united@gmail.com);

trar que havia outras instituições com esse Fany Ávila Eleta – URI Panamá (fanyavila@hotmail.com);

mesmo interesse. O idioma sempre foi uma Rev. David Limo Pajar – URI Peru (limo@terra.com.pe).

barreira, porque a língua oficial da URI é o


inglês e poucas pessoas falam inglês no MIR. *Texto extraído do site: www.uri.org/brasil.

Não era possível traduzir cada documento


26
Maria das Graças de toda aquela história de moça de família católica;
eu fiz tudo direitinho. Então, minha primeira
Oliveira Nascimento 1
religião foi a católica e realmente vivi muito isso.
Comunicações do ISER

Foi na mesma época do João XXIII, quando co-


Trajetória pessoal e profissional meçou toda essa abertura da Igreja Católica.

Eu sou natural do Rio de Janeiro. Em termos Então subia morro, descia morro fazendo a
profissionais, sou mestre em engenharia de catequese. A Igreja de Nossa Senhora da Con-
produção pela COPPE/UFRJ e tenho formação solata pegava o morro da Mangueira, Tuiuti e
em estatística. A minha experiência profissional Telégrafo. Estava sempre na ação social e daí
foi no IBGE, durante 30 anos, com diferentes vem toda esta minha história de participação.
cargos de assessoria e comunicação social. E na Esses padres da Consolata eram missionários
Escola de Ciências e Estatística, no Departa- que tinham a maior experiência; eram todos ita-
mento de Ciências Sociais, foi uma experiência lianos e já tinham passado por diversos lugares
muito rica dar aula e também trabalhar como no mundo. Era uma coisa muito rica.
pesquisadora de nível 3, equivalente a analista
de pesquisa, equiparada ao IPEA. A minha Quando eu conheci meu namorado, ele era
área de especialização, planejamento urbano e espírita kardecista; era católico também, mas
regional, veio por conta de todo o trabalho que naquele momento estava espírita kardecista,
eu tive na área de geografia. Quando comecei a indo para Kardec. E ele me disse: “Vai lá para co-
trabalhar no IBGE, como estagiária, no Grupo nhecer”. Era na Cruzada dos Militares Espíritas,
de Áreas Metropolitanas, ajudei a implantar no no colégio Militar, onde encontrei um grupo de
país a geografia quantitativa. Eu vivi o IBGE; pessoas maravilhosas, com todo o ideal de do-
não fui daquelas que passaram, não. Vivi toda ação do espiritismo, da caridade. Eu me sentia
a produção de estatística; trabalhei e hoje reco- bem e complementava algumas buscas que eu
nhecemos muitas coisas sonhadas, que estão aí estava tendo em relação à vida. Mas eu fui mes-
acontecendo na vida profissional. mo para acompanhá-lo e ver o que era aquilo.
Eu comecei, então, a ter alguns embates com
Eu estou aposentada pelo Regime Jurídico Único a Igreja Católica, no sentido de achar que ela
e sempre digo que é uma aposentadoria honesta não dava conta de tudo que eu estava pensando
porque, na Associação dos Servidores, batalha- da vida, principalmente sobre a reencarnação.
mos bastante pela melhoria dos salários. Foi uma Hoje eu não sou reencarnacionista, mas naquele
época muito fértil, em todos os sentidos: tanto momento era. E aconteceram também umas
na capacitação profissional como na questão coisas interessantes: eu comecei a fazer cone-
salarial. E atualmente eu posso me dar o direito xões, comecei a ter algumas intuições e a família
de ser voluntária em várias organizações que têm ficava assustada porque as coisas aconteciam.
a ver com o que eu penso da vida. Começou, então, a se abrir um caminho. Por
exemplo, a morte do Papa (João Paulo I). Ele
Trajetória religiosa tomou posse e eu falei: “Daqui a 6 meses ele vai
morrer”. E ele morreu. Meu padrinho católico,
Minha trajetória religiosa é muito interessante bem pragmático mesmo, de São Bento, queria
porque eu sou filha de empregada doméstica e saber por quê eu disse aquilo. Mas eu disse que
fui criada por uma família que era católica. Meu não sabia, só que eu vi aquele homem morto. E
padrinho era do Mosteiro de São Bento, médico foi indo essa parte de ligações, de ouvir vozes, a
veterinário e professor. Então, em ambiente de intuição de eu olhar para a pessoa e dar o recado
lar católico, fui realmente católica, praticante e para ela. Era um canal se iniciando. Aí eu casei,
atuante. Participei dos movimentos ecumênicos, fiquei mais em Kardec mesmo, continuei indo
trabalhava na catequese, fui filha de Maria, com à Cruzada dos Militares Espíritas. 1 Graça do MIR.
Nessa época, quando eu conheci o Luiz (meu a leitura dos livros. Você lê muito; todo seu 27
marido), tinha dezoito anos. E quando eu passei intelecto ardente fica satisfeito ali. E você vai
mesmo para a prática do Espiritismo devia ter encontrando explicação, tem que ter esse pre-

mir
19 para 20 anos. Aos 25 eu casei na Igreja Cató- paro também. Eu comecei, então, na Umbanda
lica, como mandava o figurino, porque eu não e me aparece uma entidade que é o Preto Velho
podia fazer isso com meus padrinhos nem com Cipriano, um mestre de magia, e era muito en-
a minha mãe. O sonho dela era ver a filha casada graçado porque ele vinha, eu não sabia quem
de noiva. Então, eu fiz todo o ritual dentro da era, não conhecia Cipriano, mas ele chegou, ris-
Igreja Católica. Depois fiquei grávida e minha cou o ponto direitinho, se comportou como se
sogra cismou que eu tinha que ir numa avó de comporta o Velho Cipriano mesmo. Só que eu
Niterói, pois a irmã do Luiz ficou grávida na não conhecia nada, não estava acostumada com
mesma época, e ela foi na vovó para ser abenço- aquele ritual de Umbanda, não fui criada nele.
ada na Umbanda. E, para fazer a vontade dela, Então eu estava consciente de tudo que aconte-
eu fui. “Vai que acontece alguma coisa com este cia, mas não tinha o poder de interromper. E o
filho que estou esperando, eu não vou ter paz”. Velho Cipriano aparecia. Eu ficava consciente,
Ela me levou num centro de uma senhora que já mas as pessoas não sabiam. Pediam cada coisa
faleceu, era Mãe Enguinha. Quando eu cheguei e aquilo me horrorizava mesmo, os pedidos,
lá, muito assustada, católica, Kardec, que não as coisas todas. E ele não falava nada, só ficava
aceitam nada disso, quem estava em terra não ouvindo, não é de falar muito.
era a vovó, mas um Preto Velho, Malaquias, e
minha sogra, muito danada da vida, disse: “Eu Então tive o meu filho, o Carlos. Foi tudo
trouxe ela aqui, não era para falar com o senhor bem, continuei trabalhando lá e acabei ficando
e sim com a vovó”. E ele respondeu: “É que a bar- grávida de novo, do Eduardo. Até ficar grávida
ra dela é muito pesada e a vovó não ia segurar, do Eduardo, a minha vida tinha sido toda de
não. Tem que ser eu mesmo”. Eu conversei com sucesso: fiz faculdade, consegui emprego, me
ele, gostei do que ele estava falando para mim e casei, tive um filho. Mas com o Eduardo teve
comecei, então, a entrar na Umbanda. E por que um problema porque foi tirado antes do tempo
eu saí também de Kardec? Em uma das últimas e só foi dado como vivo três dias depois. Aquilo
reuniões que eu fui no Kardecismo, eu recebi para mim foi uma coisa terrível. E eu tive uma
numa mesa uma pessoa que tinha feito aborto. crise que hoje entendo que foi uma mudança
Eu a trouxe para aquele ambiente porque eu era espiritual porque durante a gravidez do Eduar-
médium de transporte. Eu vi casos incríveis e do levava muitos tombos, caía muito. Mas não
uma dessas vidas eu trouxe. E foi falado que ia ao chão porque sempre aparecia uma mesa
aquilo não era ambiente; que esse espírito teria e eu me apoiava naquela mesa. Por exemplo,
que ir para o andar de cima, que era onde se fazia tabuleiro de baiana eu não podia passar porque
todo o tratamento de obsessão. E eu, de uma ia ao chão. Caía tudo. Eu olhava assim e os tro-
forma ou de outra, depois daquele dia não fui ços caíam e as baianas ficavam danadas da vida
mais lá. Coincidiu de ficar grávida, conhecer o comigo. Então tudo isso aconteceu na gravidez
centro de Umbanda e comecei a trabalhar nesse dele. O médico teve que viajar para os Estados
centro, mesmo grávida. Unidos, antecipou o parto e a criança não estava
com os pulmões preparados para o mundo. Foi
Lá no centro de Espiritismo eu já era médium, terrível. Só foi dado como vivo três dias depois
sentada em mesa, porque a intuição vinha, era e, quando ele foi levado para casa, eu tive uma
uma coisa independente da minha vontade. coisa muito doida: eu ouvia vozes num dialeto
Não sacudia, mas a coisa vinha naturalmente que eu não conhecia, aquela loucura; escrevia
e você dava as suas mensagens. E na mesa você num papel o que ouvia e levava ao centro para
senta e trabalha para a caridade. Sempre tem saber o que era porque era uma confusão muito
uma pessoa responsável, que vai orientando grande. Fui então, por conta disso, parar num
28 centro de Candomblé em Acari. Quando eu che- Catimbó, que é basicamente sobre os mestres
guei lá, o pai de santo disse que eu estava com de cura, com as folhas e tudo mais.
um santo na cabeça, mas que não era para ras-
Comunicações do ISER

par. Eu precisava trabalhar a questão da minha A Sociedade Teosófica


ancestralidade lá e fazer um acompanhamento
médico. E foi isso que eu fiz. Eu entrei em 1991. Já faz uns 16 anos. Dentro da
Sociedade Teosófica você trabalha basicamente
Na verdade, eu sou filha de Oxum. Fiz os trata- com o intelecto. Você estuda muito, pesquisa
mentos, tudo direitinho, e falaram para mim: todas as tradições. Os livros básicos são: “Ísis
“Olha, Graça, a espiritualidade é como uma sem Véu”’ e “A Doutrina Secreta”. Neles tem-
garrafa. Se você conseguir passar pelo gargalo, se um panorama de todas as religiões. Lá você
não vai precisar fazer outro santo”. Eu disse: não desenvolve nenhum poder latente porque
“Não quero fazer o santo”, porque na época a lógica é que, se você faz parte de um núcleo
eu tinha altos cargos no governo. Imagina eu de fraternidade universal; se você compara as
ter que ficar de branco, raspar a cabeça, tudo religiões e vê que cada uma tem um sentido,
aquilo, e ele falou que ia tentar tudo para eu então naturalmente esses poderes latentes que
não precisar raspar o santo. E aí eu fiquei no existem dentro de você vão se desenvolver. Você
Candomblé, mas com a grande dificuldade não precisa fazer nada para isso. Só tem que ter
de aceitar aquilo pelo meu histórico religioso, o coração puro, uma mente aberta, um intelecto
católico, espírita, umbandista tradicional, que ardente para que você possa ir buscando. Agora,
não aceita matança, e foi um conflito atrás do dentro da Sociedade Teosófica você trabalha
outro. Mas eu tive muitos aprendizados. Eu basicamente com o que eles chamam de “as
fiquei com o meu pai de santo por quase14 causas”. Eles acham que as consequências ocor-
anos. Foi quando ele morreu. E quando o pai rem quando se resolve mal alguma coisa e é por
de santo morre, você tem a sua liberdade na isso que se sofre. Lá você não tem hierarquia,
tradição, e eu me considerei liberta. mas uma estrutura administrativa para dar
conta, e eu tive vários cargos nessa estrutura
Uma amiga minha estava com um problema e administrativa porque é preciso administrar.
eu acabei levando-a a uma ordem esotérica, em Mas se você é coordenador de lojas e se algum
Jacarepaguá. Era a Ordem Esotérica do Sétimo dos estudiosos quiser contestar você publica-
Raio. Há uma parte destinada à venda de pedras mente, pode. Não tem nenhum problema, não
porque a Ordem trabalha com a energia das há hierarquia. Então isso te deixa bastante livre,
pedras, dos raios, das cores, toda essa parte de é sempre um processo de busca, de pesquisa, de
tratamento de saúde. Fui direto nas pedras e você concordar e discordar. E de fato você tra-
escolhi. Eu peguei umas cinco ou sete pedras balha basicamente com uma elite. São pessoas
e perceberam que eu era um pouco diferente que gostam de ler, pessoas estudiosas; não é
porque, em geral, primeiro as pessoas visitam e uma coisa muito comum.
só depois compram as pedras. Só que eu já che-
guei comprando. Sugeriram-me que eu não me Dentro da Sociedade Teosófica, para pessoas
comprometesse antes de estudar o Esoterismo. como eu, que gostam de ações comunitárias,
Então, comecei a estudar o Esoterismo. Numa existe a Ordem Teosófica de Serviços (OTS), que
dessas idas eu vi na biblioteca um papelzinho: é uma ordem paralela à Sociedade Teosófica.
“Venha conhecer a Sociedade Teosófica”. Uns O lema dela é a “união de todos que amam a
três anos depois, eu fui conhecer a Sociedade serviço dos que sofrem”. Tem a área de ecologia,
Teosófica e estou lá até hoje. Foi todo um de direitos humanos, todas as áreas. Nela tem
caminhar. Mais recentemente, por conta da um campo operativo da Sociedade Teosófica.
Campanha Elos de Axé, eu comecei a estudar Mas a Sociedade Teosófica tem o Conselho Na-
o Catimbó. Agora eu estou me iniciando no cional e esse conselho, por maioria, decidiu que
não é função da Sociedade Teosófica trabalhar Executiva. Eu me candidatei, junto com outras 29
na parte operativa; para isso existe a Ordem pessoas, porque achei a proposta interessante.
Teosófica de Serviços. No MIR eu represento Fomos eleitos e constituía-se, então, a Comissão

mir
a Ordem Teosófica de Serviços. A Sociedade Executiva. E o MIR surgia, assim, nesta confi-
Teosófica tem uma outra instituição paralela, guração em que está agora. Era uma Comissão
de concepção teosófica, que é a União Planetá- que deveria ter a mesma proporção de homens
ria e o diretor é o Ulisses Resende, da família e mulheres. Eu acho que éramos nove, porque
Resende, que patrocina. A União Planetária era o coordenador e mais oito, quatro homens
deseja a construção de um mundo melhor. Ela e quatro mulheres. Foi muito interessante esse
faz vários eventos em Brasília. E trabalha tam- início porque trabalhávamos bastante no sen-
bém mais em nível do Congresso Nacional, da tido de discutir as principais questões do MIR
elite; somente lá em Brasília. Já o foco da OTS é e depois isso era levado para Plenária. A ideia
mais de base mesmo. Trabalha-se em hospitais, sempre era esta: ser uma preparação para as
no dia-a-dia. Na verdade, as áreas mais fortes plenárias. Acho que o grupo conseguiu uma boa
da OTS são direitos dos animais e ecologia; e liga. Havia reunião toda semana. Era um pro-
as áreas de artes e direitos humanos possuem cesso de construção mesmo, nessa ideia de que
menos força. A militância religiosa não é como cada tradição entraria com a sua parte e não se
de um movimento social, é muito diferente. É permitia nenhum proselitismo. Todos tinham
algo com mais consciência, de conversar com as seu objetivo, não havia pregações e tínhamos
pessoas. Não é de revolução, é uma linha mais um objetivo comum, que era a construção desse
da evolução mesmo, de entender um momento mundo melhor. E isso nos unia.
difícil que se pode transcender. Não se incita o
outro a ir para a luta, se ensina a compreender No primeiro momento, era mais a questão de
a luta. E, de repente, você nem precisa lutar unir as tradições. Depois é que começaram
porque através do diálogo, da conversa, você as linhas de trabalho. Veio a linha de direitos
consegue minorar a situação complicada da humanos; começou também a área de Meio
vida de alguém. É muito mais um trabalho Ambiente, pela qual eu me interessei bastante.
individual, pessoa a pessoa. E esse tipo de vocação tinha muito a ver com a
OTS por conta de todos os nossos trabalhos na
O MIR área de proteção de animais, na área de ecologia.
A minha contribuição também foi de ficar na
Eu recebi um convite da Sociedade Teosófica retaguarda do André Porto, apoiando no que
para representá-la num grande encontro da ele precisava porque eu tinha disponibilidade
URI, no Rio de janeiro, em 1999. Na época eu de tempo. Morava em Copacabana, no Bairro
era coordenadora regional da Sociedade no Peixoto, na saída do metrô. E, quando não tinha
Rio de Janeiro. Foi um evento muito bonito. A metrô, ônibus também era fácil, em 15 minutos
partir desse encontro, em Itatiaia, a Sociedade eu estava aqui (no Viva Rio/ISER) quando ele
Teosófica passou a fazer parte efetivamente precisava ou viajava.
do MIR. Antes havia uma relação com o
movimento de inter-religiosidade através do Grupo de Religião e
professor Murilo (Nunes de Azevedo), que foi Meio Ambiente
um dos organizadores da ECO-92.
Com a consolidação dessa Comissão Execu-
A Comissão Executiva tiva começaram as Aldeias Sagradas, a partir
da Assembleia Geral da URI (em 2002). O
Tornei-me representante da OTS pelo Rio de Movimento ganhou muita força através delas.
Janeiro e comecei a participar das reuniões do Na primeira tinha-se a parte internacional e a
MIR, que naquele momento criou a Comissão nacional, lembrando a ECO de 1992. E dessa
30 Aldeia surgiram alguns temas, como o uso de Na verdade, é preciso definir normas, ordenar o
drogas, pois algumas tradições usam. Em um uso público religioso, aceitar isso. Então, todo o
dos painéis, fizemos um fórum para discutir o projeto do MIR nesses locais tem sido: primeiro,
Comunicações do ISER

tema, colocando na mesma mesa a Polícia Fe- lutar pelo reconhecimento do uso religioso
deral e tradições como o Daime e da pajelança, porque ele de fato existe. Você tem montanhas
que fazem uso da bebida para expansão de sagradas para muitas tradições aqui, como o
consciência. E a Aldeia deu uma contribuição Corcovado, que é uma montanha sagrada por-
para a discussão desse e de outros temas. que o Cristo foi colocado em 1910, mas, antes
do Cristo, já há relatos ali de muitas tradições
O Grupo de Religião e Meio Ambiente que terem usado. A Floresta da Tijuca tem áreas
foi criado no MIR surge por esta questão. E cuja toponímia, quer dizer, o nome dos lugares,
nesse grupo, naquele momento, a gente trava é Fonte do Pai João, Caminho do Pai não-sei-
contato com a Denise Alves, que é do Núcleo das-quantas, que mostra e reconhece que aquilo
de Educação Ambiental do Parque Nacional dali era um espaço de religiosidade. Tem o lago
da Tijuca (PNT), com a Maria Cristina, através dos Ciganos, o Lago das Fadas e, quando você
do Aderbal Ashogun (do Candomblé), que pega esses nomes, vê que eles caracterizam al-
já estava trabalhando em toda a questão de gum tipo de relacionamento do homem com
entregas, de oferendas. O Aderbal traz para o divino. Na Pedra Branca tem quilombola,
o MIR a ligação com o PNT e o MIR passa a houve índios, negros, escravos, católicos, há
fazer parte do projeto Espaço Sagrado, que é comunidades do Daime, esotéricos dos mais
na Floresta da Tijuca. E desse projeto, então, a variados ramos que praticam naqueles locais
gente formaliza todo o trabalho, toda a pres- as suas fogueiras sagradas, as suas formas de
tação de serviços, todas as parcerias que foram cura. É tudo que mostra que aquele espaço ali
necessárias para o desenvolvimento do Espaço também é um altar sagrado. Toda a linha que
Sagrado. Que na verdade era um projeto de se desenvolve ali é nesse sentido.
resistência, porque os conservacionistas não
aceitam o homem dentro da floresta. A lógica Lá no meio da Pedra Branca — no alto, no
da conservação é uma lógica de preservação; meio daquela pedra de granito escurona — tem
eles só veem, na verdade, a biodiversidade, uma pedra quadrada, no alto do monte, que
mas não incluem o homem. E por isso foram antigamente brilhava muito, mas agora, com
criados muitos parques, para você preservar a poluição, não brilha mais. No sol do meio-
áreas. E esses parques têm uma atribuição, que dia ela irradiava luz, por isso o nome Pedra
é o uso público. Mas nesse uso público eles Branca. O imaginário cria condições para que
não consideram o uso religioso, acham que é as pessoas queiram ir lá. Na Serra do Menda-
só a questão cultural. Então, o uso religioso é nha, outra montanha, você tem um vulcão
o grande problema dos parques, não só aqui extinto. As energias telúricas estão lá e o pessoal
no Rio, mas em todo o Brasil. Por exemplo, vai e desenvolve ali seus atos religiosos, suas
os índios, com seus cemitérios e suas florestas cerimônias. A forma da Serra da Tiririca é de
sagradas, são um problema sério em muitos um elefante e, além disso, tem um cemitério
locais porque toda a conservação veio depois indígena; tem sambaquis, patrimônio cultural
de você ter todo um contexto cultural. Com da humanidade, reconhecidos como tal. As
a criação do Sistema Nacional de Unidades pessoas vão lá fazer suas oferendas e aí existem
de Conservação (SNUC), criam-se muitos muitos conflitos, como no Parque Nacional
conflitos da religiosidade com a conservação da Tijuca. Tem a Pedra da Gávea, que muitos
porque em geral os ambientalistas têm um dizem que é um portal para outras dimensões,
enfoque que não vê o homem. Só que no caso para contatos com extraterrestres. Se é ou não
do Rio de Janeiro você tem um parque urbano é, não se sabe. Já houve vários estudos. A UFRJ
e a população está fazendo pressão. mesmo fez estudos e disse que nada foi perce-
bido. Mas o fato de não ser percebido não quer to de que cada zelador — o zelador é o que cuida 31
dizer que não haja. Há tratados e teses dizendo do santo; não necessariamente é o pai de santo,
que ali realmente é um ponto especial. Acho que mas é ele que cuida, dá a orientação dentro do

mir
a grande questão que o MIR tem trabalhado e terreiro dele — é o responsável por tudo que se
conversado nas plenárias é a importância de relaciona com essa questão do meio ambiente
garantir o uso religioso, que é assegurado pela e ele tem que trabalhá-la no seu terreiro, na sua
Constituição, que diz que você tem direito a casa. E o que nós podemos oferecer é a parte do
ter um culto e a lugares em que você pratique conteúdo, de educação ambiental acessível a es-
esse culto. Então, todo o caminho é este: você ses grupos, uma proposta direcionada a eles. No
trabalhar junto à comunidade científica e dizer: início, na primeira reunião, acho que tinha uns
“olha, eles têm direito cultural”. E junto às tra- 17 zeladores, representando 17 casas de santo.
dições, mostrar para eles que têm que cuidar E hoje nós estamos já com quase 100 casas e
porque se não cuidar não vai ter mais folha, terreiros, basicamente da linha de Umbanda.
não vai ter água, não vai ter nada. Não é da linha das Yás da Baixada (Candomblé).
Elas têm outro projeto. O Candomblé tem uma
Mais recentemente, no Parque da Tijuca, ali na linha iniciática, é diferente. O Aderbal até estava
Serra da Covanca, na descida de Jacarepaguá, foi com a gente, mas não continuou. Embora o
identificado — e eu estive lá num dos mutirões nome dele e de Mãe Beata constem, eles têm
de limpeza — o culto evangélico, principalmente outra linha de trabalho, que é o movimento das
dos batistas, que vão lá e sobem a montanha. Yás da Baixada. Eu preferi ficar com a Umbanda
Tem uns que fazem até rapel. Isso aí é um pro- porque tenho mais afinidade com Umbanda do
blema sério porque não vai um só, vão muitos. que com o Candomblé e o Aderbal, ao contrário.
Há um grande problema de pisoteio. Mas eu Porque é um povo mais pobre; o Candomblé já
estive lá no lugar e fiquei impressionada com é uma estrutura em termos de religião. Tem a
a fé daquelas pessoas, os seus louvores, os seus Mãe de Santo, a Mãe Pequena, tem a casa, são
cânticos, dizendo que ali é um lugar de poder, grandes terreiros na Baixada, o nível cultural e
que cura as pessoas. Mas é uma área que está sócio-econômico das pessoas que frequentam
muito degradada. E não é lixo religioso, é copo é maior. Já a Umbanda é muito mais ligada à
descartável, é garrafa, é a falta de educação. população de baixa renda, embora tenha gran-
Eu não encontrei vela, nada disso, encontrei des centros onde a frequência é de pessoas de
mesmo foi lixo urbano. É outra linha em que a mais alta renda.
gente está trabalhando. Sempre garantindo que
as pessoas tenham o direito de ir, mas precisa A última grande conquista que a gente teve
normatizar o uso. Está muito acabado, só por nessa campanha foi o Carlos Minc, que sempre
questões de pisoteio. Esse, que é muito confli- apoiou o MIR. A ONG Defensores da Terra
tuoso, é um dos nossos trabalhos no MIR. sempre esteve no MIR. E um dos compromissos
de campanha foi apoiar a questão das tradições
O MIR no Conselho Consultivo religiosas. Ele e também a Lara (Moutinho da
do PNT Costa), que é a superintendente de Educação
Ambiental (da Secretaria de Estado do Ambien-
O MIR está no conselho consultivo do Parque te/RJ) sempre apoiaram muito esses grupos. A
Nacional da Tijuca por conta dessa experiência partir daí, surgiu a proposta de estudar e fazer
do Espaço Sagrado. Foi uma evolução. Foi feita um curso de educação ambiental voltado para
uma proposta e o MIR passou a ter assento. E essas populações. Assim, a campanha passa a
os representantes somos eu, a principal, e o se- ser como um programa de governo, chamado
gundo é o Aderbal. E em casos de impedimentos hoje de Montanhas Sagradas. E nesse projeto
quem assume é ele. Então, na Campanha Elos Montanhas Sagradas você tem o apoio do Go-
de Axé a gente está trabalhando com um concei- verno Estadual, o apoio do Parque Nacional
32 da Tijuca, apoio da Biosfera da Mata Atlântica elas têm muito trabalho. Atualmente eu vejo que
e o apoio da UNESCO. Porque no Brasil nós se fala em esvaziamento do MIR, mas não é isso.
não temos um catálogo de lugares sagrados. Aquela fase de imagem já acabou e agora tem que
Comunicações do ISER

No mundo inteiro tem. A única montanha encontrar uma nova forma, um novo caminho
sagrada considerada aqui é a Pedra da Gávea. que seja o amálgama desta história toda.
Você tem a Lagoa do Abaeté, no Sul, um monte
de lugares. E então, no Rio de Janeiro, tomando As tradições que o pessoal diz que são novas, mas
por base esses quatro parques urbanos, a gente que na verdade são bem velhas, como Messiânica,
definiu uma metodologia para o Brasil inteiro, Seicho-No-Iê, o Paganismo, Xamanismo, essas
de modo que temos um catálogo dos lugares religiões voltadas para um publico mais jovem,
sagrados. Foi uma grande conquista em termos aceitam bem o inter-religioso. E a Igreja Católica?
do Movimento Inter-religioso. Foi um grande Por que eles vão querer entrar no movimento in-
ganho construir isso e trabalhar a questão do ter-religioso? É melhor terem o diálogo religioso
uso religioso, que temos que ter como uma das lá entre eles, já que são dominantes. As igrejas
obrigações do uso público nos parques. protestantes e suas vertentes não participaram
em nenhuma Aldeia Sagrada. Participam das
A contribuição do MIR para o discussões, das reuniões do MIR, mas nas Al-
diálogo entre as religiões deias, não. Então eu ainda não entendi direito
o significado da participação deles no MIR,
Eu acho que nesses 15 anos de MIR tem uma mas não deve ter um sentido muito canônico.
contribuição muito grande no sentido de mos- Na internet, vejo que as críticas ao Movimento
trar que é possível a diversidade religiosa. Por Inter-religioso são: “Como é que pode? São
exemplo, nós estivemos num congresso de en- coisas completamente diferentes. Como podem
sino religioso que os batistas patrocinaram, em estar juntos?”. Mas não estão juntos por serem
Nova Iguaçu, e levamos uma exposição do MIR diferentes. Estão juntos porque se acredita que
com fotos. E foi muito interessante porque as juntando você pode acolher melhor o ser que está
pessoas olhavam e viam um pastor, uma mãe de num momento difícil de transição, de valores, de
santo, pastores internacionalmente conhecidos tudo. Então, a ideia do juntar é para construir
ligados à URI, sentados juntos conversando. Essa um mundo melhor.
imagem foi muito importante. Tinha a Mãe Bea-
ta, tinha o padre Renato, umas pessoas-chave que No campo da ecologia não é difícil ter consenso
sempre estavam e davam um colorido religioso. porque cada religião entra com uma parte naqui-
Acho que isso valeu muito e teve o seu tempo. lo que interessa e não interfere na outra. Porém,
Hoje várias tradições, diferentes entidades já fa- ao se discutir questões como o uso da camisinha,
lam isso, até mesmo a Igreja Católica. Apesar dos o uso da pílula, aí já começa a complicar porque
avanços e recuos que fazem parte, é possível ver são temas difíceis de juntar. São dogmas e, quan-
em todo o Brasil reuniões inter-religiosas dentro do se pertence a uma determinada religião, deve-
da própria Igreja Católica. É verdade que tem a se aceitar aquele dogma ou procurar outra. Não
história do ecumenismo, que eu acho que não é cabe ao Movimento Inter-religioso entrar nos
isso porque para mim tem que ser inter-religioso dogmas das religiões: cada uma tem a sua, tra-
mesmo. Porque o ecumenismo fica dentro das balha na sua e nós, do Movimento, trabalhamos
igrejas cristãs, as outras quase não entram. Isso juntos para diminuir a pobreza, para diminuir o
é uma crítica que eu tenho. Em momentos de sofrimento na Terra, para aumentar a qualidade
crises, de grandes crimes aqui no Rio de Janeiro, de vida e construir um mundo melhor, com mais
todo mundo se juntou porque aí não era religião, respeito e de melhor aceitação. Aí é possível.
era um ser que estava precisando de um apoio;
aí tudo bem. Mas na hora que começa a exigir Maria das Graças de Oliveira Nascimento
mais um pouco das tradições, aí não dá porque é Membro da Comissão Executiva do MIR.
Prof. Hermógenes Eu estudei o Evangelho, Bhagavad Gita, Huber-
to Rohden, Kardec. Então, se formou dentro
33

de Andrade Filho de mim uma paz desafiante. Eu com certeza ia

mir
vencer tudo aquilo, inclusive a tuberculose. A
Trajetória pessoal tuberculose acabou como doença física, mas
ficou uma outra doença em mim. Eu tinha
Este corpo nasceu em Natal há oitenta e seis engordado e estava mais envelhecido do que
anos. Vim para o Rio porque Natal não tinha deveria estar. E foi aí, procurando uma solução,
curso superior. Os filhos de famílias mais que encontrei o primeiro livro de Yôga. Não sa-
abonadas iam estudar em Recife, mas eu era de bia onde procurar, então eu segui as instruções
uma família muito pobre. Passei um ano ain- do livro, escondido do médico e da família.
da em Natal, sonhando em fazer um terceiro
grau e estudando matemática particular. Mas, Estava nos meus 35 anos, talvez. Era mais ou
finalmente, meu irmão conseguiu financiar menos na década de 50. Eu estava precisando de
minha viagem para o sul. Por que o sul? Porque um outro tratamento e esse outro tratamento
aqui tinha a escola militar. A escola militar me foi dado por um livro estrangeiro, Hatha Yoga. Ia
pareceu uma solução porque eu teria moradia, trabalhar mais sobre o corpo, mas continuando
alimentação, roupa e ainda um salário e status. a trabalhar a mente, a cuidar da minha alma. E
Quando eu saí de lá já estava como aspirante a transformação que se processou em mim foi
do Exército. Foi uma luta muito grande por- alguma coisa espetacular. Morreu o homem
que era muita gente para poucas vagas. Depois velho e nasceu o homem novo. Eu senti, então,
de várias frustrações, eu consegui finalmente um verdadeiro fulgor na vida que não sentira
realizar esse projeto. antes. Me senti tão acariciado pela paz, pela
coragem, pela força. Nasceu dentro de mim o
Comecei na época da [Segunda] Guerra. Fui compromisso de dedicar o resto da minha vida
para um regimento que seria a próxima uni- à divulgação disso. Era o mapa da mina e eu não
dade a ir para a guerra. Não sei o que eu ia tinha o direito de ficar com ele somente para
fazer lá. Como é que eu ia viver? Ou morrer? mim. Então eu escrevi o meu primeiro livro e
Mas as orações de minha mãe acabaram com foi um sucesso muito grande.
Hitler. A guerra acabou. Eu fiquei em Natal,
me preparando para fazer carreira lá. Mas por Autoperfeição com Hata Yoga, que hoje tem 48
isso ou por aquilo, eu fui transferido para edições e uma história muito bonita salvando
o Rio, para uma outra escola e, por fim, fui vidas, salvando saúde, transformando vidas.
transferido depois para o Colégio Militar. E Graças a Deus. A partir daí eu me vi liberto
ali, no Colégio Militar, eu comecei a sentir o para estudar mais as outras tradições religiosas
gostinho, o saborzinho de ser um educador. e filosóficas e me danei a escrever livros. Escrevi
Para mim foi uma coisa muito importante. trinta e um, todos com o propósito de levar o
Tornei-me, então, educador e passei vinte e ser humano a uma vida mais feliz através da
quatro anos servindo ao Colégio Militar, no yoga. E a yoga não considerada apenas como
Magistério do Exército. Logo, não tinha que um trabalho de contorcionismo. Yoga é um
pensar em guerra. Tinha que pensar em paz. estilo de vida holístico. Seu objetivo final é
Nem a tuberculose me surpreendeu. Quan- aquilo que a palavra diz etimologicamente.
do foi descoberta a tuberculose, eu já tinha Yoga é juntar o que está separado, levar o filho
tomado remédios para outras doenças. E, pródigo à casa paterna. A pessoa pode não
assim, a tuberculose foi vencida pela medi- fazer nada de trabalho com o corpo, mas se
cina e por uma nova atitude psicológica que tem caridade, se tem anseio por conhecer mais,
eu aprendi na literatura que estudei quando por ver o conhecimento verdadeiro, então está
estava doente. praticando yoga. Isso está presente em todas as
34 religiões. Nós estamos aqui para juntar. Então Eu admiro muito o trabalho de seu líder.
eu fui desenvolvendo minha capacidade de ver Muito. Muito. Vida dedicada ao que o Sai Baba
milagre na unidade e um dia me convidaram propõe: a comunidade. Eu admiro muito, mas
Comunicações do ISER

para uma reunião do MIR. muito mesmo, o André Porto, que eu conheci
ainda bem mais jovem do que é hoje. Com esse
Participando do MIR amor, com esse empenho todo, é uma devoção
total. Então, para mim ele é um exemplo.
Quando a Vigília inter-religiosa aconteceu, eu
já estava ligado ao Sai Baba. Então, naquela Contribuição do MIR
vigília, eu fiquei integrando o grupo Sai Baba.
O que Sai Baba propõe é exatamente a unidade Tudo quanto ele fez foi no sentido de promover
religiosa. Ele diz que não veio fundar uma nova a unidade, de fecundar o solo para a ideia da
religião, não veio defender uma tese absolutis- unidade. Assim, minha comunidade está plan-
ta. Ele veio para promover a união entre seres tada pelo MIR. E isso numa área internacional,
humanos e suas religiões. Isso é Budismo, isso como é Sai Baba. Eu não me expandi internacio-
é o ideal do MIR. nalmente, não entendo como isso se faz, mas
gostaria de fazê-lo. O André está fazendo muito
Eu não me integrei ao MIR com eficiência bem, com eficiência, muita dedicação.
porque já estava trabalhando no Sai Baba e na
minha atividade de escritor. Escrevi muito, Para mim, se eu olhar para um cristão, eu
me dedicava a isso. E talvez esteja em dívida vejo Deus falando comigo. Se eu falar para o
com o MIR, não sei. O que o MIR pretende e hindu, eu vejo Deus falando comigo. Se falar
propaga é alguma coisa que eu já tento fazer para o muçulmano, o mesmo. Essas religiões
na minha vida. Yoga é isso, é precisamente isso existem como consequência de um fato que
também. Tudo que for movimento de separa- se evidencia a cada dia: a ignorância. Eu sou
ção é diabólico. Dia-bólico. Etimologicamente muçulmano, você é cristão. Quando é que vai
falando, você entende. Diabolo, dia, dia-volos: acabar essa estupidez sanguinolenta? Na su-
movimento de diar, separar, fragmentar. O perfície nós somos diferentes, nós divergimos.
que o MIR propõe é alcançar um nível de yoga Se vencermos a ignorância e mergulharmos
ainda mais alto. dentro da realidade do nosso mundo interno,
do nosso coração, nós vamos chegando e di-
Eu ia para o MIR por causa da minha vida zendo assim: “vou ver amor”. Não se concebem
particular, que me levava. Não ia institucio- mais partidos, religiões, tradições diferentes. É
nalmente, não. Não, porque apesar de eu ter preciso caminhar para a unidade mesmo.
sido fundador do Sathya Sai Baba, eu respei-
tava muito a organização. Eu até pertenci a A paz só terá resultado na unidade, só quando
outros movimentos, mas sempre como um houver unidade. Eu não vou sentir você dife-
particular. Eu dava todo o apoio à organiza- rente de mim, aí então há amor. E se há amor
ção Sai Baba, todo apoio. E me sentia muito não há agressão, não há afastamento.
bem e me sinto. Ainda hoje eu dou. Não é
o apoio que muitos devotos, melhores do *Professor Hermógenes de Andrade Filho, repre-
que eu, estão dando. Mas eu penso muito na sentante da tradição religiosa Hahta Yoga.
unidade. Aprendi no Sai Baba a ver em você o
Deus que eu sou, independente de sua escola,
de sua tradição, seu compromisso, trabalho,
ação, pensamentos. Sai Baba vem fertilizar o
nosso desejo de união, o cuidado na planta-
ção do amor.
Mãe Beata de somos mais água do que tudo. Então, água
traz paz. Quando se está agoniado, bebe-se
35

Iemanjá um gole d’água e se alivia. Então eu sempre

mir
penso nisso.
Desde o início do MIR
E o MIR acabou me fortalecendo. Não que
Eu fui uma das que fizeram parte dessa ideia, eu fosse fraca, eu nunca me intimidei. Eu
da construção desse trabalho de conscienti- não acho que, como mulher negra, como Mãe
zação de que a paz constrói a paz. Que não Yalorixá, eu deva ter medo de nada. Porque
adiantava as religiões viverem um apartheid, a minha força ultrapassa todas essas cercas.
sem união. Pra quê essa união? Para a cons- Todos esses muros para mim não existem.
trução da paz no universo, que no momento Eu não acredito que o mal seja mais forte do
é do que nós estamos precisando. Dentro da que o bem. Eu acho que, pensando a todo
visão de mundo Yorubá, que é o mundo ao momento na construção do amor, da paz e da
qual Olorum me deu permissão para trazer humildade, estou fazendo não só para mim.
dentro do meu coração, dentro do meu corpo, Eu passo a consciência para outros irmãos.
na fé nos meus ancestrais, pensa-se nestes Eu não acho que a sua cor vai influenciar, que
três: a harmonia, a paz, o amor. E unidade. porque você é negro não é um ser humano,
Aliás, quatro. Acho que é a coisa mais sagra- não é meu irmão. Não! Simplesmente o meu
da que pode existir para o ser humano. Ele povo nasceu numa terra mais árida, mais
vive melhor. E é o que eu sempre pensei: nas quente, tem mais pigmentação na pele. O
religiões unidas para nós construirmos essa europeu nasceu branco, mas, se furar, vai sair
união. MIR é um movimento inter-religioso, sangue. O teu sangue não vai sair ariano. O
quer dizer, todas as religiões juntas, unidas teu sangue não vai sair azul. O teu sangue vai
em um só pensamento, uma só comunhão. sair vermelho. Somos todos filhos, fazemos
parte da mesma massa, do mesmo cimento
Antes da ECO 92, a perspectiva com o qual aquele grande construtor fez a sua
inter-religiosa obra. Então não existe para mim separação. E
o MIR, para mim, foi uma maravilha.
Eu sempre pensei no melhor para o meu povo.
Eu sou descendente de africanos que vieram Betinho, um ícone
para o Brasil. Eu sou descendente de Tapas. E
os meus ancestrais, quando chegaram, passa- Quando olho para ele, sinto uma força dentro
ram e sofreram todos os percalços do ego, do de mim que se chama Betinho, Herbert de
poder, da saga, dos senhores e dos seus capa- Souza. A maior lembrança que eu tenho dele
tazes. Eu nasci no Recôncavo Baiano. Todos somos nós na Light e ele entregando prêmios
eram negros, do candomblé. Fazia parte da re- às pessoas que tinham ganhado por fazer um
ligião sofrer agressão e humilhação. Mas nós trabalho social nas suas comunidades. Ele lá,
estávamos ali e vi que era preciso e vesti força. e passou mal, estava junto de mim. Ele falou
Como se dá essa força? Unindo as religiões. baixinho “Eu acho, Mãe Beata, que desta
Então não importa que seja evangélico, que vez eu não volto”. E quinze dias depois nós
seja da Umbanda, que seja espírita, que seja estávamos juntos. Esse homem me deu muita
das nações: o Angola, o Jeje. Todos nós somos fé. É um homem em quem eu acredito como
filhos, somos obra do mesmo construtor, de eu acredito em meus deuses, em Iemanjá. O
Olorum, que construiu o universo. E ele, em retrato dele está ali na parede. Ele não via a
todo momento, pensou na paz. A maneira doença dele como fraqueza. Ele foi até o fim
que ele encontrou foi primeiro construindo sem arma, só fazendo bondade. Eu o consi-
a água. Água para quê? Água apaga fogo. Nós dero meu Gandhi. Até hoje eu amo demais
36 o Betinho. E atualmente puseram o Cristo eu não sou racional. Estou aí para a defesa
Redentor como a maior maravilha do Rio da nossa religião. Em defesa principalmente
de Janeiro, mas eu daria esse título àquele da paz.
Comunicações do ISER

homem. Quem quiser que me perdoe, mas


eu poria Betinho porque, doente como ele *Mãe Beata de Iemanjá, representante da tradição
estava, pensava num mundo melhor para o religiosa Candomblé.
povo sem escolher religião, sem escolher a
quem. Teve o projeto Arca, em que nós fazí-
amos visita aos soropositivos nos hospitais.
Depois teve a Ação da Cidadania, veio a ECO-92
e nós tínhamos que fazer a carta. Nós fizemos,
reunimos. Eu fui para representar todas as re-
ligiões e ser a cicerone de todos os religiosos.
A tenda da religião africana no Brasil fui eu
quem organizou.

O MIR e o seu legado

As pessoas que participaram e que não estão


mais, grandes amigos que hoje em dia não se
veem por aí, são o maior legado do MIR. Então,
dentro de mim, quando eu olho para o retrato
de Betinho, o MIR é importante para mim, o
MIR que o povo quer. Quando você pensa só
em si, não pensa na paz, pensa na discórdia e
na guerra. Porque você só pensa em si se pensar
em todos os seus irmãos. Toda vez que eu me
reuni no MIR, eu me reuni pensando na paz.

Eu tive muita experiência ali na ECO. Depois


eu fui vendo: quando você tem a ânsia do
poder, tudo se quebra. Você pensa mais em
si. E, se você quer pensar no bem, você tem
que pensar no conjunto. O choque nascerá se
você não botar uma escada equilibrada: você
sobe, você cai. Uma andorinha só não faz
verão. Acho que, se a gente pensar no MIR,
nós construímos, fizemos aquelas plantinhas
do nosso jardim sagrado. Mesmo agora levei
tantas daqui, plantamos ali. Eu tenho muita
saudade daquele momento, a gente ali com os
meninos do MIR.

Eu acho que o ser humano sem paz não vive,


não tem jeito. Eu costumo dizer que não sei
quem é mais irracional, o ser humano ou os
animais. Porque quando eu construo qual-
quer coisa para te maltratar, para te ferir,
Narendra Das não. Comecei a sentir essa tendência porque
o Hinduísmo não tem um fundador como os
37

e Chandra Mani muçulmanos, os cristãos e mesmo o Judaísmo,

mir
na figura de Moisés ou Abraão. E sempre quan-
Trajetória espiritual do há um fundador acaba-se criando um culto
de Narendra Das a uma personalidade. O Hinduísmo é amplo.
Então achei que me identificava mais com isso
Minha trajetória espiritual começou quando porque eu sempre tive um espírito universa-
eu tinha ainda uns 15 anos e comecei a estu- lista, sempre compreendi Deus como um ser
dar espiritualidade. Depois, por volta dos 17, absoluto, com diferentes nomes e formas, não
eu comecei a praticar yôga e a participar dos com aquele nome e forma específicos desta ou
retiros de meditação da Sociedade Budista. Aí daquela religião.
comecei a mergulhar mais profundamente na
espiritualidade, a ponto até de parar os estudos Mesmo ao Hinduísmo eu faço algumas ressal-
e me dedicar totalmente a isso. A minha famí- vas porque existem seitas e as seitas são faná-
lia reclamava e eu falava que o mais importante ticas. Eu vivenciei experiências nessas seitas,
da vida era meditar e ficava 8 horas, das 16 ho- mas não concordei. O Hinduísmo, como um
ras úteis, praticando meditação. Achavam que todo, é melhor. Ainda existe o conceito, dentro
eu estava meio maluco porque abandonei tudo do Hinduísmo, de sanatana-dharma, que é a
e queria só me dedicar a essa vida espiritual. religião eterna. A religião eterna não é Hin-
Comecei a pesquisar todos os grupos religiosos duísmo, não é Budismo, não é Cristianismo,
e a visitar e frequentar, mesmo os de linha espi- não é Islamismo; ela é a verdade eterna sobre a
ritualista ocidental, como Rosacruz ou outras qual a Sociedade Teosófica tem um dito muito
fraternidades e centros espiritualistas; e para- bom: “Não há religião superior à verdade. A
lelamente os orientais, que me atraíam mais, verdade é superior a todas as religiões”. E, se
como o Budismo e o Hinduísmo. Frequentei observarmos também os mestres como Jesus,
a Ananda Marga, o Hare Krishna, a Sociedade Buda, Krishna, Brahma, todos os grandes mes-
Internacional de Meditação. Eu ia a todos que tres não criaram uma religião. Os discípulos
existiam, ficava um tempo para conhecer, mas criaram. Eles vieram trazer a verdade eterna,
sempre me parecia que tinha algum defeito, não uma religião específica, porque as religiões
alguma coisa que não soava bem. Quando não e seitas acabam se tornando a extensão do ego
era o problema de fanatismo, tinha o problema da pessoa. Assim como ela tem a rua em que ela
de muito envolvimento material, com bens e mora, a casa em que ela mora, a família que é
interesses materiais, o que na minha visão não dela, depois ela cria o bairro em que ela mora;
condizia com a espiritualidade. junta-se com outros daquele bairro para defen-
der os limites e interesses do bairro e acabam
Então continuei essa busca. Vieram alguns até podendo ter enfrentamentos violentos com
mestres espirituais de outros países ao Brasil. grupos de outros bairros. E depois sua cidade,
Visitei todos, mas sempre visualizava que a sua pátria, que também é uma extensão do
realmente aquele não era o mestre perfeito, seu ego, que você defende e pela qual pode
para você entregar totalmente a sua vida. Eu matar uma outra pessoa legalmente, achando
falava: “Bom, este aqui atua desta maneira e a que é correto. Mas também é incorreto, pois
instituição dele, desta outra maneira”. Teve o não passa de uma extensão do ego. E da pátria
Maharishi Mahesh Yogi, o Swami Vishnu de passamos à “minha religião”, defendemos a
Vananda, mestres hindus. Eu já estava mais “minha religião” e matamos uns aos outros
direcionado para o Hinduísmo por compreen- pela “minha religião”. Então, quando existe o
der que era uma religião aberta, que aceitava “meu”, o “teu”, existem os problemas; existe a
todos os mestres e todos os santos. E as outras, ignorância, que é quem cria o “meu” e o “teu”.
38 Eu sempre me identifiquei com a verdade dar palestras, fazer algum evento, sem excluir
eterna e com a espiritualidade. Muitas vezes nenhum, a não ser que fosse um grupo de
me perguntam: “Qual a sua religião?” E eu pseudorreligiosos, desequilibrados mentais. Aí
Comunicações do ISER

digo: “Eu sou espiritualista porque todas as seria outra coisa. Depois que conheci o Swami
religiões têm que ser espiritualistas”. Agora, Tilak, nós fundamos aqui no Rio um templo,
se eu falo: “Eu sou hinduísta ou budista, ou A Unidade Cósmica, que juntava vários grupos
isso ou aquilo”, eu me limito a algum “ismo”. de várias religiões, antes do MIR. E eu também
Porque a concepção do nosso grupo sempre recebi noticias de que o Swami Vivekananda
foi de que somos espiritualistas, nós seguimos esteve nos Estados Unidos num congresso, de
a verdade eterna. Então nunca entramos em 1948 a 1950, no Parlamento das Religiões. E
choque com nenhuma religião, com alguma eu soube que já existiam reuniões de todas as
seita. Se eles têm coisas erradas, conceitos ou religiões. Aí começamos a organizar isso, antes
concepções que nós consideramos errados, do MIR. Nós tínhamos um ashram no interior,
simplesmente afastamos esses conceitos e uma comunidade monástica em Visconde de
pegamos os conceitos bons e verdadeiros que Mauá e lá a gente reunia pessoas do grupo
eles têm, criando com isso uma harmonia da Ananda Marga, do Hare Krishna, da Brahma
entre a nossa visão e a visão deles e evitando Kumaris, do Ramatís e do nosso grupo, com um
as discussões, os pontos conflitantes. sentido de estudos, de práticas e tal.

Depois de ter conhecido esses vários mestres, Jnana Mandiram e a ECO-92


há uns 30 anos, em 1970, entrei no grupo da
Self-Realization Fellowship, que foi criado pelo Jnana Mandiram é o templo da Sabedoria.
Paramahansa Yogananda, e nesse grupo eu Na verdade não é o nome do grupo e, sim,
encontrei o não-sectarismo e um mestre ver- do templo porque a gente evitou criar uma
dadeiro, mas já desencarnado. E aí, por minhas seita, uma instituição, alguma coisa assim.
experiências espirituais, eu tive uma visão de Com isso, depois de morar um tempo no
que eu encontraria um mestre verdadeiro, sítio, viajar para a Índia, visitar vários grupos
autorrealizado e encarnado. Aí eu encontrei religiosos na Índia, viajar também para paises
o meu mestre, Swami Tilak, tomei iniciação islâmicos, participamos das práticas dentro
espiritual com ele e recebi o nome Narendra do Islamismo, voltamos para o Brasil e saímos
Das. Isso há uns 22, 23 anos. do sítio, vindo morar no Rio. Porque no sítio
era uma comunidade monástica. Fazíamos
A iniciação foi em 1985, 1986. O Swami Tilak práticas muito fortes: acordava-se às 4 da
não fundou nenhuma instituição. Ele expli- manhã, tomava-se banho frio, meditava-se
cava até para os discípulos que ele não viera longas horas, trabalhava-se com o sentido de
para fundar nenhuma seita porque seitas já dedicar tudo a Deus, sem ganhar dinheiro,
existiam muitas e não haviam resolvido o só para o sustento da comunidade. Então lá
problema. Ele veio para transmitir a verdade não tinha luz e nem o carro chegava, de tão
espiritual, somente isso. Então ele nunca distante que era, no meio da selva. Até que
fundou nenhuma instituição, mas os devotos conseguimos fazer uma ponte com vizinhos e
perguntaram se podiam construir um templo. o carro começou a chegar, mas não tinha luz.
E a resposta foi: “Podem, não há problema, Depois de uns anos conseguimos a luz, mas
para vocês se reunirem”. E perguntaram se ele até hoje não há telefone e o celular também
podia dar as diretrizes desse templo. E a res- não pega. Nós estávamos organizando cur-
posta foi uma carta onde dizia que o Templo sos, palestras, eventos, viagens para a Índia
da Sabedoria, Jnana Mandiram, deveria estar e, isolados lá, sem telefone, não era possível.
com suas portas sempre abertas para todos Resolvemos, então, há mais ou menos uns
os grupos religiosos que desejassem utilizá-lo, 10 anos, que uma parte viria para a cidade;
a parte que ficou acabou saindo para outros Fomos à Assembleia Legislativa para participar 39
caminhos e lá agora não mora ninguém, mas do evento de religiões. O Dalai Lama foi e falou.
fazemos retiros nos feriados. Foram também esses swamis e nós fomos junto

mir
com eles. Faziam parte da Rio 92, da conferên-
Em 1992 nós fomos chamados para presidir a cia, mas não da parte das ONGs. Faziam parte
Tenda do Hinduísmo na ECO, eu e a Chandra. da programação oficial do evento. Desde 1992
Ainda estava em Visconde de Mauá, mas com nós estamos acompanhando as reuniões inter-
um pé aqui e outro lá. Já tínhamos um ponto religiosas e naquele tempo não se chamava
aqui, mas não havíamos acabado com a comu- MIR. Era algo inter-religioso; tínhamos uma
nidade lá; já morávamos aqui e íamos para lá e reunião semanal que a gente acompanhava e
ficávamos um tempo. Mas, de 10 anos para cá, eu fiz parte da diretoria. Depois, por motivos
acabou a comunidade e ficou só um local de de trabalho, retornamos a dar aulas de yôga e
retiro. Na ECO-92, juntamos todos os grupos meditação, além do nosso trabalho de sustento
religiosos e tivemos um evento lá. Digamos mesmo. E aí não tivemos mais tempo de acom-
que foi uma resposta às nossas preces de que panhar as reuniões. Agora, sobre a ECO-92 eu
a religião deveria unir e não separar. Inclusive passo para ela, que vai continuar.
a palavra “yôga” significa união, unir o nosso
ser individual com um ser cósmico. E a palavra Trajetória espiritual
“religião” significa religar, ligar a sua alma ao de Chandra Mani
espírito supremo. Então a religião não pode
ser um elemento que separa, tem que ser um Na ECO eu já estava casada com Narendra. Já
elemento que une. Quando verdadeiros san- estamos casados há 32 anos e fui eu que nos
tos de diferentes religiões se encontram, eles inscrevi porque li no jornal uma notinha bem
se comunicam com muita facilidade, mesmo pequena falando do ISER, que estava contatan-
havendo o problema da religião. do várias tradições religiosas para fazer uma
vigília pela paz, no Aterro do Flamengo, dentro
A partir da ECO-92, com as tendas montadas do evento das ONG’s. Havia várias atividades
pela Prefeitura, cada grupo — o Daime, Ananda dos ecologistas e, aí, comentei com Narendra:
Marga, a Hare Krishna — tinha uma tenda. Mas, “Vamos nos inscrever também nessa vigília;
como não consideramos o nosso grupo uma vamos entrar em contato com o ISER e vamos
seita, nós nos colocamos como Hinduísmo ser os representantes do Hinduísmo”. Eram
e na nossa tenda já utilizamos esse espírito poucas pessoas ainda e, como nós tínhamos
inter-religioso. Porque aí veio o Hermógenes, essa ligação com o Hinduísmo, o pessoal disse
diferentes seitas e grupos do Hinduísmo, o para ficarmos responsáveis. Depois surgiram
Ramakrishna, o Aurobindo, a Aurora Espiritual. outras tradições, que são seitas como o Hare
Nós juntamos todos na Tenda do Hinduísmo Krishna e o Sai Baba. Essas duas tiveram tendas
e cada um dava uma palestra em horários separadas, mas também são ligados ao Hindu-
diferentes. Também na ECO-92 estavam dois ísmo. Mas como são movimentos religiosos,
monges do hinduísmo: um era da Índia, o são seitas diferentes do Hinduísmo, que é uma
swami Paramananda, e estava o swami Shivaya religião que congrega vários grupos. A religião
Subramanyam, que representa um grupo de do Hinduísmo é uma das grandes do mundo.
Shiva, sediado no Havaí, da revista Hinduism E dentro dele existem várias correntes, assim
Today, com quem também fizemos contatos. como dentro do Catolicismo há os carismáticos
Estavam hospedados no Hotel Glória. Fomos e outras correntes, por exemplo. O Sai Baba e o
levados à Assembleia Legislativa porque tinha Hare Krishna não se consideram hinduístas, são
um encontro lá, mas o pessoal do MIR não foi. um movimento religioso oriental, diferente um
Só o Rubem estava lá, não tinha ainda o MIR pouco, embora tenham surgido de dentro do
naquela ocasião. Hinduísmo. Os mestres são hinduístas.
40 Para a vigília das religiões eles receberam ECO-92, como esse da Assembleia Legislativa,
duas tendas individuais, cada um tinha a sua. que Narendra lembrou. Nessa época ainda não
E depois tinha o Hinduísmo e nós fizemos existia nada do Movimento Inter-Religioso.
Comunicações do ISER

uma programação, toda uma decoração e Pode-se dizer que o evento marcante que
convidamos vários grupos hinduístas e até os praticamente lançou a ideia dessa união foi a
budistas — acho que eles participaram da nos- Vigília da Paz, na Rio 92. Pode-se colocar como
sa tenda. Foi na ECO-92 que surgiu o grupo um marco. Depois houve outros.
musical Luz da Ásia, com o Michel, que era
budista; o Lacombe, que era da religião dos A fundação do MIR
Sikhs; eu, que era hinduísta, e a Ana Cris, que
era evangélica, fazendo mantras e músicas Sob o meu ponto de vista, nós fomos bem
espirituais em geral. E depois teve até um ou- participativos na fundação e na formação
tro que era sufi, que era ligado ao Islamismo, desse Movimento Inter-Religioso. Depois, no
o violinista. Cada um fez uma apresentação desenvolvimento do movimento em si, até
separada e depois fizemos uma música todos um certo ponto nós participamos mais ativa-
juntos. E deu certo quando ficamos juntos, mente. O Narendra até fez parte da comissão
ficou bonito e todo mundo gostou. Então executiva, mas depois, devido a uma série de
resolvemos fazer o grupo Luz da Ásia. Ficou fatores, nós nos afastamos um pouco, prin-
um nome bem legal, bem oriental mesmo cipalmente após a segunda edição da Aldeia
porque a maioria dos participantes era ligada Sagrada. Até essa segunda edição nós ainda
com a filosofia oriental. participávamos com certo ativismo. Mas, de
um modo geral, nos primeiros anos, quando
E aí nós fizemos aquilo tudo e, depois, na se organizou o Movimento Inter-Religioso, é
abertura da Vigília das Religiões, no palco que realmente aconteceram várias atividades
onde teve a apresentação de representantes de mesmo. Vários encontros foram realizados,
cada um dos grupos das tradições religiosas. E diversos momentos foram criados para que
eu me apresentei. Tinha que levar um símbolo isso acontecesse.
da tradição da religião na mão e, então, eu
levei um Om de isopor e cantei um mantra do Agora eu sinto que se tornou mais adminis-
Hinduísmo. Isso foi à noite, antes de começar trativo que no primeiro momento. O MIR era
a Vigília propriamente dita, que aconteceu mais participativo, todas as pessoas tinham
durante toda a madrugada. E de manhã cedo, aquele interesse em participar e fazer a união,
quando o Dalai Lama e D. Helder Câmara o congraçamento das tradições religiosas.
chegaram, falaram e depois o Homem de Bem Não só teoricamente, mas também na prática.
também cantou. Isso foi no encerramento da A gente praticava mesmo e até foi criado o
Vigília. Nós participamos bem da Vigília, desde “ritual dos lenços”. Era um ritual tradicional.
a criação a todo o desenvolvimento. Lembro Em todos os encontros do MIR nos quais se
até que durante a Vigília um grupo de evangé- faziam cerimônias mais “formais”, quando
licos estava na praia, do lado de fora, cantando íamos a alguns eventos ou em universidades
umas músicas. E o André nessa época fazia ou eventos promovidos pela prefeitura, sem-
parte do grupo da Ananda Marga. Aí falamos pre se fazia esse ritual de passagem de lenços.
com o Rubem César: “Vamos convidar os Eram várias cores de lenços, se fazia um círculo
evangélicos para fazerem parte aqui, manda e os eles iam passando pelos participantes.
uma comissão para fazer o convite, para falar Isso significava a inter-relação com todos os
com os evangélicos, para trazê-los para cá; não participantes, a troca de informações, o con-
precisa ficar cantando lá fora, eles podem ficar graçamento. Eu, pessoalmente, não tive uma
aqui junto e fazer este congraçamento aqui”. participação muito administrativa no MIR. A
Depois nós participamos de outros eventos na minha participação era mais artística mesmo,
porque eu canto e em todos os eventos alguém ficaram no Aterro do Flamengo durante o dia 41
pedia: “Ah, Chandra, canta um mantra”, essas inteiro. Os católicos ficaram no Cristo Reden-
coisas assim. Então eu cantava um mantra, fa- tor e fizeram ali uma missa; e os evangélicos

