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MARCELLO SALVAGGIO

A Rosa e a Cruz

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A ROSA E A CRUZ

Volume 1

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Prefácio

A intenção desta obra não é, o que seria lugar-comum


e reducionista, denegrir a Igreja Católica, que como
todas as instituições possui aspectos positivos e
negativos, pessoas de fé sincera e outras nem tanto,
muito menos criticar a religiosidade genuína, e sim,
além de ser sobretudo uma ficção, e portanto fruto da
imaginação e da pesquisa do autor que vos fala, fazer
uma reflexão sobre os demônios internos do ser
humano, os únicos que podem realmente nos dobrar,
sendo inclusive os que abrem as portas para os males
externos. Já conheci pessoas que tentaram tirar suas
próprias vidas: em casos como esses, devemos cultivar
o respeito e o amor por nosso semelhante que se
encontrou em uma situação tão difícil, não julgamentos
e interpretações arbitrárias que jamais poderão nos
proporcionar o que o outro sentiu, que só servem para
alimentar o desespero alheio. O medo, a cobrança, a
inveja, a ganância e a hipocrisia (secular ou religiosa)
são as verdadeiras criaturas das trevas que tentam
obscurecer estas páginas, podendo se manifestar em
qualquer um de nós e em qualquer sociedade ou
organização; o problema não está nas religiões e nem
nos sistemas políticos, mas nos seres humanos que
insistem em não olhar para dentro e dar importância aos
demônios ao redor, mesmo quando não existem. Se há
ameaças próximas e o perigo nos ronda, é porque demos
alguns passos adiante em uma terra na qual não
devíamos ter pisado; de qualquer modo, uma vez que
entramos nela, só nos resta ir em frente, compreendendo
que as sombras na floresta são simples sombras,

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transformando-se em monstros quando especulamos de
onde elas vêm, em verdade sombras de nós mesmos...

PRIMEIRO ATO

I – Na superfície

A poeira vermelha e insalubre se espalhava pelo ar


turvo e estático. No horizonte um ocaso de expectativa,
conquanto não houvesse nenhum espectador aparente;
olhos ocultos fitavam o passo do cavaleiro, a face
encoberta pelo bacinete de aço. Sobre o animal berne, o
guerreiro reluzia em prata, com sua cota de malha
finamente trabalhada e uma capa apresentando uma cruz
sutil, de linhas vermelhas preenchidas pelo branco.
- O senhor veio cortar a minha cabeça?- Indagou a
única outra presença ali, uma menina pálida com seus
seis anos, vestido preto e rasgado, descalça, o semblante
assustado e os olhos azuis trêmulos.
A respiração que saía do elmo era tranqüila, o andar
calculado; o que assustaria a maioria, porém certamente
sem poder ser usado contra crianças, eram as duas
espadas cruzadas em suas costas, ao que tudo indicava
montantes, que mesmo uma de cada vez seriam
empunhadas com dificuldade por homens de grande
força. Idênticas, sendo as bainhas reluzentes,
destacavam-se as empunhaduras num prateado mais
escuro, em forma de dragões retorcidos, que faziam um
tremendo esforço para morder, sem sucesso, suas
próprias caudas, em uma perseguição munida de dentes
e desespero.

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- O senhor não pode me machucar.- A garotinha insistia
diante do avanço indiferente do cavaleiro, não saindo de
seu caminho, em um corredor de casas de madeira e
taipa simples daquele melancólico vilarejo do sul da
Alsácia.- Se quiser, pode comer carpa frita comigo e
com os meus pais hoje. Ou o senhor não me entende?
Nunca ouviu falar das carpas de Sundgau? Ontem
mesmo tivemos a festa de Saint Nicolas. Por que o
senhor não participou? Ganhei muitos biscoitos e
pedaços de bolo e pain d’épice. Sabe como se faz? A
minha mãe pode te passar a receita depois!
O cavaleiro acelerou de repente, desembainhando uma
de suas espadas, cuja empunhadura emanou uma luz de
prata, e o dragão em metal ganhou movimento, por fim
mordendo a cauda; a cabeça da menina voou para longe
com um único golpe.
- Isso não é bom...O senhor quer que eu chame os meus
pais?- A face falou separada do corpo, no chão, sobre a
pocilga de sangue que se formara; do tronco estanque,
imóvel, brotou uma nova cabeça, enquanto a primeira se
desmanchava na forma de uma gosma da cor da pele e
dos cabelos fundidos. Os novos olhos, contudo,
apresentavam uma vermelhidão quase negra nas veias, e
foi com estes que fitou o guerreiro com intenso ódio. O
verde das árvores e da grama da região, já opaco, ficou
ainda mais coberto de poeira, apesar de não haver vento.
As minúsculas migalhas encarnadas pareciam brotar de
forma espontânea.
O cavaleiro avançou outra vez; porém, diferentemente
do que ocorrera na primeira tentativa, a menina se
moveu, esticando os dedos da mão direita, que agiram
como lanças flexíveis, as unhas se transformando em
pontas metálicas, sendo vital o posicionamento correto

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para tirar proveito do visor perfurado em forma de cone,
que facilitou o desvio do ataque frontal. Na seqüência,
mais um golpe preciso e o braço da criatura com
aparência de criança foi cortado. Vieram os dedos da
outra mão para atingir o cavalo, mas a esquiva e a fuga
foram mais rápidas.
- Por que você não desiste?...- A voz da garotinha
começou a ficar mais bestial e inumana; seu sorriso não
tinha dentes afiados, todavia emanava uma fome
maníaca por carne triturada, sua aura negra e quitinosa
se tornando visível para regenerar o braço decepado,
enquanto o que caíra sofria um processo análogo ao da
cabeça. No entanto, o cavaleiro foi rápido demais:
retirou sua segunda montante e em mais um avanço
saltou do cavalo, deixando o animal se afastar sozinho,
e aplicou dois golpes verticais quase que simultâneos na
criatura, cortando de uma vez o braço inteiro e o que
estava se reconstituindo, por fim perfurando-lhe o peito
com uma lâmina e rachando-lhe a cabeça com a outra,
agachado para ficar na altura adequada. Tudo numa
velocidade sobre-humana.
- Ele conseguiu!- Ouviu-se uma exclamação em
alsaciano vinda de uma das casas; tratava-se da mesma
língua na qual o monstro em forma de menina se
comunicara, este entretanto misturando-a um pouco ao
francês.
- Será que não vai mais se regenerar?- Um homem de
meia-idade saiu da taverna mais próxima.
- Não se preocupem.- Por fim o cavaleiro falou, com
uma voz grave e ainda por cima abafada pelo capacete
justo.- Uma vez que o coração e o cérebro foram
atingidos de forma simultânea ou num curto espaço de
tempo, esse tipo de demônio não pode mais voltar à

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vida.- E tornou a embainhar suas espadas, das quais o
sangue desapareceu. Pouco depois, todas as pessoas
começaram a sair das casas...
- Como podemos recompensá-lo?- Aproximou-se o
ancião do povoado.- Além de tudo, sabe falar a nossa
língua. Quer dizer que se interessa por nossa cultura?
- Não confunda as coisas. Nós somos obrigados a saber
os idiomas de todas as comunidades cristãs. Não é um
interesse particular. É um dom do Espírito Santo, que
nos permite aprender qualquer língua ou dialeto com
facilidade.
- Oh, sim, meu senhor! Mil desculpas. Mas o que
devemos fazer agora?
- Primeiro tirem esse corpo imundo desta calhe. Peço
para que o enrolem e o mantenham assim até a meia-
noite...E então o queimem em frente à igreja. Quando
isso estiver terminado, o senhor venha me visitar na
hospedaria com o pagamento que puderem me oferecer.
Não se esqueçam de não serem tacanhos, pois a avareza
é um dos pecados mais custosos para que algum dia seja
obtido o perdão divino.- Como só existiam uma igreja e
uma hospedaria naquele vilarejo, era impossível
encontrar pontos de ambigüidade.
- Mil graças, nobre e reverenciável cavaleiro! O Senhor
esteja sempre em sua presença.
- Ele está no meio de nós...- E se dirigiu para recuperar
o cavalo. Subiu no animal sem qualquer demonstração
de calor ou afeto e encaminhou-se para o estábulo mais
próximo, onde o deixaria para descansar um
pouco...Embora fosse mais um relaxamento mental:
fisicamente estava perfeito. Aquele típico devorador de
crianças, que assumira a forma de sua última vítima, era
fraco e dera pouco trabalho; a maior dificuldade estivera

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em identificá-lo, pois se ocultava bem, mas vencê-lo
não se tratava de um problema para quem possuía o
sangue de Cristo correndo em suas veias.

II – Profundezas

A hospedaria, iluminada por escassos candelabros,


tinha oito quartos estreitos e sujos, distribuídos por dois
andares de madeira rangente, nos quais era comum
ouvir a passagem de ratos, que, sorrateiros, acabavam
vistos poucas vezes, ao contrário das menos discretas
baratas. Sigmund aguardava em uma cadeira em frente a
uma mesa arranhada, velha, e próximo de uma cama de
lençóis desbotados e travesseiro manchado; no canto,
uma latrina imunda. De braços cruzados, esmagava com
um semblante indiferente cada inseto que passava perto
de seus pés, desferindo uma rápida mirada lateral com
seus olhos frios antes de consumar aquelas breves
execuções. Retirara seus trajes de batalha e vestia agora
apenas uma túnica marrom de mangas compridas e uma
calça de couro. Esperava pelo ancião quando alguém
bateu à sua porta, da qual pouco desviava a face.
- Pode entrar. Está aberta.- Sabia que ninguém teria
coragem de entrar sem autorização...
- Aqui estou, meu senhor...Vim para lhe trazer sua
recompensa!- O velho avançou, sorridente.
- Feche a porta.
- Ah, sim! Sim, meu senhor...- Fechou a porta atrás de
si, um pouco receoso, mas logo refletiu que não tinha
razões para temer um cavaleiro santo; sua fachada fria
talvez fosse apenas porque não se deixava levar pelo
mundanismo das emoções.- Aqui está.- Veio com um
odre velho, tremendo ao depositá-lo na mesa.

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- Não se esqueça que a recompensa não é para mim. É
para Deus, que permitiu que eu viesse para purificar este
vilarejo. Sem Ele, seus chamados não seriam ouvidos.
- Ah sim, meu senhor! Claro! Mil perdões.- A
arrecadação dos cruzados era dada em sua totalidade à
Igreja, sendo que esta provia posteriormente o
necessário para a subsistência de seus guerreiros, que a
cada mês retiravam o soldo para a manutenção de suas
armaduras, para suas roupas pessoais e para se
alimentar, o que não era muito neste último caso, já que
só precisavam de uma pequena refeição a cada sete dias.
“Mas será que não ficam com um pouco pra eles?”, o
velho pensou, porém nunca teria coragem de verbalizar.
“Ele nem comeu nada desde que chegou.”
- Só gostaria de lhe pedir um único favor pessoal, que
nada tem a ver com dinheiro.
- Favor pessoal??- O ancião pareceu bastante surpreso.
- Algum problema?
- Não, senhor...Não.- Gaguejou.- Claro que não! Pode
pedir o que quiser.
- Que fique bem claro: isso deverá ficar entre nós
dois...E entre a terceira pessoa que será envolvida. Caso
abra a sua boca, voltarei a este povoado o quanto antes
só para cortar a sua língua e depois a sua garganta.
- Reverendo!- Perplexo, o velho arregalou os olhos.-
Mas o que de tão terrível um homem tão santo como
Vossa Excelência poderia me pedir? Afinal não há nada
que os olhos de Deus não vejam.
- De qualquer modo, nunca se refira a isso que vou
pedir a nenhum de meus irmãos, nem cruzados e nem
padres comuns.
- Mas o que seria?

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- Quero que me traga uma mulher. Que seja viúva e que
tenha sido mãe. Não darei mais detalhes.
- Uma mulher? Mas os senhores...Como posso trazê-la?
- Não julgue o que não pode ver. Não tire conclusões
precipitadas.
- Ah...Agora entendo! Irá fazer a generosidade de
eliminar os maus espíritos que às vezes assolam essas
pobres mulheres!- Um raio de esperança reluziu no
sorriso do idoso.- Mas não será então um favor feito por
mim e sim mais um favor de sua excelência prestado à
nossa comunidade!
- Traga-a logo. Minha intenção é ir embora ao nascer
do sol.
O ancião saiu da forma mais rápida que poderia. “Já
não estou agüentando mais...”, Sigmund passou as mãos
pelo rosto enquanto apoiava os cotovelos à mesa. “Os
meus olhos estão começando a ficar secos...”, era uma
necessidade...E por isso considerava que não fosse um
pecado. “Pecar significa exceder-se...Perder o controle
na exacerbação dos prazeres dos sentidos, o que não é o
meu caso; eu preciso! Caso contrário terei sim sonhos
pecaminosos e não conseguirei dormir pelo resto da
noite, atormentado pelos demônios que matei e que
começam a se aproximar. Não tenho medo, mas quero
preservar a minha sanidade e a minha tranqüilidade;
toda vez que mato é a mesma coisa...”, a cada missão
que cumpria, sentia mais do que uma ânsia nas partes
baixas; tratava-se de um volume que principiava a
borbulhar e depois ardia, tendo que jogá-lo para fora o
quanto antes ou as sensações de ardor e queimação se
espalhavam por todo o corpo, chegando à cabeça e aos
olhos; um frêmito de angústia e prazer ansiado, que não
conseguia aplacar de outra forma, visto que deixara de

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praticar o onanismo desde seus primeiros tempos como
cruzado, e não apenas por considerá-lo um pecado, um
excesso dos sentidos, uma falta de auto-controle, e sim
porque, nas ocasiões em que tentara levar adiante um
ato do tipo, as piores recordações do passado haviam-
lhe vindo à mente e não pudera se abrandar, pelo
contrário: mesmo as imagens das pessoas se
transformaram em demônios aterradores, queimando
seus órgãos genitais (chegara a verificá-los depois,
comprovando aliviado que estavam intactos) e
interrompendo a ereção com dor. Quando estava com
uma mulher, isso não ocorria. Mas por que uma viúva e
mãe?
- Aqui está, meu senhor. Ela também manifestou o
interesse em agradecê-lo.- O velho a trouxe.
- Obrigado, ancião. Pode se retirar.- O cavaleiro
meneou a cabeça de forma afirmativa, tentando a custo
conter seu fogo interno, fulminando o pobre homem
com o olhar para que este logo se retirasse. A mulher
tinha por volta de quarenta anos, os cabelos ásperos
parecidos com palha, grandes olhos apavorados, a pele
lívida e o nariz chato, com uma roupa que eram farrapos
de camponesa. Encarou o belo cruzado com imensa
fascinação, ainda sem dizer nada.
- Sim, meu senhor...E nós que agradecemos!-
Amedrontado pela expressão gélida, o idoso saiu
tremendo um pouco, como que não devidamente
agasalhado ao ser atingido por uma ventania ardida de
inverno.
- Muito bem. Agora estamos a sós. Sente-se.
- O que deseja de mim, meu senhor? Posso fazer tudo o
que for da sua vontade. Estou disposta a colaborar

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também caso algo precise ser feito em mim.- Sentou-se
na outra cadeira daqueles parcos aposentos.
- É muito bom ouvir isso...- Sorria pela primeira desde
que chegara ao povoado; ela na hora sentiu medo: havia
algo naquele sorriso que não condizia com a beleza
quase angelical do cruzado.- Tem quantos filhos?
Algum menino?
- Um rapaz e uma menina.- “Confio nele. É um homem
santo, capaz de exterminar demônios!”
- Um casal...Muito bonito isso. Saiba que admiro
profundamente a maternidade.- Assumiu uma expressão
afável.- Eu gostaria de ter tido uma irmã.
- Uma pena que não tenha tido.
- Sequer pai tive. Meu único pai é Deus.
- Admira-me sua fé, meu senhor.- Ele se levantou...
- Você fique.- Fez um gesto para que ela não se
erguesse e foi para suas costas...Apoiou as mãos em
seus ombros.- Há muito tempo que não recebe os
carinhos de um homem?- Começou a massageá-la.
- Meu senhor?...- Olhou para trás assustada, dando de
cara com um semblante malicioso. Não teve forças para
deixar de fitá-lo, como se tivesse sido hipnotizada.
- O seu marido partiu há quanto tempo?
- Dois anos.
- É um bom tempo.- Passou a acariciar seus cabelos.-
Tempo suficiente para que qualquer ser humano
enlouqueça.
- O que está dizendo, reverendo???
- Nada de mais. Assim como não há nada de mais em
brincar com os nossos sentidos quando somos tementes
a Deus.- Retirou as mãos e começou a tirar sua túnica.
- Mas meu senhor...- Ela se negou a olhar para o corpo
de um homem. Tampou o rosto com as mãos.- Como

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podemos ser tementes a Deus se caímos no pecado da
carne?
- Cairíamos no pecado se a senhora ainda fosse casada.
- Mas o senhor não deveria ser casto?
- Apenas não posso cometer excessos. Sou um homem
de carne e ossos. E como tal às vezes preciso de alguém
que aqueça a minha pele.- “De fato as mãos dele são
muito frias!”, a mulher exclamou mentalmente; não
tardou para não resistir mais e tirar devagar suas mãos
da frente dos olhos, virando-se para fitar com discrição
aquele belo torso nu masculino, musculoso, limpo e sem
pêlos.
- Mas a Igreja não o proíbe? E as leis da Igreja não são
as leis de Deus?
- A Igreja representa Deus, mas não é Deus; a alma de
nossa Igreja é a menos imperfeita que existe neste
mundo...Mas ainda assim possui falhas, pois é
coordenada pelos homens.- Foi para a frente dela, que
ficara com as mãos unidas por alguns segundos para
depois apoiá-las em seus joelhos, tensa, um tanto
curvada. Encarou-o com temor.- Existe um motivo bem
preciso que nos obriga a ser castos, que nada tem a ver
com a determinação de Deus, que apenas pretende que
não sejamos escravos dos sentidos, que Ele nos deu para
que fossem nossos servos.
- E qual seria esse motivo?
- Se os sacerdotes tivessem filhos, como ficariam as
questões envolvendo heranças? Formalmente, nós
cruzados também somos padres e residimos em terras
que não são nossas e sim da Igreja.
- Eu não entendo bem...
- Sei que é difícil. Mas não precisa entender nada.-
Começou a tirar a calça.

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- Não, meu senhor...Por favor...Por que eu? Não tenho
nada de mais!
- Você é mãe.- Assim que ele tirou as roupas de baixo,
levou a mão direita ao queixo dela, espremeu-o e, sem
se importar com os dentes cariados, em contraste com
os seus brancos e brilhantes, beijou-a.- Não gema.-
Fitou-a com seriedade enquanto algumas lágrimas
desciam; enxugou-as com seus próprios dedos e depois
lambeu um por um, com seriedade.
Quando o cruzado começou a tocar seus seios, a
mulher passou a ofegar, ainda que de forma discreta; de
súbito, viu uma sombra assustadora nas costas do
guerreiro: pertencia a uma criatura rubra e encurvada,
de chifres que nasciam na fronte, percorriam o dorso e
se espalhavam para a cauda; estava de cabeça baixa.
Contudo, de chofre a levantou, revelando um rosto
abominável de barbas vermelhas.
- Não grite!- O cruzado arregalou os olhos e fulminou-a
com severidade quando ela ameaçou soltar um berro,
tapando-lhe a boca com sua pesada mão direita.- Se
fizer isso, terei que cortar a sua garganta. Não se
esqueça: nada do que aconteceu aqui aconteceu
realmente...Nada! Nunca se esqueça disso; ou terei que
voltar algum dia só para matá-la.- As lágrimas se
misturaram ao suor; dessa vez ele não deu importância
ao choro: pegou-a em seus braços e arremessou-a na
cama, onde de pronto se atirou e começou a despi-la de
forma enérgica.- Não tenha medo. Não há nada de mais
aqui.- A criatura cínica continuava nas costas de
Sigmund. Perceptível apenas para a pobre mulher, que
fechou os olhos e continuou a vê-la.
- Senhor...Meu Senhor...

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- Fique quieta.- O cavaleiro não percebera que ela
apelara a Deus e não a ele; a penetração principiou já
rápida. Por fim iria se aliviar. “Como pode?...Um
homem de Deus fazendo isso comigo?? E tendo um
demônio às suas costas. Isso não pode estar
acontecendo...E ele é tão belo! Isto tudo não deve passar
da minha imaginação! Eu pequei, desejei...E acabei
criando essa monstruosidade! É um castigo, é isso o que
é. Se está ocorrendo realmente, Deus está usando este
homem como um instrumento para me punir pela minha
perversão! Não soube respeitar a memória do meu
marido e estou sendo justamente castigada. Esse
demônio que vejo é meu e não dele...Está sendo retirado
de mim; é isso...”, e desmaiou após uma onda de prazer
que percorreu seu corpo ressequido.
Instantes depois, ao recuperar os sentidos, estava outra
vez vestida, ainda na cama do quarto na hospedaria,
Sigmund sentado próximo da mesa ao lado, já com sua
armadura, apenas sem capacete. “Foi isso então. Tudo
não passou de imaginação minha! Ou será que foi um
castigo divino pela minha luxúria? Pode ser que uma
coisa dependa da outra, invadida que fui pelas imagens
dos demônios. O que quer que tenha sido, ele me
ajudou, até se passando por um monstro ou fazendo com
que o confundisse com um, e preciso agradecer.”,
refletia confusamente à medida que despertava e
esfregava os olhos:
- Obrigada por tudo, meu senhor. Serei sempre grata.
- Saia.- Ele olhava para a porta.
- Peço perdão por qualquer mal-entendido.
- Não me peça perdão. Saia e nunca conte a ninguém o
que ocorreu aqui.
- Não posso nem mesmo dizer que o senhor me ajudou?

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- Se pensa assim, de qualquer forma não é necessário.
Irão querer saber detalhes. Diga que tivemos apenas
uma simples entrevista.
- Está bem, meu senhor.- Ela se levantou, cambaleante;
estava toda dolorida.- Obrigada mais uma vez.- Quanto
mais se aproximava da porta, os passos iam ficando
mais firmes.
- Vá.- E passou a olhar para o chão enquanto ela saía.
“Por que não salientei mais uma vez que se abrir a boca
terei que matá-la?”, ficou se perguntando quando ela
partiu. E respirou fundo, cerrou os olhos e bateu a mão
direita, fechada, no meio do peito, com força; ficou ali,
sem reabri-los e sem sair do lugar e nem mudar de
posição até o amanhecer.

SEGUNDO ATO

I – Na superfície

O galope era firme, mas sem pressa exagerada, pela


área de colinas da Toscana, mais precisamente pela
região do Monte Cetona, próximo de Siena. Às vezes
diminuíam o ritmo ou até paravam um pouco. Iam por
uma parte de predominância de girassóis, o dia raiava
com uma beleza rara e mesmo assim Cavalcanti, em sua
armadura azul-prateada e rebuscada repleta de adornos
que lembravam meias-luas e símbolos astrológicos,
quase não falara desde que haviam desembarcado
naquele território. O elmo exibia seus olhos negros, que
passavam uma impressão de esmorecimento, ao passo
que Miguel, ao seu lado, parecia querer aproveitar cada
sopro do ar, sem o capacete, em uma armadura dourada

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com a insígnia de um anjo espadachim em seu peito. O
vento suave fazia com que as capas nas costas dos dois
esvoaçassem discretamente.
- Não é qualquer dia e em qualquer lugar que se pode
respirar como aqui! Você teve sorte de nascer nessa
região.
- Será mesmo?- Cavalcanti respondeu ao comentário do
amigo, por fim quebrando o silêncio quase absoluto que
tanto angustiara o outro.- A missão para a qual estamos
nos dirigindo prova justamente o contrário. Nem tudo é
maravilhoso como parece ser.
- Mas Dite é uma questão humana e como tal sujeita às
falhas humanas. Falo desta natureza, criada por Deus, e
que ainda nem o homem e nem os demônios
conseguiram estragar.
- Isso é verdade.- O toscano respondeu sem grande
entusiasmo.
- Não pensa em passar por Florença depois que a
missão estiver terminada?
- Estou aqui só para concluir este trabalho, assim como
você. Não pretendo fazer mais nada aqui.
- Que pena! Estava pensando em dar uma passada na
sua cidade. Gostaria de conhecê-la e verificar o porquê
de ser tão famosa por suas artes. Nunca tive tempo e,
desta vez, como se tratará de um serviço não tão
simples, Torquemada me garantiu que teria alguns dias
de folga. Você poderia me mostrar a cidade...
- Torquemada não me disse nada.
- Mas decerto a mesma regra se aplica a você. Ele só
teve preguiça de dizer pra cada um e deixou que eu
passasse o recado.
- Pode ser mesmo, apesar dele não ser um homem de
conceder descansos...- E voltaram a ficar em silêncio.

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- Me desculpe falar isso, mas você parece morto desde
que chegamos aqui. Eu não ia dizer nada, só que...-
Miguel tornou a interromper a falsa quietude, sem olhar
mais para o companheiro, apenas para a frente, debaixo
do céu azul-claro e com poucas nuvens.- Não teve
como!
- Andar pela Toscana sempre me traz muitas
recordações. Algumas podem ser até boas, mas se
tornam desagradáveis quando me dou conta que é um
tempo que passou. E as ruins parecem mais vivas, pois
condizem melhor com a minha situação atual.
- Executar demônios não é um trabalho dos mais
agradáveis, mas temos que pensar que se não fôssemos
nós o mundo estaria um verdadeiro caos.
- O mundo já está um caos, pois não são aparições
pontuais. Ocorrem a todo instante, e é uma batalha que
parece que nunca terá fim. Quantas pessoas inocentes e
companheiros nossos ainda terão que morrer? Além dos
Possuídos, ou se esqueceu do cavaleiro verde? Apesar
de termos o sangue de Cristo correndo por nossas veias,
não somos capazes de eliminar as pragas que assolam a
humanidade. Nem mesmo o Cristo foi capaz, tanto que
acabou crucificado. Se ele irá voltar, por quanto tempo
ainda teremos que esperar por esse retorno?
- Temos que ser pacientes, Cavalcanti. Jesus foi
crucificado para mostrar a nós que Deus não é
indiferente às nossas dores...Além de redimir os
pecadores e nos levar a compreender ao menos uma
centelha do que significa amor. A humanidade não tem
méritos suficientes para ser salva, é por isso que esta
guerra ainda não teve fim. E nós provavelmente não
veremos o término dela, e sim várias gerações adiante.
Talvez três mil anos após o nascimento do Salvador: os

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primeiros mil anos pertenceram ao Filho, os mil
seguintes ao Pai e nossa época culminará com a descida
do Espírito Santo e o retorno do Filho, completando o
ciclo.
- Essa é uma teoria de Torquemada.
- Foi ele mesmo que me apresentou essa teoria. E não
sei se concordo, só não acredito que veremos algo muito
diferente. Deus testa a nossa perseverança.
- E você ao mesmo tempo permanece cético que a
humanidade possa mudar, assim como eu.
- São as evidências. Os demônios não são os únicos
inimigos que enfrentamos. Os homens não demonstram
ser merecedores de que não deveriam mais conviver
com as criaturas das trevas. Quando lembro de gente
como o conde Henrique...As coisas ficam feias dentro
da minha cabeça.
- Compartilho dessa idéia, embora às vezes a
esperança, a fé e a caridade façam com que aguarde
algo mais do ser humano. Porém temos que nos dar
conta que são virtudes que nem todos ainda
despertaram, ou melhor, uma minoria despertou, e
portanto nem adianta confiar que teremos um mundo
mais fraterno. Meu irmão Cesare acredita que a natureza
humana por si só é suja, bestial, não muito diferente da
dos demônios, com a única distinção que podemos ser
tocados pela graça divina. Mas, ao contrário de mim,
que por dentro guardo uma fagulha de confiança, ele
sempre teve a convicção que pouquíssimos se permitem
ser tocados, e portanto não adianta tratar as pessoas
como se fossem filhos e filhas de Deus...Afinal elas não
sabem que são. É por isso que ele governa Florença,
enquanto eu me tornei um cruzado.

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- A mente dos políticos é completamente diferente da
nossa.
- Mas em alguns aspectos eles estão corretos. Como
você sabe, não queria me tornar sacerdote, só que o meu
pai temia que eu pudesse, mesmo sem interesse pela
vida pública, mais interessado em patrocinar as artes e
eventualmente lutar pela defesa do povo, me tornar mais
popular do que Cesare, que é da mentalidade que um
governante não precisa ser amado e sim temido, e por
isso não pode ter rivais...Sequer hipotéticos, porque se
tornam as nascentes das rebeliões, que estouram feito
água descontrolada. Meu pai temia o fratricídio e,
conquanto eu não acredite que algum de nós dois fosse
no futuro levantar a espada contra o outro, ele tinha as
razões dele.
- Mas você não só se tornou um padre, como também
um cruzado.
- É porque cheguei à conclusão que não poderia ficar
passivo diante do que acontece em nosso mundo. E ao
mesmo tempo não nasci para ser um político. Não
consigo pensar como Cesare, mesmo que nos momentos
de pessimismo concorde com ele. Me tornei um cruzado
para tentar aliviar a minha sensação de
impotência...Embora continue sendo um pouco
impotente.
- Pense que, se é ruim com a nossa presença, seria pior
na nossa ausência.
- Sei disso, caso contrário teria desistido. Ainda que
agora seja um caminho sem volta...Mas teria preferido
morrer se percebesse que nosso trabalho é inútil. A cada
vida salva, em muitos casos de crianças, me convenço
que faço um bem maior atuando como cruzado do que
faria como um mecenas da elite de Florença. Estaria

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beneficiando só alguns poucos, se bem que continuo a
amar as artes, e, caso fosse amado pelo povo, poderia
até ser colocado no poder no lugar do meu irmão;
contudo, depois se aproveitariam das minhas boas
intenções e, por ser amado e não temido, minha cabeça
logo rolaria. Na política, quem ama não respeita.
- Não só na política.- Miguel abriu um sorriso um
pouco amargo.
- É verdade, mas na política é algo mais acentuado.-
Cavalcanti retirou seu elmo e replicou com outro ainda
mais discreto.- Como meu irmão costuma dizer, os
profetas armados venceram, enquanto os desarmados
foram destruídos, e o homem que tenta ser bom está
fadado à ruína no meio da maior parte dos homens, que
não fazem o mínimo esforço para se tornarem melhores.
Eu nunca me armaria contra quem é próximo de mim ou
contra pessoas que me deram algo...A ingratidão é algo
que jamais compreenderei.
- Sei muito bem como é ser bom no meio dos que não
são. Por isso, hoje em dia, embora não me arme contra
os amigos, sou precavido diante da maioria. Meu
silêncio é meu bem mais precioso.
- Por isso entendo que o meu pai tenha feito o que fez,
me afastando da política mesmo sem eu estar
interessado nela. Queria o meu próprio bem.
- Em condições normais, estamos desprotegidos. Sem o
sangue de Cristo, seríamos presas, gado para os
demônios, como todos os outros e como eu próprio já
fui. Além de nós, só os usuários de magia podem lutar
contra os monstros. Porém sob a condição de se
tornarem quase iguais a eles.
- Já eu não sei se vejo a magia de uma forma tão
negativa. Também não pode ser um outro termo para os

23
dons do Espírito Santo aos não-cristãos de bom
coração? Distinguindo magia de feitiçaria, que é o que
homens como o conde Henrique praticam. Afinal,
mesmo algumas pessoas que se encontram
aparentemente fora da Igreja fazem o Bem.
- Talvez...E por compaixão delas, Deus ofereça alguns
dons. Mas ainda assim não acho que haja muita
diferença entre a magia chamada branca e o que você
define como feitiçaria, que do meu ponto de vista
continua sendo magia, ou seja, um caminho quase que
reto para as trevas.- Miguel exibia um semblante
descrente, pessimista.- Na aparência, muitos magos, os
que não submetem e nem são submetidos, podem lutar
contra os demônios...Mas não porque se tornam aliados
de Deus e sim para serem rivais dos demônios. Trata-se
de uma disputa de poderes.
- Nem todos. Você não tira o conde Henrique da sua
cabeça.
- Também pudera! Se você tivesse passado o que eu
passei...
- Eu o entendo, mas acho que se equivoca ao
generalizar.
- Já conheceu algum mago que tenha feito o Bem?
- Uma vez, em Florença, na minha última passada por
lá, ouvi falar de uma bruxa, chamada Miriam, que dava
de comer às crianças famintas e aos mendigos da
cidade.
- Miriam...Além de tudo é um nome hebreu.
- Todos são iguais aos olhos de Deus, nunca se esqueça
disso.
- Eu sei. Não tenho problemas com os africanos, os
indianos...Porém os judeus mataram Jesus e as bruxas
de Judá, por exemplo, descendem deles.

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- Mas como você disse antes, Jesus veio para
demonstrar que Deus não é indiferente às dores da
humanidade. Se ele não sofresse, sua mensagem não
chegaria a nós. Tanto os hebreus como Judas foram
instrumentos, ou ele não teria beijado o suposto traidor e
nem perdoado seus carrascos; Cristo veio para mostrar o
valor do amor e do perdão, além de demonstrar que não
há indiferença divina.
- Claro. Apesar de não sermos ainda dignos de sua
segunda vinda, nos deixou seu cálice e seu sangue para
que possamos suportar o fardo enquanto esperamos.
Mas de qualquer maneira essa Miriam deve ter um nariz
enorme, uma língua pegajosa e ser toda enrugada!-
Zombeteou.
- Pelo contrário, dizem que é jovem e atraente.-
Cavalcanti continuou sério.
- Deve usar um feitiço para seduzir e capturar os tolos.-
Miguel ficou um pouco irritado.- E ela pode parecer
generosa apenas como uma fachada e se aproveitar da
situação para que não a persigam e, assim que todos
ficam distraídos, usar os inocentes para feitiçaria.
- Eu não sei. Talvez o meu principal defeito seja esse,
Miguel...A princípio, entre duvidar e acreditar, prefiro
acreditar nas pessoas.
- Isso é fruto da experiência pessoal. A minha diz pra
desconfiar.
Chegaram ao entardecer a Dite, cidade fortificada nas
colinas, de espessos e altos muros de pedra cinza, que
não permitia a entrada de estrangeiros. Nos portões, um
acampamento militar repleto de guardas para impedir
que essa regra fosse quebrada. Tremulavam bandeiras
das cores vermelha, laranja e amarela, com a insígnia

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em branco de uma mão com o indicador apontado para
o alto e os outros dedos fechados.
- Alto! Aonde pensam que vão!- Os dois cruzados
foram interceptados por um grupo de cavaleiros.
- A Igreja nos mandou para inspecionar a sua catedral a
pedido de vocês mesmos.- Miguel apresentou a carta
com a requisição e o carimbo e a assinatura do padre
Torquemada, retirando-a da bolsa na lateral de seu
cavalo.
- Ah, são os senhores! Perdão, podem entrar...- E nos
passos que se seguiram Cavalcanti observou aqueles
homens e notou o medo de alguns, o receio de outros e
algumas emoções corroídas carregadas de inveja ou
admiração, ou às vezes ambas, em uma mescla ambígua
de esperança e pavor.
Por dentro, a cidade não lembrava em nada as belas
paisagens que a antecediam, com um excesso de gente
nas ruas, e as doenças proliferavam pela falta de
higiene: moradores de rua com os membros inchados,
leprosos, mutilados; esgotos expostos; gente que atirava
dejetos e baldes contendo necessidades fisiológicas pela
janela; excesso de lixo e ratos; e todas as epidemias
atribuídas aos estrangeiros que um dia haviam passado
para dentro dos muros, tendo sido estes expulsos ou, no
caso dos que insistiram em permanecer
clandestinamente, executados.
- Que situação triste...Será possível que alguns ainda
acreditem que a limpeza física advém do pecado da
vaidade? Há vários papas que isso foi desmentido e
nossos estudiosos comprovaram que por algum motivo,
quanto mais sujo um ambiente, mais doenças se
espalham.- Observou Cavalcanti.

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- As mentalidades demoram a mudar e as
determinações papais, por mais que sejam mensagens de
Deus e cheguem à Terra puras, não se espalham de
imediato. Não se esqueça que a maioria das pessoas não
se permite ser tocada...E a comunicação com alguns
recantos é sempre escassa, a Igreja não pode estar o
tempo todo repetindo o que já foi salientado, e muitos
ficam presos às suas pobres convicções, acreditando que
dão assim o melhor de si mesmos.
- De qualquer forma, vamos falar com o monsenhor
Abbiati.- Referia-se àquele que celebrava a última missa
do dia no interior da catedral da cidade, um homem
franco e bonachão, de cabelos brancos bem aparados, a
pele corada e os olhos claros como se tinha a impressão
que fosse sua auréola, que pacificava as almas dos fiéis
presentes, anestesiados por sua bela voz de tenor
acompanhada do coro feminino da igreja, formado tanto
por leigas como por freiras do convento mais próximo, e
do som do órgão, executando um canto em latim com
trechos do Sermão da Montanha. Sorria satisfeito
enquanto cantava, certo de que a alegria coletiva
poderia espantar qualquer demônio, embora muitos,
pelo embotamento da dor interna e dos pensamentos
atribulados, começassem a sentir uma certa indolência,
já que nada mais lhes restava ao serem retiradas suas
cargas, como se seus corpos começassem a evaporar
para depois desaparecer.
Abbiati, por sua vez, quase não sentia seu peso
corporal enquanto ministrava o culto, começando as
dores nos joelhos quando todos os fiéis tinham saído do
templo. Cogitava às vezes se o problema se devia
apenas ao seu peso ou a outros que eram deixados no
lugar...

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Usava uma batina preta com discretos bordados de
cruzes e flores em roxo, também a cor da faixa que
cingia seus rins, uma estola no mesmo estilo, e um
barrete negro com frisos violetas; a toalha do altar
apresentava um refinado contorno em renda, e sobre
esta o cálice prateado com o vinho e o cibório com as
hóstias, fitado com uma certa avidez por um garotinho
não tão concentrado assim no ritual.
Enquanto interiormente prevaleciam o rosa, o branco,
o bege e o verde-claro, com destaque para os lances de
vitrais de pombas, anjos e da Virgem Maria na parte
superior da abside, o central alinhado diretamente com o
eixo da nave, do lado de fora a catedral cinzenta se
destacava pelos cumes góticos e pela aparência um tanto
intimidadora, algumas pontas mais acúleas do que o
normal, tanto que se chegassem a tocar o céu o
machucariam; talvez fosse uma intenção desesperada de
fazer descer o sangue de Cristo como uma torrente.
No átrio ficava uma fonte de batismo esculpida com
elementos naturais, prevalecendo as representações de
folhas secas; havia três capelas radiantes, cada qual com
seu altar, de acesso exclusivo dos clérigos, antecedidas
por um deambulatório repleto de passagens estilizadas
do Novo Testamento no piso e com um crucifixo de
ouro ao fundo, circundado por rosáceas e afrescos
idílicos, que permitia a procissão dos fiéis em torno do
altar-mor; os cadeirais ofereciam assentos adornados
com baixos-relevos de cenas dos evangelhos e seres
simbólicos (como quimeras e unicórnios), além de
espaldares de filigrana coroados por gabletes; nas duas
naves laterais, algumas esculturas, em sua maioria
danificadas, de santos e profetas; o teto em abóbada de
arestas quadripartida; o claustro mostrava um jardim de

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intenso verde e bem-cuidado, com uma preferência por
formas pontiagudas no corte das plantas; as arcadas se
destacavam pelas colunas rebuscadas de bases redondas;
os arcobotantes, associados aos contrafortes,
contribuíam para a reverberação espacial do edifício;
nas fachadas do transepto, rosáceas intricadas,
ligeiramente sobrepostas por balaustradas finas;
borbulhavam d’água durante as chuvas as disformes
gárgulas, muito mais do que partes salientes para escoar
as águas pluviais, tidas como guardiãs do templo
mesmo com suas aparências horripilantes mistas entre
bodes, anões, morcegos e feras carniceiras; as
arquivoltas percorriam os arcos de ogiva, ornadas por
um emaranhado de esculturas figurativas relacionadas
ao livro do Apocalipse, havendo no tímpano uma
imagem de São João Evangelista escrevendo suas
cartas.
Miguel e Cavalcanti deixaram seus cavalos em um
estábulo reservado nas proximidades, entraram em
silêncio e esperaram a missa se concluir para conversar
com o monsenhor. Embora à distância, ele os viu e por
pouco não se engasgou no meio do discurso que
começava a pronunciar, deduzindo que deviam ser os
enviados da Santa Sé. Gradativamente até os mais
moles foram endurecendo e os olhares sorrateiros
acabavam atingindo os dois, afinal não era comum
mesmo para os cavaleiros de Dite entrar em uma missa
portando armas e armaduras. Como a população sabia
do pedido feito, alguns não disfarçaram mais seu medo
e algumas famílias não demoraram a sair com suas
crianças, temendo o aparecimento de algum demônio.
Cavalcanti gostara do cheiro daquela igreja, que lhe
lembrava perfume de almíscar, só um pouco receoso,

29
pois não tivera a intenção de estragar o ritual e de
atrapalhar o padre, o que se dava conta que estava
acontecendo, envergonhando-o; Miguel não parecia se
importar: “Eles deviam ficar atentos ao culto. Isso só
prova o quanto a maioria só vai à missa por obrigação;
se estivessem realmente prestando atenção, nem teriam
se dado conta da nossa presença. Pois que saiam, se são
insinceros!”
- Reverendíssimo monsenhor...Sou Miguel, cruzado a
seu serviço.- Inclinou-se para cumprimentar o clérigo
após o último canto ter sido executado e os poucos fiéis
restantes terem saído. Olhares assustados partiram do
coro de mulheres, que em pouco tempo também
desapareceram, do mesmo modo que o organista. Dos
que haviam se retirado da igreja quase nenhum os fitara
nos rostos, preferindo passar de lado, repletos de temor,
em certas ocasiões reverente, e incertezas, alguns
olhares trêmulos de curiosidade porém ainda assim
hesitantes e amedrontados, a não ser as crianças, na
maioria das vezes admiradas.
- Perdão se causamos algum distúrbio, capelão de sua
santidade. Percebi isso, mas não era a nossa intenção.-
Cavalcanti se aproximou.- Sou Cavalcanti.
- Cavalcanti? Qual deles? Por acaso seria Lorenzo,
irmão de Cesare e filho de Guido??
- Sou eu mesmo, monsenhor.
- Não precisa pedir desculpas, meu caro Lorenzo!-
Acercou-se e abraçou o cruzado.- Eu e seu pai nos
conhecíamos bastante bem. Estudamos sob os mesmos
preceptores.
- Eu me lembro disso. Meu pai me falava muito do
monsenhor. Por isso fiquei feliz em saber que nos
encontraríamos pela primeira vez.

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- Isso desde que ficou adulto! Porque cheguei a vê-lo
quando era um bebê! Guido teria orgulho ao encontrá-lo
investido e tão bem-preparado.
- Fico feliz que estejamos entre amigos! Isso facilita
bastante as coisas!- Miguel sorriu.
- Guido às vezes vinha se confessar comigo, isso nos
tempos em que Dite não era tão intolerante com a
entrada de estrangeiros. Bons tempos aqueles!
- Mas fiquei preocupado com sua requisição. Pelo visto
os bons tempos se foram.- Lorenzo tornou a se
manifestar.
- De fato.- O monsenhor bufou e pela primeira vez seu
semblante ficou turvo; afastou-se dos dois cavaleiros e
se apoiou no altar.- Dizem que sou muito corajoso por
continuar aqui. Mas não vou abandonar o bispo
Abissini.
- Onde ele está?
- No segundo andar, onde temos alguns quartos
próximos do órgão. Acha-se descansando; tem estado
seriamente doente desde a primeira aparição da criatura.
- O que tem acontecido em Dite?- Miguel indagou.
- Todas as noites têm ocorrido ataques, e uma vez até
num final de tarde, no meio de uma festa de
Pentecostes. Ao invés das línguas de fogo do Espírito
Santo, o monstro apareceu e subiu à mesa de ação de
graças que havíamos preparado na praça em frente à
igreja. Pisoteou as colheitas, barbarizou nossas carnes,
salivando sobre elas, e por fim atacou os pescoços de
muitas pessoas, sugando seu sangue e depois arrastando
algumas com ele. Todos os que não fugiram o viram
escapar para dentro das catacumbas da catedral, mas
ninguém teve coragem de segui-lo, considerando que os
cavaleiros que tentaram enfrentá-lo foram massacrados

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por suas garras, que perfuram até o aço, e não
conseguiram feri-lo. Imaginem o pânico, meus filhos. E
de lá para cá, sempre depois que escurece, são
encontrados corpos mutilados, com todo o sangue
sugado ou a carne chupada dos ossos ou rasgada; talvez
alguns assassinos e outros criminosos se aproveitem da
situação para perpetrar seus delitos e permanecerem
impunes, colocando toda a culpa no monstro. É por isso
que lhes peço para que exterminem esse demônio: a
ação dele também estimula a ação dos monstros
humanos, apavorando os justos e deixando a cidade
entregue ao caos.
- Mas qual seria a relação entre o demônio e a doença
do bispo? Gostaria de compreender isso melhor.
- Ele me confessou que ficou extremamente desgostoso
com o fato da cidade estar tão afundada no pecado que o
surgimento de uma criatura das trevas acabou sendo
inevitável. Por isso, decidiu receber em seu corpo os
pecados da urbe, agüentando o quanto puder enquanto o
monstro não for eliminado e não começarmos a mudar
nossa postura. Temo, todavia, que ele não suporte,
conquanto seja um homem à beira da santidade.
- Como se dá o acesso às catacumbas?
- Há uma entrada movendo o altar de uma das capelas
radiantes. Podem descer por lá.
- Peço então que nos leve, monsenhor. Nós...- Contudo,
Miguel foi detido por Cavalcanti, que colocou uma das
mãos em seu ombro direito.
- Espere. Antes, poderíamos ver o bispo por um
momento? Chamaram algum médico?
- Chamamos, é claro. Mas não lograram nenhum
diagnóstico claro. E ele próprio frisou que seu mal-estar

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e sua doença são espirituais. Está consciente. Pode
conversar, inclusive.
- Com a permissão do reverendíssimo, gostaria de vê-lo
e conversar com ele. Talvez nos ajude a compreender a
natureza dessa criatura e a localizá-la com mais
precisão. Ao que tudo indica, trata-se de um habitante
das profundezas: esse tipo de monstro gosta de se
esconder em cavernas, tumbas e são extremamente ágeis
e traiçoeiros, perigosos tanto pela força como por sua
astúcia.
- Eu poderia descer e ir investigando enquanto você
fala com o bispo.- Miguel sugeriu.
- A conversa faz parte da investigação. Mas se quiser
pode ir antes.- A resposta veio com uma certa demora.
“Ele está desconfiado de alguma coisa...”, o cavaleiro
dourado notou. “E faz muito bem. Em nosso trabalho,
só podemos confiar uns nos outros e no Cristo, em mais
ninguém; os demônios são espertos. Cavalcanti tem um
plano em mente. Nem a permissão que ele me deu foi
casual: me deixando ir, não despertará suspeitas e
medos por parte do bispo ou do monsenhor, e mostra
que confia na minha força.”
- Então me espere aqui, filho.- Abbiati não se alterou,
dirigindo-se a Miguel.- Vou levar Lorenzo até o bispo e
depois retornarei para conduzi-lo à entrada das
catacumbas.
- Está bem.- O cruzado anuiu; e logo os outros dois
estavam subindo as escadas.
- O que pretende falar com o bispo, meu jovem?- O
monsenhor questionou no caminho.
- Quero que me dê mais detalhes sobre os males que o
afligem...E me mostrar disposto a colaborar com a
redenção desta cidade. Queria falar também com o

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monsenhor justamente sobre isso. O que vi em Dite é
preocupante e emergencial: as más condições de higiene
permitem às doenças proliferar: a população ainda não
se deu conta como é um grave pecado fazer pouco caso
da própria saúde? A ignorância está na raiz de certas
formas de suicídio.
- Eu e outros irmãos temos feito o possível, espalhado
as recomendações do papa e trazido durante os sermões
mensagens de incentivo à limpeza pública e pessoal. O
prefeito também tem colaborado, mas muitos estão
ainda convencidos que deturpamos as mensagens da
Santa Sé e que queremos induzir o povo de Deus ao
pecado. Seria preciso que o próprio Pontífice aparecesse
para convencê-los e ainda assim tenho minhas dúvidas!-
O monsenhor notou um certo pesar no rosto de
Cavalcanti diante dessa resposta, enquanto Miguel,
sozinho, fechara um pouco os olhos para sentir o
ambiente ao seu redor. Caminhou para o meio da nave
central, onde cruzou os braços e esvaziou a mente.
- Oh, então este é o jovem cruzado Cavalcanti...-
Deitado em uma cama macia, em um quarto cinzento,
com sua mitra apoiada em um tosco criado mudo,
Abissini levantou os braços dos lençóis com
dificuldade, franzindo sua testa e torcendo a face ao ser
apresentado ao cavaleiro. Muito claro e enrugado,
possuía profundos olhos azuis e parecia irradiar
simplicidade e cansaço.
- Não se esforce em vão, Vossa Excelência
reverendíssima.- Lorenzo se aproximou, ajoelhou-se ao
lado da cama e beijou o anel no anular direito.- Eu que
estou aqui para servi-lo.
- Estou indo...- Abbiati anunciou que ia ao encontro de
Miguel, que continuava no mesmo lugar, na mesma

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posição, quando de repente sentiu um calafrio a lhe
percorrer a espinha. Abriu os olhos e enxergou uma
sombra passando entre uma das naves laterais.
Desembainhou sua espada de duas mãos antes mantida
nas costas, cuja empunhadura dourada lembrava as asas
de um anjo e a bainha, de forma similar, continha em
relevo uma representação do príncipe dos arcanjos. “Há
alguma coisa aqui. Talvez não será preciso descer às
catacumbas...”, ao se deparar com a postura alerta do
guerreiro, o monsenhor parou e engoliu sua saliva; não
conseguiu mais se mexer: “Se ele está com a lâmina
pronta, o monstro deve estar por aqui! Como pode??
Terá sentido a presença do cruzado e vindo para
desafiá-lo?”
- Não se mova, reverendo!- Foi o conselho dado à
distância, em voz alta. “Eu já estou imóvel; e pode ficar
certo que não vou sair do lugar.”, refletiu Abbiati.
- O problema da falta de higiene é sério, mas é apenas
um dos equívocos de Dite. O fato da cidade não aceitar
estrangeiros abriu as portas para outro tipo de
gente...Para os xenófobos radicais e paranóicos, que
acham que qualquer um pode ser um estrangeiro. Nem
todos sabem, mas vêm ocorrendo até execuções
secretas, promovidas por seitas fanáticas que pregam
pela pureza moral da cidade, e muitos colocam a culpa
no monstro.- A voz do bispo estava rouca, mas já
parecia menos cansada; Cavalcanti, além de auscultar
suas palavras, observava todos os gestos, os
movimentos dos dedos, o modo de mexer os lábios e o
piscar dos olhos.
- Abbiati me acenou a respeito a disso. O que
poderíamos fazer contra essa onda de ignorância?

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- Por enquanto só consigo reter em meu corpo a ira de
Deus para que a cidade não seja destruída.
- “Só” isso? Vossa Excelência já está fazendo demais.
Por isso que viemos. Eu e Miguel pretendemos ajudá-
lo...No que for preciso; não apenas para eliminar o
demônio. Temo que, ao exterminar um, surja outro.
- Desconfio que seja assim mesmo, meu jovem e santo
cavaleiro.- O velho Abissini sorriu.- Fico feliz que a
Toscana ainda conte com almas como a sua. Temo
porém que não resistirei muito.
- Não sou assim tão santo, Excelência. Quando
desembarquei outra vez nesta ilha, mágoas antigas
vieram à tona, como que emergindo do mar que
atravessei. No entanto, vinham de um mar bem mais
profundo, das minhas águas interiores. Pensei apenas
em matar o demônio e ir embora; mas ao ver a situação
desta urbe, senti compaixão pelos irmãos que a habitam.
- Lorenzo...Abbiati já me falou de você. Aproxime-se
mais um pouco para que eu possa lhe dar um beijo na
testa.
- Será uma honra receber tamanha benção.
Em paralelo, Miguel tornou a embainhar sua espada.
“Foi tão forte...Como pode ter sido só uma impressão?”,
olhara para todos os lados, tentara sentir a presença de
alguém, e nada. Só via e sentia a si e ao trêmulo
monsenhor. “O que está acontecendo? Mesmo se fosse
um cão ou um gato não desapareceria assim. Devo estar
destreinado na percepção; bem que Raja às vezes me diz
que não basta só saber manejar a espada.”
Cavalcanti se levantara e agora se inclinava para
receber o beijo do bispo, que fazia tudo com grande
esforço; contudo, num movimento rápido demais para
ser visto por olhos humanos, a cabeça de Abissini voou

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para longe. O cruzado já estava com suas adagas curvas
e prateadas sujas de sangue.
- Hahahaha! Muito esperto!- Uma massa de tentáculos
carnosos saiu de dentro do “corpo” do bispo para
estrangular Lorenzo, que saltou para trás e ainda assim
foi seguido por aqueles braços verminosos, que
rastejaram em alta velocidade deixando para trás
vísceras e restos de órgãos; inútil: toda a carne agressiva
foi retalhada em poucos segundos.
- Droga!- Ouvindo a risada e sentindo a energia
espiritual hostil no quarto de Abissini, Miguel correu
para cima bem quando o monsenhor dera alguns passos,
começando a se mover...O susto da disparada do
cruzado, que fez o coração de Abbiati quase saltar pela
boca, só não foi maior porque nenhuma sombra seguiu o
cavaleiro dourado; agachou-se e levou as mãos ao peito,
ofegante. “Senti como se ele fosse me agredir! Que
grande covarde sou! Onde está a minha fé?!”,
questionou-se.- Meu Deus...O que aconteceu aqui?- Foi
a indagação do homem da espada dos anjos ao encontrar
os aposentos do bispo banhados de sangue e os restos de
uma criatura sombria.
- Não é ele.- Cavalcanti murmurou, com os olhos
dilatados.
- Me explique o que aconteceu.- Manteve a calma,
apesar da cena.- Por acaso o bispo era o demônio
disfarçado?
- Não. Habitantes das profundezas não podem assumir
a aparência humana.
- Então o bispo estava possuído por um?
- Esse tipo de demônio também não pode fazer isso.
Mas eles são suficientemente perigosos para gerar

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aberrações, pequenas crias que entram nos corpos
humanos.
- Me desculpe...Eu não me lembrava. Devia ter
repassado certos estudos.
- Não se incomode. Às vezes não temos tempo
realmente...- Os olhos de Lorenzo começaram a voltar
ao tamanho normal.- Eu é que nunca paro de ler.
- Mas você desconfiou de alguma coisa desde o
começo, não é? Eu percebi...
- Quando o monsenhor começou a me falar do bispo,
investiguei o espírito dele. Sua Excelência era um bom
homem, mas não um santo. Estava com muito medo,
mas muito medo mesmo de morrer; pude sentir o pavor
dentro de mim quando me foquei em perceber as
condições de sua alma.
- Como de costume, você disfarça muito bem.
- Ele podia até acreditar que estava recebendo o castigo
de Deus no lugar da cidade, mas na verdade sua
“doença” se devia à presença do parasita demoníaco,
que pode enganar qualquer médico, permanecendo
imperceptível. O bispo não tinha mais salvação. Nem
todas as pessoas podem ser possuídas por esse tipo de
criatura; a porta que ele abriu foi o medo extremo, isso
desde que o demônio entrou nas catacumbas.
- O monstro está lá embaixo, nos esperando?
- Está sim. E a gargalhada que reverberou foi a dele,
não da cria; é realmente forte. Embora não sejam
“nobres” do Inferno, alguns habitantes das profundezas
têm uma força comparável à de um barão. São como
espadachins de alto nível que nasceram em famílias
pobres.
- Uma pena pelo bispo. Medo até nós que temos o
sangue de Cristo em nossas veias podemos sentir,

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imagine as outras pessoas. Não temos que condená-lo
por querer viver.
- Como você acha que estou me sentindo? Preferi
decapitá-lo a permitir que uma aberração explodisse sua
cabeça; ao menos morreu sob uma lâmina cristã. Ainda
assim, desfechei o último golpe contra a vida de um ser
humano. Peço perdão, Vossa Excelência.- Levantou a
cabeça e fechou os olhos.- Ele por ter sido pretensioso
ao pensar que estava salvando a cidade...Ou talvez fosse
uma crença sincera. Não importa: quanto mais lutamos,
mais cadáveres dos que não mereciam morrer surgem
pelo caminho. Ou as pessoas merecem pelos pecados
alheios? Então o que nós temos de melhor? Poder?-
Tornou a abrir os olhos e abaixou a cabeça.
- É muito triste e sinceramente não sei como responder.
Mas não podemos ficar parados. Vamos ao menos tentar
diminuir o número de inocentes mortos.
- Tentar, diminuir...É tudo o que fazemos. Eu queria
que pudéssemos fazer crescer. E que não fossem apenas
tentativas, e sim êxitos. Me desculpe, Miguel.
- Comigo pode desabafar à vontade. Mas vamos descer.
O monsenhor deve estar no chão. Preguei sem querer
um susto nele. Não tinha outro jeito.- Recebeu um olhar
rijo de Cavalcanti.
Desceram as escadas e encontraram Abbiati ajoelhado
no chão, com as pálpebras bem cerradas e rezando.
Passaram sem fazer estardalhaço e ele ainda assim
“despertou”:
- Meus filhos...- Estava difícil encontrar coragem para
perguntar.- O que aconteceu com Sua Excelência, o
bispo Abissini?
- Ele sofreu um ataque e está morto.- “Meu Deus! Ele
podia ser menos direto...”, Miguel refletiu diante da

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franqueza de seu amigo Lorenzo; Abbiati levou as mãos
à boca e não conteve o choro.
- Mas não foi o monstro principal, que está nas
catacumbas.- Miguel complementou.
- Quer dizer que há mais deles?!
- Sim.- Respondeu Cavalcanti, e simplificou:- O
demônio principal coordena os menores de lá.
- Eu...Vou levá-los.- Gaguejava.
- O ideal é que fique perto de nós, ou saia da catedral
ao descermos. É perigoso permanecer aqui se não ficar
sob a nossa proteção direta.
- Eu ficarei...Ao lado de vocês, meus filhos.- “Será que
estou tendo um rompante de coragem? Ou seria medo
de fazer o caminho para a saída sem eles ao meu lado?
Fiquei sozinho enquanto Miguel subia...Mas continuo
sendo um medroso. Perdão, bispo Abissini! O senhor
sim se preocupava com esta pobre cidade de pecadores,
sendo eu um desses pecadores.”, enquanto Abbiati se
bombardeava, o cavaleiro dourado sentia agulhadas na
cabeça, algumas tão fortes que o levaram a piscar os
olhos com insistência, o que foi notado por Cavalcanti,
seguindo-se um sinal para que o amigo não se
preocupasse, pois Lorenzo sabia que seu companheiro,
embora não fosse muito de ler (e não propriamente por
não gostar e sim porque dizia que, após alguns minutos
com o olhar no papel, sua testa começava a latejar e as
dores de cabeça frontais seguiam por algumas horas, o
que o desestimulava por completo em seus estudos) e
nem possuísse uma percepção espiritual ou emocional
notável, sendo comum nesse sentido entre os cruzados,
tinha uma certa facilidade para captar pensamentos,
mesmo que não os lesse sempre, compreendendo suas
intenções, e quando estes eram ofensivos ou irritantes

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produziam um efeito negativo em seu crânio, como se o
pressionassem, além de queimar suas pupilas. Sentindo
as emoções caóticas do monsenhor, o florentino deduziu
que os pensamentos problemáticos provinham deste,
não do demônio nas catacumbas, e a princípio ficou
apreensivo porque o apavorado clérigo poderia
atrapalhar na luta vindoura se continuasse por perto. No
entanto, o sinal de Miguel fora para que confiasse e este
não mais piscou os olhos até que chegaram ao local,
onde Abbiati descruzou as mãos em prece para deslocar
o altar e revelar uma escadaria.
- Tem certeza que pretende vir conosco?- Foi a questão
de Lorenzo. “Ele quer me ajudar. Mas não precisa;
tenho que aprender a lidar com isso. Obrigado,
Cavalcanti...”, Miguel agradeceu interiormente,
tentando segurar o sorriso ao olhar para a parede;
deparou-se com um afresco de Santo Antão sendo
tentado pelo Diabo, o que não ajudou muito.
- Ah...- O monsenhor demorou a responder e das
primeiras letras pronunciadas não saiu uma palavra
articulada.- Eu vou...Estarei por perto rezando por
vocês, filhos.
- Então vamos.- Cavalcanti deu as costas e foi o
primeiro a descer. Ansioso para não ficar desprotegido
atrás dos dois cavaleiros, Abbiati desceu na seqüência,
com um candelabro aceso em mãos, que pegou da
capela; Miguel foi o último, suas costas exibindo uma
aparência tranqüila, sem pesos.

II – Profundezas

Com o crescimento da população do burgo nos tempos


anteriores à epidemia de peste e à explosão de outras

41
doenças, motivado pelos comércios e feiras, tendo os
cidadãos de Dite convivido com uma boa quantidade de
estrangeiros especialmente para os serviços que os
habitantes originais não costumavam fazer, como limpar
fossas, latrinas e outras tarefas consideradas degradantes
(num determinado momento nem essas pessoas
puderam mais dar conta da situação e com sua partida
tudo só piorou), os despojos funerários se acumularam a
ponto dos cemitérios não oferecerem mais espaços; por
isso foram escavados túneis, e descobertas cavernas nos
subterrâneos da catedral, proporcionando assim imensos
ossuários, o que acabou se estendendo para além da
igreja, havendo nas paredes, repletas de musgos e mofo,
placas para identificar debaixo de que rua o eventual
visitante se encontrava.
- Dizem que alguns profanos já desceram aqui para
celebrar missas negras. Talvez isso também tenha
contribuído para gerar aberrações.- Abbiati comentou
com os cruzados, que tinham colocado seus capacetes
na descida para aquele submundo.
- É possível, monsenhor. Mas essas criaturas não
respeitam nada nem ninguém, de qualquer maneira.
Sentindo alguma coisa, Cavalcanti?- Miguel inquiriu.
- Por enquanto nada. Parece que ele também é capaz de
restringir seu espírito e assim disfarçar sua presença.
Por isso nossa atenção precisa ser redobrada.
“Vocês não sabem de nada! Pecadores como são, ou se
tornam nossos servos ou serão apagados. Deus não nos
elimina porque somos sinceros; porém ele se cansa dos
hipócritas.”, de repente um pensamento estranho piscou
na mente de Miguel, que se voltou para o companheiro:
- Ele está próximo! Ouvi um pensamento do
desgraçado agora.- E sentiu como se suas entranhas se

42
retorcessem; no estômago, um vazio, e não demorou
para chegar uma sensação de fome...Algo que
dificilmente ocorria com um cruzado. Imagens de
carnes sangrando e de dentes afiados com as faces
imersas nas sombras, apenas os maxilares visíveis,
passaram diante dos seus olhos.- E tive a impressão de
ser um pensamento dirigido. Parece que ele nos estudou.
- Continue perto de nós, monsenhor.- Cavalcanti
aconselhou, enquanto desembainhava as adagas em sua
cintura. Seus olhos pareciam imóveis, fixos para o que
poderia surgir adiante, mas sua mente se espalhava por
todos os lados e direções possíveis; escutou passos
acelerados, de correria, e vozes desconexas.- Você
ouviu?- Dirigiu a questão para o cavaleiro dourado, que
agora caminhava de costas, protegendo melhor assim
Abbiati, que cerrara a boca, e a si mesmo.
- Vozes embaralhadas...- Um ódio súbito o atingiu; para
a sua tristeza, que se seguiu ao sentimento aflito que
tentou reprimir, não vinha de nenhum demônio, e sim
de suas recordações mais retorcidas. Seu coração se
enrolava numa espiral bruta de carne e sangue e assim
os batimentos ficavam difíceis, duros, enroscados, quase
sem expressão. Aprofundou a respiração e buscou
esvaziar a mente, sem tanto sucesso. Reviu os rostos de
velhos inimigos e, pior do que isso, os de antigos
amigos. “Talvez esse demônio esteja estimulando o que
há de pior em mim...Que sei que ainda existe. Deus, me
dê sua proteção neste instante!”, alguma coisa percorreu
as trevas e numa rapidez sobre-humana deu a impressão
de atravessar o abdômen do guerreiro, destroçando a
armadura naquela região; ao espirrar do sangue, o
monsenhor gritou e correu para perto de Cavalcanti, que
não se mexeu mesmo diante da aparição do demônio,

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com quase dois metros de altura, cabeleira vermelha
suja e desgrenhada, olhos amarelos de veias saltadas,
pele macilenta e cheia de rugas, vestido em trapos,
narinas largas demais, dentes brancos em formato de
facas pontudas e imensas garras da mesma cor. Berrava
e gargalhava.
- Lorenzo...Não vai ajudá-lo??- Abbiati inquiriu,
apavorado.
- Não subestime Miguel, monsenhor.
- Até que você é forte, ou não teria prejudicado a minha
armadura...- O cavaleiro falou sem dar mostras de dor,
com uma expressão tranqüila para a surpresa do
monsenhor e da criatura.- Mas força bruta não é o
suficiente pra me derrotar, monstro idiota.- A espada se
moveu em uma velocidade aterradora, passando a
impressão que se transformara em um facho de luz, e a
cabeça e o braço cravado na barriga foram separados na
hora do resto do corpo, que despencou queimado.
- Impressionante...- Abbiati enxugou o suor da testa.
- Isso não é nada.- Miguel se voltou para trás e sorriu.
Na seqüência, com algum esforço e agora sim
demonstrando dor, arrancou o braço, atacado pelas
chamas, e o jogou para junto dos outros restos do
demônio, que viraram cinzas. Uma luz dourada
envolveu a região que parecia seriamente machucada;
em pouco tempo estava reconstituída, sem sequer uma
cicatriz.
- Um monstro forte, mas estúpido. Não se mostrou à
altura da sua espada do fogo do Espírito Santo. Não era
o que procuramos.- Cavalcanti deixou claro.
- Só estragou a minha armadura.
- Por Jesus Cristo nosso Senhor...A catedral estava
infestada de criaturas malignas!- O monsenhor fez um

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sinal da cruz, e refletiu: “Por um momento pensei em
fazer o sinal por eles também. Os cruzados estão
imbuídos de uma missão santa e corre em seus corpos o
sangue de Cristo; mas com tamanhos poderes, penso se
não devo temê-los. Sei que é um pecado, que estou
duvidando do Senhor, mesmo que pareça algo tolo ou
insignificante, ou nem tanto. Estou sendo ingrato; eles
me protegem e é com medo que retribuo? Não, talvez eu
sinta temor. Temor e respeito, como para com qualquer
manifestação divina.”
- Para qualquer pessoa comum seria suicídio entrar
aqui. Mas nós vamos solucionar isso.- “Eu ainda estou
esperando por vocês...”, captou um pensamento
carregado de escárnio.- Ele se comunicou comigo.-
Disse a Cavalcanti após um instante de suspense.- Está
nos provocando.
- Agora ele parou de esconder a energia espiritual.
Posso senti-lo.- Replicou o florentino.
- Será que está tão confiante assim de que pode nos
derrotar?
- Não me interessa. Vamos, antes que o desgraçado
mude de idéia e fuja.- E seguiram adiante guiados pela
percepção de Lorenzo, com Abbiati um pouco
arrependido por estar ali: “Devia ter ido embora da
igreja quando tive a oportunidade. Agora estou prestes a
me encontrar com uma criatura dos abismos! Talvez não
viva muito mais. E o ritmo deles...”- Está tudo bem,
monsenhor? Vejo que se encontra ofegante. Se quiser,
podemos ir mais devagar.- “Ainda por cima atrapalho os
dois.”
- Não, meu filho. Devem seguir no passo que julgam
apropriado. Afinal são vocês que conduzem essa
missão; estou aqui apenas para rezar.- “De certa forma,

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ele está sendo corajoso; hoje não havia alternativas
covardes...”, Cavalcanti, que sentia o medo vindo do
padre, sorriu com benevolência. Contudo, pouco depois
mudou radicalmente de postura, arregalou os olhos e
gritou:
- Abaixem-se!- Empurrou Abbiati para baixo, enquanto
uma saraivada de flechas (ou garras atiradas? Quiçá
ambas. Eram objetos pontiagudos) passou pelos três. O
monsenhor chegou a ver a imagem de si próprio com a
cabeça e a garganta perfuradas, caindo morto no chão
das catacumbas.
- Ele está só um pouco à frente!- Miguel se levantou,
emanando um grande halo dourado formado por
círculos concêntricos luminosos, bravios em
dinamismo, que levou o padre a boquiabrir e a sentir um
arrepio por todo o corpo, “é como se fosse um santo!”,
esquentou o ambiente frio e úmido, iluminou os
corredores e derretia os projéteis que eram atirados.
- Fique no chão, monsenhor.- Uma aura mais discreta,
prateada, fazia o contorno do corpo de Cavalcanti e
permitia que as unhas negras, sujas e afiadas, caíssem e
se encravassem no solo quando chegavam perto dele, do
mesmo modo que as peças metálicas, rendidas inúteis.
Os dois guerreiros correram para a frente e em poucos
segundos, entrando em um salão amplo repleto de ossos
humanos, desmontaram com os golpes de suas armas os
esqueletos arqueiros espalhados pelo lugar e foram mais
a fundo para encontrar quem lançava as garras, sentado
em um túmulo esverdeado: a criatura de pele vermelha
fosca tinha olhos de abutre, chifres negros curvos que
soltavam uma espécie de fumaça, boca de hiena, braços
compridos e flexíveis, pernas musculosas, uma
corcunda disforme e, ao se levantar do lugar, revelou

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mesmo com o corpo torto uma altura considerável,
chegando quase aos quatro metros. Suas unhas se
destacavam e logo cresciam outra vez, tão perigosas
quanto lâminas de aço da melhor qualidade.
- Hoje estou com muita fome. Que bom que vieram
duas presas graúdas!
De início, espadadas e golpes de adagas não surtiram
efeito, ricocheteando na pele dura; analogamente, as
garras rivalizavam com o metal, assim como a
velocidade do demônio parecia ser superior à dos
cavaleiros, aparando todos os ataques ao mesmo tempo.
De súbito, após uma seqüência alucinante de golpes,
choques e esquivas, a dupla parou, próximos um do
outro e distanciados do inimigo.
- O que foi? Já desistiram?? Eu não desisti!
Cavalcanti deu uma olhada para Miguel e, quando o
monstro se lançou ao ataque, o cavaleiro dourado
assumiu a dianteira, saltou com uma rapidez que
superou a do oponente e sua espada se transformou em
uma labareda, penetrando no peito do adversário e
derrubando-o. O cruzado ficou de pé sobre o demônio
caído, que começou a urrar de dor, o som fritante em
sua carne aumentando à medida que a lâmina tornava a
se solidificar, incandescente dentro de seu corpo.
- Como vê, nós também não tínhamos desistido.- Os
olhos do cavaleiro da “espada do fogo do Espírito
Santo” brilharam.
Assim que o demônio ameaçou vomitar, o que não era
fortuito, pois geraria alguma criatura bizarra, Lorenzo
agiu e com suas adagas cortou-lhe a garganta. A missão
chegara ao fim.
- Acabou. Como a maioria dos demônios, cometeu o
pecado da presunção.- Miguel sentenciou.

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- Do qual nós também não estamos imunes.- E,
enquanto seu companheiro ainda se regozijava com sua
vitória, admirando o corpo estendido do monstro,
Cavalcanti correu para acudir o monsenhor, de quem o
outro cruzado até se esquecera. “Nossa missão, mais do
que matar demônios, é salvar pessoas...”, refletiu
Lorenzo, ao passo que Miguel retirava seu elmo, que
não gostava muito de usar. “Mais um triunfo, pisando
em cima das profundezas! Espero um dia não afundar!”,
riu consigo e de si próprio. “Será que tenho realmente
motivos pra rir? O bispo está morto, e a cidade vai
continuar a merda de sempre!”, de repente, seu estado
de ânimo mudou da água para o vinho; ou melhor,
percebeu que seu riso e seu triunfalismo vinham de sua
melancolia, não de alguma forma de felicidade. “Na
verdade vou estar constantemente pisando na areia
movediça e meio que afundando, só que voltando à
tona, sempre. Só eu...E gente como eu, como
Cavalcanti. O resto, de maneira aleatória ou não,
terminará por afundar. Um destino pequeno para os que
são filhos de Deus!”
- Está terminado, monsenhor. O demônio está morto.-
Lorenzo estendeu a mão para o padre, que continuava
no chão, com a cabeça baixa entre as mãos, a testa
apoiada no piso.
- É você de verdade, meu filho?- Só levantou os olhos
quando sentiu que era seguro.
- Sou eu. Bem-vindo novamente à Criação de nosso
Pai.
- Oh, Lorenzo...- Erguido pelo cruzado, abraçaram-se
com ternura.- Até que enfim acabou, fiquei com medo
por vocês!

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- Tratava-se de um adversário perigoso, mas já
enfrentamos piores. Ele nos subestimou e nós não. Isso
fez a diferença. Como cristãos, não podemos duvidar
nem do potencial dos demônios.
- Muito menos. A maior força do inimigo está em nossa
própria e frágil vaidade.
- Agora só espero que não tenha sido em vão.
- Entendo o que quer dizer. Refere-se à morte do bispo
Abissini?
- A morte do bispo foi uma conseqüência.- Afastou-se.-
Refiro-me às causas. Esta cidade precisa mudar.
Urgentemente. Ou outras criaturas, piores, virão.
- Compreendo. Acho que uma coisa pode ser feita logo.
- O quê?
- Vocês deveriam falar ao povo. Afinal vocês são os
heróis.- Abbiati sorriu e Cavalcanti suspirou; não
gostava de falar em público e nem queria se tornar uma
celebridade ou ser idolatrado como salvador.- Eles não
vão ouvir o prefeito e nem a mim. Mas acredito que
ouvirão vocês.
- Vou falar com o Miguel.- “E deixar isso pra ele...”,
pensou, não disse.
- É cansativo viver assim. Os ratos morrem, mas
continuam a proliferar.- O cavaleiro dourado falou em
voz baixa, consigo mesmo; ainda não saíra de cima do
demônio.
- Está confortável aí?- Lorenzo brincou, sem perder a
seriedade aparente; Miguel se voltou e sorriu.
- Até que ele é mais macio do que parecia.- Enfim
desceu do corpo do monstro.
- Vim para perguntar se estaria disposto a fazer algo
que extrapola as nossas responsabilidades.

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- Não foi você que quando chegou aqui disse que só
queria eliminar o demônio?
- As circunstâncias modificam as reflexões. Não por
acaso são reflexões; refletem e se curvam a nós. E
talvez, apesar da Santa Sé salientar que não, Cristo ache
que nosso trabalho não termina no instante em que
pensamos que está acabado.
Algum tempo depois, voltaram para perto do
monsenhor, que mesmo com o demônio morto não
tivera coragem de seguir Cavalcanti ali adentro.
- Quando poderemos realizar o pagamento?- Inquiriu.
- Depois que fizermos nosso discurso ao povo de Dite.-
Miguel respondeu com singeleza e alegria, levando
Abbiati a menear a cabeça para os lados, sorrir e ao
mesmo tempo, comovido, derramar algumas lágrimas,
que tratou de enxugar com as mãos. Lorenzo apoiou a
mão direita em um de seus ombros e, agora os dois
livres de capacetes, seguiram de volta à superfície,
porém indo mais a fundo em si próprios, nas reflexões
de subida, do que quando haviam descido.

TERCEIRO ATO

I – Na superfície

Tarde de euforia em Sevilha. As ruas estavam bem


mais agitadas do que de costume, com o principal
mercado da cidade em polvorosa:
- Comprem hoje! Último dia para a venda!
- Bonecos por três moedas de bronze, efígies de cinco a
sete!

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Os comerciantes não paravam de gritar, enquanto as
pessoas se adunavam às centenas em volta das tendas e
barracas, desesperadas, algumas se empurrando, outras
pulando umas sobre as outras; não se respeitavam nem
os mais velhos, lançados com violência de queixo no
chão quando significavam alguma forma de
concorrência, os pisoteios não sendo raros. O auto da fé
fora anunciado com quatro semanas de antecedência,
começando com a proclamação na praça principal por
parte de um sacerdote inquisidor e continuando a
divulgação nos dias seguintes por meio de panfletos e
durante as missas. Como sempre costumava acontecer
na iminência de tamanho evento, foram afluindo
cristãos dos territórios vizinhos e mesmo peregrinos de
nem tão perto, aos quais de alguma forma chegara a
notícia. Os bonecos de pano ou madeira e as efígies de
argila, cera ou pedra representavam os condenados,
vestidos com os mesmos trajes, e deviam ser jogados
nas fogueiras pelos espectadores depois que estas já
tivessem completado algum tempo acesas, após a
autorização do inquisidor de posição mais elevada
presente no local; do faturamento das vendas, a Igreja
recebia a décima parte.
Sevilha já parecia respirar as chamas, com um pôr do
sol mais agressivo e vermelho do que de costume; o
próprio astro-rei aparentava ser um olho carregado de
ódio e mergulhado num poço de sangue fervente,
faltando o outro no rosto do céu, ao que tudo indicava
incinerado pelas labaredas em volta.
Os autos da fé haviam sofrido algumas mudanças no
decorrer dos séculos, se tornando cada vez mais
espetaculares, grandiosos e lucrativos. Entrementes,
poucos tinham acesso ao que os antecedia...

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- Porco imundo! Como ousa persistir na recusa em
pronunciar o nome de Cristo! Só posso dizer que está
perdido!- Malcolm, o cruzado, vestindo uma bela túnica
branca, dourada, azul e carmesim, com uma cruz
envolvida por uma serpente com cabeça de águia ao
centro, sobre sua cota de malha e suas pernas
encouraçadas, chicoteava com toda a sua força e fúria
nos olhos borbulhantes um homem grande e moreno,
nu, pendurado por correntes ao teto, abrindo enormes
sulcos em sua pele; como a língua fora arrancada,
obviamente não poderia pronunciar nenhum nome.
Encontrava-se em uma das prisões secretas do tribunal
da Inquisição, na periferia da cidade, onde os réus eram
mantidos incomunicáveis.- Tudo o que fizemos, que
fique bem claro, foi ad eruendam veritatem. Mas você
continua a renegar a fé cristã!- O lugar era úmido, frio e
lá se achavam vários acusados, alguns cujos delitos já
haviam tido confirmação e os casos resolvidos pelo
braço secular; um de cada vez, Malcolm os analisava ou
punia. O carrasco ordinário fora dispensado e ao seu
lado estavam alguns outros indivíduos: um médico,
sujeito pequeno e calvo, pálido, de óculos e túnica
branca; o secretário da Inquisição, um senhor de bigode
e cabelos brancos, magro e um pouco trêmulo, porém
mesmo assim de caligrafia impecável, colado ao réu
(com a finalidade de escutar assim até seus suspiros,
analisando o semblante quando este não tinha mais
como falar), que registrava minuciosamente o que
ocorria, trajado com uma casula negra e portando um
pequeno barrete; e o padre vermelho Torquemada, de
batina da cor do sangue mais escuro, um indivíduo na
faixa dos cinqüenta anos, o rosto quadrado, magro e de
feição petrificada.

52
- Vossa Eminência, já não acha que é o bastante?- O
médico falou com o padre, visto que seria inútil se
dirigir ao cruzado, que parecia fora de si, os olhos quase
saltando das órbitas.
- Ainda é muito pouco.- Torquemada, que recentemente
fora nomeado Inquisidor Geral pelo papa, passando a
merecer o tratamento de “Eminência”, balançou a
cabeça em sinal de negação.- Este homem chegou a
afirmar que os apóstolos nunca foram agraciados pelo
Espírito Santo.- Natural de Valladolid, residia agora em
Roma, mas sempre comparecia em eventuais autos da fé
de grande porte que fossem organizados mundo cristão
afora.
O médico não parava de engolir sua saliva, com a
garganta ardendo; já testemunhara diversas torturas em
tempos recentes: um trapo inserido até a garganta, e na
seqüência se esvaziavam lentamente jarros d’água na
cabeça do imputado, reproduzindo o terror do
afogamento, sendo ao fim o pano retirado com toda a
força; prensas de mãos ou pés; uma mulher de meia-
idade colocada nua sob um fino jato de água gelada e
deixada num cavalete nessa condição por um dia e
meio; uma roda sob a qual havia brasas incandescentes,
o pobre diabo amarrado com as costas na parte externa,
e o giro se dava bem devagar; um sujeito preso de
cabeça para baixo em uma grande cadeira, provocando
atrozes dores nas costas; outra cadeira, repleta de
espigões metálicos, onde o mínimo movimento
significava que o metal agudo perfuraria a carne nua, e
mais uma terceira com um assento de ferro aquecido por
uma fogueira embaixo; quase nenhum réu resistia sem
confessar.

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- Vamos à próxima!- E Malcolm cuspiu com desprezo
no desgraçado, dirigindo-se com seu azorrague para a
vítima sucessiva. Sendo seguido pelos outros, encarou
com severidade, os olhos crispados, uma jovem de
aparência cigana, longos cabelos castanhos cacheados e
pupilas verdes e vívidas, os braços levantados e o
vestido rasgado que sugeria a beleza das pernas, tendo
os pulsos amarrados por cordas, porém os pés livres.-
Uma acusada de bruxaria, Vossa Eminência?-
Perguntou a Torquemada; a expressão no rosto da moça
era séria e altiva.
- Isso mesmo.- Replicou o padre vermelho.- E essa fala;
e muito bem por sinal.
- Parece que hoje não está muito disposta. Pois eu lhe
darei disposição!- Agitou com fúria o látego e a golpeou
na bochecha, produzindo horríveis marcas.- Vamos,
confesse! O que espera?! Que Satanás venha salvá-la?
- E se eu dissesse que sim?- Conquanto fritada pela dor,
respondeu com um cinismo orgulhoso; Torquemada
franziu a fronte e abaixou um pouco a cabeça, o médico
a meneou para os lados e o escriba anotou cada detalhe
com avidez.- Vocês não sabem de nada.
- Cale essa sua boca imunda, prostituta!- Malcolm viu
no movimento mole e injurioso daqueles lábios a
sinuosidade de duas serpentes lúbricas; olhou para os
pés nus, bastante delicados, de unhas bem-cortadas.-
Sua beleza é uma armadilha e sua vaidade prova que
não passa de um demônio libidinoso sob as ordens de
Lilith e seus súcubos!
- Nossos costumes não têm nada a ver com Lilith ou
Satã. Vocês, imbecis e ignorantes, não entendem que
amamos a natureza e a celebramos com alegria, não
com culpa e pesar.- Torquemada se lembrou que haviam

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conseguido capturar um grupo de ciganos, inocentando
os que se declararam cristãos ou se converteram, mas os
objetos de ouro e prata destes foram apreendidos a fim
de arcar com as despesas do Tribunal para com os que
persistiam no paganismo (a princípio, a Inquisição não
perseguira os poucos assumidamente não católicos que
restavam no mundo, limitando-se aos que, pertencendo
à Igreja por terem sido batizados, tinham se apartado
dela; contudo, o cenário mudara quando o Santo Ofício
passara a acumular funções de conversão).
- Você não se arrepende dos seus pecados, portanto...-
Atingiu o pescoço com ainda mais força; o médico
quase sentiu na própria pele a dor da carne do colo
rasgada. Se os cruzados tinham o sangue de Cristo em
suas veias, como um deles existia sem manifestar o
mínimo sinal de compaixão? Agora que Torquemada,
um padre vermelho, se tornara o Inquisidor Geral,
aqueles homens estariam com toda a certeza muito mais
presentes nos processos contra os hereges.
- Homens como você são o pior da face da Terra.
Covarde...
- Ainda persiste em seu orgulho, bruxa!- As chicotadas
que se seguiram foram terminando de rasgar o que
restava da roupa da moça. E ele de qualquer maneira,
embora não admitisse para si, a queria ver nua. Como
não podia mais tocar nenhuma mulher, espancá-las era
fonte de indizível prazer, conquanto fugaz, e ficava
furioso pela brevidade dos momentos de êxtase. Quando
torturava um homem herege, só sentia a ira tomar conta
de sua cabeça, que doía, o ardor nos olhos e o vermelho
em sua face condizendo com seus cabelos, conseguindo
ser mais lento e, ainda que irracional, dar mais golpes
fortes do que golpes em quantidade; já com as mulheres

55
sua mão não limitava a velocidade, seu rosto seguia
rubro, no entanto a salivação aumentava, com
freqüência deixando sua baba pingar no chão ou grudar
na barba, não sentia dores, apenas espasmos pelo corpo
que conseguia disfarçar a custo, e bater com o
instrumento de tortura era como deslizar seus dedos
famintos de pele e paixão por um corpo feminino, só
conseguindo diminuir o ritmo quando ejaculava, e então
seu comportamento voltava a se parecer, geralmente,
com o que tinha em relação aos hereges do sexo
masculino. Havia vezes, contudo, que uma ejaculação
não bastava, precisando que alguém o detivesse antes
que a morte da vítima precedesse seu abrandamento
sexual.
- Já chega! Se continuar assim, o senhor irá matá-la!- O
médico esbravejou desesperado, sem sucesso, quando a
jovem cigana pareceu mole e sem forças, praticamente
despida.
- Basta, sir Malcolm.- Entrementes, o cruzado só
obedeceu a voz calma de Torquemada, parando no ato,
a princípio trêmulo, e aos poucos voltando ao “normal”.
Teve que se contentar com apenas um gozo.
- A bruxa orgulhosa não queria se retratar.- Falou com
uma certa ofegação.
- Sei que não fez por mal, meu filho; mas não deve se
exceder assim. Ela terá o que merece em breve, mas
nós, homens de Deus, não podemos sujar nossas mãos
dessa maneira. Deixe que o braço secular cuide disso.-
E continuaram por aquelas paredes e chão sujos e
escuros; goteiras persistiam. Pararam defronte a uma
porta de ferro.- Agora vocês dois fiquem aqui.- O padre
vermelho se dirigiu ao médico e ao escrivão.- Pois não é
um ser humano que está lá dentro.- Os dois trocaram

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olhares apavorados. De fato, um demônio fora arrastado
até ali havia pouco tempo por outro cruzado; qual a
razão da criatura não estar morta e sim presa? O que
levara o guerreiro a prendê-la ali? Por acaso
desconhecia a proibição de misturar demônios e
hereges, pois poderiam entrar em conluio? Torquemada
estava pronto; Malcolm se mostrava sério e não mais
corado.
Entraram e fecharam a porta; dentro a iluminação era
ainda mais escassa, com uma lâmpada a óleo mais fraca
do que em outras áreas da prisão. A primeira claridade a
ser notada foi a de um olho dourado de pupila negra se
abrindo.
- Conserte a besteira que Charles cometeu.- Disse o
padre vermelho; fora para aquilo que trouxera Malcolm,
estimulando-o com o espancamento de hereges, algo
que sabia que divertia o cruzado e, pelo passado deste,
até representava um pouco mais do que mera diversão.
O corpo negro e musculoso do monstro estava
camuflado naquelas trevas, não tendo forças para se
soltar das correntes que o prendiam pelas mãos, estas
mais claras, e nem para se livrar do sadismo do outro
guerreiro: inúmeras facas cravadas por sua carne,
algumas serrilhadas, outras mais pontudas, e havia as
terrivelmente afiadas.
Malcolm desembainhou sua límpida espada bastarda,
de empunhadura simples, com apenas algumas
inscrições em gaélico e um dragão em estilo celta
desenhado na bainha; entretanto, esta voou longe e foi
se encravar na porta, para o susto tanto do padre
vermelho como do cruzado, e alguém emergiu da
escuridão com a lâmina pronta na garganta do cavaleiro
inglês: era Charles, até aquele momento oculto nas

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sombras, que agachado e encolhido escondera sua
cabeça branca, em trajes negros colados.
- Que brincadeira é essa, Charles?!- Partiu a bronca do
Inquisidor.- Malcolm, não reaja!
- Isso mesmo, Eminência. Diga a ele para ficar
paradinho enquanto lhe corto a garganta, para assim o
sangue jorrar fresco na minha...
- Charles, repito para que não brinque com coisas
sérias!
- Vossa Eminência disse outra coisa antes; mas não
importa! Não tenho a intenção de matar você, meu
irmão.- O olhar de serpente albina gelou Malcolm, que
de qualquer maneira não estava conseguindo se mexer.-
Só não interfiram na minha tarefa.- Reassumiu uma
postura normal e afastou sua espada fina e afiada do
pescoço do outro cruzado, que recuperou os
movimentos, com a pele que ficara fria persistindo
assim e vendo seu sangue como se escorresse azul em
seu interior, o que lhe causou um medo oposto ao seu
rubor impetuoso. Isso que já não simpatizava com o
francês...
- Você capturou o último demônio que vinha
apavorando os arredores de Sevilha; a sua missão
portanto está encerrada. Nós não torturamos as criaturas
das trevas. São perigosas demais para serem mantidas
vivas. Ordeno que o execute agora.
- Esse monstro não está aqui para confessar nada, por
isso não planejo meramente torturá-lo. Vou executá-lo,
Eminência; tudo no seu devido tempo. Só quero antes
testemunhar seu sofrimento e fazer com que sinta na
carne a dor que causa aos filhos de Deus.
- Você sempre teve uma personalidade difícil, Charles.
Ordeno a execução AGORA.

58
- AGORA repetiu o que tinha dito antes.
- Eminência, não pode permitir esse tipo de
provocação.- Malcolm interveio.
- Você não se intrometa, com essa sua barba suja...
- Não trate assim seu companheiro e irmão.-
Torquemada impôs seu tom severo.
- Ele é lamentável, Eminência...- Girou o quadril e,
assustando novamente os outros dois, lançou sua espada
na garganta do demônio, que urrou bestialmente e o eco
se fez ouvir por aquelas masmorras, aterrorizando
torturadores e torturados...
Já um pouco afastado dali, a noite caía e Antenor
aguardava o que estava por vir em frente à catedral de
Sevilha, mais precisamente perto de sua torre e
campanário, La Giralda, com sua base quadrada e 104
metros de altura; quando soassem os sinos, já pela
madrugada, teria início a procissão. Vestia uma camisa
branca vincada, de mangas compridas, e calça e sapatos
de couro, com os braços cruzados e reflexivo naquele
momento à paisana; na cintura somente uma espada
curta de guarda circular. “Sei que não poderia ter me
encantado de tal maneira, Deus me perdoe. Ainda mais
por uma pagã! Se bem que nada para mim serviria de
atenuante, já que meu dever é me manter longe da
volúpia, de tudo o que é carnal; nem cristã, nem pagã,
apesar de ser mais grave o encanto por uma pagã.
Nunca vou me esquecer do modo como ela me olhou.”,
vira, algumas semanas antes, à distância, uma bela
cigana de olhos reluzentes e braços delgados e ágeis,
que o cativaram e guiaram seu olhar; ela dançava em
volta de uma fogueira, na companhia de seu povo, e
percebera que fora observada pelo estrangeiro a cavalo,
que depois se afastara tanto para não cair em tentação

59
como para não assustar aquela gente. Apesar de pagãos
e da má fama que carregavam, de ladrões traiçoeiros,
enquanto cantavam e dançavam os ciganos pareciam
pessoas puras e alegras, e que por isso mereciam a vida
como qualquer outro filho de Deus. Não os flagrara
fazendo mal a ninguém. “Matei um demônio naquela
mesma noite. E a imagem que vi refletida no sangue do
monstro foi a do rosto dela, com os olhos que não
paravam de me fixar; aquelas duas esmeraldas...Terá
sido um último artifício do Inferno para me fazer cair
em tentação? Não daquela criatura, que já estava morta,
mas do Abismo de onde proveio, buscando me atrair
para lá? Não sei se me sinto feliz por ter recebido o
olhar dela ou se devo nutrir algum receio, afinal pode
ter me aprisionado por meio de um feitiço, me
transformado em seu escravo. Não, não! Quanta
besteira! Sirvo apenas o Cristo; como pode o sangue
dele ser mais fraco do que a magia de uma jovem
cigana? Talvez ela nem tenha dado importância à minha
aparição, apesar de eu sentir que trocamos olhares
fortes, genuínos. Não devo mais pensar nisso; o que
tenha sido, passou, e Deus perdoe meu pecado! Só peço
também para que a proteja, pois não me pareceu uma
alma corrompida.”, fez o sinal da cruz.
Foi por volta das onze da noite que começaram a
chegar os réus, conduzidos por uma escolta de
cavaleiros e por um grupo de padres, vindos das prisões
secretas, e a Procissão da Cruz Verde foi se
organizando, assim chamada pela bandeira, branca com
uma cruz desta cor em seu centro, levada pelo fiscal do
tribunal do Santo Ofício, o cavaleiro que iria à frente; da
catedral de Sevilha se dirigiriam para a praça principal,
na seguinte ordem: imediatamente atrás do fiscal, os

60
falsos testemunhantes (obrigados a pagar uma quantia
em dinheiro e a usar nas roupas, por dez anos, línguas
de pano grosso costuradas); na seqüência, os réus
confessos arrependidos de pecados leves e médios,
vestindo sambenitos, uma espécie de tabardo, com uma
cruz de Santo André (em X) traçada no peito, e que
deveriam pagar uma multa e fazer penitências, ou, de
acordo com a gravidade, sofrer a prisão ou o exílio;
mais atrás, os arrependidos de pecados graves, mas que
depois de estrangulados e após uma multa paga pela
família à Igreja seriam ao menos admitidos no
Purgatório, em sambenitos de meia-cruz; seguiam os
condenados à morte na fogueira (réus que não tinham
abjurado ou reincidentes de heresias leves ou médias,
chamados de penitentes relapsos), trazendo nas cabeças
chapéus cônicos, grotescos, pintados com símbolos
infernais, sambenitos retratando cenas do Inferno,
monstros e fogo, e máscaras de aparências demoníacas
que só retiravam no momento da execução; depois os
familiares dos réus, que haviam custeado os processos
sob ordem do Estado; e por fim sacerdotes. Importante
lembrar que uma vez interrogados pelo tribunal da
Inquisição (que teoricamente era montado para salvar,
não para condenar), a justiça secular que providenciava
as execuções, afinal o corpo de Cristo não poderia
manchar suas mãos de sangue. Arrependidos in
extremis eram enforcados e suas almas encaminhadas
para o Purgatório, a não ser que denunciassem
comparsas, e então seriam absolvidos sob a condição de
colaborarem o máximo possível com os próximos
interrogatórios.
“Será preciso tanto para manter a unidade da Igreja?”,
Antenor se questionava, ao passo que a comitiva

61
começava a sair da área da catedral. “Ainda mais com
essas roupas e máscaras, que mais parecem tecer um
elogio ao poder do Demônio e à sua capacidade de
arrastar almas ingênuas. Nunca falei com o padre
Torquemada a esse respeito; agora que ele é o
Inquisidor Geral, será que terei essa coragem? Tenho a
liberdade, porém me falta coragem. Tenho realmente a
liberdade? Deus nos deu o livre arbítrio, a todos nós,
portanto não devo temer ninguém. Preciso questioná-lo:
essa crueldade é realmente necessária? Não estimula o
surgimento de demônios? Será a primeira vez que vejo
um auto da fé, mas já li a respeito; recentemente li até
um antigo processo contra uma mulher acusada de
praticar o islamismo. Cavalcanti me falou uma vez que
Cristo nos disse para não julgar, e que certas decisões
do Santo Ofício são equivocadas e pecam pela
precipitação, além do uso da tortura, que pode induzir
até um inocente a se confessar culpado, pois as dores
que sofrem são abomináveis. São Paulo nos disse para
estarmos preparados para julgar até os anjos; mas eu
acredito que não estamos.”, o processo sobre o qual
refletia dizia respeito a Carla Ricci, mulher de
ascendência milanesa residente na Andaluzia. Carla fora
vítima da inveja de algumas vizinhas, que a acusaram de
praticar a religião muçulmana, já quase extinta naqueles
tempos, com o perigo de ressuscitar assim uma velha
inimiga da fé cristã, se bem que ainda persistissem lá e
cá algumas seitas islâmicas, resistentes à dominação da
Igreja, em especial no que restara da África e da
península arábica. O Santo Ofício recorrera então à
tortura de Maria Zamora, amiga da vítima, a fim de
confirmar a culpa de Ricci. Como não resistira à
seqüência de interrogatórios, a confissão se concretizara

62
e a acusada fora presa e depois colocada sob
responsabilidade do braço secular, queimada em uma
pira de fogo no dia 13 de Junho de 1945, na cidade de
Granada.

