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UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE - ENSINO A DISTÂNCIA ®

1
Fascículo

gestão
social 1
Airton Cardoso Cançado
Jeová Torres Silva Júnior
Anne Caroline Moura Guimarães Cançado
Copyright © 2017 by Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR)


Presidência
João Dummar Neto
Direção Geral
Marcos Tardin

UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (Uane)


Coordenação Geral
Ana Paula Costa Salmin

CURSO GESTÃO SOCIAL


Concepção e Coordenação Geral
Cliff Villar
Organizadores de Conteúdo
João Martins de Oliveira Neto e
Jeová Torres Silva Júnior
Coordenação Pedagógica
Ana Cristina Pacheco de Araújo Barros
Coordenação Executiva
Rebeca Sabóia
Edição de Design e Projeto Gráfico
Amaurício Cortez
Editoração Eletrônica
Cristiane Frota
Ilustrações
Carlus Campos
Catalogação na Fonte
Kelly Pereira
Gerente de Serviços
Valéria Freitas
Produtora
Thaís de Paula

Este fascículo é parte integrante do Curso Gestão Social


composto por 12 fascículos oferecido pela Universidade
Aberta do Nordeste (Uane), em decorrência do contrato
celebrado entre a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento
Social – STDS e a Fundação Demócrito Rocha (FDR), sob o
nº 076/2017.

C975 Curso gestão social / concepção e coordenação geral, Cliff Villar;


organizadores de conteúdo; João Martins de Oliveira Neto
Todos os direitos desta edição reservados à:
e Jeová Torres Silva Júnior. – Fortaleza: Fundação Demócrito
Rocha/UANE/BID/STDS-Ce, 2017.
288. il. color; (Curso em 12 Fascículos)

ISBN 978-85-7529-832-9 Fundação Demócrito Rocha


Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
CEP 60.055-402 - Fortaleza-Ceará
1. Curso – gestão social I. Villar, Cliff. II. Oliveira Neto, João Tel.: (85) 3255.6180 - 3255.6153
Martins. III. Silva Júnior, Jeová Torres. IV. Título Fax: (85) 3255.6271
fdr.com.br
fundacao@fdr.com.br
CDU 304(813.1) uane@fdr.com.br
sumário
1. Introdução................................................................................................ 05

2. Histórico da Gestão Social ................................................................... 06

3. O que é Gestão Social?........................................................................... 11


3.1 Participação ...............................................................................................11
3.2 O que é Gestão Social?
Aproximação teórica e agenda de pesquisa ...................................... 14
3.3 Proposta baseada em Freire de Fomento à
Emancipação e IBC via dialética negativa ....................................... 19

Síntese do Fascículo......................................................................... 22
Perfil dos Autores .................................................................................. 22
Referências Bibliográficas ................................................................... 23

OBJETIVOS
1. Lembrar o histórico e a evolução do campo da gestão social.

2. Entender o contexto da Gestão Social como campo de conhecimento.

3. Analisar as possibilidades e desafios da Gestão Social como


prática baseada no diálogo.
Metrópole
Legião Urbana

“É sangue mesmo, não é mertiolate”


E todos querem ver
E comentar a novidade.
É tão emocionante um acidente de verdade
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:
Vai passar na televisão
“Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha não tem atendimento -
Carteira de trabalho assinada, sim, senhor.
Olha o tumulto: façam fila, por favor”.
Todos com a documentação.
“Quem não tem senha não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema, mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver”.
Ordens são ordens.
“Em todo caso, já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
Pra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira -
E agora eu vou indo, senão perco a novela”.
E eu não quero ficar na mão.

“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”
Paulo Freire

“A palavra política significa elevação para a participação no poder ou para a in-


fluência na sua repartição, seja entre os Estados, seja no interior de um Estado ou
entre os grupos humanos que nele existem.”
Max Weber

4 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


1.
A Gestão Social é um campo de co- mediando o Interesse Bem Com-
nhecimento cujo desenvolvimento preendido e a Emancipação em bus-
acontece no Brasil desde os anos 90 ca do bem comum.
do século passado. Pode-se dizer que • Níveis de Consciência de Paulo
é basicamente uma teoria nacional. Freire: maneiras de o indivíduo perce-

Introdução As suas bases teóricas, porém, são


fundamentadas em autores nacio-
nais (Guerreiro Ramos, Paulo Freire
ber a realidade.
Por outro lado, a Gestão Social
é também um campo de práticas.
etc.) e internacionais (Habermas, As práticas existem antes da Gestão
Tocqueville, Arendt etc.). Essa apre- Social. Isso é muito comum nas
sentação será realizada aqui. ciências como um todo. A realida-
1. Esse fascículo foi elaborado a partir de pesqui- Este texto traz uma perspectiva de existe em um primeiro momento
sas já realizadas, publicadas em diversos artigos, histórica e conceitual da Gestão Social e depois os pesquisadores procuram
livros e capítulos de livro de autoria e/ou coautoria
dos autores da apostila (todos referenciados ao fi-
e também aspectos da prática. Mas o compreendê-la. No caso da Gestão
nal do texto). Também se usou como base a disser- mais importante é a interação e o tipo Social, procura-se compreender as
tação e tese do primeiro autor. Foram incorporados de interação que acontecem nessas práticas, em um primeiro momento
os avanços na pesquisa que já ocorreram desde
então, desta forma, essa apostila é o ponto onde as
duas perspectivas, tanto na perspecti- para descrevê-las, mas ao mesmo
pesquisas estão em 2017 para os pesquisadores. va das ações quanto da perspectiva da tempo para aprimorá-las, torná-las
2. Todos os conceitos que forem usados aqui se- relação entre os seres humanos. mais efetivas. Esse processo apro-
rão bem explicados ao seu tempo. Esta introdu-
ção tem o objetivo de apresentar um mapa do que Os principais conceitos2 utiliza- xima teoria e prática, pesquisador e
virá pela frente. dos aqui serão: comunidade e, principalmente, saber
3. Dialética é uma palavra com origem no termo
• Participação em uma perspecti- popular e saber científico.
em grego “dialektiké” e significa a arte do diálogo,
a arte de debater, de persuadir ou raciocinar (Fonte: va de “tomar parte e ser parte”, traba- No caso da Gestão Social, por
https://www.significados.com.br/dialetica/ Acesso lhando a interdependência (quando a sua própria natureza, o pesquisa-
em 26/9/2017).
existência de um depende da existên- dor procura atuar em uma lógica
4. A Dialética Negativa de Adorno, apesar de o con-
ceito parecer complicado incialmente, é bem simples cia do outro) entre direitos e deveres. próxima à “Aplicação Edificante do
de entender. Primeiro, precisamos conhecer a dialéti- • Interesse Bem Compreendido, Conhecimento” (em que o pesqui-
ca clássica de Hegel. A dialética clássica consiste em
entendido como o equilíbrio entre sador se vale de seu conhecimento
estabelecer uma tese (uma proposta ou uma ideia),
depois realizar uma antítese (basicamente debater bem-estar coletivo e bem-estar in- para o desenvolvimento da socieda-
os prós e os contras da tese) e, enfim, chegar a uma dividual, na busca do bem comum. de) descrita pelo pesquisador portu-
síntese. A síntese é o resultado da discussão e o ciclo
se repete; a síntese passa a ser a nova tese. No caso
Nesse caso, é importante deixar cla- guês Boaventura de Souza Santos5.
da Dialética Negativa Adorniana (baseada na obra ro que a interdependência também é Essa aplicação é conjugada coma a
de Adorno, pensador alemão; mais informações em fator central. Educação Dialógica de Paulo Freire
http://www.infoescola.com/biografias/theodor-a-
dorno/), começa-se também com a tese, seguida da
• Emancipação, que pode ser con- (respeito do pesquisador ao saber lo-
antítese, porém, sem síntese. A tese debate com a an- ceituada como “pensar por si mesmo” cal). Essas duas perspectivas incluem
títese, buscando pelo aprimoramento das duas, sem ou livrar-se da dominação do outro. o cientista no tema pesquisado, sem-
finalizar o processo em uma síntese. À primeira vista,
pode parecer um debate improdutivo, pois não tem
• Esfera pública, espaço para a to- pre respeitando e trabalhando com e
fim. Por outro lado, é um debate que autorreforça, bus- mada de decisão coletiva, em que as não para a comunidade. Esses con-
cando o aprimoramento das ideias. Segundo Adorno, a pessoas podem ouvir e ser ouvidas. ceitos serão explicados detalhada-
dialética negativa acontece “sem falsas sínteses”.
5. Para maior aprofundamento na “Aplicação • Dialética3 Negativa de Ador- mente, mais adiante, bem como uma
Edificante do Conhecimento”, ver Santos (2002). no , que acontece na Esfera Pública
4
proposta para implementá-los.