mir
zia uma oração, quer dizer, eu sempre tive essa ficaram na Cinelândia, fazendo seu evento. Só
participação bem marcante no movimento. que conseguimos fazer todos na mesma hora,
no mesmo momento e com o mesmo objetivo,
A partir daí eu posso sinalizar um outro even- que era um Rio de Paz. Depois houve outros,
to, que foi quando surgiu o desmembramento mas esse foi o primeiro significativo. E a partir
do Viva Rio. Porque no meu entender o Viva dali foram evoluindo outras reuniões, de que
Rio surgiu do MIR e a partir do ISER. Até um eu não participei, mas se viu que existia um
certo momento o MIR era um departamento motivo, uma possibilidade união entre esses
dentro do ISER. Depois de um certo tempo grupos religiosos pelo lado social, que era
o MIR se destacou, ficando independente do a questão da paz, da não-violência, de onde
ISER, embora ocupasse o mesmo espaço físico. surgiu o Viva Rio, que era aquele movimento
Ficou uma coisa conceitualmente diferente contra a violência, o Reage Rio, aquela coisa
do ISER, que teve a derivação do movimento toda. O Rubem César, uma pessoa que fazia
Viva Rio. Não se pode dizer que o ISER é o parte do MIR, ficou destacado com o Viva
Viva Rio, nem que o MIR é o Viva Rio, são Rio e o André Porto assumiu o papel mais
coisas diferentes. E acho que os eventos que centralizador do MIR. O Rubem foi quem
pontuaram o surgimento do Viva Rio foram articulou desde o início a questão da vigília
dois: a campanha contra a fome, do Betinho, das religiões. Eu não sei de quem surgiu a ideia
uma coisa nacional, mas bem forte aqui no dentro do ISER, mas o contato era o Rubem. Se
Rio; e, depois, um evento que aconteceu contra você ligava, falava com ele e todos os contatos
a violência, que se chamou Orações pela Paz. iniciais, todas as reuniões dos inter-religiosos
Na época o cardeal ainda era o D. Eugênio, eram feitas com o Rubem. Foi uma pessoa bem
que não gostava do MIR, tinha uma certa pontual. No início do movimento inter-reli-
implicância. Não era muito a favor e era meio gioso ele fazia parte ativamente das reuniões
complicado o relacionamento com ele. Com e dos vários eventos.
os evangélicos também sempre foi meio con-
flituoso, mas a Igreja Metodista participava. O desenvolvimento do MIR
As outras, dificilmente. O Padre Renato, que
é católico, também participava do MIR não- Depois foi surgindo esse aspecto mais social
oficialmente, uma coisa mais independente. porque o início do Movimento Viva Rio foi o
Oficialmente, não. A Igreja Católica nunca começo de vários grupos religiosos em busca
participou do MIR. Até poderia acontecer ago- do grande ideal, em busca da paz, da não-
ra, com este novo cardeal. Talvez participasse, violência, da melhoria de condições sociais
mas eu tenho as minhas dúvidas. das pessoas. Esse ponto foi o que conseguiu
unir todas as religiões, mas não era o objetivo
Então, para este evento, Orações de Paz, nós principal do MIR. A meu ver, entravam outras
queríamos juntar os católicos e os evangéli- questões para o MIR: o aspecto religioso e os
cos com as outras tradições todas: Budismo, pontos de vista filosóficos para haver realmen-
Hinduísmo, os sem-religião, umbandistas, te uma harmonia.
Candomblé, os próprios judeus, todas as ou-
tras tradições também. Mas não foi possível E depois, quando o Viva Rio começou a ca-
fazer o evento, que era para ser no Aterro do minhar pelas próprias pernas, sempre que
Flamengo, com todo mundo junto. Então havia eventos eles convidavam o MIR para
precisamos tomar uma decisão diplomática. participar. Sempre! Na favela de Vigário
Todas as tradições que não tinham problema Geral, na ocasião da chacina da Candelária,
42 na Uruguaiana, onde teve o Basta, Eu Quero o tempo para participar das atividades todas,
Paz! E nisso o MIR fazia parte. Iam todos os mas pela falta de dinheiro... Então, na verda-
participantes do MIR para fazer a cerimônia, de, o MIR em si não se tornou participante
Comunicações do ISER

cantar, fazer orações, acender velas, manifestar ativo da URI, que não deu nenhuma força
todos os ritos religiosos numa forma mais para o MIR. Acho que muito pelo contrário,
universal. Porque a universalidade é melhor até que esvaziou um pouco o MIR, porque aí
que a unificação. A universalidade é a união as pessoas ficaram meio perdidas: “É URI? É
das individualidades. Todo mundo mantém MIR? O que é?”. Deu uma certa indecisão nas
as suas características. Existe aquilo que une pessoas. É como se você morasse num sítio.
todos sem ferir as crenças de ninguém. Era essa Você produz, cultiva suas plantas, expandir
a proposta do MIR. Não era criar uma unidade sempre é bom, está tudo bem, várias pessoas
no sentido de todo mundo igual, não era essa a ali trabalham. Mas de repente chega um su-
intenção. E nem criar um rito único, também perfazendeiro e quer comprar o seu sítio para
não era essa a intenção. A intenção realmente fazer a mesma coisa, aquele mesmo projeto
era a universalidade em harmonia. Poder seu, ampliar aquela plantação orgânica. E você
desfrutar da universalidade sem disputa, sem pode ter duas atitudes: ou se junta ou vende e
brigas, ofensas, etc. Eu acho que atualmente vai embora. Essa globalização dentro do MIR,
esse ideal já ficou meio restrito a um grupo esse conceito, é um caminho de duas pontas
pequeno de pessoas. porque pode levar para a universalização da
ideia, uma difusão dela, assim como pode levar
Eu sinceramente acho que essa união com a também para sua absorção em outra ideia.
URI (Iniciativa das Religiões Unidas) não foi Acho que a relação do MIR com a URI é isso.
muito produtiva, brasileiramente falando. Seria uma absorção para uma outra ideia dife-
A URI está ligada às Nações Unidas, mas o rente, que é a idéia da URI não necessariamente
negócio está muito longe, está lá nos Estados a do MIR. Talvez não tenha sido explicado tão
Unidos. Foi tentado no primeiro momento bem para que as pessoas pudessem entender
aquele movimento a partir da assembleia por outro ângulo de vista. Em São Paulo não
internacional da URI, mas suporte para a tem MIR, é a URI o movimento. Mas também
continuidade do Movimento Inter-Religioso acho o movimento meio parado, não anda
no Brasil está muito longe. Nem aconteceu e, muito desenvolvido. Nós conhecemos duas
se aconteceu, foi muito pouco porque a URI é pessoas que fazem parte da URI de São Paulo,
um organismo centralizador. Por exemplo, o são nossos amigos, nossos conhecidos. Não
MIR teria que deixar de existir e se transformar tenho ouvido falar sobre o movimento lá, a
em URI e ficar como um escritório regional da não ser algum evento do governo, como foi
URI, uma coisa assim. E, na verdade, isso não feito há uns dois anos atrás. Aí teve o fim de
era um dos objetivos do MIR. Não era uma ano inter-religioso lá do Lula. Ele também
coisa tão administrativa, mas mais sensitiva, convidou alguns representantes dos religiosos
ligada ao sentimento, mais ativa. Um movi- para passar uma mensagem de ano novo.
mento, que é diferente de uma instituição.
Uma coisa que movimenta, dá às pessoas uma A contribuição do MIR no cenário
motivação para que participem de alguma religioso brasileiro
coisa maior.
Eu acho o MIR muito interessante porque o
Na questão monetária as pessoas também não Brasil é o país do novo mundo, que acolhe
têm disponibilidade porque esses elementos os imigrantes, todas as pessoas de diversos
da URI são de outros países; porque, além de lugares, e tem uma miscigenação muito sig-
não ter dinheiro para participar, também não nificativa. Então eu acho que, religiosamente
têm tempo. Pela motivação até que se arranjava falando, também é muito positivo que ocorra
este congraçamento, este movimento entre as tradição religiosa, não quero que você deixe de 43
religiões. Porque o Catolicismo, hoje em dia, ser católico. Mas também não quero deixar de
não é mais absoluto no país. Oficiosamente ser hinduísta. Então eu acho que o Movimento

mir
ele pode ser a religião do Brasil, mas oficial- Inter-Religioso é muito interessante sob esse
mente não é. Eu, por exemplo, fui criada em ponto de vista e o medo de perder os adeptos
colégio de freira, nasci na religião católica, é, em geral, um dos grandes problemas que a
fui batizada, fiz primeira comunhão — os sociedade enfrenta: medo de perder a sua casa,
dois principais rituais na iniciação da religião o seu dinheiro, as suas posses. Isso tudo cria
católica — e mesmo assim minha mãe me um certo comportamento na pessoa que torna
levava ao terreiro de Umbanda. Toda semana inviável uma comunicação maior com outras
lá ia ela visitar o Preto Velho e ia à missa todo pessoas. O Movimento Inter-Religioso veio
domingo. Quer dizer que eu acho que essa para melhorar essa comunicação, torná-la pos-
hiper-religiosidade é até uma característica sível, superando a barreira do medo, o que foi
do povo brasileiro, do cidadão brasileiro. Por feito a Vigário Geral, um local extremamente
exemplo, o lugar em que a religiosidade brasi- sacrificado pelo medo e pela insegurança total
leira é mais testada diariamente e onde surgem das pessoas, pelo medo de estar ali, o medo de
mais situações interessantes é a favela: temos viver, enfim. Eu acho que é muito interessante
os católicos, os cristãos, os evangélicos e os esse lado do MIR, de fazer com que se dissipe o
umbandistas vivendo lá, naquele mesmo lugar. medo das pessoas de se relacionar, de mostrar
E eles têm que conviver de alguma maneira a beleza da sua fé. Na verdade, é nos unirmos
harmônica, embora seja muito difícil para os naquilo que temos em comum, no que temos
católicos se relacionarem com os umbandistas de bom e não ofender aquilo que temos de
e extremamente difícil para os protestantes diferença. Isso é muito importante porque
— os evangélicos — se relacionarem com os muitas vezes as pessoas se unem naquilo que
umbandistas e com os católicos também. Para têm em comum e combatem as diferenças.
os umbandistas é mais fácil o relacionamento Mas as diferenças são necessárias. Este espírito
com cristãos e protestantes porque eles não do MIR se perdeu um pouco com o passar do
têm nada a perder. Agora, os católicos e os tempo. Hoje em dia, acho que o MIR se tornou
evangélicos, sim; têm medo de perder seus uma coisa mais administrativa, no sentido
adeptos para outras religiões. mais formal, um negócio que perdeu um pou-
co da alegria, da própria união mesmo. Mas
Acho que o pior obstáculo ao Movimento In- todos os momentos que tivemos de reunião
ter-Religioso é o medo; o medo que as religiões e todas as atividades do MIR foram sempre
têm de perder seus adeptos para outro grupo maravilhosas, sempre muito boas e positivas.
religioso. Isso significa que a fé das pessoas O objetivo do MIR é esse mesmo. Mas eu sei
nessas religiões não é uma fé verdadeira, pois se que é uma coisa difícil, muito difícil, porque
você tem certeza de que aquilo em que você crê depende da mobilização das pessoas que têm
é verdadeiro, por que o medo do seu seguidor que se mexer, têm que dar seu sangue, traba-
mudar? Será melhor o do outro? Esse é um dos lhar, promover.
obstáculos do congraçamento. É o medo da
perda de adeptos que faz com que ele não acon- *Narendra Das e Chandra Mani, representantes
teça. E o MIR não tem interesse qualquer em da tradição religiosa Hinduísmo.
cooptar ninguém para nenhum grupo religio-
so. Não quero que você deixe de ser católico e se
torne hinduísta. Quero apenas poder abraçar
você. Você é católico e eu sou hinduísta. Vamos
celebrar, vamos cantar juntos, cantar um man-
tra. Vamos celebrar juntos a nossa fé, nossa
44
Ana Lucia no estado de Rajastão, na Índia, são movidos
a energia solar, que supre todas as nossas ne-
de Castro cessidades lá. Tanto a parte elétrica quanto a
Comunicações do ISER

de computação, a de comida, tudo. E não é só


A Vigília Inter-Religiosa captação de energia. Produz-se também vapor
porque fazer comida para 20 mil pessoas. É
Começamos no MIR em 1992, período da uma coisa fenomenal.
organização da vigília. Independente do início
do MIR, a gente estava trabalhando intensa- Realizamos esse trabalho e, de vários anos
mente na vigília da ECO-92. Assim como o para cá, o governo da Índia tem pedido muito
Dalai Lama foi convidado, a Dadi Janki, que à Brahma Kumaris, então temos desenvolvido
na época era co-dirigente e atualmente é a diri- também projetos junto ao governo, como a
gente mundial da Brahma Kumaris, foi também fabricação de pequenos fogõezinhos movidos
convidada a participar da missa campal. E nós a energia solar para as pessoas pobres.
fomos com a Brahma Kumaris, que é uma ONG
filiada à ONU, mas com status consultivo geral E temos o vídeo. Na época do Rock in Rio , par-
na ECOSOC (Conselho Econômico e Social), ticipamos da tenda “Por um Mundo Melhor”;
que só possui 80 instituições. a gente participou não só da parte religiosa,
mas também da ambiental, com um filme
Fomos convidados a participar, ainda, de sobre energia solar. Temos tem um trabalho
todas as reuniões governamentais, com todos grande também com a energia do eólica por-
os presidentes. Estavam lá também a Dadi que o Rajastão é um estado semidesértico,
Janki, além da Gayatri, que é a representante tem problema de água. Toda a água que sai
da Brahma Kumaris junto à ONU. Nós já está- desses nossos complexos — a água de banho,
vamos organizando a vigília junto com todo o não a do esgoto — é reaproveitada, tratada
pessoal que estava cuidando da estrutura. Eu, e usada para os jardins. Então tem todo um
particularmente, estava cuidando do suporte processo de reaproveitamento. Isso é um pro-
à Dadi porque ela estava chegando. Também jeto muito importante na Brahma Kumaris. É
tínhamos um stand no Aterro do Flamengo uma tecnologia alemã, mas desenvolvida por
sobre a questão do meio ambiente, porque a pessoas da Brahma Kumaris que moram na
Brahma Kumaris é a maior organização mun- sede, na Índia.
dial que tem um trabalho com a energia solar,
o reaproveitamento das águas. Temos tudo Isso é reproduzido nos outros países também.
isso na nossa sede mundial, em Monte Abu, No Brasil, por exemplo, temos um local de re-
na Índia. tiro, em Serra Negra (SP), onde estamos dando
os primeiros passos para a sustentabilidade.
A Brahma Kumaris e a Ecologia Porque ou você já começa fazendo assim ou
então, depois, dá um pouquinho mais de tra-
Temos várias frentes de trabalho com ecologia, balho. A gente aproveitou que a nossa sede de
mas essa, em relação à energia solar, é a mais retiro aqui foi doada, então estava semipronta
grandiosa da Brahma porque temos na nossa e já deu para começar. Mas lá na Índia, não;
sede mundial três grandes complexos, que aco- como são espaços que foram sendo constru-
modam 20 mil pessoas. Há ainda o hospital, ídos, tudo já foi feito segundo esse conceito.
que atende gratuitamente à comunidade ca- Realmente é uma coisa impressionante, um
rente; e também um trabalho de atendimento trabalho muito bonito.
a comunidades pobres, que se faz nos vilarejos.
Tanto o hospital quanto esses três grandes Depois da ECO-92, a criação do MIR e seus
complexos, que ficam na sede em Monte Abu, diferentes projetos
Após a ECO, a gente começou a ter uns en- direção, certamente vai atrair, como já atraiu, 45
contros, quando o ISER ainda ficava na rua a população do Rio de Janeiro.
Ipiranga. Começamos a dar continuidade aos

mir
encontros e foi um momento do movimento Começaram a ver que havia possibilidades.
inter-religioso que acho muitíssimo rico. Ha- Em outros países, protestantes e católicos se
via pessoas de diferentes tradições. Na época matando; judeus e muçulmanos se matando. E
estavam a Mãe Beata, o Hermógenes, a Eunice, aqui não era uma questão só de estarmos jun-
a Chama Violeta, o pastor Nehemias Marien, tos num palco, era de estarmos juntos crian-
o padre Renato. Então, na verdade, a gente já do. Acho que foi o aspecto mais grandioso e
tinha representantes de várias tradições e de continua sendo o sinal mais positivo do MIR,
tradições de peso, inclusive do Judaísmo. pois de fato acredito que isso só existe aqui.
E reuniram-se tradições de peso, que têm por
Começamos a fazer algumas reuniões e saiu trás milhares de praticantes. Essa é uma coisa
um projeto que se chamava “Por um Rio de que toca a gente. Fizemos muitos programas,
Paz”, que foi maravilhoso. E fizemos várias muitos! E tinha mais: por haver muito amor
coisas. Teve uma logomarca muito linda, que a entre as tradições, a gente se encontrava es-
gente inventou: era o Pão de Açúcar e no meio, pontaneamente e um começava a participar
onde seria o bondinho, tinha uma pomba. Era das festas dos outros. A gente deu início a essa
lindo! Fizemos vários eventos no Aterro, onde caminhada e outros projetos, importantes,
tem um anfiteatro. Cada tradição religiosa foram se desenhando. Surgia uma ideia numa
tinha sua atividade e começamos a fazer várias reunião e a gente ia combinando, resultando
pela cidade. Ou seja, foi logo depois, mais ou em programas comuns.
menos em um ano, que começou o movimento
inter-religioso. Teve muito sucesso na mídia e Depois teve o nascimento do Viva Rio, de cujas
a sociedade participava porque a missa campal bases o movimento participou. No lançamen-
realmente tocou o coração de todo mundo. to formal do Viva Rio houve um momento
É ruim dizer “paz e amor” porque remete ao de silêncio e o MIR estava lá conduzindo
Movimento Hippie e tem muita coisa pejorativa isso. Importante lembrar que, antes da casa
nisso, mas foi bonito nesse sentido verdadeiro da Glória, teve um momento em que o ISER
de paz, amor e fraternidade, de reunir as tra- transferiu-se para o centro do Rio e foi uma
dições e crenças. Enquanto em outros países fase diferente, onde começamos a trabalhar
estavam se matando e se arrebentando, nós indo às comunidades carentes.
estávamos fazendo coisas todos juntos.
Desde o seu surgimento, o MIR teve sempre
Tudo o que existe de movimento inter-reli- muito acompanhamento da mídia. Informa-
gioso no mundo, em geral, é um grupo que ções saíam com freqüência no JB, n’O Globo,
organiza, chama as tradições que cada um porque tinha muita gente participando. Os
representa e cada um fala, dá a sua mensagem programas que a gente fazia, independente-
ou faz a sua atividade. O diferencial no Rio de mente da organização específica de uma deter-
Janeiro – e eu acho que essa é a grande revo- minada tradição religiosa, tinham o MIR todo
lução do MIR – era exatamente que nós nos atuando. Foram programas, de fato, muito
organizávamos. Era uma coisa que nascia da grandes. Além desse evento no Aterro, sobre
própria harmonia de ideologias diferentes, de o qual já falei, fizemos, por exemplo, um no
crenças diferentes. Então, já na própria estru- Parque Laje. com muita gente participando
turação, na própria criação do grupo, dava-se durante todo o dia. E era assim: as pessoas
a união das diferenças. É isso o que eu julgo começaram a participar de programas em co-
como sendo a grandiosidade do MIR até hoje. munidades carentes. Teve uma época em que
Acho que, quanto mais a gente trabalhar nesta começamos a ir para Vigário Geral, quando
46 teve o problema da chacina. Foi até muito toda do Vidigal cantando. Lembro que ficou
corajoso, uma época tensa, no momento de bem tocada na época porque era uma escola
criação da Casa da Paz. O MIR foi convidado de samba de crianças. E ,mais tarde, na outra
Comunicações do ISER

para a inauguração e a Brahma Kumaris apre- passeata, também participamos. Uns dois anos
sentou a Dança dos Anjos. Saíram publicações depois também teve um bloco inter-religioso
em jornais populares e foi muito legal. Perce- de que a gente participou e para o qual orga-
bia-se que as pessoas estavam precisando da nizou alguma coisa.
esperança de que era possível fazer alguma
coisa nessa direção. O MIR era convidado sempre a fazer aberturas
para muitos movimentos que aconteceram,
A gente sentia que era este o papel do MIR: fossem movimentos pela paz, contra o racis-
levar às pessoas a possibilidade de conciliação mo, contra a violência, coisas desse tipo. E,
entre partes em litígio. Porque a gente estava então, houve uma fase em que nós participa-
conciliado, estava em harmonia. Não era mos de muitos eventos públicos. Na época do
só um desejo utópico de paz. Tradições que Betinho, da Campanha Contra a Fome, nós da
em outros lugares estavam em guerra aqui Brahma Kumaris levamos Caetano Veloso para
estavam juntas, organizando, conversando, um dos programas. Participamos de muitos
dialogando. Era algo realmente muito especial. programas sociais, com propostas diferentes.
Depois, quando fomos para a casa da Glória, Isso era muito bom porque tirava o teor polí-
começamos a fazer uma agenda cultural, as fes- tico em favor do coração. As pessoas entravam
tas das tradições começaram a ser realizadas lá. mais para entender e querer participar. Isto é
Nós, da Brahma, os budistas com a festa deles. algo que o movimento sempre trouxe: abrir o
Foi também muito especial porque se saía das coração e começar a querer, aceitar e trabalhar,
sedes das próprias tradições religiosas e ia-se em vez de fazer atos que violentem a sociedade
para o local onde a gente estava se reunindo. e o ser humano. Isso eu sinto que o MIR trouxe
Todo mês tinha uma festa. A gente fez uma intensamente para todos os movimentos para
agenda inclusiva. cuja abertura a gente foi convidado.

Esse momento inicial, quando a gente fez Acho que a gente deveria estar sempre presen-
vários eventos públicos e as tradições partici- te, não deveria parar e o André Porto fazia isso
param da 1ª Passeata do Meio Ambiente, que com grande maestria. Sabia organizar e estava
o ISER organizou na praia de Copacabana, teve atento às participações, o que trazia o diferen-
a cobertura da mídia, Foi muito legal, pois na cial. Falava-se algo para esses movimentos,
época nós, da Brahma Kumaris, estávamos com senão ficaria meramente político, meramente
o projeto “Vivendo Valores na Educação” e o partidário. Acho que no último que a gente fez,
aplicávamos aqui no Rio, na Escola do Vidigal, que foi no “Basta! Eu Quero Paz”. Estavam to-
já que uma das professoras também era da dos os políticos lá, muito blá blá blá. Acontece
Brahma Kumaris. E todos da Escola foram com que eles ficam só contra isso, contra aquilo e
uma faixa de cada virtude e a porta- bandeira, não trazem nenhum sentimento de paz. Então
com o símbolo da Brahma Kumaris; tinha uma a população que está ali tem um sentimento
música que era: “quem tem sujeira na mente/ de revolta. Querer matar, acabar com o outro
polui o ambiente/ e vamos limpar/ e vamos não está gerando nenhuma energia de paz.
limpar a nossa mente/ despoluir o nosso co- E, justamente quando o MIR entrou, mudou
ração/ acabar com a raiva e o ciúme, a inveja/ totalmente. O pessoal que estava na praia
e a desconsideração/ e um mundo melhor irá ficou numa outra onda, porque estava muito
surgir/ a partir da limpeza interior/ e o mundo ruim. Porque, se a gente juntar as forças, pode
todo feliz a repartir/ a paz, a verdade e o amor/ trabalhar e a paz, se estabelecer. É só cada um
e vamos limpar”. Era um sambinha, a escola colocar isso. Mas, se você coloca um clima de
revolta, aí acontece tanta coisa ruim. Eu vejo coisa que parecia melhor, que parecia mais 47
que esse é um dos papéis principais do MIR, já avançada e era uma mentira.
que a gente tem uma energia de muitos anos

mir
trabalhada nessa direção. O MIR tem muito a contribuir culturalmente
para a sociedade com essa experiência. A UERJ
O Diálogo entre os diferentes nos chamou e o MIR entrou, eu nem sei como
oficialmente estava isso, mas nós participáva-
Até esse momento, como a gente estava fazen- mos das reuniões de decisões da faculdade de
do reuniões para desenvolver os programas, geografia, de onde partiu esse convite, e nós
havia muitos encontros informais, não era fizemos uma série de encontros por dois, três
organizado. Nas reuniões, antes de fazer qual- anos. Era uma feira que eles organizavam,
quer programa, sempre tem aquela coisa de como se fosse uma feira esotérica, em que eles
cada um, um momento de quem reza, medita. chamavam todas as tradições. E justamente
Normalmente a gente tinha uma conversa so- nessa participação — por isso eu falei que
bre essa questão das diferenças, sobre trabalhar era informal — a gente começava também a
as diferenças; a gente conversava muito sobre conhecer muito, ficava cada um no seu stand,
isso. E havia o diálogo, que era informal, para mas às vezes saía e ia conversar: “Qual o seu
perceber o que faziam lá fora essas guerras, entendimento de Deus sobre isto ou aquilo?
conflitos e confusões. A gente aproveitava cria- Qual sua prática?”, etc. E a gente ia, assim,
tivamente as diferenças. Quando eu falei sobre conhecendo um ao outro. Tinha esse prazer de
paz e amor, era o oposto a esse movimento, expor aquilo que se praticava. Era uma coisa
mas era uma coisa de muita coragem de cada bonita entre a gente.
um expor suas diferenças. Vou dar um exem-
plo: alguns acham que Deus é onipresente; na Mas o que foi fantástico na UERJ é que os dife-
nossa tradição, a gente não acha que Deus seja rentes departamentos foram nos convidando a
onipresente. E, então, a gente conversava sobre participar de painéis. Alguns na área da saúde,
isso abertamente e colocava determinados em que as tradições mostravam como era sua
aspectos. Porque justamente quando a gente prática da medicina, que é diferente. Para eles
estava interagindo precisava haver respeito e para nós foi muito produtivo, uma oportu-
para não agredir determinada percepção, que nidade de conhecer acupuntura; a medicina
era diferenciada. helvética; no nosso caso, os benefícios da me-
ditação; ou seja, todo o trabalho mental, do
Acho que foi nessa época que fizemos um tra- intelecto, como isso ajuda na cura. Era muita
balho maravilhoso com a UERJ, um trabalho gente, desde o diretor até professores e alunos,
riquíssimo. Acho que é uma frente em que o um público de oitocentas a mil pessoas. Parti-
MIR precisa trabalhar, continuar a questão do cipamos de vários painéis organizados por eles
diálogo, aprofundar mais as formas de conci- para mostrar, em cada departamento, a visão
liar as diferenças, crenças, visões de mundo e das tradições. Porque, na verdade, a estrutura
práticas diferenciadas. Acho que nossa prática da sociedade começa com uma visão de crenças
é uma contribuição enorme a dar à sociedade. específicas, começa na forma com que a tradi-
Eu não chamaria nem de tolerância religiosa ção organiza aquele grupo ideologicamente.
porque acho que vai muito além, é uma apre- A percepção deles foi riquíssima e para nós
ciação da diferença, quer dizer: “que bom que também foi uma oportunidade de trocar co-
você é diferente, que bom que seja assim”. E nhecimentos. Cada um falava sua parte, mas
eu acho que isso é o que o MIR tem a dar. Por- também aprendia com o outro. Eu me lembro
que não se respeita ninguém. Aqui no Brasil desse painel da medicina, em que o diretor
se achatou toda a civilização indígena, toda a da faculdade agradeceu tanto. Isso abre os
cultura indígena brasileira, em nome de uma horizontes. Porque tinha tudo: a homeopatia,
48 as ervas, o trabalho de acupuntura, de shiatsu, houve uma época de intermezzo. Talvez porque
todo trabalho da meditação, ou seja, o poder o André estivesse mais envolvido com a questão
mental atuando no corpo. Coisas fantásticas! indígena — foi quando começaram a surgir as
Comunicações do ISER

E mais a parte da educação, de como as tradi- tradições indígenas. E eu nem sei dizer o que
ções trabalhavam a educação. A gente estava, aconteceu então. Fizemos encontros, reuniões,
nem sei como, participando do conselho da a gente participou, mas ficou só nisso.
UERJ, da estruturação dessas coisas.
A ideia da Aldeia começou com a URI. Ela
Eu representava a Brahma Kumaris. Eu me injetou recursos para realizar o evento, mas a
lembro do André Porto à frente das atividades gente participaria da mesma maneira mesmo
celebrativas porque, além dessas coisas todas, sem dinheiro, sem nada. E vou uma vez mais
tinha um momento celebrativo. Então a gente voltar ao tema do espírito da ECO, que era reu-
celebrava nos teatros e ele estava sempre pre- nir todo mundo em algo maior, no sentido de
sente. Mas eu não me lembro se ele participou cada tradição ter seu espaço, poder se mostrar.
do conselho, das reuniões, porque era cada E nós fizemos preparatórias, trazendo alguns
tradição que colocava a sua contribuição. Não temas para as pessoas conhecerem um pouco
eram todas as tradições que trabalhavam em mais das tradições em determinados aspectos.
todas as áreas, mas como a Brahma Kumaris tem Nós fizemos uma grade, até bem complexa,
uma gama de trabalho muito grande, a gente pois tinha muita coisa, e vimos que para reali-
estava participando direto desses encontros. zar o que havíamos pensado precisaríamos de
Depois eles terminaram, saiu o diretor do mais tempo de trabalho e de uma divulgação
departamento de geografia, mudou a linha muito maior. De qualquer maneira, a Aldeia
deles e acabou tudo. Mas eu acho que esse Sagrada foi a vontade de que cada tradição se
é um trabalho que poderia voltar a ser feito mostrasse para a população do Rio de Janeiro.
pelo ISER, porque é uma contribuição para a Eu, particularmente, acho que a gente deveria
sociedade, enriquecimento mesmo. trabalhar mais. Porque cada tradição tem mil
atividades, todo mundo super atarefado, não
Isso estava especificamente ligado à área aca- há pessoas dedicadas a fazer a Aldeia Sagrada.
dêmica e era um trabalho diferente que a gente Precisaria haver um suporte de produção para
fazia. Ele era todo estruturado para uma lingua- a coisa acontecer melhor. A Aldeia Sagrada
gem acadêmica, os trabalhos bem embasados poderia ter crescido mais. Teria que ser uma
nessas atividades milenares. E, ao mesmo tem- equipe do próprio ISER que tivesse disponi-
po, tendo uma experiência, como no nosso caso. bilidade para dar um suporte de produção, o
A gente falava no poder mental, mas conduzia que não é nada difícil.
meditação também. Então foi forte para eles,
porque na hora perceberam como a mente deles Nós fizemos contato com a Secretaria de Edu-
silenciou. Imagina uma mente tumultuada e, cação para mostrar a importância da partici-
de repente, silencia; eles perceberam. pação das escolas na Aldeia Sagrada. Porque
a visão do ser humano é diferenciada e muito
A Aldeia Sagrada rica. Trabalhamos isso com o CIEP ali do lado.
Eu mesma fui lá falar com a diretora e o CIEP
A Aldeia Sagrada injetou energia no movimen- participou ativamente da Aldeia Sagrada.
to. Porque houve várias fases no MIR. Houve, Mostramos para eles e demos questões para
por exemplo, uma queda. Porque o MIR é muito as professoras. As crianças fizeram como se
de coração. Às vezes tem uma energia danada, fossem pesquisas para entender determinados
coisas acontecem; de repente, dá uma parada. aspectos que elas estudam, mas às vezes vêm
Daqui a pouco começa um movimento que de fontes um tanto truncadas. Numa das aulas
para algumas tradições não diz muito e, assim, da Isabel, a professora de história da Brahma
Kumaris, ela introduziu a nossa visão da histó- ter algumas pessoas interessadas em áreas 49
ria, que é cíclica e não linear. E introduziu isso diferentes para estruturá-las.
no próprio ensino dela, que é, aliás, uma visão

mir
toda oriental. Então, acho que poderíamos ter O caminho que eu vejo para o MIR é a gente
um trabalho bastante grande nessa área, com a estar, como o André fez, atento aos movimen-
Secretaria de Educação. E com a Secretaria de tos da sociedade. Digo sociedade porque são
Cultura também, porque a base da sociedade movimentos de áreas as mais diferentes pos-
está nas tradições: as questões da alimentação, síveis. O Movimento Inter-Religioso tem que
do vestuário, das trocas entre as pessoas, da estar presente na abertura, para justamente ter
própria estruturação da família. Tudo isso cada tradição e um pouco de cada, um pouco
vem das tradições religiosas. de reza, de meditação, um pouco de canto,
trazendo harmonia, paz e alegria para uma
Caminhos para o MIR população que está completamente desespe-
rada, medrosa. E fazendo juntos. Porque as
Vejo vários caminhos para o MIR. Um é essa tradições já fazem isso separadamente, mas,
troca inter-religiosa, o diálogo inter-religioso, quando reunidas, o impacto é muito maior.
que é a nossa base; o outro é pensar no que Porque as pessoas sabem que são tradições que
cada tradição dá à sociedade. A tradição já dá, estão se arrebentando lá fora, que não estão
já faz, mas isso tem que estar destacado, ou aguentando o olho no olho. E a gente já tem
seja, o governo tem que usar cada vez mais e as isso de uma estrada longa, de muitos e muitos
pessoas precisam ter acesso. Assim como você anos de trabalho.
tem uma lista telefônica, se você está querendo
se curar com ervas, procure na lista. Se não está Eu vejo que a gente precisa continuar esse
querendo ir para médico alopata, então você tipo de trabalho, que é um serviço que dá
tem uma lista do que quer, daquelas tradições uma esperança para a sociedade. Todas as
todas que trabalham com ervas e às quais você tradições têm sua parte cultural, a dança, o
pode ir. Quer trabalhar com cromoterapia? canto, o teatro, a educação. E são visões dife-
Procure na lista. Se quiser diminuir o stress, renciadas e isso a gente começou a mostrar.
fazer meditação e assim por diante. No nosso caso era a questão dos valores na
educação. Cada tradição ia mostrando o que
Isso já existe, mas precisa existir de forma fazia na área de educação e quando nós, da
oficializada para que a população como um Brahma Kumaris, fizemos esse trabalho, que
todo tenha acesso. A ideia é se fazer um levan- inicialmente estava ligado ao MIR, as pessoas
tamento do que as tradições fazem em todas vieram querendo aprender mais, saber mais.
as áreas: na medicina, no trabalho social, por Porque, com relação ao ensino religioso, seria
exemplo. Você não sabe onde colocar pessoas mais do que uma disciplina escolar, seriam
idosas e há esses lares todos que são gratuitos. mais as tradições mostrando as opções. Cada
E, se você quer ajudar, é assim também com um mostrando a sua forma e as crianças que
crianças carentes. As tradições religiosas já têm decidam, até porque as escolas não estão li-
um trabalho enorme em todas as áreas. Seria gadas a nenhuma tradição. Então, as crianças
uma coisa boa fazer esse mapa do que existe que façam suas escolhas. Foi muito rico para
nas tradições em suas diferentes áreas, e que a os professores, para os diretores das escolas
população possa usar gratuitamente. Então é e para as crianças perceberem que havia uma
um serviço que podemos prestar. Já prestamos, gama de possibilidades e uma abertura de
mas poderia ser mais bem estruturado. Essa visão de crença.
talvez seja a falha de percepção, pois todos
nós das tradições já somos hiper ocupados, O MIR aconteceu e a gente teve momentos
fazemos trezentas mil coisas. É preciso, então, grandiosos, de grande repercussão, porque a
50 cultura brasileira é muito mais inclusiva do tas frentes abertas. A gente já amadureceu
que exclusiva. Ela vai misturando; vai sendo bastante a área do convívio, mas precisamos
uma mescla constante de visões, de sentimen- de uma infraestrutura não só do MIR, mas
Comunicações do ISER

tos totalmente diferentes. Seja de língua, de também do ISER. Um suporte para fazer con-
alimentação, de religião. É uma característica tatos e para que as tradições disponibilizem
do brasileiro. Se você for para outros países, os serviços que já têm.
é um separatismo enorme. Aqui ele é muito
menor do que em outras sociedades que real- Vejo o caminho nisso, que o André fez muito
mente isolam. Não é que não haja problemas, bem, de estar antenado com os movimentos
mas estou dizendo que majoritariamente a que estão surgindo e dar a eles uma suavida-
gente tem essa tendência a acomodar mais. de, uma clareza. Porque quando começa a coi-
Não que não se tenha massacrado os índios, sa do partidarismo, começa a guerra; quando
pois todo meu trabalho de mestrado foi sobre entra disputa, o movimento inter-religioso
os índios. Massacrou-se mesmo, acabou. Mas acaba. Eles ficam tão emocionados, ficam
existe uma postura da sociedade de estar meio meio sem saber o que falar porque querem é
aberta. O povo é mais aberto para aceitar as levantar bandeira contra isso, contra aquilo.
diferenças, acomodá-las e começar de novo. E É a mesma coisa do trabalho que fazemos
eu vejo que nas tradições ficam muito visíveis com a mídia. Não adianta ficar denuncian-
essas diferenças que podem se unir e trabalhar do, denunciando; e o que está sendo feito de
juntas. Por exemplo, a alimentação: somos diferente e que não está sendo revelado pra
vegetarianos e a grande parte das tradições é ninguém? Como a sociedade está dando a
carnívora. A gente convive com isso em har- volta por cima dos seus problemas? Isso não
monia, sem guerras e com respeito. A gente está sendo divulgado por ninguém, não tem
faz almoços e, se tem grupo vegetariano, faz destaque. Um trabalho da Brahma Kumaris
para eles também. Para a sociedade é muito conseguiu sensibilizar um pouco o William
bom ver que é possível trabalhar com essa Bonner e ele começou a fazer esse programa
abertura. No trabalho poderíamos ter mais que ele faz uma vez por mês. O André Triguei-
parcerias com secretarias de educação, saú- ros é um outro jornalista e faz o programa
de e cultura, no sentido de perceber que as Cidades e Soluções, que exibiu um trabalho que
tradições trazem toda a riqueza e que o MIR ele fez com a Brahma Kumaris, “Esperança!”
já tem a experiência de troca, convivência e É isso, ninguém aguenta mais, ninguém está
apreciação das diferenças. mais suportando e nem eles próprios aguen-
tam ficar sempre naquelas mesmas noticias.
Se a gente for cada vez mais fundo, eu vejo A gente já sabe que é assim. Isso faz com que
grandes luzes. Que do Brasil, do Rio de Janei- você queira fazer algo diferente, com que
ro, saia uma luz para o mundo mostrando tenha vontade de fazer.
que é possível, pensando diferente e vendo
diferente, conviver em paz. E esse é o grande E o MIR é isso, ele traz possibilidades que
diferencial do MIR. Se você vir, o pessoal das realmente existem. O Brasil é extremamente
tradições tem um grande amor, um grande grande, criativo. É acordar isso, trabalhar
respeito pelo outro e nós sabemos que somos num outro diapasão e começar a ver as opor-
totalmente diferentes. Ninguém está queren- tunidades que estão aí. Todo mundo fala em
do esconder as diferenças, mas viver em paz violência, corrupção. O que a gente não vai
pelo que o outro é e não pelo que você quer mudar muito, mas podemos, fazendo outras
que ele seja. Vejo um caminho muito grande, coisas, contribuir para que isso diminua. Por-
mas também sinto que não dá para esperar que, se a população já não está participando
que as próprias tradições se organizem para tanto disso, começa a diminuir. Quando a
a produção. Todos têm muito trabalho, mui- população do Rio começar a ir mais para as
ruas, com mais cultura nas ruas, é obvio que diversos problemas que as comunidades têm, 51
a violência vai diminuir, não tem como não como o tráfico de drogas. E, se a comunidade
diminuir. É em coisas assim que acredito, a se fortalece, pode ter movimentos espontâne-

mir
gente assumindo a rua. E acho que podemos os. Já temos toda essa estrada de vibração e,
dar um grande salto, mas vejo que é preiso ter então, o movimento traz isso quando entra,
uma ajuda para que se possa fazer um traba- quer se queira ou não.
lho maior de serviço à população. As tradições
já fazem, mas serviço total à população pre- *Ana Lucia de Castro, representante da tradição
cisa ter relação com o governo, precisa ter o religiosa Brahma Kumaris.
envolvimento de uma instituição, como tinha
o André na época, atento aos movimentos que
surgiam. Foi nessa participação, na prática de
abrir todos esses movimentos, que o MIR fez
um diferencial.

E a Aldeia Sagrada precisa justamente reto-


mar aquela ideia inicial, que era ampla, de ter
um trabalho junto às universidades, às esco-
las, junto à secretaria de educação para que
eles levem as crianças e os jovens a participar
das diferentes atividades. É necessário que ela
esteja aberta ao público, com determinadas
mesas de diálogo para que se possa ver como
as tradições estão discutindo questões tão
polêmicas na maior tranquilidade. Na Aldeia
Sagrada a proposta é que as pessoas estejam
abertas ao que cada tradição faz e que elas,
por sua vez, estejam trabalhando juntas. É
muito especial. Não é só algo religioso, tem a
ver com diversidade cultural. É legal você ver
padres, rituais do Santo Daime, participantes
da umbanda, protestantes. A população tem
que ver. E quanto mais isso vai sendo divul-
gado, menos os extremistas vão ter coragem
para atos ruins. Mas eu vejo que se precisa
de um apoio. Não é só de produção, mas
também fazer contato com secretarias para
envolver a educação, a cultura. Deveria entrar
no calendário da Riotur, como o carnaval. E
uma coisa bem estruturada, que mostrasse
a diversidade do Rio de Janeiro. Salvador
também, mas o Rio é mais conhecido mun-
dialmente e também acomoda diferenças.
O Rio poderia mostrar para o mundo como
é possível, dar uma esperança para a popu-
lação daquela localidade; mostrar que eles
têm poder, se, em vez de brigar, se juntarem;
se estiverem mais unidos para enfrentar os
52
Katja Bastos durante a Conferência Nacional de Direitos
Humanos. Nós reivindicamos o 24 de maio,
dia de Santa Sara Calí, como Dia Nacional do
A Encantaria Cigana
Comunicações do ISER

Povo Cigano e o Lula decretou. Temos uma


parceria com a Fundação Santa Sara e tanto
A Encantaria Cigana trabalha com o encan-
a Interpaz quanto a Fundação Santa Sara
tado, um pouco diferentemente da Umbanda
estão trabalhando nessa área de etnia cigana
e do Candomblé. Os encantados são espí-
atualmente. Estamos em fase de lançamento
ritos ciganos. Então tem encantado do rio,
da Cartilha de Etnia Cigana e Direitos Hu-
encantado do mar, etc. Essas entidades se
manos, em parceria com a Santa Sara e com a
manifestam através de canalizações, ou seja,
Secretaria de Direitos Humanos.
se canalizam em médiuns ou sensitivos, dão
consultas, interagem e vibram, normalmente
Participação no MIR e outras
paz, harmonia, saúde: a magia branca do bem.
iniciativas
E a Tribo Cósmica tem uma característica di-
ferente porque nós lançamos o nosso próprio
Na realidade, o meu contato com o MIR foi
tarô, nosso próprio baralho. É o Tarô Cigano
através da minha tradição religiosa, que é a
da Tribo Cósmica, o único baralho que tem a
Encantaria Cigana. Eu sou a sacerdotisa da
representação dos orixás.
Encantaria Cigana do Povo do Oriente, no
templo da Tribo Cósmica. Então, a primeira
São trinta e seis cartas e nós publicamos,
a se associar ao Movimento Inter-Religioso
lançamos e fornecemos para o Brasil inteiro.
foi a Tribo cósmica. Isso aconteceu um pouco
Quer dizer, nós dizemos que o tarô cigano
depois da ECO-92, quando nós tivemos con-
é o código de linguagem da Tribo Cósmica.
tato com o Movimento Inter-Religioso, que
Então eu dou cursos, palestras, faço oficinas e
estava surgindo justamente naquele período.
workshops tendo como referência a linguagem
A Tribo Cósmica participou das comemora-
do tarô cigano. Pessoas que têm afinidade com
ções da ECO-92 de maneira independente.
a Encantaria Cigana, não só no nosso estado,
Cadastramos a Tribo Cósmica no movimento
mas no Brasil ou em outros pontos do mundo,
internacional da ECO e fomos aceitos. Nós
trabalham com tarô cigano e aprenderam com
éramos os únicos representantes da Encan-
a gente. Quer dizer, o tarô cigano é da Tribo
taria Cigana no Rio de Janeiro. Então, como
Cósmica.
havia vários pontos na cidade com atividades
do evento, nós demos uma série de palestras
Uma diferenciação importante: etnia cigana
e vivências no (clube) Fluminense. Foi então
é raça, Encantaria Cigana é tradição religiosa.
que conhecemos as atividades do Movimento
Caminham paralelamente, mas uma não é
Inter-Religioso, que nós adoramos e passamos
necessariamente atrelada à outra. Eu, por
a frequentar. Começamos a participar e nos
acaso, sou delegada nacional da etnia cigana
filiamos ao MIR.
também. Por acaso. Então, eu pertenço ao
Grupo de Trabalho Cigano da Secretaria de
Isso seguiu até 2000, quando sentimos uma
Promoção da Igualdade Racial — SEPPIR.
necessidade — eu e o Cezar Bastos, meu ma-
Agora mesmo nós estivemos em Brasília e
rido, que é coordenador e mentor espiritual
dezessete lideranças foram reunidas, ciganos
da Tribo, sendo também o coordenador da
do Brasil todo, para o lançamento do selo
Interpaz atualmente — de algo mais formal
cigano. A SEPPIR lançou o selo cigano em
para podermos realizar projetos, estabelecer
24 de maio, por decreto do presidente Lula,
parcerias e efetivamente combater a discrimi-
que foi uma proposta nossa nas conferências
nação. Porque o Movimento Inter-Religioso
nacionais de promoção de igualdade racial,
sempre fez questão de ser um movimento,
quer dizer, sem estatuto, sem legalização, sem e Direitos Humanos. Esse documento circulou 53
uma formalidade, um grupo de pessoas que se no Brasil todo e contém a Carta dos Direitos
afinavam com um objetivo. Humanos da ONU, sendo comentado por

mir
várias tradições religiosas para mostrar que
O MIR saiu do ISER e o CRDR também. En- Deus é um só. Ficou muito bem feito e nos
tão eu acho que são coirmãos. Embora nós dá muito orgulho.
continuemos a tradição do MIR e a origem
seja essa, eu acho que o CRDR se institucio- Em 2007 nós lançamos o Calendário de Di-
nalizou. Porque o MIR quis permanecer como reitos Humanos Inter-religioso e Interétnico,
movimento e o CRDR sentiu necessidade de com datas sagradas de trinta e cinco tradições
um perfil mais atual, mais efetivo e atuante. religiosas — muitas que estão no MIR e outras
Indo mais ao encontro do público mesmo, que não pertencem a ele, mas que conhece-
não só entre as religiões. A gente viu que tinha mos ao longo de nossa trajetória. Este ano
necessidade de mais trabalho do que estava fechamos uma parceria com o Ministério das
sendo feito, aí começamos. Comunicações e estamos implantando qua-
tro projetos-modelo de centros de inclusão
Então, em 2000, nós fundamos o Centro de social e digital, ensinando direitos humanos
Referência contra a Discriminação Religiosa e cidadania por meio do computador. Então
– CRDR. E o relatório anual do ISER reconhece estamos assim, com esses projetos em anda-
o CRDR como uma atividade sua, junto com mento. Estamos fazendo um portal interativo
o MIR. O documento coloca a atuação do na Internet para que as pessoas possam ter
Centro de Referência como a mais efetiva na acesso às informações das tradições religiosas,
promoção do diálogo, quer dizer, como um como datas, dados históricos, onde estão loca-
ponto ao qual as pessoas podem recorrer como lizadas, quais as principais cerimônias, etc. E
defesa. E desde 2001 o CRDR tem funcionado isso tentando atingir a todos. Paralelamente
assim: na promoção do diálogo interétnico continuamos com a tradição da Encantaria
e inter-religioso, mas, principalmente, como Cigana, que é o nosso fundamento mesmo.
prevenção da discriminação religiosa. Temos o templo em Guaratiba há 30 anos e
lá, em toda lua cheia, realizamos a Fogueira
Em 2002 nós passamos a ser uma ação do da Lua Cheia, que é um ritual de energização
governo. O Governo Estadual, através da go- da Encantaria Cigana.
vernadora Rosinha Garotinho, institucionali-
zou o CRDR como um órgão governamental Uma avaliação do papel do MIR
para representar a diversidade religiosa e nós
tivemos — e temos ainda — um escritório na A Aldeia Sagrada é uma das coisas que eu
Central do Brasil. No final do ano 2006, com computo como mais bonitas e mais impor-
a mudança de governo, o CRDR continua com tantes que eu já vi. Quer dizer, onde todas as
a sala, mas está, vamos dizer, adormecido. E tradições religiosas estão representadas. Em
nós começamos a desenvolver mais a ONG 2007 aconteceu uma menorzinha, a gente fez
porque, na realidade, o CRDR era uma ONG. num salão, um salão com todos os altares, o
Então desmembramos o nosso estatuto. A mais lindo do mundo. Todas as cerimônias
ONG agora se chama INTERPAZ e trabalha no aconteceram ali, com as benções de todas as
diálogo interétnico e inter-religioso. Continu- vibrações, de todas as tradições religiosas. En-
amos sempre no MIR, mas nós passamos para tão, acredito que o trabalho do MIR evoluiu,
um trabalho mais efetivo, de eventos nacionais está mais na essência. Porque uma coisa que
e internacionais e de promoção em parceria eu aprendi com o Professor Gonçalo Medeiros
com a Secretaria de Direitos Humanos, que é que, na realidade, o fundamento de tudo
resultou na Cartilha de Diversidade Religiosa são valores humanos. Eu levei o Gonçalo, que
54 era o meu amigo pessoal, para o MIR. Pessoas humanos. Portanto, a pessoa sabe que há trin-
que eu conhecia, que eu achava que eram im- ta e cinco tradições religiosas funcionando no
portantes, eu convidava para o MIR. O que a Rio de Janeiro. E que naquele dia nós tivemos
Comunicações do ISER

gente sempre reclamou na comissão executiva o ano judeu e o ramadã. Um dia depois do
é que havia pouca divulgação. Quer dizer, na outro. Veja que máximo! É nisso que a gente
Aldeia Sagrada o público era pequeno, então está investindo. O que a gente sentiu? Falta
ficou quase que uma ação entre amigos. Uma de material didático? Então estamos elabo-
tradição que requisitava outra, que requisitava rando com a nossa comissão de consultores:
outra. Mas gente de fora, não. Isso é uma coisa material didático judeu, muçulmano, material
que eu acho que poderia ter uma amplitude didático de povos indígenas, para prevenir a
maior, tentar chegar mais ao povo. discriminação e promover o diálogo. É por isso
que eu estou falando: nós estamos em ações
O problema do MIR é que realmente os mais afirmativas. Por exemplo: as propostas,
evangélicos nunca quiseram participar. Isso é as discussões nascem do MIR, nascem do
uma pena, mas no CRDR nós temos também movimento religioso e da interação das tradi-
defendido evangélicos porque, aí, não tem ções, mas a ação é necessária. Acredito que são
isso. Se você é dialogo, é diálogo. Você não complementares. Parte-se da proposta, mas
pode tendenciar para um lado. No CRDR, tem que ter a ação. Senão fica só na filosofia e
por exemplo, a Encantaria Cigana é uma das o povo mesmo não é beneficiado. Então, de re-
tradições. Todas são igualitárias, todas têm o pente aquela pessoa, que mora ali na pracinha
mesmo peso e a mesma importância. da Glória, não sabe que aqui está se reunindo
o MIR, com pessoas tão importantes, com
Eu acho que as reuniões do MIR são funda- fundamentos tão importantes. A gente até
mentais. Muitas pessoas que eu levei para brinca na comissão e diz que nascemos um
lá ficaram encantadas, nem sabiam que isso pouco patinhos feios. Nas próprias tradições,
existia, nem sabiam que era possível sentar na às vezes, algumas pessoas não estão muito de
mesma mesa. Então o MIR sempre foi a minha acordo com o diálogo. Mas aquelas lideranças
grande vitrine, um exemplo a ser seguido. Em que estão ali acreditam no diálogo. Segmentos
qualquer lugar eu falo. Eu acho que é impor- diversos das muitas tradições são pioneiros,
tante pela constância. Imagine: 15 anos, uma são corajosos e lutam pelo diálogo, lutam pela
vez por mês. É o maior barato. Creio também conversa, lutam pela harmonia.
que, principalmente na parte de cidadania, de
direitos humanos, as coisas estão aceleradas *Katja Bastos, representante da tradição religiosa
no mundo todo e no Brasil. No MIR, por ser Encantaria Cigana.
da comissão executiva e da comissão de en-
sino religioso, fui de deputado em deputado
defender o ensino laico que a INTERPAZ está
implementando. Então a gente também defen-
de o Estado laico, não-confessional, porque na
INTERPAZ nós estamos elaborando o material
didático. Porque não adianta dizer que não
pode ser, se você não der opções de material
didático que fale das demais tradições, que
fale das demais etnias. Por exemplo: a gente
conseguiu que o nosso calendário de 2007
fosse distribuído em todas as escolas públicas
estaduais. Então pelo menos as escolas públi-
cas estaduais têm um calendário dos direitos
André Mello possa conceber. Ali as pessoas simplesmente
transitavam pelas tendas em dois grupos
55

distintos: os que tinham uma “tribo” e os que

mir
Sal da Terra ou Arroz de Festa? colecionavam lembranças (de qualquer tipo)
Uma visão do Movimento Inter- de cada tribo. Teoricamente já sabíamos dis-
Religioso no Brasil sob uma so, mas perceber esse movimento em curso é
perspectiva do protestantismo extremamente desconcertante.
histórico
E o “desconcertante” acima inclui a falta de
Foi em 1992, no contexto da Conferência “concerto”, de pontos de apoio ao diálogo e
das Nações Unidas para o Meio-Ambiente e à tolerância religiosa, pois a multiplicidade
Desenvolvimento (ECO-92), que comecei a de vozes da multidão também impossibilita a
conhecer melhor o trabalho de diálogo (me- emergência de qualquer conversa. No Brasil,
lhor seria dizer polifonia) dos movimentos o diálogo simplesmente fracassa porque não
inter-religiosos no Brasil. E, antes de qualquer podemos saber “com quem” estamos falando!
outra palavra, adianto-me em informar ao meu O povo brasileiro é religioso ao extremo e,
leitor que este texto está muito marcado por talvez por isso, tem o dom de acreditar e de
aquela experiência. participar de todos os extremos de variações
do tema “fé”. E acredito que, por isso mesmo,
A presença das tradições religiosas na ECO- as diversas iniciativas de diálogo inter-religio-
92, em tendas que separavam os grupos em so e até mesmo de “ecumenismo” encontrem
“tribos”, demonstrou uma forma de diálogo imensa dificuldade ao lidar com essa vertente
interessante: juntos, pelo ideal comum; mas do problema. É mais fácil propor um acordo
separados em suas formas. Hoje percebo que entre dois pólos opostos (como na Irlanda ou
essa fórmula parece ser a única possível, uma em Israel), com uma agenda bem definida de
vez que respeita as diferenças, encontrando pontos a tratar, do que ampliar a mesa a cada
mínimos éticos que permitam o diálogo. rodada por conta da chegada de um novo par-
ticipante, como acontece entre nós, no Brasil.
Até aquele ano, posso dizer que eu só conhecia A sensação dos que já estão sentados para o
as variações da experiência religiosa no Brasil diálogo há algum tempo é de que a conversa
de um ponto de vista acadêmico. Isto é, tinha está sempre começando — e de que ela nunca
uma vaga noção das nossas diferenças, quer vai chegar a lugar algum.
através do Núcleo de Pesquisa do Instituto de E para piorar a falta de concerto, o diálogo
Estudos da Religião (ISER) — minha primeira sempre fracassará quando não se conhe-
casa; quer através do IBGE; quer através dos cerem as “zonas cinzentas” e as realidades
estudos no Seminário Teológico Presbiteriano; inequívocas da diversidade competitiva. Isto
quer através de simpósios ou de uma farta lite- é, não é virando as costas para os conflitos
ratura religiosa, analítica, crítica e autocrítica... que resolveremos o problema. Não é possível
Destaco, aqui, especialmente a publicação negar que a vitalidade religiosa implica uma
Sinais dos Tempos, do ISER — que ainda hoje certa competição. E quanto mais expressões
serve de mapa nesse Universo de Crenças — e religiosas existirem em campo, maior será a
o mapeamento exaustivo que o ISER realizou competição intra e extragrupo.
das igrejas evangélicas e das religiões mediú-
nicas no Rio de Janeiro. Toda essa introdução é apenas para lembrar
que, de início, o diálogo inter-religioso enfrenta
Na prática do encontro das nações e tribos da um problema em sua gênese, que é ao mesmo
ECO-92, consegui perceber que a realidade é tempo uma armadilha e um impedimento do
bem mais complexa do que qualquer estudo próprio diálogo. Trata-se de tentar definir, com
56 tantas variações e representações, “com quem” desacreditando o diálogo feito anteriormente
poderemos conversar... O primeiro problema — vejam a respeito disso os avanços e recuos
do diálogo está nos seus interlocutores. que os movimentos ecumênicos enfrentam
Comunicações do ISER

cada vez que há alternância de cargos e cor-


Explico-me. Considero que o diálogo é difícil rentes internas no diálogo.
porque não há tradição religiosa no Brasil que
esteja unificada em suas representações. Vou Além disso, acredito que perder tempo defi-
ficar apenas nas grandes tradições para expli- nindo quem pode sentar-se na mesa conosco
car o tamanho do problema. Os catolicismos é uma atitude contrária à fé cristã. Jesus sim-
possuem suas várias vertentes (ainda que o plesmente estava aberto ao diálogo com todos
Papa e o Magistério tentem enquadrá-las). os pecadores e pecadoras de seu tempo — e
Os protestantes e os evangélicos (fractais por até mesmo com os “sindicatos de santidade”,
vocação) já estavam representados, em 1991, devidamente representados pelos fariseus,
com mais de 500 denominações diferentes e Cristo entabulou bons diálogos.
divergentes. Os grupos mediúnicos (espíritas,
candomblecistas e umbandistas) também só Decorre disso uma conclusão: a de que não é
conseguem reunir forças para enfrentar inimi- possível, nem justificável, ficar determinando
gos em comum — de preferência evangélicos qual interlocutor deve ou não receber a bênção
e pentecostais. Como fazer esse povo, que do nosso diálogo, da nossa presença e de nossas
concentra a maioria da população, desenvolver orações. A porta está aberta para todos, para
algum diálogo que não seja uma Babel? quem quer e para quem não quer entrar. Mas,
por outro lado, é preciso definir, pelo menos, sob
Aqui entre nós, até mesmo grupos com fortes qual base podemos conversar. O por quê e o como
laços de tradição e hierarquização se dispersam são imperiosos nesse diálogo. Se a conversa pre-
e se fragmentam — israelitas (judeus) e islamitas tender apagar as fronteiras, os marcos antigos,
(muçulmanos) são alguns dos exemplos que me destituir e diluir as diferenças, estará fadada ao
ocorrem deste último caso. Que dizer, então, fracasso. Porque os princípios e as identidades
dos orientalismos e dos grupos religiosos cuja dos grupos são sempre inegociáveis.
preocupação nunca foi com a centralidade
administrativa ou com a representação ins- Além do mais, somente os grupos realmente
titucional? Que dizer das vertentes religiosas diferentes podem estabelecer um diálogo que
micro/minoritárias e daquelas cuja fenomeno- mereça devidamente esse nome. Eu só acredito
logia ou organicidade nos faz duvidar de que no diálogo entre os diferentes. Com os iguais,
se tratam de organizações religiosas? Que dizer, fazemos coro — e não diálogo. Quando Jesus
também, daqueles grupos que, dependendo do Cristo nos convida a ser sal da Terra e luz do
interlocutor, ora definem-se como filosofia, ora mundo (Mateus 5. 13-16), no contexto do Ser-
como ciência, ora como religião? Enfim, não mão do Monte — o mesmo das Bem-Aventuranças
é fácil dialogar quando não se sabe bem com — , Ele está chamando os seus discípulos para
quem e por quê dialogar. viverem a sua diferença entre os diferentes.