“Relato da investigação: Na cidade de Granada, a


catorze dias do mês de Outubro de mil novecentos e
quarenta e um anos desde o nascimento de Nosso
Senhor, estando o senhor inquisidor Fernán Cortez na
sala do Santo Ofício, foi ordenado o comparecimento de
Maria, a Zamora, mulher de Pedro Andrés, lavrador
vizinho da vila de Calles, que presente fez o juramento,
com as mãos sobre a Bíblia Sagrada, no qual prometeu
dizer somente a verdade sobre o que soubesse acerca do
que fosse perguntado nesta audiência como nas demais
que se dariam até a sua conclusão. Disse ter a idade de
trinta anos e forneceu sua genealogia, de família pura,
cristã, embora alguns membros da família de seu
marido, falecidos, já tivessem professado alguma forma
de paganismo.
A dita cuja foi presa e com o seqüestro de seus bens
por ter acobertado tais pagãos enquanto ainda eram
vivos e por quiçá esconder as atividades ilícitas de sua
amiga Carla Ricci, ao que tudo indica envolvida com a
seita de Maomé. A confissão não veio nem na primeira
e nem na segunda audiência; nada falou nestas em
relação a si ou a outras pessoas, apenas na terceira
começando a confessar a respeito de abomináveis
cerimônias e testemunhando contra cúmplices, sendo
que na sétima declaração a causa foi dada por concluída,
escolhida a tortura para que falasse de modo claro sobre
as condições e intenções sob as quais a heresia ocorreu.

63
Sob tortura mais uma vez testemunhou contra si e seus
cúmplices, sem ainda citar o nome de Carla Ricci,
mulher de Francisco Murcia, vizinho de Calles. Foi-lhe
cobrado para que não deixasse de dizer a verdade, ou a
intensificação do tomento seria inevitável, necessária
para que o Diabo se retirasse de seu corpo.
Disse que ouviu dizer de Pedro Andrés que seu sogro
defunto fora enterrado na vila de Calles em cerimônia
pagã, e o mesmo se dera com alguns vizinhos,
simpatizantes de cultos mouriscos.
Seguiu-se a entrada do ministro e foi-lhe ordenado
para que se despisse, castigada para que não omitisse os
detalhes. Declarou - façam de mim o que julgarem
melhor, pois já tenho minha consciência limpa -, e
assim estando nua foi punida pelo Reverendo de Deus
Nosso Senhor a fim de que nos poupasse de tanto
trabalho e não quisesse mais se ver em perigo. Logo não
haveria outra escolha a não ser empregar o garrote breve
ou aplicar as prensas. Disse - senhores, já lhes disse a
verdade. Se há algo que Vossas Mercês tenham contra
mim, digam com clareza por reverência e respeito a
nosso Senhor. A verdade toda já foi dita - e as torturas
foram intensificadas para que sob a dor o Demônio se
desvelasse. Falou - não tenho mais nada a lhes dizer.
Não mentiria perante Deus; por acaso Vossas Mercês
querem que invente e minta apenas para me poupar da
dor? Não sou egoísta nem vil a esse ponto, portanto hei
de resistir até que minha verdade seja confirmada,
mesmo que eu morra - e o garrote foi utilizado. Nada
mais afirmou, até a vez seguinte - o pobre Carlos, de
minha vila, certa vez também foi preso por suspeita de
práticas islâmicas, mas depois foi revelado que apenas
fazia questão de venerar um único deus, que nada mais

64
é do que Deus nosso Senhor - e a severidade dos
castigos teve que aumentar.
Primeiro estreitamento: Estreitou-se uma prensa em
seu antebraço direito. Disse - ai, que triste e infeliz que
sou, que amargura ter de declarar o que não sei, pois
nunca estive em nenhuma cerimônia impura com Carla,
apenas nunca a vi ir à missa nem ouvir a palavra de
Deus. Mas a mesma suspeita tenho em relação a Lope e
Mariana de minha vila, que nunca vão à missa.
Segundo estreitamento: A prensa foi aplicada à sua
perna esquerda. - Adán Mendez costuma ir à missa de
má vontade e sem gana.
Terceiro: Vez do braço esquerdo. - Senhor Jesus, me
ajude, bendito seja seu nome; e Mãe de Deus, não me
desampare. Francisco Murcia não deveria ter me dito
para mentir. - o reverendo deixou claro que em nome da
Bondade de Deus a verdade fosse dita.
Aplicação do látego: - a verdade já foi dita, senhores,
já basta; não há mais o que dizer, invoco a misericórdia
de Nosso Senhor.
Prensa na mão direita: - não agüento mais, prefiro que
Vossas Mercês me concedam um fim rápido. Seria mais
justo e piedoso.
Aplicação da cadeira: Ameaçada para que não
resistisse e dissesse a verdade, replicou - São sim maus
cristãos a dita Carla e seu esposo, mas não tenho mais o
que dizer.
Segunda aplicação da cadeira: Antes que fosse ali
colocada, gritou muito, opondo-se à repetição do
tormento, e afirmou - sim, tenho por moura a Carla, pois
já ouvi dizer de sua boca que não crê em nosso senhor
Jesus Cristo, e que portanto não crê em Deus, e já a ouvi
dizer isso à sua própria mãe, que ficou abismada. E

65
afirmou que nunca se confessaria, porque todos os
padres não passam de mentirosos, não representam
Deus e mentem aos homens. Se a prenderem estarão
fazendo um grande bem a toda a comunidade cristã - e
assim os reverendos inquisidores declararam que por
respeito e compaixão estavam encerrados os
interrogatórios. Maria, a de Zamora, terminou sã, sem
lesão alguma, e esta diligência se encerrou às onze e
meia da noite, tal como atesto, Antonio Ibañez,
escrevente de Granada (...)

MANDATO DE PRISÃO CONTRA CARLA RICCI

Nós, os inquisidores contra as práticas e apostasias


heréticas e pagãs nas cidades de Sevilha, Granada e
Almería, mandamos a vós, Diego Guerra de la Vega,
fiscal deste Santo Ofício, para que parta à vila de Calles
assim que este mandato vos seja entregue e, caso ela lá
não se encontre, vasculhe todos os cantos, proximidades
e lugares que sejam necessários, a fim de dessa maneira
prender o corpo de Carla, a Ricci, mulher de Francisco
Murcia, vizinho de dita vila de Calles, onde quer que
esta se encontre, mesmo que a detenção tenha que se dar
em solo sagrado, mosteiro ou igreja que seja; e assim
deve trazê-la aos cárceres deste Santo Ofício,
entregando-a ao alcaide responsável. A este já avisamos
para vos receba e à prisioneira, que não deve ser solta de
nenhuma maneira, por nenhuma quantia, sem nossa
ordem e permissão. Confisque todos os seus bens,
móveis e imóveis, tenha onde os tenha, e que sejam

66
levados ante Alonso Puerta, notário local, que se
encarregará de colocá-los sob o poder de pessoas cristãs
e honestas, que os manterão em fiel custódia e não
poderão cedê-los a pessoa alguma sem nossa
autorização, sob pena que terão de pagar com suas
próprias posses, ademais de outras conseqüências que
possam vir de nossa parte. Aos parentes próximos de
Carla Ricci também deverá ser cobrada uma taxa de
vinte moedas de bronze, ou cinco ducados, para o
prosseguimento do processo, garantindo a alimentação e
o vestuário da prisioneira. Pedimos para que entregue
esta quantia a Juan Roderico, despenseiro deste Santo
Ofício; como este já se encontra a par, nenhuma roupa
ou coberta de cor negra. E se para cumprir e executar o
conteúdo deste mandato Vossa Mercê precisar de algum
favor ou ajuda, exortamos para que não tarde em nos
comunicar, sendo a multa sobre a indolência, caso
fracasse na missão sem manifestar interesse, de cento e
quinze ducados. Data de hoje a quatro dias do mês de
Dezembro de mil novecentos e quarenta e um anos
desde o nascimento de Nosso Senhor.

Doutor Pablo Cifontes de Luarte.

Por mandato do Santo Ofício

Cristóbal Ángel Quiñonez, tabelião

VOTOS DOS INQUISIDORES E SEUS


CONSULENTES: Na cidade de Granada a oito dias do
mês de Julho de mil novecentos e quarenta e dois,
estando juntos na sala e em audiência deste Santo

67
Ofício, presididos pelo senhor inquisidor Doutor
Federico de Arguello y Lopez, na presença de Dom
Luiz de Mendoza, bispo de Granada, e tendo como
consultores o procurador Diego Villa e Muñoz Capilla,
o administrador do hospital da cidade, o monsenhor
Romero Santiago, o alcaide da vila de Calles, Andrés de
Mendoza, e Lopes de Villanueva, da Ordem de
Sto.Domingo, tendo visto e analisado todo o processo
tocante a Carla Ricci, mulher de Francisco Murcia, que
posteriormente será de igual modo investigado, foi
decidido em conformidade, em base com o voto e o
parecer de cada um, que a dita Carla Ricci será deixada
sob a responsabilidade do braço secular e que seus bens
serão confiscados em definitivo, sendo antes da
execução posta sob tortura in caput alienum (...)

PRONUNCIAMENTO DA SENTENÇA: Pronunciada


e assinada esta sentença pelos senhores inquisidores,
que nela deixaram seus nomes, e tendo sido celebrado o
auto público de fé na Praça Maior desta cidade de
Granada, quarta-feira, dia treze de Junho de mil e
novecentos e quarenta e cinco, presentes o promotor
fiscal Gabriel Ochoa e Carla Ricci, a muçulmana, como
testemunhas Dom Fernando Zapata, tesoureiro, os
abades Dom Fco.Suarez e Miguel Baltierra, o bispo
Dom Luiz de Mendoza e muitas outras pessoas da
hierarquia eclesiástica, dá-se hoje a execução da herege
e anuncia-se a detenção de seu marido Francisco
Murcia, ratificadas as práticas islâmicas perpetradas
dentro desta família, evitando assim que estas
contaminem a população de nosso reino ou, pior, se
alastrem pelos territórios de Cristo.”

68
Tomando como base esta leitura que fizera, e diante da
falta de provas efetivas que muitos casos apresentavam,
Antenor refletia, “com sinceridade, não compreendo o
porquê de nem todos aceitarem a fé em Cristo, que é a
única que nos oferece garantias de felicidade e, quando
esta se aparta de nós, de esperança; contudo, sou da
opinião que a vida de todo ser humano deveria ser
protegida; apenas os demônios merecem a perseguição.
O ensinamento de Cristo foi feito para todos, não para
alguns, e nunca é tarde para receber o amor de Deus.
Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra. Não se
trata de um chavão, mas de uma verdade, e não
deveríamos nos achar merecedores de atirar pedras em
nossos irmãos, se mesmo Jesus protegeu uma pecadora.
Ao invés de eliminar os que parecem contrários a nós,
por que não esperar que se convertam ao observarem
nossa postura correta e exemplar? As execuções são
resultado do medo, do temor que a justa fé se torne
escassa; seria Deus menor do que o medo? Quem tem
Deus dentro de si, não pode temer que tudo venha a ser
perdido, que o Martírio tenha sido em vão; quem possui
Deus em seu interior pode reconstruir a Igreja, mesmo
que esta fique em cinzas e tenha se tornado o último
cristão da face da Terra...”, seguiu a procissão, que da
catedral se dirigiu em algum tempo para o tablado
reservado na praça, construído especialmente para o
auto; lá, após a realização de uma oração conjunta, a
comitiva ficaria até o nascer do sol, cercada por
cavaleiros da guarda real da Andaluzia e do alcaide de
Sevilha.

69
II – Profundezas

As botas peludas deixavam na neve pegadas


profundas, que facilmente poderiam ser confundidas
com as de algum animal pesado. Faltavam garras para
impor o passo de ser um ser de postura agressiva,
embora o rastro de altivez e firmeza ficasse claro, tal
qual pertencessem a um predador pacífico, que
renunciara às suas presas, abdicando do sabor do sangue
e do cru. O homem responsável pelas marcas era o
único agasalhado da comitiva, com um espesso casaco
marrom que pouco deixava entrever a armadura por
baixo; causava reações distintas entre seus
companheiros: Charles, em sua armadura prateada de
ombreiras arredondadas, pequena cruz vermelha na base
do colo e atavios negros, touca metálica que cobria o
alto de sua cabeça e sua nuca, deixando os cabelos
brancos escaparem em um rabo de cavalo, ria daquele
pescoço duro, da cabeça que quase nunca se virava,
limitando-se a mover os olhos, apesar de admirar a
beleza preciosa nestes, digna dos melhores lápis-lazúli;
Malcolm, em uma pesada armadura cor de chumbo e
com um elmo arredondado que deixava espaço para o
rosto, só estranhava seu hábito de andar agasalhado,
afinal mesmo frente às temperaturas mais baixas os
cruzados costumavam ser inflexíveis, nunca sentindo
frio e necessitando-se uma exposição a um gelo extremo
durante horas a fio para congelar o sangue de Cristo; a
Antenor, de armadura branca com uma grande cruz
dourada no peito, intrigava pelo mistério emanado,
respeitando-o pelo modo firme de atuar e liderar.
Fiódor, fitado pelos três, era este que ia adiante...

70
O lusitano, que sentia a aura do companheiro russo
como um calor frio, ainda não se esquecera, conquanto
no gelo de uma das ilhas do norte, das chamas da
Inquisição, que obviamente não sentira na pele, mas que
se entranharam em seu espírito, como dentes afiados
ávidos por carne fresca, pertencentes a uma fera
vermelha, feia e estúpida, porém persistente, que
embora chutada e empurrada para longe retornava e
começava por lhe morder os calcanhares, subindo
depois pela panturrilha, até atingir as coxas, onde tinha
início o abrasamento sem piedade que investia em
especial contra os órgãos sexuais, no intuito de devorar
o pecado com fúria, sem receios de causar dor humana
se assim poderia ser evitado o estímulo demoníaco; ele
a vira, ao ter a máscara retirada pelo carrasco: a bela
cigana, com o semblante humilhado e marcado, porém
ainda assim reconhecível, as pupilas de esmeralda que
em breve se tornariam negras, centelhas de carvão;
naquele instante balbuciara algo de muito valor, do qual
no entanto não se lembrava; talvez por dentro fizera
questão de esquecer, assim como queria apagar a
imagem da mulher pagã, sem qualquer sucesso. Não
havia dúvidas, na aparência, que se tratara de uma
emanação do demônio, em especial quando, a pira
sendo acesa, um dos padres erguera a cruz com sua mão
direita e ela voltara o rosto para o lado oposto, na
seqüência fechando os olhos, como que para garantir
que por nenhuma parte o símbolo de Cristo se fizesse
acessível à sua visão. E esta fora somente a culminância
do processo, já que no caminho da Procissão da Cruz
Verde testemunhara os passos arrastados dos
condenados, o desespero de alguns claro na apatia de
quem não vê mais nada a fazer...Seus próprios pés de

71
espectador doíam como se tivesse caminhado por horas,
descalço, sobre um terreno rochoso.
Ao término da missa matutina, o sermo generalis se
dera por encerrado, seguindo-se a leitura da condenação
dos réus, feita em voz alta pelo padre Torquemada, as
arquibancadas cheias, os espectadores ansiosos para
jogarem seus bonecos e estátuas às fogueiras, e
circundando o tablado cruzes fincadas no chão, cobertas
por panos pretos que só seriam retirados após as
execuções. No estrado ao centro, na parte baixa ficavam
os que não seriam mortos; na parte média, os
enforcados; na extrema, os condenados à fogueira, o
grupo do qual fazia parte a nobre cigana; nobre não de
nascença, mas pelo olhar que tanto cativara o cruzado.
“Queria ter falado com ela pelo menos uma vez...”,
contudo, não houvera meio.
Malcolm e Charles traziam consigo suas espadas;
Antenor portava aljava, arco e flechas, pronto para desta
vez acertar o alvo; Fiódor parecia desarmado, o único
com as mãos cobertas por luvas, os olhos sempre
direcionados para a frente.
- Me foi dito que iremos caçar um voador, mas que
podem haver outros tipos entre eles, que este seria o
líder. Sabe de mais algum detalhe, russo?- Malcolm
questionou, com desdém na última palavra; tinha um
certo preconceito com aquela gente da imensa ilha do
leste, terra de costumes bárbaros. Ouvira falar que lá os
homens trocavam ósculos; pior do que isso só o vil
costume escocês da noiva, após o casamento, circular
entre os convidados e beijar todos os homens na boca,
recebendo em troca algum dinheiro. Depois lhe diziam
para não ter receios de russos e escoceses!

72
- Nada.- Foi a resposta seca de Fiódor. “Ele sabe o meu
nome, então que me chame como deve ser, com
respeito.”, sendo possível, teria aplicado uma concisão
ainda maior.
- Que resposta mais sintética. Isso prova de uma vez
por todas que não temos líderes, mesmo que alguns
queiram ser!- Charles impôs seu tom atrevido, sentindo
que os olhos do russo estavam na nuca.- Somos todos
ignorantes do mesmo modo; mas isso não importa. O
que interessa é que em breve mais demônios serão
mortos, poderei ver o sangue do mal derramado na
neve, e depois que venha uma avalanche para restituir a
pureza da brancura a este ambiente!
“O único aqui que me inspira alguma simpatia é
Fiódor. Malcolm pode até ser um cavaleiro honesto,
mas parece por demais cheio de si e de preconceitos
não-cristãos; Charles então me dá um certo medo...Não
sei como um indivíduo como ele, que fisicamente
lembra até uma mulher, e que é claramente cruel e frio,
pode ser um cruzado; há coisas que não entendo. Não
acredito que seja um sodomita, Torquemada não
permitiria jamais. No entanto, vi seu sorriso se
intensificar a cada réu colocado na fogueira! Não vi
nem Malcolm e nem Fiódor em Sevilha, apenas ele, e
não compareceu à missa, surgiu não sei de onde e como
na hora das execuções, perto de mim...”, refletiu
Antenor, acelerando o passo e se aproximando do russo,
enquanto os outros dois ficavam um pouco para trás.
- Já enfrentou voadores alguma vez?- Falou baixo com
o companheiro.
- Ora, mas veja só! Um novato que nunca enfrentou um
voador na vida!- Tudo para evitar de ser ouvido por

73
Charles, o último da fila, que porém possuía uma
audição privilegiada.
- Ele não disse isso. Apenas me perguntou se EU já
enfrentei demônios dessa espécie ou não.- A resposta de
Fiódor, que tinha uma voz forte e um pouco rouca, veio
num tom ríspido, sempre sem se voltar; seus olhos
seguiam em frente, junto com os pés, quase que em
rígido paralelismo.
- Ora, mon cher, você não é nem um pouco ingênuo ou
tolo. Pelo jeito dele falar, pelo modo da voz, ficou bem
evidente que nunca viu um voador na frente até hoje.
- E que mal há nisso? Um dia também foi a nossa
primeira vez. Ninguém nasce experiente.
- Não tenho a menor vergonha de dizer que nunca
enfrentei um voador!- Antenor respondeu de forma
enérgica.- Por isso senti a necessidade de me aconselhar
com alguém mais experiente. Não foi a postura correta,
ao invés de ficar quieto e com dúvidas?
- Calma, calma...Não precisam se exaltar!- Charles fez
gestos de paciência com as mãos.- Apenas acho que
certas vezes Deus se manifesta no silêncio.
- Não ia ficar calado só pra me poupar das suas
zombarias. Elas não me afetam.
- Se não afetam, então continue a perguntar e tagarelar!
Por que parou? Me parece que foi bem afetado sim,
senhorzinho. Um tanto exaltado esse rapaz!
- Já chega, Charles.- Fiódor tentou impor respeito.
- E você? Não é ninguém! Vamos! Conte ao fedelhinho
como foram as suas lutas com voadores!
- Não dê importância às provocações dele.- O russo
parou de seguir em frente pela primeira vez, apoiando
uma mão num ombro de Antenor para impedir que o

74
luso partisse para cima do albino; mesmo sem ver,
sentira o espírito em fúria do rapaz, detendo-o a tempo.
- Isso! É bem melhor que o amiguinho segure você,
ou...- O francês chegou próximo dos dois numa
velocidade espantosa, dando a impressão de desaparecer
por um instante e ressurgir com a espada já apontada
para a carótida de Antenor.
- Vocês por acaso são idiotas?! Por uma futilidade,
acabar duelando? Somos soldados de Cristo!- Malcolm,
até então apenas observando com um olhar severo, por
fim esbravejou.
- Foi ele quem começou.- O lusitano temeu fazer algum
movimento; até Fiódor parecia apreensivo; Charles que
ainda se divertia, sorrindo.
- Foi você quem começou, com uma questão idiota.
Esse tipo de pergunta exigia uma reação cretina.- O
albino não via a hora de derramar sangue. Estava
ficando nervoso com a demora na aparição dos
demônios; sua brincadeira, uma maneira sim de brincar
e zombar mesmo que para os outros parecesse séria e
violenta, servia para diminuir sua ansiedade e a ira
interna.
Malcolm empurrou os dois, separando os brigões com
decisão; Charles se deixara empurrar, por isso não se
aborreceu, fazia parte do seu jogo. Antenor encarou o
inglês, mas um olhar ainda mais sério vindo de Fiódor o
recolocou em seu lugar. Aquilo já tinha ido longe
demais, enquanto o voador das montanhas da ilha do
norte talvez nem se encontrasse mais por ali, tendo
voado para fazer vítimas em ilhas quentes, só
retornando ao lar após aplacar sua fome, embora um
tivesse sido visto recentemente carregando um ser
humano em suas garras.

75
Bastou retomarem suas posições anteriores ao
desentendimento, e restabelecido o silêncio, para que o
urro mais profundo fosse ouvido do precipício mais
próximo; isso todos puderam escutar. O que só Charles
ouviu foi um som de bater de asas, ainda distante,
fazendo com que abrisse um sorriso de orelha a orelha,
audível para os outros apenas quando as criaturas por
fim despontaram no céu enevoado. “São enormes...”,
dessa vez Antenor não verbalizou; três monstros de
calcedônia negra, variando entre os quatro e cinco
metros de altura e os doze e quinze de envergadura.
O lusitano costumava atirar sempre quatro flechas de
uma vez, e foi o que tomou o ímpeto de fazer, mesmo
um pouco trêmulo a princípio. Tinha ojeriza por
exemplo a morcegos e receio de aves de rapina, nunca
gostara de coisas voadoras, muitos menos em se
tratando de monstros; na hora de tensionar a corda,
liberou um berro de incentivo a si mesmo, feroz e
impulsivo, o que afastou a insegurança.
- Pegue-os logo para que venham lutar no chão!-
Bradou Charles, dando mostras de bruxismo.- Ou não
será preciso?
Fiódor levantou a cabeça, sem movê-la para os lados,
testemunhando não só pelos olhos como aqueles não
eram um arco e flechas comuns, mas a arma de um
cruzado, e por isso não poderia haver erro. As setas, que
faziam curvas inacreditáveis, só não perfuraram
corações e cérebros dos demônios porque estes se
defenderam com as mãos, que acabaram furadas. Uma
das criaturas infernais, de olhos vermelhos e barba
densa, fez pouco caso da perfuração na palma de sua
mão de quatro dedos e garras pontiagudas, mas logo

76
passou a gemer pelo fogo que começou a se alastrar,
incendiando todo o seu membro na seqüência.
- Mas veja só! Nosso caçula até que não é de todo
ruim.- Charles deu um salto inesperado tanto no
momento como em extensão e altura, que deixou
Antenor boquiaberto e escureceu o semblante de
Malcolm; quase um vôo, que só não pareceu
surpreender Fiódor. No alto, cortou um dos surpresos
demônios ao meio para depois descer às gargalhadas
planando suavemente.
Os outros dois tentaram fugir, porém foram atingidos
em cheio por mais flechas de Antenor, que não quis
ficar atrás do francês: um no pescoço e no crânio, e o
segundo, o de braço inflamado, tendo as costas
perfuradas. Ambos despencaram na neve e Malcolm e
Charles correram até onde tinham caído os inimigos,
permanecendo Fiódor impassível, de costas para todos.
O albino ultrapassou o inglês na corrida e alcançou
antes o primeiro demônio, que começava a se levantar,
cortando em um segundo braços e cabeça. Malcolm
perfurou o peito do outro, ainda no chão, com sua
bastarda.
- Foi fácil demais! Outros devem estar por aqui.-
Charles lambeu os dedos sujos com o sangue arroxeado
dos monstros.- Esse aqui tem um gosto amargo!-
Malcolm bufou e saiu de perto, recebendo em suas
costas o sorriso cínico do francês, que escolheu ignorar.-
Não acredito que tenham mandado quatro de nós para
derrubar criaturinhas tão insignificantes! Eu sozinho
teria dado conta deles...- Contudo, entre o silêncio e o
espaço, eriçou as orelhas; conseguia movê-las um pouco
de acordo com sua vontade e ficaram mais erguidas do
que o normal. Antenor olhou para o alto e, feito

77
meteoros, duas presenças impressionantes pousaram por
perto, abrindo discretas crateras ao seu redor e
espalhando gelo em todas as direções; os cruzados
saltaram para se afastar, menos Fiódor, permanecendo
onde estava.
O lusitano ficou preocupado ao pensar que justamente
o russo, o único dos quatro que sentia frio, fora parar
embaixo da neve; outros demônios semelhantes aos
primeiros que haviam aparecido despontaram nos céus e
começaram a chegar, bem mais lentos e menos
assustadores do que a dupla adiante: bestas prateadas,
com asas que pareciam feitas de metal polido, as
cabeças lembrando escaravelhos, as patas de três dedos
grossos e com garras pesadas, um com seis metros de
altura e o outro com cinco. Fiódor de repente emergiu
do branco e, sem nenhuma arma na mão, pulou ao lado
de um demônio que acabara de descer; a cabeça do
monstro se destacou no ato e rolou para o chão.
- Agora sim! Fico com um dos prateados. A energia
deles é bem diferente.- Charles avançou, lambendo o
beiço inferior.- Talvez sejam barões.
- A fêmea é minha.- Contudo, Malcolm se antepôs.
- Fêmea? Por acaso você olha para os adereços das
aberrações? Já conheci todo tipo de tara, mas essa é
nova pra mim!- Caçoou, enquanto os gigantes de prata
vinham devagar, em total contraste com a velocidade
com que haviam descido, e, enquanto o russo lutava
contra os voadores negros ao que parecia manejando o
vento, Antenor principiou a atirar suas flechas, certeiras
contra os menores, mas que ricocheteavam nas asas dos
dois maiores.

78
- A energia espiritual é de fêmea. Se você não sabe
distinguir, o problema é seu; não lhe devo satisfações.-
E o inglês se lançou ao ataque.
- Como quiser. Fico com o macho-líder!- Charles partiu
para enfrentar o do lado oposto.
Percebendo que aqueles dois iam cuidar dos prateados,
o luso se concentrou em ajudar Fiódor. Ficou
preocupado com ambos, já que a princípio suas setas
não tinham surtido efeito naqueles inimigos; só que ao
mesmo tempo não simpatizava nem com Charles, sádico
e prepotente, nem com Malcolm, antipático e arrogante;
ao menos assim lhe pareciam, diferentes do russo, que
apesar de ser comedido com as palavras e os gestos
aparentava uma postura mais cristã, firme consigo
mesmo, sem imposições exteriores em excesso.
Intrigante sua maneira de lutar: já ouvira falar da
“espada invisível” de Fiódor e agora chegava à
conclusão que era real, pois ao se prestar atenção se
podia perceber que suas mãos cingiam uma arma,
embora imperceptível aos olhos.
Assim que Charles deu início ao seu ataque insano,
rindo e saltando, o demônio prateado tornou a mostrar
seu verdadeiro ritmo, com socos e golpes de asas que
produziam fendas e crateras no solo, tornando o
território daquela batalha cada vez mais perigoso e
delicado, sem que a arma do cruzado conseguisse
danificar sua pele; problema semelhante ao de Malcolm,
que mesmo com uma arma de impacto não causava
nenhum dano ao adversário.
- Obrigado, Antenor.- Fiódor se aproximou para uma
trégua, um pouco ofegante; tinham exterminado uma
dezena de voadores, restavam mais três estropiados de

79
pé, que não tiveram coragem de seguir atrás do russo,
porém vinha outra dezena dos céus.
- Não precisa me agradecer antes que a luta tenha
terminado e nós tenhamos saído vivos. Você pode só
segurá-los por algum tempo? Minhas flechas acabaram.-
O russo enfim moveu o pescoço e a face, encarando-o.-
Mas não se preocupe. Em alguns segundos terei novas.
- Como irá arranjá-las?
- Desta maneira...- Estendeu o braço direito com a
palma da mão voltada para cima, após retirar o pedaço
da armadura que protegia essa área. Com a carne
exposta, fez uma careta de dor e sem nenhum som, para
o espanto até de Fiódor, uma flecha banhada de sangue
saiu de uma veia; depois mais outra de outra veia e
assim sucessivamente, sem que ocorresse hemorragia e
com o sangue nas armas desaparecendo a seguir.- São
os prodígios do sangue de Cristo.- Ainda não terminara
quando o russo começou a lhe dar cobertura,
enfrentando sozinho mais voadores.
Já a armadura de Malcolm começara a se partir. Para
ficar à altura do inimigo, seus músculos haviam
crescido demais, rompendo a proteção, que não podia
mais contê-lo, seu pescoço se deformara, troncudo e ao
mesmo tempo flexível, e o demônio se enfurecera,
enfim com sangue azulado jorrando de suas feridas;
entrementes, o cruzado principiava a parecer fora de
controle. Charles, que com muito menos esforço passara
a levar a melhor sobre seu adversário, com sua espada
que às vezes parecia tomar a forma de uma serra e assim
arrancara uma das asas do colosso prateado, chegou a
notar no companheiro, que observava de sobrolho, uma
mudança na cor dos olhos, de fundo vermelho com
veias negras, e a língua bifurcada; principiou a sentir,

80
vindo do inglês, um cheiro de esperma. “Será que vai
acontecer?”, se questionou sorrindo, quase indiferente
com seu inimigo, que desesperado correu em sua
direção e acabou sendo decapitado pela espada-serrote e
despencando no próprio abismo que criara; o albino
parou e ficou observando Malcolm.
O cruzado inglês teve uma visão enquanto sua
hipertrofia muscular exagerada o ajudava a esmagar o
monstro à sua frente: lado a lado, uma criança de
cabelinhos ruivos e uma velha encarquilhada de manto e
capuz negros; a criança era ele. E a velha? Esta retirou o
capote, que encobria seu rosto com uma sombra, e
revelou a face cinza e a expressão de escárnio. O
pequeno Nascimento e a senhora Morte, que na
seqüência se dobraram em si mesmos, despidos, as
rugas dela desaparecendo, os cabelos caindo, e se
transformaram em embriões; cabiam em um mesmo
ventre, de uma mulher jovem, que possuía metade do
rosto de uma beleza indizível e metade apodrecido.
Lágrimas escorreram pelo rosto arregalado de Malcolm
quando ele esmagou o crânio do demônio, só
conseguindo tornar a vê-lo nesse instante; de resto,
ficara inconsciente do combate, o corpo continuando a
lutar enquanto a mente passava por delírios e o espírito
transpirava de agonia. Sua consciência estaria
começando a derreter? “Eu não quero ser
possuído...Não posso!”, a face da mulher se esvaziou.
- Um maldito demônio está possuindo o nosso
companheiro!- A aparência das palavras disfarçava o
conteúdo; por dentro Charles queimava de alegria, ao
passo que quanto a Fiódor e Antenor, exaustos depois
de uma vitória suada contra uma legião de inimigos,
cujos corpos negros jaziam agora sem vida pela neve, o

81
lusitano se voltava com pavor à procura do inglês com o
olhar e o russo preferia não ver.- Malcolm está sendo
possuído.- Esbugalhou o sorriso. Antenor sabia muito
bem da sinistra perspectiva que os cruzados tinham que
encarar, ainda que nunca tivesse presenciado uma
possessão e para si acreditava que jamais ocorreria: por
terem o sangue de Cristo em suas veias, os padres
vermelhos explicavam aos melhores guerreiros da Igreja
que exatamente por isso teriam que constantemente
velar por si mesmos e pelo próximo; atitudes e
pensamentos pecaminosos, como a incontinência da ira
ao lutar contra demônios, ou a luxúria ao quebrar o voto
de castidade, provocariam o vazamento ou a evaporação
do sangue do Senhor (o que provavelmente ocorrera a
Malcolm, com os músculos banhados em suor), e a
seguir o cheiro do pecado gravíssimo de ter feito mal-
uso do mais sagrado dos alimentos atrairia demônios
poderosos ainda no Inferno, que possuiriam o antigo
corpo do cruzado. A possessão era considerada quase
inevitável, a menos que o guerreiro conseguisse reter a
maior parte do sangue de Cristo em seu interior durante
o furor do processo, o que era extremamente difícil.
Malcolm em particular sentia ao mesmo tempo uma
presença aterrorizante ao seu redor, de uma
perversidade monstruosa, capaz dos piores delitos
contra as mais inocentes criaturas, e uma sensação de
orgasmo que invadia todos os seus poros; sentia como
se estivesse prestes a ejacular não só pelo pênis como
pelo corpo inteiro, mas se o fizesse a possessão estaria
consumada e sua consciência, já diluída, desapareceria
talvez (a Igreja não definira categoricamente para onde
iam as almas dos cruzados possuídos) no Limbo.

82
- Resista! Você tem que resistir à tentação, Malcolm!-
Antenor tomou coragem e reuniu suas forças para salvar
o companheiro. Mesmo que não fossem amigos, não
podia tolerar perder qualquer ser humano para o Diabo;
e algum dia poderia lhe acontecer o mesmo, agora
começava a cogitar essa realidade, e talvez viesse a
precisar de alguém para impedir o despencar no oblívio.
- É inútil! Ele já está perdido! Não vê como esse tolo se
entregou ao pecado?!- Charles parecia em êxtase,
enquanto o inglês, agachado, tremendo, suando e
chorando, com a boca e os olhos escancarados, irradiava
uma aura vermelha, cinza e negra, que embrulhava o
estômago do luso ao emitir descargas marcadas.- Um
demônio logo irá possuí-lo. E quando isso acontecer
será bom, pois teremos a oportunidade de exterminar
mais uma criatura infernal, talvez uma das mais
poderosas, de uma vez por todas, antes que se manifeste
em nosso mundo!
- Cale a boca!- Antenor esbravejou; de costas, apesar
da aparente indiferença, Fiódor exibia pela frente uma
expressão de pesar. “Não adianta. É muito difícil
alguém escapar de uma possessão quando o processo
tem início.”, refletiu, desesperançoso.- Vamos,
Malcolm...- Mesmo com enjôos e cólicas crescentes, se
abaixou para auxiliar o cruzado em pânico.- Você
consegue!
- Imbecil. Serão esforços em vão! Ele será possuído e
depois morto por mim, já que não vou permitir que
principiantes como vocês lutem contra um inimigo de
primeira categoria.
- Eu disse pra você calar a boca, seu filho da puta...- Do
latim culto que os cruzados costumavam usar entre si e
com os padres passou para uma variação vulgar; Fiódor

83
sorriu, mas só sairia do lugar após o resultado. Não
tinha ânimo para acudir um companheiro e acabaria
atrapalhando Antenor em sua boa-vontade; só buscaria
mais forças para sobreviver.
- Hahaha! Deixou de lado toda a polidez! Como é
hipócrita! Esse inglês sujo nem era seu amigo.
- Não é uma questão de amizade e sim de humanidade.
De caridade cristã.
- Não temos que ter compaixão dos pecadores e dos
demônios.
Antenor abandonou a discussão com o francês para
olhar fixamente nos olhos de Malcolm: sentiu todo o
terror, a vontade desesperada de não perder a alma.
Sem palavras, irradiou a intenção de despertar o outro,
e nessa hora os olhos negro-vermelhos foram se
tornando dourados, depois por inteiro brancos, com o
desaparecimento das pupilas, e por fim estas
reapareceram, na cor original, o suadouro foi parando,
os músculos desincharam; a possessão foi bloqueada. O
lusitano não se deixou incomodar pelos cheiros
desagradáveis e abraçou o colega, o que extinguiu em
definitivo a aura sinistra e fez o inglês voltar ao normal,
espantando a presença maligna.
- A minha consciência não foi despedaçada.-
Conseguiu falar.
- Inacreditável.- Fiódor pronunciou seu discreto sorriso.
Charles não dissimulou a desilusão em seu semblante;
e desta vez foi quem virou a cara, enquanto o russo
reuniu suas forças para se aproximar.
- Agradeço a Deus...Mas devo minha vida a você.
Obrigado, meu irmão.- Malcolm retribuiu o abraço e se
reergueram juntos.- Ainda me custa acreditar no que se
passou.

84
- Mas é nesse tipo de vivência que se fazem presentes
os milagres do Cristo. É para isso que existimos: pelo
nosso próximo.- Disse o luso.
- Ah...Obrigado.- Não tinha mais como nem o que
dizer.
- Poupe as palavras e repouse o seu corpo.- Fiódor
interveio.- Agradecer já foi o bastante.
Antenor, sério, não resistiu e olhou para Charles; o
albino continuava de costas. “E gente como ele? Seria
capaz de resistir a uma possessão?”, questionou-se. “Se
resistisse, talvez nem ficasse grato caso recebesse uma
ajuda; ou quiçá eu me equivoque. A vida é sempre
imprevisível, assim como a fé vai além da razão.”, claro
estava no seu ponto de vista.
Fiódor começou a sentir mais frio, e não só pelo fato
de suas roupas terem sido um pouco rasgadas, revelando
partes de sua armadura azul e dourada, mas porque a
neve principiava a cair. Não só o chão, agora o ar; cada
floco brilhante demais para ser capturado.

QUARTO ATO

I – Na superfície

Raja meditava entre as matas escuras, às vezes


fugazmente clareadas em pequenos espaços pela entrada
menos indecisa de um recatado raio solar ou pela
passagem de algum animal, de forma lenta e majestosa,
de característica ondulância muscular, como no caso do
tigre e suas listras, mais agitada e entre os galhos
quando se tratava de algum macaco, especialmente
quando estes arregalavam seus olhos, curiosos diante da
imobilidade de um ser que quase não parecia vivo,

85
ignorado pelas feras, recebendo as serpentes passageiras
por seu torso nu como se estivessem deslizando por
pedras. Por baixo apenas uma calça branca, os pés
descalços, as pernas cruzadas em posição de lótus ou,
como ele preferia dizer, “em cruz de lótus”, sobre a terra
um tanto áspera e quase negra. Uma inspiração e uma
expiração por minuto, quase imperceptíveis, o ar saindo
sutilmente pelas narinas. As palmas e os dedos das mãos
unidos em frente ao centro do peito e apontados para o
alto; em seu interior, contemplava Krishna, do seu ponto
de vista uma das encarnações do Filho de Deus, que
teriam atingido seu cume na vinda de Jesus. O
cristianismo indiano, embora filiado à Igreja Católica,
se caracterizava por algumas teologias que se
distinguiam da linha tradicional, substituindo o
Purgatório pela reencarnação para os que não fossem
corruptos o bastante para despencar no Inferno nem
santos o suficiente para o Paraíso, estimulando as
técnicas do yoga, visto como um dos meios para se
alcançar a santidade, e aceitando mais de uma descida
do Filho. Entre estas, Buda, Rama e Krishna. Este
último, na visão de Raja, aparecia pregado na cruz e
tendo ao seu lado seu gêmeo, o branco Balarama, talvez
uma personificação do Espírito Santo, ainda que os
teólogos indianos discutissem muito a esse respeito. No
alto de sua cabeça, uma cruz com um lótus rosa,
fechado, que aos poucos foi se abrindo e substituindo a
imagem da divindade por uma luz sem atributos, que
desceu sobre seu corpo e o tornou diáfano.
Contudo, foi obrigado a interromper sua meditação e a
abrir os olhos quando sentiu uma presença se
aproximar, muito sutil, ainda assim fácil de ser notada
por alguém com a sua percepção espiritual, a maior dos

86
doze cruzados. As emoções finas e ainda assim intensas
de Masamune penetraram em seu coração e fizeram
com que se levantasse. Recebeu o outro já com o olhar
pronto, cravando-o no semblante lacônico do samurai
cristão, trajado com uma armadura colorida típica de um
bushi, contrastante com a palidez de sua pele e a
melancolia de seu olhar, a insígnia de um dragão
ascendente envolvendo a cruz em seu colo, a katana
com guarda em forma de cruz na cintura e o elmo
debaixo do braço.
- Sempre alerta, meu caro Raja.- Aproximou-se com
passos que lembravam os de um tigre.
- É preciso. Nunca se sabe quando Deus irá precisar de
nós.
- Ou nós precisarmos de Deus.
- Além do mais, cada instante passa e é logo
surpreendido por outro; se não ficarmos atentos a cada
segundo, ele irá passar; e não há meios do
arrependimento buscá-lo de volta. Um tempo que
usaríamos para estar com Deus, esteja Ele na forma de
um homem, de um animal ou de uma planta, ou em nós
mesmos, é deglutido pela boca entreaberta do abismo,
que só irá se escancarar no dia do Juízo Final.
- Já me perguntei algumas vezes: vocês indianos
acreditam na reencarnação; como fica nisso o dia do
Juízo Final, após o qual não existirá mais meio de viver
no mundo sem ser puro de coração?
- Nesse caso, não haverá escolha para as almas ainda
imaturas. Terão que descer ao Inferno até talvez se
purificarem e garantirem uma chance de retorno à Terra.
- Compreendo. Ainda assim me parece que o presente
de Deus é mais lógico e generoso quando é único,

87
quando nossa identidade não se perde; ou o servimos
com disciplina, ou não há salvação.
- Mas o que mais vemos no mundo são máscaras,
pessoas, e não seres; a reencarnação implica em trocas
de máscaras: a identidade permanece, é eterna. Mas
apenas quem entra na senda da santidade tem acesso a
ela, o que se dedica e assume um compromisso em viver
cada momento de acordo com a Vontade de quem nos
deu uma caixa que contém um presente e, com
compaixão, diversas chances para abri-la.
- Nada de Saoshyant por enquanto?- Seguindo à
pergunta, Raja fechou os olhos; Masamune sabia que o
companheiro devia estar expandindo sua percepção para
lugares longínquos.
- Está chegando. Deve demorar mais uns dez minutos.-
Reabriu os olhos, e de fato nesse tempo o persa
apareceu, vestindo sua reluzente armadura verde e
negra, com a face urrante de um demônio em desespero
desenhada no abdômen e uma espada montante nas
costas, empunhadura repleta de esmeraldas e bainha
com a representação de um monstro sendo morto por
um cavaleiro. Carregava o capacete pontiagudo debaixo
do braço e exibia uma expressão de sarcasmo, com um
narcisismo pouco disfarçado em seus olhos, que fitavam
tudo de cima e refletiam a si mesmo mais do que ao
mundo externo.
- Ainda sem sua armadura?- Perguntou ao companheiro
indiano, que se encontrava com a parte de cima do
corpo despida; na troca de olhares, investigação da parte
de Raja e desafio da de Saoshyant; Masamune
observava com frieza e a mão que não segurava o elmo
apoiada na cintura.

88
- Estávamos esperando por você. Vou colocá-la agora.-
Ergueu o braço direito com dedo indicador apontado
para cima e uma fagulha dourada começou a reluzir
neste; seguiu-se o aparecimento dos pedaços da veste do
guerreiro, que levitando no ar foram revestindo seu
corpo, formando uma proteção dourada repleta de
detalhes que lembravam serpentes, inclusive no
capacete, aberto para o rosto, que no topo tinha a
representação de uma naja com olhos de rubi encarando
quem estivesse à frente, e depois vieram a capa branca
nas costas e o tridente para a mão esquerda, que se abriu
para recebê-lo.- Satisfeito?- Indagou após a
impressionante demonstração de psicocinese.
- Isso não seria magia?- O persa indagou, extinguindo o
sorriso.
- Claro que não. Não foram empregados espíritos do ar.
Nada externo a mim interferiu. Foi apenas o poder da
minha mente.
- Então já estamos prontos para pegar os thugs.-
Saoshyant lhe deu as costas e colocou o elmo.
- Antes queria falar um pouco a respeito deles para
vocês. Afinal, mesmo sendo guerreiros experientes, não
devem conhecer muito sobre esta terrível seita da mão
esquerda.
- O que sei é que você já foi um dos sacrifícios deles.
- Por isso tenho uma certa autoridade para falar sobre o
assunto. Antes de tudo, vou esclarecer que a entidade
por eles venerada não é um demônio. Kali, a negra, é
uma força da natureza, que porém como tal é neutra,
podendo ser usada tanto para o Bem quanto para o Mal.-
Saoshyant voltou a encará-lo com interesse; Masamune,
mesmo sendo o cruzado que havia mais tempo exercia
sua função entre os doze do presente, escutava de forma

89
atenciosa e sem soberba.- Trata-se do poder que tanto
provoca catástrofes como combate os príncipes do
Inferno, já que Deus só utiliza o arcanjo Miguel e suas
hostes em último caso; foi Kali a força empregada para
provocar o Dilúvio Universal. Ao mesmo tempo, magos
mal-intencionados podem utilizá-la para a destruição
pura, sem uma finalidade superior. Os líderes dos thugs
tentam evocar Kali a cada eclipse lunar, que é o que
ocorrerá hoje, a única ocasião propícia para que a negra
aceite ordens de seres humanos.
- Mas uma vez que ela aceite ficar subordinada a eles,
continuará assim terminado o eclipse?
- Seguirá dessa forma até o eclipse seguinte. Já detive
em outras oportunidades cerimônias thugs de evocação
de Kali, mas parece que eles proliferam feito formigas.
Geralmente os magos thugs conseguem escapar, são
extremamente ariscos e traiçoeiros.
- Mas Kali não possui vontade própria?- Indagou
Masamune.
- Ela não tem uma inteligência humana. Existe apenas
para transformar: tanto os demônios em cinzas como a
civilização em ruínas.
- Mas já existiram ocasiões em que algum mago
despertou Kali a seu favor?- Saoshyant perguntou.
- Há muito tempo atrás. E, quando aconteceu, se diz que
continentes inteiros submergiram, originando as lendas
da Atlântida e da Lemúria; no ano 1000 alguns dizem
que ela também agiu ao lado das forças do Mal, e os
resultados estão pelo planeta até hoje.
- Pelo visto, é quase tão poderosa quanto um príncipe
do Inferno.
- Diria que mais; acredito que entre os seres do Inferno
apenas Lúcifer e Lilith a superem ou se igualem. Não

90
podemos permitir que desperte sob o comando dos
magos thugs de maneira nenhuma.- E dali seguiram pela
floresta, sob a liderança de Raja, que os levaria para o
templo thug antes da noite; por isso correram, sem o
menor cansaço, mesmo com o peso das armas e
armaduras, graças ao sangue de Cristo em suas veias,
chegando ao imenso palácio de madeira entalhada,
repleto de esculturas de feras em sua superfície, uma
edificação principal em forma de torre com 80 metros
de altura, no topo entronizada Kali triunfante, um átrio
piramidal de cerca 50 metros, com rebuscados padrões
decorativos geométricos, os torreões curvilíneos
coroados por cúpulas, antecedido por uma ponte de piso
formado por pedras cristalinas verdes e azuis
assimétricas, as bordas brancas marmóreas, espalhadas
estátuas da deusa furiosa, de pé com a boca escancarada
em berros silenciosos ou montada em predadores como
tigres e ursos, dezenas de braços armados que pareciam
em movimento ou empalando demônios.
- Parece deserto, a não ser pelas imagens, que me dão a
impressão de estarem vivas. Será um efeito da magia
dos thugs?- Indagou o persa, que começava a ser
perturbado por uma certa dor de cabeça; Masamune não
disse e nem demonstrou nada, porém sentia um mal-
estar generalizado, em particular no que dizia respeito
ao seu estado de ânimo, com as emoções puxadas para
baixo.
- Eles imantam as figuras com suas intenções
distorcidas, com a finalidade de manter os leigos
afastados. Por isso, nossa atenção deve ser constante.- E
voltou seu olhar para o cruzado natural do Cipango,
percebendo que este não se sentia bem: viu seus chakras
desfocados ou envoltos por uma espécie de fuligem.

91
“Ele não está nada bem.”, pensou, porém não disse
nada; foi algo rápido, para não ser percebido por
Saoshyant: pelo olhar, um aconselhou o silêncio ao
outro.- E não se iludam; eles estão lá dentro.
“A minha espada é a minha cruz.”, para a qual
entregava a sua alma, como o Cristo fizera
dependurado. Contudo, apesar de seu forte senso de
disciplina, vinha questionando havia um bom tempo
certas atitudes da Igreja e dos padres vermelhos,
manchando a lâmina do espírito, que deveria estar
sempre limpa, com o sangue da carne; referia-se neste
caso à matéria bruta, a interesses que iam além de
proteger os seres humanos comuns de demônios e
magos, uma trama sombria que intuía a cada suposto
religioso que observava e que não seguia os preceitos
básicos da Fé, como amar e respeitar o próximo,
humilhando os próprios semelhantes ao se julgar
superior por um cargo ou função, no esquecimento de
que o ministério cristão seria a responsabilidade de fazer
a vontade de Deus na Terra, e não a própria. Os homens
se revelavam cada vez mais egoístas, fúteis, violentos e
gananciosos, idênticos aos monstros que os ameaçavam,
a não ser pelas aparências; mas de que adiantava saber
fazer o chá, servi-lo de acordo com todas as normas da
etiqueta e depois cortar a cabeça do hóspede pelas
costas, com a finalidade de roubar algumas moedas
escondidas no hakama? O que o enfraquecia mais a
cada dia era a mesquinhez humana; os símbolos e a
magia dos seguidores de Kali, portanto, representavam
somente uma faceta simplória da monstruosidade
entranhada no espírito, cada vez mais abissal e portanto
quase indiscernível do restante, só ficando um pouco
evidente nos aspectos menores, camuflando-se quando

92
no mais abominável. Tinha início o pôr do sol quando
entraram no templo.
O ataque das armadilhas não foi surpresa para Raja,
que foi abrindo caminho à frente: levitou diante de um
buraco com estacas afiadas que se escancarou debaixo
dos seus pés, permitindo o salto de seus companheiros
na seqüência; desviou lanças, projéteis e flechas fazendo
uso de sua psicocinese; só parou diante de uma estátua
com carranca de leão.
- O que foi?- Inquiriu Saoshyant, estranhando a
parada.- Há algo de estranho com essa imagem?
- Não. O problema vem atrás dela.- E abriram-se os
portões atrás, revelando uma miríade de thugs furiosos,
vestidos com turbantes e túnicas brancas e armados com
cimitarras; o combate, contudo, foi breve, durando
pouco mais do que um sorriso do persa: Masamune
manifestou sua velocidade de manejo da espada
inigualável entre os cruzados (apenas Charles era
comparável), cortando os dedos das mãos de seus
oponentes, que se limitaram a ver feixes de luz e logo
fugiram em desespero; o indiano se tornou invisível em
frente à estátua citada anteriormente, que sumiu junto
com ele do raio de visão dos inimigos, reaparecendo
quando, ainda sem ser visto, Raja fulminou todos com
golpes de tridente, só se tornando novamente visível, os
olhos de sua naja brilhando de forma intensa, na certeza
da vitória; um vento seguiu a espada de Saoshyant,
rasgando as gargantas dos thugs.
- Esses idiotas achavam que iam lidar com quem? Não
somos principiantes como eles.
- Calma, não se precipite. Foi só o começo. Estes eram
fanáticos que serviram como buchas-de-canhão, não
havia nenhum mago entre eles. Ao passar por esta porta,

93
as coisas devem se complicar, serão bem diferentes.- E
foram: depararam-se com um amplo salão circular, uma
mandala no chão e outra no teto, multicoloridas,
representando os feitos e massacres de Kali; em
prateleiras, centenas de cabeças humanas, algumas
ainda “frescas”; no centro do piso, um homem de pele
escura, olhos fechados e longos cabelos e barba tão
brancos quanto sua túnica. Surpreendentemente, no teto,
outro indivíduo em seu centro, pendurado de cabeça
para baixo, pintado de preto e com a cabeça raspada, os
olhos negros escancarados. Em volta, guardas thugs
fanáticos dispostos a morrer para a proteção de seus
líderes.- Aí estão os dois magos. Para trás.
- Como é?? Pretende lutar sozinho??- Saoshyant fez
uma careta de desagrado.
Masamune permaneceu atrás, ao passo que a armadura
do cruzado indiano se soltou do seu corpo; uma aura
sinistra, negra, vermelha, cinzenta e fétida, começou a
se espalhar pelo ambiente.
- Matem o demônio invasor! Em nome de Kali!-
Bradou o feiticeiro de olhos abertos.
- Mas o que ele está fazendo?!- Saoshyant questionou,
assustado; e não conseguiu acompanhar a rapidez de
Masamune, que logo dizimou os inimigos com sua
espada: em menos de cinco segundos, os soldados thugs
ficaram sem os dedos das mãos e dos pés; os que ainda
insistiram em avançar, assim como a magia elemental
usada pelos magos (pequenos relâmpagos, ondas de
calor, labaredas e mesmo gelo), foram devorados pela
energia obscura e cada vez mais palpável de Raja, cujos
músculos cresceram anormalmente, acompanhando o
aumento de tamanho (passava dos três metros de altura,
aproximando-se do teto), a pele se tornou rubra e

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manifestava uma barba e uma crina espessas, quase
cobrindo o rosto todo, a não ser pelos olhos repletos de
espirais.- Ele foi possuído! Como é possível e por quê??
- Não se desespere.- Masamune falou em um tom
pacato.
- Como posso ficar tranqüilo??- O persa tentou brandir
sua espada contra o ex-companheiro, mas esta escapou
de suas mãos e foi se encravar em uma parede bem
atrás. Ficou boquiaberto, enquanto o indiano,
“possuído”, avançou contra os espantados magos thugs
e, antes que se teletransportassem dali por meio de
portais tortuosos que abriram às suas costas, esmagou-
os com suas mãos e pés.
- Raja é um caso à parte entre nós.- O samurai resolveu
explicar.- Ele é o único que consegue, ao entrar em
êxtase com o sangue de Cristo que corre em suas veias,
sair do corpo e por algum tempo se deixar possuir por
um poderoso demônio, mantendo no entanto a
consciência e controlando a criatura, que perde sua
vontade própria, de fora.
- Isso é espantoso. Uma demonstração incrível de poder
magi...Eh...Quero dizer, de concentração!
- Ainda não terminou.- Disse o cruzado da terra do sol
nascente, seguindo o indiano transformado para além
daquele local, depois seguido por Saoshyant, que
parecia entusiasmado demais...
Havia um largo corredor adiante, pelo qual
prosseguiram; ao término deste, uma sala ampla e
escura, tendo ao fundo um trono com um monstruoso
rosto de fauces escancaradas no alto; proliferavam
imagens da deusa em fúria, segurando lâminas entre os
dentes, além de corpos humanos apodrecidos nas
proximidades do assento. Sentado, um homem com um

95
sorriso debochado, tez pálida demais, como se tivessem
passado uma tinta branca por sua pele, mas não estava
pintado, o nariz aquilino, olhos amendoados pretos
como os cabelos longos e vestido com um manto negro
e azul-escuro. Raja começou aos poucos a voltar para o
seu corpo físico, que foi desinflando, diminuindo em
altura e a aura destrutiva desaparecendo. Contudo, o
olhar de ódio do demônio continuava, o que gerou um
certo receio em Masamune, ainda que não o
demonstrasse. “Nunca o vi desse jeito sem estar com o
demônio em manifestação; entendo...Deve ter voltado
para não perder o controle e a consciência, sendo
possuído em definitivo. Mas por que isso aconteceria a
ele?”
- Não o reconhece, Masamune??- O indiano
questionou, visivelmente transtornado; o samurai ficou
a refletir; Saoshyant, por perto, se limitava a observar; o
mago sinistro não se movia do lugar.- É o monstro no
corpo de Dyonisos.- Raja resolveu acelerar as coisas.
- Como é??- Masamune pela primeira vez exibiu
emoções controversas, atribuladas; aproximou-se para
enxergar melhor o ser que ali se encontrava, já que a
princípio se limitara a ver as sombras.
- Entende agora por que desisti de controlar o demônio?
Contra ele, correria o risco de perder a sanidade e ser
possuído de uma vez por todas. Afinal, quero destruir
esta aberração.
Saoshyant meneou a cabeça para os lados, incrédulo.
- Desde o começo da missão sabia que o encontraria
aqui?- Confirmara o rosto familiar.
- Senti o espírito de Dyonisos implorando por socorro.
Uma das maiores razões da minha vida é livrá-lo deste
tormento, ainda que seja imensamente doloroso para

96
mim ferir seu corpo. E o pior de tudo é que ele teve o
cinismo de se aliar aos thugs para me provocar quando
eu o encontrasse, como sabia que iria acontecer, já que
não dou trégua aos deturpadores de Kali.- A armadura
tornava a revestir seus membros.
- Ele está diferente. A feição é a mesma, mas a
pele...Não sinto tão bem como você, não consigo
perceber a agonia de nosso antigo companheiro, mas o
corpo é o dele, sem nenhuma dúvida.- Conseguiu
restabelecer a custo a placidez em seu semblante.
- Sei que ele já está morto, que não pode retornar.
Afinal, apesar de sua força, não possuía um domínio
mental como o meu. Mesmo assim, hoje por pouco não
deixei o demônio que me ronda despertar. Por isso, não
tenho moral para julgar ninguém! Vou limpar seu corpo
como limpo minha mente, Dyonisos; e então você
poderá ter enfim seu merecido descanso e seu cadáver
uma tumba apropriada e digna.
- Quer dizer que este foi Dyonisos de Atenas, agora
possuído por um demônio?- Indagou Saoshyant;
Masamune meneou a cabeça em confirmação e atacou
junto com o indiano, tridente e katana contra uma
criatura ainda imóvel, mas que de imediato desapareceu
do trono, reaparecendo com as mãos no pescoço do
persa.
De forma surpreendente, Saoshyant conseguiu levitar
para longe, causando espanto mesmo no demônio, até
então pura confiança; a velocidade da lâmina do
samurai forçou sucessivas esquivas, interrompidas pelo
tridente de Raja, que o perfurou pelas costas. Ainda
assim, o possuído continuou onde estava e bloqueou
com uma mão o golpe que o teria decepado, na
seqüência atirando longe a katana enquanto sua mão

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sangrava e manifestando uma aura azul trevosa que
transmitiu uma agressiva corrente de energia da arma
para as mãos e conseqüentemente para o resto do corpo
do cruzado indiano, que se viu obrigado a retirá-la.
Dyonisos, ou quem fosse, saltou para o alto e então,
enquanto levitava e reconstituía o estrago feito em seu
corpo, irradiou com o semblante ensandecido uma roda
de relâmpagos dourados, que gradativamente perderam
o sentido circular e se tornaram uma dança elétrica sem
regras. Saoshyant pulou em sua direção com a espada
em punho, porém foi fulminado e acabou no chão com a
armadura repleta de ranhuras. “Como pode?! Tendo o
sangue de Cristo a correr em minhas veias, eu é que
deveria ter um poder maior. O poder e a magia de Deus!
Não posso me ater às regras...”, aproveitou-se que Raja
estava inconsciente, após ser atingido por uma forte
descarga, e Masamune temporariamente cego devido à
claridade emanada na direção de seus olhos, impedido
assim de recuperar sua espada, para salvar os
companheiros manifestando seu verdadeiro potencial
(assim como sabia pouco sobre Raja, a recíproca era
verdadeira): tornou a ficar de pé e o chão embaixo do
cruzado possuído trincou; na seqüência, este foi puxado
para baixo pela força da gravidade, impedido de levitar;
com um peso sobre seu corpo, o monstro ofegou pelo
sufocamento. Masamune compreendia que algo se
passava, sentindo a terra diferente sob seus pés, mas
seus olhos ainda sofriam em conseqüência da
luminosidade excessiva; elementais troncudos, marrons
e negros, de braços possantes e dedos quadrados, rostos
chatos, pouco menores do que humanos comuns,
subiam pelas costas de Dyonisos ou o seguravam pelos

98
pés, e ainda havia os que distribuíam pancadas ou
saltavam em sua garganta.
- Herege...- O possuído por fim se pronunciou,
liberando outra vez seu sorriso e, para o desespero do
persa, desbaratou-se dos espíritos da terra com sua aura
de raios ferinos, perfurando-os com suas emanações
elétricas, enquanto imensos chifres de bode cresciam,
em paralelo com a transformação de seus pés em patas
caprinas, sua roupa se rasgava e seu corpo aumentava de
tamanho e se deformava, cheio de cotovelos. Partiu na
direção do cruzado.
Ao voltar a enxergar, Masamune se limitou a
testemunhar um massacre: o ataque de Dyonisos, um
baile sangrento de um único dançarino bestial,
destroçou a armadura e os ossos de Saoshyant. Raja
recobrara a consciência, vendo o corpo do companheiro
estendido sobre uma poça de sangue.
- Não há opção. Vou ter que arriscar.- Olhou para
Masamune, que sequer se movera muito. De nada
adiantaria recobrar sua espada, de qualquer forma.
Um urro; e mais uma vez o indiano transformou seu
corpo, permitindo a possessão. Dyonisos abandonou o
persa, que o samurai se apressou em carregar para fora
do templo (não havia mais nada que pudesse fazer ali;
sua experiência servia para ocasiões como essa), e
houve o choque entre os monstros. Um bode esquálido e
bípede, com garras imensas, contra um demônio
vermelho pouco mais alto e mais musculoso, porém
quase que desprovido de acessórios cortantes; seguiu-se
uma explosão de fogo e eletricidade e o templo foi
abaixo. Não se tratava do lugar apropriado para um
combate tão extremo. “Sou eu. Sou eu, Raja.”, pairando
acima com seu espírito, o cruzado repetia estas palavras

99
em sua mente como um mantra, apenas estas, às vezes
se sentindo tentado a desmaiar, porém logo recordava:
“Sou eu. Sou eu, Raja.”, e uma serpente branca e
dourada envolvia seu espírito; uma cruz da mesma cor e
luz aparecia no alto de sua cabeça espiritual e assim
seguiu até seu corpo se erguer dos escombros, mais uma
vez humano. E Raja retornou ao físico, sem armadura e
sem arma. No visual, nada de Dyonisos. “Mas ainda
sinto o espírito daquele demônio. E o meu corpo não irá
suportar uma nova possessão.”
- Vamos embora. Vamos antes que ele resolva nos
atacar outra vez. Não temos ainda como derrotá-lo.- Foi
o apelo de Masamune, que surgiu ao seu lado,
carregando Saoshyant.- O templo foi destruído, os
magos thugs estão mortos. Cumprimos a missão de
impedir o despertar de Kali.
Raja sabia não ter tempo para refletir. Reconheceu:
- De fato só me restam mais forças para fugir.
- Vamos embora agora.- E desapareceu feito um vento
passando em um bambuzal; segundo depois, o indiano,
que não queria sair dali realmente, notou um movimento
nos frangalhos da construção. Então, mesmo com os
olhos em brasa, raciocinou que morrer ali não iria ajudar
em nada o seu velho amigo e chutou seu orgulho. “Devo
me teletransportar? Não...Seria um desgaste de energia à
toa. Ele não vai me seguir tão cedo. Basta correr. Mas
juro que algum dia vou correr é atrás de vocês.”
Quando a cabeça de bode emergiu, já não havia mais
ninguém, afora a lua e as estrelas; um tortuoso guincho
de dor e ódio, vagando em ondas de êxtase, varou a
noite. A gente dos arredores pensou com terror que Kali
despertara; entrementes, não demorou para o silêncio
predominar.

100
II – Profundezas

As arquibancadas negras estavam distribuídas em três


círculos concêntricos, cada andar ocupado por
aproximadamente dez sacerdotes de batinas e barretes
cor de sangue. No centro do piso escuro uma cruz
vermelha, e sobre esta os três cruzados que haviam
participado da mais recente missão na Índia. Um
ambiente trancado, úmido e um tanto sombrio.
- Cruzados possuídos são realmente muito perigosos.
Seus corpos e espíritos atraem inclusive duques, condes,
barões e marqueses do Inferno, que os possuem para
promover destruição e agonia. É por isso que não
puderam vencer Dyonisos. É provável que ele tenha
sido possuído por um marquês ou duque, enquanto
você, Raja, não pode se permitir a isso por períodos
longos.- Disse o padre Tharien, um homem de meia-
idade, calvo, de olhos alertas e gestos calmos.
- As suas armaduras me deram um tremendo trabalho.
Precisei forjar muitas peças novas. Não sobrou quase
nada!- Falou o robusto e simpático padre Celius, de
longa barba branca porém sem bigode, um dos
sacerdotes-ferreiros, que banhavam o metal com o
sangue de Cristo, armazenado em vidros próprios que
haviam sido preenchidos a partir do cálice original, de
posse dos padres vermelhos e itinerante, com estes se
revezando em sua posse, e que, mesmo esvaziado, se
renovava sozinho a cada doze horas.
- Da próxima vez, estarei ainda mais atento.- Disse o
cruzado indiano, com uma expressão mais turva do que
de costume; não livrar Dyonisos da besta ainda era uma
grande frustração.

101
- Não se abata nem se cobre tanto assim, meu filho.-
Foi a vez do padre Jonathan, um homenzinho de pouco
mais de um metro e meio de altura, que gostava de usar
um barrete um pouco maior do que o de seus irmãos,
sem nenhum cabelo e pouquíssimos pêlos no corpo,
moreno e de nariz achatado, com uma expressão de
falsa complacência.- Cristo talvez os tenha castigado
por terem roçado o abismo da soberba; lições assim
tenho certeza que todos nós algum dia recebemos ou
receberemos. Ninguém está pronto o bastante para ir aos
Céus sem dar alguns passos no Purgatório, ainda que
seja em Terra.
- E você, Masamune? Tem algo a dizer?- Inquiriu
Torquemada; o samurai, com um quimono branco e um
longo hakama azul, era o único ali de joelhos e com a
cabeça baixa; os outros dois estavam de pé.- Você já
enfrentou e até venceu alguns possuídos. O que houve
desta vez?
- Me parece que este que entrou no corpo de Dyonisos
pertence a uma categoria diferente. Um demônio de alto
escalão, talvez um duque realmente, que não tivemos a
oportunidade de observar com atenção no confronto
contra Belial porque escapara logo. Creio que é tudo.-
Replicou o cruzado.
- E quanto ao seu parecer, Saoshyant?
- Estudo magia já há algum tempo para compreender as
artes dos inimigos da fé.- Replicou o persa.- No caso
deste inimigo, centra-se no elemento fogo para destruir,
mas também emprega minúsculos espíritos da terra para
restaurar seu físico. Após ser perfurado pelo tridente de
Raja, conseguiu se reconstituir. Para ser vencido, um
inimigo desse gênero precisa sofrer muitos danos
simultâneos.- Foi fitado com desconfiança em especial

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pelo Inquisidor Geral, porém não se intimidou,
preservando o olhar altivo, e observou Celius, que o
fixava com tranqüilidade, e Jonathan, que sorria de
forma despreocupada.
Horas depois, estava em seus aposentos particulares no
Vaticano, que era onde ficavam os cruzados nos
intervalos entre suas tarefas; aguardava a noite, lendo
um dos tantos livros das pilhas em sua escrivaninha,
enquanto possuía um quarto só para sua cama, rústica,
já que não fazia questão de conforto, e outro, fechado,
que só abria nas ocasiões necessárias, para suas práticas
proibidas...De magia. Traçado no chão um círculo, e
dentro deste um hexagrama, tendo em cada ponta um
pentagrama e ao lado uma cruz grega, com braços de
idêntico tamanho; dali evocava os espíritos dos
elementos, para que o obedecessem e o auxiliassem
durante as batalhas sempre que precisasse, e sonhava
que algum dia poderia convocar anjos e forças maiores
da natureza, como por exemplo a própria Kali.
Ambicionava ser aquele que livraria de uma vez por
todas o mundo dos demônios, e para isso usaria a magia,
considerada por ele não algo demoníaco e sim um dom
de Deus para que o homem pudesse agir na natureza e
vencer as paixões abomináveis, passando do
autodomínio para o domínio exterior sem perder a
consciência da Vontade de Deus. Contudo, declarava ao
Santo Ofício que estudava as práticas mágicas apenas de
forma teórica, pegando livros emprestados da biblioteca
vaticana para realizar essas pesquisas, sem jamais
revelar que realizava todo tipo de atos ritualísticos
possíveis, menos as conjurações infernais. Estudioso de
magia desde que se tornara um cruzado, vira nesta uma
maior possibilidade de acesso ao Conhecimento, além

103
de existirem certas razões enraizadas em seu passado:
“Nunca vou deixar de lado a magia, que está longe de
ser algo ruim. Se Helmont tivesse possuído um
conhecimento mágico maior, teria podido se defender
daquele demônio e não teria perdido a Pedra e a vida.
Não tenho tempo para me dedicar à alquimia e de certa
forma não preciso dela porque já sou imortal, mas nunca
abandonarei a magia, pois será através dela que espero
livrar o mundo dos demônios, estes usurpadores,
monstros que invejam o homem por termos sido criados
à imagem e semelhança de Deus.”
Certa noite, trabalhava com um medalhão de jade que
trouxera do Catai; estava ali gravada a imagem de uma
roda, com quatro ideogramas que formavam os vértices
de um quadrado no interior desta, e, em cada ponta,
minuciosas imagens de animais místicos: um unicórnio,
uma fênix, um tigre e uma tartaruga. Em primeiro lugar,
conjurou os espíritos do ar para que purificassem o
ambiente, retirando todos os pensamentos espúrios e
profanos seus e de qualquer ente que tivesse estado lá,
físico ou espiritual que fosse; o que se viu foi uma
profusão de diminutos rodamoinhos com faces pouco
discerníveis carregando para fora pensamentos reclusos,
abrindo caixas devotamente fechadas e arrancando à
força os que não queriam se retirar de forma pacífica.
Carinhos supérfluos desapareceram em vapores vagos;
com a imaginação, visualizou na face limpa do amuleto
um pentagrama atravessado por uma espada e evocou
Marte para que lhe desse força e proteção: viu um muro
de chumbo se erguer ao seu redor e sua armadura, que
usava em seus rituais, se tornar rubra.
Júpiter foi chamado a seguir, vendo em sua mente uma
águia coroada em um novo pentagrama, que se sobrepôs

104
ao primeiro imaginado no medalhão; a intensificação
iria ocorrer: a barreira, a veste e as armas se
fortaleceram. Expulsou com sua intenção eventuais
seres curiosos das trevas, desembainhando sua espada,
cuja mera presença provocaria a dor do corte em seus
opositores astrais, e pegou um odre com água benta com
a outra mão. Apoiou a lâmina no chão e pronunciou de
maneira solene, num latim mais antiquado do que a
língua culta que os eclesiásticos usavam entre si (com
apenas três declinações e a introdução de alguns artigos;
as variantes vulgares, por sua vez, não contavam mais
com declinações), enquanto derramava algumas gotas
sagradas no amuleto:
- In nomine Elohim et per spiritum aquarum viventium,
sis mihi in signum lucis et sacramentum voluntatis...-
Uma fumaça perfumada saiu do objeto; citou em
seguida a Bíblia:- In principio creavit Deus caelum et
terram. Terra autem erat inanis et vacua, et tenebrae
super faciem abyssi, et spiritus Dei ferebatur super
aquas. Dixitque Deus: “Fiat lux”...- As velas acesas se
apagaram e uma luz que não vinha de fontes naturais
principiou a emanar do medalhão. Os olhos do cruzado
se encontraram com esta e foi obrigado a fechá-los;
perdeu o contato com a vida pelo que lhe pareceram
alguns segundos, o espaço se distorceu na escuridão, e
ao reabrir os olhos estava de frente para um rio de águas
de uma profundidade azul exagerada, quase negras,
sobre as quais pairava uma ilha com um castelo. As
areias que pisava pareciam frias, lisas e metálicas.
Noite...
“Desci aqui para trazer a luz a um lugar que ainda não
a possui?”, questionou-se; a fortaleza circular se
apresentava com torres maciças de bases e topos

105
arredondados, sobre as quais se tinha a impressão que
estavam montadas tendas, fixadas por estacas firmes.
No entanto, um vento repentino desestabilizou e não
demorou a arrancar as barracas do lugar, com os panos
nos ares se transformando em bizarras criaturas
voadoras brancas, de pele membranosa. com rostos
disformes e veias que começaram a rasgar, guinchando
na direção de Saoshyant, que desembainhou a espada e
a luz emanada por esta desmanchou aqueles seres.
Contudo, não foi o bastante para o que viria a seguir:
- Você é tolo.- Um balbucio sinistro; olhou para trás e
deu de cara com um monstro espelhado, que refletia em
sua pele tanto o guerreiro persa como o castelo ao
fundo, os olhos de vidro verde, braços compridos e
grossos demais, quebradiços, que porém se
reconstituíram e se mantinham inteiros mesmo quando
alguns cacos e grãos se misturavam à areia; apesar de
estar sério, o cruzado viu sua imagem sorrir com dentes
pontiagudos e levou um susto, voltando a si em seu
gabinete de estudos, a cabeça debruçada nos livros.
“Será que foi só um sonho?”, levantou o crânio com os
cabelos desgrenhados. “Não posso perder o controle.
Terá sido uma tentação?”, ergueu-se devagar de seu
assento de madeira e se dirigiu ao quarto de práticas
mágicas, encontrando-o como o deixara em suas últimas
lembranças, o amuleto no chão, a emanar a energia
espiritual da qual fora ungido, e tudo indicava que a
operação mágica fora efetuada de forma correta. “Só
não entendo como vim parar de volta no quarto de
estudos. Caso tenha se tratado de um sonho, ocorreu em
decorrência da força que consegui trazer durante o
ritual; não deve faltar muito para que algum dia consiga
conjurar um arcanjo; e todos os demônios irão tremer.

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Porém meu corpo ainda precisa de adaptações. O risco
da magia, seu único aspecto demoníaco, reside na
dificuldade em manter a consciência e
subseqüentemente a sanidade.”, passou as mãos pela
barba rala...
...Bem mais grossa em Bruno, que a estava deixando
crescer e observava as atitudes da aldeia, aquiescendo
com o pôr do sol carmim que descia. O conde local,
Pedro, o moralista, descera de sua carruagem bufando,
com o látego em punho, para chicotear uma célebre
adúltera, apelidada de “messalina dos Cancelos”, que se
dizia que vagava entre os vilarejos da região do Poço do
Canto, na Lusitânia, em busca de aventuras amorosas,
conquanto fosse esposa do barbeiro-cirurgião Hermes
de Passos, que se tornara popular fazendo pequenas
cirurgias e sangrias nos ferimentos de trabalho dos
camponeses, valioso para o senhor da região, pois, ao
contrário da maioria de seus colegas de profissão (e não
que fossem muitos nos arredores; existiam mais dois),
conseguia às vezes não amputar os membros de seus
pacientes. Enquanto Pedro descia o braço na mulher em
frente à Capela de Nossa Senhora da Conceição dos
Cancelos de Baixo, o cruzado negro, de armadura cor de
ébano e carregando uma maça da mesma cor, repleta de
espigões, dirigia seu olhar para o sol, enxergando no
fogo que parecia descer a expectativa de um maior e
verdadeiro castigo.
“Se todos os delitos fossem tão insignificantes, Deus
não precisaria de nós. Mas enquanto a humanidade for
bruta e os demônios refinados, não haverá escapatória.”,
atirou sua maça de repente, para o espanto dos curiosos
que acompanhavam a surra pública, e mesmo o conde
parou; a mulher, atirada no chão e com as mãos sobre a

107
nuca, despida e cheia de marcas, ofegante, ainda não
conseguiu suspirar aliviada; um velhinho quase perdeu
os sentidos perto de onde a arma passou, atingindo em
cheio a cabeça de um garoto, que despencou com os
miolos expostos.
- Mas o que fez este cruzado? Terá ficado louco?-
Inquiriu uma senhora.- Não o chamamos para que
matasse crianças. Não é por acaso abençoado por Cristo,
apesar de sua tez escura?- Bruno ignorou aquela gente e
caminhou até o corpo. Falou sem cerimônia:
- Não pense que me engana com esse teatro. Sei que
ainda não está morto.- As pessoas gritaram e
começaram a fugir quando a cabeça recolheu o que saíra
dela e se reconstituiu. O conde Pedro, sem armadura,
vestido apenas com uma camisa e um colete e calça de
couro, ficou paralisado, o látego na mão direita trêmula,
e não percebeu que a “messalina” se levantara para lhe
dar um chute no meio das pernas antes de correr para
longe, mesmo muito machucada, tirando proveito da
confusão. A criatura se reergueu, o rosto do menino foi
se deformando e o devorador de crianças ficou evidente,
saltando para morder o pescoço de Bruno, que estava
sem capacete.
Um golpe irradiante, bem-dado no centro do pequeno
corpo, bastou para que não apenas a cabeça como todo o
resto explodisse. No semblante do etíope não havia o
mínimo sinal de compaixão. “Desapareça para sempre.
Nem as chamas do Inferno o receberão mais...”,
contudo, sentiu que era observado por um olhar
diferente; em suas costas, nem um demônio e nem um
ser humano comum: Pedro, o moralista, fugira em sua
carruagem e mais ninguém se achava ali, a não ser o

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cruzado e uma mulher. Ele sabia muito bem que tipo de
pessoa ela era...
- O meu ódio é dirigido contra os demônios. Como
você é humana, a perdôo em nome de Deus por
qualquer coisa que faça, a não ser que conjure criaturas
das trevas. É isso o que você faz?
- Pelo contrário. Vim aqui ajudar a pobre gente deste
lugar. Ouvi falar e senti a energia de um demônio e vim
para eliminá-lo.- Usava um capote escuro, que encobria
seu rosto.
- Me desculpe, mas quem faz esse trabalho somos nós,
cruzados.
- O mais estranho é que senti duas presenças
demoníacas. E a maior ainda não se foi.
- Impossível. Não há mais nenhum demônio por aqui.
Você se equivocou, bruxa; talvez se refira à sua própria
presença. É a única força sobrenatural aqui além do
devorador de crianças que exterminei.
- Não. Você está se esquecendo de alguém, meu caro...-
Ela resolveu remover o capuz e revelar o rosto com
curvas de pêra, deixando escapar um sorriso um tanto
sarcástico, sem abrir a boca, apenas puxando o lábio
para um lado. Possuía olhos cor de mel e cabelos
castanhos longos e lisos.- Desde quando os cruzados são
seres “naturais”?
- Teoricamente, deveria ao menos arrastá-la comigo
para um dos tribunais Santo Ofício.
- E por que não tenta?- Ela o provocou; no entanto, ele
não pareceu afetado. Uma raiva e um ódio tremendos
irradiavam de seu interior, quase rasgando seu peito,
que com freqüência chegava a doer; seus músculos
torácicos se contraíam. Entrementes, eram dirigidos a
algo muito maior. As bruxas lhe inspiravam uma certa

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indiferença, a não ser que comprovadamente devotadas
à magia negra, e aquela não parecia uma devota dos
demônios, ou ao menos disfarçava bem. Os magos, ao
contrário, só de pensar neles ateava chamas em seu
coração; tinha sérias dificuldades para exercer sua fúria
contra mulheres.- Sou uma “feiticeira”, como vocês
costumam dizer. Mereço a fogueira.
- Não, não merece...Você até estava vindo aqui para
ajudar este vilarejo.- Encaixou a maça nas costas;
continuava sério, enquanto ela o encarou com
benevolência.
- Posso ter mentido.
- Você abusa da minha paciência e é confiante demais.
Mas senti que foi sincera.
- Podemos ser muito habilidosas ao esconder as nossas
intenções. Não desconfia mesmo de mim?- Fez uma
careta enquanto franzia a testa.
- O sangue de Cristo teria reagido e ardido em meu
corpo se você fosse uma seguidora de Satanás.
- Não tenho mesmo nada a ver com esse aí; você
venceu. O meu nome é Gabriela. Prazer...
- Não vou dizer o meu nome. Sinta-se grata pelo fato de
eu ter lhe permitido que continue livre.- Piscou por um
instante e quando percebeu ela desaparecera. “Fez bom
uso do meu gesto. Muito bem, bruxa; mas cuidado, nem
todos os cruzados são como eu. Se algum dia encontrar
Charles ou Malcolm, estará perdida...”, e sem perder
tempo montou em seu cavalo negro, que deixara em um
estábulo próximo, e partiria da aldeia, antes mesmo do
anoitecer, sem fome e nem sede, impossível a gula,
ainda que seu sangue estivesse insatisfeito. No alto da
capela, perto do sino, Gabriela o observava enquanto ia
embora...

110
QUINTO ATO

Passado – I

Frida era uma jovem tranqüila, que vivia no vilarejo de


Hastburg, próximo das montanhas de picos de neve
quase azulada, que reluzia como um mar estável nos
dias calmos de sol. Cuidava com seu marido Jurgen de
uma vaca e de uma pequena plantação, da qual a décima
parte dos rendimentos deveria ser rendida ao senhor do
castelo nas proximidades, que em troca assegurava sua
proteção. Completara quinze anos no mês anterior e,
loira e sardenta, de cabelos cacheados e olhos azuis,
sorridente e rechonchuda, encantara o então vizinho da
casa de seus pais, que já passara dos trinta anos, rosto
levemente sulcado, olheiras vermelhas fundas, alto,
magro e de músculos rijos por tanto trabalhar na terra.
Trocavam olhares diariamente, com especial quentura
quando ela saía para recolher frutos e, uma vez com o
cesto cheio, o encarava com rubor e um sorriso macio.
Ele retribuía, numa bondade áspera, e assim ficaram por
meses, até que Jurgen tomasse a coragem de pedir sua
mão. Frida o achava simpático e com um ar bondoso;
era comum ouvir falar de homens que, por se sentirem
atraídos por alguma moça, não hesitavam em violentá-
las, sem depois assumir qualquer responsabilidade. Ele,
no entanto, parecia tímido e gentil, nunca lhe inspirara
medo e, quando tirava sua boina para cumprimentá-la,
sem lhe dirigir a palavra, passava uma impressão de
respeito por sua pessoa e modos dignos de um cavaleiro,
conquanto fosse um simples camponês; quanto aos
estupros, muitos eram efetuados por nobres...

111
- E o que você tem de bom a oferecer à minha filha?-
Seu pai era um homem rude, bruto e cego de um olho,
resultado de, segundo dizia, um confronto que tivera
com um licantropo.
- Minha casa e o cultivo de minha terra e de meu amor,
que estou certo que dará muitos frutos. Não me limitarei
a deixar as coisas como estão, a estacionar no que sinto
por ela. Colocarei uma enxada em meu coração.- A
resposta do homem fez seu velho acariciar a barba
crespa, pensativo, e a deixou num estado de trêmula
apreensão, fechada com a mãe no outro cômodo da
casa.
- Fique sossegada, Frida. O seu pai é um homem sábio.
Tomará a melhor decisão...
- Tenho um certo receio...- Aconchegou-se perto do
ventre da mãe, encolhendo-se e sendo acariciada.- Esse
moço parece ser tão bom, tão correto! Caso papai o
rejeite, não sei se vai aparecer outro como ele pra mim.
Com tantos homens violentos...
- Se ele for o que parece, o que você acha que ele é, o
seu pai o escolherá.- E foi o que ocorreu, com o
casamento sendo consumado numa festa simples, com
direito a uma quantidade razoável de cerveja, frango
assado, maçãs e outras frutas, uma certa fartura ao
considerar os recursos daqueles camponeses em
comparação com as celebrações dos nobres. Passaram
assim um ano em harmonia, até, numa noite em que a
lua cheia dava a impressão de se mover à imagem e
semelhança de um veloz disco de pura luz prateada, a
roda da fortuna girar e em cavalos vermelhos chegarem
bárbaros vindos do leste; depois diriam que se tratavam
de magiares, que saquearam a aldeia e partiram em
disparada deixando rastros de devastação, tão velozes

112
que não foi possível para o barão de Hastburg proteger o
local a tempo. Na chegada, os cavaleiros locais, da
insígnia da águia berne, se depararam com a destruição
de terras pisoteadas; e uma mocinha, chorando sobre o
cadáver de um homem em vestes simples com o
pescoço e o peito perfurados por flechas, os cabelos
precipitados sobre o corpo, ergueu-se em pranto e fúria,
revelando seu rosto corado arrasado pela umidade
nociva, para amaldiçoá-los:
- Covardes! Incompetentes! Onde estavam quando o
meu marido foi morto?! Nós damos o que temos e vocês
sequer nos protegem! Que a ira de Deus caia sobre
vocês!- Frida desabafou, sendo na seqüência espancada
por um daqueles homens, que, ferido em seu orgulho,
desceu de seu cavalo e lhe desferiu o primeiro tapa com
sua luva metálica, logo seguidos vários outros; deixou-a
com os lábios e o queixo encharcados de sangue,
conquanto ela ainda seguisse consciente e com o olhar
arregalado e orgulhoso, irremovível em seu ódio.
- Já chega.- Seu comandante deu a ordem do alto; no
entanto, não parava: queria vê-la desmaiada.- Eu disse
chega, Bastian!- Só então parou.- Já não é suficiente a
humilhação de ser insultado por uma campônia? Ainda
quer continuar a bater nela sem conseguir derrubá-la?-
De fato, a jovem continuava de pé, ainda que
cambaleante.- Reassuma o seu lugar.- Bufando, o
homem deu as costas para Frida, que ofegava, com o
semblante retorcido, os olhos abatidos agora, cheia de
sangue no rosto, e subiu outra vez em seu cavalo. O
líder a advertiu:- Cuidado com suas palavras da próxima
vez, mulher. Podem lhe custar a vida neste mundo e a
paz no próximo.- E partiram dali; só quando sumiram de
seu campo de visão que ela se permitiu cair de costas no

113
solo, toda dolorida, carne e ossos, a pele ardendo, e
arrancou um pouco de terra depois de arranhar o chão
com as unhas; tristeza, medo, raiva, agonia e desespero
se acumulavam em seu peito. Levou aos mãos sujas à
testa suada e espalhou sobre esta um pouco da terra.
Não demoraria a perder os sentidos e despertou de susto
não soube quanto tempo depois; alguém a pisoteara.
Pessoas já passavam normalmente nas proximidades e
haviam retirado o cadáver de Jurgen, enquanto ela
continuava lá. Levantou-se e correu até a casa de seus
pais, na expectativa que tivessem recolhido o corpo e o
levado para lá. No entanto, não havia ninguém naquelas
bandas. E sua residência, onde passou na seqüência,
também estava vazia. Desabou em soluços e
lágrimas...Da noite para o dia, nada restara em sua vida.
Contudo, de repente escutou outro pranto que não o
seu. Parecia querer acompanhá-la e partilhar de sua
tristeza, irmanado pela solidão; não se tratava porém de
um choro adulto. Frida conseguiu parar o seu e olhar
para trás, seguindo aquele rastro a passos lentos, ainda
borrada de sangue, confirmando a solidariedade infantil
ao perceber que não cessava. Agachou-se quando viu o
bebê enrolado em mantas sujas na soleira da porta.
- Você também ficou sozinho?- Indagou com ternura e
uma óbvia eclosão de alegria. Alguém na sua mesma
situação chegara para consolá-la e lhe fazer companhia.
Deu-lhe o nome do pai desaparecido, o homem que
permitira sua união com seu amado Jurgen: Sigmund.
“Você poderá até ser rude por fora, mas será nobre por
dentro, como foram seu pai e seu avô.”, entregou-se ao
amor que poderia dar.
Sigmund cresceu sadio e vigoroso, com um sentimento
de grande admiração por sua mãe, que era sua única

114
confidente e a razão de seus olhos; não tomava
nenhuma decisão sem pedir seus conselhos.
Dificilmente sorria, a não ser para ela, e nenhuma outra
pessoa atraía a sua atenção, formal com as outras
mulheres e distante com os homens. Não queria saber de
tolas proximidades, de vizinhanças vazias, de terras sem
calos.
Quando chegou aos dezesseis ela ainda era jovem, e
mais madura, mais atraente do que fora na juventude,
como o rapaz bem enxergava, lembrando-se do fascínio
que Frida exercia sobre ele desde a mínima infância;
mesmo sem leite, o seio era cedido e sugado por horas,
preferindo o menino beber o leite da vaca a ser
alimentado por mamas de vizinhas cordiais, o que
rejeitava sistematicamente. Confiava só em sua mãe. O
que a incomodava eram os sentimentos que o garoto
nutria pelo falecido “pai”:
- Não pode falar assim, filho. O seu pai não morreu
porque quis; ele foi assassinado por incréus.
- Ele nos abandonou. Deixou a senhora sozinha, foi um
fraco. Os homens têm que proteger as mulheres, mas o
que ele fez? Pode ficar tranqüila que eu serei diferente.
Vou proteger a senhora.
- Fico feliz por ter a sua proteção, Sigmund. Mas eu
amava muito o seu pai.
- Amar fracos é o maior sinal de fraqueza que as
mulheres costumam manifestar, demonstrando que
precisam ser protegidas.- Depois dessa resposta, ela
silenciou. Numa certa idade, o vigoroso camponês
adolescente não deixava por uma única noite de sonhar
com sua mãe, na maioria das vezes envolvido em cenas
de guerra nas quais, conquanto nunca tivesse
empunhado uma espada, a protegia com uma, mais

115
especificamente uma bastarda, de criaturas abismais
que, depois de terem suas cabeças esmagadas,
revelavam ser homens comuns. As garras davam lugar a
unhas normais, os dentes perdiam o fio, as peles rubras
ou cor de carvão se tornavam róseas e morenas, cabelos
cobriam as cabeças quando os chifres encolhiam até
desaparecer. No sangue derramado, cheiro de esperma,
que era o que sentia e saía ao despertar. Não
compreendia o porquê daquilo, mas não rezava nunca e
se negava a ir a um confessor. Desprezava a Igreja: “Se
não preciso de um pai na Terra, por que precisaria de
um no Céu? Ninguém me diz o que devo fazer ou ser.
Sigo a minha consciência, não a de um velho que nem
sei se existe e que se existe é o pior pai que se possa
conceber, sempre distante dos próprios filhos, morto pra
sempre, já que nunca esteve vivo.”, em outros delírios
noturnos, perdia-se em um labirinto de luz, que de tão
claro o deixava sem norte e sem visão a uma certa
altura, acordando com uma forte enxaqueca. “Por que
isso se repete?”, com pequenas variações, os intricados
corredores fulgurantes retornavam com quase a mesma
freqüência dos devaneios sangrentos. Frida, no chão em
alguns destes, ou de pé, estava sempre muda, e gelada
quando ele a tocava para erguê-la, abraçá-la e acariciar
seu rosto e cabelos. “Saberei quando devo morrer? E o
que haverá depois? Desacredito em Inferno e Paraíso,
mas acredito que a existência não pode cessar. Tudo
deve seguir da mesma forma...”, refletia; e da forma que
se seguiu, numa tarde de terra tensa na qual o sol descia
com um estranho apuro, seus raios despencando num
azul ogival, Frida temeu que o pesadelo de repetisse:
mais uma vez desprotegida, a aldeia sofreu o ataque de
um bando de salteadores, armados literalmente até os

116
dentes com as facas e punhais que seguravam, em sua
maioria tipos toscos e atarracados, especialistas em
lançar suas armas em velocidade durante as cavalgadas
e habilidosos no manejo do arco-e-flecha.
- Aonde você pensa que vai, Sigmund?! Fique aqui, por
favor...- Implorante, tentou reter o filho.
- Eu disse que iria proteger a senhora e vou.- Como
única arma disponível na casa, um porrete.- Eles podem
entrar aqui de repente e terá sido tarde demais, nos
pegarão desprevenidos e vulneráveis. Tudo aqui é
pequeno e evidente demais pra que possamos nos
esconder. Eu vou lutar.
- Não cometa o mesmo erro do seu pai.
- Ele não era o meu pai. E deve ter morrido por
bobagem, não devia estar lutando; nunca me compare a
ele.
- O seu pai era um homem bom.- Abaixou a cabeça
com desgosto.
- Era um homem fraco. Não preciso da memória dele.
- Proteger este vilarejo é responsabilidade dos homens
do barão.
- Se formos esperar por eles, quando chegarem já
estaremos embaixo da terra.- E saiu, dando as costas
para a mãe, que deixou para trás com a impressão que
ela não choraria. “Mulheres parecem fracas por
natureza, mas possuem uma força diferente, que não sei
explicar. Deve ser a mesma que permite que superem a
dor do parto, mesmo sendo tão frágeis...”, assim que
saiu de casa, uma adaga fora lançada em sua direção e
se esquivou por pouco, deixando que a lâmina se
encravasse na madeira; um dos inimigos, a cavalo, se
preparou para lançar outra, sendo o rapaz, para a sua
surpresa, rápido e forte o bastante para atirar seu porrete

117
e atingir o homem, derrubando-o com a pancada e
deixando-o inconsciente; o animal fugiu, de qualquer
maneira não adiantaria segurá-lo porque Sigmund não
sabia montar, porém o primeiro saqueador derrotado foi
bastante útil. O jovem pegou para si o casaco grosso de
couro e o cinto com as facas que este levava consigo.
Entre os aldeões, começou a liderar a resistência, sendo
um dos poucos a resistir de forma eficiente no início,
porém após algum tempo acompanhado por seus
vizinhos, que começaram a se sentir estimulados por sua
coragem e sacudidos por seus gritos; mesmo com muito
medo, pegaram enxadas, paus e partiram para o ataque,
deixando de testemunhar passivamente o massacre.
- Aquele não é o Sigmund, filho da Frida?- Um dos
camponeses perguntou ao outro; muitos o conheciam, o
admiravam e o invejavam pelo porte e sabiam de sua
origem. No entanto, a mãe desde o início pedira para
que não revelassem a verdade ao seu menino, que
deveria crescer certo de ser seu filho natural, e filho de
Jurgen. Pena que ao crescer o rapaz desprezasse o pai.
- É ele mesmo. Bem que eu desconfiava...Olha como
ele luta! Deus não daria esse físico pra gente; com
certeza o pai verdadeiro dele era um cavaleiro.-
Sozinho, o rapaz dava conta da maioria dos salteadores
que enfrentava; quando os homens do senhor feudal
chegaram, os ladrões começaram a bater em retirada, já
envergonhados pelas dificuldades que tinham
enfrentado, parando um dos cavaleiros perto do
confronto entre Sigmund e dois invasores a pé.
- Por que está parado, Karl? O rapaz está encurralado.-
Outro guerreiro de capa e espada chegara.- Mesmo
tendo um físico excepcional para um homem do campo,
precisa de ajuda.

