ISSN 1981-8254 - Publicação impressa

Centro Universitário São Camilo

Volume 1 Número 1 jan/jun 2007

BIOETHIKOS é uma publicação semestral de divulgação científica do Centro Universitário São Camilo voltada à veiculação de estudos e pesquisas na área Bioética. Tem entre suas finalidades possibilitar o exercício analítico e crítico de questões,sobretudo as emergentes que envolvem o ser humano na sua relação consigo mesmo, com o outro e com a realidade mais ampla. Sendo assim, apresenta-se como espaço plural e transdisciplinar no que concerne ao debate das questões ético-filosóficas do ser humano. MISSÃO: Disseminar o conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área no país e na América Latina, ao mesmo tempo que estimular reflexão por parte dos especialistas e profissionais de diversas áreas do conhecimento que interagem fundamentalmente com a bioética.

EDITORES-CHEFE Leo Pessini William Saad Hossne ASSESSORIA EDITORIAL Leda Virgínia Alves Moreno ASSESSORIA TÉCNICA Marcus Vinícius Rios de Macedo – Gerente de Biblioteca Equipe de bibliotecários do Sistema Integrado de Bibliotecas Pe. Inocente Radrizzani TRADUÇÃO Adail Sobral ENVIO DE ARTIGOS Centro Universitário São Camilo • Setor de Publicações Avenida Nazaré, 1501 04263-200 • São Paulo • SP Tel: (0**11) 6169-4045 web: http://www.scamilo.edu.br e-mail: publica@scamilo.edu.br PRODUÇÃO EDITORIAL E ARTE Mantra Comunicação Tel: (0**11) 3159-4967 www.mantracomunicacao.com.br FOTOLITO E IMPRESSÃO EGB-Editora Gráfica Bernardi Tel: (0**11) 6422-6459 Rua Roberto Kriegel, 197 • Vila Itapegica • Guarulhos • SP CEP:07043-100 www.egb.com.br egb@egb.com.br Assinatura anual: R$ 45,00 Número avulso: R$ 25,00 Assinaturas e permutas Av. Nazaré, 1501 • São Paulo • SP • 04263-200 Informações: 0800-178585 PERIODICIDADE Semestral TIRAGEM 1.000 exemplares Os artigos publicados na Revista Bioethikos são de inteira responsabilidade dos autores. Proibida a reprodução, mesmo que parcial, sem a devida autorização do Editor. Proibida a utilização para fins comerciais de matéria publicada Copyright© Centro Universitário São Camilo. BIOETHIKOS Centro Universitário São Camilo. São Paulo, 2007. Semestral ISSN - 1981-8254

SOBRE A CAPA: A Bioética, a rigor, é mais que uma disciplina, constitui-se em "uma ciência", em "uma nova ética" já que sua prática e discurso situam-se na intersecção de vários campos do conhecimento: a) medicina, ciências biológicas, com suas múltiplas ramificações; b) ciências humanas (sociologia, psicologia, antropologia, entre outras; e c) filosofia, ética, direito, teologia. A complexidade da Bioética é, em certa medida, tríplice, uma vez que: a) é resultante do diálogo com e entre vários campos do conhecimento (visão inter e multidisciplinar); b) constitui-se em espaço de encontro até mesmo conflitivo das questões relacionadas a ideologias, moral, religiões, filosofia, entre outras; e c) representa lugar de embates tendo em vista a diversificação de interesses, de "poderes" institucionalizados, dos segmentos profissional, industrial, médico, associativo, entre outros. A partir desses pressupostos é que foi criada a identidade visual de Bioethikos. A representação gráfica da capa com círculos entreabertos sinaliza que por meio dos entrelaçamentos e movimentos das três instâncias acima mencionadas objetiva-se com a Bioética: a) compreender "conflitos"; b) estabelecer "interações humanas" abertas ao diálogo, buscar solucionar conflitos de interesses e de valores; e, por fim, c) compreender os exercícios multi, inter e transdisciplinar e da complexidade, presentes em sua dinamicidade.

ISSN 1981-8254 - Publicação impressa

Centro Universitário São Camilo

Volume 1 Número 1 jan/jun 2007

Sumário • Contents • Sumario
EDITORIAL Bioética: marco de uma nova época
Bioethics: the landmark of a new era La Bioética: el marco de una nueva era

Leo Pessini, William Saad Hossne........................................................................................................................................................................ 09

ARTIGOS ORIGINAIS/ RESEARCH REPORTS/ ARTÍCULOS As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos
Scientific research and human experimentation: bioethical aspects Investigación científica y experimentación humana: aspectos bioéticos

Newton Aquiles Von Zuben.................................................................................................................................................................................. 12

Ética e inovação tecnológica em medicina
Ethics and technological innovation in medicine Ética y innovación tecnológica em medicina

José Geraldo de Freitas Drumond .......................................................................................................................................................................... 24

A Formação em Cuidados Paliativos da equipe que atua em Unidade de Terapia Intensiva: um olhar da Bioética
The training in palliative care for the intensive care unit´s team: A bioethical perspective El entrenamiento en cuidados paliativos del equipo de la unidad de cuidados intensivos: Una perspectiva bioética

Karina Dias Guedes Machado, Leocir Pessini, William Saad Hossne............................................................................................................... 34

O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da Enfermagem e a participação da Bioética
Spiritual care to the terminal patient in the practice of nursing and the participation of bioethics El cuidado espiritual al paciente terminal en el ejercicio de la enfermería y la participación de la bioética

Lucilda Selli, Joseane de Souza Alves.................................................................................................................................................................... 43

A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico
Medical Clinic as a tool for strengthening subjects: an ethical-philosophical debate La clínica médica como herramienta para fortalecer el sujeto: una discusión ético-filosófica

Sabrina Helena Ferigato, Maria Luíza Gazabim Simões Ballarin..................................................................................................................... 53

Introdução às questões bioéticas suscitadas pela Nanotecnologia
Introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions Introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología

João Carlos Silva de Lêdo, William Saad Hossne, Margareth Zabeu Pedroso................................................................................................... 61

ARTIGOS DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLES/ DISCUSIONES CRÍTICA Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões
Bioethics and health professionals: Some reflections Bioética y profesionales de salud: Algunas reflexiones

Angela Cristina Pontes, Joelma Ana Espíndula, Elizabeth R. Martins do Valle............................................................................................ 68

.......................................................................... 132 NOTÍCIAS DO PROGRAMA DE MESTRADO EM BIOÉTICA A note about the master graduate program in bioethics Informacíon acerca del programa de maestría en bioética Dissertações defendidas: Programa de Mestrado stricto sensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo............... Silvia Cristina M................a bridge for freedom Bioética .................................................................................................... 99 Bioética e espiritualidade Bioethics and spirituality Bioética y espiritualidad Júlio Cesar Massonetto. Eliana Mara Braga.............................................................................................una puente para la liberdad William Saad Hossne....................................................................... o que fazer? Bioethics: what are we to do now? Bioética: ¿ que hacer ahora? William Saad Hossne (coordenador) Colaboradores: Gláucia Rita Tittanegro........................... Rosito............................................................. Bocchi....124 ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO Bioética .Ensino da Bioética nas Faculdades de Medicina do Brasil Bioethics teaching in Brazil´s medical schools Ensenãnza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil Homero Januário Caramico........ 76 Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência Moving from the desire to the practice of beneficence Marcha desde el deseo a la práctica del la beneficencia Heloisa Wey Berti....... Ilda de Godoy..............................................................113 Cooperar para o bem comum: Responsabilidade social da enfermaria Cooperate for the common good: social responsibility of nursing? Cooperar para el bien común: ¿responsabilidad social de la enfermería? Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli....................................................................... Ana Paula Pacheco Clemente....................................... Wilza Carla Spiri........................... Mauro Angelo Reppetto............................................................................................ 105 COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS Que finalidade unifica a bioética? What Purpose Unifies Bioethics? ¿Qué Propósito Unifica la Bioética? Hubert Lepargneur................................................................................ Margaréte May B....................................................Vera Lucia Zaher......... Renata Santinelli e Débora Pedrolo.........................................................................e agora.......... 140 ........................ 118 Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em Bioética Evaluation of nursing undergraduate students about emergent subjects in bioethics Evaluación del conocimiento de estudiantes de pregrado en enfermera sobre temas emergentes en la bioética Pollyana Lira....................................................................................................................................................................................................................... Sueli Gandolfi Dallari...........................ponte para a liberdade Bioethics ....................91 Bioética ............................138 ORIENTAÇÕES AOS COLABORADORES Instructions for contributors..........

Gifford-Jones de Controle da dor e Cuidados Paliativos da University of Toronto. Washington. Geógrafo e historiador. Membro do Comitê Internacional de Bioética da UNESCO. Fernando Lolas Stepke. Ana Cristina de Sá. Diretor do Centro de Bioética Russel Roth da Edinboro University. Enfermeira. Doutora me Enfermagem pela Universidade de São Paulo. Pós-doutor em Bioética pela Universidade do Chile. Mestre em Administração Hospitalar e da Saúde. Diretora do Center for Clinical Bioethics. pesquisador sobre a gestão da dor em pacientes de câncer e educação. vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. EUA. Lawrence Librach. Médico psiquiatra pela Universidade do Chile. Gabriel Wolf Oselka. Dalmo de Abreu Dallari. Franklin Leopoldo e Silva. membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. professor no programa de mestrado em bioética no Centro Universitário São Camilo-SP. Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais-FADEMIG e da Sociedade Ibero-americana de Direito Médico-SIDEME. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Enfermeiro. Aziz Ab' Saber. Pós-doutor em Bioética pela Universidade do Chile. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Celso Lafer. Filósofo pela Universidade de São Paulo. próreitoria acadêmica e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutor em Ciência Política. DC. ex-reitora da Universidade Federal da Bahia. Superintendente da União Social Camiliana. pesquisadora do laboratório de investigação clínica da unidade de hipertensão do Instituto do Coração. professor do programa de mestrado em bioética. São Paulo. professora assistente de Enfermagem da Georgetown University. professor associado da Universidade Estadual de Londrina. Grazia Maria Guerra. assessor do conselho representativo de medicina de Santa Catarina. Roma. Professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista. Eliane Elisa de Sousae Azevedo. Programa de cuidados paliativos do Canadá. Doutora em saúde pública pela Universidade de São Paulo. professor da Universidade de São Paulo. Professora de bioética e genética da Universidade de Feira de Santana. Luciane Lucio Pereira. Joaquim Clotet. PR. Doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona. Doutor pela Universidade de São Paulo. Carol Taylor. Docente do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. São Paulo. Cirurgião dentista pela Universidade de São Paulo. Enfermeira. Doutor em Ciências/Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. Centro Universitário São Camilo. pesquisador do núcleo de bioética e membro do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário São Camilo. Livre docente pela Universidade de São Paulo. Graduado em Direito. Christian de Paul de Barchifontaine. Enfermeira. professora do departamento de saúde coletiva da Universidade de São Paulo. professor do programa de mestrado em bioética. Médico. São Paulo. Professor do Departamento de Família e Medicina Comunitária. Graduado em Letras. EUA. coordenadora do curso de especialização de enfermagem em UTI do Centro Universitário São Camilo. professor titular do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo. São Paulo. Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Daniel Romero Muñoz. membro da rede Latino-ame-ricana de Bioética. Professor doutor do departamento de odontologia social da faculdade de odontologia. Itália. Darley Dalliagnol. Secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. Cláudio Cohen. José Geraldo de Freitas Drumond.Conselho Editorial • Editorial Board Leo Pessini (editor-chefe). Luke's Medical Center. Ex-Ministro da Justiça. Bruno Adolfo Schletmper Junior. membro da Diretoria da Associação Internacional de Bioética. São Paulo. Hugh Lacely. professor de direito internacional da Universidade de São Paulo. membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Jurista. UNESP Botucatu. assessor do programa de bioética da Organização Pan-americana de Saúde. José Gregori. Enfermeira. Médico pela Universidade de São Paulo. ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. professor da cadeira W. presidente da Sociedade Brasileira de Educação Continuada em Enfermagem. Centro Universitário São Camilo.Canadian Society of Palliative Care Physicians. Médico cardiologista pela Universidade Católica de São Paulo. Professor da faculdade de filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisador do Swartmore College. Professor de parasitologia na Universidade Federal de Santa Catarina. EUA. professor de Semiótica pela Universidade de Genebra. Milwaukee. membro da Pontifícia academia da vida. EUA. Elma Lourdes Campos Zoboli. Coordenador do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. James Drane. Doutor em Teologia Moral/Bioética. área Bioética Clínica. professor do programa de mestrado em bioética. Diretor do The Temmy Latner Centre for Palliative Care do Mount Sinai Hospital. professora do programa de mestrado em bioética Centro Universitário São Camilo. Médico. pesquisador titular de ética aplicada e bioética da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. São Paulo. Pensilvânia. Dalton Luiz de Paula Ramos. presidente da Associação de Cuidados Paliativos de Ontário (Ontario Palliative Care Association) da Sociedade Canadense de Médicos Especialistas em Cuidados Paliatiavos . São Paulo. Filósofa. psicóloga e pedagoga. membro da academia brasileira de ciências. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. UNESCO. Professor aposentado da Universidade de São Paulo. professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. William Saad Hossne (editor-chefe). José Eduardo de Siqueira. Doutor em Medicina (Clínica Médica) pela Universidade Estadual de Londrina. Centro Universitário São Camilo. Doutor pela Universidade de São Paulo. . presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. membro da Associação Internacional de Bioética. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo. Santiago. Fermin Roland Schramm. Médico. Gláucia Rita Tittanegro. coordenadora do curso de filosofia do Centro Universitário São Camilo. Vaticano. Doutora em filosofia pela Universidade Gragoriana. consultor de Bioética do INCA. Professor titular na Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. diretor do programa de bioética da Organização Pan-americana de Saúde e do centro interdisciplinar de estudos em bioética da Universidade do Chile. Pósgraduado em Clinical Pastoral Education and Bioethics pelo St.

coordenadora do curso de terapia ocupacional e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Professor da Academia de teologia moral da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Pós-doutora pela Universidade Federal de São Paulo. professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. psicóloga. Universidade Católica Portuguesa. Nelson Rodrigues dos Santos. professor da faculdade de ciências médicas. Professor titular do departamento de medicina legal. membro de comissão do Ministério da Ciência e Tecnologia. da Universidade Federal de São Carlos. membro da Sociedade de Bioética. São Paulo. Cirurgião dentista. Fonoaudióloga. Bélgica. Terapeuta ocupacional e pedagoga. Universidade de São Paulo. Doutor em Patologia pela UNESP. Brasil. Professor associado da Faculdade de Saúde Pública. Oswaldo Baptista Duarte Filho. Pós-doutor pela Universidade Católica de Louvain. EUA. Instituto de filosofia e ciências humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Marcelo Perine. membro da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior-CAPES. New York. Professor da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Porto. departamento de filosofia da Universidade Federal do Ceará. Médico. São Carlos. membro da comissão nacional de ética em pesquisa do Ministério da Saúde. Universidade Federal de São Paulo. departamento de Medicina preventiva e social da Universidade Estadual de Campinas. professor do Centro de ciências exatas e tecnologia. diretor de avaliação da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior. São Paulo. coordenadora adjunta do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Vera Lúcia Zaher. São Paulo e da Sociedade Brasileira de Bioética. São Paulo. professor do programa de mestrado em bioética. William Breitbart. conse-lheiro e coordenador da Câmara Técnica de Bioética do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Alemanha. Doutora em Microbiologia pela Universidade Federal de São Paulo. diretor de unidade da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo FAPESP . Livre docente pela Universidade de São Paulo. membro da Câmara técnica de bioética do Conselho regional de medicina do estado de São Paulo. Enfermeira. Ricardo Renzo Brentani. Margareth Zabeu Pedroso. Doutora em psicologia experimental pela Universidade de São Paulo. Médico PhD. Ministério da Saúde. Filósofo. Doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo. professor titular da Universidade de São Paulo. Marco Segre. Livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas. da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas. Roberto Luiz D'Avila. Reinaldo Ayer de Oliveira. Livre Docente em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública. Márcio Fabri dos Anjos. Maria de Jesus Gonçalves. professor titular da Universidade de São Paulo. Médica. Doutora em Neurociências. Doutor em Ciências pela UNESP. Maria Julia Paes da Silva. Sueli Gandolfi Dallari. professora titular . São Paulo. Biomédica. professora do programa de mestrado em bioética e diretora de pesquisa e pós-graduação do Centro Universitário São Camilo. SP . Pedro Luiz Rosalen. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo. SP .Conselho Editorial • Editorial Board Manfredo Araújo de Oliveira. membro do Conselho Regional de Biologia. coordenador da Cátedra UNESCO de Bioética da Universidade de Brasília. Professora titular da Faculdade de Saúde Pública em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo. Filósofo. . Walter Oswald. Sonia Vieira. Médico. Doutor em Farmacologia pela UNICAMP. professor titular em Farmacologia da UNICAMP. coordenadora do comitê de ética em pesquisa e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Centro Universitário São Camilo. Livre docente do Departamento de Enfermagem Médico-cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. SP. Filósofo. Doutor em teologia. Médico pediatra sa-nitarista. Maria Auxiliadora Cursino Ferrari. Livre-docente pela Universidade de São Paulo. professor do Centro de ciências sociais. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo. professor titular do Centro de humanidades. professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. presidente da Fundação Antônio Prudente. médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Ex-diretor do Instituto de bioética. CNPq e Capes. Doutor em Medicina pela Universidade Federal São Paulo. Professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. ex-presidente da Associação Mundial de Médicos Católicos. Marlene Boccatto. Doutor em Filosofia. pesquisador do Instituto Ludwig sobre o câncer. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Olinto Antonio Pegoraro.professora do Instituto Sedes Sapientiae. Volnei Garrafa. ética médica e medicina social e do trabalho. Paulo Antonio de Carvalho Fortes. São Paulo. professor titular do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. professor de medicina legal. Médico. Médica. secretário executivo nacional do Conselho Nacional de Saúde.UNICAMP Pós-doutora pela Yale University. UnB. Pós-doutor em Bioética pela Universidade de Roma. Livre-docente pela Universidade de São Paulo. professor da Universidade de São Paulo.Chefe do departamento de psiquiatria de ciências comportamentais do Memorial Sloan. Doutora em Saúde pública pela Universidade de São Paulo. Renato Janine Ribeiro. Doutor em Filosofia pela Universitat München Ludwig Maximilian. Farmacêutico pela Universidade de São Paulo. supervisora do Projeto Tutores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. coordenadora do curso de fonoaudiologia e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. São Paulo. professor aposentado do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Médico. São Paulo. Keetering Câncer Center. Primeiro vice-presidente do Conselho Federal de Medicina. professora titular do Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic. Marcos de Almeida. Médico. consultor da Fapesp. membro do comitê de bioética da UERJ. Margareth Rose Priel. deontologia e bioética na Universidade Federal São Paulo. Paulo Emílio Vanzolini. Mestre em neurociências e comportamento. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutor em Engenharia química pela Universidade de São Paulo. São Paulo.

Docente do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Bioethikos conta com um corpo editorial de primeiríssima grandeza. Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo.1(1):9-11 Bioética: marco de uma nova época Frente ao espetacular desenvolvimento da tecnociência e da comunicação. afinadas com os valores camilianos. Superintendente da União Social Camiliana.CONEP. Professor emérito da Universidade Estadual Paulista. numa mudança de época.EDITORIAL . Objetiva. Bioethikos tem por missão disseminar o conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área do conhecimento humano. Isto exige e provoca reflexão e posicionamento ético. Assim. Nesta perspectiva. Faltam no Brasil veículos de publicação que captem esta vitalidade criativa dos pesquisadores na área. a revista Cadernos .2007. "biologia molecular". Tem entre suas finalidades possibilitar o exercício analítico e crítico de questões.Centro Universitário São Camilo . Além disso. apresentar-se como espaço plural e transdisciplinar no que concerne ao debate das questões ético-filosóficas do ser humano. ** Médico e pesquisador. Dessa forma. surge a "bioética" como marco crítico de reflexão de valores humanos diante do que trouxe a revolução bio-técnico-científica. comunicações e pesquisas na área da bioética. quer estimular a reflexão por parte dos especialistas e profissionais das diversas áreas do conhecimento humano. especialmente no âmbito das ciências da vida e da saúde que interagem com a bioética. Bioethikos é o mais novo periódico científico do Centro Universitário São Camilo. uma vez que o que está em jogo é a nossa vida e o futuro da vida no planeta. no País e na América Latina. campus Botucatu. muitos pensadores contemporâneos afirmam que vivemos de fato. também. voltado à veiculação de estudos. "bioterrorismo" ("armas biológicas destruindo a vida"). com identidade e características próprias. podemos falar de "biogenética" ("recriação da vida"). UNESP. Membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa . mais do que em uma época de mudanças. Este periódico surge num momento de grande efervescência de reflexão na esfera da ainda jovem bioética brasileira. Eis o motivo incisivo e fundamental que justifica o nascimento de Bioethikos. A partir deste momento. 9 . Leo Pessini* William Saad Hossne** Editores-chefe * Doutor em Teologia/Bioética. priorizando as emergentes. entre outras. Bioethikos constitui-se em uma possibilidade real de participação de inúmeros profissionais da área e ampliação do debate ético. faculdade de medicina. St Luke's Medical Center. Em meio a esta explosão de questões ligadas à vida. Membro do Comitê Internacional de Bioética da UNESCO. Tudo o que se refere ao âmbito do "bios" (vida) tem hoje uma instigante novidade.Centro Universitário São Camilo deixa de existir e Bioethikos se apresenta como o mais novo veículo de publicação científica desta instituição universitária. que envolvem o ser humano na sua relação consigo mesmo. com expressividade nacional e internacional. Certas palavras-chave conseguem captar o espírito de uma época. Concebida inicialmente para ser uma publicação semestral. com o outro e a realidade mais ampla. Pós-graduado em Clinical Pastoral Education and Bioethics. de "biotecnologia" (como motriz da "economia do século XXI).

Superintendent of União Social Camiliana. Here lies the incisive.2007. Medical School. Moreover. Bioethikos creates a real possibility for the participation of innumerable professionals of the area."molecular biology". From this perspective. it wants to encourage reflection by specialists and professionals of the different areas of human knowledge. In the context of this explosion of questions linked to life. fundamental reason that justifies the birth of Bioethikos. 10 . ** Physician and researcher. mainly the emergent ones.UNESCO.EDITORIAL . This demands and encourages reflections and the adoption of an ethical attitude. with the others and reality as a whole. communications and research in the area of the BIOETHICS. Theology/Bioethics. but in fact in a change of era. since what is in play is our life and the future of life in the planet. He has done studies in Clinical Pastoral Education and Bioethics at St Luke's Medical Center. we can speak of "biogenetics" ("recreation of life"). many contemporary thinkers state that we live not properly at an era of changes. Bioethikos has as its mission of disseminating scientific knowledge in the bioethical field by means of studies and research that contribute to the expansion and consolidation of this area of human knowledge. Besides. Member of the International Committee of Bioethics .Centro Universitário São Camilo . It purposes to make possible the analytical and critical exam of questions. Professor of the Master course in Bioethics of São Camilo University Center. Thus. Botucatu campus. that involve human beings in their relation with themselves. perfectly compatible with Camillian values. especially in the domain of life sciences and health that interact with Bioethics. with its own identity and characteristics. Thus. among others. From now on. both in Brazil and Latin America. Certain keywords are able to capture the spirit of an era. UNESP.1(1):9-11 Bioethics: the landmark of a new era Given the spectacular development technoscience and communication have been passing by.. Bioethikos is a new scientific journal from São Camilo University Center thatr aims at the propagation of studies. Conceived from the beginning to be a semestral publication. Bioethikos has a highly qualified Editorial Board. Coordinator of the Master course in Bioethics of University Center São Camilo. besides making ethical debate broader yet.CONEP. There is in Brazil a lack of publications that capture this creative vitality of the researchers in the area.Centro Universitário São Camilo ceases to be published and Bioethikos presents itself as the new scientific publication of this university institution." of bioterrorism "("life-destroying biological weapons").D. this Journal comes to life at a moment when reflection in the domain of the young Brazilian Bioethics is flourishing like never before. Everything related to the domain of "bios" (life) has today an instigating freshness. Member of the National Commission of Ethics in Research . of "biotechnology" (as the moving force behind "the twenty-first century) economy. with national and international recognition. Cadernos Journal . "Bioethics" appears as a critical landmark for reflection on human values before things brought by the biotechnical-scientific revolution. It also aims at presenting itself as a pluralistic and transdisciplinary space as concerns the debate of ethical-philosophical questions related to human beings. Emeritus professor of State University of São Paulo. Leo Pessini* William Saad Hossne** Editors-in-chief * Ph.