Por isso tomei uma decisão. Vou deixar de lado Esta experiência (ser sal e luz) e atuar na
o quem, visto que determinar o interlocutor sociedade é que me leva a perceber que as
correto e devidamente representativo é um necessidades e as dimensões do diálogo inter-
problema insolúvel. Sempre aparecerá um religioso são as mesmas realidades e dimensões
grupo novo neste Brasil grande (e nesta escala da sociedade. São os grandes temas sociais que
planetária de uma galáxia inter-religiosa) e nos impelem ao diálogo e não as celebrações
sempre é possível que uma determinada facção de confraternização. Como na experiência da
interna assuma o poder dentro desse grupo, ECO-92, o Comitê Inter-Religioso da Cam-
panha contra a Fome e pela Vida (do IBASE, protestantes que adota o Pacto de Lausanne) 57
liderada pelo Betinho), em 1993, também abraçaram de imediato a causa, espalhando
mostrou que eram os temas sociais os que mais adesivos “Rio desarme-se” pela cidade. Os

mir
promoviam a reunião dos religiosos dispostos engajamentos foram diluídos de acordo com
ao diálogo. O tema em comum e seu impacto o nível de organicidade de cada tradição re-
claro e bem determinado na sociedade era ligiosa, esbarrando até mesmo em algumas
maior do que as diferenças e os seus resultados resistências. E isso voltou a ocorrer nas últimas
falavam bem de perto aos que tinham uma campanhas de desarmamento, incluindo aque-
ética coerente com seus credos. la do plebiscito a favor da vida e pelo controle
das armas de fogo, fragorosamente derrotado
A preocupação com a fome e com o sofrimento nas urnas em 2005.
do próximo é inerente a todas as religiões e esse
era um tema da cidadania que tangenciava os A esta altura, já é possível perceber o viés
diversos discursos religiosos éticos — orga- protestante que há nesta análise. Penso que
nizados em torno de códigos de conduta. E é impossível promover “celebrações pela paz”
curiosamente mobilizava até mesmo aqueles enquanto crianças são assassinadas pelas
grupos que não tinham códigos morais de ruas. Imagino ser muito difícil para quem
comportamento. É como se todos fossem usa os dois lados do cérebro acreditar que as
atraídos pelo caráter supranacional e suprar- pessoas serão melhores apenas pela “menta-
religioso desses temas. lização” de ideais positivos. É uma ignomínia
fechar os ouvidos à dor alheia por achar que a
No caso do meio ambiente, curiosamente as vi- mesma é uma “ilusão” ou algo determinado
sões eram divergentes, mas a preocupação com pelo destino. Faz parte da ética protestante
o planeta era a mesma. Para algumas tradições sempre requerer de nós aquilo que temos
religiosas a ecologia não era uma ciência, mas de melhor, alguma ação e posicionamento,
uma filosofia de vida. Para outras, a ecologia mesmo que ela seja uma marcha até à capital
fazia parte de uma teologia. Mas, no final das pela não-violência.
contas, se até as nações entenderam-se, por
que não os credos? Um outro protestante, militante da causa da
“tolerância religiosa”, Jether Ramalho afirma
A fome e o sofrimento e, mais adiante, a vio- que um “ecumenismo de resultados” é visível
lência — motivo que levou à fundação do Viva na aliança dos grupos religiosos com os mo-
Rio — apelavam para o sentimento ético de vimentos sociais. A atividade política só tem a
todos os religiosos e seus compromissos com ganhar com a presença de lideranças religiosas
a vida e com a Paz. Foram também um ato e ativas e engajadas. Além disso, a abertura
um comitê inter-religiosos que marcaram a para os diálogos da sociedade ajuda a superar
fundação do Viva Rio e do Dia de Mobiliza- aquela competitividade religiosa de que fala-
ção pela Paz. Mas, de dentro do movimento, mos anteriormente, fruto de uma vitalidade
especialmente entre os protestantes históri- religiosa intra e extragrupo. É mais fácil para
cos — acostumados com metas e resultados um protestante ético ser aliado de uma causa
— começava timidamente uma cobrança por social em que acredita e lutar ao lado de um
posturas, documentos e resultados, que supe- religioso do qual discorda por um bem comum
rava o congraçamento e a “unidade” de causas do que defender um irmão de fé que está
cívicas entre as lideranças religiosas. agindo contra Deus e contra a humanidade.
Mais adiante, foi possível verificar que os níveis O pastor Dietrich Bonhoeffer é um exemplo
de engajamento se esgarçaram nas diversas disto que estou falando e a Igreja Confessional
campanhas de desarmamento. Os evangélicos sempre se levantou contra a aliança espúria
e evangelicais (aquele ramo dentro das igrejas que move os interesses de Estado e os interes-
58 ses de grupos organizados dentro do Estado, religioso não-confessional” ou “ecumênico”. A
contra a sociedade e contra o bem. César o que é César, a Deus o que é de Deus.
Prefiro ser sal da Terra do que arroz de festa!
Comunicações do ISER

Aqui lamento apontar uma questão que tem


ficado em segundo plano nas dinâmicas do di- Isso significa que sou favorável ao diálogo e à
álogo inter-religioso: a defesa intransigente da tolerância, mas não consigo concordar com a
laicidade do Estado, da liberdade religiosa e da falsa doutrinação que apaga as diferenças e que
separação entre o público e o privado. Talvez promoverá, por fim, a pasteurização e mono-
por ser uma discussão política e institucional polização do discurso religioso — numa “geléia
e pela fragilidade de algumas instituições en- geral” sem distinções que sejam realmente
volvidas no diálogo, tais questões não têm tido marcantes e que termine por inviabilizar o
a relevância que observamos nas instituições diálogo. A liberdade de consciência, a liberda-
congêneres dos EUA e Europa, por exemplo. de de credo, de opinião e de informação não
pode ser ameaçada, nem mesmo pelas “boas
Para ilustrar esse ponto, sirvo-me de um intenções” e “boas vontades”.
exemplo: a questão do ensino religioso nas
escolas. Pessoalmente, defendo a tese de que Se precisamos nos unir, que seja por uma causa
o ensino religioso nas escolas (especialmente pública e pelo bem de todos e conclamo os
as públicas) é uma afronta à laicidade que líderes de cada confissão religiosa para que
emana da Constituição Cidadã de 1988 e à lutem contra o ensino religioso nas escolas
liberdade de religião, que é o princípio de públicas (e também nas demais, se isso for
toda a tolerância religiosa das democracias possível). Porque, para as igrejas confessionais,
modernas. O ensino religioso na rede escolar, fé é um assunto pessoal e privado. E porque,
historicamente, só foi compatível com regimes na lógica protestante, só Deus tem autorida-
autoritários e foi utilizado largamente para de sobre as consciências e só as famílias têm
disseminar estratégias de estigmatização das autoridade sobre seus filhos. Amém!
minorias, realizar catequese dissimulada dos
credos intolerantes e para uma “oficialização” Escreva-me se/quando quiser para dialogar e
da religião das maiorias. responder a este artigo: revmello@gmail.com.

Além disso, tenho uma desconfiança inarre- *Rev. André Mello é pastor da Igreja Presbiteriana
dável dos aparelhamentos do Estado e das do Brasil.
estratégias de conquista do poder por parte
de grupos religiosos. Se a caneta do gover-
nante nomeia os professores e se as políticas
de governo definem os currículos, é ilusão
esperar garantias de que o ensino religioso
será meramente ético e cidadão. O caráter pro-
fundamente individual e privado da fé, a meu
ver, é incompatível com qualquer iniciativa de
publicidade religiosa ou de tomada do espaço
público pelos credos privados.

Por tudo isso, creio que é papel dos religiosos


esclarecidos e da fé protestante confrontar os
modelos tirânicos que se escondem por trás de
uma “ideologia de um ensino religioso confes-
sional” e por baixo de uma “prática do ensino
Cristina Brito cidade de se entregar a esse mesmo Divino.
Temos assim que as aparentes diferenças
59

desaparecem na unicidade do sentimento

mir
O Movimento Inter Religioso e o de todos os que se permitem buscar essa
Movimento Espírita relação transcendente do homem com Deus,
independente da forma como esse homem O
De que nos serve a religião? Qual a sua pro-
interprete. Ele será sempre o filho, a criatura;
posta, senão nos ajudar a nos tornarmos
Deus será sempre o Pai, o Criador.
seres humanos melhores, numa mais estreita
conexão com Aquele que nos criou para a
O que temos, a partir daí, é um grande
perfeição?
encontro de filhos de um mesmo Pai, ou
seja, um grande encontro de irmãos. Essa
Essa maior aproximação com a Divindade,
fraternidade, que nos liga de forma ampla e
a partir do processo longo e trabalhoso
profunda, é uma das mais belas experiências
que realizamos através dos séculos, vai se
proporcionadas pelo Movimento Inter-
desenvolver dentro de contextos próprios,
Religioso. A oportunidade de não apenas
particulares e pessoais que caracterizam a
conhecer as diversas Tradições, mas também
enorme diversidade, marcando os variados
os irmãos dessas mesmas Tradições tem
grupamentos religiosos, denominados Tra-
sido, para todos os que vivenciam o MIR,
dições. E vamos constatar que o resultado
um ganho que as palavras se revelam sem
do somatório de experiências e trabalhos
condições de traduzir a contento.
desenvolvidos por esses grupos tem um
valor inestimável, não apenas para aquele
Quando a alegria dos corações irmanados
que é diretamente favorecido pelo processo
num mesmo ideal de “paz na Terra aos ho-
— ou seja, aquele que se dedica a se tornar
mens de boa vontade” houver se espalhado
melhor através da vivência dos preceitos
de forma definitiva em todo nosso querido
religiosos abraçados —, mas também para
planeta, acabarão, enfim, as desigualdades
todos que com ele convivem e até mesmo
entre nós. Desigualdades que são apenas
para a sociedade como um todo, pois se
aparentes, pois, independentemente da
reflete, inclusive, na melhoria da qualidade
forma, irmãos são e serão sempre irmãos,
de seus cidadãos.
iguais na essência.

A riqueza de culturas que vamos encontrar


Questões de incompreensão e intolerância
na sociedade brasileira nos favorece a pos-
estão, dessa forma, fatalmente com os seus
sibilidade de convivermos com os mais dife-
dias contados, pois é chegado o tempo da re-
rentes modos de adoração e relacionamento
generação da humanidade terrestre. Tempo
com o Divino. Essas diferenças em nada
onde o Reino de Deus encontrará morada
comprometem uma real integração entre os
no coração humano.
diferentes modos — as diferentes Tradições
—, integração essa que vemos acontecer atra-
O Movimento Espírita caminha consoante
vés da promoção realizada pelo Movimento
à proposta da doutrina espírita: promover a
Inter-Religioso, o MIR.
melhoria moral do homem de acordo com
os esforços por ele empreendidos para a sua
A multiplicidade de Tradições revela uma
transformação íntima. O Evangelho é nossa
das mais belas e desafiadoras características
bússola; Jesus é o nosso mestre e a doutrina
do ser humano: a sua complexidade, revelada
espírita é a lente através da qual o espírita
nas sutilezas da interpretação do Divino e,
busca enxergar melhor o caminho que lhe
ao mesmo tempo, sua simplicidade na capa-
cabe trilhar rumo à sua própria redenção.
60 Participar do MIR tem sido uma oportuni-
dade ímpar para todos nós do Movimento
Espírita. Compartilhar conhecimentos,
Comunicações do ISER

conhecer as diversas tradições, poder con-


viver com tantos irmãos com afinidades de
propósitos no Bem, desenvolver atividades
em conjunto, como a nossa querida Aldeia
Sagrada, têm marcado esses felizes anos de
convivência fraterna.

Para que serve a religião?, perguntamos ao


iniciar este artigo. Sim, serve para reunir,
religar o filho ao Pai, mas também para re-
ligar os corações dos irmãos, independente
da tradição abraçada. Graças a Deus.

*Cristina Brito é diretora da área de relações


externas do Conselho Espírita do Estado do Rio de
Janeiro.
Wanda Linhares a patamares mais universalistas e cósmicos.
Neles a ciência e a religião se complementam
61

para, através de uma perspectiva dimensional

mir
A Grande Fraternidade Branca e superior, atingir novos horizontes paralelos
os 17 anos do MIR dentro e fora do homem (o micro e o macrocos-
mos). Ao mesmo tempo, procuramos orientar
A Grande Fraternidade Branca tem estado
as consciências para paradigmas compatíveis
sempre presente nesses 15 anos do MIR, desde
com o progresso e a aceleração da evolução
a ECO-92 até os dias de hoje. Compartilhamos
espiritual, ética e tecnológica, dentro dos
o ideal de unidade, conectividade, cooperação,
princípios de compaixão, tolerância, frater-
intercâmbio de conhecimentos, valores e ex-
nidade, paz e amor impessoal, exercidos não
periências, não só entre as diversas religiões e
apenas nas práticas espirituais, mas sobretu-
tradições espirituais, como também entre os
do na vida diária.
indivíduos, culturas, raças, povos e nações.

Como estamos em uma era de transformação


Em um mundo de transformação e divergên-
e oportunidades, alguns dos nossos mais caros
cia de interesses, comungamos com o mesmo
objetivos são ajudar a humanidade a se cons-
propósito do MIR de ajudar a humanidade a
cientizar de seus direitos e responsabilidades,
desenvolver uma cultura de paz, tolerância,
especialmente sobre o uso da energia através
compaixão e reverência à vida. Cabe às religi-
dos pensamentos, sentimentos, palavras,
ões dar o exemplo de respeito às diferenças,
ações e reações; ajudar na compreensão de
numa demonstração palpável de que a di-
que a energia emitida circula e de que estamos
versidade complementa, soma e enriquece,
sempre influenciando e sendo influenciados.
sem enfraquecer os alicerces do dharma que
Com essa finalidade, para purificar a energia
norteia cada uma.
mal qualificada, utilizamos a ciência do fogo
sagrado, especialmente a Chama Violeta do
No MIR reconhecemos um campo de força
Amor Libertador, que é a alquimia divina
propício para unir o propósito com a ação;
da misericórdia, do perdão, da purificação,
o conhecimento espiritual e ritualista, com
da transformação e da libertação; que tem o
os vários métodos de ensino e orientação
poder e a inteligência para atuar nas causas/
prática; o diálogo amistoso e a convivência
núcleos/ registros/ memórias/ efeitos das
harmoniosa; a possibilidade de sincronização
energias e karmas individuais e coletivos que
dos esforços conjuntos em uma rede de luz
afligem a humanidade e acarretam doenças,
inclusiva e abrangente, que atrai das mais altas
penúrias, violências e guerras.
esferas o suprimento espiritual necessário para
fazer soar a voz das religiões nas necessidades,
Os três eixos básicos para um
conflitos e relacionamentos da sociedade com
Movimento Inter-Religioso
sabedoria, equilíbrio e critério.

Sob o prisma d’A Grande Fraternidade Branca,


A Grande Fraternidade Branca um movimento inter-religioso tem três eixos
principais, a saber: 1) A união com a fonte de
Apesar das raízes d’A Grande Fraternidade
toda a vida e de todo o amor, magnetizando a
Branca, em seu mais amplo e abrangente as-
luz e as qualidades divinas para sustentar e ex-
pecto, serem milenares, temos, nesta nova era
pandir o propósito do movimento; 2) promover
que já raiou — na qual nossa principal ban-
o intercâmbio harmonioso e o respeito mútuo
deira é a liberdade, preconizada e sustentada
entre as diferentes religiões/tradições, propor-
pelo Mestre Ascensionado Saint Germain —,
cionando maior conhecimento dos princípios
o compromisso de ampliar o leque da verdade
básicos e práticas ritualísticas de cada uma; 3)
62 tomar parte de ações sociais e atos cívicos, um “passar de olhos”. Muito foi realizado.
visando, quando necessário, a intermediar Tivemos intensos momentos de calorosa
com justiça, imparcialidade e discernimento amizade e compreensão entre as tradições; um
Comunicações do ISER

os conflitos da vida comunitária, bem como maior conhecimento e troca de vivências; o


a educar as consciências para uma maior ele- respeito mútuo cresceu no decorrer do tempo
vação do nível espiritual e ético, tendo como de convivência.
finalidade a paz e a fraternidade universal.
Não poderíamos deixar de mencionar a
A Grande Fraternidade Branca ECO/92, a primeira vez que o Movimento
durante esses 17 anos do MIR Inter-Religioso deixou sua marca como uma
força espiritual em ascensão. Também foi mui-
No decorrer desses 15 anos, A Grande Fraterni- to significativo o apoio do MIR à Campanha
dade Branca tem mantido uma estreita unidade contra a Fome, juntamente com o Betinho.
com o MIR, comparecendo assiduamente às
plenárias mensais, às cerimônias inter-religiosas Damos um destaque especial às Aldeias Sagra-
e a encontros de caráter cívico e humanitário, das, que em nosso entender devem ser manti-
bem como a todas as Aldeias Sagradas. das e incrementadas, pela grande oportunida-
de de atrair, pelas “tendas”, rituais e debates
Durante todo esse tempo, temos procurado com um público ávido por conhecimentos
atrair, magnetizar, expandir e manter acesa a espirituais; e pela oportunidade do intercâm-
chama do propósito sagrado da união entre bio alegre e amistoso entre os componentes
o divino e o humano no verdadeiro sentido das diversas tradições. Na Fundição Progresso
do “religar”. Ou seja, atrair e deixar fluir a luz, o MIR pôde, através de suas tradições, mais
sem dogmas, preconceitos ou imposições, para uma vez demonstrar a unidade dentro da di-
a construção, dentro do MIR, de um núcleo- versidade. Esteve presente ainda na montanha
coração de integração e respeito mútuo entre do Corcovado, com danças sagradas e pombas
as tradições espirituais. Compreendemos brancas na montanha, invocando a paz mun-
que, unidos, nosso alcance será muito maior dial. Fez sentir sua solidariedade na chacina
porque estaremos dialogando em várias lin- da Candelária e em outros encontros de dor,
guagens, vários métodos de ensino espiritual, como na tragédia do ônibus 174, levando
meditação e orientação prática, através de apoio e conforto aos passageiros e familiares
múltiplas sendas da verdade, em cujo âmago e purificando as energias da violência. Foi uma
comungamos o mesmo ideal de paz, amor e alegre nota desfilando na Praia de Copacabana
progresso espiritual e físico. ou junto ao Forte do Leme.

Gostaríamos de mencionar que, no decorrer As mesas redondas atraíram um público sig-


desse período, seja nas solenidades ou nos nificativo, especialmente no encontro com
encontros inter-religiosos, A Grande Fraterni- os xamãs e os caciques, tornando a presença
dade Branca manteve a prática de envolver as indígena mais conhecida e respeitada e pro-
pessoas presentes, o MIR, a cidade do Rio de porcionando o debate entre a ciência e a reli-
Janeiro, o Brasil e o mundo inteiro na Espiral gião. Reconhecemos também, com gratidão,
de Chama Violeta, um poderoso exercício de a dedicação e esforços da comissão que tem
transmutação e libertação. atuado em prol da preservação dos espaços
sagrados da floresta e da educação ambiental;
As principais realizações do MIR assim como da comissão que tem participado
persistentemente do esforço contra a discrimi-
Não pretendemos fazer uma análise desses 17 nação religiosa e da discussão sobre o ensino
anos do Movimento Inter-Religioso, apenas religioso nas escolas.
Metas a serem alcançadas 63

Plenárias mensais: temos sentido falta de

mir
continuidade no comparecimento das plená-
rias mensais por parte de muitas tradições.
Embora reconheçamos a dificuldade dessa
frequência — em face dos compromissos pes-
soais, profissionais e espirituais de todos nós
—, gostaríamos de fazer um apelo para que
cada um, com sua experiência e sabedoria,
contribua com uma terça-feira mensal para
manter acesa a tocha do propósito inter-re-
ligioso e manifestar os pontos que considera
interessantes para o debate. A opinião de cada
tradição é muito importante para o contexto
todo. Enfatizamos a máxima: o mundo de ama-
nhã é construído hoje. Ajude a elaborar o MIR que
você deseja e que o mundo precisa.

Fóruns espirituais, ambientais e culturais,


mesas redondas: realizar comemorações de
datas importantes das tradições que assim o
desejarem; fóruns culturais e ambientais de
diversos temas coerentes com os objetivos
do MIR.

No balanço geral não vamos destacar nomes,


sabendo que cada um fez o melhor possível
para dar sua contribuição pessoal e incremen-
tar a união e a fraternidade entre as diversas
tradições. Olhando para o passado e erguendo
nossa visão para o futuro, nossos parabéns ao
MIR, a todos os queridos companheiros de
tantas jornadas e as boas vindas para os que
estão se aproximando.

Que possamos permanecer juntos, em um


mesmo alento, uma única vibração, energia e
consciência, construindo o aqui e agora, saben-
do que “a luz de Deus é sempre vitoriosa!”

*Wanda Linhares é representante da tradição reli-


giosa A Grande Fraternidade Branca.
64
Renato Chiera com os quais nós temos uma identidade: a
bíblia, Jesus Cristo, uma pessoa fundamental
na nossa fé; seja com os cultos afros, que pra
A trajetória
Comunicações do ISER

mim sempre tiveram uma atração especial


porque a maioria aqui do nosso povo tem raízes
Eu tenho 65 anos; sou italiano de origem e de
africanas. Aqui há muitos cultos afros nas suas
adoção brasileira há quase 30 anos. Cheguei ao
várias denominações. A maioria é Candomblé e
Brasil em 1978, em junho. Então, em junho de
Umbanda, que o pessoal chama de Macumba,
2008 fiz 30 anos. Eu sou formado em filosofia,
muitas vezes, e também de Quimbanda. Aí eu
na faculdade católica de Milão. Dava aula e tra-
tive muitos contatos com mães-de-santo. Tem
balhava com a juventude estudantil lá na Itália.
a mãe Beata, que mora aqui em cima, que é uma
Estava bem, trabalhando com a comunidade,
grande amiga.
e fui convidado a vir ao Brasil pelo meu bispo.
Tínhamos assumido um compromisso com a
A minha postura foi sempre ver aquilo que
arquidiocese de Nova Iguaçu porque naquela
tinha de bom nos outros, a semente de Deus,
época estava sem padre, sem vocações. E o
do Verbo, como diz o Concílio Vaticano II. A
papa tinha pedido ajuda às arquidioceses mais
semente do Verbo presente em todos, em todas
ricas em padres com uma carta chamada Fidei
as pessoas e certamente também em todas as
donum, dom da fé. Então, nós somos chamados
manifestações religiosas. Isso me ajuda muito
padres fideidonos. Foi o papa que solicitou.
porque em todo lugar se encontram coisas
Aí eu deixei a filosofia — tinha ganhado a ca-
boas, algo de Deus. Então, com essa atitude,
deira —, deixei todos os laços que tinha com
eu fui crescendo no diálogo ecumênico. De
as comunidades e vim ao Brasil, sem sequer
fato, eu tinha pastores amigos. E algo de inter-
conhecer a língua. Conhecia apenas algumas
religioso com outras formas religiosas, aqui
gírias, como “entrar pelo cano”.
sobretudo com os cultos afros. Daí fomos
tecendo essas redes, não só entre os católicos,
Cheguei, não para trabalhar com meninos
para criar a comunhão, mas também assu-
como depois aconteceu, mas como missio-
mindo uma postura diferente, de respeito e
nário nas comunidades periféricas. Trabalhei
não de agressividade, como os outros. Eu me
em duas paróquias: uma, Cruzeiro do Sul; e
lembro que pessoas dos cultos afros, vestidas
a outra, Miguel Couto, onde estou ainda. Na
de branco, vinham na igreja e inicialmente o
realidade, muito abandonadas, periferia de
povo mandava embora. E eu fui começando
periferia. Sobretudo em Miguel Couto, ainda
a acolher. Se eles vêm aqui é porque estão
hoje é uma grande periferia, semiabandonada
procurando alguma coisa. Então, vamos aco-
ainda. E aqui me deparei com o sofrimento do
lhê-los. E fazíamos celebrações aqui, bonitas.
povo. O abandono religioso, social, econômico,
E um dia eles terminaram batendo palmas
falta de protagonismo, falta de raízes, falta de
porque eles se sentiam amados. O que percebi
autoestima, sem rumo, rocha, sem raízes. E aí
era que nós devíamos amar o outro como eu
comecei a trabalhar, congregando essas pessoas.
amo a mim mesmo. Aquilo que Jesus pede
Ia ao encontro delas, pegava a pick-up com som
para nós, cristãos. Amar o outro como a si
e combinava como encontrar. Aí nasceram 19
mesmo, como amo a mim. Não é só amar o
comunidades, igrejas que hoje estão crescendo.
outro, como também amar a religião do outro
E aqui também tive relações com outras reli-
como eu amo a minha. Chegar a isso é que
giões. Na paróquia aqui da Baixada a maioria
parecia um absurdo, mas na verdade tem que
é evangélica, muitos cultos afros. Para cada
amar a realidade do outro, a religião do outro,
igreja católica há 20 a 25 das outras. Então eu
as pessoas do outro como amo a minha. Isso
sempre tive muito diálogo, muito encontro,
não quer dizer que eu largo a minha igreja,
não choque. Seja com os grupos evangélicos,
a minha religião, mas eu tenho que amar a
realidade do outro, a pátria do outro, a ideia morrer. E dizia que não queria morrer. Esse 65
do outro, a religião do outro como eu amo a grito para mim foi o grito de Jesus que dizia:
minha religião. Isso, que me ajudou muito, aquilo que tu fazes ao menor, fazes a mim.

mir
também me foi doado por movimentos como
o da Chiara Lubich. É o movimento inter-reli- “E eu não quero morrer e eu preciso de você”.
gioso, interecumênico, é um movimento que Foi por isso que eu entrei nessa realidade, que
alcança os ateus, aqueles que não têm religião hoje é uma realidade muito grande. A Casa do
nenhuma — porque eles também têm algo de Menor, eu acho, é uma das maiores expressões
Deus, embora anônimo. Essa era a postura que no Brasil que está trabalhando nesse setor.
eu tinha naquela época. Estamos presentes em outros pontos do país,
estamos abertos a outros lugares. Nós já re-
Visão de unidade que desemboca cuperamos quinze mil; já profissionalizamos
no movimento popular e ajudamos a ser cidadãos com algumas der-
rotas. Alguns meninos foram assassinados e
Eu bebo essa espiritualidade da unidade: “que tinham contato conosco. Não sei se foram 20,
todos sejam um”. Jesus quer isto: que todos 30 que não conseguiram se recuperar. Mas a
sejam um. Não quer dizer ser iguais. Que todos maioria tem um caminho bom.
sejam um para um acolher o outro. Eu muitas
vezes sonho a Igreja como uma porta, um jati- Experiência do diálogo inter-
nho que tem todas as portas. É um espaço para religioso na paróquia
conviver, coexistir, dialogar, se complementar;
e é aí que nós vamos ter a totalidade da expres- As nossas comunidades, também católicas,
são de Deus. Porque cada um de nós tem algo vêm de uma atitude – talvez de uma formação
de Deus, não é um sincretismo estúpido. É ver – de defesa. Agressividade nem tanto, mas de
o valor do outro, o que tem de válido. Isso nos defesa. Outras vezes, outros grupos religiosos
completa porque cada um tem o seu acento eram muito agressivos contra a Igreja Católica e
especial, uma aceitação especial do Verbo, da contra os católicos. Então nosso pessoal estava
expressão de Deus. Agora sabemos que Jesus é na defesa e certamente numa abertura, num
a expressão completa de Deus em nós. Então diálogo. Eu como padre, acho que influenciei
nós devemos captar essas coisas. muitas comunidades. Hoje é uma atitude dife-
rente que as comunidades têm. É uma atitude
Eu procurei levar essa realidade das crianças, dialogante, de respeito. Procurar aquilo que nos
dos adolescentes, a realidade da morte, da vio- une e não aquilo que nos divide; procurar os
lência contra elas, dos grupos de extermínio. valores nos outros. Quando falo nas comuni-
Aqui estou numa região muito violenta; era dades de Miguel Couto, eu posso afirmar isso.
muito violenta, era o berço dos esquadrões da Claro que há algumas exceções. Então também
morte. Aí eu entrei nesse trauma, nesse drama. se tornou um pouco uma coisa de comunidade.
É uma tragédia, de meninos não amados, de Mas, inicialmente, era algo muito meu. Uma
meninos eliminados antes de começar a viver. coisa pessoal, pelo fato de que eu venho de uma
Eu senti nisso um grito como ser humano, espiritualidade da unidade.
como cristão, como padre. A gente não podia
aceitar essa eliminação sumária sem indigna- A imagem de Deus em todos. A presença de
ção. Como não se indignar? Então eu entrei Deus em todos. Alguém que deve ser amado.
forçadamente. O menino foi assassinado na Daí foi fermentando e hoje nós temos uma
porta da minha casa; outro menino, aqui na realidade de não agressividade. Certos grupos
paróquia; cinco ou seis foram assassinados evangélicos eram muito agressivos, mas hoje,
em um mês. Um veio me pedir ajuda porque aqui também em Miguel Couto, devo dizer a
já havia mais 40 para morrer, marcados para verdade: em Miguel Couto não tem mais isso. As
66 igrejas me convidam. Aqui temos também uma que nós temos aqui em São Bernardino, sem-
experiência na Casa do Menor com muitos evan- pre trabalhávamos com os evangélicos. Nesses
gélicos, também pessoas de cultos afros, temos lugares mais afastados, a maioria é evangélica.
Comunicações do ISER

pessoas budistas; aqui nós temos uma prática E a gente colaborava com eles, a gente traba-
que nos une a todos. Nós somos católicos. A lhava com eles. Nem sempre havia um pastor
nossa identidade é católica. Ser católico quer presente. Porque, muitas vezes, as lideranças
dizer ser universal. Católico quer dizer aberto a são mais ideologizadas, enquanto que o povo vê
todos, como Deus é. Deus não é dos católicos. as necessidades concretas, que são todas iguais.
Deus é Deus de todos. Jesus não é dos católicos. São dos católicos, dos crentes, dos umbandistas,
Jesus é Jesus, é Deus de todos e para todos. Se dos cultos afros. Todo mundo sofre. Então,
formos católicos, temos que gostar de todos quer dizer, instintivamente sentia que Deus
como Jesus. Então aqui nós temos essa expres- não vai nos separar, não pode separar. A igreja
são, essa experiência que vai para frente. Temos não pode separar. Muitas vezes separa. Mas eles
evangélicos de várias denominações, católicos, nos ajudam a captar que há causas pelas quais a
budistas e a proposta que a gente fez a todo gente tem é que se unificar. Em vez de ficarmos
mundo é, sobretudo, a verdade do amor, que é discutindo sobre religião, devemos trabalhar
o núcleo de Cristo: amai-vos uns aos outros; o juntos, com problemas que são comuns, com
mandamento que ele deixou é o testamento dele. situações que são comuns, e nós vimos que isso é
“Amai uns aos outros como eu os amei”. Não um momento de diálogo muito interessante.
falou: amai os católicos, amai os evangélicos,
mas “amai uns aos outros”. Todos, e isso não E sou muito estimado por todos os pastores e
impede de amar o inimigo. Até o inimigo. Vemos todo o povo. A maioria é evangélica e a gente
muitas vezes a Igreja Universal um pouco mais ajuda, faz tudo, fizemos as casas; no bairro Pa-
grosseira, mas mesmo assim a gente não vai dre Josimo foi uma luta de anos. Quem estava
imitar essa atitude. Então nós estamos vivendo sendo despejado, toda vez a gente estava lá. E,
isso. Num outro dia, nós nos encontrávamos quando tinha despejo na Luz, a gente também
todos juntos na igreja e recebemos a proposta chamava, pedia a ajuda de outros quando
de viver uma frase do evangelho, que é uma havia mais perigo. Mas nós vimos que essa
frase que diz geralmente sobre a relação com situação de necessidade unia muito e também
o próximo. Então, por exemplo, hoje é o amor no MIR a gente fala que as religiões devem
recíproco, hoje é viver o amor recíproco. Amor se unir a serviço de causas da humanidade, a
recíproco é amar o outro não fazendo diferença serviço de valores, a serviço de problemas. E
nenhuma. As diferenças são riquezas para nós nisso nós deveríamos dar mais passos ainda.
e não obstáculos. A causa das crianças: aqui há meninos católi-
cos, evangélicos, meninos que vêm dos cultos
Agora mesmo, como grupo, a gente tentou, a afros, os pais são mães e pais de santo. Mas
gente fez alguma coisa. E nós fazíamos na pa- são crianças. Então, eu acolho todo mundo;
róquia. Quando tinha problemas, por exemplo, eu não pergunto a religião. A gente acolhe. O
de despejo, eu consegui contatos entre as várias ser humano é Jesus para nós, é Jesus que está
igrejas. Alguns pastores aceitavam, tivemos chegando e basta. Então essa é a postura que
momentos onde nós convidamos outras igrejas explica por que eu entrei no MIR, o que me
porque também a nossa arquidiocese tem essa atraiu. Foi essa a motivação.
postura. Agora, aqui em Miguel Couto, também.
Quando tinha problema de terra, problema de Iniciação no MIR
invasão: mutirão; isso sempre foi assim. Quem
animava era a Igreja Católica. Graças à Igreja Eu conheço o Rubem César há muitos anos,
Católica. Mas com todos os outros que são por outros motivos. Pela causa, pela luta co-
evangélicos. Porque, na experiência de mutirão mum. Homem que trabalha pela paz, contra
a violência, pessoa que conheço há muito as nossas posturas, aquela preocupação com o 67
tempo. André Porto é meu amigo pessoal. Oriente, Iraque. Devemos cuidar para que não
Quando tinha problema, a gente também vivia se chegue a uma radicalidade e uma agressivi-

mir
isso. Não é só encontro religioso formal. Ele dade de fundamentalismo, que muitas vezes
conhecia a gente, conhecia o nosso trabalho. está enterrada e pode vir para fora. Mas eu
Acho que tinha e tem respeito. Então ele me puxava também o MIR pra nos defrontar com
convidou, dizendo que tinha o MIR, e também causas comuns. E eu muitas vezes coloquei
fui. E eu gostei de ver que havia diversidade isso, pois achava que faltava um pouco no
religiosa, não só cristãos. Havia pessoas de MIR. Demos importantes passos na questão
muitas religiões que eu nem conhecia. Tem do encontro inter-religioso. Foi muito bom o
pequenas sementes aqui e eu me sentia bem. contato com os ortodoxos, árabes, palestinos,
Muitas vezes era o único católico e eu nunca israelenses. Havia mães de Israel, mães árabes
me senti desrespeitado. Sempre procurava que diziam: “nós sofremos todos, nossos fi-
também dizer que nós devíamos nos colocar lhos são mortos de um lado e do outro e nós
na escuta de Deus no outro. Na escuta daquilo devemos superar aquilo que é o ideologismo,
que o outro tem de bom. São Paulo diz: “tudo a radicalidade. Porque a vida esta se perdendo
aquilo que é bom é justo”. Porque o Espírito de um lado e do outro”.
Santo não é só dos católicos. Deus não é só dos
católicos. E ele agiu através de Jesus, age através Não conseguimos dar muitos passos, talvez
da Igreja com todas as dificuldades que nós porque eu não tenha trabalhado muito e de-
colocamos porque na Igreja há seres humanos vesse fazer mais, estar mais presente. A causa
e tem um limite. Mas Ele também não tem da paz cresceu um pouco mais. As igrejas
fim. Ele não tem espaço. Ele age em todos os colaboraram com a causa do desarmamento.
lugares. Então, Deus é Deus de todos. Através E também puxei a causa para as crianças. Em
de todas as religiões, Ele também quer ser um escala mundial, todas as religiões deveriam se
instrumento de salvação. Essa sempre foi a debruçar a serviço da vida. Religião quer dizer
minha postura com eles e muitas vezes não religar, quer dizer unir e não dividir. Começou
posso participar pelas dificuldades, até sinto a nascer alguma coisa, o Viva Rio querendo
por isso. Eu deveria estar mais presente. fazer alguma coisa com meninos nas favelas.
Nós demos alguns passos, deveríamos ter um
Sempre foi um encontro bonito. Porque eu escritório lá no MIR para ajudar meninos que
aprendi a dialogar, a me relacionar mais, a estão nas favelas, que estão correndo risco
escutar mais, a valorizar mais. Tudo aquilo que de vida. Alguma coisa acontece, mas ainda é
tem o bem nos outros vai completar também muito pouco. Por exemplo: a Casa da Vida,
a gente. Então sentia e sinto isso. Agora, nos das crianças. Uma casa mundial. Também no
eventos comuns, quando podíamos ir nós primeiro mundo tem muito essa problemática.
íamos, como lá em cima do Corcovado, o mo- Aqui se mata dando tiro, lá se mata de outras
mento pela paz que fizemos, que foi muito im- formas: violência sexual, violência doméstica,
portante porque colocou um sinal de respeito, escondida, e muitos problemas. E também
de tolerância, num mundo fundamentalista, há pobres, tem exclusão. Há imigrantes e eles
radical. Hoje a religião está radicalizando, o são excluídos. As crianças também não são
fundamentalismo está aumentando em todos protegidas, são exploradas no trabalho, tanta
os campos. Até no campo católico pode ter coisa. Então a gente puxou essa causa porque
isso, até no campo cristão. Não é só no campo acho que é a causa da vida. Sempre falei isto: a
muçulmano; e me lembro que lá tinha muçul- causa da criança deveria ser o partido de todos
mano. Foi muito bom isso. E eu encontrei com os partidos, a religião de todas as religiões. A
eles, com os responsáveis pelo Islamismo. causa que nos une. E seria uma causa capaz
Foi bom também ter encontrado gente com de unificar muito. Porque em toda a parte do
68 mundo, em todas as religiões e em todos os une a isso? Sem dúvida, o mundo tem essa
povos, existe essa problemática. Não tem cor. coisa que acredita, que procura os valores do
Política não tem cor. Religião também não tem outro, que procura amar o outro como ama
Comunicações do ISER

cor. A vida é vida. É sagrada por si, não precisa a si mesmo. Mas deveríamos explicitar um
ter uma identidade religiosa. Ela é sagrada. A pouco mais aquilo que eu falei sobre o come-
vida é Deus, a vida é sagrada. ço da minha prática. Eu comecei essa prática
porque tinha convicções. Então deveríamos ver
Então foi isso que eu puxei, mas a gente é se é isso mesmo que nós queremos, clarificar
muito tomado pelos problemas para lá, para mais, para que não fique uma coisa muito
cá e eu não pude dar sequência. E também confusa em que a gente se encontra, mas não
não é todo mundo que tem a mesma sensibi- tem objetivos bem claros. É preciso saber qual
lidade, porque eu dizia: “devemos pressionar é a base do nosso diálogo.
os governos pra isso, devemos também pres-
sionar a sociedade civil”. Eu vejo aqui. Temos Outra área em que eu acho que nós deveríamos
lutas enormes. Tivemos que fechar uma casa. crescer são ações em conjunto. Encontrar cau-
Não é só pra ter dinheiro, poderíamos fazer sas que nos unem a todos; que atingem a todos
campanhas para dizer isso. Nós já mandamos que não têm um gosto religioso, político, que
cartas, já fizemos um movimento dando pro- têm o gosto da vida e a causa da paz. Só que
tagonismo aos meninos do mundo e lemos na também a causa da paz pode ser muito ampla.
ONU dos povos um documento feito por 170 Devemos concretizar mais. Se nós queremos
meninos do mundo, de 17 nações, em que eles ações, devemos concretizar mais essas ações.
apontavam aos governos soluções. Soluções Para a paz, qual é a ação? Para a vida, qual é a
políticas, econômicas, sociais. ação? Para as crianças, quais são as ações? Para
a exclusão do mundo, quais são as ações? Eu
Contribuições e limitações do MIR acredito que isso deveria se definir um pouco
mais. Participar é bom, é importante. O fato do
Eu sinto o seguinte: também deveríamos ter encontro já é de um valor enorme. Se a gente
uma clareza teórica, teológica, de base. Por que tivesse mais clareza, mais propostas, mais de-
nos encontramos? O que nós queremos? Qual terminação. Não é justo pedir para os outros
é a motivação? É de encontrarmos religiões fazerem, se é para eu fazer. Eu vejo os meus
diferentes, aquilo que eu falei antes. Deveria ser limites. Deveria haver mais clareza.
mais explicitado que nós queremos procurar
o bem que há no outro. Nós queremos procu- Eu acho que a maior contribuição do MIR é a
rar a presença de Deus no outro, as sementes cultura da tolerância, do diálogo, do encontro.
do Verbo no outro; aquilo que tem de Deus, Não é só o MIR. O MIR é apenas um instru-
aquilo que tem de bom e que vem de Deus. mento. Trabalhou-se essa cultura do diálogo,
Para construir um corpo onde aparece o rosto do respeito, do encontro. O diferente é uma
de Deus completo. Ninguém pode dizer: “nós riqueza para nós. O diferente me completa. A
somos o rosto de Deus perfeito, completo”. religião é uma força propulsora. Quando se
Cada um de nós tem algo. Mas precisamos de usa Deus para levar à guerra, para justificar a
uma base, não sei se é teórica, ideológica, não violência, a gente está usando de forma indevi-
sei como dizer. Uma base teológica um pouco da a religião de Deus. Porque é o contrário: de-
mais clara. vemos trabalhar os lideres religiosos para um
encontro e para causas. Para mim, o diálogo, o
Mas teria também que se chegar a um consen- ecumenismo e o encontro religioso acontecem
so, isto é, haver um documento base do nosso na vida. Uma coisa que então eu diria, que é
comunismo e do nosso diálogo inter-religioso. da minha espiritualidade, é que “onde dois ou
Por que nós somos inter-religiosos? O que nos três estão unidos em meu nome, eu estou no
meio deles”. Isso foi Jesus que falou, mas não 69
foi para os católicos, foi para a humanidade.
Onde há duas ou três pessoas unidas em nome

mir
dele, a quem se ama, nós atraímos Deus. Eu
me encontro com evangélicos, com budistas,
com mulçumanos, me encontro com o sikh. Se
esse encontro tem amor recíproco, atraímos
Deus. O Deus que é o Deus de todos. Deus é
um só: Deus do amor, Deus da língua, Deus da
comunhão. O encontro em si já tem um valor
enorme. Eu vejo que, se nós nos encontrarmos
e nos amarmos, Deus ilumina todo mundo e
todo mundo dá passos. Hoje nós descobrimos
que o ser humano é feito de amor, feito para
ser amado e amar. Se isso acontece, é uma
beleza. Se não acontece, é um desastre. Nós
fomos feitos para amar e nos relacionar, para
ser amados e amar. Isso é tudo para mim. Essa
é a nossa proposta. Só isso. E nesse amor entre
nós há a presença de Deus e Deus ilumina e as
pessoas vão entendendo. Mas quem é que fala?
A presença de Deus entre a gente. Se nós dis-
cutimos, brigamos, não há mais espírito entre
nós. E a gente vai pra casa. O grande desafio,
eu acho, é acolher o outro. O ser humano tem
o amor no código genético.

*Renato Chiera é Padre da Igreja Católica Apos-


tólica Romana.
70
Yalorixá Abigail vezes confunde os adeptos, os simpatizantes,
os seguidores do culto. Dizem os mais en-
Kanabogy tendidos que o Catimbó não possui em seus
Comunicações do ISER

cultos uma hierarquia, porém tenho consci-


ência de que ela existe e é muito precisa para
A Jurema Sagrada – Jurema Preta os trabalhos espirituais da Jurema. Exemplo:
um mestre não passa à frente do outro e nas
Ao escrever a estória da Jurema Preta, é im-
mesas há um dirigente, que é um dos grandes
portante citar a participação fundamental da
mestres, escolhido pela vidência. Como nos
comunidade indígena, de onde saíram tantos
terreiros de umbanda há velhos, caboclos, es-
ensinamentos que acompanharam os mestres
píritos de cura, boiadeiros que chefiam, casam
dessa religiosidade genuinamente brasileira,
e batizam seus seguidores, no Catimbó é a
o Catimbó.
mesma coisa: temos uma família, uma cidade

e um Estado.
A contribuição de nossos índios é de importân-
cia valiosíssima para a construção da cultura
O Catimbó veio da era medieval, quando bru-
regional e toda sua diversidade que, até hoje,
xos e bruxas, grandes mágicos e até mulatos;
segue com a amplitude que nos foi legada.
carregadores de sinhazinhas, mascates, cabo-
Isso inclui tanto a medicina natural, com a
clos matreiros; negros fugitivos, enfim, todas
utilização de árvores, com suas raízes, caules,
as classes, principalmente os mais carentes,
cascas, folhas, frutos e sementes que compõem
tinham que fugir para exercer sua fé, que era
nossa flora medicinal, quanto a religiosidade
proibida. Mamelucos e cafuzos, negros e ín-
de nosso gentio, que até hoje nos segue com
dios, europeus de todos os lados fugiam para
sua praticidade comunitária.
a mata, para fazer o Catimbó. Cat – fogo; timbó

– mato; aí está formada a palavra Catimbó,
Não podemos esquecer, principalmente, da
fogo na mata.
enorme importância de nossas águas, que
seguem irrigando nosso território por meio de
A cultura do Catimbó, apesar de mítica e secu-
rios, lagos, lagoas e cachoeiras que, caminhan-
lar, já tem suas raízes firmadas nos dias de hoje.
do por entre florestas e planícies, vão enrique-
O Mestre, o sacerdote, o mentor espiritual é, ao
cendo o território brasileiro; suas lindas lendas
mesmo tempo, rezador, curador, conselheiro e
que tanto embelezam nosso regionalismo
até mesmo pai ou mãe na orientação dos seus
são sempre lembradas por nossos escritores e
seguidores. Realiza batizados, casamentos,
poetas, cantadas em prosa e verso.
rituais fúnebres, missas e ladainhas.

Comprovando esse respeito, eles costumam
Zé Pilintra é considerado o príncipe da Jurema
dizer que: “A magia do mundo está na água;
e hoje muitos terreiros trabalham com outras
a água guarda o passado e prepara o futuro,
falanges: Zé dos Anjos, Zé do Ponto, Zé Arru-
o exemplo do dinheiro: somente quando for
da, Zé da Canoa, Zé da Escada, Zé da Rua da
cortada a última árvore, pescado o último
Guia, Zé Pereira, Zé do Vale, Zé Enganador,
peixe, poluído o último rio é que as pessoas
Zé de Aruanda, Zé da Jurema. Essas chefias
vão perceber que não podem comer dinheiro”
vão se ampliando e temos encontrado, enfim,
(provérbio indígena).
outros falangeiros que estão cheios de ginga
e malandragem e trazem, para os estados do
O Catimbó leste e sul do Brasil, Zé da Lapa, Zé da Man-
gueira, Zé de Santa Tereza, etc. É bom que se
Catimbó, magia, mistério, ocultismo. Como é
diga que Zé Pilintra nunca foi ladrão, bandido
difícil falar sobre o Catimbó. Essa mistura às
ou arruaceiro. Ele é e foi um bom malandro.
Homem viril, jogador de cartas, que aparecia princípios do amor, da concórdia, paz, alegria 71
em sua época e o seu carteado corria mundo. e respeito, contribuem para aumentar a digni-
dade das pessoas, para o aumento da cidadania

mir
O Catimbó tem uma base religiosa vinda de espiritual e para a eliminação dos preconceitos
várias regiões, é uma prática magística, ritualís- e discriminação religiosa.
tica, onde entram santos católicos, água benta,
outros objetos litúrgicos, trabalhando com in- *Yalorixá Abigail Kanabogy é representante
corporações vindas através da necessidade do da tradição religiosa Catimbó – Casa da Justiça
consulente, principalmente na linha de cura. Divina.
Problemas materiais e amorosos são as prin-
cipais finalidades e a sua parte litúrgica tem,
muitas vezes, a ver com os santos católicos.

Para se fazer o mal às pessoas não é preciso


estar no Catimbó. Aliás, o mal não precisa de
religião para ser feito.

Observação

Foi difícil compilar a bibliografia deste texto,


já que reuni aqui experiências vivenciadas
nas inúmeras viagens que realizei pelo norte
e nordeste. Junto a isso, muitas pesquisas se
juntaram à vivência oral para complementar
o que fui colhendo nas minhas andanças por
aqueles estados. Além disso, aconteceram
muitas mensagens psicografadas e citadas
pelos próprios guias, sem contar as minhas
caminhadas pela espiritualidade.
Também os órgãos de comunicação comple-
mentaram o que fui ouvindo e lendo através
da historiografia popular, dos meus contatos
com o povo de cada região.

Participação no Movimento
Inter-Religioso do Rio de Janeiro
– MIR

A Casa da Justiça Divina participa do MIR desde


sua fundação, apoiando diversas ações. A for-
mação do Catimbó é eminentemente inter-re-
ligiosa, na medida em que integra cerimoniais,
símbolos, magias de diferentes formas culturais
de relacionamento com o Divino.

Assim, reconhecemos que participar do MIR


é uma oportunidade de aprender e conviver
com várias tradições que, afinadas com os
72
Nilton Bonder que vinha lá de trás, da ditadura, de uma tenta-
tiva da religião se posicionar. A gente fez aquela
ponte ali que, de uma certa maneira, desaguou
Participação no ISER
Comunicações do ISER

no MIR. Era algo mais acadêmico, eram pessoas


que trocavam ideias, marcavam encontros, co-
Minha participação no ISER é dos anos 1980.
nheciam um pouco da tradição do outro. Era um
Quando vim para o Brasil, a partir de 1986,
trabalho muito interessante. Na época, o único
1987, fui secretário adjunto por algum tempo
tipo de diálogo que existia era muito formal. O
com Rubem César. Depois, nem sei dizer em
Judaísmo tinha diálogo com a Igreja Católica,
que ano, mas já quando o MIR existia, fui pre-
mas era um diálogo realmente muito formal. E
sidente do ISER. E nós éramos um grupo, com
até hoje se tratam com muita diplomacia. Era
pessoas de várias religiões, que funcionava an-
muito interessante aquele contato com pessoas
tes do MIR se estruturar como um programa
que falavam da sua fé, da sua espiritualidade;
especifico. Nós fazíamos um pouco o trabalho
para mim era muito instigante.
inter-religioso, menos como um projeto, usan-
do o pessoal do Catolicismo que havia no ISER,
A ECO-92, o ISER e a Vigília
a mim e a algumas pessoas que eram do campo
Inter-religiosa
de antropologia, mas que tinham interesse ou
inserção na área religiosa. E nós dialogávamos
Na verdade, eu participei muito da organização
nessa área religiosa, até mesmo porque o ISER
da vigília. Na época eu estava muito envolvido
era quem hospedava tudo. Tinha este nome:
com o ISER. Não me lembro exatamente qual
Estudos da Religião. Éramos um grupo que
cargo eu tinha dentro do ISER, mas foi um
se encontrava semanalmente, com debates, e
acontecimento para o qual nós preparamos
que era bastante interessante. Isso aconteceu
com dois anos de antecedência. Foi muito im-
bem antes da ECO-92. Fui bastante ativo até o
portante para a cidade e para o ISER, que tinha
período da ECO-92. Participei, junto ao ISER,
um braço de Ecologia começando e que depois
dos preparativos para a ECO e depois é que o
acabou ficando com a Samyra [Crespo]. Esse
MIR começou a se estruturar mais, com uma
era um dos olhares do ISER no momento, uma
diversidade maior.
ecologia com cidadania. E eu me lembro de nós
nos preparando, recebendo os espaços para
Era muito mais um debate inter-religioso. Al-
fazer a vigília, participando da organização.
gumas ações eram feitas ali, ainda não existiam
Lembro do evento final, com as participações
formalmente. Depois foram se formando progra-
de pessoas de fora, etc. Trouxemos, represen-
mas no ISER: a questão da AIDS e as religiões se
tando o Judaísmo, o rabino Zalman, que era
organizaram de uma maneira para dar suporte;
uma figura dos EUA. Estava lá presente, fez um
na época a gente tentou se posicionar em relação
ritual para a área judaica que ficou no filme.
a situações que apareciam, como o Santo Daime
Recordo uma participação mais ativa em toda
sendo interpelado pela polícia; tivemos também
a formatação dessa noite de vigília, que teve
posicionamento quanto a outras questões da
uma importância muito grande para a ECO-92
época, como o mundo evangélico hostilizando
como um evento popular. Foi um momento
o afro-brasileiro. Quando a gente sentia que ti-
importante também aquilo no Aterro, uma
nha que se posicionar, se posicionava como um
ação mais popular mesmo.
grupo, mas era muito mais uma área de debates
e de encontros inter-religiosos, uma área muito
A criação do MIR
rica, pessoas muito interessantes.

Eu participei bastante do MIR no princípio,


Era um espaço também de encontro social, de
mas vim para a Barra da Tijuca e, com a di-
pensadores que mantinham o espírito do ISER
ficuldade de locomoção para ir às reuniões,
acabei me afastando. Tínhamos um programa era como uma rotação das tradições, cada um 73
de Judaísmo dentro do ISER que funcionou fazendo um ritual. Era mais ou menos assim.
algum tempo; havia alguns projetos ali e fica- Mas foi uma coisa minha mesmo, acabei me

mir
mos acompanhando. O MIR fez uma opção afastando. E acho que esse período, logo que
interessante, eclética, muito eclética. Aquele passou a ECO-92, foi aquele em que eu fiquei
núcleo de pensadores se desfez pela própria na presidência do ISER. E eu tenho uma rela-
dinâmica do tempo. O MIR apareceu no vácuo ção muito institucional, sou muito ligado a
desse grupo que foi acabando, se desfazendo levantamento de fundos, tendo a ver sempre a
por diversas razões. Acabamos nos disper- parte administrativa do ISER, e acabei fazendo
sando e o MIR nasceu quase que como uma uma opção de doação para essa área mais ad-
continuidade desse projeto, agora com uma ministrativa, com menos envolvimento.
tentativa de abranger melhor toda a plurali-
dade que se tinha aqui no Rio de Janeiro. E a Depois eu acho que alguns rabinos chegaram
ECO foi um momento em que essa pluralidade de maneira mais esporádica. Sei que foram coi-
apareceu muito. Fizemos a capa de uma edição sas pontuais, mas acho que não permaneceu
da revista Domingo, do Jornal do Brasil. ninguém mais ativamente, que eu saiba.

Ali acho que pela primeira vez o ISER, que Dinâmica externa: o envolvimento
tinha uma mentalidade protestante, realmen- com a campanha do Betinho, o
te se relacionou com todas as manifestações nascimento do Viva Rio
religiosas e apareceu naquela fotografia. Foi
ali que, pela primeira vez, aquele nível de di- Eu acho que o Rubem, o próprio ISER e,
versidade apareceu. Antes era bem normativo. de uma certa maneira, o Viva Rio também,
O grupo de Catolicismo, o Protestantismo. O sempre se alimentaram muito desse tema
judaísmo já foi um agregado meio que de novi- religioso. Houve uma aproximação muito
dade, interessante porque, apesar de aquele ser grande do Caio Fábio; o mundo do ISER era
um espaço extremamente progressista, liberal, muito alimentado pela questão religiosa e
estava muito ligado às origens. E esse grupo era havia realmente uma qualidade interessante,
um embrião do que depois se tornaria bastante um aspecto muito forte de certa intervenção
ousado em termos de diálogo inter-religioso, na sociedade (carioca, principalmente). As
basicamente aceitando, acolhendo todas as religiões ainda têm espaço, obviamente, e
manifestações. Lá atrás ainda havia um pouco cada vez mais. Mas, naquele período, o ISER
essa conotação de assunto de teólogos, uma não funcionava exatamente como o MIR hoje,
coisa bíblica, mais conservadora. Intelectual e mas a minha sensação é de que havia quase
conservadora em algum lugar, mas não tanto que uma politização maior do aspecto reli-
ali porque a maioria das pessoas era de esquer- gioso e do envolvimento das religiões. Até por
da. Mas existia um certo conservadorismo. conta das lideranças, que eram mais políticas
Não sei explicar muito bem. mesmo, que tinham um trabalho mais prose-
litista e que tinham um envolvimento, inclu-
Eram pessoas de nível acadêmico, todas elas sive, com a política da cidade. O que sempre
vinculadas às estruturas religiosas, o que era me encantou muito no ISER e no assunto
interessante, sempre dando muita solidez. Os religião era justamente esse envolvimento.
participantes tinham realmente uma qualida- Em todas as campanhas feitas pelo ISER — e
de muito grande da vivência de seus movimen- depois pelo Viva Rio —, o braço religioso era
tos, de suas tradições, era muito rico. muito importante. Conseguir que as igrejas
sempre estivessem juntas, que aderissem, que
Durante um tempo, no início, eu me lembro dessem suporte, que amplificassem, mesmo
de ir falar sobre o Judaísmo. No começo o MIR dentro do seu espaço ritual, as campanhas de
74 inserção com os agentes sociais. Então eram reflexão que tinha muito sentido para mim, que
sempre estas pontes: a religião em pontes eu não tinha nem com outros rabinos.
com a sociedade.
Comunicações do ISER

No ISER, a gente praticava realmente um


Nós estabelecíamos um diálogo que alimen- diálogo; conhecia os problemas do outro, as
tava a nós mesmos; era uma troca intelectual questões de fé, apareciam ali as questões. Para
gostosa, que fazíamos como um exercício, mim foi muito esclarecedor conhecer tanto o
num grupo de amigos. Mas nós estávamos o lado protestante como o lado católico. Essa
tempo todo ligados e atentos porque, a toda proximidade foi muito legal. Muito do que o
hora em que aparecia um projeto de amplitu- ISER fazia no passado era ir arando essa terra
de maior, imediatamente juntávamos forças, meio árida que havia ficado no Brasil pós-dita-
estávamos presentes com atos ecumênicos, dura para tentar gerar, oxigenar; e as coisas iam
mobilizações, cada um na sua igrejas, na sua brotando dali. Foi uma geração muito atuante.
comunidade. Era o que eu achava sempre mui- Foi logo no momento da abertura, uma fase
to interessante e o Rubem usava muito isso. de transição, de muito crescimento, que aca-
Você acionava e, de repente, havia braços das bou gerando um megaespaço: o Viva Rio. E a
principais religiões dentro da cidade do Rio de gente fez muitas parcerias com Betinho. Eram
Janeiro e elas tinham um poder de mobilização quatro ONGs que estavam juntas, se fundiam
muito impressionante. e tinham uma liderança bem sintonizada

Dentro do Judaísmo era sempre muito inte- Eram o IBASE, o ISER, o Miguel e a Rosiska
ressante. Quando desenvolvemos o projeto [Darcy de Oliveira], do IDAC, e o CEDI, que
do Judaísmo, fizemos uma publicação. Uma era protestante; eram as quatro. Tanto que
publicação super bem-sucedida, para a comu- eu lembro que, quando chegou o presente da
nidade judaica, e que era realizada, digamos Comunidade Europeia, que era o Alternex,
assim, pelo ISER. Havia um departamento de o primeiro provedor brasileiro de Internet,
criação no ISER, que fazia esse jornalzinho que ninguém queria ficar com aquilo, ninguém
era bem progressista, no sentido do envolvi- acreditava naquele negócio. Vinha com a his-
mento com cidadania. Trazia as pessoas para tória de que seria o futuro, de que seria muito
dentro e foi uma coisa muito inovadora para a importante para as ONGs, todo esse discurso
comunidade judaica; um veículo que teve um que acabou, obviamente, acontecendo. Mas
impacto muito significativo na época. era tudo muito precário, não se acreditava na
mídia, estamos falando de 1986, 1987. Nem
O diálogo inter-religioso se sabia o que era Internet. Eu me lembro
de quando me pediram para escolher um
Isso era feito tanto no aspecto formal, nos even- nome para ter um e-mail. Eu nem entendia o
tos realizados, como também exercido na pró- que era aquilo, o que fazer com aquilo, fazer
pria amizade, naquele espaço. Eu acho sempre uma demonstração com aquelas telas verdes
muito interessante quando as lideranças têm do computador. Você tinha que botar barra,
uma proximidade, um fácil acesso ao outro, barra, quinhentas operações para se entrar em
conhecendo as pessoas do outro. Além disso, um site em que nem aparecia nada. Ou uma
quando tínhamos algum projeto no ISER, biblioteca americana de alguma universidade.
vinham as pessoas e aportavam seus recursos Não era convidativo. Mas era importante se
de mobilização, de envolvimento. Eu acho que tratava de instituições que estavam na ponta,
isso gerava um movimento subjetivo em todo muito bem relacionadas e recebendo material
mundo, uma troca muito relevante. Eu me que estava chegando em primeira mão para o
nutria muito disso. Na época várias vezes me mundo. O ISER era um lugar onde essas coisas
manifestava, era um espaço de pensamento, de aconteciam. E, por isso, era muito criativo.
Acho que foi feita uma escolha importante no gens. Quando você está num espaço muito 75
MIR, que é a opção pela diversidade, por fazer eclético, para que possa respeitar a todos e ser
um investimento nessa diversidade. E aqueles inclusivo, tem que ir a um lugar onde as falas

mir
espaços do ISER que eram, de uma certa ma- pertencem a todos. Essa fala tem uma beleza
neira, um pouco conservadores (academica- muito significativa, muitas vezes é a fala da
mente falando) e muito ligados às tradições simplicidade. As tradições todas são baseadas
normativas, bíblicas, acabaram saindo. Ficou em conceitos e buscas semelhantes. Mas suas
um espírito de celebração coletiva, tentando, linguagens próprias contêm, na sua poética,
com uma linguagem talvez mais moderna algo muito bonito. E existem grupos que
que a daquela outra geração, fazer essas inter- talvez tenham mais facilidades; grupos que,
venções nas questões relevantes que estavam por exemplo, tenham uma conexão oriental,
acontecendo. Eu, por exemplo, quando ia no talvez tenham mais facilidade de ir às pro-
início do MIR, não sentia mais o mesmo nível fundezas dessa linguagem do que sentar com
de profundidade. Mas — eu tenho clareza disto um sujeito que segue textos bíblicos, que tem
— não era por incapacidade intelectual, acadê- uma outra percepção. Eu pensaria nisso. Ações
mica das pessoas que estavam participando, que não tivessem só o aspecto diplomático, de
mas é que no momento em que se optou por inclusão, nã seria apenas esse movimento de
uma prioridade, passou a haver menos lin- inclusão, mas um movimento que oferecesse às
guagem comum. Então aqueles grupos, que pessoas pares de reflexão, o que, às vezes, é tão
eram católicos, judeus, protestantes, tinham difícil de se achar numa cidade como o Rio de
uma base bíblica, linguagens das tradições que Janeiro, que tem pouca densidade de reflexão.
têm muita proximidade. Aquilo funcionava As pessoas são muito para a rua, para a praia,
como um diálogo não só inter, mas tinha um faltam espaços...
movimento das profundezas e lá em baixo
existe um espaço comum. Esse grupo do ISER Tenho certeza de que nosso grupo, lá atrás,
caminhava por canais que eram facilitados por supria uma solidão em que eu me encontra-
uma linguagem semelhante, a gente conversa- va, que eu tinha em relação a outros rabinos
va muito sem as barreiras. Essa era a qualidade e que pessoas que eram sacerdotes católicos,
daquele grupo. Foram feitas opções por outro protestantes sentiam também dentro de sua
tipo de qualidade porque, obviamente, o MIR própria denominação. E isso tinha um poder,
trabalhava de forma muito mais eclética. Ao uma força muito interessante, promovia um
ser eclético, tinha que contemplar linguagens diálogo que realmente fazia você conhecer a
de toda ordem, linguagens que, às vezes, são outra tradição. E conhecer por um caminho
menos eruditas ou menos baseadas em textos de muito respeito. Não era só um acolhimento
ou coisas do gênero. E, então, houve uma teórico: eu aceito todas, eu gosto de todas. Ali
modificação de linguagem, com ganhos e com existia, para mim, a descoberta do cristianismo
perdas. Mas foi uma opção interessante e nem — do catolicismo, particularmente —, com
sei se existe hoje algo que tenha essa amplitude toda uma espiritualidade muito bonita. Esse
que tem o MIR. nível de profundidade que tinha o diálogo
abria muito a cabeça de todo mundo.
Conselhos para os próximos 17 anos
*Nilton Bonder, representante da tradição religiosa
Eu acho que, há 15 anos foi uma opção muito Judaísmo.
bonita, uma opção inclusiva. Acho que hoje,
talvez sem fechar esse canal, devemos promo-
ver de novo a aproximação de tradições que
têm linguagens com uma certa semelhança
e que possam, portanto, usar dessas lingua-
76
Luís Fernando moral dos filhos; ao cumprimento dos deveres
individuais e sociais; ao trabalho como fonte
Barbosa Nobre dignificante de riqueza; à exaltação do bem;
Comunicações do ISER

à prática da solidariedade; à promoção da


Igreja do Culto Eclético da união e do ideal comunitário. Nessa medida,
Fluente Luz Universal o objetivo do nosso trabalho é trazer aos seus
membros ensinos, comunicações, revelações e
A Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz instruções que, uma vez refletidas e postas em
Universal é uma instituição de natureza civil prática, são preciosos agentes de transforma-
e de caráter religioso, filantrópico, que tem ção interior e de progresso espiritual.
por fundamento a crença em Deus como ser
supremo e princípio de todas as coisas. É uma Dentro do ideário filosófico e espiritual
organização de natureza não sectária, que não da Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz
estabelece dogmas para a busca espiritual e Universal, consta o culto e a consagração
tem como objeto de sua prática religiosa a da Natureza, o jardim de nossa Mãe Terra,
cura interior e espiritual, a experiência direta fonte dadivosa dos elementos através dos
de Deus através do árduo trabalho de autoco- quais obtemos a nossa alimentação, saúde e
nhecimento e da busca do Eu Superior. conhecimento espiritual. Assim, todos seus
participantes consideram a Rainha da Floresta
Centro significa o ambiente, a egrégora, o local e a Mamãe Natureza como o berço dos nossos
onde se realizam as sessões espirituais;. Eclético sacramentos e a sua preservação e respeito se
porque incorpora, em seus ensinamentos, inscrevem nos Fundamentos Espirituais da
fundamentos reconhecidamente verdadeiros Doutrina.
e que fazem parte de outras tradições e dou-
trinas que também consagram os mesmos Seguindo esses princípios, temos tido ampla
princípios do ecletismo evolutivo. Fluente, na atuação dentro do Movimento Inter-Religioso,
medida em que a tradição flui constantemente firmando alianças com várias tradições religio-
na direção da evolução, do aprimoramento e sas, recebendo e apoiando movimentos religio-
do progresso espiritual. Universal, querendo sos e humanitários tanto no Brasil como no
significar com isso a validade e abrangência exterior. Esses intercâmbios têm sido fonte de
cósmica dos ensinamentos professados pela grande informação e formação do nosso povo,
nossa Igreja. uma vez que, aceitas as diferenças, mais claras
são as posições e mais facilmente reconhecer-
Nossa Igreja também é considerada como um mos a essência do que nos une. Há quase 30
Centro Livre, significando sua missão enquanto anos começamos a energizar esta corrente
centro de difusão da doutrina espiritualista e da floresta até o mar e entendemos que não
da caridade espírita para todos aqueles que nos podemos nos fechar e desconhecer a grande
procuram. Afirma sua filiação à grande famí- responsabilidade de combater a ignorância,
lia cristã. Respeita as tradições espirituais de a violência e a destruição da natureza através
outros povos e culturas, sendo tributária das da prática do bem e do respeito ao Divino.
revelações espirituais xamânicas e enteógenas Entendemos que somente a união das forças
dos antigos habitantes da Américas. positivas e respeitosas aos bons princípios po-
derá nos dar a capacidade de sermos vitoriosos
A Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz nessa batalha.
Universal visa ao aprimoramento moral e Apesar da grande distância de nossa matriz,
intelectual dos seus membros; ao cultivo do localizada na Vila Céu do Mapiá, Floresta
respeito e do amor pela família e pela pátria; Nacional do Purus (Pauini/Amazonas),
à responsabilidade pela educação e formação temos mantido uma constante representati-
vidade e razoável participação em todos os 77
eventos e propostas do MIR- Rio de Janeiro e,
daqui, queremos felicitá-los por este grande

mir
trabalho realizado e pela constante busca de
aprimoramento de sua organização e capaci-
dade de ações reais e concretas para a maior
aproximação e fortalecimento do diálogo
inter-religioso.