118
- Esses delinqüentes é que estão encurralados. Observe
os olhos desse jovem: vi ele lutando antes, quando
chegamos, e em nenhum momento precisou da nossa
ajuda. Duvido que precise agora.
O duelo de facas foi rápido, com esquivas velozes no
salto dos músculos e as carnes de um e outro perfuradas.
Os inimigos caíram, enquanto Sigmund permaneceu de
pé; se bem que arfante como um cão cansado, sofrera
poucos e pequenos ferimentos.
- Por que vai falar com esse plebeu?- O outro cavaleiro
tentou deter Karl, que porém seguiu para perto do rapaz;
tirou o capacete, revelando ser um homem maduro, de
barba e um bom volume de cabelos grisalhos, uma
cicatriz do lado esquerdo do rosto, a pele com alguns
pequenos bulbos, os olhos de um azul fulgurante.
- Meus parabéns, jovem. Como seu chama?- Sigmund
mal percebera a presença do nobre e tardou a responder,
ficando boquiaberto quando o viu diante de seus olhos,
enorme sobre o cavalo; quando no entanto desceu, se
revelou menor do que o campônio.
- Responda ao comandante Karl! Não seja insolente!- O
outro cavaleiro bradou à distância.
- Fique quieto, Gunther! Não vê a situação dele?
- O meu nome é Sigmund.- Replicou com uma firmeza
rara. Simpatizou no ato com o homem, que lhe deu a
impressão de emanar uma aura de extraordinária
nobreza, não de berço e sim de espírito; ajoelhou-se
intuitivamente.
- Agora quer ser nomeado cavaleiro??- Gunther riu.
- Você volte para o castelo agora.- Fulminado pelo
olhar de Karl, o outro homem engoliu a seco e teve que
se retirar.- Você é diferente de todos os mancebos fúteis
que conheci até hoje. Não acredito que seja filho de

119
camponeses. Posso conhecer a sua mãe? Levante essa
cabeça...
- Mas...É claro.- Ergueu-se de pronto, levando-o em
seguida a Frida.
- Graças a Deus!- No instante em que o viu, pulou
sobre ele para abraçá-lo; Sigmund sentiu vergonha do
carinho materno, pois não queria parecer uma criança.-
Meu Deus, como você se machucou...- Ela ignorou a
presença do cavaleiro na entrada.- E esse casaco, de
quem é??
- Mãe...Karl Rosenberg está aqui.
- Karl Rosenberg?? Esse é o nome de um dos membros
da guarda do barão. Ah...Meu Deus!- Tomou um susto
ao discernir enfim o nobre, que veio sorridente.- Mil
perdões, meu senhor...- Inclinou-se com humildade. Foi
porém segura nos ombros quando ameaçou se ajoelhar.
- Já basta. Não vim aqui para receber honrarias e
compreendo que seu filho seja seu bem mais precioso,
acima de qualquer formalidade. Fez muito bem em
prestar atenção apenas nele quando nós entramos.
- Mesmo assim peço desculpas por minha falta de
modos. Temo que não tenha nada a oferecer além de um
pouco de leite. O casaco que Sigmund está usando por
acaso pertence ao senhor?
- Não. Foi de um dos salteadores que ele derrotou.
Fiquei admirado com a força, a destreza e a coragem do
seu rapaz.
- O que ele fez?- Diante de tais observações, não soube
bem o que dizer ou perguntar.
- Derrotou mais inimigos do que a maioria de nós do
castelo. Fico admirado que alguém como ele possa ter
nascido em um ambiente como esse.- Olhou à sua volta
e Frida sentiu um calafrio; haveria como Sigmund

120
descobrir que não era realmente seu filho? Alguém no
vilarejo acabaria soltando a língua? Seu segredo
começava a se desmanchar. “É como sempre pensei, ele
só pode ser filho de nobres.”, refletiu, aérea, e foi
quando lhe foi anunciado, numa suave imposição:-
Senhora...Vou levá-lo comigo por alguns dias.
- Como???- Ela indagou com incredulidade, enquanto
Sigmund, ainda por perto, embora pouco em espírito e
mais em corpo, arregalava os olhos.
- É como ouviu. No castelo receberá os cuidados
médicos necessários e darei início ao treinamento.-
Olhou para o rapaz, que exibia no semblante um misto
de terror, reverência e euforia. Teria muitas saudades de
sua mãe e tinha medo de deixá-la, mas se tornar um
cavaleiro compensaria qualquer sacrifício!- A guarda do
barão precisa de homens de verdade, fortes e sérios,
preparados, não meros bonecos de armadura; encontrei
em Sigmund um desses homens. Contudo, isso é ao
mesmo tempo bom e ruim: rum porque ele nunca
poderá ser formalmente um cavaleiro, não tem berço
para isso; bom porque ficará próximo da senhora.
Quando se encerrar o treino básico, o mandarei de volta
para cá e virei treiná-lo pessoalmente todos os dias, até
que julgue concluída a sua preparação. A partir daí, a
aldeia não ficará mais desguarnecida: ele será o
defensor fixo deste vilarejo, capaz de controlar qualquer
perigo enquanto nós do castelo não chegamos.
- Eu e Hastburg nunca teremos como agradecer.- Se por
um lado o rapaz entristecera ao saber que não poderia
ser um cavaleiro com um título formal, ficara mais feliz
por poder permanecer ao lado da mãe. No seu caso, o
coração falava mais alto do que as formalidades. Se

121
sentiu quente, mais caloroso do que nunca, pois sabia
ser um cavaleiro na alma.
- Senhor, tenho certeza que cuidará bem do meu filho.-
Frida tinha medo do futuro, da possibilidade de
Sigmund, como guardião solitário de Hastburg, perecer
na defesa da aldeia; no entanto, começava a acreditar
em sua força e se enchia de orgulho por ele estar se
tornando um grande homem, a despeito de suas origens.
“Deus é justo. Se ele realmente tem sangue nobre, se foi
possivelmente alguma donzela de alta posição que o
deixou aqui por ser fruto de um adultério, de uma
relação indesejada, ou por alguma profecia, Deus o está
recompensando com um posto e uma missão dignas de
seu sangue. Você está recebendo de volta o que merece,
Sig. Espero que me desculpe, Jurgen...Mas um pouco o
Sigmund tem razão: ele não poderia ser seu filho
mesmo.”
Transcorreram alguns meses, com Karl nunca
deixando o rapaz sozinho. Inclusive lhe arranjara um
instrutor especial de esgrima, o velho Leovigild, um
homem de grandes barbas ásperas, bigode espesso, que
nunca fora visto sem seus anéis nos dedos, entre rubis,
esmeraldas, ametistas e ágatas, empunhando suas
espadas com preciosidade, ainda que seu odor pessoal
não fosse dos mais agradáveis. Vivia em trapos e
mesmo assim não saía do castelo, afinal se dizia que
fora amigo do falecido pai do barão e depois se tornara
amigo do filho, ranzinza e intransigente, com uma série
de lendas ao seu redor que o rendiam uma figura quase
mítica. Diziam que se tornara um anacoreta,
abandonando a vida de cavaleiro após a perda de um
grande amor assassinado covardemente; alguns
afirmavam que após essa tragédia fizera um pacto com

122
o Demônio, objetivando vingança contra os assassinos,
o que cumprira após treze anos desaparecido, e
justificando sua excepcional habilidade com a espada,
que não decaíra com o passar do tempo. Parecia um
velho caquético, raquítico, fedorento e encurvado,
porém se transformava durante os treinamentos dados
aos noviços e nas batalhas, das quais ainda tomava
parte, sem fazer questão de armadura e passando
incólume pelos golpes dos “jovens estúpidos”. Ainda
conseguia empunhar uma bastarda com seus braços
compridos e finos e se esquivava às vezes por um fio,
porém não parecia ser por sorte. Agia com confiança e
além do mau humor e dos xingamentos raivosos contra
seus oponentes era nítido que se divertia e não via o
mínimo risco de derrota por trás do semblante severo.
- Vamos logo, mancebo pecador. Você não passa de um
verme, que rasteja para se segurar na cruz, e ela brilha
demais, enquanto você vive cego debaixo da terra.
Como Karl me manda alguém que nem mesmo nasceu,
que foi regurgitado e meramente sobrevive? Deus quer
que você sirva...Vamos, beije os meus pés!- Treinando
no bosque mais próximo de Hastburg, Sigmund estava
caído, sem forças para se reerguer, ao passo que
Leovigild aparecia ereto, não ofegava e cuspiu em suas
costas; os dedos de unhas encravadas e amarelas
fediam. No duelo simulado, não conseguira passar perto
sequer uma vez, mesmo depois de ser chamado de
covarde por hesitar em atacar um velho sem armadura.-
Você só pode fazer isso mesmo, rastejar.
Enquanto deixava Sigmund com aquele que fora
também seu mentor, Rosenberg às vezes ficava a sós
com Frida, sem que o rapaz soubesse. Bem que, ao
voltar para casa, começara a notar a mãe um tanto

123
estranha, e depois de alguns meses, já melhor no esforço
com Leovigild, conseguindo ao menos se aproximar e
roçar a face enrugada com sua lâmina, percebera
mudanças não só na alma como no corpo dela. Os
modos de tratamento estavam diferentes, mais distante,
mais fria, menos interessada, com freqüência a escutava
chorando e nenhum dos dois dormia na madrugada, sem
que conseguissem conversar, ele não se sentindo capaz
de tomar a iniciativa, assim como sua barriga aparecia
entumescida. De rosto, contudo, não engordara. Pelo
contrário: estava encovada e pálida.
- Coragem é o que diferencia os nobres dos
camponeses. Deus faz nascer os covardes no campo e os
valentes nos castelos. Por que será? Teoricamente, a
terra oferece mais aconchego, disponibiliza a comida e
permite uma liberdade sem muralhas. Deus é generoso!
Foram os homens dos castelos que descobriram que os
fracos estão no campo, e então resolveram explorá-los,
sem que Deus pudesse fazer nada.- Leovigild dizia a
Sigmund, que descansava debaixo de uma árvore, ao
passo que o velho estava de pé; enquanto tinha uma
espada em mãos, não se curvava.- Se não fossem tão
covardes, os campônios é que fariam alguma coisa e
fariam valer o presente de Deus; você faria alguma
coisa...Deixa a sua mãe ser violentada e não faz nada??
É mesmo um imbecil.
- O que disse?- As palavras do instrutor chocaram o
rapaz.- Minha mãe violentada?? O que quer dizer com
isso??
- O que você acha, seu idiota? Por acaso não tem
notado ela diferente? Você traz todas as suas
lembranças quando vem treinar aqui comigo; eu posso
lê-las.- Moveu malignamente os dedos cheios de anéis.-

124
Ela está grávida, você terá um irmãozinho. E você fica
pensando nela, preocupado, e não toma nenhuma
atitude, só me empatando nos treinamentos. Por que
acha que Karl o manda aqui com tanta freqüência?
- Você por acaso é um bruxo? Fez mesmo um pacto
com o Diabo, velho maldito??- Ergueu-se.
- Oh...Agora demonstra valentia! Saiba que sou um
inimigo perene de todos os demônios. Eles acabaram
com a minha vida, pois me induziram a pecar, e fizeram
o mesmo com quem eu mais amava. Por toda a
eternidade, minha missão será a de caçar a matar todos
os demônios e magos das trevas...Não vou descansar
nunca. Por isso também não admito os que pronunciam
tais absurdos a meu respeito!- Lançou-se sobre Sigmund
e o jovem, mesmo que estivesse humanamente
preparado para atacar, liberando sua fúria após as
repetidas humilhações durante os treinamentos, e o auge
se dera com o nome de sua mãe sendo envolvido, se viu
com a lâmina fria de seu professor muito próxima de
cortar sua garganta, enquanto sua espada voara para o
outro lado.
- Pode me matar se quiser.
- O que eu ganharia matando um verme como você, que
não quer proteger sua própria mãe? Você não vale nada,
moleque.- E empurrou o rapaz com força, derrubando-o
no chão, uma cena inconcebível ao se levar em conta os
dois portes físicos.
- Você por acaso é algum profeta visionário? Não se
comporta como um homem santo.- Como primeira
resposta, levou uma cusparada no rosto.
- Pegue a sua espada e vá salvar a sua mãe! Vá logo,
antes que seja tarde demais!

125
Enojado, Sigmund limpou a face com a
mão...Contudo, o velho lhe inspirava uma estranha
confiança e uma esperança remota por debaixo do
desespero gritante de uma alma dilacerada; sem sentir
pena de si mesmo, se levantou, recuperou sua arma e,
não sem antes lançar um olhar firme para o experiente
professor, que lhe deu as costas, partiu correndo de
volta para o vilarejo. “Leovigild percebeu que amo
minha mãe acima de qualquer coisa. Não posso
desprezar sua advertência, mesmo que o jeito de ser dele
seja bruto. Ele sabe e sente coisas inacessíveis para mim
ou que às vezes sinto, porém não posso traduzir,
compreender ou expressar. É por isso que sou tão ruim
com a espada e ele é tão bom; mesmo que o castelo dele
seja uma caverna, ele nunca será um homem pacato do
campo como foi o homem que teria sido o meu pai;
nunca será um covarde.”, pensava também em Karl,
sem acreditar que o cavaleiro pudesse fazer algo de
ruim a Frida; “Se alguém está visitando a minha mãe na
minha ausência, não pode ser o senhor Karl; nisso o
velho tem que estar equivocado. Karl se tornou meu
verdadeiro pai, ele que me treina sempre que pode,
mesmo sendo muito ocupado, e é muito mais doce do
que Leovigild, com a mesma competência, de maneira
distinta. Por que mencionar que ele me manda treinar no
bosque enquanto violenta a minha mãe? Ela nunca me
mencionou nada, nunca disse uma palavra contra o
senhor Karl; jamais precisei de um pai, mas o tive. O
velho deve ter visto mal. Deve ter visto outro homem
causando dor a ela, confundindo-o com o homem que
mais admiro; ou talvez falando de propósito, mentindo
para me testar, para me provar que sou efetivamente um
covarde, e que não confio nas pessoas que amo. Como

126
posso desconfiar assim? É outro homem que está
fazendo isso, e vou acabar com ele, vou arrancar suas
tripas e mostrá-las ao senhor Karl. Comprovarei sua
inocência, ainda que continue demonstrando
imaturidade do ponto de vista de Leovigild, que é tão
sabiamente malicioso. Sou um tolo ingênuo; só não
desconfio do homem que se tornou meu pai...Não mais!
Não posso cair nessa arapuca. Minha mãe só deve estar
doente. O desgraçado quer medir o meu apego, ou o
meu amor; não sei mais o que o maldito velho quer! Se
for um adepto dos demônios, está tentando me jogar
contra o homem que se tornou meu pai e destruir meu
amor por ele, apesar de eu ter quase certeza que não; o
ódio que ele emana pelas criaturas infernais parece mais
real do que a morte, tão intenso quanto o amor que
tenho pela minha mãe.”, chegou em casa destruindo a
porta de madeira com golpes violentos de espada, o que
foi ouvido por toda a vizinhança, e encontrou para seu
espanto Frida e Karl nus na cama, ela com o rosto
encharcado e ele com uma espada curta e afiada na mão
direita; a angústia, a vergonha, o espanto e a raiva
extrema explodiram de forma repentina.
Espasmos principiaram pelo rosto e pelos braços de
Sigmund; Rosenberg foi rápido e perfurou o ventre de
Frida e rasgou sua garganta, eliminando qualquer
possibilidade de um filho com uma camponesa e se
lançando para matar o chocado rapaz, que não devia ter
visto nada, reputando o crime a algum bárbaro, ladrão
ou demônio, e agora precisava ter sua vida encerrada,
apesar de seu prodigioso potencial. Todavia, como se
fosse um movimento de Leovigild, Karl não enxergou
nada...Uma ação e a cabeça do ilustre membro da
guarda do castelo de Hastburg estava no chão. O rapaz

127
liberou um urro inaudível, escancarando a boca trêmula
sem que qualquer som saísse...Não havia escolha, a não
ser correr em desespero de volta para o bosque;
certamente seria acusado pelo assassinato de sua mãe e
do cavaleiro...Justamente as pessoas que mais amara.
Leovigild, àquela altura, seria o único que poderia
ajudá-lo. “Ele estava certo, aquele desgraçado! Ele não
mentiu...Será que estou diante de um terrível mago das
trevas, que arruinou a minha vida e agora irá me
submeter à escravidão em troca da minha
sobrevivência? Eu só nasci mesmo para
sobreviver...Logo os guardas do castelo virão me
buscar, ávidos pela cabeça do camponês que assassinou
Karl Rosenberg, um monstro que não poupou nem sua
própria mãe, pisando em cima da boa vontade e do
carinho de um honrado cavaleiro! Mas se Leovigild
sabia de tudo, por que não fez nada? Aquele velho
nunca vai me amparar...Só que as palavras de desprezo
e as broncas são as únicas coisas que posso ouvir agora
sem que me lembrem a morte certa. A forca, a fogueira,
o empalamento...Qual a pior pena para o assassinato de
um nobre em Hastburg?? E a minha mãe? Mal consigo
pensar no sofrimento dela agora...Estou preocupado
demais comigo e com a minha solidão. Tenho que fugir
de Hastburg! Eu nunca tive pai...Nunca terei pai. Será
um castigo de Deus pelo fato de eu ter renegado o único
Pai que realmente existe?”, faltava ar...Tinha que
devorar o vento em bocadas ávidas; já percorrera
distâncias maiores e numa velocidade mais alta, mas era
diferente. Não tivera, em ocasiões anteriores, a visão
constante do rosto aflito e molhado da mãe, carregado
de humilhações, retorcido com ódio por todos os
homens, inclusive pelo próprio filho, que prometera

128
protegê-la e nada fizera; a face de Karl, por sua vez, se
dividia em duas, fracionada entre um lado maníaco,
duro e quente e o outro morno, macio e equilibrado. A
aposta no talento de um lado, a aposta do filho do outro;
sentimentos sinceros, devastados pela lascívia
sanguinolenta.
Só não via Leovigild, com o qual deu de cara de
súbito, parando de correr e encarando-o não sabia se
com ódio ou implorando por ajuda. Levou mais uma
cusparada, desta vez entre os olhos.
- Você é um covarde. Está pensando só em si próprio.
Na sua solidão, na sua dor, nos seus desejos, no medo
de morrer...E a dor da sua mãe? E a solidão que ela
sentia? E os desejos de Karl? E eles já estão mortos,
enquanto você vive, seu miserável. Você é o pior de
todos!
No desespero, pareceu-lhe que tudo era culpa de seu
desejo. Recordou-se de seu pecado, do incesto por
diversas vezes repetido em sua mente. “Ela era sua mãe,
mas também era bonita e atraente...”, sussurrava-lhe a
voz do que parecia ser um demônio encorrugido, que
exalava um cheiro de suor azedado, na verdade
proveniente do velho e asqueroso cavaleiro, cujas
palavras soavam como bofetadas; não resistiu mais e se
jogou para abraçá-lo.
- Você algum dia teve um pai?? Pode entender o que é
ter perdido um pai antes mesmo de ter um?
- Saia de perto de mim, desgrude daqui!- Empurrou o
rapaz, que só então limpou o cuspe entre os olhos,
enquanto tentava secar as lágrimas.- Vou lhe dizer a
verdade, a única que existe: somos um bando de filhos
das putas, não existe uma que valha a pena, por isso não
se vanglorie da sua mamãezinha, que nunca foi nenhum

129
exemplo de virtude. E os homens também não prestam,
como você viu pela atitude de Karl. Só tinha a fachada
nobre, no fundo era um verme que rastejava na porra
derramada na terra, e lambia essa porcaria, sem o menor
receio, sem nenhum escrúpulo. O único que vale a pena,
e que pode ser duro, castigar quando merecemos, por
isso temos raiva dele, mas que nos deu a vida, e apesar
de tanto sofrimento quase nenhum de nós quer morrer, é
Deus. Ele é o Pai que devemos respeitar, o único que
persiste. Todos os outros desistem no caminho!
- Mas Deus é distante, inacessível! Por mais que me
fale dessa bondade grandiosa, que está acima inclusive
da nossa moral comum, que pode nos ensinar pelo
sofrimento, como posso ter certeza que ele existe, senti-
lo, ouvi-lo, conhecê-lo, falar com ele?! Me dá a
impressão que ele é como o meu pai, que me
abandonou.
- Você é mesmo um moleque mimado. Se ele não
existisse, acha que nós ainda existiríamos? Os demônios
teriam comido as nossas carnes e lambido os nossos
ossos todos! Não existiria ninguém capaz de nos
defender e o Cristo não teria ressuscitado.
- Mas quem é capaz de nos defender? Perdi tudo o que
tinha, nada mais tem valor, posso ser preso e condenado
a qualquer momento!
- A sua pergunta real é “quem é capaz de ME
proteger?”; molequinho egoísta! Não sabe o que é a
vida.- Acercou-se de repente e agarrou-lhe o pescoço;
Sigmund tentou se livrar, arrancar as mãos de Leovigild
com as suas, mas a força do velho era tamanha que seus
braços não se moviam mais, seu corpo todo tremia, mas
estava impotente, e enquanto as veias do instrutor
saltavam como lascas grossas de madeira o camponês

130
parecia um graveto frágil, um brinquedo mal-feito nas
mãos de um gigante, que poderia reduzi-lo a serragem a
qualquer momento. Fechou os olhos que tinham se
arregalado.- Ela nem era a sua mãe, pra começar...-
Liberou um sorriso cheio de sarcasmo.- Achava mesmo
que ela podia ser a sua mãe, e o seu pai um camponês
fracote? Olhe pra você...Um brutamontes! E diferente
em tudo do que eles eram.- Sigmund, entre ódio,
lágrimas e uma tristeza abismal, sentiu sua força
crescer; seu corpo entrou em ebulição. Seu sangue
marchava para a guerra do fim dos tempos; contudo,
ainda era pouco para resistir a Leovigild.
- Como você sabe de tudo isso?...- Conseguiu balbuciar
e na seqüência cuspiu no rosto do velho.
- Ora, parece que agora mostra que tem alguma
coragem! Estará em vias de deixar de ser uma larva
nojenta, uma galinha anêmica? Não pode me vencer,
não é páreo pra mim...E mesmo assim me enfrenta, e
teve forças pra jogar saliva na minha cara. Merece que o
solte...- E de fato o largou; tremendo e fervendo de
raiva, o rapaz se jogou desta vez para matar o seu antigo
instrutor com suas próprias mãos, porém uma esquiva e
uma torção certeira bastaram para que este quebrasse
seu pulso direito.
- Vamos, lute comigo! E terá as suas respostas...- Os
movimentos de luta se repetiram e Sigmund logo ficou
com os dois braços inutilizados. Passou a cuspir sem
parar...E dessa vez Leovigild não resistiu mais,
recebendo passivamente a chuva de cusparadas. Quando
parou, desabou no chão e misturou seu rosto e suas
lágrimas à terra.- Cansado? Até que enfim se mostrou
um aluno digno! Seu grande imbecil...Posso ler certas
coisas nos indivíduos fracos porque tenho o sangue de

131
Cristo em minhas veias, que me impede que a gentinha
me esconda a verdade.- A saliva e o catarro no velho
foram secando e caindo, escorrendo ou desaparecendo.
- Você só pode ter o sangue do Diabo...
- Não...Na verdade nem todos os meus colegas têm essa
minha capacidade. Quando estou bem, com a energia
plena e concentrado, consigo captar as informações de
vida de uma pessoa, desde que ela não possa me travar
por ser um bruxo ou algo do gênero, através dos
sentimentos e lembranças que ela emana. Vi a sua mãe
de longe, e isso me bastou. Não que eu queira
isso...Sempre detestei astrólogos, cartomantes, e todas
as coisas do tipo! Respeito apenas os profetas da Bíblia,
que no entanto não tratavam de assuntos profanos e sim
da vinda do messias. Contudo, foi esse o dom que recebi
de meu Pai e de Cristo. Não posso renegá-lo.
- Também pode vislumbrar o futuro?
- Fique de pé e pare de rastejar como um verme! Pelas
emoções de alguém, também posso traçar linhas do
destino, e deduzir qual será o futuro dessa pessoa. O
passado é mais fácil, já foi cumprido, os fatos estão lá,
leio e pronto, são fatos, é algo pronto; o futuro é difícil
porque está em construção, e respeito o livre-arbítrio.
Posso no entanto discernir certas tendências e a
sua...Bem, a sua, moleque, é se tornar como eu.-
Sigmund arregalou os olhos, ainda sem se levantar.-
Não se preocupe, a escolha de ser um velho
tremendamente feio foi minha. Isso me facilita as
coisas, afasto as tentações. Você será sempre jovem e
bonito, só não será mais um verme por dentro. O Cristo
não permitirá isso. Terá a sua dignidade. Desde o
primeiro dia eu sabia disso...
- E por que não me disse?

132
- E deixar que o seu ego subisse às alturas antes que
estivesse preparado? Cristo ressuscitou depois de
inúmeras humilhações, físicas, mentais e espirituais, e
você queria se tornar melhor do que é sem sofrer nada??
Quanta pretensão...Perto do que ele passou, você
sempre viveu num paraíso! Vamos, moleque, agradeça
por receber um dom de Deus! Mas ainda assim não se
trata de uma obrigação e sim de uma proposta. Quer se
tornar um cruzado?
- Quer dizer que você é um cruzado?? Ouvi falar deles,
mas inclusive nunca acreditei muito, afinal não
acreditava em Deus. Só pensava que pudessem ser
homens muito fortes e extraordinariamente bem-
treinados para matar demônios.
- Todo treinamento humano não seria o bastante. É
necessário o sangue de Cristo, isso lhe garanto. Quanto
a mim, sou um cruzado retirado e passei os treze anos
em que fiquei longe de Hastburg nesse trabalho, pois
mesmo os retirados às vezes são chamados para missões
específicas, quando os novatos não dão conta, obrigado
a me afastar de meu amigo, o antigo barão. Como nunca
precisei voltar nesse período para desempenhar
atividades suspeitas explícitas, nunca descobriram. Pena
que quando retornei o desgraçado, que pelo menos
manteve o sigilo, já estava morto, restando seu filho, o
atual barão, uma criança quando o tinha visto pela
última vez. Mas não pense que nasci aqui; muito antes
de chegar em Hastburg já era um cruzado. Só pensei
que este fosse um lugar mais sossegado, o que pelo
visto não é, e pra mim nem poderia ser.
- E por que deixou que alimentassem boatos absurdos a
seu respeito?

133
- O ego, garoto...O orgulho! Tudo isso precisa morrer
quando servimos a Cristo. Caso contrário, os demônios
nos possuem. Essa é a grande dualidade da vida de um
cruzado, e o aviso, caso queira realmente seguir esse
caminho: quanto mais próximos estamos do Céu, mais o
Inferno nos assedia. Lembre-se da tentação de Cristo no
deserto. Sendo mais objetivo, se você é ignorante e
desconhece essa história, o sangue do Salvador
despertará em seu corpo e em seu espírito grandes
poderes, mas se a sua moral for distorcida, se ceder às
provocações de Satanás, toda a benção se esvairá num
instante e um demônio possuíra seu corpo e fará a sua
alma em pedaços. O que me diz?
- Se não aceitar isso, estarei morto em pouco tempo.
- Ainda pode fugir. Posso conter qualquer um que
venha atrás de você.
- Faria isso por mim??
- Claro!- Sorriu com evidente cinismo.- Mas se
cruzasse outra vez com você algum dia teria que se
cuidar e sair correndo para não ficar coberto de
cuspe...E faria questão de bradar a todos: “ali está um
verme que queria transar com a própria mãe!”
- Você é genial, santo e ao mesmo tempo monstruoso.
- A minha fé é um pouco violenta, mas é porque você é
um moleque. Gente da sua laia agüenta tudo. Pode
pensar um pouco antes de me dar a sua resposta...
- Eu aceito.- Leovigild tinha lhe dado as costas; de
imediato tornaram a ficar frente a frente.
- Garoto apressado; espero que não se arrependa. Não
pense que será um herói.
- Não penso nisso. Quero apenas conhecer o meu Pai de
verdade...

134
- Se é assim, fez a escolha certa! É menos idiota do que
parecia. Venha comigo então...Siga-me.
Fez um gesto e, o rapaz a passos tensos, os do velho
cruzado crocitantes como nunca, seguiram para a
profundidade da floresta. A cada avanço a escuridão
aumentava...
- Como me retirei, você terá a honra de ser meu
substituto; e ficarei feliz em continuar a treiná-lo.
Melhor assim do que desconhecer quem vai me
substituir, apesar que treinar novatos não é bem uma
novidade pra mim, o problema é que poucos
sobrevivem...- Com o mesmo instrutor dali em diante, o
Inferno estava garantido. Anos depois, mesmo com
Leovigild afastado, e nunca mais o tendo visto, seria
uma presença constante em seus pensamentos, a todo
momento de erro e mesmo de acerto ouvindo as
recriminações do velho cruzado, pelo qual não podia
deixar de sentir uma raiva contraditória, medindo forças
em seu interior o pássaro branco da saudade, de olhos
azuis esmaecidos, a ursa do abandono, com seu filhote
morto sob suas patas, o leão da admiração, protetor da
máscara e suas sombras, e as cobras rastejantes da
mentira, carregadas com o veneno do medo.

Passado – II

Burgos, capital do reino de Castela, era uma cidade


notável, atravessada pelo rio Arlanzón e caracterizada
pelos bairros divididos por muros, que contavam com
torres elevadas, onde ficavam os vigias que verificavam
a passagem dos residentes entre uma parte e outra,
sendo necessárias permissões específicas para vagar por
determinadas áreas, como o gueto judeu e a zona do

135
castelo. Livre a circulação pela região de feiras e
bazares, onde, por ser muito movimentada, pululavam
menestréis em busca de notoriedade, mais ou menos
bêbados, e atores que improvisavam palcos e montavam
seus espetáculos itinerantes: algumas obras, cômicas,
eram cenas do cotidiano livremente improvisadas; havia
também sátiras e farsas, além de trabalhos sérios que
representavam a expulsão dos muçulmanos, campanhas
contra demônios e trechos bíblicos; nestes últimos as
máscaras e roupas coloridas não eram utilizadas.
Naqueles dias de inverno os espetáculos eram menos
comuns, as árvores quase sem folhas e a neve tingia
tudo de branco; das doze portas de acesso, a mais
utilizada era o Arco de Santa Maria, comunicando a
ponte sobre o rio Arlanzón com a praça da catedral, o
centro de fé da urbe. Em destaque em seu topo, acima
das figuras históricas esculpidas, entre as quais os
lendários juízes de Castela, a bandeira de Burgos,
composta por duas franjas horizontais, a superior
vermelha e a inferior parda, com o escudo da cidade no
centro; este se constituía da imagem de meio corpo de
um rei, o manto púrpura com três castelos de três torres,
a coroa primando pela pedraria, e acima uma muralha
de prata que corria de parte a parte e se apoiava nos
extremos sobre escudos com castelos de ouro, a coroa se
repetindo em maior tamanho no alto e ao lado ramos
frutados em ouro e fitas nas quais se lia Caput
Castellae, Camera Regia e Prima voz et fide, ou seja,
“Cabeça de Castela”, “Câmara do Rei” e “Primeira em
voz e lealdade”.
Entre os cavaleiros do rei Alfonso, sem dúvida cabia
ao fidalgo Miguel a melhor e maior fama. Filho do
alferes-mor Rodrigo, cativava a atenção das donzelas

136
por seus feitos e por seu porte. Damos início à sua
história numa noite chuvosa do lado de fora da catedral
de Burgos, onde se apinhavam os populares, debaixo de
tendas, à espera da saída triunfal do soberano recém-
entronizado, que do lado de dentro recebia seus
vassalos. Clérigos e nobres, os únicos com permissão
para entrar, vinham prestar as devidas homenagens ao
jovem rei, então com menos de trinta anos, o bigode e
os cabelos firmemente negros, a pele bronzeada e olhos
de falcão alerta. Um depois do outro, em seqüência
prescrita de acordo com o nível e título honorífico, os
homens largavam as espadas, descobriam as cabeças de
capuzes, elmos, barretes ou diademas e se ajoelhavam
diante do supremo protetor de Castela, que, em um
manto púrpura e marrom, com um cinto contendo uma
cruz de ouro, um longo cetro culminando em um rubi e
a coroa suspensa sobre a sua cabeça, lembrando um
castelo dourado de três torres, fazia a todos a mesma
pergunta:
- Aceitas tu, sem reservas, vir a ser um de meus fiéis
homens?
- Sim, eu aceito.- E o rei fechava entre as suas as mãos
do suplicante e selava o pacto com um beijo na testa,
levantando-o; na seqüência fazia sinal para que um
assistente, num longo manto azul, trouxesse um escrínio
contendo relíquias de santos, desde pedaços de unhas e
fragmentos de ossos a anéis que teriam pertencido a
esses homens elevados, sobre o qual se fazia o seguinte
juramento protocolar: “Prometo por minha alma que de
hoje em diante serei fiel ao rei Alfonso e manterei
minha lealdade a ele mesmo que me ameacem de morte
ou torturem minha família, à boa-fé e sem nenhuma
fraude. Sobre nós há de descer a cruz.”, as donzelas

137
ficavam em volta, em sua maioria com as cabeças
cobertas por véus transparentes, e o pequeno Miguel
olhava de um lado para o outro, curioso para discernir-
lhes as faces, notando umas mais coradas, vendo que
algumas cochichavam e às vezes cutucando sua mãe (as
crianças ficavam próximas das mulheres) para comentar
que não estavam respeitando o cerimonial, porém ela o
repreendia:
- Shhh! Você quer que o seu pai lhe dê uma surra
depois? Discipline-se, Miguel. Não importa o que os
outros fazem, os rei os punirá se necessário e justo. Dê
você o exemplo.- Era uma mulher altiva, de pescoço
comprido, alta, longos cabelos castanhos e olhos da cor
de um tronco de carvalho; seus traços uniam força e
delicadeza. Quando Rodrigo subiu para fazer o
juramento, o garoto encheu o peito de orgulho, ao passo
que a mãe não parecia tão entusiasmada. Apesar das
palavras ao filho, entediava-se com todo aquele
formalismo, sendo que o marido continuaria a
desempenhar a mesma função, e não via a hora que
aquilo acabasse, enquanto a criança ficava fascinada
com cada detalhe, prestando atenção até demais; se
pudesse congelaria aquele momento, já eternizado em
sua mente, mas imaginou o que faria se pudesse gravar
as cenas mais representativas num cubo de gelo, e
depois observá-lo com saudade e admiração sempre que
sentisse saudades. A mãe estava mais interessada nos
artefatos presentes na catedral, como um vaso de pórfiro
ao qual os ourives tinham dado a forma de uma águia,
um cálice de sardônica que adornava o altar e os
ornamentos esmaltados (do escrínio de cores
extremamente brilhantes que refletia temas dos
evangelhos ao grande crucifixo repleto de pedras

138
preciosas e decorado com cenas do Antigo Testamento
consideradas proféticas da Crucificação, na verdade um
relicário que guardava uma lasca de madeira que se
dizia que pertencera à verdadeira cruz de Cristo), ao
passo que o filho se sentia atraído pela arquitetura, com
as altas abóbadas do teto apoiadas por um esqueleto de
nervuras de pedra e ogivas, a estrutura aberta da galeria
(uma nave semicircular que ficava atrás do altar)
permitindo que o coro fosse inundado de luz, intuindo
alguns detalhes técnicos graças à sua inteligência aguda;
se lhe pedissem para explicar, não saberia, mas
compreendia a profundidade e a necessidade do que via.
Deitava seus olhos atentos e curiosos também sobre a
decoração: seu pai lhe explicara que a figura de olhos
vendados em um dos vitrais da igreja, segurando a coroa
de espinhos de um lado e do outro instrumentos da
paixão de Cristo, representava o judaísmo, cego diante
da divindade de Jesus e por isso culpado por sua morte;
os hebreus, que viviam separados dos cristãos, não eram
queridos por ninguém na cidade além de si próprios, o
que era transmitido para as crianças. Miguel morria de
curiosidade de entrar no bairro judeu e se perguntava
por que os cavaleiros simplesmente não entravam lá e
massacravam aquela gentalha. Rodrigo dava ao filho a
seguinte resposta:
- Por mais que sejam pessoas da pior espécie,
assassinos do Salvador, ainda são seres humanos e o
Cristo nos disse para perdoar os pecadores e amar
nossos inimigos. Se eles ainda existem, é porque o Pai
quer que sofram aqui na Terra pelo que fizeram, e eles
mesmos sabem disso. Já conheci alguns judeus que
culpam a si mesmos por sua condição marginal. Ainda
que não reconheçam que erraram ao matar Jesus, sabem

139
que cometeram pecados e que por isso foram exilados
de sua terra prometida. Talvez Deus, em sua infinita
bondade, planeje algum dia perdoá-los, afinal são o
povo de Moisés e Abraão, embora tenha degenerado, e
bastará que sofram na carne, sem que seja necessário
que os demônios do Inferno se abatam sobre eles.- Já
uma resposta diferente obteve do bispo Marcos, amigo
da família:
- Cometeríamos uma afronta aos ensinamentos de
Cristo se pagássemos a morte com a morte, o pecado
com um pecado ainda pior. Ele nos pediu para que
amássemos nossos inimigos, já que amar os amigos é
fácil e cômodo. Não se deixe contagiar pelo ódio dos
adultos...Continue sendo sempre uma criança, e como
tal entrarás no reino dos Céus, meu filho. Se Cristo
desceu, foi para redimir nossos pecados, de toda a
humanidade, e ele não teria conseguido isso,
ressuscitando, se não passasse pelo martírio
proporcionado por Judas Iscariotes e pelos judeus, que
nada mais foram do que instrumentos para que o Senhor
nos mostrasse sua capacidade infinita de amar e
perdoar. Jesus poderia ter reagido e com seu poder
fulminado os infiéis; se ele não fez isso, quem somos
nós? Pelo contrário: disse que aquelas pessoas não
sabiam o que faziam, deixou isso claro; diante de todas
as evidências, não deveríamos julgar os hebreus. Dar a
outra face é o verdadeiro sentido da passagem do Filho
pela Terra.- As opiniões divergentes coincidiam com as
diferenças na aparência física: Marcos era gordo,
grisalho, sem alguns dentes, Miguel gostava de brincar
com suas bochechas e, quando o humilde bispo ficava a
sós com o garoto, montar em suas costas; Rodrigo alto,
magro e orgulhoso, cabelos cacheados, barba e bigode

140
castanhos vivos, com freqüência autoritário, em especial
com as mulheres. O garoto sabia que sua mãe às vezes
se sentia como o par de mouros representados na base
de uma das colunas na catedral, aprisionados, e a
escultura transmitia de forma perfeita a aflição de
ambos.
Outro aspecto da decoração que atraía seus olhos com
temor e reverência era o baixo-relevo onde estava
retratado o Juízo Final, as figuras no centro da fileira
mais baixa representando almas de recém-falecidos que
aguardavam seu destino, mais acima demônios
agarrando os maus e jogando-os na bocarra monstruosa
do Inferno, dentro da qual se contorcia uma massa de
homens e mulheres, um anjo fechando a porta do lado
de fora e no alto os justos recebendo sua recompensa na
companhia do patriarca Abraão, acima de tudo a figura
do Cristo, de volta no papel de um rígido juiz, a mão
direita erguida em saudação e a esquerda abaixada em
condenação, tendo ao seu lado um mensageiro divino
tocando a última trombeta, provocando o levantar dos
mortos. Fascínio, calafrios e pensamentos contraditórios
se somavam na mente do jovem Miguel ao contemplar
aquelas cenas: “No meio de toda a destruição que
ocorrerá nos últimos dias, será que alguns inocentes não
serão varridos pelo caminho? Poderão ser mártires, e o
bispo Marcos me disse uma vez que uma folha nunca
cai em vão, mas mesmo assim, se o Dia chegar antes de
eu morrer, gostaria de ficar pra ajudar a reconstruir.
Talvez quase ninguém sobreviva; espero até lá estar
forte e poder proteger as pessoas. Os demônios vão
entrar por todas as portas, invadir todos os lugares e
antes que Jesus desça teremos muito sofrimento. Mesmo
os cruzados não serão o bastante; ou Deus é

141
misericordioso e faria a terra rachar para os pecadores
serem logo tragados para o Inferno? Às vezes Deus me
parece cruel...E Jesus não era. Serão assim tão
diferentes o Pai e o Filho? Preciso perguntar isso pro
bispo qualquer dia; mas toda vez me esqueço...”,
quando chegou a idade de ser nomeado cavaleiro,
passou a noite anterior à grande cerimônia orando de
joelhos na igreja, às vezes se arrepiando ao sentir a
aproximação de sombras, e suas idéias vagueavam, mas,
ao pedir a Deus para que o ajudasse a prosseguir em seu
labor, os incômodos iam embora e a fé se reforçava,
orações novas brotavam de seus lábios e tinha a
impressão que o cenário se enchia de luz; ao mesmo
tempo, abençoava suas futuras armas e armadura,
montando vigília sobre estas para bloquear o acesso a
qualquer demônio. Se algum aparecesse ali, teria que
evocar a proteção dos arcanjos e matá-lo ali mesmo.
Para seu alívio, nenhum veio.
O dia seguinte começou com um demorado banho
ritual e, quando se sentiu limpo não só no corpo como
na alma, vestiu uma túnica de fios de ouro, um manto
púrpura e calçou sapatos de seda, no momento
apropriado levado à presença do rei e da fina flor da
nobreza. Foi julgado digno das esporas de ouro, de um
peitoral de fino lavor equipado com uma camada dupla
de malha, de uma lança de freixo e ferro, de um escudo
enfeitado com leões pintados e a imagem do arcanjo
Miguel, que beijou antes que fosse pendurado em seu
pescoço, e por fim de uma antiga espada dada pelo
soberano, que depois tocou seus ombros com sua
própria lâmina para sacramentar a nomeação. Entre os
jovens nobres presentes, seus amigos de infância, e
assim que as solenidades acabaram seguiram-se no

142
castelo um dia e uma noite de banquetes e festividades,
afinal se tratava do filho único do alferes-mor. Justas e
torneios, dos quais Miguel ainda não participaria, teriam
lugar na seqüência. Também lhe foi apresentado seu
futuro escudeiro:
- Este é Diego, que daqui para a frente será também seu
melhor amigo e conselheiro.- Disse-lhe seu pai,
colocando à frente do rapaz um homem já feito, com
seus trinta e poucos anos, cabeleira castanha basta,
moreno e olhos alegres, condizentes com o sorriso
simples e sincero:
- Será uma honra ficar ao seu lado, jovem amo.-
Ajoelhou-se para beijar a mão de Miguel.
Quando a família se sentou para comer, Diego se
aproximou com seu violino e começou a tocar: os
escudeiros eram também artistas, tinham como
obrigação entreter seus senhores; como brincadeira,
também podiam escolher uma dama como objeto
inatingível de sua devoção. A escolhida de Diego
pertencia à família que se sentara ao lado da do alferes-
mor, uma jovem chamada Maria Cristina, que agraciou
com seus versos, deixando-a ruborizada:
- Embora grandes turbilhões tenha atravessado, apenas
por vós provocados, antes por vossa causa eu morreria
do que de outra o menor prazer furtaria.- Maria Cristina,
ou simplesmente Cris, como seus pais a chamavam,
tinha cabelos arruivados que caíam em cachos fluidos e
olhos de esmeralda que por muitas vezes haviam fixado
a imagem de Miguel, desde a tenra infância, embora ele
nunca a tivesse notado. Muito tímida, ruborizava-se só
de pensar nele e teria gostado que, em lugar do
escudeiro, tivesse sido o rapaz a cantar em seu louvor.
Não à toa pedira aos seus pais para que sua família se

143
sentasse ao lado da do recém-nomeado, que enfim, após
alguns risos depois da execução de uma canção cômica,
deixou seus olhos caírem “por acaso” na moça:
- Gosto de prazer e alegria, pratos cheios, presentes e
torneios! Gosto de uma dama de cortesia que esteja
disposta, livre e sem enleios, de um homem rico que
gaste com generosidade e reserve só aos inimigos a
animosidade.- Mais uma declamação e Miguel, que até
aquele dia pouco se interessara por garotas, sendo afoito
nesse aspecto, esclareceu um sorriso na direção da
jovem, que de imediato virou o rosto, vermelha demais.
“Que vergonha! Mas o que está fazendo, sua tonta??
Agora que ele olhou pra você e sorriu, você dá a
impressão que não gostou dele! Apesar que uma dama
de verdade tem que ser difícil...”, e o jovem cavaleiro,
que de bobo não tinha nada, sentiu que ela se interessara
por ele, conquanto fosse tímida, e pensou numa maneira
de poderem conversar depois.
A paixão que aflorava nos jovens, contudo,
incomodava os mais velhos: Isabel, a mãe do rapaz
recém-investido, já estava cansada dos assédios do
arrogante conde Henrique, alguns anos mais jovem do
que Rodrigo, loiro e esbelto, que achava que podia ter
sempre qualquer um e qualquer coisa a seus pés. Uma
vez, durante uma festa, se separaram do resto e foram
longe, parando em um dos estábulos do castelo, onde
tinham feito amor da maneira mais selvagem e rápida
possível; a esposa do alferes-mor em parte gostara, pela
excitação do perigo e pelo fato de que havia tempos que
se sentia atraída por aquele homem, em parte detestara,
pela pouca duração do ato e pela força excessiva, tendo
deixado marcas em seus braços que depois seriam
difíceis de explicar...

144
Nunca mais tivera nada com Henrique; no entanto, ele
continuava a persegui-la, certo de que um dia seria sua.
De outra mesa a fitava de forma provocante e parecia
zombar de seu marido, magicamente para ela sem ser
percebido por Rodrigo, e isso também para seu próprio
alívio! Circulavam boatos que Henrique fosse um bruxo
e, ainda que tais fofocas carecessem de comprovações,
ela começava a acreditar que isso poderia ser verdade.
Era um indivíduo seguro demais para ser um cavaleiro
comum, amante dos torneios realizados longe da capital,
do seu ponto de vista por demais regulamentados e
estilizados, sendo que segundo ele “não está pronto para
a batalha quem nunca viu seu próprio sangue ser
derramado, quem não escutou com terror seus dentes
baterem sob os golpes de um oponente ou não sentiu o
peso e a respiração de um adversário perigoso sobre
si...”; os torneios no interior de Castela pouco se
distinguiam de guerras de verdade, realizados ao ar
aberto e espalhando-se mesmo por pobres e
desafortunadas aldeias, destruindo o que havia em volta.
Mortes não eram incomuns, exigiam-se resgates pelos
prisioneiros e os vencedores tomavam armas, armaduras
e cavalos dos derrotados como despojos de guerra.
- Eu nunca vou enferrujar como o seu marido. Sabe que
estou pensando em desafiá-lo para um duelo?-
Provocara Isabel certa vez.
- Você não ousaria...
- Por você estou disposto a tudo! Tem muito medo que
eu possa matá-lo, não é?
- Rodrigo é um homem forte! Ah, como me arrependo
de ter me deixado levar por você naquela noite estúpida!
- Você morre de medo, afinal não quer deixar o seu
garoto sem pai...- A esposa do alferes-mor se retirara

145
com rispidez, ainda mais quando ele tentara roubar-lhe
um beijo, e Henrique permanecera sorrindo e
maquinando seus planos.

Isabel com freqüência se fechava pesarosa em si


mesma, enclausurando-se em um casulo negro de
pétalas rígidas que espelhava seres de olhares
turbulentos, receosa que a semente de seu descuido
gerasse um fruto venenoso para a sua família mesmo
após Miguel ter se tornado o cavaleiro mais prestigiado
pelo rei. Tinha envelhecido, apresentava rugas, e ainda
assim Henrique, que parecia ter bebido de um elixir da
juventude, pois se mantinha quase idêntico, continuava
a rondar à sua volta, ao passo que seu marido a cada dia
ficava mais opaco, com seu posto a substituir sua força,
a proteção da família garantida apenas pelo filho. Como
mãe não podia aceitar isso, afinal ela que tinha que
proteger seu rebento, e nada faria com que deixasse de
pensar dessa maneira, tendo este se tornado o melhor
cavaleiro do reino ou não.
Ainda na adolescência, na época em que treinara
assiduamente com espada e escudo desferindo golpes
furiosos contra estacas de madeira, quebrando a
maioria, e levando seu corpo e sua mente aos limites,
assíduo nos combates de luta livre e nas caçadas, tendo
matado dezenas de javalis, pedira aos pais para ficar
noivo de Maria Cristina após algumas conversas que
tiveram. Estes, tendo em vista a pureza de espírito da
jovem e a qualidade de sua família, autorizaram sem
hesitar.
- O que não gosto é de quando você vai caçar...É uma
crueldade com os animais.- Confidenciara certa vez ao
amado, em um dos jardins do castelo.

146
- Sempre como os animais que caço. Não é por
diversão, é fome.- Ele replicara.
- Sei que você é um comilão, mas também sei que se
diverte. É coisa de homens...- E bufara, fazendo seu
companheiro rir; ali por perto, pousavam os olhos
ocultos de Diego, que ao contrário do que mandava a
tradição desenvolvera um amor muito pouco idealizado
pela donzela. Algum dia esperara que ela se casasse
com algum nobre de terras distantes, por isso não a
veria mais e sofreria menos com a sua ausência do que
ao vê-la nos braços de outro. Contudo, estava agora
prometida justamente ao cavaleiro que vestia e ao qual
dava a espada e do qual carregava o escudo; seria
obrigado a vê-la todas as horas e a testemunhar seu
“adorado” senhor tocando-lhe as madeixas e proferindo
palavras carinhosas. Não o perdoaria se a fizesse sofrer;
de qualquer modo, a bem da verdade, não o perdoaria.
Após Miguel e Cris se casarem, o jovem marido a levou
para uma caçada...
- Por que você me trouxe aqui?
- Porque hoje vamos fazer uma coisa diferente.- E
disparou com seu cavalo.
- Ei! Aonde você vai?? Não vai me deixar sozinha!- Ela
partiu com o seu no encalço e seguiram em velocidade
por milhas e milhas, se afastando da área da caçada.
Quando estiveram bem distantes, ele começou a
diminuir o passo diante do pôr do sol.- O que foi isso??
Fomos longe demais...
- Você acha que eu chamaria você pra uma caçada pra
matar algum animal na sua frente? Fiz isso para mostrar
que a amo mais do que qualquer atividade; você sempre
será mais importante do que tudo. Por isso fugimos da
caçada, como se nós fôssemos a presa, assim pude sentir

147
um pouco do que um animal caçado sente enquanto é
perseguido por nós, humanos loucos e cruéis. Nunca
mais vou caçar, por você.
- Somos pessoas diferentes, Miguel. Não devia fazer
sacrifícios por minha causa.
- Sendo por você, se torna algo divertido e
emocionante. Deixa de ser um sacrifício. Você me
caçou hoje e foi bom ter um dia de caça!
- Você é louco! Vai ser repreendido pelos outros nobres
depois!
- Por você sou mais do que louco...Sou insano.- Riram
e depois desceram dos cavalos para admirar o pôr do sol
e se beijaram, brincando com um coelho que se
aproximou e só voltando para o castelo quando já era
noite. No retorno, as broncas dos pais foram o de
menos...Foi algo bem notado e pouco sentido, enquanto
o ódio de Diego, que ele retinha em si mesmo,
disfarçando perfeitamente por fora, podia ser sentido
por Maria Cristina, porém não identificado:
- Há horas que sinto como se existisse uma nuvem
negra pairando em volta de nós. É silenciosa, mas
parece pronta pra desabar de repente, fazendo cair uma
chuva de gotas que não são de água e sim de metal
afiado.
- Isso é imaginação sua. Tem tido pesadelos?
- Não tem nada a ver com sonhos! É uma percepção.-
No entanto, Miguel estava feliz demais para dar ouvidos
ao perigo. “Ele se torna cego quando fica satisfeito e
alegre. Se eu fosse uma mulher má...”, Cris refletiu,
enquanto nos bastidores Henrique procurava por Diego:
- Conde Dom Henrique! O que o traz em meus
humildes aposentos??- O escudeiro questionou,
espantado, quando abriu a porta de seu quarto no

148
castelo, bem abaixo do andar onde ficavam os nobres, e
viu à sua frente a figura do conde, que chegava com um
sorriso confiante no rosto...
Poucos dias depois, Miguel e outros cavaleiros
receberam as respectivas cartas de convite para um
torneio que seria realizado no interior de Castela, de
uma forma mais intensa do que o habitual, pois se
trataria de um treinamento para lutar contra demônios.
Afinal não poderiam depender sempre dos cruzados: até
que um chegasse, dezenas ou centenas de pessoas
podiam já estar mortas. O filho do alferes-mor, que
sempre vencera as gestas das quais tomara parte, não
parecia receoso:
- Quem gosta de participar desse tipo de torneio é o
conde Henrique. Mas você nunca foi a nada do tipo. É
bem diferente dos torneios formais que organizamos em
Burgos; por mais que aqui você seja imbatível, em
espaço aberto há brechas para a deslealdade, a trapaça e
o engano. Se eu fosse você, meu filho, não iria.- Isabel o
advertiu ao saber que estava ansioso para aceitar.
- Fui convidado, mamãe. Se não aceitar, irão me
considerar um covarde e dirão que só tenho força e
coragem para lutar em contextos artificiais. Dirão que
não sirvo para matar demônios.
- E por qual razão você deveria servir para isso? Não é
um cruzado. Matar criaturas tão perigosas só pode ser
tarefa de quem é mais próximo de Cristo...E nós somos
seres humanos comuns. Isso é pretensão dessa gente!-
“Henrique, seu desgraçado...Está fazendo isso só pra me
provocar. Pode ser que seja uma emboscada contra o
meu filho. Estou com um mau pressentimento, não
posso permitir que ele vá, mas como impedir um rapaz
tão cabeça-dura?”, refletiu.

149
- Pretensão é pensar que existam seres superiores, ou
inacessíveis. Somos todos iguais aos olhos de Deus e
podemos invocar um milagre para realizar o impossível,
sempre. Basta a nossa fé e seremos capazes de
exterminar qualquer demônio.- “Você se esquece dos
demônios humanos...”, ela continuava a pensar; ficou
cabisbaixa. Não sabia como convencê-lo e ainda tinha
muito medo que algum dia a verdade sobre sua aventura
com Henrique viesse à tona. O bispo Marcos, um
inimigo declarado dos torneios, era outro que não
desejava a sua partida:
- Na sua posição, homens como você, e também seu pai
e o rei, deveriam brandir o gládio espiritual contra esse
costume diabólico, esses malditos eventos que fazem
com que um cristão se lance contra outro cristão em um
duelo mortal. Qual o sentido de fazer isso? Somos filhos
de Deus! Dessa maneira só posso questionar a
sinceridade do propósito dos cavaleiros, que para
enfrentar demônios se armam de espírito agressivo e
retornam muito piores, quase tão perigosos quanto
aqueles que foram caçar!
- Não exagere, monsenhor. Se é assim, está claro que
também não vê os cruzados sob um ângulo positivo.
- Não é exagero! E de fato aqueles homens me dão
medo. Não me passam o menor amor cristão.
- É o trabalho duro que são obrigados a fazer. Como o
monsenhor se tornaria se tivesse que caçar demônios?
- Não sei, mas não importa. O que não quero, meu
filho, é que você se torne igual a eles. Já roguei ao rei
para que usasse a persuasão para impedir a realização
desses torneios bárbaros e, se necessário fosse, a
oposição viril, em nome da utilidade da Igreja de Deus,
que se não promove o amor e a paz não tem o menor

150
sentido. Inclusive alguns dos meus irmãos estão de
acordo. Falei com o abade Bernardo e ele afirma que os
que se ostentam e perecem nessas feiras devam ser
privados de sepulturas.
- Dessa maneira ele está se igualando aos que julga
bárbaros! Quem é ele para julgar seus semelhantes e
privá-los de um túmulo, fazendo com que circulem
como espectros até o dia do Juízo Final??
- Também julguei a posição dele exagerada. Mas os
torneios com normas como os realizados em Burgos,
filho, ainda são aceitáveis. Mas estes no interior do
reino não passam de pura barbárie, para a qual só
afluem os sedentos de sangue ou os ávidos por muito
ouro. Dom Henrique, por exemplo, une as duas coisas.
Você não é nem uma coisa e nem outra, então o que irá
fazer lá? Enquanto as mortes aqui são acidentes, lá são
comuns. E disputas de corte podem se estender em
tramóias, armadilhas e emboscadas.
- Quem armaria uma emboscada pra mim?
- Você pode não saber, e nem eu sei quem são, mas
estou certo que aqui muitos o invejam. Sua posição, sua
postura, sua força, sua esposa...- À menção indireta de
Maria Cristina, Miguel resolveu refletir. Afinal
precisava pensar também na mãe de seus futuros filhos.
E se lembrou da nuvem negra que ela mencionara, algo
que num primeiro momento não lhe parecera digno de
atenção. E se, isso somado às preocupações do bispo e
de sua mãe, fosse um aviso de Deus?
Henrique, por outro lado, não via a hora, seus dedos
acariciando sua espada prateada, de rubi no centro da
empunhadura em forma de dragão, como se fosse uma
curva de mulher. Tinha em mente outras amantes além
de Isabel, mas esta, mesmo não sendo a mais bonita e

151
nem a mais jovem, era sem dúvida a mais desejável por
tê-lo rechaçado. As rebeldes eram sempre as mais
saborosas, como uma carne difícil de assar, uma delícia
de mal-passada; e o conde gostava das mais sangrentas,
assim como nas justas, como quando simulara uma
batalha, em um dos torneios, contra o marquês de Vega,
um sujeito magro demais e de pescoço empinado, a
barbicha loira, cujo exército era famoso pelas lanças
mais afiadas de Castela; contudo, enquanto seu
oponente gostava do espetáculo, que seus cavaleiros
usassem belos penachos coloridos e armaduras mais
ornamentais do que efetivas, seus homens tinham sido
incitados para darem o máximo, e ninguém questionava
quando os olhos do conde liberavam um brilho rubro
inexplicável, perdendo parte da vontade própria ao
ouvirem suas palavras. Em campo aberto, as tropas de
Henrique massacraram as do marquês, que ficara
furioso com as perdas, mas acabou feito refém e sua
família tivera inclusive que pagar um resgate. Nada fora
acordado antes entre os contendentes, porém os torneios
abertos previam esse tipo de prática.
Agradava-lhe usar a música para intensificar as ações,
com os homens que tocavam as trombetas e os tambores
prontos para executarem composições de sua autoria:
estas faziam o sangue dos soldados ferver, ainda mais
quando pouco antes tinham falado com ele.
- Como meu senhor pode estar indeciso se participar ou
não? É uma questão de honra. Se não for, muitos o
considerarão um covarde, coisa que sei que meu senhor
não é e nem nunca será. Porém terá que provar sua
coragem sempre, para desdizer os hipócritas.- Diego
assim replicou às dúvidas de seu amo.- Não há nada a

152
temer, pois estarei ao seu lado e nenhuma armadilha irá
surtir efeito. Antes eu caia em seu lugar.
- Agradeço sua preocupação e sua disposição em me
servir, Diego. Fico feliz por ter um amigo tão valioso ao
meu lado. Ando meio abatido com tantos
questionamentos.
- Disso me dei conta. Mas não há motivos para isso,
com a força que o senhor possui. Tenho certeza que
sairá vitorioso mais uma vez.- Ao menos o cavaleiro
teria alguns dias para se preparar. No mês de Páscoa,
que antecederia o torneio, qualquer batalha estava
proibida, segundo as normas da Tregua Dei, que vetava
práticas violentas em dias e períodos santos e aos
domingos.
Nos torneios dos quais tomara parte, Miguel enfrentara
não apenas castelhanos como estrangeiros de diversas
terras, entre os quais homens da Alsácia, cheios de
arrogância, da Inglaterra, que não admitiam ser tocados
de forma alguma, negando até simples apertos de mão, e
da Toscana, do seu ponto de vista os mais simpáticos.
- Deste lado, nosso probo Dom Miguel, que muitos
chamam de “o cavaleiro de ouro”, “o querido dos
anjos”.- O arauto o anunciara e postara-se ao lado do
filho do alferes-mor o portador do brasão da família, o
estandarte que tinha São Miguel perfurando o pescoço
de um dragão e em volta rosas com mais espinhos do
que pétalas.- Do outro, monsieur Denis, vindo da
Alsácia, disposto a desafiar e vencer todos os guerreiros
de Castela, provando a superioridade de seu povo.- Um
homem que sem seu elmo mostrava os cabelos negros
longos e lisos porém escassos na fronte, pálido e de
nariz aquilino, a testa cheia de pregas, os olhos azuis
frios e com grandes olheiras; vestia uma armadura negra

153
sem adornos a não ser pelo capacete sofisticado, que
lembrava a cabeça de um touro furioso.- Nas terras que
governa é conhecido como “minotauro”.- E chegara ao
torneio com pompa, cento e vinte cavaleiros e mil
soldados a pé, os homens que o serviam, acompanhado
de seu cunhado e de alguns irmãos, que testemunhariam
a sua vitória. Tratara-se do adversário mais duro que
Miguel enfrentara em um torneio: os dois caíram ao
mesmo tempo quando se tocaram com as lanças e, uma
vez no chão, os escudos logo se quebraram com os
golpes fortes que desferiam e o duelo de espadas tivera
que ser mais lento e pensado, com Miguel descobrindo a
brecha na postura de seu oponente em um átimo e dessa
maneira despedaçando seu capacete e levando-o ao
chão; pusera o pé direito sobre o peito do alsaciano e,
com a ponta da espada apontada para a garganta deste,
obtivera a vitória, as flores, os aplausos e o beijo final
de Cris, que o abraçara aflita.
Bem diferente seu gosto, agradando-lhe saborear o
triunfo, que lhe parecia doce, enquanto a luta era
emocionante, porém azeda, fazendo-o ansiar pelos
beijos de mel de sua esposa, do de Henrique, avesso à
doçura, para o qual o prazer estava no sabor da carne
degustada durante a guerra. Quando um homem como
Denis vinha para enfrentá-lo, com outros soldados, tinha
o maior prazer em promover verdadeiros massacres,
colocando em fuga os adversários pelos vales e
vinhedos, deixando que muitos morressem pela estrada
de hemorragia, outros tivessem seus cadáveres atirados
à água ou antes fossem lançados vivos e se afogassem,
preferindo usufruir da claridade indireta da lua,
enquanto os torneios de Burgos ocorriam de dia.

154
Miguel tinha memória agradável de outra luta, na qual
enfrentara um catalão que portava uma cota de malha
prateada por baixo de uma túnica brasonada de cor
turquesa; parecia um indivíduo de trejeitos sofisticados,
recebendo antes do combate um anel dourado de uma
dama, de vestido roxo, seus cabelos ocultos em um
lenço vermelho preso por um cordão amarelo,
acompanhada por uma aia de vestido rubro, que exibia
bastos cabelos loiros, adornados por uma tiara repleta de
pedras preciosas, que dera ao homem um elmo
encimado por uma estrela de seis pontas. A primeira era
uma dama casada, que o iniciara nas artes do amor (não
carnal, evidentemente, mas o ensinando a compor
versos e a cultivar o inacessível amor cortês), como era
costume em algumas cidades da Catalunha naqueles
tempos, um hábito que Miguel não aprovava, afinal
podia estimular o adultério (diferentemente do que
ocorria em Castela, onde por exemplo Diego deixara de
louvar Maria Cristina após o casamento), e já não
simpatizava muito com catalães. De qualquer forma,
ficara fascinado com a serva da moça, e ele mesmo
tivera dificuldades para controlar seus pensamentos
adúlteros.
O cavaleiro colocara a mão esquerda no peito,
indicando o quanto estava honrado com o presente da
dama, da qual daquele momento em diante seria
humilde vassalo, disputando o torneio para se tornar
merecedor daquela dádiva, com o escudeiro sofrendo
para segurar o cavalo, que parecia bastante ansioso. Os
torneios de Burgos respeitavam os costumes de todas as
ilhas e por isso certos cerimoniais podiam ser
demorados...

155
Com freqüência ocorriam apresentações teatrais e de
menestréis, como antes dessa luta com o catalão, tendo
sido representada uma peça comovente na qual o
cavaleiro, antes de morrer, entoava uma canção de amor
à sua espada e oferecia sua armadura a Deus, o céu se
abrindo para a descida das hostes de anjos, encarregados
de levar o herói armado para o Paraíso.
O confronto fora equilibrado, com o cavalo agitado
demais prejudicando o outro contendente, que no
combate no chão se revelara perigoso e aguerrido. Uma
vez derrotado, saíram juntos para beber em uma taverna
e riram bastante; Miguel, aos poucos deixando de lado
seu preconceito em relação aos catalães, não resistira e
lhe perguntara sobre as mulheres que o acompanhavam:
- Ficou encantado, não foi?
- Sou um homem casado e tenho que me dar ao
respeito. Mas admirar certas belezas femininas não
acredito que seja pecado...
- Hahaha, como o senhor é divertido, dom Miguel. Mas
o que lhe digo é que para mim são da mesma forma
inacessíveis, pois a jovem aia está prometida e minha
dama é casada, apenas um objeto inatingível de minha
devoção, pois ao contrário de seu marido, que também
estava presente no torneio, não tenho terras e nem
homens sob meu serviço. Se ousasse algo, seria um
homem morto.- As palavras daquele indivíduo fizeram o
filho do alferes-mor refletir a respeito de Diego: “E se o
amor dele não fosse, naquela época, apenas um objeto
de cortesia? E se ele, meu bom escudeiro, estiver
sofrendo pela paixão por minha esposa? E eu aqui,
encantado por outra mulher, embora ame Maria
Cristina! Talvez o meu amor seja menos digno do que o
de um homem de posição inferior! Tenho que ter

156
vergonha...Tanto em consideração à minha esposa como
pelo possível sofrimento de meu vassalo, que poderia
dar a própria vida por sua dama e minha mulher mas
continua sendo meu servo e amigo fiel. Como o amor é
complexo...”
- O conde Henrique e outros que defendem esse tipo de
torneio caem nos sete pecados capitais, pois os ímpios e
vaidosos andam nesse circuito, um cavaleiro inveja
outro que é considerado mais forte, um fere o outro, o
maltrata e pode até matar; essa gente é tão obcecada
pela vaidade que pensa que os bens espirituais de nada
valem, tomam as armas e exigem resgates dos
adversários presos, extorquem os camponeses com
exações para organizarem o evento, fazem festas e
comem superfluidades, assediam as mulheres
impudicas. Ou seja, praticam a soberba, a inveja, a ira, a
acídia, a avareza, a gula e a luxúria. Mas fazem ouvidos
moucos! Alguém por acaso vê o conde Henrique e seus
partidários na santa missa? Nunca participam. Muitos
são os incrédulos, hereges, impiedosos, presunçosos,
jactanciosos, falastrões, assassinos, invejosos, ladrões,
glutões e adúlteros, afogados nas profundezas do mal...-
No domingo anterior, Marcos pregava em vão; Miguel
já estava decidido a ir, inclusive para fazer como o
catalão, se mostrar digno do amor de Maria Cristina,
para ele acessível, que porém via maculado.
O último beijo antes da despedida foi diferente de
todos os anteriores em sua vida...Silencioso, e lento,
muito lento, ainda que macio e molhado; depois, em sua
face, quente e acolhedor. O silêncio continuava...E o
deixava inquieto. Cris, ao contrário, ouvia barulhos
demais para conseguir falar, e se esforçava para só ouvir
a música interna, que era o que tentava transmitir ao seu

157
amado, que no entanto talvez estivesse surdo; no rosto
depositou um veludo, que lhe trouxe uma modesta paz.
- Quando voltar, espero que possa lhe dar uma nova
alegria.- Ele conseguiu dizer antes de ir.
- E que nova alegria seria essa? A minha felicidade está
garantida desde que você volte.- A voz do marido
silenciara o resto, para seu alívio; a quietude se tornara
mútua. Nesse espaço vazio, era mais fácil deslizar para
o amor.
- Quero ter um filho com a mulher que amo.
- E que mulher é essa?- Ela perguntou brincando, com
um sorriso no rosto.
- Se eu dissesse que é uma Maria, o que você iria
achar?- Sabia que a esposa não gostava de ser chamada
apenas por Maria, e sim por seu nome completo ou
como Cris; contudo, naquele meio, o humor só aveludou
e tornou mais sutil a atmosfera, o riso feminino se
fundiu aos dedos fortes que acariciavam os cachos
sadios e a mão direita de Miguel acarinhou com
suavidade o ventre de sua mulher. Imersos em si
mesmos, se beijaram desta vez em meio ao fogo que se
erguia, motivado pelas faíscas que saíam dos corações, e
não perceberam Diego, que atrás da porta não segurava
o escudo e sim um estranho boneco, presenteado por
Henrique, que em muito lembrava o melhor cavaleiro de
Burgos, ainda que com o peito esburacado.
Chegada a manhã do torneio, o filho do alferes-mor
levara consigo homens de sua confiança e da de seu pai
e de seu sogro, que se confrontariam com o exército do
conde. No planalto, apesar de todo o verde abrilhantado
pelo sol, a natureza parecia ter se retirado, se
escondendo das armas e armaduras, receosa do sangue
que seria derramado em seus olhos, e que prejudicaria

158
sua vista, necessários muitos banhos posteriores para se
refazer, e em sua alma, e muitos anos teriam que
transcorrer para que os fantasmas dos guerreiros e seus
belicosos pensamentos semi-materializados tomassem
um novo rumo ou se desmanchassem. O ar de morte
fazia os dentes rangerem; os ossos rachavam; as
árvores, preocupadas, se enterravam sob as caveiras. O
céu, podendo escolher, teria afundado, conquanto não
tremesse.
Assim que o torneio teve início, os dois “exércitos”
investiram um contra o outro em uma cavalgada furiosa,
anunciada pelos tambores dos árbitros, que assim como
os homens de Henrique mantinham seus rostos em
estreito sigilo, os primeiros cobertos por véus e
máscaras escuras como suas túnicas e os segundos em
armaduras negro-prateadas, com destaque para o
cavaleiro que partiu de trás, de cujo elmo escapava o
brilho de um par de olhos totalmente verdes, sem
nenhum contorno: foi este o que se lançou na direção de
Miguel, mesmo sendo o último da linha do conde.
A guerra simulada, para o desespero do filho do
alferes-mor, se revelou uma guerra efetiva e
avassaladora, um completo desastre que se estendeu
pelo vilarejo mais próximo e foi levando embora as
vidas de alguns camponeses despreparados, que tiveram
suas casas incendiadas, suas fontes destruídas por
espadas que não se quebravam mesmo ao se chocarem
com os materiais mais duros e as crianças vítimas de um
arrastão para que servissem de escravas nas terras de
Henrique; nem os juízes muito menos os guerreiros de
armaduras pretas adornadas de prata eram humanos,
dizimando com golpes únicos os valentes amigos e
companheiros de Miguel, cujas armas se rompiam ao

159
primeiro contato com as que aqueles demônios
portavam. Nenhuma veste resistia, todas eram
perfuradas com extrema facilidade, como se fossem
doces repartidos pelas melhores facas; quando o
cavaleiro mais precisou de Diego, este desaparecera, ao
passo que seu pior oponente retirava o capacete e
revelava o rosto: os cabelos longos e a pele eram de
uma opacidade verde, diferentes dos olhos brilhantes, ao
passo que nas costas brotavam imensas asas de penas
esquálidas, esmeraldas macilentas e agressivas, que
continham olhos que se abriram para testemunhar e
gravar melhor o fim de Miguel e seus amigos. A aldeia
seria reduzida a cinzas para que não sobrassem provas.
- O que são vocês?? Como aquele Henrique miserável
teve coragem de evocar criaturas do Inferno para acabar
comigo? Desconheço o motivo que levou aquele
maldito assassino a me detestar, mas não teria bastado
uma emboscada com bons homens, sem envolver tanta
gente inocente?!- Ainda em seu cavalo, porém já sem
seu elmo, o rosto sujo de sangue, Miguel questionou.
- Compreendo a sua angústia. Dos que se encontram
aqui, este é o único corpo que um dia foi de um ser
humano...- Usava uma espada montante toda esmaecida,
com uma lâmina que parecia suja.- Mas compreenda:
não existem inocentes. O ser humano é sempre culpado,
todos algum dia desejaram o mal para no mínimo um de
seus semelhantes, e isso tem uma retribuição. Nenhum
pecado passa impune, ou Adão ainda estaria no Paraíso.
- O seu discurso é estranho para um monstro do
Inferno...- Em volta, gritos, fogo, sangue derramado e
destruição; Miguel não tinha nenhuma dúvida da
malignidade de seu oponente, que mostrava a pior face
da violência, sereno, sem o mínimo remorso.

160
- Ao contrário dos outros aqui, tenho direito a um
pensamento próprio, pois não provenho de cadáveres ou
ossos reanimados ou de pedras e pedaços de metal...- De
fato havia ali, debaixo das armaduras, corpos putrefatos
animados pelas almas de demônios convocados por
meio da magia negra, o mesmo ocorrendo com
esqueletos ou ainda estátuas, além de armaduras
“vazias”, conduzidas pelos espíritos contidos, todos
obedecendo à vontade de seu evocador, almas
primitivas que eram gratas apenas pelo prazer
momentâneo de fazer vítimas no mundo físico.- Dizem
que mudei porque fui possuído, mas isso não interessa a
você.- Miguel tentou se defender com sua espada, mas o
golpe foi tão forte que quebrou sua lâmina e o derrubou
de seu cavalo, que fugiu em disparada; onde Diego fora
parar? De qualquer forma, o pobre escudeiro pouco
poderia ter feito...
Pegou outra espada, caída no chão, esta que pertencera
a um dos inimigos, um dos poucos que algum de seus
companheiros conseguira abater, e tentou combater seu
inimigo sobrenatural.
- Se tem mesmo tantas dúvidas, lhe digo que este foi só
o início. Henrique não queria só matar você, que não
passa de um pequeno obstáculo; ele quer este reino...E
sabe o que mais o motivou? A sua mãe. Não porque a
ame, mas porque ela o enjeitou, e Henrique se sentiu
usado. Com o trono, nenhuma mulher poderá rechaçá-
lo, nem mesmo dona Isabel, e quem irá usar quem?-
Tais palavras paralisaram o filho do alferes-mor; como
aquele monstro ousava falar de sua mãe? Ao mesmo
tempo que se dava conta que realmente ela tinha algo
sério a ver com aquilo. Sentiu que seu estômago se
embrulhava, seus braços fraquejavam e seu potencial

161
combativo diminuía, suplantado por pensamentos e
emoções confusas.- O trono será a prova que ninguém
pode simplesmente dizer “não” a um homem especial.
Pena que você não é e por isso não estará aqui para ver
a conclusão das coisas.- Um ataque certeiro decepou o
braço direito do cavaleiro. Pouco depois, o inimigo, que
ainda estava a cavalo, teria desferido o último golpe, em
meio ao réquiem de despedida de sua existência terrena,
com as trevas cada vez mais se avolumando ao seu
redor, se uma luz não tivesse passado e sem vento o
levado consigo, fazendo com que o “homem” de rosto
verde atingisse o vazio; ao perceber que a vítima se
fora, já sabia com quem estava tratando...

Miguel, tendo perdido os sentidos, voltou a si não


soube dizer quanto tempo depois. O passado recente era
também a lembrança imediata e levou a mão esquerda
ao lado direito, só encontrando, para a sua tristeza, um
ombro e nada mais.
- Até que enfim você acordou. Pensamos que fosse
dormir pelo resto da eternidade.- Por demais ocupado
consigo mesmo, só ao ouvir aquela voz calma se deu
conta que não estava sozinho, deitado em uma cama,
com alguém sentado ao seu lado; o rosto com o qual se
deparou a princípio lhe pareceu um mar sem sol; os
lençóis estavam um pouco machados e a madeira do
leito rangia.- Cuidado, é melhor não fazer movimentos
bruscos.- O sujeito o deteve quando tentou se levantar.-
Tenha calma, afinal passou dois dias desacordado. O
meu nome é Lorenzo, mas costumam me chamar mais
pelo meu sobrenome, Cavalcanti...
- O seu sobrenome não me é estranho.

162
- Sou de uma família tradicional. Mas isso pouco
importa, pois somos iguais aos olhos de Deus.
- Acho que uma vez lutei com um Cavalcanti em um
torneio. Só contesto o que você disse: não somos iguais,
tanto que me falta um braço.- A ironia era cínica e
amarga.
- Não se revolte contra Deus, porque não vai adiantar
nada, a sua vida não vai melhorar com isso.
- Me custa acreditar que fiquei dois dias inteiros fora de
mim; e nem tive sonhos. Parece que levei uma pancada
e záz...Não existia mais. Se morrer é assim, talvez não
exista nenhuma esperança para os homens...Somos pó, e
ao pó voltaremos. Talvez nisso sejamos iguais...E não
estou inventando, é o que a Bíblia diz. Talvez não haja
esperança e Deus seja cruel.
- Esse pó assume formas distintas, e do barro podemos
fazer belas imagens. Um amigo do meu pai, chamava-se
Campanella, não o vi mais, não sei que fim teve, me
disse uma vez que Deus não nos deu face nem lugar que
nos seja próprio, nem qualquer dom que nos faça
únicos, pois como Adão temos que desvelar nossa face,
descobrir nosso lugar e esculpir nosso rosto trabalhando,
desvendando nossos dons, para que os conquistemos e
os possuamos por nós mesmos, não por méritos Dele e
nem pelos outros. Outras espécies podem ter sua
natureza definida por leis, mas os humanos não são
delimitados por nenhum confim; nos movemos de
acordo com o nosso arbítrio, entre as mãos Daquele que
nos moldou e nos colocou aqui. Fomos postos no
mundo a fim de melhor contemplar o que o mundo
contém; não somos celestes nem terrestres, nem mortais
nem imortais, a fim de que nós mesmos, à maneira de

163
bons pintores ou hábeis escultores, desenhemos nossa
própria forma.
- O discurso do seu amigo é bonito, mas será que pode
devolver o meu braço? Quero um pouco de barro pra
fazer um braço novo...Será que Deus pode me dar?
- Incrédulo e ingrato. Está tão preocupado com o seu
braço que se esqueceu de agradecer os que lhe salvaram
a vida? Afinal o que mais importante, a vida ou um
braço?- Despontou na porta do quarto um indivíduo de
rosto quadrado, esbelto e de traços pétreos, trajado com
uma batina vermelha e portando um crucifixo dourado.
- Deixo meu obrigado para todos vocês, mas não posso
ser grato a Deus. Às vezes suas criaturas são mais
justas. Mas quem são vocês, por que me salvaram e
onde estou?
- Vamos começar pelo final, que é mais simples de
responder. Você está agora em um vilarejo no interior
de Castela, para que se recupere, e nós estamos aqui
hospedados para nos prepararmos para a missão sagrada
que temos pela frente. Em sua revolta contra Deus e a
Cruz, se esquece que Ele é a única proteção válida
contra os demônios.
- Nós o salvamos simplesmente por ser um filho de
Deus e um cristão como nós. Nenhum outro motivo.-
Surgiu um homem pálido e de olhos puxados e
melancólicos, longos cabelos negros.
- Este é Masamune. Foi ele, um homem da terra onde o
sol nasce, mas que como pode ver a origem aos olhos de
Deus pouco importa, que o salvou do demônio que
estava para encerrar com seus dias na Terra. Sua
extraordinária velocidade, um dom divino, foi o que
proporcionou sua vida ser salva.

164
- Acho que começo a compreender. O senhor não me
parece um mago...É um padre. Um padre vermelho...E
esses dois devem ser cruzados.
- Como dizia Campanella, tudo somos nós que
construímos. Você não precisou das nossas respostas,
construiu a sua e está correta.- Replicou Cavalcanti.
- Sou o padre Tomás de Torquemada e vim para
investigar os boatos de feitiçaria e magia negra que
pairam sobre esta região.- Adiantou-se o sacerdote.-
Pior do que nisso, soubemos que um cruzado possuído
também está agindo por aqui. O demônio em seu corpo
era justamente o que tentou matá-lo.
- Agora me lembro. Ele mencionou algo a respeito
disso durante a nossa luta.- Disse Miguel.
- É um milagre que ainda esteja vivo. E é por isso que
trouxe comigo dois cruzados. Masamune não pôde
enfrentá-lo, pois pensou em salvar a sua vida antes. Mas
ele nos preocupa menos do que os rumores sobre a
degeneração dos aristocratas deste reino. Em Roma fala-
se das práticas do conde Henrique, e vim para conhecê-
lo pessoalmente e verificar de perto o que ocorre.
- Conheço o conde e estava lutando, com meus
companheiros, justamente contra o exército de monstros
que ele conjurou. E pelo que aquele ex-cruzado verde
me disse, agora está planejando tomar o reino, e tenho
certeza que meus pais estão perigo. Posso lhe contar
muitas coisas, padre...O meu nome é Miguel e sou o
filho do alferes-mor de Burgos.
- Que feliz coincidência. Pois então nos conte sua
história, omitindo os detalhes desnecessários mas
detalhando tudo o que for importante para a nossa
compreensão e o êxito deste empreendimento.- Ao que
se seguiu a narração de Miguel, que o padre escutou

165
com vívido interesse, Cavalcanti com uma atenção
tranqüila e Masamune, apesar de parecer desinteressado,
também ouvia.- Não deveria mesmo estar revoltado
contra Deus!- Comentou ao fim da história.- Afinal
aceitou participar de um desafio tolo e caiu na trama do
conde. Mereceu tudo o que passou.
- O senhor às vezes é muito duro, padre.- Foi o
comentário de Cavalcanti.
- Você é um “recém-formado”, um cruzado calouro.
Com a experiência, compreenderá o que eu disse. Já vi
muitos soberbos e pretensiosos que depois se lastimam
pelo mal que recebem. São tolos.
- Teremos em breve que marchar para Burgos,
portanto.- Masamune interveio.- Mas acredito que
talvez sejam necessários mais alguns de nossos
companheiros. Apenas em dois, será difícil combater
uma horda de demônios e mortos-vivos, um mago negro
e ainda um possuído, principalmente se lutarem juntos.
Sabe que não estou com medo, senhor...Mas é arriscado.
- Sei que você não teme nada, o que às vezes é um erro.
Contudo, acredito que a solução já esteja diante de
nossos olhos: estamos atualmente em dez cruzados
oficiais. Há duas vagas abertas.- Miguel arregalou os
olhos; por acaso estavam pensando na mesma coisa que
ele?- Jovem, você pode recuperar seu braço se
quiser...Deus é infinitamente generoso. Porém um braço
valerá pelos inúmeros sacrifícios pelos quais terá que
passar, pelas provações que enfrentará?
- Fala sobre me tornar um cruzado?- A resposta em
forma de indagação surpreendeu Cavalcanti, que no
entanto não demonstrou nada; Masamune não estava
nem um pouco surpreso.

166
- Se aceitar, terá que abdicar de toda e qualquer
ineptissima vanitas. Será um destino não de glória, mas
de medo e desconfiança por parte dos ignorantes. Terá
que dizer adeus à sua vida mundana...- Nesse instante, a
imagem de Maria Cristina silvou em sua mente.- Por
outro lado, terá a força de mil ou mais homens, Deus
estará vivo e presente ao seu lado, não sentirá mais
necessidade de reclamar que é um infante abandonado e
sua vida será longa se não for pecaminosa.
- Ah...- Não conseguiu pronunciar nenhuma palavra
após alguns segundos de silêncio.
- Não precisa responder agora. Ser-lhe-á dado um
tempo. Enquanto isso, também não iremos nos mover
daqui. Caso aceite, Masamune será seu instrutor e
Cavalcanti, que é novo neste mister, será seu colega
mais experiente. Peço que respeite os dois.
- Isso não precisa nem pedir, padre. Já sou grato a
ambos.
- Melhor que nos retiremos.- Falou com os dois
cruzados.- Nosso irmão precisa de um tempo para
refletir, afinal tem uma esposa e uma vida na corte.
Sejamos pacientes...
Quando foi deixado sozinho, Miguel olhou bem para a
única mão que lhe restara. Com ela poderia fazer pouco,
tanto por si mesmo como pela humanidade. E o que lhe
ofereciam era muito mais do que um novo braço e outra
mão: era uma vida completamente diferente, de não
menos mistérios, porém mistérios novos. Nunca fora um
amante do conhecimento, mas teria a oportunidade de
tornar a ter amor pela vida e por Deus. Quanto a Maria
Cristina? Sabia ser a castidade obrigação dos cruzados,
que no fim das contas eram sacerdotes; teria que
infringir a promessa que fizera a ela...Optar entre seu

167
amor e Deus, o que era por demais dificultoso. Contudo,
se demorasse demais, talvez a encontrasse morta. Antes
sua amada pudesse viver, ainda que distante dele, do
que perecer nas garras de demônios. Naquela noite teve
um sonho: neste, Henrique e suas tropas entravam em
Burgos, o conde atrás, oculto em uma armadura bem
fechada para que não pudesse ser reconhecido caso algo
desse errado, mas como poderia dar errado com o ex-
cruzado verde conduzindo os massacres? A capital de
Castela estava em chamas, com crianças sendo
arrastadas, mulheres violentadas, os mendigos tinham
seus corpos abertos e assados, servindo de alimento para
os monstros, e novas criaturas terríveis, lobos recém-
falecidos “ressuscitados” pela feitiçaria do inimigo, com
espíritos infernais em posse de seus corpos, emergiam
das florestas. O demônio que possuíra o antigo carrasco
das turbas cruéis também sentia muita fome e só saciava
sua garganta verde com muito sangue que pingava das
cabeças decapitadas.
Do geral ao particular, viu Maria Cristina em sua sala
de banho, friccionando seus cabelos bem-tratados com
polvilho; seu escudeiro Diego entrou de repente,
derrubando a porta com a ajuda de uma estátua
animada...O choque foi enorme tanto para a moça como
para Miguel, que tinha a impressão de acompanhar a
cena com seu espírito pairando pouco acima, sem
conseguir pousar no chão.
- Diego?? O que você quer aqui?? E o que é essa coisa?
Onde está Miguel??- Levara a mão ao peito, que ardia;
o homem revelou sua traição:
- O seu queridinho está morto. E agora, que é viúva, é
também uma mulher livre.

168
- Mas...Como pode?? O que está acontecendo?...- Ele
se lançou sobre a esposa do cavaleiro e a despiu com
fúria; a estátua móvel foi se retirando...Tocou-lhe os
mamilos com excessiva força; começou a mordê-los.-
Pare, Diego! Pare!!
- Não me diga que não está gostando, sua
cadela...Achou que ficaria simplesmente na cortesia,
minha dama inatingível? Você é acessível e feita de
carne e osso, como qualquer puta por aí...Não banque a
pura, sua miserável.- Diante daquela situação, Miguel
tentou descer e, feito um fantasma, apavorar o traidor;
ira, tristeza e indignação turvavam sua face espiritual,
que se deformou a tal ponto que lembrava a dos
demônios; contudo, foi repelido. Uma aura negra e que
queimava como fogo protegia o maldito escudeiro.
Talvez a mesma que fazia com que fosse aceito pelos
soldados do conde, e que devia proteger o próprio
conde, fazendo com que os monstros primitivos não os
vissem como comida e sim como cérebros a dirigi-los.
“Esse filho da puta fez um pacto pra ter a minha
mulher...”, entrementes, não estava acabado: Henrique
entrara no salão do trono e mandara seus servos
abomináveis, que já carregavam as cabeças do alferes-
mor e de sua digníssima esposa, por fim decapitarem os
reis de Castela: o trono era seu.
Miguel acordou com o peito muito dolorido, o coração
parecendo saltar para fora; a dor também era grande
onde deveria estar o braço que fora extirpado. Além de
tudo isso, uma forte enxaqueca e chegou a se ver como
mulher, tendo a carne mordiscada por um homem
asqueroso, que só conseguia vulgarizar a feminilidade.
Seu grito ecoou para dentro, porém ainda assim foi

169
ouvido por Cavalcanti, que do lado de fora hesitava em
entrar na casinha que haviam reservado ao cavaleiro.
- Está precisando de ajuda?- O cruzado apareceu
quando ele mais precisava; levantou-se de cama, e
ciente de que não fora um sonho e sim a realidade,
talvez, esperava, ainda não concretizada, mas que iria se
cumprir, decidiu não esperar mais:
- Quero ser um de vocês...- Falou no ouvido do
florentino, que o abraçou com força; do outro lado, um
abraço frouxo com um braço só e lágrimas.- Fui muito
ingrato com Deus. Mas nesta noite ele me mandou um
aviso. De qualquer forma, ficarei sem a minha
mulher...Não sou egoísta a ponto de preferir ela morta a
que fique afastada de mim.
- Deus soma e não subtrai. Mesmo que tenha que se
afastar dela, terá novos irmãos.
- Assim espero...Quero beber o sangue de Cristo e
enfrentar meus demônios.- No dia seguinte, recebeu a
bebida de Torquemada, que a serviu em um cálice de
madeira. Desfaleceu na hora, ficando inconsciente outra
vez por dois dias; ao voltar a si em seu leito pobre, a
primeira coisa que fez foi levar a mão esquerda ao lado
direito do corpo. Desta vez, para seu júbilo, o braço
estava lá. Pôde reabraçar Cavalcanti com intensidade
renovada...- Sou como Adão: após perder o Paraíso,
consegui remodelar meu destino.
- Acredito que agora tenha compreendido as palavras
de Campanella. Vamos em breve colocá-las ainda mais
em prática.
- Não sei por que; acabei de acordar e me sinto
cansado.
- É normal. Eu também às vezes sinto um certo
cansaço. Masamune me explicou que isso demora

170
alguns meses, até nos acostumarmos com a nossa
responsabilidade.
- Há quanto tempo se tornou um cruzado?
- Pouco mais de um mês...- Em Cavalcanti o sol estava
no fundo do mar, foi o que Miguel percebeu. Seguiram-
se os primeiros treinamentos: o fundamental, mais do
que nas técnicas de luta, estava em buscar ser um agente
ativo na transubstanciação do próprio corpo, sem
aguardar apenas a ação de uma substância externa nem
se limitar ao aspecto guerreiro, pois sem o coração toda
a raça de bronze pereceria, derretendo ao calor dos raios
solares. Os cruzados tinham que ser, ao contrário, sóis
para o mundo, bandeiras altivas de luminosa esperança
se não quisessem ser rasgados pelos demônios. Todas as
noites, ainda que extenuado, se dirigia à pequena igreja
da aldeia e rezava em voz baixa por si mesmo, pelos
entes queridos e pelo mundo para suportar o fardo que
começava a carregar; com freqüência, Cavalcanti ficava
ao seu lado, preferindo orar só em sua mente na
presença do novo amigo. “Peço perdão pela minha
lascívia, por ainda pensar em Maria Cristina a despeito
de tudo o que recebi. Continuo a nutrir desejos por ela, e
isso estou certo que se aplacará somente quando me
aproximar do Senhor e me afastar do Mundo; rezo para
que esse distanciamento também me permita sentir
menos ódio, porque sei que de nada adianta cultivar
esses sentimentos sendo a justiça divina de qualquer
forma implacável. Não preciso odiar...O Senhor se
encarregará de fazer por mim, com sua santa ira: quem
tiver que pagar pagará.”
- Cristo disse para darmos a outra face. Como posso
lidar com esse dilema?- Tentou esclarecer suas dúvidas
com Torquemada, em uma tarde de céu queimado; o

171
cheiro que pairava do ar era de carvão na fogueira.-
Como enfrentar a minha própria face vingativa? Estou
mais receoso com ela do que com aquele demônio verde
e com o mago maldito.
- Você não precisa ser vingativo para cumprir a justiça
de Deus. Me explico: você deve sem dúvida agir, e
colocar um fim na vida pérfida destes malfeitores, que
não têm recuperação e só continuarão a existir para
causar mais males, estimulados pelas hordas do Inferno;
contudo, não é certo fazer isso por vingança pessoal.
Vingue o mundo, não a si mesmo. Pense nos inocentes
anônimos que eles levaram, não só nos seus
companheiros e entes queridos. Nas crianças, nas
mulheres, nos camponeses; não se esqueça de ninguém,
mesmo que não se lembre ou não saiba quem eram essas
pessoas. E não se esqueça que apenas o corpo morre;
você só estará sacramentando a condição em que eles já
se encontram, mandando para o Inferno quem se acha
em uma condição infernal, mentalmente e nos atos. Dar
a outra face é, na verdade, permitir que nos estapeiem;
mas não podemos permitir que estapeiem nossos
irmãos.
- Acho que compreendi, padre.- Agradeceu, e a partir
daquela resposta foi ficando mais tranqüilo; um halo
dourado começava a crescer à sua volta e Masamune
parecia admirado com o potencial do novo
companheiro, conquanto pouco demonstrasse.
“Será que ainda vamos conseguir salvar Maria
Cristina, ou aquela experiência que tive, que não sei
explicar o que foi, intensa demais para ser um sonho,
terá sido uma visão da realidade?”, Miguel rezava para
que não, mas ao chegarem em Burgos montados em
seus cavalos, os três guerreiros se depararam com uma

172
cidade em ruínas morais e efetivas ao cruzarem a ponte
do rio Arlanzón. Após o Arco de Santa Maria, uma
paisagem desolada, lobos imensos perambulando pelo
centro da cidade e perseguindo as pessoas, capazes de
perfurar ferro e aço com seus dentes, tanto que os
cavaleiros do reino não se revelavam páreo para eles.
Soldados descarnados formavam outra parte da força de
ataque do inimigo, incendiando as residências que
saqueavam, inclusive a catedral. “Pode ser que o que vi
em sonho esteja acontecendo agora! Talvez ainda haja
tempo!”, refletiu o cavaleiro dourado, pensando em
disparar para o castelo real, porém ainda sem coragem
para tanto, receoso de ficar longe de seus companheiros
com tantos monstros à solta.
- Vamos dar um jeito nisso.- Masamune desceu do
cavalo e passou a girar sua espada em uma velocidade
incomparável, gerando alguns tufões benéficos que
dirigia de forma sistemática contra o fogo e os
adversários, arrebatando-os; Miguel, ainda um novato,
ficou impressionado com aquela demonstração,
seguindo-se a iniciativa de Cavalcanti, que antes o fitou
com firmeza e lhe disse:
- Não se preocupe...Logo iremos ajudar os seus entes
queridos, ainda mais porque é lá que reside o núcleo do
ataque. De nada adianta ficar na periferia enquanto a
fonte permanece intacta.- Com suas adagas de prata,
cortou as gargantas das feras que se atiravam para
mordê-lo.
“No fundo você quer que ela morra, não é? Afinal, se
permanecer viva, não poderá mais ficar com você, que
se tornou um homem de Deus...Terá que abandoná-la e
até quem sabe tolerá-la nos braços de outro. Não é
melhor que morra?”, o esposo de Maria Cristina escutou

173
uma voz irônica que a princípio o assustou e depois fez
com que se revoltasse: “Covarde! Quem é você pra
dizer isso? Onde você está? Você não me conhece...”;
“Estou dentro de você e o conheço melhor do que
ninguém...”, levou as mãos a cabeça, sofrendo com uma
dor e um zumbido fortes, e disparou com seu cavalo na
direção do castelo.
- Miguel!- Cavalcanti chamou pelo novo amigo e partiu
atrás, enquanto o samurai cristão permanecia,
destruindo seus adversários melancolicamente, sem
demonstrar o menor entusiasmo ou preocupação e ainda
assim seus ventos eram impetuosos e esmagavam as
criaturas das trevas, atravessando as pessoas comuns,
que passavam incólumes como por uma brisa.
O cavaleiro de armadura dourada parou diante de um
grupo de três mulheres apavoradas, que se encolheram e
ameaçaram fugir à sua presença; tentou não assustá-las,
já que precisava de informações:
- Esperem! Se eu fosse um inimigo acham que
adiantaria agir dessa maneira? Já as teria matado. O meu
nome é Miguel, e já fui um cavaleiro deste reino.
- Miguel, o filho do alferes-mor?- Duas pararam, com a
que indagou segurando a terceira.- Mas não pode
ser...Dom Miguel morreu duelando com o conde!
- Isso é o que ele deve ter dito. Mas como podem ver,
estou vivo.
- É ele mesmo! Eu o vi uma vez durante um torneio!
Agora me lembro...- Disse a outra que parara.- Perdão
pela indelicadeza, senhor...É que estávamos com muito
medo.
- Compreendo perfeitamente.- E nessa hora Cavalcanti
chegou, parando ao lado do companheiro; as três

174
ficaram receosas.- Não se preocupe. Este é um
amigo...Um cruzado.
- Graças a Deus! O Senhor atendeu as nossas preces!
- O que está acontecendo nessa cidade? O conde
Henrique a invadiu hoje?
- Não, senhor; hoje não. O ataque teve início há várias
dias e o rei e a rainha estão mortos. Assim como os seus
pais...- Nessa hora Miguel se abateu e o toscano pôde
sentir a decadência emocional.- O alferes-mor...Todos
assassinados. O conde assumiu o trono, mas desde
aquele dia muitos não aceitaram isso, explícita ou
tacitamente, e organizaram uma resistência. Foi
proclamada lei marcial e agora Burgos está assim
porque houve uma revolta, e depois de suprimi-la o
maldito Henrique resolveu castigar os cidadãos, que
segundo ele ainda não entenderam quem devem
respeitar.
- Isso quer dizer que está tudo perdido...- O cavaleiro
ergueu a cabeça e conteve as lágrimas a custo, pensando
em Maria Cristina e em sua família; não queria chorar
na frente daquelas mulheres. “As coisas devem ter se
verificado da exata maneira como sonhei; ou, melhor,
como vi. Não foi um sonho, infelizmente.”
- Miguel...- Cavalcanti se aproximou.
- Não foi nada. Está tudo sob controle.
- Sei que não está.- Foi nessa hora que Masamune
passou, mais rápido do que nunca em seu cavalo,
deixando para trás seus companheiros e se dirigindo ao
castelo.
- Ele já foi. Não vamos perder tempo. Obrigado,
senhoras.- O filho do alferes-mor de Castela agradeceu
e as mulheres se inclinaram.- Escondam-se, por favor.
Nós vamos acabar com esse regime de terror.-

175
Dispararam e eliminaram inúmeras estátuas vivas e
armaduras “vazias” pelo caminho, mas tiveram que
parar, deparando-se com o samurai, que cessara antes
com seu trote, às portas do objetivo, pois diante do trio
postava-se o cavaleiro verde, desarmado e a pé.
- Há quando tempo...- Disse o indivíduo, que estava
sem capacete.
- Não fale como se fosse Bernlak. Sei que é apenas um
monstro que ocupou seu corpo.
- E se lhe disser que o velho Bernlak ainda está aqui?
- Não vou perder tempo conversando com demônios.
Miguel, Cavalcanti...Em frente. Eu luto com esse. Não
precisam se preocupar comigo.
- Vai lutar sozinho?? Ele é muito forte...- Opinou o
cavaleiro dourado; Cavalcanti, sentindo a força do
adversário, pensou em advertir seu mentor, mas depois
refletiu que era melhor não interferir, que talvez
existissem contas a serem acertadas em particular entre
aqueles dois.
- Já enfrentei outros iguais. Sigam em frente.
- Está me subestimando.- Ameaçou o inimigo.- Pois
irão testemunhar o meu verdadeiro poder...
- Vão logo!- No entanto, após a primeira fala mais
enérgica de Masamune, a explosão de uma aura verde
derrubou os dois cruzados menos experientes de seus
cavalos e o inimigo começou a se transformar; o
samurai cristão atacou, sendo no entanto repelido e
também derrubado. Os animais fugiram e o inimigo se
transformou em um gigante metálico, superando os
quatro metros de altura, o rosto com poucas carnes e os
olhos esbugalhados e frios, com asas de quinze metros
de envergadura em suas costas, podendo esticar seus
membros à vontade e usá-los como maças, além de

176
libertar pedaços de seu próprio corpo como projéteis e
depois reintegrá-los. Quando se elevou no alto,
Masamune subiu junto com seus ventos ao manejar sua
espada, cortando a imensa cabeça com centenas de
golpes em um segundo e fazendo o monstro despencar,
o que produziu um discreto tremor de terra. No entanto,
logo o crânio tornou a se unir ao resto do corpo...
- Continua teimoso...- O possuído não iria ceder com
facilidade. Miguel resolveu confiar no companheiro e,
com o foco em pegar Henrique, correu para dentro do
castelo; Cavalcanti permaneceu algum tempo estático,
indeciso sobre que atitude tomar, mas terminou indo
atrás do novo amigo quando olhos começaram a se abrir
nas penas das asas do adversário. Ao mesmo tempo,
outros se escancararam no chão, debaixo dos pés de
Masamune.- Vou gravar bem a sua morte...- Aquele
demônio sentia prazer ao registrar em suas asas as
mortes dos que se revelavam adversários valorosos,
podendo revivê-las desse modo sempre que arrancasse
uma de suas penas e as observasse, não como meras
lembranças, e sim como se estivessem ocorrendo
naquele exato instante. Sentia ódio e ao mesmo tempo
admiração por essas pequenas e arrogantes criaturas.-
Como a do outro que acabou de passar por mim; quer
dizer que o salvou para transformá-lo em um cruzado?
Depois será a vez dele...Uma pena ter uma trajetória tão
breve.
- Por que um monstro do seu nível está a serviço do
conde Henrique?
- No passado fiz alguns trabalhos para ele, e nos
tornamos amigos. Além disso, ele me paga.
- Pare de falar como se fosse Bernlak.