Bioethikos tiene un Comité Editorial altamente cualificado. Profesor honorario de la Universidad Estadual de São Paulo. También tiene como objetivo el presentarse como espacio pluralista y trasdisciplinario para la discusión de las cuestiones ético-filosóficas relacionadas con los seres humanos. Miembro del Comité Internacional de Bioética . perfectamente compatibles con los valores camilianos.CONEP. desea animar la reflexión de los especialistas y de los profesionales de las diversas áreas del conocimiento humano.UNESCO.2007. dirigido a la propagación de estudios. de "biotecnología" (como la fuerza motriz detrás "de la economía del siglo veintiuno"). púes lo que está en juego es nuestra vida y el futuro de la vida en el planeta. En el contexto de esta explosión de cuestiones ligadas a la vida. De esta perspectiva. que acercan los seres humanos en su relación con sí mismos.Centro Universitario São Camilo deja de ser publicado y Bioethikos se presenta como la nueva publicación científica de esta institución universitaria. Botucatu. Ha hecho estudios en Educación Pastoral Clínica y Bioética en el Centro Médico St Luke's Medical Center. Hay en el Brasil una carencia de publicaciones que capturen esa vitalidad creativa de los investigadores en el área. Así. Superintendente de União Social Camiliana. el periódico Cadernos . Además. Coordinador del curso de Maestría en Bioética del Centro Universitario São Camilo. ** Médico e investigador. Miembro de la Comisión Nacional de Ética de la Investigación .1(1):9-11 La Bioética: el marco de una nueva era Frente al espectacular desarrollo de la tecnociencia y la comunicación. comunicaciones y investigaciones en el área de la Bioética. del bioterrorismo" ("armas destruidoras de la vida").EDITORIAL . UNESP. Profesor del curso de Maestría en Bioética del Centro Universitario São Camilo. Todo lo que se relaciona con el dominio de la "bios" (la vida) trae hoy una estimulante novedad. Hay palabras-llave capaces de capturar el espíritu de una era. Leo Pessini* William Saad Hossne** Editores-jefes * Doctor en Teología/Bioética. principalmente emergentes. Así. 11 . la "Bioética" aparece como marco crítico para la reflexión acerca de valores humanos antes de las cosas que trae revolución bio-técnico-científica.Centro Universitário São Camilo . pero de hecho en un cambio de era. Eso exige y anima reflexiones y la adopción de una actitud ética. Su propósito es hacer posible el examen analítico y crítico de las cuestiones. Escuela de Medicina. Bioethikos crea una posibilidad verdadera de participación de los profesionales innumerables del área. Por otra parte. con miembros reconocidos nacional e internacionalmente. este periódico viene a la vida en un momento en el que la reflexión en el dominio del la joven Bioética brasileña está prosperando como nunca antes. Concebida desde el principio como una publicación semestral. con los otros y realidad en su totalidad. Es esa la razón incisiva y fundamental que justifica el nacimiento de Bioethikos. en el Brasil y la América latina. con identidad y características propias. Bioethikos tiene la misión de diseminar el conocimiento científico en el campo bioético de promedio estudios y investigaciones que contribuyan a la extensión y a la consolidación de esta área del conocimiento humano. de "biología molecular ". además de hacer la discusión ético más amplio todavía. muchos pensadores contemporáneos dicen que vivimos no propiamente en una era de cambios. especialmente en el dominio de las ciencias de la vida y de la salud que obran junto a la Bioética. se puede hablar de "biogenética" ("reconstrucción de la vida"). Bioethikos es un periódico científico nuevo del Centro Universitario São Camilo. Desde ahora. entre otras.

seja com objetivo de adquirir novos conhecimentos. a apuração constante de uma metodologia e a instauração de uma norma. Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas . its methods and criteria for an self-critique. An epistemological analysis tries to only to understand established science and its methods.2007.Centro Universitário São Camilo . research involving human beings. pero principalmente la génesis de los procedimientos. investigaciones con seres humanos. En su propio desarrollo. sus métodos y los criterios para una autocrítica. la Declaración de Helsinki-Edimburgo (2000) de la Asociación Médica Mundial (AMM). o Relatório Belmont. sus condiciones de posibilidad. a construção de um saber. Its focus is "human experimentation". Bioethics. Research aims at the same time both at the construction of knowledge and the constant verification of a methodology and the instauration of a norm. which position must be taken? Under what conditions is it reasonable to defend the right and the freedom of research respecting human dignity? Bioethics has among other objectives to analyze and evaluate research with human beings in the biomedical areas. RESUMEN: La investigación científica es una actividad incoativa. Este trabajo intenta analizar brevemente esta cuestión en documentos bioéticos oficiales: El Código de Nuremberg. ella crea sus normas. Bélgica. intuitions. The present work aims to briefly analyze this question in official bioethical documents: The Nuremberg Code. la Declaración Universal sobre el Genoma Humano y los Derechos del Hombre de la UNESCO (1997). Un análisis epistemológico intenta no solamente comprender la ciencia establecida y sus métodos. sobretudo a gênese dos procedimentos. Email: nzuben@terra. KEYWORDS: Biotechnological research. essa questão no cenário de documentos oficiais na área de Bioética como: O Código de Nuremberg. O presente trabalho visa analisar. Experimentación humana. Quanto às investigações que tomam por objeto o ser humano. PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa biotecnológica. * Doutor e Mestre em Filosofia pela Universite Catholique de Louzain. hace esfuerzos de no ceder oposición que es carácter arbitrario. and the Belmont Report. ABSTRACT: Scientific research is an inchoative activity.1(1):12-23 As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos Scientific research and human experimentation: bioethical aspects Investigación científica y experimentación humana: aspectos bioéticos Newton Aquiles von Zuben* RESUMO: A pesquisa científica é uma atividade incoativa. As pesquisas visam. ¿Mirando investigaciones que tienen seres humanos como sujetos. sin embargo. a pesquisa envolvendo seres humanos.br 12 . seus métodos e critérios de autocrítica. no entanto. Está em foco a "experimentação humana". A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem da Unesco (1997). A Declaração de Helsinki-Edimburg (2000) da Associação Média Mundial (AMM). tanto para adquirir nuevo conocimiento o con metas terapéuticas. In its own development it creates its norms. no reconociendo una norma necesaria a priori. the Universal Declaration on the Human Genome and the Rights of Man by UNESCO (1997). seja com objetivo terapêutico. ao mesmo tempo. however. Su foco es la "experimentación humana". mas. as intuições. No desenvolvimento próprio cria suas normas. Experimentação humana. y el Informe de Belmont. it makes efforts not to fall in the opposing ambush which is arbitrariness. the Declaration of Helsinki-Edimburg (2000) of the World Medical Association (WMA). Bioética.PUC-Campinas. Regarding researches that have human beings as subjects. esforça-se por não cair na cilada oposta da arbitrariedade. qual deve ser a posição a ser tomada? Sob que condições é plausível defender-se a direito e a liberdade de investigação respeitando-se a dignidade da pessoa humana? A Bioética tem entre outros objetivos o de analisar e avaliar as investigações com seres humanos nas áreas biomédicas. but mainly the genesis of the procedures. their conditions of possibility. Uma análise epistemológica tenta compreender não meramente a ciência constituída e seus métodos. de modo sucinto.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . não reconhece uma norma precisa a priori. intuiciones. que posición se debe tomar? ¿Bajo qué condiciones es razonable defender el derecho y la libertad de investigación respetando la dignidad humana? La bioética tiene entre otros objetivos analizar y evaluar la investigación con seres humanos en las áreas biomédicas. PALABRAS LLAVE: Investigación Biotecnológica. not recognizing an a priori necessary norm. Bioética. Membro Titular do Comitê de Ética em Pesquisa. Human experimentation.com. La investigación tiene como objetivo al mismo tiempo la construcción del conocimiento y la verificación constante de una metodología y la instauración de una norma. suas condições de possibilidade. both to acquire new knowledge or with therapeutic ends.

rupturas e desconforto. Emblematicamente coloca no título da obra. enfrenta-se com diversas questões relacionadas com as pesquisas tecnocientíficas tais como: a procriática e a tanatologia. Assim. para atingir seu objetivo. as manipulações do comportamento.Centro Universitário São Camilo . A com- 13 . Inúmeras obras são dedicadas aos "valores e limites da ciência". do caráter essencial da imprevisibilidade nas investigações científicas dignas desse nome. mas real. mas no campo moral e axiológico. provavelmente. O contexto no qual se inserem as reflexões de Jacob é o das ciências biológicas e a genética. A tribo "homo sapiens sapiens" conheceria desde o último século a nova versão do antigo e sinistro destino ao transcender outros e mais misteriosos limites: convi-ver tanto com as inovações na engenharia genética e com a farmacologia que lhe renderiam eventualmente benefícios e riscos. no mesmo patamar de valoração. deve se articular com tenacidade à salvaguarda do respeito da pessoa humana contra as formas invasivas da curiosidade científica na expressão de Anne Fagot(2). a crescente dependência da civilização ao domínio das tecnociências? A racionalidade científica está no epicentro de um intenso debate e de processos de crítica severa. justificado ou não. As ciências. surgiu novo campo problemático. a ambivalência. no entanto. à época do surgimento desse fenômeno cultural na década de 1970. estratégias experimentais envolvendo seres humanos. a preocupação com a dimensão ética das pesquisas científicas que estabelecem. Em sua conclusão nos alerta: o grande perigo para a humanidade não é desenvolver o conhecimento. em todas as partes do mundo. dos diversos patamares da investigação. tal pretensão. Essa idéia de François Jacob. o respeito da pessoa humana e seus direitos. conclui sua interessante e agradavelmente provocadora obra O rato. duas importantes frentes deveriam ser preservadas: o reconhecimento do direito de pesquisa livre e responsável e. ano de 1965. insistentemente. a profundidade de nossa ignorância da natureza. no horizonte humano. O ponto axial dessa relação dialética tem sido o conceito da "responsabilidade da ciência"(4). de sua importância.1(1):12-23 INTRODUÇÃO A principal descoberta deste século de pesquisa e de ciência é. Apresentam-se. para uma crescente fragilização da crença nesses poderes. o homem em último lugar. movida por um otimismo sem freios nos poderes e nas potencialidades das ciências cede o lugar. as tecnociências em suma. Toma corpo. a alocação de recursos diante do crescente fosso entre países desenvolvidos e os excluídos da humanidade. como um espaço paradigmático multidisciplinar. o saber e a prática científicos realmente nos fazem pensar. quanto o assombroso evento de Hiroshima. Tudo isso girando em torno das investigações científicas. Desenvolvo essas considerações no meu trabalho publicado recentemente(3). e Tchernobil.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . hoje? Que relações as mais adequadas instituir entre ciência e a sociedade? Como entender e avaliar. Nagazaki. Nesse cenário particularmente crisogênico. com questões como: que dilemas estão presentes nas investigações científicas. cristalizada numa atitude de recusa. A confiança sem limites. As reflexões bioéticas têm como intenção a busca de articulações entre o saber científico e os valores humanos. retomo a observação sibilina de Henri Atlan(5) eminente biólogo francês. com impressionante rapidez. de seus limites e desafios. mais uma vez. a discussão sobre os limites e potencialidades das investigações científicas envolvendo seres humanos. do presente recebido de Prometeu. de como nessa sabemos o que procuramos enquanto que naquela ignoramos completamente. a mosca e o homem(1). inscrita em sua obra " Entre o cristal e a fumaça". inaugurando uma era de inovações inauditas e. entretanto revelando peculiar característica.2007. não só no plano científico. Daí o avanço considerável que conhecemos hoje no campo da Bioética cuja emergência se deu justamente em um cenário de mal-estar causado por investigações científicas na área das ciências biomédicas e de suas aplicações clínicas e terapêuticas. É a ignorância. das ciências. Nessa obra o eminente cientista trata da pesquisa. a terapia gênica. AS INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS Para ilustrar esse estado de coisas. Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. de medo. ambos voltados para a instituição de uma sociedade justa. E a Bioética. Indiscutivelmente o "homo sapiens" fazia jus. Pretende-se resolutamente assegurar o direito de se realizar pesquisas. da distinção e correlação entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. a nova genética e as conseqüências para o ser humano. Acentuou-se.

Donde o caráter supostamente dominante das denominadas ciências exatas. nota esse cientista. às vezes beiramos os dois abismos da facilidade e do repouso que são a ciência universitária. da anticiência e da arte profética. enquanto que.cristal e fumaça -. Esses debates. O estudo visando redimensionar o binômio CiênciaSociedade tem como tarefa a instituição de novas políticas públicas visando. de cunho secular como um "locus" multidisciplinar de debates democráticos com a intenção de analisar. ou seja. É o que se ensaia com o projeto de avaliação tecnológica (technological assesment dos anglo-saxãos) que se pauta. um profundo senso crítico com relação à questão da pretendida. um questionamento rigoroso dos métodos empregados à luz de novos meios de que dispõem as ciências graças ao mais recente desenvolvimento da técnica e da importância crescente que adquire a tecnologia para a aplicação dos princípios científicos. para outros. em seguida. o impacto das aplicações dessas investigações na vida social. E nesse cenário. hierarquização dos domínios do saber e das disciplinas que são suas respectivas expressões e. é possível tentar analisar a partir da perspectiva bioética. sujeito das experimentações e dos cuidados terapêuticos e clínicos. a bioética.Centro Universitário São Camilo . da teologia e do direito. as segundas. mas o processo da construção.2007. qualquer organização celular é dinâmica e de estrutura lábil como a chama de uma vela produzindo o tênue fio de fumaça. mais em busca de profecia que de teoria. Nesse cenário é igualmente relevante. a regulamentação social das inovações tecnocientíficas. conformista e institucionalizada. fadada a se romper neste fim de século. a dinâmica dos procedimentos e a própria gênese da atividade científica estão no centro das atenções das reflexões epistemológicas da atualidade.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . douta. provenientes da filosofia e das mais antigas tradições. com o perigo que tal pretendida hegemonia representa para a liber- 14 . na estrita correlação entre a avaliação de riscos e no respeito à autonomia da pessoa e de seu necessário consentimento livre. Afirma ele: “Que a pesquisa científica e o método experimental não impeçam que se ouçam outras maneiras de pensar. tratar-se-ia. alicerçada por estímulos críticos da filosofia e das ciências humanas. De início. Aí intervém igualmente o interesse que preside o enfoque escolhido: seja o da produção da ciência. e por muitos sustentada. Nesse horizonte situam-se. no próprio meio científico. no caso de experimentação humana. com os limites e condições de reflexão crítica sobre as ciências em geral e sobre as tecnociências de modo especial. ao contrário. Nesse quadro geral. discutir e oferecer pareceres sobre questões cruciais no campo das ciências biomédicas tanto no plano da pesquisas como no plano prático ou terapêutico. na verdade. entre outros pontos. Ao contrário da ordenação do cristal. no meu entender com premência crescente. Não só os efeitos. Tais preocupações com o "fazer-ciência" são múltiplas e diferem segundo a perspectiva a partir da qual pensamos esse "fazer-ciência". Daí. no âmbito de debates democráticos. cujo desafio consiste em não cair em nenhum desses abismos . impõe-se. Assim. talvez. emerge na década de 1970 e se institucionaliza como uma prática de linguagem. que é ao mesmo tempo fim de milênio e de civilização! É verdade que. Na realidade. a importância desses contatos desses distanciamentos entre parentes que assim se reconhecem como semelhantes. Por essa razão. as organizações vivas são fluidas e móveis.1(1):12-23 paração não deixa de ser extremamente sagaz e ilustrativa. principalmente. nota-se uma crise de consciência por parte dos próprios cientistas e pensadores no que diz respeito ao fundamento epistemológico de suas atividades. Mesmo com o risco de serem chamados de místicos. observar as preocupações com o "fazer-ciência" articulado com o pensar sobre esse fazer ciência. e os delírios-delícias da contracultura. só hão de parecer supérfluos àqueles que tiverem definitivamente escolhidos uma das bordas”(5). Daí surgem novas questões sobre a auto-regulamentação ou a hetero-regulamentação das atividades de investigação nas biociências. As primeiras se ocuparão necessariamente em manipular e experimentar a vida em todas as suas dimensões. tornamse difíceis de se fixar. não nos querendo encerrados. aprofundar. vale dizer. de não ficarem prisioneiros de uma golilha obsoleta e mortífera. a situação colocada pelas inovações inauditas das tecnociências da área biomédica. em buscar o sentido da vida e do viver a fim de resguardar seu valor assim como o respeito pela pessoa humana. as investigações "bio-centradas" e as reflexões "bio-intencionadas". no "intervalo" entre o cristal e a fumaça. seja a divulgação de sua dinâmica assim como dos seus produtos (os constructos das tecnociências). penso eu. finalmente. o consumo dessas inovações. ou os produtos da atividade científica e tecnológica.

ou "direitos de pensar". São conhecidas atualmente diversas modalidades de pesquisas experimentais com seres humanos. confiou-se 15 . passo a passo. Comitês de Ética e Congressos científicos. a terapia e a investigação científica. O equilíbrio instável a ser estabelecido em breve dependerá da gestão das conquistas científicas assim obtidas. Dentre as questões pode-se notar em particular a incerteza relativa aos riscos prováveis e. dos valores. Muitos autores distinguem a experimentação com objetivos cognitivos. liberdade que não pode se desvincular dos "direitos de pensamento". atualmente a atenção é dedicada mais especificamente com as investigações que são feitas com seres humanos nas áreas biomédicas. Isso representa uma radical modificação da medicina como arte de curar. tem sido objeto de intensos debates. por assim dizer. as investigações científicas com seres humanos é a experimentação. O campo de atividade passa a ser o cuidado. confirma-se a si mesma na própria dinâmica dos procedimentos que traz à luz. No entanto. A EXPERIMENTAÇÃO HUMANA E A PROTEÇÃO DO HUMANO NAS DECLARAÇÕES A estratégia e o que sustenta. de pronto surge o complexo universo das motivações. ao mesmo tempo em que institui suas potencialidades e virtualidades. social. Tais processos investigativos.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . de diagnóstico de prevenção e que visam beneficiar o paciente. o vasto e ambíguo mundo do sentido (Sinnwelt) e da condição humana (Lebenswelt). os processos científicos ou as práticas científicas estão animados por uma intencionalidade constituinte que. da religação dos saberes. Em sentido lato experimentar significa submeter ao teste da experiência. ao princípio já há muito conhecido da interdisciplinaridade e da complexidade. vale dizer. sua característica primordial e prioritária. empregando para tanto a estratégia da experimentação. (em que pese a extrema ambigüidade de tal expressão) realidade estética. segundo novo modelo que responderá. econômica e. mas pelas inquietações morais que as envolvem. Aliás. Há algumas décadas vem se impondo a convicção de que a arte do cuidado e a busca da cura de doenças que acometem a humanidade estão numa relação crescente de interdependência com a aquisição e aprofundamento de novos conhecimentos científicos adquiridos por meio de estratégias experimentais. política. em suma. Quanto as primeiras a questão que se apresenta é: qual a estrutura de significação própria ao conhecimento científico quando está em jogo uma realidade na qual o homem está presente como sujeito da ação? Ao se admitir a entrada em cena da "ação humana". A experimentação humana põe à luz questões cruciais que estiveram na agenda de debates em inúmeras Comissões de bioética. do modo mais adequado possível. Permito-me supor que na realidade histórica de seu "fazer-se". nacionais e internacionais. mas. dos interesses e desejos. sobretudo a delicada questão do "consentimento livre e informado" cujo conceito ainda permanece ambíguo e de contornos semânticos flácidos.2007. e aquela com fins terapêuticos. aquela que submete o ser humano a um teste de tratamento. E experimentação humana é aquela que utiliza estratégias que envolvem testes com seres humanos. não tanto pelos aspectos técnicos. Nesse horizonte adquire relevância especial a problematização das investigações dos fenômenos sociais. na expressão de Morin. Em toda investigação o objetivo é adquirir novos conhecimentos. estão mesmo na gênese do projeto bioético. sobretudo. psíquica.1(1):12-23 dade da ciência. E mais. pedra angular no empreendimento inaugural do ser humano ao transcender a animalidade em busca da racionalidade. expressão eminente da consciência humana. que supostamente contribui para a aquisição de novos conhecimentos. o universo da dimensão simbólica. Há mais de meio século práticas de pesquisas nessas áreas tem provocado inquietação e cuidado especiais. sobretudo as questões levantadas pelas pesquisas no campo das ciências biomédicas. Na esteira disso impõe-se a indagação: que abordagem a ser escolhida quando o que está no foco da investigação é uma realidade humana. É o que pretendo analisar a seguir limitando-me a breves considerações tendo como cenário os documentos acima citados.Centro Universitário São Camilo . ética. embora o cenário desenhado pelas investigações na área das ciências sociais represente valiosa contribuição para a bioética. Para a proteção da pessoa humana contra as formas invasivas da curiosidade científica. quando estamos no âmbito de uma investigação para a qual não é permitido evadir-se da linguagem do sentido.

Tais textos. ponto culminante da clivagem entre a audácia destemida e a moderação prudente. Elas permanecem.1(1):12-23 durante longo tempo na consciência moral dos pesquisadores e nas tradições da ética profissional (p. da possível distância entre os princípios e as práticas. ela não deve ser praticada ao acaso e sem necessidade(item 2). é razoável supor-se que sobre a questão da experimentação humana paira. 97)(2).2007. inspiram os códigos de deontologia e diversas legislações nacionais. São pesquisas com indivíduos humanos visando o bem estar de todos. O estupor mundial provocado pelas bárbaras experiências realizadas por médicos nazistas induziu a esse Código que em seus dez pontos define clara e objetivamente as condições de experimentação com seres humanos. Tal consentimento representava a manifestação clara em favor do respeito e da dignidade da pessoa humana. a priori. no entanto. o texto fundador e referência constante das Declarações nacionais e internacionais de ética médica é o Código de Nuremberg de 1946-1947. Deve-se estar atento. (Artigo 9) Desde então. no entanto.Centro Universitário São Camilo . A . manifestação principal do princípio da autonomia de um paciente ou de um sujeito de pesquisa. É importante observar a grande diversidade de instâncias. convenções. lê-se já no seu primeiro artigo. seus objetivos e os riscos eventuais e que tenha a capacidade de decidir livremente sobre sua participação. informadas. desejos piedosos ou alibis encobrindo práticas nitidamente em retrocesso em relação ao que proclamam (p. Nesse Código já estão presentes alguns princípios que nortearão as pesquisas. A experiência deve apresentar resultados práticos para o bem da sociedade. o princípio da cientificidade. a reversibilidade para evitar danos: A experiência não deve ser ensaiada quando houver.O Código de Nuremberg Na verdade. O consentimento voluntário do sujeito humano é absolutamente essencial. fiel à tradição filosófica provinda do Iluminismo à qual as democracias modernas apreciam referir-se. intergovernamentais. nãogovernamentais e de textos nacionais e internacionais que foram dedicados a essa questão.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . A profissão médica foi a primeira a incluir explicitamente esses princípios nos fundamentos de sua deontologia sob a forma de declarações da AMM Associação Médica Mundial (p. pareceres e documentos posteriores da bioética. pelas quais devem ser responsáveis cientistas qualificados. em algumas circunstâncias. em grande parte. segundo o qual a responsabilidade pela condução da experimentação deve ser atribuída a um especialista qualificado. 16 . governamentais. revelando a liberdade inalienável do sujeito durante todo o seu transcurso. Finalmente. 102)(2). o complexo jogo da aceitação por princípio e rejeição de fato. São exigidas. tornou-se ponto axial de primeira relevância a questão do consentimento esclarecido. a maior aptidão e extrema atenção de todos os que a dirigem e dela participam (item 8). todos seguindo o modelo primordial da filosofia dos Direitos Humanos presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos. de todas as declarações. E justamente para a pessoa humana que se dirige o foco de atenção do Código ao limitar ou regular as pesquisas. componente obrigatório explícita ou implicita- mente. 99)(2). Em seguida. depois da 2a Guerra Mundial. o consentimento esclarecido. o princípio da beneficência segundo o qual a pesquisa deve visar o bem do paciente e do sujeito da pesquisa e de todos os membros da sociedade. embora não tenham força de lei. O Código indica uma perspectiva de experimentação não necessariamente terapêutica ou com seres humanos doentes que pudessem eventualmente se beneficiar com os resultados. durante todo o transcorrer da experiência. impossíveis de serem obtidos por outro meio de pesquisa. A seguir. De fato. relativos à ética médica e a bioética. A esse respeito afirma Anne Fagot: A declaração internacional proclama uma doutrina esclarecida. responsáveis e voluntárias. Percebe-se que o Código deixa transparecer um entendimento moderno da medicina. como já dito. Ele supõe que a pessoa entenda a natureza da experimentação. Em primeiro lugar. a pessoas adultas. As experiências não devem ser praticadas senão por pessoas cientificamente qualificadas. uma razão de se crer que provocará a morte ou a invalidez do sujeito. A esse item acrescentem-se os (itens 2 e 3). considerada uma ciência experimental com estreita ligação com a biologia para a qual a pessoa humana não é o centro das preocupações. tal princípio exige que sejam apresentadas ao sujeito as informações mais completas possíveis (item 1 do Código).