Vila Céu do Mapiá, 21 de Abril de 2007.

*Luís Fernando Barbosa Nobre pertence ao


Conselho Superior Doutrinário da Igreja do Culto
Eclético da Fluente Luz Universal – CEFLURIS.
78
Geovana Nunes to do seu trabalho de tratamento e assistência
espiritual o atendimento aos indivíduos que
vivem nas mais diversas formas de exclusão
Comunicações do ISER

O MAP – Movimento de Amor ao Próximo


social. “Não fique solitário, seja solidário”.
é uma organização não-governamental da
sociedade civil, de natureza filantrópica, sem
Projetos de Promoção
fins lucrativos e que tem por objetivo o auxílio
Social do MAP
a pessoas de comunidades carentes, sem dis-
tinção de nacionalidade, etnia, posição social,
Listam-se a seguir os principais projetos de
credo religioso ou ideologia política.
promoção social desenvolvidos no MAP:

Por seus projetos sociais, constitui-se um exem-


1. Projeto (-) fome (+) amor = distribuição
plo de trabalho estruturado de construção da
de alimentação à população de rua.
paz, felicidade e amor na sua plenitude.
o Projeto Quentinhas + roupas, agasa-
lhos, curativos, corte de cabelo.
Tentando alcançar os seus objetivos, o MAP con-
o Projeto Sopão nosso de cada dia;
ta com equipes multidisciplinares que, devotadas
Postos nos sub-bairros. O MAP fornece
abnegadamente, doam seu tempo livre ao traba-
equipamentos. A comunidade participa
lho pelo bem, não só no atendimento aos menos
com mão de obra.
favorecidos, como também aos necessitados de
o Projeto Cestas Básicas (cestas de
toda sorte: de carinho, de abraço, de sorriso, de
alimentos para famílias cadastradas nos
consolo, de esclarecimento e de orientação.
bairros atendidos pelo MAP);

Nas diversas equipes de trabalho do MAP não


2. Projeto “Oficina de capacitação” — para
poderiam faltar, também, as pessoas mais sim-
pessoas especiais: atividades pedagógicas
ples: de cozinha, de artesanato, de secretaria,
que visam a autonomia e integração de
de limpeza e de arrumação; pessoas de todos
deficientes;
os níveis e áreas de trabalho, unidas por um
sentimento de muito amor.
3. Projeto Centro de Educação Infantil Irmã
Scheilla (creche);
O MAP é dirigido por um grupo que segue o
Espiritismo ensinado por Allan Kardec. Sendo
4. Projeto “Sorriso de Criança” — doação
o MAP um movimento, não é e não funciona
de enxovais para bebês;
como um centro espírita. Tem, nas suas fileiras
de trabalho, seguidores de outras filosofias es-
5. Projeto Positivo — atendimento a porta-
piritualistas e até quem não siga uma religião,
dores do vírus HIV assistidos pelo Hospital
praticando a caridade pelo prazer de servir.
Rafael de Souza e Paula (Curicica);

Temos como patronos Fabiano de Cristo e


6. Projeto Reciclando a Vida — ensina apro-
Francisco de Assis e há seis anos contamos
veitamento de papel, papelão, plástico,
com a participação de Divaldo Pereira Franco
latas, etc. (Ilha do Governador);
em seminários anuais — parte de sua agenda
— num encontro que reúne de 3.500 a 4.500
7. Projeto MAP Voluntário — Central de
espíritas, a maioria deles especialmente para
Recrutamento/treinamento;
assistir Divaldo.

8. Projeto MAP É PAZ — Implantação de


Sendo fiel ao caminho franciscano no trabalho
comitês voltados para ações de cultura
de amar e servir, o MAP, tem como complemen-
de paz;
9. Projeto Rede de Solidariedade — rede — destinado a comunidades carentes; 79
integrada às secretarias de governo para 23. Projeto Centro Convivência Irmã Clara —
atender e orientar população de rua; desdobramento do Projeto da Cidadania;

mir
10. Projeto Canto de Amor Fraterno — visita 24. Projeto Educação em Valores Humanos
com canto a hospitais, asilos e orfanatos; (FGV) — educação levando em conta cinco
princípios de valores fundamentais: verdade,
11. Projeto Alfabetização de Adultos — ação correta, paz, amor, não violência;
para maiores de 15 anos (Rocha Miranda
e Jacarepaguá); 25. Projeto MAP Social — trabalho sócio-
educativo e cultural para crianças de 7 a
12. Projeto Esperança — apoio à criança 12 anos matriculados na rede Municipal
especial e à família; e Estadual.

13. Projeto MAP-Terrapia — ensina o con- Além desses, estão sendo implantados mais
tato com dementação viva, em parceria de 30 projetos.
com a FIOCRUZ (Escola Nacional de Saúde
Pública); Pólos do MAP

14. Projeto Culinária Alternativa — apro- No sentido de melhor desenvolver esses pro-
veitamento racional dos alimentos (cascas, jetos, o MAP atua em sete bairros da cidade
folhas, talos, etc.); do Rio de Janeiro: Jacarepaguá (sede e centro
cultural), Rocha Miranda, Ilha do Governador
15. Projeto Fitoterapeutica da Família (Freguesia e Bananal), Bento Ribeiro, Mangui-
— uso de produtos fitoterápicos com su- nhos, Lapa e Recreio dos Bandeirantes.
pervisão de médicos e farmacêuticos;
O MAP e o Movimento Inter-
16. Projeto Momento do Talento — terapia Religioso do Rio de Janeiro
ocupacional: trabalho com argila, sabone-
te, pátina, etc; O MAP participa do MIR desde 2002 e, desde
então, sempre esteve presente em suas plená-
17. Projeto Reconstruindo a Cidadania rias, participando das escolhas dos destinos e
– futuro Centro de Convivência para reinte- caminhos definidos por seus integrantes. Ten-
gração de moradores de rua à sociedade; do como foco de trabalho a promoção social,
o convívio amigo e parceiro com as tradições
18. Projeto Pré-vestibular — preparatório; que integram o MIR, mostra que suas ações
estão embutidas na missão e compromissos
19. Projeto Atendimento e Telemarketing do Movimento.
— parceria com o SENAC;
Trabalhando junto e vivenciando a diversi-
20. Projeto Programa de Aconselhamento dade como uma unidade, contribui-se para a
— dirigido a familiares de alcoólatras e ou/ eliminação dos preconceitos, da discriminação
dependentes químicos; religiosa e, principalmente, permite-se partici-
par da construção de um mundo melhor: com
21. Projeto Atendimento — médico, psico- mais amor, mais compreensão e caridade.
lógico, fonaudiológico;
*Geovana Nunes, representante do Movimento de
22. Projeto Reforço Escolar (Projeto Tia) Amor ao Próximo – MAP.
80
Pedro Miranda porciona a cada um de seus caminhantes as
condições para acolher o ensinamento de
Jesus, o Cristo: “Um novo mandamento eu vos
Comunicações do ISER

A Umbanda no contexto do dou. Amai-vos uns aos outros tanto quanto


Movimento Inter-Religioso eu vos amei”.

Surge a Umbanda no caminho das religiões No padrão vibratório dessas palavras ditas
com uma mensagem já trazida à humanidade há dois mil anos é que o Caboclo das sete en-
há anos e mais anos. Renova um alerta a todos cruzilhadas nos legou um ponto de partida:
os que caminham neste Planeta na busca de “Umbanda, manifestação do espírito para
sua elevação ou de sua reeducação espiritual. a prática da caridade”. E a caridade é a filha
dileta do amor que deve envolver a todos.
O homem tem rezado muito e, ao rezar de-
mais, se esquece de respeitar e amar o seu Eis por que, neste momento de responsabilida-
próximo. As religiões impõem a limitação da de para todos, a Umbanda caminha lado a lado
mente humana, repetindo conceitos que a de seus irmãos de várias origens religiosas para,
razão não mais aceita. de mãos dadas e corações unidos, vibrarmos
numa só voz para a paz na humanidade.
Tantas e mais religiões e a maioria não segue,
não adota nenhuma delas. *Pedro Miranda é presidente da União Espiritista
de Umbanda do Brasil – UEUB.
No cenário nacional, nesta sagrada Terra de
Santa Cruz, a realidade envolvida na tristeza
nos mostra e comprova, a todo instante, o
envolvimento cada vez maior dos integrantes
de nossa sociedade com a estrada do vício, do
tóxico e do desequilíbrio emocional.

E no, meio dessa caldeira efervescente, irradia-


se do alto, ao lado da luz do sol e da luz da lua,
o Movimento Inter-Religioso. O que nos alerta
o Movimento Inter-Religioso do Rio de Janei-
ro? A necessidade da aproximação de todos os
religiosos. Esclarece o Movimento Inter-Reli-
gioso que Deus, Zambi, Olorum, Adonai, Alá,
Jeová são a mesma energia espiritual criadora
de todas as formas de vida.

Deus tem muitos nomes, mas Deus é um só.


A convivência de todos os religiosos, como
irmãos que realmente o somos, dará à comu-
nidade do planeta Terra a vibração da luz es-
piritual para que possa reinar a paz em nossos
corações e espíritos.

A Umbanda está inserida nesse padrão de


vibração espiritual, uma vez que sua fonte
de energia, oriunda do espaço infinito, pro-
Alex Polari Logrou com isso uma façanha espiritual que o
coloca entre os grandes místicos e guias espiri-
81

de Alverga tuais do século passado. Realizou uma síntese

mir
prodigiosa entre a revelação cristã e diversas
Uma doutrina cristã na selva outras influências, como as tradições esotéricas
5
amazônica do Círculo de Comunhão do Pensamento ,
elementos indígenas, cultos afro-brasileiros, etc.
A doutrina do Santo Daime é uma confissão Resgatou, assim, a ayahuasca — o sacramento
cristã. No seu fundamento, ela deriva de uma dos povos subjugados em nome do Cristo dos
revelação mariana, talvez do mesmo porte das opressores colonialistas —, considerada até
grandes aparições dos séculos XIX e XX, como então como uma forma de feitiçaria, transfor-
as de Lourdes, Fátima, etc. Raimundo Irineu mando-a no sacramento central de um novo
1
Serra, o Mestre Irineu , como é conhecido, Cristianismo nascido na floresta.
recebeu essa revelação da Virgem Maria, que
lhe apareceu como uma deusa na lua cheia e A importância desse evento e de tudo que se
se apresentou como a rainha da floresta. Isso sucedeu pode ser medida pelo fato de que
aconteceu no alvorecer do século XX, talvez por hoje, 100 anos depois, essa tradição espiritu-
volta de 1920, no coração da floresta amazôni- al, nascida na floresta amazônica brasileira,
ca, perto da fronteira do Acre com o Peru. tenha crescido tanto e esteja em franco de-
senvolvimento, conhecida e respeitada em
Diz a tradição que o Mestre Irineu não tinha todo o mundo.
a menor ideia do que iria encontrar quando
quis conhecer os segredos da bebida ayahuas- Aqui devemos dar os créditos também para Se-
ca. Essa bebida, que é fruto da cocção de uma bastião Mota, um dos continuadores da obra
liana do gênero melpigacea (banisteriopsiscaapi) do Mestre Irineu e responsável por uma das
e das folhas de um arbusto do gênero rubiacae, principais ramificações da doutrina, depois
1 Raimundo Irineu chamada psicotiaviridis, é usada desde tem- do passamento do mestre, em 1971. Sebastião
Serra nasceu em São Vi-
cente Ferret, no Mara- pos imemoriais pelos nativos da Amazônia nasceu em 1920, no município de Eurinepé, no
nhão, em 1892. Foi tra- ocidental. Amazonas, vale do Rio Juruá. Desde a idade
balhar nos seringais do dos oito anos começou a ter visões. Desen-
Acre, recém-incorporado
ao Brasil.Trabalhou na Curioso por conhecer os mistérios e os pode- volveu-se como médium e granjeou fama de
comissão de limites, na res que o povo falava que seriam despertados rezador, sendo muito procurado pelos mora-
guarda territorial e depois pela bebida, tais como telepatia, vidência etc. dores dos seringais próximos necessitados de
se tornou agricultor.
2 A rainha lhe ordenou o Mestre Irineu se deparou com esta senho- alguma cura.
que fosse para o interior ra que se apresentou como Clara e que ele,
da selva preparar e tomar posteriormente, reconheceu como sendo a Foi principalmente ele que, nas três últimas
a bebida e que durante sete
dias fizesse uma dieta de Virgem Soberana Mãe, padroeira da doutrina. décadas do século passado, expandiu a men-
macaxeira insossa e água. Através dela e da anunciação que lhe foi feita sagem universal da doutrina para os mais
2
3 Daime, significando no decorrer da sua iniciação , ele recebeu as diversos rincões do mundo. Graças a essa
o rogativo que se devia
fazer ao se comungar a instruções sobre o uso da bebida sacramental ampliação de horizonte, ao amor, à bonda-
bebida: “Dai-me luz, dai- ayahuasca, que rebatizou com o nome de Dai- de e ao carisma de Sebastião Mota, a obra
3
me força”, etc. me . Reconheceu as visões e os ensinamentos espiritual do mestre pôde ser difundida e
4 Já nesta primeira
aparição recebeu seu pri- que teve através da ayahuasca/daime como ter continuidade através das igrejas do CE-
meiro hino, chamado Lua sendo uma nova versão, para os tempos mo- FLURIS, um dos galhos da árvore sombreira
Branca, que abre seu Hiná- dernos, da doutrina de Jesus Cristo, através que foi Raimundo Irineu Serra. Primeiro da
rio do Cruzeiro.
5 Sociedade inspirada da mediação da Virgem Maria. Em seguida floresta até os grandes centros urbanos, nos
4
na teosofia, fundada em começou a receber os hinos , que são, ainda anos 80, e, a partir dos anos 90, para outros
São Paulo por Joaquim. hoje, os fundamentos de nossa doutrina. países e continentes.
A doutrina do Mestre Irineu é um dos prin- e alma. Ao mesmo tempo e também devido 6 Além do tronco ori-
82
ginal da Igreja, fundado
cipais troncos da cultura religiosa daimista, a esse engajamento, passamos a desenvolver pelo Mestre Irineu e ain-
que congrega também outras modalidades de um contato maior com as demais entidades da hoje dirigido por sua
Comunicações do ISER

6
trabalhos, linhas espirituais e rituais . No en- ayahuasqueiras e daimistas coirmãs e também viúva, D. Piligrina Gomes
Serra, existem mais 5 cen-
tanto, de agora em diante, estaremos falando com outros segmentos, escolas, linhas e tradi- tros derivados da Igreja
9
unicamente em nome da vertente do Santo ções espirituais . do mestre no Alto Santo.
Daime, como ficou conhecida a linha espi- O principal deles é chefia-
do pelo Sr. Luis Mendes
ritual liderada por Sebastião Mota de Melo, O caminho eclético e ecumênico do Nascimento. A outra
o Padrinho Sebastião, cujos ensinamentos do Santo Daime vertente é o Santo Daime,
preservaram os fundamentos da doutrina do nome pelo qual ficaram
conhecidas as igrejas do
Mestre Irineu (hinários, ritual, símbolos e far- Em relação aos contatos com outras linhas antigo CEFLURIS, hoje
das), acrescentando, porém, outros desenvol- espirituais, no decorrer dos últimos 25 anos re- ICEFLU, também oriun-
vimentos importantes, como novos hinários, alizamos um intercâmbio bastante produtivo do do Mestre, de quem
se separou em 1973. As
os trabalhos de estrela, o desenvolvimento com muitas delas. Primeiro foram os trabalhos demais linhas são a UDV,
dos dons mediúnicos, a expansão da doutrina mediúnicos dentro da linha da Umbanda e do do Mestre José Gabriel da
para outros países e as alianças espirituais e Kardecismo. Em alguns casos, trabalhamos Costa; e a Barquinha, fun-
dada por Daniel Pereira de
diálogos com outras tradições, que é o que nos também na linha de meditação, dentro de Matos, que se subdivide,
interessa mais neste ensaio. preceitos hinduístas e budistas. Fizemos ceri- por sua vez, em 3 seg-
mônias e rezamos com grupos sufis no sul da mentos distintos que têm
como patronos Antônio
Graças a essa perspectiva aberta e ao horizonte Espanha. Reunimo-nos com grupos de judeus Geraldo, Manuel Araújo
vasto, que continua sendo seguido pelo Padri- cabalistas em seus sabats. Firmamos alianças e e Francisca Gabriel.
7
nho Alfredo Gregório de Melo , continuador cerimônias conjuntas com nossos irmãos da 7 Padrinho Alfredo,
filho do Padrinho Sebas-
da obra do Padrinho Sebastião, os ensinos do Igreja Nativa Americana, do peyotee, e também tião e atual líder mundial
Santo Daime se tornaram acessíveis e possíveis com o povo da religião Buwiti, do Gabão, que do movimento do Santo
para muitas pessoas, ampliando o círculo de consagra o sacramento da iboga. Daime.
8 Em 1982 tivemos
benefícios e curas da missão do Mestre Irineu. uma comissão chefiada
Sebastião Mota era bastante iconoclasta e É bom que se diga que em nenhum momento pelo comandante do 4º
ousado. Durante muitos anos recebeu todos diluímos nossa identidade espiritual cristã BEC visitando a comu-
nidade, então no seringal
os tipos de gente em sua casa, incluindo e daimista dentro de toda essa diversidade. Rio do Ouro. Em 1986 foi
estrangeiros, mochileiros, etc. Fundou uma Continuamos seguindo nossa doutrina, nosso criado um grupo de tra-
comunidade agrícola, diversificou e ampliou calendário oficial, nossos rituais e cerimônias, balho para estudar o uso
religioso do daime, que
os trabalhos de cura e desenvolveu novos etc. Simplesmente abrimos nossas portas, tinha sido proibido no
métodos para o feitio da bebida sacramental. enquanto instituição religiosa, para a prática ano anterior. Em 1987 ele
Mesmo agindo dessa forma, por considerar desses estudos quando isso se faz necessário, foi permitido novamente.
Mas só recentemente, em
que a doutrina é um ensinamento espiritual nos contextos culturais e religiosos apropria- 2006, o Grupo multidisci-
vivo e dinâmico, nunca deixou de prestar dos, onde existe esse tipo de demanda. plinar do GMT/CONAD
tributo e testemunho ao Mestre Irineu, pre- regulamentou definitiva-
10 mente o uso religioso da
servando os fundamentos de sua doutrina e Por isso, desde os seus primórdios, a doutrina ayahuasca/santo daime.
11
se considerando apenas um seguidor. se autodefine como um ecletismo evolutivo , 9 Dentro desta pers-
ou seja, como um corpo doutrinário que tem pectiva, participamos da
grande celebração espi-
Para nós — o “povo de fora” —, que chegamos a seus fundamentos imutáveis, mas que evolui ritual da ECO-92, com a
este caminho espiritual pelos fins da década de e progride criando uma interface espiritual presença do Dalai Lama,
70 e início dos anos 80, com muitas ideias revo- com os demais ensinamentos e tradições. E realizamos cerimônias
religiosas na sede do ISER
lucionárias e alternativas, a figura e o carisma nem poderia ser diferente, na medida em que a e desde então temos sido
do Padrinho Sebastião muito nos encantou. revelação original do daime, o seu fundamento presença constante em
Foi nessa época também que se iniciou a luta principal, é um sacramento enteógeno — a inúmeros fóruns do de-
bate plurirreligioso patro-
pelo reconhecimento e legalização do nosso ayahuasca —, considerado uma espécie de nova cinados pelo URI, como a
8
sacramento e nos engajamos nela de corpo aliança, uma outra etapa do plano salvífico Aldeia Sagrada, etc.
de Deus para a humanidade através de uma prenúncio da realização da parúsia, a segun- 83
nova manifestação do Logos/ Cristo, dessa da vinda do Cristo. A doutrina, portanto, se
vez na forma de um cipó onde está presente o apresenta como um atalho espiritual, devido

mir
sangue do Cristo. Essa entidade crística, que à proximidade do ekhaton, o fim dos tempos.
se manifestava como o ser espiritual do Mestre Ela é também o cumprimento das promessas
Irineu, foi interpretada por ele mesmo e seus dos profetas, sempre lembradas nos hinários
seguidores como uma continuação da missão dos mestres fundadores da tradição.
de Jesus Cristo. Poderíamos dizer ainda que,
fiel à sua natureza teológica aberta, a doutrina É bom frisar que a salvação só pode ser resol-
eclética do Santo Daime poderia ser consi- vida dentro de cada ser humano. A teologia
derada um desdobramento da tradição dos não salva ninguém. Instituições eclesiásticas
primeiros padres, como São Justino, Irineu também não. Podem somente indicar direções
12
e Clemente , que ainda hoje são referências para os seus prosélitos. Apenas a experiência
importantes para valorizar e mesmo justifi- e a realização pessoal de Deus salvam. Isso
car a incorporação das revelações das demais exige conhecimento e sabedoria. A doutrina
13
tradições religiosas à teologia cristã. Eis a do Santo Daime é uma religião da experiência.
essência da nossa confissão. De uma experiência radicalmente interior na
precisamos acreditar, ao mesmo tempo em
Dentro dessa compreensão, o Santo Daime que somos exigidos a provar, na vida material e
14
não é apenas um sacramento . Ele é con- comunitária, os dons e primores espirituais que
15
cebido também como um tipo de mistério recebemos nas mirações . Por isso nela somos
da encarnação, ou melhor, da presença da justificados tanto por nossa fé como por nossas
10 Na sua origem a inteligência cósmica e divina dentro desses obras. Tudo isso ocorre dentro da nossa consci-
doutrina caberia nesta seres do mundo vegetal. Eles sempre tiveram ência e do nosso coração, expandidos através do
definição, mas, como fri-
um papel sagrado, desde o neolítico, como Santo Daime. Ele ilumina nosso interior e lança
samos acima, estamos
nos referindo à vertente instrumentos da autoconsciência humana. luzes no mistério pascal do Cristo ressuscitado
da doutrina do padrinho Inspiraram, desde a aurora dos tempos, as e glorificado. Essa perspectiva da revelação
Sebastião.
primeiras hierofanias e teofanias aos nossos interior acentua a ênfase do esotérico sobre o
11 Citado nos preâmbu-
los doutrinários do estatu- ancestrais. E seguem, hoje, auxiliando e reve- exotérico. Nosso culto, que denominamos da
to da nossa entidade. lando, ajudando a mente humana a conceber, “fluente luz universal”, tendo como eixo um
12 Para Justino (Apolo-
sentir e visualizar a linguagem dos mistérios e sacramento de propriedades psicoativas, nos
gias), o Verbo é um Logos
semeador, que impregna símbolos que fazem parte de toda experiência leva necessariamente a uma dimensão esotérica
de verdade as outras reve- mística e religiosa. Seja dentro da tradição dos eventos históricos da fé.
lações, inclusive a filosofia
cristã, a partir da revelação do Mestre Irineu,
platônica (DUPUIS, 2001).
O conceito foi retomado seja em outras tradições que queiram fazer uso Dentro dessa vivência interior, mística e esotéri-
para justificar o diálogo dessas plantas sagradas, graças à coragem e à ca, o mais sensato é não nos atermos ao sentido
inter-religioso pela Encí-
caridade do Padrinho Sebastião, que abriu a literal dos textos que descrevem as revelações
clica Ad Gentes, durante
o Concílio Vaticano II, de possibilidade dessas alianças. sagradas. Orígenes já defendia a interpretação
uma maneira ainda tímida alegórica e anagógica para compreender as
e inconclusiva.
Voltando à revelação daimista cristã, devemos visões de Ezequiel no Antigo Testamento. Da
13 A origem do conceito
de salvação da Igreja, suas entender que agora, dois mil anos depois da mesma forma, podemos entender as discrições
distorções e abusos. encarnação de Jesus de Nazaré, estamos bem visionárias de São Paulo sobre o retorno triunfal
14 Diz um hino do pa-
mais adiantados na direção do tempo esca- do Cristo, acompanhado de legiões de anjos,
drinho Sebastião: “Eu não
me chamo Daime, eu sou tológico. A vinda do consolador prometido, com o céu se rasgando ao meio. Dentro de
um ser divino”. o paráclito, pode ser interpretada também uma vivência esotérica, a parúsia acontece em
15 Como chamamos
como esse terceiro testamento, anunciado pelo todo momento que estamos imbuídos da nossa
as visões obtidas na força
da comunhão do Santo Mestre Irineu através do Santo Daime. O que consciência crística, que a doutrina também
Daime. significa, de alguma forma, a realização ou o chama de Eu Superior. Da mesma forma, quan-
84 do somos tomados de alguma mesquinhez, além dos nomes e das formas. No Santo Daime
estamos crucificando e expulsando mais uma os cristãos confirmam sua crença, enquanto
vez o nosso cristo interno. que os demais podem aperfeiçoar a sua pró-
Comunicações do ISER

pria fé. É o Verbo/ Logos/ Cristo espargindo


Essa é a nossa contribuição para o diálogo e suas graças para todos. Devido à urgência
principalmente para a prática inter-religiosa, desse chamado para os tempos de hoje é que
o que pressupõe uma efetiva comunicação e estão sendo mobilizados todos os recursos
união de propósitos espirituais. Essa maneira disponíveis: o melhor, o mais verdadeiro de
de ver o ecumenismo (deste fim dos tempos?) tudo que foi inspirado por Deus em todas as
seria o fundamento da nossa teologia visio- épocas e que , ainda hoje, estão disponíveis nas
nária, centrada no êxtase, na revelação e na demais tradições. Essa é a essência do ecletis-
16
experiência do Divino dentro de nós . Em vez mo evolutivo e o motivo da sua manifestação
de tentar soldar os conceitos e as categorias dentro da doutrina do Santo Daime, para que
teológicas das diversas tradições, vale mais a muitos possam se curar e se salvar nos tempos
pena unificar nossas visões, mirações e me- atribulados que, ao que tudo indica, teremos
ditações, que naturalmente são muito mais pela frente.
próximas uma das outras do que podemos
imaginar. Pois aquilo que foi sentido e vivido Creio que não existe justificativa mais consis-
pelos místicos, cristãos, sufis, cabalistas e io- tente e coerente para explicar a necessidade do
gues guarda muito de semelhança do que os ecletismo evolutivo. E também para a necessi-
teólogos dessas mesmas tradições guardam dade de união entre as linhas espirituais. Esse
de diferença. ecletismo é o próprio ecumenismo em proces-
so. Não se trata de um diálogo, ou melhor, de
Dentro do ecletismo evolutivo foram reunidos, uma superposição de monólogos sobre o que
de forma natural e gradual, muitos recursos cada um pensa ser o ecumenismo, tomando
espirituais capazes de ajudar a humanidade sua própria religião como sendo o centro do
neste seu momento de apuro e incertezas. universo. Nem se trata de um ecumenismo re-
Aquele que for destinado a ser colhido para a ligioso no sentido de harmonizar perspectivas
nossa própria revelação espiritual será colhi- teológicas conflitantes. Trata-se basicamente
do. Outros precisarão de uma chave diferente de dar o toque de reunir espiritual e trabalhar
para abrir a mente e o coração. Portanto, a na mesma direção. Essa é, ao meu ver, a mais
bondade de Deus para com eles não se expressa elevada missão do Santo Daime, arregaçando
necessariamente numa conversão forçada, mas as mangas e assumindo abertamente e de
sim numa confirmação, dentro da experiência ombro a ombro, com as demais revelações,
visionária de cada um, de onde é o seu lugar. aquilo que pode ser a etapa final da salvação
Nesse sentido, a divindade crística do Santo ainda possível para a humanidade.
Daime pode elevar a espiritualidade da pessoa
e contribuir para aquilo que é a verdadeira Nosso lugar na teologia cristã:
salvação: encontrar o caminho espiritual para uma teologia mística e visionária
um bom uso desta nossa encarnação.
Creio que, neste ponto, devemos aprofundar a
Deste modo, ao mesmo tempo em que estamos busca do nosso lugar dentro da teologia cristã.
operando dentro da nossa fé (nossa confissão Sem dúvida a ela pertencemos, mesmo que
cristã), estamos também recebendo, em nos- por caminhos tortuosos e não convencionais.
sos cultos, membros de outras denominações Afinal, como diz o ditado, Deus escreve certo
cristãs e não-cristãs e buscadores espirituais, por linhas tortas. Poderíamos buscar nossas
16 Daí o termo enteó-
sem exigir que se convertam à nossa própria bases e raízes no discurso de São Paulo no geno, que significa preci-
revelação no Cristo. A verdade universal está Aerópago, em Atenas, quando ele se refere ao samente isso.
“deus desconhecido” como sendo o Cristo res- Isso porque, se a igreja tivesse constituído seu 85
suscitado e glorificado. A formulação da nossa corpo doutrinário da forma que o Pseudo-Dio-
doutrina é marcada, como já vimos, pela fusão nísio demonstrou ser possível, ela teria se nu-

mir
entre a revelação e fé cristã com a experiência trido mais da generosidade radicalmente cristã
de autoconhecimento e realização espiritual, dos seus primórdios. Bem mais próximo dos
fruto da nossa herança xamânica. Ela se funda caminhos do seu fundador, que pregava um
numa experiência de êxtase visionária, fiel ao reino que estaria dentro de nós. E que cobrava
exemplo das escolas e tradições místicas. Atra- apenas uma atitude e uma decisão urgente de
vés dela aumentamos a fé e a compreensão no seus contemporâneos (e ainda hoje de nós),
paradigma cristão. contra toda racionalização e procrastinação
que nos impediria de entrar imediatamente
No entanto, é na obra do hoje chamado Pseu- no reino.
17
do-Dionísio que achamos a mais rica, aberta
e complexa síntese eclética e evolutiva das A excelência de tal teologia está fundamenta-
melhores tradições místicas do cristianismo. da menos em raciocínios escolásticos do que
Ocultadas e legitimadas pela suposta autoria numa percepção e avaliação mística, vale dizer,
de Dionísio, o Areopagita, discípulo colhido na experiência do êxtase e visões dos santos e
por São Paulo na famosa pregação acima sábios. O que vem a ser um terreno bem mais
referida (e portanto sendo uma pseudoepí- seguro para refletir e formular sobre as coisas
grafe), esses livros sobreviveram mais de mil de Deus. Pois, nestes píncaros da realização
anos encantando papas, teólogos, pensadores, espiritual, tudo se completa e harmoniza sem
ortodoxos e também heréticos em potencial, contradições. Tudo se iguala na perfeição,
provando a validade de uma teologia aberta independente dos símbolos, dos nomes e das
e acolhedora. Pois, para desvendar o mistério formas através das quais a divindade se expres-
divino, muitas abordagens diferentes podem sa e se apresenta na nossa consciência. Numa
ser feitas pela mente humana, sem medo de comparação, se a teologia é a combinação de
ofender as fórmulas dogmáticas conciliares, conceitos, reflexões e visões sobre os mistérios
entendendo que a única ortodoxia pela qual divinos para a construção da grande catedral
vale a pena lutar é aquela que edifica a verdade. teológica que os simbolize, a escolástica está
E essa verdade única e sem predicados é Deus, nas imensas pedras e nos monumentais arcos
18
paradoxalmente um cristal multifacetado , góticos. Enquanto que o aspecto místico e
onde cada face lapidada reflete um aspecto visionário está na graça, leveza e luminosidade
ou atributo incrustado em sua essência. Que, dos vitrais refletindo a luz do sol.
uma vez vista, devolve o seu impacto. Como
disse São Paulo: “E nós todos, com a face Dentro da teologia mística do Areopagita
descoberta, refletimos como num espelho a ressoa uma emocionante familiaridade (e
glória do Senhor, somos transfigurados nesta também tensão) com a mística oriental e de
mesma imagem”. outras tradições, a ponto de não sabermos
mais o que ela usou como fonte e também,
A obra do Pseudo-Dionísio foi um grande por sua vez, o que influenciou. Encontra-se
acontecimento espiritual. Nunca devemos nela um caminho ascendente e outro descen-
deixar de lembrá-lo e aprender com ele. Um dente. Uma via positiva e outra negativa para
santo engodo, provavelmente de um monge se mergulhar e entender o mistério divino pelo
17 Que, por sua vez,
bebeu das fontes neopla- que continuará para sempre no anonimato, canal contemplativo. É ele que diz: “no meu
tônicas da escola de Ale- mas que provou como foi e seria possível uma entendimento, compreendi perfeitamente
xandria: Plotino, Proclo, teologia e mesmo uma igreja que acolhesse a que a misericordiosa causa de todas as coisas é
Amônio Sakkas.
18 A começar pela pró- diversidade, sem que isso pusesse em risco sua eloquente e silenciosa”. E mais ainda: “O fato é
pria Trindade. unidade e segurança. que, quanto mais alto voamos, menos palavras
86 necessitamos, porque o inteligível se apresenta sua liturgia. Agora gostaria de terminar este
cada vez mais simplificado”. E conclui: “Mas ensaio desenvolvendo mais um pouco nossa
agora que escalamos desde o solo até o cume, posição dentro do diálogo inter-religioso.
Comunicações do ISER

quanto mais subimos, mais escassas se tornam Creio que sobre isso podemos também trazer
as palavras. Coroando a subida, lá em cima e compartir uma compreensão abrangente e
reina um completo silêncio. Estamos unidos, aberta, o que é, como tentei explicar, uma das
de forma completa, ao Inefável” (PSEUDO- nossas principais características.
DIONÍSIO, 1995: 375-377).
Considerações sobre teologia,
De forma semelhante, unindo o vôo xamâ- diálogo e prática inter-religiosa
nico e a miração direcionada pela revelação
dos hinários, o Santo Daime também opera Inicialmente é preciso clarear a própria defini-
levando a nossa consciência à contemplação ção de teologia e o que seria, do ponto de vista
dos mistérios sagrados, difíceis de tradução da fé cristã, uma teologia das religiões capaz
por palavras. A soma disso tudo que ocorre de incentivar a interação entre elas. Talvez isso
em nossos rituais é a matéria-prima da nos- seja o mais fácil. O que complica a questão é
sa teologia visionária, um desdobramento quando as instituições religiosas pretendem
natural da teologia mística, por obra e graça falar em nome daqueles que representam.
deste espírito santo, o consolador prometido,
autêntico Paráclito Vegetal! É graças a ele que Segundo Huston Smith (2004), a teologia
temos a possibilidade, neste tempo de hoje, é a sistematização de pensamentos sobre
de ver com nossos olhos materiais e também os símbolos produzidos pela experiência
com a nossa visão espiritual aquilo que os religiosa. É preciso cuidar para que ela não
apóstolos e os discípulos do Senhor também caminhe no sentido oposto, querendo explicar
viram ou em que acreditaram simplesmente o sobrenatural através da lógica formal ou da
sem ver, com os olhos da fé. Podemos ver e epistemologia científica. Ou, o que é pior, ter
sentir aquilo em que o nosso coração sempre a pretensão de induzir a experiência mística
acreditou, invertendo, desta forma, a máxima dos seus crentes.
joanina: “Bem aventurados aqueles que não
viram e creram!” Posto que esse sacramento e Sem dúvida existe uma parte da teologia que
essa doutrina trazem também a revolucionária precisa também de uma “mãozinha” da ci-
contribuição de democratização do êxtase. E ência. E isso é bem salutar. A própria exegese
tornam esse milagre possível para qualquer bíblica precisa disso para distinguir melhor
buscador sincero da verdade, o que se constitui os acontecimentos históricos dos da fé. Para
numa autêntica benção. Pois além do macha- enxergar melhor quando esse “indeterminado
do já estar deitado junto à raiz da árvore sem quântico” presente nos mistérios divinos faz
frutos, é a hora também para tudo que está parte do mundo dos eventos materiais e está
escondido ser revelado. E para se por o cande- presente na história. E quando, em outro
eiro em cima do alqueire, para que ele possa momento da nossa observação, faz parte do
iluminar melhor todo o aposento. sobrenatural, do metafísico, se subtrai da
história e se recolhe na eternidade.
Falei no começo sobre a origem, os concei-
tos e princípios da nossa doutrina do Santo Sem dúvida, nesse encadeamento, a experiên-
Daime. Estendi-me um pouco sobre nossos cia é o alicerce de todo o resto. Para os místicos
vínculos enquanto um movimento cristão de muitas tradições, o central é o sentimento
e ousei algumas considerações teológicas de unicidade com Deus. Para o cristão, isso se
sobre essa doutrina nascida na floresta que dá através do modelo que foi e continua sendo
tem um sacramento enteógeno no centro da Jesus Cristo. Segundo a célebre definição de
São Irineu, “Deus se tornou homem para que seguidores, a eklesia primitiva, depois dos 87
o homem possa tornar-se Deus”. tempos heróicos dos mártires cedeu lugar
para a uma instituição eclesiástica, cada vez

mir
Ainda segundo Huston Smith, esse encontro, mais comprometida com o poder político do
esse tornar-se Deus, acontece ao mesmo tempo império. E esta nova instituição, eficiente e
no plano individual, comunitário e cósmico. burocratizada, apesar de todos os seus méritos,
Se no plano individual a experiência de Deus quis se apresentar aos olhos do mundo como
nos conduz à santidade, no plano comuni- o modelo visível do reino anunciado por Jesus.
tário a Igreja deveria se tornar Deus através Parece que não havia tanta semelhança assim
da realização efetiva do corpo místico de e os resultados não foram muito favoráveis,
Cristo, conforme a doutrina magistralmente gerando querelas teológicas, contraposições
formulada por Paulo. Já no plano cósmico, e cismas até hoje.
imaginamos que todos estão destinados a par-
ticipar da economia da salvação, já que todos Não é por outra razão que o debate sobre o
nascem com o direito de ser filhos de Deus, não diálogo religioso está intimamente ligado ao
sendo obrigatório apresentar um atestado de tema da salvação. Do nosso ponto de vista,
residência em Cristo para lograr tal objetivo. enquanto cristãos, a salvação está ligada à
Em alguns momentos da história em que a questão do perdão. Ou, para ser mais preciso,
própria Igreja se obscureceu espiritualmente à operacionalidade do plano salvífico de Deus,
devido à lógica de suas demandas mundanas, baseado na concepção teológica do sofrimento
outros caminhos puderam ser mais claros para vicário do Cristo para a expiação dos pecados
19
se chegar à salvação e a libertação . da humanidade. Doutrina esta formulada,
ao que parece, no início da Igreja e baseada
Nesse campo precisamos estar prevenidos na famosa passagem do servo sofredor do
para não repetir os erros do passado. Pois, da Deutero Isaías.
mesma forma que na antiga aliança os judeus
exacerbaram seu exclusivismo religioso, a Alguns pensadores mais radicais como Bulth-
Igreja cristã ainda foi mais longe no combate man (2005) negam essa concepção, afirmando
19 Tauler, místico ale-
mão do século XIV: “Pro- contra aquilo que considerou suas próprias que “Jesus nunca falou de sua morte e ressur-
clo e Platão sobressaem heresias. Ou seja, qualquer coisa diferente da reição como de fatos salvíficos, conquanto
entre todos que ilumi-
definição de ortodoxia que diz: “aquilo em certamente seus seguidores mais imediatos
naram os caminhos para
aqueles que não podiam que se acreditou em toda parte, sempre e por e mesmo contemporâneos possam ter se
chegar a encontrá-lo por todos”. Quando o Concílio de Florença, em referido a elas nestes termos”. Ademais, ele
si mesmos...Grave afron-
1442, proclamou a célebre e triste fórmula considera as passagens que poderiam se referir
ta e vergonha para nós, 20
cristãos, que temos à mão “extra eclesiamnullasalvus” , o cristocentrismo a isso no Novo Testamento como recensões
os melhores recursos, a se uniu ao eclesiocentrismo para depreciar de relatos de tradições mais antigas preser-
graça, Deus, a santa fé, a
tudo o mais. Isso numa época em que os papas vadas em Lucas. Essa também é a posição
eucaristia e tantas outras 21
ajudas poderosas. No en- se chamavam Sforza, Bórgia , etc. de outros estudiosos do Novo Testamento,
tanto, damos voltas como como Geza Vermes e J. Crossman, e de mui-
galinhas cegas sem nos
Se a doutrina do corpo místico do Cristo foi tos exegetas deste período, que concordam
conhecermos nem conhe-
cer aquele que está dentro uma formulação de rara beleza poética e pro- sobre as diferenças entre as palavras passíveis
de nós” (GONZALEZ DE duto da engenhosidade institucional de Paulo de serem atribuídas ao Jesus histórico dentro
CARDENAL, Ano: 6)
de Tarso, ela de alguma maneira correspondia do contexto judeu de sua época e os óbvios
20 Literalmente: “fora
da igreja não há salva- à vitalidade e ao dinamismo da nascente comu- desenvolvimentos cristológicos posteriores
ção”. nidade e Igreja cristã dos tempos apostólicos. da Igreja primitiva.
21 Famílias poderosas
Mas, com o passar do tempo, essa situação
na Itália que fizeram vá-
rios papas e cardeais nem sofreu uma grande mudança. O programa É bom que se diga que a postura de reivindi-
um pouco virtuosos. místico e social de Jesus e de seus primeiros car a única ou principal via da salvação não é
88 específica do Cristianismo. O Budismo relata quarto da humanidade pelo menos diz seguir
a lenda de que Buda, ao nascer, teria dito: por Ele. Mas reconhecer isso não significa
“Eu somente sou o mais venerado no Céu e que devemos menosprezar outras revelações
Comunicações do ISER

na terra“ E ainda: Como as pegadas de todos divinamente inspiradas e métodos milenares,


os animais estão contidas na do elefante, tais como a meditação hinduísta ou budista,
assim todos os dharmas estão contidos nos os dikhr (exercícios sufis), as práticas xamânicas,
ensinamentos do Iluminado”. O Islamismo o uso das plantas de poder, as técnicas de de-
também se aferra à sua concepção de crente senvolvimento mediúnico, etc. Todas operam
e de infiel e se escandaliza com o modelo do algum tipo de graça e não nos cabe medir
monoteísmo trinitário cristão. Mas demons- se é mais avançada ou atrasada que a nossa
tra uma posição flexível quando diz: “Jamais própria fé ou crença. Não estou afirmando
enviamos mensageiro algum que não falasse a que devemos praticar tudo isso junto, pois
22
língua do seu povo” (Alcorão, XIV; 4) . Existe mesmo uma doutrina eclética como a nossa
claramente a sensação de que as tradições de tem limites. Mas temos que escutar o que as
alguma forma disputam a sua capacidade e a outras tradições têm a dizer. E, quando isso for
sua eficácia em relação aos dois aspectos que possível, entrar em sinergia com elas.
podemos considerar como as principais metas
das religiões: salvação e libertação. Mas nada É uma boa ideia desistir da pretensão de as-
pode ser tão peremptório como as palavras sumir o centro ptolomaico das religiões. Por
que foram atribuídas a São Pedro: “Não há, isso, no dizer de um teólogo moderno, ainda
debaixo do céu, outro nome (além de Jesus) é preciso uma revolução copernicana dentro
dado aos homens pelo qual devamos ser sal- da cristologia (HICK, 2004) para fazê-la girar
vos” (SMITH, 2006: 40-41). em torno de Deus com as demais tradições.
Mesmo que varie a quantidade de energia e
Levando em conta a amplitude cósmica e verdade que cada um receba em sua órbita, o
metafísica dessa questão, parece lógico que o centro do sistema, metaforicamente falando,
plano salvífico de Deus sempre levou em conta seria teocêntrico e não cristocêntrico. O sol
todos os seus filhos e filhas. E sempre esteve e central do espírito é Deus. E isso fornece uma
sempre estará aberto para todos, independente base bastante mais democrática para se fundar
da via destinada e/ou escolhida. Desde que, é um diálogo plural e inter-religioso.
claro, o caminho seja seguido de coração, com
sinceridade e com perseverança. A prova disso Libertados da necessidade de compreender
23
é que muitos santos, como Ramakhrisna , os desígnios divinos da salvação de uma for-
lograram realizar Deus seguindo a sadhana de ma literal, podemos tirar proveito do nosso
outras tradições. conhecimento adquirido num sentido mais
esotérico, compreendendo que, além da esca-
Da mesma forma, não podemos esperar me- tologia ao nível planetário, precisamos apenas
lhor resultado se limitarmos o diálogo inter- dar conta de nossa própria salvação. O que,
religioso a uma conversa teológica, mesmo que em última, instância significa basicamente ter
ela seja cordial e aberta. O plural e o ecumênico sabedoria e serenidade para abandonar nosso
22 E ainda tem como
só produzirão resultados práticos se refletirem invólucro físico e assumir nossa condição es- crédito a tolerância reli-
a troca de experiências profundas das comuni- piritual com certeza de para onde vamos. giosa em relação aos cris-
dades espirituais e tradições que se propõem Pelo fato da humanidade ser tão grande e tãos e judeus nos reinos
do sul da Espanha, entre
a dialogar e interagir. E isso requer muito boa diversa, de existirem tantos povos, culturas, os séculos XI e XIII.
vontade e um espírito realmente aberto. línguas, costumes, tradições e valores, há tan- 23 Grande santo hindu,
A salvação mediante a fé em Cristo e tudo que tas formas de conceber Deus. E também tantos que viveu em Calcutá no
séc. XIX. Realizou a divin-
ele foi e veio a representar ainda hoje é, sem avatares e profetas diferentes para anunciá-lo. dade seguindo os preceitos
dúvida, um bom caminho. Mais de um um Porém, dentro de toda essa multiplicidade de cristãos e mulçumanos.
sinais que Deus vem enviando aos homens O nosso ecletismo cristão, nossa teologia vi- 89
desde os primórdios das eras, existe também sionária, nossa prática de alianças espirituais
um fio condutor invisível e inexprimível que já pressupõem de alguma maneira nossa total

mir
une todas as experiências de revelação mística. abertura para o diálogo inter-religioso. Não
E é justamente nessa semelhança que podemos oferecemos o Santo Daime para converter
nos firmar para achar nosso caminho comum. ninguém. Quem é da nossa linha se reconhece
E como nossos sofrimentos, perplexidades e segue. E quem não é mesmo assim pode achar
e anseios por uma resposta espiritual são os proveito em se desenvolver espiritualmente
mesmos é que nossa prece também pode che- através do nosso sacramento, dentro da nossa
gar ao mesmo denominador comum. No fun- linha espiritual e doutrinária, da nossa fé ou
do não precisamos da mesma coisa? Portanto, também da sua própria crença. O cultivo dessa
podemos rezar juntos a mesma prece. liberdade, muito cara ao povo do padrinho
Sebastião, me parece a nossa melhor contri-
Outro aspecto que parece importante destacar buição enquanto grupo religioso para este im-
em relação à necessidade do diálogo inter-reli- portante debate sobre o tema do diálogo e do
gioso é a sua contribuição para a construção pluralismo religioso e a construção da paz.
da paz no mundo. Hoje em dia existe um pa-
radoxo: por um lado, as sociedades estão cada Céu do Mapiá, 19 de julho de 2009.
vez mais laicas e o paradigma da cosmovisão
científica, levado às últimas consequências, *Alex Polari de Alverga, representante da tradição
empobrece bastante a humanidade. Acentua religiosa Santo Daime.
sua crise de valores espirituais e a necessidade
intrínseca de transcendência. Por outro lado, Bibliografia citada
onde a religião mantém sua ascendência, talvez
por se sentir acuada por esta concorrência, BULTMANN, Rudolf. (2005), Jesus. São
os fundamentalismos exacerbam-se, criando Paulo: Editora Teológica.
outras tantas muralhas para o entendimento
e a paz entre os povos. GONZALEZ DE CARDENAL, Olegário.
Introdução à obra do Areopagita.
Buscar essa equivalência, buscar essa igual-
dade, buscar essa semelhança de aspirações DUPUIS, Jacques. (2001), O cristianismo e
existente entre as religiões se torna, portanto, as religiões. São Paulo: Paulinas.
uma meta nobre e necessária. Não há como
não enxergar nisso um sólido argumento HICK, John. (2004), “Deus e o universo
para rever noções ultrapassadas e fossilizadas das fés”. In: DUPUIS, J. O Cristianismo e
da teologia das religiões. Noções essas que, as religiões. São Paulo: Loyola.
insistindo em afirmar primazias e exclusivis-
mos, reforçam os fundamentalismos de parte PSEUDO-DIONÍSIO. (1995), “Teologia
a parte, não apenas no campo religioso, mas, o Mística”. In: Obras completas del Are-
que é pior ainda, no âmbito político. opagita. Madri: Biblioteca de Autores
Cristianos — BAC.
Se a humanidade chegou a tal impasse, nesses
extremos entre o vácuo espiritual e os radicalis- SMITH, Huston. (2004), A História cristã.
mos, por que todas as tradições não enxergam
nesse fato um alerta divino sobre a falência de SMITH, Huston. (2006), A alma do Cris-
um modelo e o convite para uma nova postura, tianismo. São Paulo: Cultrix.
mais flexível e fundamentalmente mais pacífi-
ca de umas para com outras?
Servindo ao mundo
a partir do Sagrado
Algumas contribuições cidadãs do MIR 91

mir
O MIR e o Ensino aproximadamente mil e trezentos candidatos,
quinhentos dos quais imediatamente integra-
Religioso no Estado dos ao quadro docente da Secretaria Estadual

do Rio de Janeiro de Educação. Em 2009, outros quatrocentos


aprovados foram integrados. Mesmo assim, não
Emerson Giumbelli
estão asseguradas as condições que permitiriam
contemplar plenamente as preferências reli-
O objetivo deste breve texto é registrar as giosas dos alunos. Nota-se, além disso, grande
ações do Movimento Inter-Religioso — MIR diversidade nos conteúdos e métodos de ensino,
em relação ao ensino religioso, disciplina do independentemente da religião do professor.
currículo escolar prevista pela Constituição de Ainda, o caráter facultativo da disciplina não
1988 e regulamentada pela Lei de Diretrizes e é clara ou amplamente divulgado em muitas
Bases da Educação Nacional, de 1996 (modifi- escolas e raramente são previstas atividades
cada em 1997). Para maiores detalhes, o leitor alternativas para os não optantes.
pode recorrer a outro volume de Comunicações
do ISER (número 60), que compila normas e O MIR, como boa parte da sociedade, não
posicionamentos acerca da situação do Ensino acompanhou a discussão do projeto que resul-
Religioso no Estado do Rio de Janeiro até 2004. tou na Lei 3459, proposto por um parlamentar
Algumas informações mais atualizadas estão católico e promulgado por um governante
disponíveis em: http://iser.org.br/exibe_noticias. evangélico. Do lado católico, o modelo con-
php?mat_id=129 fessional teve sua sustentação garantida pela
Arquidiocese da Cidade do Rio de Janeiro. Já
A mobilização do MIR no assunto tem como do lado evangélico nunca houve consenso,
marco a promulgação da lei 3459, de 14 de predominando mesmo as posições contrárias
setembro de 2000, pelo Estado do Rio de Janei- ao ensino religioso. Mas o engajamento do
ro. De acordo com essa lei, adota-se a “forma governador Anthony Garotinho parece ter
confessional”, ou seja: de acordo com as prefe- sido decisivo, propiciando uma nova condição
rências dos alunos (ou de seus responsáveis, no aos evangélicos em um terreno historicamente
caso de menores de 16 anos) por uma ou outra católico. A OMEB (Ordem dos Ministros Evan-
religião, os conteúdos curriculares e os docentes gélicos do Brasil) se prontificou como “autori-
da disciplina são definidos pelas autoridades dade religiosa” para cumprir os requisitos da
religiosas correspondentes. Cabe, por exemplo, Lei 3459. Outros evangélicos continuam a se
às autoridades católicas estipular o conteúdo opor ao modelo confessional.
das aulas e “credenciar” os professores relativos
aos alunos que se declaram católicos. Não tendo acompanhado a discussão dessa
Lei, após sua promulgação o MIR, se colocou
Em 2004, houve um concurso público para prontamente em oposição. Articulou-se com
professores de ensino religioso. Os requisitos o deputado Carlos Minc, também crítico da
exigiam aos candidatos um diploma de licencia- lei, e disso resultaram uma audiência pública
tura plena e o credenciamento pela autoridade na ALERJ e a proposição de um projeto de
religiosa correspondente. Foram aprovados lei alternativo (assinado por catorze parla-
92 mentares). Segundo ele, caberia ao Sistema aluno para a superação dos preconceitos.
Estadual de Ensino estabelecer as normas É função do Estado orientar seus cidadãos
para habilitação, admissão e capacitação de a buscarem o diálogo cooperativo para a
Comunicações do ISER

professores, como também regulamentar os paz através do bom relacionamento entre


procedimentos para a definição dos conteú- as várias etnias, culturas e tradições espi-
dos, “ouvida entidade civil constituída pelas rituais. Assim, através do ensino sobre o
diferentes denominações religiosas”. fenômeno religioso, de um ponto de vista
sociológico, os alunos poderão conhecer
O projeto de lei apontava, portanto, para a a história das religiões, seus princípios e
constituição de uma entidade nos moldes valores universais. O objetivo deste modelo
dos conselhos de ensino religioso que existem é instrumentar os alunos a entenderem
em vários estados brasileiros. O resultado melhor os diversos fenômenos religiosos
seria um conteúdo interconfessional, modelo que os rodeiam, possibilitando o respeito
com o qual o MIR se compromete e que está à diversidade humana. Só se respeita aquilo
relacionado a seus contatos com o FONAPER que se conhece.
(Fórum Nacional Permanente do Ensino Re-
ligioso), que ocorrem desde a segunda parte Quanto ao projeto de lei 1069/2007, afirma ex-
da década de 1990. Essa parceria entre MIR e plicitamente a exigência de “caráter ecumênico
FONAPER mantém-se na reação à Lei 3459, e inter-religioso das atividades”. Determina
através de debates e outros eventos. Fizeram a oferta da disciplina de ensino religioso em
ainda parte dessa reação as manifestações na todas as séries do segundo segmento do ensi-
Assembleia Legislativa, a mobilização junto a no fundamental (e não em todas as séries do
parlamentares e a divulgação de manifestos: ensino básico, como manda a lei 3459/2000)
primeiro em 2002, em apoio ao projeto de e prevê as condições para o registro da opção
Minc, que sairia vencedor nas votações par- pela disciplina — responsabilidade daqueles
lamentares; depois em 2004, reivindicando a com 12 anos ou mais (e não 16 anos, conforme
derrubada do veto oposto pela governadora a lei 3459) —, bem como a oferta de atividade
Rosinha Garotinho. No entanto, o veto não alternativa. Proíbe “quaisquer interferências
foi derrubado, o que significou a ratificação de autoridades religiosas nas condições de
do modelo confessional para o ensino religioso oferta do ensino religioso, a exemplo do
no estado do Rio de Janeiro. credenciamento ou descredenciamento de
docentes e da indicação e/ou fornecimento
Em 2007, com a troca da legislatura e de go- de material didático ou pedagógico”. E atribui
verno, ocorreu nova reação à norma vigente. ao Sistema Estadual de Ensino a definição de
Dessa vez, quem viabilizou a iniciativa foi o orientações gerais sobre conteúdos e material
deputado Marcelo Freixo. Dela resultaram a didático, reservando às unidades escolares a
realização de uma audiência pública na As- sua especificação e a formação continuada dos
sembleia Legislativa e a proposição de outro professores. Esses devem ter como habilitação
projeto de lei (PL 1069), assinado por cinco o diploma de licenciatura em uma das seguin-
parlamentares. O MIR reeditou seu manifesto, tes áreas: filosofia, história, ciências sociais,
agora em apoio ao projeto. Dele, vale destacar psicologia e pedagogia. Vale ainda mencionar
o trecho que defende que um que o projeto retoma a ideia de um Conselho
de Ensino Religioso, ao qual caberia o exercício
(...) modelo de ensino é coerente com das funções da Coordenadoria de Ensino Reli-
nosso país multicultural e com o mundo gioso na Secretaria Estadual de Educação.
globalizado do Século 21. Prepara as
crianças e jovens para respeitarem as di- Da justificativa do projeto de lei 1069/2007,
ferenças religiosas e culturais, guiando o merecem destaques:
Assim, a razão de ser do ensino religioso zado como aberto, no sentido de que ele não está 93
não pode dissociar-se da própria função vinculado a uma proposta curricular específica
da escola pública, que reside em propor- ou a expectativas definidas quanto à habilitação

mir
cionar conhecimento e diálogo. Compete docente. Para o MIR, a interconfessionalidade
à escola integrar o conhecimento religioso é menos um modelo e mais o resultado vivido
numa visão de totalidade, provendo aos e palpável de uma trajetória. Enfim, é o fato de
seus educandos a oportunidade de com- o MIR ter se viabilizado como uma experiência
preender as especificidades das diversas de convivência entre um escopo amplo e diver-
religiões. Afasta-se da função da escola a sificado de tradições religiosas que o habilita a
proposição, aos educandos, da vivência e intervir no debate sobre o ensino religioso. Isso
adesão a esses mesmos conhecimentos. pode estar associado ao que o artigo 33 da LDB
prevê como “entidade civil, constituída pelas
Ao Estado não toca fazer-se sacerdote, diferentes denominações religiosas” conferida
pontífice, ministro, catequista ou missioná- da capacidade de fazer sugestões sobre os con-
rio, mas, ao contrário, cabe, reconhecendo teúdos curriculares. Caso tal entidade civil se
a importância social real das manifestações constituísse no Rio de Janeiro, o MIR certamen-
religiosas, criar condições para que essas te teria um papel na sua organização.
possam ser plenamente conhecidas por
seus cidadãos, contribuindo para eliminar Mas certamente não deveriam depender dessa
as diversas formas de preconceito e de into- expectativa os horizontes do MIR em relação ao
lerância que lamentavelmente persistem (e tema da presença da religião na escola. Outras
que costumam atingir mais violentamente possibilidades são vislumbráveis, não seriam
aquelas expressões ditas “minoritárias”), impedidas pelo atual modelo normativo vigente
fomentando a coexistência pacífica entre os no estado do Rio de Janeiro e nem precisam
diferentes credos, sejam eles teístas ou não, ficar atreladas à ideia do ensino religioso como
e entre estes e aqueles que não desejam ter área de conhecimento ou como disciplina. A ne-
qualquer espécie de vivência religiosa. cessidade e o interesse de crianças e adolescentes
pelas questões religiosas podem ser respondidos
Em dezembro de 2007, o projeto de lei de muitas formas dentro da escola, podem se
1069/2007 recebeu uma série de emendas par- tornar tema de discussão e partilha por meio de
lamentares e passou por uma primeira discus- atividades e experiências muito diversificadas.
são em plenário. As resistências são evidentes e Isso vislumbrado, o MIR tem a oferecer algo
o seu destino é, no momento, incerto. singular: partindo de uma conjunção ampla e
diversificada, a voz e a vivência de cada uma das
Quanto ao MIR, sua atuação vai depender, como tradições religiosas ali reunidas.
tem acontecido, das circunstâncias e das articu-
lações possíveis. Mesmo seu compromisso com Abaixo, a justificativa do projeto de lei
a proposta interconfessional pode ser caracteri- 1069/2007.