177
- Apesar de você não querer aceitar, ainda sou ele. Mas
é uma sensação diferente...Por que não experimenta?
- Todos os demônios mentem. Você quer me
sensibilizar para que eu me detenha, pensando estar
diante de um antigo companheiro, e assim acabar
comigo.
- Pense como quiser. Você poderia ser como eu...- E
tentando não dar importância às palavras do inimigo,
Masamune tornou a atacar, sua espada veloz se
confrontando com a dureza do corpo do monstro, que
disparava estacas em sua direção ou tentava esmagá-lo e
cuja única parte mole era o pescoço; mas de que
adiantava se a cabeça era apenas um acessório, os olhos
principais estando nas asas e não abrigando o cérebro?
“E se o que ele estiver dizendo tiver um fundo de
verdade? E se Bernlak ainda estiver aí? De qualquer
forma, um demônio é um demônio, e é o que ele se
tornou. Mas a Igreja nunca deixa as coisas serem tão
claras ou puramente escuras...”
Cavalcanti e Miguel chegaram à frente do trono de
Castela, onde encontraram, em lugar do rei ou da rainha,
um esqueleto coroado com um cetro e trajes
majestáticos.
- Ele está zombando de nós. Henrique, seu velhaco!
Apareça e lute comigo se for um homem de verdade.- O
cavaleiro dourado estava com a espada desembainhada,
pronta para o combate.
- Quanta ingratidão...Não reconhece quem coloquei no
trono? Mesmo sem sangue real, não acha que deu uma
bela rainha?- A voz do mago negro se manifestou;
Miguel olhou para aquela caveira e não demorou a
escutar em sua mente: “O que acha agora? Não é melhor
assim? Ela não poderá ficar com mais ninguém, seu

178
egoísta...”, os traços de Maria Cristina pareceram
evidentes no crânio. Cavalcanti percebeu que o
companheiro ainda não explodira realmente, porém isso
estava prestes a acontecer.- Ou por acaso já se esqueceu
dela? Ao se tornar um cruzado, já deve ter sido
absorvido por Deus e não ter mais nenhum desejo
mundano...Mas que nobre cavaleiro de Cristo!
- Ele está ali!- Lorenzo apontou para um espaço vazio e
seu amigo incendiou sua espada e a atirou naquela
direção; a arma despencou, mas a luz emanada pelas
labaredas douradas que tinham envolvido a lâmina
revelaram o inimigo no interior de um círculo mágico,
dando um fim à sua invisibilidade.
- Muito bem! Mas de que adianta poderem me ver se
não podem me tocar?- Uma energia pesada se espalhou
pelo ambiente, pressionando os guerreiros para levá-los
ao chão e fazer com que perdessem a consciência.-
Vocês são muito ignorantes. A magia está além da
pobre compreensão que mentes tão simplórias podem
alcançar.- Contudo, as adagas de Cavalcanti emanaram
um brilho prateado e foram lançadas não para dentro do
círculo e sim se cravaram ao lado da espada de Miguel;
os dois se concentraram em transmitirem suas forças
para o chão, tocando-o, e deste para as lâminas, que por
sua vez devolveram o ataque ao piso com maior
intensidade, atravessando a barreira e cortando
energeticamente as letras e os símbolos que sustentavam
o circuito mágico.
- Até gostaria de ser mais simplório; pena eu ser um
tanto complicado. Mas se há boa magia, não é pela
prepotência da erudição que ela se manifesta.- Disse o
florentino, enquanto seu companheiro, livre da pressão
de Henrique, que se desconcentrara, se atirava sobre o

179
conde com as mãos nuas, porém envolvido por um fogo
dourado que quando suas mãos tocaram a garganta do
inimigo fizeram com que este experimentasse as piores
dores de sua vida; o círculo se desfez, o cruzado ergueu
o adversário pelo pescoço e bradou:
- Por acaso era você quem estava entrando na minha
cabeça e me dizendo que agora eu preferiria Maria
Cristina morta, só porque tenho a obrigação de ser casto
de hoje em diante?!
- Não sei do que está falando...- Respondeu o bruxo;
Cavalcanti pensou em interferir, moderando os ânimos,
mas depois refletiu bem e concluiu que não tinha esse
direito.
- Sabe muito bem...Seu miserável! Onde estão os meus
pais?
- Juro que não fui eu...- E conseguiu mostrar um sorriso
cínico mesmo com todo o sofrimento físico e diante da
iminência da morte.- Está com medo de admitir a
verdade, cavaleiro? Você não queria mesmo ela com
mais ninguém, ou isso é uma mentira? Talvez fosse um
alter-ego meu...Ou seu. Quem pode saber a verdade?
Você deveria...- E o fitou com olhos em brasa.
- Cuidado! Ele quer assumir o controle da situação
outra vez!- Lorenzo advertiu, sentindo que Miguel
hesitara; na mesma hora, um círculo mágico vermelho
se formou em volta dos dois. Contudo, a aura e o fogo
do cruzado, de ouro fúlgido, foram mais fortes,
consumindo o círculo agressivo que recém se formara e
junto com este o corpo do conde, enquanto o guerreiro
permaneceu incólume, sentindo nas suas chamas
peculiares um alimento.
- Parece que vou continuar em dúvida e em dívida.-
Não quis se voltar outra vez para o trono.

180
- Não fale assim. Você venceu.
- Ainda não está terminado.- A aura não se apagou e
correu para fora do salão do trono, rumo aos aposentos
de seu antigo escudeiro. Cavalcanti não iria intervir
desta vez e permaneceu onde estava. Olhou para o
esqueleto da amada de seu amigo e refletiu com pesar:
“Às vezes tenho a impressão que seria melhor o mundo
inteiro morrer de uma vez. Se é para situações como
essa se repetirem, por que existir? E qual a nossa
função? Tornar o mundo um pouco menos pior?”
Na luta contra o possuído Bernlak, Masamune levara
seu corpo e seu espírito ao limite: suas veias saltavam
de sua pele; o suor se misturava ao sangue que saía
mesmo onde não havia ferimentos; se continuasse
naquele ritmo, ou morreria ou ficaria vulnerável a uma
possessão, tentando afastar a ira que buscava se
apoderar de seu corpo. Precisava encontrar o ponto
fraco daquela criatura. Ou não haveria um ponto fraco?
- Eis que estamos mais uma vez frente a frente. Por que
não fugiu?- Miguel questionou depois que o ex-
escudeiro tentara golpeá-lo de surpresa assim que
entrara no quarto; bloqueara a espada do inimigo com
uma mão e na seqüência a derretera com o calor de sua
aura.
- Não sou um covarde...- Uma vez desarmado, Diego
não parava de tremer.
- Como soube que eu estava vindo?
- Quando vocês entraram na cidade...- Balbuciava.- O
conde Henrique me avisou. Fiquei pronto para caso o
pior acontecesse.
- E o pior aconteceu, e Henrique está morto. Mas por
que não fugiu?

181
- Insiste nisso? Já lhe disse que não sou um covarde,
Dom Miguel.
- Deixe de ser hipócrita. Não precisa me tratar com
respeito. Pronto para receber a morte?
- O que o senhor se tornou?
- Seu pior pesadelo.- Partiu o golpe do cruzado, Diego
com as mãos em frente à cabeça (o que de nada
adiantaria, pois poderiam ser cortadas com facilidade,
ao que se seguiria a decapitação) e fechando os olhos;
no entanto, apesar da dor que se abateu em seu ombro
direito, que fora atingido com toda a força, e que o fez
desabar no chão, o escudeiro pôde reabri-los segundos
depois e não estava no Inferno.
- Desgraçado...Filho da puta...
- Esses são seu verdadeiro palavreado e sua verdadeira
opinião sobre mim.- Embainhou a espada e apagou sua
energia.- Viva. O seu pesadelo será a sua própria vida.
- O meu braço está dormente...
- Nunca mais poderá usar esse braço, conforme-se com
isso. Todo o lado direito do seu corpo irá se paralisar
aos poucos e nenhuma medicina poderá curá-lo. Não
poderá carregar nenhum escudo; mas continuará vivo.
Também está banido de Castela.
- Seria melhor que tivesse me matado. E quem é você
pra me banir? Não é rei, nem príncipe...
- Quer que eu mude de idéia? Vá embora. Rasteje daqui
enquanto as suas duas pernas ainda funcionam.- Diego
fitou o cavaleiro com ódio e medo, que logo se
transformaram em desespero; começou a chorar, e dessa
forma correu desajeitadamente para fora do quarto e
assim nunca mais seria visto naquelas terras.- Perdão,
Maria Cristina.- Sozinho, Miguel largou a espada,
cerrou os punhos e orou pela alma de sua esposa.

182
Restava o cavaleiro verde. Cavalcanti chegara para
ajudar Masamune e moveu-se com rapidez, furando
com suas lâminas diversos olhos das asas, às quais até
então o samurai não conseguira ter acesso. Em dois,
rodearam o inimigo feito um tufão retalhador e, quando
este tentava proteger suas asas de um, o outro as atingia.
Quando as asas foram destruídas que o cérebro e o
coração do demônio, em suas costas, ficaram enfim
acessíveis e puderam ser perfurados pelas adagas e
cortados pela katana: o gigante despencou diante dos
olhos dos cruzados, Masamune ofegante e com sua
melancolia abalada e o toscano mais estável, porém
todo salpicado de sangue.
- Obrigado. Você já não é mais um aprendiz.- O
guerreiro da terra do sol-nascente agradeceu, recebendo
primeiro um discreto sorriso e depois tendo o ombro do
companheiro para se apoiar.
- Ele era mais forte do que você mediu; percebi isso no
começo. Mas não gosto de interferir.
- Tudo tinha que acontecer como aconteceu, de acordo
com a vontade de Deus. Da próxima vez serei mais
atento e cuidadoso.
- Não se cobre tanto. O que sei aprendi com você e
demos o nosso melhor hoje.
- Não posso me permitir erros tão primários. Fui um
mau exemplo. Menos mal que não precisa mais de um
professor, Cavalcanti. Já é seu próprio mestre.
Com a morte de Henrique, os demônios que evocara
foram se dissipando e Burgos recuperando a paz.
Miguel reapareceria para abraçar seus novos amigos, a
única família que lhe restara, e em Castela alguns dias
depois seria coroado um primo do falecido rei,

183
cerimônia para a qual o cruzado foi convidado, porém
fez questão de não comparecer.

Passado – III

- É um rapazinho lindo! Só que um tanto estranho.


Difícil uma criança gostar de ficar isolada desse jeito.
Guido não vai tomar alguma providência?- Em uma
festa de famílias florentinas tradicionais no palácio dos
Cavalcanti, Francesca Uberti, irmã do secretário do
povo Guido Cavalcanti, agora porém casada com
Bernardo Uberti, comentava com a esposa do
governante de Florença, Beatrice, preocupada com seu
sobrinho. Apesar de querer passar maturidade, “Cesca”,
com apenas vinte anos, não conseguia esconder seu ar
pueril, com grandes olhos azuis intranqüilos e uma
agitação constante nos gestos e na voz. Bem diferente
da esposa do dirigente da cidade, que com seus trinta
anos, calma e elegante, de cabelos ruivos e semblante
sereno, mostrava ser mais capaz de amar do que de
temer.- É tão diferente de Cesare, apesar de terem
nascido no mesmo dia e serem tão parecidos
fisicamente! Seria difícil distinguir um do outro não
fosse pelo jeito de olhar e de andar, que é tão
diferenciado. É fascinante, estranho e surpreendente.
- Gêmeos não deixam de ser seres humanos diferentes.
E os meus filhos têm o mesmo valor, manifestado de
formas distintas. Enquanto Cesare é extrovertido, e até
já flerta com algumas garotas, Lorenzo é tímido,
reservado e prefere a arte a agitações e eventos festivos.
- Um dará um bom padre, o outro um cavaleiro
corajoso.

184
- Ainda não tenho idéia do que serão e nem me
interessa saber no momento. Quero que vivam o
presente e aproveitem da melhor maneira o que são e o
que têm a seu dispor. Não precisam sofrer para se
enquadrar em nada.- Naquele mesmo dia, Lorenzo, aos
seus quinze anos, fora sozinho visitar alguns pontos de
sua cidade: em Santa Reparata, ficara encantado com o
pavimento paleocristão, tentando evocar como teriam
sido os tempos das perseguições romanas e refletindo
com pesar se depois os cristãos não teriam agido por
vingança ao invés de ler o Evangelho de forma atenta;
depois passara pela igreja de Sant’Apollinare e pele
Torre della Pagliazza, escutando ecos das mortes dos
tempos da guerra gótica. Com tão pouca idade, sofria
para permanecer no presente, atraído pelo passado e
preocupado com o futuro. Cesare o seguira e o
surpreendera sentado na êxedra da base da torre:
- O que está fazendo aqui, irmão? A vida é curta! O que
vai ganhar parado pensando, enquanto a cidade
fervilha? Deixe disso!- Na aparência eram realmente
gêmeos idênticos.
- Por que você me seguiu?- Surpreso, o garoto
geralmente calmo pareceu um tanto perturbado.
- O que tem de mais? Só achei que era melhor não
deixar o meu irmão caçula sozinho por aí.
- Não sou o caçula...Somos gêmeos. Ou você se
esqueceu?
- Calma, não tô dizendo que sou responsável por você
nem nada do tipo. É só preocupação natural de irmão.
Apesar de eu ter nascido uns segundinhos antes!
- Achei que tivesse uma memória tão curta quanto a sua
paciência pra qualquer questão mais profunda.-
Conformado após algum tempo da chegada de Cesare,

185
sem estar com raiva mas ainda sem conseguir sorrir,
Lorenzo se levantou.
- Quer dizer que veio aqui refletir? Mas não tem
ninguém. A menos que esteja vendo algum filósofo
fantasma. Sabe qual a minha preocupação? Que você
fosse parar em algum prostíbulo e pegasse sífilis, ou
algo pior. O nosso pai é bom demais pra merecer isso!
- Você é um fanfarrão. Se tem alguém aqui que poderia
fazer uma besteira dessas, não sou eu.
- Aonde você vai?
- Pra onde os meus pés me levarem...E você?
- Vou atrás de você.
- Achei que tinha um irmão, não uma sombra.-
Algumas diferenças podiam ser notadas ao se estudar os
irmãos com a atenção que mereciam, físicas no caso dos
cabelos bem penteados de Lorenzo e nos revoltos de
Cesare, quase físicas nos olhos travessos do segundo e
nos de falsa quietude do primeiro; quando crianças,
gostavam de se divertir na cozinha quando Maria, a
cozinheira do palácio, preparava biscoitos ou bolos,
Cesare se escondendo em meio às panelas e terrinas
para roubar os restos da massa crua dos pães e doces,
enquanto Lorenzo esperava recebê-los à mesa. A serva,
uma senhora gorda e simpática, perdia as estribeiras ao
flagrar o gêmeo levado colocando as mãos nos
recipientes antes da hora.
- Amanhã vamos ter a missa de sétimo dia do vovô.
Lembrando muito dele? É o que está te incomodando?-
Outro detalhe: Lorenzo era taciturno e preferia observar,
em contraste com seu irmão loquaz e não tão atento ao
que ocorria à sua volta, tanto que enquanto caminhavam
pelas ruas de Florença tropeçou em uma pedra e quase

186
foi ao chão; isso mudaria um pouco alguns anos depois,
afinal Cesare se forçaria a ser mais atento.
- Não tem a ver com o vovô. Sabe, pode ser que no dia
do funeral o espírito ainda esteja próximo do corpo e
longe do Paraíso...Ou do Inferno, dependendo da alma.
Mas depois de sete dias, acredito que não. Estou certo
que é uma data significativa mais para os vivos do que
para os mortos. Para eles o tempo não existe mais; têm a
eternidade à disposição, seja no sofrimento ou na
beatitude.
- Estamos falando do vovô. Não pode ser no
sofrimento!
- Não sei. E os opositores que ele mandou matar?-
Abaixou o volume da voz.- Alberigo, Ugolino...
- Isso faz parte da política. Se não fizesse isso, ele que
teria sido assassinado. Aqueles eram conspiradores
covardes, e na política quem não faz esse tipo de coisa
não consegue governar, é a realidade. Se não entende
isso, melhor entrar pra igreja.
- Na Igreja não é tão diferente assim. Muitos padres e
cardeais também são políticos.
- Fala num tom de desprezo terrível. Por que odeia
tanto a política?
- Não odeio a política. Só acho que poderia ser de outro
jeito...Mais humano e cristão. Não como fazem as
manadas de lobos pra decidir o líder; talvez até elas
sejam mais civilizadas.
- Você é muito moleque pra entender dessas coisas.
- Não sou moleque pra ler Platão.
- Platão! Um sujeito que falava que existe um mundo
só de idéias? É muita imaginação pro meu gosto. Não
existe perfeição...Existe o que vemos.
- E Deus seria imperfeito?

187
- Não sei. Deixo essas questões pros teólogos. Mas
acho que sim, ou o mundo seria perfeito. Acredito que
ele mude junto conosco e com a natureza.
- Se ele é imperfeito, o Paraíso, uma condição de
beatitude perfeita, não deveria existir.
- E quem disse que existe? Talvez por isso que os
corpos e as almas tenham que esperar pelo Juízo Final,
porque nem Deus e nem o Paraíso estão prontos. Até lá,
tudo o que resta é dormir. Mas enquanto não formos
acordados pelas trombetas dos anjos, vamos vivendo
aqui. Me fala então: se não era o vovô, o que é que tá te
incomodando?
- Nada em específico. Ainda não percebeu que sou
assim?
- Claro, mas sempre penso que deve existir um motivo.
Foi o fora que a Giulia Farinata te deu?
- Besteira. Eu só tinha catorze anos e ela tem dezoito e
está noiva.
- Foi só há um ano atrás...- E na manhã seguinte
estavam na missa de sétimo dia, Lorenzo já com
algumas reflexões a respeito da Igreja: “Formalidades
para o masoquismo dos vivos ou para a glória dos
mortos? Muitos dos que vêm, chegam de má-vontade,
por pura obrigação. Uma atitude desse tipo seria capaz
de agilizar a passagem pelo Purgatório? Se a Igreja luta
contra os demônios, isso quer dizer que ainda tem nela a
semente do Salvador; só que é muito pouco para uma
instituição que deveria ser como a lua, acolhendo a Luz
de Deus como a lua acolhe a luz do sol; uma Igreja
parcial não é o que Jesus buscava ao ser crucificado.
Penso que ele queria fixar as bases para uma reforma
geral a partir da primeira pedra, e não é o que vemos. Se
não foi por isso, por que o Cristo teve que morrer? Li a

188
interpretação de Gregório, o Grande, segundo a qual
dessa maneira o Diabo foi enganado, pois quando o
homem se tornou prisioneiro do Demônio este se
transformou no senhor deste mundo, e como Deus
poderia tomar de volta suas criaturas, presas na teia do
Maligno? A única maneira foi enviando seu pescador,
que também era seu filho, e sacrificando-o em troca da
alma humana, redimindo-a; a trapaça, o engano, está no
fato de Deus ter recuperado a humanidade dando o
Cristo ao Diabo, que acreditou ter obtido a maior vitória
de sua existência; porém o Demônio não pôde
aprisionar Jesus, que é um ser superior, incorruptível, e
dessa forma ocorreu o engano. Não sei se consigo
acreditar se Deus precisaria de tantos estratagemas para
ludibriar o que no fundo é só mais uma de suas
criaturas, e ainda por cima decaída, degenerada, a
menos que Deus seja um grande brincalhão, um sarrista.
Aqui há uma imagem bem ligada a essa idéia, esse
afresco de Deus pescando: se for olhar bem, o anzol tem
a forma aproximada de um crucifixo e a isca é uma
hóstia, ou seja, o corpo de Cristo, a ser a apanhado pelo
Demônio, que aqui seria um peixe, o Leviatã. É bem
interessante observar: o Diabo, isso concebo como uma
verdade, vive dentro de nós, em nossas profundezas, e é
por isso que as criaturas do mal se materializam e se
manifestam: porque damos as iscas, que são nossos
pecados, sendo que ao invés de pescar o peixe caímos
junto com ele nas águas mais escuras, onde vive a noite
do Ontem, do anterior à Criação, no abismo das trevas
em que não há luz. Gregório não viveu para ver que o
homem ainda não está redimido, ou não teríamos os
piores crimes e os piores monstros à solta. Além do
mais, Deus não é trapaceiro. Lembro de outra teoria,

189
segundo a qual o Criador teria ficado tão ofendido pelo
equívoco de Adão e Eva que uma redenção se tornou
necessária, a única possível só podendo vir do próprio
Deus, já que o homem é pequeno demais. Dessa forma
Ele se fez homem para que a espécie humana pudesse se
redimir com seu Criador através do próprio, o Cristo
não recebendo nenhuma compensação por isso, apenas
os homens, mas é uma teoria falha, pois o mal continua
a existir; não recebemos tantas compensações assim:
dessa vez Deus não é um enganador comparável a
Prometeu, tendo enganado o Demônio como o titã fez
com Zeus, afinal é o que parece na teoria de Gregório,
como se o Diabo fosse o Deus supremo e não o
contrário; pode-se dizer que a compensação está em
sermos outra vez dignos do Paraíso, mas recompensas
após a morte são uma realidade ou uma ficção distante e
vaga demais, que não nos auxilia a sermos melhores no
dia a dia. Então por que Cristo foi crucificado? A minha
resposta é que isso aconteceu para que um exemplo
moral nos fosse dado, para que nunca nos abatêssemos e
perdêssemos nossa fé mesmo nas piores situações,
sendo portanto dignos da Ressurreição, seja no sentido
profano, a cada dia superando novos obstáculos internos
e externos, seja no sentido sagrado, ao nos
aproximarmos pouco a pouco de Deus em um mundo
que dele se distancia por livre-arbítrio. Cesare prefere
nem pensar nessas coisas...A política será o campo de
ação dele, estou certo disso. É o primogênito; e eu sou o
caçula, embora admitir isso por fora fira o meu orgulho.
Que besteira! Como se a ordem do nascimento, e no
nosso caso alguns segundos ou minutos, determinasse
superiores e inferiores! Mas é assim que funciona nas
famílias, e a política é uma convivência familiar em

190
maior escala. Na famílias também temos os nossos
Judas; e na política quem não segue certos interesses é
forçado a lidar com esses traidores, que muitas vezes
comem em nossas mesas. Na Última Ceia, quando Jesus
tomou o pão, disse que ali estava o traidor. Mais do que
uma profecia, vejo isso como uma missão: sem o
traidor, não haveria Cristo; simples assim. Da mesma
forma, o político que não sabe lidar com seus
antagonistas, principalmente com os que comem à sua
mesa, que não se faz temer por eles, não alcançará o
reconhecimento. Claro que a situação é bem diferente,
que enquanto um se movia pelo amor os outros se
movem pelo medo; de todo modo são no entanto
encargos precisos. De nada adianta se revoltar e querer
apedrejar o traidor; no nosso mundo não há luz sem
sombra, e os demônios são as sombras dos anjos: nunca
se igualarão, nunca alcançarão seu esplendor e nem
terão a mesma vida, mas os acompanharão pela
eternidade, sempre ao lado, queiram ou não os
mensageiros divinos; e o mesmo se estende aos
humanos. Gosto de observar as pinturas dessa igreja:
algumas delas enunciam bem como não se pode separar
luz e sombras, vida e dor ou morte, no caso esta como
algo secundário porque acarreta em sofrimento, se não
sei para os que a recebem, ao menos para os que ficam,
opondo-se à vontade de viver que implica na busca pela
felicidade. Uma das minhas artes preferidas é esta de
Nossa Senhora ajoelhada em prece, da janela vindo uma
luminosidade sobre a qual vem descendo até ela o
menino Jesus já crucificado. É uma imagem sublime: a
criança, o início da vida do Salvador, e a cruz, que
representa sua morte; tudo em uma única imagem,
entrelaçada à sua mãe. Não me agrada a idéia de uma

191
aceitação passiva da dor, mas compreender que ela
existe e trabalhar por sua transformação constante deve
ser a nossa missão neste vale de lágrimas. A cruz tem
dois sentidos, duas direções, e Deus não foi tolo ao
permitir que por “acaso” os romanos a utilizassem para
o martírio de seus condenados; são duas faces, uma
vertical, que aponta para o alto, para a transcendência,
para o Criador; e outra horizontal, que indica o caminho
a se seguir no mundo, reto e sem elevações ou quedas,
que por sua vez se encontram no sentido vertical, ao se
fazer o caminho contrário à transcendência. Na estrada
do mundo, percorre-se a Criação e é possível ir para
frente e para trás, para o futuro e para o passado,
construindo o que está por vir mas com a memória
constantemente embasando nossas ações e nos fazendo
compreender que a vida é uma unidade, que o que
“passou” só vai passar realmente quando a morte
chegar, e talvez nem depois dela, porque os braços da
cruz devem poder se estender; prefiro os braços iguais,
ou infinitos. É tão complicado assim aceitar que somos
carne e que para superar não se deve negar? A
crucificação não é uma negação da vida e sim uma
afirmação de todos os seus aspectos, com Deus nos
abandonando nos instantes em que viramos as costas
para a totalidade. A cruz é o todo e por isso, também na
forma da espada, é o símbolo que atormenta os
demônios, que são criaturas que aceitam apenas o
parcial e temem a entrega, com o máximo receio de
perderem as individualidades que julgam tão preciosas,
mas que os fazem sofrer pela separação da natureza, que
se move sem restrições de cores e com centenas de
tonalidades. O mundo não é tão pequeno quanto os
sofredores imaginam...”, e se Lorenzo não se focava na

192
missa, preocupado com questões filosóficas e
metafísicas, Cesare se imaginava entrando ali algum dia
como cônsul ou mesmo como secretário do povo,
orgulhando seu pai, que teria a essa altura todos os
cabelos brancos, não somente alguns fios, ao passo que
via seu irmão como o padre que celebraria um ritual
alegre, sem peso, envolvendo a igreja com uma
sacralidade serena e de felicidade sublimada,
transformando água em vinho, não de falso silêncio:
“Os que abocanham o pão e bebem o vinho o fazem
pensando na mercearia, na espada ou em alguma
história maliciosa; inclusive eu. Será que é assim que se
deve conduzir uma homenagem a Deus? Sou a favor
não de missas para os mortos, mas para os primeiros
sete dias de uma criança.”, refletiu o “primogênito” dos
gêmeos, que admirava e compreendia a quietude do
“caçula” a despeito de suas brincadeiras; costumava se
lembrar da infância com freqüência, o que lhe trazia à
boca um gosto bom de massa crua de bolo, suas fugas
da cozinha; ou quando se reuniam em grupos com as
crianças de outras famílias e iam brincar na rua cada um
com seu pião, sempre observados por algum adulto
porque em outros tempos haviam sido comuns brigas
entre “valentõezinhos” que não aceitavam suas derrotas
de forma nenhuma. Uma vez, das poucas maldades que
o “mais velho” se lembrava de seu irmão, Lorenzo
jogara um pedaço de pizza em um gato de rua, com toda
a força, isso porque o pequeno felino, medroso e
desconfiado, que vivia passeando pelo bairro, sempre
fugia quando os via. O ato criminoso, é claro, fora
instigado por Cesare: “Gato chato. Joga a pizza nele pra
ele aprender!”, e lá se foram a massa e o queijo, para a
revolta de Maria, que tivera tanto trabalho cozinhando, e

193
o riso dos dois peraltas, que depois levaram algumas
palmadas da avó, uma amante dos animais que
costumava acolher cães e gatos de rua nos jardins do
palácio dos Cavalcanti e lhes dar de comer e um lugar
onde dormir ao menos por algumas noites, com
freqüência compactuando com os netos, que não diziam
nada a Guido, que de repente via um cão cheio de sarnas
passar debaixo dos seus pés...Fora justamente por gostar
tanto de bichos que Lorenzo tentara atrair a atenção do
gato a qualquer custo, mas daquele dia em diante não
tomaria mais medidas tão extremas! Cesare, por seu
lado, já sentira prazer em chutar a bola de couro que
recebera de presente dos pais nas costas de seu irmão
quando este se virara...
Os dois se entendiam bem, apesar das peculiaridades
de cada um. Diferentemente do que pensava Francesca
Uberti, que via em Lorenzo um garoto estranho e cheio
de manias, Cesare o interpretava como sendo um tipo
inteligente demais, em especial no que dizia respeito ao
lado especulativo do ser humano e às mais
aparentemente insensatas elucubrações, que porém
qualquer indivíduo, exceto os muito burros, elabora uma
vez ou outra na vida, embora poucos com sofisticação e
requinte, e seria essa a principal diferença entre os
homens comuns e os filósofos, os amantes do saber,
capazes de questionar o simples fato de se ter um nome
ou, indo mais fundo, de se ter um rosto, e exatamente o
rosto que aparece no espelho. Por que não outro? “A tia
Cesca poderia se chamar Antonietta e ter a cara do tio
Fabio! Não...Não vou tão longe assim; apesar que nunca
se sabe!”, troçava consigo mesmo, ciente da sua
inteligência ser de outro tipo. O gêmeo taciturno às
vezes intrigava o pai, que pensava se ele não se sentia

194
tentado a falar como o santo mais casto é tentado a atos
lúbricos pelas visões de belas mulheres que o Diabo
envia. A mãe compreendia que o rapaz preferia o
diálogo solitário e, após uma conversa com a esposa,
Guido Cavalcanti, um homem de passos firmes sem
serem pesados, bastante robusto, que durante a primeira
infância parecera um gigante a Lorenzo e o próprio
Deus a Cesare, com o primeiro se escondendo atrás de
qualquer porta quando o pai ficava bravo, ao ser
encontrado permitindo-lhe recuperar o bom-humor,
levando-o a dar boas gargalhadas, e o segundo sempre
escutando com fascínio seus discursos à mesa (se havia
algo que o secretário gostava de fazer no almoço e no
jantar, além de comer macarrão e almôndegas e beber
um bom vinho, era falar sobre política com a esposa e
os rebentos) e prestando a devida atenção, ao passo que
seu irmão divagava com os insetos e outros pequenos
animais que passavam no jardim onde costumavam
fazer as refeições ao ar livre, chegara à conclusão que o
“caçula” devia ter vocação religiosa, carregando em si o
silêncio típico dos claustros. O rapaz chegou aos vinte e
vinha patrocinando as artes no palácio de sua família,
trazendo pintores, escultores e poetas de rua que lhe
pareciam ter valor e tornando-os cortesãos, além de
tocar flauta de uma forma magistral e compor canções,
às vezes se apresentando com alguns menestréis amigos
seus em praça pública, embora só quando tinha vontade,
sem datas marcadas, quando Guido resolveu abordá-lo
sobre seu ponto de vista. Por dentro, apesar do prazer
estético momentâneo proporcionado pela arte, não sabia
o que era felicidade. E refletia que nunca compreenderia
como as pessoas podiam simplesmente sorrir e cantar
sem motivo aparente. O instante de êxito vinha e

195
passava; os aplausos dos admiradores e os suspiros das
jovens fascinadas por sua música e suas letras,
contemporâneos ao surgimento da inveja, não o atraíam
de forma nenhuma; naqueles tempos, Cesare já se
deitara com quase todas as fãs do irmão, algumas vezes
passando-se por este, em outras se aproveitando da
inacessibilidade do outro e seduzindo-as; também
contratava com freqüência capangas para se divertir
espancando os invejosos explícitos, que muitas vezes
tentavam sabotar as apresentações do Cavalcanti, e fazia
propaganda por toda a cidade, espalhando cartazes de
divulgação quando Lorenzo lhe confidenciava que iria
se apresentar (e sabia que era o irmão quem espalhava a
informação por toda a cidade e mesmo assim falava “em
sigilo”, pensando se algum dia não deveria pregar uma
peça em Cesare, mas não era cruel o suficiente para
isso). Fato que o “caçula” dificilmente se apresentava
em círculos fechados, tendo asco da alta-burguesia
florentina, ao passo que o “primogênito” adorava as
festas, começando por beijar as mãos das burguesinhas
e logo subindo um pouco mais, além de ser apresentado
e se apresentar a banqueiros, comerciantes ricos e fazer
as vezes de guia e jovem embaixador para os visitantes
de elite de outras cidades e reinos, o que deixava seu pai
orgulhoso e certo que este seria o filho a sucedê-lo
politicamente. Contudo, Lorenzo também devia ter um
destino luminoso:
- Vejo que está sempre isolado. Não tem amigos
próximos além do seu irmão. Não compartilha da
boemia da maioria dos artistas da nossa cidade,
incluindo aqueles para os quais se tornou um jovem
mecenas. Por acaso isso seria um indicativo que tem
sede de Deus?

196
- Não sei o que é, meu pai. Se soubesse explicar para
mim mesmo, talvez seria feliz.
- Quer dizer que é infeliz, meu filho? Mesmo tendo
uma vida que tantos pediriam a Deus?
- Os seres humanos são diferentes, e suas necessidades
idem. Tantos pediriam, mas não todos. Se eu não a
tivesse, acredito que de todo modo seria uma das
exceções. Tenho sede de Deus, nisso o senhor está
certo, no sentido que quero compreendê-lo e não
consigo. Não se trata, no entanto, da raiz da minha
solidão. Há uma verdade mais profunda.
- Por acaso não gostaria de entrar para a Igreja?
- E viver uma vida de inseto em gaiola, preso em um
espaço tão pequeno?
- Nem todos os religiosos são monges. Como padre,
poderia de todo modo patrocinar as artes. Há diversos
cardeais e bispos que são mecenas. E não precisaria
chegar a essa hierarquia, conquanto eu acredite que seja
capaz, porque nós o ajudaríamos.- Lorenzo silenciou,
algo que seu pai temera que aconteceria; ainda não
estava certo se queria ser casto, apesar do casamento lhe
parecer uma provação, “onde há mais sacrifícios do que
prazeres, sendo um equívoco pensar no êxito de um
matrimônio arranjado, envolvendo duas pessoas que
podem ter gostos e temperamentos opostos, e da mesma
forma na união por amor, pois a paixão costuma acabar
depois de dois anos no máximo, e a partir daí são puros
testes de paciência que desmancham a pequena ou
grande amizade existente.” Talvez não fosse má idéia
ficar sozinho; entrementes, ruminava os motivos de
Guido querê-lo sacerdote, um bastante evidente: devido
aos conflitos entre guelfos e guibelinos no passado,
facções que tinham sido extintas, membros da Igreja

197
estavam proibidos de participar da política em Florença;
dessa maneira, não haveria o menor risco de ocorrer
uma disputa entre os irmãos, sendo que o pai já
escolhera seu sucessor. Lorenzo pensou que não deveria
se sentir ofendido pelas escolhas e concepções de seu
pai; mesmo assim ficou magoado, imaginando que este
considerava a política superior à arte e à fé.
- Gosto de ajudar as pessoas, em especial as que têm
algo a mostrar ao mundo e o mundo não se mostra a
princípio disposto a ouvi-las. Acredito que não teria na
Igreja a mesma liberdade de ação e pensamento que
tenho sendo um burguês.
- Há muitos padres que cultivam posições
independentes e a Igreja não os persegue a menos que
divulguem uma heresia nociva, o que não me parece que
será o seu caso.
- O que eles julgam como algo nocivo está fora da
minha alçada. Por enquanto prefiro permanecer apenas
como um patrocinador das artes.- E permaneceria em
sua posição até numa noite, em uma festa da qual
inicialmente não queria participar, depois acabando por
descer, encontrar o recém-chegado em Florença Tomás
de Torquemada, um dos mais importantes padres
vermelhos.
- Para o reverendo tenho um anfitrião melhor...- Cesare
disse ao sacerdote ao avistar Lorenzo.- Tenho certeza
que se darão bem!- E as primeiras impressões foram
opostas: enquanto o rapaz ficara quase que terrificado
por aquela feição pétrea, pensando em desistir e fugir de
volta para os seus aposentos, Torquemada no ato
reconhecera no olhar do jovem homem, que agora
estava com seus vinte e cinco anos, os sentimentos que
procurava.

198
O terror inspirado pelo sacerdote vermelho não se
devia apenas à sua aparência, e sim às leituras que o
rapaz vinha fazendo e pelas resistências cada vez
maiores que nutria em relação ao clero romano. Como
poderia se tornar um prelado, como seu pai sugerira, se
tinha ojeriza a certos métodos eclesiásticos? Sua leitura
mais recente fora O Martelo das Bruxas, que logo no
início explicava que as bruxas de classe superior se
banqueteavam com crianças, algo contrário até mesmo à
natureza bestial:
“(...) São da pior espécie de bruxas, pois arrastam
consigo desgraças e causam aos seus semelhantes danos
incomensuráveis. Estas criaturas corrompidas conjuram
e manifestam o granizo, tormentas e tempestades,
provocam a esterilidade nas pessoas, nos animais e nos
campos, oferecem a Satanás o sacrifício de meninos e
meninas que elas mesmas devoram, arrancando-lhes a
vida com brutalidade. Claro está que nestes casos se
tratam quase sempre de crianças não batizadas; se
alguma vez chegam a engolir os batizados, o fazem,
como mais tarde explicaremos, com a permissão de
Deus (...) Podem também estas bruxas atirar os infantes
à água diante dos olhos dos pais, sem que ninguém o
note; assustar cavalos; empreender vôos corporalmente
e se transportarem assim pelos ares de um lugar para o
outro. São capazes de enfeitiçar os juízes e presidentes
dos tribunais como de manter um inviolável silêncio
individual e o de outros acusados; sabem infundir no
coração e nas mãos de quem se dispõe a descobri-las
uma angústia paralisante; e têm, por fim, poder para
descobrir os segredos mais íntimos e para predizer o
futuro com a ajuda do Demônio. Os olhos destas
mulheres possuem a virtude de ver o ausente como se

199
estivesse presente; entre as suas artes está a de inspirar
ódio e amor desatinados, de acordo com a sua
conveniência; quando querem, podem dirigir contra
uma pessoa descargas elétricas e fazer com que o
choque lhe tire a vida, assim como são capazes de matar
pessoas e animais por outros vários procedimentos.
Conseguem evocar os poderes infernais para arruinar os
casamentos e tornar os homens estéreis, causar abortos
ou tirar a vida ao rebento no ventre de sua mãe com tão
só um único toque externo; chegam a ferir ou matar com
um simples olhar, sem contato físico, e tornam a
aberração extrema ao oferecerem seus próprios filhos a
Satanás.”, Lorenzo não duvidava que bruxas existissem,
mas teriam tanto poder assim? Da maneira como os
tribunais da Igreja as apresentavam, deviam ser deusas
quase onipotentes. Se assim fossem, como se
permitiriam ser capturadas? Quem teria força para
prendê-las? Nem mesmo os cruzados! O que seria dos
“pobres” juízes? Estariam todos mortos. Se as bruxas
fossem todas más, também não existiriam mais
crianças! Menos mal que nesse aspecto Florença era
realmente uma ilha, não ocorrendo nesta magnífica
cidade uma caça paranóica a mulheres “suspeitas”. Via
nas atitudes dos padres uma misoginia gritante,
estimulada por uma “castidade” que acabava por
suscitar as fantasias mais sujas e horripilantes, como
quando obrigavam as supostas bruxas a confessar em
detalhes suas relações sexuais com os demônios e a
descrever o “membro grande e frio” do Diabo. Havia
até, em alguns casos, uma sodomia disfarçada que
ficava evidente no fetiche pelo aparato sexual de
Satanás! O livro prosseguia: “Em poucas palavras:
podem estas bruxas, como antes declaramos, originar

200
um cúmulo de danos e perdição que só parcialmente
estaria ao alcance do vulgo. Bem entendido que tudo
isso fazem com a permissão da justiça divina, que
castiga a humanidade por seus pecados deixando que
elas causam catástrofes. (...) Algo que todas têm em
comum, tanto as de categoria superior como as mais
baixas, é a de terem estipulado um pacto, e vamos
esclarecer, não um trato qualquer, e sim com o próprio
Demônio e seus súcubos e íncubos mediante ato carnal
e os bacanais mais abjetos. Pode concretamente suceder,
por virtude de feitiçaria, que um bruxo ou uma bruxa ao
contemplar o corpo de um rapaz o excite com um só
olhar pelo fato de estarem carregados, os magos e as
feiticeiras, com influxos lascivos de tremenda
intensidade. Como estes influxos costumam se traduzir
em transformações corporais e os olhos são tão
sensíveis que captam as menores impressões, não é raro
que por efeito de uma emoção íntima os próprios olhos
da vítima sejam afetados e fiquem em mau estado,
sendo comuns os sintomas de ardência, o que pode se
espalhar, assim como a lascívia, pois o olhar
impregnado vai se estendendo para o ambiente ao redor
e propagando assim o êxito da vontade da bruxa ou do
mago. Então é quando o ambiente origina uma
transformação destrutiva nos olhos infantis, que a
transmitem a outras partes e órgãos internos, o que está
claramente demonstrado pela experiência, já que muitas
vezes temos visto e vemos que uma pessoa vítima de
alguma doença ocular infecta com um só olhar aqueles
que a contemplam, especialmente os infantes. Através
assim do desejo carnal, são provocadas as mortes de
meninos. (...) Escrevam-se as sete palavras que Cristo
pronunciou na cruz e que sejam gravadas em qualquer

201
objeto que portarem, estando assim os juízes e os
homens justos protegidos da bruxaria. Quando chegar a
hora de julgá-las, enrolem em seus corpos nus correntes
com estas mesmas palavras fixadas: a experiência
demonstrou que estes seres nefastos se sentem então
estranhamente inquietos e propícios portanto à
confissão. Contudo, se com tudo isso se obstinarem em
guardar silêncio e negar sua culpa, pode-se recorrer à
intimidação de um longo e duro encarceramento. E
ainda resta o recurso extremo: que o juiz visite a
acusada na prisão e prometa influir para conseguir
clemência, fazendo no entanto a reserva de que esta será
obtida no Purgatório, já que na Terra certos pecados não
podem ser perdoados.”, gravar palavras em objetos não
seria magia? E estas poderiam deter seres tão poderosos
com tamanha simplicidade? O que parecia claro era na
verdade confuso e obscuro. “Não é lícito tomar em
conta as preferências do acusado ao escolher um
defensor, nem este deve tomar uma causa para si antes
de tê-la examinado com detalhes e ter persuadido a si
mesmo de sua justiça. O juiz deverá exortá-lo a que se
preserve de incorrer em cumplicidade de heresia e
sectarismo, cumplicidade da qual já se tornaria culpado
só pelo fato de aceitar sem desconfianças a defesa de
uma pessoa suspeita de heresia. Também o juiz terá que
tomar cuidado com a família e os sucessores das bruxas
detidas ou executadas na fogueira, devido à freqüência
com que uns e outros buscam vingança e se entregam às
mesmas práticas. Os parentes de um herege são sempre
suspeitos de heresia pela mera circunstância do
parentesco. (...) Abundam por certo indivíduos
superficiais, que recusam sistematicamente as
declarações de mulheres que cultivam alguma inimizade

202
com as acusadas por supor que não merecem crédito,
guiadas por seu ódio cego e não pela realidade dos
fatos. Quão pouco conhece essa gente a cautela, a
sutileza, a perspicácia e a discrição dos juízes! Todos os
testemunhos devem ser levados ao tribunal, não há
acusação que deva passar sem ser investigada. Muitas
vezes, certos ódios e invejas irracionais na aparência são
motivados pelos maus fluidos que acompanham as
bruxas e que certas mulheres sensíveis a estes, por
serem também más embora não feiticeiras, conseguem
captar, provocando uma inexplicável ojeriza.”, na noite
que se seguira à leitura do Martelo, Lorenzo sonhara
com homens de capuzes cônicos escuros e vestes
brancas que torturavam crianças, arrancando-lhes as
tripas, e as entregavam a certos padres, que após
pisotearem seus crucifixos as colocavam em leitos de
mulheres mal-vistas para depois acusá-las de bruxaria;
na seqüência, visões de cemitérios e de uma Florença
devastada, entregue às chamas...Acordara encharcado
em suor.
- Entendo que não esteja de acordo com certos
métodos, filho. Mas eles são necessários para impedir
um mal maior.- Na noite de sua recepção na cidade,
Torquemada e o rapaz conversaram por algumas horas,
mesmo quando o resto das pessoas, pouco a pouco, se
retirava para dormir.
- Quer dizer que para cinco culpados que morrem,
outros cinco inocentes devem morrer para que esses
mesmos culpados não escapem?- Questionou.
- Exato. Não há outro meio. Vivemos em tempos
difíceis, nos quais o marido mata a mulher, que engana
o marido, que maltrata o filho, que surra a irmã, que
foge de casa e leva a mãe ao desespero.

203
- De todo modo, padre, acho que deveríamos ser mais
humanos. Ou algum dia ficaremos iguais aos demônios
que nos agridem.
- Se tem tanta vontade de mudar as coisas, por que não
entra para a Igreja?
- Como se um único homem, um simples homem,
pudesse alterar o corpo de Cristo...
- Se ele tiver Cristo dentro de si mesmo, por que não?
Poderia nos ensinar a sermos mais “humanos”.- Havia
na declaração de Torquemada, por trás da seriedade
aparente, uma forte carga de sarcasmo, cinismo e um
interesse pouco disfarçado. “Precisamos de um cruzado
como ele, para balancear o grupo.”, refletia.
- Gostaria de ajudar as pessoas a lutarem nessa guerra
interna e externa contra os demônios.
- Poderia se tornar um de nossos cruzados.- Por fim a
oferta direta; Lorenzo silenciou e um arrepio percorreu
sua espinha; engoliu seco.
- Não tenho nenhuma prática guerreira. Sei tocar flauta,
porém sou apenas regular no manejo da espada, mais
por brincadeira do que por outra coisa.
- Não importa. Nós o treinaremos e o sangue de Cristo
despertará as suas potencialidades ocultas.
- O senhor pensou nisso desde que me viu pela primeira
vez, não é? Em me fazer essa proposta...- Os dedos se
moviam de forma tensa; o medo do padre, que parecera
superado, voltou com força redobrada.
- Possui uma ótima intuição e uma capacidade de
observação notável. Isso será incrementado quando tiver
o sangue de Cristo. Logo que o avistei, percebi essa
característica, pois li o medo em seus olhos, o medo do
futuro, além de uma ternura rara de ser encontrada nos
cruzados.

204
- E por quê?
- Nossos guerreiros costumam vir de realidades
amargas, extremamente sofridas. Isso faz com que a
força e o poder os fascinem mais do que o coração, o
que acredito que não será o seu caso.
- Não sou tão bom assim. Agora admito que o poder
que surge à minha frente também me tenta. Pois sei que
poderei ajudar muitas pessoas com a força de um
cruzado. Ao mesmo tempo que terei que me afastar das
artes e de Florença.
- Todo presente de Deus implica em certos sacrifícios.
- Vou pensar. Me dê um tempo, padre.
- Não se preocupe. Terá uma semana; o tempo que irei
ficar em Florença.- E após a longa conversa vieram
diversas noites mal-dormidas, com seu leito repleto de
espinhos, nascidos de aflições e questionamentos: “Não
posso mudar a Igreja, mas pouco a pouco talvez mude
alguns indivíduos dentro dela. Terei a oportunidade de
salvar a vida de muitas pessoas. Isso por si deveria ser o
suficiente. Mas trabalhar para homens que me parecem
mais diabólicos do que santos? Ter que concordar com
livros como o Martelo? A minha autonomia sempre será
sagrada, independendo do que escolher.”, do seu modo
característico, foi dar a resposta a Torquemada na noite
anterior à partida deste, visitando-o na catedral da
cidade, onde estava hospedado, com um olhar calmo e
decidido, sem se render a um mero “sim” ou a um
simples “não”:
- Vou partir com o senhor.- E o padre vermelho
meneou discretamente a cabeça de cima para baixo, em
sinal de aprovação. Na manhã seguinte, foi a última vez
que Lorenzo viu seu pai, que sorria realizado, sem mais
receios a respeito da sucessão no governo da cidade, e

205
sua mãe, que o abraçou e o beijou na testa antes de lhe
fazer o sinal da cruz próximo do peito, cochichando em
seu ouvido:
- Estou muito orgulhosa de você. Mas se algum dia
quiser voltar, siga sempre o seu coração.
- Vamos nos ver de novo.- Entristecido, o irmão o
abraçou com um carinho intenso, e o “caçula” não
resistiu e derramou algumas lágrimas, assim como o
primogênito, que porém conseguia sorrir; além de tudo,
organizara uma despedida para Lorenzo com menestréis
e poetas de rua, que certamente sentiriam sua falta.- Não
fique tão preocupado. Vou cuidar deles de um jeito ou
de outro.- Cesare prometeu, e dessa forma se deu o fim
da vida profana de Lorenzo Cavalcanti.

Passado – IV

Uma aldeia amaldiçoada, onde a atividade dos medos


era tão terrível e intensa que engrossava cada vez mais,
como as águas de um rio subterrâneo. As lascas de
esperança caíam e desapareciam na profundidade, sendo
o terror maior do que quaisquer espécies de olhos,
capazes de fitar exclusiva e convulsivamente o medo e
as garras que estreitavam a galeria de alentos humanos.
O lugar era pobre, tão pobre que os frutos das árvores
não tinham quase suco nem mesmo na primavera, secos,
ossudos, seus caroços lembrando caveiras; não havia
dinheiro ou recursos para pagar um cruzado e portanto
quem dominava a cena era um demônio horrendo, que
todas as noites aparecia em alguma casa para cobrar
seus direitos: o pequeno Charles, filho de um moço e
uma jovem de palidez amaldiçoada aos olhos dos
ignorantes (e nada poderia ser feito a respeito disso, pois

206
não eram os únicos considerados amaldiçoados naquela
aldeia raquítica...), era quem mais agradava a criatura
das trevas por conter a delicadeza do corpo feminino,
feito uma menina bonita e esbelta, e o membro
masculino, que o excitava de forma brutal pelo tato e
pelo odor da substância leitosa que liberava. Ao menos
uma vez por semana possuía o pequeno hermafrodita,
que alcançara uma puberdade precoce e, para o espanto
de seus pais, menstruara, além de ter pouquíssimos
pêlos no corpo, que não demoravam a cair e tardavam a
crescer outra vez.
- É a maldição sobre este vilarejo, da qual inclusive
vocês fazem parte, ou acham que podem escapar do
horror do final dos tempos? A grande Babilônia cairá, o
Anticristo se aproxima e a Besta nascerá das Águas para
incendiar o mundo. Não enxergam os sinais?- Ao
consultarem o padre da Igreja local, obtiveram esta
resposta; o sacerdote, de batina negra rasgada, crucifixo
enferrujado e olhar perdido, parecendo estar sempre
com os olhos vidrados no horizonte, sem conseguir
encarar seus interlocutores, ficava a maior parte do
tempo enfurnado na única igreja da aldeia, que só abria
uma vez, ao meio-dia, para uma missa rápida de meia-
hora. Conquanto o demônio só aparecesse depois das
cinco da tarde, era bom tomar as devidas precauções
para não ofendê-lo.
- Por que as nossas peles e os nossos cabelos são assim,
diferentes dos outros, tão claras demais?- Certa ocasião
Charles questionou, enquanto almoçavam pedaços de
um queijo esquálido e de um pão macilento, sobre uma
mesa repleta de teias de aranha embaixo, ainda que as
aranhas já estivessem mortas, e em volta as paredes
repletas de mofo.

207
- Há muito tempo atrás, este lugar foi amaldiçoado
porque tínhamos recursos e fomos ávidos, não pagamos
à Igreja pelo extermínio de um demônio muito pior do
que esse que enfrentamos hoje. É uma história que seu
avô nos contava...- Explicou a mãe, de cabelos de
algodão e orelhas de pontas peroladas.- Pecamos pela
avareza. Queríamos tudo pra nós e nada para Cristo.
Dessa forma, a ira divina caiu sobre nós, recebemos
chuvas de fogo e água fervendo, as colheitas não
renderam mais e ao passar dos anos um novo demônio
se manifestou, sendo que não podemos pedir auxílio à
Igreja e aos seus cruzados porque não temos nada a
oferecer.
- Mas qual a relação disso com a cor da nossa pele? E
com o fato de sermos tão frágeis ao sol...
- Cada descendência recebeu uma maldição. A do seu
pai e a minha é a mesma porque somos primos. Caímos
portanto em outro pecado: nosso sangue se misturou.
Talvez por isso você tenha alguns problemas de menina
em um corpo de menino. Perdão, meu filho...- Ensaiou
um choro, porém aqueles olhos de aparência álgida
estavam frios e secos demais.
- Mas qual a nossa maldição?- O garoto exibia um
olhar conturbado.
- A luz do sol nos fazer mal, muito mal...Não somos
dignos da luz de Deus. Quanto mais no Paraíso; estamos
condenados ao Inferno já em vida. Quem não pode
receber a luz do sol, que dá a vida a este mundo, que
tipo de criatura pode ser? Fantasmas da noite e do
inverno; é o que nós somos. O nível mais profundo do
Inferno, o Cócito, é gelado ao extremo, formado pelas
lágrimas de Lúcifer.

208
Charles dormia encolhido, sempre sentindo muito frio,
como se o Cócito fosse uma recordação tremenda, a pior
das memórias da morte; quem havia lhe dito que morrer
pertencia ao futuro? A morte sequer se aproximava a
cada segundo, ela já estava ali e passara, e o pior era não
ter a esperança de um fim: o sofrimento prosseguiria
para além do que outros seres denominavam vida, algo
distante do que o jovem albino experienciava, do seu
ponto de vista um sonho, um devaneio carnal repleto de
calor e movimento que as pessoas criavam. Poderia o
ser humano ser considerado um ente distinto, feito “à
imagem e semelhança de Deus”? Um barro dotado com
a capacidade de sonhar? Para ele só havia gelo e garras,
as cobertas sujas nunca eram o bastante, o travesseiro
duro, e a perspectiva do pesadelo acordado o
atormentava quando o monstro vinha e retirava seus
lençóis, fazendo com que sentisse ainda mais frio ao
sobrepor seu corpo gelado. Onde estava o sol? Os
braços da cruz se estendiam e se curvavam em lâminas
hostis.
- Está vendo, garoto? Deus não pode fazer nada por
você! Uma criaturinha tão pequena, tão fraca e
patética...Seus dedos são ossinhos que morro de vontade
de roer a cada vez que os observo. E pode ficar certo
que isso chegará um dia, não vou mais me segurar, e
não pense que farei isso quando você estiver morto. A
carne viva é mais saborosa e quero sentir muito prazer,
vê-lo urrando de dor enquanto os meus dentes mastigam
as suas carninhas. E quando eu tiver terminado vou
meter em você pela última vez, será quase um cadáver,
o cheiro da minha saliva e do seu sangue se misturando,
a pele arrancada e seus ossos pra fora, roídos...Que
delícia! Você não vai precisar sentir mais nada...E irá

209
pro Inferno com um alívio nas entranhas, antes de gelar
no poço mais profundo, onde o imperador Lúcifer o
espera.- A criança urrava e se debatia, porém não havia
nada a ser feito; seus pais se mantinham distantes,
submissos. Qualquer movimento suspeito seria motivo
para que a criatura se virasse e, com um único golpe de
seu braço vermelho e musculoso, terminado em garras
de leão, suas cabeças fossem arrancadas. Tinha um
corpo bastante peludo que lembrava um gorila, embora
rubro, olhos cor de âmbar e a cabeça calva e de
expressão apavorada com uma boca e um nariz
minúsculos. Afora as violências que cometia com
Charles, tinha o hábito de agredir idosos, pisoteando-os
com seus pés enormes quando iam ao chão, sendo que
passava dos dois metros de altura, e estuprava tanto
rapazes quanto moças, se bem que não lhe davam tanto
prazer quanto o pequeno albino andrógino, que por ter
escutado as histórias sobre os cruzados de seus pais, do
dia em que um destes exterminara um demônio e não
fora recompensado, ocasionando assim a maldição
sobre o vilarejo, ficava pensando em como devia ser
uma missão grandiosa, ajudando as pessoas,
protegendo-as, salvando-as dos monstros e dos hereges
que os atraíam. Se um dia fosse se tornar um, prometeu
a si mesmo que seria impiedoso com os seres das trevas,
humanos ou demônios, sua aldeia sendo a única
exceção. Se outra cometesse o erro de não recompensá-
lo e ele fosse um cruzado, mataria todos pelo próprio
bem de seus habitantes: melhor ir para o Purgatório do
que padecer de uma maldição. Um dia, era seu décimo
terceiro aniversário, resolveu fugir...

210
- Onde está?? Onde está o meu brinquedo?!- Furioso ao
notar a ausência de Charles, o monstro começou a
quebrar todos os objetos e pertences do pobre casal.
- Não sabemos! Ontem à noite ele estava
aqui...Desapareceu pela manhã...Procuramos por todas
as partes, mas nenhum sinal dele...- Balbuciou a mãe,
com o coração na garganta.
- Sinto que não estão mentindo. O que é mesmo muito
bom...Mas é ao mesmo tempo péssimo. Se o tivessem
deixado escapar, ou o estivessem escondendo, mataria
vocês agora. Só que como não foi o caso, vou dar um
dia e uma noite pra que reencontrem o meu brinquedo.
Não importa o jeito. Quero ele de volta. Vocês vão me
trazer ele de volta...- Misturava grunhidos e um rosnado
raivoso à linguagem humana; e desapareceu nas
sombras, com os pais empreendendo uma busca
desesperada nas horas seguintes, mais uma vez
consultando o padre:
- Não, ele não está escondido na minha igreja!
- Calma, padre...Não é a isso que nos referimos. Só
queremos uma ajuda.
- Não, não...E se estivesse, eu o teria entregado
pessoalmente ao demônio!
- Já dissemos...Não estamos insinuando nada. Apenas
queremos que nos ajude, que reze por nós.
- Meus filhos, a vida é curta e o sol não tarda a se pôr.
Para alguns já se pôs...Todas as coisas são trabalhosas.-
E fechou as portas para os pais angustiados, enquanto
Charles se metera na floresta da região e por dentro
pedia perdão aos dois: “Espero que entendam. Mas
preciso encontrar um cruzado. Tenho que me tornar um.
Ficando onde estava, morreria logo, seria assassinado, e
vocês não teriam um destino diferente...Viveriam só um

211
pouco mais. Mas se Deus me permitir, vou voltar e
salvar vocês...Talvez haja tempo. Tem que haver tempo!
A minha perna não está me obedecendo...”, o pé direito
começava a ficar dormente; a panturrilha formigava. O
esforço fora tremendo para se distanciar da aldeia o
máximo possível, correra como nunca, e como não
possuía nenhum preparo físico, pelo contrário, era frágil
e um tanto desnutrido, seu físico não suportava mais,
tentando engolir o ar enquanto este lhe escapava. A um
certo sentiu uma forte tontura e não pôde se segurar,
desmaiando sobre a terra e algumas folhagens.
Despertou de repente quando escutou que estava sendo
farejado; e não se tratava de alguma fera das
redondezas, de algum animal ordinário: apavorado,
percebeu que era um som de narinas que conhecia muito
bem, e que por isso reconhecera com presteza mesmo
sem estar acordado: o demônio o encontrara.
- Imaginei que você não poderia ter ido muito longe!- E
liberou uma gargalhada enquanto chegava perto.- Sorte
dos seus pais...O filhinho vai fazer um grande favor pra
eles!- O garoto ficou paralisado, sem poder fazer nada e
se sentindo mais fraco à medida que o monstro ia se
aproximando, o sol a castigar sua cabeça naquela
manhã, o calor pela primeira vez se impondo sobre o
frio, a ponto de se tornar insuportável. Sentiu um ódio
supremo, angustiante, e uma raiva desesperadora,
liberando um grito agudo de agonia e dor e cansaço
físicos.- Acha que adianta berrar? Acho que como
castigo chegou o dia de eu roer os seus ossinhos! Vou
encontrar outro melhor. Ou seria outra?- Em sua
imaginação, disparou contra o demônio e lhe desferiu
uma série de socos e chutes, afora perfurar sua garganta
com um graveto; na realidade, não se movia.

212
- Fraco demais para lidar com um adulto?- Uma voz
grave e majestosa interveio e uma lâmina voou para o
pescoço do demônio; após perfurá-lo, o corpo inteiro da
criatura pegou fogo. Charles ficou boquiaberto a
princípio, logo abrindo um imenso sorriso, rejubilando-
se, embora a preocupação por seus pais também
martelasse sua mente, ao se dar conta que seu destino
seria cumprido, que a maldição fora encerrada por sua
coragem e seu senso de sacrifício, rumando para o
mundo desconhecido e sacrificando até mesmo sua mãe
e seu pai, seus bens mais preciosos. Chegou a se ver por
um instante pendurado em uma cruz de ouro, e o metal
estava bem frio no contato com sua pele; o cruzado
despontou, o anjo que viera buscá-lo e que na realidade,
não em um sonho, estenderia uma escada rumo aos
céus: usava uma armadura dourada na frente, com o sol
no peitoral, e prateada nas costas, com a lua abaixo dos
ombros, uma capa branca, um rubi no centro do elmo
arredondado e tinha a pele quase tão clara quanto a sua,
mais rosada, os olhos típicos de um mar aquecido pelo
sol, os cabelos em cachos de ouro sedoso. Atirou-se
para abraçar suas pernas e o cavaleiro se desviou,
fazendo com que o menino enfraquecido caísse com a
cara no solo.
- Não pense que fiz isso por caridade, garoto. Apenas
não posso admitir que certos demônios infames se
considerem superiores ao ser humano.- Tornou a falar o
salvador, que, mesmo com uma postura que de tão
altiva chegava a ser ríspida, não podia deixar de
encantar Charles, que se levantou devagar.- Agora já
estou indo. Tenho uma missão a cumprir. Não sei onde
você vive e como veio parar no meio do mato, mas se
esse demônio atormentava a região e o perseguiu até

213
aqui, pode voltar e dizer aos seus conterrâneos que estão
livres e não precisam pagar nada.
- Eu fugi...Na verdade eu fugi.- Com esforço, o garoto
se levantou e fez a confissão.
- Fugiu de casa? Deixando onde morava à mercê do
monstro? Não é uma atitude digna de um homem.
- Eu sempre fui muito fraco, diferente do senhor. Que é
um cruzado, não é?
- Sou um cruzado. E tenho muito o que fazer...Coisas
mais importantes do que conversar com crianças
covardes.- Deu as costas ao garoto, que dessa vez foi
rápido e firme, agarrando-se à perna direita do
guerreiro.- O que está fazendo?
- Não quero que o senhor vá...Se o senhor for, quero
que me leve junto.
- E por que eu levaria você?
- Também quero ser um cruzado.
- Idiota, acha que é tão simples assim? Que fique bem
claro que a nossa vida é um inferno.
- Eu sempre vivi no Inferno...Só que era muito frio. E o
senhor é quente...- Após escutar essas palavras, o
cruzado teve um sobressalto e sentiu um calafrio...A
história de vida do garoto vibrou em seu interior.
Conquanto não pudesse saber os fatos, nem conhecer
detalhes, em alguns instantes colheu a essência. Pensara
em atirar longe o menino com toda a força de sua
perna...Agora se arrependia do que refletira, chamando-
se de covarde.
- O meu calor queima, é insuportável...
- Pra mim não. É diferente do calor do sol...O calor do
senhor me aquece.
- Tudo bem...Mas é melhor soltar a minha perna.
Prometo que não vou fugir.- Charles começou a sentir

214
que suas mãos seriam fritadas se permanecessem por
muito mais tempo grudadas naquele metal; mas estava
disposto a permanecer com elas ali, sofrendo
fisicamente, se isso fosse aliviá-lo por dentro.- Mas por
que gostaria de se tornar um cruzado?
- Eu odeio os demônios...E os hereges que invocam
eles, atraindo maldições.- Soltou-se.
- O meu nome é Wilhelm Friedrich. Mas pode me
chamar de Friedrich.
- Prazer, o meu é Charles. Não tenho sobrenome. O
meu pai perdeu o dele depois da maldição.
- A sua família foi amaldiçoada?
- O meu vilarejo inteiro.
- A minha missão pode esperar mais um pouco. Me leve
até lá...- E, conduzido pelo menino, andando a passos
calmos, o cruzado chegou à aldeia, chocado a princípio
com a igreja de portas absolutamente cerradas. Poucas
pessoas na rua; nenhuma criança além da que o
acompanhava. Muita seriedade, que se transformou em
estranhamento quando passaram a prestar atenção em
seu porte e em sua armadura. Não podia ser o que
imaginavam que fosse...
- Filho! Graças a Deus você voltou!- A mãe abraçou
seu filho fugido.
- Graças a Deus que ele voltou porque assim vocês
continuam vivos, mesmo sendo o brinquedinho de um
demônio, afinal o que conta é vocês estarem vivos, ou
porque o amam de verdade?- Friedrich questionou em
tom de desafio ao entrar na casa.
- Quem é você? Não nos conhece e não sabe do amor
que temos pelo nosso filho.- O pai avançou.

215
- Não briguem, por favor. Pai, este é o Friedrich; é um
cruzado.- E nessa hora o albino parou.- Ele me salvou
do demônio. O vilarejo está livre.
- Nós...Mas nós não temos como pagar!
- Não se preocupe. Eu nem sabia que essa aldeia
existia; não é uma missão oficial. Fico quieto e vocês
também. Basta agradecer.
- Perdão...- Ficou em silêncio por alguns segundos,
depois passou a gaguejar palavras sem nexo, até
conseguir expressar sua gratidão e a culpa pelo
tratamento inicial:- Mil vezes obrigado! Espero que
desculpe nossa má recepção. Você salvou nosso filho e
nossa cidade! Nos livrou da maldição, tenho certeza;
mil perdões...
- Já chega. Não precisa alardear a sua fraqueza.
- Quer um pouco de leite? Ou alguma fruta?- A mãe
ofereceu.
- Obrigado, mas não como muito. Vim aqui por outro
motivo, não para ser celebrado.
- E qual seria a razão?
- O seu filho quer se tornar um cruzado; e acho que
posso fazer a vontade dele.
Os pais se entreolharam; como poderiam se opor? De
todo modo, foi organizada uma festa quando o sol se
pôs, com os parcos recursos da aldeia, e Friedrich
convidado a permanecer. Não havia muita comida, mas
era a primeira vez em anos que seus habitantes
voltavam a dançar e tocar, entusiasmados ao retirar o
bolor dos tambores, literal e figuradamente. O padre
punha a cabeça para fora; e o cruzado o fitava com nojo.
Ao saírem da aldeia, Charles não conseguia tirar os
olhos de seu novo mentor e guia, cheio de entusiasmo
com seu futuro e com aquele que a seu ver iria ajudar a

216
construí-lo, quando começaram os duros discursos ao
Friedrich se voltar de forma repentina e colocar a ponta
de sua espada na garganta do menino, cujo sangue gelou
na hora:
- Acha que estamos a passeio? O treinamento começa
na caminhada. É só assim que forjamos homens
superiores, e que se distinguem os fortes, como eu, dos
fracos como seus pais e aquele padre do seu vilarejo,
que não tinha fé o bastante sequer para orar a Deus por
ajuda.
- Os meus pais não tinham culpa por serem fracos; não
eram covardes. Só fracos, que nem eu.
- Você não tem mais o direito de ser fraco. A partir do
momento que me aceitou, terá que ser forte se não
quiser morrer. Veja o exemplo do padre: sei que não
orava com sinceridade pelo que pude ler nos olhos dele;
não tinha a mínima coragem de me encarar porque
sentia culpa, e medo que eu descobrisse a verdade e lhe
desse o castigo merecido, porque Deus despeja ainda
mais rochas sobre os que já carregam pesos. Do pobre
tudo será tirado, ao rico tudo será dado; o fraco ficará
cada vez mais fraco e vulnerável, o forte se fortalecerá a
cada dia mais. O forte aceita as pedras que caem e as
coloca sobre seus ombros sem sentir peso. Não tem
receio de saltar o abismo. Entenda o que são os homens
inferiores: são os pecadores que se esquecem de Deus;
como conseqüência, Deus também os deixa de lado. Os
homens superiores são os que confiam em si mesmos e
em Deus sem titubear por um só instante, cientes que o
menor receio durante o salto significa a queda.- Tornou
a embainhar a espada.- Por acaso já viu um homem no
escuro, correndo com uma tocha, a dizer que Deus vive?
Você precisa encontrar a luz do seu deus vivo dentro de

217
si mesmo, sem procurar por ele na noite do mundo, o
que sempre será em vão. Ninguém virá para anunciá-lo.
- Mas e Cristo?
- O Cristo já veio. E quem foi Ele além de alguém que
reconheceu a própria chama queimando no coração, tão
quente a ponto de aquecer os corações alheios? E ainda
assim não foi o bastante para iluminar a noite do
mundo; ainda estamos na escuridão. E há os piores tipos
de morcegos e predadores noturnos, que se entregam ao
sangue mais denso e obscuro.
- Quem seriam esses? Os demônios?
- Piores do que os demônios são os homens fracos que
se deixam dominar por eles. Os cruzados andam sobre o
fio da espada; não sei se você sabe, não deve saber, que
os pequenos pecados, os mínimos medos, abrem para os
cruzados enormes brechas que propiciam a entrada
gradativa dos seres das trevas, que pelo acúmulo ou pelo
excesso podem nos possuir. Nas minhas missões, matar
possuídos é o que me dá mais prazer e mais me
contenta, pois são homens que se tornaram parte de uma
espécie inferior, enquanto os cruzados originais
pertencem a uma espécie superior. Se algum dia eu for
possuído, deixo isso claro, me considere um fraco e um
tolo; e se me encontrar me mate, destrua o meu corpo
sem piedade, pois ele se tornou sujo e indigno. E o
mesmo vale para você: se por acaso for tomado por um
monstro, não terei a menor compaixão da sua carne.
Será carne crua para que eu a devore.- E acompanhou o
altivo cruzado na missão seguinte, que consistiria
justamente em lidar com um possuído que vinha
aterrorizando a região de Bordeaux e que seria seu
primeiro treinamento, trabalhando como escudeiro,
além de um trabalho de confirmação interna. Na cidade,

218
ficaram em uma hospedaria modesta, sendo tratados
muito bem pelo dono, que lhes ofereceu os melhores
vinhos que tinha à disposição:
- Não perguntou se nós cruzados bebemos; e ainda
ofereceu uma bebida alcoólica a um garoto.- Observou
Friedrich, com seu francês de leve sotaque teutônico e
Charles olhando para um e outro de forma alternada,
parecendo perplexo e assustado.
- Perdão, meu senhor; quis ser gentil antes de refletir! É
que aqui temos o costume de começar a beber cedo!
Nossos vinhos não fazem nenhum mal às crianças,
desde que consumidos de forma moderada.- Um homem
gordo e moreno, coçou o bigode, um pouco sem jeito e
um tanto com medo.
- Fique tranqüilo. O meu espírito não se envergonha
por fazer as vontades das minhas vísceras e nem se
esquiva da vergonha pelas vias da mentira e da
dissimulação!- O cruzado sorriu, amenizando o
ambiente.- Não cultivo uma vontade amortecida; o
imaculado conhecimento de todas as coisas é para mim
ter garras e não ser frio ou cinzento. Afinal Cristo
transformou água em vinho; por que faria isso se o
vinho não fosse bom? Até o usou para transformá-lo em
seu sangue.
- Pelo visto o senhor gosta de brincar! É bem afim ao
nosso temperamento!
- Quanto ao garoto, em breve terá de beber do
verdadeiro sangue de Cristo. Melhor começar com
vinho.- Colocou a mão na cabeça de Charles e afagou-a.
- É seu escudeiro? Parece um rapazinho tão franzino...
- Mas possui uma grande força interior, que é o que
conta para nós.- E Charles saltitou por dentro com essa

219
afirmação.- Possui a inocência do desejo; não é um
sentimental ou idealista hipócrita.
- E quem seriam esses?
- Os que entre nós falam sobre Jesus, Maria e os santos,
e por dentro são como fragmentos de homens, não
acreditando que Deus pode transformar tudo ao
transbordar de dentro para fora. Esses serão sempre
fracos, pois se apóiam no que não existe: a perfeição
humana. O Criador presenteia o tempo todo os que
aceitam a perfeição divina, que não depende de idéias:
basta observar a natureza. Mesmo o animal selvagem e
violento, o lobo, é necessário para que os cervos não
consumam todas as nossas florestas. O garoto aqui tem
potencial para aceitar o lobo.
- O discurso do senhor é bastante incomum. Falando
em lobos, veio para caçar um, não é?- Serviu o vinho
bem rubro, enchendo a taça de Friedrich e colocando até
a metade para Charles; não havia mais ninguém em
volta, os três sentados em torno de uma mesa de
aparência frágil.
- Vim para caçar um fugitivo, um covarde que escapou
da manada e se deixou contaminar pela doença da raiva.
Antes que o mal se espalhe, é preciso aplicar a morte.
Não há como curá-lo.
- Quer dizer que se trata de um de vocês; de alguém
que foi um de vocês.
- Um cruzado pecador que se deixa possuir desonra a
todos nós. São nuvens sobre o espírito que demoram a
passar.- Bebia com muita calma, ao passo que o dono da
hospedaria já enchia sua terceira taça.- Imagino que isso
faz com que as pessoas comuns nos temam, porque se
demônios comuns possuem pessoas comuns, os
cruzados só podem ser possuídos pelas piores criaturas.

220
- Apesar disso, confio nos senhores. Possuídos são
exceções, não são? E quando acontece são logo
liquidados. Confio na Igreja; a pedra que Cristo fixou
nunca será removida.
- Quando há confiança sem orgulho, o acima e o abaixo
se reconciliam. Terá sempre prosperidade, bom amigo.
Seu vinho e sua companhia enviam o desânimo para o
patíbulo.
- Amém! Fico lisonjeado com suas palavras, enviado
do Senhor.
Friedrich, com o gesticular tranqüilo de suas mãos
esguias, parecia sutilmente zombar o tempo todo dos
simples e humildes; em nenhum momento descia para
se colocar no mesmo nível. Seus sentimentos se
dispunham feito estátuas de sal por um longo corredor,
desmanchadas pelo sopro de seu ego e de seu dever, que
cresciam juntos, impudicos. Perto dali, nas fauces de um
lobo, carnes que tinham pertencido a corpos ardentes,
resfriadas de modo precoce; o convento estava quase
vazio: de vida. As únicas sobreviventes eram algumas
das mais velhas, visto que outras haviam morrido de
infarto pelo medo ou envenenadas ao tocarem a saliva
pingada pelo monstro, enquanto as jovens, em sua
maioria virgens, ou castas havia um bom tempo, tinham
os pescoços e braços mastigados à mostra e vísceras
espalhadas ao lado, o grosso da carne dos seios e das
coxas consumido. Após lançar um uivo selvagem, que
foi ouvido por toda a cidade, o lobo monstruoso, de
dimensões descomunais e pêlo negro com uma única
mancha branca nas costas, convocou seu bando,
formado por feras espectrais, que ou se materializavam
ou penetravam em seres humanos, transformando-os em
licantropos sedentos de sangue.

221
- Vocês ouviram?- Inquiriu o cruzado.- Ele está aqui...
- Não terá sido o uivo de um lobo comum?- Questionou
o dono da hospedaria.
- O senhor bebeu mesmo demais. Não sentiu o arrepio?
Eu senti o espírito sanguinário...E meu escudeiro até
que se saiu bem.- Olhou para Charles, já esquálido
demais para empalidecer, mas que ficara frio feito uma
pedra de gelo.- Pois bem, vou enfrentar o demônio que
possuiu Paulus. Na verdade, ele deve ter vindo até mim.
- Está tão próximo assim?- O homem ficou receoso.
- Não tenha medo. A luta se dará fora desta
hospedaria.- No entanto, a porta foi derrubada de
repente; e entraram em cena quatro lobisomens furiosos,
rosnando, salivando e quebrando o que havia adiante.
Tremendo, o jovem albino desembainhou a adaga que
lhe fora presenteada por seu tutor.- Perdão, acho que
calculei mal. O desgraçado foi rápido.
A lâmina de Charles não fez nenhum efeito nos
licantropos, quebrando-se ao segundo contato com a
pele dura dos humanos brutalizados, cujas roupas
haviam se rasgado com o crescimento desenfreado da
musculatura, dos ossos e dos pêlos; aterrorizado, o
hospedeiro, cambaleando pela bebida e suando sem
parar, se jogou como pôde atrás de sua adega, pôs-se a
rezar para que o cruzado saísse vitorioso e a lâmina
deste, diferente da do garoto, retalhou em poucos
segundo os inimigos, fazendo com que cabeças, braços
e pernas se separassem por vários lados.
- Estes são licantropos, Charles; ou lobisomens, como
preferir. São seres humanos de estirpe inferior,
pecadores ainda mais abjetos do que os que se deixam
possuir por demônios, que ao menos são seres dotados
de algum livre arbítrio, ainda que capazes de fazer

222
somente o mal. Os licantropos se permitem possuir por
espíritos de animais; de lobos, para ser mais preciso.
São tão vulgares, tão incapazes de controlar seus
próprios instintos, que espíritos de criaturas guiadas
exclusivamente pelos instintos, submetidas à natureza,
sem nenhum livre arbítrio, conseguem tomar posse de
seus corpos. Ao lutar contra seres tão desprezíveis, faça
como eu: não tente livrá-los de sua maldição, é inútil;
seria laborioso demais, não vale a pena perder tempo e
energia com bichos humanos; mate-os, e o mundo estará
livre de outra praga. O fogo deles é de natureza inferior.
Ignis inferiores naturae...- E o albino principiou a
experimentar sensações estranhas: uma vez aplacado o
medo, não sentiu asco pela violência e pelo sangue; pelo
contrário: teve até vontade de prová-lo. Friedrich,
terminadas as explicações, o encarou com um sorriso
misterioso. Teve receio que seu desejo soturno, sua
vontade obscura, de beber o sangue de uma criatura
impura, fosse descoberto. No entanto, o cruzado tinha
um trabalho mais importante a fazer: Paulus, na forma
de um lobo do tamanho de um rinoceronte, o aguardava
do lado de fora para o duelo decisivo, aos pés da lua;
um brilho prateado irradiou da espada do cruzado antes
que este se lançasse ao ataque.
Naquela hora, sentimentos inéditos se apossaram de
Charles, quiçá tendências adormecidas em sua alma,
que despertaram a partir do ódio por sua própria
insignificância humana. Feitos à imagem e semelhança
de Deus? Como, se não passavam de pobres animais
sem garras ou dentes afiados, apavorados, que tinham
que viver fugindo dos demônios, estes sim que
aparentavam ser uma espécie superior? Como as
criaturas das trevas podiam ter inveja de seres tão

223
frágeis e famintos, ávidos não por carne e sim por grãos
de ouro? O monstro que durante tanto tempo o
violentara foi ficando opaco...Nítidas as imagens de
seus pais, do padre, da vizinha de pele bexiguenta que
gostava de presenteá-los com seus pães quase crus;
todos esses eram os verdadeiros culpados de sua
desgraça; o demônio só tirara proveito. Nunca faria mal
aos seus pais, pelo contrário; prometeu-se que seria
carinhoso e dedicado sempre que voltasse; nas raras
vezes que voltasse. Mas os espelhos gêmeos rachavam
em seus olhos; ser um cruzado significava ter o sangue
de Deus, recuperar a semelhança que fora perdida após
o Pecado Original, que tornara os demônios superiores,
livres para tentar e possuir os homens, espíritos que
rodopiavam em volta do pó e o usavam para moldar
suas estátuas frágeis; sorriu com a perspectiva de punir
os que ainda se comportavam como Eva e Adão, a
cobiça e a ignorância, a luxúria e a tolice: massacraria
os que insistiam em ouvir a serpente, da qual lamberia o
sangue após lhe cortar a cabeça. Ainda era um homem,
porém em breve seria muito mais, colocando cada mão
em um espelho e tornando-os fluidos para por fim tingi-
los de sangue; teve vontade de cortar seu pulso para
observar seu sangue, com a finalidade de verificar se era
de rubor intenso ou se esquálido como sua pele; porém
se deteve sentindo frio e medo, ainda mais quando, lá
fora, Paulus cravava seus dentes no ombro direito de
Friedrich.
Charles ficou apreensivo; o guerreiro, contudo, sorriu,
demonstrando que ignorava a dor: parecia até agradá-lo,
em sua superação digna de um homem de estirpe
elevada, que não se curva ante nenhuma espécie de
sofrimento. Saltou, mesmo com o sangue escorrendo

224
pelas costas, e moveu sua espada bastarda, de
empunhadura branca com um cisne de duas cabeças
esculpido em seu centro, não para decapitar o monstro,
como parecia que iria acontecer, e sim para lhe perfurar
as costas. Por quê? Por que não encerrara de uma vez a
vida daquele ser movido pela violência e pela fome?
Ficou evidente nos olhos e na expressão sorridente que
queria fazê-lo sofrer, agonizar, pagar caro por cada
pecado que cometera, não simplesmente despachá-lo
para o Inferno ou para o Abismo do esquecimento
eterno. Não tinha a mínima intenção de aliviar qualquer
agonia, massacrando pela tortura e fitado por uma
multidão que começava a se aglomerar, admirada com
seu iminente triunfo sobre o “lobo”, que ia ficando
repleto de feridas e buracos e, meio ganindo e meio
ladrando, disse:
- Não me subestime, humano...Você e todos eles serão
meus alimentos hoje.- Jatos de um vapor fétido se
formaram a partir de seu suor e atingiram algumas das
pessoas em volta, pouco a pouco nestas crescendo
dentes, garras, pêlos e o focinho se alongando, enquanto
outras fugiam. Rápido, Friedrich corria e movia sua
espada para decapitar os licantropos recém-formados ou
cortar os braços dos que se defendiam e se
posicionavam melhor; auxiliado, o possuído Paulus
quase conseguiu abocanhá-lo num dado momento,
fechando seus poderosos maxilares na mão que
empunhava a lâmina. O cruzado se esquivou a tempo e
acertou-lhe o pescoço, percebendo dessa forma o quanto
era duro e resistente; mesmo se tivesse tentado antes a
decapitação, não teria conseguido.
- Também não me subestime, monstro. Acha que lhe
revelei tudo?- E uma aura de labaredas o envolveu, uma

225
cruz de fogo surgindo em sua espada; um rasto de
brasas se espalhou pelo chão e foi queimando os pés da
criatura, obrigada a saltar e tentando cravar seus dentes
e garras, capazes de perfurar e cortar qualquer metal, no
guerreiro, que, envolvido por uma esfera de chamas e
incandescendo o solo ao seu redor, atacou outra vez,
tirando proveito da defesa montada.- Um dia o seu
corpo foi humano; quando seu hospedeiro ainda tinha fé
e virtudes, que forjou porém foi incapaz de preservar,
como uma lâmina que se gastou. Pois bem: pelo fogo da
minha fé vou libertar a alma do pobre idiota que se
deixou aprisionar, mostrando o que a força e o calor de
Deus fazem com os demônios!- Os lobisomens
atingidos por aquele fogo eram carbonizados
instantaneamente; Paulus sofria e gania, mas não
morreria com facilidade. Asas ígneas brotaram às costas
do cruzado, tornando-o um anjo em chamas; Charles se
lembrou de uma imagem do arcanjo Miguel que vira
certa vez na Igreja: os rostos de seus conhecidos foram
também consumidos pelas labaredas, seu passado
ficando para trás, em seu futuro a perspectiva de se
tornar como seu novo guia, um exterminador implacável
de hereges e demônios, lutando para valorizar a força e
os fortes.
- Você não sabe o que está fazendo! Aqui ainda sou eu,
Paulus...
- Não tente me ludibriar, monstro infame. Agora que
está prestes a deixar este mundo, tenta despertar em
mim a compaixão? Paulus foi jogado no Limbo. E
mesmo que fosse ele por um instante, tendo um alento
graças à minha fé, por que pouparia a sua vida? Os
cruzados que se deixam possuir são os mais fracos e
ineptos. Se conseguiu outra vez acesso à vida, foi graças

226
a mim e não a si mesmo. Portanto, merece a morte mais
do que nunca.
- As suas palavras não são cristãs. É tão demoníaco
quanto qualquer um de nós. Você é incapaz de amar, é
um monstro com aparência humana armado com uma
espada! A sua voz está repleta de garras e dentes mais
afiados do que os meus. Você se rejubila com o sangue
que resulta da violência!
- Eu me rejubilo com o triunfo da vida sobre a morte,
da luz sobre a podridão que os seres das trevas
representam. Não vou me curvar às suas palavras, que
são as de um covarde e um fraco.
- Pare de se superestimar! Algum dia também poderá
ser possuído! Não se coloque acima do bem e do mal; o
fruto que Adão e Eva comeram está acima da
compreensão humana! Você em breve ficará nu! Grave
bem o que eu disse...
- Agora quer profetizar, monstro infame?
- Se a sua carne não for minha, será carcaça para o
imperador ou os príncipes do Inferno. Maldito
presunçoso...O seu fogo não passa de chamas que
induzem o máximo de dor, sem nenhuma fé para
amenizar os pecados dos homens e dos demônios, que
você não imagina como também sofrem.
- Chega de falar. Está tentando provocar um desvio nos
meus objetivos.
- Então pare primeiro você...- Ao que Friedrich
concentrou todo seu fogo na lâmina de sua espada e
com esta, após uma série de movimentos tão rápidos
que os olhos de Charles e dos poucos que insistiam em
ficar nas proximidades não puderam ver, decapitou o
inimigo, o sangue arroxeado jorrando do pescoço, que
apresentava o corte e queimaduras. O corpo, no entanto,

227
dava a impressão de continuar firme e estável. Charles
ia se aproximando para abraçar seu mentor...
- Não se aproximem!- Porém foi rechaçado, junto com
as outras pessoas, quando tentáculos principiaram a
brotar da cabeça decepada e o corpo pulou para atacar o
cruzado, que, após se desviar, liberou de uma vez todo o
fogo com o qual imantara a espada sobre o crânio do
inimigo, que mesmo separado do resto seguia
consciente e que nessa hora explodiu, respingando
sangue e restos queimados de ossos em todas as
direções.
- Terminou!- O garoto gritou para avisar o dono da
hospedaria, que foi saindo devagar do seu esconderijo.
Teve início uma forte chuva pouco depois do corpo do
monstro enfim desabar.
- Você pôde presenciar hoje uma demonstração de
força e fé, de verdadeiro poder, que subjuga a vontade
frágil dos demônios, que são conduzidos pelo medo e
pela desesperança. O que arruína os cruzados fracos é
que eles se deixam levar por essas emoções. Ao invés
de encarar o próprio medo, permitem que este se
avolume e os suplante. Ocorre um esmagamento da
alma e não há mais esperanças para os que se
acovardam. Você nunca deve perder a sua fé, em si
mesmo e em Deus, que precisa ser inabalável, digna de
um homem superior, que sabe que foi feito à imagem e
semelhança de Deus; e precisa encarar o medo e
pisoteá-lo. Dessa forma os demônios irão temê-lo;
todos, sem nenhuma exceção. Tem que se sentir no topo
da Criação, batizando os seres vivos...- Friedrich
explicou na madrugada que tiveram para descansar,
quase sem dormir. As olheiras de Charles haviam
crescido, mas não que o garoto se importasse. Naquela

228
noite teria um único breve pesadelo, onde um demônio
semelhante a um escorpião e ao mesmo tempo a uma
serpente, com uma cauda sibilante e venenosa, tentava
golpeá-lo; entrementes, o jovem exibia uma agilidade
sem par, se esquivando de todos os ataques e das
substâncias nocivas atiradas em sua direção, imantando
o seu corpo com um ouro luminoso e perfurando
gradativamente a carapaça do monstro, o único a exibir
dor e pesar, enquanto o albino sorria.

Anos depois, no Vaticano, Charles e outros cruzados


foram chamados para uma reunião de emergência com
os padres vermelhos. Cada qual com suas
peculiaridades, não se reuniriam juntos, conversando
individualmente, advertidos sobre o que seria
necessário. Presentes, entre outros, Tharien e Jonathan,
que foi o primeiro a tomar a palavra:
- Tentamos deter Belial, que depois de muito tempo se
manifestou fisicamente. Só que os resultados foram
desastrosos: perdemos vários cruzados e agora temos
um príncipe do Inferno à solta no mundo. De positivo,
ao menos os islandeses nos pagaram, já que Belial não
se encontra mais lá, devastando as cidades; escondeu-se
em algum outro lugar.- Expôs, ao passo que Charles,
que antes de entrar dera a impressão de estar afiando a
espada com a própria língua, lambendo-a com gosto, o
fitava com um olhar de escárnio perene; como Jonathan
estava acostumado a sarcasmos, não deu grande
importância a isso, diferente de outros sacerdotes, de
olhares indignados ou perplexos, Tharien tranqüilo
como de costume.
- Quer dizer que aqueles fracos foram derrotados?

229
- Não eram fracos. Enviamos alguns dos nossos
melhores guerreiros, os mais experientes, porém não
resistiram. Hong está morto; Ptolomeu desertou;
Leovigild, Masamune e Raja conseguiram escapar, mas
Leovigild decidiu se aposentar, e pelos serviços
prestados a nós tem esse direito. O pior ocorreu quanto
a Dyonisos e Friedrich...
- O que houve?- O francês não demonstrava a mínima
preocupação.
- Foram possuídos. E o que seu mestre incorporou ficou
do lado de Belial.
- Mestre? Nunca tive um mestre...Ele apenas me trouxe
aqui. A partir daí, nos tornamos iguais. Mas agora ele
não é mais meu igual...Foi um fraco, um tolo, que se
deixou possuir por um espírito inferior. Algum dia o que
espero é acabar com o demônio que o possuiu e enviar a
alma de um pecador como ele diretamente para o
Inferno. O Limbo é pouco para cruzados fracos.
- Que palavras mais duras...- Jonathan sorriu.- O que
esperamos é que algum dia você as cumpra! Mas,
considerando como Friedrich era forte, um cruzado
excepcional, imagine que tipo de demônio deve ter
agido para conseguir dobrar a vontade daquele sujeito.
- Nada que a minha espada não possa cortar.
- A sua confiança me conforta.- E, ao sair da reunião,
Charles tornou a desembainhar sua espada e a deslizar a
língua pela lâmina; Masamune, o próximo a entrar, de
olhos baixos, não parecia dar a mínima importância ao
outro, conquanto o fitasse sem ser notado. Cada vez
mais estranho e dúbio era se tornar e ser um cruzado; a
espada que se tornava a cruz? O samurai observou os
gestos e a expressão do albino: o sadismo e o semblante
repleto de escárnio encobriam a tristeza, a revolta e o

230
medo, encarados com uma temeridade que beirava o
desespero. “Vou pendurar você no precipício para o
Inferno, seu fraco e covarde...”, pensando em Friedrich,
o guerreiro pálido resmungou consigo mesmo enquanto
fazia um pequeno corte na língua e deixava o sangue
escorrer garganta abaixo...

Passado – V

Quais os limites da crueldade do ser humano?