Permanece presente o espírito de Nuremberg. Que se experimente no paciente um novo tratamento ou que se pretenda adquirir por seu caso individual um conhecimento de maior alcance. Na prática médica corrente todo método diagnóstico. de certo modo. A pesquisa não visa um benefício direto para o sujeito.2007. os riscos e inconvenientes potenciais de um novo método em relação aos melhores métodos diagnósticos e terapêuticos em uso(8). congrega o Código de Nuremberg e Helsinque I (1964) recebeu o nome de Helsinque II que por sua vez sofreu emendas em Veneza em 1983. também denominada pesquisa médica associada a cuidados médicos. Embora contestada posteriormente tal distinção não deixa de apresentar um valor. Propõe pela primeira vez a distinção entre pesquisa com intenção terapêutica ou clínica beneficiando pacientes. alguns pontos: a) o cuidado com a liberdade e o bem-estar do sujeito de pesquisa: Antes de empreender uma experiência deve-se avaliar comparativamente com cuidado os riscos e os benefícios previsíveis para o sujeito ou para outros indivíduos. e a pesquisa biomédica não terapêutica implicando sujeitos humanos. O objeto de pesquisa biomédica sobre sujeitos humanos deve ser a melhoria dos métodos diagnósticos. em Tókio (1975). causar-lhe mal (princípio da não-maleficência). Ela não deve. deve apoiar-se sobre a experimentação envolvendo sujeitos humanos. A última edição data de 2000.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos .introdução)(8). No caso de uma experimentação não terapêutica a finalidade é a aquisição de um novo conhecimento ou a validação de uma hipótese. no entanto. foi acrescentado um item que tem norteado a avaliação dos protocolos de pesquisa. reflexo do princípio de beneficência (item 5. e isso se aplica de modo especial à pesquisa biomédica. Assembléia geral da AMM (Associação Médica Mundial) em Edimburgo(6. Assim. qualquer protocolo de pesquisa envolvendo sujeitos humanos em seus diversos aspectos. exigências éticas como declaração do consentimento informado e esclarecido. Esse ponto já está na introdução que aponta para o valor e a necessidade de pesquisas com seres humanos. aprovada na 52ª.7). O progresso da medicina é baseado na pesquisa que. a ponderação risco-benefício. há que se justificar a intervenção por algum benefício potencial para o sujeito (princípio de beneficência). terapêutico ou profilático comporta riscos. b) o valor das investigações. Destacam-se. iniciativa que se tornou. como a cientificidade. um dos critérios básicos da eticidade de um projeto de pesquisa e está incluído como cláusula necessária em todos os Códigos que regem os Comitês de Ética em Pesquisa de todos os países signatários da Declaração. Essa Declaração de Helsinque-Tokio congrega basicamente recomendações aos médicos pesquisadores envolvidos no projeto de pesquisa das tecnociências biomédicas. Em pesquisa terapêutica o objetivo principal é a melhora do estado do paciente. se houver alguma razão de crer que sua continuação puder acarretar danos. ou pesquisa biomédica não clínica. (Declaração de Helsinque II . O texto que. invalidez ou a morte para o sujeito. em sua XVIII Assembléia geral realizada em Helsinque aprovou a desde então denominada Declaração de Helsinque que foi reeditada com acréscimos por ocasião da Assembléia de Tókio em 1975. Outro ponto interessante refere-se à avaliação da correlação risco-benefício.1(1):12-23 Como reza o (item 5) combinado com (item 10) onde se lê: O cientista responsável pela experiência deve estar pronto a interromper a qualquer momento. terapêuticos e profiláticos e a compreensão da etiologia e da patogênese.Centro Universitário São Camilo . em última análise. Já na sua introdução fica evidente a preocupação com a cientificidade da investigação aliada à "missão do médico" que é a de velar pela saúde do homem. Hong Kong em 1989 e 1996 na África do Sul. 3: o médico deverá avaliar os benefícios. Na Assembléia da AMM. inovações e progressos das tecnociências. desde então. será submetido a um Comitê. reunida para a 17 . Item 5 de Helsinque I ao qual foi acrescentado posteriormente: Os interesses dos indivíduos devem sempre se sobrepor aos da ciência ou da sociedade.A Declaração de Helsinque Em 1964 a Associação Médica Mundial. A Associação Médica Mundial. Nos princípios básicos da Declaração pode-se ler: O projeto e a execução de cada fase da experimentação envolvendo o ser humano devem ser claramente definidos em um protocolo experimental que deve ser submetido para exame. Tal item é a avaliação coletiva por um comitê independente. independente do pesquisador e do patrocinador(8). comentário e parecer a um comitê designado especialmente para esse fim. B . citado acima) combinado com item II. nessa Declaração.

Afirma ele: Essa (Declaração) revela explicitamente que a perspectiva da ética médica evoluiu em algumas décadas no sentido de um abandono do "medicocentrismo" paternalista que caracteriza a deontologia tradicional. como fato significativo apontando. em 1981. Nessa ocasião foram aprovadas diversas resoluções denominadas Resoluções de Madri: "Declaração sobre fecundação in vitro e transferência de embriões". Em um sentido simbólico. que tomam decisões em matéria de políticas científicas têm igualmente responsabilidades quanto a isso(8). Nota-se claramente. "Declaração sobre eutanásia". em especial o rigor. "Declaração sobre a orientação genética e as manipulações genéticas"(8). variado e problemático na sociedade(8). diria quase obrigatório. a prudência.A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem é um texto denso na conceituação e claro nas recomendações. do consentimento esclarecido dos sujeitos da pesquisa. os outros textos significativos da bioética internacional são a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem da Comissão Internacional de bioética. C . A dignidade se declara mais expressamente no artigo 2. de sua dignidade e de sua liberdade. Relevase o direito do enfermo de escolher livremente um médico livre. o que constitui um avanço considerável. Nos seus artigos 13 a 16 estão arroladas as condições das atividades científicas: As responsabilidades inerentes às atividades dos pesquisadores. da UNESCO. Ao lado da Declaração de Helsinque-Edimburgo (2000) da Associação Médica Mundial. na expressão de Hottois. (artigo 1). Ainda convém registrar. Destacam-se a importância e a necessidade reconhecidas das investigações científicas no campo da genética e da biomedicina. o direito a confidencialidade.O Relatório Belmont Em 1974 foi promulgado o National Research Act (USA) e se tornou lei pela qual foi criada a Comissão Nacional para a Proteção dos sujeitos humanos de pesquisa biomédica e behaviorista. "Declaração sobre transplante de órgãos humanos". moral ou religioso(8). de 1997 e a Convenção sobre os Direitos do homem e a Biomedicina do Conselho da Europa também de 1997. o direito de morrer na dignidade e de receber ou recusar um auxílio espiritual. Em seus 25 artigos reitera basicamente princípios que vem se consolidando como pilares no domínio da bioética. o direito de recusar um tratamento.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . a decisão que se institucionaliza de modo firme na bioética em reconhecer para si o caráter de independência assim como a nitidez e a força de seu compromisso com os direitos do homem. no meu entendimento. O genoma humano subentende a unidade fundamental de todos os membros da família humana. públicas e privadas. 18 . a avaliação coletiva prévia do protocolo e o direito à proteção da confidencialidade de dados genéticos da pessoa humana. Já em seu primeiro artigo toma partido claro da dignidade do humano. Nos artigos 5 a 10 concentram-se as orientações sobre os direitos das pessoas vinculados à questão do genoma. um grupo ou indivíduo com o intuito de se dedicar a uma atividade ou realizar um ato com objetivos contrários aos direitos do homem e às liberdades fundamentais. As pessoas. em vista de suas implicações éticas e sociais.2007. Lê-se no artigo 25: Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como podendo ser invocada de qualquer modo por algum Estado. ele é o patrimônio da humanidade. Gilbert Hottois aponta um fato relevante na história recente da medicina. na condução a de suas pesquisas como na apresentação e utilização de seus resultados deveriam ser objeto de atenção particular no âmbito das pesquisas sobre o genoma humano. aprova uma Declaração sobre os Direitos dos doentes. assim como o reconhecimento de sua dignidade intrínseca e de sua diversidade.Centro Universitário São Camilo . Trata-se da Assembléia geral da AMM em Madri realizada no ano de 1987. D . uma abertura crescente da ética médica a questões de bioética e às questões de auto-regulamentação da profissão médica implicada de modo cada vez mais complexo. Retoma recomendações de outros textos bioéticos no que concerne o caráter relevante. A liberdade de investigar é defendida incessantemente sob a condição de respeitar a pessoa humana. inclusive aos princípios enunciados na presente Declaração. a honestidade intelectual e a integridade.1(1):12-23 Assembléia geral de Lisboa.

antes do início da pesquisa. Para se referir ao primeiro princípio citado. E uma pessoa é autônoma na medida em que se mostra capacitada de deliberar sobre objetivos pessoais e agir no sentido dessa deliberação. o que significa resultados benéficos ou resultados danosos à pessoa humana. indispensável para se estabelecer a eticidade da pesquisa. Em 1976 como resultado de trabalhos em uma reunião de quatro dias intensivos no Instituto Smithsonian foi apresentado o denominado Relatório Belmont. Esses princípios se tornaram. Lemos no texto do Relatório: "Esses princípios não podem sempre ser aplicados de modo incontestável para resolver problemas particulares de ética. a de explicitar de modo claro e sucinto os princípios fundamentais de ética que serviriam de base para as recomendações e orientações de conduta nas pesquisas. A Comissão esclareceu: a) os limites entre a pesquisa biomédica e a prática médica. segundo o Informe. Por princípios fundamentais entendem-se os juízos de ordem geral que subsidiam a justificação de prescrições de ordem moral e as avaliações das ações do homem. numa pesquisa científica o respeito se manifesta como a exigência de que o sujeito possa dar o seu consentimento. seguem o Informe Belmont e empregam o conceito de respeito pela pessoa.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . 19 . Na bioética o nome oficial passou a ser: Relatório Belmont: Princípios éticos e diretrizes para pesquisas envolvendo sujeitos humanos. como que por conseqüência. Belmont era a designação do Centro de Conferências daquele Instituto. Leo Pessini e Barchifontaine(11). desde então. ao contrário. duas exigências básicas: a primeira. Assim. seguindo a máxima de Hipócrates. sem dúvida. a expressão negativa do princípio "não fazer o mal". A esse princípio de respeito pela pessoa humana segue. dar crédito às suas opiniões e suas escolhas refletidas. Assim. que as pessoas sejam tratadas como agentes autônomos. Abandonou uma definição anteriormente admitida entre pesquisa terapêutica e pesquisa não-terapêutica. o princípio de beneficência. as informações as mais amplas e mais adequadas possíveis ao sujeito da pesquisa para que esse possa em conhecimento de causa consentir em participar da pesquisa. respeitar a livre escolha dos agentes morais. Engelhardt(10).1(1):12-23 Essa comissão foi encarregada de elaborar um documento com os princípios éticos fundamentais que deviam sustentar as pesquisas biomédicas e dar as diretrizes para a solução de problemas e dilemas éticos provenientes de pesquisas envolvendo sujeitos humanos. e. Muitos autores sugerem. é necessário que o sujeito tenha a capacidade legal para consentir. proteger as pessoas com a autonomia reduzida. E para que esse seja aceito como válido. usam o conceito de autonomia. salvo se essas ações representam qualquer dano à outra pessoa. emprega o que se pode entender como uma das manifestações da autonomia ou a manifestação do respeito da pessoa que é o conceito de consentimento.2007. o que implica. ou. Apresentou uma definição clara do conceito de risco. Ryan e de Robert Cooke. que compreenda essas informações. a principal fonte de orientação para as avaliações críticas da pesquisa científica envolvendo sujeitos humanos. O objetivo visa fornecer uma estrutura analítica tendo como finalidade orientar a resolução de problemas de ética resultantes de pesquisas que envolvem sujeitos humanos". Foi solicitado da Comissão que esclarecesse determinados conceitos. então. Os trabalhos da Comissão estavam sob a presidência de Kenneth J. o respeito pela pessoa implica reconhecê-la como agente autônomo. de fato. c) estabeleceu diretrizes para a escolha dos sujeitos. autores como Beauchamp e Childress(9).Centro Universitário São Camilo . b) o papel da avaliação dos critérios de risco/benefícios. não exercer a força para impedir suas ações decorrentes dessa deliberação refletida. a segunda. a expressão respeito pelas pessoas implica. em outros termos. O Relatório aponta três princípios fundamentais: o respeito à pessoa. e não sofra qualquer coerção para consentir. No entanto. As tecnociências são assinaladas com o índice da ambivalência. Por essa razão a exigência de se apresentar. d) definiu de modo claro a questão do consentimento esclarecido informado e livre e como se distinguem o consentimento e a obtenção do consentimento por parte do sujeito. Na realidade não há divergências entre as leituras diversas do Informe. Pela perspectiva ética a pessoa é respeitada se suas decisões são aceitas e protegidas contra qualquer dano e se há o cuidado de lhe oferecer o maior bem estar. uma vez que. que receba informações sobre os procedimentos de pesquisa em todas as suas etapas. Isso impõe a consideração da existência de riscos que envolvem as pesquisas com seres humanos. a beneficência e a justiça. por conseguinte. a principal contribuição dessa Comissão foi.

Comitês de Ética em Pesquisa foram instituídos garantindo que os esforços de instituições públicas ou privadas de pesquisa tivessem êxito na proteção dos sujeitos humanos envolvidos nas pesquisas. 115)(2). infelizmente. Na realidade ocupa lugar relevante na agenda da bioética a questão da regulamentação ou da auto-regulamentação no campo das pesquisas com seres humanos..Centro Universitário São Camilo . Percebe-se mesmo uma resistência de muitos pesquisadores dessa área em explicar detalhes de seu projeto de investigação que. deveriam permanecer incógnitos. Essa iniciativa já está consolidada dado o número de Comitês de Ética que se institucionalizaram nos anos recentes. Uma de suas principais conquistas na maior parte dos países é o sentido de sua liberdade. a saber. Quanto. sobretudo no âmbito das ciências biomédicas. que projetos de pesquisa são submetidos aos Comitês. pareceres e deliberações da bioética. não por convicção sobre a relevância em se assegurar a eticidade necessária para o bom desenvolvimento dessa experimentação com seres humanos. muitas vezes. creio que se pode hoje. No entanto."[. movidas por certa desconfiança em relação às preocupações éticas provocadas por muitas pesquisas que contrasta como o dinamismo de sua audácia científica. observa Lebacqz. decorridos trinta anos desse Informe. Levine observa apropriadamente: A Comissão pôde atingir os objetivos que havia proposto. a questão pode ainda ser discutida". seja algum constrangimento institucional. sobretudo que as restrições impostas atravancariam a liberdade de pesquisa.. Deve-se entender que essa Comissão Nacional foi criada como um organismo essencialmente consultivo e não com função legislativa. seja constrangimento no que se relaciona a prazos e exigências externas por parte de interessados nos diversos protocolos a serem avaliados. No âmbito de sua deontologia tais pesquisadores permaneciam antes na defensiva. Como suas recomendações não tinham força de lei. pois as resistências são ainda fortíssimas não só lastreadas em certo desconhecimento do significado das exigências con- tidas nesses documentos e declarações de princípios. Seguindo as recomendações do Comitê Internacional de bioética (CIB) aqui em nosso país o Ministério da Saúde criou o CONEP (Comitê Nacional de Ética em Pesquisa) que em 1996 aprovou Resolução para servir de fundamento e orientação às avaliações do caráter ético dos protocolos das investigações envolvendo sujeitos humanos. mas. como todas as recomendações. tendo em vista a ambivalência dos resultados e das aplicações. prejudicaria a objetividade do trabalho científico (p. Infelizmente constata-se.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Nas palavras de Anne Fagot: Os profissionais protestaram. a elaboração de recomendações racionais tendo em vista uma política apresentando declarações oficiais sobre os princípios éticos fundamentais que serviriam de base a essas recomendações(12). 106)(2). que se lê expressa no Relatório Belmont: Quem deve colher as vantagens da pesquisa e quem deve arcar com os riscos? Entra em cena. É um avanço apreciável e relevante. O elemento axial de sustentação de um Comitê de Ética é sua autonomia e independência. na maior parte dos países foram aprovadas legislações específicas sobre a questão. seguindo eles. resta saber a posição que tomaram os organismos administrativos e legislativos de posse dessas recomendações. aliás. É próprio de problemas difíceis de ética não oferecer soluções fáceis(13). ainda permanece muito a ser feito. A prática nos Comitês de Ética em Pesquisa mostra.1(1):12-23 Agora surge a indagação. Segundo esse princípio os benefícios ou vantagens e desvantagens ou inconvenientes devem ser distribuídos eqüitativamente. comprometeria sua fecundidade. de fato. isto é. Muitos pesquisadores dessas áreas há bem pouco tempo se opunham a essa preocupação com a eticidade da pesquisa alegando defenderem a autonomia de pensamento.2007.]se a Comissão encontrou o justo equilíbrio na interpretação e na aplicação dos princípios. Disso se pode concluir a relevância a o sentido da tarefa dos Comitês de Ética em esquisa com seres humanos na atualidade. E o Informe refere-se ao conceito de justiça como distribuição eqüitativa. o princípio de justiça. mas simplesmente para assegurar créditos indispensáveis à publicação dos resultados. Não é aceitável qualquer tipo de constrangimento no desenvolvimento de suas atividades e nas deliberações de seus membros. De qualquer modo. (p. Nós estamos todos prontos em propor que se deva limitar a liberdade de outros e lentos em admitir como bem fundadas as restrições impostas às nossas próprias liberdades. 20 . por exemplo. no caso de uma Universidade.

Penso prudente pensar sobre ao alargamento do cenário que doravante inclui outros agentes além do especialista médio. Novas questões foram descobertas. permite antever como é complexo e longo o caminho para a compreensão visada. ao mesmo tempo. só percebidos durante a caminhada. sobretudo orientar seu foco de análise à gênese dos procedimentos. entendo que além dos princípios já consagrados de respeito à pessoa humana (autonomia). 117-118)(2). E mais. as reações emocionais se acalmem. afinal.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . Devem-se reconhecer nos inúmeros estudos críticos e aprofundados que têm sido apresentados o sinal da relevância dessa questão. que as normas já instituídas de interiorizem e que as normas a serem criadas sejam discutidas entre as partes num espírito de livre crítica e de responsabilidade" (p. Potter já preconizava um projeto inovador quando sugeriu uma aliança renovada entre a Biologia e a Sabedoria em ação(14). a força constrangedora de uma lei. indica a necessidade de se repensar o efetivo sentido da medicalidade da situação. lhe dizem respeito? Que limites deveriam ser esperados para esse poder? Em que condições pode transcender o âmbito tecnocientífico. De certo modo. Muitos atalhos. sob os auspícios da bioética. Estéril qualquer tentativa de listagem exaustiva. mas. Como considerações finais tenho a impressão de ter percebido não respostas a questões. Nessas condições poderá fazer frente aos abalos provocados pelos efeitos de suas próprias transformações. aos seus méto- dos e critérios de autocrítica. Os próprios Comitês se sentam incentivados pela crescente conscientização da própria sociedade civil atenta às questões cruciais que se colocam nesse campo. acrescentam-se os de dignidade da ciência. Apesar de todas as dificuldades percebe-se um avanço considerável no sentido de se tentar encaminhar soluções com traços de prudência e sabedoria. Outra questão que exige todo o cuidado reflexivo da bioética é a do consentimento livre e esclarecido. Por qual razão um pesquisador atenderia o recomendado por um "princípio"? "Inútil insistir sobre a fragilidade de uma moral sem obrigações nem sanções" (p. CONCLUSÃO O caminho é feito ao se caminhar. e os impactos oriundos de suas inovações fantásticas. beneficência e justiça. no entanto. normas e valores éticos? A solução seria uma auto-regulamentação? As Declarações e os documentos até hoje instituídos em concerto representam uma solução válida. seja em situação de pesquisa como em situação de cuidado clínico. a sociedade deveria permanecer numa posição de pura passividade em relação a essas investigações que. de desconfiança paranóide para outros. Apela-se ao direito de autonomia de investigação. Uma análise crítica levada a efeito pela epistemologia tenta compreender não meramente a ciência constituída e a miríade de seus métodos.2007. exigem atenção redobrada da reflexão crítica. sobre os "princípios" que orientam as ações nesse domínio. Anne Fagot em tom otimista afirma: "O que se pode esperar é que após um período de entusiasmo regulamentador para alguns. a construção de um saber. às intuições. Nem sempre o destino é conhecido ou mesmo cognoscível. mas perplexidades. nesse domínio impõe-se uma nova articulação entre o plano teórico reflexivo ou especulativo e a plano prático concreto. a apuração constante de uma metodologia e a instauração de uma norma. Nos primórdios desse novo paradigma. Não têm. Ela é o eixo axial de uma nova visão das investigações com seres humanos. Creio que a indagação básica que continua presente para a sociedade atual diz respeito ao significado e alcance das investigações biomédicas e a experimentação humana. essa posição de resistência de muitos pesquisadores. Dr. Pode-se indagar se as inovações espantosas das tecnociências concedem ao pesquisador um poder desmesurado e imune a qualquer limitação? Afinal. Incertezas se revelam a montante e a jusante. O volume imenso de estudos científicos e filosóficos.1(1):12-23 senão abertamente pelo menos de modo velado. Do mesmo modo. especialmente no domínio da investigação biomédica. e o de utilidade para a sociedade cuja idéia básica é a da maximização do bem estar de todos.Centro Universitário São Camilo . em um dos textos fundadores da bioética. suas condições de possibilidade. fazendo do pesquisador um ente isento de qualquer relação com os condicionamentos sociais. 108)(2). As pesquisas visam. O tema é complexo e ambíguo na medida em que 21 . Conhecer perfeitamente os códigos de trânsito não garante a ninguém o aprendizado de como dirigir adequadamente.

Para o encaminhamento das questões.]Elas indicam muito bem o que não se deve fazer. Atingimos um nível de compreensão a respeito da avaliação de cunho epistemológico sobre as condições de possibilidade das investigações científicas da experimentação humana seja com o objetivo de adquirir conhecimento geral a partir de um caso particular.2007. como investigação visando novos conhecimentos e prática terapêutica... A convicção da relevância dessa avaliação postula. Reconhece-se com fundada razão que a medicina. Mais recentemente a medicina. ampliou-se o cenário do diálogo. Ainda se nota no homem como ser cultural o "desejo de conhecer" de que falava Aristóteles na sua Metafísica. 108)(2). desde tempos imemoriais. Decisão eminentemente valiosa como conquista na busca do bem-estar da humanidade.1(1):12-23 extrapola o plano tecnocientífico e atinge a própria situação existencial do ser humano em todas as suas dimensões. para além do imperativo de normas e regras com pretensão de universalidade. necessário e indispensável para o caráter científico de uma pesquisa envolvendo o ser humano em todas as suas dimensões.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Mesmo como investigação científica. Esse empreendimento não se faz sem conflitos e dilemas. de pertinência conceitual e ética e de aceitabilidade dos recentes documentos da Bioética proclamados sob os auspícios da UNESCO. A fragilidade e o sofrimento do enfermo devem receber o cuidado especial e a eventual cura. que a eticidade seja elemento fundante. ocupa lugar proeminente na agenda de debates da bioética a questão densamente complexa do conflito entre a "proteção do ser humano" ou o respeito da pessoa humana. Esse tem sido. A bioética. apesar do seu caráter indeterminado e evolutivo. Mas aí está uma nova questão a ser debatida. Diversos fatores intervêm na dinâmica das decisões e dos procedimentos quando as duas principais facetas se entrecruzam: a pesquisa e a terapêutica. as deliberações e os processos de decisórios relacionados a esse campo dilemático das pesquisas biotecnológicas envolvendo seres humanos. mas não mostram tão bem em nome de que se deve escolher o que se deve fazer" (p.Centro Universitário São Camilo . Nas palavras de Anne Fagot: "[. as ciências biomédicas para atingir seus objetivos valeram-se da estratégia da experimentação com seres humanos. O argumento que se pode reclamar se baseia no caráter ainda ambíguo das declarações de princípio. A exigência da bioética atual se volta agora. Essa avaliação epistemológica só será eficaz se aliada à rigorosa avaliação de ordem ética. está profundamente vinculada à condição humana na sua finitude e fragilidade. Ilustra esses avanços o alto nível de abrangência. O esforço manifesto nas diversas Declarações proclamadas sob os auspícios da Unesco resulta inegavelmente em transformações significativas no cenário das investigações tecnocientíficas. Na realidade. penso eu. o que segundo as conquistas da bioética é realizado como tarefa essencial e institucional pelos Comitês de Ética em Pesquisa. os princípios de beneficência e justiça e o dever de experimentar. de investigar. na dialética da saúde-doença. seja com o objetivo terapêutico. modelo eminente de saber rigoroso e especializado. e isso é um significativo avanço no campo das pesquisas biotecnológicas. orientações e balizas que têm norteado as ações. para a busca de regulamentações mais precisas seguidas de leis mais inteligentes promulgadas pelo poder competente. a expressiva conquista da bioética como uma nova manifestação de atitude ética. 22 . diante de reveses e desvios condenáveis no passado recente da humanidade. como prática discursiva tem instituído com sucesso. não se limita a um certo número de indivíduos na sociedade.

3. a mosca e o homem. Potter VR.1982.97-118. Zuben NAV. 7. (Cahiers de Bioéthique. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Québec: Université de Laval. Québec: Université de Laval. Código de Nuremberg:1946-1947. Bauru: EDUSC.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . Bioethics. El bien. Loyola. Hottois G. Beauchamp TL.4 Médicine et expérimentaiton). Fagot A. São Paulo: Centro Universitário São Camilo. Edimburg. 1992 6. Associação Médica Mundial. rev ampl. 2006. Entre o cristal e a fumaça. 2002. O rato. 13. Pessini L. São Paulo: Companhia das Letras. Fundamentos da bioética. (Cahiers de Bioéthique. 1982. Childress JF. 5. el mal y la ciencia: las dimensiones éticas da le empresa científico-tecnológica.Profil et analyse critique des recommendations de la Comission Nationale. Atlan H.2007. Clarifier les concepts de l´éthique de la recherche. Missa JN. Lebacqz K. Problemas atuais de bioética. Barchifontaine CP. organizadores.14(1):127-153. 2000. Edimburg. 4. 14. 2005. 1998.Centro Universitário São Camilo . 2001.4 Médicine et expérimentaiton). 2000. 2. Madrid: Technos. Levine RJ. Bruxelles: De Boeck. 1982. 12. 8. 11.1(1):12-23 REFERÊNCIAS 1. Bioética e tecnociências: a saga de Prometeu e a esperança paradoxal. Biol med 1970. Agazzi E. Declaration d´Helsinki. 1996. the science of survival. (Cahiers de Bioéthique. p.1998. Université. 7ª ed. Nouvelle encyclopédie de bioéthique. Jacob F. São Paulo: Loyola. La protection du sujet humain: des déclarations aux directives. Associação Médica Mundial. Quebec: L´Université de Laval. 9. São Paulo: Loyola. Engelhardt HT. 4. 10. 23 . Princípios de ética biomédica.Médicine et expérimentation).