gestão social 5
Kliksberg (“Pobreza: uma questão ina-
diável – Novas respostas a nível mun-
dial”, 1994) e Rico e Raichelis (“Gestão
Social, uma questão em debate”, 1999).
No Brasil a temática ganha outros
contornos e se amplia, inicialmente
pelos esforços do PEGS, como o texto
de Tenório (“Gestão social: uma pers-
pectiva conceitual”, 1998) que amplia
a discussão da Gestão Social para um
modo de gestão contrário à gestão es-
tratégica (ou gestão de empresas pri-

2.
vadas, com fins de lucro).
No início dos anos 2000, um gru-
po de pesquisadores se reúne em São
Paulo e propõe criar uma rede (Rede
de Pesquisadores em Gestão Social
– RGS) para realizar pesquisas sobre

Histórico da Gestão Social e desenvolvimento local.


Posteriormente, em 2007, a rede ganha

Gestão corpo e é realizado o primeiro Encontro


Nacional de Pesquisadores em Gestão

Social
A Gestão Social no Brasil, enquanto
Social (ENAPEGS), em Juazeiro do Norte,
no estado do Ceará. Nesse encontro, a
rede é estabelecida de fato. A partir de
campo do conhecimento, surgiu em 2007, a rede se encontra anualmente no
meados dos anos 1990. A principal re- ENAPEGS e as pesquisas sobre Gestão
ferência é a criação do Programa de Social avançam, realizadas geralmen-
Estudos em Gestão Social da Escola te por meio de parcerias.
Brasileira de Administração Pública Em Minas Gerais, existe desde 2007
e de Empresas da Fundação Getúlio o Encontro Mineiro de Administração
Vargas (PEGS/EBAPE/FGV) em 1990, Pública, Economia Solidária e Gestão
coordenado desde sua criação pelo Social (EMAPEGS), que em 2015 rea-
professor Fernando Tenório. lizou sua quinta edição. Atualmente
O início da discussão da temática existem diversos periódicos, como
acontece em um contexto institucio- as Revistas Administração Pública e
nal, por meio do Banco Interamericano Gestão Social (APGS), Cadernos Gestão
de Desenvolvimento (BID), e tem Social (CGS), Nau Social e Revista
abrangência em toda a América Interdisciplinar de Gestão Social
Latina. Nesse contexto, a Gestão Social (RIGS), e cursos de Gestão Social espa-
é entendida como a Gestão de Políticas lhados pelo País, inclusive mestrados
Públicas Social. Exemplos dessa abor- profissionais na Universidade Federal
dagem podem ser encontrados nos da Bahia e no Centro Universitário
livros organizados por Bernardo UNA, em Belo Horizonte/MG.

6 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Esse intenso movimento de pes- conhecimento que vem sendo discu-
quisa no Brasil fez com que o desen- tida nos últimos anos no Brasil. Essa
volvimento da Gestão Social possa ser área seria oriunda da sobreposição
considerado como um “conhecimen- das áreas de Direito, Administração,
to” genuinamente nacional, fato raro Economia e Ciências Sociais e seria
no contexto da área de administração um espaço multidisciplinar ou inter-
no País. Fica clara essa questão ao se disciplinar de ensino e pesquisa que
fazer uma breve pesquisa em espanhol englobaria, além da Gestão Social, a
(“gestión social”, “gerencia social”,) ou Gestão Pública e as Políticas Públicas
mesmo em inglês (“social manage- (PIRES et al., 2014).
ment”) nas bases de dados interna- Em 2008, o Centro Universitário
cionais. Os textos encontrados con- UNA de Belo Horizonte, Minas Gerais, ini-
tinuam considerando Gestão Social cia o Mestrado Profissional em Gestão
como Gestão de Políticas Públicas Social, Educação e Desenvolvimento
Sociais ou abordam assuntos diver- Local. Esse curso vem reforçar a for-
sos aos que são tratados na tradição mação em Gestão Social em nível de
de pesquisa brasileira. Certamente o pós-graduação stricto sensu. Nota-se,
próximo desafio para Gestão Social no pelas nomenclaturas dos mestrados
País seja se aproximar de outras teo- profissionais, que ambos, o da UNA e o
rias discutidas em âmbito internacio- da UFBA, possuem a palavra desenvol-
nal. Os leitores devem se sentir convi- vimento atrelada à Gestão Social.
dados a contribuir nesse sentido. Outro acontecimento relevante
Apesar desse desenvolvimento, a desse ano foi o lançamento do Edital
Gestão Social no País ainda não apre- Pró-Administração (Pró-ADM) pela
senta um consenso sobre seu significa- Coordenação de Aperfeiçoamento de
do. Houve um período de forte utiliza- Pessoal de Nível Superior (Capes), que
ção da temática (2000-2010), no qual teve como objetivo “estimular no País
a Gestão Social se apresentou com a realização de projetos conjuntos de
bastante polissemia (muitos significa- pesquisa e apoio à capacitação do-
dos diferentes)6. Nessa época, tudo o cente [...] na área de Administração”
que não era gestão tradicional poderia (CAPES, 2008). Dentre as áreas priori-
ser considerado como Gestão Social, tárias do Pró-ADM, estava contempla-
gerando um grande perigo de banali- da a Gestão Social. Ao fim, são apro-
zação do termo. Atualmente, a polisse- vados quatro projetos na temática.
mia vem diminuindo e o conceito vem Dois desses projetos foram propostos
ganhando corpo. Talvez o único con- por conjuntos de universidades que já
senso seja que a “participação” é cen- compunham a RGS.
tral na Gestão Social; em outras pala- O ano de 2009 foi um ano impor-
vras, se não há participação, não há tante para a Gestão Social no País, com
Gestão Social. Porém falta ainda deli- quatro eventos relevantes: criação de
mitar de que “participação” se está fa- dois cursos, um periódico e a primei-
lando. Esse tema será tratado adiante. ra edição de um evento. Dentro da 6. Veja a tese de Cançado (2011), “Fundamentos te-
óricos da gestão social”, defendida no Programa de
A Gestão Social está inscri- perspectiva do Programa de Apoio a Pós-Gradução da Universidade Federal de Lavras
ta no “Campo de Públicas”, área do Planos de Reestruturação e Expansão (PPGA/UFLA).