Conheceria esta alguma muralha ou se tratava tão só de
uma cortina de fumaça e vapor? A parede do juiz moral
da consciência humana não só apresentava fendas que
só aumentavam em largura como perdia sua solidez,
fosca; o espírito funcionava como uma cunha para
alargar ao máximo os interstícios do muro, que
representava as leis e recomendações que tentavam
confinar e impor, em vão, pois o que havia por baixo
das máscaras exigia uma liberdade selvagem. Os
gemidos da nevasca atravessavam os pássaros espectrais
pousados no topo da catedral; a sensação de um cepilho
que deixava escapar no gelo o visco da seiva, os ramos
arrancados pelos ventos a congelar, santos de retábulos
descascando, um escabelo fantasmagórico: as imagens e
impressões de dentro e de fora da igreja se fundiam e
confundiam, isso que não bebera sequer um gole de
vodca e se sentia como um boi respirando a custo,
estendido na relva, ou como um porco esfolado
grunhindo à beira da morte; de que adiantava construir
um templo se os delitos mais demoníacos eram
cometidos em seu interior ou ao seu redor? A memória
de um caldo quente...De quando chegara ao mosteiro,
congestionado pela chegada de outros desafortunados,

231
que partilhavam a três ou quatro um cobertor e o feno
do catre. Através das paredes o vento e a neve se
esgueiravam e uma tosse pertinaz não o abandonara por
vários dias. Fiódor, ainda assim, graças àqueles monges,
queria preservar sua fé na humanidade. Arrependeu-se
portanto de visitar a Catedral de São Basílio, com suas
cúpulas em forma de bulbos, porque esta fazia com que
se lembrasse de Piotr, o Terrível, que após terminar a
construção mandara arrancar os olhos do arquiteto para
que não construísse nada igual. Se a homenagem era a
um santo, como cometer um ato tão ignominioso? Piotr
um cristão? Um homem que mesclava remorsos e
violência física e psicológica, como seria capaz de
compreender os Evangelhos? Quanto ao Velho
Testamento, em muitos trechos era uma ode à
brutalidade, inclusive atribuindo a Deus trejeitos de
vaidade e orgulho típicos dos seres humanos. Desde sua
chegada a Moscou, sonhara por diversas vezes com sua
família viva e seu passado como se este fosse se
prolongar, um verdadeiro futuro do pretérito, no qual
seus pais e irmãos continuavam vivos. De repente
porém a realidade se impunha e, como uma mão férrea
de dedos com unhas de aço, rasgava e esmagava os
devaneios: visões do fogo e do sangue vinham à tona e
o acordavam, fazendo com que temesse adormecer
novamente. O medo maior seria o de rever as cenas de
crueldade ou de viver uma ilusão, sendo o despertar de
qualquer forma o pior possível, a tortura prolongada da
mente superando em muito a dor do corte das lâminas?
O mais doloroso era entregar à criança um pedaço do
doce, deixar que desse a primeira mordida e depois
arrancá-lo de forma enérgica, devorando todo o resto e
humilhando o menino chorão. “O meu tio Aliocha

232
gostava de agradar a minha mãe, trazendo as peles das
raposas que caçava; ela ficava toda entusiasmada,
correspondendo às gargalhadas do balofo com sorrisos e
passadas tenras de mão, acariciando-lhe o nariz:
“querido Sasha...Meu doce cunhado Sasha Pietrovich!”,
e não duvido que ela tenha enganado o meu pai com
aquele gordo em troca de jóias e peles. Em vão, pobre
tola, para depois ser traída e não ter sequer um túmulo
para ser enterrada junto com as suas preciosidades. O tio
Alexei parecia um bonachão, meu pai confiava
cegamente nele; por esse lado meu sangue tomou um
rumo diferente: nunca fui de confiar muito, afinal
Anatoli Dimitriovich, meu único amigo de infância,
roubou o boneco de cossaco que ganhei no meu
aniversário de oito anos quando teve a primeira
oportunidade. Como acreditar no ser humano? Mas um
mínimo de confiança eu tinha, ao menos para não
cogitar que todos ou quase todos fossem capazes de
cometer as barbáries mais atrozes, de abandonar
parentes, de deixar amigos para trás. Um adultério, um
brinquedo roubado: não são nada. Mas deixar um amigo
morrer, não se juntar a ele em uma luta...O que seria
isso? Fiódor Pavlovich terá nascido na época errada? Ou
no mundo errado? O que dizer dos seres que
crucificaram Deus? Apesar de Deus ter se feito
homem...Supostamente. Supostamente Deus é bom e
perfeito...Porque se fosse realmente perfeito, como
permitiria uma criatura tão imperfeita? Meu pai, Pavlov
Pietrovich, pertencia à nobreza, tinha títulos, terras, era
de certo modo Deus em seus domínios; mas continuava
a ser um ente imperfeito. Deus também não seria assim,
tendo o universo como um feudo, que porém não pode
controlar? Tio Sasha possuía o costume de tirar os

233
restos de comida dos dentes na frente de todos...Um
bobão, um porco...Só que de carne amarga, isso não
imaginavam.”, seu pescoço estava tão dolorido e sentia
tanto frio, principalmente na região em que a cabeça se
encaixava, que dava a sensação de ali estar congelado,
isso desde que se reerguera depois de horas se fingindo
de morto na neve. A verdade era que não queria olhar
para trás; caso se voltasse, correria o risco de não mais
conseguir fitar adiante, nunca mais, perdido na fantasia
do futuro do pretérito, que jamais deixaria de ser
pretérito, em verdade falsa eternidade. Seus pais e
irmãos estavam mortos e ponto; ao menos na Terra tudo
tinha que ter um fim. “Olenka, veja o que lhe trouxe...E
lá vinha a minha mãe, encantada com um resto de
raposa. Tia Olia! E os meus primos adoravam a minha
mãe. Deles não posso cobrar nada, afinal eram só
crianças, apesar que em breve serão jovens adultos,
dispostos a escalar o que estiver pela frente. Infeliz Olga
Ivanovna Pavlovina! Mas vou ter saudades de Misha,
Katienka e Vânia...”, referia-se aos primos Mikhail,
Katherina e Ivan, com os quais se acostumara a passar
horas brincando enquanto seu tio Alexei ficava no
quarto com sua mãe e seu pai ia supervisionar
pessoalmente o trabalho dos camponeses junto a Boris,
o mais velho e presumidamente o herdeiro da família.
“Borya era ambicioso e cruel. Não se encaixava com a
personalidade do meu pai. Mesmo assim, o
primogênito...”, o ponto de vista de Fiódor sobre a
crueldade era mais amplo do que se costuma considerar:
não se limitava a uma tortura ou a um derramamento de
sangue gratuito, nem a uma manipulação de emoções e
sentimentos em sua faceta mais sutil; incluía a fuga

234
quando o próximo requisitava presença, a covardia do
abandono e os requintes da sedução.
- Estávamos caçando um cervo quando os tártaros
chegaram. Os homens da família. Um deles acertou com
uma flecha a jugular do meu irmão mais velho, que caiu
morto do cavalo na hora. Apesar da morte não ter sido
minha, pude sentir o frio dela na hora; e eu, meu pai e
meu irmão caçula começamos a lutar. Só que o meu tio
Alexei e alguns “amigos” da família fugiram sem
hesitar. Nos deixaram sozinhos lutando contra vinte,
cinqüenta ou cem tártaros. Não me importa quantos
eram! Eram muitos, e pareciam só crescer em tamanho e
quantidade...Eram enormes. Não sei se foi impressão
minha. Piores do que ursos.- À noite, encerrado seu
passeio reflexivo pela cidade, o rapaz contou sua
história em detalhes ao abade Mendeleev, um homem
magro e encurvado, de olhos espertos e barba e cabelos
longos.
- Fico impressionado que tenha conseguido chegar vivo
em Moscou, meu filho.
- Depois que golpearem meu pai na cabeça com uma
maça, arrebentando-lhe o crânio, e que cortaram a
cabeça do meu irmão, fingi que uma flecha que me
acertou no peito tinha me ferido mortalmente. Pra
minha sorte, o casaco era grosso e usávamos uma placa
de metal por baixo durante as caçadas; pena que as
cabeças ficavam vulneráveis. E continuei caído na neve,
me fazendo de morto, enquanto eles iam embora.
- O senhor chama isso de sorte? Eu chamo de milagre.
- E onde estava o milagre para o meu pai e os meus
irmãos?
- Não se revolte, filho. A vida não é uma tabela em que
as ações e reações são previstas e se sucedem com

235
precisão. Quer saber de uma coisa? Adoro observar a
neve, a relva, prestar atenção na cor das plantas, fazer
estudos de anatomia, embora poucos aqui saibam que
tenho o hábito de dissecar os pequenos animais que
encontro mortos e de pedir um ou outro cadáver
humano à universidade de medicina. É incrível como a
natureza, por fora, é sempre a mesma, com uma
precisão inigualável em seus ritmos, comparável à
pulsação de um coração. Só que mesmo o coração mais
forte um dia irá parar, e não há como saber quando isso
vai ocorrer. Considerando a realidade humana, a vida
não é tão previsível quanto os ciclos da natureza; e, em
palavras pobres, Deus faz o que pode! Pense que ao
menos você está aqui para me contar a sua história! E
que o seu destino pode lhe reservar grandes surpresas,
Fiódor Pavlovich.
- Que surpresa, abade? Desde aquele dia, não paro de
sentir frio o tempo todo.
- Talvez pare em breve. Tenho alguns bons amigos, que
podem lhe dar algo mais do que um cobertor...Ao
sobreviver a um ataque de tártaros, ao frio do inverno e
conseguir chegar em Moscou sozinho, demonstrou ser
um guerreiro valioso, capaz de servir aos propósitos de
Cristo.
- Encontrei nossa casa saqueada e muitos camponeses
foram mortos. Em breve, contudo, estou certo que meu
tio, aquele velhaco, irá se apoderar daquelas terras.
Afinal para ele os herdeiros do meu pai estão mortos!
Algum dia gostaria de voltar e me vingar.
- Não pense em coisas tão pequenas, filho. Você pode
ter um destino infinitamente mais nobre. O que acha de
lutar para impedir que coisas como as que aconteceram

236
a você atinjam outras pessoas? O que acharia de
cumprir a Lei de Deus em terras sem lei?
- Seja explícito, abade. Percebo que está querendo
chegar em outro lugar. Detesto rodeios.
- Sou da Ordem dos padres vermelhos. Estamos
precisando de cruzados, pois passamos por uma crise
recente. Acho que você tem potencial para se tornar um,
se quiser passar pelos testes.
- E por que demorou tanto para fazer a proposta?
- Parecia tão envolvido com o seu passado que eu
precisaria de tempo para curvar seu olhar em direção ao
futuro.
- E de onde tirou que tenho uma vocação e propósitos
tão nobres?
- Você derrotou os tártaros à sua maneira, fazendo-os
pensar que estava morto. A sua vitória foi sobreviver...E
para um cruzado sobreviver a todo custo para continuar
lutando em nome do Cristo é...Como posso dizer? Uma
demonstração que mesmo diante da imortalidade da
alma temos que aproveitar esse presente que Deus nos
deu: o milagre da vida.
- Estou um tanto desiludido com milagres.
- Isso pude perceber. Será diferente quando beber o
sangue de Cristo.
- O vinho da missa?
- Não falo de transubstanciação; falo de uma substância
concreta. Só lhe peço uma coisa, Fiódor Pavlovich:
guarde segredo a respeito do que conversarmos e sobre
o que vier a acontecer. Você é o único em Moscou a
saber que sou um sacerdote vermelho. Revelei a
verdade em confiança.
- E por que o povo e os outros monges não podem
saber?

237
- Porque levo uma vida fixa. Tanto demônios como
hereges visam as vidas dos padres vermelhos, que
costumam ser itinerantes por essa razão, ainda que se
reúnam em Roma.
- Entendo. Não vou revelar nada. Não se preocupe,
abade; mesmo na minha família, eu era o que menos
falava, a ponto de ser conhecido como “Fiódor
Pavlovich, o silencioso”. Apesar das coisas mudarem de
figura com um pouco de vodca...- E riram juntos antes
de um drinque para se aquecerem, principalmente o
rapaz, que sentia os ossos batendo; quando ficaram mais
à vontade, o filho de Pavlov Pietrovich externou sua
dúvida:- Como se tornou um padre vermelho?
- Na verdade sou como um membro honorário, já que
não posso me afastar dos afazeres do mosteiro. Mas o
padre Celius, um grande amigo, me deu sua benção
quando nos visitou há alguns anos, julgando-me digno
de compreender os mistérios do sangue; e como eles
quase não vêm à Rússia, me tornei o responsável por
recrutar um potencial cruzado em nossa santa terra,
testá-lo e se bem-sucedido ordená-lo e enviá-lo a
Roma. Já está mais do que na hora de surgir o primeiro
combatente russo agraciado com o sangue do Salvador.
Inclusive tenho comigo um vidro com um pouco de
sangue...Foi a provisão que me deram para caso
encontrasse alguém perfeitamente apropriado, sendo
que muitos morreram nos últimos tempos em batalha
contra Belial, um dos príncipes do Inferno. O Vaticano
pediu auxílio a diferentes centros da cristandade.
- O cruzado, embora seja um guerreiro, é acima de tudo
um sacerdote, e como tal tem deveres de sacerdote. Não
sei se estou apto. Posso ser teimoso, persistente, forte;

238
mas acho que teria dificuldades para aceitar certos
dogmas e me manter casto.
- Com o sangue de Cristo em suas veias, duvido que
volte a se interessar por mulheres.
- Será mesmo que o sangue do Salvador aplaca as
ânsias da carne? Terei o sangue dele, mas nunca serei
ele.
- Não saberá se não tentar.
- E se tentar e me arrepender?
- Não tem muitas opções, Fiódor.
- Tem razão. O destino do filho de um nobre que não é
primogênito, no fundo, é sempre o de se tornar padre.
- Não fale com peso, filho. Valorize a missão que Deus
lhe deu.
- Nunca estive diante de um demônio, mas não tenho
medo de Belial e aberrações do gênero. O que mais me
assusta é a besta dentro do ser humano. Inclusive a que
tenho dentro de mim mesmo.
- O sangue de Cristo o ajudará a afogar essa fera...E a
derretê-la, pois é um líquido incandescente.
- Hm...- Fiódor se pôs a pensar sobre diferentes coisas,
alegando ao abade que iria refletir melhor antes de dar
qualquer resposta. Complementou de forma jocosa:-
Sob efeito da vodca, não iria dar certo...
- Pelo contrário: é nessas horas que somos mais
sinceros.- Contudo, o filho de Pavlov Pietrovich se
retirou sem dizer mais nada. À noite, antes de
adormecer, as inevitáveis recordações...
Nos dias de natal, a escultura de neve e gelo com olhos
de ameixa, dentes de feijões verdes e nariz de cenoura
que seu tio Sasha costumava preparar e que tanto ele
como seus primos adoravam, atirando bolas de neve um
no outro nas proximidades: “Às vezes me questiono se

239
meu julgamento não está equivocado. Ele era tão alegre,
parecia ser uma pessoa tão boa! Como pôde nos deixar
para morrer? Talvez não fosse obrigação dele morrer
conosco. O problema é que eu venerava aquele cara...”,
passou as mãos pela barba rala e se lembrava dos cantos
e danças em círculo, segurando tochas em volta da
estátua, e a roda demorava a parar, sentindo em alguns
momentos como se o passado retornasse. Vinham o
sono, uma tontura, o efeito da vodca e do
rodopio...Meio-acordado e meio-adormecido,
despertava por completo de repente, assustado; não
queria olhar para trás...E muito menos recuperar,
participar e trazer. Porém era inevitável, mais forte do
que ele: “Minha avó falando dos “maus dias”, os dias
anteriores à chegada da palavra do Cristo na
Rússia...Me questiono se eram mesmo dias ruins. O ano
inteiro esperava por aquela época, e não pelas histórias
velhas, não só por isso, apesar de gostar de ouvir, e sim
pelo baile de máscaras e roupas divertidas. Ria até a
minha barriga doer, ainda mais quando a barriga estava
cheia! Muita comida, uma semana inteira de queijos, e
outra de panquecas. Com o fim do inverno, só podia ser
um período de muita felicidade. E nós nos aquecíamos
nesses últimos dias; e queimávamos o boneco de palha,
como era bom...A sensação libertadora, como se
estivéssemos queimando as aflições do frio. E meu pai
sempre trazia caviar, mel, creme de leite fresco e
manteiga pra preparar as panquecas. Se me tornar um
cruzado e não tiver família, vou poder reviver isso
algum dia? Não tenho que reviver...Não posso voltar ao
passado...”, Maslyanitsa, uma festa que derretia; tinha
que derreter essas reminiscências, por mais doloroso
que fosse. “Agora está me dando fome...Os caldos daqui

240
não se comparam ao que já comi...”, o gosto do seu
doce de Páscoa preferido, preparado por sua babushka,
misturando passas, uma espécie de requeijão cremoso e
novamente manteiga, não saía de sua boca, que salivava
com intensidade; tinha assim que engolir saliva o tempo
todo, não podendo relaxar. A matriarca da família
também não se esquecia, em todas as páscoas, de
reservar ovos para dar aos netos e os incentivava a
darem os seus a amigos e parentes, salientando que, se
lavassem os rostos com a água na qual os ovos haviam
sido cozidos, seriam saudáveis para sempre; o pequeno
Fiódor por diversas vezes pusera a cara na água, hábito
que foi sendo perdido com o passar dos anos. “Cristo
está vivo!”, o tio Alexei chegava na casa do irmão com
a saudação habitual daquele período festivo, e Pavlov
respondia: “Cristo está realmente vivo...”, e se
abraçavam, trocavam um beijo e Sasha entrava. “As
marcas da Páscoa: foi num primeiro domingo depois da
Páscoa que os meus pais se casaram, e idem o meu tio,
que ficou viúvo cedo, considerando que em nossa
família os casamentos duravam de vinte anos pra cima.
Três filhos em quatro anos, e depois a viuvez. Pelo
menos as colinas vermelhas floresceram para o futuro.”,
quando criança, o feriado preferido de Fiódor Pavlovich
fora o Troitsa, ajudando a decorar sua casa e as casas
dos camponeses, que o viam com carinho, diferente do
medo que Boris lhes inspirava, com ramas de feijão
verde. “Me diverti colocando nas bétulas alguns
vestidos de Nadienka. Depois corria em volta...E íamos
cantar e dançar. Uma velha pagã dizia que podia fazer
previsões através das guirlandas feitas com galhos e
flores de bétula colocadas dentro d’água. Nunca
acreditei, mas quando ficava junto dos camponeses às

241
vezes ouvia algumas adivinhações. Lembro que quando
ela quis fazer a minha, saí correndo...Será que fiz bem?
Talvez tenha sido medroso demais. Se pudesse ter
previsto...Ter conhecido a verdadeira natureza do tio
Alexei...Mas será que agora eu a conheço? Difícil
dizer.”, tardou, por fim conseguindo adormecer. No
entanto, seu sono estaria longe de ser tranqüilo...
“Despertou” consciente de estar em um sonho,
plenamente lúcido, e o efeito da bebida passara. “Mas o
que é isso? Estou dormindo, e ao mesmo tempo
acordado. Não bebi tanto assim pra chegar ao ponto de
delirar...”, se viu em um recinto de paredes cinzentas, de
frente para uma estátua do que pareciam ser gêmeos
siameses, a metade à direita vestida de branco, a
esquerda de negro. “Acho que reconheço essa imagem.
Minha avó me falava dos tempos em que Byelobog e
Chernobog lutavam pelo controle do mundo. Até que
Byelobog teria vencido ao trazer o Cristo à Terra, e
suplantou de vez seu inimigo. Os confins entre o bem e
o mal às vezes me parecem por demais tênues...”, a
reflexão fez o cenário se alterar. Passou para uma
estepe, onde um homem em armadura a cavalo parecia
quase morto de sede e de fome. Pensou em ajudar, mas
depois achou que seria melhor deixar as coisas
acontecerem...Era só um sonho. O indivíduo, que depois
Fiódor percebeu que tinha um rosto semelhante ao de
seu pai, desceu da montaria quando viu um saquinho
largado no chão. Poderia ter comida...Ou ouro.
Entrementes, com todo o esforço, não conseguia
levantá-lo...Só conseguiu ao erguê-lo ajoelhado. O
esforço não compensou porque seu corpo começou a
afundar na terra. “Sonho ou não, é melhor ajudar...”,
mas o desconhecido que lembrava Pavlov Pietrovich

242
desceu muito rapidamente, chorando lágrimas de sangue
que paralisaram o rapaz; algumas árvores cresceram; e
nestas crianças disformes, com asas depenadas, que
soltavam berros estridentes. Na seqüência, tais criaturas
horripilantes se transformaram em donzelas atraentes,
arrastando um canto mavioso; rios e lagos nasceram;
fontes passaram a jorrar. “Rusalkas...Minha avó já me
falou delas também. Achei que não existissem...E não
existem, é claro: estou sonhando. A menos que o
domínio dos sonhos seja um reino válido da natureza,
cujas regras nunca conheceremos. O sonho pode ser a
porta para a morte...Ou o vaso que contém a morte.”
- Venha conosco. Estávamos esperando você.- Uma das
rusalkas falou cantarolando.
- Não tenho nada que ver com vocês. Voltem de onde
vieram. Que suas almas tenham paz...
- Como ousa? Como pode fazer pouco caso das minhas
meninas?- De súbito, uma voz rouca e irritante de velha.
O susto foi grande e materializou-se à frente de Fiódor:
- Vovó...- O rosto era o de sua babushka, embora
estivesse transformada, cavalgando um grande
almofariz, usando o pilão para impulsioná-la pelos ares;
seus cabelos estavam desgrenhados e possuía poucos
dentes, se bem que afiados. A pele queimada, e usando
um cinturão de ossos; terminou por reconhecer que era a
figura mítica e pagã da Baba Yaga, que o paralisara.
- Você devia ouvir melhor o que elas têm a dizer! Ou o
que eu tenho a dizer. Não seja tão arrogante! Acha que
sabe tudo, cristãozinho? Não tem noção de como o
mundo é vasto, e do que tenho a lhe oferecer.- Passou a
se insinuar à sua volta feito uma serpente.- Venha
comigo.- E dispararam rumo aos céus, para o terror de
Fiódor, que teve muito medo de cair...- Não seja

243
covarde. Você sobreviveu até agora...Com medo de um
simples vôo em uma realidade que do seu ponto de vista
não passa de um sonho?- As rusalkas os seguiram.
Pousaram defronte a uma casa com pernas de galinha.-
Agora coloque a sua mão na fechadura, meu pequeno...-
E o rapaz sentiu que voltara a ser o menino de sete ou
oito anos nos braços da avó. Perdeu por alguns
momentos a consciência de se tratar de um devaneio e
pareceu apavorado com a perspectiva de enfiar a mão
naquela fechadura, que era uma boca repleta de dentes
pontiagudos.- Enfie de uma vez ou não vamos conseguir
entrar!- O nariz da velha foi ficando rubro e as narinas
largas e ardentes, seus olhos semelhantes a carvões em
brasa. Sua fúria aumentava a cada instante.
- Não vou fazer...Estou com medo...- Respondeu com
voz e postura de criança.
- Idiota!- Ao que a casa começou a andar, as rusalkas a
girar freneticamente no alto, formando um rodamoinho,
e a Baba Yaga urrou de ódio. Apesar da confusão,
Fiódor recuperou a lucidez e tornou a se perceber
adulto. De súbito, algo desceu dos céus feito um
asteróide e investiu contra a velha: um dragão ossudo,
que expirava fogo e tinha as feições do tio Sasha...-
Koshchei, meu inimigo!- As chamas foram secando a
Baba até o ponto de incinerá-la, evaporaram suas
ajudantes e queimaram a casa; o dragão assou e devorou
as pernas de galinha e por fim se colocou diante do filho
de Pavlov Pietrovich, encarando-o com um sorriso
cínico:
- Bela bagunça que você arrumou! Olhe como a família
está! Veja que condições deploráveis...
- Como se a culpa fosse minha. Foi você quem fugiu.

244
- Pareço, mas não sou o seu tio. Você que está me
dando esse rosto...Sou muito mais antigo. Guardo a
minha vida em um ovo, que fica dentro de um pato,
dentro de uma lebre, dentro de uma cuba, escondida
debaixo de um carvalho. Acha que pode calcular ou
encontrar isso? Não seja tão ingênuo...Tenho milhares
de anos...Ou milhões. A vida não é tão curta como os
cristãos imaginam, nem tão única. A vida é a vida, um
emaranhado de galhos.
- Aonde quer me levar?
- Para lugar nenhum...- E se desfez em um vapor
vermelho...Que contudo tinha alguma finalidade: foi
moldado ao seu redor um cenário; uma taverna...Nesta,
um homem de pele escura e cabelos crespos caía
bêbado, tropeçando a todo instante, sem sucumbir sob
os risos da ralé e bradando:
- Eu vou ser lembrado...Vou construir uma tradição!
Vocês serão todos esquecidos logo que forem
enterrados...Suas vidas passarão em vão!
- Pare de fazer, versos, Pushkin! Está mamado demais
pra isso!
- Não valorizamos as tradições do nosso país...Aonde
iremos parar? Antes de sermos cristãos, somos russos!-
Era pequeno e descabelado, com uma voz potente.
- Parem de criticar Pushkin. Antes de ser russo, ele é
meu amigo!- Falou uma figura na bodega que lembrava
um sátiro; sóbrio, sentado em um banquinho, estava nu,
com o membro ereto, tinha uma barba espessa e sua
pele parecia a casca de um tronco de árvore.- Prestem
atenção no novo visitante. Ele sim é digno de uma
recepção calorosa!- Apontou para Fiódor.
- Yarilo, meu caro, sempre um amigo valioso! Você
sim é meu Salvador!- “Um deus imoral e

245
obsceno...Como pode ser um deus? Na verdade, era um
demônio venerado pelos ignorantes...”, Fiódor se
lembrou do discurso da avó na sua infância, misturando-
o às imagens recentes da Baba Yaga. Desejou acordar,
voltar ao corpo...Em vão.
- Não sei como vim parar aqui. E já estou de saída.-
Falou com aquela “gente”.
- Esse aí está tão bêbado que nem sabe como chegou!
Pois então vamos mostrar a saída a ele, Yarilo! É um
belo rapaz...
- Deixe de ser imoral, Pushkin!- A criatura brincou.
- Não sou imoral, sou russo!- E todos gargalharam;
Fiódor resolveu escapar e disparou.
- Não o deixem fugir!- O “deus da fertilidade” resolveu
se mexer.
- Eu o vi primeiro, seu desgraçado!
- Era seu salvador, agora sou um desgraçado?
- Não há tanta diferença...As diferenças estão nas
circunstâncias.
- Seu sujo!
- Não sou sujo...
- Eu já sei...Já sei!
Surpreendendo a si mesmo, o rapaz conseguiu ir longe
o bastante para não ser alcançado por aquele bando;
deparou-se, em um cenário de relva alta e fosca,
amarelada, o céu avermelhado, com uma casa que lhe
lembrava muito as residências dos servos de seu pai.
Como a porta estava entreaberta, entrou, se lembrando
do supersticioso Yevgeny Sergeyev; a habitação era
parecida demais, rangendo a cada passo dado. Sobre o
fato que o camponês detestava animais brancos, e nunca
tinha tido um, a despeito da casa cheia de gatos, alguns

246
cães e um cavalo no estábulo ao lado, fora questionado
pelo garoto nobre e se explicara:
- Bichos de pêlo branco atraem os Dvorovoi, que são
demônios muito agressivos e detestam esse tipo de
animal. Depois de comerem um gato branco então,
passam pro ser humano.- E com um certo riso Fiódor se
lembrou de antigos pesadelos, de como sua imaginação
moldara os Dvorovoi, e de como tivera medo que um
deles chegasse à noite para devorá-lo: “carne tenra e
macia...”, imaginava o monstro falando devagar, com
uma voz engraçada para seu senso crítico adulto,
apavorante em outros tempos.
- Até que enfim você chegou. Me deixou esperando por
tantos anos...- Quem encontrou na casa, no entanto, não
foi algum demônio doméstico; e sim uma moça
atraente, sentada em uma cadeira ao fundo, que revelara
seu rosto ao se levantar e sair das sombras, sem assustá-
lo: era-lhe familiar, ainda que não soubesse dizer de
onde a conhecia; alguns traços de sua face lembravam
os seus próprios; tinha grandes olhos azuis redondos e
cabelos loiros cacheados, com um vestido branco de
anáguas e bordados dourados. Sorriu de forma amena e
o abraçou com um carinho que só se lembrava de ter
conhecido ainda bem pequenino, em suas primeiras
recordações, no colo da mãe.
- Quem é você?- Inquiriu com uma certa perplexidade.
- Compreendo que não me reconheça. Afinal nunca
chegou a me conhecer...Essa é a dura verdade. Sou
Vasilissa Pavlovna. Isso lhe diz algo?
- Pavlovna...Nosso patronímico é o mesmo.
- Sou sua irmã. Mas uma irmã que você não chegou a
conhecer, ainda que nossos pais já na época tivessem
idealizado um nome, no caso de terem uma menina,

247
quando eu estava no ventre da mamãe.- Fiódor
arregalou os olhos.- Sei que é difícil de acreditar, que
isso parece um sonho...Mas ao mesmo tempo parece
realidade. Você não está sonhando, apesar de não estar
no mundo físico, Fiódor.
- Se é mesmo minha irmã...Como nunca tomei
conhecimento de você?
- Mamãe me perdeu com oito meses de gravidez, antes
que você nascesse. E nunca mais falou sobre esse
assunto com mais ninguém...Pra não reviver a dor, pra
não rememorar o sofrimento. Por isso você acabou não
sabendo...Porque ela nunca mais quis falar sobre o que
aconteceu. Só que não se iluda: o embrião já é um ser
vivo...E desenvolvi minha consciência logo que morri,
sem ter vivido, sem ter existido no mundo. Como
espírito, cresci no Limbo e acompanhei a trajetória de
vocês. Por não ter sido batizada, não posso me elevar ao
Paraíso. Mas você é a minha esperança, Fiódor...Como
o último de nós. E a esperança de Boris, do papai e da
mamãe, que estão no Purgatório...Reze por eles...Pra
que facilite o caminho. E reze por mim...Para que o
Espírito Santo me batize, já que no Limbo não há água.
Não há nada...Nem mesmo sofrimento. Apenas vazio...
- Isso é desconcertante...Não sei como posso acreditar.
Mas parece real...
- É real! Honre nossa família, irmãozinho! Posso te
chamar assim porque teria nascido antes de você.
Fiódor...Você será um cruzado, abençoado por Deus!
- Pode ver o futuro?
- Posso intuir...Mas você é capaz de mudá-lo; você é
livre. Em todo caso, gostaria de lhe pedir para que
seguisse a senda de Cristo. Como eu, há muitas crianças
não-batizadas na Rússia...E é pelo excesso de

248
paganismo que nosso país está nessa situação, repleto de
tártaros e de covardes como o tio Alexei. Vi o que ele
fez...Mas de nada adiantaria se vingar,
irmãozinho...Sangue não se paga com sangue. Isso é
pagão...Nossa avó tinha razão quando te contava as
histórias dos demônios antigos; o problema é que eles
ainda estão vivos. O tio Sasha só tem a veste de
cristão...Mas escondido continua a venerar os deuses
pagãos! Tome consciência: você não deve combatê-lo; e
sim combater o paganismo, a fumaça que sobe até o
trono do Tsar, tentando queimá-lo. Trate da doença, e
não dos sintomas.
- Há cristãos que fazem tanto mal quanto certos pagãos.
- Mas é porque um fruto podre corrompe os outros
sadios! Entenda, Fiódor...- E mergulhou seus olhos nos
do irmão, que despertou para a constatação de que
efetivamente saíra em espírito para visitar o outro
mundo, que tudo o que acontecera fora tão real quanto
sua carne ou o abade Mendeleev...Não se tratara de um
delírio.- O que você viu hoje...Você esteve bem
próximo do Inferno, pra testemunhar de perto o que o
paganismo faz com as pessoas. Seres terríveis, como a
Baba Yaga, querendo se passar por entes queridos...E no
passado inúmeros demônios se passaram por deuses.
Para que o que passou não te atormente nunca mais,
precisa construir um futuro sacramentado pela cruz.- De
supetão, o irmão liberou um gemido, franziu o cenho e
se afastou; começava a sentir vertigens e uma forte dor
no peito.- O que foi? Irmãozinho??
Não conseguiu responder. Outras dores se
manifestaram em partes diferentes do corpo e as
tonturas aumentaram; por um instante apagou, tendo
como última sensação do “outro lado” a voz doce de

249
Vasilissa, e despertou em seu corpo; já amanhecera.
Moveu bem os dedos e girou os pulsos para sentir a
carne e ossos; uma leve dor de cabeça. ”O que foi que
aconteceu? Ainda não sei o que pensar...Me lembro de
tudo, de cada detalhe; esqueço sempre dos sonhos, só
que dessa vez me lembro do que aconteceu com mais
nitidez do que do que vem acontecendo na minha vida
entre os afazeres diários! Nunca imaginei que a minha
mãe tivesse me escondido uma irmã...Se foi só um
devaneio, não sei; mas e se não foi?...”, com o corpo
mais duro do que dolorido, teve dificuldades para se
levantar; passou o resto da manhã confuso, à espera que
o que vivera se transformasse em névoa; mas não
esqueceria. Uma parte sua acreditava...Outra parte tinha
dúvidas.
Perto dali, em uma choupana escura, um homem em
trajes sombrios, veste de monge e cabeça encoberta por
um capuz, encerrava seu ritual; o círculo mágico
desaparecia à medida que a luz do sol entrava; os
símbolos se dispersavam. Por detrás de um tabique, um
rato; insetos percorrendo o tapume; outro rato roendo
uma viga apodrecida; as tiras de couro do estrado
resmungavam. O indivíduo descobriu a
cabeça...Tratava-se do abade Mendeleev.
- Você realmente não mede esforços para realizar o que
se prepõe.
- Eu lhe disse que teríamos aquele homem. Ele não nos
escapará...- Comunicou-se em latim com uma figura
espectral, sentada em um banquinho no canto oposto.
- Acompanhei a cerimônia toda...E fiquei
impressionado com a sua crueldade. Ao mesmo tempo,
estou orgulhoso...Queria poder estar fisicamente aí para
lhe dar um abraço!

250
- Poupe-me das suas carícias.
- Por que queria tanto o rapaz?
- Você sabe. Eu lhe falei da visão que tive...
- Vive tendo visões...E as leva tão a sério que tem que
realizá-las! Se o viu como um cruzado logo na primeira
vez que o encarou, por que não deixou o destino se
encarregar disso? Parece que não acredita tanto assim
no destino, ou não tentaria manipulá-lo. Se suas visões
fossem puras, previsões exatas, não iria interferir na
vida para realizá-las.
- Não se meta, Jonathan. Sei o que faço...Fiódor será
um cruzado de grande utilidade.
- E por quanto tempo pretende preservar esse disfarce
de abade? Até ter uma nova visão?
- Por quanto tempo você pretende manter esse disfarce
de padre?
- Está sendo muito duro comigo. Não fui eu que entrei
nas memórias de um mancebo e me passei por uma irmã
que nunca existiu...
- Não tente sugerir nada.
- O que eu poderia insinuar? Estou treinando para me
tornar um homem santo...- O sacerdote vermelho, ali
presente com uma emanação astral, abriu um sorriso
discreto e irônico antes de sumir.
Ao sair do casebre, Mendeleev deu a impressão de só
estar saindo do pequeno bosque enevoado ao lado do
mosteiro. Para olhos não treinados, ali não havia mais
nada; graças à sua magia, podia manter seu recanto de
“meditações” oculto. Nem mesmo ele seria visto
enquanto estivesse dentro da cabana, ao abrigo de
intempéries climáticas. Quanto aos ratos e insetos dali,
talvez não fossem animais, da mesma forma que um

251
cruzado e um mago não eram exatamente seres
humanos...

Passado – VI

Embaixo, uma imensa piscina de fogo, com chamas


que se contorciam de fome, ávidas para destroçar,
mastigar e deglutir, dissolvendo no lago vermelho
alaranjado as seis vidas prestes a desaparecerem em um
instante: uma mulher e duas crianças, um menino e uma
menina, os três de cabelos negros retintos, e um senhor,
uma senhora e um homem de meia-idade, de cabelos
brancos, todos de pele escura; a seus pés, dois turbantes,
um amarelo e um preto, desmanchados. Nativos do sul
da Índia, o adulto vestia um dhoti alvo com um
angavastram colorido, o velho apenas um dhoti simples,
desbotado, o do garoto um tanto sujo de terra; as
mulheres usavam saris em estilo madisaara, roxo e
dourado o da mais velha, azul-claro o da jovem mãe de
família e bege o da garota; pouco atrás, crianças em
sarongs compridos verde-rubros que logo seriam
sacrificadas. No solo, traçado o yantra de Mahakali,
com o círculo de águas turbulentas contido no palácio
vermelho e contendo o lótus que se abria em fogo,
invocando os três triângulos cujo centro unificado era o
ponto branco do início e do fim do universo: para Kali
não havia diferença.
- A boca da Deusa contém a saliva borbulhante de onde
nasceram Brahma, Vishnu e Shiva. Alguns disseram
que foi Brahma que a moldou, mas em verdade o senhor
da Criação se enganou, pois ela já existia muito antes,
apenas descoberta por seu filho, provando sua
superioridade ao encantar todos os deuses; é a escuridão

252
superior, que devora o que há e o que não há, que se
alimenta de cinzas e bebe do néctar que ninguém mais
sabe extrair dos ossos.- Pronunciou um sacerdote thug,
trajado de preto como seus companheiros, usando uma
máscara repleta de dentes curvos e afiados, vermelha e
amarela com a “língua” para fora.- A única capaz de se
manifestar com um sorriso gentil após esmagar um
demônio ou retalhar um pecador; não há esperanças
para os que entram em seu reino...Ao mesmo tempo que
todos estão nele, fadados a conhecê-La, submetidos à
iminente aniquilação.- Um rapaz de dhoti rosado
portava um cesto com os colares, anéis, pulseiras e
pedras preciosas soltas, adornos retirados dos que
seriam sacrificados, jogados às chamas junto com estes.
- Se Ela nasceu da pedra, como a piedade poderia ser
encontrada em seu peito? Não há lugar para a
compaixão, ou como Ela ousaria pisotear o Senhor? Os
homens a chamam de misericordiosa, mas não há o
mínimo traço misericordioso em ti, ó Mãe. Cortaste
cabeças de crianças, escolhendo usar uma guirlanda de
caveiras em volta do pescoço. De nada adianta que te
chamemos, mãe, ó mãe; nos escutarás, porém não
auscultarás. Mãe terrível que nos carrega, nos alimenta e
sabe o quanto somos fracos e dependentes!- Recitou
outro sacerdote, cuja máscara parecia viva, os olhos de
um vermelho intoxicado pela fúria; segurava uma
pequena estátua preta e preciosista da deusa, com
inúmeros braços empunhando espadas, um tambor e
enrolada por uma serpente.
- Nossa carne é vermelha, o sexo nos traz a vida e à
vida, aceitamos o cereal, bebemos o vinho e recebemos
a água ao comer o peixe. Se Matsya circunda o mundo,
Kali é o mundo e o antecedeu.- Bradou um terceiro

253
oficiante, próximo de uma estátua em pedra azul com
dez rostos, dez pernas e três olhos, montada em um leão
que se erguia orgulhosamente sobre um lótus cerúleo.
No olho da testa um rubi do qual partia um raio
vermelho que alcançava a piscina; devia ser o artefato
mágico que provocava e avivava aquelas chamas,
canalizando um poder incontestável.
- Nossa mãe é o princípio da Consciência. Ela é
Akhanda Satchidananda; é a Realidade indivisível,
existência e bem-aventurança: o céu da noite entre as
estrelas é perfeitamente negro, assim como as águas
profundas do oceano; o infinito é sempre
misteriosamente escuro. Estas trevas inebriantes são
manifestações de nossa amada Kali.
- Se não fosse por Ela e pelas matrikas, Raktaija teria
conquistado o mundo, usurpado a Criação. Usar uma
imensa variedade de armas foi inútil: de cada gota de
sangue do demônio, este reproduzia uma réplica de si
mesmo; mas nossa Mãe não se limita às espadas: Ela é
terrível e pode beber o sangue; foi dessa maneira, e
vestida com uma pele de tigre, preenchendo o céu com
seus urros, que Kali sugou toda a vida do monstro para
dentro de si. E ele se tornou seu filho, submisso em suas
entranhas à vontade da Mãe. Que fiquemos ao abrigo de
tua ira!
- Tu que te deixas inebriar pelo sangue, que bailas em
frenesi destrutivo: chegaste a não perceber, em tua
dança alucinada, que tinhas passado por cima de Shiva.
Foi preciso que o Senhor chorasse de dor para que teu
êxtase se aplacasse; quem pode te controlar?- E o
tenebroso ritual parecia não terminar nunca; um jovem
de dhoti vermelho degolou uma pequena cabra e a
atirou pingando sangue no fogo. Estavam em uma

254
caverna de paredes secas e ásperas, dominada por um
calor sem precedentes, conquanto os três hierofantes de
Kali não mostrassem um pingo de suor, isso ao
contrário dos adoradores comuns e dos que ao que tudo
indicava logo seriam sacrificados. Raja, naquela época
um pai de família, levantou a cabeça e tentou fazer uma
prece, mas não conseguia se concentrar; estava
revoltado com Deus e com a vida por sua família ter
sido capturada pelos thugs, sentindo que fora traído em
sua fé. “Que levassem a mim, mas sem tocar nos meus
filhos, nos meus pais e na minha mulher...”, vivendo em
uma pequena mas rica cidade de Tamil Nadu, haviam
sido aprisionados após um ataque repentino feito pelos
thugs da região, que fizeram um primeiro sacrifício “em
movimento”, incendiando igrejas e residências, em sua
maioria de madeira, e levaram consigo algumas
famílias, sendo a do futuro cruzado a única que restava.
“Tenho que realizar uma última tentativa...Não posso
ficar parado.”, e tremeu mas pretendia agir, ele que
passara pelas duas primeiras etapas necessárias na
trajetória de um homem indiano de seu tempo: na
infância e adolescência, estudara a Bíblia, o que nos
Vedas a antecipara e as relações entre a antiga sabedoria
hindu e a mensagem do Cristo; ao chegar à idade adulta,
se casara e se tornara um pai de família; pretendia,
quando seus filhos tivessem se desposado, garantindo a
continuidade da família, se retirar para a floresta com a
esposa e viver uma vida de oração; por fim, quando
chegasse à velhice, se tornaria um mendicante e se
possível tentaria realizar milagres pela Fé. Seu pai
parara no segundo degrau, mas ele queria ir adiante,
conhecer Jesus e os santos e anjos, os yogues e os devas
do Paraíso, mais de perto antes de partir, ou, caso não

255
realizasse essa ambição, acreditava que estaria
condenado a prosseguir na roda do samsara, o
Purgatório terreno que só se encerraria no dia do Juízo
Final. Tinha uma oportunidade de ouro em sua vida
presente; não pretendia desperdiçá-la de forma alguma.
E se na vida seguinte renascesse em um meio dissoluto
e violento? Contudo, se pudesse salvar a sua família,
talvez Deus reconhecesse seus méritos e virtudes e o
presenteasse com uma nova encarnação em um
ambiente adequado e com pessoas afins, melhor distante
da Índia, para evitar que acabasse obtendo alguma
recordação. Cogitar o Paraíso? Não era tão pretensioso;
Svarga era para os santos. Esperava apenas ser livre
para amar na Terra, longe de aspirar ao primeiro Céu,
por demais distante do Brahman, que estaria para além
de todos. “Que não renasça entre estupradores, ladrões e
assassinos; que tenha uma mãe carinhosa, um pai sábio,
genitores como os que tive nesta vida, uma vaca que dê
muito leite e possa encontrar uma nova esposa virtuosa,
ou se o Senhor me permitir reencontrar minha querida
Ushas. A sol está se pondo; tenho quer ser rápido.
Cristo, me dê forças...”, pensou em segurar o crucifixo
de ouro que costumava levar em seu pescoço, porém
este lhe fora retirado; se limitaria a ir com a Cruz que
tinha em seu coração: “O que na verdade não é uma
limitação. Tenho que superar esse teste...”, fora educado
e criado com firmeza e ternura nas medidas certas por
seu pai, um comerciante como pouco menos do que a
metade da população da cidade onde nascera, mais ou
menos prósperos, de resto povoada por servos e por
alguns brâmanes (na Índia os padres haviam adotado tal
denominação tradicional a fim de conseguirem uma
maior identificação e um número decente de

256
conversões; somente aceitando as peculiaridades do
catolicismo indiano, ainda em formação, que a Igreja
construíra e consolidara uma hegemonia naquele sub-
continente antes “indomável”). Haviam faltado
xátrias...Nenhum cavaleiro fora visto durante a investida
dos adoradores de Kali.
- Esperem, homens de fé!- Interveio, surpreendendo os
sacerdotes, quando um rapaz com o corpo inteiro
tatuado com imagens da deusa negra se aproximou do
pequeno Varaha, filho de Raja, pronto para atirá-lo ao
fogo; a menina, a caçula, não parava de chorar, mas era
ignorada pelos fanáticos, enquanto Ushas arregalara os
olhos úmidos.- Não faz sentido sacrificarem mulheres,
velhos e crianças. Acham que a Deusa se rejubila com
isso? Kali quer sangue e carne frescos e maduros, não o
que ainda está verde ou que ressecou ou até apodreceu.
Além disso, a carne da fêmea não deve interessar a Kali;
Ela deseja o macho para provar sua superioridade.
- Tolo! Quem pensa que é para nos falar sobre os
desígnios de nossa Deusa? Não passa de um animal de
sacrifício; de um ímpio, que se vendeu para os cristãos
em troca de ouro e pedras.- Um dos sacerdotes falou
num tom severo.- Além de ignorante, um traidor sobre o
qual a fúria da Deusa irá se abater com a força de cem
relâmpagos!
- O que pensa que está fazendo, Raja?- A velha mãe
questionou.
- Eles são frágeis. Não são dignos. Jogue apenas a
mim.- O pai de família ignorou a pergunta e insistiu
com os sacerdotes.
- Desgraçados! Acham que somos vendidos!- De
repente, para o susto e o desespero de Raja, seu pai
perdeu o controle.- Me desculpe, meu filho, mas esses

257
são absurdos que não posso tolerar. Se tenho ouro e
jóias, foi porque trabalhei para obtê-los, porque Deus
me agraciou por meu esforço. E nunca traí a sua deusa;
uma “deusa” repugnante que só sabe matar e cometer
atrocidades! Nunca serei o servo de um demônio!
Somos homens e damos nomes às criaturas da Terra.
- Arishta!- E à ordem de um dos hierofantes de Kali um
assassino mascarado avançou com sua adaga e degolou
o idoso para na seqüência jogar seu cadáver às chamas;
Raja nunca antes presenciara movimentos tão velozes.
Na lâmina, ainda reluzia a figura de um javali.
- Não vamos mais tolerar interrupções.- Disse outro
sacerdote, e o mesmo assassino embainhou sua arma e
tocou com as pontas dos dedos alguns pontos do corpo
do futuro cruzado, que ficou sem poder mover a língua
e sem conseguir se mexer direito.- Já basta de
insolências. Pela sua coragem, apesar de ser um
ignorante, e por seus sentimentos genuínos por sua
família, permitiremos que morra por último. Poderá
viver o suficiente para se despedir de cada um.- Raja
tentou gritar, mas nenhum som saía; sua mãe desmaiou
e foi atirada ao fogo mesmo inconsciente. Na seqüência,
a vez da filha: o futuro cruzado ainda buscou reagir,
porém foi jogado no chão pelo carrasco. Pelo silêncio
súbito que sobreveio, deduziu que fora degolada. O
choro cessara de forma repentina; e o corpinho
despencou rápido demais na garganta do demônio
ígneo. Ushas fechava os olhos, ao passo que seu marido
não tinha forças para se levantar; Varaha, num ato
corajoso e impensado (o pensamento de todo modo não
adiantaria ali; e nem mesmo a coragem, mas o menino
tinha temperamento de xátria e não morreria sem lutar),
arrebentou o gelo do medo que o prendera até então e

258
investiu contra o inimigo, que se dirigia para a sua mãe;
o assassino, frio e preciso, cortou as gargantas da
criança e de Ushas em um instante, sem se importar
com um que tentou defender o outro, e atirou os dois
corpos no poço das labaredas. Foi quando Raja
começou a recuperar seus movimentos...
- Agora iremos juntos. Este é nosso sacrifício sagrado.
Só assim para que você possa se redimir diante da
Deusa, mergulhando junto com um devoto. Uma pena
que só o seu corpo não possa resistir às chamas.- O
carrasco retirou o que encobria seu rosto, revelando um
semblante disforme, de cabelos desgrenhados e sujos,
olhos em brasa pútrida, sorriso de escárnio virulento e
pequenas protuberâncias na testa; dono de uma
gargalhada bestial, com a força e a velocidade que
possuía não tinha como ser humano ou meramente
humano...Apenas seu olhar podia desencadear terríveis
doenças. O futuro cruzado demorou a se reerguer,
sentindo um peso tremendo em suas pernas.
- Arishta! Pode encerrar a cerimônia.
- Farei isso com todo o prazer.
Raja pensou que não devia se render; não era um
xátria, mas mesmo assim pretendia lutar até o fim:
dominou o braço do asura e o torceu quando este tentou
apunhalá-lo, na seqüência empregando toda a sua força
e a intensidade máxima de giro do seu quadril para
atirá-lo ao fogo, deixando os sacerdotes de Kali
boquiabertos...Isso em sua imaginação, porque na
realidade recuava e um único empurrão o faria cair no
poço dos chamas; só pôde fechar os olhos e orar e
pensar de forma confusa: “Cristo me permita que a
próxima vida seja mais longa; que eu possa me
aproximar mais de Deus. Fui incapaz de proteger a

259
minha família, de cumprir meu dever como pai e
marido; que os chacais arranquem os meus pedaços...”,
escutou o som de uma flauta, visualizando a imagem de
Krishna. Perguntou-se se já caíra entre as labaredas e se
fora poupado da dor, indo diretamente ao encontro do
Senhor, que lhe mostraria por uma estrada de pedras
douradas e céu azul o caminho para uma nova
existência. No entanto, o som atravessava seus ouvidos
físicos...Ainda não se tornara cinzas. Reabriu os olhos e
testemunhou a paralisia dos devotos de Kali: um
indivíduo moreno, porém não indiano, de nariz aquilino
e olhos e cabelos escuros e longos, com o olhar de um
pássaro de rapina que também era cantor, tocava o
instrumento de sopro com uma maestria inaudita; vestia
uma toga branca e usava coturnos da mesma cor. Os
sacerdotes se encararam, parecendo confusos, surpresos
e um tanto preocupados; o demônio que massacrara os
entes queridos de Raja via sua mão tremer, sem
conseguir manusear sua adaga ou mexer os pés. O
futuro cruzado reconheceu na música tocada
similaridades com um famoso mantra em que se falava
da unidade entre Krishna e Cristo.
- Como ousa profanar a nossa cerimônia, estrangeiro
insolente?- Inquiriu um dos bruxos da deusa negra, que
formou ao seu redor, desenhando-o com a ponta de seu
dedo indicador direito, um yantra de triângulos de fogo
contidos em um círculo negro, que escaparam do que os
continha e se expandiram na direção do desconhecido; a
melodia, contudo, exercia uma influência misteriosa
sobre o fogo, que foi se apagando tanto nas figuras que
iam agredi-lo como na piscina abaixo. Os dois outros
hierofantes, que já haviam se dado conta do poder do
invasor, formaram esferas de cristal em suas mãos,

260
perfeitamente transparentes, que serviriam para
descobrir suas fraquezas quando o fitassem; no entanto,
este de súbito desapareceu, sem que a música cessasse,
e quando ressurgiu, bem diante de ambos, houve um
silêncio sepulcral e o servo-demônio parou de tremer
para cravar sua adaga em seu próprio peito, caindo e se
contorcendo aos pés de Raja, que se afastou; um fogo
negro consumiu o assassino e aos poucos pretas e
sombrias se tornaram as labaredas do poço que
consumira os familiares do futuro cruzado. Estas se
rebelaram contra os sacerdotes e passaram a atacá-los
feito serpentes indomáveis, enquanto os ajudantes
fugiam.
- Por que tanto medo e tanto ódio? Vamos dançar!- O
invasor retirou um cacho de uvas de uma dobra de sua
toga e começou a comer e a dançar, com o chão
rachando aos seus pés, as chamas negras subindo e
engolindo os inimigos com uma potência selvagem;
olhou para o único sobrevivente e o convocou:- Venha
comigo...- Veloz demais para que seus movimentos
fossem acompanhados, reapareceu com sua mão
segurando a do homem que iria salvar; este sentiu essa
parte de seu corpo arder e todo o resto gelar, enquanto
era puxado para fora, para as matas inundadas pela
noite, e a caverna ruía. Tonto, só conseguiu fixar a
visão, mesmo depois de pararem, quando uma pergunta
foi feita:- O que estava fazendo ali dentro? Em que
lugar mais pacato foi se meter!- Pensou em dar uma
resposta ríspida, atravessada; que hora para fazer
ironias! Porém se conteve, afinal aquele homem fora
seu salvador, e respondeu com uma falsa mansuetude:
- Fui capturado com a minha família pelos thugs. Meus
pais, minha mulher e meus filhos foram mortos. Não me

261
resta mais nada. De certa forma, também morri
queimado.
- Não diga isso. Sempre poderá construir uma nova
família; Deus nunca nos abandona. Conhece o final da
história de Jó?
- Claro. Mas não me interessa construir uma nova
família. Agora acho que terá início uma etapa distinta da
minha vida. Antes de tudo, porém, obrigado por me
salvar...
- Deixe disso, homem. Mas sou curioso e gostaria de
saber...Que nova etapa será essa?
- Não costumo me abrir com homens que não dizem o
próprio nome.
- Só não disse antes porque não perguntou! Me chamo
Dyonisos. E vamos completar as informações: nada
mais justo do que você saber que sou um cruzado.
- Um cruzado...Um caçador de demônios e hereges.
Então está explicada a facilidade com que venceu
aqueles thugs.
- Se achou fácil, foi porque não participou da luta.
- Pelo menos pareceu.
- E a sua nova etapa? Não vai se abrir?
- Pretendo me dedicar a Deus e à meditação...Me retirar
para a floresta.
- Esta serve?
- Não exatamente agora e nem aqui.- Apesar do
sofrimento acumulado, talvez justamente por este, que
explodia em seu peito, teve vontade de rir com o jeito de
seu peculiar salvador, mas se segurou. Não era hora
para irreverência, depois de tudo o que acontecera.
“Mas será mesmo? Que bobagem...Eu me importando
com isso? Afinal a vida continua, mesmo depois da
morte, e minhas crianças terão um novo pai, minha

262
mulher um novo marido e meus pais novos filhos. Por
que me reprimir?”, afligia-se com suas próprias
contradições.
- Tem jeito de que gosta de adiar as coisas. Quem quer
se retirar do mundo, se retira de uma vez. Eu, da minha
parte, não tenho a menor vocação pra eremita. Gosto
demais de vinho e de mulheres. Ops, acho que não devia
ter dito isso...Mas salvei a sua vida, então pode me dar
um desconto!
- Os cruzados não devem ser castos e, apesar da
ocupação guerreira, valorizar os aspectos
contemplativos e espirituais da existência? Afinal a luta
é constante não só fora como principalmente dentro. Os
piores demônios a nos tentarem são os das nossas
paixões.
- Calma, calma...Que eu goste de mulheres não quer
dizer que eu tenha ido pra cama com elas recentemente!
Posso ter dançado, tomado vinho com elas...Ter feito
amizades! Não seja maldoso, afinal Cristo também
gostava de beber e dançar, tendo transformado água no
quê? Em vinho! Quem nunca pecou que atire a primeira
pedra...E a alegria, do meu ponto de vista, nunca será
um pecado. Pecar consigo mesmo é se abster de algo
que se quer e que não faz mal a ninguém. Nunca fiquei
ébrio com facilidade! Gosto do vinho dos monges do
Lácio, da Toscana e da Apúlia...Ah, como gosto! Afinal
são feitos por homens que como eu bebem sem deixar
de lado a sobriedade e o valor da fé. Será que aprendeu
agora? Não vale a pena ficar no meio dos tigres na
selva.
- Ao que tudo indica, somos muito diferentes. Mas em
comum compreendemos que Cristo não é apenas

263
sofrimento. O senhor me faz lembrar das gopis de
Krishna.
- Já ouvi falar de Krishna...Mas quem são essas gopis?
- Além do mais, sabe tocar flauta, que era o
instrumento que Krishna tocava, ele que na minha
opinião foi uma das vindas anteriores de Jesus à Terra.
As gopis eram vaqueiras e camponesas que ficaram
famosas por sua devoção a Krishna, algumas até
casadas, mas que largavam os maridos, noivos ou
namorados para seguirem atrás do som irresistível da
flauta do filho de Deus.
- Hmmm...Devia ser uma flauta e tanto...- Dyonisos
abriu um sorriso malicioso.
- Na verdade, trata-se de uma alegoria complexa,
comparável ao amor místico do Cântico dos Cânticos.
Krishna representa Deus e as gopis os fiéis, entre outras
interpretações, afinal Jesus também disse que para
segui-lo seria preciso deixar família e deveres para trás,
ainda que não no sentido literal. Eram cento e oito gopis
mergulhadas no amor incondicional, no suddha-bhakti,
o trabalho devocional puro, que faz com que o indivíduo
só anseie por Deus e mais nada. Uma etapa fundamental
para alcançar moksha, a santidade que nos conduz ao
Paraíso, que nos liberta do Purgatório das encarnações
da Terra. Pelo visto, não é o que você busca no
momento.
- Antes que você me pergunte, Dyonisos é mesmo uma
homenagem ao deus pagão; não é meu nome
verdadeiro. Na verdade, me chamo Demetrius, o que
também foi uma homenagem, mas que a minha mãe fez,
para São Demétrio de Tessalônica! Não que acredite na
existência de Baco ou Dionísio, mas o considero um
símbolo de alegria irmanado com Cristo, de certa forma

264
como você valoriza Krishna. Ele também ressuscitou
após ser esfacelado pelos titãs. Espero que entenda...
- Perfeitamente. Mas os outros cruzados e padres
aceitam isso de bom grado?
- Eles não se opõem porque sou útil. No último ano, fui
entre todos o que mais matou demônios, e alguns de
primeira categoria: um conde, dois marqueses, dois
barões, um possuído e quatro habitantes das
profundezas.
- E por que o enviaram à Índia atrás dos thugs?
- Me avisaram a respeito de uma entidade perigosa,
chamada Kali, que pelo que compreendi é a que os thug
adoram. Vim interromper todas as cerimônias ligadas a
ela para impedir que se manifeste. Não é nada pessoal,
entenda!- Fez uma careta e piscou.
- Compreendo.- Raja preferiu não se estender.
- Além dos mais, a Igreja sente a falta de homens
corajosos. Não é todo dia que se encontra gente disposta
a assumir a posição de um cruzado, e os cruzados
morrem.
- Soube que seus corpos não se degeneram.
- Mas poucos sobrevivem a tantas batalhas...- E
continuaram conversando por um longo tempo, como
que ignorando a floresta ao redor e deixando de lado
tudo o que se passara minutos e horas antes. Na
realidade, não ignoravam nada; mas tinham algo a
erguer para o futuro. Para Raja, as palavras foram
ficando cada vez mais claras e convidativas, sem que
Dyonisos precisasse fazer uma única oferta. Sem
compromisso, decidiu viajar com o novo amigo para
conhecer Roma...

265
- Eles estão se aproximando; e são muitos. Fizemos
bem em evacuar a cidade.- A neve refletia em seus
cristais os destinos dos que haviam permanecido,
distorcendo-se internamente em átomos quebrados. Os
telhados das casas cobertos de gelo; o vento como um
estilete cortando o vidro; as respirações suspensas;
apenas uma residência habitada, e não por nativos;
sequer sinal de um cão ou de um cavalo naquela noite
em que a lua se mostrava congelada no céu. Em um
quarto não tão espaçoso, Dyonisos, com uma toga e
coturnos acinzentados, bebia uma taça de vinho tinto
forte, o único sem armas ou armadura, sentado sobre um
caixote; Leovigild estava de pé, de costas para os
outros, “olhando” para a parede, com uma armadura
prateada de ombreiras azul-claras e as mãos sobre o
pomo de sua espada montante; Masamune no chão em
seiza; Raja em padma asana; Friedrich observava os
companheiros; Ptolomeu, o egípcio, usava uma
armadura negra e dourada com um falcão no peitoral
rodeado por um disco solar e encimado por uma cruz,
segurava uma lança com lâminas curvas dos dois lados
e era um indivíduo alto e de pele escura, os cabelos
raspados e olhos de aridez pontiaguda, a voz áspera
quando se pronunciava. Contudo, quem falara fora
Hong, um chinês de estatura média, os cabelos raspados
na frente e uma trança atrás, que usava duas espadas
compridas cujas empunhaduras esverdeadas eram
opostas, em uma o dragão seguindo para o alto, na outra
descendo, e de armadura colorida e rebuscada, repleta
de escamas, com adornos que lembravam flores e um
capacete com uma cruz sobre um dragão, como se o
subjugasse.

266
- Belial e suas legiões...Como foi possível que um
monstro desses tenha conseguido se materializar? A
virtude humana anda tão em baixa?- Indagou
Ptolomeu.- A cada dia a Terra se torna um campo de
batalha mais violento. Será que foi isso o que o Cristo
desejou?
- Tenho um certo receio que não sejamos o bastante pra
acabar com essa merda toda.- Leovigild resmungou.- Se
fossem só os legionários! O problema é o maioral, o
príncipe.
- Não devíamos dar títulos a essas criaturas. Condes,
barões, viscondes, príncipes! São seres sub-humanos,
que não merecem tanto respeito. E nós, ao aceitarmos
nosso trabalho, nos tornamos mais do que homens. Por
que deveríamos temê-lo?- Inquiriu Friedrich.
- Mais? Acho que viramos menos...Podíamos estar
numa vida tranqüila, mas não! É isso o que escolhemos,
viver como monstros que matam monstros.
- O que você acha que seria uma vida tranqüila? Viver
com medo a todo instante? Ser fraco demais para poder
se defender? Charles, que vocês já conhecem, era o
brinquedo de um demônio antes de se tornar um
cruzado. Chama isso de vida tranqüila? As pessoas
comuns não têm descanso.
- E não somos monstros; ou os anjos também seriam.-
Disse Ptolomeu.
- Ao que vocês estão se comparando, seus idiotas?-
Leovigild cuspiu no chão.
- Nenhuma meta é inalcançável. Deus nos quer tão
próximos dele quanto os anjos são. É uma questão de
alcançar o estado adequado, de se unir a Cristo, de
entrar em comunhão com o Espírito Santo.- Raja se
pronunciou.

267
- Falando nisso: pretende usar o que andou treinando
nesta batalha? É perigoso, mas pode ser divertido...-
Dyonisos sorriu e jogou a taça no chão ao terminar de
beber.
- Se for preciso, vou fazer. Mas espero que não seja.- E
recebeu um olhar atento de Masamune.
- É o que ouvi dizer; que se deixa possuir por alguns
instantes para se aproveitar da força dos demônios. E
depois dizem que não somos monstros!- Exclamou
Leovigild.
- Fico acima do mal ao alcançar um estado em que não
há mais distinções entre a minha pessoa e a totalidade
da Criação. Deus me dá forças e posso dominar meus
demônios internos e externos. Acha que isso é ser
monstruoso? Ao fazer isso, estarei salvando vidas.
- Pode salvar quantas vidas forem, mas a minha visão
não muda.
- É só um velho cabeça-dura e ranzinza! Não dêem
importância!- Zombou o grego.
- Acho que encarar a realidade faz parte do trabalho de
um cruzado. Aceitar que somos monstros não é um
demérito: é a única forma de não nos deixarmos possuir,
tendo ciência do que realmente somos. Abrimos mão da
nossa humanidade pelo nosso próximo, decidimos
mergulhar no Inferno, e isso não nos faz anjos ou
santos. Somos homens que se aproximam do limiar do
demoníaco para podermos compreendê-lo...Um jogo
traiçoeiro. Temos o sangue de Cristo em nossas veias
para suportar as chamas do Inferno...Não para sermos
parecidos com Ele.
- Cada um tem uma visão diferente. Não estamos aqui
para discutir. Eles chegaram à cidade...O portal nas
montanhas se fechou; todos passaram.- Hong, que tinha

268
uma sensibilidade espiritual acima do normal, detectara
a descida dos demônios.
Saíram da casa em que estavam hospedados e não
viram ninguém; no entanto, prepararam suas armas:
Dyonisos retirou seu cacho de uvas e o transformou em
uma corrente com esferas de metal, que por sua vez
assumiu a forma de uma rede para prender o primeiro
demônio que os atacara, um voador vermelho de
dimensões pequenas, que foi esmagado dentro da teia de
aço; Hong manuseou suas duas espadas, que
intensificaram a força dos ventos e arrastaram consigo
lascas de gelo contra uma criatura cujo corpo lembrava
um gorila prateado, porém com olhos em diferentes
partes, como nas mãos, peito e costas, cegando-o
parcialmente; o fogo de Friedrich cortou o solo e fez
despencar em um córrego de magma que surgiu cinco
voadores de dimensões consideráveis, atraídos
irresistivelmente não pela gravidade e sim pela
psicocinese de Raja; Masamune, com sua katana,
movendo-a a uma velocidade extrema, conseguiu cortar
a carne dura de uma fera quadrúpede que lembrava um
leão negro; outra surgiu na seqüência e foi a vez de
Leovigild saltar e arrebentar-lhe o crânio; Ptolomeu
girou sua lança e formou um turbilhão que atraiu para o
seu centro dezenas de voadores pouco maiores do que
corvos, dizimando-os.
- Parece que os subestimou, meu senhor. Nesse ritmo,
serão todos derrotados.- Pouco afastado, um ser de
pescoço comprido e armadura cinzenta, com três braços
e rabo curto e espinhoso, dedos tentaculares, comentou
com alguém ao seu lado, embora aparentemente não
houvesse ninguém.

269
- Não acredito que me cerquei de tantos inúteis. Admito
que pensei que seriam suficientes contra humanos.- De
onde vinha aquela voz? Um fantasma? Uma entidade
invisível? Na verdade, provinha de um diminuto
demônio azul, do tamanho de um polegar humano, com
uma barbicha no queixo e olhos vermelhos, a cauda
sinuosa, oculto na neve. Um nada se comparado ao
gigante ao seu lado...Que porém jamais ousaria tentar
esmagá-lo.
- Eles não são apenas humanos. O senhor sabe bem
disso...
- É verdade. É que na minha concepção o fruto será
sempre superior ao suco...Ou a uva ao vinho; não gosto
de bebidas alcoólicas.- Uma aura da cor da
profundidade do fim do mar explodiu; a sombra do
minúsculo demônio se expandiu, enquanto ele era
absorvido por esta. Assumiu sua verdadeira forma,
crescendo até superar os seis metros de estatura e
exibindo asas de uma envergadura insuperável na Terra;
o corpo azul-escuro e peludo, a boca que dava a
impressão de ser minúscula de repente se escancarando
em dentes letais, os olhos de vertigem com pupilas que
giravam sem parar sobre um fundo aquoso e agressivo;
meio que voou e meio que saltou rumo aos seus alvos.
- Está acabado...- A outra criatura, na mesma
linguagem estranha na qual se comunicavam, deu seu
veredicto, permanecendo onde estava.
Belial pousou diante dos seis com o peso de um lótus
metálico cujas pétalas estavam carregadas com uma
sonolência de garras ilimitáveis, capazes de se
aprofundarem em qualquer carne de sonho; ao vê-lo,
Friedrich pareceu extasiado, abrindo mais os olhos
depois de pisotear o cadáver de um demônio inferior;

270
Hong, que acabara de trucidar a criatura de visão
multiplicada, retrocedeu para respirar fundo; Ptolomeu
foi o primeiro a atacar, tentando atraí-lo para o seu
tornado, mas tudo o que conseguiu foi que aquele
príncipe do Inferno começasse a sugar sua energia com
a boca e a atraí-lo, só não ficando perigosamente
próximo do inimigo graças à intervenção de Masamune,
que atacou com sua espada e fez com que o monstro
saísse de onde estava, transportando-se num instante,
com uma velocidade superior, para um lugar seguro, a
salvo do golpe.
Dyonisos manipulava sua corrente multiforme, que às
vezes se transformava em uma teia de fios afiados e
finíssimos, capturando e retalhando alguns demônios
fugitivos, ao passo que Raja focava sua mente já no
adversário principal, que ao bater suas asas enegreceu a
neve e fez crescer a tempestade.
- Estamos fodidos.- Leovigild sentenciou com sua
“sutileza” costumeira.
- Se se considera incapaz de reagir, pode ficar aí
parado.- Friedrich imantou sua espada com fogo,
tornando-a vermelha, e voou num único salto ao
encontro de Belial, assim como Masamune e Hong;
juntos, chocaram suas espadas contra os braços do
demônio, que assumiam formas variadas, entre lâminas,
escudos e ganchos. A intensidade e a rapidez dos
movimentos foram rachando o solo e produzindo tufões,
logo incrementados pelo giro da lança de Ptolomeu.
- Vocês não vão atacar?- Logo Leovigild questionou o
grego e o indiano.
- Por que não vai você?- Perguntou Dyonisos.

271
- Ele deve ser Belial. E realmente, pelo que sinto, me
parece impossível que consigamos derrotá-lo, mesmo
todos juntos. Só há um meio.- Raja interveio.
- Com você se deixando possuir...
- Mesmo assim, sozinho não será possível. Vocês terão
que me ajudar.
Uma explosão; a aura negra e os raios sangrentos e
expansivos atraíram a atenção de Belial, que no entanto
foi retido pela arma do cruzado ateniense, que se dividiu
em três cadeias e amarrou seus braços e o derrubou na
seqüência; Masamune e Leovigild saltaram para
decapitá-lo ou ao menos decepar um de seus membros,
porém a carne se revelou mais dura e resistente do que o
normal e sua força conseguiu rechaçá-los, partindo as
cordas metálicas e só não alcançando Raja porque
Friedrich perfurou seu abdome. A dor maior, entretanto,
era enfrentada pelo indiano, que viu à sua frente uma
figura de compleição seca, o rosto exibindo uma
expressão raivosa e sorridente, que de forma repentina
começou a mudar de aparência, criando músculos e com
ossos saltando para fora da pele cada vez mais
vermelha; protuberâncias nasceram na testa para depois
se transformarem em chifres; uma crina se estendeu
pelo pescoço e uma juba cresceu em volta da cabeça.
Olhos febris: uma forte dor de cabeça, acompanhada por
náuseas e calor, passou a incomodar o guerreiro; teria
que manter a consciência e a sanidade a todo custo.
Calafrios acompanhavam a destruição maciça de
hemácias e as descargas de substâncias imunogênicas
tóxicas na corrente sanguínea; seguiram-se a palidez do
rosto e tremores violentos; depois uma sensação de
síncope que não poderia ocorrer; por alguns momentos
chegou a observar o interior de seu cérebro, temendo a

272
oclusão dos vasos sanguíneos. Fazia um esforço brutal e
se não tivesse treinado arduamente para aquilo morreria
em segundos ou seria possuído sem a mínima
possibilidade de retorno a si mesmo. Ao medo somava-
se a lembrança da malária que contraíra na infância: os
sintomas eram parecidos, se bem que acelerados e
expandidos. Da doença para o êxtase, encontrou
Krishna e Cristo em um abraço no alto de sua cabeça, a
cruz a princípio incolor se tornando azul da cor do
oceano, e seu corpo se transformou, lançando à sua
volta nuvens de relâmpagos vermelhos, assumindo a
forma de um grande demônio de crina e barba espessas.
Belial, que após um confronto demorado contra
Friedrich e Ptolomeu perfurara o braço de um,
transformado um dedo em lança, e lançara o outro para
longe com uma onda de energia negra, encarou seu
novo inimigo com seriedade.
- Incrível! Não imaginava que crias dos padres como
vocês fossem capazes de algo do gênero. Mas não
pensem que a minha força se limita ao que viram até
agora...- O buraco em sua barriga se reconstituiu e uma
nova espécie de força começou a ser emanada; esta
paralisou o demônio comandado por Raja, para o
desespero deste, e deu forma a dois espectros retorcidos:
Friedrich e Dyonisos iam golpear o príncipe em lados
postos, mas acabaram atingidos pelas duas criaturas
fantasmagóricas, que mesclavam traços humanos e
demoníacos. Raja foi ao chão; Belial soltou uma
gargalhada e o grego e o alemão começaram a ficar
deformados e a se espojar.- Vejam o que é pecar agora!
Bando de fracotes...- Leovigild proferiu uma seqüência
de palavrões e retrocedeu; Ptolomeu pensou em atacar,
mas a coragem cedo se esvaiu, fazendo com que

273
largasse sua arma no chão; Masamune ficou imóvel;
Hong foi o único a atacar, liberando um grito de ódio e
numa última tentativa de salvar seus companheiros:
terminou trucidado por dezenas de lanças que se
materializaram da aura do adversário, mais afiadas e
pontiagudas do que quaisquer que pudessem ser
produzidas pelo ser humano; despencou com o corpo
todo esburacado, já sem respiração.
- Filho da puta!- Leovigild esbravejou.
- Nem mesmo o plano de Raja funcionou. O poder de
um príncipe do Inferno está muito além do que
imaginávamos.- Masamune comentou, e por dentro se
questionava: “Como puderam nos enviar para lutar
contra esse monstro? Por acaso queriam que
morrêssemos? E por qual razão? Está na hora de
renovar o estoque para que os velhos não semeiem
desconfianças e questionamentos?”
Com Raja se sentindo inútil e impotente, Dyonisos se
transformou, assumindo a forma de um enorme bode
bípede e albino, com garras imensas e olhos de louco;
Friedrich ainda se contorcia.
- Não adianta resistir.- Belial se voltou para o alemão.-
Você é só um ser humano.
Quando menos esperavam, Leovigild e Masamune
sentiram que a presença de Ptolomeu se esvaíra; o
egípcio escapara subitamente, sem se esquecer de sua
lança. Decerto não voltaria tão cedo àquele campo de
batalha.
- Velhaco imundo...Nos deixou pra trás, o filho da puta!
Claro que não vai ter cara pra voltar pra Roma depois.
Vai ser amaldiçoado, seu cagão de merda...- Fincou sua
espada no solo; o samurai cristão, que pensara em ir
atrás do outro, depois desistiu e se afastou, enquanto

274
uma onda de choque se propagava para atingir o
demônio, estraçalhando o corpo de Hong no caminho;
contudo, foi detida pelo já possuído Dyonisos.
“Vou ter que voltar. Ou não vou conseguir reter...”, e
aos poucos o corpo de Raja foi retornando ao normal, o
demônio sendo afastado, ou seria o próximo a ser
possuído em face à tristeza por ter perdido seu amigo e
mentor. “Criaturas malditas...Imundas...Por que
existem?? Deus, quero justiça, quero Dyonisos de
volta...”
- Agora você é meu.- Belial disse para o que tomara o
corpo do grego.
- Não acato ordens de ninguém...Muito menos de
hereges e demônios. Algum dia voltarei para dançar
sobre os cadáveres de todos vocês!- Quando menos
esperavam, o novo possuído, que passou a impressão
que parara o ataque de Leovigild mais para se exibir do
que por qualquer outra razão, deu um primeiro salto
maior do qualquer um ali poderia calcular, mais dois
outros e desapareceu da vista de todos; não lutaria
contra seus antigos companheiros, mas também não
ficaria ao lado do príncipe infernal, apesar da promessa
de algum dia acabar com cada um dos presentes. O
demônio que o possuíra, provavelmente uma criatura
infernal das mais loucas e estranhas, que detestava
outros seres da mesma espécie e parecia apoiar a caça
da Igreja aos hereges (conquanto estivesse longe de
saber definir bem o que seriam hereges...), estava na
verdade se sentindo livre demais naquele momento para
se envolver em uma batalha tão desesperada; queria
gozar a oportunidade de se manifestar no mundo,
admirando-o para depois dobrar os que estragavam essa
beleza natural. Esse seria o verdadeiro sentido de seus

275
“hereges”: os que bloqueavam a dança da vida
cometiam a pior das heresias.
- Dyonisos!- Raja chamou desesperadamente pelo
amigo, sem êxito; isso enquanto Friedrich não pudera
resistir mais...
- Depois vou atrás desse rebelde covarde. Não tenho a
menor pressa...- O príncipe não se importou.
Friedrich foi ficando cada vez mais encantado com sua
forma e força à medida que sua energia e seu corpo se
alteravam. Se ser possuído era tão bom assim, que
tivesse ocorrido antes! Não via o demônio que se
apoderava de sua carne como um invasor hostil e sim
como um tremendo poder agressivo, quase impessoal,
sem pensamento próprio, pura ira e punhos firmes,
capaz de estraçalhar quaisquer oposições e desmanchar
qualquer apequenamento, desejando acima de tudo a
superação absoluta de seus próprios limites; os seres das
trevas pareciam possuir uma força suprema, que
nenhum ser humano jamais conseguiria compreender e
talvez por isso os tachasse de impuros e indignos.
“Venha até mim; eu a aceito.”, falou com a sombra que
o envolvia, compreendendo a alegria que sentira emanar
de Dyonisos e ficando imensamente feliz com um
preenchimento que do seu ponto de vista sublimava o
abaixo e adensava o acima, o homem controlando a
besta sem reprimi-la, aceitando-a, e esta cedendo sua
força ao homem. Uma fera espontânea porém
controlável lhe dava fome e vontade de trotar pelos
campos, tornando-os inférteis para os mesquinhos e os
paladinos do “bem”, que pretendiam manter a
humanidade submissa e fraca. Onde estava Cristo?
Pregado numa cruz, impotente, enquanto seus braços se
erguiam para tocar os céus; a quem o Salvador salvara

276
em um mundo devastado pela guerra e pela ganância? E
qual o mal em querer e lutar para obter o que se
pretende? Os grandes homens seriam merecedores de
tudo o que os interessasse por sua superioridade
intrínseca, restando ao rebanho a submissão; se as
ovelhas não quisessem ser devoradas pelo lobo, que o
enfrentassem. A força fazia os reis, enquanto o amor
conduzia ao abismo; se a recompensa estaria no Paraíso,
o tutor de Charles preferia viver no Inferno, onde não
haveria tédio, enfrentando seus medos para alcançar
seus desejos, que nunca cessariam, pois sempre haveria
algo a explorar. Seu corpo cresceu e adquiriu patas, a
parte inferior tornada eqüina, o homem sobre a besta;
tornou-se um imenso centauro azul-cristalino,
superando os seis metros de altura, apenas os cabelos e
os olhos sem pupilas brancos, formando a partir de seus
braços as lanças e flechas que quisesse. “Onde estão
Jesus e seus mártires? Onde está o filho de Deus? Eu
sou um Deus. O homem se torna Deus quando
reconhece o valor de sua coragem e aceita que pode
transformar o mundo. O homem é o único animal que
monta em outros animais...E não são os mártires que
vão nos negar isso, nos restringindo e nos condenando,
pois a vida é afirmação, é o movimento para o poder,
não a admissão da fraqueza. Ao derramar sangue,
devemos fazer isso para conquistar ou defender; jamais
nosso próprio sangue deve respingar por qualquer causa,
pois nenhuma é válida o bastante para ser digna de
extinguir o homem. Não existe verdade que não seja
humana; Deus fala além, e por isso permite nosso
domínio, o domínio dos demônios, que não aceitam
qualquer verdade que não a que podemos dobrar. A
Igreja deve tremer para que possa aprender: o corpo de

277
Cristo não está mais na Terra, e talvez tenha ido embora
para sempre: vamos superar o longo crepúsculo que
coxeia diante de nós, afastar a tristeza bêbada e cansada,
alcançar com vigor o sol que queima os bocejos e
aquece o frio e tedioso fastio pelo espírito, que nada
mais é que o homem, enquanto o corpo é o demônio, o
princípio selvagem que estou chegando à conclusão que
não possui e sim desperta; talvez um dia todos os
demônios foram humanos. Se o meu peito afunda, o
mofo do mundo invade a minha sombra; não é o que
desejo. Se o sábio é antigo, não se acalmará nunca
sendo verdadeiramente sábio, indo procurar sempre
pelas origens do futuro e por novas fontes, grato pela
cavalgada que se eterniza. O tremor de terra que se
segue ao meu trotar soterrará mananciais, provocará
sede e deixará famílias inteiras desabrigadas; a neve
continuará a cair, mas a terra estará quente para recebê-
la e derretê-la, com os veios de magma que se abrirão;
de todo modo, as forças íntimas e os segredos da luz
virão à tona, pois não sou nem nunca serei egoísta,
disposto a me abrir à fúria dos fortes. Muito é ensinado
e sabe-se o que se pode obedecer e a quem; sabe-se
realmente? Por quê? Se for para aceitar a vida, que esta
não venha com imposições...”, encarou seus antigos
companheiros, cuja derrota era iminente. “Não vou
fugir!”, Leovigild refletiu e cuspiu no chão. “Não há
outra forma...Teremos que escapar.”, a voz de Raja foi
ouvida nas mentes do cruzado pouco pudico, que se
surpreendeu, pois ainda não conhecia esse dom do
indiano, e do samurai cristão. “O que é isso? Alguma
espécie de bruxaria??”; “Não se trata de nada disso. É
apenas telepatia; comunicação mental, algo que
desenvolvi com muito treinamento graças ao yoga, à

278
minha interação com Deus. Não imaginam a dor que
sinto neste momento. Mas posso salvá-los.”; “De que
jeito? Não foram atrás de Ptolomeu e Dyonisos, mas
não nos deixarão fugir também!”; “Posso nos
teletransportar daqui para Roma. É melhor do que
morrer, mas é um dom que uso raramente, ainda mais
em outras pessoas, porque dependendo do estado em
que me encontro fico sem forças por alguns dias depois
de aplicá-lo. Não estranhem se quando estivermos longe
daqui eu estiver desfalecido e demorar três ou quatro
dias para recuperar a consciência.”; “Tem certeza que
lhe restam forças para fazer isso?”, questionou
Masamune. “Antes só eu morrer do que nós três.”;
“Espere um pouco então!”, Leovigild quis detê-lo, mas
o processo já tivera início: a cruz se encontrou com o
lótus de mil pétalas no alto da cabeça de Raja e o
possuído Friedrich e Belial tiveram suas visões
ofuscadas quando iam atacar; um segundo sol explodira
no ambiente.
Uma névoa dourada se espalhou; flechas, lanças,
garras e espada a atravessaram sem efetividade e,
quando esta se foi, os dois demônios haviam ficado
sozinhos, lado a lado debaixo da tempestade gelada...

Como previsto, o cruzado indiano demorou alguns dias


para se restabelecer. Após despertar, recebeu a visita do
padre Jonathan:
- Como está, meu caro? Parece bem melhor do que há
alguns dias; pelo menos abriu os olhos. Ficamos
preocupados com você.
- Preocupados? Não tenho tanta certeza disso...- Ainda
de cama, respondeu com uma certa rispidez; o

279
sacerdote, andando de um lado para o outro, parou e
sorriu, olhando nos olhos do guerreiro:
- Por que não tem certeza? Acha que não nos
importamos com nossos filhos?
- Não sei se tem idade para ser o meu pai. Não sou
nenhum garoto.
- Sei disso, caro. Mas não precisa me tratar dessa
forma; até nesses dias preparei aquele chá, você tinha
passado a receita ao padre Tharien e não resisti...Com
erva-doce, gengibre, canela e um pouco de leite. Ficou
uma delícia, meus parabéns!
- A receita, na verdade, era da minha falecida sogra.
- Rezarei algumas ave-marias por ela.
- Por que nos mandou para aquela missão? Foi
praticamente um suicídio.- Não estava para rodeios;
nervoso, foi direto ao ponto, tentando golpear o padre
em uma das nervuras de sua alma.
- Precisávamos de alguma maneira conter Belial e suas
forças. Vocês não conseguiram vencê-lo, mas ao menos
eliminaram alguns dos espíritos malignos que o
serviam.
- Não me venha com esse tipo de discurso. Foi um
fracasso: Friedrich e Dyonisos foram possuídos por
seres muito piores do que os que eliminamos. O que não
compreendo é como, por qual motivo, Belial
simplesmente não sai por aí arrasando cidades e
conquistando o mundo. Nós não conseguiríamos contê-
lo; o que o detém?
- Deus não permitiria. E os príncipes demoníacos
sabem que ainda não chegou a hora do confronto
decisivo com as hostes celestiais. Asmodeus uma vez
tentou e foi repelido por Rafael. Agora agem com mais
cautela: um deles pode ter chance contra vários

280
cruzados, mas não pode vencer um arcanjo, e talvez não
possa vencer todos os cruzados juntos; vocês se
subestimam. Simples assim.
- Às vezes me pergunto por que existimos; por que
Deus não nos protege diretamente com suas hostes?
- Mas Ele nos protege. Elas só não interferem o tempo
todo, somente em emergências, para preservar o livre-
arbítrio dos homens.
- Livre-arbítrio...Tantos sofrem, são massacrados...Essas
pessoas escolheram isso?
- Após o dia do Juízo, só haverá lugar na Terra para os
que estiverem ao lado de Deus. Mas por enquanto todos
estão tendo suas chances. Tem que ser mais paciente!
Vocês indianos inclusive não defendem a
metempsicose? Pois bem...Tinham que ser ainda mais
pacientes.- E alargou o sorriso.
- Você parece indiferente a isso...Acredita em
reencarnações por acaso?
- Não, sigo a doutrina oficial da Igreja. Só acho que
todos os pontos de vista devem ser respeitados, com a
condição que aqueles que os defendem sejam coerentes,
não cedendo a caprichos revoltosos.
- Não estou questionando a minha fé e as minhas
experiências, apenas o modo como a Igreja age em
relação a nós cruzados.
- Fundem uma corporação de ofício, não vejo nenhum
mal nisso...
- Está debochando, padre.
- Juro que não! Falei sem nenhuma maldade...
- Melhor pararmos por aqui...Vou me restabelecer logo
e poderão me mandar para outra missão.
- Vamos lhe dar algumas semanas a mais de descanso,
Raja. Você merece. Ainda mais depois de perder

281
Dyonisos; sei que eram próximos, foi ele que o trouxe
aqui. Se a Igreja não valorizar as amizades, não pode ser
uma herdeira digna de Cristo e seus apóstolos.
- Obrigado, mas não quero um tratamento diferenciado.
Se precisar me enviar para outra missão infernal, estarei
disponível. Enquanto isso, ficarei orando pelo alma de
Dyonisos.
- Farei o mesmo. E também por Friedrich; Hong pelo
menos está livre.
- Alguma notícia de Ptolomeu?
- Nenhuma. Ele desertou. Novos cruzados em breve
serão necessários. Encarreguei Leovigild de buscar seu
próprio sucessor, já que ele decidiu não ficar mais
conosco.
- Não esperava isso de Leovigild.
- Ele se cansou. Mas contamos com você e Masamune
como os mais experientes que restaram. A menos que
você também queira se retirar...
- Já disse que o quanto antes for necessário estarei
disponível.- “Não deixarei de ser um cruzado enquanto
não tiver livrado a alma de Dyonisos. Caso contrário,
Deus poderá me perdoar, mas eu não me perdoarei.”
- Como quiser, meu caro...

Passado – VII

Kyoto, a capital do império japonês, conhecida no


ocidente como Meaco (de miyako, ou seja, capital),
capital do Cipango, exibia com clareza as marcas do
passado xintoísta e budista mescladas à influência cristã,
que se tornara a religião dominante. O Kinkaku-ji, o
templo do pavilhão dourado, mostrava em seu telhado,
além da fenghuang dourada, uma cruz, com seus

282
belíssimos jardins sem nenhum elemento artificial,
simbolizando a magnificência criadora de Deus, a não
ser algumas imagens de Jesus discretamente cravadas
nas pedras; o Kiyomizu-dera, ao leste, na encosta das
montanhas, tinha seu torii principal encimado por
pequenas esculturas, em vermelho, dos doze apóstolos,
cujos rostos e corpos rechonchudos lembravam no
entanto a iconografia budista; o Ginkaku-ji, o templo do
pavilhão prateado, fora mantido quase intacto, a não ser
pela cruz em seu topo; o Heian Jingu deixara de ser
xintoísta e de louvar a família imperial para exaltar o
Cristo e a Virgem, representações do Filho e de Nossa
Senhora passando a ser carregadas no mikoshi, o
gracioso templo portátil, durante o Jidai Matsuri, uma
das mais importantes festividades do país; o Fushimi
Inari Taisha fora preservado na base da montanha Inari,
seu santuário interior acessível uma vez superados
centenas de toriis em seqüência, com inscrições que
haviam sido sutilmente modificadas no passado recente
para citações bíblicas, a famosa escultura da raposa
mítica (a kitsune) com a chave mantida para simbolizar
o Salvador com a chave para os Céus, e portanto este
animal se tornara um dos símbolos de Jesus no Japão.
Nas ruas o vestuário tradicional não fora muito alterado
com a prevalência do cristianismo, apenas alguns
quimonos apresentando motivos religiosos e mesmo
estes misturavam elementos mitológicos com motivos
sacros, vide representações do Cristo montando em
dragões. O mais comum entre os homens era encontrar
batas de seda largas e de mangas compridas, a seda
masculina tão dura que suas mangas se projetavam
como velas, os samurais com casacos de ombros largos
e sem mangas fáceis de colocar como o com padrão de

283
folhas de pinheiro sobre um quimono verde que passara
ao lado de Honmaru, que acabara de chegar à cidade e
que encarava a intromissão da imagética cristã
“invasora” com desprezo. Não nutria nenhum apreço
pela doutrina cristã, julgando-a digna apenas dos fracos,
pois não valorizava a verdadeira honra; talvez por isso
cativara tanta gente, afinal os fracos e covardes sempre
seriam a maioria. Como em sã consciência um samurai
poderia ceder sua própria face? Aquele homem era um
ronin, seu daimyo caíra em desgraça, e mesmo assim
nunca se deixaria espancar pelo inimigo. Se fosse para
aceitar um destino, que ele mesmo cometesse o
seppuku, o que não realizara por seu senhor não ter sido
digno de tamanha honraria e por outras
responsabilidades e promessas que precisava cumprir.
Ao lado do samurai de quimono verde, outro com
blocos de cores contrastantes sob a sobreveste azul, um
leque de madeira nas dobras da roupa, sorrindo ao dizer
algo ao seu companheiro; deviam ser da corte, como
denunciavam seus dentes pretejados, costume dos
homens de posição elevada no Japão daqueles tempos, o
que era feito com uma pasta que continha óxido de ferro
preto.
Ao observá-los, Honmaru se lembrou da face irritante
de seu daimyo, que usava um gorro coberto de gaze de
seda preta recoberto com laca, mantido estável por
cordões de papel amarrados sob o queixo; pena que o
dono não fosse tão estável quanto.
O ronin era um homem alto para os padrões do Japão
naquele período, chegando a um e oitenta, os cabelos
pretos muito volumosos e indisciplinados amarrados em
um rabo de cavalo, a armadura parcial (faltavam o elmo,
uma ombreira e alguns outros pedaços) sobre um

284
quimono branco e um hakama preto manchados, bem
sujos, a katana e a wakizashi em compensação
brilhando, suas bainhas exibindo tigres e dragões
furiosos como sua expressão, que amedrontava a
maioria dos que passavam perto, afastando as pessoas
da multidão, atraindo apenas olhares de desafio de
alguns outros bushis, que provavelmente também eram
ronins, aos quais não dava a menor importância. Seu
verdadeiro propósito? Um mistério, encaminhando-se
para uma casa em um beco escuro que dentro revelou
ser uma arena de sumô, onde estavam fazendo apostas.
Os lutadores haviam acabado de jogar sal no dohyo (a
arena circular) e estavam para começar a luta, firmando
seus pés no solo como gigantes fixando pesados toriis.
O público, de pé, apenas alguns poucos tinham direito a
assentos, vibrava; Honmaru se aproximou de um sujeito
de preto, baixinho e com um sombreiro de palha,
oferecendo uma boa quantia pelo lutador Tenji.
- O senhor tem certeza? Tenji não vence um confronto
há meses! Irá jogar seu dinheiro fora.
- Quantos apostaram nele?- O ronin questionou.
- Hoje ninguém. Só o senhor. Ele está fora de forma,
será uma tolice.
- Insisto. Dez no Tenji...- Ao que o trambiqueiro
liberou um risinho cético e desviou o olhar; contudo,
para o espanto de todos, após Honmaru fechar os olhos,
o azarão pareceu adquirir uma força prodigiosa e com
facilidade empurrou seu oponente para fora da arena.
Quando o ronin reabriu os olhos, a luta estava terminada
e multiplicara seus ganhos.
- Incrível...O senhor é um homem de sorte! Pode
apostar de novo...