Considera las extraordinarias aplicaciones de las innovaciones en Medicina cara al que denomina de perplejidad científica y ética.Centro Universitário São Camilo . RESUMEN: Este artículo propone una reflexión sobre las repercusiones provocadas por las innovaciones tecnológicas en la práctica asistencial médica. KEYWORDS: Ethics. partiendo de una introducción histórica de la Medicina como ciencia. questioning whether the advances in science and technology are not inducing a shift of the role played by the doctor as a promoter of health in the direction of manipulating human life. Medicina. The author considers the extraordinary applications of innovations in Medicine named scientific and ethical perplexity. Medicine. PALABRAS LLAVE: Ética. seguida de uma análise da economia da tecnologia em relação ao setor saúde. partindo de uma introdução histórica da Medicina como ciência. PALAVRAS-CHAVE: Ética.1(1):24-33 Ética e inovação tecnológica em medicina Ethics and technological innovation in medicine Ética y innovación tecnológica en medicina José Geraldo de Freitas Drumond* RESUMO: Este artigo propõe uma reflexão sobre as repercussões provocadas pelas inovações tecnológicas na prática assistencial médica. followed by an analysis of the economical aspects of the technology in relation to the health sector. ABSTRACT: This paper aims at drawing the attention to the impacts caused by the technological innovations to the medical welfare practice. seguida de un análisis de la economía de la tecnología con relación al sector salud.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . 24 .2007. Tecnologia-inovação. Considera as extraordinárias aplicações das inovações em Medicina face ao que denomina de perplexidade científica e ética. It starts from a historical perspective of the Medicine as a science.FAPEMIG e da Sociedade Ibero-americana de Direito Médico -SIDEME. Technological-innovations. Tecnologia-innovación. * Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais . cuestionando si los avances de la ciencia y de la tecnología no estuviesen induciendo un cambio de la misión del médico de promotor de la salud en dirección a la manipulación de la vida humana. Medicina. questionando se os avanços da ciência e da tecnologia não estariam induzindo uma mudança da missão do médico de promotor da saúde em direção à manipulação da vida humana.

A invenção. que possuem uma forte interação com a ciência e a tecnologia. de caráter otimista. Atualmente existe um contínuo desfilar de novidades tecnológicas. através da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico. do qual é o produto da percepção. surgidas principalmente desde a metade do século XX. além dos procedimentos eticamente questionáveis que tais inovações têm suscitado.2007. Esta realidade promove. no que se refere à natureza. mediante a utilização de produtos e procedimentos com vistas a evitar o aparecimento de enfermidades ou erradicá-las. decorrentes dos avanços conquistados pelas ciências médico-biológicas. Tomaremos como marco inicial do desenvolvimento científico das ciências médicas o Renascimento.Ética e inovação tecnológica em medicina . e derivada de cada disciplina que afeta as pessoas e a sociedade. refletiu as metamorfoses de um empreendimento científico ao longo dos tempos. mormente. conforme exige a sua complexidade. razão pela qual requer uma análise de um modo sistêmico. em razão dos inúmeros benefícios que as inovações tecnológicas vêm propiciando em relação à saúde e ao bem-estar das pessoas. de um lado o vincula intimamente ao desenvolvimento científico-tecnológico. no entanto. promove conseqüências diretas sobre a saúde individual e na qualidade de vida das populações. No setor saúde. O seu desenvolvimento. assevera que a pesquisa envolve três processos sociais. a segunda. tem suscitado discussões polêmicas a cerca da relação entre custos e benefícios auferidos pela sociedade em geral levando-se em conta o crescente ônus financeiro assumido pelos sistemas nacionais de saúde para incorporar as ditas inovações. gerando impactos na economia e na sociedade em geral e. se deu de modo gradual e por vezes paradoxal. Pesquisa se refere ao processo social que produz conhecimento de forma válida e generalizável e proporciona a renovação das bases disciplinares intelectuais e profissionais. através de avanços e recuos que. inovações essas materializadas sob a forma de novos equipamentos. essencial para as ciências humanas e sociais. Aspectos históricos da ciência médica O nascimento da medicina ocidental como ciência remonta à Antiga Grécia e ao aparecimento da "tekné" helênica. no entanto. Daí porque os conhecimentos têm por finalidade a promoção e o progresso da espécie humana e da humanidade. de outro. o setor saúde tem características peculiares que. duas constatações. A primeira. novos procedimentos clínicos e novas medidas profiláticas que. compõem um acervo de novas informações que conferem ao setor da saúde ser um dos setores da economia mundial que mais tem crescido nos últimos tempos.Centro Universitário São Camilo .1(1):24-33 INTRODUÇÃO O setor saúde compreende atividades de atenção médico-hospitalar e ambulatorial. Importa destacar alguns desses avanços históricos. a inovação deve ter por finalidade a melhoria da qualidade de vida das pessoas. não a causa e daí porque tradicionalmente a pesquisa resultante da invenção ou baseada nela é denominada de pesquisa básica ou pura. O termo inovação se refere à produção de novos processos dentro dos já existentes "que ampliam o escopo e o nível das aplicações de conceitos e constructos". a transformação de pessoas e instituições. Em suma. por ter sido essa a época que propiciou a aceleração das manifestações intelectuais em praticamente todos os campos da criatividade e intelectualidade humanas e. Lolas(2). enfim. O conhecimento se conceitua como uma informação organizada que produz efeitos sociais e individuais para aqueles que dela fazem uso. à sociedade e ao próprio homem. segundo Potter(3). a um só tempo. A inovação tecnológica se depreende da apropriação pela sociedade de novos conhecimentos e a utilização das descobertas da ciência e da tecnologia nos diferentes setores da sociedade como a indústria. A infra-estrutura científica deste setor é "origem de um fluxo de informações que apóia o surgimento de inovações que afetam a prática médica e a saúde". devido a sua contribuição para a constituição deste fabuloso patrimônio cultural da humanidade que representa a medicina contemporânea. 25 . como afirma Albuquerque(1). a educação e a saúde. Finalmente. que é a criação de novos conceitos que estruturam a percepção da realidade. tecnologia e inovação Entende-se por ciência toda atividade humana desenvolvida de modo sistemático e que tem por finalidade ampliar a base do conhecimento do homem. na Conceitos de ciência.

daí sua denominação de 26 . O século XVI ficou consagrado como o século do nascimento da anatomia humana como uma disciplina. Indiscutivelmente. pois o esplendor nas artes e na literatura foi acompanhado. foram tornados públicos e transformados em centros de investigação científica para as enfermidades. física e biologia. Neste período inicial de desenvolvimento científico da medicina francesa destacaram-se. inventor do estetoscópio. de fato significou uma mudança paradigmática do conhecimento médico de então. Esta revolução foi tão importante que mereceu de Rosemberg (1976). Virchow é considerado fundador da moderna patologia por ter sido o primeiro a utilizar o microscópio com a finalidade precípua de diagnosticar uma doença pelo exame de células e tecidos lesados. instrumento este que. Igualmente. que trouxe um real avanço no conhecimento médico a partir da descrição da circulação sangüínea por meio do inglês William Harvey e complementada pelo italiano Marcelo Malpighi. descobridor da função glicogênica do fígado e precursor da medicina experi- mental. os hospitais se viram libertados do domínio eclesiástico. a patologia e a farmacologia. Outro destacado cientista alemão foi Robert Koch. publicou o seu célebre.Centro Universitário São Camilo . O século XVII tornou-se o berço da fisiologia. a ciência médica se dicotomiza. No século XVIII a Europa presenciou o nascimento da anatomia patológica pelas mãos de um médico de Pádua.1(1):24-33 arte hipocrática. rivalizando-se com os mais modernos equipamentos sensoriais. cuja inquietude intelectual ultrapassou o conhecimento médico propriamente dito. No entanto. denominado Giovanni Battista Morgagni que. vindo a ocupar uma cadeira no parlamento germânico por mais de 30 anos. a arqueologia e a economia. mas o médico do indivíduo humano". graças ao belga Andreas Vesalius que realizou as primeiras dissecações em cadáver humano e propôs a sua configuração anatômica em seu famoso De Humani Corporis Fabrica. foi a Alemanha que consignou o século XIX como o mais reluzente para o desenvolvimento de uma medicina com bases científicas. a figura de Rudolf Virchow. Interessandose pelos problemas sociais de sua pátria. dividindo com Pasteur o título de fundador da moderna bacteriologia. na Grécia do séculoV antes de Cristo. eminente médico alemão de personalidade multifacética. De sedibus et causis morborum per anatomen indagatis que. a afirmação de que "o progresso na medicina teve de aguardar o desenvolvimento da ciência da bacteriologia".ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Ressalta-se. também conhecido como pai da histologia. aos 79 anos de idade. nem mesmo o médico do gênero humano. historiador da tecnologia. levando-se em conta os rumos que tomaram as medicinas francesa e alemã. simultaneamente com os avanços nas áreas a química. além de ensino para os estudantes de medicina(3). continuando a ser um instrumento indispensável da prática médica até os dias atuais. considera que "o progresso médico não foi responsável por qualquer redução significativa da mortalidade humana antes do século XX". isto é. esta assertiva é admitida pelo Banco Mundial. impulsionador de rumos novos para a bacteriologia. em determinado momento pelos avanços do conhecimento médico-biológico. para a saúde dos outros. os mais espetaculares feitos do desenvolvimento científico em geral ocorreram durante o transcorrer do século XX. Notoriedade deve ser conferida. nesta época. transbordando-se para a antropologia. grande histologista e cultor da anatomia patológica e RenéThéophile-Hyacinthe Laennec. também. Na França. e em conseqüência da Revolução liberal. A revolução da bacteriologia ocasionou uma mudança de paradigma na ciência médica desde o aparecimento da arte hipocrática como um "saber autônomo". mesmo que esse resultado seja altamente vantajoso para a ciência. o histologista Marie-François Xavier Bichat. Claude Bernard dizia que "o princípio da moralidade médica e cirúrgica consiste em nunca executar no homem uma experiência que possa produzir nele malefício de qualquer espécie. Rosemberg(4). ficando consagrado como o Pai da moderna anatomia. vem resistindo à natural obsolescência que o tempo impõe às novidades. ao fisiologista francês Claude Bernard. No século XIX. dentre outros. cientista que consagrou o aparecimento de um triunvirato que seria a base das ciências médicas atuais: a fisiologia. só que a situando nos anos 1930 do século pretérito(5). alçou o patamar da política nacional. ao substituir toda a especulação teórica e fantasiosa sobre a natureza do processo mórbido pela correlação anatômica entre os sintomas apresentados pelos pacientes com os achados post mortem. nas necropsias que realizo. O médico não é o médico dos seres vivos em geral. Não obstante. curiosa e extraordinariamente.2007.

milhares de empresas de biotecnologia.2007.área especializada na decifração do código genético dos seres vivos . alcançando em um total de 18 países. atualmente. dentre outras. Por seu turno. com a finalidade de vencer os desafios atuais da Medicina. o setor da economia tem colhido generosos frutos da aplicação do conhecimento em biotecnologia. quer pela melhoria genética dos diferentes rebanhos.Ética e inovação tecnológica em medicina . representados por enfermidades como câncer. com mudanças no teor nutritivo das carnes e do leite. Um marco considerado decisivo para o nascimento da biotecnologia moderna foi a descoberta da estrutura duplamente helicoidal do ADN . no início do século passado em torno de cinqüenta anos. cardiopatias. doença de Alzheimer. esclerose múltipla e AIDS. tem início a disseminação destes experimentos na agronomia. saúde e desenvolvimento social. e nestes alvores do século XXI. até que no ano de 2003 já era possível contabilizar a existência de 167. tanto no macro quanto no microcosmo.Ácido Desoxirribonucléico . conhecido como o século da tecnologia. Avalia-se que este setor de indústria e negócios seja responsável por um movimento financeiro da ordem de 30 bilhões de dólares anuais. abreviada para cerca de uma década. já que foi durante esta última centúria que o homem e a humanidade experimentaram um caudal de conhecimentos jamais observado em toda a sua história. finalmente. Atualmente. então. a matriz do conhecimento humano viesse a ser completamente reformulada a cada período de cinco anos. ser confundida com a realidade. perplexidades científicas e éticas. o setor saúde é responsável por cerca de 85% de todos os recursos investidos em biotecnologia.determinando definitivamente sua inserção entre as maiores descobertas de todos os tempos. Foi no século XX que a ciência se ampliou com a inauguração de outras áreas do saber como a biotecnologia. Desde então os avanços da biotecnologia têm sido tão espetaculares quanto os desafios colocados pelo próprio ser humano para desenvolver técnicas no sentido de mitigar as suas necessidades básicas de nutrição. Esta extraordinária revolução "tecnocientífica". química industrial e a produção de papel. a partir dos estudos de difração de raios X desenvolvidos por Wilkins e Franklin.Centro Universitário São Camilo . quer pela descoberta de plantas resistentes a pragas e com maior valor nutricional. pois imprimiu uma velocidade tão grande na aplicação do conhecimento humano. recém completou meio século de desenvolvimento. Nunca o homem foi tão longe em conquistas. Uma outra área da aplicação dos conhecimentos da biotecnologia desenvolveu a utilização de microrganismos para limpeza de resíduos e o desenvolvimento de processos menos poluentes para indústrias têxtil. acontece.realizada por James Watson e Francis Crick. garantindo-se maior segurança do tratamento hemoterápico. como se constata pelo desenvolvimento do agronegócio. mas a sua capacidade de transformação da natureza e intervenção no homem vem causando. A partir desta data. a ficção pudesse. em sangue e derivados. em todo o planeta. Em razão do progresso científico provocado pelo desenvolvimento da genômica.1(1):24-33 século da tecnologia. seja pelo desenvolvimento de técnicas para a destruição das diferentes formas de vida. o que levou a uma conseqüente redução do emprego de pesticidas químicos que tantos malefícios já provocou ao meio ambiente. Este fato acelerou de modo irreversível o desenvolvimento da genômica . A perplexidade científica decorre da constatação de uma abrupta redução no interstício da renovação da matriz do conhecimento humano. ano de 1987. um terço das quais com ações negociadas nas bolsas de valores e transações financeiras estimadas em mais de 300 bilhões de dólares. uma espécie de tomate resistente a vírus. a um só tempo. alimentos etc. diabetes. Cerca de quatro centenas de drogas e vacinas de origem biotecnológica acham-se em estudo clínico para sua aplicação em humanos. que contribuiu para que a partir da metade do século passado. Um bom exemplo das benéficas aplicações dos resultados da pesquisa biotecnológica atual foi o desenvolvimento de kits diagnósticos para a detecção de vírus e agentes patogênicos diversos. em 1953. fazendo com que tanto neste como em outros ramos da ciência. o suficiente para revolucionar os hábitos das pessoas em praticamente todos os quadrantes do planeta. Quando se focaliza as inúmeras inovações tecno- 27 . por meio da inseminação artificial. O século XX ficou.2 milhões de acres de plantas geneticamente modificadas. Nos Estados Unidos da América existem. retirando-lhes as gorduras nocivas à saúde humana. o primeiro teste em campo de uma planta geneticamente modificada. seja pela produção de novas formas de vida.

mormente a médica. então. tecnologia e inovação em saúde O impacto dos investimentos em pesquisas no setor saúde em relação à melhoria da qualidade de vida das populações tem sido avaliado por vários estudos. 3 . situações ou enfermidadescujos mecanismos fisiopatológicos são conhecidos e cuja prevenção e tratamento são possíveis. no período compreendido entre 1970 e 1990.1(1):24-33 lógicas na área de saúde. uso de antibióticos e prevenção de desordens nutricionais. denominada de "alta tecnologia". esclerose múltipla e cirrose hepática avançada. compara os custos de vacinas e transplantes.10% na taxa de mortalidade e que variava entre 23% a 48% a magnitude da contribuição dessas pesquisas para a redução da taxa de mortalidade. Com base nesse esquema. que consistiu em avaliar a contribuição da pesquisa biomédica em relação à "produção da saúde". em que o paciente e doença apresentam vínculos pouco compreendidos e pouco pode ser feito em relação ao paciente. percebe-se a amplitude dos novos conhecimentos trazidos pela genômica e pela imunologia que. o desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas (principalmente no campo dos transplantes).Centro Universitário São Camilo . com relação à redução da taxa de mortalidade. do tratamento de câncer através de cirurgias. dos quais dois são freqüentemente referenciados. O primeiro se refere ao estudo estatístico de Vehorn e colaboradores(6). O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano UNDP(8). ou seja. um esquema sob a forma de U invertido. determinaram o aparecimento de antibióticos mais potentes. O segundo estudo foi realizado por Lichtenberg(7). Ao correlacionar custos e benefícios. no qual a situação descrita como não-tecnologia . somados à inovação na área da química fina. artrite reumatóide severa.) Na década de 1970 a expectativa de vida nas duas regiões ultrapassou 60 anos.75% a 1% ao ano. Em seu estudo utilizou os critérios do biólogo Lewis Thomas que estabelece três estágios do desenvolvimento tecnológico na medicina. com repercussões imediatas sobre a vida e a saúde do cidadão. emergem as divergências entre aqueles que consideram as inovações tecnológicas as únicas responsáveis pelo encarecimento da prática médica(9). além de hospitalização e cuidados de enfermagem. propõe. parte do problema ou da solução. no entanto. cujas drogas ampliaram a expectativa de vida entre 0. com as suas repercussões na saúde da população e as demandas por inovações. nas quais as tecnologias teriam por finalidade ajustar o paciente à doença como medida para adiar a sua morte. a reprodução assistida e a terapia genética. no período compreendido entre 1900 a 1978.onde haveria pouco ou nada a ser feito . retornando-se ao patamar de gastos (baixos) na terceira situação. a saber: 1 . começando em 1800.. enquanto na situação das "tecnologias intermediárias" estariam os maiores custos financeiros. Também são considerados recentes o uso de novos materiais e medicamentos nas áreas de estética e sexologia. depois viria a fase da "tecnologia intermediária" com o aparecimento 28 . demorou um século e meio". Pesquisa. É o caso dos transplantes. e tratou de avaliar o impacto dos gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) na indústria farmacêutica. 2 . radiação e quimioterapia. concluindo que o crescimento de 1% no esforço de pesquisa nesta área determinava uma queda de 0. E conclui: "(. Weisbrod(9).estágio da "não-tecnologia" ("nontechnology"). conseguindo em quatro décadas o que na Europa.estágio das "tecnologias intermediárias" ("halfway technology"). ou ambos(10). concluindo-se que havia uma relação evidente entre o aumento da expectativa de vida em relação á introdução de novas drogas habilitadas pela agência americana Food and Drugs Administration (FDA). além do desenvolvimento de incríveis-máquinas de diagnóstico que esquadrinham toda a intimidade biológica do corpo humano. resultando em baixa recuperação. Weisbrod(9)..estágio denominado de "alta tecnologia" materializado pela imunização. ao mesmo tempo. e os que as consideram.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . O exemplo escolhido para demonstrar a lógica do esquema é o da evolução da poliomielite: inicialmente a paralisia determinava rapidamente a morte dos pacientes afetados. que estabelece a relação entre desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento humano afirma que "avanços médicos como imunizações e antibióticos resultaram no século 20 em ganhos mais rápidos na América Latina e Ásia Oriental do que os alcançados na Europa durante o século 19 através da nutrição e de saneamento melhores".2007. por exemplo.implicaria em gastos baixos. Cita como exemplos desse estágio câncer não tratável. onde se encontram os procedimentos relativos aos cuidados com doenças e seus efeitos incapacitantes. depois de estabelecidas.

se dá em razão da especificidade do setor saúde. 2 .inovação tecnológica e aumento de gastos .tendência à miniaturização de equipamentos hospitalares. A explicação para este fato . Não haveria possibilidade do paciente vir a decidir.desenvolvimento de vacinas em conseqüência do maior conhecimento sobre a natureza humana. com o desenvolvimento das vacinas Sabin e Salk chega-se à fase da "alta tecnologia". 5 . reforçam esta assertiva explicitando três situações: 1 . principalmente através dos meios de comunicação (redução de gastos. A verdade é que o caráter sui generis da prestação de serviços através da assistência médica. Como exemplo o fato de que qualquer serviço de emergência está obrigado a dispor de determinados especialistas (como o neurocirurgião). por sua vez. não obstante serem objetivas muitas das informações obtidas. no setor da saúde o fenômeno é cumulativo. pois não detém a informação necessária para tomar uma decisão. mesmo que estatisticamente sejam pouco freqüentes os traumas que exijam sua intervenção. no caso em que seus recursos poderem custear apenas uma das terapias. já determina a quebra de uma das regras de mercado para a alocação recursos adequados. que conseguia prolongar a vida das vítimas da pólio a custos elevados e.Ética e inovação tecnológica em medicina . embora esta relação seja. da capacidade do consumidor em decidir que produtos deve adquirir. Dosi(11).2007.a mudança de hábitos e condições de vida propiciados pela educação. embora tenham o mérito de apontar para algumas direções no exercício de equacionar o problema. à semelhança do que ocorreu na indústria de computadores e telecomunicações.não há na assistência médica.técnicas de tratamento e diagnóstico menos invasivas (como a endoscopia. Campos e Albuquerque(12). concomitantemente. é importante salientar que em sendo a Medicina uma prática tão complexa e dependente de interações da ciência e suas limitações. diferencia esta prática das demais atividades econômicas mais convencionais. descreve o que chamou de "trajetórias tecnológicas" a serem identificadas em Medicina. que é a simetria de informações. pois.À diferença do que ocorre nos processos industriais. Este fato. Os estudiosos da economia da inovação têm apontado para uma relação estreita entre ciência e tecnologia no setor saúde(13). para a mesma terapêutica. diferentemente dos demais setores de produção. pela diminuição do número de fumantes e de alcoólicos). Tal esquema. onde a introdução de uma nova tecnologia acarreta a substituição das antigas.Centro Universitário São Camilo . podem ter abordagem diferente. 4 . que é basicamente artesanal. O exemplo vai desde o tratamento de uma simples verminose.a inexistência. as teorias propostas. no entanto. entre uma radioterapia e uma quimioterapia. reduzindo-se acentuadamente os custos da pólio. resultando em relativa monotonia da produção. o ultra-som e imageologia cardíaca). responsável pela elevação dos custos da assistência médica. Outra situação semelhante ocorre com a necessidade de prover de soros antiofídicos nas unidades de saúde para um eventual atendimento de um paciente mordido por serpente. pois na medida em que se amplia a expectativa de vida. "limites para racionalizar a produção". 3 . ao ser comparada como uma categoria econômica(12). o que determina a ampliação de sua capacidade ao mesmo tempo em que se tornam mais baratos. no setor saúde. haveria uma tendência ascendente de custos para cada ano novo acrescido.desenvolvimento de medicamentos mais eficazes que substituiriam cirurgias e internações prolongadas. 2 . cujo desenvolvimento tem propiciado melhoria tanto na quantidade quanto na qualidade de tratamentos e nos métodos de diagnóstico. por si mesmo. é questionado porque seria válido apenas para o caso das doenças transmissíveis e para doenças crônicas que atingem pessoas abaixo dos 65 anos de idade. Toma-se por empréstimo o 29 . Estas e outras constatações permitem confirmar a singularidade da assistência médica. por exemplo. finalmente. que pode ser feita com um anti-helmíntico de amplo espectro.1(1):24-33 do pulmão artificial. ainda são limitadas. como caminhos que se abrem em direção à redução de custos com a assistência médica. no setor saúde. nem insumos nem processos são padronizáveis: é fato que pacientes atendidos por diferentes agentes de saúde ou mesmo em diferentes equipes médicas. sem prévios exames até submeter o paciente a uma bateria de exames. pois não se pode admitir negar tal atendimento em decorrência de estatísticas. Isto decorre do predomínio da subjetividade no processo de trabalho em saúde. 3 . por exemplo. Ao fim e ao cabo. como ocorre em outros setores econômicos. a saber: 1 . que se encontram em geral padronizados. tendo que assumir o ônus da manutenção rigorosa da qualidade e validade do produto.

doenças tipo II. no entanto a difusão desses produtos para países pobres se torna restrita por causa dos custos ou proteção patentária. em um cenário de distribuição desigual. onde existem expressivas populações vulneráveis a elas. Desafios éticos da tecnologia médica Já é conhecida a grande disparidade entre a carga de doença e os investimentos em pesquisa no cenário mundial. que são a utopia da eternidade (pelo aumento da longevidade). a necessidade de a saúde ser compreendida como um fenômeno mundial. 2001)(16) propôs. também presentes em países ricos e pobres. ressalvando que nenhum país do mundo pode deixar de participar das redes internacionais de pesquisa e difusão das inovações. Destarte. apelidando o fato de "hiato 10/90". se encontra na fronteira de graves responsabilidades morais.doenças tipo III. Há no setor saúde "uma desconexão monumental" entre a carga da doença e os gastos em pesquisa e desenvolvimento: pneumonia e diarréias que são.1(1):24-33 exemplo da evolução da propedêutica cardiovascular os métodos propedêuticos propiciados pela tecnologia do eletrocardiograma. Para o Global Forum for Health Research(17) 10% dos gastos mundiais em pesquisa na área da saúde dizem respeito a doenças e condições que representam mais de 90% da carga mundial da doença. por exemplo. A outra vertente se refere à importância do esforço científico interno de países em desenvolvimento. doenças não transmissíveis como diabetes e doenças cardiovasculares. Para a OMS (WHO. a divisão de doenças em relação a recursos de P&D em três grupos: 1 . 1999)(14). não obstante o tamanho do progresso experimentado. É em razão destes fatos que Morin(20) adverte: "A humanidade corre o risco de naufragar no momento em que dá a luz ao seu futuro". Os desafios éticos da inovação em medicina Os avanços científico-tecnológicos na Medicina são responsáveis pelo florescimento de três grandes utopias humanas. já se tornando uma certeza que a última batalha em defesa da dignidade humana está sendo travada nos laboratórios de genética molecular.2% dos recursos de P&D. em especial à "carga da doença evitável". a utopia da beleza (pelas mudanças de padrões cosméticos) e a utopia do prazer (pelo aparecimento de novas drogas que suprimem a dor e promovem o prazer físico e psíquico). então. como exemplificam a esquistossomose. A perplexidade ética provocada pela "tecnociência" contemporânea é conseqüente ao fato de que o mundo. Doenças do tipo II contam com recursos menores e as doenças do tipo III recebem menos ainda em P&D. 1996)(15) os países de baixa e média renda são responsáveis apenas por 2. e 3 . O mais terrível para a humanidade . mas também serem utilizadas contra ela. que dizem respeito àquelas exclusivas ou predominantes em países pobres. daí a importância de iniciativas de cooperativas internacionais com vistas a esforços de pesquisa e apoio à constituição de sistemas de saúde que garantam a efetiva difusão de conquistas científicas e tecnológicas mundiais.doenças tipo I. Albuquerque et al(18). a um só tempo. determinadas pelo processo de intervenção cada vez mais agressivo do homem na biosfera.Centro Universitário São Camilo . como AIDS e tuberculose. As doenças do tipo I contam com P&D público e privado.4% da carga da doença e. Como acentua Lucian Sfez (19). acelerando sua deterioração. que não lograram substituir a clássica ausculta cardíaca e nem sequer se substituem entre si. por exemplo. a filariose e a doença de Chagas. em países ricos e pobres.que obteve na 30 . analisam a temática da inovação em saúde sobre o prisma da economia da tecnologia e sugerem que esta discussão ocorra em duas vertentes: em uma delas. onde é manipulado o DNA humano.2% dos fundos globais destinados à pesquisa em saúde e este fato é devido em boa parte à ausência de sistemas de inovação completo em tais países. a leishmaniose. que são encontradas. 2 . também. as duas maiores causas de morte em todo o mundo.2007. como foi descrito pela Organização Mundial de Saúde-OMS (WHO. e praticamente nada dos países ricos.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . e a intervenção na própria essência do ser humano. como a hepatite B e gripe ou. a nova obsessão humana é a utopia da saúde e do corpo perfeitos. com conseqüente incremento de novos produtos. responsáveis por 15. então. mas com uma parte evidente em paises pobres. pela ecografia e pelo Doppler. principalmente através da manipulação de sua identidade genética. recebem somente 0. as inovações tecnológicas podem não só beneficiar a humanidade. Comissão da OMS (WHO.