gestão social 7
das Universidades Federais (Reuni), Campus Cariri da UFC adquire autono-
são aprovados dois cursos vincula- mia e se transforma na Universidade
dos a Escolas de Administração com Federal do Cariri (UFCA).
foco na Gestão Social: Graduação Recentemente, em 2013, outro
Tecnológica em Gestão Pública e Edital da Capes, em parceria com o
Social (Universidade Federal da Bahia Ministério da Integração Nacional,
– UFBA) e Administração Pública e denominado Pró-Integração, é lan-
Social (Universidade Federal do Rio çado. Outro projeto de pesquisa rela-
Grande do Sul – UFRGS). cionado à Gestão Social é aprovado
Ainda em 2009 o Departamento em parceria entre EBAPE/FGV, UFT e
de Administração e Contabilidade da UFRRJ. Posteriormente foram agre-
UFV inicia a publicação do periódi- gadas outras instituições nacionais:
co “Administração Pública e Gestão UFLA, UFSC (Universidade Federal de
Social – APGS”. Santa Catarina) e Unijuí (Universidade
Em 2010, a partir de discussões Regional do Noroeste do Estado do
realizadas pela RGS, é constituído o Rio Grande do Sul). Esse projeto tem
Observatório da Formação em Gestão especial importância, pois pretende
Social (OFGS), sediado na Escola de ampliar a discussão para outros paí-
Administração da UFBA. O OFGS é ses da América Latina, principalmente
um projeto coletivo da RGS realiza- Equador, Chile e Argentina.
do por oito instituições parceiras: a Em 2014, no VIII ENAPEGS, foi lan-
Universidade Federal da Bahia (UFBA), çado o “Dicionário para a Formação
a Universidade Federal do Cariri em Gestão Social”, organizado pela
(UFCA), a Universidade do Estado de coordenadora do Observatório da
Santa Catarina (UDESC), a Pontifícia Formação em Gestão Social, profes-
Universidade Católica de São Paulo sora Rosana Boullosa. Esse dicionário
(PUC-SP), a Universidade de São Paulo conta com a participação expressiva
(EACH/USP), a Universidade Federal de membros da RGS e tem por objetivo
do Recôncavo da Bahia (UFRB), a mapear os principais conceitos iden-
Universidade Federal do Tocantins (UFT) tificados nos ENAPEGS realizados até
e a Pontifícia Universidade Católica de então. O dicionário tem uma versão
Minas Gerais (PUC-MG). Uma das pri- interativa on line8. Nesse ENAPEGS foi
meiras ações do OFGS é a criação da decidido que o evento seria bianual.
Revista Nau Social7 no mesmo ano. A re- Em 2017, durante a II Reunião da
vista é dedicada à formação em Gestão Rede de Pesquisadores em Gestão
Social e políticas públicas. Social realizada em Natal-RN, sob sob
Na Universidade Federal do a organização da Universidade Federal
Ceará – Campus Cariri (UFC-Cariri), do Rio Grande do Norte - UFRN. Dentre
em Juazeiro do Norte/CE, tem início outras discussões, foi tomada a de-
em 2011 o Curso de Bacharelado em cisão de criação de uma associação
Administração Pública com ênfase para apoiar a rede. Para o ano de 2018,
em Gestão Social. No projeto, o curso será realizado o X ENAPEGS, voltando
foi pensado com a nomenclatura de para Juazeiro do Norte-CE, onde ocor-
Gestão Pública e Gestão Social, porém, reu a primeira edição.
7. http://www.periodicos.adm.ufba.br/index.php/rs por motivos de registro, o nome preci- Dentre outras discussões, foi to-
8. Ver https://www.ufrb.edu.br/gestaopublica/ar-
quivo-de-noticias/130-dicionario-para-a-forma- sou ser modificado. No entanto, o con- mada a decisão de criação de uma as-
cao-em-gestao-social. teúdo do curso de manteve. Em 2013 o sociação para apoiar a rede.

8 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


O Quadro 1 apresenta uma síntese do percurso histórico apresentado

Quadro 1 - Síntese dos principais eventos


da evolução da Gestão Social no Brasil
Ano Evento Local Instituição Responsável
Criação do Programa de Estudos em Gestão Social –
1990 Rio de Janeiro/RJ EBAPE/FGV
PEGS/EBAPE/FGV
Seminário Iberoamericano de Desarrollo de Profesores en Santa Cruz de La Sierra,
1992 INDES/BID
Gerencia Social Bolívia
Curso de Directivos en Diseño y Gestión de Políticas y Washington D.C.,
1997 INDES/BID
Programas Sociales Estados Unidos
Revista de
Fernando Tenório – PEGS/
1998 Publicação do artigo “Gestão Social: uma perspectiva conceitual” Administração Pública,
EBAPE/FGV
sediada em São Paulo/SP
Criação do Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão
2001 Salvador/BA EA/UFBA
Social - CIAGS/UFBA
2003 1ª reunião da Rede de Pesquisadores em Gestão Social São Paulo/SP EAESP/FGV
Primeira turma do Mestrado Multidisciplinar e Profissionalizante
Salvador/BA CIAGS/EA/UFBA
em Desenvolvimento e Gestão Social
2006
Criação do Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Gestão
Juazeiro do Norte/CE UFC
Social – LIEGS
1º ENAPEGS Juazeiro do Norte/CE UFC
2007
Criação do Periódico Cadernos Gestão Social Salvador/BA CIAGS/EA/UFBA
2º ENAPEGS Palmas/TO UFT
Primeira turma do Mestrado Profissional em Gestão Social,
Belo Horizonte/MG Centro Universitário UMA
2008 Educação e Desenvolvimento Local
Lançamento do edital Pró-ADM da Capes
Brasília/DF Capes
(Gestão Social uma das áreas contempladas)
Juazeiro/BA e
3º ENAPEGS UNIVASF
Petrolina/PE
Criação do Curso de Graduação Tecnológica em
Salvador/BA EA/UFBA
Gestão Pública e Social

2009 Criação do Curso de Graduação Administração Pública e Social Porto Alegre/RS EA/UFRGS
1º EMAPEGS Lavras/MG UFLA
Extinção da temática específica da Gestão Social Anpad Área de Administração
São Paulo/SP
(extinta em 2009) Pública da Anpad
Criação do Periódico Administração Pública e Gestão Social – APGS Lavras/MG UFV

gestão social 9
Quadro 1 - Síntese dos principais eventos
da evolução da Gestão Social no Brasil
Ano Evento Local Instituição Responsável
4º ENAPEGS Lavras/MG Ufla
2º EMAPEGS Viçosa/MG UFV
2010
Criação do Observatório da Formação em Gestão Social – OFGS Salvador/BA EA/UFBA
Criação da Revista Nau Social Salvador/BA OFGS /EA/UFBA
5º ENAPEGS Florianópolis/SC Udesc
3º EMAPEGS Lavras/MG UFLA
2011 Criação do Curso de Graduação em Administração Pública:
Juazeiro do Norte/CE UFCA
Gestão Pública e Social
Criação da revista Interdisciplinar em Gestão Social – RIGS Salvador/BA CIAGS/EA/UFBA
2012 6º ENAPEGS São Paulo/SP PUC-SP
7º ENAPEGS Belém/PA Unama
2013
4º EMAPEGS Viçosa/MG UFV
8º ENAPEGS Cachoeira/BA UFRB
2014
Lançamento do Dicionário para a Formação em Gestão Social Cachoeira/BA OFGS/EA/UFBA
5º EMAPEGS Lavras/MG UFLA
Volta da temática específica sobre Gestão Social na Anpad por
Área de Administração
2015 meio da criação do Tema “Interseções entre Gestão Pública e Belo Horizonte/MG
Pública da Anpad
Gestão Social”
Reunião da Rede Pesquisadores em Gestão Social Belo Horizonte/MG PUC-Minas
UFRGS e outras parcerias
2016 9º ENAPEGS Porto Alegre/RS
regionais
Reunião da Rede Pesquisadores em Gestão Social Natal/RN UFRN
Fundação Demócrito
Curso em Gestão Social (EaD) Fortaleza/CE
2017 Rocha
Salvador/BA EA/UFBA
Criação da Escola Livre em Gestão Social vinculado ao OFGS
Juazeiro do Norte/CE UFCA
2018 10º ENAPEGS (a ser realizado) Juazeiro do Norte/CE UFCA

FONTE: ADAPTADO DE CANÇADO E POZZEBON (2016).

Como se pode ver, existe todo um contexto his- 1. Como o poder público pode se aproximar da
tórico do campo de conhecimento da Gestão Social, academia em relação à Gestão Social?
que ainda está em desenvolvimento. Antes de ini-
ciar a próxima seção que trata conceitualmente da 2. No meu contexto, como posso fazer parte desse
Gestão Social, algumas questões para a reflexão. campo do conhecimento?

10 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


3.
Quadro 2 - Vantagens e desvantagens dos
tipos de Participação
Tipo de
Vantagens Desvantagens
Participação

O que é O participante participa


efetivamente e de forma
É difícil ser executada em grandes

Gestão
Direta grupos por motivos de local para
ativa. Fala e é ouvido. Ideal
acontecer e tempo.
para pequenos grupos.