285
- Claro. É o que vou fazer...- E dessa vez o sujeitinho
ficou um tanto assustado com a face de Honmaru; e se
estivesse lidando com um oni disfarçado? Decidiu que
seria melhor não rir mais dele e não contrariá-lo.
No fim das contas, o ronin saiu no pôr do sol com uma
renda suficiente para comprar uma nova armadura e
ainda passar a noite em alguma boa hospedaria. Antes,
no entanto, precisava visitar uma amiga...Passar alguns
minutos no karyūkai, em um mundo que não era seu,
mas no qual vivia alguém que fizera parte de seu
mundo.
Keiko era uma maiko, uma gueixa aprendiz, vivendo
em uma das okiyas da principal cidade em flor de
Kyoto; para entrar em uma dessas casas, teria que gastar
todo o dinheiro que obtivera, mas de todo modo isso
não seria nenhum problema, pois não tinha a intenção
de se livrar tão cedo de sua armadura e nem de dormir
naquela noite. Ao entrar na okiya onde sabia que ela
estava, muita paz e fineza; ele era um bruto, um bicho
do mato, completamente deslocado naquele ambiente
freqüentado pela fina flor da nobreza da cidade, e as
gueixas daquela casa eram como flores, belas nas
peculiaridades de suas pétalas, e como salgueiros,
flexíveis, fortes e graciosas, isso nas palavras da
fundadora Mineko Nakamura, que estampavam a
entrada. Não por acaso foi fitado com um misto de
curiosidade e nojo pela gueixa ao fundo, que estava
tocando uma flauta de bambu, e por outras duas, que
serviam chá e recitavam poesia para um par de
convidados. O movimento ainda era tímido no final de
tarde; à noite seria intenso.
- O que deseja, senhor?- Uma mais velha, a que estava
na recepção, se adiantou, tentando disfarçar um certo

286
desconforto. Elegante, usava um manto fluido sobre um
quimono branco amarrado com uma faixa vermelha
bordada a ouro, os desenhos de adorno produzidos por
uma combinação de tintura, bordado e folhas de ouro
aplicadas.
- Gostaria de um tempo com Keiko Iwasaki.
- Keiko ainda é uma aprendiz. Tem certeza que deseja a
companhia dela? Temos outras mais experimentadas,
menos desajeitadas.
- Eu já a conheço e quero ela, por favor.- A linguagem
pouco polida e direta denunciavam que se tratava de um
samurai do campo. Antes que começassem as tentativas
de humilhação, mostrou quanto tinha...- Me leve até ela.
- Está bem, meu senhor, se é a sua preferência, embora
não saiba de onde se conhecem, já que ela está
atendendo há muito pouco tempo e nunca vi o senhor.
Aviso que ela mal sabe tocar o samisen.
- Por acaso você é a onee-san dela? Parece muito
exigente com a moça.
- Apenas quero manter a qualidade do atendimento em
nossa casa. Não costumamos comprar meninas, mas
estávamos com poucas garotas. Às vezes me arrependo,
acho que devíamos ficar com menos mesmo, afinal ela
não tem as mesmas qualidades das outras. Se o senhor a
conhece, deve ser do mesmo lugar de onde ela foi
vendida.
- Não quero dar detalhes.
- Como preferir.- Honmaru estava com vontade de
decapitar aquela mulher arrogante e que andava feito
uma garça, mas tinha que se segurar; por Keiko, que
estava no andar de cima. Ainda era uma menina, com
seus catorze anos, e ao reconhecê-lo, quando ficaram a

287
sós, disparou para abraçá-lo, sem se importar com a
maquiagem que ainda não estava pronta.
- Por que você veio? Não adianta...Não vai conseguir
me tirar daqui nunca! E, apesar de tudo, eu estou
bem...Mesmo assim agradeço a sua visita, Honmaru-
san.
- Desde que o daimyo caiu, nossos destinos ficaram
caóticos. Mas não pense que me esqueci de você e da
promessa que fiz ao seu pai. Não há caos que suplante a
minha honra.
- Sei que nunca serei uma grande geiko. Mas ao menos
aqui tenho comida, conforto...Você nunca vai poder
cuidar de mim, tem o seu próprio rumo. Esqueça-se do
que prometeu ao papai. Não é a sua obrigação. E mesmo
que eu tenha sentido muita saudade, somos muito
diferentes. É melhor que você só venha me visitar;
estará cuidando de mim, de alguma forma.
- Entendo que depois que veio pra cá tenha ficado com
medo do mundo. Mas não são todos que querem
machucá-la. Podemos ter juntos uma vida diferente.
- O que você entende por uma vida interessante não é o
que eu entendo. Aqui estou aprendendo música, dança,
poesia! Estou gostando muito...Se pudesse, teria tudo
isso: você, a dança, a música e a poesia...
- Mas como acha que não pode, fica com a dança, a
música e a poesia!
- Não sou eu quem acha; é assim. Mas não imagina
como fiquei feliz por rever você.
- Posso ter o dinheiro que quiser e te dar conforto
também.
- Só que não é o que você quer. Depois do fim do
daimyo, estou ciente que nunca mais vai querer se fixar

288
em nada. Lembro que essa foi a promessa que fez pra si
mesmo, diferente da que fez pro meu pai.
- Não quero mais me apegar a uma terra ou a pessoas
que vivam nela. Mas você é diferente.
- Minha meta não é perambular pelo Japão. Quero paz,
Honmaru-san. E você não está em paz, vejo isso nos
seus olhos. Como posso ir com você?
- Talvez hoje eu fique em paz.
- Como?
- Estou indo para o templo dos monges tengu. Vou
recuperar a espada que há várias gerações atrás
pertenceu à minha família. Chegou a hora.
- Do que você está falando? Ficou louco??- Questionou
depois de uma parada.- Aquela espada é amaldiçoada,
se esqueceu?? Os seus avós doaram ela pro templo pra
que nunca mais voltasse!
- Eles cometeram um erro. Depois que a espada foi
doada, nada mais deu certo pra minha família. Qual é a
maldição afinal? Acho que é ela estar longe da minha
família.
- E vai fazer isso de que forma??
- Você sabe muito bem.- Keiko tentou persuadi-lo de
diferentes modos, mas não houve jeito; ao sair do
hanamachi, Honmaru estava certo do que devia fazer e
do que lhe traria uma nova vida. “Uma menina nunca
seria capaz de entender...”, o templo dos monges tengu
ficava um pouco fora da capital, em uma área de verde
esplendoroso onde as águas dançavam com as copas das
árvores; estes religiosos haviam retirado seus nomes de
tradicionais figuras do folclore nipônico, das quais
reproduziam os rostos de longos narizes em suas
máscaras para demonstrar que abriam mão de toda a
vaidade. À noite, o laranja de seu teto e paredes parecia

289
reluzir com ainda mais força, principalmente a cruz no
alto da pagoda, que ficava sobre a imagem de um tengu.
A espada da qual Honmaru falava era a lendária lâmina
do oni-dragão; contudo, do seu ponto de vista, maldição
e demônios diziam mais respeito a um pai que tivera
que vender sua própria filha única para garantir a
sobrevivência da esposa doente (o que depois acabara
não se dando...) do que a espíritos malignos e destinos
manchados para sempre.
- O senhor não pode passar agora. Peregrinos e
visitantes em geral só amanhã a partir das oito. Os
demais monges estão em oração...- Foi detido na
entrada por um guarda-monge, sendo que havia outro ao
lado; estes se revezavam em turnos. Vestiam armaduras
leves e negras de placas de madeira e chapéus cônicos
de palha, as faces mascaradas, sendo as cruzes à altura
dos corações os únicos elementos claros em suas vestes.
Tratavam-se de anacoretas cristãos para os quais os
tengus simbolizavam figuras angélicas, do mesmo modo
que se podia representar um querubim como um touro,
um leão ou um ser mágico de quatro cabeças e Jesus
como um cordeiro, imagens que os povos primitivos
haviam atribuído aos mensageiros de Deus. Como
armas, praticavam a arte do bo, longos bastões de
bambu com os quais eram extremamente habilidosos.
- Preciso entrar no templo. É urgente...- “A minha alma
já está manchada de sangue e a minha honra ferida, mas
ainda não destroçada: mesmo sendo um ronin, acredito
nos princípios do bushido. Se não acreditasse mais,
poderia cometer o seppuku...E talvez deva cometê-lo,
para ser coerente comigo mesmo, se bem que seria
muito para o daimyo. Ainda não chegou a hora, Keiko-
chan...”

290
- Sentimos muito. Isso não será possível.- Não se
surpreenderam quando o samurai sem senhor atacou:
estavam prontos desde o início, tanto que se esquivaram
dos ataques com a espada e tentaram atingi-lo com seus
bastões; ele, no entanto, era tão hábil nos desvios e ágil
nos saltos quanto os dois monges. Seguiu-se um
confronto veloz em que o bo de um foi cortado,
enquanto o outro pareceu ter conseguido encurralar
Honmaru: contudo, o ronin lançou um kiai violento e,
projetando sua energia com os olhos, paralisou seu
adversário; foi o suficiente para que cortasse o segundo
bastão e em seguida o pescoço do monge. Anti-cristão,
não tinha a mínima piedade dos que cultivavam uma
religião que estava pouco a pouco retirando a identidade
de seu país, tendo reduzido o imperador a um mero
soberano temporal e o shogun não passando de um
braço armado da Igreja; menos ainda teria compaixão de
ascetas. No caso de um cristão pai de família, pensaria
duas vezes em consideração a filhos ou esposa;
diferente o caso de um covarde exilado do mundo. “Se o
meu senhor caiu em desgraça, pelo bushido eu deveria
estar morto com ele agora, tê-lo seguido na desonra pois
de qualquer forma fui desonrado; mas ele não merecia.
E também tenho outros assuntos a resolver. Talvez
consiga restaurar minha honra com a vida! Restaurar
não, porque ela está sim ainda de pé, mas recompor o
que se partiu e se precisar levar adiante o harakiri, que
seja depois de ter cumprido a minha promessa. A
palavra faz parte da honra de um samurai...”, apesar da
mente confusa, seus pensamentos nublados, não teve
dificuldades para abater mais monges que apareceram
para defrontá-lo, retalhando-os com sua ira e entrando
no templo rumo ao santuário principal, onde a espada

291
estava guardada junto com as relíquias do mártir jesuíta
português Francisco Branco, em tempos recentes
elevado a santo, certamente mantidas juntas para que o
poder maligno fosse barrado pelas virtudes da santidade.
Quando tivesse a espada do oni-dragão, saberia o que
fazer; talvez fosse com ela que cometeria o seppuku,
assim que tivesse conduzido Keiko a uma nova vida, e
morreriam unidos, seu nome e a espada, sendo
enterrados ou cremados juntos, encerrada assim com
honra a trajetória de sua família.
- Fora daqui, seu louco profano!- A luta mais difícil
estava para começar, diante das relíquias, contidas em
um vaso negro com uma cruz branca, e da ansiada
lâmina, sobre um pequeno altar.
- Eu que digo que fora daqui, cristão hipócrita...- O
ronin, sujo de sangue, com dezenas de corpos às suas
costas, enfrentaria o abade Agon: a espada estava bem
diante de seus olhos, com empunhadura e bainha em
preto e vermelho, parecendo feitas da carne, do sangue e
da pele de um demônio, inclusive com garras na
empunhadura e repleta de desenhos de dragões
agressivos.
- Onde está a minha hipocrisia? No simples fato de ser
cristão? Isso quer dizer que, para você, os homens não
são livres.- Tratava-se de um homem de rosto duro, por
volta dos quarenta anos, os olhos rijos e, sem sombreiro,
a cabeça grande raspada; manejava, diferente dos
outros, não um bo mas uma lança com a ponta em cruz.
- Vocês não deveriam dar a outra face? Vejo que se
defendem. Além disso, essa arma...
- É afiada? Pois não costumo usá-la a não ser quando
protejo algo além da minha vida. Não posso falar pelos
meus companheiros de fé, mas, falando por mim, não

292
estou me defendendo. Defendo o que você quer roubar
de nós.- Estudavam-se e, enquanto falavam, as ondas,
faíscas e chamas de ki iam e viam, invisíveis aos olhos,
sentidas pelas mentes, os corpos permanecendo imóveis,
conquanto em posições adequadas para o bote, feito
serpentes rondando uma presa; a questão ali era que não
havia uma presa, somente duas cobras cheias de veneno.
- Como tem coragem de falar em roubar? Sou
Honmaru, neto de Munisai. Será que isso não lhe traz
nenhuma lembrança? Esta espada sempre pertenceu à
minha família, há muitas gerações.
- É nisso que quer acreditar, não que seja verdade. Esta
espada é mais antiga do que quase todas as famílias que
ainda existem no Japão. Você não conhece a realidade,
é um inconseqüente. Ela passou de um clã ao outro após
sucessivos duelos sangrentos, até que o seu decidiu se
livrar dela. Por que a quer? Pretende reiniciar o ciclo de
matanças? A próxima alma sugada por ela poderá ser a
sua...- O ronin não respondeu; com a escuridão em
volta, pensou que talvez por isso o monge estivesse
parecendo maior do que realmente era. E percebeu que
este não hesitava, os olhos fixos em descobrir as
menores brechas. E se ele tivesse razão? Não podia
ter...E, caso estivesse falando a verdade, não havia mais
como voltar atrás: suas mãos cada vez mais sujas de
sangue; a espada diante de seus olhos; inevitáveis a
atração e o fascínio: precisava dela de qualquer forma.
Não piscaram mais: se ainda existiam monges vivos no
templo, nenhum deles apareceu para interromper aquele
duelo, que começara se dando no interior dos dois
rivais. Bastou Honmaru se distrair por um segundo,
olhando para os pés de Agon, que este partiu e fez um
corte no pescoço do samurai com um dos braços afiados

293
da ponta de sua lança. Não! Honmaru não se distraíra:
fora uma previsão, uma antevisão do que iria acontecer
caso ficasse desatento. Os pés do abade pareciam se
movimentar mesmo que estivessem imóveis, suas
pernas fortes e ágeis, com o corpo aparentemente
desprotegido, sem armadura, apenas descalço e com
uma túnica leve cor de açafrão; sua proteção era sua
energia, que trocava átomos com o ar, a respiração
harmonizada ao ritmo das partículas físicas e mentais,
de diversas matérias e pensamentos, que circulavam
pelo ambiente. De súbito, o ronin liberou um kiai e
projetou sua intenção, concentrado no espaço entre seus
olhos, para paralisar ou atrapalhar o oponente, o que se
revelou infrutífero: o monge como que quebrou as
paredes impostas e veio a toda velocidade em sua
direção, a ponta da lança passando perto quando o
samurai se agachou e, depois de evitar o golpe dessa
forma, se ergueu ao mesmo tempo que movia a espada,
cortando o pescoço de Agon, que por fim despencou
morto. A espada do oni-dragão estava agora ao alcance
das suas mãos. “Até que enfim!”, as outras lutas o
haviam deixado cansado fisicamente, enquanto esta
última somara ao cansaço físico uma exaustão psíquica.
Apesar da proximidade, mal tinha forças para chegar ao
altar e capturar a lâmina ansiada. Teve que fazer isso
com um tremendo esforço de sua vontade, se
aproximando bem devagar. “Não sei por que, mas estou
com um pouco de medo. Parece até que vou ser
possuído por alguma coisa. Quanta bobagem! Só vim
recuperar o que é meu por direito...”, ao segurar a
empunhadura com vigor, as “garras” que esta possuía se
cravaram em suas mãos, que sangraram. Contudo,
estranhamente não sentia dor; pelo contrário, um êxtase

294
rumoroso começou em seus ouvidos, com vozes em
baixo volume acarinhando seu crânio, sem que lhe
parecessem uma perturbação, e se espalhando por seu
corpo na forma de outras percepções, com uma
sensação de realização e prazer intenso tendo início em
seu baixo ventre e se expandindo para as zonas
erógenas; o sangue que escorreu das mãos fervilhou a
olhos vistos, o que o levou a arregalar os olhos, um
discreto susto, que ficou de lado quando este coagulou.
A certeza do poder não demorou a predominar e logo
estava com as forças renovadas, o cansaço desaparecera,
nenhum sinal de desgaste no corpo ou na mente; o
sangue dos monges foi secando e desaparecendo e pôde
se retirar do santuário com relativa tranqüilidade, sem se
sentir incomodado pelas vozes: “Você se acha muito
pequeno...Precisa acreditar mais em si mesmo!”,
pronunciavam mensagens de encorajamento, entre
outras coisas. “Basta querer...Querer é poder. Tudo o
que você deseja está à sua disposição, tudo pode ser
realizado...Pense que irá conseguir e conseguirá. Esse é
o segredo...”, de volta para Kyoto, encaminhou-se para
o hanamachi depois de deixar para trás aquele que se
tornara um templo de mortos, abandonado e
absurdamente silencioso; um contraste gritante com a
cidade, em movimento em plena madrugada, ao menos
no primeiro bairro que atravessou, onde a prostituição e
a bandidagem eram as atividades principais. “Está
vendo essa gente? Vai deixar isso impune? Ladrões
livres pelas ruas, homens casados fazendo pouco caso
da família...”, uma voz rouca e ciciante se insinuou.
“Não é da minha conta.”, respondeu com frieza o ronin,
que só pensava em chegar no bairro das gueixas para
libertar Keiko. “Quantas vezes os homens irão dizer isso

295
enquanto o crime e a falta de virtude se espalham,
degenerando este país?”; “Você não condena o
cristianismo? Veja o que ele está fazendo com o
Japão...”; “O bushido é tão pobre e limitado? Acredite,
você pode mudar o mundo pela virtude...”, pela primeira
vez, as vozes principiaram a incomodá-lo...Pensou em
retalhá-las com sua nova velha espada, e foi o que fez,
desembainhando-a: “sem querer”, cortou o braço de um
passante.
- Seu maluco! Quem é você?!- “Isso! Isso mesmo,
Honmaru! Puna esses criminosos! Esse era um ladrão
imundo!”, para seu espanto, seu corpo começou a se
mover sozinho e a espada foi causando terror pelo
bairro, decapitando e cortando membros de dezenas de
pessoas; sua agilidade, que já não era pouca, triplicara;
alguns ronins e mesmo samurais com senhores, que
passavam por aquela zona para se divertirem, não foram
páreo quando tentaram detê-lo: Honmaru de um
momento para o outro ia parar no telhado de uma casa e
de lá despencava desfechando golpes indefensáveis,
com um semblante em pânico, apavorado, a despeito
dos movimentos assassinos. Um único guerreiro
conseguiu notar que seu rosto não condizia com aqueles
atos:
- O que foi, Masamune? Vamos ficar parados?-
Indagou um samurai de face agressiva, pronto para
atacar.- Vamos logo...Você não fez nada durante a noite
toda, não vai querer fugir.
- O ki violento vem da espada, não do homem.-
Respondeu o futuro cruzado, que na época parecia
apenas sério e compenetrado, não melancólico, ainda
que pacífico, do tipo de guerreiro que só se movimenta
para a luta em ocasião de perigo extremo, preferindo

296
encerrar a batalha antes que esta se inicie; usava um
quimono branco e um hakama negro, limpos, polidos, e
trazia consigo duas katanas. Os cabelos muito
compridos, chegando presos quase à base da coluna;
estava com seus dois melhores amigos na zona para
acompanhá-los e conversar (pouco), afinal não bebia
saquê, só chá, e também não saía com prostitutas,
preferindo a companhia de uma gueixa, algo que seus
companheiros julgavam parado e tedioso demais.
“Você é o homem que esperei por tanto tempo. Falta
pouco para que eu seja livre, e você tem a sede de
sangue necessária para completar o processo. Tantos
mataram por mim...Só que agora está muito perto! Eles
não percebiam, você percebe porque chegou a
hora...Não preciso mais esperar. Fique tranqüilo porque
será premiado...”, as vozes paralelas desapareceram,
deixando espaço para uma, a mais terrível não só no
tom e nas palavras como na força que transmitia: seria a
voz do oni-dragão? Honmaru tentou não se render, ao
passo que seu corpo não obedecia: “Não trabalho mais
pra ninguém, não tenho senhor! Quem é você?! Saia,
deixe o meu corpo, seja lá que raio de espírito maligno
for!”; “Não adianta mais...O processo é irreversível.
Não tenho interesse no seu corpo, mas pense na espada,
que agora é uma só com a sua carne. O que um dia me
selou irá me libertar; você será recompensado, não se
preocupe.”; “Não quero ser recompensado por nenhuma
espécie de monstro!”, tentou soltar a arma, o que foi em
vão; continuava a se mover com rapidez, fúria e
violência, sem controle sobre seus próprios
movimentos. Viu uma sombra às suas costas e desta
saíam mãos com enormes garras...

297
- Precisamos pensar num meio de lidar com o que se
encontra lá, não atacar às cegas.- Disse Masamune, mas
o cavalo desgovernado agora vinha em sua direção...
- Vamos continuar pensando?- Zombou um de seus
amigos, que se esquivou por pouco do primeiro ataque;
o outro, entrementes, não teve a mesma sorte, seu peito
perfurado pela espada amaldiçoada. Honmaru soltou um
kiai e tentou usar sua energia para se livrar da
possessão, sem resultado.
- Myamoto!- O amigo sobrevivente de Masamune
gritou o nome do irmão que acabara de morrer,
enquanto o futuro cruzado, que também sentiu o
desespero, além de tristeza e culpa por não ter pensado
mais rápido, embora disfarçasse muito bem os
sentimentos e as emoções, usou seus braços magros e de
pulsos finos para manusear suas espadas com perfeição,
chocando-as na seqüência com a lâmina maligna;
pronunciou em silêncio uma oração, suas duas espadas
assumindo a forma de uma cruz na defesa dos ataques
do inimigo, que ele sabia não se tratar de Honmaru.
Seu companheiro Itaki, furioso, tentou atingir o
adversário pelas costas, porém no momento exato este
deu um salto inacreditável...
- Não!- Masamune pela primeira vez pareceu perder o
controle de si, não havendo como frear seu ataque, que
acabou atingindo o amigo; a espada de Itaki se limitou a
ferir-lhe o ombro, enquanto as suas cortaram o abdômen
e o pescoço do outro. Na hora o futuro cruzado largou
suas armas...
“Isso não tem cabimento! Eu não sou um
assassino...Não, você não vai me vencer! Me desculpe,
Keiko...”, Honmaru continuava em seu conflito interno.
“Você é só um ser humano! Não pode fazer nada para

298
me deter!”; “Eu posso...Eu posso sim...Afinal a vida é
minha!”, nem mesmo o demônio da espada esperara que
o ronin fosse cometer harakiri, por um segundo se
aproveitando da confiança da entidade das trevas e
atravessando o próprio abdômen com a lâmina
amaldiçoada.
“Deus...Me dê o seu perdão...”, Masamune balbuciou
mentalmente, paralisado no meio de um bairro que
minutos antes estivera repleto de alegria e movimento e
agora aparecia com cadáveres por todos os cantos, o
samurai o único vivo fora das casas, se movendo apenas
para se afastar do corpo de seu amigo. “Seu idiota...Seu
imbecil!”, o demônio só parou de proferir insultos
contra Honmaru quando o ronin expirou, o sangue que
manchava a escuridão aos poucos desaparecendo para
dar lugar a um breu total, seu espírito livre, e em
silêncio...Inalcançável para o inimigo.
No interior de Masamune, medos e recordações;
aqueles dois amigos, mesmo sendo muito diferentes
dele, haviam se tornado sua família, seus irmãos, desde
a morte de seus pais, quando tinha apenas sete anos e,
apesar de ser de uma família nobre, tratava-se de um
família definhada, sem outros ramos; o último de sua
linhagem, pois seu pai fora filho único. Tivera que ser
criado por uma família amiga, justamente a de
Myamoto e Itaki...E não pudera fazer nada para impedir
a morte de um e ainda matara o outro. Como voltaria
para casa? Por mais que os pais do amigo o
considerassem um filho também, teria o mesmo valor de
Myamoto e Itaki? Não matara o segundo por
querer...Não o assassinara; mas matara...E não escaparia
dessa sina. Com que cara voltar para a família que tão
bem o acolhera? Olhou para a espada maldita, cravada

299
naquele atormentado samurai errante...A culpa era da
espada. Ou não? Como uma arma poderia ter a culpa,
sendo que são sempre os homens que manejam as
armas? Aquela era uma lâmina diferente...Apenas um
ignorante não compreenderia. Pensou se seria melhor se
tornar um ronin ou cometer seppuku...Levou alguns
minutos pensando, até decidir que era melhor pegar
aquela espada. Sem tocá-la com o coração...
Ao se aproximar, estranhou a empunhadura espinhosa;
entretanto, ao serenar sua mente e rezando para Deus
pelas almas de seus amigos e para ser perdoado, as
garras não o feriram e suas mãos não sangraram como
fora no caso de Honmaru. “Serei um ronin para
compreender esse mistério...”, concluiu, deixando no
chão suas espadas, as mesmas que haviam levado Itaki à
morte, e abandonando o bairro, que ainda não
recuperara o movimento, com a lâmina do oni-dragão
embainhada em sua cintura.
Por semanas permaneceu afastado das cidades, entre
florestas, cavernas e montanhas, sem o menor contato
humano, se limitando a refletir sobre o que ocorrera e
poderia ocorrer. Examinou cada possibilidade...E
nenhuma voz externa o afligia. Tomou a decisão de, por
fim, levar aquela espada a algum templo, onde seria
examinada por um sacerdote entendido. Precisava tomar
coragem para tanto...E talvez devesse se confessar. “A
minha alma e o meu corpo estão imundos...”, e, alguns
dias sem tomar banho, tirou as roupas e se lavou em
uma cachoeira.
Após sair das águas, teve a impressão de ver um
texugo. Tratara-se de um fantasma ou de uma ilusão?
Porque no segundo seguinte não havia mais nenhum
animal. Naqueles tempos ainda não era tão pálido como

300
viria a ser. Rumou para um dos novos templos da
região, inteiramente branco, uma pagoda encimada por
uma cruz e com duas estátuas de dragões ao lado de
seus toriis, contando com um belíssimo jardim. Lá
viviam monges que se dizia especializados no estudo de
possessões demoníacas, que talvez poderiam ajudá-lo.
Também se sentia culpado pela morte de Myamoto,
por mais que sua intenção fora a de protegê-lo, pois
sabia que o amigo, ainda que se esforçasse nos
treinamentos, não era um grande guerreiro. Se tivessem
atacado, ao invés de ficarem estudando o inimigo e
aguardando sua investida, o resultado teria sido
diferente? Provavelmente não: a força da espada era de
fato superior e talvez apenas mudassem os mortos.
Sobreveio um calafrio; a consciência não podia aplacar
o coração e nem o afeto corrigir o medo.
Ainda vivas em sua memória as breves tardes jogando
beigoma. Breves porque passavam rápido demais, e
nessas disputas dificilmente Myamoto perdia: era o que
conseguia fazer seu pião girar por mais tempo, seguido
pelo de Masamune, Itaki ficando irritado quando o seu
não tardava a cair. Já no Daruma-san ga koronda
Masamune era praticamente imbatível, quase nunca
sendo percebido (o objetivo do jogo se aproximar ao
máximo do “pegador”), mas, desde pequeno o mais
sensitivo, facilmente percebendo os que dele se
aproximavam...
Boas recordações, que o levavam a sorrir, seus sorrisos
já rareando cada vez mais; gostava também dos jogos
com os otedama, saquinhos coloridos feitos com
pedaços de pano velho preenchidos, em geral, com
feijões azuki. Destes preferia os jogos solitários,
jogando os saquinhos de lá para cá, mas não eram de

301
todo solitários porque seus amigos costumavam
observá-lo, admirados com sua habilidade. Com as
meninas geralmente não gostava muito de brincar,
tímido demais, às vezes entrando no Hanaichimonne e
tentando se soltar quando cantarolava.
- Fico admirado que ainda esteja vivo...Ou que não
esteja banhado em sangue. Esta espada foi feita para
selar o demônio Baal, um dos príncipes do Inferno, mas
saiu do controle do próprio monge-guerreiro que a
forjou, tanto que não pode ser usada. Todos os homens
acabam sendo corrompidos. Baal é o oni-dragão; e não
entendo como você parece ter passado ileso ao tocá-la.
É realmente impressionante...- No templo, encontrou-se
com um ocidental que estava de visita, um homem
simpático, de barba espessa e escura, mas sem bigode,
magro porém pançudo, que vestia uma batina vermelha.
Chamava-se Celius.
- O que isso quer dizer?
- Que você é incorruptível!
- Isso não pode ser. Apenas, depois de sentir o ki
maligno emanando da espada, não a segurei com o
coração, somente com as mãos. Estou longe de ser
perfeito. Inclusive...- Pensou em confessar a forma
como seus amigos tinham morrido, mas parou no meio
do caminho.
- Inclusive o quê?
- Acho que preciso me confessar...
- Se quiser, pode ser comigo, rapaz...- E se
encaminharam para uma área reservada; após
Masamune relatar em detalhes o que ocorrera, o padre
manifestou sua opinião:- A prova que você é bom é que
sente culpa mesmo não sendo responsável pelo que
ocorreu. O demônio foi o culpado. Você pode ter

302
cometido falhas, ter se equivocado ao tomar decisões,
mas isso não se deve à falta de virtude e sim ao simples
fato de ser humano, e como tal imperfeito. Não se cobre
tanto, filho: Deus é o único que não erra. Quanto a nós,
somos todos falíveis. Reze dez pais-nossos e dez ave-
marias e depois volte para falar comigo.- Foi o que o
samurai fez. No retorno:- O mundo está infestado pela
heresia e pelos demônios. Não é apenas no Cipango que
isso acontece...Se for para o ocidente, verá isso com
clareza. Eu lhe faço um convite, meu rapaz...Por não ter
sido corrompido por esta espada, que agora ficará aqui,
acho que não há alma mais apropriada no momento para
almejar um posto de purificador do mundo. Já ouviu
falar dos cruzados, ou não?
- Claro. Os caçadores de demônios da santa Igreja.
- Primeiro você será observado por meus irmãos.
Porém acredito que não terá problemas em ser aceito.
Depois, uma vez que for admitido como um, treinado. E
tenho a intuição que não demorará a estar pronto, que
será um dos melhores homens na guerra contra o
Inferno. Mas claro, se quiser...
- O senhor me pegou de surpresa, padre. Queria apenas
compreender o mistério da espada que de alguma forma
levou as almas dos meus amigos e me confessar por não
ter podido salvá-los.
- Salvará muitas outras almas se tornando um cruzado.
Muitos como você não perderão amigos e
irmãos...Graças à sua espada e à sua virtude,
potencializada pelo sangue de Cristo.
O coração de Masamune começou a bater com mais
força e velocidade; que decisão tomar? Para casa já
estava decidido que não voltaria. Um ronin cruzado?
Seria digno de tamanha honra? Recuperaria sua honra:

303
não por acaso estava sendo convidado pelo padre
Celius. Deus lhe estendia a mão; uma nova
oportunidade disponível. Jogaria fora essa nova cruz-
espada ou a seguraria com firmeza? Sofrimento, morte,
martírio, vida, missão, provação, virtude, dever,
oportunidade, pecado, necessidade, auxílio, salvação,
dádiva...Essas palavras e outras, acompanhadas pela
imaginação e por memórias, invadiam seu espírito. Não
tinha o direito de ficar parado.
Pediu um tempo a Celius, apesar de ciente que não
mudaria sua resposta. O tempo se devia a outras razões,
para rezar e acumular as forças necessárias.
No dia em que disse sim, pouco antes do padre
vermelho regressar para o ocidente, confirmou para si
uma alegria dificultosa; sem barulho, podia dizer que
estava feliz. Perdoara-se pelo que ocorrera a Itaki e
Myamoto? Isso não era certo, só que ao menos a
melancolia e a desilusão ainda não tinham chegado para
enferrujar a cruz...

Passado – VIII

Para o torneio que escolheria o guerreiro que viria a se


tornar o mais novo cruzado, organizado pela Igreja na
expectativa de encontrar o décimo segundo caçador de
demônios da era presente, gente de diferentes origens
sociais estava reunida no coliseu de Roma, tanto nas
arquibancadas como na arena. Para ofuscar as
lembranças dos gladiadores e massacres de animais,
imagens sacras espalhadas pelo anfiteatro, que na
grande final contaria inclusive com a presença do papa.
- Resolvemos realizar aqui a seleção de mais um
paladino da fé, espalhando o anúncio desta nova forma

304
de escolha por todos os reinos da cristandade, para que
possamos encontrar um que prime pela bravura,
demonstrando de forma explícita que não possui o
menor receio de colocar sua vida em risco. Claro que
não gostaríamos que ocorressem mortes, mas se estas
acontecerem teremos que nos lembrar dos mártires que
ofereceram seu sangue, do sacrifício de suas próprias
vidas, para propagar a verdadeira Fé. Deixemos de lado
as diversões mundanas que eram realizadas neste palco
e recordemos isso, pois o que os demônios esperam de
nós são a covardia e o medo, a desistência da meta e o
abandono da fé quando as dificuldades se impõem.-
Torquemada fez o discurso de abertura. Prontos para
lutar, havia entre os homens dispostos a aceitar o
desafio alguns germânicos pobres que talvez nem
fossem cristãos, trajados com túnicas formadas por
pedaços de couro costurados de forma rudimentar, sob
as quais usavam calças largas e com mangas que tinham
pele nas bordas; era uma oportunidade para essa gente,
mas visto que nem possuíam recursos para comprar
armaduras suas chances de vitória eram mínimas,
limitados a espadas e maças brutas. Entre os
espectadores, que deviam ser por volta de trinta mil, a
opulência da burguesia e da nobreza romana se
mostrava nos assentos reservados: as mulheres das
classes altas tinham como última moda, importada da
França, os sapatos de solas altas de couro, cortiça ou
madeira. O clero não os via com bons olhos, sendo
considerados vulgares, mais adequados às prostitutas,
difundindo idéias de que estes contribuiriam para a
esterilidade das moças. Mulheres grávidas, segundo a
maioria dos sacerdotes, não conseguiam sequer manter
o equilíbrio, e durante os sermões nas missas não

305
paravam de falar nas que tinham sido vistas caindo e
dessa forma perdido os filhos ou abortado, o que as
conduzira à perdição de suas almas. Outra moda, a dos
vestidos coloridos, era evidente nas arquibancadas do
coliseu, mas estes haviam sido proibidos às casadas,
permitido apenas nos arredores da capital do Estado
Pontifício que mulheres não nobres do campo os
utilizassem. Não haviam chegado ao nível do que
ocorrera em Siena, onde roupas de cor eram totalmente
vetadas a mulheres que não fossem prostitutas. Os
vestidos-padrão, justos até a cintura e abrindo-se em
uma saia ampla que caía em pregas, permitiam decotes
para as solteiras e mostravam detalhes requintados
quando pertenciam a donzelas e senhoras de estratos
sociais elevados. Os chapéus mais comuns entre as
damas eram: os em forma de cone, de cujo vértice
pendia um véu; os de adorno “borboleta” (estruturas
presas a pequenos chapéus ou toucados que escondiam
os cabelos e ficavam altas na cabeça, servindo de apoio
para véus diáfanos com a forma de asas de borboleta); e
os de adorno corniforme (criticados pelos eclesiásticos
porque poderiam ser associados à forma da cabeça do
Diabo). Isso além de penteados altos, que segundo o
gosto do tempo requeriam uma testa bastante alta,
forçando assim muitas a depilarem a testa para
retroceder as entradas do cabelo: entre as técnicas para
eliminar fios, estes podiam ser queimados em cal viva,
arrancados com pinças ou com os dedos impregnados
em pez, ou atacando-se os bulbos capilares com agulhas
quentes.
Para os pobres fora difícil obter um lugar na platéia,
pois, enquanto os nobres e a burguesia tinham lugares
reservados, estes tiveram que brigar (às vezes

306
literalmente) para acompanhar o torneio, considerando
que teoricamente o que contava era a ordem de chegada
e guardas tratavam de manter do lado de fora os que
excederiam o número pré-estabelecido de espectadores.
Para a final, que seria realizada no dia seguinte, o
mesmo sistema se daria, as classes inferiores
alimentadas com pão e as superiores com quitutes mais
sofisticados, todos os custos bancados pela Igreja e uma
missa sendo realizada ao final da disputa. Se em
diversos países a Igreja condenara os torneios de
cavaleiros, em Roma praticamente organizava um e não
via a menor contradição entre as duas atitudes, afinal os
motivos eram completamente distintos.
Em sua maioria, os homens de origens privilegiadas
que estavam ali vestiam camisas de linho e calças justas,
alguns túnicas que caiam até os joelhos bordadas nas
extremidades e presas por cintos repletos de jóias e
ornamentos, as insígnias de suas famílias em broches,
enquanto entre os humildes prevaleciam camisas de
cânhamo e calções largos. Como era verão, fazia
bastante calor naquele dia, passando dos trinta graus.
“De onde venho, sempre salientaram a identidade entre
torneios e pecados capitais. Aqui, apesar da presença de
tantos padres, não me parece diferente. Nobres,
burgueses e servos são os mesmos em qualquer lugar do
mundo. Imperam a futilidade, o orgulho, a gula...Como
naquele garoto que acabou de sujar toda a roupa
bordada com molho de tomate e na mãe cheia de pompa
que deu a bronca; a diferença está na finalidade. Seres
humanos como eles, apesar de seus defeitos, continuam
sendo filhos de Deus, e quem é limpo de pecados? Essa
gente precisa ser protegida por alguém que, embora
continue a ser um pecador e um ente falível, tenha em

307
mente, com mais estabilidade, os ideais cristãos e não
possua objetivos mundanos. Nunca me interessei por
terras, festas e batalhas vãs; por isso me julgo
apropriado para a condição de cruzado. A fé não deve
ser imposta pela força, mas garantida por ela. Os que já
são cristãos, mesmo que numa semente de suas almas,
precisam ser defendidos para que quem sabe algum dia
seus espíritos floresçam.”, refletia Antenor, que deixara
para trás sua família na Lusitânia e fora para Roma na
expectativa de se tornar um cruzado. Rapaz corajoso,
abrira mão de uma vida confortável, filho que era do
marquês Vicente de Braga, que o eximira de qualquer
responsabilidade, e não quisera levar uma existência
fútil de cortesão. Comovido com a miséria do povo e
indignado com a violência de bárbaros, piratas e
demônios, queria fazer algo pelas pessoas simples, ser
um verdadeiro cristão, de preferência um espadachim
que manejava a cruz, se bem que fosse um arqueiro de
primeira linha.
- Por que correr esse risco, filho? Se não quer continuar
em casa, se sente tédio, pode se tornar um padre e
trabalhar com afinco pelos pobres. Por que um
cruzado?- Indagara o bom Vicente.
- Não tenho vocação para observar as coisas à
distância, pai; saber que pessoas inocentes são atacadas
e mortas por demônios sem que possam se defender.
Não que o poder da oração seja nulo, mas acho que
rezar funciona para os santos, não para as pessoas
comuns. Não sei, não posso ter certeza, só tenho a
impressão que para que a fé surta algum efeito, o
indivíduo precisa estar limpo de pecados, e são
pouquíssimos que estão.- Replicara.

308
- Sei ao que está se referindo. Mas todos fizeram o
possível para salvar a sua mãe. Só que os ferimentos
eram graves demais...
- Se eu já fosse um cruzado, teria matado o demônio
antes que as garras e os dentes dele tivessem feito ela
perder metade do sangue do corpo.
- Nada garante que você teria chegado a tempo.
Antenor, não pode salvar o mundo...Você não é Cristo,
não precisa carregar tanto peso em seus ombros.
- Sei o que deseja, papai. Só me quer vivo e próximo.
- Depois que sua mãe foi morta, vocês, meus queridos
filhos, são tudo o que me resta.
- E sabe que, quando ficar velho, eu serei o único que
passará a maior parte do tempo ao seu lado...
- O seu coração é diferente, sempre foi. Com tamanha
habilidade com o arco e as flechas, nunca participou de
uma caçada comigo e com seus irmãos...
- Adoro coelhos e cervos. Os únicos animais que até
hoje senti gosto em abater foram corvos e abutres. Não
gosto de carniceiros...E animais voadores me dão uma
certa aflição.
- Isso vem desde quando era pequeno, quando aquele
corvo enlouquecido atacou a sua irmã justamente na
ferida do joelho dela, bicando com tanta força que ela
nunca mais deixou de mancar...
- Aquele não era um corvo comum, devia ser uma
espécie de demônio, ou comandado pelo pensamento de
um. E o senhor sabe da afeição que nutro por Teresa.
Desde então sempre os meus olhos queimam quando
vejo um pássaro ou um morcego, como se essas
criaturas fossem comandadas por uma vontade externa a
elas.

309
- Não se esqueça que os anjos também têm asas e que
há pássaros doces e de belo canto. Mas você só tinha
seis anos, então compreendo que foi um choque ver a
sua irmã sendo agredida daquela maneira; e estavam
brincando, a violência quebrando a brincadeira. Um
rompimento drástico.
- Estou quase certo que os anjos não possuem asas.
Trata-se de uma representação. Na verdade, é a Luz de
Deus que os impulsiona. Só os demônios precisam de
asas, afinal não têm o mérito necessário para se
afastarem da terra...- Ao chegar em Roma, esta lhe
parecera a mais viciada das cidades, repleta de
mendigos, ladrões e prostitutas, menos no Vaticano,
sempre limpo e bem protegido. A diferença para com o
resto da urbe era gritante.
Habilidoso, surpreendeu os favoritos da disputa, entre
estes diversos cavaleiros italianos e franceses. Preciso
com as flechas, sua espada curta fazia o restante do
trabalho, lamentando as mortes de dois dos seus rivais
porém tentando colocar em mente a idéia que morriam
como mártires, que fora algo necessário para que o
campeão da fé despontasse, e de qualquer maneira quem
se propunha a futuramente enfrentar demônios não
podia ter apego pela própria vida. Era diferente de um
torneio mundano, apesar do público; repetia isso para si
mesmo o tempo todo.
Na final, estava presente o papa Inocêncio XV, um
homem de espírito conciliador, que vinha buscando
amenizar as recentes divergências entre padres
vermelhos e jesuítas, fisicamente exibindo um
semblante ameno e um leve sorriso quase nunca
ausente, cabelos brancos cacheados, rosto bastante
rechonchudo para o corpo e olhos alertas; antes do

310
início da contenda, que se daria entre o lusitano e um
grego de nome Glauco (outro que desbancara inúmeros
favoritos), fez um discurso justamente para aplacar a
Companhia de Jesus, da qual alguns membros ilustres se
encontravam dispostos em uma fileira próxima ao
pontífice:
- Não estamos aqui para tecer um hino à violência ou
para exaltar o orgulho e a vaidade de homens que só
pensam em derramar sangue. Nos encontramos hoje
reunidos para nomear um bastião da Fé, um soldado de
Cristo, pois temos que estar cientes de que o próprio
Salvador nos disse que veio para trazer a espada,
deixando claro portanto que vivemos em um mundo em
guerra: as hostes celestiais e as legiões de Satã estão em
conflito constante. Se ficarmos passivos, sem definir de
qual lado vamos ficar, é natural que acabemos sendo
massacrados, pois os anjos não saberão a quem devem
proteger: a Palavra é valiosa, só que os demônios não A
compreendem. Vamos portanto tomar parte das hostes
de Deus, desempenhando um papel ativo, ao menos
alguns de nós já na Terra.- Os questionamentos dos
jesuítas estavam centrados na utilização do sangue de
Cristo, que segundo eles era dúbio que fosse realmente
de Cristo, tendo se passado mil anos desde a aparição do
cálice e mais nenhuma do messias, que não viera para
confirmar o envio deste. Existiam registros de crimes,
arbitrariedades e delitos escabrosos cometidos pelos
cruzados; como isso poderia ser possível se tivessem
realmente o sangue de Jesus correndo em suas veias?
Tudo não passaria de um embuste do Diabo, de um
engodo infernal, tanto que desde a aparição do cálice
novos demônios não paravam de se manifestar. O papa
e os padres vermelhos defendiam os cruzados afirmando

311
que, apesar de alguns terem cometido excessos, por
diversas vezes haviam salvado gente inocente e mesmo
a humanidade como um todo de desgraças muito
maiores. Era justamente para evitar que se tornassem
poderosos demais que nunca passavam do número de
doze, o número dos apóstolos de Cristo. Quanto ao fato
de não serem santos, advogavam que a
transubstanciação efetuada em cada missa também não
garantia a santidade aos homens; ainda assim, os
tornava melhores do que antes de entrarem na igreja.
- Reconhecemos os méritos da Companhia de Jesus no
que diz respeito a esta ter convertido praticamente todo
o oriente e as ilhas do sul à verdade Fé. E isso há muito
tempo! Chegaram ao Ceilão e às Molucas em 1548,
tocando o Catai em 1552. Em 1558, alcançaram o
Cipango. Gruber e D'Orville conquistaram o Tibete em
1661, e outros depois passaram pelo Congo e pela
Etiópia, cristianizando as populações bárbaras.
Devemos a vocês a expansão da Igreja e a chegada de
tantas ovelhas. Mas não se esqueçam que talvez não
teríamos mais seres humanos na Terra se não fossem os
cruzados...- Afirmara o padre Jonathan em conversa que
tivera no Vaticano com o jesuíta luso Simão Rodrigues,
que naquele momento no coliseu não podia deixar de
torcer para o seu compatriota. Ao menos enxergava nos
olhos de Antenor uma pureza rara de ser encontrada no
semblante de um guerreiro, geralmente tão orgulhosos e
cheios de si; tratava-se de um homem calvo, de barba e
bigode escuros, que quase não tirava as mãos de seu
crucifixo.
O confronto entre o filho do marquês de Braga e o
grego, que contavam com duas das melhores armaduras
do torneio, foi bastante equilibrado, com o primeiro

312
buscando manter uma certa distância para usar suas
flechas e o segundo tentando se aproximar com sua
lança e utilizando seu escudo para parar as setas; a luta
lembrava muito mais um enfrentamento entre
gladiadores do que outras disputas da época. Antenor
pela primeira vez durante todo o torneio suava frio,
enquanto nos combates anteriores permanecera
surpreendentemente calmo. “O que está acontecendo
comigo? Será porque dessa vez é uma decisão, e não só
em termos de luta como interiormente? Quero me tornar
um cruzado, tenho que estar decidido nesse sentido. Não
posso hesitar, colocar porquês, me fazer perguntas e
pesar os prós e os contras, afinal isso já foi feito e não
há tempo para repetir. A hora é de fazer, de golpear!”,
Glauco usava uma armadura plúmbea e fechada, com
uma viseira própria para desviar golpes de espada, e as
flechas pareciam insuficientes para perfurar aquela
couraça. Com a vitória incerta para os dois lados,
ficaram se rodeando por um tempo que pareceu uma
eternidade para os dois e para o público, o povo
começando a vaiar os dois guerreiros enquanto os
espectadores privilegiados estavam mais entretidos com
a comida, menos o papa, os padres vermelhos e alguns
jesuítas como Simão, que viram de repente a lança do
grego se fincar no chão após um desvio hábil do
lusitano e a espada deste se desviar do escudo para
perfurar o peito de seu adversário. “O sangue de Cristo
e o sangue de um humano; Cristo também era humano,
mas a diferença entre um e outro deve estar no
reconhecimento da divindade.”, refletiu Antenor ao
retirar sua lâmina banhada em sangue e ver o oponente
despencar no chão, o corpo tão bem-protegido

313
desabando sobre a poeira. Um árbitro entrou na arena
para levantar o braço direito do vencedor.
- Levantem-se e rejubilem-se! Temos um novo
campeão da Fé!- Bradou o papa e o público exultou,
entusiasmado com o final emocionante, sob os aplausos
dos padres vermelhos e os olhares apreensivos e atentos
dos jesuítas.
Entre estes, encontrava-se o reflexivo e carrancudo
Superior General da Companhia, Fernando Pizarro, o
“papa negro” (devido à cor de sua batina e ao poder que
exercia) um homem de estatura elevada, elegante,
magro e, apesar das rugas dos seus setenta anos, em
perfeita saúde, os olhos azuis firmes e analíticos,
cabelos brancos ondulados até a base do pescoço e que
se retirou da comemoração, seu crucifixo vermelho
brilhando sob a luz do fogo das tochas, claridade que
não estaria presente em sua sala no Vaticano, algumas
horas depois, ao receber Simão Rodrigues, sentado atrás
de sua escrivaninha com seus cotovelos sobre esta, os
dedos entrelaçados e uma expressão preocupada.
- Como lhe pareceu o novo guerreiro?- Perguntou ao
lusitano.
- Acredito que ele seja diferente dos outros, Padre
Geral. Notei uma pureza de olhar rara, um ímpeto de
fazer o bem. Não havia sede de sangue. Esse pode ser
um válido soldado de Cristo.
- Não está se deixando levar pelo fato de ser seu
conterrâneo?
- De modo algum. O senhor sabe que sou um homem
que não se deixa levar por nada além da fé em Deus e
em seu Filho. Não havia nenhuma maldade no rapaz.

314
- Mas a crueldade pode nascer depois que o “sangue de
Cristo” for colocado nele. É bom continuarmos atentos.
O seu amigo poderá se tornar uma pessoa diferente...
- Ele não é meu amigo, não é nada meu. Só me pareceu
um moço dotado de genuína bondade.
- Está bem, Simão. Não vou colocar em dúvida sua boa
fé...Porém nunca deixe de observar.
- Velar...Vigiar...São palavras fundamentais em nossa
doutrina. Mas o senhor acha mesmo que o papa pode
estar se equivocando dessa forma, atribuindo a Cristo
um sangue que não é Dele?
- A infalibilidade papal é um dogma delicado. A menos
que um ou vários impostores tenham se sentado no
trono de São Pedro, levando adiante uma trama
demoníaca! Na minha opinião, há apenas duas
possibilidades: ou os últimos papas foram todos
usurpadores, por isso nem mesmo poderiam ser
considerados pontífices, e a ira de Deus caiu sobre os
que se foram para o outro mundo e cairá sobre o que
está aqui e sobre os que virão, ou sobre todos nós, que
fomos coniventes, ou aquela taça é realmente o santo
cálice e nós estamos equivocados. Por via das dúvidas,
não hesitaria em testar esses homens, estar sempre com
os olhos abertos para tudo o que fazem, atento a como
portam suas espadas, a como se movem, tentando
adivinhar até seus pensamentos. Por mim, os eliminaria.
Porém não posso tomar uma atitude brusca, nem tenho
forças para isso, sem a certeza plena.
- Apesar do corpo de Cristo ser perfeito, os homens
podem se apoderar dele e usá-lo para seus próprios fins;
possuímos livre-arbítrio.
- Antes não tivéssemos nenhum livre-
arbítrio...Seríamos mais sábios.

315
- Está contestando o Criador?
- Tem razão...- Demorou alguns segundos para
responder, os olhos cravados em seu interlocutor.- É que
me preocupo demais com a humanidade, a ponto de às
vezes chegar a pensar como os gnósticos: que na
verdade foi um demiurgo corrompido que a criou. Os
exemplos de usurpação do corpo de Cristo são tantos
que Deus deve ser infinitamente paciente! Conhece a
história da papisa Joana?
- Apenas ouvi falar de algo do gênero. Mas meus
preceptores sempre se desviavam quando perguntava
algo a respeito; nunca quiseram me contar os detalhes
dessa história da papisa. Alguns até a negam, dizem que
é absurda.
- Mas foi real. Recomendo que leia um livro que me
caiu em mãos uma vez, temos um na biblioteca, de um
bispo francês chamado Lachatre. Ele conta a história em
detalhes, ainda que eu não resista e tenha que lhe
comentar algumas partes...
- Não nego que sou um curioso, Padre Geral.
- Kapek dizia que essa história foi na verdade uma
fábula maligna inventada pelos ateus e pelos heréticos
para denegrir o clero, ou então que a papisa teria sido
um autômato criado por meio dos sortilégios diabólicos
de bruxas sumamente ardilosas. Barônio afirmava que
fosse uma criatura do Inferno convocada por magos
negros. O herético Raxmond diz que Joana teria sido
enviada pela própria cólera de Deus para esmagar a
nossa soberba e o autoritarismo dos papas, cujas
abominações não eram mais toleradas. Muitos duvidam
de sua existência, mas tenho certeza que ela existiu,
afinal nem mesmo Labbe, um dos Generais que me
antecedeu, conseguiu desmenti-la com todos os seus

316
esforços. Porém é claro, ninguém iria querer uma
mulher no trono de São Pedro.
- Se isso aconteceu mesmo, como foi permitido pelos
homens e por Deus?
- Não simpatizo nem um pouco com Raxmond, só que
pode de fato ter sido um golpe no orgulho da
cristandade, Deus querendo castigá-la pelos caminhos
ímpios que andou seguindo. Os homens não são capazes
de permitir ou de impedir nada; por isso aconteceu pela
vontade do Criador, da mesma forma que talvez os
cruzados sejam um segundo golpe, para mostrar que
nunca estaremos à altura do Filho. Pois bem, quanto à
papisa em si, Mariano escreveu sobre ela e suas crônicas
são as de um espírito judicioso e imparcial, dedicado à
Santa Sede, um homem que nunca se deixou levar por
paixões e parcialidades. Você sabe como foi corajosa
sua defesa do papa Gregório VII contra Henrique IV; é
portanto um testemunho que não se pode dispensar,
além de termos manuscritos relacionados a ela em
inúmeras bibliotecas, aqui mesmo rastreei vários. Tudo
teria ocorrido no início do nono século, antes da grande
catástrofe, quando o imperador, tendo subjugado os
saxônios, pretendeu converter esse povo ao
cristianismo, buscando a ajuda dos padres sábios e
devotos de seu tempo. Entre os eruditos que se
encontravam nas terras germânicas, havia um padre
inglês que percorria as cidades com uma menina
grávida, que uns dizem que seqüestrara para salvá-la da
cólera dos pais por pura caridade, enquanto outros
afirmam que era sua amante. Os dois pararam em
Mayence, onde a jovem deu à luz uma menina, que
segundo certos autores se chamava Agnes, Gilberta para
outros, enquanto boa parte se inclina ao fato de Joana

317
ser já seu nome de batismo e não um pseudônimo
adotado posteriormente em homenagem ao apóstolo que
era o seu favorito. Sevarius dizia que ela podia se
chamar Isabel, Dorotéia ou Margarida, mas isso não
importa muito, o que interessa é que ela se tornou uma
bela moça quando cresceu, e bem instruída pelo pai
douto, efetivo ou adotivo que fosse, que logicamente
afirmava aos vizinhos que a menina era fruto de um
caso amoroso de sua protegida, sendo ele apenas um
humilde e digno salvador e preceptor. De acordo com
Mariano, Joana apresentou um desenvolvimento
excepcional e encantava os doutores da cidade, dando
sempre as melhores respostas, mais perfeitas do que
qualquer garoto dera antes, e com doze anos se dizia
que era mais culta do que a maior parte dos homens do
palatinado e que se igualava em sabedoria aos principais
eruditos. Contudo, como é de se esperar da natureza
feminina, ela se deixou levar pelo amor, a exemplo da
mãe.
- E quem foi o felizardo?
- Não o chamaria de felizardo. Apesar da beleza e da
inteligência de Joana, o pobre rapaz só sofreria
desgraças ao lado dela. Tratava-se de um frade da
abadia de Fulde, de família inglesa, que se apaixonou
perdidamente, e não duvido que ela o tenha seduzido
com seus encantos, mesmo que depois também tenha se
apaixonado. O gume duplo das mulheres: elas seduzem,
acham que estão no controle, e quando se dão conta já
se enredaram. Claro que nem todas, mas isso acontece
com muitas, e Joana e seu amante tiveram que fugir de
casa, com ela deixando para trás seu nome verdadeiro,
se passando por homem e seguindo com o amante para a
abadia, enganando o superior com seu disfarce e ficando

318
sob a supervisão do sábio Raban Maur. Claro, no
entanto, que foi difícil para os dois ocultar o amor, e
dessa forma tiveram que fugir do convento e buscar
refúgio na Inglaterra, onde prosseguiram com seus
estudos, e uma vez concluídos passaram a viajar juntos,
conhecendo a França, onde Joana, sempre travestida de
monge, travou disputas com doutos locais e e ficou
bastante famosa, mais do que seu acompanhante,
chamando a atenção entre outros da duquesa de
Setimânia e de Santo Ascário. Depois chegaram à
Grécia, berço da filosofia, e ela tinha apenas vinte anos
ou pouco mais, no esplendor de seus atributos físicos,
que conseguia a custo disfarçar sob o hábito monacal,
com a aparência de um formoso adolescente. E imagine,
meu bom Simão, como isso era também uma tortura,
impedindo-a de todas as formas de provocar os olhares
dos homens. Nesse sentido temos que louvá-la, porque
fez o que fez por amor, uma pena que seu companheiro
terminou seus dias em Atenas depois de dez anos juntos,
vítima de uma enfermidade desconhecida, e Joana ficou
só na Terra, ainda que tivesse se aprofundado na
oratória e sua eloqüência se mostrasse prodigiosa, digna
de um Demóstenes.
- Se era mesmo uma boa mulher, deve ter sofrido
muito. Mulheres são mais vulneráveis do que nós às
dores do amor.
- Quando são bondosas, de fato. E a jovem erudita se
foi da Grécia ainda mais porque lá os homens tinham o
hábito de exibir as barbas crescidas, o que lhe
dificultava cada vez mais a ocultação do sexo, vindo
para cá, onde o costume ordenava rapar a barba. Além
disso, se livraria das lembranças do amado ficando mais
distante de seu túmulo e encontraria em Roma um lugar

319
mais adequado para seus novos estudos e a exposição de
seus dons, cada vez mais dedicada a estes, tanto que
passou a ensinar artes liberais na academia e introduziu
cursos de ciências abstratas que duravam até três anos,
sempre acompanhada por um grande auditório. Fazia os
discursos com uma desenvoltura tão arrebatadora,
mesmo os realizados ao improviso, que logo foi
considerada a mais harmoniosa mescla entre beleza e
sabedoria de seu tempo, um belo e jovem gênio ao qual
foi concedido o título de “príncipe dos sábios”, afinal
pensavam que fosse um jovem professor, a ponto de
todos se sentirem honrados por serem seus pupilos, com
um procedimento e talentos tão recomendáveis que um
partido se declarou por ela como sendo a única pessoa
digna de ocupar o trono de São Pedro.
- E ninguém desconfiava de nada?
- Como Mariano bem disse, Joana devia usar uma
máscara exterior para cativar os homens e realizar suas
ambições. Bem sabemos que, mesmo quando são boas
pessoas, as mulheres sabem dissimular melhor do que
ninguém para obter o que desejam. Não foram homens
tolos os que caíram sob seus encantos, e sim muitos
entre eles doutos e sábios, e ainda assim ela conseguiu.
- E se não era bondosa e justa como cogitamos no
início e sim uma feiticeira?
- Nada nesse sentido está provado. Inclino-me a pensar
que era tão só ambiciosa. E foi com propósitos certeiros
e uma mente firme que após a morte do papa os
cardeais, os diáconos, o clero e o povo a aclamaram e a
elegeram por unanimidade, ordenada na presença dos
comissários do imperador por três bispos na basílica de
São Pedro. Com as vestes pontificiais, seguiu com um
imenso cortejo ao palácio imperial e assentou-se na

320
cadeira apostólica, o que uns pretendem ter sido um
milagre, uma prova de que Deus perdoou Eva e que as
mulheres deveriam ter mais espaço na Igreja, e outros
como uma manipulação diabólica. No que acredita
mais?
- Pessoalmente não acredito em mulheres em altos
postos na Igreja, tanto que os doze apóstolos eram
homens. Elas carecem de equilíbrio emocional e são
manipuladoras e dissimuladas em demasia. Não que não
existam santas, todavia são mais raras do que os santos.
- Não podemos nos esquecer que, sob a autoridade
“infalível” de vigário de Cristo, Joana conferiu ordens
sagradas a prelados e diáconos, consagrou altares e
templos, deu os pés a beijar a nobres e arcebispos,
administrou sacramentos aos fiéis, coroou Luiz II,
compôs prefácios de missas e cânones, posteriormente
interditos, e foi muito mais correta em seu período do
que a maioria dos pontífices. O que podemos dizer
disso? Confesso que ora simpatizo com a hipótese que
Deus a enviou para diminuir nosso orgulho e castigar as
impiedades dos homens da Igreja, ora penso que
efetivamente Eva foi perdoada, mas não me precipito
dizendo que tenho certezas. O que acha do fato de todos
os cruzados serem homens?
- Se eles possuem o sangue de Cristo, acredito que seja
uma das demonstrações que a mulher não está apta para
as mais elevadas responsabilidades no seio da Fé.
- Os padres vermelhos alegam que se baseiam na
afirmação de São Paulo de que a cabeça do homem é
Deus enquanto a cabeça da mulher é o homem;
portanto, embora existam freiras por elas também
possuírem o livre-arbítrio de seguirem uma carreira
religiosa, não faz sentido existirem “cruzadas”, afinal

321
não é necessário formar guerreiras, fazendo uso de um
sexo inferior tanto física quanto mental e
espiritualmente. Contudo, o pontificado de Joana foi em
muitos aspectos exemplar; chegou até a persuadir o
imperador Lotário a abraçar a vida monástica, fazendo
penitência dos crimes que haviam manchado sua
trajetória, sendo habilidosa sem ser desleal ou traiçoeira
na política, distanciando-se de qualquer fama de
serpente.
- Mas como acabou sendo desmascarada?
- Dizem que o ano de 854 foi marcado por tremores de
terra, chuvas de sangue e pedras e aparições de
demônios e dragões. Não faço idéia do quanto isso seja
verdade, porém nuvens de gafanhotos monstruosos, com
dentes compridos e acerados, devastaram a França, e
epidemias e infecções se espalharam pela Europa,
quanto a isso temos documentos. O corpo de São
Vicente teria se levantado em Valencia para denunciar
um padre sacrílego que pretendia arrancá-lo do túmulo e
vendê-lo aos pedaços; vermes enormes devastaram as
plantações dos feudos da Inglaterra, justo a terra do pai
de Joana. Tais acontecimentos foram considerados
sinais enviados por Deus para enunciar que a cadeira
evangélica estava manchada. E talvez isso não se
devesse ao simples fato do papa ser uma mulher e sim
porque ela, conquanto tivesse por anos permanecido
casta, fiel à memória de seu amante, acabou não
resistindo e se entregou a um novo homem, um
indivíduo discreto, que alguns dizem que era seu
camareiro, ao passo que outros falam de um cardeal,
que de algum modo a teria descoberto, e não sabemos se
no início com doses de sodomia. O pior foi quando um
acontecimento contrariou todas as previsões e planos

322
dos amantes, que não teriam mais como manter a
discrição: Joana ficou grávida; e isso teria despertado a
ira divina.
- Não acredito. De todos os pecados cometidos, esse na
minha opinião foi o menos grave, afinal é dever da
mulher gerar a descendência, arcando com as dores do
parto. Ela cumpriu o seu papel.
- Ouça até o final, meu bom mas impaciente Simão,
porque foi esse filho que a conduziu à ruína, num dia,
enquanto presidia um consistório, em que foi trazido à
presença da papisa um endemoniado; antes do
exorcismo ser feito, a criatura do abismo declarou que
só sairia daquele corpo que possuíra quando Joana, o
próprio Santo Padre, lhe fosse dada em carne e espírito,
ardendo no fogo eterno após deixar ver ao clero e ao
povo de Roma uma criança nascida de uma papisa. Não
se sabe qual foi a reação dos presentes...
- Devem ter ficado perplexos e horrorizados, sem
entender o porquê de tais palavras.
- Pensaram provavelmente que o pai da mentira tecia
mais uma de suas tramas, sem maiores preocupações,
enquanto Joana, depois daquela data e tendo visto em
seguida um demônio em seus aposentos, passou a se
dedicar a rudes penitências, dormindo sobre as cinzas,
cingindo os membros delicados com um cilício
grosseiro e corroendo-se em seus remorsos orando por
várias vezes ao dia e abstendo-se de relações com seu
amante, até que Deus lhe teria enviado uma visão,
tocado por suas lágrimas, fazendo com que um anjo lhe
dissesse que poderia escolher entre o Inferno ou ser
reconhecida em público como mulher. Como não era
nenhuma estulta, escolheu a segunda opção e na época
das rogações montou seu cavalo e se dirigiu à basílica

323
de São Pedro à frente de uma procissão solene, seguindo
o uso estabelecido, precedida pela cruz e acompanhada
de metropolitanos, bispos, cardeais, padres, magistrados
e de uma multidão, é claro vestida com os ornamentos
pontificais. Da catedral então rumou para a basílica de
São João de Latrão, mas, tendo chegado a uma praça
entre a basílica de São Clemente e o Anfiteatro Flávio,
as dores do parto a assaltaram com tamanha violência
que despencou da montaria, fazendo com que se
torcesse no chão com gemidos e urros horríveis,
chegando a assustar os populares que pensaram que o
próprio Santo Padre tivesse sido possuído e que os
tempos estavam mesmo no fim! Só que rasgados os
ornamentos que a cobriam, Joana se viu despida e na
presença da procissão deu à luz sua criança! Imagine o
caos, com os padres tentando escondê-la a todo custo,
os mais robustos a levando embora com brutalidade,
sem a menor consideração por suas dores, e a
consternação do povo...
- E a trouxeram para morrer de volta aos aposentos
papais?
- De forma alguma! Assim que encontraram uma igreja
qualquer, fecharam as portas e largaram seu corpo no
altar. Joana não durou muito mais, tanto pela vergonha
como pelas dores, e entregou sua alma aos Céus se diz
que nos braços do cardeal que era seu amante e que a
protegeu de ser apedrejada pelos confrades, citando o
famoso trecho evangélico de quem é limpo de pecados
que atire a primeira pedra. Com isso se foram dois anos
de governo de Joana...De uma mulher no posto mais
alto da cristandade.
- E que fim teve o corpo?

324
- Dizem que foi enterrada na noite que seguiu aquele
dia, nessa mesma igreja desconhecida, sem deixar
rastros, pois pretenderam ser discretos ao extremo,
minimizado a ignomínia. Alguns estudiosos alegam que,
após sua criança ser sufocada por alguns padres, seu
cadáver tenha sido colocado junto com o do bebê no
mesmo lugar onde sucedera o trágico infortúnio, e ali
teria sido edificada uma capela, que contava com uma
estátua de mármore representando a papisa em trajes
monacais, sem revelar sua verdadeira identidade, erigida
a pedido de seu amante, tudo destruído depois em um
dos cataclismos do ano mil e as ruínas varridas de vez
por papas posteriores. Transcorrido algum tempo, não
faltaram repercussões, com certos visionários
considerando a expiação de seus últimos momentos
como insuficiente para aplacar a cólera divina, afinal
ocupara a cadeira daquele que fora a pedra sobre a qual
Cristo edificara seu edifício. Para os menos indulgentes,
ela e seu amante foram condenados a ficarem suspensos
por toda a eternidade dos lados opostos das portas do
Inferno, sem nunca ser possível que tornassem a se
reunir. Além disso, por muito tempo existiu um decreto
que proibia os pontífices de atravessarem a praça onde
tivera lugar o escândalo e foi por isso, dali em diante,
que no dia das rogações a procissão passou a fazer um
longo rodeio. Todas estas precauções suficientes para
manchar ou apagar a memória da papisa, porém a fim
de impedir que semelhante escândalo se renovasse se
fez necessária uma nova medida, afinal os olhos são
enganados com facilidade; já ouviu falar da cadeira
furada?
- Segundo estudei, introduziram essa prova
constrangedora para comprovar a virilidade do

325
pontífice, mas não que tivesse surgido porque uma
papisa existiu. Com o tempo, pela graça de Deus se
julgou que era desnecessária e que não seria mais
realizada.- Referiam-se a um teste no qual, uma vez
eleito o papa, este era conduzido ao palácio de Latrão
para ser entronizado com as devidas solenidades, em
primeiro lugar numa cadeira de mármore branco, posta
no pórtico, entre as duas portas de honra, um assento
que era, porém, furado; o Santo Padre, ao se levantar,
entoava um versículo do salmo 113: “Deus eleva do pó
o humilde, para o fazer assentar-se acima dos
príncipes”. Na seqüência, os dignitários da Igreja davam
a mão ao pontífice e o conduziam à capela de São
Silvestre, onde se encontrava outra cadeira, esta de
porfírio, furada no fundo, na qual este se assentava. As
duas cadeiras furadas teriam sido do mesmo tamanho,
sem almofadas ou ornamentos, e antes da consagração
bispos e cardeais deixavam o papa meio estendido sobre
essa segunda cadeira, com as pernas separadas, e ficava
nessa posição exposto, com os hábitos pontificais
entreabertos, para demonstrar sua masculinidade; como
se não bastasse (a essa altura Simão dera algumas boas
gargalhadas em seu tempo de estudante), ainda se
aproximavam dois diáconos que iriam se assegurar pelo
tato...O papa estava eleito e os padres podiam render-lhe
graças, prostrar-se, cingir seus rins com o cinto, beijar-
lhe os pés e proceder com a cerimônia, que se encerrava
com um festim e uma distribuição de moedas aos frades
e às freiras.- Confesso que algumas descrições que li a
respeito me fizeram rir...Vergonhoso demais para o
corpo de Cristo, considerando que Alexandre VI foi
reconhecido publicamente como pai dos cinco filhos de
Rosa Vanozza e teve que passar pela mesma prova!

326
- Alexandre VI foi só um dos tantos papas corruptos
que tivemos, e não eram mulheres. Anastácio, um
nestoriano; Clemente, um ariano; Silvestre II dizem que
foi um mago negro que vendeu a alma aos demônios, e
os exemplos são inúmeros. Não que eu ache que uma
mulher possa se postular ao trono de São Pedro, só
estou certo que os que se sentam nele não se tornam
automaticamente santos. E isso me dá o direito portanto
de duvidar do nosso atual papa e das intenções dele para
com os cruzados; ou é um ignorante, ou alguém como
Silvestre II...- Logo Pizarro foi deixado sozinho;
refletindo seriamente na escuridão exterior e na
profundidade de seu pensamento, recebeu uma esperada
visita:
- Tenho o que precisa ver, senhor. Me perdoe pela
demora, mas acho que consegui captar o que era
necessário para esclarecer suas dúvidas.- Uma nuvem
vaporosa, em alguns momentos brilhante, em outros
opaca, pesada ou aliviada por raios verdes ou azuis, ora
apresentando uma notável densidade, ora diáfana,
formou-se diante da porta, inclusive mantendo-a
inabalável enquanto ali permanecesse; quem a tentasse
derrubar, com o corpo ou com um aríete, de nenhum
modo conseguiria. Um rosto enfumaçado se formou e
encarou o Superior General dos jesuítas.
- Espero que tenha feito um bom trabalho, espírito. Não
espero pouco de você.
- Estou ansioso para satisfazer o senhor.- Os olhos da
face se unificaram, transformando-se em um espelho,
que passou a exibir imagens cada vez mais claras:
Pizarro, mago inconfesso, pôde ver o papa Inocêncio
XV abrindo uma passagem secreta em seus aposentos,
descendo por uma escadaria e, ao penetrar em uma sala

327
oculta, descortinar uma cabeça de pedra com feições
disformes que lembravam mais uma mulher do que
homem: a cabeça de um demônio do sexo feminino, sua
alma presa àquela tosca escultura de uma “mente” sem
corpo. A ela se dirigiu, antes de começar a pedir
conselhos, sob os olhos fixos do jesuíta...Nunca
imaginaria estar sendo observado naquele instante:
- Aqui estou, Meridiana. Preciso de sua ajuda.

Em volta, paredes escuras, riscadas e sujas, manchadas


de água escorrida, o teto com algumas goteiras; sentado
em uma poltrona de couro velho, Antenor recebera uma
taça com um líquido rubro e borbulhante das mãos do
padre Jonathan, aguardando agora os efeitos sob a
supervisão do sacerdote vermelho, que sorria enquanto
se encaravam:
- Esse sangue estava apressado para ser bebido, não via
a hora de escorrer em novas veias, por isso se
manifestou daquela forma. Dificilmente ele ferve na
proximidade de um ser humano...
- Não sei por qual razão, padre...Mas estou sentindo um
pouco de medo. Talvez seja ansiedade. Não tenho idéia
do que vai acontecer comigo...
- E nem nós. O sangue de Cristo age de forma diferente
para cada um. Os seres humanos possuem sistemas
digestivos distintos- Foi fitado pelo lusitano com um
olhar de interrogação.- Estou brincando, meu
jovem...Não é o estômago que faz a diferença; o
coração, a mente e o espírito é que são fundamentais.
Veremos o que irá suceder...- A um certo ponto,
Antenor não conseguiu mais verbalizar nada, sem a
mínima vontade de falar e não conseguiria mais de todo
modo, pouco a pouco se sentindo semelhante a uma

328
larva em um casulo; náuseas e azias tiveram início,
parou de ver Jonathan, que não saiu de perto quando
vomitou no chão pela primeira vez, um regurgito azedo
com uma aparência de entranhas. Como se estivesse
colocando tudo o que não servia para fora, chegou a ver
e sentir seu fígado e seu baço se desmanchando, o
pâncreas se diluindo...Teria sido enganado? Aquele não
seria nenhum sangue de Cristo e sim um veneno letal, e
aqueles eram falsos padres vermelhos, preparando-o
para a morte? “Não pode ser...Estou em Roma, a sede
da santa Igreja!” com esforço, conseguiu afastar
algumas paranóias. Contudo, e se não fosse digno e não
resistisse ao sangue de Cristo? Já fora admitido como
cruzado e nunca ouvira falar de homens que tivessem
falecido durante a transformação, afinal era um sangue
sagrado, não um veneno...No entanto, haveria uma
primeira vez? Pensou que devia rezar, elevar seus
pensamentos em devoção a Deus, orar com fé e não se
deixar levar pelos pesadelos mais profundos, que o
assaltavam feito dragões verminosos, rondando pelo
fosso à sua volta. “Não vou resistir...”, o peito
principiou a arder, mordido por uma serpente que o
assediava com um olhar convidativo, fazendo com que
visse imagens luxuriosas e tivesse sensações lúbricas.
“Tenho poder para afastar essas tentações e sofrimentos,
tenho que crer em Cristo, em Deus, no Espírito Santo!”,
repetia para si quando teve início um êxtase que lhe deu
a impressão de levá-lo às alturas, um canto celestial
tomando conta de seu ser e gradativamente expulsando
as trevas, que começaram a recuar; Jonathan esfregou as
mãos e sorriu, enquanto seu novo pupilo se contorcia e,
ao recobrar a consciência em seu corpo físico, uma
ponta metálica saiu devagar de uma veia de seu pulso...

329
- Meus parabéns, meu rapaz! Você está definitivamente
entre nós, foi admitido por Deus e não apenas pelos
homens! Venha até mim para que possa lhe dar um
abraço...
- Padre...O que foi isso?- Ainda parecia atordoado.
- Você passou pelo processo necessário de limpeza e
purificação espiritual, filho. Não tem razões para ter
medo. Todos os irmãos, seus companheiros, já passaram
pelo mesmo processo uma vez, embora as reações e as
visões sejam distintas para cada um. Se busca algo que
o console, fique ciente que foi um dos que menos sofreu
entre os atuais, ao menos considerando o tempo que o
seu martírio durou. Foi bastante curto!- Havia um certo
sadismo na expressão do sacerdote.
- De algum modo, passamos pelo que o Cristo sentiu na
cruz em menor escala?
- Quase isso, Antenor. Não é muito se comparado ao
que Ele sentiu, mas é muito se considerarmos que
somos apenas humanos. Você se saiu bem...Estou
orgulhoso!- Abriu os braços e foi até Antenor, puxando-
o pelo braço direito e concretizando um abraço e logo
um beijo na face direita.
- Parece que mal acabei de ingerir o sangue de Cristo e
já consigo sentir a presença demoníaca no mundo, a
interferência diabólica...O ar ficou mais pesado, as
pessoas dão a impressão de estarem oprimidas por uma
nuvem densa e escura; os inimigos estão por todas as
partes.
- Levará algum tempo para se acostumar à sua nova
natureza. Antes de trabalhar, precisará relaxar um
pouco, ou as suas capacidades tardarão em chegar ao
auge e à estabilidade. Tenho outro tipo de sangue em
uma adega...Quer ir até lá?

330
- Acho que esse sangue aceito...- Antenor sorriu, um
tanto encabulado e um pouco confuso.
- Tenho alguns de Braga e do Porto. Não se preocupe,
não vai reagir mal ao álcool...Os seus órgãos estão em
perfeito estado como jamais estiveram!- E se retiraram
daquele ambiente sinistro para comemorarem; saindo
dali, o luso enfim podia sentir algumas pontinhas de
alívio e satisfação.

Passado – IX

- O relatório está pronto, Brian? Foram cumpridas as


obrigações do mês?- Indagou de sua poltrona dura e
metálica, colocada no pedestal de amplo e austero salão
de paredes negro-acinzentadas, tendo como único
adorno a bandeira com o escudo da família às costas
(um ser com a parte inferior de serpente e a superior de
águia, enrolando-se a uma cruz, em posição de ataque),
o senhor feudal de Westend, sir Malcolm “dos cabelos
de fogo” (seu apelido entre seus vassalos), portando em
sua cabeça um discreto coronel banhado a ouro com
uma esmeralda de um lado e um rubi do outro. Vestia
uma elegante túnica marrom, uma calça de couro e
botas gastas.
- Os servos estão trabalhando muito, meu senhor. Os
relatórios que me foram enviados falavam do afinco, da
dedicação e da devoção com que estas pobres almas se
entregam ao trabalho na terra, como se este lhes
garantisse um lugar no Paraíso, o que não deixa de ser
verdade em parte, afinal Deus abomina a preguiça. As
talhas foram devidamente entregues, assim como pagas
as banalidades para o uso dos moinhos, fornos, celeiros
e pontes. Os tostões de pedra foram para as capelas

331
locais e nenhum burguês escondeu seus filhos menores
para deixar de pagar as capitações. Nossos fiscais
entraram em cada casa e revistaram todos os cantos.-
Respondeu aquele homem, um dos cavaleiros-fiscais de
Westend, distinguidos pela insígnia de uma água com
imensos olhos que portavam em suas armaduras e cotas
de malha, com elmos arredondados que podiam tanto
deixar todo o rosto exposto como apenas os olhos e o
nariz, quando os fechavam.
- Os que sempre incomodam mais são os burgueses. Às
vezes tenho minhas dúvidas que sejam realmente
católicos.
- Muitos de fato não o são, meu senhor.
- Stadtluft macht frei. “O ar livre da cidade”, diria um
amigo meu, o barão de Hölderlin! Ainda assim estão nas
minhas terras, e precisam pagar por ocupá-las e gastar
seus recursos. De que vale a liberdade se o homem a
desperdiça com a luxúria e a feitiçaria? Tem observado
as seitas pagãs? Não quero que o papa envie
cruzados...Quero mostrar que posso resolver isso
sozinho, que sei cuidar dos meus domínios. Provar que
sou um cristão nas ações, e não nas palavras.
- Há mais pagãos do que podemos imaginar e eles
sabem se esconder. Estamos fazendo o possível, senhor.
Nas cidades se propagam feito ratos...
- Dessa maneira, vão começar a pensar que não sou
católico o bastante, que por minha falta de virtude o mal
é que se espalha e se torna universal. Não posso permitir
isso.
- Ao menos não têm sido registrados ataques de
demônios em suas terras.
- Porém isso não tardará se não formos enérgicos o
bastante. Minha ordem é para que qualquer suspeito seja

332
investigado e, se comprovada sua afiliação a qualquer
seita blasfema, queimado em praça pública.
- Estamos trabalhando nisso, meu senhor.
- Ainda quero ver os resultados do seu trabalho. Estão
fiscalizando muito bem a parte tributária e as obrigações
dos camponeses. Mas vocês sabem que sua missão não
se limita a isso: vocês são zeladores da paz de Cristo.
Qualquer movimento que turve essa paz, seja causando
prejuízos financeiros ao feudo, seja afetando a moral e a
ordem entre os habitantes, deverá cessar de imediato.
- Às suas ordens...- Brian, que era um homem pequeno,
pouco mais de um e sessenta de altura e bigodinho raso,
se curvou ao acatar as ordens; respeitava e temia seus
senhor, conquanto não demonstrasse isso, parecendo
sempre confiante e tranqüilo, pois após combater ao seu
lado algumas vezes, durante rebeliões de servos,
massacres de pagãos ou ataques de bandoleiros, pensava
se não seria mais acertado apelidá-lo de Malcolm “dos
cabelos de sangue”, visto a sede que tinha de exterminar
os que perturbavam a ordem sagrada das coisas imposta
por Deus. Dissera certa ocasião que até beberia o sangue
dos revoltosos e infiéis para impedir que este manchasse
a terra, produto imaculado do Criador que fornecia o
alimento e a estabilidade para os pés, se pudesse
transformá-lo em água ou vinho em seu interior; porém
não queria se arriscar a ingerir veneno. Por duas vezes
irrompera pessoalmente em rituais não-cristãos
proibidos e, acompanhado de seus cavaleiros, após
decapitar os inimigos da fé, mandara queimar as carnes
e ossos impuros e varrer todos os vestígios de sangue,
espargindo cinzas, validando dessa forma, quando
ficava admirando as fogueiras, onde parecia observar
seu reflexo, a atribuição de “cabelos de fogo”. Ao final

333
dos extermínios, de fato os fios em sua cabeça davam
uma impressão de serem mais ígneos, carregados de
uma fúria e de uma ânsia purificadoras que se
espalhavam para o seu olhar, as chamas secando o
sangue.
- Trouxe para você, meu amor...- Pouco depois da saída
do cavaleiro-fiscal, enquanto o senhor feudal
permanecera ali, pensativo, recordando os exemplos de
seus falecidos pais, que o tinham instruído a ir todos os
dias sem falta à santa missa, tendo seu pai lhe ensinado
a brandir a espada como uma cruz capaz de cortar,
necessária para o martírio dos ignorantes, e sua mãe lhe
transmitido a essência e importância da oração, sem
conseguir entender por que ainda existiam pagãos,
sendo que poderiam ter tudo e viver na absoluta paz ao
abraçar a verdadeira fé, entrou sua encantadora mulher,
Melinda, em um largo vestido azul de mangas
compridas e gola alta e com um lenço branco em sua
cabeça, de peliça espessa, que encobria seus cachos
negros; em Westend as mulheres deixavam apenas os
rostos expostos e mesmo assim Malcolm temia a
imaginação luxuriosa dos servos quando os olhos destes
encontravam os esplendores celestes da face de sua
esposa.- Imaginei que estivesse com fome, e me parece
preocupado.- Viera com uma cesta com três maçãs; sua
voz era gentil e aveludada.
- Obrigado. Porém a sua companhia sempre será mais
doce do que qualquer outra coisa...- Formavam um belo
casal: de um lado o porte majestoso e o andar imponente
do marido; do outro o elegante recato de Melinda, com
passos e gestos delicados. Suas mãos, mesmo
encobertas por luvas, demonstravam agilidade e
requinte.- Aplaca a fome e alivia todas as preocupações.

334
- No que estava pensando?
- Nos absurdos e atrocidades do paganismo. E também
me lembrando dos meus pais: às vezes é como se a
minha mãe fosse aparecer a qualquer momento para me
dar seus conselhos e seu apoio. A guerra contra os
inimigos da fé com freqüência me desanima; acredito
que seja o Demônio me tentando a desistir para que ele
possa ter um terreno livre onde colocar suas sementes.
- Mas você não pode ceder. Tem que persistir, como
Cristo nos quarenta dias no deserto...Ou Moisés fugido
do Egito. E mesmo que a sua mãe não esteja mais entre
nós, sabe que o observa do Paraíso com orgulho.
- E você está aqui...Sempre abnegada e com as palavras
certas. Peço desculpas por nem sempre lhe dar o devido
valor.
- O que importa é o valor que temos aos olhos de Deus.
Isso já me satisfaz.
- Agradeço, minha cara...- Sem se levantar, recebeu as
maçãs e levou a primeira à boca, seguindo-se uma
dentada firme, a esposa parecendo observar a
mastigação lenta: uma aparente esperança de
movimento em uma realidade na qual o estático
superava as expectativas.
O interior de Melinda, contudo, era dinâmico, com
olhos sutis o bastante para retalhar qualquer fruta em
fatias pequenas sem um grande esforço; quando o
marido a via sair de cena de costas para ele, se sentia
protegido e tranqüilo, certo de que a dominava, de que
não havia nada que pudesse surpreendê-lo. Mesmo
estando atrás dela, não era Malcolm que a protegia e
nem o contrário; tratava-se de uma sensação segura e
afável, de uma presença sem carícias ou hesitações.

335
Na cidade de Warcester, que fazia parte do feudo de
Westend, onde o sol começava a se pôr, um homem
com aparência de mendigo andava de um lado para o
outro, observando as carruagens que passavam e fitado
com ojeriza pelos pedestres bem-vestidos e perfumados,
as mulheres em sua maioria se abanando com leques e
trajando vestidos compridos, decotados os das solteiras,
em rosa, branco e verde-claro, adornados com longas
fitas ou palatinas que às vezes se arrastavam pelo chão,
os homens com gibões e coletes sobre as camisas e
túnicas, conquanto ninguém entre eles ou elas tivesse
tomado mais banhos durante a semana do que o sujeito
maltrapilho, que parecia gostar de cavalos e ter pena
destes animais, tanto que se jogou na frente de um
coche:
- Ei! Saia daí, seu velho nojento!- Gritou a burguesa do
alto da carruagem descoberta, de estofo rosa, uma
mulher gorda e de meia-idade que devia ser esposa de
algum comerciante.- Ou vou ordenar que o cocheiro
continue em frente! Gente da sua laia tem mais utilidade
debaixo da terra. Se quer comer, por que não trabalha
em vez de ficar pedindo pros outros? Vagabundo!
- Se você honrasse o crucifixo que leva no seu colo,
pensaria de outra forma.
- Quer dizer que você fala! Por que então não cultiva
um pouco de modos? Não deveria atrapalhar o caminho
das pessoas que trabalharam para conseguir o que têm e
muito menos tratar uma dama casada por “você”...
- Esse tipo de tratamento vai fazer algum diferença no
dia do Juízo? Você não é nada; ainda paga tributos para
o senhor feudal. E mesmo que tivesse títulos eu não
pensaria diferente, pois de qualquer forma nunca teria
trabalhado: teria herdado; e o seu marido que trabalhou.

336
- Cocheiro! Passe por cima desse miserável.- E as
pessoas em volta, algumas das quais já haviam
acompanhado “espetáculos” semelhantes, se afastaram
rapidamente; o mendigo parecia bêbedo, usava andrajos
marrons e cinzentos, sua barba chegava ao centro do
peito, os cabelos passavam do meio das costas, brancos,
e seus olhos denunciavam uma ebriedade revoltosa.
No entanto, os cavalos se negaram a seguir adiante,
relinchando e erguendo as cabeças e os cascos quando a
ordem foi para avançar.
- Não estão obedecendo, senhora!- O cocheiro era um
homem jovem, mas de aparência apagada, cabelos que
lembravam palha e a tez esquálida, sem o menor
entusiasmo por nada. Talvez por isso tivesse sido
escolhido...Teria passado sem titubear pelo indigente, se
não fosse pelos animais.
- Isso é ridículo! Devem estar com nojo também...Por
causa do mal-cheiro. Desvie então...- Os cavalos
continuaram a se recusar em ir adiante.
- Quando voltar pra casa, vai se lembrar que nunca foi
nada...- E após dizer isso o mendigo correu para um
beco, deixando-a desta vez assustada, sem forças para
qualquer tipo de resposta, receosa que pudesse ter
encontrado um demônio...Ou um feiticeiro.
Naquele canto marginal, sem ser visto por ninguém,
tocou uma parede com a palma da mão esquerda e esta
se abriu, revelando uma passagem com uma escadaria.
Desceu por esta na mesma velocidade alucinante, sem
ofegar ou aparentar o mínimo sinal de cansaço. A
escuridão e odores fétidos, passando por ratos mortos
em alguns degraus, não o incomodavam minimamente,
chegando a uma porta de madeira rústica onde havia um
homenzinho estranho, de pele marrom muito enrugada,

337
lembrando uma casca de árvore, o nariz curvo com duas
verrugas uma ao lado da outra, olhos parecendo
fechados de tão puxados, uma expressão sorridente e
usando um chapéu vermelho e camisa, calça e botas
amarelas. Na mão direita, uma machadinha. Falou com
uma voz rouca:
- Diga a senha...Sendo homem, precisa dizer a senha
dos homens permitidos.
- A lua é a deusa que não se deixa devorar pelo lobo.-
Respondeu o sujeito sujo e barbado.
- Parabéns. Pode passar.- A criatura tirou seu chapéu,
revelando um único fio de cabelo, colocou a arma em
um bolso e abriu a porta. Logo na entrada, um caldeirão
vazio; e do lado de dentro, enquanto o homenzinho, que
na verdade era um elemental da terra materializado pela
magia das moradoras daquele lugar, continuaria do lado
de fora, a porta se revelava de madeira polida e estava
encimada por um disco lunar da mais pura prata.
- O que veio fazer aqui?- Das sombras emergiu uma
donzela de palidez deslumbrante, os longos cabelos
pretos caídos pelos ombros, olhos mutantes (ora
castanhos, ora verdes, ora azuis), nariz arrebitado e
lábios grossos, vestindo botas e uma túnica justa e sem
mangas, os seios cobertos, que valorizava suas curvas
(um tipo de peça impensável ao ar aberto em qualquer
lugar de Westend), toda de negro. O homem, entretanto,
não pareceu nem um pouco interessado em suas formas
nem cativado por sua beleza fria, visto que ela não
sorria; tinha vindo tratar de “negócios”:
- Pandora! Vim para falar com você e as suas irmãs.
Onde estão Cibele e Friga?
- Pode falar só comigo. Não precisa incomodá-las,
depois passo o recado. O que você quer?

338
- Sempre tão distante e direta! Seria bom que elas
estivessem aqui para que pudessem me ouvir sem
reducionismos e distorções.
- Está dizendo que não posso entender e repetir o que
você diz?
- Não é nada disso. Apenas é natural do ser humano
transformar as informações de acordo com sua bagagem
e personalidade. Pelo seu modo de ser e agir, talvez
fosse sucinta mais do que o necessário, mesmo
compreendendo tudo perfeitamente. Estou sendo
sincero, não se ofenda...
- Quanta grosseria, Pandora! Vamos oferecer um chá ao
cavalheiro.- De súbito, outra figura feminina emergiu da
escuridão: desta vez uma mulher madura, com aparência
e calor de mãe, rechonchuda, os cabelos castanhos
cacheados, pele bronzeada, olhar ameno sem tanta cor e
um sorriso receptivo no rosto, trajada como uma dona
de casa.
- Que bom que veio, Cibele...
- Está aliviado, não é, meu querido?
- Com esse falatório todo, já me acordaram! O que você
quer, moleque?- Por fim Friga despontara, acendendo as
tochas em volta com o sopro de sua ira (havia dez, não
muito fortes): uma velha encurvada, de semblante
decrépito, rugas quase em todos os poros da face,
apenas dois dentes na boca e um hálito apesar de tudo
que era uma fragrância de flor de laranjeira, pupilas
pretas como seu vestido longo de mangas compridas e
seu chapéu, os cabelos brancos e ressecados.- Como
sempre mal-educado.
- Não sou um bruxo polido, vim do povo e não
pretendo me refinar. Agora que estou aqui, posso
despejar a merda. Vim falar sobre Melinda...

339
- A traidora...Veio nos aborrecer com isso??- Ante a
mal-humorada Friga, as chamas nas tochas às vezes
cresciam e davam a impressão que iriam explodir e
incendiar o lugar; Pandora fitava com atenção; Cibele
estava disposta a escutar e a falar, sorridente. Aquelas
eram as três irmãs-mestras da seita de Hécate, uma das
grandes inimigas de Malcolm, espalhada por toda a
Inglaterra porém cuja sede ficava em Warcester, não
irmãs de sangue originalmente, mas que ao serem
consagradas como tais cortavam seus pulsos no ritual
decisivo e colocavam um sobre o outro alternadamente,
deixando o sangue escorrer e se misturar; o sangramento
parava na hora certa. Pandora, Cibele e Friga também
não eram seus nomes verdadeiros, e sim títulos, sendo
que estavam destinadas a morrer na mesma data, em um
dia 13 de Agosto, após 40 anos de atuação em que a
donzela não envelheceria, a mulher madura
permaneceria com a mesma aparência e a velha não
morreria antes, a menos é claro que alguma fosse
assassinada, o que não era nada fácil pelos poderes que
possuíam. Escolhidas sempre uma jovem-prodígio, uma
bruxa experiente e outra com mais de setenta anos,
quando acontecia de uma morrer antes pelas mãos de
algum inimigo (eram imunes a doenças e
envenenamento, seus corpos possuindo uma
extraordinária capacidade de cura uma vez iniciadas), as
outras tinham que escolher rapidamente uma nova irmã
ou voltariam a ser seres humanos vulneráveis e o tempo
de duração de suas vidas seria cortado pela metade,
dependendo de quanto já tivessem vivido, sendo pior
para a novata; por isso precisavam zelar muito uma pela
outra. Uma Ordem feminina, as hecatéias não
precisavam ser castas, nem mesmo as irmãs-mestras,

340
mas não podiam revelar a homens profanos suas
atividades e identidades místicas, fazendo o possível
para mantê-los afastados da magia a menos que não
houvesse como esconder isso, e então o acesso teria que
ser restrito sob comum acordo. Era o que ocorria no
caso de interação com bruxos, como com Belanus, o
conhecido líder da seita de Cernunnos, o mesmo que
parecia apenas um mendigo.
- O grupo de Melinda é mais perigoso do que
imaginávamos. Está caindo nas mesmas tentações dos
cristãos: quer ser o único. Uma vez que Malcolm tiver
varrido todos os pagãos “visíveis”, ela planeja assumir o
controle e estender seu domínio para o resto da
Inglaterra. Mas claro, só vai se livrar dele depois que
tiverem um filho ou uma filha. De preferência os
dois...Que a ajudariam, como dois pólos messiânicos, a
cativar os que na seita são hostis a ela.
- Seu idiota! Como aquele empolado ridículo poderia
conseguir fazer algo contra nós além de eliminar uma
ou outra novata, ou jogar na fogueira imbecis que não
têm nada que ver, e mesmo assim caem em armadilhas
tolas? Ele não pode conosco.
- Melinda e os dela vão auxiliá-lo magicamente, até que
mate a todos nós, sem que ele perceba. Tempestades
desabando sobre a gente enquanto nos perseguem,
resultando da “ira divina”; guerreiros mais fortes do que
o normal; e assim por diante...
- Isso é ridículo. Ela não pode ser tão poderosa.
- Eles estão conjurando demônios.
- Está querendo sugerir que reles demônios tenham
mais poder do que a Deusa?
- Eu não sei. Só sei que temos que combatê-los.
- E o que você sugere, querido?- Inquiriu Cibele.