Ética e inovação tecnológica em medicina
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ciência a desmistificação dos fenômenos naturais - é exatamente a perda dos valores espirituais provocada pelo poder fascinantemente corrosivo que a tecnologia exerce sobre o pensamento humano, principalmente devido à luta desigual entre a velocidade das descobertas e a capacidade de reflexão moral sobre elas. Se o progresso da ciência é, de fato, bem mais veloz do que as reflexões sobre as suas repercussões na biosfera e na vida humana, este fato torna mais angustiante e premente a discussão sobre os limites da intervenção da tecnologia médica sobre a vida humana. Daí porque Bobbio(21) justifica a geração sucessiva dos direitos como instrumentos de proteção do homem contra o poder, principalmente se representado pelo conhecimento, através da tecnologia: "Os direitos nascem quando o aumento do poder do homem sobre o homem - que acompanha, inevitavelmente, o processo tecnológico (a capacidade do homem de dominar a natureza e os outros homens) - ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novas remédios para suas indigências". Do igual modo como não se discute mais que a ciência e a tecnologia constituem hodiernamente um dos processos fundamentais para o progresso dos povos distanciando aqueles que já detêm conhecimento e os que deles depende para obtê-lo -, não se pode utilizar o poder do conhecimento para a submeter os semelhantes. A tecnologia, pelo fato de significar um bem simultaneamente público e privado (devido ao seu duplo financiamento), tem um custo que nem todos os países podem assumir, razão pela qual dever-se-ia estimular o desenvolvimento ou a maturação de sistemas nacionais de inovação tecnológica e sua conseqüente inserção internacional, especialmente sob a forma de cooperativas de pesquisa e tecnologia, a fim de se diminuir o fosso que separa nações que, em se tratando de saúde humana, tem significado a distância entre a vida e a morte para milhões de humanos. Deve ser desenvolvida a consciência de uma ética da responsabilidade, quer no plano individual, quer em instâncias institucionais e de governos, pois do mesmo modo que o não desenvolvimento da ciência e da tecnologia pode-se tornar uma estratégia imoral de manter povos submissos, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia só poderá ser utilizado com a finalidade de contribuir para o progresso individual e coletivo, ou seja, para a felicidade dos homens. Por muito tempo a Medicina esteve balizada em con-

hecimento empírico, muitas vezes misterioso e transcendental, como bem demonstra a sua história desde a Antiga Grécia até um tempo recente, quando, no século 19 iniciou-se, de fato, o seu desenvolvimento científico. Até então, praticava-se uma medicina baseada nas manifestações sintomáticas e nos dados objetivos, voltada para os cuidados do enfermo e que visava minorar-lhe os sofrimentos. Hoje a extraordinária competência adquirida através do conhecimento médico pode colocar o profissional frente a inúmeros dilemas éticos conflitantes em relação ao clássico mister da Medicina com respeito à melhoria das condições de saúde, cujos avanços científicos podem induzir o médico a se transformar em mero manipulador da vida humana. Não se pode coadunar com os que, a pretexto de utilizar a tecnologia mais recente, tenham por propósito sanar as doenças ou manter a vida do paciente, a qualquer custo, mesmo depois de exauridas todas as possibilidades biológicas para a manutenção de uma qualidade de vida digna, além de contribuir para o encarecimento da assistência médica e de saúde. As tecnologias modernas só estarão plenamente justificadas se estiverem condicionadas a uma efetiva melhoria da qualidade de vida e da saúde do ser humano, e não representar uma forma de dominação e usurpação da cultura médica pela máquina ou, ainda, pela submissão do paciente à ideologia do cientificismo ou à lógica de mercado, que contribuem para a ampliação dos lucros da indústria da saúde, enquanto se olvida de avaliar prudentemente a relação entre custo, riscos e os possíveis benefícios a serem auferidos pelo paciente.

CONCLUSÕES
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia no último quartel de século, foi responsável pelo extraordinário progresso alcançado pelos diferentes setores da sociedade moderna, de modo que atualmente a tecnologia permeia praticamente todos os setores da vida humana. Mais recentemente, o desenvolvimento da biotecnologia trouxe enorme contribuição ao setor saúde, canalizando a maior parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) nos setores públicos e privados. Exemplos deste progresso, a genômica e a farmaco-

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genômica floresceram com a intenção de tornar a medicina cada vez mais preditiva, com benefícios não só para a saúde individual, mas, também, para as políticas de saúde pública em geral. A literatura internacional especializada em economia da tecnologia, ao focar o subsistema saúde, comprova uma estreita relação entre a melhoria dos indicadores sanitários e investimentos em pesquisa e inovação em saúde. Entretanto, persistem questões não resolvidas e polêmicas, como a relação dos custos das inovações e os benefícios delas auferidos pelas populações, o que provoca a interrogação se a tecnologia é um fator de encarecimento dos custos da assistência à saúde, ou é parte do problema, ou ambos. Por outro lado, a distribuição desigual da apreensão do conhecimento e da informação em saúde se encontra acumulada nos países centrais, em razão da concentração dos investimentos no setor (cerca de 98%) com relação aos países em desenvolvimento ou periféricos, causa um agudo descompasso em relação à prevalência nosológica nas regiões mais pobres do planeta, traduzido pelo famoso hiato 10/90, designado pelo Global Forum for Health Research(17). Daí a necessidade de estabelecer políticas e estraté-

gias de apoio ao desenvolvimento de sistemas nacionais de inovação em saúde nos países que ainda não dispõem de um sistema científico-tecnológico amadurecido (ou o tenha de modo incompleto) e propiciar a conexão internacional dos sistemas maduros ou completos com os países subdesenvolvidos. De modo similar é necessário que os países em desenvolvimento estabeleçam políticas de ciência e tecnologia em saúde, com inovação tecnológica voltada preferencialmente para o dar soluções aos problemas predominantes nestas regiões. Do ponto de vista da práxis médica, seja ela ambulatorial ou hospitalar, suas intimas relações com as inovações tecnológicas têm ocasionado o aumento de dilemas éticos, tendo a Medicina, neste limiar do século 21, se tornado instrumento da nova utopia da humanidade, qual seja a utopia da saúde e do corpo perfeitos. De tudo resulta que os avanços tecnológicos podem estar induzindo uma cultura de transformar o profissional médico mais num manipulador de vidas do que em promotor da saúde humana.

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Ética e inovação tecnológica em medicina
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REFERÊNCIAS
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Unidade de terapia intensiva. which has been carried out by means of the application of a questionnaire to multidisciplinary teams working in Intensive Care Units. *** Médico.Esse estudo foi realizado de forma quantitativa por meio da aplicação de um questionário à equipe multidisciplinar que atua em Unidades de Terapia Intensiva. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. La investigación revela que se deben realizar cambios urgentes en el plan de estudios de los profesionales de salud. La meta de esta investigación fue analizar y discutir las habilidades y entrenamiento de estos profesionales para los cuidados paliativos. Bioética-ensino. PALABRAS LLAVE: Cuidados paliativos. sobre todo cuando referente al proceso de los cuidados paliativos en el final de la vida. 12 de médicos e 25 de enfermeiros. ABSTRACT: Medicine has been going through transformations throughout the centuries in relation to the advance in technology. which brought significant improvement to the health area. En este sentido. hay un hiato en la educación de los profesionales de salud. Os dados sofreram análise descritiva de freqüência absoluta e relativa. Bioética-enseñanza. * Fisioterapeuta.Centro Universitário São Camilo .1(1):34-42 A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética The training in palliative care for the intensive care unit´s team: A bioethical perspective El entrenamiento en cuidados paliativos del equipo de la unidad de cuidados intensivos: Una perspectiva bioética Karina Dias Guedes Machado* Leo Pessini** William Saad Hossne*** RESUMO: A medicina ao longo dos séculos. que se ha realizado promedio un cuestionario aplicado a equipos multidisciplinarios que trabajaban en unidades de cuidados intensivos. The data have been submitted to a descriptive absolute and relative frequency analysis and to associations among quantitative variables by applying Chi2 statistical analysis. PALAVRAS-CHAVE: Cuidados paliativos. KEYWORDS: Palliative care. out of which 21 were from physiotherapists. 12 de médicos y 25 de enfermeros. aunque también han destacado los dilemas éticos que afectan la actitud de los profesionales frente a los procedimientos en pacientes sín posibilidades terapéuticas. de los cuales 21 eran de fisioterapeutas. covering palliative care practice and bioethical reflections that will help them with better decision-making.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Los datos han sido sometidos a un análisis descriptivo de frecuencia absoluta y relativa y a asociaciones entre variables cuantitativas aplicando el análisis estadístico Chi2. In this regard. The aim of this research has been to analyze and discuss these professionals' skills and education in palliative care. although it has also highlighted ethical dilemmas over the professionals' attitude when it comes to procedures in patients out of therapeutic possibilities. E-mail: karinadiasguedes@terra. porém também trouxe à tona dilemas éticos acerca da atitude dos profissionais quando nos referimos a condutas em pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Bioethics-teaching. utilizando a análise estatística do Chi 2 Foram obtidos 58 questionários sendo 21 de fisioterapeutas. there is a gap in the education of health professionals. contemplando o ensino de cuidados paliativos e auxiliando os profissionais nas reflexões bioéticas para a melhor tomada de decisão frente ao paciente fora de possibilidades terapêuticas. Professor do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. vem passando por transformações em relação ao avanço da tecnologia que trouxe melhorias significativas na área da saúde.A atual pesquisa mostra que se tornam necessárias alterações urgentes na grade curricular dos profissionais de saúde. Se ha adoptado un acercamiento cuantitativo. e associações entre variáveis quantitativas.com.br ** Doutor em Teologia Moral. RESUMEN: La medicina ha pasado por transformaciones a través de los siglos en lo referente a los avances tecnológicos. Intensive care unit. Coordenador do Programa Stricto Sensu de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. que trajeron mejoras significativas al área de la salud.2007. The current research reveals that urgent changes should be made in health professionals' curriculum grid. desses profissionais quanto a cuidados paliativos. Fifty-eight questionnaires have been obtained. A quantitative approach has been adopted in this study. 12 from physicians and 25 from nurses. mostly when one refers to the end-stage process and palliative care. O objetivo da atual pesquisa foi analisar o preparo e formação. Se han obtenido cincuenta y ocho cuestionarios. Unidad de cuidados intensivos. 34 . Nesse aspecto existe uma lacuna na formação dos profissionais de saúde principalmente quando se refere ao processo da terminalidade e cuidados paliativos. cubriendo la práctica de los cuidados paliativos y las reflexiones bioéticas que les ayudarán en una toma de decisión mejor.

torna-se necessário que o profissional de saúde alie para além da competência técnico-científica uma competência humana e ética. em termos de mudanças. mas de outro. há uma interrogação se durante os estudos formais ou posteriores (Educação Continuada) os profissionais de saúde recebem formações técnica. as subespecialidades. Para o dia-a-dia dentro de uma UTI. A responsabilidade ética individual é o coração da competência clínica para todos que cuidam de doenças(12).Centro Universitário São Camilo . como na tecnologia têm trazido melhorias significativas na saúde. Azulay(9) diz que. São elas: administrar o ingresso nos cuidados paliativos.4). implicando muitas vezes em tratamentos fúteis. e desenvolver principalmente a capacidade de "estar ao lado" quando a morte for inevitável(10). Os profissionais devem ter preparo ético para saber lidar com os desafios que surgirão no campo do trabalho.2007. revisar. administrar a fase terminal e luto. monitorizar e atualizar o plano de direção com equipe interdisciplinar. De acordo com Goic(5).1(1):34-42 INTRODUÇÃO A medicina em todo o mundo passou por profundas transformações ao longo do século XX. controle ou eliminação de doenças. No Brasil. com certa freqüência. A medicina tem se segmentado cada vez mais. Os avanços tanto na prática médica. a procura e a formação de profissionais tecnicamente capazes são cada vez maiores. Formação dos profissionais de saúde Parte-se do princípio de que a pessoa não nasce ética. 35 .8). nas quais os profissionais de saúde muitas vezes se aperfeiçoam em apenas um segmento do corpo e podem esquecer completamente da pessoa como um ser único dotado de corpo e alma. têm crescido de forma substancial. A equipe de saúde e os demais seres humanos precisam entender o processo de morte. Com os avanços da tecnologia. a preocupação com a alma humana. a utilização de medidas fúteis ocorre por desconhecimento dos profissionais sobre cuidados paliativos. Estudos realizados em diversos países mostram uma lacuna na formação dos profissionais de saúde no que tange aos cuidados paliativos. Estabelecer limites aos atos é um desafio ético-educacional. não há como colocar em dúvida os benefícios promovidos pelos avanços tecnológicos. deixando-se de lado. porém tudo isso traz à tona decisões éticas acerca das condutas dos profissionais de saúde(1). desde que bem indicados e utilizados. vivenciando os verdadeiros valores da bioética para um agir competente. ética e humana. Sabe-se da necessidade de formação de competência para um bom cuidado paliativo. oferecendo. iniciando pelos aparelhos formadores que moldam profissionais com esmerada preparação técnica e nenhuma ênfase humanística(11). Assim sendo. tendo em suas mãos a alta tecnologia. assim como o seu reconhecimento da necessidade dessa formação(5. Competência profissional é simplesmente um rótulo enganoso para descrever um cenário complexo de atributos e comportamentos necessários aos profissionais de saúde que cuidam de pessoas com doenças incuráveis. De um lado.6. assim. coerente e responsável. O trabalho ainda é árduo. necessária a mudança de mentalidade dos profissionais que nem sempre estão dispostos e disponíveis para uma nova organização(10). sua estruturação ética ocorre através do seu desenvolvimento(2). As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) associadas ao avanço da tecnologia médica. Como um profissional de saúde que atua em UTIs. Segundo Doyle et al(12) algumas abordagens australianas têm descrito competências para médicos em termos de metas para os cuidados. provavelmente. ensejam a possibilidade de prolongamento da vida a qualquer custo. requeridas ou necessárias para atender adequadamente às necessidades médicas e humanas críticas de enfermo terminal. O conhecimento técnico nos cursos da área de saúde tem sido muito enfatizado em detrimento de uma formação mais humanista(3. além de especialidades. ampliam as perspectivas terapêuticas em diversas situações clínicas. desenvolver plano de direção com equipe interdisciplinar. dar suporte ativo a todos os membros da equipe interdisciplinar.7.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . existem vários desafios a serem vencidos e dentro deles está a possível deficiência na educação de profissionais de saúde no que diz respeito à terminalidade. deve agir com esses pacientes fora de possibilidades terapêuticas (FPTs) e suas famílias na fase da terminalidade? Certamente.

. É praticamente uma constante nas escolas médicas.. a bioética possui correntes diversas. Segundo Costa(13) cita: "[. Seu valor central baseia-se na dignidade humana(14). procurando distanciar a morte. afirmam a vida e encaram o morrer como um processo normal. não se dando a devida ênfase a um dos postulados básicos da medicina. O desenvolvimento da medicina paliativa ocorreu frente à ameaça da medicina moderna. Salienta-se. nem adiam a morte. Esse preparo pode ter como base as reflexões bioéticas onde procura-se o melhor para o ser humano fundamentando-se nos referenciais discutidos a seguir. aqui.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . se algum ato estiver no código profissional é legal. Cuidados paliativos Os cuidados paliativos entram como uma alternativa para que não seja realizada a tão temida eutanásia nem a distanásia.. a serviço do prolongamento da vida. qualidade humanística e ética médica(12). Em suma. segundo Azulay(19). Os cuidados paliativos não se referem primariamente a cuidados institucionais. é nesse momento que entra a bioética.]". tecnicista em priorizar sempre a cura em vez do cuidado. O Conselho da Europa. tendo sempre em mente agir com respeito frente à realidade da finitude humana e às necessidades do paciente. Não devemos aceitar algo como verdade absoluta. oferecem um sistema de apoio para ajudar os pacientes a viver tão ativamente quanto possível. angústias e sofrimentos do paciente e sua família." A dor. "consiste em conseguir um método sistemático de reflexão que permita eleger uma solução correta frente um dilema bioético.Centro Universitário São Camilo . na sua recomendação nº24 do Comitê de Ministros para os estados membros. Hoje existem mais de oito mil serviços de cuidados paliativos pelo mundo(12). até o momento da sua morte. os cuidados paliativos são de responsabilidade de uma equipe multidisciplinar e não de um só profissional. intervenção ou procedimento que não atinge o objetivo de beneficiar a pessoa na fase final de vida e que prolonga inútil e sofridamente o processo de morrer. o conceito de medicina curativa.2007. tem como princípios fundamentais de cuidados paliativos: a manutenção de um nível ótimo de dor e administração dos sintomas. Integram aspectos psicológicos e espirituais dos cuidados com o paciente. o esforço da Comissão Nacional de Residência Médica. que. em conjunto com a Sociedade Brasileira de Clínica Médica para uma possível mudança no currículo dessa especialidade(15). Sua ênfase está em um trabalho multidisciplinar com atitudes de cuidados frente à realidade da finitude humana.1(1):34-42 As competências unem: conhecimento médico.." A bioética principialista ressalta quatro balizas. visama a primorar a qualidade de vida. Devido a estas características citadas anteriormente. Contudo a sociedade vem mudando e se abrindo cada vez mais a novos conceitos e argumentações(18). Essa equipe deve ter preparo para lidar com os medos. Segundo Pessini(14). anterior a isso se trata de uma filosofia de cuidados aplicáveis em todas as instituições. mas sim.] Em nosso sistema universitário sobra informação. ou quatro princípios. o sofrimento e a espiritualidade são tratados pelos cuidados paliativos. habilidade de aconselhamento. profissionalismo. bem como em domicílio(16). falta formação[. exigem uma abordagem em equipe. como a corrente Principialista. que marcam o território da morali- 36 . que não traz respostas prontas. É importante citar os esforços que algumas sociedades e instituições de ensino têm feito para que os cuidados paliativos sejam do conhecimento de todos.]apesar de a morte fazer parte do cotidiano médico. portanto pode ser feito. eutanásia é "um ato médico que tem como finalidade eliminar a dor e a indignidade na doença crônica e no morrer eliminando o portador da dor". que é a diminuição do sofrimento humano[. equipe próxima. com sua visão pluralista. É sabido que os profissionais de saúde que participam do processo da morte não recebem formação suficiente sobre o tema da terminalidade e sobre inúmeros dilemas da bioética. que buscam atender o ser humano na sua globalidade de ser na fase final de vida. avaliação e administração do controle da dor e sintomas. não apressam. ajudam a família a lidar com a doença do paciente e com luto. Já a distanásia ou obstinação terapêutica. se não estiver não pode ser feito.. encarniçamento terapêutico e tratamento fútil são entendidos como "ação. são aplicáveis no estágio inicial da doença"(17). nos faz exercitar a capacidade de reflexão na escolha das melhores condutas para o paciente. Bioética Existe uma linha tênue entre a moralidade e a legalidade do exercício médico voltado a cuidados paliativos. ela é grande ausente do ensino médico..

há total liberdade entre eles de atuarem e interagirem de forma pluralista. Contudo.Centro Universitário São Camilo . A sensibilidade e a compaixão devem estar presentes na relação entre profissionais da saúde e pacientes. à luz da bioética. após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa e consentimento dos profissionais com preenchimento do termo de consentimento livre e esclarecido. partir para retirar a causa do sofrimento. Esse contato mais próximo é muito significativo quando se avalia o contexto de todos os envolvidos nos cuidados paliativos. ela tem forte fundamentação deontológica. utilizando a análise estatística do Chi(2). Nessa teoria dos referenciais. então.) entre outros. As respostas sofreram análise descritiva de freqüências absoluta e relativa e associações entre as variáveis quantitativas. Outro fator considerado muito importante para a inclusão desses profissionais no estudo é que eles são os profissionais mais próximos e que mais "tocam" os pacientes. à compaixão(23). assim os princípios deixam de ser princípios (direito e ou deveres) e passam a ser ponto de referência". A autonomia e o direito dos pacientes devem ter destaque frente ao paternalismo e comportamento autoritário da medicina que ainda ocorre nos dias atuais. Os profissionais incluídos neste estudo eram médicos. não somente em princípios.. confidencialidade etc. pois quando analisada a teoria principialista. Princípios da Ética Biomédica. uma vez encerrado o cuidado da cura da doença. A preferência por esses profissionais foi por possuírem curso superior. insuficiente". porém. conforme a situação bioética exigir. Há necessidade de reflexão e juízo crítico. No Brasil.2007. que engloba os previamente denominados princípios (autonomia. em especial. baseados em valores e referenciais. fundada em um corpo teórico centrado em etapa terminal. beneficência. a formação do médico.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . e a bioética necessita mais que isso. inter e transdisciplinar. em que o paciente confia no profissional e em sua promessa de colocar suas habilidades a serviço do bem do paciente(20). segundo Hossne(21). justiça) e virtudes (compaixão. Hossne(21) cita. na maioria das instituições de ensino. A legitimação da especialidade de cuidados paliativos é constituída pela aquisição de conhecimentos técnicos. A especialidade dos cuidados paliativos foi construída. 88% tinha idade inferior a 40 anos e 12% idade igual ou superior a 41 anos. nãomaleficência. aliada a valores humanísticos. 37 . nos quais devemos nos fundamentar para elaborar a reflexão bioética. as pontes de referência para a reflexão bioética. A amostra era composta de 67% do sexo feminino e 33% do sexo masculino. associada a uma nova forma na relação equipe de saúde/paciente/familiares. são reconhecidos e formulados desde a antiguidade pela tradição da filosofia moral cristã e também pela teologia moral cristã e foram resumidos numa proposta coerente pelos autores Ferrer e Alvarez(20). deve-se. fisioterapeutas e enfermeiros que atuavam nessas UTIs. 47% tinha tempo de formação igual ou inferior a 10 anos e 53% superior a 11anos com tempo de atuação em unidade de terapia intensiva de 83% da amostra inferior ou igual a 10 anos e somente 13% superior ou igual a 11 anos. ainda é eminentemente paternalista. sendo necessário haver compromisso ético dos profissionais de saúde para não causar sofrimento desnecessário ao paciente(4). A fidelidade à promessa é um referencial exigido da relação médico-paciente. Para tanto foi realizado levantamento em unidades de terapia intensiva para adultos de três hospitais privados da cidade de São Paulo. Estes princípios. Utilizando esse referencial.] é importante e necessária. Esse referencial ainda é ignorado na cultura latina quando nos deparamos com um paciente com o diagnóstico fora de possibilidades terapêuticas(19). "a teoria dos princípios [. que aqui tomamos a liberdade de alterá-la para relação profissional saúde-paciente. solidariedade. fisioterapeutas e enfermeiros) que trabalha em unidade de terapia intensiva. capaz de prestar uma assistência à totalidade baseando-se na bioética. o preparo e a formação em cuidados paliativos dos profissionais da equipe de saúde (médicos. já que o estudo analisou sua formação acadêmica e posterior. Este referencial manda fazer o bem e permite que a atuação do profissional seja benéfica ao paciente.. O referencial da beneficência diz respeito a ações realizadas em benefício de outros(22). enunciados no livro de Beauchamp e Childress.1(1):34-42 dade. ainda: "os referenciais seriam como o próprio nome indica. O referencial da não-maleficência implica não causar dano. O presente estudo teve por objetivo analisar e discutir. sanando suas dores e confortando o paciente.