PL 1069/2007- JUSTIFICATIVA

O presente projeto de lei visa a adequar o modelo de ensino religioso em vigor no estado do
Rio de Janeiro aos estritos termos da legislação em vigor, bem como àquilo que a comunidade
de especialistas (como aquela reunida pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religio-
so – FONAPER) e as várias experiências em curso ao redor do país vêm sistematicamente
recomendando. Os frutos até aqui trazidos pela legislação em vigor no estado são os piores
possíveis, uma vez que ensejaram a realização de concurso público no qual os candidatos
94 concorriam ao cargo de professor da rede pública identificados por credo e em proporções
desiguais, o que a um só tempo viola um sem número de princípios constitucionais. Além disso,
cabe também mencionar os eventos realizados pela Coordenadoria de Ensino Religioso do
Comunicações do ISER

estado na própria sede da Arquidiocese do Rio de Janeiro, entidade com a qual tem mantido
uma histórica “parceria”, de modo incompatível com o que é admitido pela Constituição da
República.

Na modelagem do ensino religioso cabe, pois, ter em conta, em primeiro lugar, a Constituição
da República, que prescreve a liberdade de ter ou não religião como direito fundamental;
que veda ao Estado brasileiro subvencionar cultos religiosos ou manter com eles relação de
dependência ou aliança (art. 19); que veda qualquer procedimento administrativo conducente
à violação da privacidade e da intimidade, onde se incluem as convicções religiosas (art. 21);
que preconiza seja o ensino ministrado com base no pluralismo ideológico e de concepções
pedagógicas (art. 206, III); e que dispõe que os conteúdos mínimos do ensino fundamental
serão fixados de maneira a assegurar o respeito a determinado conjunto de valores, dentre
eles os de índole religiosa (art. 210, caput). A mesma Constituição (art. 210, § 1º) prevê a
obrigatoriedade da oferta do ensino religioso nas escolas públicas de nível fundamental e não
em outros, uma vez que se trata de norma de exceção, onde descabe interpretação extensiva,
conforme a doutrina corrente. A atual Carta Magna distingue-se das anteriores, a exemplo
daquela de 1934 (art. 153, não repetido em 1988), na qual se previa a oferta do ensino
religioso em todos os níveis.

Cabe, também, ter em conta a Constituição do Estado do Rio de Janeiro, que prescreve, entre
os objetivos do sistema estadual de ensino, a eliminação de todas as formas de racismo e
discriminação, a afirmação do pluralismo cultural e a convivência solidária a serviço de uma
sociedade justa e fraterna (art. 306). A Carta Fluminense acrescenta que o ensino deve ser
ministrado com base na livre divulgação do pensamento e dos saberes, vedando-se quaisquer
formas de discriminação (art. 307).

Dadas essas premissas, há um princípio liberal e republicano que se deseja resgatar com o
presente projeto: em matéria essencialmente religiosa o Estado deve ser neutro. Assim, ao
Estado não cabe ensinar religião, tarefa esta que é única e exclusiva das próprias instituições
religiosas, às quais ricos e pobres têm pleno acesso, e que gozam de todas as garantias relativas
à liberdade religiosa proporcionadas pela Constituição. Ao Estado não toca fazer-se sacerdote,
pontífice, ministro, catequista ou missionário, mas, ao contrário, cabe, reconhecendo a im-
portância social real das manifestações religiosas, criar condições para que estas possam ser
plenamente conhecidas por seus cidadãos, contribuindo para eliminar as diversas formas de
preconceito e de intolerância que lamentavelmente persistem (e que costumam atingir mais
violentamente aquelas expressões ditas “minoritárias”), fomentando a coexistência pacífica
entre os diferentes credos, sejam eles teístas ou não, e entre estes e aqueles que não desejam
ter qualquer espécie de vivência religiosa.

Tais premissas nos levam a afirmar a urgência — em vista do Estado republicano, democrático
e de Direito — de profunda revisão do atual modelo em vigor no Estado do Rio de Janeiro.
Nele, legitimam-se diversas formas de imiscuição de autoridades religiosas no oferecimento
do ensino religioso em escolas públicas, intromissão essa que é tão indevida quanto o seria
o oposto, isto é, a intervenção do Estado na indicação de ministros religiosos, do material
catequético ou na maneira como se realizam as atividades de catequese no interior de uma
instituição religiosa. Segundo nos ensinam nossos mais proeminentes constitucionalistas, 95
dessa espécie de intervenção somente temos notícia na Constituição Imperial, de 1824, que
definia o chamado sistema de união nas relações jurídicas entre Estado e Igreja e que instituía

mir
a religião católica apostólica romana como religião oficial. A toda evidência, não é este o
sistema vigorante em nossa história republicana, mas sim o da chamada separação atenuada,
no qual predominam no Estado os objetivos laicos sobre os religiosos, muito embora este
emita um julgamento geral positivo sobre a religião.

Se é incontestável que a Constituição manda que o ensino religioso seja oferecido na rede
pública, claro está, de outro lado, que tal ensino deve ser absolutamente diferenciado daquele
que é próprio das instituições religiosas, uma vez que não se justificaria pretender aplicar re-
cursos públicos, arrecadados em face de toda a população, a fim de realizar atividade típica
das instituições religiosas. Por mais nobilitante que o conteúdo religioso possa ser, não se
admitiria transportar para a escola pública características que, na realidade, pertencem às
escolas privadas de caráter confessional, até porque nada impede que estas, caso queiram,
se abram à clientela das escolas públicas. A eliminação da atual confusão daquilo que é pró-
prio a cada uma dessas esferas constitui providência saudável não somente para o Estado
democrático, como também para as próprias denominações religiosas, como já reconheceram
alguns ministros religiosos em período recente. Nas palavras insuspeitas de Manoel Gonçalves
Ferreira Filho, temos que a colaboração no interesse público, admitida na Constituição, “não
pode ocorrer em campo fundamentalmente religioso, como o da catequese, por mais alto
que seja o valor dessa pregação para a elevação moral e dos costumes do povo. De fato, aí
a colaboração seria propriamente o amparo de religião e feriria profundamente a separação
prescrita” (FERREIRA FILHO, 1992: 144).

Assim, a razão de ser do ensino religioso não pode dissociar-se da própria função da escola
pública, que reside em proporcionar conhecimento e diálogo. Compete à escola integrar o
conhecimento religioso numa visão de totalidade, provendo aos seus educandos a oportuni-
dade de compreender as especificidades das diversas religiões. Afasta-se da função da escola
a proposição, aos educandos, da vivência e adesão a esses mesmos conhecimentos.
Cabe, outrossim, ter em conta os dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da educação nacio-
nal, alterada em 22/07/1997 pela lei federal nº. 9.475, precisamente no que tange ao ensino
religioso, sem que até a presente data a normativa estadual tenha se adaptado às mudanças
por ela introduzidas. Dentre essas, ressalta-se a valorização do pluralismo configurada na
necessária e formal oitiva das diferentes denominações religiosas na definição dos conteú-
dos do ensino religioso. Tratam-se de mudanças que visam a impedir que, a pretexto de se
oferecer ensino religioso, o Estado venha a estipular procedimentos que somente poderiam
ser satisfeitos por tradições religiosas que contem com uma estrutura orgânica, com exclusão
das minoritárias.

Cabe, ainda, ter em conta os dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei fe-
deral nº. 8.069, de 13/07/1990), que garante às crianças e adolescentes o direito de serem
ouvidos e de ter suas opiniões devidamente consideradas no processo educacional, visando
ao pleno desenvolvimento de sua pessoa e ao preparo para o exercício da cidadania. No que
concerne aos adolescentes, assim considerados aqueles com 12 anos de idade completos, a lei
infanto-juvenil, em vários momentos, outorga às suas opiniões um caráter vinculante, como
no necessário consentimento para fins de adoção (art. 45, § 2º). Assim, se para uma decisão
muito mais grave a lei dá ao adolescente legitimidade para anuir ou não, não se compreenderia
96 porque esse mesmo direito lhe seria negado na decisão a respeito do recebimento do ensino
religioso. Vemos nessa possibilidade uma saudável oportunidade de exercício da autonomia
e da responsabilidade, que todos desejam ver fomentadas em nossos jovens. A delegação da
Comunicações do ISER

opção pelo ensino religioso precipuamente aos responsáveis constitui uma outra característica
de Constituições passadas, não reproduzida na nova ordem inaugurada em 1988.

Cabe, por fim, levar em conta as exitosas experiências conhecidas, de estados como Paraná
e Santa Catarina, bem como as pesquisas recentes realizadas por acadêmicos dedicados à
matéria, que têm apontado a inadequação da adoção de parâmetros excessivamente centrali-
zados e uniformes no oferecimento do ensino religioso, preconizando a instituição de sistema
com certa dose de flexibilidade, a fim de que possa fazer face às multifárias circunstâncias
locais.

Bibliografia citada

FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves.


(1992), Comentários à Constituição Brasileira
de 1988, vol. I. São Paulo: Saraiva.

FREIXO, Marcelo et. al. Estado do Rio de


Janeiro, Projeto de Lei nº 1069, de 7 de
novembro de 2007. Dispõe sobre o ensino
religioso na rede estadual de ensino, revo-
ga a lei estadual n.° 3459/2000 e outras
leis. Disponível na internet em:
http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/scpro0711.
nsf/e00a7c3c8652b69a83256cca00646ee5/
c4b0b8aa36bb25c68325738c005a46c2?O
penDocument&Start=1&Count=200&Colla
pse=1.1
Reconhecendo Em todos os momentos, o MIR procurou atuar
como um agente voltado para a mediação de
97

e vivenciando conflitos de interesse, tanto dos ambientalistas

mir
o sagrado na da linha conservacionista como dos diferentes
segmentos religiosos envolvidos na questão. Bus-
natureza cando sempre estratégias e ações para preservar o
1
Maria das Graças de Oliveira Nascimento direito de uso religioso do espaço — em especial
para as tradições de matriz afrodescendente — de
parques nacionais, estaduais e municipais, con-
A militância ecológica do MIR no forme garantido pela Constituição Brasileira.
Rio de Janeiro
Junto aos membros dessas tradições, buscou-se
Durante a ECO-92, o ISER organizou a Vigília identificar os contornos de um programa de edu-
Inter-religiosa pela Terra no Aterro do Flamengo. cação ambiental baseada nos saberes tradicionais
1 Várias pessoas con- Ali se realizava o Fórum Global, com a participa- das comunidades de casas de santo e terreiros de
tribuíram com seus sa-
ção de mais de mil ONGs. No total, vinte e cinco Umbanda e Candomblé, mostrando a necessida-
beres científicos, tradi-
cionais, profissionais etc religiões e grupos espirituais e cerca de trinta mil de de avaliação das práticas religiosas de modo a
no desenvolvimento das pessoas participaram do evento. Personalidades torná-las ecologicamente corretas.
atividades relatadas nes-
como o Dalai Lama, Dom Helder Câmara e Dom
te documento. Juntos,
estamos saboreando a Luciano Mendes estiveram presentes. Naquela Adotou-se a metodologia da Pesquisa-Ação de
construção de um pro- ocasião nascia o Movimento Inter-Religioso do Thiollent, que permite a incorporação dos re-
cesso de reconhecimento
Rio de Janeiro – MIR. sultados decorrentes da participação de agentes
do Sagrado na Natureza
apresentado neste docu- envolvidos, bem como o desenvolvimento de
mento que reflete apenas Após o evento, as tradições envolvidas soli- ações de intervenção reconhecidas como fun-
o olhar de um dos seus
citaram ao ISER a continuidade do processo damentais à melhoria do processo, redefinindo
agentes. É tempo de agra-
decer àqueles(as) agentes desencadeado após a vigília, tendo como os rumos de sua construção.
que, ao atravessar muitos um dos eixos de trabalho as questões que
momentos de tensão no
papel de principais guar-
envolvem o relacionamento homem/reli- 1. Projeto Meio Ambiente e
diões do fogo, alimentam gião/natureza. Religião: o MIR no Projeto
a chama acesa do respei- Espaço Sagrado da Curva do S
tar, conservar, preservar e
proteger todos os reinos
A participação no Projeto Espaço Sagrado da (Parque Nacional da Tijuca – PNT)
da Natureza, gerando co- Curva do S, no Parque Nacional da Tijuca (PNT),
nhecimento e informação a campanha Elos de Axé – Natureza Viva, o as- A linha do tempo do Projeto Meio Ambiente
para as comunidades das
sento do MIR no Conselho Consultivo do PNT e Religião pode ser identificada pelos eventos
tradições de matriz reli-
giosa e acadêmica, entre e, mais recentemente, o apoio da Secretaria de abaixo relacionados.
outras. Evidentemente, Estado do Ambiente do Rio de Janeiro à cam-
não lhes cabe a responsa-
panha — através da definição de pontos de con- 1997 | Primeiro Momento –
bilidade do que está escrito
aqui, mas é certo que sem torno para a construção de uma política voltada I Seminário Meio Ambiente e Espaços
Aderbal Moreira da Costa para o uso religioso da área pública — podem Sagrados
Ashogum (Cia Cultural
ser identificados como os principais produtos
Omo Aro), Ana Cristina
P. Vieira (Coordenadora gerados no âmbito do Projeto. Realiza-se, em setembro de 1997, o I Seminá-
de Cultura PNT/IBAMA), rio Meio Ambiente e Espaços Sagrados, com
Denise Alves e Marcelo
Procura-se mostrar, através do relato dessa a participação de representantes de vários
Antônio Marques Prazeres
(NEA IBAMA-PNT), Flá- experiência, a linha do tempo na qual são cultos, órgãos públicos, pesquisadores e
via Pinto (Casa do Perdão) apontados os avanços e a afirmação de cada ONGs. O evento, coordenado pela a equipe
e Lara Moutinho da Costa
etapa da caminhada como parte da construção do PNT, ISER e do Museu de Belas Artes,
(Associação Ambientalista
Defensores da Terra) não de um processo de reconhecimento e vivência surgiu com o propósito de estabelecer as
seria possível este relato. do Sagrado na natureza. bases para o conhecimento sobre a questão,
98 tendo como principal meta a “criação de um A carta indica a implantação do Espaço Sagrado;
espaço sagrado, fora dos limites do parque, o desenvolvimento de ações e materiais didáticos
com os requisitos necessários à realização e interpretativos para os diferentes segmentos
Comunicações do ISER

dos cultos, limpeza, segurança e manuten- envolvidos; o desenvolvimento de metodologia


ção do local, o qual deverá ser administrado transdisciplinar e inovadora associando edu-
em regime de co-gestão IBAMA - Prefeitura cação, cultura, pesquisa, proteção e manejo de
- entidades religiosas”. áreas florestadas que também sirvam de modelo
para a resolução de conflitos socioambientais
2004 | Segundo Momento – em outras áreas protegidas; e elaboração de
II Seminário Meio Ambiente e Espaços termo de referência para implantação, gestão
Sagrados e administração do espaço sagrado. O docu-
mento destacava também que a viabilização da
Realiza-se o II Seminário Meio Ambiente e Es- proposta só seria possível mediante a necessária
paços Sagrados. Para que seja operacionalizado aprovação e cessão de uso da área em foco pela
o Espaço Sagrado, a plenária do encaminhou Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. É neste
proposta de criação de um comitê gestor cons- momento que o Movimento Inter-Religioso
tituído por técnicos do PNT e sociedade civil passa a atuar de forma mais concreta.
organizada, entendida como membros represen-
tativos dos diversos segmentos religiosos, asso- 2005 | Terceiro Momento –
ciações de bairros, organizações ambientalistas, Revisão do Plano de Manejo e Oficina
entre outros, que realizariam de forma integrada de Práticas Religiosas
o gerenciamento do Espaço Sagrado.
O conjunto de ações levadas a efeito pelo co-
Na prática, esse Comitê passa a ser a Comissão mitê gestor a partir de 2004, com a realização
Interdisciplinar Gestora do Projeto Espaço de diversas reuniões — muitas delas utilizando
Sagrado, integrada pelas seguintes instituições: administração de conflitos — vai dando ao
Congregação Espírita Umbandista do Brasil movimento estatura de implantação da con-
(CEUB); Federação de Umbanda e Nações cepção de espaço sagrado.
Africanas (FUNA); Centro Espiritualista Seme-
adores da Luz; Defensores da Terra; Assembleia Assim, com a revisão do plano de manejo do
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro - Comis- PNT, grupos religiosos são chamados a partici-
são de Defesa do Meio Ambiente; Wicca; Movi- par das reuniões e oficinas e, pela primeira vez,
mento Inter-Religioso do Rio de Janeiro - MIR; os diversos segmentos envolvidos nos conflitos
Núcleo Espiritualista Guerreiros da Fé; Instituto de interesses são colocados lado a lado. Passa-
Matlan de Pesquisa e Educação Ambiental; mos a nos conhecer, o que é um grande passo
Parque Nacional da Tijuca; templo A Caminho para compreender os motivos por trás de cada
da Paz; Ilê Axé de Ogum; União Espiritista de interesse, resultando na identificação de cinco
Umbanda do Brasil (UEUB). eixos estratégicos para a consolidação de uma
proposta mínima de trabalho conjunto.
Da plenária emerge também o documento Carta
de Intenções, que reitera a necessidade de mini- Os eixos estratégicos ampliam e passam a
mizar os conflitos existentes entre a liberdade de estruturar todo um projeto de trabalho que
expressão religiosa e a preservação dos recursos incorpora as dimensões de:
naturais das unidades de conservação (SNUC
2000), assim como de atender à necessidade • Regulamentação das práticas religiosas no
que diferentes tradições espiritualistas têm de parque e entorno, permitindo um grande
utilização de sítios naturais para a prática de avanço, que é a valorização do patrimônio
seus cultos. imaterial do Parque Nacional da Tijuca;
• definição de espaços e infraestrutura para religioso, as práticas religiosas, o número 99
as práticas religiosas não só no entorno de praticantes e a frequência de uso, o local
como no interior do parque, bem como a (parque e zona de amortecimento), os mate-

mir
implantação de capela ecumência que não riais e equipamentos utilizados, os resíduos
tem sido consenso e até provoca conflito de deixados, os possíveis impactos, as demandas
interesses entre ambientalistas e religiosos; do parque e do grupo e o manejo da situação
• educação ambiental orientada aos prati- do parque e do grupo.
cantes, sendo proposta a gestão participa-
tiva na construção dos materiais didáticos; De todos os grupos identificados, é o afro-
a realização de pesquisas quantitativas e brasileiro quem:
qualitativas sobre o uso religioso da área;
considerar os religiosos como agentes mul- • Mais locais utiliza (Curva do S, Águas
tiplicadores; procurar a autossustentação Férreas, Jardim Botânico, Furnas, Quebra,
do projeto; estabelecer um calendário Vista Chinesa, Rio Carioca e outros locali-
inter-religioso de celebrações. zados no entorno);
• controle e fiscalização das práticas religio- • mais utiliza materiais e equipamentos
sas no parque e entorno, onde é proposto (comidas e bebidas, vasilhas e velas, ata-
dotar os principais locais de placas infor- baques, adjá, e agogô);
mativas sobre a legislação existente e nor- • deixa maior número de resíduos (alimen-
mas de uso, bem como incluir elementos de tos, garrafas, velas, louças, alguidares,
práticas religiosas e culturais na formação animais e aves utilizados nas oferendas);
dos agentes de fiscalização e controle; • gera mais possíveis impactos (lixo, fogo, po-
• monitoria e avaliação das práticas religio- luição hídrica, alimentação de fauna, soltura
sas e seus impactos, sendo explicitada, pela de animais, impacto visual, mau cheiro, foco
primeira vez, a necessidade de criar quatro de vetores para comunidades do entorno).
frentes de pesquisa, objetivando quan-
tificar, definir e determinar os diferentes Em contrapartida, as demandas desse grupo
tipos de impactos gerados pelas práticas são o respeito, regras negociadas e aplicadas,
religiosas, visando subsidiar o Plano de coleta, trabalho educativo. Deste modo, o
Manejo com essas informações. manejo da situação é delineado pela elabora-
ção de material e trabalho educativos, coleta
2006 | Quarto Momento – e interação com técnicos.
I Seminário de Educação, Cultura e
Justiça Ambiental O cruzamento dessas informações mostra que
a solução “educação ambiental” vem natural-
O Seminário dá um salto qualitativo em rela- mente para todas as situações que geram con-
ção aos anteriores ao tratar educação, cultura flitos. Como se trata de um segmento de baixa
e justiça ambiental porque amplia a discussão renda, o Estado deve estabelecer instrumentos
para além dos muros do Parque Nacional da que aumente o seu nível de informação.
Tijuca e mostra um outro foco: o da injustiça Todos os indicadores mostram ser possível
ambiental que vem sendo praticada aos devo- compatibilizar o direito às práticas religiosas
tos do cultos afro-brasileiros, descendentes de com o respeito à natureza, e os grupos religio-
escravos que sucederam os índios e refloresta- sos estão prontos a colaborar neste projeto na
ram a Floresta da Tijuca. medida em que o Parque Nacional da Tijuca
Na oficina, realizada em meados de 2005, é seja entendido como um altar sagrado.
elaborada um análise preliminar da situação
das práticas religiosas no Parque Nacional da O Seminário traz dois grandes avanços: A)
Tijuca, contendo informações sobre o grupo A plenária discute e avalia os resultados da
100 Oficina de Práticas Religiosas de 2005, enca- de informações educativas em relação ao res-
minhando-os ao Instituto Brasileiro de Meio peito, proteção e preservação da natureza.
Ambiente – IBAMA através da direção do PNT; • estabelecer parceria com o Núcleo de
Comunicações do ISER

B) Promove o lançamento da campanha Elos Educação Ambiental do Parque Nacional


de Axé – Natureza Viva. da Tijuca (NEA/PNT), no sentido de que
este assuma a coordenação técnica do pro-
2. Campanha Elos de Axé – jeto de Educação Ambiental para zeladores
Natureza Viva: Lançamento das de casas de santo e terreiros.
bases
Definiu-se também que a melhor forma de
No I Seminário de Educação, Cultura e Justiça trabalho para efetivar essas ações é a formação
Ambiental, nasce a campanha Elos de Axé – Na- de uma rede de instituições com o objetivo de
tureza Viva. O primeiro passo foi mobilizar os ze- tratar essas questões.
ladores das casas e terreiros de Candomblé. Para
isso, a Plenária deliberou pelo estabelecimento Reconhecendo-se as dificuldades de reunir
de estratégias de mobilização de zeladores de os adeptos das tradições afrobrasileiras, em
casas de santo e terreiros com vistas a informar geral moradores de áreas distantes e da peri-
sobre a realização do próprio seminário e partir feria da cidade, a solução é realizar encontros
para a construção de um programa de educação de forma itinerante em horário compatível
ambiental voltado para grupos religiosos, em com a disponibilidade dos zeladores e em
especial os de Umbanda e Candomblé. locais próximos às casas de santo e terreiros,
ampliando, assim, o número de entidades e
A proposta aprovada, produto resultante do lideranças participantes.
grupo de trabalho coordenado por Mãe Beata e
Dr. Pedro Miranda, define as seguintes ações: Como pontos de encontro dessa rede foram ofe-
recidos os seguintes espaços: União Espiritista de
• Estimular o reaproveitamento de garrafas, Umbanda do Brasil (UEUB), Ilé Omim Oju Aro,
alguidares e outros utensílios, bem como Parque Nacional da Tijuca (PNT) e o Movimento
orientar sobre os cuidados necessários no Inter-Religioso do Rio de Janeiro (MIR).
uso de velas nas oferendas e obrigações
entregues nas matas e florestas; Encontros de Zeladores de Casas
• divulgar cartilhas voltadas para o “povo de Santo e Terreiros –
do Santo”; A construção da campanha
• lembrar a responsabilidade dos zeladores
(sacerdotes) na orientação aos “clientes” “Dê tempo ao tempo
das casas e terreiros; Porque tudo tem o seu tempo
• realizar trabalho de conscientização da E tempo está chegando”
questão ambiental junto ao comércio de Assim fala o Preto Velho
artigos religiosos;
• lembrar a responsabilidade do “povo Como a representação do segmento religioso
do Santo”; de Umbanda e Candomblé no seminário foi
• incentivar os zeladores das casas e ter- abaixo da expectativa e considerando a neces-
reiros a incluir o respeito à natureza na sidade de informar a esses segmentos questões
dimensão educadora de iniciados; inerentes à legislação ambiental e, em especial,
• produzir material educativo e disponibi- ao Sistema Nacional de Unidades de Conserva-
lizar os que já existem; ção – SNUC, sentiu-se a necessidade de formar
• trabalhar, junto à mídia especifica das tra- um grupo focal constituído por lideranças das
dições de matriz afrobrasileira, a divulgação duas tradições.
Com esse propósito, logo após a realização De junho de 2006 a agosto de 2007, foram 101
do seminário, trabalhou-se intensamente no realizadas sete reuniões com zeladores de casas
sentido de mobilizar o maior número de lide- de santo e terreiros de Umbanda e Candomblé,

mir
ranças, tarefa que ficou a cargo da sacerdotisa cujas plenárias definiram os rumos e direcio-
Flávia Pinto, da Casa do Perdão. A realização da namentos dados à campanha, de acordo com a
primeira reunião foi proposta para o dia 16 de metodologia da pesquisa-ação de Thiollent.
julho de 2006, no auditório da sede do MIR.
Reconhecendo a casa de santo/ terreiro de
Considerou-se importante a realização desse Umbanda e Candomblé como um espaço sa-
Encontro como um primeiro passo na ação de grado, locus privilegiado de interação com o
construir um Programa de Educação Ambiental divino, a campanha avança na medida em que
para Zeladores de Casas de Santo e Terreiros. há a adesão de zeladores. Procura intervir com
ações aceitas e compromissadas com o respeito
A reunião identificou os seguintes eixos de e com o que é permitido pela hierarquia dos
trabalho: mais velhos, ouvindo a linguagem ancestral de
cada axé, procurando a integração.
• Construção de políticas públicas que
garantissem as condições necessárias ao Nesse processo, entende-se que o Programa de
exercício do direito à realização de cultos Educação Ambiental voltado para o segmento
e práticas religiosas, identificando-se as em questão, em especial o da Umbanda, deve
seguintes diretrizes: levar em consideração o hinário da tradição que,
o trabalhar a politização dos praticantes praticado, constitui-se num roteiro de relaciona-
das duas tradições; mento harmonioso Divino/natureza. Ademais,
o incentivar a legalização dos terreiros, todo o conteúdo deverá emergir como decor-
mostrando os prós e os contras; rência natural da integração dos axés de cada
o identificar ações afirmativas que garan- casa/terreiro, de responsabilidade do zelador do
tissem o respeito à cidadania religiosa. santo, orientador espiritual do povo do santo.

• Crescimento do nível de informação dos O primeiro passo nessa construção foi a Carta
grupos religiosos sobre os direitos e deve- da Campanha Elos de Axé – Natureza Viva,
res constitucionais, a legislação ambiental cujo texto é apresentado a seguir.
e do Sistema Nacional de Unidades de
Conservação – SNUC, contribuindo assim Listam-se também os primeiros parceiros e
para o aumento da consciência sobre a parceiras engajados nesta ideia de voltar a
importância da preservação e cuidados práticas que levem a harmonia do Homem
com o meio ambiente. com o Divino, reconhecendo e vivenciando
o sagrado na natureza.
• Conscientizar os zeladores das casas de
santo e terreiros quanto à importância da Campanha “Elos de Axé – Natureza Viva”.
sua atuação junto aos “clientes” de suas Quem é de axé ama a natureza
casas, no sentido de respeitar e preservar
o meio ambiente ao fazerem entrega de Desde que o mundo é mundo, nossos
suas obrigações nas matas, nos rios ou ancestrais têm reverenciado e amado a
nas praias. natureza. Terra, rios, lagos sempre foram
• Atuar junto às lojas de venda de produtos o cenário da nossa história e fundamentais
religiosos, no sentido de que estas partici- para a nossa sobrevivência. Carne e espírito
pem na divulgação de material de divulga- se alimentaram dessa energia continua-
ção da área de Educação Ambiental. mente através dos tempos.
102 Ao gene criativo do homem devemos a afrobrasileira instruir seus filhos e clientes
materialidade que cobre a Terra-Mãe. a adotarem uma postura respeitosa com
nossas florestas, rios, cachoeiras, mares e
Comunicações do ISER

Necessitamos armazenar alimentos, cozi- lagoas.  Nossas cantigas falam disso.


nhá-los e transformá-los.
Precisamos nos  organizar para colocar em
Sob a face da Terra foram surgindo objetos a prática todos esses ensinamentos, fazendo
serviço da humanidade. Os homens se mul- Cursos de Agentes Ambientais Para Casas
tiplicaram e a natureza continua no mesmo de Santo e Terreiros das religiões de matriz
lugar. Nela reside a nossa força mítica, abrigo  afrobrasileira, elaborando cartilhas, vídeos,
dos Orixás, Inquices, guias e protetores. entre outros. Existem várias experiências de
sucesso nesse sentido.
AXÉ É NATUREZA
O povo do santo louva seus Orixás nos Podemos  estabelecer um diálogo conci-
espaços sagrados do meio ambiente, pois liador com entidades governamentais, na
sem água, folhas e raízes não se cultua Orixá. medida em que tenhamos a oportunidade
Urge, portanto uma tomada de atitude: de mostrar com a  nossa prática explicita-
mente o contrário: nada de vasilhames,
Irmãos umbandistas, candomblecistas e de cacos, velas queimando árvores, dejetos no
religiões que cultuam a natureza juntam-se caminho das nossas fontes energéticas.
ao movimento do mundo pela preservação
do meio ambiente e principalmente pela Vamos exercer a prática da cidadania par-
sobrevivência de suas práticas ancestrais ticipativa, visto que a nossa religiosidade
dentro de um contexto de respeito e pre- é estruturalmente comunitária.
servação do meio ambiente. O Orixá gosta da natureza para se mani-
festar com plenitude. Quem ama o Orixá
Os órgãos do poder público fazem o papel ama a natureza.
do Estado, coibindo nossas ações  religio-
sas por entendê-las como agente agressor Faça com que sua Casa/Terreiro seja um
da natureza. Precisamos conhecer nossos elo nesta corrente de Axé.
direitos constitucionais e os deveres conti-
dos na legislação ambiental. Participe da Campanha  Elos de Axé – Na-
tureza Viva.
É responsabilidade dos zeladores das casas
de santo e terreiros das religiões de matriz Os primeiros parceiros e parceiras da campanha:

Instituição Representante
AOM Oswaldo Mutalê
Cabana do Mestre Omulu Nelson Arruda Filho
Cabana do Pai Miguel das Almas Luiz Antonio Cardoso Araújo
Cabana do Pai Tomás D’Angola Mãe Eulina de Iansã
Candomblé Aderbal Moreira da Costa
Candomblé Clarisse Mantuano
Cantinho Baiano William Rodrigues
Casa D’Obaluaê Umbanda das Almas Carlos D’Xangô
Casa da Caridade Pai Benedito D’Angola Zilmar Duarte
Maria da Conceição S. da Silva
Maura Paiva
Casa da Justiça Divina Mãe Abigail Kanabogy 103

Casa de Oxum Glória Maria dos Santos Correia

mir
Casa Espírita A Caminho da Luz Pai Edem
Casa Espírita de Obaluaê Maria Georgina Pavão de Almeida Machado
Vera Maria Bezerra de Jesus
Centro Cultural Seixas Henrique Seixas
Centro da Montanha Xangô das Almas Manoel Rui
Heraldo B. Tenório
Centro Espírita Casa do Perdão Flávia Pinto
André Oliviera/Manuel Silva
Joyce Barros/Aline Barbosa de Araújo
Centro Espírita Unidos pela Fé José Carlos d’ Oxossi
CEUF Cláudia S. dos Santos
Leila A. P. Souza
Círculo Ogun Hórus Rá Maria Cristina Marques
Clube dos Ogãns Alexandre D'Iemanjá
Conselho Nacional de Umbanda do Brasil – CONUB Fernando de Souza Pinto
Antônio Carlos Mendonça Viana
Marizeli Marques
CRDR/SEJCON César Bastos
Choupana do Sr. 7 Montanhas – CS7m Fernando de Souza Pinto
Entidade Ambientalista Defensores da Terra / Lara Moutinho da Costa
Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – Rio de Janeiro
ICAPRA Marcelo Fritz
Ilé Axé D’Ogum-Já
Cantinho Espiritual Pai João das Almas Yango (Marcelo D’Obaluaê)
Ilé Axé D’Ogum e Yemanjá Sergio D’Ogum
Ilé de Oya Miriam da Oxum
Ilé Omi Oju Aro Mãe Beata de Yemanjá
INTERPAZ Katja Bastos
Graça Duarte
IRMAFRO Renato D’Obaluaê
Instituto de Estudos da Religião – ISER Samyra Crespo
Loja de Artigos de Umbanda/ Candomblé e Bazar Ashe d’Orissás
Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro – MIR André Porto
Maria das Graças de Oliveira Nascimento
Nº 20 Umpembe Kilongo Eduardo Legiberu
Núcleo de Educação Ambiental / Denise Alves
Parque Nacional da Tijuca – PNT Marcelo Antonio M. Prazeres
Andréa R. Lopes
Centro de Visitantes – PNT Ana Cristina P. Vieira
OICD – RJ Antônio Carlos M. Vianna
Viviane Japiassú Vianna
Prefeitura de Macaé – CORAFRO Sonia Maria Santos
FAFIMA – Macaé
Templo A Caminho da Paz Cantinho de Pai Cipriano Armando Fernandes
Templo D’ Xangô Aira Edém D’Xangô
Templo D’Oxosse Marcos de Oliveira
Altair Nascimento da Silva
Templo da Trybo Cósmica – Encantaria Cigana Katja Bastos
do Povo do Oriente
104 Templo Espiritualista D’Jagum Renato D’Obaluaê
Luiz Fernando da Silva
Templo do Vale do Sol e da Lua Ana Paula Falção
Comunicações do ISER

Templo Filhos de Oxalá Carlos Sampaio


Templo Oxossi Caçador Joelmir de Oxossi
Tenda Espírita Pai Joaquim das Almas e Caboclo Guiné Roberto Silva
Tenda Espírita São Jorge Marizeli Marques
Tenda Espírita Vovô André da Bahia Willian de Obaluaê
Tenda Verdade e Caridade Ogum Rompe Matto Roberto S. Silva
União Espiritista de Umbanda do Brasil Pedro Miranda
Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, CASS/SMAS Denise Quitéria, Isabela Lobato
Ricardo C. B. Jorge
Marly de Andrade
Paulo Sérgio B. G. do N.
Paulo Gentil
Ruth
Ordem Teosófica de Serviço – OTS Regina Medina
Hilda

3. O MIR no Conselho Consultivo medida em que todos estão dispostos a traba-


do PNT lhar pela proteção, preservação e conservação
da natureza, pois “o Orixá gosta da natureza
A outra linha de trabalho do MIR envolveu para se manifestar com plenitude. Quem ama
ações que levassem ao assento no Conselho o Orixá ama a natureza”.
Consultivo do Parque Nacional da Tijuca, ten-
do como principal motivação defender o direito Entre as competências legais do conselho
ao uso público religioso no referido parque. consultivo, destaca-se o “acompanhamento
da elaboração, implementação e revisão do
Tem sido longo o caminho, com avanços e re- Plano de Manejo da unidade de conservação,
cuos, já que envolve uma compreensão diferen- quando couber, garantindo o seu caráter par-
te dos ambientalistas de linha conservacionis- ticipativo”. Nesse plano estão definidas áreas
ta nas posições técnicas e de gestão do parque. e usos associados, normatizados e regulados
Para estes, os rituais/cerimônias relacionados num segundo momento.
às matrizes religiosas são altamente impactan-
tes à natureza e devem ser proibidos por não O processo de recomposição e fortalecimento
estarem previstos na Legislação Ambiental do do conselho consultivo do PNT com vista à
Sistema Nacional de Unidades de Conservação promoção da gestão participativa da unidade
(SNUC). Em contrapartida, a Constituição e de seus recursos hídricos foi coordenado pelo
Federal (artigo 5º) garante o direito de uso IBASE e integrava uma das linhas de ação do
dessas unidades por motivação religiosa. É Projeto Água em Unidade de Conservação,
nesse conflito de legislações que situações de patrocinado pela Petrobras. A finalidade do
confronto e desrespeito acontecem. projeto é a proteção e valoração dos recursos
hídricos do Parque Nacional da Tijuca, assim
O papel do MIR tem sido o de, sempre que como a conscientização quanto ao seu uso
chamado, intermediar grupos de interesses sustentável.
conflitantes, buscando, através do diálogo,
mostrar que é possível compatibilizar os inte- Para isso, todos os conselheiros participaram
resses de grupos ambientalistas e religiosos, na de oficinas de capacitação com o objetivo de
formalizar a nova composição do conselho Um conjunto de recomendações foi aprovado 105
consultivo do PNT; nivelar a formação dos na plenária de agosto de 2007 e, no momento,
seus membros no que se refere às informações planejam-se estratégias para implantação em

mir
básicas, mas imprescindíveis para o auxílio à área-piloto, provavelmente a do Parque Esta-
gestão do parque, em conformidade com o dual da Pedra Branca.
marco legal e institucional do governo federal;
e gerar espaço de convivência e diálogo para Assim, faz-se todo o esforço no sentido de
consolidar o entrosamento de ideias, pers- tornar as práticas e cerimônias religiosas eco-
pectivas e expectativas alinhadas à gestão da logicamente corretas, passo fundamental para
unidade de conservação. a construção de uma cultura de paz e respeito
à natureza, tendo como base o diálogo com
Vivencia-se no presente momento a implanta- todos os segmentos envolvidos (religiosos,
ção do conselho consultivo. ambientalistas, poder público, pesquisadores,
entre outros).
4. Definindo os parâmetros para
uma política pública ambiental no Apresentam-se a seguir recomendações resultan-
Estado do Rio de Janeiro tes do processo de construção da campanha que
foram aprovadas na plenária de 23 de agosto de
A partir de 2007 a Secretaria de Estado do Am- 2007 e que irão nortear os próximos passos.
biente do Rio de Janeiro deu os primeiros pas-
sos no sentido de que o uso público religioso As comunidades religiosas devem:
nas Unidades de Conservação do Estado fosse
considerado e respeitado, delineando assim os • Incorporar, nos ensinamentos dirigidos
pontos de contorno de uma política pública. aos filhos, seguidores e freqüentadores de
Foi um grande momento da Campanha Elos suas casas/terreiros/templos, a importân-
de Axé – Natureza Viva. cia do respeito, conservação e preservação
de todos os reinos da natureza, reconhe-
A experiência do Parque Nacional da Tijuca cendo-a como um altar sagrado;
tornou-se um referencial para a replicação nas • repensar as práticas religiosas, mini-
Unidades de Conservação do Estado do Rio de mizando todos os impactos decorrentes
Janeiro, buscando-se alternativas para que as dessas ações, principalmente quando
manifestações religiosas fossem realizadas de realizadas em ambientes naturais;
forma consciente e com mínimo impacto. • participar e/ou organizar mutirões de
limpeza nas áreas que frequentam para
Num primeiro momento, trabalhou-se com realização das oferendas, obrigações e
o Parque Estadual da Pedra Branca, o Par- despachos;
que Estadual Serra da Tiririca e a Área de • incentivar o(a) cidadão(ã) religioso(a) a
Proteção Ambiental Estadual da Serra do contribuir para a redução do lixo nas ruas,
Mendanha, que são consideradas, junto com praças, florestas, rios, lagoas, cachoeiras,
Parque Nacional da Tijuca, as montanhas entre outros locais;
sagradas situadas em área urbana na região • informar às suas comunidades sobre:
metropolitana do Rio de Janeiro. Nessas o a necessidade de conservação das áreas
montanhas há testemunhos de uso religioso protegidas, hoje muito impactadas devido
e cultural devido à existência de cemitérios de a diversas atividades (ocupações irregula-
nativos, quilombolas, ruínas, igrejas, templos res, balões, caça, turismo etc) e;
e à toponímia (nome de rios, cascatas, ca- o a importância da participação de
minhos associados aos pretos velhos, fadas, todos na defesa dessas áreas, contri-
entre outros). buindo com os saberes sagrados de suas
106 tradições em atividades educativas e Educação Ambiental em Salvador - Bahia. Sal-
culturais relacionadas ao tema. vador: Centro de Educação Ambiental São
Bartolomeu.
Comunicações do ISER

O Estado deve promover:


___________________. (1998), Educação Am-
• Campanhas de sensibilização dirigidas biental: publicação para professores. Rio de Janeiro:
ao povo do santo das Casas/ terreiros/ Parque Nacional da Tijuca, Ibama/CECIP.
templos de Umbanda e Candomblé;
• capacitação de agentes religiosos e __________________. (1998), O Parque é seu:
gestores das Unidades de Conservação Como conhecer, usar e cuidar do Parque Nacional
Estaduais, visando a um melhor atendi- da Tijuca. Rio de Janeiro: Parque Nacional da
mento nessas áreas de uso público e a Tijuca, Ibama/CECIP.
eliminação de conflitos através da prática
do diálogo; __________________. (2002), Saiba como e
• programa de educação ambiental para porquê conviver com a floresta numa boa. Rio de
as comunidades religiosas; Janeiro: Parque Nacional da Tijuca, Ibama/
• estudos que levem à definição de espaços CECIP
sagrados nos planos de manejo das Uni-
dades de Conservação com coleta regular __________________. (2005), Práticas Religiosas
de resíduos e gestão compartilhada com em Áreas Protegidas. Rio de Janeiro: Relatório
grupos religiosos; da Oficina de Planejamento, IBAMA, Parque
• o estabelecimento de áreas de cultivo Nacional da Tijuca.
de plantas sagradas e credenciamento de
zeladores para coleta das mesmas;
• medidas que levem à construção de ALVES, D. e VIEIRA, A. C. P. (2001), “A Flo-
aterros de lixo religioso como base para o resta Sagrada”, In: A. C. Pereira Vieira (org.).
tratamento de resíduos sólidos das oferen- Lazer e Cultura na Floresta da Tijuca., São Paulo:
das, obrigações e despachos decorrentes de Makron Books.
práticas religiosas;
• mecanismos institucionais através de ALVES, Denise. (1995), Sensopercepção em Ações
parcerias com a iniciativa privada, organi- de Educação Ambiental. Série Documental: Anteci-
zações não-governamentais, entre outras pações, nº 7. Brasília: MEC/INEP.
entidades, que possibilitem a formação de ALVES, Denise; GUIMARÃES, Mariza; PRA-
agentes religiosos guardiões da natureza, ZERES, Marcelo Antonio M.; VIEIRA, Ana
bem como patrocínio para o desenvolvi- Cristina. (1997), “Meio Ambiente e Espaços
mento de suas atividades. Sagrados”. Congresso Brasileiro de Unidades de
Conservação, v. 2.
5. A Produção do Conhecimento
CORRÊA, Aureanice de Mello. (2005), “Não
Uma das contribuições do Projeto Espaço acredito em deuses que não sabem dançar: A
Sagrado da Curva do S diz respeito à produ- festa do candomblé, território encarnador da
ção de conhecimento no período 1997—2007 cultura”. In: Z. Rosendahl e R. Lobato Corrêa
sobre o tema Religião e Ambiente, com foco (org.). Geografia: temas sobre cultura e espaço. Rio
na experiência do Parque Nacional da Tijuca. de Janeiro, EdUERJ.
Destacam-se os seguintes artigos:
CORRÊA, Aureanice de Mello. (2000), “Ritual,
__________________. (1997), Memorial Pirajá identidade, cultura e a organização espacial:
- Parque São Bartolomeu. Uma experiência de Sagrado e profano”. In: D. Silva (org.). Identida-
des étnicas e religião. Rio de Janeiro: EdUERJ. VIEIRA, Ana Cristina P, ALVES, Denise et alii. 107
(1997), “Meio Ambiente e Espaços Sagrados”.
COSTA, Lara Moutinho da & MOREIRA, Anais do Congresso Brasileiro de Unidades de Con-

mir
Aderbal Costa. (2005), “OKU ABO – Educação servação, v. 1, Curitiba.
Ambiental para Religiões Afro-brasileiras”.
Anais do IX Congresso Mundial de Tradição e VIEIRA, Ana Cristina P. (2002), Capítulo sobre
Cultura Iorubá. o Parque Nacional da Tijuca. In: A Floresta na me-
trópole. Rio de Janeiro: não publicado.
COSTA, Lara Moutinho da & MOREIRA,
Aderbal Costa. (2004), Decálogo das Oferendas. VIEIRA, Ana Cristina P. (2001), Lazer e Cultura
Rio de Janeiro: Comissão de Meio Ambiente da Floresta da Tijuca: História, arte, religião, fauna,
da ALERJ e Defensores da Terra. flora e literatura. São Paulo: Makron Books do
Brasil.
DIAS, Marisa Guimarães. (1999), Rio — nosso
patrimônio cultural. Rio de Janeiro: Apostila para VIEIRA, Ana Cristina P. (2002), A Voz da Histó-
o Curso Condutores de Visitantes no Maciço ria e o Patrimônio Integral. Rio de Janeiro.
da Tijuca, Secretaria Estadual de Trabalho,
UERJ, Agenda Social Rio e Parque Nacional VIEIRA, Ana Cristina P. (1997 - 2006), Inventá-
da Tijuca. rio dos Bens Culturais do Parque Nacional da Tijuca.
Rio de Janeiro.
DRUMMOND, José Augusto e Samyra Crespo.
(2000), “O Parque Nacional da Tijuca: contri-
buição para a gestão compartilhada de uma
unidade de conservação urbana”. Comunicações
do ISER, ano 19, n. 54.

LOUREIRO, Carlos Frederico Bernardo,


AZAZIEL, Marcus e FRANCA, Nayde. (2007),
Educação Ambiental e conselho em unidades de
conservação: Aspectos teóricos e metodológicos. Rio
de Janeiro: Ibase, Instituto Terrazul, Parque
Nacional da Tijuca.

MANDARINO, Adriana Sobral Barbosa.


(2005), Parecer Sobre Práticas Religiosas em áreas
Protegidas, Processo Nº 0201004964/2005. Brasí-
lia: Procuradoria Geral Especializada junto ao
IBAM, Advocacia Geral da União. .

NASCIMENTO, Maria das Graças O. (2007),


Projeto Religião e Meio Ambiente. Movimento Inter-
religioso/ISER: Um olhar sobre as experiências já
realizadas. Rio de Janeiro: Mimeo.

VIEIRA, Ana Cristina P. e ALVES, Denise.


(2006), Patrimônio Material e Imaterial. Rio de
Janeiro: Mimeo.
108
O MIR e a Defesa do  MIR, sempre me posicionando a favor
de atuarmos de modo a dar a maior visibili-
dos Direitos dade possível ao Movimento Inter-Religioso,
Comunicações do ISER

Humanos cuja proposta inovadora, séria e profunda é


algo bastante fora do contexto nesta nossa
Rosane Griggi
sociedade tão imediatista e superficial.

Conheci o MIR em agosto  de 2002, por oca- Em 2003, retomou-se a discussão sobre o


sião  da Assembleia Global da URI. Poderia ensino religioso confessional nas escolas
escrever laudas e laudas sobre o impacto que públicas do Rio de Janeiro, que já tivera uma
essa experiência única — ter vivenciado  o Sa- primeira fase em 2000/2001. O MIR, que
grado se manifestando no Profano em perfeita participara expressivamente naquela ocasião,
sintonia — causou em  mim, mas, advogada engajou-se outra vez de corpo e alma no pro-
por formação e sacerdotisa por opção, prefiro cesso. Não me estenderei sobre o assunto, por
ir direto ao ponto: naquele encontro  tive o já existir uma revista do ISER inteiramente
insight de que o  MIR seria o  canal  adequado  dedicada ao tema.
para unir prática espiritual  e engajamento
político em defesa da liberdade religiosa. Em abril de 2004, no Conselho Estadual dos
Direitos da Mulher (CEDIM), iniciaram-se as
A proposta do MIR de  praticar o  diálogo  reuniões preparatórias para a  II Conferência
entre as diferentes  tradições religiosas, enfa- Estadual de Direitos Humanos do Rio de
tizando  seus pontos de convergência  na visão  Janeiro, que se realizou  nas dependências
do  Sagrado — a unidade na diversidade —, mas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
respeitando  a especificidade de cada crença, (UERJ), nos dias 21 e 22 de maio de 2004, sob
sem qualquer forma de proselitismo ou juízo os auspícios da Secretaria Estadual dos Direi-
de valor,  está em perfeita consonância   com tos Humanos, e teve caráter deliberativo. Foi
o disposto  no Artigo 3º da Declaração sobre a nessa oportunidade que unimos forças com
Eliminação de Todas as Formas de Intolerân- os diversos segmentos que sofrem discrimi-
cia e Discriminação Fundadas na Religião ou nação social ou se encontram desamparados
nas Convicções, proclamada pela Assembleia pelo poder público. Muitas pessoas que fazem
Geral das Nações Unidas em 25 de novembro parte desses setores têm seus direitos de cida-
de 1981 — Resolução 36/55: dania negados por preconceitos fundamenta-
dos em uma visão distorcida do que deveria
“A discriminação entre os seres humanos por ser o verdadeiro sentimento religioso. 
motivos de religião ou de convicções consti-
tui uma ofensa à dignidade humana e uma O objetivo principal da II Conferência Estadu-
negação dos princípios da Carta das Nações al de Direitos Humanos foi debater o temário
Unidas, e deve ser condenada como uma vio- proposto para a IX Conferência Nacional
lação dos direitos humanos e das liberdades de Direitos Humanos e elaborar o Relatório
fundamentais proclamados na Declaração Estadual a ser apresentado em Brasília. Deci-
Universal de Direitos Humanos e enunciados diu-se adotar o  formato da divisão  em eixos
detalhadamente nos Pactos internacionais temáticos, desenvolvidos de modo a articular
de direitos humanos, e como um obstáculo e integrar os vários aspectos de uma política
para as relações amistosas e pacíficas entre de direitos humanos, de maneira a garantir a
as nações.” diversidade, as especificidades e a transversa-
lidade dos temas em pauta.  
Assim, em setembro de 2002, comecei a
frequentar as reuniões plenárias mensais Os eixos temáticos ficaram assim constituídos: 
1. DESCA (Direitos Econômicos, Sociais, Direitos Humanos, bem como no seu se- 109
Culturais e Ambientais); guimento, monitoramento e avaliação de
2. Segurança Alimentar; sua execução;

mir
3. Saúde; 4. criação, nas ações sociais, de bancos de
4. Criança e Adolescente; dados com indicadores sociais e econô-
5. Negros; micos  de seus praticantes, assim como a
6. Moradia, Terra e População de Rua; inclusão, nesses dados, dos recortes de gê-
7. Trabalho Escravo e Degradante; nero, etnia e diversidade religiosa, visando a
8. Diversidade Religiosa; apoiar a definição de políticas públicas para
9. Etnia Cigana; esses grupos.
10. Diversidade Sexual;  
11. Mulher; A IX Conferência Nacional de Direitos Hu-
12. Profissionais do Sexo; manos, convocada pelo Governo Federal,
13. Violência e Segurança Pública; aconteceu em Brasília, de 29 de junho a 2 de
14. Sistema Prisional; julho de 2004, e teve caráter deliberativo.  Seu
15. Terceira Idade. objetivo geral foi formular propostas para a
  construção do Sistema Nacional de Proteção
A II Conferência Estadual de Direitos Huma- dos Direitos Humanos (SNDH).
nos do Rio de Janeiro produziu, portanto,  
subsídios para a  elaboração de um Relatório Os objetivos específicos do Encontro foram:
Final, a partir da identificação dos problemas e
propostas referentes ao tema central e às ques- • Analisar a situação dos direitos humanos
tões regionais debatidas pelos participantes. no Brasil;
• identificar os desafios à implementação do
Ao MIR coube a relatoria do Eixo Temático n° Sistema Nacional de Direitos Humanos;
8 — Diversidade Religiosa —, que encaminhou  • definir o caráter, os princípios, a estrutura
várias propostas à IX Conferência Nacional, e a estratégia do SNDH;
dentre as quais destacamos:  • renovar o compromisso dos diversos
setores da sociedade com o Sistema;
1. Incentivar o diálogo entre os movimentos • propor prioridades de atuação para a
religiosos, ampliando o papel das religiões Secretaria Especial de Direitos Humanos
na construção de uma sociedade pluralista e da Presidência da República;
para a consolidação dos Direitos Humanos, • constituir um espaço para receber denún-
1 Ao garantir essa 1
Direitos Humanos das Mulheres e Plano cias de violações de direitos.
proposta os Direitos Hu-
manos das Mulheres, a Nacional de Segurança Pública, uma vez que
plenária demonstrou ter o exercício da religião é um constante buscar Ao final da IX Conferência Nacional de Direi-
consciência do quanto a
e proclamar o Direito à Vida, o Direito à tos Humanos, a plenária produziu e aprovou a
religião majoritária, em
nosso país, imiscui-se em Justiça e o Direito à Liberdade; Carta de Brasília, um documento que sintetizou
áreas que interessam di- 2. estimular a inter-religiosidade e a Unidade as diversas propostas apresentadas, discutidas
retamente às mulheres,
na Diversidade para todos; e aprovadas pelos cerca de 900 ativistas parti-
cujos direitos sexuais e re-
produtivos (principalmen- 3. criação de uma rede inter-religiosa en- cipantes do evento.
te das negras e pobres) são tre as várias tradições e segmentos religiosos
enormemente dificultados
para troca de experiências positivas na área Nova oportunidade de atuação para o MIR sur-
por sua ingerência desca-
bida em questões de saúde social, estimuladora de ações comuns em giu no início de setembro de 2004, quando
pública que, por força da conjunto com as metas sociais dos gover- a Secretaria de Estado de Direitos Humanos
lei, competem ao Estado
nos federal, estadual e municipal.  A rede (SEDH), através da Gerência do Plano Estadual
brasileiro — oficialmente
laico desde a Constituição também estaria engajada na divulgação e de Direitos Humanos – PEDH, convidou as
de 1891. implementação do Sistema Nacional de organizações da sociedade civil a participarem 
110 do processo de mobilização para ações de atu- pou de diversos seminários, congressos e outros
alização do PEDH. eventos ligados à sua área específica de atuação
no campo dos Direitos Humanos, dentre os
Comunicações do ISER

Na segunda reunião entre a Gerência do Plano quais destacamos o 1° Encontro Cultura da Paz
Estadual de Direitos Humanos e represen- e Direitos Humanos, no dia 17 de novembro, no
tantes da sociedade civil, realizada no dia 16 Hotel Glória, promovido pela Secretaria de Es-
de setembro de 2004, nas dependências do tado de Direitos Humanos, em parceria com a 
CEDIM, decidiu-se que, visando a agilizar e Arquidiocese  da  Cidade do Rio  de  Janeiro.      
efetivar a parceria  com a  Secretaria Estadual    
de Direitos Humanos,  seria criada  uma  se- O FOPEDH
cretaria executiva com nove representantes da
sociedade civil e um representante da SEDH.  O Fórum Permanente de Direitos Humanos
Foram eleitas as seguintes instituições: (FOPEDH) surgiu de um conjunto de organi-
  zações da sociedade civil que vinham se reunin-
1. Centro de Referência à Discriminação do regularmente desde 31 de agosto de 2004,
Religiosa – CRDR; ocasião em que se realizou uma Audiência
2. Centro de Referência contra a Violência Pública na Câmara dos Vereadores do Rio de
e Discriminação Homossexual – CERCON- Janeiro para tratar de assuntos pertinentes à
VIDH; área dos Direitos Humanos. Após várias ações
3. Conselho Estadual do Negro; afirmativas do coletivo, o Fórum se institucio-
4. Humanitas; nalizou em 18 de fevereiro de 2005, adotando
5.  Instituto Palmares de Direitos Humanos o nome FOPEDH e elaborando uma Carta
– IPDH; de Princípios, da qual  transcrevemos os dois
6. Movimento Inter-religioso – MIR; primeiros artigos:
7. Movimento Nacional de Direitos Huma-
nos – MNDH; 1. “O Fórum Permanente de Direitos Hu-
8. Movimento Pela Vida; manos – FOPEDH – é um espaço aberto
9. Pastoral Carcerária; de encontro para o aprofundamento da
10. Representante do Poder Executivo reflexão, o debate democrático de ideias,
Estadual. a formulação de propostas, a troca livre de
  experiências e a articulação para ações efi-
Ao longo de novembro e dezembro de 2004, cazes, de  organizações, de  movimentos da
ocorreram nove encontros regionais em  sociedade civil  e de  pessoas que  atuam na
municípios-pólo. O MIR esteve presente nos área de  Direitos Humanos e estão empenha-
municípios de Paraty, Campos dos Goitacazes dos na construção de uma sociedade mais 
e Itaperuna. Com isso, a discussão  sobre os justa, onde todos, sem exceção, tenham 
temas relativos  aos Direitos Humanos, inclu- seus direitos respeitados e  garantidos.”
sive os que se referem  ao  exercício da liberda-  
de de crença e culto religioso,  foi levada  aos 2. “O  Fórum Permanente de Direitos Hu-
municípios do  interior de nosso  estado, não  manos – FOPEDH – é um espaço plural,
ficando  restrita apenas aos setores tradicional- diversificado, não-confessional, não-go-
mente mais mobilizados da Capital. Para esses vernamental e apartidário, que reúne e 
encontros regionais, foram  convocados repre- articula de forma descentralizada, em rede,
sentantes de ONGs, de entidades comunitárias,  organizações,  movimentos e   pessoas en-
de Igrejas e templos diversos, de sindicatos, da gajadas em ações concretas pelos Direitos
OAB, de secretarias de educação, de prefeituras, Humanos, num processo  permanente de
de órgãos do Governo e demais instituições. busca e construção de alternativas, do
No segundo  semestre de 2004, o MIR partici- nível local ao internacional. Governantes
e parlamentares poderão ser convidados 111
a participar, enquanto pessoas, desde que
assumam os compromissos desta Carta de

mir
Princípios.”