341
- Sir Malcolm precisaria ficar fora da influência de
Melinda; ou morrer, o que seria bem mais simples. Não
acho que resistiria aos encantos de Pandora...
- Não gosto de homens...São imundos.- A donzela
retrucou com aspereza.
- Não deveria falar sem antes experimentar...- Cibele
sorriu sem malícia aparente.
- Não precisa gostar dele. Basta atraí-lo...E depois,
quando estiver na sua teia, poderá matá-lo.
- E acredita que Melinda irá deixar isso acontecer?
Acho melhor enviarmos nossos elementais contra os
demônios deles.- Disse Friga.
- Não duvide de mim, irmã. Eu posso fazer
isso...Mesmo sendo algo desagradável.- Pandora deu
mostras de seu orgulho; Belanus sorria pela primeira
vez, mas ao olhar severo da jovem parou.
- Não seja orgulhosa...
- Não se trata de orgulho. Apenas sei do que sou capaz.
- Dessa forma vocês não perderão nenhum elemental.
E, quando Malcolm estiver morto, ela terá que nos
enfrentar diretamente, e nessas circunstâncias o combate
será de magia contra magia, sem cavaleiros imantados.
Eles ainda não têm filhos e as ambições e divergências
dentro da própria seita que ela criou, além das
desconfianças que vão resultar do fracasso, não
permitirão que dure como líder do grupo ou como
senhora do feudo, os rivais internos tendo perdido o
respeito e o temor. Isso acontecendo adeus coesão do
grupo, visto que a desgraçada sem credibilidade
perderia a liderança efetiva, deixaria de ser o eixo, o
único ponto de apoio, e os outros se digladiariam entre
si depois de acabar com ela, abrindo caminho para a
nossa reação.- Explicou Belanus.- Melinda sabe que

342
precisaria de mais tempo para disciplinar as feras à sua
volta, e ainda não estaria pronta se o cristãozinho
morresse agora.
- Um antro de demônios humanos! É o que me parece
essa gente “de berço” à qual aquela desgraçada se uniu.
Nem precisariam convocar os seres do abismo...Já são
seres do abismo.- E Friga cuspiu no chão.
- Não vamos mais perder tempo. Faremos os
preparativos hoje à noite e amanhã será o grande dia,
esteja ele onde estiver.- Havia um respeito e até uma
admiração mútuas entre a velha e Pandora, detestada no
íntimo por Cibele, que invejava o apreço que Friga
nutria pela jovem apesar de exteriormente lhe preparar
sopas, chás e sorrir o tempo todo, como se fosse uma
irmã caçula querida. Contudo, a “irmã” do meio, que já
abortara dois filhos, um de um cavaleiro e outro de um
comerciante, odiava muito mais Melinda, que um dia
lhe roubara a vida que desejara, como esposa de um
homem rico (e a rival conseguira o senhor do feudo!
Claro que nisso a ascendência familiar também tivera
um papel fundamental...Mais um motivo para abominá-
la: a outra nascera em “berço de ouro”). Melinda fora
cotada para ser a donzela antes da Pandora atual;
entrementes, traíra a seita e fundara outra, mista de
homens e mulheres, entre os magos e bruxas que
conhecera no castelo de Westend.
- De qualquer forma teremos que ser rápidos. Seduza-o
e mate-o logo, antes que ela ou algum lacaio encontrem
você.- Quanto a Belanus, apesar de ser o líder dos
seguidores de Cernunnos, seita-irmã da de Hécate,
exclusivamente masculina, não era o mago mais
poderoso de sua Ordem, em verdade sir Bruce Aleister,
que somente não gostava de funções de liderança,

343
preferindo agir sempre nas sombras. Só pediria ajuda a
este em último caso.
- Não tenho medo dela.
- Essa não é a questão. Melinda não pode encontrar o
marido vivo! Ou, mesmo que você a mate depois, não
pense que vai sair ilesa, e até sir Malcolm pode matar
uma bruxa fraca e desencadear uma perseguição ainda
mais violenta a nós, com os “herdeiros” da maldita
agindo nos bastidores.
- Acha que vamos deixar a nossa irmã sozinha?-
Indagou Friga.
- Eu não sei. Sou pela precaução. A confiança consola
os ingênuos.
- Hm...Homens...- Pandora se afastou de maneira
desdenhosa.
À noite, quando o homem se foi, as três se retiraram
daquele lugar e puderam abrir uma porta para um
aposento maior, onde havia um círculo mágico com um
pentagrama em seu centro traçado no chão; no leste e no
oeste, duas estátuas de uma jovem de vestido curto,
idênticas a não ser pelo fato de uma usar arco e flecha e
a outra segurar tochas, ambas ladeadas por imagens de
cervos. No sul, uma escultura que parecia viva, de uma
mulher madura e maltrapilha com os olhos
esbugalhados e os cabelos sem a menor disciplina,
portando um diadema brilhante e uma tocha em cada
mão; seus olhos, dois rubis, resplendiam nas trevas. No
norte, uma estátua de três cabeças: cavalo, lobo e cão.
Em frente a esta Cibele veio trazer as oferendas da
noite:
- Para ti, mãe Hécate...Nos te veneramos e
conjuramos.- Havia muitas frutas, entre maçãs, pêras,
uvas e ameixas, em uma cesta de vime. A bruxa de

344
meia-idade, que tinha uma chave pendurada em seu
pescoço, a depositou ali; Friga tinha um chicote em
mãos e Pandora um punhal com bainha de ouro, na qual
estava representado um lobo. Andavam descalças, as
palmas das mãos e solas dos pés tingidas com hena.
- Nós a chamamos, rainha do mundo dos
espíritos...Megera dos mortos...- A velha fez o látego
estalar com força.
- Peço que venhas, mais amável das deusas! Tu que
trazes a luz e iluminas nosso caminho nas trevas.-
Pandora desembainhou o punhal.- Tu que dás e tiras a
vida, cuidas das crianças e zelas pelos mortos. Sabes
que não existem escolhas certas ou erradas, apenas
escolhas, que são o que constitui a vida. Qualquer
experiência é sagrada e valiosa; todas as vivências
acrescentam a nós sabedoria. Os desafios e obstáculos,
por sua vez, servem para que possamos dar nossos
saltos de fé, sem medo do desconhecido, apenas cientes
que sabemos pouco; a culpa e a censura a nada levam;
olhar em frente e amar o que passou.- Às palavras da
donzela, ouviu-se um ladrar de cães; a moça caminhou
até um altar, onde havia uma bandeja de prata com
carnes cruas de boi e cordeiro. Colocou-a diante da
estátua tricéfala e pouco depois se manifestaram três
cães fantasmas, um mastim, um pastor e um doberman,
que pararam de latir e rosnar quando viram os bifes à
disposição. Comeram e, quando estiveram fartos, sem
que as bruxas demonstrassem a menor surpresa, uma
mão enrugada e macilenta surgiu no ar, no centro do
pentagrama.
Cada uma delas já fizera muitos rituais. Pandora tinha
vívida a recordação do marcante ritual da lua nova, que
fora sua iniciação quando tinha apenas seis anos e ainda

345
se chamava Alícia. Ao ar livre, entre as árvores de um
bosque, cenário no qual costumava se sentir bem melhor
do que nos rituais fechados, recebera sua maçã junto
com outras iniciantes da Friga de então: com as outras
meninas, formaram um círculo em volta do caldeirão
central e enrolaram suas maçãs em panos pretos. Juntas
repetiram as palavras da velha após tocar por cinco
vezes o caldeirão com seus punhais consagrados (o que
usava no presente o mesmo de sua primeira iniciação),
pedindo proteção e bênçãos à deusa, para que ela
erguesse o véu e a pudessem saudar e reconhecer,
requisitando a presença dos ajudantes espirituais e
amigos de outras vidas, apenas os que desejassem o bem
penetrando no recinto sagrado. Após alguns segundos
de silêncio, desenrolaram as maçãs e as ergueram em
oferenda, depositando-as no altar de pedra reservado
para tais ocasiões; então ali cada uma tivera sua vez de
cortar sua fruta transversalmente com sua lâmina,
contemplando os pentagramas revelados no miolo de
cada fruta e colocando as duas metades no caldeirão.
Uma vez que todas as maçãs foram postas, a Friga
acendera o fogo embaixo e, após colocar certas poções
até ali fechadas em frascos e misturar algumas ervas
mantidas em saquinhos, tivera início a cozedura, ao
término da qual comeram e beberam seu resultado sem
se preocuparem de quem fora a fruta que comiam, já
que as novas iniciadas estavam irmanadas e deviam
confiar umas nas outras. Melinda, que na época tinha
seus dez anos e já fora iniciada, recebera Alicia com um
abraço terno antes da meditação coletiva.
- Desvendar o caminho em espiral...Esta é a nossa
meta.- Disse Cibele, entregando as chaves à mão que se
materializara.- Somos mortais e imortais a um só

346
tempo.- E uma presença espiritual que lembrava a
estátua com olhos de rubi se materializou inteira,
fazendo com que as três bruxas se ajoelhassem.
- Pedimos, ó Hécate, para que protejas nossa irmã e a
ocultes dos olhos da inimiga e de seus aliados. Para que
ela não encontre empecilhos para executar nossos
planos pelo bem do feudo e de nossa fé.- Friga pediu à
figura muda e séria, que media mais de dois metros de
altura e aterrorizaria qualquer incauto que ali entrasse de
forma repentina.
- Irei atender vosso pedido.- Falou com uma voz grave
e altissonante; os cachorros lamberam suas mãos, puxou
o ar fundo e emitiu um grito estridente antes de
atravessar as paredes e sair correndo pela noite, seguida
pelos canídeos. Pandora foi envolvida por uma aura
verde-pálida que depois se tornou azul e em sua testa
despontou por alguns segundos uma pequena esfera
negra, que logo desapareceu. Sentiu-se mais plena e
forte do que antes.
Meditaram por alguns minutos para na seqüência
encerrarem o ritual; Friga não conseguia se livrar de um
certo pesar, não sabendo ainda se odiar ou sentir pena
de Melinda, que seria atingida pela fúria de Hécate.
Lembrou-se de como a antiga aprendiz tinha gosto por
preparar o incenso da deusa: usando um almofariz e um
pilão, amassava um pouco de cardo, louro e menta com
afinco e um amor vívido até quase reduzi-los a pó,
depois agitando resinas de mirra e olíbano, adicionando
os óleos de cânfora e cipreste e misturando tudo;
guardava a mescla numa jarra bem tampada e coberta e
a deixava ali por duas semanas ou mais, antes de
queimá-la num bloco de carvão em brasa durante uma

347
lua cheia. “Os incensos de Melinda eram os melhores!”,
ainda assim não podia se conformar com a traição.
Enquanto isso, era noite também no castelo de
Westend e Malcolm adormecera após uma esplêndida
noite de amor com sua esposa; não acordaria tão cedo e
ela sabia disso e pôde se levantar sem preocupações,
saindo para o corredor e chegando à cozinha, onde
pronunciou algumas palavras incompreensíveis numa
língua desconhecida em frente a um armário e uma
passagem se abriu; esta se fechou ao pronunciar as
mesmas palavras do outro lado, seguindo, e ali podia
exibir seus cabelos livremente, por uma galeria sombria
até uma porta entreaberta de onde saía uma luz;
contudo, esta, pesada demais, não se abriria sem as
palavras corretas, ditas desta vez em inglês:
- Sua sacerdotisa está aqui, a que o ama acima de todas
as coisas visíveis e invisíveis.- E o peso se foi e pôde
entrar.
Do lado de dentro, cinco indivíduos vestidos de preto e
azul, com máscaras e capuzes nos rostos, dispunham-se
em círculo em volta de uma estátua negra com rosto de
cão, chifres de veado e um imenso falo, uma mão
apontando para baixo e a outra cerrada; traçado no chão,
um símbolo formado por dois círculos concêntricos que
continham duas asas entrelaçadas.
- Estávamos esperando por você.- Adiantou-se um
homem baixo com uma criança morta em seus braços;
Melinda, como a coordenadora do grupo, era a única
que deixava o rosto descoberto. Pegou o pequeno
cadáver e principiou a cantar, saindo de seus lábios uma
melodia tétrica e infantil, manifestando-se então ao lado
da escultura, que media seus dois metros de altura, uma
criatura de maxilares escancarados e dentes que

348
lembravam facas toscas, sem fio, alternados sem
harmonia. As carnes do bebê principiaram a ser
sugadas, ficando apenas os ossos; das tochas escassas
que pouco iluminavam o local caíram pingos de fogo
líquido, gerando uma poça incandescente a partir da
qual despontou um homem alado de pele vermelha,
olhos dourados e porte majestoso, que falou à bruxa:
- Fizeram bem em me evocar hoje.- Não possuía
expressão humana, com uma seriedade cúpida.- As suas
antigas irmãs tramam contra você; e conseqüentemente
contra os outros que estão aqui.- Que usavam máscaras
de cães, os três homens, ou de ofídios, as duas
mulheres.- As três líderes da seita de Hécate, que você
conhece tão bem, são nossas inimigas mortais.
- Imaginei que cedo ou tarde iriam agir. São terríveis e
vingativas.- Tinha em mente a Cibele mais do que as
outras.- O que planejam?
- A Pandora vai tentar seduzir o seu marido amanhã,
esteja onde ele estiver.
- Não irá conseguir.
- Sem a minha ajuda, você é que não conseguiria
protegê-lo. Criaram uma barreira em volta da jovem que
impediria seu acesso aos dois, e ela teria o caminho
livre para seduzi-lo e matá-lo; você não teria poder para
quebrar essa proteção, e nem mesmo demônios menores
ou seres elementais. Sua sorte é que sou um barão de
Lúcifer e Naemah, e minha função é de ir e vir, trazendo
abundância de coisas rapidamente; percorro a Terra
num piscar de olhos e posso trazer coisas perdidas e
ocultas. Nada se esconde da minha vista: ela e Malcolm
ficariam invisíveis e nunca poderiam ser encontrados
por você; mas eu posso encontrá-los.
- Fará isso por mim, meu senhor?

349
- Mas é claro. Hécate não pode restringir as minhas
ações.
- Rendo todas as graças, senhor Seir...- E aproximou-se
e beijou o demônio na boca; os outros oficiantes
puderam retirar suas máscaras e teve início a orgia, sem
distinção entre homens, mulheres e criaturas do Inferno,
muitas das quais começaram a se materializar: alguns
dos servos de Seir, em sua maioria íncubos e súcubos de
baixa categoria, sem que Malcolm jamais fosse sequer
desconfiar de nada, acreditavam. E na manhã seguinte
uma caçada estava programada...

O sir das terras de Westend saiu com alguns homens


de confiança para pegar alguns coelhos ou quem sabe
até animais maiores, o que propiciaria um belo jantar.
Ao avistar um que lhe pareceu mais gordo e sadio do
que os que costumava encontrar, esqueceu-se no entanto
que estava acompanhado e decidiu seguir sozinho com
sua besta e sua espada embainhada, seu cavalo veloz o
bastante para logo se distanciar dos companheiros. Nada
de coelho contudo em uma área de mata fechada e
escura. O que viu sair de uma moita foi uma bela
donzela de preto com um olhar hesitante; parecia
assustada. Ficou imóvel observando-a enquanto ela se
aproximava, cativado, tendo a impressão que se fosse se
mover a jovem desapareceria; se aparição ou mulher de
carne e osso, ainda não tinha certeza.
- Olá. Por acaso a senhorita se perdeu na floresta?-
Indagou, por alguns instantes sua esposa sendo apagada
de sua memória; o desejo começava a subir por suas
pernas, e de uma forma muito mais poderosa e selvagem
do que lhe ocorrera em outras ocasiões.
- Não sou daqui...Me deixaram. Estou com medo...

350
- Quem a largou aqui? Acho que posso ajudar.- E
desmontou do animal.
- Tudo correndo como o planejado. Ele está perdido.-
Comentou Friga, observando a cena a alguns metros
dali, junto com Cibele, por meio de uma bola de cristal.-
Homens são tão volúveis...
Ao se aproximar da jovem, que era Pandora, o frêmito
sexual começou a se transformar numa sensação cada
vez mais fria que o paralisou; o gelo cresceu sob os seus
pés e foi petrificando seu quadril; não pôde mais andar:
da terra emergiram garras de madeira, mais do que
galhos, que foram subindo e envolvendo suas partes
baixas.
- Sinto muito, sir Malcolm...Desta vez a sua presa não
era indefesa.- Disse a moça.
- Uma bruxa! Maldição!- Tentou pegar suas armas, mas
suas mãos tremiam quando se esforçava para
movimentá-las, sem nenhum sucesso.
- Se tivesse simplesmente nos respeitado, e permanecido
fora de questões que não pode compreender, nada teria
acontecido. A sua teimosia e a sua ignorância o
prejudicaram.- O rosto da donzela, tão belo, se tornou
duro e terrível; uma coruja preta pousou sobre uma
árvore: os olhos do pássaro transmitiam as imagens para
a esfera de cristal fitada pelas duas irmãs. Malcolm
perdeu os sentidos e teria lhe acontecido o pior se um
fogo não tivesse surgido queimando a relva e chegando
às garras que o envolviam, incinerando-as; um corpo e
braços rápidos passaram e capturaram o sir de Westend;
e, para ainda maior susto das bruxas, labaredas
envolveram o artefato mágico que as ajudava a ver, o
esquentaram em excesso e o explodiram.

351
- Não! Não é possível...Quem é esse?? Como pode ter
burlado Hécate?!- A velha saiu de si.
Cibele percebeu que a proteção astral fora destruída e
inúmeros elementais queimados vivos; um círculo de
chamas escuras envolvia a área onde estava Pandora, e
não sabia o que sentir com isso. A jovem bruxa se
surpreendeu, mas tentou não demonstrar medo diante da
aparição de Seir. “Deve se tratar de um dos demônios
que aquele homem mencionou. Como pôde quebrar a
magia de Hécate?”, esse era seu maior motivo de
preocupação.
- Vamos ajudar!- Uma nuvem escura auxiliou Friga a
levitar em velocidade, porém não conseguiu ultrapassar
a barreira criada pelo demônio, cujas chamas geraram
também uma cúpula que parecia de vidro aquecido e
que impedia a descida de quem vinha do alto. Todos os
esforços para quebrá-la com seus encantos foram em
vão.- Filho da puta! Como pode ter tanto poder??
Na terra, Cibele, que foi andando com calma e buscava
analisar a situação, tentou provocar alguns tremores;
mas os elementais ou se recusavam a aparecer ou
fugiam no início.
- Não tenho nada contra você; nem mesmo a conheço.
Mas não me dirijo contra pessoas, e sim contra
objetivos: os seus são opostos aos meus.- Seir, com
Malcolm às suas costas, emanou sua energia ígnea
contra Pandora, que, demonstrando sua destreza mágica,
criou um campo de força apenas com sua própria
vontade, sem depender de recursos externos; o demônio
sentiu uma pressão quando ela se concentrou para
agredi-lo, regulando seu medo e tentando superar o
calor, o suor espesso nas mãos e um pouco mais sutil no
resto do corpo, que a jovem buscava esfriar.- Não

352
adianta. Só pode adiar o seu fim.- De um espelho no
espaço de culto de seu grupo, agora sozinha, Melinda
acompanhava o enfrentamento, impressionada com a
força de Pandora: “È bom mesmo que essa vadia morra
logo. É muito mais perigosa do que as outras duas...”, a
coruja negra caíra morta e fora consumida pelo fogo,
que se alastrava por toda aquela área, agredindo as
árvores, mantendo os animais e seres humanos afastados
(os que tinham ido com Malcolm preocupados com o
brusco incêndio, porém sem poder interferir), apenas o
demônio e o lorde daquelas terras incólumes e a jovem
feiticeira prestes a cair, ao passo que as outras duas não
conseguiam penetrar no espaço da luta e eram afetadas
pelas forças em conflito; Cibele quase desmaiara por
duas vezes.
“O que mais teme além de si mesma? É capaz de fitar
o seu próprio fracasso?”, a mão de Seir roçou com os
dedos no rosto de Pandora, que foi ficando cada vez
mais pálida e sentindo um frio crescente até desabar,
quando as chamas em volta e a barreira mágica
desapareceram junto com o ente infernal e o esposo de
Melinda. A bruxa de meia-idade, apesar de sua
rivalidade com a jovem, chorou: por seu próprio
orgulho ferido diante da onipotência do inimigo e, pior
ainda, da inimiga. Friga, no chão, rolando enraivecida
sobre a relva, deixou suas lágrimas saírem com ódio e
tristeza, arranhando a terra como se seus dedos fossem
garras e começando a gritar. Um corvo surgiu,
crocitando; quando os homens nas proximidades
começaram a procurar por seu senhor, que só seria
achado misteriosamente algumas horas depois na cama
de sua residência, Belanus, que permanecera oculto, se
limitando a observar, envolveu as duas feiticeiras com

353
um véu criado por sua magia e as transportou para seu
covil, apavorado e ao mesmo tempo fascinado.
“Teremos que recorrer a Bruce, não há alternativas.”,
enquanto no castelo de Westend, quando o senhor
feudal foi encontrado por algumas servas, e Melinda
tendo demonstrado antes toda sua falsa preocupação
com as notícias que seu amo desaparecera, os demais
servidores da corte e alguns cavaleiros se adunaram em
torno do leito, tendo chamado um sacerdote para
acordá-lo, visto que não despertava.
- Estou muito apreensiva, padre. Quando ele vai voltar
a si? E o que terá acontecido?- Inquiriu a nobre esposa...
- Foi estranho. Sir Malcolm se distanciou do grupo,
deve ter visto algum animal mais forte e resolveu ir
sozinho, isso é bem do feitio dele. Porém nunca antes
teve problemas com bestas, nem mesmo com javalis.
Quando fomos procurá-lo, a floresta ficou estranha:
sentíamos um ar pesado e um incêndio se alastrou em
algumas partes dela, desaparecendo tão repentinamente
quanto surgira.- Relatou um homem que usava um
toucado de ferro e um calção de couro.
- Há alguns ferimentos que parecem ser de garras.
Ainda duvidam que não foi um animal que fez isso?-
Indagou o velho sacerdote.- Pelo que me descreveram,
só dois tipos de criaturas seriam capazes de causar tanta
desgraça: bruxas e demônios.
- Padre, desse jeito o senhor me assusta!- Exclamou
Melinda.
- Sinto muito, minha senhora...Mas é a verdade. De
qualquer forma, temos que render graças aos Céus e ao
Cristo por ele estar vivo. Não faço a menor idéia de
como tenha escapado!

354
- Um anjo do Senhor deve ter ajudado; é a única
explicação plausível. Pois não vimos nenhum cruzado
na região.- Disse um outro cavaleiro que participara da
caçada.
- Ele pode ter agido de forma rápida, quase
imperceptível. Cruzados são quase anjos...Por isso não
tema por seu marido, senhora.- Dirigiu-se à esposa de
Malcolm.
- Às vezes eles me parecem aterrorizantes. Quer dizer,
pelo menos o que vi uma vez me pareceu. Só vi um até
hoje...- Opinou uma servente.
- A face de Deus também pode parecer terrível. Não
devemos ser ignorantes. É que de alguma forma eles
têm que intimidar, impor respeito e uma postura firme,
ou os demônios e os magos não os temeriam. Já convivi
com alguns e de perto são pessoas afáveis, que se
limitam a levar suas missões muito a sério.- Prosseguiu
o padre, quando Malcolm acordou: “Ah...Estou na
minha cama. Mas o que aconteceu? O que é toda essa
gente?”
- Querido! Até que enfim recuperou a consciência.-
Melinda abriu um sorriso brando e, quando seu marido
levantou o tronco, envolveu-o com seus braços para
depois beijá-lo na face. Carinhos tranqüilos e ternos,
que o deixaram mais calmo por alguns segundos, porém
logo a apreensão e as indagações voltaram diante
daquele pequeno aglomerado. O padre, para sua
surpresa, foi o que lhe inspirou mais agonia: de onde
esperava que viriam a tranqüilidade, um alento divino e
um hálito de fé, sentiu um bafo fétido de enxofre e seu
peito ardeu. O que estava acontecendo? Pôs-se a orar
mentalmente com um certo desespero; sem camisa, a
parte inferior do corpo com um calção, mas coberta por

355
lençóis, olhou para os braços e ficou se perguntando o
porquê do sangue nos curativos. Não se lembrava de
nada do que ocorrera.
- Sir Malcolm, estamos aliviados!- Pronunciou-se um
de seus homens.- Como se sente?
- Quase como se não devesse ter um corpo...Muito
dolorido. Só o abraço de Melinda trouxe algum alívio
para as minhas dores.- Retorquiu o senhor feudal.
- O que aconteceu, sir? Estávamos levantando algumas
hipóteses...Agora poderemos ouvir os fatos.
- Acredito que não. Pois não me recordo de nada do
que aconteceu...De como fiquei assim. As últimas
lembranças que tenho dizem respeito a um coelho que
resolvi seguir. Depois foi como se tivesse levado uma
pancada na cabeça...Que está doendo até agora.
- Foi ajudado por Deus, meu senhor. Ao que tudo
indica, tratou-se do ataque de um demônio.
- Ocorreu um inexplicável e violento incêndio em
determinadas partes da floresta enquanto estava
desaparecido.- O sacerdotes interveio.
- Por Deus...Agora as peças se encaixam. Não consigo
me lembrar, mas posso compreender por que me sinto
mal diante de vossa reverendíssima.
- O que está sentindo, meu filho?
- Nesse momento uma dor de cabeça insistente...E o
peito arde e ouço vozes desconexas. Insultam o
crucifixo...Blasfemam...Pronunciam nomes horríveis.
- Não há mais dúvidas! Foi um ataque de demônios.
Um cruzado ou um anjo deve tê-lo ajudado.
- Só pode ser...É a única explicação para o fato de eu
estar vivo. Rendo graças a Deus e ao meu salvador
anônimo.

356
- Se fosse um cruzado, já teria aparecido. Ou não?-
Inquiriu Melinda.
- Não necessariamente. Pode ser um tipo discreto, que
após o trabalho preferiu se retirar, sendo um benfeitor
anônimo, o que é mais nobre aos olhos do Criador do
que os que buscam a glória. Como entrou aqui não
sabemos, mas muitos deles possuem poderes
misteriosos.- Disse o prelado.
- Agora acho que sir Malcolm precisa de recolhimento,
repousou e oração.- Sugeriu um dos cavaleiros.- É
melhor irmos e deixá-lo apenas com sua esposa e com o
reverendo.- E retiraram-se.
- Como estão as dores, vozes e incômodos?- Indagou o
padre, após alguns momentos de silêncio.
- Melhorando um pouco, graças à mão de Melinda.- À
medida que a mulher acariciava seu rosto e seus
cabelos, os males iam sendo amenizados.
- Tem uma consorte de mão santa! Um toque
abençoado!
- Não apenas a mão...Que vossa reverendíssima não
tenha dúvidas disso.- E beijou a mão da esposa, que
sorriu com ternura, e o sacerdote também se sentiu feliz
e satisfeito, certo de que os poderes de Deus sempre
triunfariam pelo amor. Inclusive ele, em sua juventude,
pudera sentir os prazerosos toques e carícias, além de
palavras aveludadas. O pecaminoso se achava em outros
olhos...

A residência de Belanus, onde Friga despertou, era um


aposento simples e estreito, de paredes desgastadas,
onde o bruxo estendera dois tapetes, um para que ele
mesmo dormisse e outro para a Cibele, enquanto a velha
ficaria em sua cama, no canto do quarto. A janela,

357
pequena, deixava entrar o discreto vento da noite; e ele
continuava acordado.
Pouco antes de voltar ao estado de vigília, a mais idosa
das feiticeiras sonhara com Pandora em correntes,
chorando como nunca a vira em vida e circundada por
labaredas agressivas; tentara salvá-la, lançando-se em
seu auxílio, porém só então notara um círculo mágico
ígneo que envolvia a jovem e a separava de sua
mentora, além disso retirando seus poderes e seu ânimo:
ao tentar entrar na área do cativeiro mágico, sua pele
enrugada ardia como se ferros em brasa estivessem
sendo colocados sobre esta e sentia toda a velhice de
uma mulher comum, tendo perdido o apoio da magia,
desabando com seus ossos fracos e suas juntas
doloridas, sua coluna como se estivesse despedaçada;
mal conseguia ficar de pé. De repente, entre as chamas,
em meio à agonia da que era praticamente sua filha,
manifestava-se o rosto do demônio e ao lado deste o
sorriso triunfante de Melinda, que segurava a cabeça de
sir Malcolm, cujo sangue pingava no chão e evaporava
com o calor, deixando letras vermelhas no piso. Ao
tentar lê-las, despertara.
- Traidora; maldita traidora!- Reabrira os olhos
queimando em ódio.
- O que é pior? Ser salva por um homem ou traída por
uma filha?- Indagou Belanus.
- Não me venha com provocações.
- A outra irmã ainda não acordou. Foi um fracasso;
subestimamos os demônios de Melinda. Uma Pandora
podia derrotar outra, mas não vencer aquele monstro.
- Aquela idiota vai pagar muito caro. Criaturas do
gênero não devem se submeter por muito tempo a seres
humanos.

358
- Um ajuda o outro por interesses em comum. Mas não
dá pra errar de novo: Melinda não vai parar até que as
nossas almas também sejam do demônio. Então os dois
vão ter o que queriam desde o início: ela se livra de nós,
e o demônio fica conosco; escravos para a eternidade.
- Nenhum sofrimento é eterno. Isso é coisa dos cristãos.
- Mas e o sofrimento que está sentindo agora? Não
parece eterno?
- Melhor calar a boca, Belanus. Acorde a idiota da
Cibele.
Alguns dias se passaram para que as duas bruxas
pudessem recuperar a saúde e rumar junto com o
feiticeiro para o castelo de Bruce Aleister. Outras
integrantes da Ordem de Hécate ficaram intrigadas com
o desaparecimento das três líderes, porém Friga enviara
uma carta por meio de uma coruja, explicando o trágico
fim da jovem e que uma nova Pandora só seria
escolhida no regresso de ambas, afinal para a
sobrevivência do grupo não havia tempo para rituais e
seleções demoradas, tendo que a ação ser rápida contra
a traidora que renegara a Deusa. Se Melinda era tão
poderosa assim? Não. Mas as forças que estavam com
ela precisavam de toda a atenção ou sobrepujariam a
pequena fé das aprendizes e novatas.
- Esse castelo foi construído apenas com a força de
vontade de Bruce e irá desaparecer quando ele morrer.-
Explicou Belanus; parecia desabitado: em volta, uma
floresta morta, de árvores secas, sem nenhum animal ou
ser humano, que angustiava Cibele e amedrontava
Friga.
A construção era de planta irregular, em cantaria de
granito e alvenaria argamassada, apresentando uma
divisão demarcada em dois níveis, o primeiro acessível

359
através da entrada principal, onde se encontravam duas
estátuas de dragões com olhos de diamantes que nunca
tinham sido roubados, num espaço no qual as muralhas
mostravam dez torres altas circulares, cinco
eqüidistantes a oeste e cinco ao leste. Após
atravessarem a porta de traição, subirem alguns degraus
e passarem por mais outra, entraram no segundo nível,
uma zona interior mais elevada onde se erguia a torre de
menagem, estrutura de três pisos com outra imagem de
dragão acima da janela. A comunicação entre as
diferentes partes do castelo podia se dar por várias
passagens de cantaria, seus muros coroados por merlões
e seteiras, afora escadarias que proporcionavam o
acesso ao adarve.
- Não entendo...Uma fortaleza guerreira para um bruxo.
Qual o sentido?- Inquiriu Cibele.
- Não se esqueçam que sir Bruce também é um senhor
de terras. A diferença é que não possui mais vassalos
vivos. Todos morreram em guerra. Mas ele não precisa
deles...
- Acho que entendi...- A bruxa de meia-idade meneou a
cabeça de cima para baixo bem devagar e com uma
expressão receosa.
- Bruce enfrentou muitas batalhas em sua juventude.
Contra bárbaros, contra outros senhores feudais
ambiciosos...E contra demônios.
- E posso saber como conseguiu vencê-los? Cernunnos
não é superior a Hécate.- Friga resmungou.
- Com a ajuda de outros demônios...- Os olhos de
Belanus faiscaram e as duas não disseram mais nada até
as portas seguintes serem abertas por servos invisíveis.
A neblina e o céu encoberto tornavam o ambiente ainda
mais fantasmagórico e lúgubre do que já era.

360
- Quando você disse que esse castelo foi construído
com a força de vontade do seu amigo...Como foi isso?-
A curiosidade de Cibele, por sua vez, irritava a velha,
que preferia ficar em silêncio ao caminhar por
corredores repletos de seres que olhos comuns não
enxergariam e que mesmo a desatenta de meia-idade
não via, porém que ela percebia com clareza: alguns
tranqüilos, outros hostis, entre espíritos humanos e de
pássaros, cães e felinos, criaturas serpentiformes, olhos
que despontavam nas paredes e gnomos de semblantes
carrancudos.
- Primeiro destruiu o castelo que existia aqui antes, que
na opinião dele não iria resistir nem a um ataque de um
grupo de brutos, e ergueu este levitando blocos e
trabalhando as pedras com a ajuda dos elementais e ouvi
dizer que de um demônio enorme, que erguia os pesos
maiores com facilidade.
- Estórias e estórias...Quero ver se tudo isso é verdade!
O que não entendo é como, por mais incrível que esse
sujeito seja, você e os outros filhos de Cernunnos
permitem que ele continue como membro; pode se
tornar um inimigo muito pior do que Melinda!-
Esbravejou a velha.
- Não, querida Friga. Bruce inclusive pouco participa
das nossas reuniões. É mais um membro de honra; e
muito do que consegue obter ele nos dá. Não tem
ambições mundanas; não quer criar e impor uma nova
seita; não acha que está certo e o mundo errado.
Simplesmente vive pela magia e para a magia. Não
pensa em outra coisa. O interesse dele está no
conhecimento puro, não no poder. Não no pequeno
poder...
- Ainda não estou certa do que devo fazer.

361
- Se não pedirmos, ele não vai nos ajudar. E os cultos a
Hécate e Cernunnos irão sucumbir.
- Não estamos subestimando os nossos deuses?-
Questionou Cibele.
- Cheguei à conclusão que os nossos não são deuses da
força. São deuses da natureza...Que, ao contrário dos
demônios, flui, não esmaga. Não que sejam fracos...Mas
não vivem pra guerra.
A bruxa de meia-idade olhou para a velha, que não
parou mais de resmungar consigo mesma, em voz baixa,
até chegarem às portas dos aposentos de sir Bruce
Aleister. Belanus bateu com força, usando a argola em
uma das aldrabas, e, ao invés da entrada fechada se
abrir, foram transportados para dentro magicamente,
aparecendo diante do temível bruxo.
- Seja bem-vindo, meu amigo Belanus. Vejo que trouxe
duas visitas para dividir um bom vinho conosco. Por
que não trouxe a Pandora, da qual tanto me falou? Mas
está bem; se essas duas tiverem uma conversa
agradável, já me darei por satisfeito.- Ao fundo, um
trono desocupado com retoques em ouro e um estofo
verde-claro, as paredes escuras, o ambiente
escassamente iluminado por algumas tochas, com o
mago que parecia estar trabalhando no corpo estendido
na maca à sua frente, um cadáver de rosto túrgido e
convulsionado, que exalava um odor desagradável e
com uma nódoa castanha no canto da boca, o que
embrulhou o estômago de Cibele; a outra bruxa
resmungou. Ao lado uma taça de madeira com vinho
branco, e Aleister exibia um sorriso maníaco carregado
de desdém e luxúria: surpreendia pela juventude,
aparentando estar na faixa dos trinta, com cabelos
castanhos ondulados, estatura mediana, físico regular,

362
olhos escuros de olheiras fundas, a pele lisa e
amorenada, quase sem barba, vestindo túnica, capa,
calça e sapatos azul-escuros e com um amuleto que
continha o desenho de um pentagrama de um lado e de
um hexagrama do outro pendurado em seu pescoço; no
dedo médio de sua mão direita, um anel de ouro com
um selo repleto de flechas distorcidas.
- Agora não é hora para troças, sir Bruce. Viemos em
busca de ajuda.
- E a Pandora está morta. Os seus desejos imundos
nunca serão saciados! Apesar que eu devia esperar
mesmo isso de homens, um comentando coisas sujas
com o outro...- Despejou Friga.
- Meu amigo Belanus nunca falou nada de mais, a
luxúria é toda minha, não generalize por favor!- Falou
Aleister.- E por que desejar estar em contato com uma
bela mulher, aquecer seu corpo e lhe fazer carinho, seria
algo sujo? Não seja puritana, minha senhora...Está até
parecendo cristã!
- Não me ofenda ou poderá pagar caro...
- Não era a minha intenção, grande Friga! Não imagina
o respeito que tenho pela Ordem de Hécate. Mas são
vocês que vieram interromper a operação que estava
fazendo em um dos meus servos e eu que deveria
portanto estar descontente.- De seu anel saiu um feixe
dourado que abriu o peito do cadáver com mais força e
precisão do que qualquer lâmina seria capaz.
- Um servo? Mas como assim? É o corpo de um
morto...Você usa zumbis?- Indagou Cibele,
impressionada; foi quando aquele corpanzil fétido urrou
de dor e ameaçou se levantar. A bruxa de meia-idade
gritou, enquanto Friga meneou a cabeça para os lados e

363
Belanus permaneceu imóvel. Cordas de luz saíram do
anel do bruxo e prenderam a criatura.
- Acho que isso responde a sua questão. Ele é dos que
me trazem comida, caçando e colhendo nas florestas
distantes, já que aqui não há muito disponível.- O
morto-vivo aos poucos parou de gritar e foi se
acalmando, até tornar a “adormecer”.
- Desculpe-nos a interrupção, sir Bruce. Vamos
explicar a nossa situação...- E expuseram em detalhes a
questão de Melinda, as perseguições de Malcolm e as
conseqüências nefastas que todos esses problemas
poderiam provocar e fazer crescer no ferido e
maltratado paganismo inglês.
- Compreendo. Acho que teremos que chamar um
amigo meu para lidar com Seir. Assim não teremos que
sujar as mãos, exatamente como Melinda fez com
Pandora.
- Vai chamar um maldito e imundo demônio...-
Resmungou Friga.
- Deveria ter mais respeito, senhora! E se ele nos ouvir?
Muito cuidado...Comigo não fará nada, mas vocês
devem mostrar o máximo de respeito.
A velha proferiu alguns palavrões e sir Bruce sorriu,
levando-os, quando terminou de trabalhar seu zumbi,
para um amplo salão alto, no centro do qual havia um
pentagrama invertido, que lembrava a cabeça de um
bode, traçado no chão em uma tinta vermelha brilhante,
que criava a luz daquele ambiente sem necessidade de
tochas ou lâmpadas a óleo, podendo ficar mais ou
menos intensa de acordo com a vontade do magista.
- Foi traçado graças a este anel, que pode riscar a
madeira e qualquer tipo de pedra como o diamante risca
o vidro. O que acham?

364
- Presente de algum demônio?- Friga indagou num tom
zombeteiro e raivoso.
- Não, não! Esse é mérito meu...Não veio do Céu nem
do Inferno, mas do meu vulcão interno, da forjaria do
deus coxo mas sábio que vive dentro de mim!-
Enquanto Cibele começava a achá-lo simpático, a velha
bruxa ficava cada vez mais irritada, em certos aspectos
invejando aquele sujeito.
- Quem vamos evocar?- Inquiriu Belanus.
- Asmodeus.- A resposta direta de Aleister veio
acompanhada de uma seriedade que até ali não
manifestara; Friga sentiu a mudança, tentando ocultar
um certo temor.- E algo será necessário, terão que fazer
um sacrifício.
- Que tipo de sacrifício?- Indagou a velha, desconfiada.
- Um intercurso sexual.- O bruxo voltou a sorrir.-
Acharam que seria fácil?- E levou um tapa da senhora
das feiticeiras de Hécate.- Calma, minha senhora! Em
nenhum momento lhe faltei com o respeito...-
Continuou a falar, com Cibele boquiaberta.- Não disse
que precisaria ser entre nós...- E ao estalar dos dedos
dois mortos vivos entraram no quarto, um homem e uma
mulher, pálidos e mal-cheirosos, pregando um susto na
bruxa de meia-idade e inspirando mais asco em sua
irmã; Belanus sabia não haver outra escolha, e recuou.-
Vamos para dentro do pentagrama...- E, depois que os
quatro entraram, com o anel foi traçado um círculo
mágico em luz rubra, com inúmeras inscrições e
símbolos menores surgindo; os zumbis ficaram do lado
de fora, e eram certamente corpos que tinham
pertencido a dois belos jovens, ainda com os traços
delicados à mostra, loiros os cabelos dela, castanhos os
dele, altos e esbeltos.- Fechem os olhos e se concentrem

365
na nossa proteção. Sintam-se unos com o círculo...-
Ficou sério e foi o único a permanecer de olhos abertos;
o casal de mortos-vivos começou a se abraçar e a trocar
carícias, ainda de pé. Teve início a evocação em voz
alta:- Asmodeus, príncipe do Inferno, senhor de mais de
setenta legiões! Evoco sua presença diante de meus
olhos e de meu espírito, para que venha em meu auxílio
em nome do acordo que temos.- E pronunciou outros
nomes do demônio e repetiu o chamado em latim,
grego, hebraico e persa; por incrível que pudesse
parecer, o fogo da paixão incendiou os dois corpos
apodrecidos e, embora não pudessem mais gerar uma
nova vida, os zumbis consumaram sua união. Uma
fumaça fedorenta principiou a pairar no ar e a pele e os
ossos dos dois foram então derretendo, até que se
tornassem uma única lama orgânica a se espalhar pelo
piso. Cibele teve vontade de vomitar com aquele cheiro,
e não ousaria abrir os olhos, mas se segurou; Friga
cuspiu no chão e levantou discretamente as
sobrancelhas; Belanus rezava para que Cernunnos o
protegesse.- Podem abrir os olhos.- Quando o oficiante
deu essa permissão, a poça gosmenta evaporara,
portanto nada mais de zumbis, e o fedor ficara ainda
mais forte, com Asmodeus se materializando daquela
névoa diante dos quatro: passava dos três metros de
altura, o corpo musculoso predominantemente negro
com partes incandescentes, como os olhos em brasa,
dois chifres curvos voltados para a frente, dois para os
lados e um para trás, bípede e ereto, os braços cruzados
com mãos de rocha maciça.
- O que deseja, Aleister? Ainda não cumpriu a sua parte
no nosso acordo e insiste em me chamar?

366
- Peço perdão pela ousadia, mas desta vez são três
amigos meus que precisam de seus poderes.
- E por que eu ajudaria esses vermes?- O demônio
aproximou a face pesada, de dentes afiados, nariz
grosseiro e grandes orelhas com brincos espinhosos
dependurados; Friga teve vontade de responder, porém
sentiu um forte calafrio e não teve coragem. Cibele
tremia; Belanus abaixou a cabeça.- O que ganho com
isso?
- Demonstrará a eles sua força, e com isso ganhará
novos súditos. Não é o bastante? Além disso, poderá se
divertir humilhando um dos subordinados de Naemah.
Sabe o que Seir andou fazendo? Ajudando a criar uma
seita própria, como se ele a merecesse mais do que
vossa alteza!
- Soube de algo por rumores. Seir é um barão e tem
todo o direito de fazer o que quiser com os homens, mas
de fato não poderia ter criado um culto sem a
autorização expressa dos príncipes. Se tem a intenção de
estender seu poder pela Terra sem o nosso aval, tendo
comunicado isso apenas a Naemah, me encarregarei de
puni-lo.
- E a bruxa que está com ele se tornou sua amante; e é
bela e atraente.
- Não são todas as mulheres que me interessam. Você
disse que poderia encontrar a alma de Sarah.
- Vossa alteza terá que ser paciente.
- Espero que não esteja me enganando.
- Não ousaria, alteza! Estou trabalhando em silêncio,
sem alardes.
- Está bem. Quer que destrua essa seita? De qualquer
forma, posso mesmo me divertir enquanto não me reúno

367
com Sarah...Que o maldito Rafael não me atrapalhe
desta vez.
- Não irá, meu senhor. Ele não virá em socorro de uma
devassa...E sua diversão será dupla: colocar um
subordinado em seu devido lugar e ter a carne de uma
bela mulher.
- De acordo. E eles serão meus novos súditos...-
Encarou os outros três.
- Feito, alteza.- Aleister selou o pacto e o demônio
desapareceu após um tufão obscuro. A velha feiticeira
tentara fazer objeções, mas sua língua travara; a de
meia-idade ficara com os braços dormentes; Belanus ia
dizer algo, porém faltara coragem.- Está feito...- O
bruxo falou quando o ambiente ficou mais claro e
estático.- Podem sair do pentagrama.
- Seu miserável! Fez um pacto por nós! O que quer
dizer isso de sermos súditos dele?!- Inquiriu Friga.-
Você vendeu as nossas almas?
- Se vocês não oferecessem algo, ele os mataria na
mesma hora. Então eu ofereci por vocês, já que não
tinham nada a dar.
- Deveria ter nos consultado!
- E o que teriam dado a ele?- Silêncio. Bruce
prosseguiu:- Não se preocupem. Ele irá ajudá-los...- Seu
sorriso sinistro silenciou ainda mais os outros três,
Cibele apavorada, Belanus imóvel e a idosa feiticeira
levantando a cabeça para o alto e olhando para o nada,
seus olhos em prece de desculpas para Hécate. “Perdão
por escutar os homens, mas fiz isso pela Senhora...”

Em mais um ritual proibido, Melinda preparara uma


comemoração com seus companheiros de culto pela
iminente destruição da seita de Hécate. Uma taça de

368
ouro contendo sangue de meninas fora passada de mão
em mão para chegar à sacerdotisa-mestra, que antes de
levá-la aos lábios respirou fundo, de olhos cerrados, e
sentiu o êxtase que tinha início acariciando sua pele,
Seir muito próximo de se manifestar. Sua boca
principiou a palpitar, ansiosa pelos beijos lúbricos, em
sua língua um negrume trêmulo paralelo ao que se dava
em seus dedos entregues à força; seria capaz de rasgar a
teia mais cortante e desferir um olhar brutal contra a
morte, percebendo em si uma qualidade de desafio que
não deixava nada a dever ao seu venerado amante. Com
caprichos e risos internos, na beleza da aceitação de seu
vigor, sentia orgulho por não pertencer a uma categoria
a seu ver ilusória: a dos seres santos e justos, que no fim
das contas tinham sempre que agir de forma enérgica
para dobrar o que classificavam como “trevas”. O que
eram os cruzados? De nenhum modo seres puros. O
cálice às vezes assumia a forma de um athame letal,
com o qual poderia cortar a garganta ou os pulsos do
companheiro ao lado sem o menor remorso; não era
muito melhor e mais sincero viver assim? No espelho de
luz metálica, via-se sem pele, o líquido escarlate
correndo livre pelas veias nuas, compreendendo pela
dança no corpo as qualidades da matéria, que deixava
fluir o tocar dos tambores dos antigos e a encenação de
uma peça banhada por uma substância fluida, doce e
abrasadora. Onde estava o pecado? Bebeu o sangue.
Contudo, depois de atirar o cálice ao fogo e pronunciar
a evocação, Seir não apareceu. Sequer um sinal mínimo
de sua presença. Tanto as chamas do ritual como as
tochas triviais se apagaram; nas sombras, uma fumaça
cinzenta e grosseira. Seus companheiros gritaram e ou
foram fincados na parede ou despencaram no chão ao

369
terem seus corpos perfurados por lanças sem nenhuma
explicação lógica para terem surgido. As mulheres
tiveram seus ânus e seios atravessados com violência,
enquanto aos homens o pior ocorrera para suas cabeças
e corações. As armas também estavam banhadas em um
veneno, que pingava de suas pontas e impedia qualquer
possibilidade de sobrevivência.
- Quem é você? Chamei por Seir...- Melinda, a única
que fora poupada, balbuciou diante do monstro,
aparentemente desarmado.
- Odeio cheiro de peixe...E um deles comeu peixe hoje.
O cheiro tinha impregnado seu corpo inteiro e fui
forçado a puni-lo por isso. Quanto ao outro, não devia
andar com um sujeito que tem cheiro de peixe...
- Não me respondeu quem é.
- Não devo respostas a uma vadia como você. As que
me agradam são as virgens...Gosto de tornar frios os
corações delas. O seu já é gélido.
- Diga-me, demônio...Onde está Seir?
- Sou Asmodeus. Superior a Seir...- E derrubou a
feiticeira, inclinando-se sobre ela e pronto para o ato; as
roupas se rasgaram sozinhas e a mulher ficou nua e
boquiaberta.
- Se veio me ajudar em lugar do outro, eu serei sua.-
Rasgou o ar com um tom de voz lancinante.
- Este não é o lugar apropriado...- A névoa os envolveu
e cobriu o cenário; quando as brumas se retiraram,
estava diante do leito do senhor feudal.
- Mas o que pensa que está fazendo??- Tentou falar o
mais baixo possível, apesar da indignação e do medo...
Um clarão invadiu o quarto e Malcolm acordou de
maneira brusca, como se o sol tivesse entrado para cegá-
lo, enquanto o príncipe infernal mudava de forma,

370
assumindo a aparência de um dos homens de confiança
do senhor de Westend. Uma voz idêntica à de Melinda
saiu dos lábios de Asmodeus, enquanto a verdadeira não
conseguia abrir os seus:
- Saia daqui, Robert! Malcolm acordou! Ele não pode
desconfiar de nada!
- Mas eu amo você!
- Eu também o amo, só que agora não é hora nem
lugar! Como teve coragem de vir?!- O diálogo todo
criado pelo demônio, ao passo que o senhor feudal ainda
tinha a visão ofuscada, porém escutara com perfeição:
quando passou a enxergar com nitidez, seu mundo veio
abaixo ao flagrar sua esposa nua num abraço no chão
com um de seus cavaleiros.
- Mas o que está acontecendo aqui?!- Esbravejou; seus
lábios ficaram trêmulos. Melinda estava com a boca e os
olhos escancarados, assim como “Robert”. Sua língua
continuava travada; ao tentar falar, nenhum som
inteligível saía.
- Merda!- O falso homem correu, deixando a mulher
desamparada em sua vergonha. E de nada adiantaria
evocar sua magia: todos os seus poderes haviam sido
retirados por Asmodeus, assim com sua força física
também fora reduzida; sentia-se exausta, como se
tivesse percorrido quilômetros em velocidade, quase
com cãibra nas pernas.
- Como vocês tiveram coragem...E dessa maneira!
Tentando fazer coisas sujas em meu próprio quarto, só
faltando subirem na minha própria cama enquanto eu,
um completo idiota, descansava exaurido pelos meus
deveres! Nunca esperei isso de você, Melinda...E com
tão pouca inteligência! E Robert...Como foram tão
descuidados?? A tentação foi grande demais...Isso os

371
excitava, não é? Os demônios alimentavam seus
prazeres...- E saiu da cama caminhando lentamente na
direção da esposa, seu semblante bestializado e mais
vermelho do que nunca; sangue e fogo não dançavam,
se agrediam; quando Melinda ameaçou correr, ainda
sem conseguir falar, segurou-a com força pelo pulso.-
Sua traidora imunda...- Espremeu com tamanha
intensidade o pulso que logo o quebrou; com um grito
de dor, ela recuperou a voz...Porém não sabia o que
dizer. E conseguiria? De pronto as mãos dele
alcançaram seu pescoço.- Não tem como se justificar,
não é? Eu ouvi bem o que você disse a ele...E você sabe
disso. Disse que o amava e que eu não podia
desconfiar...- O ar começou a faltar para a mulher, um
frio tremendo tomou conta de seu corpo e viu, atrás do
marido enlouquecido pela traição, a Pandora morta por
Seir, que a encarava com seriedade e frieza, trajando um
manto negro que se fundia à escuridão da noite.
- Mas o que está acontecendo??- Quando alguns
homens chegaram, era tarde demais para a senhora de
Westend, cujos braços já pendiam frios, sem vida; o
verdadeiro Robert estava entre aqueles homens. Não
demorou para sir Malcolm, tendo largado o corpo da
esposa, arrancar uma espada da bainha de outro
cavaleiro e, para a perplexidade dos presentes, decapitar
o “traidor”. Tiveram que segurá-lo para que a matança
não se estendesse, pois o senhor daquelas terras parecia
ter perdido a razão por completo:- Vou matar todos
vocês...São todos traidores! Traidores vis, que se
excitam com os jogos dos demônios! Não vou mais
ficar neste antro de monstros pervertidos!- E, ao olhar
para o cadáver da mulher, sentiu ao mesmo tempo ódio
sangrento e fogo sexual...

372
Belanus e as duas feiticeiras realizavam um ritual de
proteção unindo Hécate e Cernunnos na sede da seita da
deusa, fazendo borbulhar o caldeirão, tendo sacrificado
um cervo e usado ervas e o sangue do animal para traçar
um círculo em volta dos três que os protegeria de
Asmodeus. As forças da natureza estavam sendo
chamadas: o elemental materializado que costumava
ficar do lado de fora viera para dentro, a porta fora
trancada e estava sendo guardada por outros espíritos,
que na aparência lembravam troncos de árvores, dotados
de braços possantes e garras afiadas nas mãos e nos pés,
que podiam escalar paredes e se fixar onde quisessem;
pedras trazidas pelo bruxo possuíam pinturas que
representavam um deus vermelho cujos chifres se
transformava em cobras, e algumas serpentes de fato se
manifestaram em volta do trio a partir do sangue;
tambores tocavam aparentemente sozinhos, sob a batuta
de seres invisíveis; ratos passavam e cães-fantasmas
latiam; plantas trepadeiras tomavam conta das paredes e
flores rubras desabrochavam; um sapo saía da água
borbulhante do caldeirão para pular no chão,
respeitando os limites do círculo, do qual não se
retirava, senhor de dois elementos porém não do
mundo; lobas haviam descido às dezenas e uivavam do
lado de fora e a população comum que vagava pela
noite principiava a se assustar com aquela invasão, no
entanto atentas a um trabalho mais profundo do que
atacar transeuntes, suas gargantas se afunilando em
direção à lua; mesmo um urso e um leão apareceram na
praça central; espectros de morcegos e escorpiões se
reuniram em volta da poção que as bruxas preparariam,

373
o que teve início quando uma fumaça negra explodiu do
caldeirão:
- Rendemos graças a Hécate e Cernunnos, que nos
tornarão invulneráveis à magia das trevas!- Friga
invocou as potências para o seu trabalho.- Primeiro um
sarcófago impenetrável para os demônios...- Jogou
pedaços de casca de cipreste; na seqüência, deu a Cibele
e Belanus avelãs torradas, que comeram, e atirou as
cascas na água que fervia. Folhas e cascas de choupo,
cedro, teixo e salgueiro foram outros ingredientes
utilizados.
- Nem que tenhamos que parecer mortas,
permaneceremos vivas.- Pronunciou Cibele.
- Mesmo que sejamos forçadas a desaparecer do
mundo, não desapareceremos para nós mesmas.- Menta,
cardamomo, alguns dentes de alho, espinhos e sementes
de mirra, flores de lavanda, folhas de tomilho e óleo de
artemísia foram adicionados à receita, enquanto
passavam a comer amêndoas; por fim, pequenos frutos
de beladona. Quando beberam cada um uma xícara do
preparado, suas pupilas começaram a se dilatar, abrindo
não só a visão física como principalmente a espiritual; o
fio das restrições e da separação entre os planos fora
estendido e cortado. A garganta de Friga ficou seca, e de
forma agressiva, Cibele tentava controlar sua
taquicardia e o bruxo enxergou o deus cornífero diante
de seus olhos, sentado de pernas cruzadas, cercado por
espíritos de animais. Não resistiu e se ajoelhou diante da
presença imponente, cujo rosto lembrava o de um touro.
- Vamos render graças ao deus e à nossa deusa, que
concedem as melhores pescas e fazem crescer os
rebanhos de bois e as tropas de cabras e ovelhas, que

374
retiram a cortina escura para a multividente aurora...- A
velha feiticeira conseguiu falar com esforço.
Contudo, aquele Cernunnos se revelou uma farsa:
sorriu com cinismo e se ergueu; antes de revelar sua
verdadeira forma, já provocara pavor, ódio e desgosto
em Belanus: tratava-se de Asmodeus, que com um urro
sorridente dispersou os espíritos da natureza, ferindo
alguns, e rasgou a cabeça do bruxo, para na seqüência
seu braço se esticar até Cibele, arrancando-lhe as veias
do pescoço.
- Como pôde profanar o nosso ritual?! Como possui
tanto poder??- A garganta da mais idosa e única
sobrevivente ardia; o monstro riu e disparou, prensando-
a contra a parede com seu corpanzil, levando-a à morte
por esmagamento, cada um de seus ossos reduzido a
migalhas.
- São todas suas...- Aleister se materializou após um
clarão azulado.- Vossa alteza vai me agradecer pela
ajuda?
- Eu poderia ter feito isso sozinho. Não tenho nada o
que agradecer.
- Claro! Mas graças a mim tudo foi mais rápido.
Poderia ter levado algumas horas para penetrar neste
esconderijo.- Ao lado do mago, um pequeno exército de
seres elementais corrompidos ou escravizados, de
semblantes tortuosos, que haviam desmontado as
defesas astrais do trio.
- Tenho a eternidade à disposição. Se você quis ajudar,
o problema é seu.
- Como queira...- Sir Bruce sorriu com um sarcasmo
apimentado; as almas de Friga, Cibele e Belanus, três
pequenas chamas azuis, estavam na palma da mão
esquerda do demônio. Quando os dedos se fecharam,

375
aquelas essências desapareceram; na verdade, tinham
ido para dentro da criatura infernal. Aqueles eram
tempos amargos para muitos...Como para sir Malcolm,
que não longe dali abdicava de suas terras e posses para
entrar na Igreja. Estava certo de que fora visitado por
um anjo na noite da descoberta da traição de sua esposa,
o que explicaria a luz forte que o acordara, e dessa
forma não seria enganado anos a fio, graças ao bom
Deus, talvez criando um filho que não seria seu, e ao
mesmo tempo deduzira que os demônios o tinham
tentado e provocado sua fúria descabida, que levaria
outros homens à morte, além do traidor Robert, se seus
poucos fiéis amigos não o tivessem detido. Por isso
pensou em buscar outros meios e caminhos.
- Padre, o que mais quero é servir a Deus, auxiliando
esta humanidade corrompida, salvando ao menos alguns
da perdição e do abismo. Para isso estou disposto a
caçar hereges e demônios, também para agradecer ao
anjo que me revelou a verdade.- Desabafou com o
mesmo velho sacerdote que fora até ele após a fatídica
caçada.
- Melinda dissimulava com perfeição, e essa é uma das
características das mulheres. Um dia também estive no
mundo e compreendo o que está passando.
- Os últimos dias foram turbulentos. Os monstros do
Inferno rondaram a minha alma e como senhor de terras
minha atividade é por demais limitada. Sinto a
necessidade de fazer muito mais.
- Entregue-se a Deus, filho. Ou também temo por sua
alma, por tudo o que já me contou. Desta vez acredito
que a intervenção tenha sido certamente a de um
anjo...E quiçá na outra também. Mas não somos anjos.

376
O mais próximo que pode existir dos mensageiros
celestiais na Terra são os cruzados.
- O que preciso fazer para me tornar um deles?
- Talvez isso estivesse mesmo escrito por Deus para
você. Ainda que haja livre-arbítrio, costumo pensar se
para alguns indivíduos nosso Senhor não traça certos
planos duros, mas precisos, belos apesar das
dificuldades e medos. Quiçá seja seu destino se tornar
um caçador de demônios.
- O que mais poderia desejar?
- Vou falar com um amigo meu, chamado Tharien. E
logo lhe trarei uma resposta...- Após a vinda do padre
vermelho, os cabelos de Malcolm se tornariam ainda
mais rubros; ao encarar pela primeira vez aquele homem
calvo, de olhos alertas e gestos calmos, a impressão que
teve foi de um adeus abençoado e tenso, de um retiro
sangrento para os turbilhões do absurdo.

Passado – X

Nova Persépolis, construída sobre as ruínas da antiga,


situada a aproximadamente 70 km a nordeste de Shiraz,
primava sobre as cidades do oriente com seus palácios,
igrejas, jardins, colunas e estradas de pedras polidas,
seus portões guarnecidos por dois grandes leões de
mármore. Contava dois milhões de habitantes, portanto
um dos maiores centros urbanos do mundo, de comércio
próspero (nas moedas, efígies narcísicas dos últimos reis
sob diferentes ângulos e coroas) e vida citadina e
religiosa agitadas. Bem-protegida, era comum ver
cavaleiros armados com lanças, espadas de ferro e arcos
e escudos pequenos circulando pelas ruas, montados
sobre majestosos animais encouraçados, usando túnicas

377
e calças de feltro grosso ou couro e, sobre estas, cotas
de malha de mangas compridas cobertas por escamas de
metal, seus elmos de ferro com capuzes de malha. Os
civis do sexo masculino costumavam usar túnicas,
camisas, calças bufantes, sapatos pontiagudos e
turbantes, comum o uso de anéis e brincos entre os mais
ricos; as mulheres vestidos longos (as solteiras com a
permissão de ostentarem decotes), as nobres muitas
pulseiras e tiaras, calçando sandálias. Prevaleciam para
os dois sexos roupas coloridas e alegres e, nos meses de
frio, vestimentas de lã, calças mais grossas (que
colocavam por baixo de seus vestidos, sem exteriorizá-
las) e botas.
A célebre catedral, na praça do centro, por fora branca
e rosada, com um domo de 30 metros de diâmetro e 60
de altura, com quatro pilastras de calcário que
sustentavam o peso da alvenaria, possuía um interior
esplendoroso, amplos espaços embelezados por
tapeçarias e mosaicos dourados, colunas, paredes e chão
de mármore, pórfiro e marfim polido, os ofícios
realizados diante da abside, o clero se sentando em
fileiras de assentos banhados de prata. Durante o dia a
luz do sol entrava pelas janelas dispostas no domo,
enquanto à noite o ambiente brilhava graças à luz de
centenas lamparinas a óleo em candelabros requintados.
Em um grande ícone de ouro e prata, São Simeão, o
Estilita (epíteto derivado do grego stylo, isto é “pilar”,
por ter passado os últimos 36 anos de sua vida sobre
uma coluna de mais de 18 metros de altura),
particularmente apreciado pelos fiéis de Nova
Persépolis, aparecia sentado, colocando em prática seu
ascetismo, ignorando as tentações do Demônio, que se
manifestava como uma serpente enroscada; em um

378
mosaico em destaque, Constantino e Justiniano se
encontravam com os reis Shapur VII e IX, os quatro
com presentes simbólicos à Virgem Maria e ao menino
Jesus, os soberanos do Império do Oriente segurando
juntos a cidade de Constantinopla, ao passo que os
persas ofereciam Nova Persépolis, cuja construção
tivera início no reinado do primeiro e fora terminada por
seu filho; ao lado, um mosaico com a imperatriz
Ardach, grande divulgadora dos ensinamentos de Cristo,
notáveis os detalhes de madrepérolas e tesselas
coloridas usadas para marcar o contorno de seu rosto e
criar um halo e uma coroa com jóias; uma estátua
próxima ao altar mostrava Jonas sendo expelido pelo
monstro marinho para pregar a palavra de Deus,
simbolizando também o enterro e a ressurreição de
Jesus, havendo na base a inscrição: “Pois assim como
Jonas estava no ventre do Leviatã, da mesma forma o
Filho esteve no coração da terra.”, e em outros mosaicos
cenas diversas: a mão de Abraão detida antes que
sacrificasse seu filho Isaac; um jovem pastor com uma
ovelha em seus braços; Davi a tocar sua harpa para o
atormentado Saul; os três reis sábios levando ouro,
incenso e mirra e vestindo calças de estilo persa, túnicas
ricamente brocadas e mantos de veludo adornados com
jóias; os apóstolos encimados pelas quatro criaturas da
Revelação, o leão, o homem, a águia e o boi; Jesus com
raios solares emanando de sua auréola após matar um
touro com um punhal em forma de cruz, um escorpião
picando o corpanzil escuro da besta e uma serpente
bebendo seu sangue; as loas cantadas ao Senhor por
Sidrac, Misac e Abdênago enquanto as chamas às quais
haviam sido condenados, por terem se recusado a adorar
a estátua de ouro da Babilônia, flamejavam sem

379
queimar seus pés, estes mártires vestidos de acordo com
o Livro de Daniel, que os descrevia sendo atirados à
fornalha com suas túnicas, vestes e mantos. Sobre o
altar, peças preciosas como uma cruz incrustada de
gemas, pátenas douradas para servir as hóstias (com
Cristo aparecendo duplicado ao centro, servindo dois
grupos paralelos de seis discípulos cada), um cálice
retratando o Salvador com os braços abertos e um
evangelho com capa de ouro e prata, a cruz dourada
entre duas plantas a evocar a descrição da Árvore da
Vida, que se erguia no meio do Jardim, o arco que
enquadrava a cena representando a entrada para o
Paraíso. Em um tapete, o mítico Orfeu, que teria
prefigurado o Senhor ao desafiar a morte e encantar os
animais com a sua música; um centauro e um sátiro
domesticados simbolizavam o fim da bestialidade
ansiado por Cristo.
Outro ponto dos mais visitados e venerados era a
fachada do túmulo do grande Shapur VIII, onde os
tijolos criavam desenhos intricados, que haviam sido
compostos em seções e só colocados no lugar depois
que a estrutura principal ficara pronta. O mausoléu dos
soberanos estava próximo do palácio real, que lembrava
um zigurate, envolto por três cinturões de jardins e com
diversos minaretes. Em um busto de prata na entrada, a
figura estilizada de Shapur VIII, cabelos encaracolados,
olhos em escancaro, barba espessa e coroa redonda. Nos
pratos em que a realeza comia, as proezas de caça do rei
atual, Shapur XII, as figuras de cavalos, carneiros e cães
moldadas separadamente e depois soldadas e douradas,
utilizando-se um composto de enxofre preto brilhante
para destacar a espada do “magnânimo”. Comparado ao
seus antecessores, o presente monarca era um fanfarrão,

380
com fascínio pelo exagero e ansioso para exaltar seus
pequenos feitos como se fossem grandiosos. Algumas
ruínas da Persépolis antiga haviam sido preservadas,
como colunas de influência jônica e os restos do palácio
de Dario, do vestíbulo de audiências de Xerxes (com
seus relevos repletos de guardas ou de nobres se
encaminhando para um banquete, uma porta
demonstrando a vontade de Dario nomear Xerxes como
seu legítimo sucessor, rei e príncipe tendo nas mãos
folhas de palmeira), do hadish, residência deste último,
ao sul do vestíbulo, e do palácio das cem colunas, que
Shapur XII definia como mostras do fracasso do
paganismo.
Longe deste fausto e das pretensões dos nobres, que de
alguma forma tentavam o tempo todo preservar o dia, a
noite pousava em um dos bairros mais humildes da
cidade, dos poucos que não tinha um parque ou uma
área verde ampla, apenas uma praça com uma fonte,
repleto de becos e ruelas obscuras que depois do pôr do
sol ficavam perigosas de ser atravessadas, quando no
meio das tendas de comércio que começavam a encerrar
suas atividades pôde-se ver caminhando um sujeito
baixo, com seus cinqüenta anos, cabelos brancos
desarrumados escapando do gorro vermelho, nariz
pequeno e o rosto tímido, olhos azuis, um pouco
encurvado e claramente europeu, levando consigo, de
mãos dadas, um garoto persa que tinha a sua altura,
embora não devesse ter mais do que dez anos, a pele
bem escura como os cabelos lisos e os olhos profundos,
que não deixavam escapar nenhum detalhe do cenário
mesmo que não houvesse nada de tão interessante a ser
observado no momento. Carregavam alguns saquinhos
com vidraria de laboratório, um pelicano e crisóis, além

381
de uma balança, um almofariz e um pilão. O adulto
parecia apressado e desajeitado mesmo andando
devagar, enquanto o menino tinha elegância e altivez
ainda que praticamente em andrajos.
Refugiaram-se em uma casa sombria em um beco
escuro; ouviu-se o miado de um gato que fugiu; ao
entrarem, ainda mais escuridão em um recinto modesto
e mal-iluminado, livros empilhados no chão perto de
dois pequenos colchões, uma cadeira, um par de óculos
sobre um banquinho, uns quantos vasos destiladores,
cadinhos e outros vidros contendo diversas substâncias
devidamente rotuladas, e por fim a maior parte do pouco
espaço ocupada por uma fornalha auto-reguladora, que
continuava quente sem que fosse preciso cuidar dela
graças a brasas que se mantinham com um engenhoso
sistema de ventilação: o laboratório do alquimista e de
seu ajudante.
- Veja Saoshyant, você que tem o nome do futuro
Cristo dos persas...Está vendo isso?- Aquele era um
fugitivo de Flandres chamado von Helmont, que
escapara para bem longe da ganância do rei após ter
seus experimentos denunciados por invejosos, que
haviam espalhado boatos de que podia fabricar ouro e
prata como um homem comum é capaz de defecar. Ele
sempre deixava claro “ainda não, ainda não...”, e tivera
que fugir para não ser encarcerado como charlatão, pois
sabia que os resultados não viriam tão cedo àquela
altura, tendo se retirado para a distante Pérsia, onde
conhecera o menino. Saoshyant fora abandonado por
alguém nas ruas de Nova Persépolis e não se lembrava
de mais nada além de seu nome, havendo marcas de
violência física e sexual em seu corpo. Adotara-o e
conviviam havia dois anos, tornando-se o garoto um

382
auxiliar valioso e um aprendiz dedicado a despeito da
pouca idade.- Como me explica? Como pode a água
ficar vermelha pelo mero processo repetido de
destilações? Não é maravilhoso? Espero que
compreenda as propriedades do enxofre dos sábios...-
Gostava de mostrar os resultados de suas experiências, e
não só de explicá-las mecanicamente, tornando-as
atraentes para que o menino entendesse melhor.- Se eu
não conseguir a Pedra, algum dia você a conseguirá,
meu filho.- Tinha fé em seu “herdeiro”; mas escutar
certas leituras que o mestre fazia em voz alta para que o
pupilo as interpretasse depois era ainda penoso e
confuso, sobretudo quando Helmont resolvia fazer
comentários como se fosse tudo muito claro...- Após
encher o sapo com suco de uva até que o animal
estourasse, Ripley o deixou apodrecendo por oitenta e
quatro dias antes de ser grelhado em fogo suave até
verter veneno. Está claro o que ele quis dizer, não é?- O
garoto não podia dizer muito...Gostava dos livros
ilustrados, como o célebre Mutus Líber: o alquimista
tinha trazido uma caprichada e caprichosa cópia desta
obra e com esta as anotações que fizera alguns anos
antes; silencioso, Saoshyant a abria para fitar e estudar
as figuras, que diziam muito, e ler o que mestre
escrevera sobre cada lâmina. Se queria mesmo se tornar
um alquimista, teria que prestar bastante atenção:

“Primeira lâmina: O homem está adormecido na


natureza. Por mais que se encontre imerso nela, entre
pedras, árvores e folhas, não se dá conta disso, se
considerando um ser à parte, e o auxílio do alto (os
anjos) vem justamente para despertá-lo. A roseira com
muitos espinhos e somente duas flores representa um

383
caminho que proporcionará realizações, porém ao
mesmo tempo dificuldades, desafios, abrangendo toda a
existência, ficando de fora apenas as estrelas (dez) e a
lua, que talvez precisem de um esforço ainda maior para
serem conquistadas; solve et coagula; nada se perde,
nenhum aspecto deve ser negligenciado. A escada (com
onze degraus visíveis) é o caminho da ascensão
espiritual e também pode representar nossa própria
coluna vertebral, partindo da base (o chão), passando
por todos os centros psíquicos (os degraus) e tendo no
topo um anjo que nos encoraja a não desistir com sua
trombeta, que representa o chamado de Deus, que não
aceita a preguiça. O texto em latim diz: “O livro mudo,
no qual se encontra entretanto representada toda a
filosofia hermética em figuras simbólicas, por três vezes
consagrado ao ótimo e máximo Deus de misericórdia e
dedicado exclusivamente aos Filhos da Arte do Sol.”,
Altus o autor. As referências bíblicas foram extraídas do
Velho Testamento:
(Gênese 28:11) - E chegou a um lugar onde passou a
noite, porque já o sol era posto; e tomou uma das pedras
daquele lugar e a pôs por seu travesseiro, e deitou-se
naquele lugar.
(Gênese 28:12) - E sonhou: e eis uma escada posta na
terra, cujo topo tocava os céus; e eis que os anjos de
Deus subiam e desciam por ela.
(Gênese 27:28) - Assim, pois, te dê Deus do orvalho
dos céus, e das gorduras da terra, e abundância de trigo
e de mosto.
(Gênese 27:39) - Então respondeu Isaac, seu pai, e
disse-lhe: Eis que a tua habitação será nas gorduras da
terra e no orvalho dos altos céus.

384
(Deuteronômio 33:13) - E José disse: Bendita seja a
terra do Senhor, com o mais excelente dos céus, com o
orvalho e com o abismo que jaz abaixo.
(Deuteronômio 33:28) - Israel, pois, habitará só,
seguro, na terra da fonte de Jacó, na terra de grão e de
mosto; e os seus céus gotejarão orvalho.
Na figura que observo, as referências bíblicas se
encontram invertidas; provavelmente para dificultar o
entendimento do pesquisador, já que as informações
transmitidas são bastante claras. A matéria da obra
ficará ainda mais evidente adiante, porém está claro que
tais trechos do Gênese e do Deuteronômio demonstram
que as histórias contidas nestes livros não são meras
fábulas, podendo inclusive ser interpretados como
alegorias herméticas, que muitos “doutos” julgam ser
uma filosofia posterior. Não imaginam o quanto
desconhecem e continuarão ignorantes, presumindo que
tudo pode ser encontrado de mão beijada em livros para
crianças.

Segunda lâmina: (14/02/07) Aqui me parece haver um


destaque para a harmonização entre os pólos masculino
e feminino, o sol e a lua, que entram em harmonia
quando as emoções (o elemento água, representado por
Netuno no interior de uma gota segura por um anjo
masculino e outro feminino) não arrastam o indivíduo.
Embaixo temos um casal de alquimistas que, enquanto
acima tínhamos uma representação de aspectos
complementares do espírito, realizam a parte prática da
obra, com as cortinas atrás dizendo respeito a mistérios
que ainda não foram revelados. O sol faz referência às
radiações cósmicas que penetram em nossa matéria.

385
(16/03) No que diz respeito à parte prática da obra,
percebo que me precipitei em não relacioná-la também
ao que há acima, pois Netuno, deus do mar, deve
representar um fluido, um líquido, que seja combinar as
essências lunar e solar, as duas crianças também
contidas na gota. Não que a interpretação mística seja
inválida, mas ainda não era o bastante.
(30/04) Mais uma observação e esta lâmina me parece
ser uma referência ao conjunto da obra, o sol cercado de
nuvens como uma referência óbvia à umidade que se
encontra no ar, e basta pensar no cheiro de maresia que
encontramos no orvalho destilado. Os anjos,
observando-os com atenção, me parecem agora os
mesmos da primeira lâmina e a gota um balão de vidro
na verdade, fechado em sua parte superior pelo fogo. A
presença de Netuno no interior do vaso é uma clara
alusão à presença de uma substância aquosa no interior
deste, e tomando-se em consideração as referências
bíblicas anteriores já temos a chave do tipo de líquido
que se trata. Um dos anjos dá a impressão de observar o
leitor como se dissesse: “veja o que tenho aqui”,
enquanto o outro parece olhar como que a perguntar:
“Entendeu?”. O piso onde os anjos estão é diferente
daquele onde o casal se encontra e observa-se entre as
duas partes da figura uma indicação que os anjos e o
casal alquímico estão em mundos ou estados diferentes,
os dois humanos de joelhos em respeito a Deus. O vaso
antes nas mãos dos anjos se encontra aqui no interior do
forno (Henricus, o lento, mencionado por Filaleto), que
é pequeno, como a chama de uma vela, talvez para
sugerir que o fogo empregado deve ser brando, e a via
portanto apresentada aqui é a úmida. As cortinas,

386
observando melhor, podem querer dizer que o mistério
já foi revelado e não se encontra mais oculto.

Terceira lâmina: (14/02/07) O trabalho do alquimista


faz com que ele saia da roda do mundo (o que os hindus
chamavam de samsara), sublimando-se (o homem sobre
a águia) e unindo os dois pólos, o sol e a lua. No
primeiro círculo os céus, no segundo a terra, com
animais e o que parecem ser cenas campestres, e no
círculo central as águas, que também podem representar
o mental, o físico e o emocional do indivíduo,
aperfeiçoados ao longo da obra. Um entendimento entre
as águas da terra e as dos céus deve ser buscado,
possivelmente. E qual água vem do céu e cai na terra e
depois evapora para voltar ao céu?
(17/03) O rei com seu cetro, o que indica sua nobreza
(pode ser também Zeus ou Júpiter), sentado sobre o
pássaro parece ser uma nova alusão às matérias do sol e
da lua. Na parte exterior da figura é também indicada a
umidade do ar, cujo movimento é provocado pela ação
do sol e da lua sobre o mundo, representado pelos
círculos, que agora me dou conta que podem representar
o vaso da lâmina anterior. Fazendo o sentido inverso de
minha primeira interpretação, no círculo interior
observa-se nosso casal alquímico em um barco que
flutua nas águas de nosso pequeno mundo tentando
pescar algo de bom ou precioso no fundo do mar (água
salgada?), mas está sendo claramente impedido por
Netuno e por monstros marinhos, o que creio que seja
uma alusão às impurezas encontradas em nossa água.
Novamente do místico passo ao prático! Não é nenhuma
surpresa, pois as duas coisas estão interligadas. Noto
que o tridente de Netuno está projetado no segundo

387
círculo e na direção da sereia do terceiro círculo,
indicando uma progressão do trabalho, no terceiro
círculo já com muito menos impurezas.
O segundo círculo é seco, seus seres estão colocados
sobre uma matéria seca ou sobre a terra; neste círculo
vemos um touro e um carneiro em referência aos meses
do ano mais apropriados para o trabalho. De volta para
o casal alquímico, a mulher do lado esquerdo da figura
segura uma rede que fica suspensa na direção dos
pássaros, uma referencia a capturar o volátil, e com a
outra mão chama a atenção de seu companheiro do lado
direito da figura, que por sua vez tem um dedo de sua
mão apontado para o círculo interior, enquanto a outra
segura uma vara de pescar, cuja ponta da linha puxa ou
segura a sereia do terceiro círculo. No ponto mais alto
deste círculo vemos uma mulher colhendo flores, que a
meu ver representam os frutos do trabalho.
No terceiro círculo prevalece o elemento ar, se bem
que se pode ver uma certa quantidade de vapor ou água
em seu interior. As aves e o pavão aludem a esse
aspecto volátil, e observamos que os pássaros estão num
total de dez, representando o número de destilações ou
sublimações. Voam em direção à rede onde na
seqüência já há água e nossa sereia foi capturada. Nestas
águas, como tinha mencionado, já não se encontram
mais tantas impurezas. Seguindo nesta mesma direção,
percebo que a água anteriormente condensada toma um
aspecto de vapor onde no alto nosso alquimista indica
que o processo ou operação é contínuo, e deve ser
repetido, talvez pelo número indicado pelas aves, que é
o mesmo número de estrelas da primeira lâmina (10).

388
Quarta lâmina: É a coleta do orvalho (um líquido
elementar de muitas propriedades, formado por água e
ar e encontrado na terra sólida), acumulado nos panos
que os dois alquimistas (o homem e a mulher, a razão e
a intuição, o mercúrio e o enxofre, novamente os dois
pólos) haviam estendido nos campos. O carneiro e o
touro aparecem no meio em alusão aos signos dos
meses nos quais a coleta é mais propícia. A estação é a
primavera. Dos céus descem as radiações cósmicas que
imantam o orvalho. Por meio desta lâmina, a mais clara
de todas, e com as citações bíblicas contidas na
primeira, fica mais do que evidente qual a matéria da
obra. A presença do sol e da lua aqui lembra a passagem
da Tábua de Esmeralda. Vemos cinco lençóis
suspendidos por estacas para colher orvalho; cinco se
refere à quintessência.

Quinta lâmina: Nesta o casal de alquimistas reaparece


em seu laboratório, colocando o orvalho para ferver. Ao
término da operação, após apagarem o fogo, me parece
que ele fica com o mercúrio e ela com o enxofre, que
depois entrega a um homem com uma lua crescente no
tórax. Este deve simbolizar uma essência “feminina”, e
Filaleto diz no primeiro capítulo de Entrada Aberta ao
Palácio Fechado do Rei que “todo Mercúrio vulgar é
macho, quer dizer, corporal, específico, morto, ao passo
que o nosso é espiritual, feminino, vivo e vivificante.”,
o que pode significar que o mercúrio e o enxofre devem
ser mesclados novamente para se alcançar uma maior
purificação. Mas isso não de imediato.
Abaixo o mercúrio é despejado mais uma vez para que
seja repetidamente evaporado e condensado. O número
40, embaixo da fornalha, não deve se referir ao número

389
de destilações, que me parece que seriam 10 como
indicado pelo número de estrelas da primeira lâmina e
pelas aves da terceira. Possivelmente se refere ao
número de dias durante o qual o processo de circulação
deve se repetir.

Sexta lâmina: Uma vez circulada a matéria pelo tempo


necessário, esta é colocada em uma jarra e parece ser
posta em banho-maria, sendo obtido um novo resíduo
em forma de flor ou estrela, que é depois entregue ao
sol. Podemos extrair daí a informação que se trata de
uma essência solar, e que me lembra uma outra
passagem de Filaleto, a respeito da estrela: “E tu, assim
que vires a tua estrela, segue-a até o seu berço: aí verás
um belo infante, separando-o de suas impurezas. Honra
esse rebento real, abre o teu tesouro para oferecer-lhe
ouro; e, após a sua morte, ele te dará da sua carne e de
seu sangue, medicina suprema para os três reinos da
terra.”. Depois o casal volta a trabalhar com o enxofre
da lâmina anterior, purificando-o.

Sétima lâmina: O mercúrio destilado é combinado com


o enxofre, depois mexido e pilado. A mistura é
guardada e na seqüência os alquimistas a aquecem em
um recipiente raso. Depois a mulher retira os resíduos.
O que podem indicar as estrelas no recipiente? Talvez o
número de vezes que o processo tenha que ser repetido
ou o número de horas ou dias que a operação deva
durar. A importância do fogo está clara logo abaixo,
com um homem com uma criança em seus braços
entregue às chamas. Deve simbolizar os resíduos, e uma
vez que estejam suficientemente purificados o
alquimista despeja o líquido destilado sobre estes, sendo

390
enfim entregue uma essência lunar, como mostra a
figura feminina com o crescente na testa. O homem que
a entrega parece o mesmo que esteve no fogo, nunca
deixando a criança, talvez dando a entender que na obra
nada se perde ou se joga fora, e segura na mão uma
espada. Mais uma vez no recipiente as quatro estrelas.

Oitava lâmina: Os anjos aparecem com o que é


evidentemente o mercúrio, com as essências lunar e
solar debaixo dos seus pés. As aves reapareceram, outra
vez em número de dez. Esta lamina se parece bastante
com a segunda, mas com Mercúrio no lugar de Netuno.
As nuvens são mais numerosas, mas ao mesmo tempo o
sol dá a impressão de irradiar mais claridade, dando a
entender que o orvalho foi purificado, que não é mais
tão aquoso como mostrava com Netuno, deus dos mares
e da água. As cortinas agora revelam janelas,
sinalizando os progressos dos alquimistas, diante dos
quais um novo mundo se descortina. Em relação à
segunda lâmina, a mulher não usa mais lenço,
sinalizando que a matéria está mais livre, mais pura, e o
casal mantém sua posição devocional, salientando que o
respeito a Deus e a fé não podem faltar.

Nona lâmina: Uma nova coleta é feita, agora com


recipientes rasos, como bacias. Mais uma vez os signos
do touro e do carneiro sinalizando o período do ano
mais propício. A água colhida é oferecida ao deus
Mercúrio, indicando que talvez o que foi coletado deva
ser misturado ao mercúrio dos filósofos.

Décima lâmina: No alto o casal reúne as essências que


haviam sido entregues ao sol e à lua, indicadas pela

391
estrela e pela flor, medindo-as em quantidades
equivalentes antes de mesclá-las ao que foi coletado na
lâmina anterior. A solução é selada em um frasco,
depois posto em uma fornalha. O número dez aparece
na terra, bem embaixo, ao pé da lua, a sugerir que o
aquecimento deve continuar por dez dias. Nesta parte
inferior o sol e a lua estão de mãos dadas, sinalizando a
combinação das essências, tanto que na cabeça dela os
dois astros até se misturam. Na extrema esquerda da
parte inferior do painel, ao lado da fornalha, há um
círculo envolvendo outro e mais outro, dando a entender
do meu ponto de vista a unificação das essências solar e
lunar.

Décima primeira lâmina: O paralelo com a oitava e a


segunda lâmina é bastante evidente. Parece mais clara,
simbolizando a proximidade do objetivo; o número de
pássaros é o mesmo, as essências solar e lunar estão
abaixo de Mercúrio sem terra, o que indica que foram
purificadas, e mais embaixo o casal está livre das
cortinas, com quatro janelas abertas. A mulher olha para
o observador com o que parece ser um sorriso,
indicando que a realização está próxima. O homem
mantém a seriedade e a devoção para indicar que apesar
do êxito não se encontrar distante, ainda é preciso
trabalhar, manter a disciplina e agradecer a Deus.

Décima segunda lâmina: Mais uma coleta é feita, em


uma nova primavera, e o líquido outra vez entregue a
Mercúrio. Estas imagens praticamente repetem a nona
lâmina, indicando os processos repetitivos e a paciência
que o que se postula a Adepto deve ter.

392
Décima terceira lâmina: Os alquimistas combinam
porções iguais das essências solar (desta vez
representada pelo símbolo do sol com uma face
humana) e lunar, como mostra a balança, com a matéria
colhida, sendo tudo selado em um frasco e aquecido
mais uma vez na fornalha. Os números aos pés do sol e
da lua na parte inferior da lâmina devem indicar que o
processo precisa ser repetido muitas vezes, sem pressa.

Décima quarta lâmina: Aqui os alquimistas realizam


três trabalhos distintos, indicados os números de vezes
que devem ser repetidos, respectivamente por seis, duas
e dez vezes. No forno continua a purificação das
matérias lunar e solar, indefinidamente. Na parte de
baixo, os alquimistas selam os próprios lábios,
indicando que o artista não deve sair por aí falando
sobre sua obra ou se jactando de seus resultados; o
símbolo do mercúrio está embaixo da lua no frasco e há
uma inscrição que exorta nossos artífices a “orar, ler,
reler, labutar e descobrir”.

Décima quinta lâmina: Nesta última, a derradeira


lâmina do Mutus, os alquimistas ascendem, não há mais
espinhos, o trabalho foi um sucesso, a realização
alcançada. Estão de mãos dadas, portanto o masculino e
o feminino, o solar e o lunar, se acham reunidos;
“Provido de olhos, tu partes”; agora podem ver
claramente os anjos, há asas ou folhas que se parecem
com asas na parte inferior do círculo e a escada foi
relegada a um segundo plano, pois não necessitam mais
dela para alcançar os Céus. Morto está o que eram,
sendo dois novos seres que nascem.

393
Conclusão: O Mutus Liber não é uma obra qualquer,
mas foi realizada por artistas verdadeiros, sinceros, que
chegaram ao ápice de seu trabalho e quiseram dividir
este êxito com seus irmãos, sendo claros na medida do
que era possível. Mais impossível, tendo em vista a
ganância dos príncipes e a ignorância dos povos. Nunca
será o ouro o objetivo do alquimista, nunca ele gastará
sua Pedra em uma vã multiplicação, e sim no desvendar
dos segredos da natureza, que não se limitam a este
mundo mas se estendem aos sete céus. Se com a chave
do universo o homem pode seguir para a Lua, para
Marte, Vênus, Saturno, Mercúrio ou Júpiter, ou quiçá
mais além, por que deveria ele permanecer enclausurado
na Terra, tentando distribuir pérolas aos porcos que
acreditam que conhecem tudo? Ignorância e soberba,
são dois males que fazem com que a humanidade não
reflita, que se limite a se envaidecer, como se o
conhecimento não fosse um chaos altamente volátil.
Acreditam eles que o conhecimento é uma terra firme,
onde se pode colocar os pés. Mesmo a sabedoria não é
assim, mais semelhante a um fogo que não queima, mas
que conduz à mors ignea por outro caminho. De todo
modo, non cogitat qui non experitur...”, parecia um
buraco sem fundo para o pobre Saoshyant: quanto mais
estudava, menos sabia; ainda assim não desistia, relendo
com freqüência outras anotações daquele que era
praticamente seu “pai” e que não deixava escapar
nenhuma obra alquímica que caía em seus dedos:

“Sobre A GRANDE PEDRA DOS ANTIGOS SÁBIOS,


de Basile Valentim:

394
A Pedra dos Antigos: vem do céu; provém e nasce de
duas e de uma coisa, que contêm uma terceira
escondida; “marido” e “mulher” tornados um só corpo.
A semente desta é uma certa raiz metálica. A influência
celeste desce do alto e se mistura às propriedades dos
astros; quando esta conjunção se realiza, as duas fazem
nascer uma certa substância terrestre que é o princípio
da semente.

Três princípios primeiros: a alma do interior, o espírito


impalpável e a essência corporal visível (enxofre,
mercúrio e sal).

Não nasce de coisas combustíveis; ela própria


submetida ao fogo, é protegida. Não é obra vegetal, ou
seria queimada e nada restaria se não certo sal. Se
alguns escreveram sobre pedras vegetais referindo-se a
esta, é porque a Pedra vegeta e cresce.

Deus colocou na Criação uma semente para que


aumentasse e conservasse homens, animais, planetas e
metais. Não foi permitido ao homem produzir nova
semente, mas lhe foram concedidas sua preparação e
crescimento.

Lua: possui o mercúrio fixo, por isso não se esvai tão


cedo no fogo.
Vênus: todo seu corpo é quase pura tintura, que se
intensifica em vermelho. Mas essa tintura perece com o
corpo e se esvai, consumida pelo fogo.

395
A qualidade fleumática e a natureza úmida da Lua
devem ser dissecadas com o sangue ardente de Vênus e
seu negrume corrigido pelo sal de Marte.
A chave líquida (mercúrio) deve ser comparada à
propriedade celeste e à água seca (enxofre) adicionada à
substância terrestre (sal).

Dividir o ouro: de nosso ouro e sua esposa foram feitos


um penetrante, sutil e puro espírito bem como o sal e o
bálsamo astrais, os quais após a união não passam de
licor mercurial.

Esta água foi levada até a academia de seu próprio


deus Mercúrio, que ao reconhecê-la se uniu a ela, e da
união foi feito um óleo incombustível. Mercúrio rejeitou
as asas aquilinas, devorou sua cauda de dragão e
provocou Marte para o combate.

Marte aprisionou Mercúrio, para o qual Vulcano fora


designado como Guardião até que fosse libertado pelo
feminino.

Saturno, de cor negra, declarava ser o mais débil e


corruptível; não tinha morada permanente e consigo
levava seu semelhante. A causa de sua adversidade era
atribuída ao inconstante Mercúrio e por isso rogou a
Marte para que o retivesse até a putrefação, não sendo
deixada sequer uma gota de sangue.

Júpiter se adiantou, com sua espada diversificada em


cores, similar a um espelho inflamado, e a entregou ao
carcereiro Vulcano; uma vez Mercúrio sendo levado à
morte, que seus ossos fossem consumidos pelo fogo.

396
Enquanto o carrasco cumpria seu ofício, chegou uma
mulher resplendente de brancura, a lua, esposa do sol, e
rogou que Mercúrio fosse libertado da prisão. Mas
Vulcano se recusou e perseverou em seu trabalho até a
chegada de Vênus numa veste vermelha brocada.
Recordou-o do resgate pelo sexo feminino, mas os
ouvidos de Vulcano permaneciam fechados.

Enquanto isso, abriu-se o céu e surgiu um potente


animal, com numerosos filhotes, que devorou Vênus,
dizendo que nasceu das mulheres, que a alma de Vênus
esteve unida à sua e que por isso iria se nutrir e saciar de
seu sangue. Refugia-se numa caverna e lá seus filhotes
tiveram como alimento excelente óleo combustível,
multiplicando-se.

Sábios se reuniram para encontrar explicações para


estes fatos, até que surgiu um de idade avançada vestido
em púrpura, que portava uma coroa mas os pés
descalços, a fim de desvendar as alegorias. Falou para
que a fênix do sol arrancasse o coração do peito do
animal do oriente: “Dá asas ao animal do oriente para
que se assemelhe ao do sol; o do oriente deve perder sua
pele de leão e suas asas. Nesse momento entram juntos
no mar agitado e de novo saem com a beleza. Mergulha
teus espíritos instáveis numa profunda fonte, a fim de
que se tornem semelhantes à mãe, que se acha
escondida. Os céus e astros me entretêm e, embora seja
constrangido a morrer e ser enterrado, Vulcano faz-me
nascer.”

397
Quem quer que deseje saber o que as coisas
significam, faça asas a fim de elevar-se à mais alta
região do céu superior, queime-as então com fogo muito
vivo, e que a terra precipitada caia no mar vermelha e aí
seja engolfada. Pelo fogo e pelo ar, disseque a água para
que haja de novo terra.

Sobre AS DOZE CHAVES da Basile Valentim:

Sobre o mercúrio: o vulgar de nada serve; do melhor


metal provém nosso mercúrio, puro, sutil, claro,
brilhante como pequena fonte transparente como o
cristal e sem nenhuma sujidade. Disto faz a água ou
óleo incombustível, pois o mercúrio inicialmente foi
água.

Sobre o enxofre: saiba tirá-lo sem nenhum corrosivo,


com o metal, por purificação, destruição e reverberação
do precedente. Feito isso, dissolva o enxofre em seu
próprio sangue, do qual ele mesmo foi feito antes de sua
fixação. Assim dissolveste e nutriste o verdadeiro leão
pelo sangue do leão verde. Pois o sangue do leão
vermelho foi feito do sangue não fixo do leão verde,
porque são de uma única natureza. O sangue não fixo
torna volátil o fixo e o fixo detém o volátil, como era
antes de sua solução. Aquece-os juntos num suave calor
até que seja dissolvido: então tens o 2o fermento,
alimentado o enxofre fixo com o não fixo. Este enxofre
é sublimado vermelho; e similar ao sangue é chamado
de ouro potável, no qual nenhuma redução de corpo é
obtida.

398
O sal dos filósofos: fixo ou volátil, segundo o estado
no qual foi disposto ou separado. O sal de tártaro torna
voláteis os metais e os reduz ao mercúrio se é extraído
por si mesmo, por resolução e putrefação; fixa se o calor
da cal viva lhe é incorporado.
Se uma pequena quantidade do espírito do dragão
(enxofre) lhe é adicionada, o espírito do sal comum
(extraído pelo processo de putrefação) dissolve e
volatiliza o ouro e a prata e os eleva consigo.
O espírito de sal destrói também a lua e a reduz a
substância espiritual, da qual a lua potável pode ser
preparada. O espírito da lua é apropriado ao do sol pela
cópula e conjunção do espírito do mercúrio ou de seu
óleo.
O espírito está encerrado no mercúrio, a cor no enxofre
e a coagulação no sal; o espírito seja posto em
fermentação no ouro, com seu óleo; o enxofre inflama o
sangue frio, dele mesmo produzido; o espírito do sal
canta vitória quanto à dureza.

Para concluir: faz da tua substância um mercúrio e


fermenta-a; um enxofre que colocas em fermentação
com seu próprio enxofre, e põe em ordem o sal (“Põe
em ordem a tua casa porque morrerás”, como disse o
Senhor a Isaías). Distila uma vez. Une essas coisas
segundo seu peso e aparecerá um que é também nascido
de outro anterior. Coagula e fixa este mesmo por
continuado calor. Em seguida aumenta e fermenta até 3
vezes. O fogo utilizado é comum e no triplo forno em
que os graus são respeitados.
Nosso forno é comum, nossa matéria é sem valor e o
vidro é tornado semelhante à circunferência da terra.