05). onde 90% relataram que não lhes foi oferecido o conhecimento necessário durante a formação profissional. Nas respostas dos fisioterapeutas. Os dados evidenciaram que houve diferença signifiGráfico 1 Kovács(10) quando diz que "ocorre no Brasil uma grande deficiência na educação dos profissionais da equipe de saúde nesses temas. MORT E. Essa diferença pode ser visualizada na (Tabela 1) a seguir. Ao observar as equipes isoladamente. assim.2007. constatamos que os fisioterapeutas são os profissionais que menos receberam formação acerca desses temas. vale ressaltar que 81% negaram a abordagem do tema final de vida. Ao serem avaliados o preparo e a formação recebidos pela equipe (Gráfico 1). Gráfico 2 F ORMAÇÃO SOBRE TEMAS D E F I NAL D E VIDA. é necessário o desenvolvimento de competências de cada membro da equipe. as práticas que levam à distanásia. CUIDADOS PALIATIVOS E DISTANÁSIA F ORMAÇÃO PROFISSIONAL PARA LIDAR COM A MORT E E CONFLITOS DAÍ DECORRENTES cante entre os três segmentos de profissionais (p < 0. os profissionais que atuam em UTI devem ter conhecimento quanto a finitude de alguns tratamentos. que é a que mais referiu existir abordagem desses temas em seu curso superior.Centro Universitário São Camilo .05).1(1):34-42 Cuidados paliativos na perspectiva da equipe de UTI A obra Oxford Textbook of Palliative Medicine(12) reconhece que os cuidados paliativos dependem de uma equipe multiprofissional treinada e não apenas de um só segmento profissional. evitando. morte e distanásia (p< 0. chama a atenção alta porcentagem (73%) daqueles que desconheciam o tema distanásia. Quando questionados se houve abordagem específica de tais temas (Gráfico 2 e Tabela 2) verifica-se que houve abordagem. Quando analisados se houve diferença significante entre as respostas. pode-se observar que isso ocorreu quanto aos temas final de vida. Tabela 1 F ORMAÇÃO PROFISSIONAL PARA LIDAR NossosCOM A MORT E E SEUS CONFLITOS dados corroboram com a opinião de Sim Não Médicos nº (%) 5 (42) 7 (58) Fisioterapeutas nº (%) 2 (10) 19 (90) Enfermeiros nº (%) 13 (52) 12 (48) Equipe nº (%) 20 (34) 38 (66) Ao se considerar toda a equipe. fazendo com que os mesmos se afastem desses pacientes. Todavia pode-se afirmar por meio dos dados colhidos que há um desequilíbrio entre o conhecimento geral dos diversos segmentos profissionais que atuam em UTI com pacientes fora de possibilidades terapêuticas.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . 66% afirmaram não ter o conhecimento necessário para lidar com o processo de morte dos pacientes e os conflitos daí decorrentes." Para Moritz e Nassar(24). 62 % 38 . já a equipe médica manteve equilíbrio em suas respostas. em contraste com a equipe de enfermagem. Quando analisada por categoria profissional essa diferença tornou-se evidente na resposta dos fisioterapeutas. porém insuficiente nesses temas para os diversos segmentos da equipe.

Técnica Sim Não Atualiz. conforme evidenciam nossos resultados. responderam que sim. Porém nessa questão obteve-se também diferença significante (p< 0. 39 . que correspondem a 42 profissionais. destacando-se os profissionais fisioterapeutas com 67% das respostas negativas.1(1):34-42 negaram a abordagem do tema morte. Gráfico 3 Ética e Bioética Sim Não Cuidados Paliativos Sim Não Humanização Sim Não Distanásia Sim Não Atualiz. principalmente quando relacionados a terminalidade.Centro Universitário São Camilo . Essa priorização de atualização técnico-científica sobre os aspectos humanistas. como pode ser observado no Gráfico 3. Tabela 4 E DUCAÇÃO CONTINUADA RELACIONADA COM QUESTÕES HUMANÍSTICAS E TÉCNICO. 71% negaram sobre cuidados paliativos e 95% negaram a abordagem da distanásia (Tabela 2). primase pela qualidade técnico-científica. Tabela 2 freqüentemente situações de óbito e. CUIDADOS PALIATIVOS E DISTANÁSIA Médicos nº (%) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) Final de vida Sim Não Morte Sim Não Cuidados Paliativos Sim Não Distanásia Sim Não 4 (33) 8 (67) 1 (5) 20 (95) 11 (44) 14 (56) 16 (27) 42 (73) 6 (50) 6 (50) 6 (29) 15 (71) 14 (56) 11 (44) 26 (45) 32 (55) 7 (58) 5 (42) 8 (38) 13 (62) 23 (92) 2 (8) 38 (65) 20 (35) 6 (50) 6 (50) 4 (19) 17 (81) 18 (72) 7 (28) 28 (48) 30 (52) Equipe nº (%) Sim Não F ORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE ÉTICA E OU DEONTO LOGIA DA MORT E Médicos nº (%) 10 (83) 2 (17) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) 7 (33) 25 (100) 0 14 (67) Equipe nº (%) 42 (73) 16 (27) Durante os cursos de formação profissional. pode ser evidenciada na Tabela 4. subvalorizando os aspectos humanistas(25).05). MORT E.CIENTÍFICAS Médicos nº (%) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) Equipe nº (%) Quando os profissionais foram interrogados se durante sua formação acadêmica tiveram aulas sobre ética e/ou deontologia da morte. Científica Sim Não 12 (100) 0 20 (95) 1 (5) 20 (80) 5 (20) 52 (90) 6 (10) 12 (100) 0 19 (91) 2 (9) 20 (80) 5 (20) 51 (88) 7 (12) 5 (42) 7 (58) 1 (5) 20 (95) 4 (16) 21 (84) 10 (17) 48 (83) 6 (50) 6 (50) 15 (71) 6 (29) 24 (96) 1 (4) 45 (78) 13 (22) 5 (42) 7 (58) 3 (14) 18 (86) 5 (20) 20 (80) 13 (22) 45 (78) 4 (33) 8 (67) 4 (19) 17 (81) 13 (52) 12 (48) 21 (36) 37 (64) F ORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE ÉTICA E OU DEONTO LOGIA DA MORT E Os profissionais de saúde estão sujeitos a presenciar A Assembléia parlamentar do Conselho da Europa e a Assembléia Médica Mundial de Lisboa. em 1981. o que pode ser observado na Tabela 3. no entanto nem todos estão preparados para isso.2007.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . 73% da equipe. Tabela 3 F ORMAÇÃO SOBRE TEMAS D E F I NAL D E VIDA.

sendo as três inseparáveis e complementares(5). 53 (91%) profissionais responderam que sim (Gráfico 5). Quando questionados sobre a busca de atualização técnico-científica. Quando considerada toda a equipe. se alterariam a grade curricular de suas profissões. ou seja. correspondendo a 53 profissionais. 51 profissionais já buscaram fazer cursos de atualização técnica e 90%. chama a atenção que somente 21 (36%) já participaram de curso ou congresso de ética e bioética. portanto. já 2% alterariam-na incluindo temas relacionados à medicina de alta tecnologia e 1% respondeu que não faria alterações (Gráfico 4). ou seja. e aqui estão incluídos os outros profissionais de saúde. 97% da equipe.Centro Universitário São Camilo . relatar sua Esses dados reafirmam estudo de campo prévio realizado por Moritz (2004) em que foi avaliada a atitude dos profissionais de saúde diante da morte e mostrou que o segmento dos médicos e de enfermagem sente a necessi- 40 . essa porcentagem aumenta consideravelmente para 88%. incluindo temas relacionados à morte. 58 profissionais avaliados. Quando interrogados se acreditariam que a realização de reuniões específicas no ambiente de trabalho auxiliariam na resolução de dilemas bioéticos.1(1):34-42 recomendaram que o médico. que correspondem a 52 profissionais. devem aprender que os aspectos envolvidos na terminalidade são das situações mais difíceis que enfrenta o trabalho clínico e que têm implicações técnicas. afirmar com base nos dados colhidos que os profissionais não buscaram atualização nesse assunto. porém quando foram interrogados sobre a oportunidade de realizá-la. Gráfico 5 I MPORTÂNCIA DAS REUNIÕES N A RESOLUÇÃO D E DILEMAS BIOÉTICOS Na opinião de Mota 26. pois atingiram valores percentuais maiores que 75%. A tabela 5 mostra as respostas quanto aos temas que a equipe assinalou que deveriam ser discutidos nessas reuniões.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . afirmaram que alteraria sim. e 10 (17%) de cursos de distanásia. todos os temas obtiveram grande importância. 13 (22%) já participaram de cursos de cuidados paliativos. "o profissional deve estar preparado para fazer reflexões que só são possíveis através do diálogo com todos os envolvidos no processo". Tabela 5 E SCOLHA POR ALTERAÇÃO N A GRADE CURRICULAR T EMAS D E INTERESSE DA E QUIPE A SEREM DISCUTIDOS E M REUNIÕES ESPECÍFICAS Assistência a esses pacientes Prognóstico Decisões de reanimação ou não Humanização em cuidados paliativos Aspectos éticos Aspectos psicológicos Aspectos legais nº 54 46 47 54 51 52 51 Equipe (%) (93) (79) (81) (93) (88) (90) (88) Goic et al (1997) sugerem que a melhor forma de aprendizado sobre esse tema seria o docente realizar reuniões de reflexão com seus alunos. tentaram realizar cursos sobre atualização científica.2007. Pode-se. éticas e humanísticas. Gráfico 4 experiência pessoal e acompanhá-los em suas relações com os pacientes fora de possibilidades terapêuticas e com seus familiares.

assim.Centro Universitário São Camilo . mas também durante sua vida profissional. estão em geral voltados para formar profissionais técnicos. causando-se.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . não se mostra suficiente para satisfazer as demandas da população. acima de tudo. senão realizando mudanças na política educacional dos profissionais que atuam nesse contexto?! É necessário cada vez mais à promoção de reflexões bioéticas que auxiliem os profissionais nas tomadas de decisão e em seus comportamentos frente aos cuidados de pacientes fora de possibilidades terapêuticas. 41 . fisioterapeutas e enfermeiros) acerca de temas relacionados à terminalidade ainda é muito deficiente. só a teoria não é suficiente. com sua alta tecnologia. há a necessidade de instigar o profissional a reflexões bioéticas acerca do tema. assim como outros aspectos relacionados a esse tema. sempre buscando respeitar a sua autonomia. principalmente os que atuam em Unidades de Terapia Intensiva e vivenciam o processo de morte e sofrimento humano em seu cotidiano. o que acaba interferindo no morrer com dignidade. Porém. em casa. preocupa-se com o respeito à autonomia e com a dignidade do paciente. pós-graduação e treinamento desses profissionais. a discutir os temas embasados sempre na ética e. em geral. Os cuidados paliativos podem ser instituídos na UTI. O preparo e a formação desses profissionais. Os dilemas vividos no cotidiano dos hospitais requerem que não só haja preocupação na educação do profissional durante seu curso de graduação. cuidados paliativos e bioética sejam inseridos como disciplina fundamental durante a graduação. nas unidades de internação. CONSIDERAÇÕES FINAIS A medicina dos tempos modernos.principalmente voltados à área da saúde e pouco se tem falado na arte da humanização. torna-se imprescindível que os profissionais de saúde. Torna-se necessário que as instituições de saúde realizem reuniões específicas para a discussão de dilemas. com esse aumento do número de doenças crônico-degenerativas. em que o ideal da "boa morte" não se torne uma mera miragem. ainda há muito do ponto de vista humano. seja durante a graduação ou em educação continuada.1(1):34-42 dade de debater com maior freqüência o tema morte e morrer. uma relação honesta com apoio emocional e comunicação com o doente e seus familiares. Manejar no sentido de humanizar o morrer. Sugerimos então que cursos de humanização. principalmente os que envolvem cuidados e condutas com pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares. Caso isso não seja possível. A equipe. além de profissionais capacitados. O que importa é a filosofia da humanização no resgate da dignidade durante o processo da terminalidade. a temida distanásia. deve-se cuidar da pessoa e não da doença. mas talvez não consiga pôr em prática os cuidados pertinentes ou não suspenda tratamentos considerados fúteis por desconhecimento. experiência e conhecimento necessários ao atendimento de casos sem possibilidades terapêuticas. A finitude humana deve ser aceita por todos da forma mais digna possível. A qualidade de vida e o conforto desses pacientes antes da morte podem e devem ser melhorados. Essas reuniões podem discutir e levar os profissionais a refletirem sobre o que é melhor para o paciente. porém nem todos são tão eficazes quando se fala em manejar o processo da terminalidade. A atuação da equipe multidisciplinar deve ocorrer de forma individualizada e focada na dignidade do paciente. por meio de algumas atitudes que visem ao controle dos sintomas. não importa o lugar. especialmente quando falamos em sofrimento humano e morte. Muito se fala na eficiência dos avanços tecnológicos . O profissional de saúde sabe manejar de forma eficaz a alta tecnologia. oferecer conforto ao paciente e ao seu familiar. criando uma lacuna na formação humanística.2007. As mentes do profissional e da família devem estar abertas para entenderem que quando não há nada do ponto de vista técnico-científico a se fazer. É necessário o resgate urgente do verdadeiro sentido do cuidar e deve-se lembrar que nem sempre curar é possível. O conhecimento geral da equipe multidisciplinar (médicos. adquiram habilidade. A participação de toda a equipe multidisciplinar é muito importante. Como instituir uma cultura de qualidade de cuidados no final da vida. da qual o profissional sente falta ao se deparar com dilemas que requerem tomadas de decisão no seu dia-a-dia. Nos dias de hoje. que seja respeitada a autonomia de seus familiares. no respeito à dignidade humana.

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Foi aplicado um questionário e uma entrevista individual semi-estruturada a sete pessoas pastoralistas de hospitais da grande porto alegre. It is necessary that chaplaincy functions are well defined and integrated into nursing so that the terminal patient can receive the appropriate spiritual care. inclusion of spiritual care to the terminal patient in the work of nursing and integration of nursing and chaplaincy. Enfermagem. inclusión del cuidado al paciente terminal en el trabajo de la enfermería y integración enfermería . The study concludes that nurses dare not appropriately trained to assist the terminal patient's spiritual needs. A questionnaire and a semi-structured individual interview were applied to seven people intentionally chosen that act in the pastoral area of hospitals of Metropolitan Porto Alegre. Os resultados são apresentados em cinco unidades temáticas: perfil pastoral dos agentes espirituais. reflects the integration among health. Enfermería. PALABRAS LLAVE: Bioética. sin sufrir interferencias indebidas. Se aplicó un cuestionario y una entrevista individual semiestructurada a siete personas pastoralistas de hospitales de la Gran Porto Alegre. Los resultados son presentados en cinco unidades temáticas: perfil pastoral de los agentes espirituales. O esforço de. ABSTRACT: A qualitative study that approaches the role of nursing in the spiritual care to the terminal patient and the implication of bioethics in the health process. de ese modo. preparación de la enfermería para el cuidado espiritual al paciente terminal. Professora Titular do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva. escolhidas intencionalmente.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Paciente terminal. spirituality and bioethics. Even then. without unduly interferences. En las situaciones concretas. as it is evidenced in the implied senses of the analyzed utterances. Terminal patient. el cuidado espiritual debe estar incluso en sus tareas. RESUMEN: Estudio cualitativo que aborda el papel de la enfermería en el cuidado espiritual al paciente terminal y la implicación de la bioética en el proceso de la salud. Nursing. Aunque la enfermería no está preparada. Mesmo que esta não esteja preparada. * Enfermeira Obstetra. El estudio concluye que la enfermería no tiene preparación adecuada para atender a las necesidades espirituales del paciente terminal. Se necesita que las funciones de la capellanía sean bien definidas e integradas a la enfermería para que el paciente terminal pueda recibir un cuidado espiritual adecuado. nas situações concretas.2007. preparo da enfermagem para o cuidado espiritual ao paciente terminal. refleja la imbricación salud. É preciso que as funções de capelania sejam bem definidas e integradas à enfermagem para que o paciente terminal possa receber o cuidado espiritual adequado. pelo fato de ter maior contato com o paciente e. KEYWORDS: Bioethical.Universidade do Vale do Rio dos Sinos . for nurses have more contact with patients and so know more what their needs are.UNISINOS. The results are presented in five thematic units: the spiritual agents' pastoral profile. characteristics of spiritual care to the terminal patient. por el hecho de esta tener más contacto con el paciente y.Centro Universitário São Camilo .capellanía. el esfuerzo por captar las peculiaridades vividas por el paciente. UnB. La bioética es un área de conocimiento exenta de determinismos y constituye un campo fértil para guiar a las personas en sus conductas. espiritualidad y bioética. E-mail: lucilda@unisinos. Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília. training of nursing professionals for spiritual care to the terminal patient. como es evidente en las entrelíneas de las hablas analizadas. 43 . conhecer suas necessidades de modo mais abrangente. elegidas intencionalmente. dessa forma. spiritual care should be included in their tasks. UNISINOS. características del cuidado espiritual al paciente terminal. inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho da enfermagem e integração enfermagem e capelania. sem sofrer interferências.1(1):43-52 O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética Spiritual care to the terminal patient in the practice of nursing and the participation of bioethics El cuidado espiritual al paciente terminal en el ejercicio de la enfermería y la participación de la bioética Lucilda Selli* Joseane de Souza Alves** RESUMO: Estudo qualitativo que aborda o papel da enfermagem no cuidado espiritual ao paciente terminal e a implicação da bioética no processo saúde. conocer sus necesidades de forma más abarcadora. espiritualidade e bioética. Universidade do vale do Rio dos Sinos. A bioética é uma área de conhecimento isenta de determinismos e constitui campo fértil a guiar as pessoas nas suas condutas. The effort to capture in concrete situations the peculiarities lived by the patient.br ** Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva . características do cuidado espiritual ao paciente terminal. Paciente terminal. O estudo conclui que a enfermagem não tem preparo adequado para atender as necessidades espirituais do paciente terminal. reflete a implicação saúde. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. o cuidado espiritual deve ser incluso em suas tarefas. captar as peculiaridades vivenciadas pelo paciente. Bioethics is a knowledge area free from determinisms and it constitutes a fertile field to guide people in their conducts. como se evidencia nas entrelinhas das falas analisadas.

sentimentos de medo e angústia. como é o caso dos pacientes terminais. Atualmente. ainda. Para que o paciente terminal possa receber um cuidado completo na fase final de sua vida. Assim. no paciente. pode-se pensar que o lugar do profissional de enfermagem. 44 . Barchifontaine e Pessini(9) acrescentam que a saúde não pode ser entendida apenas como ausência de doença. Não propomos um discurso religioso. os quais devem ser identificados.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . têm endossado essa afirmação. muitas vezes. Este aspecto tem reflexos na atuação dos profissionais de enfermagem que exercem sua profissão junto a pessoas fragilizadas.2007. Estudos recentes têm valorizado muito o conceito de espiritualidade e no Brasil. manifestam-se. saúde e bioética estão inclusos. Pensamos em um acolhimento abrangente. as ações dos profissionais e pastoralistas estão interligadas e traduzem processos de trabalho em formas de produção coletiva de saúde. assim. como a física e a biologia. social e espiritual. quando aponta o papel da bioética na terminalidade da vida. pois prima pelo caráter plural na análise e discussão de situações concretas. compreendendo-a enquanto realidade somática. Constitui campo de elaboração subjetiva no qual a pessoa constrói de forma simbólica o sentido de sua vida e busca fazer frente à vulnerabilidade desencadeada por situações que apontam para a fragilidade da vida humana.Centro Universitário São Camilo . A bioética e a espiritualidade constituem ferramentas no sentido de ajudarem a ultrapassar a idéia curativa da saúde e voltar-se para a potencialização do sujeito visto em suas múltiplas dimensões. Na terminalidade. Mesmo que o elemento religioso esteja presente no modo como os pacientes elaboram suas crises. e não a simples ausência de doença(7). sendo capaz de envolver a subjetividade e o conhecimento prático do profissional. A partir destas idéias. o poder. a espiritualidade é algo inerente ao ser humano(1). por meio da produção do cuidado(10). Resulta das condições de vida e das relações que as pessoas estabelecem entre si e com a natureza por meio do trabalho. respeitados e tratados pela equipe de enfermagem. como muito bem teoriza Pessini(4). os profissionais de enfermagem não têm preparo para discutir e como lidar com a religiosidade e lançam mão de suas convicções religiosas pessoais de forma acrítica(2). evitando assumir posições sectárias(5). este aspecto traz à pauta a característica interdisciplinar da bioética(6). Um fator que dificulta o cuidado espiritual é a influência do materialismo por valorizar sobremaneira a beleza. à dimensão espiritual do paciente. não é possível desvincular os papéis dos diferentes atores em saúde. entendida como capacidade de reagir a elementos desestabilizadores do equilíbrio vital. Entende-se saúde para além da visão restrita à ausência de doenças. O ato de saúde precisa ser um ato de cuidado dirigido. No entanto. desse modo. um corpo físico. o material. livre. responsável e digno. além da razão(2). em seus estudos. emoção e acuidade de percepção sensível. Também. número significativo de profissionais da saúde vêm se interessando pelo tema. Pesquisas realizadas pelas ciências naturais. mental e social. aquela que aposta na necessidade de se estar atenta à qualidade do cuidado no adeus à vida. Verspieren(8) apresenta uma visão integral de saúde. também. no campo do agir em saúde. compreende mais do que a realização de procedimentos e técnicas. esvaziando o ser humano do valor que ele tem em si.1(1):43-52 INTRODUÇÃO Falando sobre o tema A espiritualidade traduz-se em sermos seres espirituais e possuirmos. pois o respeito à crença de cada pessoa é indiscutível. as práticas religiosas têm estado presentes no trabalho em saúde de forma pouco crítica e elaborada. A bioética subsidia o respeito aos aspectos espirituais e religiosos. pois são conceitos que se implicam e se interpenetram. indi-viduais e/ou. Novas competências são exigidas dele em relação ao trabalho realizado na perspectiva da visão integral de saúde e do bem-estar físico. como ser único. como prevêem tanto a espiritualidade quanto a bioética. é o produto de condições objetivas de existência. no campo da espiritualidade e sua interlocução se dá efetiva tanto com as doutrinas éticas de inspiração teológica quanto com as doutrinas éticas de inspiração leiga(3). inteligente. Sempre que se pensa em cuidado. os aspectos espiritualidade. psíquica. é preciso haver sincronia entre estas áreas do conhecimento e ação. Portanto. A bioética é uma área do conhecimento com pouca expressão. O corpo físico é apenas um reflexo do espírito. É preciso agregar ao saber científico intuição. a bioética pode ser definida como a guardiã na terminalidade da vida. transitoriamente. O sentido final do trabalho em saúde é defender a vida das pessoas.

foi elaborado o material para a análise. com pacientes terminais. Há interesse e maior abertura para o estudo e a inclusão do tema em nível acadêmico e de pesquisa(11). Esta deu-se no local de trabalho de cada integrante da pesquisa. Coleta e Análise dos Dados Após contatar com os interagentes que compõem a amostra de pesquisa. tem 13 anos de formação em teologia e fez curso de especialização em capelania hospitalar. os termos peculiares da linguagem dos sujeitos. considerando a subjetividade do tema. no Rio de Janeiro. porque a mesma tem mais contato com o paciente do que o profissional que exerce a função de assistente espiritual. experiência no cuidado espiritual ao paciente em fase terminal. Instrumentos de coleta de dados Foi aplicado um questionário e seguido de entrevista individual semi-estruturada. uma instituição de ensino e duas igrejas (Igreja Evangélica Batista e Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil). As respostas foram organizadas de forma que não fosse modificado seu conteúdo. após o recolhimento e a leitura das respostas foram realizadas entrevistas para coleta de dados adicionais ao questionário. Metodologia Sujeitos e Locais do Estudo A coleta de dados para o estudo desenvolveu-se junto a sete profissionais que atuam na área da pastoral da saúde. a enfermagem deve se instrumentalizar para integrá-lo em sua atividade diária.Centro Universitário São Camilo . Dessa forma. dando a ele. Existe um aumento de interesse em compreender o efeito da fé na saúde. pela pesquisadora. o conforto. assim. assim. conforme preconiza a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde(12). sobre o jeito de transmitir ao paciente que está morrendo. referenciada por Minayo(13). Foi empregada a abordagem qualitativa. o cuidado espiritual ao paciente terminal deveria estar incluso no trabalho da enfermagem e por quê?. um seminário. experiência espiritual do entrevistado. ou seja.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . Esse cuidado mais abrangente do que somente tratar o corpo pode estar incluso nas tarefas da enfermagem. no seu trabalho com o paciente terminal. Foram escolhidos intencionalmente para compor a amostra de estudo por terem formação em pastoral e experiência em capelania hospitalar. residem e atuam na Grande Porto Alegre. Resultados e Discussão Perfil pastoral dos agentes espirituais Com relação à preparação específica de cada um dos entrevistados.2007. Os sujeitos pesquisados exercem a função de pastores. Os itens investigados foram: 45 . o cuidado espiritual. conservando. sacerdotes e pastoralistas. RS. todos relataram terem formação empastoral e experiências práticas no atendimento espiritual ao paciente em fase terminal. mas se faz presente na relação. procedeu-se a coleta de dados. para aprofundar o tema em estudo. Em seguida. além de alguns serem profissionais da saúde. ouvir. preparo dos profissionais de enfermagem para cuidar das necessidades espirituais do paciente terminal. até mesmo num leito de morte. visa a refletir sobre a necessidade da enfermagem integrar. caracterização do cuidado espiritual ao paciente terminal. Esse cuidado não supõe um tempo específico. saber de seu interesse em participar e obter o Consentimento Livre e Esclarecido. o descanso e a paz que pode encontrar. Sendo o cuidado espiritual importante. Os locais foram dois hospitais. Procedemos a entrega dos questionários e. O pastor que integrou a pesquisa é membro de uma Igreja Batista da Grande Porto Alegre. o presente estudo. principalmente. e capelania e enfermagem poderiam organizar e desenvolver um trabalho integrado no sentido de oferecer ajuda espiritual sincronizada ao paciente que está morrendo? Além da aplicação do questionário. fez estágio em um hospital evangélico. na maneira do profissional de enfermagem estar presente.1(1):43-52 como qual podemos demonstrar amor e interesse pela sua vida. auxiliando-o a tornar sua morte mais serena. um atendimento mais abrangente. Foi feito novo contato para marcar os encontros e para a entrega do questionário. o consolo. orientar e exercer técnicas junto ao paciente. respeitando sua confidencialidade e seu anonimato. resultado de uma pesquisa feita com pessoas que trabalham no campo da espiritualidade. Os participantes foram denominados entrevistados. a coleta de dados foi complementada com perguntas dirigidas aos pesquisados.