Social?
Antes da definição de Gestão Social,
Mais simples, pois aos
O participante, de certa forma, não
participa. Representar um grupo é
muito difícil pela possibilidade da
representantes eleitos é
é importante tratar de participa- Indireta diferença de opiniões. Isso pode
delegado o poder de decisão.
ção e seus desdobramentos para a levar o representante a representar
Ideal para grandes grupos
Gestão Social. o que ele “acha” que o grupo quer ou
representar a ele mesmo.
As pessoas se veem e se
Problemas de deslocamento,
conhecem pessoalmente,
3.1 Participação Presencial conhecendo a opinião e os
local e tempo podem inviabilizar
a presença, levando a não
argumentos dos demais. A
A Gestão Social é centrada na partici- participação.
chance de debate é maior.
pação; esse é um conceito importante Posso participar de onde As pessoas não se conhecem e
para a temática. Porém de que partici- estiver; para isso, as dificilmente terão “tempo” para
pação estamos falando? Apenas para Não
tecnologias de informação e ver a opinião dos outros. A chance
exemplificar, iremos apresentar tipos presencial
comunicação podem ajudar do debate diminui e pode se
extremos de participação, e é claro que (celular, por exemplo). transformar em meras “votações”.
sempre pode haver meio-termo. O ob-
As pessoas são impelidas a A participação aqui é vista como um
jetivo é introduzir o debate.
participar e, dependendo da dever, ou mesmo um problema na
Obrigatória
punição, a participação tende medida em que as pessoas não estão
Inicialmente pode-se pensar que
a ser maior. participando por vontade própria.
a participação Direta, Presencial e
Quem participa está A participação pode ser baixa, pois
Síncrona seja impossível para um Não
realmente querendo pode ficar em segundo plano (Free
número maior de pessoas. Porém, obrigatória
participar. Rider).
se considerarmos as Tecnologias da
As opiniões e decisões Pode ser difícil marcar um horário
Informação e Comunicação disponí-
acontecem durante o período que atenda a todas pessoas,
veis (e as que ainda virão), podemos Síncrona
da participação. Tem-se principalmente se a participação for
relativizar essa visão. Pelas vanta-
acesso instantâneo ao debate. não obrigatória.
gens e desvantagens observadas, a
questão da escalaridade, ou seja, o Até o fim do período, não se Por ser mais flexível, a participação
tamanho do grupo e do seu território Assíncrona tem acesso ao debate como pode ser maior, adequando-se aos
seja o ponto chave. Nesse sentido, te- um todo. horários de cada um.
mos de entender a relação entre esca- FONTE: ELABORADO PELOS AUTORES, 2017.
laridade e gestão social.

gestão social 11
Começa-se com uma pergunta. A Nessa perspectiva, a Gestão Social se (2008b), a sociedade deve ser a prota-
Gestão Social está confinada à gestão apresenta como uma possibilidade gonista da relação. Não há Estado sem
de curto espectro territorial, em es- concreta de controle social. Controle sociedade, sendo ele, inclusive, uma
cala local. Ou seria possível pensar a social aqui entendido como o contro- criação dela. A sociedade escolheu se
Gestão Social como possibilidade para le do Estado pela sociedade, tanto em organizar dessa forma e a própria so-
a gestão de espaços maiores como um termos de planejamento quanto de ciedade escolhe quem vai lhe repre-
estado ou um país de grandes dimen- execução e avaliação. sentar no Estado. Assim, a participação
sões como o Brasil? não pode ser concedida, ela deve ser
Neste sentido, aproximou-se Portanto, quando se fala em local, “uma prerrogativa”. Segundo Carrion
o conceito de Gestão Social do de não está se circunscrevendo o con- (2007), o Estado, além de criar espaços
Governança Territorial, quando ficou ceito à rua, ao bairro ou mesmo à para a participação, deve criar condi-
claro o problema pouco discutido da es- cidade. O universo de análise é mais ções objetivas para que ela se efetive.
calaridade na Gestão Social. Segundo amplo e abstrato, podendo estar re- Esses talvez sejam os maiores desafios
Cançado, Tavares e Dallabrida (2013, lacionado a várias escalas de poder, para uma Gestão Pública mais próxima
p.11, grifos do original) governança ter- consideradas isoladamente ou em da sociedade. Por um lado, o “eleito” se
ritorial pode ser definida como conjunto, em um ou mais territórios acha no direito (“legitimado” pelas ur-
(FISCHER, 2002, p.13). nas) de “comandar” ou “deliberar”, pois
[...] um processo de planejamento foi escolhido pelo povo para isso. Por
e gestão de dinâmicas territoriais, O local pode ser considerado como outro lado, a participação vai além da
priorizando uma ótica inovadora, lócus (espaço) privilegiado para a “urna eletrônica”, a eleição não pode
partilhada, colaborativa e relações Gestão Social, não apenas no âmbito ser considerada o fim da participação;
não hierárquicas, em associação geográfico, mas, fundamentalmen- é uma parte do processo. Esse é um
entre Estado, entidades sindicais, te, pelas particularidades culturais e dos entraves da Participação Indireta
associações empresariais, centros identitárias de cada comunidade. “(...) (ou representativa).
universitários e de investigação, a gestão social tem por foco a mudan- Pode-se partir daí para avançar
municípios e representações da so- ça da morfologia do social em uma nessa discussão no sentido de tentar
ciedade civil, fundamentado num perspectiva de desenvolvimento local entender qual participação se requer
papel insubstituível do Estado, integrado” (CARRION, 2007, p.159). na Gestão Social ou, mais especifi-
numa concepção qualificada de de- Complementando, a Cidadania camente, que tipo de participação
mocracia e num maior protagonis- Deliberativa9, na perspectiva haber- se está discutindo. Se essa partici-
mo da sociedade civil, objetivando masiana, é o processo pelo qual se pação se estende à representação,
acordar uma visão compartilhada desenvolve a Gestão Social. Neste como na democracia representativa
para o futuro e desenvolvimento sentido, boa parte dos trabalhos aca- atualmente experimentada, poderia
dos territórios. dêmicos sobre Gestão Social classifica se pensar em uma Gestão Social via
a participação como um processo cen- representação, o que tornaria possí-
Nesse texto, que aproxima os con- tral na Gestão Social, de forma que se vel uma amplitude muito maior em
ceitos pelos adjetivos (territorial e so- pode considerar que este seja um dos termos de escalaridade. Porém a re-
cial), o principal avanço é a diferença únicos consensos sobre o conceito, ou presentação apresenta problemas
na relação com o Estado. Na gover- seja, pode-se afirmar que, se não hou- diversos em sua operacionalização,
nança territorial, o Estado tem um pa- ver participação, não há Gestão Social. vinculados à efetividade da repre-
pel central, porém, na Gestão Social, o Para que isso aconteça, atenta-se sentação, para os quais já existe uma
Estado é relevante e bem-vindo, porém para a importância da mudança ne- vasta literatura. Esse ponto não será
pode haver Gestão Social para além do cessária na relação entre sociedade aprofundado aqui, pois não é central
Estado e, se necessário, à revelia dele. e Estado. Conforme sustenta Tenório para o entendimento da proposta.