Desde sua formalização, o FOPEDH vem se


reunindo regularmente toda primeira sexta-
feira do mês na sede do Conselho Regional de
Serviço Social (CRESS). As instituições abaixo
listadas, em ordem alfabética, dentre as quais
se encontra o MIR, são fundadoras do Fórum
e integram sua primeira coordenação, com
mandato (estabelecido por Regimento Interno
aprovado em plenária) até fevereiro de 2008.
 
• Casa do Perdão;
• CERCONVIDH – Centro de Referência
contra a Violência e Discriminação Ho-
mossexual;
• CRDR – Centro de Referência à Discrimi-
nação Religiosa;
• HUMANITAS – Cidadania e Direitos
Humanos;
• IPDH – Instituto Palmares de Direitos
Humanos;
• MIR – Movimento Inter-Religioso;
• Movimento pela Vida;
• Pastoral Carcerária do Estado do Rio
de Janeiro.
 
Dentre as instituições afiliadas ao FOPEDH
estão a AQUILERJ, a BEMFAM, o CONAMOR,
o CRESS, o Dom da Terra, o Fio da Alma,  a
Fundação Santa Sara, a Fundação Natureza,
o Movimento D’Ellas, o MNDH, o Ser Mulher
e o Viva Rio.

Ao longo de 2005 e 2006,  o FOPEDH  se


consolidou e promoveu seminários temáti-
cos, participou de atos públicos e campanhas
diversas  e  reuniu-se com autoridades.  Além
disso, recebeu e encaminhou várias denúncias 
de violações de direitos. Em dezembro de
2005, por seus relevantes serviços em prol dos
direitos humanos, o FOPEDH teve a honra
de ser agraciado com o Prêmio de Direitos
Humanos da Secretaria de Ação Social da
Prefeitura do Rio de Janeiro.
112
A Experiencia das Ajustando o sonho às reais possibilidades, a
comissão Executiva do MIR decidiu por reali-
Aldeias Sagradas zar a primeira Aldeia Sagrada no Parque Lúcio
Comunicações do ISER

Maria das Graças de Oliveira Nascimento Costa, integrado ao projeto arquitetônico do


Outeiro da Glória.
Convivendo juntos,
compartilhando o Sagrado, Assim, em Agosto de 2002 o MIR realizou
servindo ao mundo a 1ª Aldeia Sagrada, com a participação de
mais de mil pessoas por dia, em sua maioria
Em Junho de 1992, durante a ECO-92, o ISER
jovens e alunos de escolas públicas e parti-
– Instituto de Estudos da Religião organizou a
culares. O objetivo do evento foi exemplifi-
Vigí­lia Inter-Religiosa pela Terra, no Aterro do
car e comunicar as ideias dos movimentos
Flamengo. Ali acontecia o Fórum Global, com
inter-religiosos: a busca da paz, a vivência da
a participação de mais de mil ONGs. No total,
unidade na diversidade, as possibilidades do
vinte e cinco religiões e grupos espirituais e cerca
diálogo e da cooperação entre instituições e
de trinta mil pessoas participaram do evento.
pessoas de fé.
Personalidades como o Dalai Lama, Dom Hel-
der Câmara e Dom Luciano Mendes estiveram
O evento se repetiu em 2003, 2004 e 2006,
presentes. Naquela ocasião nascia o Movimento
tornando-se uma tradição do MIR-RJ.
Inter-Religioso do Rio de Janeiro - MIR.
Em 2007 e 2008 o MIR passou por uma série
Após o evento, as tradições envolvidas soli-
de revisões e transformações, não tendo as
citaram ao ISER a continuidade do processo
condições necessárias para realizar as aldeias
desencadeado após a Vigí­lia, promovendo
naqueles anos.
o diálogo e a cooperação entre instituições
religiosas e pessoas de fé que desejavam um
Como fruto desse período, o MIR redesenha
futuro melhor para nossa cidade, nosso país
sua trajetória, que culmina com o reconheci-
e para o mundo.
mento pelo Instituto de Estudos da Religião
– ISER de que suas atividades constituem um
Em 1999, o MIR participa do encontro promo-
projeto permanente da instituição, definindo
vido pela Iniciativa das Religiões Unidas – URI
como eixo prioritário de ação a retomada em
em Itatiaia, Rio de Janeiro, onde se se estabe-
do evento Aldeia Sagrada em 2009.
lecem as bases para o Diálogo Inter-Religioso
no Brasil. Desse momento em diante, o MIR
As Aldeias Sagradas têm como
passa a ser também um Núcleo de Cooperação
objetivos:
(CC) da URI.
• Exemplificar e comunicar os princípios e
Em 2002, realiza-se no Rio de Janeiro a As-
valores universais das tradições religiosas
sembleia Geral da URI, com representantes
através da convivência inter-religiosa.
internacionais dos Circulos de Cooperacao
• Contribuir para o fortalecimento da
Mundial, no Hotel Glória. A Comissão Exe-
sociedade civil através da articulação de
cutiva do MIR determinou que deveria haver
diferentes redes associadas às tradições
a participação de Tradições Religiosas do Rio
religiosas que integram o MIR, mos-
de Janeiro, surgindo então a ideia de realizar
trando as melhores práticas utilizadas
a Aldeia Sagrada. Na verdade, o sonho era
em prol da construção de uma cultura
replicar a experiência da ECO-92 no Aterro
de paz, com foco especial em  questões
do Flamengo.
associadas ao ensino religioso, meio
ambiente e direitos humanos.
• Incentivar o diálogo inter-religioso A Aldeia Sagrada 2005 113
como forma de contrapor o fanatismo e
o exclusivismo religioso. “Construindo uma Cultura de Paz” foi o tema

mir
da Aldeia Sagrada de 2005, mais uma vez
Os Temas das Aldeias Sagradas reunindo cerca de trinta diferentes tradições
espirituais no Parque Lúcio Costa, no bairro
A Aldeia Sagrada 2002 carioca da Glória. Desta vez as tradições foram
convidadas a apresentar atividades inter-reli-
Como parte da Assembleia Geral da URI, o giosas e específicas nas áreas social, educacio-
tema da primeira Aldeia foi “Compartilhar o nal e ecológica. O evento visava tanto a capa-
Sagrado, servir ao mundo”. O Parque Lucio citar quanto a dialogar sobre possibilidades de
Costa foi devidamente preparado para o ações conjuntas no Grande Rio. Totalmente
evento, sendo instaladas tendas onde cada abertas ao público, com enfoque temático na
tradição explicava seus fundamentos, mos- questão da paz, da violência do trânsito, da
trava seus símbolos, livros sagrados, músicas, violência urbana e do desarmamento.
entre outros. Realizou-se também o I Festival
de Música Sagrada, um lindo momento de
interação e integração de pessoas de diferen- A Aldeia Sagrada 2006
tes tradições.
O tema escolhido para este ano foi “Irradian-
A Aldeia Sagrada 2003 do Cultura de Paz”, reunindo durante três
dias, nas dependências do Viva Rio e platô
Sob o tema “Cidadania Espiritual no Século do Parque Lúcio Costa, diferentes tradições
21”, a Aldeia Sagrada reuniu durante três dias, espirituais, que foram convidadas a apresentar
no Parque Lúcio Costa, na Glória, cerca de trin- atividades inter-religiosas e específicas nas
ta diferentes tradições espirituais e instituições áreas social. As atividades, abertas ao público,
como ONU, UNESCO e Pastoral da Criança. tiveram enfoque temático na questão da paz
As tradições foram convidadas a apresentar como um contraponto a possíveis situações de
seus programas sociais, educacionais e ecoló- violência geradas pela intolerância e discrimi-
gicos ativos no grande Rio e a dialogar sobre nação religiosa.
possibilidades de ações conjuntas. Realizou-se
o II Festival de Música Sacra, sob a coordena-
ção de Michel Mujalli, do Budismo. Mais uma
vez a experiência de integração foi um marco
inesquecível.

A Aldeia Sagrada 2004

A terceira Aldeia Sagrada, realizada em se-


tembro de 2004, também no Parque Lucio
Costa, teve como tema “A espiritualidade
no cotidiano”. Neste ano as tradições foram
convidadas a apresentar trabalhos na área de
violência doméstica, saúde e da campanha do
desarmamento. Realizou-se o III Festival de
Música Sacra, que continuou sob a Coorde-
nação de Michel Mujalli.
114
Juventude e para atender a um mercado cada vez mais ex-
clusivista e agressivo que, em nome do lucro e
Espiritualidade do consumismo, condena milhares de pessoas
Comunicações do ISER

Flávio Soares à alienação e a mediocridade. E é nessa mesma


juventude, principalmente, que se manifesta
A contribuição do Movimento o potencial de mudança e se processam os
Inter-Religioso Jovem mecanismos que tornam possível a descoberta
de alternativas para esse novo caminho. Na
A humanidade passa por um momento deli-
medida em que o manancial de conhecimento
cado. Povos vivendo em conflito, gerações in-
compartilhado pela humanidade é defrontado
teiras nascidas em meio à miséria e à violência
pelas adversidades, manifestam-se os meca-
e educadas desde muito cedo a odiar. Cresce o
nismos que tornam possível a intervenção e a
sentimento de insegurança, a tolerança é posta
solução dos problemas.
frequentemente à prova e os direitos humanos
são ameaçados. Culturas são descaracterizadas
Neste sentido, nasceu o MIR Jovem. Da ne-
em nome de um desenvolvimento que cerceia
cessidade de oportunizar o diálogo e a coo-
qualquer possibilidade de reação e que põe em
peração entre jovens de diferentes religiões e
risco a sua própria sobrevivência. Encontrar
tradições espirituais, tendo em vista a expres-
uma alternativa para essa crise torna-se mais
siva presença desse público e do potencial da
que urgente.
sua contribuição para enriquecer, ampliar e
democratizar a discussão. A inciativa surgiu
Em artigo publicado no Jornal do Brasil inti-
durante as reuniões plenárias do MIR, quando
tulado Retirada sustentável, o teólogo e escritor
ainda na sede da Ladeira da Glória. A riqueza
Leonardo Boff apontou os efeitos do alarme
das experiências e a necessidade das ações
ecológico provocado pelo aquecimento global
tornavam a participação dos jovens necessária
e a necessidade da “criação de novos padrões
por três motivos fundamentais: 1) Pelo fato de
que nos permitam continuar juntos e vivos
que seria uma perda considerável não promo-
neste pequeno planeta” (BOFF, 2007). Citou
ver a participação do jovem diante de temas
um discurso do presidente da Bolívia, Evo
tão pertinentes; sem sombra de dúvida, essa
Morales que, segundo o autor, passou quase
convivência geraria bons frutos, permitindo
despercebido pela mídia, no qual defendia
aprofundar ainda mais o diálogo; 2) as visões
o “reencontro de nossas velhas raízes com
poderiam ser confrontadas com a realidade do
respeito à Mãe Terra”. Posicionamento, com-
próprio jovem, quem de fato seria incubido à
partilhado por alguns autores, que aponta a
continuidade do trabalho; e 3) pelo fato da
necessidade do retorno à condição natural do
sua ausência acarretar a necessiade de retomar
homem como alternativa para solucionar os
todo o caminho percorrido.
problemas que o aflige. Boff cita ainda Gor-
bachev, quando este chamava atenção para a
O início das atividades
necessidade da criação de um novo paradigma
civilizatório e de um novo consenso sobre nos-
O primeiro passo foi dado em 2002, por oca-
sos valores, sob o risco da Terra poder existir
sião da Assembleia Global da URI. Através
sem nós. E finaliza dizendo que “capitais,
dos representantes das tradições religiosas,
saberes e haveres serão participados por todos
foram enviados convites aos jovens, objetivan-
para poder salvar a todos”.
do organizar atividades para receber outros
jovens que estariam no Rio durante o evento.
Entre os mais afetados por esses problemas
O chamado foi atendido e em pouco tempo
está a juventude. Pressionada entre uma edu-
já contávamos com um grupo bastante enga-
cação deficiente e a necessidade de preparação
jado e bem disposto. Participavam jovens de
tradições como o Judaísmo, Brahma Kumaris, o primeiro passo para minimizar os conflitos 115
da Umbanda e Candomblé, Ordem Teosófica, que ocorrem, em grande parte, por falta de
Santo Daime, Hare Krishna, Gnana Mandiran, informação. Ficou evidente que a abordagem

mir
Igreja Católica. Recém-nascido, o batismo não do tema de maneira fenomenológica nas
poderia ter ocorrido em melhor momento, escolas poderia ser de grande utilidade, até
pois a Assembleia foi um exemplo de que, mais porque, ultrapassadas as sobre certo ou errado,
que a convivência pacífica e a cooperação, é a religião é uma via bastante interessante para
possível o trabalho conjunto das tradições compreender o comportamento e a cultura
para o bem de todos. dos povos. O que pode ser verificado na obra
de Catherine Clement, A Viagem de Theo, onde
Semeando a fraternidade um menino, acometido por uma doença grave,
é levado por sua tia em uma viagem através do
A exemplo do MIR no princípio de suas ati- universo das religiões. Mais do que desejar a
vidades, demos início a visitações a alguns compreensão desse universo, é importante que
templos com o objetivo de conhecer o trabalho sejam disponibilizadas informações, de manei-
desenvolvido por outras tradições e convidar ra que a pessoa tenha a liberdade de tirar suas
outros jovens para participar dessa cami- próprias conclusões, livre de dogmas.
nhada. Em pouco tempo, contávamos com
um grupo bastante plural e coeso, levando Somando experiências
o Movimento à continuidade. Nas reuniões,
compartilhamos experiências, planejamos Acredito ter sido um dos momentos mais
e definimos nossas ações. Dentre elas, cabe marcantes a ida ao Parlamento das Religiões
destacar a visita à Casa da Luz, instituição lo- do Mundo, ocorrido em 2004, em Barcelona.
calizada no município de Paracambi onde são Não apenas pela oportunidade de fazer parte
realizadas diversas atividades para crianças, de um evento daquela magnitude, mas pela
jovens e adultos. A instituição foi uma bela chance de compartilhar as experiências do gru-
iniciativa de jovens daquela cidade que, inspi- po com jovens de diversos países e de, juntos,
rados pelo sentimento de amor ao próximo, elaborarmos propostas para o futuro. É bem
desenvolvem um significativo trabalho. Neste verdade que a constatação de que os jovens
sentido, verificou-se um campo bastante posi- enfrentam problemas semelhantes não foi
tivo para levar a nossa mensagem para além do novidade. Porém, saber que tantas ações estão
campo religioso. Estaríamos partilhando não sendo realizadas é profundamente inspirador.
só os ensinamentos de nossas tradições, mas O momento também serviu para verificar as
contribuindo para jogar por terra as discrimi- dificuldades que tais iniciativas encontram,
nações e demonstrar que, mesmo diferentes, figurando em quase todos os discurssos a falta
nossas tradições caminhavam para o mesmo de apoio dos órgãos governamentais. Outro
lugar. O que para muita gente ainda é difícil fator destacado foi a ausência de jovens na
compreender. formulação de políticas públicas para o seg-
mento. E, quando o assunto é espiritualidade,
Fato importante a ser observado foi o inte- a lacuna é ainda mais evidente. Pelo menos no
resse dos jovens do projeto Luta Pela Paz, Brasil, para falar da nossa realidade, o tema
no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. A parece não estar sendo contemplado da forma
convite da coordenação, estivemos no local que deveria.
para uma palestra e o interesse da maioria era
exatamente tentar compreender as diferenças Um outro bom exemplo foi o Encontro Latino
entre as tradições, o porquê de seus ritos e de Americano e Caribenho da Juventude, reali-
tantos conflitos. Apesar das nossas limitações zado em maio de 2005, em Belo Horizonte,
de falar de tema tão delicado, o encontro foi promovido pelo Sistema ONU, Iniciativa de
116 Mulheres para a Paz Mundial (GPIW), Secreta- de que estamos ligados e de que somos res-
ria Nacional de Juventude, Instituto Cidadania ponsáveis uns pelos outros; de como nossas
e Prefeitura de Belo Horizonte. O evento fez ações, pensamentos e sentimentos podem
Comunicações do ISER

parte de um processo de mobilização inter- contribuir para enriquecer as relações e po-


nacional que contou com a realização de um sitivar a maneira com que lidamos com as
encontro pan-africano e outro pan-asiático, intempéries que nos apresenta a vida. Mas
que objetivaram integrar os jovens desses entendemos que também é preciso um esforço
continentes à mobilização pelos Objetivos de conjunto, o empenho de todos para superar
Desenvolvimento do Milênio (ODMs). os antagonismos e os sentimentos que nos
individualizam. É preciso compreender que o
Entre as discussões, que abrangeram vários sofrimento de um é o sofrimento de todos e
temas divididos por grupos de trabalho, a que, se em algum lugar do mundo uma vida
espiritualidade ficou de fora. Ao final do en- é ceifada pela violência, qualquer que seja sua
contro, na ocasião da elaboração do esboço origem, toda a humanidade perde.
da declaração, foi apresentado o documento
oficial criado a partir das propostas dos gru- E, após tantas revoluções que marcaram a
pos. Após a aprovação, em meio a ânimos trajetória da humanidade nesta terra, é che-
exaltados, um jovem levantou-se para falar da gado o momento de mais uma: a revolução da
questão da espiritualidade e foi sumariamente consciência. Que já se anuncia no horizonte,
repreendido pela maioria dos jovens. O que que não tarda ser consolidada e que marcará o
pode ser encarado como um fato preocupante, início de uma nova era, quando a humanidade
pois quando esse tema não é contemplado, retomará o caminho da sua natureza e dará
parcela importante da juventude é deixada de mais um passo em direção à evolução que a
fora. Sem falar que a questão é bem relevante todos alcançará, cedo ou tarde.
num universo que tem crescido cada dia mais
e quando parte desses jovens estão engajados Bibliografia citada
em algum tipo de ação social através das ins-
tituições religiosas. BOFF, Leonardo. (2007), “Retirada sus-
tentável”. Disponível na internet em
Outro fato importante que vem sinalizar a http://www.adital.com.br/site/noticia.
necessidade de maior atenção ao assunto foi o asp?lang=PT&cod=30566.
convite da Unesco ao grupo para a elaboração
de uma atividade direcionada aos jovens das
comunidades que compunham seus projetos à
época. Infelizmente não chegou a ser concreti-
zado, mas foi um indicador de que estávamos
no caminho certo; caminho que evidenciava
muitas dificuldades, é verdade, mas que, certa-
mente, proporcionaria muitas alegrias.

Desafios para uma nova consciência

Após essa experiência, foi possível notar que


o processo de espiritualização, independente
da forma e do caminho a ser seguido, inspira
o despertar e o fortalecimento de nossas vir-
tudes. Também nos permite sentir o mundo
de forma diferente e nos traz a compreensão
Abordagens analíticas
da conjuntura religiosa
brasileira 117

O MIR em perspectiva

mir
As muitas moradas: os dias, e a pensássemos vestida de paletó e
gravata, e como se fosse um grande banquete.
crenças e religiões Eu quis começar por essa quase parábola para

no Brasil de hoje sugerir, de saída, que na vida de todos nós


a experiência da religião é quase como essa
Carlos Rodrigues Brandão
pequena história de uma provável manhã de
segunda-feira, passada na cidade onde vive
“Mas basta uma vida Adélia Prado e que, não por um outro caso, se
para não se morrer jamais” chama: Divinópolis.
Emily Brontê
Todos os dias e na vida de sempre, a religião-
1. Crer, ser de, participar em-nós é uma teia de pequenas lembranças,
de alguns nomes dados ao deus ou aos deuses
Quando Carmen Cinira Macedo quis concluir em que cremos, aos seus santos e anjos, aos
um estudo sobre as religiões do Brasil, ela nossos mortos, a outras pessoas, a alguns
escolheu uma linda passagem de um livro lugares por onde passamos um dia, ou onde
de uma outra mulher: Adélia Prado. O livro vivemos agora, a alguns gestos que nos acos-
dessa poetisa de Minas Gerais chama-se Os tumamos a repetir, porque cremos na eficácia
componentes da banda e o período com que eu deles também, às nossas sombras e instantes
quero começar essas reflexões sobre os mundos de luzes, aos nossos sonhos, desesperos e senti-
da religião no Brasil é este: mentos. Algumas palavras que pronunciamos
para agradecer ou suplicar, para dar graças ou
“O que eu precisava chegou no cemitério aon- clamar em algum deserto dentro de nós, para
de fui rezar; mais por mim que pelos mortos. estabelecer proximidades e diferenças, para
Eu pedira um sinal, um anúncio de esperança, nos ajudar a saber um pouco mais a fundo
luz para a confusão do meu espírito. Julguei quem somos nós e quem é este misterioso
estar sozinha e rezava em voz alta: ‘Vem, ó “outro”, seja ele Jesus Cristo, o anjo Gabriel,
Pai dos pobres, doador das graças, luz dos Oxossi, Gandhi, Chico Mendes ou a mulher
corações’. A mulher bateu no meu ombro: do vizinho da esquina.
‘moça, esta novena é milagrosa?’ ‘É sim’, eu
disse. ‘Pode me arranjar? Estou em grandes Cheia de parábolas, para que os “sim-
dificuldades, preciso de uma novena milagrosa ples” saibam e creiam, a religião é ela mesma
assim’. ‘Olha, eu falei, só tenho esta, vamos uma parábola também. Uma longa história
fazer o seguinte: eu copio e a senhora pega de muitos casos em que cremos, sobre nós
comigo, ou eu a deixo na sua casa. Qual é o mesmos e os outros, que nós contamos a nós
seu nome?’ ‘Esperança’, ela disse”. próprios, infinitas vezes. Ela é isso e mais os
gestos e momentos de encontros e desencon-
Quase sempre vivemos a religião de uma ma- tros da vida de cada um de nós. É isso antes
neira, mas costumamos pensá-la de outra, não de ser uma “coisa” que se estuda e sobre a
raro muito diferente. É mais ou menos como se qual existem tantas teorias; antes de ser uma
a vivêssemos como a roupa e a comida de todos “instituição social”, uma “igreja”.
118 Viajemos por um momento ao Rio de Janeiro gião publicou da Aldeia Sagrada montada para
de julho de 1992. O que aconteceu lá em um uma semana no aterro do Flamengo merece
dia da ECO 92 pode ser a melhor porta para ser colocado aqui. Dificilmente haveria uma
Comunicações do ISER

entrarmos nessa casa de “muitas moradas” imagem melhor do que está acontecendo em
que, tal como no evangelho, é estranha, mas nosso universo religioso do Brasil de hoje,
também generosamente múltipla, para que muito embora ele nem de longe desenhe o
dentro dela — a religião — possa caber quem nome e a presença de todas as religiões, cre-
queira, cada um à sua maneira: do seu ponto dos e outros sistemas espirituais de sentido
de vista. Segundo a sua própria fé. de nossas cidades e do campo. Na verdade,
alguns de muita importância não aparecem,
“Com o olhar voltado para o céu e dançando como as Igrejas Pentecostais que nos esperam
ao ritmo de cânticos espirituais, uns 3000 fiéis mais adiante.
de 25 religiões e credos tão diversos como o
Catolicismo, o Hinduísmo, o Judaísmo e o Lado a lado, distribuídos entre barracas e
Candomblé, esperavam o amanhecer desta sex- tendas, ali estavam representantes do que
ta-feira como a chegada de ‘um novo dia para a costumamos chamar de “grandes religiões
Terra’”. Foi assim que a edição de Terra Viva, o universais” ou “religiões clássicas”: católicos,
jornal alternativo do Fórum Global celebrado protestantes, muçulmanos, judeus, budistas;
durante a ECO 92, anunciou, na manhã de de religiões com origem e simbologia orientais,
sábado, o que acabara de ser a “celebração há pouco tempo chegadas ao Brasil: Hare Krish-
inter-religiosa: um novo dia para a Terra”. na, Ananda Marga, Fé Bahá’í, Movimento Sathya
Sai Baba, Igreja Messiânica, Bhrama Kumaris;
Eram muitas as pessoas presentes e havia de religiões indígenas de povos do Brasil e
gente de vários credos e religiões. Mas não religiões de origem ou derivação afrobrasilei-
todos. E as razões pelas quais muitos grupos ra, assim como religiões criadas aqui mesmo:
religiosos recusaram o convite para participar Kaiowá (Guarani), Espiritismo Kardecista, San-
desse banquete de ritos e preces destinados, to Daime, Candomblé, Umbanda e Ciranda
segundo os líderes religiosos presentes, a “mu- da Luz. E muito mais haveria, se mais espaço
dar o curso materialista da sociedade a que se e disposição de partilha houvesse.
atribui o caos ambiental, e lutar pela causa
de um renascer espiritual que torne o nosso Pois esse pequeno microcosmo religioso,
planeta um lugar habitável”, devem ser tão reunido por uma semana no Rio de Janeiro,
esclarecedoras quanto o pensar sobre por que, bem poderia ser uma metáfora de um outro
de algum tempo para cá, cada vez mais pessoas maior. Nele estão convivendo, compartilhan-
e grupos de religiões tão diferentes dispõem- do, competindo, consagrando, cada um a seu
se a partilhar de cerimônias como aquela, em modo, uma mesma ou diferentes culturas, de
nome de alguma coisa em que todos ali creem uma mesma ou de mais de uma sociedade, to-
e que os une espiritualmente. Pelo menos isso das essas religiões e também muitas outras.
foi o que disseram vários dos participantes da Algumas poderão ser religiões isoladas, únicas
cerimônia, relatados assim na mesma notícia em seu tipo; outras serão confissões vizinhas,
de jornal. “As autoridades religiosas fizeram filhas de um mesmo tronco comum, como as
alternar (depoimentos) de pastores protestan- do Cristianismo, como as “afro-brasileiras”.
tes, rabinos judeus, teólogos islâmicos, mamos Algumas serão religiões muito antigas, de uma
indígenas guaranis, sacerdotes do bramanismo longínqua história, como o Judaísmo, e os seus
hindu e do budismo japonês, espíritas, irmãos seguidores poderão ser agora apenas uma co-
do Santo Daime amazônico”. munidade restrita de pessoas que também se
identificam por uma mesma origem étnica e
O croquis que o Instituto de Estudos da Reli- cultural (como o ser guarani, armênio ou ucra-
niano no Brasil). Outras poderão ser formas vivida por quase todos, ou é imposta a to- 119
religiosas emergentes, de um surgimento não dos, pelo menos como aquela que pode ter
muito antigo no Brasil, como a Congregação uma existência pública e visivelmente ativa.

mir
Cristã no Brasil, o Espiritismo Kardecista ou Em toda a América Latina não é isso o que
o Santo Daime. vemos acontecer. De maneiras muito dife-
rentes e com ritmos desiguais, o que vemos
Essa simples lembrança ajuda a compreender é uma espécie de efervescência religiosa por
uma dimensão muito importante do “mundo toda parte. Em primeiro lugar, ali, onde no
religioso” aqui no Brasil. Não se trata dele passado muitos anunciavam o “fim das reli-
ser hoje muito variado, muito abrangente e, giões” e o advento de tempos marcados por
às vezes, até mesmo confuso, em sua imensa crenças fundadas apenas em conhecimentos
variedade de crenças, religiões e de Igrejas. científicos e suas doutrinas e ideologias, eis
Ele é também muito dinâmico. Dentro e que nos reencontramos com um intenso
fora dos espaços da vida social de uma única “reavivamento” espiritual e religioso. Não
religião, como o Catolicismo, no intervalo somos testemunhas sequer de uma situação
entre religiões muito próximas, como as do em que o “povo” das florestas, do campo e
Cristianismo, ou no campo de encontro entre das cidades tenha “ficado com a religião”,
todas elas, a religião em nossos dias parece enquanto as pessoas e os grupos sociais
acompanhar uma tendência geral de quase mais “eruditos”, mais “estudados”, tenham
todas as outras dimensões da cultura (como optado por explicações da vida e do sentido
as artes, as ciências, as ideologias, as opções do mundo mais científicos. Ao contrário,
políticas, as escolhas profissionais, os estilos o que vemos à nossa frente é que pessoas
de vida, as maneiras de ser, enfim). Ela se torna de todas as camadas sociais e de todos os
múltipla e dinâmica; transformando-se em “níveis” culturais têm para com a religião
um lugar de crenças, de práticas, de cultos e disposições muito semelhantes, ainda que
de vida comunitária aberto ao acontecimento, possam vivê-la de maneiras diferentes. Tal
à permanente possibilidade da mudança, do como no Aterro do Flamengo, também no
surgimento do novo, do enfrentamento entre cotidiano de nossas cidades a religião e as
sistemas, entre modos pessoais e coletivos de religiões abrem-se a lavradores e professores,
se crer e viver a crença religiosa. Não é preciso a pedreiros e cientistas, a mulheres do povo
muito esforço para aceitarmos a evidência de nas periferias e às “da elite”, nos “bairros
que houve e segue havendo mais movimento dos ricos”.
e mudança na e à volta da religião, nestes últi-
mos 50 anos, do que em todos os quase 450 2. Religiões, espiritualidades,
anos de nossa história posterior à chegada dos sistemas de sentido
colonizadores europeus.
Mas há mais ainda. Os noticiários sobre a ma-
Alguns estudiosos do assunto costumam nifestação pan-ecumênica durante a ECO 92
lembrar que isso aconteceu porque no mun- falam de “religiões”. Ora, se algumas pessoas
do moderno — mesmo que ele seja ainda presentes fossem perguntadas sobre “o que
um “terceiro mundo” –— nós estamos pas- você é?” ou “qual é a sua religião?”, elas po-
sando, também no campo religioso, de uma deriam ter uma certa dificuldade em dar uma
situação de hegemonia para uma situação resposta única, uma resposta direta. Talvez
de “mercado religioso”. Apenas as socie- não pudessem responder em três palavras,
dades mais fechadas e ainda muito pouco como quando tantas vezes alguém diz: “eu sou
culturalmente diferenciadas, ou apenas as católico!”. Isso porque, hoje em dia muito mais
nações onde um poder de Estado também do que no passado, há entre nós um número
é um poder religioso, uma única religião é crescente de pessoas que, em vez de viverem
120 uma única religião de um mesmo modo de e do mundo, ou a uma ideologia entre
vida tradicional toda a vida, seguem um destes muitas, vivendo isso também como um
caminhos de opção e vivência: tipo de crença de orientação da vida e
Comunicações do ISER

de um modo peculiar de espiritualidade.


1º. Convertem-se de uma religião à outra, Seguidores convictos da hipótese gaia,
tendo, portanto, uma religião de origem e da ecologia profunda (que acusam jus-
uma outra de opção (isto é muito marca- tamente os outros ambientalistas de não
do nas recentes conversões de pessoas e haverem desenvolvido um sentido espiritual
famílias do catolicismo a alguma confissão e ético da questão ecológica, orientado-se
pentecostal). por ideias, preceitos e ações meramente
“políticos e científicos”) ou do “Tao da
2º. Deixam-se estar sempre, ou por um física”, podem ser bons exemplos de pes-
longo tempo de suas vidas, em uma espécie soas que, não confessando uma religião e
de “busca religiosa”, migrando de uma reli- nem vivenciando uma espiritualidade de
gião para outra, constituindo-se em quase origem e de “fundo” religiosos, vivem, no
“errantes da fé”. entanto, outras opções de sentido da vida,
de interpretação do mundo e de orientação
3º. Possuem e afirmam uma “religião da experiência de ser, com base em outras
confessada”, mas reservam-se o direito de espiritualidades.
acatar outras ou momentos de outras reli-
giões em suas vidas, seja como uma parte Convivemos com um mundo assim. Todos
importante de suas crenças, seja em busca os dias, à nossa volta e mais ainda nas gran-
de um tipo de ajuda que pareça ser mais des cidades, a todo momento cruzamos com
visível em uma outra confissão do que na pessoas e grupos que tomaram algum desses
“minha própria”. caminhos. Caminhos sempre abertos à expe-
riência das escolhas humanas de maneiras
4º. Criam sistemas próprios de adesão à muito variadas, em todos os tempos da histó-
fé e à crença religiosa, mesclando por sua ria e das sociedades, onde isso “se deu” e “se
conta elementos de várias ou pelo menos dá” ainda mais em nossos dias, de maneiras
de algumas religiões, e constituindo o que muito diversas.
muitas vezes é traduzido como “eu tenho
a minha própria religião”. O que importa, no entanto, é que aqui, na
América Latina e no Brasil de agora, chegamos
5º. Preferem crer no valor e no sentido da a um momento provavelmente irreversível
religião em si e de modo geral, abstendo- de muitas portas abertas e muitos caminhos
se de acreditar e aderir a uma religião, e de vida e de crenças a escolher. Isso em nada
aderindo mais a uma espiritualidade do que enfraquece a presença da religião em nosso
a uma religião (quantas vezes: “eu sou espi- mundo. Ao contrário, algumas linhas atrás eu
ritualista”, “eu tenho a minha própria espi- lembrava que vivemos agora, por toda parte,
ritualidade e as minhas crenças no sentido dentro e fora do Brasil e da América Latina,
da vida, sem precisar ser de uma religião”, um tempo de redescoberta da religião e do
ou ainda, “eu sou panteísta”, “eu creio em valor da espiritualidade na vida. Mas isso
uma espiritualidade mais oriental”, “eu sou ocorre à condição de que todo esse fascinante
vegetariano e sigo as ideias de Gandhi”, são e complexo campo da religião e da espiritua-
frases que traduzem essas opções de uma lidade esteja, como tantos outros, aberto ao
maneira muito clara) diálogo, à emergência do novo, ao movimento
e à transformação.
6º. Aderem a uma visão científica da vida Isso basta para começarmos a suspeita de
que hoje em dia, a menos que queiramos ser adesão a um partido como o PT; d) ser uma 121
cegos ao que acontece à nossa volta, o pensar a pessoa de uma adesão pessoal ao Catolicismo,
religião em nosso mundo nos obriga a pensar mas sem se obrigar a uma confissão ativa de

mir
através da religião e ousar pensar para além da sua fé religiosa e nem, por consequência, a
religião. Ousar pensar, por exemplo, que o uma prática católica cotidiana (“eu vivo minha
próprio “campo religioso” de nosso tempo só religião à minha maneira e não preciso de Igre-
pode ser compreendido de dentro para fora em ja”); e) ser uma pessoa de uma espiritualidade
termos de um “mundo de sistemas de sentido” cristã, tomando os fundamentos evangélicos
que nos envolve a todos, todos os dias; que como os valores de orientação do seu sentido
estão aí na nossa vida cotidiana, que costuram de vida e de sua conduta social, mas sem uma
e dão forma ao tecido múltiplo daquilo que adesão individual a uma religião ou Igreja do
chamamos a “nossa cultura”. Quando eu tra- cristianismo; f) ser uma pessoa “de origem e
go aqui a expressão sistema de sentido, é porque tradição católica”, mas hoje em busca de um
me parece necessário encontrar uma palavra sistema próprio de crença, encontrado, por
que possa traduzir a existência múltipla e exemplo, na combinação pessoal de “minhas
combinada de modos de pensar nos dias de crenças cristãs”, “minha adesão social à Teo-
hoje, de sentir, de conceber sentidos, de crer, logia da Libertação” e “meu desejo de crer na
de orientar o fio da vida, de criar comunidades reencarnação, como os espíritas e outros”.
de sentido e de sentimento que são religião, que
têm bases na religião, que atravessam e recortam Tudo isso pode parecer um pouco confuso,
religiões, mas que são também espiritualidades, pode até mesmo parecer um tanto irreal.
conhecimento, credos e ideários de vida, não Afinal, estamos acostumados com leituras
religiosamente confessionais. sobre a religião no Brasil e no mundo que
nos oferecem “quadros” mais uniformes, mais
E eles não estão apenas aí, “na vida social”, arrumados. Quando lemos livros apenas da ou
objetivamente “fora de nós”. Eles estão em sobre a nossa própria religião, pode até mesmo
nós e em boa medida tendem a ser, em suas parecer que apenas ela existe, ou que somente
combinações possíveis (em nossos diálogos ela conta de verdade. Isso pode ser verdadeiro
com nós mesmos em busca de sentidos e senti- para nós e, muitas vezes, isso é mesmo um dos
mentos para nossa própria vida), cada vez mais elementos de uma crença religiosa. Mas em
a maneira como é possível crer e experimen- nosso mundo de hoje esse cenário de movi-
tar a religião hoje. Tudo isso em um mundo mento, de surgimentos do novo, de aparentes
onde, social e pessoalmente, você pode: a) ser conflitos e confusões, faz parte da própria
um católico fervoroso e radical, e não aceitar realidade cultural de nosso dia-a-dia.
nem qualquer outra crença e nem uma atitude
de diálogo com qualquer outra religião (algo Se de um lado esse universo religioso multi-
comum no que costumamos chamar de “secta- forme e dinâmico parece estar quebrando uma
rismo”, de “integrismo”, de “fanatismo”); b) ser certa saudosa ordem “dos tempos passados”,
um católico fervoroso, pessoalmente uno em de outro lado ele deixa antever situações e
sua crença religiosa, mas aberto a um diálogo acontecimentos que têm muito a ver com a
com outras crenças, com outras religiões; c) própria maneira como é possível pensar, viver
ser um católico praticante, vivendo a sua fé e escolher em nossos dias. Dentre as caracte-
mesclada com outros sistemas de sentido e rísticas de “nosso tempo”, no que afeta à vida
de orientação espiritual, cultural ou política religiosa e suas consequências, existem pelo
da vida, que não lhe pareçam incompatíveis menos três que eu quero recordar aqui. Nem
com sua experiência religiosa, como o ser sempre elas são ditas claramente em conversas
vegetariano, adepto da ecologia profunda, e ou escritos sobre a experiência religiosa hoje.
um militante socialista, nos termos de uma Ou, outras vezes, sobretudo nos escritos de
122 teologia, ética ou pastoral, elas são enfatizadas opção de um sujeito consciente, como uma
separadamente. Ao querer reuni-las aqui e falar vocação de um ser amoroso, em que a adesão
sobre elas em um documento que não é de a Deus em uma fé convida a repartir o amor
Comunicações do ISER

teologia ou pastoral, mas de uma antropologia e a esperança.


da religião no mundo de hoje, “à nossa volta”,
quero justamente acentuar o modo como elas Nisso também algumas ideias apresentadas
se interligam e como elas desdobram outras antes fazem um sentido pessoal muito grande.
conseqüências não menos importantes. Em primeiro lugar, a questão da religião como
busca. Cada um de nós hoje em dia é e sente-se
Do dever de religião ao direito à religião sendo um “buscador”, dentro e fora de nossa
própria crença. Pois “ter fé”, “assumir uma
Como em outros setores de nossas vidas e de crença” e “ser de uma comunidade religiosa”
nossas relações com os outros, com grupos não nos parece mais como algo estabelecido
e instituições sociais (como a família, a vizi- em que a pessoa afinal “se estabelece”, mas
nhança, a CPT, uma CEB, a Igreja católica, a muito mais como um caminho. Como algo
universidade, o partido político, o congresso que uma vez entrevisto e encontrado convo-
nacional, a TV Globo), também pouco a pouco ca a seguir em frente, a caminhar, a não se
a religião vai deixando de ser algo que deve- deixar imóvel no que se é (pois a imobilidade
mos socialmente a outros (nossos pais, nossa é estéril e mata), mas a solidariedade “incon-
família, nossa tradição familiar, nossa pátria forma-se” em busca de sentidos sempre mais
etc.) e passa a ser um direito nosso. Como algo pessoalmente verdadeiros de si mesmo e da
que passa de um dever a um direito, daquilo comunhão com Deus, o mundo e o outro, o
que devemos àquilo que nos é devido. Claro, que é, no fim das contas, a própria essência de
a não ser em culturas muito uniformemente uma religião assumida como fé.
fechadas ou em contextos muito autoritários,
isso sempre foi assim e a história universal Em segundo lugar, o princípio de um direito
das conversões religiosas e também das “des- pessoal, mas quase sempre inevitavelmente
conversões” está aí para demonstrá-lo. Mas compartilhado com os outros, à experiência
agora temos uma consciência disso, ao mesmo da religião como construção de iniciativa e de
tempo mais assumidamente mais individual, criatividade individual. Isso não quer sugerir
e mais coletivamente compartilhada. Não se nenhum modelo de individualismo egoísta do
trata apenas de uma mera questão de liberdade tipo: “eu tenho a minha fé e pouco importa a
religiosa, de autonomia de escolha. Trata-se dos outros”. Ao contrário, o que sugiro é que em
da convicção de que “a minha religião” é uma cada um de nós reside o direito e, ao mesmo tem-
questão de minha escolha, assim como, de um po, a consciência responsável de nos sentirmos
ponto de vista teológico (pelo menos de uma criadores de sentido, dos termos e da prática da
boa teologia), ela é uma relação entre a graça nossa própria fé, de nossas crenças e de tudo o
divina e a minha liberdade. Se eu “devo” a mi- que deriva delas. Tal como no direito à liberdade
nha vida de fé a outros, isso não me representa de escolha, há hoje em dia uma abertura à ideia
uma obrigação atribuída por eles a mim como de que somos nós, pessoas “de fé em comuni-
um dever “de fora pra dentro”, mas sim um dades de vida religiosa”, aqueles a quem é dado
compromisso assumido por mim “de dentro criar, com as próprias vidas, o nosso modo de
pra fora”. Isso ajuda muito a compreender “ser uma fé” e “viver uma religião”.
um sentido verdadeiro da ideia de comunidade
de fé. Não mais a instituição eclesiástica a que Da religião conveniente à fé consciente
eu pertenço por origem ou imposição, mas a
comunidade eclesial à qual escolhi pertencer, Sei que não é fácil estabelecer aqui uma sutil
como um direito da pessoa livre, como uma oposição entre duas coisas que estão nos acom-
panhando o tempo todo nestas últimas pági- cerimônia do Aterro do Flamengo pode ser 123
nas, mas que precisam ser postas uma frente à lembrado. Ela é uma boa metáfora de um
outra para se tornarem compreensíveis. ecumenismo cuja ideia central é a de que a

mir
“verdade de Deus” pode ter muitos rostos e
Elas são: dever X responsabilidade. falar de muitos modos, segundo o lugar social
de cada cultura onde se manifesta. Disso de-
Eu disse antes, mais de uma vez, que um dos corre a generosa ideia de que podemos todos,
fatos mais importantes de nossos dias é esta cada um a seu modo, partilhar de uma mesma
passagem da religião de ser algo que devemos experiência pessoal e comunitária de fé sob
a outros, por obrigação imposta ou por “tradi- a forma de inúmeras crenças, culturalmente
ção de”, a algo que nos é devido e que vivemos construídas como diversas religiões, social-
como um direito. Vários autores irão associar mente realizadas como diferentes Igrejas ou
isso, vivido também em muitos outros seto- outras instituições religiosas. Mas, atenção,
res da vida social, a um individualismo que um novo sentido de diálogo tem pouco a
caracterizaria fortemente os tempos de nossa ver com outros, anteriores. Ele não significa
pós-modernidade. Tudo bem. Mas não nos uma atitude disfarçadamente prepotente em
devemos esquecer que uma ideia consciente que eu, “do alto da minha verdade”, ouço os
e solidária de escolha religiosa (que religião absurdos do outro, a quem devo adiante con-
assumir, que “linha” de vida religiosa dentro vencer e, se possível, converter. Não se trata
dela escolher e como vivê-la) substitui o de- de uma tolerância para/ com outra crença
ver atribuído por outros a nós, não por um cuja diferença para/ com a minha eu aceito
individualismo, cujo centro da fé é um “eu” como a diversidade entre o meu valor e seu
absoluto, mas por uma corresponsabilidade menos-valor. Trata-se de fundar o diálogo no
assumida, cujo centro da experiência de fé é a intervalo da partilha das diferenças. Trata-se
partilha de um eu amoroso com o de outros. de pensar cada tipo de fé, cada modo de crença,
Se hoje a religião é escolha livre, a liberdade da cada experiência de religião, como uma forma
opção se realiza na partilha da fé. peculiar e plena em si mesma de uma cultura,
ou dentro de uma cultura.
Da solidão religiosa ao diálogo entre
crenças Situações que vão se tornando cada vez mais
comuns entre nós são um bom espelho de um
Alguns dos grupos religiosos que mais têm mundo múltiplo do ponto de vista de sistemas
crescido no Brasil e em quase toda a América de sentido, de espiritualidades e de religiões,
Latina, nos nossos tempos, são muito pouco onde a evidência e a consciência das diferenças
abertos a qualquer tipo de comunicação com não impedem, mas, ao contrário, convidam a
outros, mesmo quando “vizinhos de crença”. convivências, a testemunhos plurirreligiosos,
Eles partem de um princípio antigo, que por multi-ideológicos e espirituais. Ali onde o que
muito tempo orientou escolhas e formações importa é uma espécie de horizonte comum,
religiosas. O de que uma comunidade única uma “bandeira de todos” em nome do que o
de fiéis escolhidos deve afastar-se do mundo próprio diálogo com o meu diferente torna-se
e centrar-se unicamente em si mesma. Pe- uma partilha em algo que nos unifica, no que
quena fração de “salvos”, de “eleitos” a quem de fato tem sentido, para ele e para mim.
contamina e ameaça o diálogo com outros:
suas vidas, suas ideias, seu modo de ser. Essa Nesse diálogo entre diferentes não identifi-
tendência sectária, dentro e fora do cristianis- cados como desiguais, através dos meus atos,
mo, rema contra a corrente da maneira como das minhas ideias, de meus símbolos e sen-
em quase todas as culturas a vida religiosa é timentos, eu vivo e apresento (no sentido de
realizada hoje. Mais uma vez o exemplo da tornar presente ao outro) a minha fé, sem a
124 necessidade de demonstrar a minha crença, culturas religiosas, onde elas existem e se
sem, menos ainda, impor a minha religião. multiplicam?
Não será isso, hoje, o próprio sentido cristão
Comunicações do ISER

de testemunho? Para começarmos a compreender primeiro a


estrutura e, depois, a dinâmica do campo re-
3. O mundo das religiões no ligioso no Brasil, proponho que imaginemos
Brasil de hoje um espaço em branco como esta folha deitada.
Coloquemos no extremo, à esquerda, as religi-
Mas, afinal, de quem estamos falando? Do ões dos primeiros povoadores de nossas terras,
quê? os povos e as nações indígenas. Aprendemos
na escola que as muitas tribos indígenas,
Ao desenhar com palavras e muitos exemplos ao tempo da chegada dos europeus, tinham
o esboço do mundo religioso do Brasil em uma vaga espécie única de religião, com um
nossos dias, de repente pareceu-me muito misterioso deus supremo: Tupã. Nada mais
sugestivo começar por uma lista simples e falso. Isso seria o mesmo que alguém chegar
nada completa de nomes de livros e artigos ao Brasil de hoje e escrever aos seus que aqui
sobre religiões em nosso país. Escolhi ao acaso existe uma única religião, praticada por todos
e vários deles são trabalhos de antropólogos e da mesma maneira.
sociólogos meus amigos. Vejamos:
O Brasil tem hoje em dia um número muito
Os errantes do novo século; Milagre em Juazeiro; A pequeno de indígenas, face ao que já teve antes.
comunidade eclética espiritualista universal; O vale Eles não são mais do que algo entre cento e
do Amanhecer; A marginália sagrada; O carnaval setenta e duzentos mil. Mas, ao contrário do
devoto; Os cavaleiros do Bom Jesus; A morte branca que muitos imaginam, esses remanescentes de
do feiticeiro negro; Vovô nagô, Papai branco; O mun- quase cinco séculos de genocídio e agressões
do invisível; Os deuses do povo; Os deuses canibais; distribuem-se em diferentes etnias, em algu-
A terra sem males; Rezadores, pajés e puçangas; mas nações indígenas, em várias tribos com
Religioso por natureza; A obra e a mensagem; A culturas próprias e sistemas religiosos peculia-
experiência da salvação; Dentro de um ponto ris- res, alguns deles de uma rara complexidade.
cado; O refúgio das massas; Fazendo estilo, criando
gênero; Guerra dos Orixás; Os escolhidos de Deus; Mesmo depois de muitos anos de trabalho
Comunidade eclesial, comunidade política; Tempo catequético e conversionista, católico e pro-
de gênesis; Religião e dominação de classe; Os santos testante, muitas culturas tribais preservam
nômades e o Deus estabelecido. ainda as suas religiões, mesmo nos casos em
que vários de seus membros já se converteram
Poderiam ser muitos outros, mas por enquan- a alguma religião cristã. Algumas dessas religi-
to essa lista nos serve. ões possuem um profundo sentido profético,
como no caso dos Guarani. Na história recente
Temos aí uma intrigante série de nomes de do Brasil houve mesmo alguns surtos indíge-
estudos sobre religiões indígenas, religiões nas de tipo messiânico.
de origem afro-brasileira, sobre espiritismo,
as várias confissões evangélicas, o Catolicis- Coloquemos no extremo oposto outras reli-
mo, movimentos messiânicos e novas religi- giões de grupos étnicos e/ou culturais mino-
ões que dificilmente poderiam se enquadrar ritários. Mas, ao contrário dos nossos povos
em qualquer uma das outras já existentes. indígenas, esses grupos e suas religiões vieram
Mas entre nós há muito mais nomes, reli- da Europa e também da Ásia. Pensemos nos
giões e confissões derivadas. Como seria judeus e sua religião, nos diversos migrantes
possível compreender o mundo de nossas muçulmanos, árabes ou não. Lembremos o
cristianismo ortodoxo de alguns dos nossos para torná-los escravos no Brasil. Essas pessoas 125
europeus do leste e não esqueçamos o Budis- trouxeram formas simples ou já mescladas
mo, o Xintoísmo e o Confucionismo de nossos de cultos religiosos que, mesmo perseguidas

mir
japoneses e de outros povos vindos há muito até poucos anos atrás, espalham-se por todo
tempo, ou em anos recentes, da Ásia, como os o território do país, mesclam-se de muitos
coreanos. Urbanas, em sua imensa maioria, modos com outras culturas e difundem-se
essas religiões, que são majoritárias em alguns para além dos negros e das classes populares.
países de origem, têm em comum com as dos O exemplo mais conhecido é o do Candomblé,
povos indígenas, aqui no Brasil, o fato de que mas existem outras, como a Casa de Minas, do
quase sempre estão restritas ao âmbito de Maranhão, o Xangô e, como uma derivação
suas comunidades étnicas e culturais. Existem posterior, criada mais ou menos a partir dos
entre nós alguns budistas não-orientais e nem anos 1920, a Umbanda.
descendentes, mas eles serão ainda muito
poucos, e dificilmente alguém sem um inten- O que existe em comum entre todas elas?
so vínculo familiar e cultural com os judeus Talvez o princípio da comunicação entre
se converterá ao judaísmo. O mesmo pode deuses e homens e entre vivos e mortos através
ser dito a respeito da Igreja Ortodoxa russa, dos meios mais diretos e em situações mais
e até do Islamismo, muito embora pareça frequentes do que em outras religiões. Todas
estar começando ente nós um movimento elas, cada uma a seu modo e com base em seus
de conversões de “brasileiros”, tal como su- mitos e teologias, aceitam a possessão como o
cedeu recentemente nos EUA e Europa. Não modo mais adequado por meio do qual uma
confundamos essas religiões muito antigas e divindade, um emissário de divindades, o es-
de minorias culturais entre nós com outras pírito de mortos, ou outros tipos de seres, en-
religiões chamadas há pouco “de fora” e que, tram em comunicação com os humanos vivos:
ao contrário das primeiras, mesclam-se com a incorporando-se ao seu ser, falando através do
vida cotidiana e fazem inúmeros convertidos. seu corpo, induzindo-os a tipos peculiares de
Elas nos esperam adiante. comportamentos, dentro de cerimônias rituais
ou fora delas.
Voltemos, por um momento, à nossa margem
esquerda. Bem ao lado de uma linha imaginá- Muito mais do que nas religiões indígenas
ria, vizinha ao território cultural das inúmeras e mesmo mais do que em religiões como o
religiões indígenas, seria preciso colocar alguns Judaísmo, o Budismo ou o Islamismo, entre
tipos de cultos e práticas que nem sempre che- nós há muito no candomblé e mais ainda na
gam a constituir religiões formais, mas cuja Umbanda de variedade e diferença, de mesclas
presença entre as culturas populares, sobretudo e combinações dentro de um mesmo sistema
no norte do país, é considerável. Exemplos: a religioso, ou entre dois ou três. A própria
Pajelança amazônica e os cultos de Jurema. umbanda é bem uma mescla aberta (existem
vários tipos, com diversas ênfases) e dinâmica
Ao lado desse novo espaço, coloquemos algu- de combinações articuladas de “elementos”
mas religiões de uma visibilidade entre nós dos cultos afro, do espiritismo kardecista e
muito maior e, sem dúvida alguma, bastante do catolicismo.
importante. Elas pertenceram a culturas e
sociedades que foram um dia também tribais. Em seguida, poderemos colocar justamente
Algumas delas chegam a graus de complexida- outras religiões nas quais a mesma ideia de
de e diferenciação muito pouco reconhecidos possessão é essencial ao sistema de crenças e à
pelos conquistadores que, por séculos, aprisio- lógica dos cultos. Logo à lembrança vêm-nos
naram as suas pessoas, homens e mulheres, e o espiritismo kardecista. Ele chega ao Brasil
os roubavam de suas tribos e terras na África muito depois das religiões africanas, entre
126 fins do século XIX e os começos do XX. Vem distanciado, pelo menos do ponto de vista da
da Europa e a sua origem está na “codifica- doutrina mais explícita. Mas elas não são as
ção” de uma nova doutrina feita na segunda únicas. Vimos que de diferentes origens africa-
Comunicações do ISER

metade do século XIX por Allan Kardec, em nas, desde “o tempo dos escravos” recriam-se
comunicação com espíritos superiores. Mais entre nós diversos sistemas “afro”. Da mesma
do que em qualquer outro país do mundo, maneira como nos de confissão cristã, eles re-
aqui no Brasil o espiritismo difundiu-se como clamam também o direito às suas identidades
uma religião, muito embora os seus pratican- peculiares. Coloquemos ao lado das religiões
tes, médiuns ou não, o considerem também de possessão outras ainda, mais recentes e
uma ciência e uma filosofia. Esse “espiritis- menos conhecidas, algumas delas surgidas
mo de mesa branca”, muito diferenciado do há muito poucos anos. Entre as mais conhe-
“espiritismo de terreiro”, identificado com cidas, ou pelo menos mais estudadas, aqui
a Umbanda em suas várias formas, resiste a estão: A Fraternidade Eclética Espiritualista
ser pensado como uma religião até mesmo Universal, o Vale do Amanhecer, e a Legião
vizinha das religiões de origem e simbologia da Boa Vontade, que recentemente teve o seu
“afro”. De fato, os seus agentes religiosos nome mudado para Religião de Deus, e que
negam qualquer aproximação entre o espiri- preserva até hoje um marcado perfil espírita,
tismo e todas as outras religiões de possessão. mais forte ainda nos seus primeiros anos a
Alguns afirmam até que o mesmo que lhes é partir de quando Alziro Zarur, o fundador, a
comum, a posse da pessoa por espíritos, lhes proclama uma confissão pan-ecumênica de
traça a diferença: os espíritas recebem sempre vocação espírita.
espíritos de pessoas, para serem ajudadas em
seu caminho de aprimoramento espiritual, Haveria muitos outros casos aqui, nos espaços
ou para ajudarem os vivos, como nos casos que deixamos para trás e nos que adiante nos
dos espíritos superiores, espíritos de luz; esperam. Mas desde já guardemos um aprendi-
nos outros cultos “baixam” apenas espíritos zado que torna um pouco mais consistentes al-
inferiores. Quando mais adiante eu estiver gumas ideias sugeridas nas primeiras páginas.
falando em “religiões eruditas” e em “religi- Estamos vendo que, a não ser em sociedades
ões populares” será importante lembrar isso, e culturas muito simples ou muito fechadas,
porque é também por meio dessas diferenças sobretudo em nosso tempo, onde havia antes
enunciadas aqui e postas em questão mais à uma certa unidade e estabilidade, existe ago-
frente que algumas fronteiras entre crenças e ra diversidade entre as religiões, diferenças
confissões são desenhadas, são transgredidas dentro de uma mesma religião e mobilidade
e são postas em situações de aliança (como o e transformação no interior do campo das
ecumenismo) ou em conflito (como nos rela- relações sociais e simbólicas em que, como
cionamentos atuais entre Igrejas pentecostais parte de uma ou de várias culturas que se cru-
e a Umbanda). zam, as próprias religiões obedecem a certas
tendências e direções do “todo da cultura”, e
O espiritismo kardecista, a Umbanda e o também as de outros setores da história e da
Candomblé são as três religiões mediúnicas vida cotidiana. Ao lado de “formas puras” e
e de possessão mais difundidas e melhor “de origem”, existem derivações, divergências,
conhecidas entre nós. Da primeira à terceira, novas experiências pessoais e coletivas de lidar
elas fazem imperfeitamente o trajeto do mais com o sagrado e transformar uma fé, uma
“erudito” ao mais “popular”, do mais escrito série de crenças, em uma religião em que elas
ao mais oral, do branco ao negro, do mais se configuram, e em uma Igreja (ou várias) em
proclamadamente próximo do cristianismo que elas tomam uma forma, uma expressão
(um dos livros principais entre os espíritas social. Aliás, a própria ideia de “pureza” é um
é O evangelho segundo o espiritismo) ao mais dos motivos pelos quais vemos à nossa volta
mais polêmica (não raro, inútil) entre grupos em áreas de uma marcada influência de tradi- 127
religiosos e dentro de confissões religiosas. ções negras, como a Bahia, ou de imigrantes
italianos, como em São Paulo. Uma de suas

mir
Se o desenho imaginário que estou propondo características comuns, no entanto, está em
está claro na cabeça do leitor, entre os espaços que o catolicismo, ancestralmente laico e rural,
já ocupados à direita e à esquerda de uma folha chega mesmo a constituir um quase-sistema
em branco, que será “mapeada” algumas pági- religioso não propriamente autônomo frente
nas adiante, ele se lembrará de que ficou um à Igreja de que se reconhece parte (e os seus
largo intervalo ainda em branco. Eis o lugar agentes invariavelmente insistem nisso), mas
onde cabem bem as religiões autoproclamadas autossuficiente, pelo menos em boa medida.
como cristãs: o catolicismo (e seus modos dife- Pois ali estão não apenas certas crendices po-
rentes de “ser católico”), as religiões protestan- pulares e alguns costumes tradicionais, curio-
tes, evangélicas e suas derivadas e, finalmente, so “objeto de estudo” de folcloristas, mas sim
um pequeno conjunto de outras religiões onde sistemas sociais de trocas de atos, símbolos e
uma classificação é mais difícil, porquanto, de significados, maneiras próprias — memória
sendo todas elas confessadamente cristãs, não de outros tempos, esquecidos da própria Igreja
se identificam nem com o Catolicismo e nem — de viver cultos, de estabelecer princípios de
com as confissões evangélicas. Exemplo: as relações entre os homens e o sagrado e entre
testemunhas de Jeová, os mórmons, os adven- os próprios homens: os vivos com os vivos,
tistas do sétimo dia e mesmo os batistas, que os vivos com os mortos, os mortos com os
apenas com muita dificuldade aceitam uma mortos.
origem comum com os protestantes.
De algum modo esse mesmo olhar de dife-
Sabemos que, juntas, essas religiões envolvem, renças, onde antes nos acostumávamos a ver
pelo menos nas estatísticas do IBGE, a imen- a uniformidade, vale também para o corpo do
sa maioria das pessoas que afirmam possuir catolicismo “oficial”. Eu falo não apenas das
uma religião. Seriam quantos? 90%, 95%, um diversidades institucionais, eclesiásticas: as
pouco mais? ordens religiosas, os diferentes ministérios e
vocações, as associações católicas dirigidas aos
O catolicismo e a sua Igreja católica são até leigos e assim por diante. Falo de diferenças
agora considerados como o sistema religioso eclesiais; de uma ordem de vocações menos
e a instituição confessional demograficamente oficialmente reconhecida, mais cotidiana-
majoritários social e culturalmente hegemô- mente visível e difícil de ser vivida dentro de
nicos. Conhecemos todos uma divisão entre uma mesma Igreja. Tendências não apenas
um catolicismo erudito ou oficial (os dois “ideológicas”, como quando os nossos bispos
nomes não são bons, mas ainda não foram e sacerdotes aparecem nos jornais classificados
descobertos melhores) e um catolicismo po- como conservadores, moderados e progressis-
pular, que alguns estudiosos preferem chamar tas, mas também de teologia da fé, de filosofia
catolicismo de folk. Acho que hoje em dia do sentido cristão do humano, de pensamento
essa divisão nos deixa no meio do caminho. sobre o compromisso cristão e sua presença
Convivemos com vários modos culturais de em uma história da Igreja e também fora dela
ser católico, e eles implicam mais diferenças e além de suas fronteiras.
do que a sugerida por essa posição útil, mas
grosseira. Olhando de perto, isso a que da- Certa feita Rubem Alves dizia que o catolicis-
mos o nome de “catolicismo popular” possui mo mantinha a sua diversidade não se dividin-
tantos matizes quantas são as culturas em do, enquanto o protestantismo garantia a sua
que vivem as suas pessoas reais: no campo ou unidade dividindo-se. Ele queria sugerir algo
na cidade, na Amazônia ou em Minas Gerais, que é muito evidente aqui mesmo no Brasil.
128 Sabemos que apesar de todas as diferenças se originam de cisões protestantes e de divisões
culturais e divergências de imaginário — na tardias, em boa medida já nos EUA. Os mais
teologia, na pastoral, na doutrina social, na de- conhecidos são aqueles que, tomados em con-
Comunicações do ISER

finição do sentido de presença e compromisso junto, costumamos chamar de pentecostais.


do cristão — o catolicismo mantém-se como Em 1910, quando eles começaram a chegar ao
uma religião única de uma só Igreja. A única país, através de missionários que irão criar a
cisão conhecida foi, no começo do século XX, Assembleia de Deus e a Congregação Cristã do
a que deu origem à Igreja Católica Brasileira, Brasil, havia no país apenas dois templos pen-
cuja presença no mundo religioso, no entanto, tecostais, contra cerca de mil e cem das deno-
é quase invisível. De sua parte, as Igrejas evan- minações anteriores. Em 1970, contavam eles
gélicas chegaram ao Brasil em momentos dife- já com cerca de mil e cem templos, contra mil
rentes, estabeleceram-se através de “projetos de e quatrocentos dos evangélicos não-pentecos-
presença” e missão muito desiguais, e seguem tais. Hoje, com certeza, já haverá mais templos,
hoje percursos também diversos. mais tipos de Igrejas, mais agentes religiosos e
mais fiéis convertidos entre os pentecostais do
No espaço da folha imaginária, ao lado do que em todas as Igrejas históricas.
catolicismo e suas variantes internas, pode-
mos colocar, ao alto, o ramo mais antigo dos Em algum sentido não seria errado pensá-los
evangélicos no país. Por isso mesmo eles são como um aglomerado muito variado e, so-
lembrados com protestantes de imigração. Vie- bretudo, extremamente dinâmico de Igrejas,
ram com os europeus do norte a partir dos fins ministérios, grupos de congregações emer-
do século XIX. Os luteranos e os episcopais são gentes, em formação, também de possessão. O
os mais conhecidos. Logo abaixo, escrevamos princípio básico de seu credo é a presença ativa
os nomes das igrejas e denominações também do Espírito Santo na vida e na pessoa do fiel,
do protestantismo histórico ou tradicional tanto quanto na congregação dos seus crentes.
(ligadas de origem à reforma protestante de Uma presença ativa que qualifica os “crentes”,
Lutero e Calvino), várias delas são identificadas separa-os dos outros “irmãos evangélicos”,
também como Igrejas protestantes “de missão”. afasta-os dos católicos e os constitui como
Há uma diferença muito importante entre rivais militantes das religiões de possessão
esses dois ramos de evangélicos entre nós. Os mediúnica, principalmente a Umbanda. De
primeiros, concentrados mais ao sul do Brasil, alguma maneira a gradação que estabelecem,
estão próximos das religiões de minorias étnica. a partir de um centro de excelência religiosa
Eles não se preocupam muito com um trabalho onde está “o ministério da minha igreja”, co-
de conversões para fora das fronteiras de seus loca os pentecostais, de modo geral, e em suas
grupos étnicos (alemães, ingleses etc. e descen- inúmeras alternativas de afiliação, como sendo
dentes) e, em alguns casos, o âmbito da religião a religião verdadeira e a tradutora única, em
confunde-se com o do grupo, da comunidade nossos dias, da vontade de Deus e da ortodoxia
étnico-cultural. Ao contrário, os primeiros fiel do cristianismo. Os outros evangélicos,
evangélicos “de missão”, vindos da Europa e “irmãos” distanciados, professam por igual
dos EUA, chegaram ao Brasil para serem uma uma religião verdadeira, mas enfraquecida
presença religiosa ativa e transcultural, para com o passar do tempo que as acomodou às
realizarem um trabalho evangélico de conver- normas do “mundo” e delas roubou a presença
são entre “os brasileiros”. Entre eles estão, por santificante e agregadora do Espírito Santo.
exemplo, os presbiterianos, os congregacionais, Sendo ainda uma religião, o Catolicismo lhes
os metodistas (uma derivação dos episcopais). aparece como um desvio do sentido cristão
da fé e da vida da Graça; uma “falsa religião”,
Ainda mais ativos no trabalho proselitista são portanto. Dela, em direção a todos os sistemas
os ramos do protestantismo de conversão. Eles de crença e cultos mais populares, a tendência
é identificá-los como formas demoníacas de adventistas do sétimo dia, as testemunhas de 129
magia e feitiçaria, onde a ilusão dos deuses Jeová, os batistas (identificados por outros
na verdade apenas encobre e disfarça a ação como também evangélicos) e outros grupos

mir
do demônio e seus sequazes. religiosos menos conhecidos.