A religiosa é auxiliar de enfermagem e exerce sua função em um hospital da Grande Porto Alegre. Neste período. carinho e cuidado relevante neste momento". O outro pastor é capelão da Igreja Luterana da Grande Porto Alegre. conforto. quando a cidadania. A dimensão espiritual da pessoa. Trabalha na área de aconselhamento com os alunos. A entrevistada de um dos hospitais complementa dizendo que é um momento que exige muita maturidade e serenidade. Fez curso de capelania hospitalar num Seminário no Rio de Janeiro e estágio em um hospital da mesma região. Ainda. A evolução da medicina como ramo de comércio foi o elemento mais decisivo para que os profissionais da saúde se afastassem da espiritualidade. uma entrevistada refere ser um trabalho muito delicado e. conforme seu relato: "Creio que este atendimento traz um referencial de fé. Atuou. relata que é um estágio particular e de muita importância para o paciente. Tem vinte e dois anos de experiência e vivência em ambiente hospitalar. Primeira unidade temática Características do cuidado espiritual ao paciente terminal Quanto à caracterização do cuidado espiritual ao paciente terminal.2007. ao longo de nove anos. faz parte da equipe diretiva. Isso vai depender de nossa avaliação sobre a vida e responsabilidade diante dos pacientes em suas diferentes necessidades(14). atendendo pacientes no serviço de pastoral. porém sublime. importante. A enfermeira exerce a função de supervisora em um hospital de Porto Alegre. exigindo habilidade e sensibilidade. É professor de religião na mesma instituição.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . ao mesmo tempo. Fez preparação específica durante o curso de teologia. É membro integrante do grupo de apoio à criança terminal do hospital no qual atua. realizou trabalho de conclusão de curso abordando o tema do paciente terminal. que é da mesma instituição da religiosa. nos quais exerce o ministério da Pastoral da Saúde. há 5 anos. Fez diversos cursos e encontros de Pastoral da Saúde e Pastoral dos Enfermos. tem experiência profissional construída ao longo de vinte e quatro anos. também. Trabalha em uma instituição de ensino de Porto Alegre como capelã. conforto. dedicando-se de forma mais específica a pacientes terminais. Pequenos gestos de afeto e atenção influenciam a recuperação do paciente. Tem curso de formação superior em teologia e diz ler muito sobre o tema da espiritualidade. em UTIs e durante doze anos exerceu o serviço de assistente espiritual a pacientes terminais. assistiu e auxiliou muitos pacientes terminais por meio do Serviço de Pastoral da Saúde Hospitalar. realiza projetos de solidariedade à comunidade carente do vale dos sinos (campanhas de agasalho. é generalista e inclui em seu serviço a supervisão da equipe de Serviço de Pastoral da Saúde.1(1):43-52 O frei é professor e assistente espiritual em um Seminário do Rio Grande do Sul. sendo solicitada pelos pacientes. com estágio em um hospital da mesma localidade. O paciente precisa encontrar pessoas solidárias que o auxiliem no enfrentamento de seu mal físico e de suas necessidades espirituais. Da mesma forma. Fez curso de especialização em capelania hospitalar durante um ano. pois o paciente nesta fase deseja receber atenção e tratamento personalizado". 46 . na sua transcendência como ser integral. Lê e participa de palestras e encontros que abordam o tema da Pastoral da Saúde e sua aplicabilidade prática. a justiça e a ética formarão novo paradigma social(15). A teóloga e educadora é formada há 15 anos em um Instituto Evangélico de Educação Religiosa do Rio de Janeiro. esperança e carinho para com o paciente. outra entrevistada enfatiza que o cuidado espiritual é um momento de fé. familiares e serviço de enfermagem para dar atendimento pastoral a pacientes terminais e a outros pacientes em suas necessidades. A enfermeira. Outra entrevistada.Centro Universitário São Camilo . alimentos e brinquedos). como podemos ver em seu depoimento: "O cuidado espiritual ao paciente terminal requer maturidade. pais e professores de uma instituição de ensino. congressos e seminários onde foram abordados temas sobre a Pastoral da Saúde e o paciente em suas necessidades biopsicoespirituais. um dos entrevistados considera desafiador. Tem formação em ética e bioética. Visita pacientes em hospitais há um longo período de tempo. deve caracterizar as relações interpessoais e intergrupais na sociedade do terceiro milênio. Participou de cursos. serenidade e entender reações e estágios frente à morte. esperança e é uma manifestação de presença. Fez preparação em Pastoral de Saúde junto aos capelães em hospitais. realiza cultos e programas de datas comemorativas na instituição em que trabalha e organiza os painéis de datas come-morativas.

de suas vivências. esta questão estimulou ainda mais o debate nos meios científicos: cada vez mais médicos reconhecem que a fé das pessoas ajuda no processo de sua cura física. todos os entrevistados referem que a enfermagem. Através da espiritualidade.1(1):43-52 Recentemente. principalmente.]o ser humano utiliza muitos mecanismos de defesa para fugir daquilo que assusta e faz sofrer. em geral. suas formas simbólicas de expressão. Nos séculos passados. estão preparados. mas ser presença que transmita conforto. o que fica evidenciado na fala a seguir: "Diria que alguns sim e muitos não. pois a espiritualidade faz diferença em sua saúde. A ligação entre corpo e espírito é reconhecida pela humanidade há muito tempo. assim como a seus familiares. suas contradições e mecanismos internos. a comunidade científica considerava fé e espiritualidade como sinais de crendice e de ignorância. tem uma função terapêutica(18). Para alguns profissionais. para cuidar das necessidades espirituais dos pacientes terminais. É muito gra. até mesmo. ou seja. foi possível constatar que o cuidado espiritual é importante para o paciente. A espiritualidade. dar a eles todo o suporte psicológico. tornando 47 .. O outro entrevistado refere que a causa da enfermagem não estar preparada não se relaciona ao preparo. de modo geral para o enfrentamento e elaboração das reações pessoais e de equipe frente ao paciente terminal. mas pesquisas recentes começaram a relacionar fé com uma boa saúde(16). Uma das entrevistadas falou que a causa da enfermagem não estar preparada para esta ação fundamentase na falta de formação específica dos profissionais. Outra entrevistada complementa dizendo que falta uma formação específica e base teológica pastoral. [.. acaba sendo um modo de não entrar em contato com as suas próprias dores e medo da morte. em função de sua formação e. não está preparada para auxiliar o paciente em suas necessidades espirituais. mas sim ao ambiente de pressão e sofrimento. e oferecer-lhes assistência médica de excelência para que desfrutem de uma vida digna e de qualidade. a indiferença pela vida humana. uma vivência pessoal significativa. uma experiência de fé significativa". experimentam-se pessoalmente os misteriosos caminhos do eu profundo. Mais que uma formação acadêmica. amadurecimento pessoal. Segunda unidade temática Preparo da enfermagem para o cuidado espiritual ao paciente terminal Quanto ao preparo dos profissionais de enfermagem. às vezes. O cuidado com os pacientes deve ser digno. como elementos de conforto para o paciente terminal. causando ansiedade e. A espiritualidade capacita o profissional para lidar com as emoções intensas e os questionamentos angustiados dos pacientes e seus familiares em crise existencial. É assim que deve ser a medicina hoje e sempre(17). Os instrumentos para compreender os caminhos da alma dos pacientes aparecem. a dedicação. É relevante que o profissional desta área tenha um acompanhamento de maneira a 'estar se dando conta' de como as situações que lida afetam sua própria existência. Ela relata: "O carinho. A espiritualidade não finaliza no religioso e. a doação. compreensão da situação. fazem parte do cuidado espiritual. Creio que alguns profissionais. como equipe multicategorial. evitando que se assuma a atitude usual de fuga destas situações ou de criação de mecanismos de bloqueio da sensibilidade para poder preservar sua própria estabilidade emocional(2).tificante sermos instrumentos mediadores para o encontro definitivo com Deus". sem nos preocuparmos tanto com as palavras. indiferença. bem como os sutis significados de seus gestos. segurança. um contato rico e produtivo com as próprias dores e conflitos. porém falta toda uma formação de base teológica pastoral para a equipe. Trabalhar com momentos tão dolorosos da vida humana e estar preparado para cuidar das necessidades espirituais dos pacientes terminais implicam num processo pessoal de autoconhecimento. beneficiando a saúde integral do homem(19). é uma fonte importante de apoio existencial. Um dos entrevistados comenta que faltam aos profissionais cursos preparatórios para o acompanhamento a pacientes terminais em suas necessidades espirituais. sua capacidade de mobilizar energias intensas e de encontrar significados para as situações de crise. com a religiosidade. muitos não". espiritual e emocional.Centro Universitário São Camilo .2007.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . além disso. Persiste forte ainda a concepção de prova e castigo". Uma das entrevistadas refere o cuidado espiritual como sendo um momento benéfico para o paciente e gratificante para o pastoralista. A mesma diz que persiste a idéia entre os profissionais e a sociedade de que a doença é prova e castigo de Deus. como podemos identificar em suas palavras: "Posso dizer o quanto é benéfico ser presença junto ao paciente terminal. o que dizer. É um momento de maturidade. Por esta unidade de análise. serenidade e carinho.

mas tem que haver vocação. dedicação. dizendo que o contato constante que a enfermeira tem com os pacientes a favorece perceber essa necessidade e auxiliá-lo. cultivando o diálogo personalizador em vários âmbitos. pois exige pessoas preparadas para tal. tornando muito mais fácil cuidar deste assunto com os pacientes". calejados. Em um tempo histórico de fascínio pela tecnociência e por suas descobertas que podem tornar o ser humano um mero detalhe ou objeto. O outro entrevistado afirma que é possível a enfermagem também participar do cuidado espiritual do paciente terminal. ensino e treinamento. isto é. Terceira unidade temática Inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho da enfermagem Com relação à inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho de enfermagem só um dos entrevistados pensa não ser um cuidado para a enfermagem. Não se trata de deixar de lado as inovações científicas e tecnológicas. comprometendo o cuidado espiritual. Para isso. promovendo o bem-estar e protegendo os interesses deste. Seis dos entrevistados defendem que deveria haver 48 . A partir das falas dos sujeitos entrevistados. As reações de estresse do paciente variam de indivíduo a indivíduo. além de uma formação acadêmica que favoreça também um preparo teológico espiritual.. mediante a valorização do ser humano em sua dignidade plena. A família e amigos não têm mais um contato pessoal com o paciente. principalmente nas situações de sofrimento e final de vida. Vejo a necessidade de incluir cuidados espirituais nos cursos acadêmicos". a religião tem perdido adeptos entre os que acreditavam numa vida após a morte. Porém. Um dos entrevistados justifica esta possibilidade. distancia-se do conviver com alguém que está morrendo diferente de tempos anteriores. pois os profissionais de saúde também se sentem despreparados para dar a assistência integral ao paciente(24). bem como sermos protagonistas de ações humanizantes. Atualmente. isto é. Outra entrevistada ressalta que a preocupação da enfermagem se restringe à parte técnica. Para isso.Centro Universitário São Camilo . ao fazer isso. assim. por ser uma tarefa séria e cuidadosa. na imortalidade. precisamos nos humanizar. Uma das entrevistadas disse que.2007. das crenças e das opções de cada um(25). de uma nova forma de atuar frente a essa realidade. buscando uma articulação baseada nos princípios éticos. de uma forma mais abrangente. o paciente fica no asilo ou hospital e não morre mais em casa. evidente a necessidade de acolhimento e valorização da pessoa neste momento(20). é preciso o desenvolvimento de um novo olhar.. constata-se que a enfermagem não está preparada para exercer este cuidado devido à falta de formação específica no curso acadêmico e outros complementares. com base nos fundamentos de seu saber técnico. dos desejos. deixando de lado osoutros aspectos que envolvem outras necessidades do paciente: "Penso que. os profissionais de enfermagem não estão preparados para cuidar das neces-sidades espirituais dos pacientes terminais [. Os outros entrevistados referem que o cuidado espiritual deve estar incluso no trabalho de enfermagem. trazendo desvantagem ao paciente(22).]a preocupação está mais na parte técnica. A sociedade tem contribuído para que rejeitemos a morte. uma experiência de vida. há pouco diálogo e muito remédio curativo". Verificamos isso em suas palavras: "Há carência neste campo.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . respeitando e valorizando as pessoas envolvidas(23). Segundo ele: "O cuidado espiritual ao paciente terminal deveria estar incluído no trabalho da enfermagem pelo contato cons-tante com o paciente. Humanizar é garantir dignidade ética diante do sofrimento humano(21). é necessária uma vivência pessoal significativa. tornando-se. busca o que entende ser bom para o paciente. além da especificidade.1(1):43-52 os mesmos insensíveis. é a falta de conscientização da enfermagem com relação à importância do cuidado espiritual ao paciente e a clareza da contribuição dos profissionais de saúde no cuidado. Agora. é necessário superar esta "condição". que foram diminuindo com os avanços da ciência. Outro fator que interfere. dos sentimentos. A enfermeira deve somente auxiliar. A enfermeira. É neste cenário que se dá a necessidade do resgate dos valores subjetivos. mas sim de agregar valores humanos às relações que ocorrem nas instituições de saúde. não pode desconsiderar a manifestação da vontade. na grande maioria.

Só é possível cuidar integralmente do outro se todas as dimensões são consideradas. estar incluídos no currículo e serem praticados. A integração 49 . O cuidado ao paciente deve ser altamente técnico e científico. Embora esta interdependência exista. segundo eles. esquecer de si e perceber o outro em suas necessidades físicas e emocionais. Este cuidado supõe fé e experiência de vida na dimensão espiritual. e os remédios somente do corpo. O vínculo criado entre a enfermeira e o paciente facilita este cuidado espiritual por ampliar a confiança e comunicação enfermeira-paciente. constata-se que há a possibilidade da enfermagem prestar o cuidado espiritual aos seus pacientes. psíquico e. Olhar para o outro é calar. e também treinamento. perceber a nossa subjetividade(26). pessoal e contínuo com os pacientes e ajudar o paciente terminal a ter uma morte tranqüila. Muitos estudos têm fornecido uma atenção mais acurada para a dimensão espiritual(28). porém é importante a capacidade de se sentar junto à sua cabeceira. Mas para ser capaz disso devemos ser capazes de olhar para nós mesmos. percebermo-nos em nossas necessidades físicas e emocionais. O outro entrevistado complementa dizendo que a fé proporcionaria mais serenidade e felicidade ao paciente. como um recurso interno que favorece a aceitação. a enfermagem pode dar assistência integral aos pacientes. falar em bioética é falar em medidas que englobam a pessoa de uma forma integral: biológica (física). principalmente. tão importante e necessário. na doença. Portanto. manutenção da saúde ou de reabilitação e cura. Isso remete à sua essência básica como um fator de saúde e realça sua importância nos processos de prevenção de doenças. o que nos faz bem e o que nos faz mal. ouvir verdadeiramente quais são nossas necessidades. é importante prestar o cuidado social. fitar seu olhar. que se inicia sensibilizando a todos da existência dessas dimensões em si mesmo. pois faz parte do seu dia-a-dia e não representa para ela uma derrota profissional. tratando uma delas. as intervenções de enfermagem são escolhidas e implementadas segundo as alterações associadas a cada dimensão(27). Quarta unidade temática Integração enfermagem e capelania A espiritualidade pode surgir. proporciona-se o cuidado espiritual. apresenta-se como fonte de paz e esperança. A tendência crescente da enfermagem em ver o indivíduo de uma maneira holística gera questionamentos sobre o cuidado nessa dimensão. seja no decorrer do curso ou até mesmo no local de trabalho. pois é uma questão de perceber a pessoa na sua totalidade. Nos relatos dos entrevistados. Uma das entrevistadas relata que a fé cuida da pessoa toda. Esses treinamentos deveriam. oferecer aos pacientes terminais cuidados que venham ao encontro de suas necessidades(24). por pessoas habilitadas e experientes na área. Precisa conscientização neste aspecto para os profissionais de enfermagem. o contato e o aproveitamento da ajuda das outras pessoas e até a própria reabilitação. acompanhar e supervisionar a enfermagem no cuidado espiritual. mas para isso é preciso que perceba como ser espiritual e desvende maneiras de. Nessas condições. A fé. se ouvisse da equipe de enfermagem que a fé também cura". Juntamente ao cuidado com o corpo. Pode-se começar simplesmente com um olhar: olhando verdadeiramente para o outro. sua insegurança. essas dimensões interagem e. espiritual(4). o empenho no restabelecimento. seminários. Ele refere: "O paciente sentir-se-ia mais sereno e feliz. a aceitação de sentimentos dolorosos. Outro entrevistado coloca que os assistentes espirituais podem oferecer cursos. as demais serão afetadas. de ter tempo e paciência para ouvir suas queixas. Continuando. sua história de vida. social e espiritual. diante das situações difíceis de assistir um paciente em fase terminal. O corpo.1(1):43-52 treinamentos para os profissionais de enfermagem. preparando-os para capacitação no encaminhamento de questões desta ordem no próprio local de trabalho.2007. mente e espírito são mais do que a soma de suas partes. Então. A enfermeira tem uma convivência mais simples com a morte.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . na sua profissão. A enfermagem teria que aproveitar esse contato mais direto. isso também faz parte do processo de cuidado. emocional e mental (psicológica). um dos entrevistados ressalta que a capelania pode atender os profissionais também. O conceito de saúde também tem mudado e tornase cada vez mais complexo. tanto para os profissionais como para os pacientes. assim. ouvir verdadeiramente o que o outro tem para dizer.Centro Universitário São Camilo .

serenidade e sensibilidade às reais necessidades do outro. Traduz um momento importante para o paciente e gratificante para o pastoralista.2007. Para diferenciar esse aspecto. como foi relatado pelos entrevistados. O fundamento para tal inclusão reside no fato da enfermagem estar em constante contato com o paciente. O profissional de saúde pode ajudar o paciente ouvindo-o. não há uma regra nem uma fórmula. Um outro motivo que traduz o despreparo da enfermagem em lidar com o paciente terminal é a falta de formação específica para o enfrentamento e elaboração das reações pessoais frente ao paciente terminal. fé. A revolução do conhecimento científico. sendo importante para os enfermeiros avaliá-la e nela intervir quando necessário. É necessária uma preparação acadêmica que reforce o respeito pela pessoa e por sua crença. uma maneira da enfermagem e capelania realizarem um trabalho integrado é. O cuidado espiritual supõe permanecer sensíveis e abertos para falar aquilo que sentimos ser o melhor para o paciente. É importante que estejam bem definidas as tarefas da enfermagem e da capelania. Todos os entrevistados trouxeram a importância de incluir o cuidado espiritual às tarefas técnicas prestadas ao paciente terminal pela enfermagem. abertura e um grande amor às pessoas. como também para a coletividade(2). estando atento às suas emoções e aos seus sentimentos. A enfermagem deve buscar mais condições para praticar o cuidado espiritual. Entende-se que as reuniões para trocar informações e para traçar linhas de ação são muito importantes. ainda. acima de tudo. Nesta perspectiva. no cuidado ao paciente terminal. A dimensão espiritual formará um novo paradigma social. tem um objetivo de vida próprio. tem uma vivência própria. o serviço de pastoral implica em respeito. tem uma espiritualidade própria(29). Quem contata todos os dias com os pacientes e com o seu sofrimento. Supõe formação. habilidade. a dimensão espiritual. A enfermagem. é importante que haja estudos que definam a espiritualidade por reflexões em que sua especificidade seja levada em conta(27). no geral. A enfermagem. treinamento e uma experiência de vida para incluir. essa dimensão deve ser diferenciada do aspecto religioso e do comportamento psicossocial. É preciso saber entrar em contato com as próprias dores e medo da morte.1(1):43-52 entre ciência e espiritualidade tem grande importância no enfrentamento dos problemas de saúde não só para os indivíduos. Esses treinamentos podem ser dados pela própria capelania. voltada para a tecnociência. isso é mais importante que qualquer terapêutica. diálogo e integração entre os setores. sabe que cada pessoa sente de uma forma diferente. Entretanto. deve dar as informações biopsicossociais e espirituais do paciente aos assistentes espirituais. tanto por meio de seminários e cursos como de leituras complementares.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . A espiritualidade beneficia a saúde integral da pessoa e capacita o profissional a lidar com o paciente terminal. bem como os treina-mentos para a enfermagem. Os profissionais de enfermagem tornaram-se calejados e insensíveis frente ao ambiente de sofrimento em que trabalham e. É preciso humanizar e resgatar os valores subjetivos. por meio do diálogo e respeito mútuo. não está preparada para prestar o cuidado espiritual ao paciente terminal. preservando sempre sua privacidade. também. como falar e o que falar. pois amplia a confiança e comu- 50 . É necessário considerar a pessoa como ser holístico para se entender a espiritualidade como um aspecto importante no processo terapêutico e essencial para o bem-estar. No momento em que as funções da capelania e enfermagem estão definidas. muitos. É nessa relação que encontramos e descobrimos a forma e o momento corretos de falar. É preciso vocação. O vínculo criado entre enfermagem e paciente facilita o cuidado espiritual.Centro Universitário São Camilo . Em relação à temática de pesquisa. Este cuidado implica um processo pessoal de autoconhecimento e amadurecimento. restringem-se somente à parte técnica. A dimensão espiritual é inerente ao indivíduo. Para atender as necessidades espirituais do paciente. tem reforçado a dificuldade da enfermagem de lidar com o paciente terminal. Muitas vezes. dedicação. Considerações Finais O cuidado espiritual ao paciente terminal caracteriza um desafio. facilitando seu trabalho. Cada vez mais se reconhece que a fé ajuda no processo de recuperação da saúde e enfrentamento da doença. maturidade. o paciente poderá receber um cuidado espiritual adequado e contínuo. havendo colaboração. uma experiência de fé significativa.

pois a espiritualidade pode surgir como um recurso interno de aceitação da doença e de sentimentos dolorosos para o paciente terminal. Os dois setores têm que falar a mesma linguagem e deve haver. a troca de conhecimento. A enfermagem também deve ser habilitada. supõe capacidade de captar relações de significado entre as diferentes instâncias de saber.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . o pluralismo. Neste estudo. O cuidado espiritual. bem como o fornecimento de informações do paciente em um trabalho integrado entre enfermagem e capelania. Saúde.1(1):43-52 nicação entre ambos. entre ambas as partes. A integração entre ciência e espiritualidade tem grande importância para o paciente terminal. a importância da continuidade ao cuidado espiritual prestada pelos agentes de pastoral e capelania. É importante a definição de tarefas de cada um e colaboração e integração entre os setores. a bioética faz-se presente nos relatos dos entrevistados quando apontam a necessidade de responsabilidade.Centro Universitário São Camilo . A enfermagem tem um contato pessoal e contínuo com o paciente e tem uma convivência mais simples com a morte. Muitos estudos têm fornecido uma atenção mais especial à dimensão espiritual. É necessária uma preparação acadêmica que reforce o respeito pelo paciente e sua crença.2007. Para a enfermagem integrar o cuidado espiritual ao rol de suas práticas diárias precisa habituar-se a ver o paciente na sua totalidade. A integração entre enfermagem e capelania no cuidado espiritual ao paciente terminal é uma tarefa difícil. como mais um aporte do saber/fazer da enfermagem. com o repasse de aspectos significativos colhidos pela enfermagem para o serviço de pastoral. espiritualidade e bioética implicam-se. pois não representa para si uma derrota profissional. Constatou-se. a superação de posturas sectárias e a preservação do caráter plural da discussão. É preciso haver interesse comum pelo paciente. diálogo e respeito. também. 51 .