12 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Mas, neste sentido, pode-se dizer que solução possível e plausível, pois é in-
a representação, de certa forma, es- viável a realização de consultas perió-
vazia a Gestão Social, transforman- dicas à população nos moldes de hoje
Questões
do-a em uma Gestão Social Local sub- (urna eletrônica, por exemplo). para reflexão:
metida aos prováveis desmandos da Outro aspecto a ser levantado é a
representação, ou ao que Lüchmann discussão sobre se as pessoas “sabem” 1. No meu ambiente
(2007) chama de representação vir- ou não participar e se podem ou não de trabalho, quais ti-
tual, que consiste na defesa de in- ser manipuladas nesse processo, le- pos de participação
teresses de pessoas que não autori- gitimando decisões já tomadas. Essa são mais visíveis?
zaram essa defesa, ou que, mesmo é a opinião de alguns pesquisadores, Por que?
simpáticos a ela, carecem de qualquer como Pinho (2010). O que se defende, 2. Em relação ao
mecanismo estável para controlá-la na perspectiva da Gestão Social, é que município onde você
ou comunicar-lhe preferências. as pessoas têm o “direito” (no sentido vive, como pode ser
Se, por outro lado, essa participa- amplo do termo) de participar das de- descrita a partici-
ção for restringida à participação di- cisões que irão afetar suas vidas. pação da população
reta, a priori, a Gestão Social estaria Apresenta-se aqui, então, uma na Gestão Pública,
confinada ao âmbito local, dadas as importante agenda de pesquisa rela- baseando-se nos tipos
incapacidades óbvias da reunião de cionada à participação por meio das apresentados?
um grande grupo de pessoas em um tecnologias de informação e comuni- 3. O que você pode
mesmo lugar e na própria manifesta- cação, bem como das linguagens uti- fazer para mudar essa
ção de cada uma dessas pessoas. Uma lizadas nesse processo, no sentido de realidade?
alternativa seria a utilização das tec- permitir a participação mais ampla
nologias da informação e comunica- possível. Emerge, nessa perspectiva, a
ção para tornar possível a participa- importância do conceito de redes para
ção direta em níveis mais amplos. a discussão, em especial as chamadas
Em termos práticos, pode-se pen- redes sociais. Bons exemplos da possi-
sar no telefone celular, cujo acesso é bilidade de uso dessas tecnologias são
praticamente universal (pelo menos no a chamada Primavera Árabe11 e as ma-
Brasil). As pessoas poderiam ser consul- nifestações de junho de 2013 no Brasil. 9. Considera-se a Cidadania Deliberativa, no
tadas de forma relativamente segura e Essa participação proposta tem sentido habermasiano, basendo-se nos textos de
Tenório (2008a; 2008b, dentre outros). Em síntese,
rápida por meio dos seus aparelhos e, as características do controle social, a Cidadania Deliberativa aqui é entendida como o
ainda, poderiam opinar e sugerir por ou seja, participa-se efetivamente (e exercício da cidadania (direitos e deveres), no sen-
meio deles, participando, assim, ati- diretamente) da gestão pública, apro- tido de deliberar (decidir). Nesse processo, escutar
e opinar são interdependentes para que se possa
vamente, inclusive das proposições10. ximando a população dos gestores chegar a um entendimento para além da negocia-
Obviamente, tal ideia é apenas uma eleitos. Uma boa definição seria a tí- ção rasteira (vote comigo hoje que voto com você
alternativa que, se adotada, precisará tulo do Livro de Pedro Demo (2009) amanhã), ou do consenso forçado (muitas vezes,
pela longa duração do processo).
de inúmeros “ajustes” até ser opera- “Participação é conquista”. 10. Uma iniciativa nesse sentido é o aplicativo
cionalizada. Não se quer discutir aqui Na seção seguinte apresenta- para celular Mudamos+; veja o site: https://www.
mudamos.org/
nem o hardware (equipamento) nem remos o conceito de Gestão Social,
11. Veja aqui um pequeno resumo da chamada
o software (programa ou aplicativo) a suas categorias e a aproximação Primavera Árabe: https://guiadoestudante.abril.
ser utilizado; o que se apresenta é uma teórica desenvolvida. com.br/estudo/primavera-arabe-resumo/

gestão social 13
3.2 O que é Gestão Social? mais recente tentativa de delimitar o
Aproximação teórica e “campo” da Gestão Social.
agenda de pesquisa A abordagem adotada aqui se-
gue a linha de Tenório (1998; 2008a;
Essa foi, provavelmente, a primeira 2008b, 2012), desenvolvida em
pergunta que foi feita quando você Cançado (2011; 2013a) e Cançado,
viu este fascículo. É interessante rela- Pereira e Tenório (2013; 2015) e par-
tar que alguns pesquisadores preferem te do princípio que a Gestão Social
não definir Gestão Social para não li- pode ser representada pelas ca-
mitar suas possibilidades de desenvol- tegorias teóricas: Interesse Bem
vimento, como se o conceito “enges- Compreendido, Esfera Pública e
sasse” as práticas e teorias em Gestão Emancipação; organizadas pela
Social. A posição aqui é diferente. dialética negativa adorniana, con-
Dessa forma, faremos uma “escolha forme Figura 1. É importante deixar
teórica” para a definição de Gestão claro que, segundo Cançado, Pereira
Social; existem outras perspectivas12. e Tenório (2015), as categorias teó-
Essa, porém, é baseada em trabalhos ricas também são tipos ideiais we-
anteriores e ainda em curso dos au- berianos. Outra consideração dos
tores do fascículo. Não quer dizer que autores é a necessidade de revisão e
seja a melhor nem a pior, mas de certa discussão dessa aproximação teóri-
forma é a mais objetiva. Nesse sentido, ca. Eles a consideram como “escrita
também mais fácil de ser contestada, a lápis”, ou seja, passível de revisão e
colocada à prova e, portanto, modifi- de discussão.
cada. Acredita-se que esse é o caminho O Interesse Bem Compreendido
para o desenvolvimento teórico e prá- (IBC)14 de Tocqueville (1998) foi apre-
tico da Gestão Social. sentado ao descrever a sociedade nor-
12. Nesse sentido, veja Fischer (2002), França Inicialmente apresenta-se uma te-americana no século XIX. O autor
Filho (2003), Boullosa e Schommer (2008; 2009) e definição baseada nas caracterís- parte do contraste entre aristocracia
Boullosa (2009) e Araújo (2012). Essas perspecti-
ticas da Gestão Social, que pode ser (marcada pela desigualdade natural
vas não são exatamente contrárias às apresenta-
das aqui; apresentam também características de definida como “[...] a tomada de de- e a hierarquia) e democracia (marca-
complementariedade. cisão coletiva, sem coerção, basea- da pela igualdade, sem hierarquia). O
13. Esta aproximação teórica está em sua segun-
da na inteligibilidade da linguagem, IBC só pode acontecer em um contexto
da versão; a primeira está em Cançado, Pereira e
Tenório (2013). na dialogicidade e entendimento es- democrático (JASMIN, 2005). Ainda se-
14. A exposição sobre Interesse Bem Compreendido clarecido como processo, na trans- gundo Jasmin (2005, p. 51) a “[...] par-
será mais longa que as demais, pois os outros con-
ceitos já possuem uma ampla literatura e são mais
parência como pressuposto e na ticipação na esfera pública [é] o que
bem definidos. emancipação enquanto fim último” define a natureza política do governo
15. Para complementar o entendimento dessa pro- (CANÇADO, 2011, p.99). democrático e não o conteúdo popular
posta, sugere-se a leitura de Cançado, Pereira e
Tenório (2015). O objetivo aqui é apresentar em linhas
Pode-se notar que as caracterís- de suas medidas ou as ‘formas exterio-
gerais a proposta. Outros temas que podem ajudar ticas apresentadas têm como pon- res’ de suas instituições”.
na compreensão da proposta são a Teoria da Ação to central a participação em sentido O IBC parte da premissa que o bem-
Comunicativa e a Racionalidade Substantiva. Para a
Teoria da Ação Comunicativa, ver Habermas (2012a;
amplo, conforme discutido anterior- -estar coletivo é pré-condição para
2012b); para a Racionalidade Substantiva, ver mente. A partir dessas característi- o bem-estar individual; dessa forma,
Ramos (1981). Serva (1997) faz a junção das teorias cas, Cançado, Pereira e Tenório (2015) ao defender os interesses coletivos,
sobre a denominação de Ação Racional Substantiva,
utilizada por Cançado (2011) na definição das cate- apresentam uma aproximação teó- em última instância, o indivíduo está
gorias teóricas para a Gestão Social. rica13 para a Gestão Social. Essa é a defendendo seus próprios interesses.

14 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Em outras palavras, utilizando a ter- da tutela de alguém (CHAUÍ, 2011),
minologia do autor, “a virtude é útil” destacando que a Emancipação não
(TOCQUEVILLE, 1998). vem de fora (MARX, 2004), porém ela
O que pode parecer uma utopia, pode ser “fomentada”, em proces-
ou pelo menos um otimismo exagera- sos de democratização (HABERMAS,
do, pode ser encarado, também, como 2003a). Em um sentido mais direto, a
uma maneira interessante de relacio- Emancipação aqui é entendida como
nar os interesses público e privado. “pensar por conta própria” e expor
O IBC reforça a questão da inter- essa opinião sem coerção.
dependência entre os indivíduos no Dessa forma, não se pode “eman-
sentido de perceber a dinâmica da cipar” alguém, mas pode-se fomentar
sua própria atuação na esfera públi- essa emancipação. Uma proposta será
ca, não no sentido de ser altruísta ou apresentada na seção seguinte.
mesmo assistencialista, mas no sen- Em relação à Esfera Pública, esse
tido de (re)construção coletiva do es- espaço deve aproximar novamente
paço público com a intenção clara de as pessoas da política. Essa aproxi-
conseguir o bem-estar coletivo e, por mação se dá por meio dialética nega-
consequência, o bem-estar individual. tiva adorniana entre Emancipação
São, na verdade, ocasiões nas quais os e Interesse Bem Compreendido. A
indivíduos percebem “[...] que depen- Esfera Pública tem as caracterís-
dem uns dos outros, afastando aquele ticas da Gestão Social apresenta-
sentimento egocêntrico e de indepen- das. A Gestão Social busca a base
dência que os induz a confundir liber- para a construção de uma Esfera
dade com auto-suficiência privada” Pública em que a tomada de decisão
(BARBACENA, 2009, p. 23). seja coletiva, sem coerção, basea-
A Emancipação se apresenta em da na transparência, dialogicidade e
seu sentido clássico, como livrar-se intersubjetividade15.