Mais do que qualquer outro domínio confes- Estamos próximos agora de nossa margem
sional de nosso campo religioso, o pentecos- direita, onde havíamos deixado desde o come-
talismo é bom para se pensar toda a gama de ço as religiões de minorias étnicas e culturais,
alternativas, toda a dinâmica de transforma- algumas delas consideradas, no entanto, como
ções, toda a possibilidade presente de criação religiões universais. Pois bem, divido o espaço
de microgrupos confessionais. Provavelmente da folha que nos resta em duas metades. Co-
nenhum outro é tão aberto às próprias “leis do loquemos na coluna mais à esquerda neorre-
mercado moderno”, cuja lógica “do mundo” ligiões originadas em anos mais recentes aqui
os pentecostais constituem justamente como mesmo no Brasil. Eu havia falado antes do
uma das evidências da presença do demônio Vale do Amanhecer e da Fraternidade Eclética
entre nós e o seu domínio sobre todos os não Espiritualista Universal. São dois bons exem-
convertidos, isto é, “não-crentes”, “não-salvos”, plos de tipos de religiões não definidamente
porque “não-separados”. cristãs, e tal como as pentecostais, originadas
do trabalho individual e carismático de um
Fora os casos raros, entre pessoas, grupos e líder religioso (não raro autoidentificado como
Igrejas, os pentecostais resistem mais do que os de alguma divindade ou criador de uma nova
batistas e outras denominações tradicionais a religião cumprindo ordens de uma revelação
qualquer tipo de aproximação ecumênica. Esse exclusiva). Essas neorreligiões brasileiras os-
princípio de separação radical vale até mesmo cilam entre uma adesão a alguma forma de
dentro de seu universo. Há uma ausência quase mediunidade de possessão e uma visão mile-
absoluta de relacionamento entre a Assembleia narista de fim-de-mundo próximo.
de Deus e a Congregação Cristã do Brasil. Há
mesmo uma frouxa aliança e mínimas trocas O Santo Daime e suas derivações, como a
entre os três ministérios da Assembleia de União do Vegetal, são dois exemplos adequa-
Deus. De outra parte, são muito frequentes as dos. O trabalho conversionista é bastante
rupturas entre agentes de culto, e quase todas mais discreto do que entre os pentecostais e,
as Igrejas mais recentes (para com as quais as não raro, a inclusão no grupo religioso obri-
mais tradicionais têm profundas reservas e ga o novato à passagem a uma graduação de
desconfianças públicas), algumas delas com um estágios.
crescimento espetacular, resultaram da inicia-
tiva conversionista de um missionário, pastor Eis-nos diante do último espaço deixado em
etc., saindo de uma congregação ou Igreja de branco. Eis também o lugar de outras neor-
que era membro. Exemplo: O Brasil para Cristo, religiões entre nós. A diferença entre elas e as
a Igreja Universal do Reino de Deus. do espaço ao lado é que elas são todas vindas
de fora, muitas delas com um ingresso muito
Estamos bastante próximos do final de nosso recente e uma difusão, maciçamente urbana
desenho do campo religioso brasileiro. Ainda quase sempre, ainda mais recente. Também
definidamente dentro do “espaço cristão”, co- ao contrário do que ocorre no caso do Vale do
loquemos aquelas religiões, todas elas trazidas Amanhecer ou do Santo Daime, seus agentes
ao Brasil pela ação de missionários europeus e seguidores são pessoas de camadas médias,
e norte-americanos, nunca autoenquadradas muitos deles jovens urbanos das grandes cida-
como protestantes, isto é, membros da grande des. Algumas dessas neorreligiões vieram de
família evangélica. Aí estão os mórmons, os regiões do oriente e, em um início, congrega-
130 vam uma minoria de adeptos entre orientais e 4. Movimento e diversidade
seus descendentes. Esse é o caso da Seicho-no-iê,
da Perfect Liberty, da Igreja Messiânica. Hoje em Essas palavras e as ideias que elas querem tra-
Comunicações do ISER

dia, as suas congregações, de um conversionis- duzir não fariam sentido algum no Brasil de
mo moderado, estão presentes por toda a parte 1822. Fariam um começo de sentido na cons-
e incluem muitas pessoas “nacionais”. A Fé ciência de algumas pessoas em 1899. Seriam
Bahá’í, o Hare Krishna, o Sufismo, poderiam ser palavras já importantes nos primeiros 50 anos
exemplo de neorreligiões entre nós (mas nem do século XX e, hoje em dia, na realidade do
sempre em suas culturas de origem) vindas do novo milênio, elas são indispensáveis para se
oriente, mas não do Japão ou da Coréia. pensar o que é e o que está acontecendo no âmbito
da religião entre nós. Vimos o tempo todo que
Temos completo o nosso quadro. Como todos vivemos hoje em dia um tempo de história e
os desenhos de esquemas, ele é limitado e cultura com duas características essenciais:
incompleto. Deixa de lado religiões simbó- a) do ponto de vista de cada um de nós,
licas, sistemas de sentido e espiritualidades individualmente, há uma abertura crescente
importantes. Esquece de propósito (porque em direção à individualidade, aos direitos
isso seria quase inesgotável) os nomes e luga- pessoais de opção e compromisso, de tal sorte
res de várias religiões ou subdenominações e que cada vez mais a obrigação social (familiar,
simplifica muito um universo de presença e parental, comunitária etc.) de “ser religioso”e
trocas na verdade bastante mais complexo. “ser desta religião”, desloca-se aos poucos — e
Mas ele é, em parte, fiel ao tentar aproximar e, mais nas cidades do que no campo — para o di-
ao mesmo tempo, estabelecer diferenças entre reito individual de fazer-se religioso e escolher
as presenças religiosas que mais nos impor- a sua adesão confessional e o modo de vivê-la
tam. Lembremos que, no seu todo, deixei no (menos quando se ingressa por conversão em
centro as religiões cristãs de maior “peso cul- uma religião do tipo sectário);
tural” e presença social: a “família cristã”, suas b) do ponto de vista objetivo, o mundo
Igrejas, suas divisões, suas alianças recentes e das religiões abre-se ao movimento, à possi-
promissoras (como no caso do ecumenismo), bilidade crescente de transformações e a uma
seus momentos de confronto e conflito. De um consequente diversidade. Aos poucos, uma
lado e do outro ficaram religiões afro ou não, hegemonia católica abre-se também a um
de crença baseada na possessão e na mediuni- mundo multiconfessional de tipos de religiões
dade, assim como neorreligiões brasileiras ou e de agências religiosas em concorrência, mas
vindas de fora para o Brasil. Nos dois extremos também em diálogo.
coloquei, de um lado, as nossas ancestrais
religiões indígenas e, no extremo oposto, as Para além da religião, esse mundo cultural
religiões de outras “tribos”, isto é, de minorias inclui cada vez mais um número maior de
étnicas e culturais vindas ao país pelas mãos espiritualidades, de outros sistemas de sen-
e no coração de seus emigrantes. Em seguida tido, de combinações pessoais e coletivas de
desenho o nosso mapa. saberes e valores de mais de um sistema. Por
outro lado, dentro mesmo de uma religião,
Mais importante do que conhecer as linhas ge- como o Catolicismo, vivemos uma variedade
rais do universo religioso em que vivemos hoje mais abrangente de escolhas e estilos de vi-
talvez seja compreender algo de sua existência, vência da fé e suas consequências espirituais,
de suas tendências e de suas transformações. pastorais e políticas. Mesmo considerando-se
Penso que a melhor maneira de fazer isso é atra- que algumas das religiões que mais crescem
vés de alguns tópicos simples, contendo cada numericamente no mundo (como o Islamis-
um deles uma ideia central. É isso que procuro mo Fundamentalista) ou no Brasil (como o
fazer daqui até o final do nosso estudo. Pentecostalismo ativamente conversionista)
são muito pouco sensíveis ao diálogo, no seu coração de nossas culturas e na raiz do presen- 131
todo é ele — o encontro entre pessoas, crenças te de nossa história. O Catolicismo se renovou
e horizontes diferentes, irmanados em valores muito em muitos sentidos; o mundo cristão

mir
humanos de futuro — que a todos unifica, o não-católico também. E assim ocorreu, vimos,
princípio que deverá dominar os relaciona- em outros campos e setores de outras religiões,
mentos entre as religiões e entre elas e outros de novas espiritualidades não necessariamente
sistemas de sentido. religiosas, de outros vários sistemas de sen-
tido e de orientação da vida. Há muito mais
5. Ruptura e estabilidade diferenças, alternativas, entrecruzamentos,
alianças e concorrências, diálogos e conflitos.
Eis um dilema: tudo muda, mas tudo per- Mas a estrutura nuclear do campo religioso
manece mais ou menos igual. Anunciou-se entre nós não mudou muito, embora dentro
muito em séculos e décadas passadas o “fim dela tudo se tenha modificado tanto.
da religião” e a “morte de Deus”. Ei-los vivos
por toda a parte e gozando de boa saúde. A 6. Igrejas, seitas, movimentos,
religião convive com ciências e ideologias e não sistemas e agências
parece perder terreno, mas antes revigora-se
e abre-se a um mundo de ideias e de desafios Tão importante quanto conhecer o que existe e
humanos, sem dúvida mais difícil do que os o que está se transformando em nosso mundo
“mundos culturais” que nos antecederam. O religioso é compreender o que isso significa em
surgimento de tantas outras formas de pensar, outra dimensão. O que isso cria e oferece. Ou
de sentir e de traduzir isso de muitas manei- seja, de que maneira o que existe se organiza
ras tem criado inúmeras novas alternativas e se comporta.
de conversão e adesão. Isso dentro e fora da
religião, como vimos aqui. Alguns números e A instituição natural da religião é a Igreja.
nomes mudam, mas no seu todo a composi- Quando Émile Durkheim, um de seus mais
ção de nosso mundo religioso segue sendo a fecundos estudiosos, quis separar a religião
mesma. O Catolicismo ainda é uma religião da magia, ele usou uma frase mais ou menos
demograficamente majoritária e as religiões assim: não há religião sem Igreja e nem há
cristãs recobrem, na sua variedade, a imensa Igreja mágica. Tomando essa ideia a sério,
maioria das pessoas e famílias. O surgimento podemos ver, no entanto, que as formas pelas
de outras tantas religiões, criadas aqui mesmo quais as religiões vivem culturalmente e são
ou vindas de fora, apenas têm representado pessoalmente vividas podem ser outras, po-
uma parte muito pequena ainda entre as dem ser várias. Múltiplas em seus conteúdos
outras religiões. Até agora elas são mesmo de crenças e cultos confessionais, as religiões
religiões de minorias, o que as torna muito multiplicam também tipos de organização
diferentes do Pentecostalismo, uma crescente social de si mesmas e em si mesmas. Assim,
religião de massas. por exemplo, vive-se na prática a experiência
do “ser católico” na Igreja, “em minha paró-
Então, é possível que estejamos diante de um quia”, “na nossa comunidade eclesial de base”,
dilema. Todo o tempo eu estive aqui falando “dentro do movimento dos sem-terra”, “como
sobre a dinâmica e a renovação do cenário renovação carismática”, em um movimento
religioso e espiritual entre nós e agora pareço de pastoral universitária, e assim por diante.
concluir que ele continua sendo bastante Uma mesma Igreja multiplica estruturas ecle-
“conservador”. Mas é que é assim mesmo! siásticas e comunidades eclesiais. No campo
Todas as mudanças acontecidas nesses últimos do Catolicismo popular, ela deixa que se
cinquenta anos e, principalmente, nos últimos originem verdadeiros sistemas peculiares,
trinta, são reais e estão aí: na vida cotidiana, no semiautônomos, como formas próprias e
132 como comunidades camponesas de crenças e nha procurar por algum motivo) atendida por
grupos e especialistas próprios a seu serviço pequenas equipes de agentes “desenvolvidos”,
(capelão, rezadores, mestres de folias de santos os médiuns. Em algumas religiões desse tipo, a
Comunicações do ISER

reis e muitos outros). No passado recente, o oferta de bens e serviços religiosos não implica
Catolicismo foi a origem de movimentos so- adesão ou conversão das pessoas. Muitas vezes,
ciais religiosos, como aconteceu em Canudos, mesmo entre os seus praticantes, não obriga
Contestado, Caldeirão e Pau de Colher. Hoje, nem mesmo a uma confissão exclusiva, do tipo
muitos de nós nos sentimos “vivendo a Igreja”, “ser só desta religião”. Isso é o que leva adeptos
experimentando-a como e através de movimen- da Umbanda e mesmo do Candomblé a se
tos de vocação de presença e compromisso. considerarem “também católicos”, sem que
isso em nada lhes pareça uma contradição.
O movimento ecumênico é uma evidência da
possibilidade generosa e necessária de alar- De um ponto de vista pessoal, as religiões
gamento da experiência da fé e das fronteiras abrem-se a várias maneiras de “viver a fé” e
das crenças e das práticas da religião e através participar de uma comunidade de crença. Você
da religião. Movimentos que estou chaman- pode ser agente religioso (como um padre, um
do aqui de pan-ecumênicos, mais além das pastor, um pai de santo, um médium), pode
próprias fronteiras do cristianismo católico e ser um fiel participante, um fiel praticante, um
evangélico, são uma janela aberta ao futuro. buscador, um cliente. Pode ser um militante
em sua igreja ou através de sua Igreja. Você
Mas existe o seu oposto. Algumas religiões pode combinar dimensões pessoais de partilha
do passado e vários grupos neopentecostais e participação na fé, nas crenças, na comuni-
assumem o que poderíamos chamar aqui de dade de fé, no movimento de Igreja, na Igreja,
uma “forma sectária”. Iniciados e congregados entre Igrejas, no movimento ecumênico, na
em torno a um líder carismático, em geral luta pela cidadania através de minha religião,
contestado, ou de uma pequena “confraria” e de quantas outras maneiras?
de agentes religiosos, os seus convertidos
reconhecem-se como um grupo de “salvos”, 7. Erudito e popular
de “eleitos” exclusivos e separados de todos
os outros e “do mundo”, lugar do mal e do Durante muito tempo essa divisão simples
pecado. Fechados ao diálogo, eles traçam pareceu dar conta de explicar muitas divisões
fronteiras extremamente estreitas entre um dentro de uma mesma religião ou no inter-
chamado divino à salvação e a resposta das pes- valo entre várias delas. Isso é muito comum
soas. Quando falamos dos “fundamentalistas” no Catolicismo e é difícil falar de religião em
muçulmanos, dos integristas católicos da TFP um país com tantas desigualdades sociais e
ou dos fideístas protestantes, estamos diante de tantas diferenças culturais sem levar em
de várias modalidades de experiência religiosa conta essa oposição. Se voltarmos ao quadro
vivida, nesses casos, como uma sectarização da apresentado, poderemos observar que, de
prática de atribuição de sentidos de mundo e maneira não muito rigorosa, fui colocando
de vida através da religião. nos espaços mais acima as religiões entre nós
consideradas como “das camadas médias para
De uma outra maneira, sistemas religiosos cima”, mais brancas do que negras ou mestiças,
como o Candomblé e o Espiritismo Kardecista mais autoconsideradas como “puras” ou mais
(mas isso não acontece apenas no campo me- fiéis a uma “origem divina”. Isso não é nada
diúnico) recusam-se a se considerar como uma rígido e hoje em dia cada vez mais esquemas
“Igreja” ou como uma seita. Os espíritas quase duais desse tipo têm sido contestados. É claro,
parecem se identificar com agências religiosas há mais pessoas brancas, letradas, de classes
abertas a uma clientela difusa (quem nos ve- médias no Espiritismo Kardecista do que na
Umbanda e mais nesta do que no Candomblé. 133
Isso pode valer também para o caso católico,
que, desde muito tempo no Brasil, mesmo

mir
dentro da Igreja, traçava diferenças e destinava
tipos de irmandades, de confrarias e de outras
associações de categorias diferentes segundo a
classe social, a etnia e outros critérios. Ainda
que as suas bases sejam populares, experiências
renovadoras como as CEBs tentam, ao criar
uma Igreja popular, repensar o sentido dessas
desigualdades e reinventá-las, como diferen-
ças, dentro dessas mesmas comunidades.

O que importa considerar é que em uma so-


ciedade múltipla, desigual e dinâmica como
a nossa, a religião se envolve com outros se-
tores e campos da vida social e dos mundos
das culturas, trazendo para os seus cenários
algumas de suas oposições, de suas diversi-
dades. Mais do que apenas uma relação entre
o erudito e o popular, o que vemos hoje em
dia é uma dinâmica relação entre múltiplas
categorias de pessoas e as alternativas de vida
e participação religiosa. Se há entre nós bran-
cos, negros, índios e mestiços, é provável que a
religião deva reconstruir, como sistema de fé,
crença, culto e prática, as suas peculiaridades
étnicas e culturais. Mas é preciso não esquecer
que isso é justamente o oposto da religião e
da Igreja pensadas e vividas não através do
respeito às diferenças (“na casa de meu Pai há
muitas moradas”), mas segundo os interesses
de manutenção e justificação de desigualdades
sociais. Uma coisa é afirmar o generoso sentido
da multiplicação de muitas maneiras de crer e
viver a fé — segundo se é, pensa e vive em outros
campos, por outros motivos; outra coisa é sub-
meter a religião à manutenção da desigualdade
entre os homens e à explicação da injustiça e
de todos os males que derivam dela.

*Carlos Rodrigues Brandão é mestre em Antropo-


logia Social pela UNB e doutor em Ciências Sociais
pela USP. Professor titular aposentado da Universi-
dade Estadual de Campinas, atualmente é pertence
ao corpo docente do Doutorado em Ambiente e
Sociedade do NEPAM/IFCH da UNICAMP.
134
Entre o “inter” Cena 2

e o “exclusivo” Ano 2006. Cenário: casa de uma família de


Comunicações do ISER

Edlaine de Campos Gomes origem católica que convive diariamente com


o pluralismo religioso na vizinhança, no bair-
ro e nas relações de parentesco. A matriarca é
Reflexões sobre o contexto
católica e faz questão de enfatizar as marcas
religioso contemporâneo
distintivas em relação aos evangélicos. Integra
a tradicional Irmandade Nossa Senhora do
Cena 1
Rosário e São Benedito dos Homens Pretos.
Entre seus objetos favoritos, guardados em um
Ano 2004. Cenário: pequena capela em uma vila
lugar especial em seu quarto, estão imagens e
militar. No altar, uma cruz e quatro estátuas:
quadros de santos, além do “Sagrado coração
Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração
de Jesus” e da “Sagrada Família”. Essa coleção
de Maria, Nossa Senhora de Fátima e Nossa
não ocupa grande espaço no conjunto da casa,
Senhora do Rosário. Há também quadros que
mas se destaca por representar a forte adesão
representam a Via Sacra e um cômodo em
ao Catolicismo. Com as conversões de parentes
cada lado do altar. Bancos estão dispostos para
e conhecidos — católicos e membros das reli-
acomodar os fiéis. Um padre conduz a homilia.
giões afro-brasileiras — às igrejas pentecostais,
Católicos rezam, comungam e realizam todos
uma nova função passou a ser exercida por ela:
os ritos previstos para uma missa, que termina
adotar imagens de santos abandonadas pelos
com o “vamos todos em paz”. Novo cenário
novos convertidos. Uma situação é exemplar:
começa a ser montado. Os quadros permane-
sua nora lhe conta que uma conhecida não
cem em seus respectivos lugares. As imagens
sabe o que fazer com uma estátua de São Jorge
são retiradas e cuidadosamente guardadas no
que está na família há tempos. A conversão ao
cômodo do lado esquerdo, pelos que ocuparão
Pentecostalismo lhe impusera o afastamento
o espaço a partir de então. Outros personagens
da devoção ao santo. Não quer quebrá-la
surgem, os evangélicos da Assembleia de Deus.
como demonstração explícita de seu novo
Algumas vezes, são eles que realizam a transfor-
pertencimento religioso. Embora demonstre
mação do ambiente. Percorrem poucos metros
forte adesão, não deseja destruir a imagem,
até a sala da direita, onde estão os objetos dos
conquanto precise romper afetivamente com
evangélicos: aparelho de som, bateria e outros.
ela. A escuta dessa situação já basta para que
Um pastor dirige o culto. Agora, evangélicos
esse São Jorge seja adotado pela católica, que
oram, cantam e ouvem “a palavra”. Diz-se que o
se propõe a recebê-lo em sua casa. Problema
compartilhamento do mesmo templo ocorreu
resolvido. Ex-devota convertida não tendo que
porque a casa utilizada pelos assembleianos
eliminar o santo. Católica satisfeita por salvar
teve que ser utilizada para abrigar uma nova
a imagem e, de certa maneira, por defender a
família, de um militar que passou a servir na
crença nos santos.
região. No começo, tudo parece um tanto cons-
trangedor, conta o pastor. Alguns aceitavam
Cena 3
e outros não. Mas, até mesmo um acidente
na hora do transporte de uma das imagens
Ano 2007. Cenário: Um quintal formado por
— quando uma caiu no chão, ao escorregar das
vários cômodos de “altos e baixos” — estilo de
mãos de um integrante da Assembleia — foi
moradia característica das camadas populares
compreendido por todos como acontecimen-
— que acomodam parentes consanguíneos
to banal e imprevisto. “O lugar é ecumênico,
ou por afinidade. Personagens: nora, católica
mas as celebrações não são”, lembra um dos
não-praticante e mestre de capoeira; sogra, da
membros da Igreja Evangélica.
Assembleia de Deus; e cinco ou seis de seus
“irmãos de fé”. Numa tarde, a nora tenta des- de) e outro no Cristo Redentor, que de cima 135
cansar após o almoço, quando ouve barulhos observa e referencia a todos . O evento mobi-
estranhos no cômodo acima de seu quarto. lizador chama-se “Dois minutos de silêncio”.

mir
São pessoas orando e pulando, algumas ma- Religiosos juntos, um objetivo comum, contra
nifestando os chamados “dons do Espírito a “guerra” e pela “paz”, sob o horizonte de uma
Santo”. Não consegue seu intento, mas não espiritualidade que transcende as instituições.
deseja se confrontar com a sogra. Não toma Cada um em seu lugar, fronteiras definidas.
qualquer atitude. De repente, assusta-se; sua Ecumenismo. Religião Civil. Cultura da Paz.
casa é invadida pelos “crentes”. Situação que
não pode evitar, mas ainda consegue esconder Corta para “Basta! Eu quero paz”
uma imagem de Maria, José e Jesus na manje-
doura, presente de uma tia. Sua pequena casa, Ano 2000: Cenário: Largo da Carioca, centro
de três cômodos e banheiro, não comporta da Cidade do Rio de Janeiro. Homens, mu-
tanta gente. O motivo de tal rompante é a lheres, crianças. Parentes, amigos, vizinhos.
presença do “demônio” ali. Buscam-no em População em geral. Contam-se 30.000. Per-
cada objeto, mesmo sem o consentimento tencimentos religiosos diversos. Todos que
daquela que tenta proteger seus pertences. se sentem afetados pela violência urbana e
O alvo das orações passa a ser o colchão de querem se manifestar comparecem. Milhares
casal, comprado recentemente. O “demônio” se concentram na praça. Personagens anôni-
está naquele objeto e precisa ser “amarrado” mos cujas histórias se aproximam pela dor
e vencido. Queimar é a única solução. O fogo provocada pela morte violenta, expostos com
purifica. O ato de partir para o exorcismo o objetivo de manifestar e transformar a dor
do objeto endemoniado leva a dona da casa individual em sentimento coletivo de ‘basta
a tomar uma atitude mais diretiva. “O meu de violência’. Pertences e fotografias são os
colchão novo, não! Vocês é que estão com principais artefatos dos que chegam. Anoitece.
demônio”, diz ao expulsá-los para o quintal, Velas acesas homenageiam os mortos e ilumi-
incluindo a sogra, que mora a poucos passos. nam o evento. Inicia-se a vigília inter-religiosa.
Com seus objetos nos devidos lugares e seu Reação, pacificação e compartilhamento da
colchão agora protegido, ela segue sua vida, dor. Um grande mural passa a ser montado.
convivendo com a sogra e sua filha de 12 anos, Fotos de pessoas, famílias, cartas, reportagens
convertida há quatro à igreja da avó. se integram à paisagem local. Totalidades
compondo o todo. O mural fica pronto. Paz
Cena 4 “abrindo a lente” genérica, violência objetiva. Descompasso.
Perspectivas distintas para um mesmo fenô-
Ano 1993. Cenário: Rio de Janeiro. Em diver- meno: vítimas da violência policial e policiais
sos locais da cidade, grupos de religiosos se mortos em serviço. Mesmo espaço, sentimen-
mobilizam para protestar contra a violência tos inconciliáveis. Conflito, um componente
urbana. Pontos centrais foram escolhidos “inesperado” para uma proposta de paz.
de acordo com as características de cada um:
para evangélicos pentecostais, a praça pública, Cena 5
a Cinelândia é o palco; Espiritismo é estudo,
palestra, para ele um auditório do Museu de Ano 2007. Cenário: Enseada de Botafogo, Zona
Arte Moderna; Candomblé é “luxo”, Museu Sul da Cidade do Rio de Janeiro. Milhares de
de Arte Moderna; a Umbanda ocupou a praia; pessoas chegam ao local: homens, mulheres,
as tendências Nova Era ocupam o Aterro do adultos, jovens e crianças; famílias inteiras.
Flamengo, o verde ecológico é sua referência; Ônibus de excursão dispostos por toda a orla,
para os católicos, dois espaços: um próximo à enquanto tantos outros chegam lotados. Estes
estátua de São Sebastião (padroeiro da cida- estão identificados, vêm de todas as partes
136 do próprio estado e de outros, de periferias. vivido. As primeiras três cenas apresentam al-
Foram convocados pela Igreja Universal do guns dos principais grupos que protagonizam o
Reino de Deus para a “Vigília da Paz”. A gran- embate público no contexto religioso brasileiro
Comunicações do ISER

de maioria é de membros da Igreja. A tônica das últimas décadas: católicos, religiões afro-
dos discursos é a “paz”. Pessoas e parentes de brasileiras e evangélicos, em especial os pente-
vítimas de violência estão presentes; foram costais. Na quarta cena, a diversidade se amplia
convocados a compor uma espécie de unidade com um movimento inter-religioso fundado em
pela pacificação da sociedade. Estima-se um um desejo de paz e reação à violência, a partir
total de setecentos mil a um milhão de pessoas. de uma ideia de religiosidade cívica. A última
É quase impossível se deslocar de um lugar a cena indica categorias e desejos semelhantes,
outro. Pequenas clareiras são formadas entre sem estar comprometida institucionalmente
a multidão. São idosos sentados em banqui- — em sua organização e apresentação no espaço
nhos e crianças brincando na areia. Um cordão público — com o diálogo inter-religioso ou com
humano não permite o acesso à água do mar. o ecumenismo, embora ratifique e compartilhe
O som não alcança a todos os presentes. Os da espiritualidade difusa impressa no desejo
vários telões dispostos ao longo da Enseada pela paz.
não são suficientes para a multidão. O líder
da igreja afirma que sabe que a violência não Muito se tem dito sobre as transformações do
vai acabar só porque estão ali orando, mas que panorama religioso do país nas últimas déca-
pelo menos neste momento podem alcançar das: queda da hegemonia católica, crescimento
uma paz interior”. “Segura na mão de Deus”, e diversificação das igrejas evangélicas pente-
música muito conhecida dos católicos, é can- costais, aumento do número de “sem religião”,
tada. “Só Jesus salva!”. decréscimo no número de membros das
religiões afro-brasileiras (JACOB et al., 2003).
Do dia-a-dia aos eventos: diálogos Nesse quadro, autores como Mariz e Machado
possíveis ou/e improváveis (1998) apontam a existência de um duplo e
concomitante movimento: institucionalização
Outras situações poderiam constar dessa lista e desinstitucionalização. O primeiro apresenta
de cenas que envolvem o complexo e diversi- como características uma forte proposta de
ficado panorama religioso no país. Para além exclusivismo religioso e um investimento no
das fronteiras institucionais das confissões compromisso dos membros com suas respec-
religiosas, em disputa pela manutenção ou tivas instituições. Concomitantemente há
pela conquista de espaço, nas relações cotidia- um aumento sensível no número de pessoas
nas — na família, na vizinhança, nas ruas das que se declaram “sem religião”, indicando o
cidades — apresentam-se estratégias de convi- processo de desinstitucionalização, o que não
vência, tensões e conflitos. As cenas escolhidas deve ser confundido com ausência de experi-
1
são exemplos dessa dinâmica, que surge, em ência religiosa , já que a categoria é um tanto
1 Estes processos fo-
ato, no dia-a-dia das pessoas. É possível extrair imprecisa. Nesse mesmo movimento, houve ram confirmados pelos
delas pontos significativos para a discussão no Catolicismo o aparecimento e a ascensão dados do último Censo
IBGE (2000) e pela com-
atual sobre liberdade, pluralismo, intolerância, da Renovação Carismática Católica, que mui-
paração entre os números
tolerância, exclusivismo, ecumenismo e diálogo to se assemelha às práticas dos evangélicos de 1991 e 2000 (JACOB et
inter-religioso. Há uma grande distância entre pentecostais. Tal semelhança se expressa não al., 2003). Estima-se que
73,9% da população sejam
o que dispõem as instituições religiosas sobre só pela manifestação do Espírito Santo e seus
católicos. Evangélicos so-
doutrinas, regras e comportamentos e como dons, mas também pela forma como se orga- mam 15,6%; outras religi-
isso chega aos respectivos fiéis. Aprende-se nizam eventos públicos nas grandes cidades e ões, 3,2%; e os qualificados
como “sem religião” são
muito quando se faz o exercício de refletir tanto na construção de edificações que comportam
7,4%. O Censo 1991 con-
sobre o plano mais amplo, relacionado ao que multidões (GOMES e CONTINS, 2007; OLI- tou 4,7% de entrevistados
está instituído, como sobre o que está sendo VEIRA, 2005). “sem religião”.
Assim, há um campo de negociação-conflito a um determinado grupo religioso é perpas- 137
constante entre as experiências religiosas in- sada pela adoção de um novo ethos, embora
dividuais, a família, a vizinhança e a sociedade reconheçam que o processo de conversão não

mir
mais ampla. Um movimento significativo de ocorre subitamente. Contins (1995) considera
mudanças no perfil religioso da população se a possibilidade de lidar com a conversão como
apresenta, em especial, nas relações cotidianas um processo contínuo, no qual o converso se
das grandes cidades e no embate político. No constitui e não tem sentido sem seus “outros”
processo de institucionalização, ocorre tanto — nesse diálogo em que sua experiência religiosa
uma expressiva conversão ao campo evangélico é construída. Mafra (2002) contribui para o
— caracterizada pela forte adesão e frequência debate, caracterizando dois tipos de conversão:
aos templos (FERNANDES et al., 1998) — como a minimalista e a maximalista.
a retomada e o fortalecimento de identidades
religiosas atribuídas. O trânsito religioso pode ser pensado como
mudança de vínculo, seja ele considerado como
Até recentemente, a ideia reinante sobre religião ruptura ou como passagem, ou ainda como um
no país tinha como base o englobamento das laço mais frouxo, que permita frequentações
religiões afro-brasileiras pelo Catolicismo e, mais ou menos intensas. Tal particularidade
em relação às outras religiões, seu predomínio remete a considerações sobre as diversas possi-
era evidente (SANCHIS, 1994). A delimitação bilidades de relações e inter-relações possíveis
das fronteiras entre as religiões no Brasil é um em um campo polifônico e cada vez mais regado
tema bastante discutido, em princípio a partir pela preeminência da escolha. Ao menos três
de estudos sobre as religiões afro-brasileiras dimensões — complementares — são importan-
(BASTIDE, 1971; CARNEIRO, 1984, entre tes para a análise do fenômeno religioso: “(1)
outros). Esses limites parecem fluidos e se inter- ‘religião’, como identidade ou pertencimento;
penetram em um movimento tão dinâmico que 2) ‘religiosidade’, como adesão, experiência ou
acaba diluindo-los ou mesmo dificultando seu crença; 3) ‘ethos religioso’, como disposição
reconhecimento. Aqui a noção de sincretismo é ética ou comportamental associada a um uni-
2
central para sua compreensão . O Catolicismo verso religioso” (DUARTE, 2005: 141). No âm-
popular constitui-se como o grande aglutina- bito da adesão religiosa, como já sublinharam
dor dessa dinâmica. Mariz e Machado (1998), é preciso considerar
os diferentes graus de inserção dos membros
Em relação ao Catolicismo, também são pro- nas respectivas religiões, pois, dependendo
duzidas reflexões recentes que destacam as do tipo de vínculo estabelecido, há maior ou
possibilidades de compreensão dos diferentes menor comprometimento com a reprodução
catolicismos, elaborações que emergem, em das diretrizes institucionais.
especial, pelo aparecimento do Movimento
Carismático (MARTINS, 2004). Sobre os Nessa mesma linha, refletindo sobre o exclu-
novos movimentos religiosos, em especial os sivismo, cabe frisar que a postura exclusivista
pentecostais, entram em cena novas catego- pode ser compreendida a partir de diversas
rias como conversão, trânsito e pluralismo. A perspectivas. Exclusividade significa, por
2 Para uma discussão
mais aprofundada sobre categoria conversão recebe uma nova leitura e exemplo, fidelidade e compromisso com uma
esse debate, ver SANCHIS novas significações, podendo ser vista como única confissão, sem que isso signifique ou
at all. (2001), Fiéis e Cida- “ruptura” ou como “passagem”. Birman (1996) desemboque em um proselitismo competiti-
dãos: percursos do sincre-
tismo no Brasil. Rio de e Semán (2000), entre outros autores, abordam vo. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso,
Janeiro: Editora UERJ; e a questão do trânsito religioso do ponto de vista pautados pela liberdade religiosa, encontram
ainda: (1994), “A dança das “passagens”. Outros validam a aplicação aqui seu campo de possibilidades. Por sua vez,
dos sincretismos”. In: Co-
municações do ISER, vol. da ideia de conversão, como Mariz e Machado exclusividade e intolerância podem compor
45, nº 13: 4-11. (1998), adotando a noção de que a identificação outro perfil do exclusivismo religioso. Há que
138 se considerar, também, que em ambos existem sacos de lixo que, posteriormente, foram leva-
3 http://www.portal-
limites impostos pelas diretrizes e dogmas; e dos para um terreno próximo e ali queimados. doanjo.com/templo.htm
brechas, dependendo dos temas tratados. O Candomblé era a religião de sua família, que 4 As situações descritas
Comunicações do ISER

considerou sua ação uma loucura. É interessan- nas cenas 2 e 3 integram o


material da pesquisa de
Na primeira cena, adaptada de uma notícia te, nesse conjunto de personagens, a presença de pós-doutoramento intitu-
3
constante em um site , intitulada Em tempos uma figura evangélica, o empregado doméstico lada ‘Os Irmãos Agora São
de ecumenismo imagens sagradas são retiradas dos da casa, que a auxiliou no “ritual”. Essa postura Eles’: Família e Trajetórias
em Contexto Religioso
altares, observa-se uma solução criativa para se caracteriza como exclusivista, pois mostra Plural, realizada no PP-
a convivência no mesmo ambiente de duas o rompimento, ao menos em termos perfor- GAS/Museu Nacional.
Igrejas que, a princípio, estão em disputa. É máticos, com a religião de herança. A vertente 5 A tendência de to-
mar o Catolicismo como
claro que se trata de um fato concreto: falta pentecostal, incluindo aqui as neo, ao menos identidade religiosa ex-
de um local para a realização dos cultos em na disputa e na delimitação de fronteiras no clusiva tem sido verifi-
uma vila militar. Esse motivo também nos espaço público, investem na ideia de conversão cada não somente nas
diretrizes institucionais
leva a pensar que a própria estrutura local não como ruptura com valores e referenciais simbó- e no discurso manifesta-
foi projetada levando em conta o pluralismo licos e materiais anteriores. Cada qual marca, do publicamente pelas
religioso e as mudanças que ele promove nas comparativa e contrastivamente, suas posições lideranças da Igreja. Res-
saltei em outro momento
relações interpessoais e nas localidades onde e características. A visibilidade do embate é uma (GOMES, 2006) que no
se impõe, seja em pequenas ou grandes cidades, das estratégias de distinção adotada. Quebrar movimento de rejeição
periferias, vilas, bairros, favelas, etc. Entretanto, imagens de santos ou queimar as roupas usa- ou aceitação do “outro”
— no caso, aceitação entre
a solução encontrada é sugestiva, já que traz à das nos terreiros, por exemplo, seriam atitudes evangélicos pentecostais
tona o debate atual sobre intolerância religiosa. “corretas” daqueles que se convertem. A adesão e católicos em uma rede
Sobre o uso do espaço originalmente católico e o novo pertencimento devem ser expostos familiar — ocorria, conco-
mitantemente, a afirma-
para a realização de cultos, um representante da publicamente. Nesse processo, há tanto vali- ção da identidade católica
Assembleia de Deus local disse: “No início foi dação do convertido como membro do grupo exclusiva, revestida por
constrangedor realizarmos nossos cultos numa quanto demonstração do poder da instituição uma postura contrastiva.
6 NATIVIDADE (2006)
igreja católica. Alguns irmãos não aceitavam, religiosa abraçada. Em última instância, seria a analisa a perspectiva evan-
mas depois todos compreendemos que era o preeminência da aquisição sobre a atribuição, gélica de regulação da
melhor que podíamos fazer. Foi um processo em consonância com o primado da liberdade sexualidade a partir do
discurso sobre cura e liber-
de aceitação bem lento, mas viável. Hoje é o de opção e escolha — pressupostos da sociedade tação da homossexualida-
único lugar do Brasil onde acontece essa per- ocidental moderna. de. O autor observa que
muta de espaço (...)”. No entanto, para ressaltar se trata de uma explosão
4 discursiva, evidenciada,
a distinção entre o culto católico e o de sua A reciprocidade na “adoção” mostra outra entre outras, pela extensa
Igreja, afirma que: “Congregamos numa igreja possibilidade, quando, mesmo aderindo a uma produção bibliográfica
ecumênica, mas os cultos não são ecumênicos”. nova confissão, o respeito aos objetos sagrados presente nas publicações
das editoras evangélicas e
Outra assembleiana comenta: “eu morava no da confissão anterior é preservado. Na cena da em sites, como o do Moses
Rio de Janeiro e, às vezes, saía com uma amiga “adoção” do santo, se evidenciam, no cotidiano (Movimento pela Sexuali-
católica. Quando ela entrava na igreja, mesmo das relações estabelecidas entre e pelos inte- dade Sadia).
7 Na p r o d u ç ã o d o
que fosse rapidinho, eu a esperava do lado de grantes das diferentes correntes religiosas, as “ethos guerreiro” há
fora. Nunca pensei que um dia fosse entrar em adequações, trocas e reinterpretações de regras grande ênfase à leitura do
uma igreja católica e orar”. Convivência entre institucionais que extrapolam os limites das Antigo Testamento, prin-
cipalmente às passagens
ecumenismo e exclusivismo? instituições (NATIVIDADE e GOMES, 2006; que tratam das conquistas
DUARTE et al, 2006; GOMES, 2006). Em certo e desafios vivenciados pe-
Em outra ocasião (GOMES, 2004), discuti a sentido, tal extrapolação está relacionada a uma los hebreus. Por exemplo,
Gomes (2004: 134) mostra
conversão de uma integrante do Candomblé à “gestão da vida privada relativamente indepen- que os trechos seleciona-
Igreja Universal do Reino de Deus. O ápice do dente dos ditames religiosos, mesmo durante dos presentes nos discur-
rompimento foi o descarte das roupas e demais períodos de intensa adesão” (DUARTE et al., sos da IURD “evidenciam
eventos ligados ao ‘povo
objetos ligados “aos encostos”. O processo se 2006) institucional. Em contraste, a outra cena, escolhido’, o ‘povo de Is-
iniciou com a disposição dos elementos em da invasão da casa na busca pelo “demônio”, rael’, que, embora perse-
indica que as tensões também integram as re- as diversas vozes que atuavam na cidade, se 139
guido, supera e conquista
porque crê na “promessa lações mais próximas, principalmente quando acreditava nessa disposição geral para a paz.
divina”. As ‘lembranças’ se toma uma postura exclusivista e, até mesmo, A fluidez e a indeterminação da proposta

mir
se referem ao ‘deus’ que como visto no exemplo, belicosa. Além disso, desconsiderava os conflitos e diferentes per-
possibilita a superação, o
‘deus’ que se revolta com coloca em evidência a tradicional oposição cepções acerca da violência e da pacificação.
a condição de seu povo entre família e congregação. Segundo Duarte No entanto, a paz e a violência — que, em
escravizado”. (2006a: 20), esta se “apresenta frequentemente contraposição, eram traduzidas pela imagem
8 As situações descritas
na cena 4 foram extraídas como uma alternativa à família, na verdade uma de uma cidade em estado de guerra — não se
do livro Um Mural para a hiper-família dotada de um senso de comunhão constituíam como assuntos genéricos, livres
Dor: movimentos cívico- e reverência capaz de produzir uma redobrada de interesses, intenções e sentidos. A dor era
religiosos por justiça e
paz. (BIRMAN & LEITE, intensidade”. O autor adverte ainda que família expressiva e generalizada, mas percebida de
2004), levando em conta e religião, no referencial moderno, “como solu- maneira distinta pelos atores envolvidos. A
minhas impressões sobre ção abstrata e formal”, se constituem no âmbito intenção pacificante de abrandamento do
os fatos, já que também
sou elemento constitutivo do privado, estando alheios ou em antagonismo conflito — “desarmamento dos espíritos”
dos acontecimentos. em relação à ordem pública (DUARTE, 2006b: — não funcionou. Exemplo disso foi o mal-
9 Sobre a generalização 55; cf. BIRMAN, 2006). estar provocado pela presença do mural dos
do valor da paz ou do
equilíbrio relacional, Du- policiais que morreram na “guerra urbana”
arte et al (2006: 21) lidam No que tange ao pertencimento religioso e sua (cf LUCAS, 2004; BIRMAN, 2004). A posi-
com tal valorização “como relação com o proselitismo, vale ressaltar que ção ambígua da polícia (protetora e algoz)
sintoma mais fluido desse
hedonismo explicitamen- o caráter evangelizador contemporâneo é en- impediu o fluxo da pretendida adesão ao
te generalizado em nosso fático na ideia da “fé em ação”, principalmente sentimento cívico-religioso (cf. BELLAH,
universo geral de valores. quando aparecem em cena os evangélicos pen- 1967). Separados por alguns anos, os eventos
Embora este possa ser 5
considerado, à primeira tecostais e os carismáticos católicos . Expõe-se continuavam a evidenciar os descompassos
vista, uma característica publicamente, o tempo todo e em qualquer nas interpretações sobre as estratégias de
da herança cristã — na situação, a filiação religiosa adotada. Não basta combate à violência e o que se entende por
linha do ‘amai-vos uns
aos outros’ —, tendemos uma adesão individualizada, interiorizada. É paz. A cidade continuava dividida entre “os
a considerar que se trata preciso assumir-se “religioso” e externalizar tal que queriam uma paz a qualquer preço e
de uma variante bastante característica. É imperativo conceber-se como aqueles para quem a paz não podia se associar
diferente, em que a mun-
danidade tem prevalecido substantivo e não como adjetivo na ação. Para- à barbárie” (BIRMAN, 2004: 246).
de modo crítico. Isso lhe fraseando Foucault (1988: 21), poderia ser dito
permite deslizar facilmen- 10
que há uma espécie de “explosão discursiva” Na cena 5 a paz novamente é acionada, agora
te entre um pólo laico,
cidadão, de defesa da pax cujo tema é não somente o sexo, mas também sob o enfoque de uma única instituição, a Igre-
6
cívica, e a quase totalidade a religião . Essa “incitação discursiva” se rela- ja Universal do Reino de Deus, que geralmente
das variantes do universo ciona, em grande parte, à postura diretiva — e não estabelece pactos ou participa de eventos
confessional contemporâ-
neo, à exceção dos funda- proselitista “insistente” — assumida pelas igre- ecumênicos. Os diálogos com as demais
mentalismos militantes, jas evangélicas pentecostais desde seu apareci- confissões são estabelecidos e se concentram,
como notório”. mento. A ação dos fiéis no mundo é concebida a assim como em outras pentecostais, no âmbito
10 A etnografia da “Vi- 7
gília da Paz” consta do partir do que seria um ethos guerreiro produzido da esfera política, quando a interação incide
material coletado para a pelo pertencimento religioso. sobre temas de interesse comum. Nesse perfil
pesquisa que venho de- político, também é possível identificar certo
senvolvendo, em estágio 8
pós-doutoral, no Centro Na cena 4 , os eventos foram organizados arrefecimento do embate com outras religiões,
de Estudos da Metrópo- com base na ideia de uma “religião civil”, principalmente quando se trata de assistência
le (CEBRAP), com bolsa apostando-se numa “religiosidade fluida, que social (GOMES, 2004; cf. GIUMBELLI, 2007).
concedida pela FAPESP.
Trata-se de projeto inti- podia dispensar os vínculos institucionais” O destaque à necessidade de intervenção so-
tulado “(In)Tolerância, (BIRMAN, 2004: 243), já que a paz seria o cial é extensivo a outras religiões. No campo
exclusivismo religioso e grande articulador do desejo e das ações co- assistencial, por exemplo, a entrada de Marcelo
espaço público: dinâmicas 9
e transformações nas rela- letivas . Embora não estivessem evidentes os Crivella na política, pelo menos em discurso,
ções cotidianas urbanas”. contornos da proposta de paz desejada dentre inferiu uma postura mais conciliatória e mais
140 aberta à interlocução com outras instituições so” aparece no espaço público em seu perfil
11 12
religiosas. Segundo Crivella , todas desem- contemporâneo : plural, muitas vezes ex-
penham um papel crucial no “combate às clusivista, em tensão entre si e em relação a
Comunicações do ISER

desigualdades, distribuição de renda, fazer temas que atingem a sociedade mais ampla.
bons programas sociais, levar uma solução As formas de exercício da religiosidade extra-
para o programa de segurança”. Apesar de en- polam os espaços construídos e identificados 11 Entrevista veiculada
no Programa “Passando a
fatizar a importância do vínculo entre todas as como “apropriados” às práticas religiosas. O
Limpo”, da Rede Record,
religiões, ele postula que as igrejas evangélicas “religioso” está em evidência, se manifesta em em 26/01/2003. Programa
são as que mais possuem condições para atuar diferentes espaços e situações: matérias de jor- de entrevistas apresentado
por Boris Casoy. Ao final
nesse campo, pelos melhores resultados na nais, pichações em muros, adesivos nos carros,
da entrevista, o apresenta-
reversão de problemas com drogas, alcoolismo camisetas com frases bíblicas, fotografias de dor buscou desvincular a
(MARIZ, 1994) e crimes. Ressalta, ainda, que a santos, orixás, Jesus Cristo, Buda, deuses in- entrevista concedida pelo
bispo Marcelo Crivella
Igreja Católica pode ser considerada uma Igre- dianos, entre outras. Em termos institucionais,
de qualquer relação com
ja Evangélica, pois segue o mesmo Evangelho. está também nos debates e decisões políticas, a direção da emissora,
A postura conciliadora do bispo Crivella e sua nos embates públicos, na adesão, rejeição ou declarando ter entrevis-
tado o Senador e não o
consequente entrada na política evidenciam adequação aos valores hegemônicos.
Bispo, mas lembrando que
não apenas uma característica individual. Ele a Rede Record pertence à
pode ser considerado um porta-voz de sua O estabelecimento de um “código de condu- IURD.
12 A importância da
igreja, veiculando uma determinada imagem. ta” que possa regular as conversões dentro do
discussão sobre seculari-
Para tanto, acena para a prática do diálogo campo cristão está sendo discutido pela Igreja zação e dessecularização
como estratégia positiva. No entanto, o bispo Católica e pelo Conselho Mundial de Igrejas, para a compreensão do
fenômeno religioso não
Crivella é apenas um dos exemplos de um perfil com recente adesão da Aliança Evangélica Mun-
está sendo esquecida aqui.
mais conciliatório e negociador que começa a dial. Pretende-se que o código esteja pronto em O debate é caro para o
13
ser adotado pela IURD, embora a relevância 2010 . Pelo menos duas dimensões estão sendo entendimento dos en-
trelaçamentos e tensões
do embate, do conflito e das acusações mútuas consideradas nesse projeto: evangelização e
entre o laico e o religio-
em sua trajetória não deva ser descartada, uma competição dentro do próprio campo cristão; so. Proponho considerar
vez que descontinuidades e mudanças estão e evangelização, competição e contato com esse debate como pano
de fundo sociológico da
presentes neste processo (GOMES, 2004). outras religiões. É notória a preocupação com
intricada questão do diá-
o intenso trânsito religioso, marcado especial- logo inter-religioso. (Ver
Os encontros — como embate ou comunhão — mente pelas conversões às igrejas pentecostais, WEBER, 1980; BERGER,
1973; 2001; MARIZ, 2001;
são intensos. Há sempre um outro convivendo, tanto pela Igreja Católica como pelas Igrejas
entre outros)
interagindo e se opondo nos diversos espaços Protestantes. O tema já foi bastante explorado 13 Será oportuno que
sociais, desde os que comportam interações por diferentes análises das ciências sociais. Vol- o tema escolhido para
a Campanha da Frater-
sociais mais íntimas, como a casa (pensada ta-se aqui à dinâmica indivíduo-instituição, na
nidade de 2010 seja o
como local da família e do privado), aos que qual se apresenta o problema da transmissão ecumenismo, decisão co-
extrapolam esses limites, localizados no espaço — herança ou atribuição — religiosa, que tem memorada pelos demais
integrantes do CONIC
público. Nestes, os conflitos ganham maior re- sua força tolhida pela preeminência da esco-
- Conselho Nacional das
levo, pois explicitam publicamente os embates lha, premissa necessária no âmbito dos valores Igrejas Cristãs do Brasil
por legitimidade e autenticidade. Por outro modernos (WEBER, 1992). (www.lei9840.com.br/im-
pressao.php?op=pagina&
lado, os posicionamentos das instituições
subop=2095, acesso em
religiosas — que se refletem nas atitudes dos No Brasil, por exemplo, os dados do Censo 13/10/2007). Além da
respectivos membros — são confrontados com 2000 confirmam o crescimento evangélico, Igreja Católica Apostóli-
ca Romana, compõem o
dinâmicas sociais abrangentes. fenômeno também vastamente analisado,
CONIC: Igreja Ortodoxa
mas que ainda interessa trazer à baila. Pondo Siriana, Igreja Cristã Re-
Considerações inconclusas: tensões em destaque o campo protestante (dividido formada, Igreja Episcopal
Anglicana do Brasil, Igreja
entre o exclusivo e o inter-religioso em evangélicos de missão e evangélicos pen-
Evangélica de Confissão
tecostais), verifica-se o predomínio das igrejas Luterana no Brasil e Igreja
Chama a atenção o modo como o “religio- pentecostais em termos numéricos: a Assem- Presbiteriana Unida.
bleia de Deus é a primeira, com quase oito embora elas não sejam de todo impraticáveis. 141
milhões e meio de integrantes; a Congregação Analisando a notícia: duas imagens de santos
14
Cristã vem em seguida, com cerca de dois mi- foram queimadas em culto da IURD. O fato

mir
lhões e quinhentos mil membros; e a IURD está ocorreu em São Borja, um dos “Sete Povos das
na terceira posição, com dois milhões e cem mil Missões”. Eram objetos registrados como inte-
membros. Consequentemente, a conversão é um grantes da história missioneira, sob os cuidados
tema preponderante nas possíveis análises decor- de uma família. Consta que a família cuidava
rentes desses dados, que impactam as relações de oito imagens que estavam em uma capela
estabelecidas entre as instituições. A tentativa de incendiada em meados do século passado. De
formular um código de conduta, ao menos dentro geração em geração, foram cuidadas e mantidas
do campo cristão, pressupõe homogeneidade e em sua originalidade. Com o pluralismo reli-
aceitação — conceitos tão fluidos e genéricos com gioso entrando na família, décadas depois, os
o de paz. O controle do proselitismo é proposto significados históricos e afetivos em relação às
por quem se sente atingido. Nesse caso, trata-se imagens se transformaram. Perderam lugar nos
de “controlar o outro”. Cabe frisar que parte das oratórios familiares, outros significados e valores
instituições não está filiada ao Conselho Mundial lhe foram atribuídos. Passaram a significar ido-
de Igrejas, ou possui simpatia em relação à Igreja latria, presença do maligno. Sua destruição pelo
Católica. Rechaça o ecumenismo. O diálogo não é fogo foi solicitada para que a cura se realizasse.
percebido como interlocução positiva, mas como A detentora dos cuidados do santo desejava
tentativa de intervenção hierárquica. agora a cura de seu marido, e recorreu à Igreja
Universal. O marido morreu e os santos foram
A princípio vislumbra-se, em termos muito am- queimados. Para além da dor familiar, o fato foi
plos, o que ocorre na primeira cena: católicos e registrado como injúria ao patrimônio. Poderia
assembleianos pelo menos compartilhando o ter passado despercebido, caso não tivesse afeta-
mesmo espaço sagrado; embora a rejeição ao do o patrimônio público.
ecumenismo esteja clara no discurso que afir-
ma as distinções: o lugar é partilhado, mas os Montero (2006) lembra que, no caso brasilei-
cultos, não. O exemplo da “adoção dos santos” ro o “processo de diferenciação das esferas”
também está nesse horizonte: não se quebra o — Religião e Estado — não retirou as religiões do
santo por afetividade, passando o cuidado para espaço público. De fato, segundo a autora — e
quem deseja preservá-la. Essas são resoluções concordando com seus argumentos — emergiram
locais, encompassadas pelas relações mais pró- “novas formas religiosas, com expressão pública
ximas inscritas no cotidiano, que não refletem variável conforme o contexto e as suas formas
as orientações institucionais. específicas de organização institucional” (2006:
50). Tal variação pode ser identificada nas mais
Ao finalizar este artigo, uma breve notícia veicu- diversas estratégias de evangelização adotadas, nas
lada pelo jornal O Estado de São Paulo chama posições políticas assumidas, nas reações e inter-
14 A Assembleia d e
Deus e a Congregação minha atenção: “Pastor queima imagens sacras pretações dos ditames do Estado laico. Onde fica
15
Cristã são as primeiras protegidas pelo Iphan” . Essa notícia ilumina a o diálogo inter-religioso nesse campo de disputa
igrejas pentecostais ins-
discussão. Não pretendo desconsiderar os confli- por legitimidade e de delimitação de fronteiras? A
taladas no Brasil, ainda
no início do século XX, tos que surgem em termos de entrecruzamentos paz difusa e genérica é suficiente para romper com
e com características e de trajetórias individuais, onde as possibilidades a distância entre os diferentes posicionamentos
investimentos distintos
de ajustes e acomodações são múltiplas, mesmo institucionais, nos quais emergem dinâmicas
em suas estratégias de
expansão. (ROLIM, 1985; em situações que envolvem conversões a con- contrastivas e em disputa?
FRESTON, 1994). fissões fundamentalistas (cf GOMES, 2006).
15 h t t p : / / w w w. e s t a -
Em se tratando de relações institucionais — e Referências Bibliográficas
dao.com.br/geral/not_
ger67363,0.htm (acesso porque não dizer, de relações de poder — torna-se
em 19/10/2007) mais arriscado contar com possíveis mediações, _________________. (2007), Em tempos
142 de ecumenismo imagens sagradas são retiradas crário original. Pessoa, família e religiosidade”.
dos altares. Disponível em URL: http://www. Religião e Sociedade, v. 26, nº 2: 41-57.
portaldoanjo.com/templo.htm. DUARTE, Luiz Fernando Dias. (2006),
Comunicações do ISER

“Ethos privado e modernidade: o desafio das


_________________. (2007), Pastor queima religiões entre indivíduo, família e congrega-
imagens sacras cadastradas no IPHAN. Dis- ção”. In: L. F. D. Duarte; M. L. Heilborn; M.
ponível em URL: http://www.estadao.com. L. Barros; C. Peixoto (orgs.). Família e religião.
br/geral/not_ger67363,0.htm. Acesso em Rio de Janeiro: Contracapa.
19/10/2007.
DUARTE, Luiz Fernando Dias; JABOR, Julia-
BASTIDE, Roger. (1971), As religiões africa- na de Mello; GOMES, Edlaine Campos;
nas no Brasil. São Paulo: Pioneira,.
LUNA, Naara. (2006), “Família, repro-
BELLAH, Robert. (1993), "Civil Religion in dução e ethos religioso: subjetivismo e
America" In: J. C. Alexander. & S. Seidman naturalismo como valores estruturantes”.
(eds). Culture and Society. Contemporary debates. In: In: L. F. D. Duarte; M. L. Heilborn; M. L.
Cambridge: Cambrige University Press. Barros; C. Peixoto (orgs.). Família e religião.
Rio de Janeiro: Contracapa.
BERGER, Peter. (1973), Um Rumor de Anjos.
A sociedade moderna e a redescoberta do sobre- FERNANDES, Rubem César (et al.). (1998),
natural. Petrópolis: Vozes. Novo Nascimento: os evangélicos em casa, na Igreja
e na política. Rio de Janeiro: Mauad.
BERGER, Peter. (2001),“A desseculariza-
ção do mundo: uma visão global”. Religião GIUMBELLI, Emerson. (1997), O cuidado
e Sociedade, 21(1): 9-24. dos mortos: uma história da condenação e legiti-
mação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo
BIRMAN, Patrícia. (1996), “Cultos de Nacional.
possessão e pentecostalismo no Brasil:
passagens”. Religião e Sociedade, v. 17, nº GIMBELLI, Emerson. (2007), “Um projeto
1-2. Rio de Janeiro: ISER. de cristianismo hegemônico”. In: W. G.
Silva (org.). Intolerância Religiosa: Impactos do
BIRMAN, Patrícia. (2004), “Movimentos Neopentecostalismo no campo religioso Afro-bra-
cívico-religiosos no Rio de Janeiro e alguns sileiro. São Paulo: Editora da Universidade
de seus impasses: o caso do Mural da Dor”. de São Paulo.
In: P. Birman & M. P. Leite (orgs.). Um Mural
para a Dor: movimentos cívico-religiosos por justiça GOMES, Edlaine de Campos. (2004), A
e paz. Porto Alegre: Editora UFRGS. era das catedrais da IURD: a autenticidade em
exibição. Rio de Janeiro: Tese de doutora-
CARNEIRO, Edson. (1984), As religiões ne- mento em Ciências Sociais, Universidade
gras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,. do Estado do Rio de Janeiro.