399
A primeira chave: o que é impuro não convém à obra;
purga e limpa o interior do corpo, deixando-o sem
sujeira ou mistura.
Toma o lobo cinzento, sujeito ao belicoso Marte, e a
ele atira o corpo do rei; uma vez este tendo sido
devorado, faça um grande fogo e atira nele o lobo,
consumindo-o e libertando o rei, repetindo isso por 3
vezes. O leão assim terá triunfado e o corpo está pronto
para o início da obra.
Se qualquer acidez surgir, faze com que todo o
corrosivo seja removido; não pode haver acidez.
O rei percorre 6 cidades no firmamento celeste e se fixa
na sétima, um palácio ornado por um tapete de ouro...”,
alguns anos se passaram, entre tantas alegorias e
turbilhões mentais, e estava com 13, sem nenhum tapete
de ouro onde pousar seus pés, quando o bom Helmont,
que se achava cada vez mais fraco fisicamente, pedindo
sempre para que o garoto fosse comprar e carregar o que
necessitava, nunca saindo de casa, com dores nas juntas
e o passo mais lento do que nunca, o chamou para lhe
mostrar algo:
- Venha, meu filho...Venha ver!- Sua voz também se
tornara frágil, enrouquecida.- Lembra-se da cor que a
matéria no balão tinha antes?- Apontou para o
recipiente, que continha uma substância branca, pastosa,
mas clara, que reluzia, remexendo ao fogo.
- Claro, era negra. Escura como a noite.
- E agora está clara como o dia. Não é maravilhoso? Do
Nigredo ao Albedo...E quando chegar o vermelho, a
obra estará pronta. Espero que o meu corpo suporte até
lá...Ou você será o único a colher os frutos. Que ironia
do destino seria!- Até alguns dias antes, a matéria
estivera preta e com uma aparência desagradável, feito

400
um corvo que definhava; mesmo hermeticamente
fechada, o garoto sentia odores fétidos saírem dela e não
conseguia se aproximar. Agora estava tudo indo às mil
maravilhas...Não ousou falar, porém não podia deixar
de ficar fascinado. Sonhou, naquela noite, com um
dragão rubro que devorava um pavão branco, no qual
apenas a cauda era colorida...
- Veja, filho...Nós conseguimos!- Mais alguns dias se
passaram e numa tarde, quando o menino chegou da
rua, trazendo alimentos, Helmont lhe mostrou: extraídos
do recipiente, cacos de um vidro vermelho ígneo, como
um fogo solidificado e brilhante; não era algo comum:
não conseguia tirar os olhos daquilo.- Feche a porta,
feche bem a porta!- E uma vez tendo-a trancado, e se
aproximando daquele “vidro”, o velho alquimista
completou:- Chegamos ao lapis filho! Esta é a Pedra
dos Filósofos. Não há dúvidas! Só iremos fazer uma
última prova!- As forças de seu mentor pareciam ter
voltado redobradas; movia-se de um lado para o outro,
freneticamente, trabalhando sem dores nem cansaço.
Saoshyant tremia de entusiasmo e felicidade; tanto um
como o outro, o jovem e o velho, teriam vida eterna e
conheceriam as estrelas. Vida não, juventude eterna,
pois ninguém queria ser como Titônio, o infeliz esposo
da Aurora.
Retomaram as atividades com afinco, a emoção juvenil
e o entusiasmo senil irmanados; as fadas e os silfos
voavam e dançavam nos ares do laboratório. Após
moerem uma certa quantidade da Pedra e fazê-la fundir
em um crisol limpo, depois escoando-a num recipiente e
obtendo uma massa friável, que misturaram ao mercúrio
purificado aquecido até a crepitação, fundindo-os num
fogo vivo, criaram o esperado “pó de projeção”. No

401
forno trataram de fundir o chumbo e jogaram no metal
uma pequena quantidade do pó enrolada em um
papelzinho, atirado assim para que as propriedades
transmutatórias não evolassem, como vários livros
advertiam. Tornaram a colocar o material no forno e, ao
cabo de algum tempo, quando este foi retirado, estava
inteiramente transformado em ouro.
- Nós conseguimos, filho! Foi um sucesso!- Pai e filho
adotivos se abraçaram.- Agora só nos resta preparar o
elixir.
- Não basta moer, colocar na água e beber um copo,
pai?
- De forma nenhuma, meu querido. Muitos foram os
casos de alquimistas que abusaram da medicina
universal, tornando-a um veneno. Algumas gotas são o
bastante. Houve um caso de um homem que tomou uma
colher e caiu morto, enquanto outro que tinha apenas
molhado a língua teve todas as suas doenças curadas e
sua juventude restabelecida. Temos que prosseguir com
sabedoria, seguindo os passos dos sábios que vieram
antes de nós.
- Quando tivermos bebido o elixir, o que faremos?
- Saberemos depois de tomar. Dizem que quem o toma
sabe na seqüência onde estão todos os outros Adeptos.
Iremos ao encalço de algum deles. Você é um
privilegiado, meu caro! Tão jovem e já um Adepto.
- Não sou nada. Foi o senhor quem fez todo o trabalho.
- É o que pensa. Sem você, eu não teria tido forças.
Teria morrido há muito tempo.- E Helmont sabia o
quanto isso era verdade. Saoshyant, humilde, ficou
cabisbaixo; o alquimista sorriu e se preparou para a
feitura do elixir, seguindo as instruções de Filaleto e
Basile Valentim. A noite estava clara, cheia de estrelas,

402
como o menino pôde notar ao abrir a pequena janela.-
Filho, feche a janela.- Advertiu o pai. Quando o garoto
ia fechá-la, tomou um susto: era tarde demais; passou
por sua mente o tamanho do erro que inocentemente
cometera: uma mão enorme, inumana, enegrecida e
cheia de garras, com veias oleosas, o impedia e invadia
a casa.
- Eu vi o que vocês têm...Uma pena! Mas todo o
trabalho ficará em boas mãos, ofereço minha garantia!-
A criatura, predominantemente verde-escura e de olhos
vermelhos, o rosto lembrando o de uma serpente, a pele
escamosa, uma língua bifurcada, apenas dois enormes
dentes no maxilar superior, com uma cauda longa e
flexível feito borracha, se esgueirou para dentro da
habitação do alquimista e de seu ajudante, empurrando
o garoto, que tateou no chão apavorado, e fechando a
janela atrás de si. O menino começou a ofegar, enquanto
Helmont, de forma corajosa, encarou o monstro e o
desafiou:
- Se quiser a Pedra, venha buscar. Mas o que me
pergunto, monstro sujo, é como conseguiu descobrir o
que estávamos fazendo.- Discretamente, pegou um
frasco com um líquido incolor.
- Sujos são vocês, humanos hipócritas, criaturas
imundas que falam de amor, justiça, paz, todo esse
palavrório, e se engalfinham em guerras, puxando os
tapetes uns dos outros, falando mal de um irmão ou de
uma esposa por trás. Eu, pelo contrário, admito que
tenho meus defeitos...E sou membro de uma espécie
superior, para a qual a humanidade não passa de
alimento. Minha audição apurada pôde escutar as suas
conversas...E os via indo e vindo, e nas vezes em que o
seu garoto abriu a janela, observei o que tinham. A

403
minha visão também é mais apurada do que a de vocês.
Sei que aquele ouro foram vocês que fizeram!
- Se é um espécime superior, para que quer a Pedra?
Afinal o “senhor” já é capaz de muitas coisas.
- Pare de debochar. Não sou nenhum tolo. Tenho
conhecimento que o elixir ainda precisa ser preparado.
Faça-o para mim, ou terá uma vida ainda mais curta,
velho.
- E se eu não o fizer?
- Ao invés do elixir da longa vida quer o caminho para
o buraco da curta vida?
- Você não é bom em fazer ameaças. Se me matar, não
terá nada a fazer com a Pedra. Não sabe usá-la, é um
ignorante. Ou acha que pode ler e compreender os livros
de Filaleto ou Valentim?
- Não me subestime. Pode ser mais cômodo você
preparar o elixir pra mim, mas não que eu não possa
fazer por conta própria.- O monstro alcançava o teto do
casebre e ainda estava curvado; Saoshyant não
conseguia se mexer.
- Uma pena não ter estudado a fundo magia e defesa
psíquica; e nem sei manejar uma espada. Sou fraco e
velho agora para isso...
- Não quero saber dos seus lamentos. Trabalhe! Se eu
tiver a medicina universal, não precisarei nunca mais
me submeter aos príncipes! Talvez nem mesmo a
Lúcifer.
- Está superestimando o trabalho deste pobre homem.
Que, no entanto, não vai jogar fora todos os anos de
labor entregando-os de mão beijada para uma aberração.
O trabalho é meu e morrerá comigo. Sinto por você,
Saoshyant.- E olhou para seu valioso ajudante e filho

404
adotivo com compaixão; o menino desabou em
lágrimas.
- Quer dizer que prefere que tudo tenha sido em vão?
- Não foi em vão. Deus me recompensará pelos meus
esforços. Não tive a vida eterna aqui, mas a terei no
Paraíso. Antes ter a garganta rasgada a entregar os
tesouros do Céu a um verme.
- Foi você quem pediu!- Contudo, antes de ter seu
pescoço aberto por aquelas garras, teve tempo de abrir e
jogar sobre os cacos da matéria filosofal o líquido que
estava no vidro que pegara: ácido nítrico ou, como
preferia chamá-lo:
- O sangue do dragão é a única substância que pode
destruir a Pedra...- E de fato os pedaços de precioso
vidro vermelho foram se desmanchando e derretendo
em contato com o ácido. O demônio, mais
descontrolado impossível, rasgou a garganta do
alquimista e se atirou ao chão socando o cadáver com
ódio. Os vapores vermelhos foram se dissipando,
passando pelos dedos do monstro inconformado quanto
este tentou retê-los e Saoshyant, imbuído de toda a
coragem que possuía e das forças que lhe restavam,
arrebentou uma cadeira na cabeça da criatura. No
entanto, esta nada sentiu e se voltou com raiva e
sarcasmo na direção do filho adotivo do alquimista:
- Quer brigar, pivete? Você vai ser um ótimo aperitivo
pro jantar...Faz dias que só olho e olho, morrendo de
vontade pra comer você, só que me controlando porque
precisava esperar por uma coisa mais importante. Agora
que essa coisa não existe mais, posso matar a minha
fome!- Ao que o menino gritou de pavor e correu; teria
sido facilmente alcançado se uma segunda visita não
convidada não tivesse entrado na casa, desta vez

405
derrubando a porta: um homem com duas espadas, que
veio como que deslizando pelo chão em altíssima
velocidade até chegar ao demônio e cortar sua cabeça
em um instante; o sangue verde e gosmento respingou
pelas paredes da casa. O garoto não se mexeu mais, seus
lábios trêmulos. “Encontrar não foi fácil...Esse se
escondia bem. Fui informado que também tinha uma
audição e uma visão excepcionais, mas pelo visto se
distraiu muito, acho que com esse menino. Devia estar
com muita fome e perdeu o controle e a discrição nessa
hora. Matá-lo foi mais fácil do que imaginei...”, Hong
embainhou as espadas.
- Você está bem?- Na seqüência, perguntou a
Saoshyant, que não respondeu.- Ah...- Depois viu o
cadáver de Helmont.- Sinto muito...Ele era seu pai?-
“Não parece...”
- Ele é...
- Ah, sim...A vida é eterna.
- É...- Na mente do pequeno, os preceitos alquímicos e
não só a perspectiva cristã.
- Sinto por ter me atrasado. Quisera ter chegado a esta
cidade algumas horas antes. Ou melhor, ter localizado
esse monstro antes. Sinto pelo seu pai; e por cada vida
que me escapa.
- Tudo bem. Não precisa se culpar...- O filho adotivo de
Helmont pela primeira vez se voltou para o cruzado e
puderam trocar olhares; seus lábios agora estavam
firmes.
- O meu nome é Hong. E o seu?
- É do Catai?
- Sou sim.
- Sou daqui mesmo. Me chamo Saoshyant.- No silêncio
da noite, ficaram ainda mais silenciosos por alguns

406
momentos. O guerreiro queria dizer algo e consolar o
menino, mas não sabia por onde começar; o garoto
pensou que chegara a hora de deixar de ser tão quieto:-
Você é um cruzado, não é? Ajuda as pessoas...Um
caçador de demônios.
- É...De certa forma sim.
- Quero ir com você...- Foi explícito.
Algumas horas depois, em meios aos cacos do que até
um passado recente fora um laboratório de alquimista,
um indivíduo encapotado, de botas negras, parava de
pisar sobre os vidros quebrados e os papéis
esparramados para contemplar a destruição. Apesar de
seu rosto de pele escura ser humano, havia algo de
estranho, como se aquela face não fosse sua, e de fato
não devia ser, em alguns momentos como que
borbulhando e anunciando uma metamorfose que
acabava não ocorrendo. Um sujeito estranho; ao fundo,
se um mago estivesse presente discerniria em sua aura
um segundo semblante, que um pouco lembrava uma
criatura eqüina.

Os anos transcorreram e, já em Roma, Saoshyant se


tornara uma demonstração viva para si mesmo de que
levara a sério os últimos lamentos de Helmont, que se
condenara por não ter estudado a fundo magia e defesa
psíquica. O persa, como cruzado, podia ter acesso a
todos os livros de magia da Igreja com a desculpa de
estudar as artes dos inimigos da Fé; fora este um dos
motivos de ter aceitado se tornar um “caçador de
demônios”, além de uma certa dúvida...À alquimia não
poderia se dedicar no momento, e de qualquer maneira
não se tratava de uma questão emergencial, visto que o
sangue de Cristo o rendera praticamente imortal; só

407
tinha vontade de algum dia poder estudar assiduamente
as propriedades deste e verificar o que poderia ter em
comum com a Pedra dos Filósofos; ou se, como às
vezes desconfiava, não fosse realmente o sangue de
Cristo o que os cruzados ingeriam e sim o célebre elixir,
produzido por sacerdotes que na verdade eram
alquimistas. Para isso, no entanto, precisava antes livrar
o mundo dos demônios; somente em uma era de paz
poderia se dedicar aos estudos; enquanto isso, teria que
zelar por sua própria sobrevivência. Que os padres
vermelhos fossem ou não alquimistas, esperava
solucionar essa dúvida antes de sua morte.

Passado – XI

O mercador branco caminhava com cautela à medida


que avançava na direção dos tronos, cercado de homens
negros armados, seus corpos repletos de pinturas
brancas, com destaque para as espirais nas costas e nos
peitos depilados, quase nus a não ser pelas tangas de
peles que vestiam e alguns pelas ombreiras de madeira,
portando lanças de freixo, material importado que tivera
o orgulho de negociar com aqueles nativos, as pontas
afiadas de pedra. Para os padrões deles e para o calor do
ambiente, estava vestido demais, com uma calça
alaranjada justa, sapatos (enquanto os guerreiros
estavam descalços), uma jaqueta branca bufante e uma
boina com uma pena; nos tronos estofados o rei e a
rainha de Axum, na Etiópia, país com o qual se
acostumara a fazer grandes negócios: ele, esparramado e
parecendo preguiçoso, era gordo, calvo, a barba escura
como a pele, olhos pretos investigativos, argolas de ouro
penduradas nas orelhas, vestindo uma tanga ricamente

408
ornamentada, contendo algumas pedras preciosas que o
veneziano desejaria para si, os dedos dos pés
rechonchudos e de unhas bem-tratadas, diferentemente
das do europeu, que preferia ocultá-las sempre que
podia; ela magra, elegante, os dedos das mãos e dos pés
finos e ágeis, calçando um tipo de sandálias de madeira,
belos olhos verdes e cabelos negros curtos, um tipo
exótico que o mercador desejaria trazer consigo para
serviços particulares, porém aquela era uma rainha,
cheia de anéis, usando uma tanga curta sem atavios e
um bustiê para encobrir os seios; cada um dos dois
abanado por um par de guerreiros musculosos, em um
salão amplo iluminado pela luz do sol forte, que entrava
pelas janelas sem cortinas. Trouxera consigo mais
madeira e outros artigos que os etíopes gostariam, com
seus homens aguardando do lado de fora, ainda sem
permissão para entrar.
- Meus reis, trouxe o que queriam e que não pensavam
que poderiam desejar! Só que gostaria que me pagassem
de uma forma diferente hoje. Não preciso mais de tanto
ouro e diamantes.
- O que quer então?- O soberano de Axum carrancou;
em pouco tempo, Paolo, assim se chamava aquele
veneziano de bigode ralo e olhos baços, pequeno e
lépido, aprendera a se virar em alguns dos idiomas dos
reinos etíopes.
- Não que os dispense, longe disso, não me interprete
mal! Mas por uma parte do que pagariam com pedras e
ouro, gostaria que me cedessem um homem. Estou
precisando de servos leais.- O rei e a rainha se
entreolharam; de repente, ele fez um gesto e disse algo a
um dos guerreiros, que saiu, em um dialeto que Paolo
desconhecia.

409
- Ele foi buscar o seu homem. Virá em pouco tempo...-
E se voltou aos seus guardas:- Agora podem deixar
entrar os dele. Quero ver as mercadorias.
Passou algum tempo e, enquanto o rei e a rainha, tendo
saído de seus assentos, começavam a se divertir
mexendo nos artigos do mercador, o que era sempre
demorado, não demonstravam nunca ter pressa,
apreciando o prazer lúdico da compra, o guerreiro
enviado voltou com um homem em correntes, e não se
tratava de um homem qualquer: um gigante negro que
impressionou o veneziano, próximo dos dois metros de
altura, uma massa de músculos, só um tanto mal-tratado
e com um semblante de profunda tristeza.
- O que acha deste?- Inquiriu o rei.- O capturamos após
a última batalha que tivemos contra os zibum. Fiz
questão de mantê-lo vivo porque deu trabalho demais,
matou dez dos nossos sozinho, e seria meu escravo
pessoal se não tivesse se negado a isso, dizendo que
preferia a morte. Como não quis matá-lo, não sabia
como solucionar essa situação. Ele se nega a me servir.
Mas acredito que será diferente com um estrangeiro,
longe de nossas terras.
- Vossa majestade me dá um rebelde? Tem certeza que
se sairá bem comigo?
- Minha intuição diz que sim, não sei por que. Mas é
sem dúvida o melhor homem que temos capturado.
Todos os outros não resistiram à prisão do palácio e
estão definhando, são fracos demais. Esse mesmo que
fique dias sem comer continua forte como uma rocha.
- Ele parece mesmo ter potencial. Está feito! Vou levá-
lo comigo.

410
- Tenho certeza que para você será um bom negócio. Irá
trabalhar muito por lá...- Olhou com sarcasmo para o
prisioneiro, que virou a cara.
- Como ele se chama?
- Não sabemos. Nega-se a falar. Só diz que quer
morrer. É só isso que sabe dizer.
- Mas que desperdício! Pois farei com que diga coisas
muitos melhores.
- Assim espero, estrangeiro. Boa sorte...- No navio,
quando puderam ficar a sós, o poderoso negro ainda em
correntes, Paolo pôde lhe falar mais à vontade:
- Ainda não domino o idioma dos zibum, mas acho que
podemos conversar. Isto é, se você quiser. Mas haverá
um momento em que terá de querer...As escolhas vão
acabar. Você agora é meu.
- Só quero uma morte digna.- O prisioneiro o
surpreendeu ao responder em latim vulgar.
- Ora, mas quem diria, você sabe falar latim!
- Um jesuíta me ensinou uma vez. Éramos amigos. Mas
ele morreu tentando defender o meu povo, assim como
mataram minha mulher e meus filhos pequenos. Se os
axum não tiveram piedade de mim, rogo para que você
tenha. Permita-me morrer com honra e em paz. Quero
caminhar novamente com a minha família, e isso só será
possível no Paraíso.
- Você já matou muitas pessoas. Acha mesmo que irá
para o Paraíso?
- Deus sabe distinguir os guerreiros dos assassinos.
Nunca agi com violência...O meu coração sempre esteve
dedicado à proteção das pessoas que amo.
- Qual o seu nome?
- No meu povo, é costume perder o nome quando
somos aprisionados. Não tenho mais nome.

411
- Como preferir. Vou chamá-lo de Bruno...É condizente
com a cor da sua pele.
- Quando o jesuíta branco chegou em Zibum, não
vimos a pele dele, mas um homem imbuído de uma
missão e convencido do que deveria fazer. Foi isso o
que admiramos nele.
- De nada adianta tentar ser rebelde e orgulhoso, Bruno.
Entenda que não fui eu quem capturou você. Comprei
você, o que é bem diferente.
- Almas, seres humanos, podem ser comprados? Que eu
saiba, Deus não nos criou colocando preços, ou
seríamos estátuas de barro e não entes vivos.
- Você me diverte, sabia?- Sorriu de esguelha.- Além
de parecer muito forte, é inteligente, sabe se expressar e
é religioso. Um escravo perfeito...E não se espante com
a palavra: costumo tratar muito bem os meus servos,
que moram confortavelmente e recebem ótimas
refeições. A única coisa que precisam fazer é trabalhar
bem para mim, cultivar a lealdade, nunca dizer
mentiras, fazer todas as tarefas que peço,
independentemente se as julgam indignas ou
asquerosas. As recompensas que ofereço compensam
qualquer coisa.
- Os homens são iguais perante Deus. Como um cristão
pode admitir escravos?
- Não sou cristão. Sou um homem que segue seus
próprios interesses, que não acredita em Inferno ou
Paraíso, que não dá importância a Deus e ao Diabo,
embora esteja ciente que eles existem. Fiz uma vez um
pedido ao Alto...Para que quando morrer a minha alma
seja apagada. Enquanto isso, pretendo viver da melhor
maneira possível, sem preocupações.
- Acha que é tão simples assim?

412
- Se Deus nos dá o o livre arbítrio, que ele me deixe
escolher essa opção. Quando tiver vivido o suficiente,
quero que me faça deixar de viver, deixar de
existir...Terá sido o bastante.
- A exploração do próximo nunca ficará impune.
- Pense como quiser. O mundo não mostra isso, não é
um conto de fadas nem uma história bílica: Jó perde
tudo e simplesmente não obtém nada de volta, por mais
fé que possua. Esse é o mundo real. O resto são
fantasias; Deus não deve ser necessariamente bom e
justo.
- O que quer que eu faça para você?
- Está mudando de postura...
- Só quero entender um pouco a forma como vê o
mundo.
- Ultimamente andei pensando em alguém que pudesse
entrar sorrateiramente pelas janelas de meus rivais e
estrangulá-los.
- Já lhe disse que não sou um assassino.- Os olhos de
Bruno faiscaram dessa vez.
- Você será o que eu lhe pedir pra ser.
- Tenho honra. E posso me matar quando minhas mãos
estiverem livres de correntes.
- Por que não me mata então? Poderia fazer isso com
facilidade ao ficar livre.
- Não sou um covarde.
- Não diga e nem faça isso...Religioso como é, sabe
quais são as conseqüências para os suicidas, e você não
pediu para a sua alma ser apagada. A eternidade pode
ser cruel...Nunca mais poderá andar ao lado da sua
mulher e das suas crianças, que estarão no Paraíso,
enquanto você ficará no Inferno!
- O senhor é um homem terrível.

413
- Seu senhor é o que sou, saliente bem isso. E, se tem
mesmo honra, não fará com que eu tenha gasto meus
recursos à toa. Paguei para ter você, não o roubei de
ninguém.- Bruno ficou cabisbaixo e se negou a dizer
qualquer outra coisa a mais; sorridente e vitorioso,
Paolo se retirou, deixando seu novo escravo sozinho,
entregue aos seus pesadelos despertos. Logo chegaria
uma refeição com ovos, carne de porco e uma maçã:
- O Paolo mandou isso pra você, rapaz. Comida da boa,
melhor não enjeitar.- Entrara um homem do mar de
barbas compridas, barriga grande e braços fortes,
aparentando ser calmo e simpático, uma verruga
avermelhada no queixo; falava um latim macarrônico,
misturado com italiano, porém compreensível apesar
das palavras estranhas e do sotaque.
- Você é escravo desse homem?- Indagou Bruno.
- Escravo?? Nem sei o que é isso, rapaz. Pra mim os
homens são todos livres! Filho de Deus nenhum devia
estar sob correntes. Sabe, apesar de não ser teólogo,
tenho uma teoria: cada um de nós é uma parte de Deus,
uma centelha, uma fagulha de uma fogueira maior. Ele
me paga, e bem, pra fazer o que faço no mar. Vários
dobrões de ouro!
- Está querendo me humilhar?
- E por que iria querer isso? Não ouviu o que acabei de
dizer?
- Os homens gostam de fazer discursos, mas suas ações
muitas vezes dizem outras coisas. O seu patrão, pelo
menos, não parece pensar como você.
- Sei que ele está levando você como escravo...Mas o
que posso fazer? Não sou só um empregado, sou muito
mais do que isso, mas pro Paolo vou ser sempre um
empregado. O que posso fazer é dar uns conselhos pra

414
você, já que ele não vai pensar diferente se eu falar.
Pensa como eu: você é mais do que um escravo, mesmo
na visão dele sendo um. Na sua visão vai ser sempre
uma fagulha de Deus, do mesmo jeito que pra mim,
enquanto várias pessoas vão te ver como um cara forte e
bonito.
- Esse tipo de visão muitas vezes me incomoda
também. Como se o trabalho de Deus tivesse sido em
vão: criaturas divinas que todos somos, insistimos um
em ver no outro só uma orelha, ou uma boca, ou às
vezes nem isso. Há momentos em que me parece que
enxergamos as sombras e nada mais. É como a caverna
de Platão.
- As pessoas costumam ter preconceitos com os etíopes,
muitos os têm como um bando de selvagens. Mas você
fala latim bem melhor do que eu, parece até os textos de
Tito Lívio e Cícero que estudei na escola, e ainda cita
Platão! É demais pra um homem do mar.
- Imagens pré-concebidas, julgamentos
precipitados...Penso que é isso o que o Cristo queria
dizer quando afirmava que não devemos julgar o
próximo: não que não possamos condenar os
criminosos; só não é justo nem sensato dizer que uma
pessoa ou um povo são de um jeito sem antes tê-los
conhecido de perto. E, mesmo quando os conhecemos, é
bom ir devagar.
- E não está julgando precipitadamente o Paolo?
- Se ele ao menos me soltasse dessas correntes...Poderia
fazer um outro conceito.
- Entenda o medo do sujeito. Ele mal passa de um
metro e meio de altura, você tem quase dois; ele tem
banha e ossos, você é todo músculos...Não tem
comparação.

415
- E você, como se chama? Sei o nome dele e não o seu,
que me parece um bom cristão.
- Não sou cristão. Sou religioso, mas sou como o mar.
Abarco tudo, vou pra todas as partes, sem restrições.
Navego na Fé...O meu nome é Antonio, prazer.
- E esse barco é do Paolo?
- Claro que não! Ele é um negociante, não um homem
do mar. O mar pra ele é um meio, não um fim. O que
ele me paga inclui o aluguel do barco. Que também não
é meu. Em Veneza temos que pagar uma taxa ao doge,
porque os barcos maiores são todos dele. É um
monopólio...Sendo que poucos estão realmente em
Veneza; a maioria está circulando ao redor do mundo. A
Igreja inclusive usa os barcos do doge pra fazer o
transporte dos cruzados de uma ilha pra outra.
- Já ouvi falar dos cruzados. Só que nunca vi um. Na
minha terra, só houve uma ocorrência antes de eu ter
nascido; a minha avó que contava sobre um demônio
que atacou nossa cidade quando ela era bem jovem
ainda. Um cruzado chamado Barbarossa apareceu e
exterminou em segundos o monstro que tinha matado
dezenas de pessoas.
- Eles também são monstros. A força que possuem não
se compara à de um homem comum; e nem a qualquer
coisa conhecida na Terra. Confesso que tenho um tanto
de medo deles, apesar de dizerem que eles carregam o
sangue do próprio Cristo nas veias. São como anjos
exterminadores.
- Se você não é Cristão, por que fala dele com tanta
reverência?
- Respeito é uma coisa, crença é outra. Acho que todos
somos filhos de Deus, que ele não foi um unigênito...A
diferença entre nós e Jesus está no fato dele ter

416
reconhecido a divindade dele, que foi o que o fez
especial, percebendo o que nós não percebemos ou
deixamos passar. Um homem desses, e que até aceita
ser crucificado pra cumprir uma missão, não é digno de
ser admirado?
- Acha mesmo que ele quis ser crucificado?
- Acho que ele aceitou; é diferente: não opôs resistência
porque sabia que nenhuma dor na carne pode tirar a
nossa divindade interna, e aproveitou a oportunidade pra
demonstrar isso. Dizer que ele não sofreu é besteria,
afinal chegou a perguntar se o Pai o tinha abandonado.
Deve ter doído muito, só que ele não desistiu. Sujeito
forte, ponta firme!
- Já eu sou da opinião que o Cristo quis a crucificação,
que sabia o que aconteceria desde o início, tanto que
tinha consciência da traição de Judas antes desta
acontecer. Portanto, Judas não é culpado.
- Penso diferente. Pra mim Judas é culpado sim, e não
que Jesus já soubesse desde que nasceu que teria aquele
destino; ele soube quando estava perto de acontecer, e
não impediu, deixou acontecer, o que o faz ainda maior,
porque perdoou o homem que o traiu. Se fizesse tudo de
cima, seria um manipulador e não um messias ou um
santo. Por que iria querer sofrer tanto, a troco do quê?
- Como você disse antes, e estou de acordo, para
mostrar que nossa essência divina está acima das
adversidades terrenas, e que todos os homens são iguais,
tanto que foi crucificado junto com delinqüentes. Além
disso, pretendia demonstrar a realidade da Ressurreição.
- Quer dizer que concorda que somos fagulhas de uma
grande fogueira?
- Não penso que sejamos iguais a Deus. Do meu ponto
de vista, sempre seremos criaturas e nunca partes do

417
Criador. Não há identidade, afinal Ele é transcendente e
onipotente. De todo modo, temos uma essência divina
porque fomos criados à imagem e semelhança Dele.
- Criação à imagem e semelhança não é ser parte Dele?
- Ele nos criou mas não viemos Dele nem nunca
“voltaremos” a Ele, me entende? Somos seres distintos,
pequenos demais para compreender a totalidade na qual
o Senhor vive. De qualquer forma, nascemos
originalmente no Paraíso e não na Terra.
- Você falou sobre Ressurreição...É algo que sempre
me deixou com a pulga atrás da orelha, nunca fui muito
de acreditar. Pensa mesmo que seja possível?
- Os apóstolos viram o Cristo ressuscitado e mesmo são
Tomé, que era cético, se convenceu.
- Acho que sou como Tomé, só acredito vendo! Não
duvido que o corpo possa ter uma longevidade maior,
tanto que dizem que os cruzados só morrem em batalha
e os alquimistas também alegam produzir o elixir da
longa vida, mas enquanto não tiver o sangue de Cristo
ou não receber o elixir, vou continuar achando que isso
é muito difícil!
- A Ressurreição vai bem além de brincadeiras de
laboratório e da criação de guerreiros perfeitos.
- Seja como for, não precisa ficar bravo comigo não!
Sou da paz.
- Não estou nervoso.- Bruno conseguiu sorrir pela
primeira vez desde que chegara àquele navio.- Apenas
tentando argumentar, e conversando de forma amigável.
- Falando nisso, a gente falou tanto que a sua comida
deve ter esfriado! E o resto dos homens deve estar me
esperando no convés. É que faz tempo que não tinha um
papo-cabeça. Os outros homens que trabalham no meu
barco são todos broncos, coitados.

418
- O Reino dos Céus está reservado aos simples. E não
sou nenhum erudito, só li os livros que um jesuíta,
chamado Marco, me emprestou há algum tempo quando
veio evangelizar o meu povo.
- Melhor assim, vá pro Reino dos Céus então! Agora
coma, rapaz.
- Mal consigo mover os braços.
- Nessa hora a gente se vira como pode. Usa os dedos
dos pés, a boca, o que for!
- Ao contrário do que devem pensar em Veneza, em
meu país não comemos com os pés.
- Hahaha! Essa foi boa! Mas não falei por mal não.
- Sei disso. Também estava brincando.
- Vou falar com o Paolo pra te soltar. Talvez isso ele
ouça...Se ficar muito bravo depois, só não se esqueça
que sou seu amigo!
- Meu nome é Jedalla. Foi um prazer.- Ignorou a nova
brincadeira enquanto começava a comer.
- O mesmo digo eu...- E se retirou. Bruno, ou Jedalla,
ficou a refletir sobre seu presente e seu passado,
recordando os tempos em que ia com seu pai para as
montanhas procurar lobos etíopes, os raros exemplares
que podiam encontrar daqueles pacíficos canídeos de
pelame vermelho com marcas brancas e pernas mais
longas do que as dos chacais, tendo chegado a
acompanhar a caçada solitária de um atrás de uma lebre
e a fazer amizade com outro, que aparecia sempre que
visitavam a região, como se adivinhasse que seus
irmãos humanos estavam por perto. Os zibum não
costumavam caçá-los, enquanto os axum consideravam
que seu fígado possuísse qualidades medicinais:
- Um costume bárbaro, como muitos que eles possuem.
Como podem abater animais tão bonitos?- Questionara

419
um de seus tios num dia em que fora com este e
puderam, à noite, espiar um grupo dormindo a céu
aberto, duas fêmeas prenhes e uma com seus filhotes
sob o abrigo de uma encosta.
- Apesar que dizem que eles são covardes, que seguem
vacas e éguas grávidas para devorar os recém-nascidos.-
Interviera outro tio.
- Não há animais covardes, eles simplesmente lutam
pela sobrevivência, precisam comer e encontrar o modo
mais fácil para isso. Será que somos covardes porque
não temos garras e presas e por isso precisamos de
lanças e facas para caçar?- Bons tempos...Conquanto
não melhores do que os do nascimento de seu primeiro
filho, que para Bruno fora o momento mais feliz de sua
vida, em contraposição à morte dos pequenos e de sua
esposa, que fora o mais doloroso. Por mais que quisesse,
não conseguia amar e perdoar os inimigos. Seu ódio
ainda o corroía, enquanto era enviado para uma terra
estranha...Embora na verdade não existisse assim tanta
terra na bela Veneza, onde se viu surpreso em um
mundo no qual a navegação era tudo, por demais
distinta da aridez de sua pátria. Quando desceu, já sem
correntes, tentando conter a raiva frente ao semblante de
confiança de seu “dono”, ficou impressionado com a
beleza daquela cidade que dominaria seu espírito por
tantos anos: pediu às águas, sobre as quais Deus um dia
soprara antes de criar tudo, que lavassem seu passado e
o ajudassem a esquecer, sendo encaminhado ao palácio
do rico negociante.
- Você vai gostar. Verá que o que falam sobre servos e
escravos não passa de um monte de baboseiras. Terá a
vida que sempre pediu a Deus!- Disse, animado, o
veneziano.

420
- Nunca pedi nada a Deus além de uma boa família,
comida e água.
- Entendo, afinal não poderia ter concebido algo como
a minha casa. Mas terá aqui comida em abundância,
água há em todas as partes, como pode ver, e poderá
encontrar uma nova mulher e ter novos filhos. Nunca o
impedirei de constituir uma nova família; é melhor
inclusive que se esqueça da antiga. Há venezianas que
adoram negros!- Bruno teve vontade de agarrar Paolo
pelo pescoço e estrangulá-lo, contendo a custo seu
acesso de ira.
As duas fachadas do palácio, em gótico veneziano,
desenvolviam-se em dois níveis colunados encimados
por um corpo em mármore esculpido aberto por grandes
janelas ovais, contando com um monumental balcão
central, coroado com pináculos. As loggias, delimitadas
por balaustradas, mostravam colunas e arcos ogivais
perfurados, suportadas pelo pórtico no piso térreo, cujo
aspecto rebaixado se devia às obras sucessivas de
elevação do pavimento para combater a subida do nível
do mar, conferindo um aspecto mais sólido às colunas
encimadas por capitéis esculpidos com imagens dos
membros da família Foscari, da qual Paolo, filho de
Francesca e Luigi Foscari, era o mais recente pai de
família de uma linha de oito primogênitos. A entrada
fora construída em gótico florido a exemplo da Porta
della Carta da residência do doge, pintada e dourada,
com representações da natureza e de homens notáveis
que haviam feito a história de Veneza, uma homenagem
da família. Ao entrar, o etíope não pôde deixar de ficar
impressionado com a amplidão do local, maior que
qualquer residência de Zibum, comparável talvez só ao
palácio real de Axum, que no entanto não lhe trazia

421
boas lembranças devido ao enclausuramento. O chão
polido de mármore e os corrimãos banhados a ouro, o
lustre branco repleto de cristais, davam uma impressão
de brilho constante, porém o que mais o impressionou
foram os quadros e a perfeição dos artistas venezianos
ao representarem seres humanos e seus hábitos,
detalhistas até com as dobras dos vestidos e os jóias das
damas.
- Você vai ficar aqui no térreo. Os meus empregados
irão conduzi-lo para o corredor certo. Com o tempo vai
se acostumar sem se perder mais na casa, só que no
começo é normal o atordoamento.
- Estou tranqüilo.- Com o coração acelerado, Bruno
mentiu.
- Tranqüilo? Com o tempo essa paz toda acaba...O mar
não é assim tão sossegado como parece.
- Farei o que for preciso para me adaptar, já que não
tenho outra escolha.
- Bravo ragazzo...Prevejo que vai me dar muitas
alegrias.
- Assim espero, meu senhor.
- Você aprende rápido. Quem disse que escravos têm
que ser burros?
Passaram-se os anos. Bruno desenvolveu uma
personalidade pacífica e estável, firme e ao mesmo
tempo distante das pessoas, atento ao seu patrão sem
entrar em conflitos, acatando tudo o que lhe era pedido
sem reclamar por fora e por dentro buscando suprimir
quaisquer ímpetos de rebelião ou a raiva quando esta
tentava vir à tona por alguma provocação. “Sim, meu
senhor.”, respondia e, quando levava um “tapa”,
oferecia a outra face, sem sentir dor, pois se acostumara
a esta a tal ponto que nada lhe parecia suficiente para

422
fazê-lo sangrar. Suas relações com os empregados do
palácio eram cordiais, sem entrar em detalhes de foro
íntimo, uma ou outra com uma intimidade maior, como
no caso da senhora Gemma, uma velha governanta, com
a qual gostava de ir à Praça de São Marcos assistir a
celebrações religiosas; a que mais o marcara fora, num
dia abafado de verão, uma procissão em homenagem à
Virgem, que seguira para dentro da Basílica, permitindo
que a visitasse pela primeira vez. Anteriormente não
tivera o menor interesse em entrar naquela igreja, apesar
da suntuosidade externa, julgando que os cristãos
europeus valorizavam por demais a pompa e se
esqueciam da simplicidade evangélica. Os jesuítas
seriam uma exceção, e por isso ainda admirava e muito
seu falecido amigo e tutor, orando para ele todos os
dias. Contudo, no dia em que acompanhara a procissão,
o primeiro abalo fora sentido ao observar com mais
atenção os quatro cavalos sobre a fachada. Chegara a
escutar o galope simultâneo e a se ver sobre um deles;
ao seu lado, outros três homens, percebendo poucos
detalhes em cada indivíduo: um de armadura dourada,
semelhante a um arcanjo; outro em prata com adornos
lunares; e um terceiro um oriental, parecia ser natural do
Cipango, com uma vestimenta típica de um guerreiro
daquele país. A visão se dissipara de forma repentina.
Sabia que aqueles cavalos tinham sido trazidos pelos
venezianos do hipódromo de Constantinopla ao término
de uma guerra entre o Império Bizantino e Veneza que
se encerrara, ao contrário do que muitos esperavam no
início, com a vitória dos venezianos, que contavam com
os barcos mais ágeis e levaram a melhor nas batalhas
navais. Tinha curiosidade de algum dia visitar Bizâncio,
porém em sua condição de cativo não sabia se seria

423
possível. Evitava abaixar a cabeça, ainda que se sentisse
puxado para o chão; levantava-a a despeito do peso no
pescoço, freqüentes suas dores nos ombros, e rezava
para que sua cruz não se tornasse mais pesada do que já
era. Em São Marcos, gradativamente se distanciara da
procissão para observar os detalhes dos mosaicos, como
o da fachada, que se dividia em duas, a parte inferior
aberta em cinco portais, a superior terminando em
vigorosos arcos que davam a mesma impressão de
liberdade e movimento dos cavalos, dominada pelo
Cristo com o livro da Lei. “Como a sua palavra foi
distorcida...O que será que pensa de nós? Como um dia
desceu para se tornar homem, espero que tenha
compaixão, o que acredito que não lhe falta, como
demonstrou na cruz ao lado de um infrator das leis. No
entanto, eram as leis dos homens, não a Lei. Haverá
perdão para os que infringem a Lei de Deus? Tenho me
esforçado para não sentir ódio dos que destruíram a
minha família e me jogaram aqui, só que as minhas
forças ainda são pequenas, a minha vontade vacila e
tenho que voltar mentalmente ao passado para
massacrar aquela gente, como se pelo pensamento
pudesse colocar em prática alguma forma de vingança,
muito embora esteja ciente de que isso não serve para
nada além de me prejudicar. Eles pagarão quando for o
tempo. Apesar que não posso pensar assim, não sou
Deus para julgar, não conheço o íntimo do meu
semelhante, e guerras são guerras, são e serão sempre
insanas. Pai, rogo para que me dê um pouco do seu
Amor, nem que seja uma pequena parcela do que
mantém a terra sobre as águas inferiores, as águas
superiores sobre ela sem que desabem sobre nós e nossa
chama interna acesa; sem o Senhor não seríamos nada,

424
sequer existiríamos, pois é a sua Vontade que sustenta o
mundo como mundo...”, inúmeros artistas bizantinos
estavam trabalhando em Veneza naqueles tempos, desde
que a cidade selara a paz com o Império, com a
condição de passar livremente por suas ilhas, comerciar
sem restrições com as províncias e, pedido do doge
vencedor do conflito, Jacopo Mannini, trazer pintores,
escultores, músicos e poetas.
Bruno acompanhara pelos mosaicos os restos de São
Marcos sendo transportados para o interior da Basílica:
um par de prelados levava o féretro nos ombros ao
passo que o doge e alguns dignitários se agrupavam
junto aos portais à direita, enquanto da esquerda saíam
outros dignitários ao encontro do Santo e outros grupos,
mais isolados, se dispunham à esquerda e à direita,
envolvidos por uma ampla extensão de ouro que por
pouco não os colocava para fora da realidade terrena; a
igreja e o doge, o eixo religioso e o político, ficavam
assim em próxima comunhão.
Dentro da Igreja, deixara-se também transportar pelo
coro das religiosas que levavam um andor com a
imagem de Maria, sentindo-se levitar a um nível que se
fisicamente já se apresentava sobre uma plataforma
mais elevada em relação ao nível da praça, sublinhando
o aspecto sagrado, espiritualmente o impulsionara para
muito além. O espaço em forma de cruz grega tinha
proporções limitadas e todavia esbatidas, o mármore se
apresentando em mosaico no pavimento, recobrindo as
paredes em películas, destacando as colunas, ao passo
que o alto estava coberto de mosaicos em vidro e ouro,
dando para Bruno a impressão de flutuar sobre um
tapete oriental ricamente desenhado que o levava rumo
aos Céus com facilidade, uma brincadeira de infante

425
divino onde a penumbra servia para acentuar a
luminosidade da Arte. Os reflexos dos mosaicos como
que desfaziam os contornos das cúpulas e arcos,
conferindo uma amplitude celestial que abarcava oriente
e ocidente. Tratava-se da capela do doge, a
magnificência não podendo portanto ser menor.
“Quando o poder político e o religioso se encontram,
esse é o resultado: suntuosidade. Porém Cristo não disse
para dar a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus? Deus não precisa de ouro e mármore, por mais
belos que sejam o templo e os mosaicos. Não sei, estou
confuso...Ao mesmo tempo que me fascina e me eleva,
tudo o que existe aqui me entristece, como se para a
maior parte das pessoas a Palavra não fosse o bastante,
precisando ser reforçada por um ouro que mataria a
fome de milhares, de milhões; sinto-me impotente e
cansado. Virgem Santíssima: se está me ouvindo, peço
para que acalme o meu coração para que possa
acompanhá-la sem me dispersar mais...”
Outro incômodo residia na visão que tivera com os
cavalos, que não soubera interpretar. O futuro reservava
mais mistérios do que o passado e nenhum dos dois era
claro. O pior e o melhor estavam entretanto muito
próximos: a pessoa mais próxima a ele na residência dos
Foscari, Paolo sendo viúvo e portanto (ao menos
pensava ser competente nisso) dedicado a ela por
completo, sua herdeira, era Vanessa, filha única do rico
comerciante, olhos felinos, misteriosos e profundos,
cabelos pretos ondulados e sutis como os movimentos
de suas mãos e de seu corpo, uma suavidade dançante
que no princípio lembrara ao etíope uma pantera negra,
conquanto a moça fosse bem branca e gostasse de
vestidos alvos a despeitos das pupilas e fios

426
profundamente escuros. Tornara-se quase seu confessor,
visto que a jovem não gostava de padres:
- Quem eles pensam que são? Não são melhores do que
ninguém para julgar os nossos pecados e nos dizer como
e quanto devemos rezar. Valorizo as obras de Deus, não
as dos homens, por isso não vou à igreja. A minha mãe
que costumava me levar à missa, mas como o meu pai
não se importa...Aliás, com o que ele se importa?
- Ao mesmo tempo que reclama do seu pai, sente-se
aliviada por ele não ser religioso e não forçá-la a
participar de cerimônias. A sua alma enfrenta uma
contradição constante em querer presença mas valorizar
a ausência. Não é assim?
- Você me entende. Ele simplesmente não me dá nada.
Não me dá o que eu não gostaria, mas também não me
dá o que eu gostaria. Tenho vestidos, jóias, tudo ele me
traz das viagens que faz, e assim acredita ser um pai
dedicado e presente. Só que não é com coisas que se
conquista o amor. O amor não se compra, não é parte
dos negócios; nele barganhas não adiantam nada.
- Seres humanos também não se compram, mas ele me
comprou, como você sabe.
- E não sei como teve coragem! Por outro lado, foi
muito bom pra mim, ou não teria você aqui, o meu
único amigo.
- Sou apenas um escravo.
- Meu sabe que não é. Somos e seremos sempre
melhores amigos.
- Mas e os jovens venezianos e venezianas da sua
idade? Vêm muitos nas festas que o seu pai organiza. E
você parece que fica tão animada...
- São filhos e filhas dos amigos do meu pai, não meus
amigos. Logo ele me arranja algum marido entre os

427
herdeiros de algum comerciante ou banqueiro
rico...Assim vou ser muito feliz.- Suspirou e ironizou.-
Tão feliz como quando fico “animada” nas festas! Tenta
entender, meu querido: Veneza é o tempo todo um baile
de máscaras, não só no carnaval.
- Talvez lhe fizesse bem participar de uma missa. Sei
que acha monótono, que pensa que os sacramentos são
puras formalidades e os padres seres humanos tão
vulneráveis quanto nós, e de fato o são, mas algum dia
já pensei como você e mudei de idéia depois que tive
um padre, um jesuíta no caso, como melhor amigo...E
como um professor.
- Você teve sorte. Não conheceu os padres venezianos.
São um porre!- Pouco falava de si mesmo para Vanessa,
mas estava satisfeito, melhor assim, a intimidade entre
os dois residindo nas confissões dela e nas brincadeiras
e abraços mútuos. Quem precisava de algo mais? Às
vezes sentia que ela ia fazer alguma pergunta, que
estava interessada em saber mais sobre ele, porém tinha
receios e um pouco de medo que o etíope se retraísse e
se afastasse. Não era egoísta: não via a hora de também
ouvir, só queria que isso acontecesse por livre e
espontânea vontade, sem pressão.
Bruno também não falava sobre o que fazia para Paolo
Foscari além de carregar pertences e trabalhar como
responsável pela segurança de Vanessa, que fora o que
começara a aproximá-lo da moça ainda que no início ela
tivesse relutado:
- Não preciso desse gigante como uma sombra atrás de
mim o tempo todo! Ele me assusta...- Não ficara
magoado ao escutar essas palavras, compreendendo que
se estivesse no lugar dela também não teria gostado,
ciente que o negociante queria alguém que fosse como

428
uma redoma ao redor da filha, protegendo-a dos perigos
da vida e do mundo.- Como me arrependi de ter dito
aquilo na sua frente...- Confessara-lhe anos depois.- Se
você não fosse a minha sombra, eu não teria um amigo.
Antes, não tinha nem a liberdade de ter um amigo.
Nunca fui de sair, nunca pensaria em fugir de casa,
tenho medo do mundo como tinha de você; só que você
me deu a opção da amizade.
E Paolo nem se preocupava que pudesse vir a existir
uma atração entre os dois; afinal Bruno era uma redoma,
ou no máximo um cão de guarda...Jamais um ser
humano. Ela nunca se apaixonaria por um “gigante
sombrio"; não existia o menor risco. O etíope só tinha
tamanho físico na visão do comerciante; e o enviava
como enviaria um lobo assassino para, nas noites mais
caladas, entrar sorrateiramente na casa de seus
concorrentes e matá-los, deixando assim impérios
mercantis para crianças, herdeiras ainda imaturas que
ainda não sabiam o que fazer, oferecendo-se às viúvas
como um generoso tutor para que as famílias não
fossem à falência. Executara o mesmo golpe com
sucesso por três vezes, o africano variando nas formas
das execuções: veneno, degola e estrangulamento. Não
suspeitavam que fosse o mesmo assassino, visto que
Veneza de todo modo vinha atravessando um período de
criminalidade acima da média, Bruno às vezes levando
algum objeto e se passando por ladrão. “Deus me
perdoe...Sei que o que faço não é justo e que não
passará impune. Mas ao menos me dê a opção do
Purgatório, para que um dia possa reencontrar a minha
família...”, numa noite, sonhara com sua esposa, em um
campo de relva verde-dourada, os dois sob uma árvore,
o sol calmo no céu, observando e acompanhando o

429
vento em sua amenidade, lembrando-se depois de
algumas poucas palavras que haviam trocado, ainda
assim marcantes:
- Não se preocupe, meu querido. Não me deixo
envenenar com facilidade. Sei qual é a sua verdadeira
índole e onde está o seu coração, que sempre estará
conosco. Viva sem medo...- Acordara com uma forte
dor no peito; dias depois, Vanessa se aproximou
disposta a lhe dar paz, alguma paz...Acariciando suas
costas ao não se desgrudar no abraço que lhe dera antes
de qualquer palavra:
- Você está diferente. E sabe de uma coisa? Não é de
hoje; e vem me machucando, assim como sei que está se
machucando. Por isso, antes que se fira ainda mais,
gostaria que me falasse, mesmo que ache que não quer,
sobre o que te incomoda tanto. Sei que é do seu
passado...E que há uma mulher.
- Como pode afirmar com certeza?
- Mulheres sabem reconhecer esse tipo de coisa. Pode
enganar a si mesmo, mas não a sua amiga.
- Só uma amiga?- A pergunta fez com que a jovem
Foscari arregalasse os olhos, ainda abraçada ao corpo
dele, sem ver seu rosto. Não esperara uma mudança tão
brusca, mesmo que tivesse vindo buscar uma...- Não se
assuste...
- Não estou assustada. Só surpresa.
- O seu coração está batendo muito depressa.
- Como se fosse só o meu...- Do abraço do corpo para o
abraço apenas dos olhos, face a face; deram-se as
mãos...Apesar da tez de neve de uma e da de ébano do
outro, os olhos eram igualmente escuros; chamas-irmãs
que acarinhavam as cinzas. Vanessa sorriu e desviou o

430
olhar; desajeitado, ele beijou sua bochecha para só
depois se aproximar dos lábios.- Eu te amo, Bruno.
- Também amo você...- Disse antes de consumarem o
beijo; quanto à sua falecida esposa e aos seus filhos,
sabia que entenderiam, ainda mais depois da última
“conversa” que tivera em sonho. Enfim se dispunha a
viver sem medo.
- Mas você ainda não falou sobre o que te angustia.
Nunca me fala nada sobre o seu passado. Acho que está
na hora de dialogarmos e de eu parar de monologar.-
Mesmo com Paolo ausente e distante. em negócios a
resolver na Índia, tomaram as devidas precauções ao só
entrarem no quarto dela de madrugada, sob horário
combinado e os olhos atentos para os cantos e as
sombras, pois alguma língua maliciosa ou então
descuidada ou moralista (como no caso da senhora
Gemma) poderia colocar tudo a perder.
- Nunca foi culpa sua. Só você falava porque eu não
queria me abrir. Ou até queria, mas sentia que não era a
hora ainda.- Confessou entre os lençóis da espaçosa
cama da rica jovem; ainda que seu grande leito também
fosse muito confortável, não se comparava a ter ao seu
lado e poder tocar um corpo feminino ainda mais macio
e infinitamente mais delicado.
- Bom...A hora chegou. E o que tem a me dizer?
- Despejar assim, do nada? É um pouco complicado.
- Você deixou alguma mulher na África?
- Deixei...No túmulo dela.
- Ah, sinto muito...- Vanessa ruborizou, dando-se conta
da infantilidade de seu ciúme.
- Ela morreu durante o ataque de uma nação rival. Ao
contrário do que os europeus pensam, as ilhas africanas
possuem muitos povos diferentes, civilizações distintas

431
e modos de ser e agir únicos. As rivalidades são
inúmeras.
- E vocês tiveram filhos?
- Tivemos. Também estão mortos. Mas não perdi as
esperanças: algum dia pretendo revê-los, e espero que
dessa vez seja eterno. Apesar que eu duvido, com esse
peso nos ombros...
- E por que se sente assim? A que peso se refere?-
“Será que ele se sente culpado, pensando que traiu a
esposa comigo? Não a conheci, então, caso esteja nos
vendo agora, onde estiver, peço que me entenda. Não
tenho culpa por amar o seu marido. Da mesma maneira
que um dia você se apaixonou, eu me apaixonei. Não
parece fazer sentido falar por pensamento com uma
finada que nem deve estar aqui...Mas se Deus me
entende, Ele levará a mensagem para que ela
compreenda e não tenha raiva de mim. Os tempos
passam e ela se ausentou, enquanto eu estou aqui.”,
tentava conter o ciúme, com uma certa tristeza por ele
ainda desejar reencontrá-la, se bem que haviam tido
filhos, um laço forte demais para ser cortado de um
golpe. “E comigo será que não pode ser eterno?”, aos
seus sonhos se opunha de imediato a realidade: como
poderia ter um filho de Bruno e assim ligá-lo a ela? Seu
pai nunca aceitaria...Já tinha outros pretendentes. A
menos que...
- Aos meus pecados, desde que passei para o lado do
seu pai. Desde que ele me “comprou”...- “Está na hora
de me abrir...Não agüento mais. Não consegui ser fiel a
você, Laoké. Mas você mesma me disse, se foi você no
sonho, que devo viver sem medo. E não posso mentir
pra ninguém, muito menos pra mim: eu a amo...Amo
Vanessa. Esses olhos me hipnotizaram...E ela é minha

432
única escapatória para que a minha alma não se perca de
uma vez por todas.”
- Como assim?- Sua mente ficou abruptamente vazia.
- O seu pai anda cometendo assassinatos. Ele é o
mandante, e eu o executor.- A resposta, dada sem
titubeios, deixou a moça em estado de choque; esperava
tudo de Paolo Foscari, menos que fosse um criminoso e
que ainda por cima usasse mãos inocentes para perpetrar
seus atos abjetos.- Vanessa! Fique calma por favor...-
Acolheu-a em seus braços.- Você ficou pálida.
- Não foi nada...Só uma tontura forte! E o meu coração
disparou.
- Percebi isso também. Vou pegar um pouco d'água.-
“Devia ter sido mais sutil...”- Mas se piorar vou ter que
chamar o médico, independentemente das suspeitas que
possam cair sobre mim depois.
- Não faça isso. Pra mim pode ser pior ainda.- Para a
sorte dos dois, ela logo se recuperou, bebeu a água com
voracidade e puderam voltar a conversar com calma.
- Mas se segure...Se você passar mal a cada revelação
escabrosa que eu fizer, vou me calar de novo.- Advertiu.
- Não. Agora que começou, tem que ir até o fim, Bruno.
- Quanto a provas, tenho muitas. Plantas das casas que
arrombei, objetos dessas casas, cartas do seu pai
descrevendo o que eu tinha que fazer, me passando
informações sobre quem era a vítima e o que esperar
dela...E você conhece a letra dele.
- Não precisa me provar nada. Não subestime o meu
sentimento; acredito e confio em você. Será que ainda
não se deu conta disso?
- Me perdoe...- Dessa vez o etíope ficou embaraçado.
- Mesmo assim, gostaria de ver as cartas. Ver até que
nível o meu pai desceu...

433
- Depois mostro pra você. Mas antes quero que ouça o
que tenho a dizer.
- Claro. Não imagina por quanto tempo esperei isso...-
Respirou fundo, abrindo seus poros para o que iria
ouvir; o etíope foi desabafando à medida que detalhava
o inferno cujas chamas se culpava por atiçar, ainda que
não fosse o fornecedor do combustível. Algo lhe dizia,
contudo, que o poço do Mal era gélido.- Depois de tudo
isso, fico imaginando o quanto você sofreu por todo
esse tempo! E como me arrependo por não ter tomado
antes as rédeas da situação, forçando você a se abrir. Fui
pequena, covarde, imatura, medrosa...
- Não, Vanessa. Já chega, não foi nada disso. Foi uma
decisão minha.
- Só que eu podia ter ajudado...- Não reteve mais as
lágrimas.- Agora só resta uma coisa pra gente fazer...-
Chorava tanto por Bruno como por si mesma e pela
alma e dignidade de seu pai.
- No que está pensando?- Pareceu assustado.
- No mesmo que você, tenho certeza...Vamos fugir.- Ao
pasmo do etíope, que podia até ter pensado nisso, porém
sem acreditar que ela tivesse tanta coragem,
prosseguiu:- Não me importo com luxo, com conforto,
com nada! Do que adianta levar uma vida de princesa se
tudo não passa de uma mentira?? Eu só quero você
daqui pra frente, Bruno. Só você!- Juntos sobre a cama,
se abraçaram, ele derramando suas primeiras lágrimas
desde que perdera seus filhos e esposa...
Entrementes, alguém que esperavam que estivesse
longe não estava tanto assim. Alguns dias antes, logo
depois de anunciar sua viagem à Índia, Paolo Foscari
retirara um livro da estante em seu escritório e dali se
abrira uma passagem secreta, levando-o por uma

434
seqüência de escadas e galerias que terminavam em um
ambiente totalmente escuro, sem nenhuma tocha ou
lâmpada a óleo, onde se sentara e diante de um livro
aberto, cujo conteúdo, devido às sombras, não era de
forma nenhuma visível. Ali fechara os olhos e dera a
impressão de adormecer, só acordando na noite em que
Bruno e Vanessa estavam se declarando; deparara-se, ao
reabrir os olhos, com luzes intensas que saíam daquelas
páginas; símbolos e letras avermelhadas haviam
preenchido as paredes, as colunas e o chão; observando-
os de perto, percebia-se que eram os mesmos contidos
nas folhas, que, movidas por um “vento”, espalhavam
seu conteúdo. Uma chama ascendera logo atrás do livro
e o comerciante parecia na expectativa, até que uma voz
grave retumbara:
- Menos mal que retornou, filho do barro. Como pôde
perceber, cumpri todas as minhas promessas. Você se
tornou ainda mais rico, as famílias se curvam à sua
prosperidade e não desperta sequer as menores
suspeitas, encarregando-se dos pequenos milionários
órfãos como um magnânimo preceptor. As almas dos
pais deles me foram dadas pela eternidade e nisso
residiu seu pagamento até agora, mas sei que deseja
mais...- Da labareda uma criatura estranha foi tomando
forma, ossos e certos órgãos e vísceras expostos, pouca
pele, o ventre aberto e costas curvas esqueléticas,
embora alta, passando dos três metros de estatura, bico
recurvo e repleto de dentes afiados dispostos de forma
irregular, olhos sangrentos, braços compridos que se
esticavam à vontade e terminados em dedos que por si
eram garras, fortes o bastante para um apenas esmagar
uma rocha com um mínimo de pressão, cauda rastejante
e flamígera com agulhões.

435
- Você sabe o que é, príncipe Mammon. Não preciso
mais verbalizar.
- A palavra em determinadas ocasiões é muito
importante.
- Quero ser o novo doge!- Paolo não resistia...Não
conseguia frear sua imaginação, ao seu redor escritos e
pronunciados títulos de honra e a cidade ao seu dispor,
afinal com o tempo poderia modificar ou mesmo
eliminar a promissio ducalis da mesma forma que
conquistara a confiança das mães dos órfãos ricos:
humilis Dux provinciae Veneciarum divina gratia
Venetiae Dux; Dux Venetiae Dalmatiae Croatae;
reconhecido pelo papa como Dominator Marchiae;
Totius Istriae dominator; poderia ser chamado pelos
bizantinos de imperialis ipathus, Dux ac spatarius
Veneticorum, Imperialis patricius archispatus
imperialis protosevastos o protosebaste. Não lhe faltaria
tempo para percorrer o palácio ducal e reconhecê-lo
como seu: uma morada que sempre lhe parecera
fascinante, bela e sem peso, como uma renda com seus
tantos desenhos e pináculos, o aspecto aberto, os
requintes; nada mais adequado à sua personalidade,
vendo-se montado sobre o leão alado a sobrevoar as
águas; na sala do Senado, chamaria os Pregadi, que se
submeteriam à sua autoridade inabalável. Tinha vontade
de dar pulos de alegria ao vislumbrar seu futuro.
- Sabe que para isso o que lhe será pedido seguirá um
grau de exigência maior.
- Pode pedir qualquer coisa, meu senhor. Este servo
está disposto a atender seu desejo.
- Até hoje só pedi as almas de homens poderosos e
gananciosos, muito úteis aos meus propósitos. Porém
desta vez não quero uma alma suja para que eu possa

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usar. Quero uma alma limpa e saborosa, doce, que eu
possa corromper e fazer minha. Quero algo que lhe é
muito precioso...Se quer obter ouro, terá que me pagar
por isso, futuro doge.
- Ao que está se referindo?- Calafrios percorreram o
corpo de Paolo, que na seqüência esquentou
demais...Sentiu pavor, não sabia explicar em relação ao
quê.
- Preciso da alma de sua filha, da sua pequena Vanessa.
- Não.- Retrucou no ato.- Isso não!
- Quer se tornar doge ou não?
- Claro que sim! Mas tudo tem um limite!
- Você falando de limites e fazendo referência a alguma
espécie de moral? Não teve o menor receio ao deixar
crianças inocentes sem seus pais. Todavia, na hora de
lidar com seu próprio sangue...
- Eu não entreguei as crianças a você! Apenas homens
ávidos e corruptos, avaros ou pródigos! Se tivesse me
pedido um menino ou uma menina, eu nunca teria
aceitado.
- Tem certeza disso? Duvido muito. A situação só
mudou porque pedi a sua filha.
- Diga-me, príncipe Mammon, que esta é apenas uma
brincadeira, um capricho do senhor.
- Não se trata de um capricho. Quero Vanessa...-
Escancarou sua boca e desta pingava uma saliva
pegajosa misturada com sangue.
- Não...Eu me nego.
- Tolo! A sua negação foi dada com firmeza. No
entanto, as almas terrenas que me entregou me garantem
que agora eu consiga ficar materializado por um bom
tempo e possa buscar o que quero.

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- Não..Eu não vou permitir...- Tentou se levantar; no
entanto, tremia e não tinha forças, devorado que estava
sendo pelo medo.
- Não vai? De que forma? Humano fraco e
insignificante...Terei a sua Vanessa e as almas e a carne
de todos os que moram nesta casa! E você não irá se
tornar doge, afinal disse “não”, o que quer dizer que não
queria tanto assim ser doge! Uma pena: se tivesse dito
sim, teria comprado meu ouro; disse não e eu fico com o
ouro e com o seu dinheiro.
- Você trapaceou, demônio! Me enganou o tempo
todo!- Com esforço conseguiu mover a língua com
intensidade o bastante para esbravejar.
- Não, você que se enganou. Não menti para você em
nenhum momento. Se tivesse dito que a sacrificaria,
logo seria eleito doge...Todos se comoveriam com o
massacre que certos delinqüentes teriam feito na casa
dos Foscari! Mais uma família vítima de vis assassinos!
Contudo, preferiu dizer não. É o que os humanos fazem:
negam, em sua arrogância, o que não são capazes de
compreender. Bando de ignorantes...
- Senhor Jesus Cristo...Por favor me ajude...- Fechou os
olhos e se pôs a orar enquanto começavam a sair
lágrimas de desespero.
- Oh...Agora chama por aquele que por tanto tempo
renegou? Que comovente! Dessa forma sou eu quem vai
acabar chorando, Paolo.
- Cale a boca, seu monstro vil! Não sei como me deixei
levar...Como me deixei corromper dessa forma...- Suas
pernas ainda não tinham forças para erguer o resto de
seu corpo.
- Você pode ter forma humana, mas é um monstro
muito mais feio e vil do que eu.- Mammon moveu suas

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garras e em um instante o sangue esguichou para as
paredes e todo o ambiente voltou a se apagar...O
demônio não demoraria a subir as escadas.
- Eu já estou pronto. Vai levar mais alguma coisa?- Nos
aposentos de Vanessa, Bruno perguntou à sua nova
amada.- Disse que não queria luxo, só que está
enchendo as malas...- Brincou.
- Tudo tem um limite, não é, meu amor? O máximo que
eu puder levar, eu levo.
- Tudo tem um limite, menos os meus braços pra
carregar o que for...
- Sem ofensas, mas você está acostumado com peso.
- E como...- E ficaram em silêncio por um tempo,
enquanto ela terminava de arrumar os pertences.
- Não vejo a hora de sair dessa cidade...Pronto! Acho
que agora chega.
- Vamos então. Imagine se o seu pai fosse chegar de
repente...
- Não fala uma coisa dessas! Vamos logo...- No
entanto, a felicidade e o entusiasmo dos amantes em
fuga, mesclados a um certo frio na barriga, sofreram um
choque quando, ao irem descer os primeiros degraus, se
depararam com a escada para o saguão manchada de
sangue e, mais embaixo, com a cabeça de um dos
mordomos dos Foscari.- Meu Deus...Mas aquela é a
cabeça do Giacomo!
- O que está acontecendo aqui? Quem entrou aqui?-
Assustado, o etíope olhou ao seu redor; a filha de Paolo
sentiu azia e tontura, dessa vez se controlando sozinha
para não perder os sentidos.
- Será que o meu pai de alguma forma nos enganou e
descobriu tudo??

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- Isso não tem lógica! De que jeito se ele nem está
aqui?? E por que mataria o Giacomo?
- É verdade...Isso não teria motivo...- Tomaram
coragem e desceram juntos, ela buscando ficar o mais
perto possível dele, cada vez mais gelada, enquanto
Bruno sentia seu corpo em brasa. Qual o pior Inferno?
Ao olharem pela casa, corpos e pedaços de corpos...A
senhora Gemma mutilada. Todos os empregados
assassinados.
- Só pode ser obra de algum demônio...Não existe outra
explicação.
- Vamos sair daqui logo então!- O pânico não protegeu
a jovem, que de repente foi atingida na cabeça por uma
espécie de dardo, porém muito mais letal do que
qualquer disparo comum, e despencou no chão já sem
vida, o sangue se espalhando debaixo de seu crânio
rachado. O africano ficou estático, em choque, ainda
sem conseguir soltar as malas.
- Quem diria...Interrompi a brincadeira dos dois
pombinhos. Que castigo para Paolo Foscari...Sua filha
apaixonada por um escravo! Ele nunca teria esperado
isso...- Mammon vinha vindo na direção do etíope, um
colar de cabeças humanas em volta de seu pescoço;
entre estas, a do ganancioso comerciante.
Seus sonhos sendo demolidos mais uma vez por uma
carnificina, Bruno largou as bagagens e foi com as mãos
nuas, após liberar um urro, ao encontro do demônio; não
tinha mais nada a perder, a morte seria na verdade uma
dádiva: “Não vou lutar pra vencer, porque sei que é
impossível. Mas por mais medo que tenha da dor, tenho
esperança que vai ser rápido e que logo vou estar
reunido no Paraíso com Vanessa e minha família...”,
refletiu que estes seriam seus últimos pensamentos;

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após pedir perdão a Cristo e a Deus por seus crimes, se
lançou sobre Mammon.
- Você não tem vontade de viver. Se é assim, não me
interessa.- Foi um novo golpe ouvir isso depois da
esquiva do demônio, que reapareceu em outro canto do
salão.
- O que está dizendo, seu monstro?! Quem é você pra
definir o sinto??
- Sou alguém que sabe muito bem ler os desejos dos
seres humanos; sou o príncipe dos desejos. E você
deseja a morte...E ao morrer ficaria fora dos meus
domínios, não sei se entre os suicidas ou se no
Purgatório. Portanto, não tem valor.
- Desgraçado...O que você vai fazer com a Vanessa?
- Veja com os seus próprios olhos.- Uma fumaça
passou a sair do cadáver da moça, ressecando-o por
completo e dissipando os ossos em poeira quando só
estes restaram. O “vapor” da vida foi para o peito do
demônio, que inspirou profundamente, se deliciando
com aquele ar, ígneo e ao mesmo tempo úmido, fixo e
simultaneamente volátil, redobrando suas forças; deu
um salto repentino sobre um lustre, derrubando-o, e fez
o mesmo em todos os outros espalhados pela casa,
apagando também tochas e lâmpadas, reduzindo a
mansão dos Foscari à escuridão absoluta. Bruno não
poderia fazer quase nada, mesmo que quisesse...Pensou
em pegar alguma espada e cortar a própria garganta,
mas seu braço já tremia só na perspectiva de encostar
alguma lâmina fria perto de seu pescoço. Restou-lhe
uma pergunta:
- Qual é o seu nome, criatura do Inferno?
- E por que isso interessa a você? Oh...Estará pensando
em algum dia se vingar?- Reapareceu pingando sangue

441
e saliva da boca na frente do homem, seu rosto grotesco
claramente discernível nas trevas e seu hálito
desagradável ainda mais.
- Se é verdade que pode ler os desejos dos homens, está
lendo bem os meus.
- Acha que devo acabar com você agora para garantir o
meu futuro?
- Se é o que pensa...
- Não me faça rir! Só para contrariar você, que está me
parecendo muito divertido, permitirei que viva
mais...Muito mais! E irá me procurar por todas as
partes, mas sabe onde voltará me encontrar? Com mais
freqüência do que imagina, nos corações gananciosos
dos seres humanos...
- Vou caçá-lo por todas as partes. No fundo, você já
estava por trás de tudo quando perdi a minha esposa e
os meus filhos.
- Quanto ódio nesse seu coração...E somado à paranóia!
- Paolo Foscari era um bruxo, não era? Por isso esta
noite aconteceu esse desastre...
- Diria que um aprendiz de bruxo...Um amador.
- Pois juro vingança também contra todos os bruxos,
magos e supostos magos.
- Você deduziu bem...Como conseguiu?
- Já li sobre resultados de evocações que falharam. E
um amigo meu me falou a respeito disso.
- Então posso esclarecer um pouco mais: ele me
evocava para que ninguém suspeitasse do que fazia, a
fim de que os crimes passassem impunes e ficasse cada
vez mais rico. No entanto, a situação saiu do controle
quando ele me pediu para ser doge. Então eu quis algo
bem valioso em troca!
- E ele aceitou sacrificar Vanessa??

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- Não está vendo a cabeça dele aqui?
- E daí?
- Sei que os demônios têm a fama de não honrarem a
palavra, mas garanto que isso é infundado. Eu não teria
matado Paolo Foscari se ele não tivesse se negado.
- Pelo menos pingos de vergonha, honra e amor ele
ainda tinha.
- Ainda que não acredite, a filha era tudo para ele.
Assim como ser doge o objetivo total. Se ele queria um
“tudo”, tinha que me dar outro “tudo”.
- E eu no meio de feitiçarias e ambições
alheias...Alheio a isso tudo. Uma marionete.
- Um escravo tolo...Um fracote...Um boneco de pano
para ser queimado...
- Cale a boca...
- Antes de ir embora...Posso lhe fazer uma pergunta? É
simples...- Silêncio.- Já que não me reponde, vou
perguntar de qualquer jeito: jura vingança também
contra as bruxas?- Bruno tentou atacar com seus
punhos; entrementes, sombras de mulheres o
envolveram e o acorrentaram, ainda que não com
correntes físicas, por mais que parecessem, sob o riso do
inimigo; este se afastou e, à medida que desaparecia,
alguns vultos femininos ficaram claros: a senhora
Gemma, algumas empregadas da casa...E Vanessa,
agora escravas do terrível demônio. Ventos poderosos
escancararam as janelas da casa e quando cessaram
ninguém mais restava, sequer os corpos das vítimas;
Bruno ajoelhado no chão, sem correntes. Sozinho nas
trevas e entre os móveis em absoluta ordem, apenas os
lustres quebrados e tochas e lâmpadas apagadas. Livre!
Mas a que preço?

443
Passado – XII

O Império Bizantino, que se estendia naqueles tempos


pelas ilhas que um dia haviam formado a Grécia e a
Anatólia, com capital em Constantinopla e tendo outros
famosos centros como Atenas e Antioquia, possuía um
imperador paralelo: Heráclio, o pirata de uma nau cuja
peculiar bandeira mostrava um soldo de épocas idas, no
qual o imperador Heráclio, que vivera séculos antes,
aparecia ao lado de seus filhos Constantino e
Heraclonas. A escolha não fora um acaso: o capitão
daquele navio tinha de fato uma antiguidade dessas, um
soldo de ouro puro com aquelas imagens; se Heráclio
era seu nome verdadeiro ou não, isso nem mesmo seus
companheiros de anos sabiam.
- Por que estamos indo para além das colunas de
Hércules? Se na Europa e na África estamos infestados
de demônios, mais além se estende o mar tenebroso,
com monstros que montam guarda em frente ao próprio
Inferno. Qual o sentido dessa viagem?- Comentou um
homem baixo e corcunda, conversando na proa da
embarcação com seu superior.
- Você não me ouviu? Ninguém nunca foi além para
dizer que lá não existe mesmo esperança. As minhas
suspeitas é que temos terras cheias de ouro, que a Igreja
e os reis desejam manter ocultas. Principalmente a
Igreja! De onde ela tira tanto ouro para suas
suntuosidades?- Aquele era o rebelde Heráclio, que
recém fizera quarenta anos mas ainda dizia à sua
população que tinha trinta e cinco...Um olho castanho e
brilhante, e o outro perdido; cabelos pretos curtos
repicados, boa estatura e músculos dignos de um lobo
do mar, uma cimitarra amarrada à faixa que envolvia

444
sua cintura, calça e camisa rasgadas, que porém se via
que haviam sido de fina produção.
- Muitos foram e não voltaram...
- Com muito ouro, qualquer um pode mudar de
aparência e se tornar um desaparecido.- Acariciou a
barbicha que usava; pela primeira vez iam sair do
Mediterrâneo, delimitado ali entre as ilhas da Ibéria
(onde ficavam reinos como Castela e a Lusitânia) e da
Mauritânia, e não se dirigiriam para o norte pela parte
do Atlântico conhecida, uma aventura que poucos
ousavam e da qual não se tinha registro que alguém
tivesse retornado. Por isso o medo dos tripulantes, que
mesmo assim, amigos em verdade que eram, iriam com
seu capitão até o Inferno, e alguns acreditavam que isso
fosse literalmente acontecer. A fidelidade e a confiança
não se tratavam de frutos do acaso: haviam obtido e
crescido muito desde quando tinham começado a tomar
parte do Heraclonas, o nome daquele barco sendo uma
homenagem ao filho do imperador de outrora. O navio
de Heráclio era um dromon, furtado da própria frota
bizantina em seu brilhante começo de carreira,
constituído por três velas triangulares e duas filas de
remadores, necessitando assim teoricamente de 200
piratas de braços fortes para levá-lo adiante com uma
certa rapidez, armado com balistas e outras máquinas de
ataque relativamente sofisticadas que projetavam dardos
de ferro, bolas de chumbo ou o famoso fogo grego
típico dos bizantinos, estendendo-se por cinqüenta
metros de comprimento e tendo sete de largura.
Contudo, a tripulação ali era de no máximo quarenta
homens...E os remos se moviam sozinhos, sem força
muscular; como podia ser possível?

445
- Mas e se as histórias a respeito do mar tenebroso
forem reais?
- Então, meu amigo...- Deu um forte abraço lateral no
companheiro de viagem, fazendo com que este até
levasse um susto.- Vamos ter que assaltar o próprio
Diabo! Eu não tenho medo, você tem? Ele deve estar
cheio de ouro. Tudo o que roubou dos pactuantes dele,
encerrados os prazos...
- Pensando bem...O senhor pode até ter razão, capitão!-
Gaguejando, o sujeito acabou por concordar; Heráclio
liberou uma gargalhada:
- Como são volúveis esses meus homens!
- Porém estáveis o bastante para não o abandonarmos.
- Está certo, meu bom Sergius! Está certo!- Não se
tratava de fato de um barco qualquer; os remadores do
Heraclonas eram espíritos de escravos a serviço de
Melissa, a única mulher na tripulação, e não uma
mulher comum, sendo companheira de Heráclio desde
seus primeiros tempos na pirataria: conhecera-o em
Constantinopla quando ainda era um reles ladrão, tendo
crescido órfão (após seus pais, vítimas um de doença do
coração e a outra de uma infecção, terem lhe deixado a
preciosa herança de um baú com algumas calças,
camisas e meias cheias de pulgas), criado por um tio
que vivia a espancá-lo e portanto não vendo a hora de se
retirar da casa daquele velho ranheta, não tendo a
covardia de revidar ao adquirir força para isso; estava
com dezessete anos quando conhecera a bruxa, numa
época em que esta fazia serviços de cartomante na
capital do Império. Ainda que detestasse oráculos, se
vira irresistivelmente atraído pelos anúncios na entrada
da tenda daquela mulher, esperando encontrar alguma
bruaca e dando de cara com uma jovem de olhos azuis e

446
longos cabelos pretos cacheados, trajada toda de
vermelho, do vestido decotado ao lenço exótico; fora
ela, com seu sotaque italiano, que o convencera, nem ele
sabia explicar como, claramente enfeitiçando-o depois
de terem feito amor ali mesmo, uma vez fechada a
barraca, a entrar armado com uma faca e sua confiança
em um dromon da frota de Bizâncio, levado até este de
madrugada por uma estranha criatura alada, que um
pouco lembrava um corvo e um pouco um morcego, de
grandes dimensões; no início, não soubera o que fazer,
depois encorajado pela chegada de por volta de
duzentos “homens”, na verdade sombras e contornos de
homens que traziam espadas, redes, lanças, flechas,
escudos e, o melhor de tudo isso, não morriam, bastando
que Heráclio desse as ordens, e assim colocaram um fim
na tripulação que então ocupava o barco. Logo chegara
Melissa, pronta para levar uma vida de aventuras em
alto mar. Não sabia se estava vivenciando um sonho ou
um pesadelo. E dessa forma obtivera sua bruxa, que não
envelhecera sequer um dia desde quando tinham se
conhecido, e seu navio.
- Até hoje não entendo. Por que você precisou de mim?
Por que não fez tudo sozinha?- Indagaria a ela anos
depois.- Sendo uma feiticeira tão poderosa, acho que
poderia até tomar a frota inteira do Império sem precisar
de mais ninguém.
- Não exagere, meu querido. Os rapazes só podem
interagir com a matéria, estando invisíveis ou
assumindo a forma de sombras ou vultos, às custas da
minha própria energia vital, e fico exausta em batalhas.
Hoje sei quais os meus limites, só que quando comecei
exagerava e chegava a perder os sentidos e tudo ia por
água abaixo, já que precisam da minha concentração

447
também. Remar pelo menos desgasta pouco. Ainda bem
que tenho os meus elixires; sabe quantos anos tenho na
verdade?
- Você me disse uma vez. Cento e catorze...Mas eu me
recuso a acreditar.
- Bobinho...Sempre cético! Mas não reparou que
enquanto você vem envelhecendo eu não ganhei nem
uma mísera ruga?
- Isso às vezes me dá medo. Pode encontrar algum
pirata jovem e me trocar por ele.
- Sempre um bobo...Vou te explicar de uma vez, apesar
de você não acreditar nos oráculos: sou uma sacerdotisa
da tradição antiga, na verdade nunca fui uma
cartomante, e só montei aquela tenda para encontrar o
prometido que Apolo tinha me anunciado há muitos
anos atrás, quando comecei nesse caminho. Ele me
apareceu em uma vivência astral na forma de uma
serpente dourada, o ofídio do sol, e sussurrou no meu
ouvido: “não ouse contrariar o seu destino. Até mesmo
os deuses obedecem a ele. Siga as minhas instruções e
alcançará a felicidade”, e foi seguindo o que ele me
disse que montei a tenda e esperei que você aparecesse.
Nunca tive o menor interesse em tomar a frota de
Bizâncio; só em encontrar o homem que me levasse por
uma jornada pelo mundo e para dentro de mim mesma.
- Pelo mundo já viajamos um pouco. Mas pra dentro de
si mesma?
- Os antigos sempre diziam: conheça a si mesmo. E o
mar me ajuda muito nisso...Não há um espelho melhor.
Além do mais, essa viagem que estamos fazendo
representa muito mais do que simplesmente
encontrarmos as minas de ouro da Igreja ou o Inferno.
Trata-se de uma viagem de autoconhecimento e de

448
conhecimento do mundo, o que sempre busquei.- Com
relação ao “elixir” de Melissa, não o dividia com
ninguém, nem mesmo com seu amor, dizendo que
quando ele morresse chegaria também a sua hora,
partindo para o outro mundo automaticamente ao deixar
de ingerir sua poção, não havendo portanto sentido nele
tomá-la, ao menos em seu raciocínio, o que de todo
modo o deixava enervado e confuso: por que
precisavam se curvar ao destino e aceitar a hora da
morte predestinada pelos “deuses” se podiam ser
imortais ou ao menos aproveitar uma longa juventude?
Heráclio suspeitava, e estava certo nisso, que a panacéia
de sua amante não era eterna, e que ela tinha um
tremendo medo que esta acabasse e se tornasse velha
antes que ele morresse; o futuro anunciado pelo deus era
perfeito: morreriam no mesmo dia. Mas a vida às vezes
prega peças até nos deuses e o pirata não se deixaria
levar por argumentos, pois não haviam sido estes que o
tinham convencido a adquirir (jamais roubar!) o
Heraclonas, e sim uma verdade profunda, de seus
abismos interiores, do mar tenebroso onde vivia junto
com Melissa, realidade da qual se dera conta desde a
primeira vez que escutara sua voz, já carícias ainda que
não corporais; carícias de oceano, ondas maleáveis e
femininas, que se não sabia explicar com a razão
compreendia com extrema clareza por meio do que os
místicos chamavam de alma, que devia ser para o
homem o que o mar era para o planeta; quando descera
das costas daquela criatura no dromon, estava
convencido que tivera como guia seu anjo da guarda ou
seu demônio pessoal, que na sua visão eram a mesma
coisa sob máscaras diferentes, no íntimo nada além da
“alma”, o espelho da vida que lhe permitira conhecer

449
sua fascinante bruxa italiana. Jamais fora manobrado; e
os meios não importavam.
A feiticeira fazia seu elixir em um laboratório nos
fundos do navio que nunca abrira para ninguém, nem
mesmo para Heráclio, e não adiantavam chaves nem
mãos para uma porta que não possuía fechadura e
resistia tanto a golpes corporais como a fendentes de
espada; sua madeira não queimava, não rachava e não
era perfurada, ao que parecia permanecendo como um
compartimento estanque intacto e hermeticamente
fechado caso o restante da embarcação fosse destruído.
O ingrediente fundamental da poção era um pó que
lembrava vidro vermelho moído, bastando uma pitada
para produzir milagres, ainda assim finito...Tentara
multiplicá-lo de todas as formas, sem êxito. O presente
que alegara ter recebido diretamente de Hermes, irmão
de Apolo, era um peixe saboroso e já preparado, não um
meio de aprender a pescar.
- Você sabe de onde vem o meu nome, não é?- O
capitão adorava provocar um de seus homens, Arístaco,
que não tinha nenhuma instrução, rústico e desajeitado,
a barba ruiva e os olhos azuis fúlgidos, muito embora o
amasse e admirasse por sua simplicidade e seu caráter.
- Não tenho a menor idéia, senhor. Só o que sei é que
Heráclito foi um grande filósofo.
- Meu nome não vem de Heráclito de Éfeso! Lá tenho
cara de pensador? Se bem que sou um pouco “obscuro”!
Vem de Heráclio, um antigo soberano de Bizâncio, que
ascendeu ao trono após se rebelar junto com seu pai
contra o então imperador Focas, tendo-o executado
pessoalmente.
- Acho que um pouco em comum com ele o senhor
tem...

450
- Quer dizer que sou um assassino?
- De forma alguma. Porém não mede esforços para
alcançar seus objetivos. Se Focas era um tirano, o que
Heráclio fez não foi assassinato. Da mesma forma que o
senhor não é um simples pirata.
- E por que acha que não?
- Não são apenas os vivos como também os mortos que
o seguem. Um homem comum não suportaria, ficaria
louco; acho que o destino do senhor vai muito além do
que consegue imaginar.
- E é por isso que me acompanha?
- Algo me diz que se estiver com o senhor quando
chegarmos ao Paraíso, também ascenderei aos Céus. O
mar tenebroso não será um desafio à altura.
- Heráclio reorganizou o exército bizantino,
desenvolvendo o conceito de outorgar terras em troca do
serviço militar hereditário, e reconquistou domínios
tomados pelos persas. Eu reorganizei o conceito de
pirataria no Mediterrâneo, empregando corpos e
espíritos para atacar, tornando os espíritos corpóreos,
oferecendo-lhes o feudo da matéria, e os corpos
espirituais, infundindo-lhes inspiração para lutar e
seguir adiante sob ideais e propósitos maiores. Não
tinha territórios a recuperar, mas domino os mares que
percorro. É verdade...Tenho algo em comum com meu
homônimo; e me tornei o imperador clandestino de
Bizâncio.- Seguiram mar adiante, uma vez encerrado o
Mediterrâneo, até a navegação começar a ficar
dificultosa à medida que entravam em águas mais
escuras e espessas e uma neblina passava a envolver o
convés.
- Parece que entramos no mar tenebroso.- Melissa
comentou com seu amante.- Agora é pedir aos deuses

451
para que nosso fado não seja o de encerrar aqui os
nossos dias.
- Do que está falando, mulher? Farei deste mar
“tenebroso” também meu mar, dobrando o que houver,
impondo a minha força sobre o que ou quem ousar
levantar alguma espécie de voz contra mim! Ouça os
ventos! Estão silenciosos. Têm medo de mim.
- Não seja tão pretensioso. Não é que estão
silenciosos...É que não há vento. E não percebeu o
aumento da temperatura? Está abafado demais...Essa
névoa parece o vapor que sai de um caldeirão.
- Calma, minha cara...Claro que também estou
brincando. Mas de que adianta dizer: “como esse lugar é
assustador!” ou desistir e retroceder? Temos que encarar
o nosso destino!
- Confesso que estou com medo das faces de Jano.
- Até agora não cruzamos com nenhum monstro
marinho.- Bastou dizer isso para o dromon sofrer com o
impacto de uma batida com algo imenso; um ciclone se
formou, levando embora as brumas, ao passo que um
turbilhão assumia o controle das águas. A bruxa foi
lançada contra o chão e quase bateu a cabeça,
protegendo-se com suas próprias costas, Heráclio se
segurando por pouco; alguns de seus homens chegaram
a ser lançados para o mar, os remos passando a exibir
um comportamento caótico...Tudo numa velocidade
estonteante.
- Mas o que é isso?...- Melissa sussurrou, ainda sem
conseguir se levantar, apavorada com os ventos, antes
ausentes, de súbito furiosos; presentes dessa maneira
que não os queria!
- Ei, você está bem??- Contudo, o que mais chocou o
capitão, depois de se certificar que sua amante estava

452
bem, foi ver Arístaco sendo arrebatado para o alto e
depois despencando no mar revolto; chegou a sentir
vontade de gritar, ainda que não o tenha feito.
- Os meus rapazes...Estão em pânico!- A feiticeira
podia ver o terror nos rostos de seus escravos
espirituais, muitos dos quais, tão estáveis, principiavam
a precipitar na loucura; os que continuaram nos remos
faziam o trabalho em dissonância ou sem esforço,
enquanto outros simplesmente largaram o serviço.
- Pior ainda o que está acontecendo com os vivos.
- Os vivos são nossos amigos e pessoas pelas quais
temos grande afeto, mas sem os mortos ninguém vai sair
vivo daqui!
- Homens! Tentem recuperar os que caíram no mar!
- De que jeito, capitão, se estamos lutando com todas as
forças para nos segurarmos, da mesma forma que o
senhor??- Bradou um dos piratas, agarrado ao mastro.
Os responsáveis pela turbulência enfim puderam ser
vistos: na água, uma enorme serpente marinha, maior do
que o dromon, sinuosa, de escamas marrons e
agressividade à flor da pele, com a qual o barco se
chocara; no alto, produzindo o tornado, um gigantesco
pássaro que poderia carregar um elefante com suas
garras, de penas e bico dourados, os olhos vermelhos e
ao que parecia inimigo acérrimo da serpente.
- Você não pode fazer nada, Melissa???
- Se o fado me permitir, irei tentar...- Ergueu-se,
firmando os pés no convés. Faltava-lhe a terra; ainda
assim, pediu a Apolo para que lhe enviasse o poder do
sol e a Zeus o domínio dos elementos, provocando então
relâmpagos que atacaram a ave; o calor do astro-rei, que
escapou da manta de nuvens escuras, passou a queimar
a pele do monstro marinho, que submergiu nas

453
profundezas. Não existiriam então mais motivos para a
luta prosseguir; entrementes, uma imensa onda rebelde
se ergueu sem explicação e engoliu o Heraclonas,
aparentemente levando consigo a feiticeira e todos os
piratas.

Um odor desagradável invadiu as narinas de Heráclio,


despertando-o; era um misto de carne apodrecida e
fezes, que fez com que abrisse os olhos enquanto o céu
jogava tinas de água sobre uma noite escarpada; ao lado,
uma procissão lenta em capuzes e lenços brancos, os
corpos sinistros, de braços finos demais, ossudos e
cinzentos assim como as pernas que escapavam pelas
túnicas curtas e finas, molhando os pés quebrados nas
poças de lama e sangue. Soluços e lenços encharcados;
meninos e meninos se chicoteavam, batendo nas
próprias costas com força. O corsário não tinha energias
para se reerguer, podendo ver e sentir esse pouco do
chão, enquanto rastejava.
- Uma cobra ou um verme! Um animal desprezível e
asqueroso. Pior do que um animal, já que animais não
pecam, agem por instinto. É o que você é.- Notou ao seu
lado, sentado sobre uma rocha úmida, segurando seu
joelho direito, uma criatura nua e musculosa, a pele
arroxeada, olhos crivados de ódio em sua direção, sem
nenhum pêlo, a cabeça limpa não fossem certos
calombos ósseos.- E agora vai passar a ser o meu
escravo...
- Do que está falando? Quem é você? Não sou nada
seu, seja lá o que você for.
- O meu nome é Choronzon, muito prazer. Você não
precisa se apresentar, sei que é o “imperador dos mares”
de Bizâncio. É mesmo comum imperadores rastejarem

454
na lama, lambendo a merda e não dizendo coisa com
coisa, clamando por direitos e poderes que nunca
possuíram.
- O que quer de mim? Não consigo me levantar...
- E por que precisaria ficar de pé? Imperadores não
ficam em seus tronos, confortavelmente instalados, sem
nunca precisarem ficar de pé?
- Nunca fui dessa espécie de imperador. Se me
conhece, sabe muito bem disso.
- Admito que foi valente! Tentar a travessia do mar
tenebroso, com a cara e a coragem...Uma pena que tudo
o que foi seu será meu. Pena pra você! Porque pra mim
está sendo muito divertido!- Um báratro vermelho que
mais lembrava uma boca, vermelha e repleta de dentes,
as gengivas inchadas, se escancarou, sem no entanto
precipitar ali dentro o apavorado pirata, que se mantinha
acima junto com o demônio como se estivessem sobre
uma camada de vidro. Embaixo, uma jibóia monstruosa,
escura e grosseira, se movia junto com bestas
tentaculares e os piores tipos de preadores espirituais,
que às vezes se chocavam com o “piso” de proteção e
depois voltavam para baixo, onde podiam torturar suas
vítimas. Entre estas, Heráclio reconheceu Melissa,
Arístaco e outros amigos.
- O que está fazendo com eles?! Deixe-os em paz!
- Não consegue nem mesmo ficar de pé e quer ditar
ordens? Deixe de ser pretensioso...Aqui o capitão é
outro.- O sarcasmo de súbito deu lugar a uma seriedade
aterradora e os olhos do corsário arderam, ao passo que
seu peito queimava e seus braços formigavam.
- Eu estou morto...Não acredito!

455
- Maldita hora em que decidiu avançar rumo ao
desconhecido, governado por suas ambições ao invés de
governá-las, Heráclio. Esse é o resultado.
- Você não sabe de nada, demônio...Nunca foi um ser
humano! Não sabe o que é ser como nós.
- Os humanos se superestimam. Sou um ser vivo e isso
basta, mesmo que não viva na “matéria”.
- Vocês vivem através de nós...Acho que estou
começando a entender.
- Não entende nada. Ainda está se superestimando.
- Heráclio! Me ajude!- Do abismo, o corsário ouviu o
pedido de Melissa; pensou escutar também alguns de
seus pensamentos: “Onde estão os deuses? Apolo,
Hermes...Preciso de ajuda! Por que me abandonaram?”,
a tristeza era tanta que subjugava os sofrimentos físicos
e a revolta.
- Você pode ajudá-la, não é? Por que está hesitando? Se
é um imperador...
- Não estou hesitando, monstro maldito...- Ainda caído,
deu um soco na vidraça...Sem resultado.
- Mas que pena...Não tem nenhuma força. Pode fazer o
que quiser...Em sua mente, porque aqui eu governo, eu
sou o senhor!- Culpa, sensação de impotência e
arrependimento arranhavam o coração do pirata.
Quando todas as esperanças tinham ido embora, um sol
repentino invadiu aqueles céus e ocorreu uma nova
reviravolta: um sol a princípio vermelho-claro, que foi
ficando rubro-forte, quente não para ele, apenas para o
demônio, em cuja pele principiaram a aparecer
horrendas queimaduras. Choronzon urrou de dor,
enquanto Heráclio enfim conseguia ficar de pé. O vidro
embaixo escureceu e o que havia não mais seria visível,
substituído por um chão rochoso. “Alguma coisa

456
diferente está acontecendo; outra coisa diferente.
Melissa, ainda vou salvar você, me espere...”, apesar de
não vê-la mais, recuperara as esperanças, da mesma
forma no que estava relacionado ao resto das tripulação,
seus preciosos companheiros. O astro vermelho se
transformou em uma cruz de ouro cravejada de rubis e
segurando-a estava o Salvador, enorme, barba e cabelos
claros compridos, olhos azuis, impondo uma ordem
absoluta. O demônio desapareceu e o vale ao redor se
transformou em um paraíso, povoado por flores e
pássaros coloridos.
- Uma nova chance lhe será dada, filho. Você viverá...E
terá oportunidade de se redimir na Terra. Apesar de
todos os seus crimes, sua alma não está totalmente
corrompida, ao contrário das outras que viu no Inferno.
Sinto muito se eram seus amigos.- A voz do Cristo
ribombou, imponente, pelos ouvidos do corsário, que
não resistiu e ficou de joelhos.
- O senhor é mesmo quem estou pensando?
- Sou sim, meu rapaz. Não precisa me temer. Nem
ficará aqui por muito tempo.
- Não sei o que dizer. Para ser sincero, nunca acreditei
no senhor. Por outro lado, agora que está diante dos
meus olhos, não tenho coragem e nem vontade de
continuar a renegá-lo.
- Os homens são livres mesmo para se esquecerem de
Deus.
- Não me esqueci...A magia, no fundo, me fazia
acreditar em deuses e espíritos. Mas não acreditava no
senhor; parecia-me a sua uma doutrina ultrapassada, que
limita os homens e impõe um número excessivo de
normas e preceitos derrotistas.

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- Apenas o necessário para frear o caos no mundo. No
entanto, os homens são livres para segui-las. Só veja os
resultados dessa liberdade.
- Então no fundo não somos livres. Melissa está mesmo
no Inferno?
- Falou da magia...Que fique bem claro: a magia é a
arte dos demônios e foi um demônio que deu aquela
mistura diabólica à mulher com a qual você vivia em
pecado. Como um ser humano pode ser imortal? Nas
escrituras meu pai deixou claro: do pó veio, ao pó
voltará. Só há um meio justo de se conseguir a
imortalidade que é por meu sangue, o sangue da
Redenção.
- Não posso fazer nada para salvá-la? E quanto aos
meus companheiros?
- Alguns deles irão para o Purgatório. Outros não têm
esperança. Para ela, a eternidade será de brasas e ranger
de dentes. Pela magia, tentou desafiar as leis de Deus;
portanto, será condenada pelas mesmas leis, que não
conhecem subterfúgios.
- Tenho razão portanto, que na prática não existe
liberdade?
- Claro que existe. Ela apenas tem suas conseqüências,
nem sempre boas.
- Os deuses pagãos são demônios?
- Todos, sem exceção. Por isso, nunca faça como ela
fez; nunca adore falsos ídolos.
- Agora sei qual é a verdade, então...Mas por que me
salvou? Mesmo sabendo de tudo agora, certas coisas
ainda me incomodam, sou relutante demais, um espírito
rebelde.
- Você não sabe o que é rebeldia. O único verdadeiro
rebelde está na profundidade do Abismo, trancado a

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setenta e sete chaves. É ignorante demais para
compreender.
- E sempre serei ignorante?
- Já não lhe basta ter a vida salva?
- Talvez não baste.- O diálogo foi ficando nebuloso;
nessa hora, o paraíso começou a se desfazer em
estranhas brumas e a visão foi dando lugar ao devaneio.
Sonhando, pouco a pouco voltou à realidade; e quando
se deu conta estava esfarrapado sobre areias quentes, em
uma praia desconhecida, debaixo de um sol agressivo.
Tossiu ao recuperar a consciência. “Será que foi
verdade? Estou louco, vi realmente o Cristo ou foi algo
induzido por um terceiro? Aquelas palavras ao mesmo
tempo me convenceram e não me convenceram...Será
porque sou revoltado demais? Se a Criação é desse jeito
mesmo, bem que queria que fosse diferente. Mas o que
não quero, depois do que vi, é conhecer o Inferno de
perto. Melissa, você pode ter ido longe demais...Mesmo
assim, ainda ouço você gritar e gostaria de salvá-la;
peço perdão a Deus. Ou não devo? Afinal é um
sentimento puro. Bom, talvez puro não seja, está cheio
de desejo...Mas é forte, intenso! Não tenho como deixar
isso de lado. Se é onipotente, por que não tira suas
criaturas do fundo do poço? Se não é onipotente, então
não é Deus. Se é e não faz nada, é um monstro cruel.
Não sei no que pensar...Por que só eu sobrevivi? Não
quero ser ignorante e viver na dúvida. Quero saber a
verdade!”, ficou de pé sem saber para onde ir. Não
havia nenhum lugar. E se ficasse mais tempo debaixo do
sol teve impressão que sua pele queimaria de tão quente
e ardido que estava. Sua alma era um rebojo de
remorsos, perguntas, meias-respostas e palavras
agressivas. “Tenho que me manter vivo. Se essa dádiva

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me foi dada, pelo menos isso tenho que fazer. Com o
tempo, quem sabe compreenda algo...”, era sua
esperança. Não estava tão grato assim por ser salvo:
queria mais era entender.
Os dias se passaram, Heráclio não soube quantas
semanas ou meses, em um lugar onde não existia o
menor rastro de civilização ou de seres humanos, nem
mesmo selvagens. Não teve coragem de montar uma
jangada...Estava com medo demais do mar tenebroso
para isso. E se Deus lhe tinha dado a vida de volta, fosse
aquela visão verdadeira ou não, não era para jogá-la fora
em seguida entre pássaros e serpentes monstruosas.
Queria vingança, algum dia destruir aquelas criaturas
que haviam provocado as mortes de seus companheiros
e o afundamento do Heraclonas; não era fácil conseguir
um dromon. E pensava em se vingar também, se tudo
fora real, dos demônios que torturavam Melissa. Apesar
de ser uma bruxa pagã, ele não conseguia se conformar
que nunca poderia fazer nada por ela e que Deus
condenasse alguém pela eternidade: “Seria muita
pobreza de espírito, muita falta de amor. Se um ser
humano é capaz de perdoar, por que Ele não seria?”,
carregava esperanças de algum dia redimi-la.