Figura 1 – Aproximação Teórica para a gestão social

Esfera Pública

Interesse Bem
Dialética Negativa Emancipação
Compreendido

FONTE: ADAPTADO DE CANÇADO, PEREIRA E TENÓRIO (2015, P.161).

gestão social 15
Transparência em relação às in- importante papel, pois possibilita uma
formações com três características forte interação entre Interesse Bem
básicas: veracidade (informações ver- Compreendido e Emancipação, de for-
dadeiras), temporalidade (as informa- ma que um avanço em uma das cate-
ções devem estar disponíveis antes gorias teóricas pode contribuir para
da tomada de decisão) e qualidade (as o avanço na outra (por isso, a seta de
informações devem estar em um for- duplo sentido). Assim, as categorias se
mato no qual as pessoas consigam en- reforçam à medida que acontecem na
tender). A dialogidade se refere ao diá- Esfera Pública com as características
logo, ou seja, fala-se, mas escuta-se apresentadas. Da mesma forma, caso
também. Por fim, a intersubjetividade uma das categorias seja insuficiente,
se refere a uma linguagem comum que isso também afeta a outra. A Gestão
permita a qualidade da informação. Social se (re)constrói a cada nova inte-
Por exemplo, termos técnicos estra- ração entre os participantes e a cada
nhos ao público devem ser “traduzi- chegada de novos integrantes (partici-
dos” sem perda do conteúdo. Dessa pação periférica legítima).
forma, a transparência, a dialogicida- Esse processo é extremamente
de e a intersubjetividade são conceitos importante, pois apresenta a dinâ-
intrinsecamente complementares. mica de funcionamento da aproxi-
Como a Figura 1 sugere, a Esfera mação teórica. Da mesma forma que
Pública é o ponto de confluência entre um espaço pode se desenvolver como
o desenvolvimento do Interesse Bem Gestão Social, ele pode também perder
Compreendido e da Emancipação. É as suas características a partir da des-
o espaço do debate e da participação construção de alguma das categorias
no qual se constrói o entendimento teóricas. Outro desdobramento é que
acerca do bem comum. Importante não se pode dizer que em determinado
ressaltar que esse bem comum não espaço “acontece” ou “existe” Gestão
sai de um grupo de especialistas, mas Social. É mais apropriado falar em in-
da população como um todo de for- tensidade, desenvolvimento ou retro-
ma que se pode dizer que o que se en- cesso da Gestão Social em uma deter-
tende por bem comum não está dado minada Esfera Pública.
anteriormente, mas “surge” no pro- Surge, então, uma questão de
cesso de discussão. ordem prática. Como entender a in-
Por fim, realizando a interação tensidade da Gestão Social em de-
16. Existem diversas pesquisas na Universidade entre as categorias teóricas, está a terminado espaço ou determinada
Federal do Tocantins no Programa de Pós- dialética negativa de Adorno (2009), organização? Em Cançado, Pereira e
Graduação em Desenvolvimento Regional – PPGR/
UFT (mestrado e doutorado acadêmicos) e no
que pode ser apresentada como a Tenório (2015) é sistematizada uma
Mestrado Profissional em Gestão de Políticas tese e a antítese, sem pretensão de proposta, baseada em Villela (2012)
Públicas – GESPOL/UFT, utilizando essas catego- síntese, ou, como prefere o autor, sem para identificação da Gestão Social
rias para identificar a Gestão Social em organi-
zações, especialmente em Conselhos Gestores de “falsas sínteses”. A dialética negati- em organizações baseada nos crité-
Políticas Públicas. va adorniana nesse contexto tem um rios de Cidadania Deliberativa16.

16 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Quadro 3 – Relação entre os Critérios de Análise para
Cidadania Deliberativa e as características da Gestão Social
Villela (2012) Cançado, Tenório e Pereira (2011)
Característica da Gestão Social a
Categorias Critérios
ser identificada
Canais de difusão: existência e utilização de canais
adequados ao acesso à informação para a mobilização dos Transparência e Inteligibilidade
potenciais participantes.
Qualidade da informação: diversidade, clareza e utilidade
Transparência e Inteligibilidade
da informação proporcionada aos atores envolvidos.
Processo de discussão: Espaços de transversalidade: espaços que atravessam
Dialogicidade; Entendimento
discussão de problemas setores no intuito de integrar diferentes pontos de vista.
por meio da autoridade Pluralidade do grupo promotor:
Tomada de decisão coletiva sem
negociada na esfera pública. compartilhamento da liderança a fim de reunir diferentes
coerção; Dialogicidade
Pressupõe igualdade de potenciais atores.
direitos e é entendido como Órgãos existentes: uso de órgãos e estruturas já existentes Transparência e Inteligibilidade;
um espaço intersubjetivo e evitando a duplicação das estruturas. Entendimento
comunicativo que possibilita Órgãos de acompanhamento: existência de um órgão que
o entendimento dos atores faça o acompanhamento de todo o processo, desde sua
sociais envolvidos. Transparência e Inteligibilidade
elaboração até a implementação, garantindo coerência e
fidelidade ao que foi deliberado de forma participativa.

Relação com outros processos participativos: interação


Entendimento; Dialogicidade
com outros sistemas participativos já existentes na região.

Abertura dos espaços de decisão: processos, mecanismos,


Tomada de Decisão Coletiva,
instituições que favorecem a articulação dos interesses dos
sem coerção; Transparência e
Inclusão: incorporação de cidadãos ou dos grupos, dando uma chance igual a todos
Inteligibilidade; Dialogicidade
atores individuais e coletivos de participação na tomada de decisão.
anteriormente excluídos Aceitação social, política e técnica: reconhecimento pelos Tomada de Decisão Coletiva,
dos espaços decisórios de atores da necessidade de uma metodologia participativa, sem coerção; Transparência e
políticas públicas. tanto no âmbito social quanto no político e no técnico. Inteligibilidade; Dialogicidade
Valorização cidadã: valorização por parte da cidadania
Entendimento
sobre a relevância da sua participação.

continua>>

gestão social 17
continuação>>

Quadro 3 – Relação entre os Critérios de Análise para


Cidadania Deliberativa e as características da Gestão Social
Villela (2012) Cançado, Tenório e Pereira (2011)
Característica da Gestão Social a
Categorias Critérios
ser identificada

Pluralismo: multiplicidade Participação de diferentes atores: atuação de associações, Tomada de Decisão Coletiva,
de atores (poder público, movimentos e organizações, bem como cidadãos não sem coerção; Transparência e
mercado e sociedade organizados, envolvidos no processo deliberativo. Inteligibilidade; Entendimento
civil) que, a partir de seus
diferentes pontos de vista,
estão envolvidos no processo Perfil dos atores: características dos atores em relação
Tomada de Decisão coletiva,
de tomada de decisão nas às suas experiências em processos democráticos de
sem coerção
políticas públicas. participação.