CONTINS, Márcia. (1995), Tornando-se GOMES, Edlaine de Campos. (2007), “A


pentecostal: um estudo comparativo sobre pen- exposição da dor: movimentos cívico-reli-
tecostais negros nos EUA e no Brasil. Rio de Ja- giosos por justiça e paz”. Religião e Sociedade,
neiro: tese de doutoramento, Universidade v. 27, nº 1:193-197.
Federal do Rio de Janeiro.
GOMES, Edlaine de Campos. (2006), “Fa-
DUARTE, Luiz Fernando Dias. (2006), “O sa- mília e Trajetórias Individuais em Contexto
Religioso Plural”. In L. F. D. Duarte; M. L. nos discursos e práticas de católicos da libertação 143
Heilborn; M. L. Barros; C. Peixoto (orgs.). Fa- e católicos carismáticos. Rio de Janeiro: Tese de
mília e religião. Rio de Janeiro: Contracapa. Doutoramento em Ciências Sociais, Univer-

mir
sidade do Estado do Rio de Janeiro.
GOMES, Edlaine de Campos; Natividade,
Marcelo Tavares. (2006), “Para além da MONTERO, Paula. (2006), “Religião, plu-
família e da religião: segredo e exercício ralismo e esfera pública no Brasil”. Novos
da sexualidade”. Religião e Sociedade, v. 26, Estudos, nº 74.
nº 2: 41-57.
NATIVIDADE, Marcelo T. (?), “Homossexuali-
GOMES, Edlaine C.; CONTINS, Már- dade, gênero e cura em perspectivas pastorais
cia.(2007), Autenticidade e Edificações Religio- Evangélicas”. RBCS, nº 61, v. 2: 115-132.
sas: comparando carismáticos católicos e neopen-
tecostais. Rio de Janeiro, mimeo. OLIVEIRA, Eliane Martins. (2005), “Olhares
sobre o mundo do interior: confrontando
JACOB, Cesar Romero et al. (2003), Atlas representações imagéticas da cidade de
da filiação religiosa e indicadores sociais no Bra- Cachoeira Paulista realizadas pela Comu-
sil. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: nidade Carismática Canção Nova com as
Loyola. veiculadas pelo Instituto Nacional de Pes-
quisas Espaciais (INPE)”. Anais I Congresso
LEITE, Márcia Pereira. “As mães em Latinoamericano de Antropologia, 2005.
movimento”. In: P. Birman & M. P. Leite
(orgs.). Um Mural para a Dor: movimentos SANCHIS, Pierre. (1994), “Pra não dizer
cívico-religiosos por justiça e paz. Porto Alegre: que não falei de sincretismo”. Comunicações
Editora UFRGS. do Iser, nº 45: 4-11.

LUCAS, Peter. (2004), O Mural da Dor e a SÉMAN, Pablo. (2000), A “fragmentação do


ética da memória. In: P. Birman & M. P. Lei- cosmos”: um estudo sobre as sensibilidades de fiéis
te (orgs.). Um Mural para a Dor: movimentos pentecostais e católicos de um bairro da Grande
cívico-religiosos por justiça e paz. Porto Alegre: Buenos Aires. Porto Alegre: Tese de de Dou-
Editora UFRGS. toramento em Antropologia Social. Univer-
sidade Federal do Rio Grande do Sul
MAGGIE, Yvonne. (1992), Medo do feitiço:
relações entre magia e poder no Brasil. Rio de SILVA, Vagner Gonçalves da. (2007), “En-
Janeiro: Arquivo Nacional. tre a gira de fé e Jesus de Nazaré: relações
socioestruturais entre Neopentecostalismo
MARIZ, Cecília Loreto. (2001), “Seculariza- e Religiões Afro-brasileiras”. In: Intolerância
ção e dessecularização: comentários a um Religiosa: Impactos do Neopentecostalismo no
texto de Peter Berger”. Religião e Sociedade, campo religioso Afro-brasileiro. São Paulo:
vol. 21 (1): 25-39. Editora da Universidade de São Paulo.

MARIZ, Cecília Loreto & MACHADO. WEBER, Max. (1992), A ética protestante e o
(1998), “Maria das Dores Campos. Mu- espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira.
danças recentes no campo religioso brasi-
leiro”. Antropolítica, nº 5: 1-106. *Edlaine de Campos Gomes é doutora em Ciên-
cias Sociais pela UERJ e pesquisadora do Centro de
MARTINS, Andrea D. (2004), Experiências Estudos da Metrópole/CEBRAP.
religiosas: um estudo sobre mística e autonomia
144
Política, conversam, articulam-se e mobilizam os segmen-
tos sociais com os quais trabalham em favor da
Espiritualidade transformação social. Membro do Movimento
Comunicações do ISER

e Dádiva Inter-religioso do Rio de Janeiro — MIR/ISER de


2000 a dezembro de 2003, fui seu único represen-
Evandro Vieira Ouriques
tante que não pertencia a uma tradição espiritu-
A urgência de refazer o al, mas à Academia. O presente artigo é feito sob a
pensamento e a ação social perspectiva nova de uma economia psicopolítica
da comunicação, que venho constituindo como
“Estava escondido em seu avesso. urgente inovação no diálogo inter-religioso, na
Estava lá. formação de redes sociais, políticas públicas
Meu olho cego não via. Agora vê. sociais e responsabilidade socioambiental. No
Os milagres são simples assim. mestrado, investiguei doze mil jornais de trinta e
-Banais?- Banais. três países do mundo, confirmando a existência
Mas o olho que não via de um padrão geométrico transcultural que mos-
agora sabe o quê”. tra a macrotendência da consciência humana na
direção efetiva ou simulada do afeto. No douto-
(AMARAL, 2006: 55) rado criei um novo modelo de comunicação e
cultura com base nos estados mentais-chave das
tradições espirituais e do pensamento científico
“(...) não há provas da existência do amor complexo e sistêmico.
para quem nunca esteve apaixonado e
se contenta a observar cientificamente o Introdução
intercâmbio sexual.
A dádiva é uma reflexão a partir Meu interesse pelas tradições espirituais veio
da experiência. de uma longa caminhada em busca da fonte
É preciso partilhar essa experiência para do sentido, pela dimensão que seria capaz de
que a reflexão tenha sentido. sustentar a sociabilidade diante das imensas e
(...) A observação de um fenômeno do aberrantes agressões que ela vem sofrendo, há
exterior não apenas modifica o fenômeno muito tempo, tanto do ponto de vista psíquico
(Heisenberg), quanto político, e em sua relação com o que se
como também geralmente o faz decidiu nomear natureza. Procurei-a, por exem- 1 No sentido proposto
desaparecer”. plos, na sociologia, na antropologia, na ciência por Edgar Morin de religa-
ção de saberes.
política, na cultura alternativa, no pensamento
2 Faço isto movido
(GODBOUT, 1999:254) taoísta, no jornalismo, na comunicação, na arte, pela alegria e pela gra-
na filosofia, nas ciências da informação, no pen- tidão por tudo que me
aconteceu durante os anos
Reúno aqui meu percurso pessoal com minha samento hindu, no budismo, nas montanhas,
em que atuei diretamen-
trajetória de construção de um estatuto teórico na psicologia profunda, nas tradições africanas te no MIR - Movimento
e de uma metodologia-processo para a transfor- e indígenas, na psicanálise, na orgonoterapia. Inter-religioso do Rio de
Janeiro, no qual represen-
mação de mentalidades. A intenção é que sejam tei a academia de 2000 a
capazes de superar a visão dualista política/es- Neste artigo investigo como a dimensão polí- dezembro de 2003. Para
piritualidade, bem como o consequente fato tica e a dimensão espiritual tratam a possibi- esta edição comemorati-
va dos 15 anos do MIR,
de que indivíduos, grupos, redes, movimentos lidade de sustentar a sociabilidade, e porque e
1 concedi uma longa uma
e organizações —, divididos entre o poder, en- como é possível religar esses dois campos de entrevista ao ISER sobre
quanto especificidade da autonomia humana; e saber que, separados, têm produzido muitos minhas relações com o
2 movimento. A entrevista
a dádiva, enquanto metáfora das tradições espi- totalitarismos. Nesta tarefa arriscada , movo-
cresceu tanto que acabou
rituais — apresentam atitudes antidemocráticas, me em meu campo transdisciplinar, o da por transformar-se no
insustentáveis e não-dialógicas na maneira como Comunicação e da Cultura. presente artigo.
A questão ‘condições’. Ora, essa questão do ‘condiciona- 145
mento’ do homem” — e do ‘descondicionamento’,
6
Como sabemos, na dimensão política o desafio seu corolário bastante negligenciado no Ocidente

mir
continua a ser “libertar o homem da desgraça — “constitui o problema central do pensa-
da exploração econômica e da escravização mento indiano. A partir das Upanisad a Índia
social e política” (CHOMSKY, 2004: 41). Por não tem se preocupado seriamente a não ser
exemplo, a maneira como as corporações são com um só grande problema: a estrutura da
controladas, de cima para baixo e em segredo condição humana” (ELIADE, 1997:11).
privado, e sem interferência do Estado — con-
siderado o vilão da economia, apesar de ser o Prosseguindo com Eliade, “(...) bem antes da
financiador e o avalista da privatização dos psicologia profunda, os sábios e ascetas india-
lucros e da socialização das perdas geradas pela nos foram levados a explorar as zonas obscuras
transcendental “mão invisível” —, contradiz os do inconsciente. Eles haviam constatado que
3
princípios básicos de qualquer democracia : os condicionamentos fisiológicos, sociais,
transparência, controle público, justiça social, culturais, religiosos, eram relativamente fáceis
equidade econômica e segurança ambiental. de serem delimitados e, em consequência, con-
trolados; os grandes obstáculos [...] surgiam da
É esse quadro de ausência de interesse pelo atividade do inconsciente, dos samskara e das
outro, de generosidade, de solidariedade, de vasana, ‘impregnações’, ‘resíduos’, ‘latências’
3 Isto sem falarmos sentido de interdependência sistêmica e de que constituem aquilo que a psicologia pro-
dos intensos problemas naturalização dessas atitudes psicossociais funda designa como conteúdos e estruturas
inerentes à própria iddia
que gera a necessidade de políticas públicas do inconsciente” (id.:12).
da democracia. No Brasil, 4
no entanto, a ainda recente sociais . Tal conceito evidencia a gravidade e
experiência democrática é a oportunidade da situação, pois falar políticas Vistas em síntese as dimensões política e espi-
um grande avanço face aos
públicas sociais implica em aceitar a aberração de ritual, podemos agora compreender que, em
anos de regime militar. As
críticas inerentes ao regime que existam políticas que não sejam públicas termos comunicacionais e culturais — o campo
democrata ainda demora- e, muito menos, sociais. O conceito, repito, em que ocorre a política e a espiritualidade, na
rão a estar na pauta.
implica em que os direitos à assistência, garan- medida em que a vida é apenas um campo de
4 M a n t e n h o d e s d e
2007/1, na Escola de Co- tidos pelo Estado previdenciário, tenham sido comunicação (OURIQUES, 1992) —, André
municação da UFRJ, o substituídos pela esmola e pelo patrocínio, Mattelart deixa claro o desafio que deve ser
curso de extensão e disci-
que recuam a cada experiência econômica enfrentado: “A era da chamada sociedade
plina JPPS-Jornalismo de
Políticas Públicas Sociais, denominada “crise”, quando, em verdade, de da informação é também a da produção de
realização do NETCCON - “crise” ela nada tem, uma vez que é apenas o estados mentais. É preciso pensar de maneira
Núcleo de Estudos Trans-
resultado matemático da ganância por mais diferente, portanto, a questão da liberdade e
disciplinares de Comuni- 5
cação e Consciência, em concentração de interesse e poder . da democracia. A liberdade política não pode
convênio com a ANDI se resumir no direito de exercer a própria
- Agência de Notícias dos
Já na dimensão espiritual e filosófica, o de- vontade. Ela reside igualmente no direito de
Direitos da Infância. Ver
territoriojpps.ning.com e safio também persiste: o descondicionamento dominar o processo de formação dessa vonta-
http://sites.google.com/site/ do homem. De superar, inclusive, seu hábito de” (MATTELART, 2003:187).
cursojpps/home
5 Como, em 2008, o
patriarcal de denominar-se apenas por um dos
estouro da bolha do sub- gêneros (TARNAS, 2002). Como diz Mircea Portanto, vistas essas três dimensões, temos
prime, que parece ser uma Eliade, “é a condição humana que constitui uma confluência de desafios e oportunidades
“maldição” sobre a cabeça
o objeto da filosofia européia mais recente, e que demanda a superação do regime de servidão.
das pessoas, mas em ver-
dade é bem simples e já sobretudo a temporalidade do ser humano; é Da servidão política, econômica e social, da
7
vinha sendo comentado a temporalidade que torna possível todos os servidão religiosa e da servidão comunicacio-
há três anos, como mostra
outros condicionamentos e que, em última nal e cultural. Deste regime enfim psicossocial,
Ladislau Dowbor (2008).
6 O grifo é meu. instância, faz do homem um ‘ser condicio- que naturaliza que “talvez a verdade resida no
7 Ver BIRMAN, 2006. nado’, uma série indefinida e evanescente de conceito de que é mau matar por divertimento,
146 mas não sacrificar as formas mais baixas da risco do desaparecimento da confiança, que é
8
vida para o serviço das mais altas” (TESOURO a base do diálogo (isto é, como bem colocou
DA JUVENTUDE, 1958, vol. 07:303). Marcio Tavares d’Amaral, a base da experiência
Comunicações do ISER

de comunicação, que é da ordem do amor, da li-


Foi no processo de aprofundar e incorporar berdade, do inesperado, e não da experiência de
essa maneira de perceber e agir que me tornei informação, que é da ordem do convencimento,
membro do MIR. A via de saída desse regime da sedução, da manipulação do outro). E sem
psicossocial se dá pelo resgate do princípio da diálogo não é possível haver transparência.
autonomia e da criatividade, portanto da vontade,
aplicada ao fortalecimento dos valores comunais, Portanto a dádiva é, para mim, o ponto de
aqueles que garantem a sociabilidade, uma vez encontro entre a política e a espiritualidade, na
que empregam os princípios a um só tempo ri- medida em que as tradições espirituais falam
9
zomáticos e arbóricos de organização dos pro- — cada uma a sua maneira e de forma direta
cessos vivos (como os das redes sociais, tão bem ou indireta — que este mundo em que vivemos
demonstrados por Humberto Maturana). é o resultado de um encantamento, de uma
magia, de um ato de amor, de um milagre,
E é justamente desses valores que fala a me- em suma, da dádiva. Que para os Teístas, por
táfora da religião. Ou seja, a possibilidade exemplo, provém da criação divina; para os
da comunhão, do encontro, da inocência, da taoístas, do princípio criativo da mutação; e
dádiva, da “simulação ou afetação do inefável” para os budistas, da impermanência.
(GODBOUT, 1999:11), esse outro nome da
generosidade, das políticas públicas sociais, da Ter a dádiva como a referência para a ação
responsabilidade socioambiental, uma vez que no mundo e, portanto, agir politicamente
“diferentemente do mercado, a magia da dádiva com base nela e não no interesse no poder
não funciona a não ser que as regras permane- autorreferenciado, é uma tarefa titânica, já
çam não-formuladas. Assim que são enunciadas, que “assumir a modernidade (ou a pós-mo-
a carruagem volta a ser abóbora, o rei fica nu e a dernidade) significa, antes de tudo, confessar
dádiva vira equivalência” (id.:13) contábil. a inexistência ou a inconsistência da dádiva.
‘Somente acreditarás na dura realidade, mas
Daí vem a força da religião, na medida em que lutarás para não sucumbir às miragens e às 8 A célebre coleção
a teoria social ainda não foi capaz de dar conta tentações da dádiva’” (GODBOUT, 1999:12). Tesouro da Juventude, re-
ferência clássica nos anos
da ampliação da sociabilidade. Como disse 50 e 60, editada no Brasil
em outro artigo, sem dúvida Eugênio Trias É desse bravo esforço que precisamos para su- pela William Jackson, que
— insuspeito de qualquer deslize metafísico, perar os fundamentalismos de todas as ordens, tinha filiais no Rio, São
Paulo, Porto Alegre e Re-
que também não é a minha orientação, mas inclusive os econômicos, sociais, políticos, cife, uma enciclopédia de
por uma razão bem distinta da dele, uma vez psíquicos e mentais. Pois como funciona o sequências mentais em ge-
que utilizo a epistemologia não-dualista — está consumo, senão pelo deslocamento de alguns ral insustentáveis, aniun-
ciava-se como “reunião
certo ao afirmar, de forma contundente, que a atributos da dádiva (excedente, aparecimento, de conhecimentos essen-
“razão proclamada pelos nossos avós esclareci- inesperado, desperdício, criação) para os pro- ciais, oferecidos de forma
dos foi cega (…) [aos] substratos religiosos que dutos e serviços? adequada ao proveito e
entretenimento das crian-
hoje surgem com uma força e vigor inusitados” ças e dos adolescentes”. O
(TRÍAS, 1997: 115). Trata-se de operação complexa, difícil e muito verbete ao qual me refiro
exigente. Mas o resultado é aquele em que aqui é sobre o consumo
de carne, que apresenta
Concordo com Gianni Vattimo quando ele lucro é sustentabilidade. Pois, se precisamos como visto uma sequência
atribui esse regresso à “ameaça de certos ris- aproximar a política da espiritualidade, se mais facilmente transponível
cos gerais que nos deparam como inéditos e não for dado ao crescimento dos tenebrosos para o nível social.
9 Refiro-me ao con-
sem precedentes na história da humanidade” e crescentes fundamentalismos religiosos ceito como usado por
(VATTIMO, 1997: 96-97). Ou seja, digo eu, ao e para-religiosos (como os do consumo, do Deleuze e Guattari.
produtivismo e da tecnologia como deuses ex ber a relação de dívida como algo unicamente 147
machina), estou propondo tornar compatível negativo, algo de que devemos nos livrar, visão
o que até aqui tem sido contraditório. característica do mdelo mercantil. Não raro, a

mir
dádiva é a dádiva-veneno em psicanálise” (id).
Por isso todo o meu trabalho é a compatibili-
zação dos contraditórios. Agora comento dois Não poderemos, portanto, ter política e es-
deles, aos quais voltarei ao longo deste artigo: piritualidade que sejam públicas e sociais se
não aceitarmos a renúncia aos objetos e aos
1. Para que seja possível colocar a dádiva seres, pois o exercício da renúncia “é conhecer
em andamento no mundo; para que exista a a criação e a renovação que essa experiência
possibilidade da política enquanto pública e oferece; é, finalmente, o aprendizado da morte.
enquanto social; a possibilidade da espiritu- E da dádiva” (id).
alidade enquanto encarnada, da cidadania
espiritual, como é tão caro para André Porto, Ora, se a maneira como vivemos — que é cien-
precisamos entender que “em toda dádiva se tificamente insustentável, tanto social quanto
encontram duas ideias contraditórias: ambientalmente — foi instalada pela operação
mental realizada na Grécia, segundo a qual
a) a ideia de aceitação da perda, de sua filosofia é a ruptura do continnuum do processo
sublimação, do desapego voluntário em natural (por isto a Cultura seria radicalmente
relação aos objetos, da renúncia; distinta da Natureza, que retorna com a crise
10
como Meio Ambiente ), é legítimo afirmar
b) a ideia, ao contrário, do excedente, do que a revisão profunda do pensamento e da
aparecimento, do inesperado, do desperdí- ação social passa justamente pelo segundo
cio, da criação” (GODBOUT, 1999: 254). problema da filosofia.

Ou seja, trata-se de dominar o processo de for- Se o primeiro é a linguagem, que então se


mação da vontade, como recomenda Mattelart, suponha ser exclusividade humana, o que a
e a profundidade das tradições espirituais (na ciência emergente vem mostrando não ser
medida exata em que elas estão livres de suas verdade absoluta, o segundo é a morte. Claro,
instituições autorreferenciadas pelo interesse pois essa é a permanência da Natureza na Cul-
e poder), de maneira a não ser possuído pela tura. Trata-se, dessa forma, da morte de uma
vontade de ter, uma vez que “essas duas idéias, maneira de pensar e de agir. E isso se faz com
conjuntamente, são inaceitáveis para o pen- muita determinação, disciplina e capacidade
samento moderno. A perda só pode ser uma de suportar o fogo da transformação. É pre-
maneira de se deixar enganar num negócio, ou ciso perder a ideia-mãe da impossibilidade
então em uma maneira de se deixar explorar. A de compatibilizar os contraditórios tanto da
criação é também impossível. Porque somente a dádiva (perder é ganhar) quanto da separação
11
produção existe, e toda produção é reprodução entre vida pessoal e social e renunciar a essa
10 Estou escrevendo do mesmo, num processo onde nada jamais ideia-mãe para se tornar adulto.
no momento artigo sobre
aparece, salvo a mais valia e o lucro” (id).
esta rotação de conceitos,
pois Meio Ambiente é É essa transformação que permite o envolvi-
ainda resistência da Cul- Godbout, em seu livro extraordinário escrito mento cósmico e político, decisivo para que se-
tura em ver-se como um
com a colaboração de Allain Caillé, lembra que jam possíveis instituições sociais “ordenadas de
capítulo do que se chama
Natureza. “nas ciências humanas, somente a psicanálise tal forma que a autodoação [o outro nome para
11 É no sentido da cons- é sensível ao fato de que é preciso perder a da espiritualidade, do “espírito público” na política,
tituição de uma economia
mãe e renunciar a ela para se tornar adulto, das políticas públicas sociais e da responsabilidade so-
psicopolítica da comuni-
cação que venho traba- experiência essencial a todo ser humano. Mas cioambiental, digo eu] seja recíproca e irrestrita”
lhando. a psicanálise tem também a tendência a conce- (EAGLETON, 2005: 285), de maneira que seja
148 menos necessário o sacrifício, “no sentido abo- Egberto, que dedicou-se ao comércio. Ambos
minável de alguns terem de renunciar à própria deram-me sete sobrinhos. Ambos amam a
felicidade para o bem dos outros’ (id.). natureza, como eu.
Comunicações do ISER

Deixe-me, por gentileza, considerar meu pró- Minha avó materna, minha querida vó Fanica,
prio caso para ilustrar o que tenho em mente. a Dona Fanica, Estephania Fortes Vieira, pro-
fessora de piano, cedo dedicou-se, por inteira
Um percurso psicossocial e de forma abnegada, ao trabalho kardecista.
Foi por toda a vida a presidente espiritual do
“A melhor cura para o amor é ainda aque- Centro Espírita Guia Arthur, que criou na
le remédio eterno: amor retribuído”. década dos 50, e que chegou a ter uma escola
Friedrich Nietzsche. de ensino fundamental. Do ponto de vista
mediúnico, ela era o que se chama uma mé-
Aurora, Livro IV, 415. dium completa, dotada de todos os fenômenos
paranormais, com o quais convivi cotidiana e
Nasci em Niterói em 1949, primogênito de uma intimamente. Durante muitos e muitos anos
família que tem três filhos homens. Sou casado ela inclusive psicografava receitas homeopá-
com Estelita, tenho uma filha, Úrsula Mey, e um ticas de maneira gratuita, até que o Conselho
enteado, Gabriel. Fui criado em um ambiente Regional de Medicina impediu-a policialmente
por um lado intensamente espiritualizado e, ao de continuar essa prática, legitimada social-
mesmo, tempo marcado pelo tenso dualismo mente pelo imenso número de pessoas que
entre espiritualidade e matéria, vale dizer entre es- atendia durante anos e anos.
piritualidade e poder. Apenas muitos anos depois
pude perceber (e bem mais tarde incorporar, Para que se tenha uma rápida e melhor dimen-
quando adotei a epistemologia não-dualista) são de quem foi D. Fanica, registro que ela aju-
que esse dualismo era originário, em grande dou o Professor Hermógenes a criar o Núcleo
parte, do paradigma judaico-cristão, consequ- Espírita do Colégio Militar do Rio de Janeiro.
ência da máquina-de-fazer-dois que é o Ocidente, Muitas vezes, com quatro, cinco anos, etc., eu
como bem diz Marcio Tavares d’Amaral. a vi presidindo espiritualmente os trabalhos
do Núcleo, cercada de militares fardados. Por
Cresci em subúrbios de Niterói (Fonseca) e do sua vez, minha mãe ora seguia o Kardecismo,
Rio de Janeiro (Sampaio), sempre estudando a ora seguia a Umbanda, e meu pai percorreu
área de humanas e com vocação artística. Hoje os centros de mesa, inclusive o de minha vó,
vivo na Tijuca, filho de uma família de bons depois a Umbanda e acabou encontrando-se
princípios. Minha carinhosa mãe, Hormezin- no Candomblé, onde foi feito no Santo.
da Vieira Ouriques, dedicou-se a cuidar com
esmero de nós e já fez sua passagem. Meu pai, De minha parte, sempre perguntei a minha vó
Fernando Nunes Ouriques, firme e carioca da o que é esperado em quem nasce nesses am-
12
gema , fez por nós tudo o que lhe foi possível. bientes e tem a ascendência que tive no acesso
Aposentou-se como detetive-inspetor da Secre- a ela, qual seria a minha missão no mundo. Ela
taria de Segurança Pública do Estado do Rio de disse-me que sim, que eu tinha uma missão,
Janeiro, após uma longa carreira, basicamente mas que não era herdar o lugar dela no Centro
como corretor, motorista e policial. Formou-se e que um dia eu iria descobrir qual era. E isso,
em advocacia aos 59 anos. Hoje está com 86 anotem bem, dito ao neto que ela nominava,
e continua a trabalhar em uma cidade a cerca na frente de todos, como sendo seu predileto.
de 100 km do Rio, para onde viaja, dirigindo Descobri, talvez tarde demais, que essa atitude
ele mesmo. Meus irmãos: Everton, dedicou- dela era contra todas as recomendações básicas
se à publicidade e centrou-se em escalada; e de terapia familiar. 12 Nascido na Lapa.
O fato foi que me concentrei em estudar, o que ciências com afirmativas da inevitabilidade de 149
foi incentivado por alguns acontecimentos que a vida seria cruel, de que ser bom seria ser
duros, e o referido dualismo acabou, como bobo, de que não adiantaria trabalhar por um

mir
é comum. Ainda mais nos anos de chumbo, mundo diferente porque isso seria “utópico”
quando dirigia meu ódio contra o que entendia — uma “ingenuidade” como dizem os cínicos —,
ser a classe dominante, o que me fez ingressar uma vez que a vida sempre teria sido assim. De
no Instituto de filosofia e Ciências Sociais da que o homem sempre teria sido violento... que a
UFRJ, a princípio para ser sociólogo, mas — e aí sociedade seria eternamente o lugar da disputa,
é uma longa história que não cabe aqui — meu da luta política, uma vez que as pessoas seriam
interesse acabou levando-me da sociologia à incapazes de ir além de suas tendências de apego,
antroplogia e desta diretamente à questão do ódio, ignorância, vaidade, indiferença, etc.
poder, concentrando-me em ciência política.
É disso que está impregnada a educação, o sen-
O importante aqui é que sempre fui o que há so comum em geral, o pensamento científico
algum tempo chama-se de nômade, de híbrido. preponderante e a mídia, ainda mais nesta fase
Toda a minha formação e atuação é transdis- de mídia-mundo ( de acordo com Mattelart, de bios
ciplinar, sempre à busca da origem do sofri- mediático, quando a mídia é colocada no lugar
mento psicossocial e, hoje, de potencializar o da Vida - SODRÉ, 2002). É por isso que tive a
estatuto teórico e a metodologia operacional oportunidade de criar e mantenho, na UFRJ,
que constituí (inicialmente em 1992 e depois os cursos de Construção de estados mentais
em 2005) para superá-lo, em uma leitura pes- não-violentos na mídia (2005), Construção
soal de um complexo de conhecimentos de de utopias (2006) e Jornalismo de políticas
muitas e muitas áreas e épocas. públicas sociais, este desde 2007/1, em con-
vênio com a Agência de Notícias dos Direitos
Minha maneira de ser e pensar tem muito do da Infância - ANDI.
que disse o maravilhoso poeta Affonso Roma-
no Sant’anna (SANT’ANNA, 1998:162): Sempre percebi em mim um afeto muito intenso
a mover-me e a ligar-me com pessoas em distin-
“E diante da Catedral tas posições sociais. Mais tarde, em 1992, essa
confundo o espaço e os solos, foi a conclusão de minha dissertação. Descobri
não canto Bach nem Beethoven que o afeto é que sustenta os valores comunais,
mais pareço um nordestino aos quais me referi anteriormente, e sem os quais
durante um forró de Cristo, não haveria a sociabilidade. No entanto, a cada
cantando um baião de Handel proposta de criação de um futuro diferente,
com a fé na sola do pé. sempre ouvi, muitas vezes e cada vez menos nas
Calvinista propical, vozes dos memes dentro de mim; e quase sem-
misturo Lutero e frevos pre e também cada vez menos, ao meu redor, a
e sou um índio tamoio mesma argumentação de que o homem sempre
vestido de John Wesley. foi mau e violento, de que a política, sempre
Por pouco a nau da igreja “podre”, expressa as relações de poder e que os
não é nau catarineta valores professados pelos ideais humanistas e
e a euforia dos crentes pela espiritualidade não teriam lugar neste mun-
vira folia de reis.” do, até tendo em vista os horrores perpetrados
por religiões em nome de seus deuses.
De fato nunca me conformei com as ideias que
circulam em muitas famílias e grupos e que Como permanentemente senti em mim a potên-
são propagadas como conceitos-replicadores, cia do primado da autonomia e da criatividade, e
os chamados memes, que contaminam as cons- o mesmo no brilho nos olhos e o calor do abraço
150 de muitas pessoas, de certa forma nunca aceitei vale dizer pelo outro...), eu costumo perguntar a
esse conformismo — apesar de conhecer de perto razão pela qual aquela mesa está ali. De imediato
a vitimização, essa desculpa de quem quer que o fica claro que ela está ali porque alguém decidiu
Comunicações do ISER

mundo mude para que depois mudemos nós. colocá-la, alguém decidiu comprá-la, alguém
decidiu vendê-la, alguém decidiu produzi-la, al-
Desde os anos 60, em especial através do estu- guém decidiu criá-la. Ou seja, ela é uma projeção
do da história, das artes, da filosofia e da lin- mental. Apenas uma decisão mental. Esta sim, a
13
guística , começou a ficar claro para mim que rigor, objetiva, o lugar do poder, da política.
existiam padrões sistêmicos de pensamento e
que eram eles os responsáveis por determinar Humberto Maturana nos lembra que “as pa-
as relações sociais e econômicas. lavras são nodos de redes de coordenação de
ações, não representantes abstratos de uma
Política e religião se discutem, sim! realidade independente de nosso quefazer”.
Como ele diz, “as palavras que usamos não 13 Sou eternamente
Dentre esses padrões é gritante, por suas revelam apenas nosso pensar, mas projetam o grato aos professores e
funcionários do Centro
consequências para a compatibilização da curso do nosso quefazer”. Somos moradores da
Educacional de Niterói,
política com a espiritualidade e do pessoal linguagem, esse é o nosso habitat. É assim que, o colégio experimental
com o social, aquele nascido no pensamento ao expulsarmos a natureza da cultura, uma fantástico onde estudei
dos 12 aos 18, sob a di-
clássico, compartimentalizado e exponenciado operação mental, de linguagem, afirmando
reção da Profa. Myrthes
pela restrição às microrrealidades imposta que a natureza é ela, a outra, exterioridade de Lucca Wenzel O CEN,
pela pós-modernidade. Quase ao final de sua absoluta, e que existiria apenas para nos servir, da Fundação de Ensino
Secundário, foi um colé-
obra A Religação dos Saberes, Edgard Morin nós concretamente a expulsamos, como prova
gio experimental. Dada a
lembra que “o que é impressionante é que o a insustentabilidade socioambiental decorren- qualidade extraordinária
mundo hiperespecializado [o do pensamento te dessa, repito, operação mental. da experiência, a Profa.
Wenzel tornou-se a pri-
clássico compartimentalizado] impunha a
meira titular da pasta de
noção segundo a qual se deve evitar ter ideias É, portanto, no mínimo pela percepção grega Educação e Cultura do
gerais, porque elas são ocas, ao passo que ele — de que somos como somos porque decidi- Estado do Rio de Janeiro,
quando da fusão dos Es-
alimentava ideias ocas sobre o mundo, a vida, a mos ser o que somos quando rompemos lá
tados da Guanabara e do
humanidade, a sociedade, e alimentava a mais atrás com a Natureza — que sustento que não Rio de Janeiro, em 1975.
oca das ideias gerais: que não se deve ter ideias faz sentido, a não ser na dimensão patológi- Estudei lá entre os anos
14 62 e 68.
gerais” (MORIN, 2002:566). ca , atribuir ao Sistema, ao Capitalismo, à
14 Tenho um amigo e
Companhia, à Igreja, ao Conselho Tribal, ao eminente colega acadê-
Não é à toa que a política e as religiões, em gran- Condomínio, ao Partido, enfim, ao Outro, seja mico que recusa a pato-
logização do social, por
de parte, estão ambas movidas pelo fundamen- ele qual for, a responsabilidade pelos nossos
entender que essa visão
talismo do interesse e do poder autorreferen- atos e a qualidade de nossas vidas. Dentro abre espaço para que apa-
ciados. Por isso entendo que política e religião delas, a qualidade de nosso fazer político e reça um “médico” que
venha curar o mal, ou
se discutem, sim! Senão as discutirmos, de que espiritual. Muito menos, como se faz, devemos
seja, para que apareça um
falaremos, afinal? Se somos cultura, somos o responsabilizar a natureza pelo nosso compor- caudilho, um ditador de
que pensamos e, portanto, não há nada mais tamento apegado, ganancioso, interesseiro, plantão, um “salvador
da pátria”. O problema
concreto que o que pensamos e sentimos. brutal, vulgar e indiferente, uma vez que a cul-
desse pensamento, que
tura e a filosofia foram criadas, como a ruptura ele e tantos outros têm, é
Para aqueles que batem na mesa e dizem que a do continnuum do processo natural. que, de fato, precisamos
de um médico! Mas não
mesa é que seria concreta e que a mente é abs-
de um médico externo, e
trata, subjetiva (e observem que a pós-moderni- Portanto, desprezar a natureza como fizemos sim de autocurarmo-nos
dade caiu nessa armadilha dualista e procurou e responsabilizá-la pelos piores aspectos de psicossocialmente através
do domínio do processo
defender a subjetividade, enquanto a “pseudo- nossa economia psíquica, atribuindo-os a uma
de formação da vontade,
objetividade” da economia foi totalizando a suposta “natureza humana” realmente é patético. como recomenda André
humanidade no reconhecimento pelo capital, Seria até engraçado, se não fosse imensamente Mattelart.
trágico. Um exemplo: ao contrário do que se A questão dos estados mentais na 151
diz, o capitalismo não penetrou nas esferas mais política e na espiritualidade
íntimas da subjetividade. Ele sempre morou e

mir
mora nessas esferas, lado a lado com a solida- Por isso é muito mais frequente e comum
riedade, a responsabilidade individual, o amor, do que gostaríamos, como disse em outro
16
o discernimento, a criatividade, o dom, a abun- artigo , o fato de que indivíduos, grupos,
dância, a honra, a dádiva, com a gratidão. redes, movimentos e organizações apresentem
atitudes antidemocráticas, insustentáveis e
A questão é que, voltados para fora de nós não-dialógicas na maneira como conversam
mesmos e afirmando paradoxalmente a não- internamente, como articulam suas ações
existência desse fora, pois seria o lugar da intersetoriais e na forma como mobilizam os
transcendência, queremos resolver os proble- segmentos sociais com os quais trabalham em
mas sem reconhecer a efetiva força objetiva favor da transformação social. Seja transforma-
dos estados mentais, uma vez que qualquer ção social através do diálogo inter-religioso ou
aproximação da economia psíquica do sujeito da cidadania, da liberdade ou da democracia,
é entendida como psicologização do social. Já do respeito à diferença, das políticas públicas
Freud, por exemplo, advertia que “a oposição sociais, das intervenções em comunidades, da
entre psicologia individual e a psicologia social responsabilidade socioambiental, etc.
(…) perde muito de sua acuidade se a examinar-
mos a fundo” (FREUD, 1981: 123). Quando verificamos, ao longo da história, e
do presente, a extensão dos prejuízos causados
Ora, mesmo que o homem tivesse sido sempre por essas atitudes mentais para os movimentos
violento (o que não é verdade, como mostra de transformação social, posso afirmar que se
15
de forma magnífica Riane Eisler , afimando trata de uma alarmante pandemia no território
que a civilização cretense foi matricial, não- mental, esse conceito político que recentemente
violenta, organizada pelo prazer e não pela tive a oportunidade de cunhar. Pandemia que
dor e pela culpa) por que nos arvoramos a ser só pode ser superada pela religação dos saberes
a espécie mais inteligente do universo, se não sobre a sociedade com aqueles sobre a econo-
somos capazes de dominar a nossa violência mia psíquica dos indivíduos. Com a religação
bárbara e construir outro tipo de realidade? desses e dos outros saberes contraditórios que
Apenas por conta da nossa crença, da nossa mencionei, não em uma harmonia celestial,
fé-ciência, nossa ciência-fé fundamentalista, transcendental e colocada num fora absoluto ao
de que seríamos incapazes de fazê-lo. E de que qual só nos restaria adequarmo-nos, mas a reli-
esse comportamento violento não é de nossa gação aqui e agora, na observação disciplinada
estrita e única responsabilidade, como falei dos estados mentais, do vigoroso processo de
há pouco, mas de um outro, que em verdade formação da vontade, de maneira que a atitude
projetamos e transferimos justamente para a seja a condensação do que se fala.
Natureza. Vejam bem que contradição, sim,
essa mesma que abandonamos como sendo A desconexão entre essas dimensões é que faz
apenas para ser usada e, por isso, destruímos. tão frequente, na ação pela transformação
É evidente. Se é ela a causa, diz o meme, do social, o oposto dela: a traição, a manipulação,
nosso horror, como então amá-la, como res- a opressão, o fundamentalismo, o cinismo, a
peitá-la, como fazer com que nossa vida não soberba desmedida e deslavada, a violência, o
seja a morte dela? Se é ela que nos tira a dádiva autoritarismo, o roubo de projetos, a concen-
15 Ver, por exemplo, O da vida, como amá-la, se somos incapazes de tração de poder, a manipulação de assembleias
Cálice e a Espada, publi-
aceitar o contraditório da dádiva, a perda, a sua e reuniões, a vitimização, o esvaziamento da fala
cado pela Editora Palas
Athena. sublimação, o desapego voluntário em relação do outro, o nepotismo, o fluxo hierarquizado
16 OURIQUES, 2009. aos objetos, a renúncia? e cristalizado de informações, a não-escuta, a
152 mentira deslavada, a distorção do que é dito, a Isso foi difícil durante muito tempo, pois as
supressão de informações decisivas, a competi- pessoas comuns tendem a fechar-se em clubes
ção antiética por patrocínios, a perseguição e o e a rejeitar todos aqueles que não têm o mesmo
Comunicações do ISER

menosprezo dos “diferentes” em geral, etc. En- tempo de filiação. Hoje eu já estou acostumado
fim, a propagação do referido regime de servidão, e uso essa experiência como oportunidade de
no qual um sujeito transfere sua potência para exercício de minha compaixão por mim mes-
o outro, o que ocorre de maneira igualmente mo, sempre que me ronda, cada vez menos, o
intensa, pude constatar, na maioria das estru- meme da rejeição.
turas religiosas e inter-religiosas.
Costumo ouvir, por exemplo, que a transdisci-
Ser aquilo que se quer ver no mundo plinaridade, que abracei em termos acadêmicos
em 84, ainda não existe. Ora, claro que ela não
Trata-se, portanto, de colocar em movimento a existe para quem diz isso, pois passa a existir
proposta revolucionária de Gandhi, talvez uma na medida em que cada pessoa mergulhada
revolição (pois revolução da vontade, da volição), em uma disciplina específica é capaz de fazer
como defende Deodato Rivera: ser aquilo que o esforço supremo de desintoxicar-se daquele
se quer ver no mundo. Nos termos do que aqui mundo, derrubar os muros cartesianos que a
estou colocando, fazer vigorar nas atitudes o que cercam,e abrir-se a novas possibilidades, o que
se diz querer fazer vigorar na política e na espi- demanda coragem, risco e entrega.
ritualidade. E isso é o supremo ato de coragem.
O ato de descondicionar-se. Trata-se de erguer o olhar condicionado pela
página cartesiana do livro e da mídia para ver
Verifiquei e, entretanto, a verificá-lo agora, em o elefante que está na sala, pois toda a história
que escrevo a versão final deste artigo, a comple- de recusa às metanarrativas se deu em virtude
xidade dessa transformação, sobretudo ao olhar de que sabemos que “o microcosmo não é o
para mim mesmo. Não por mérito, mas por ser espelho de macrocosmo” (MORIN, 2002: 567).
questionado especialmente pelas mulheres com Porque, sim, o ser humano tem sua autonomia
quem vivi intimamente e com as que hoje vivo, e suas liberdades próprias, incapazes de serem
a minha esposa Estelita e a nossa filha Úrsula reduzidas de maneira arbitrária, “pois somos
Mey. Ao conviver e lidar com muitos grupos e filhos do cosmo, trazemos em nós o mundo
humanos e equipes radicalmente diferentes en- biológico, mas com e em nossa singularidade
tre si, dos políticos aos artistas, dos acadêmicos própria” (MORIN, 2002: 567).
ao povo de rua, dos espiritualistas ao executivos,
sou grato pela oportunidade de poder mover-me Como disse Terry Eagleton: “Com o deslanchar
cada vez mais na sociedade, tanto horizontal de uma nova narrativa global do capitalismo,
quanto verticalmente. junto com a guerra ao terror, pode muito bem
ser que o estilo de pensamento conhecido
Foi nessa busca por fazer vigorar a consciência como pós-modernismo esteja agora [2003] se
da generosidade, da comunicação efetiva (e não aproximando de um fim. Foi, afinal, a teoria que
do convencimento, que é sempre violento) e, nos assegurava que as grandes narrativas eram
assim ,do diálogo multicultural e inter-religioso, coisa do passado. Talvez sejamos capazes de vê-
das políticas sociais e da responsabilidade socio- lo, em retrospectiva, como uma das pequenas
ambiental, que acabei tornando-me cientista po- narrativas que ele próprio tanto apreciava. Isso,
lítico, jornalista, designer, gestor cultural, curador no entanto, propõe à teoria cultural um novo
de fotografia e de artes plásticas, conservador desafio. Se for para se engajar numa ambiciosa
de obras de arte, pesquisador, conferencista, história global, tem que ter recursos próprios
escritor, consultor organizacional, artista mul- adequados, tão profundos e abrangentes quanto
timídia, terapeuta de base analítica, etc. a situação que defronta. Não se pode dar o luxo
de continuar recontando as mesmas narrativas gurança —, mas a paz que conhecemos no útero 153
de classe, raça e gênero, por mais indispensáveis de nossas mães, no abraço de nossos pais.
que sejam esses temas. Precisa testar sua força,

mir
romper com uma ortodoxia bastante opressiva e O viver humano acontece, como mostra
explorar novos tópicos, inclusive aqueles perante Maturana (2004), sem risco de biologização
os quais tem mostrado até agora [...] uma timi- do social, em redes consensuais — coerências
dez excessiva” (EAGLETON, 2005: 297). comportamentais — de conversações, enten-
didas como o entrelaçamento da linguagem e
É ainda Eagleton quem mostra, de forma cris- do emocionar. É na vinculação, no exercício do
talina, em seu livro publicado originalmente no amor (base do biológico e do social) que os sis-
Reino Unido em 2003, Depois da teoria: um olhar temas vivos podem interagir recorrentemente
sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo: e suas ontogenias, se tornarem coontogenias
ou derivas estruturais coontogênicas, ainda de
17 Ver meu artigo sobre “Tem sido acanhada [a teoria cultural] com res- acordo com Maturana.
Comunicação, Espiritu- peito à moralidade e à metafísica, embaraçada
alidade e Negócios, que quando se trata de amor, biologia, religião e a Como disse uma vez Hannah Arendt, “a ques-
mostra que o que se está
procurando nos negócios, revolução, grandemente silenciosa sobre o mal, tão se a política ainda tem de algum modo um
quando se fala em espiri- reticente a respeito da morte e do sofrimento, sentido remete-nos necessariamente de volta
tualidade, é justamente o dogmática sobre essenciais, universais e funda- à questão do sentido da política; e isso ocor-
restabelecimento da con-
fiança como a base sistê- mentos, e superficial a respeito da verdade, ob- re exatamente quando ela termina em uma
mica da responsabilidade jetividade e ação desinteressada. Por qualquer crença nos milagres — e em que outro lugar
socioambiental, enfim, estimativa, essa é uma parcela da existência poderia terminar?”.
do próprio ambiente de
trabalho. Desprestigiada humana demasiado grande para ser frustra-
na Academia como insis- da. Além disso, este é um momento bastante Crença dos milagres que, quando vinha do
tência na metafísica (e, embaraçoso da história para que nos achemos totalitarismo das religiões, em especial as do
portanto, como retorno
ao regime de servidão), com pouco ou nada a dizer sobre questões tão paradigma judaico-cristão, provocou a fuga do
a espiritualidade voltou fundamentais” (EAGLETON, 2005: 144). ser humano. Uma vez que ainda não foi capaz de
de forma intensa à cena realizar em si o supremo milagre de ser divino,
científica na área da Ad-
ministração e da Comu- É clara a imensa contribuição da teoria cultural de ser sagrado para dominar em si os venenos
nicação Empresarial atra- ao trazer para o centro do debate as questões mentais, para dominar o processo de formação
vés do Mercado. Desde de gênero, poder, sexualidade e etnicidade, da vontade do qual fala o grande teórico da
os anos 90 as empresas
demandam, de maneira até então consideradas marginais. Voltarei à comunicação André Mattelart, o homem reen-
crescente, consultorias grandeza da contribuição da pós-modernidade contra sua crença no milagre tecnológico, no
especializadas na deno- em outro lugar. Aqui o importante é que a milagre do capital, no milagre do poder, no mi-
minada Espiritualidade
nos Negócios, chave na construção de cidadania, que é sempre psico- lagre do shopping center, no milagre insustentável
área crítica da Gestão. Do político-espiritual, implica necessariamente em da redução da complexidade e da diversidade à
que se está falando, afinal, valores consensuados, comunais. Valores que unidimensionalidade do consumo.
quando se diz, se escreve e
se aplicam metodologias refundamentem a vinculação social e que, ao
sob essa denominação? mesmo tempo, trabalhem esse ponto cego da Concordo com Castoriadis quando ele diz
Qual será a estratégia cien- pós-modernidade; valores que levem em conta que o conflito não está entre os indivíduos
tífica possível para tratar
de questão tão delicada, a urgência do trabalho colaborativo, claramente e as sociedades, mas no fato de que a teoria
em um momento mar- apontada pela cultura digital. É disso que fala opõe a sociedade à psique, reduzindo ambas
17
cado pela dispersão dos a metáfora da religião: da comunhão, da confiança as categorias a instâncias estanques. Tenho
significados, pelas teorias
políticas da contingência, (OURIQUES, 2006), do encontro, do amor, do falado, escrito e experienciado isso. Essa opo-
18
pela dissolução do sujeito espírito da intimidade , enfim, da paz. Não a sição reforça a necessidade da constituição de
e por conceitos conexos? Pax Romana, apenas nominal, pois autoritária uma economia psicopolítica da comunicação,
18 Ver o livro de Sobon-
fu Somé, O Espírito da e exclusiva justamente de um império — como entendida a comunicação como a própria
Intimidade. a pseudopaz da tecnologia, do consumo e da se- condição humana, na medida em que somos
154 cultura. Neste sentido, as tradições espirituais entender, a sociologia reconhece como a base da
são uma questão de comunicação. Comunica- sociabilidade e os Direitos Humanos nomeiam
ção com a origem comum e com o que sustenta como sendo o de iguais na diferença — sejam,
Comunicações do ISER

a impermanente totalidade aberta que é a vida repito, a referência para a ação humana.
e, dentro dela, o ser humano.
O Movimento Inter-Religioso
Ainda de acordo com Castoriadis, cometendo do Rio de Janeiro
aqui um reducionismo extremo de sua imensa
e complexa obra, a realidade psíquica do indi- Como fui convidado para integrar o MIR? Faço 19 É neste sentido que
coordeno o Núcleo de
víduo é o imaginário radical que ele faz dele questão de registrar que a minha experiência Estudos Transdiscipli-
mesmo e que ocorre na unidade original com no MIR foi decisiva para o meu processo e por nares de Comunicação e
sua mãe, cujo primeiro nível é exatamente carac- isso sou eternamente grato. Continuamos hoje Consciência -NETCCON,
que criei na Escola de Co-
terizado por esta protorrepresentação que ele a interagir em diversas oportunidades nas quais municação da UFRJ em
faz de si, representação primeira que responde sou convidado. Em minha tese de doutorado, 1984. Sou pesquisador
ao princípio do prazer e assim caracterizará, sustentei um novo modelo de comunicação associado do Programa
Avançado de Cultura Con-
desde então e para toda a vida, a psiquê durante e cultura com base nos valores comunais das temporânea-PACC do Fó-
de todo indivíduo. E, o que é mais importante, tradições espirituais e na ciência contemporâ- rum de Ciência e Cultura
constituindo-se na matriz e modelo daquilo que nea pós-quântica. Na minha defesa o MIR em da UFRJ e dirijo a área de
Comunicação e Cultura
será para sempre, para o indivíduo, o sentido peso estava lá, ao lado de acadêmicos, amigos do Núcleo de Estudos do
(CASTORIADIS, 1975: 426). e ativistas, inclusive do campo das relações in- Futuro da PUC-SP. A mi-
ternacionais. Eram mais de quarenta pessoas. O nha especialidade é ajudar
indivíduos, redes, movi-
Ou seja, o que Castoriadis chama de mônada psí- Prof. Paulo Vaz, presidente da banca e, à época, mentos e organizações dos
quica (claro, desdobrando-o da criação do con- diretor do Programa de Pós-graduação da ECO- três setores a escaparem da
ceito mônada — que vem do grego monas, uni- UFRJ, encerrou os trabalhos com frase curta e a captura pelos sistemas do
interesse e do poder autor-
dade — por Leibniz), é o primeiro nó da psiquê qual não esqueço: “A Vida esteve aqui”. referenciados e passarem
sobre ela mesma; a primeira vez em que ela se a basear suas ações no
fecha em imaginário radical e o indivíduo passa Vale lembrar que, após cerca de dez anos traba- sistema da generosidade,
o outro nome, para mim,
a constituir-se como tal nesse ato realizado por lhando no mercado, eu entrei em 1979 para a dos direitos humanos, dos
ele, diferenciado de sua mãe. Na alucinação UFRJ como professor, onde estou desde então, direitos ambientais, das
do seio materno, o lactante o percebe como se sempre na ECO e no mesmo departamento, políticas públicas sociais,
da cidadania espiritual, da
fora seu próprio corpo e, assim, funda-se nesse o de Expressão e Linguagens. Em 1980 fui, a responsabilidade socio-
estado de comunhão integral, no qual o afeto convite do Prof. Dr. Marcio Tavares d’Amaral, ambiental.
é imediatamente representação de si e intenção assessorá-lo na antiga Secretaria de Assuntos 20 Trato, portanto, de
como gerar solidariedades
de permanência atemporal nesse estado, até que Culturais do MEC, embrião do Ministério da de transformação em meio
a separação do seio, a ausência dele, introduz o Cultura, onde permaneci até 2001. às instabilidades crescen-
indivíduo na experiência da separação, dinâmi- tes, o que é possível de
19 ser feito através da ascen-
ca dual em que ele se constituirá autônomo Portanto, sempre tive uma inserção na univer- dência sobre o processo
(desde que flexione-se da dualidade à não-dua- sidade e uma inserção no mercado. No MinC, de formação da vontade,
lidade e assim continuamente). através da SEAC, da FUNARTE e do Museu vale dizer sobre o fluxo de
pensamentos, perceptos
Nacional de Belas Artes, atuei como coordenador e afetos. No sentido da
Uma vez que somos cultura, somos linguagem. de projetos nacionais dedicados ao mapeamento construção de uma Mente
Portanto, somos construções mentais, podemos da identidade estética brasileira, das origens da Sustentável, conceito que
20 cunhei em 2005 dentro
construir uma mente sustentável (conceito que cultura brasileira e da formação de acervos do- da metodologia Gestão
cunhei em 2005 e é próximo ao que o budismo cumentais de arte e de sua dinamização cultural; da Mente Sustentável: o
tibetano chama de mente clara), a única que per- e também como curador de exposições de foto- Quarto Bottom Line, que
criei para isto, no quadro
mite que os valores comunais — aquele estado grafias e artes plásticas (tive a oportunidade, por da economia psicopolítico
mental que determinadas tradições espirituais exemplo, de ser um dos curadores da exposição da Comunicação, a cuja
chamam de comunhão, a teoria das redes procura e o designer da montagem que apresentou, em constituição me dedico.
1982, Sebastião Salgado ao Brasil); como editor e espiritualidade. Estávamos com um movi- 155
de livros, catálogos, cartazes, etc., atividades que mento muito forte, tínhamos recém criado,
se concentraram na coordenação, como o Projeto em cerimônia na Assembleia Legislativa, o Sin-

mir
Visualidade Brasileira, o Programa Integrado dicato dos Profissionais de Yoga do Estado do
Clarival do Prado Valladares e o Projeto Belas Rio de Janeiro, cuja Mesa Criadora tive a honra
Artes Memória. de presidir. Foi um movimento muito intenso,
com as várias lideranças históricas nacionais do
Comecei a atuar no MIR em 2001, a convite de Yoga daquela época mobilizadas, entre elas os
André Porto. Eu era então diretor de estratégia professores Hermógenes, Horivaldo Gomes,
cultural da Federação de Yoga do Estado do Marilda Veloso, Humberto Oliveira, De Rose e
Rio de Janeiro e havia proposto à Federação Miriam Both. Estávamos tentandod fazer uma
que realizássemos a primeira passeata da his- articulação entre as lideranças para criarmos o
tória do Yoga no Brasil — o que efetivamente Sindicato e o conseguimos criar.
aconteceu como parte de nossa estratégia para
enfrentar a ignomínia do então Conselho Fe- Naquele mesmo dia, André convidou-me para
deral de Educacão Física, que se aproveitou de fazer parte do MIR. Lembro-me que fiquei bem
uma lei mal redigida para querer controlar, e alegre. Havia começado um período decisivo
assim concentrar lucros financeiros, todas as de minha vida, inclusive porque durante o
21 Só mesmo a catego-
ria iminência do colapso
atividades no Brasil entendidas por eles como tempo em que atuei diretamente nele pude
psicótico, de Charles Mel- físicas, incluindo, pasmem, o Yoga, a Capoeira, enriquecer-me com profundas e para sempre
man, para explicar com- as Artes Marciais e até mesmo, imaginem, a transformadoras relações com o Xamanismo
portamentos como este, 21
aliás amplamente dissemi-
Dança... um horror . e as Tradições Nativas, tornando-me inclusive
nados na atual sociedade, membro-fundador do Conselho Água Cin-
em sua maioria drogada, Eu já tinha sido diretor, também de estratégia zenta. São experiências que me religaram ao
não apenas pelas drogas
ilícitas mas, sobretudo
cultural, da Associação Brasileira de Daksina ambiente em que fui criado.
pelo estado de perversão Tantra Yoga, da qual fui um dos membros-fun-
em que as comunidades, dadores. Eu comecei a me envolver seriamente O fato é que religião, objeto do MIR, fala para
em verdade clubes, vivem
fechadas em si mesmas,
com o Yoga em 1997, após os contatos iniciais mim de um conjunto de princípios pré-culturais;
guerreando com as outras, que tive vinte anos antes, em minha época de fala da existência de uma totalidade sistêmica
aditas a um objeto do real hippie — na medida em que um rapaz nascido e aberta que demanda e oferece uma cocriação
ou do imaginário que
elas supõem dar conta do
e criado em subúrbio pode ser alternativo —, nossa; fala algo de que me parece que nós esta-
sentido da vida delas. Ou graças ao meu casamento com a yogaterapeuta mos precisamos estar completamente conven-
seja, esta atitude funda- e professora de Yoga Integral Estelita Oliveira cidos: somos irmãos e irmãs. Caso contrário,
mentalista tão presente
em religiões, uma vez que
de Amorim Ouriques. Criei, inclusive, uma já disse anteriormente, como entender os bons
os sujeitos nada têm de cadeira no Curso de Professores de Yoga Inte- sentimentos, como os que movem as políticas
espirituais, mas apenas gral, da Associação Nacional de Yoga Integral, públicas, os direitos humanos? De onde vêm
exercem o interesse e o po-
der autoreferenciados em
dedicada ao Tema Yoga, Tradição e Ciência e esses sentimentos que nada têm a ver com o in-
22
uma cartilha que querem publiquei um pequeno livro sobre essa questão teresse e o poder? Os antiutilitaristas franceses ,
impor a todos os outros, na UFRJ, através do NETCCON. aos quais estou ligado, estão apontando isso na
sob o disfarce de falarem
em nome de um além cuja
Sociologia com densidade teórica mais do que
presença serve apenas para Eu conheci o MIR nesse contexto, fui ao Viva suficiente e eu estou aproximando esse estatuto
trazer mais malefícios à Rio junto com o então presidente da Associação do estatuto da Comunicação e da Cultura.
espécie humana.
22 A corrente socio-
Brasileira dos Professores de Yoga conversar com
lógica que segue e am- o André Porto, que à época coordenava o MIR, A metáfora da religião, e aí se deu meu link com
plia a proposta de Marcel para sabermos dele como poderíamos obter o MIR, é muito importante para podermos
Mauss, consolidada em
especial em seu trabalho
as autorizações legais para a passeata, que já lidar com esse quadro social dessocializado e
sobre o Dom, ou seja, era uma ação social que integrava os estados crescentemente crítico. Nesta direção, tive o
sobre a dádiva. mentais represados nos conceitos de política privilégio de organizar, a convite do Centro de
156 Informações da ONU no Brasil e da UNESCO, Global da URI, da qual fui o consultor de articu-
juntamente com André Porto, um ciclo de con- lação e conteúdo; participei ativamente também
ferências sobre o diálogo entre as civilizações em de seus eventos conexos, como a primeira Aldeia
Comunicações do ISER

dezembro de 2001, no Itamaraty, em função do Sagrada do MIR. Coordenei a Cerimônia Inter-


11 de setembro. Passados outubro, novembro e religiosa de Fogo, na Floresta da Tijuca, uma
dezembro daquele ano, nós realizamos o ciclo complexa operação com a presença de mais de
de conferências com a presença do Rubem duzentas lideranças, cerca de cem estrangeiras.
César Fernandes, da professora Lia Diskin — a Pessoas como o diretor executivo da URI, o dire-
maior gandhiana que nós temos no Brasil —, de tor da Assembleia e sete pajés da Amazônia — a
Mãe Beata de Iemanjá, de Luiz Alberto Gomes quem entreguei, claro, a condução espiritual da
de Souza e tantas outras grandes lideranças caminhada que fizemos durante mais de duas
23
com quem muito aprendi e, em alguns casos, horas dentro da floresta .
levei anos para incorporar.
O MIR é para mim é um lugar de gratíssima
No ano seguinte, a ONU convidou-me para lem