Forma de escolha de representantes: métodos utilizados Tomada de Decisão Coletiva


Igualdade participativa: para a escolha de representantes. sem coerção
isonomia efetiva de atuação Tomada de Decisão Coletiva,
Discursos dos representantes: valorização de processos
nos processos de tomada sem coerção; Transparência e
participativos nos discursos exercidos por representantes.
de decisão nas políticas Inteligibilidade; Entendimento
públicas. Avaliação participativa: intervenção dos participantes no Tomada de Decisão coletiva sem
acompanhamento e na avaliação das políticas públicas. Coerção; Entendimento
Origem das proposições: identificação da iniciativa
Tomada de Decisão Coletiva sem
das proposições e sua congruência com o interesse dos
Coerção; Entendimento
beneficiários das políticas públicas adotadas.
Alçada dos atores: intensidade com que as administrações
Tomada de Decisão Coletiva
Autonomia: apropriação locais, dentro de determinado território, podem intervir na
sem coerção
indistinta do poder decisório problemática planejada.
pelos diferentes atores nas Perfil da liderança: características da liderança em Tomada de Decisão coletiva,
políticas públicas. relação à condução descentralizadora do processo de sem Coerção; Transparência e
deliberação e de execução. Inteligibilidade; Entendimento
Possibilidade de exercer a própria vontade: instituições,
Tomada de Decisão Coletiva,
normas e procedimentos que permitam o exercício da
sem coerção
vontade política individual ou coletiva.
Objetivos alcançados: relação entre os objetivos Transparência e Inteligibilidade;
Bem comum: bem-estar
planejados e os realizados. Entendimento
social alcançado por meio da
Aprovação cidadã dos resultados: avaliação positiva dos
prática republicana. Entendimento
atores sobre os resultados alcançados.

FONTE: CANÇADO, PEREIRA E TENÓRIO (2015, P.191-193).

Na seção seguinte será apresentada uma proposta para “fomentar” a


Emancipação/IBC no sentido de desenvolvimento da Gestão Social. A proposta é
baseada na obra de Paulo Freire.

18 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


3.3 Proposta baseada objetivá-la e conhecê-la criticamente
em Freire de Fomento à [a realidade]” (FREIRE, 2001, p.86).
Emancipação e IBC via A situação leva os indivíduos a
dialética negativa acreditarem que a origem do proble-
ma está fora da realidade concreta,
A proposta de desenvolvimento da trazendo uma concepção fatalista da
Emancipação e do IBC via dialética realidade. Os problemas seriam, en-
negativa repousa nos níveis de cons- tão, desígnios divinos, culpa do desti-
ciência de Paulo Freire; dessa forma, no ou fruto de uma inferioridade na-
iremos iniciar com sua apresentação. tural (FREIRE, 2001).
Paulo Freire trata dos níveis de Na consciência semi-intransitiva,
consciência em seu livro “Pedagogia o indivíduo não se orienta no sentido
do oprimido” (FREIRE, 1987) e conso- de transformar a realidade que origina
lida as categorias de análise no tra- o problema, mas, de outra maneira, ele
balho “Ação cultural para a liberdade se volta para o poder superior que seria
e outros escritos” (FREIRE, 2001). O responsável por este problema. Nesse
autor se apropria do instrumental de nível de consciência, não há perspecti-
análise para estabelecer uma relação va de mudança, o indivíduo se percebe
dialética entre a cultura do silêncio e enquanto incapaz de alterar este des-
a cultura dominante. Cultura do silên- tino/sina. Ao fim, sua ação, “[...] tem um
cio é entendida como aceitação das caráter mágico-defensivo ou mágico-
relações de dominação e o próprio -terapêutico” (FREIRE, 2001, p.86).
reconhecimento de que há uma cul- É possível superar a compreen- Questões
tura dominante. A cultura do silêncio são mágica dos fatos, segundo Paulo para reflexão:
é uma reação da classe oprimida “[...] Freire, citando sua experiência como
para defender-se, preservar-se, so- educador, bem mais rápido do que 1. Como você
breviver” (FREIRE, 2001, p.83). se imagina. Freire fala de rachadu- descreveria o IBC
A base do conceito de níveis de ras que podem ser provocadas em nas suas palavras?
consciência é a percepção que o ser hu- nível macro, como a Abolição da 2. O que você
mano tem da realidade. São três níveis, Escravatura em 1888, ou em nível mi- entendeu sobre
consciência semi-intransitiva, cons- cro, como o próprio processo de ensi- Gestão Social?
ciência transitivo-ingênua e consciên- no-aprendizagem, como incentivos à 3. Gestão Social
cia crítica. Os níveis de consciência mudança de modalidade de consciên- é uma utopia, um
não são estanques (separados) e, sim, cia por meio de uma nova leitura da tipo ideal ou apenas
contínuos, “[...] não existindo fronteiras realidade. Tal processo, para que te- uma teoria sem
rígidas entre uma modalidade e outra nha o efeito de uma rachadura, deve possibilidades de
de consciência” (FREIRE, 2001, p.88). A ser conduzido por meio do que Freire aplicação na nossa
mesma pessoa pode transitar entre os chama de educação dialógica, em realidade? Explique.
níveis, dependendo da situação. contraposição à educação bancária.
A consciência semi-intransitiva é A principal diferença entre esses ti-
marcada por uma quase total aderên- pos de educação é que, na educação
cia à realidade objetiva17; o ser huma- dialógica, existe respeito aos saberes 17. Por realidade objetiva, entende-se viver o dia a
no, em tal nível de consciência, está tão e às competências existentes, e o co- dia sem refletir sobre sua existência, suas escolhas
e suas consequências. Viver um dia após o outro
imerso na realidade que não consegue nhecimento é construído na relação sem se atentar para a complexidade da realidade
tomar distância suficiente “[...] a fim de educador-educando, enquanto, na onde está inserido.

gestão social 19
educação bancária, o educador é o O primeiro é alcançar o “máximo de
“dono do conhecimento” e apenas re- consciência possível”, ou a consciência
passa “verdades absolutas” aos edu- crítica; e o segundo é a distorção numa
candos (FREIRE, 1987; 1996; 2001). forma que Freire classifica como “irra-
Cabe ressaltar que o nível de cional” ou “fanática”.
consciência não tem ligação direta O segundo caminho é o da socie-
com a educação formal, na medida dade de massa, no qual os indivíduos
em que grande parte desta educação são controlados pelos meios de co-
acontece (ainda hoje) nos moldes da municação de massa, e a tecnologia
educação bancária. é a nova divindade. Em tal situação,
Porém, quando o indivíduo percebe o comportamento das pessoas “[...] é
que pode ler a realidade de outra ma- quase automatizado, os indivíduos ‘se
neira, e o faz, é tomado por um estado perdem’ porque não têm de ‘arriscar-
de inquietude, que é o sinal de entrada -se’” (FREIRE, 2001, p.98).
no nível de consciência transitivo-in- Quando a consciência transitivo-
gênua, em que “[...] a capacidade de -ingênua não consegue ser superada
captação se amplia e, não apenas o que e os indivíduos, mesmo que não o per-
não era antes percebido passa a ser, cebam, passam a fazer parte da socie-
mas também muito do que era entendi- dade de massa, toda aquela situação
do de certa forma o é agora de maneira descrita anteriormente, ou seja, a de
diferente” (FREIRE, 2001, p.88). busca de culpados para os problemas
No nível de consciência transiti- configuram uma situação na qual as
vo-ingênuo, segundo Freire (2001), as pessoas podem ser manipuladas mais
pessoas, na sua ânsia de fazer algo, facilmente, pois, se existem vilões (os
normalmente encontram culpados culpados pela situação), existem tam-
para seus problemas: políticos, pa- bém os heróis que podem mudar a si-
trões, familiares, ou até mesmo vilões tuação. Esse pode ser um dos motivos
internacionais. Nesse contexto, mes- que levam uma liderança carismática
mo com a capacidade de percepção com discurso objetivo de mudança a
ampliada, a pessoa se sente incapaz ser aclamado por parcelas da popula-
de alterar sua realidade, apesar de ção, que acreditam que um líder deve
saber que é possível; por isso, dele- agir só (salvador da pátria), pois a de-
ga sua incapacidade presumida às mocracia é muito lenta e o desejo por
ações dos agentes externos já cita- resultados rápidos é mais latente.
dos. A consciência transitivo-ingênua Quando se consegue superar o nível
é “[...] tão dominada quanto a anterior de consciência transitivo-ingênuo por
[consciência semi-intransitiva], mas meio de práxis, chegamos à consciência
indiscutivelmente mais alerta com crítica, definida como o nível de cons-
relação à razão de ser de sua própria ciência no qual oprimidos18 constróem
ambiguidade”. (FREIRE, 2001, p.88), uma classe para si. A práxis pode ser en-
18. Paulo Freire utiliza a expressão “oprimidos” lembrando que a transição só se efe- tendida como a percepção e o entendi-
como referência aos trabalhadores, que, mes- tiva pela via educativa ampla. mento dos resultados das ações do ser
mo transitando entre os níveis de consciência,
ainda precisam resistir à opressão das classes Porém a consciência transitivo- humano por ele mesmo. Todas as ações
dominantes. -ingênua pode seguir dois caminhos. trazem resultados (mesmo a decisão de

20 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


não fazer nada pode ser considerada dialética negativa adorniana tem suas imediatos e nem de curto prazos. Mas
como uma ação, que também traz resul- raízes na educação dialógica. Dessa pode haver “pequenas vitórias” no
tados). A práxis acontece quando o in- forma, primeiro devemos “formar os caminho, como o aumento da partici-
divíduo percebe os resultados das suas formadores”. As pessoas que realizarão pação qualificada ou mesmo o senti-
ações no mundo e nota também os re- as ações de fomento à Gestão Social mento que o nível de consciência vem
sultados destas ações e, ainda, aprende devem fazê-la via Educação Dialógica. aumentando. Mas efetivamente os re-
e evolui com isso. Em outras palavras, o Pelas experiências em projetos sultados são de médio e longo prazo.
indivíduo aprende com ele mesmo por anteriores, as pessoas não aprendem Uma boa maneira de acompanhar é
meio da observação dos resultados de Educação Dialógica rapidamente. usar os critérios do Quadro 3.
suas ações (ação-reflexão-ação). São necessárias leituras e discussões. A ação do gestor social pode ser
Na consciência crítica, o indivíduo Outra palavra chave é sensibilidade. considerada bem realizada quando
percebe que o principal responsável O Gestor Social não é da comunidade não for mais necessária e o próprio
pelo seu passado, presente e futuro é onde está inserido, muitas vezes nem é grupo “andar com as próprias per-
ele mesmo, ou seja, não adianta pro- do município onde está atuando. Mas nas”. Nesse caso, o gestor social não é
curar culpados nem heróis. Assim, ele ele deve se reconhecer como parte da excluído, mas passa a ser uma “visita”
percebe-se como ser histórico. Em ou- sociedade, onde “todos” estão. muito bem-vinda pelo grupo.
tras palavras, o indivíduo é o protago- A Educação Dialógica se (re)cons- Essa é apenas uma proposta e junto
nista de sua própria história. trói a cada ação. Sugere-se que as com ela devem vir metodologias par-
A consciência crítica é mais do ações dos gestores sociais sejam so- ticipativas para concretizarem essas
que a tomada de consciência (prise de cializadas com outros gestores sociais ações. Mas sempre tendo a Educação
conscience), “[...] a consciência crítica para que cada um possa aprender com Dialógica/práxis como norte.
não se constrói através de um trabalho o resultado dos outros.
intelectualista, mas na práxis - ação e Enquanto a Educação Dialógica
reflexão” (FREIRE, 2001, p.96). pode ser considerada externa (pos-
A Figura 2 faz a síntese dos níveis tura do Gestor Social), a práxis é in-
de consciência e suas possibilidades de terna, porque as pessoas não podem Questões
evolução. A metodologia proposta aqui ser emancipadas de fora para dentro. para reflexão:
de fomento a Emancipação e IBC via Porém podem ser estimuladas à inter-
nalização da práxis pelo gestor social. 1. Você já passou por
Figura 2 – Níveis de Um bom processo de Educação algum processo de
Consciência de Paulo Freire Dialógica, segundo essa proposta, Educação Dialógica?
pode levar ao aumento do nível de Se sim, descreva-o.
consciência. O pressuposto aqui é que, 2. A práxis é uma
quanto mais próximo do nível de cons- atividade que
ciência, mais o indivíduo se emanci- você tem realizado
pa19 e, por consequência (via dialética ultimamente?
negativa adorniana), se aproxima do
Interesse Bem Compreendido em um
processo contínuo, sempre aberto à
participação periférica legítima.
Tem-se plena consciência do ní-
19. Lembrando que emancipação e IBC são tipos
FONTE: ADAPTADO DE CANÇADO E CANÇADO (2009). vel de dificuldade de implementação ideais weberianos e os níveis de consciência são
dessa proposta e não há resultados contínuos.

gestão social 21
Síntese do Perfil dos
Fascículo Autores
Foi apresentada inicialmente nesse Airton Cardoso Cançado professor efetivo do Centro de Ciências
texto a evolução histórica da Gestão Realizando Estágio Pós-doutoral na HEC Sociais Aplicadas da Universidade
Social. Essa apresentação tem a im- Montreal/Canadá (2017/2018). Doutor em Federal do Cariri (UFCA), do Mestrado
portância de se contextualizar de onde Administração pela UFLA (2011), Mestre Multidisciplinar em Desenvolvimento
veio e por onde passou o campo de co- em Administração pela UFBA (2004) e Gestão Social (PDGS/UFBA) e profes-
nhecimento da Gestão Social. e graduado em Administração com sor colaborador do Programa de Pós-
Em seguida, apresentou-se a dis- Habilitação em Adm. de Cooperativas Graduação em Administração (PPGA/
cussão sobre o conceito de participa- pela UFV (2003). Realizou Estágio Pós- UECE), além de pesquisador do Centro
ção, a partir de uma tipologia para in- doutoral em Administração pela EBAPE/ Interdisciplinar de Desenvolvimento
troduzir o debate sobre a Gestão Social. FGV (2013). Atualmente é professor e Gestão Social - CIAGS/UFBA e do
No tópico seguinte são apresentadas do Programa de Pós-graduação em Laboratório Interdisciplinar de Estudos
as Categorias Teóricas que integram Desenvolvimento Regional, do Mestrado em Gestão Social - LIEGS/UFCA.
a Gestão Social: Emancipação, IBC, Profissional em Gestão de Políticas
Esfera Pública e Dialética Negativa. Públicas e do Curso de Administração da Anne Caroline Moura
Com as Categorias apresentadas, foi UFT. Participa da Rede de Pesquisadores Guimarães Cançado
discutida a integração entre elas e em Gestão Social - RGS e do Observatório Mestranda em Desenvolvimento
a aproximação teórica para Gestão Brasileiro do Cooperativismo. Regional pela Universidade Federal do
Social, utilizada nesse texto. Tocantins (UFT), especialista em Gestão
Ainda na mesma seção são apre- Jeová Torres Silva Júnior de Cooperativas pela Universidade
sentados os Critérios de Análise para Graduação em Administração (2001) Católica de Salvador (UCSAL), gradua-
Cidadania Deliberativa e a proposta pela Universidade Estadual do Ceará da em Pedagogia pela Universidade
de uma Agenda de Pesquisa para a (UECE), Mestrado (2004) e Doutorado em Federal do Tocantins (UFT) e em Turismo
Gestão Social. Administração (2016) pela Universidade pelo Centro Universitário da Bahia. Tem
Ao fim são apresentados os níveis Federal da Bahia (UFBA). Realizou es- experiência em Projetos de Extensão
de consciência de Paulo Freire: semi- tágio doutoral no exterior (2014), no em Cooperativismo e Associativismo.
-intransitiva, transitivo-ingênua e crí- Conservatoire National des Arts et Métiers Atuação em programas pedagógicos no
tica. Esses níveis são mediados pela (CNAM, Paris, França). Entre 2006 e 2013 Colégio Marista de Palmas-TO. Realizou
Educação Dialógica e pela práxis no seu foi professor efetivo na Universidade diversos processos de formação em
desenvolvimento. Essa abordagem é Federal do Ceará (UFC). Atualmente, é Cooperativismo e Associativismo.
uma proposta de efetivação do fomen-
to é Emancipação e, por consequência
do IBC (via dialética negativa), contri-
buindo para evolução da Gestão Social.
Espera-se que o fascículo possa
colaborar com o trabalho de tornar
a sociedade mais próxima da Gestão
Pública e vice-versa.

22 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


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