O desafio do conhecimento: a pesquisa qualitativa em saúde. São paulo: Nobel. 2. Rev O mundo da saúde. 2003. Disponível em: www. 4.ed. Vasconcelos EM. Trad.com/pace. Selli L. Aparecida do Norte. 2006. Glanzner CH.htm. Arlindo Fávero. A influência da visão holística no processo de humanização hospitalar. Pe. Disponível em: www. declaração de Jacarta. Projeto promoção da saúde: declaração de Alma-Ata. Lichtenfels H.br/publicações. 1983.a voz do papa e da igreja em diálogo com o mundo.scielo. 2ª.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .org. Verspieren P. 1983. Paris: Cerf. 2006. AFECES. Cavalcanti EV. 2000.4. 29.htm. Disponível em: www. Gestão humanizada. 8. 39(3):473-8.Cláudio Roberto.idademaior. 27:95. Disponível em: rlae@eerp.org. São Paulo: Loyola. Brasil. Prioridade aos cuidados paliativos. Resolução 196/96. In: Noé SV (org). 18. Neme CM. 23. Lautert L. São Paulo: Presbiteriana. Morrer com dignidade. 1990.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102005000300020&lng=pt&nrm=iso>. 26. O milagre da fé. Sartório NA.br/scielo. p.usp. 5. Bioética e enfermagem: uma interface no cuidado. Psicologia. Minayo SC. O trabalho em saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano.com. rede dos Megapaíses. 14. São Paulo: Aplicada.1(1):43-52 REFERÊNCIAS 1.org/Articolo. A bioética: natureza.com. declaração de Sundvall.br/informativo/capa_setembro. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos.misacor.radiovaticana.Realidade e importância. Conselho Nacional de Saúde. 10.2007. Conselho Regional de Psicologia. p. Disponível em: URL:www. t. 16. 9. declaração do México. 3. São Paulo. Clinionco 2005 ago/set.asp?c=108787. Província Camiliana Brasileira. como ajudar o paciente terminal. Carta de Ottawa. 30(2):207. 22. Rev Latino-Americana de Enfermagem. Revista Salette. Pessini L. Garrafa V. Disponível em: www.br/f%(3%A9. Disponível em: revista@pol. Durand G.br/areas/corpo. Strong MI. 11. declaração de Adelaide. Porphírio Figueira de Aguiar Netto. 17. Brasília: Universidade de Brasília.br. 5ª. Leite TA. 2003. A espiritualidade no processo terapêutico . Faculdade de Ciências da Saúde. 12. São Paulo: Hucitec. Problemas atuais de bioética. 13. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Martins Fontes. 2000. Espiritualidade e saúde-da cura d'al mas ao cuidado integral. Rev Gaúcha Enfermagem 2006. In: Merhy EE et al. Benko MA. Merhy EE. Lourenço I. São Paulo. Horta CR. Ministério da Saúde.com. 2001.quarteto t/olivro/defaut. 2006. Bioética. 28. Zoboli EL. Marques LF.br. 7.15-35. Sobre a morte e o morrer. Rev Saúde Pública [online] 2005. 1995.camilianos. princípios objetivos. declaração de Santafé de Bogotá. Brasil. 6. 2006.asp. São Paulo: Roma. Pensando a espiritualidade no ensino de graduação. (731).htm. 2001. A saúde e o bem-estar espiritual em adultos Porto-Alegrenses. Disponível em: URL:www. 25. Silva MJ. O papel da fé no enfrentamento do câncer. Bioética: solidariedade critica e voluntariado orgânico (tese). Calannam N. uma nova visão do ser humano. 2006. 1994. Rev O mundo da saúde. Disponível em: URL:www. SP: Santuário. Pessini L. Aconselhamento a pacientes terminais. In: Initiation à la pratique de la théologie. Disponível em: URL:www. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. solidariedade crítica e voluntariado orgânico. ciências e profissão 2006. Saúde e espiritualidade: sentido de vida no envelhecimento. 2(8). Vie. Gibran VM. São Leopoldo: Sinodal. 52 . Programa de atendimento da enfermagem na admissão e alta hospitalar. Secretaria da Fazenda do município de Fortaleza .2it. São Paulo: Paulus.Centro Universitário São Camilo . Gestos finais: como compreender as mensagens e a condição especial das pessoas que estão morrendo. Lopes AC.afecesconsultoria.infobase. A espiritualidade no trabalho em saúde. 21. Saúde e espiritualidade.ed.oecumene. 20.br/bioética/res19696. Capote PS. Selli L. Acesso em: 12/08/06. 19.359-401.asp?pnIdLivro=319. Zini LW. Kulber-Ross E. Rádio Vaticano .clinionco. 15.ufrgs. 24.htm#cinf. 2004.br. Brasília: Ministério da Saúde. 30(3):384-5. 27. Disponível em: www. santé et mort. Um dos grandes desafios para os gestores do SUS: apostar em novos modos de fabricar os modelos de atenção.com. Disponível em: URL:www. Barchifontaine CP.

aunque grandes. permaneceram. imanentes ao processo relacional da clínica. como para demostrar que en las décadas pasadas el proceso salud-enfermedad ha sufrido varios cambios del punto de vista práctico y teórico y que estos cambios. Para ofrecer una alternativa posible a esta racionalidad hegemónica. que agranda las posibilidades de nuevas formas de producción de subjetividad desde una reformulación ética del cuidado médico. e por maiores que tenham sido estas alterações. Atenção em saúde.2007. es decir. primero presentaremos un breve informe sobre la historia reciente de la Salud Pública y sus políticas del cuidado. o fortalecimento dos Sujeitos envolvidos na situação terapêutica e o investimento em sua autonomia. aiming to show that in the last decades the health-disease process has suffered several changes from the practical and theoretical point of view and.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Con este objeto en mente. Sujeito-autonomia. en la construcción teórica. Health care. Desta forma. com a mesma estrutura. by some icons of Public Health in Brazil.Centro Universitário São Camilo . o que amplia as possibilidades de novas formas de produção de subjetividade a partir de uma reformulação ética da atenção em saúde. Subjects-autonomy. ** Doutora em Saúde Mental pela UNICAMP e docente da Faculdade de Terapia Ocupacional da PUC-Campinas. buscando estabelecer um diálogo com a filosofia genealógica de Michel Foucault. power relationships. that is. 53 . PALABRAS LLAVE: Clínica. Cuidado médico. has remained with the same structure. Sujetos-autonomía. power is used vertically from the one who treats over the one who is treated. inicialmente realizaremos um breve relato sobre a história recente da saúde pública suas políticas de atenção. PALAVRAS-CHAVE: Clínica. interfiriendo en el proceso emparentado de la clínica. ou seja. we propose strengthening all subjects involved in the therapeutic situation and the investment in their autonomy. as relações de poder. Mestre em Filosofia Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. interfering in the relational clinic process. ABSTRACT: In this work. which enlarges the possibilities of new forms of subjectivity production from an ethical reformulation of health care. we shall be supported. con la misma estructura. RESUMEN: En este trabajo.1(1):53-60 A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico Medical Clinic as a tool for strengthening subjects: an ethical-philosophical debate La clínica médica como herramienta para fortalecer el sujeto: una discusión ético-filosófica Sabrina Helena Ferigato* Maria Luisa Gazabim Simões Ballarin** RESUMO: Para a elaboração deste trabalho. nos apoiaremos em construções teóricas de alguns ícones da Saúde Coletiva no Brasil. * Terapeuta ocupacional . we shall first present a brief report about Public Health recent history and its care policies. nos apoyaremos. el poder se utiliza verticalmente por quién trata sobre el que se trata. on the theoretical construction. KEYWORDS: Clinic. o poder sendo exercido verticalmente de quem trata sobre quem é tratado. in a dialogue with the genealogical philosophy of Michel Foucault. visando demonstrar que nas últimas décadas. Para proporcionar um possível desvio a essa "racionalidade hegemônica". o entendimento do processo saúde-doença sofreu diversas alterações do ponto de vista prático-teórico. proponemos el fortalecimiento de todos los sujetos implicados en la situación terapéutica y la inversión en su autonomía. With this object in mind. To offer a possible alternative to this hegemonic rationality. en algunos iconos de la salud pública en Brasil en diálogo con la filosofía genealógica de Michel Foucault.Hospital e Maternidade Celso Pierrô. propomos como alternativa. no matter how great these changes have been. mantienen las relaciones de poder.

distritais e municipais de saúde. e por isso. Naquele momento houve um profundo investimento no social e no meio ambiente. O Sistema único de saúde e as práticas clínicas Sem a pretensão de nos aprofundarmos nas questões históricas da saúde pública e da Saúde Coletiva. a resolutividade. resgatarmos a construção histórica em torno dos modelos de intervenção em saúde. com a ênfase dada ao fator econômico-social como determinante dos processos patológicos. desenvolvimento farmacológico. em primeiro lugar. o tratamento baseado no modelo da evolução natural da doença. Podemos citar como exemplo das diretrizes do SUS. sem história. a partir da metodologia de revisão bibliográfica. a descentralização. o controle social. segundo Carvalho(1) no início da década de 70.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . consequentemente. O controle social. minimizar as injustiças e o controle das burocracias existente nas políticas pré-existentes de saúde. entre outras. e quando falamos em pessoas falamos necessariamente em relações. a integralidade.SUS e a garantia da saúde como "direito de todos e dever do Estado". a fluidez de poderes e saberes imanentes a ela. higiene social. faz-se necessário. centrados na tríade agente patológico. as tecnologias organicistas ou farmacológicas. que precederam o processo de estabelecimento do SUS. recuperação e reabilitação da saúde. porém possivelmente. tudo isso tendo como pano de fundo. buscaram de alguma forma. ini- ciando-se um processo significativo de crescimento tanto da Epidemiologia Social e das políticas sanitárias de saneamento básico. desejos e necessidades. por exemplo.a participação popular na regulamentação. analisando os diversos modelos de intervenção que estão em construção.1(1):53-60 INTRODUÇÃO Para pensarmos a clínica como instrumento de fortalecimento dos sujeitos nela envolvidos. este panorama começa a mudar. Em segundo lugar. pretendemos refletir sobre as práticas clínicas introduzidas no Sistema Único de Saúde. não é regulamentado. a hierarquização. podo-se observar que a evolução dos tratamentos relacionados às diferentes patologias. hora com maior ênfase em um. com nome. miséria e ao sistema privatista-elitista da saúde. com enfoque dado nas relações de poder imanentes a esse processo.Centro Universitário São Camilo . Da mesma forma. De um modo ou outro. regulamentam uma forma de garantia de acesso à saúde como direito de todo cidadão e buscam garantir a boa qualidade dos serviços oferecidos à população. ampliando a participação dos cidadãos na construção das políticas de saúde(a). Tal perspectiva. além dos investimentos nas políticas campanhistas como os mutirões "mata mosquito". manteve-se centrado no modelo ecológico de explicação do processo saúde-doença com os investimentos do saber científico. Vislumbrou-se do então modelo. na tentativa de ampliar o conceito de clínica. Quando pensamos na ênfase maior do tratamento centrado no agente patológico. dos fóruns coletivos. a eqüidade. como dos movimentos sociais. número de inscrição na instituição de saúde e que tenha realizado os exames previamente solicitados. hospedeiro e meio ambiente. Ao longo da maior parte da história recente da medicina. são de valor: vacinas. gostaríamos.2007. ampliando também sua potência. o cenário pós 1975. ainda em construção. que se dividia. das campanhas de combate à desigualdade. não necessariamente a. o acesso universal. as estratégias parecem imediatas e. quando a ênfase é dada ao hospedeiro enquanto corpo individual. Neste caso. com as origens da Reforma Sanitária e a tentativa da consolidação do processo democrático da saúde. estamos falando em pessoas. particularmente as relações estabelecidas na situação clínica entre usuários e profissionais da saúde. através dos conselhos locais. avaliação e construção das políticas do SUS é efetivada. constituindo-se como base para a formação das diretrizes principais para o Sistema Único de Saúde . No entanto. refletindo sobre aspectos que ainda nos escapa. ofereceu teoricamente um sistema de proteção social de caráter universal-redistributivo. hora com maior ênfase em outro. bem como os atendimentos pontuais à queixa apresentada são respostas satisfatórias para um hospedeiro. de expor algumas de suas diretrizes. as políticas do SUS. nos diferentes estágios de promoção. o aspecto relacional da clínica. No entanto. No entanto. 54 . pela influência das correntes estruturais marxistas. das assembléias populares etc. dos núcleos de saúde coletiva. Aspectos que. culminando com a constituição de 1988. prevenção. tornando os serviços mais acessíveis e mais democráticos. quando falamos em população. etc.

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modificado neste processo. Segundo Campos(2) ao falarmos em pessoas e relações interpessoais, estamos automaticamente falando em desejos, poderes, saberes e singularidades. Com a ênfase da saúde pública estrutural marxista focada no modelo de determinação social da doença, lutando em contrapartida ao modelo médico organicista, positivista tradicional, gerou-se um contexto em que, em ambos os casos, embora tenham muitos aspectos que devam ser valorizados e preservados, se operou uma espécie de "abolição" do sujeito adoecido. No primeiro caso, por considerar a doença apenas como produto das desigualdades sociais e das lutas de classes, e no segundo por considerar a doença sem sujeito(3) e o indivíduo apenas como objeto de intervenção de um determinado saber técnico sobre a doença(b). Em ambos os casos, saber e poder, como nos mostra Foucault(4) se sustentam mutuamente, pois, as possíveis respostas encontradas para determinar o processo de adoecimento já estão previamente dadas e definidas por um conjunto de saberes dos quais o sujeito adoecido não fez parte da construção, muitas vezes, nem mesmo os profissionais atuantes na clínica fizeram parte dela, apenas o reproduzem. Neste caso, a maioria dos saberes não científicos que o sujeito adoecido possa vir a ter em sua carga de experiência é subestimada, quando não desconsiderada. Esta forma de racionalidade fundamenta-se na verticalidade de poder existente entre quem trata e quem é tratado, sendo que os primeiros impõem uma objetividade aos usuários restringindo as possibilidades de expressão da subjetividade, e conseqüentemente, de desejos, interesses, necessidades e singularidades e ao mesmo tempo, profissionais permanecem aprisionados a determinados discursos que embora lhe atribuam uma carga de poder, pouco oferecem margem à expressão de sua singularidade, criatividade.

A Construção de uma nova prática clínica
Com isso, nos propomos a refletir sobre a clínica queremos, ou melhor; em qual método de intervenção seria possível resgatar o sujeito como aspecto central no tratamento, evidentemente, sem desconsiderar os aspectos construídos na história pelos modelos vigentes até então? Sabemos que a Psicanálise caracteriza-se em sua essência, por este resgate do sujeito no tratamento, e por isso, utilizaremos muitos de seus aspectos para a construção desta nova clínica; no entanto, apoiados na tese defendida por autores como Nietzsche, Foucault, entre outros, acreditamos que, embora se considere a existência do sujeito, ainda nesta construção de saber, se opera a concentração do poder nas mãos de quem trata sobre quem é tratado. Por exemplo, para Foucault(4) quando falamos em doença mental e tratamento entendemos que se por um lado, Freud retomou a loucura ao nível de sua linguagem, reconstituindo um dos elementos essenciais de sua experiência reduzida ao silencio pelo período das internações, por outro, tornou o doente mental submisso a uma outra ordem de saber: o analista sabe da sua loucura, mais do que ele próprio. A cura pela palavra, em sua abordagem ortodoxa, se dá num monólogo, quase uma confissão, onde quem escuta é o detentor da verdade de quem fala e quem fala é o objeto de saber de quem ouve, numa relação onde saber e poder se alimentam. Desta forma, o que procuraremos propor, é a reflexão sobre uma forma de clínica(5), onde não apenas a concepção de doença se altere, mas onde a concepção de sujeito(c) seja modificada e os fluxos de poder(d) possam ser desviados e utilizados para a produção de subjetividade e em produtos com "valores de uso" para os coletivos.

b. Temos como exemplo o estudo do corpo humano nas aulas de anatomia, disciplina que os profissionais da saúde estudam para tornarem-se curadores de homens. "O homem é a imagem de si mesmo, mas a imagem de si mesmo morto (...). A vida do homem e sua organização social são expulsas totalmente daquilo que é seu corpo doente. Uma coisa é o corpo, outra coisa é a doença e outra a vida" (p.52)(3). c. Trabalhamos com a premissa de que "sujeito é uma síntese singular, resultante do eletrochoque entre determinantes e condicionantes particulares e universais e a capacidade do próprio sujeito de alterá-los, mediante processos de análise e intervenção sobre estes fatores" (Campos;2005. p.235), o que, em nossa análise, não contradiz a concepção de Foucault, que ao teorizar a respeito da subjetivação, introduz o conceito de sujeito forma, ou seja, um sujeito apontado para o processo de sua constituição, sujeito como atividade, em devir, que visa sua multiformidade histórica. Neste sentido, para Foucault, na leitura de Paiva 5 quem somos, não é uma questão meramente pessoal, psicológica, existencial, mas engaja a pergunta pelo que viemos a ser com relação às práticas que nos constituem, as quais organizam nossa relação conosco e com os outros. d. Para Foucault 4, é preciso "deixar de descrever sempre os efeitos do poder em termos negativos: ele exclui, reprime, censura. Na verdade, além disso, o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção"(p.161)(4).

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É importante ressaltar que não pretendemos aqui, dar conta de toda complexidade da clínica, nem mesmo negar seus aspectos objetivos e orgânicos, tão relevantes quanto seus aspectos filosófico-ideológicos. Por isso, neste trabalho, para discutirmos a clínica, estaremos enfocando, especificamente, as relações de poder, existentes na situação terapêutica e a possibilidade de desviarmos das lógicas hegemônicas o fluxo deste poder, a partir da conquista de autonomia e do fortalecimento dos sujeitos nela envolvidos. Em Saúde Paidéia, Campos(6) trás um novo conceito de clínica, por ele denominado clínica ampliada que, de acordo com Onoko Campos(7) não nega as técnicas da clínica strictus sensu, mas as incorporam em um conjunto mais amplo de ações, entrelaçando clínica e política, tratamento, organização institucional, gestão e subjetividade. Os cuidados buscam a produção de novos valores de saúde e cidadania. Este cuidado não é reproduzido em série, normativo; ao contrário a cada usuário é oferecido e construído juntamente a ele um projeto terapêutico individualizado, conforme suas necessidades - Esta idéia me parece bastante próxima do conceito de "programa vazio" introduzido por Foucault, termo que sugere, nas palavras de Ortega(8), a existência humana como uma cavidade que pudesse ser preenchida por cada indivíduo segundo suas necessidades, renunciando a qualquer pretensão de prescritividade e de universalidade, para possibilitar a experimentação e a criação de novas formas de existência. Quando estes autores incitam a criação de novas formas de se operar à clínica, se propõe ao mesmo tempo, a

reformulação do papel de controle dos micropoderes(e), e, além disso, são abertas possibilidades para a experimentação de novos tipos de relações sociais, denominadas por Foucault como relações agonísticas, que nada mais são que "relações livres, que apontam para o desafio e para a incitação recíproca e não para a submissão ao outro"(p.89)(8). Esta proposição não permitiria, por exemplo, que as relações de poder inevitavelmente existentes entre profissionais de saúde e usuários, se transformassem em estados de dominação. Há aqui, um apelo pela criação de novas formas de vida, que mantenha minimamente o direito relacional entre os seres humanos nos espaços públicos, possibilitando novas formas de subjetivação. Neste caso, ao profissional de saúde, é fundamental a aquisição de uma postura terapêutica que ultrapasse o saber do seu núcleo profissional e o manejo das melhores técnicas para aplicá-lo, é preciso "um investimento que trabalhe até o limite a necessidade da defesa da vida", neste caso, a postura terapêutica é como aponta Onoko(9) necessariamente, uma postura ético-política; que vislumbre a transformação daquilo que é dado como universal. Neste sentido, não se trata de um profissional modificando um usuário, mas do profissional se revendo o tempo todo, ao mesmo tempo em que revê a posição do usuário e também o conduz a essa revisão. Para Benevides(10) quando colocamos em questão a naturalidade ahistórica de categorias com as quais nos identificamos e indagamos seu processo de constituição realizamos um exercício crítico-clínico que nos desvia da natureza humana na qual acreditamos nos definir, e por tanto, realizamos um exercício de liberdade(f).

e. Denominamos como micropoder "a mecânica do poder que se expande por toda sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação. Poder este que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos - o seu corpo - o que se situa ao nível do próprio corpo social, e não a cima dele, penetrando na vida cotidiana, e por isso podendo ser caracterizado como micropoder" (p. XII)(4). f. Para Benevides 10 a noção de liberdade em Foucault tem um sentido nominalista e um sentido real. "É por uma história nominalista dos sentidos da liberdade que podemos alcançar uma liberdade real. Para cada concepção instituída de liberdade, é preciso realizar a inversão nominalista, que consiste em afirmar criticamente que o que se alcançou tem tão somente um nome de liberdade não sendo efetivamente liberdade real(...). O nominalismo de Foucault faz da liberdade não uma coisa ou um estado, mas um processo, uma libertação" ( p.12)(10).

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Assim, acreditamos que, tanto a proposta de clínica ampliada quanto à proposta dada por Foucault, em sua conceituação oferecida sobre programa vazio e sobre a constituição de relações agonísticas, apontam para uma modelagem de clínica que buscam o fortalecimento do sujeito adoecido, não apenas em sua relação com a doença, mas em sua relação com quem o trata, com o mundo e com as pessoas ao seu redor. O fortalecimento do sujeito pode ser entendido de diversas maneiras de acordo com a apresentação de cada teoria. Para nós, este fortalecimento tem o sentido de potencialização da autonomia, do controle sobre si mesmo e sobre suas ações no mundo. Campos(2) ao apresentar o método da roda(g), explica que o fortalecimento dos sujeitos só é possível a partir do momento em que são ampliadas suas capacidades de análise e de intervenção nas atividades ou processos em que estão inseridos. Este fortalecimento, associado à democratização das instituições, seria os dois principais caminhos para a reformulação das racionalidades hegemônicas e para se democratizarem as relações de poder. Para Foucault(11) quando falamos em fortalecimento ou empoderamento dos sujeitos, estamos discorrendo também sobre o uso público ou privado das nossas atitudes. Por isso, vale dizer, que este fortalecimento implica em ampliação de poderes e o uso desses poderes, pode coincidir ou não, com os interesses coletivos e sociais, pode se dar de forma construtiva, mas também perversa e destrutiva, pois, afinal, "não é simples a articulação entre vínculo social e narcísico em cada sujeito"(p.118)(2). Assim, esta articulação pode produzir contradições e conflitos em decorrência da duplicidade dos objetivos individuais e coletivos. Põe-se desta forma um desafio. Como estabelecer o fortalecimento do sujeito sem fortalecer os conflitos gerados pela ampliação dos poderes individuais no coletivo? Em outros termos: como "constituir uma sociedade justa, habitada por seres humanos concretos com coeficientes crescentes de liberdade, mas

também, com capacidade para assumir compromissos e responsabilidades"?(p. 123)(2). Para apontar possíveis soluções para esse desafio, acredito ser bastante potente a teoria da Ética de si preconizada por Foucault(11), que se fundamenta na proposição de que a constituição subjetiva do sujeito coletivo deve ser essencialmente como uma constituição ética. Para ele, uma possível saída para este dilema, não estaria, nem mesmo em nenhuma das teorias levantadas anteriormente, nem mesmo em nenhum a atitude Estadual sobre a regulamentação acerca o uso ideal do poder, mas os efeitos negativos deste empoderamento, poderiam ser minimizados, a partir de uma "ontologia histórica de nós mesmos"(h), uma crítica do que dizemos, pensamos e fazemos, a análise sobre nossos possíveis limites e a reflexão sobre eles, conjuntamente a uma crítica prática sob a forma de ultrapassagem possível. Ou seja, acredito que tanto o ethos filosófico quanto o método da roda procuram "romper com a tradição instituída, tratando de combinar compromisso social com liberdade"(p.34)(2), entendendo que "seres humanos menos alienados ou com maior capacidade analítica, ou reflexiva serão, sempre, mais capazes de construir a felicidade humana"(p.107)(2). Podemos dizer que na situação clínica, poderiam ser estimuladas, verdadeiras técnicas de si, termo foucaultiano que se referem às técnicas "que permitem aos indivíduos efetuarem sozinhos ou com a ajuda de outros, um certo número de operações sobre seu próprio pensamento, sobre sua própria conduta, e isso, de tal maneira a transformarem-se e produzir a verdade à cerca de si próprios"(p.129)(5). A partir deste referencial, como profissionais, trataríamos de tomar como domínio homogêneo de referência não apenas as representações que os saberes e os homens se dão de si mesmos, nem as condições que determinam os usuários sem que eles o saibam, mas sim, o que fazemos e a maneira como fazemos; a forma com

g. "É um método crítico a racionalidade gerencial hegemônica, propondo uma reconstrução operacional dos modos para fazer a co-gestão de instituições e a constituição de sujeitos com capacidade de análise e de intervenção" (p.234)(2). h. Isso é o que Foucault 11 denomina êthos filosófico.

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Centro Universitário São Camilo . do controle das doenças ou a exclusão das diferenças se constitui como o melhor caminho. Mas sim.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . não certamente como uma teoria. Assim. "a liberdade é vista agora como um elemento fundamental incluído na própria definição do exercício do poder"(p. Tudo isso. Biopoder é uma expressão introduzida por Foucault. pertinentes à construção teórica sobre às práticas clínicas. e passam a ser movimentos agosnísticos. é necessário aliar-se com as forças da processualidade. uma via filosófica em que a crítica do que somos é simultaneamente análise histórica dos limites em que são colocados e prova de sua ultrapassagem possível (p. nem significa dizer que construiríamos uma situação clínica onde as relações de poder se anulem ou tornem-se invertidas. é preciso considerar a ontologia crítica de nós mesmos. Assim.1(1):53-60 que reagimos ou permitimos que os usuários reajam ao que os outros fazem ou ao que fazemos. 208)(2). na leitura foucaultiana. bem como "pensar uma sociedade sem relações de poder só pode ser uma abstração". nem sempre a busca da estabilização. do governo de si(i) e dos outros. de influência mútua. no viver. o que só faz "brecar" os processos da subjetividade nos termos de sua produção. Constatamos portanto. pela capacidade dos sujeitos de entrarem e saírem de situações. da capacidade de suportar e de improvisar formas que dêem sentido e valor àquilo que essa incômoda sensação nos sopra. pois afinal. CONCLUSÃO Depreende-se dos aspectos descritos. situação imaginária e utópica. onde se desviaria aos efeitos da vontade de saber-poder e ao mesmo tempo. de resistência .sujeitos individuais ou coletivos que têm diante de si um campo de possibilidades onde diversas condutas. não pela eliminação de qualquer relação de dependência. implica em abrir mão do vício em identidades.mais do que de qualquer outro tipo de aprendizado . que o fortalecimento dos sujeitos adoecidos em seu papel ativo no tratamento. permanece até o fim como um "sujeito de ação". um êthos. modificando até certo ponto. não significa o enfraquecimento do profissional e. Sujeitos autônomos seriam em tese. o fortalecimento do Sujeito e a ampliação de sua autonomia se caracterizam. viver em sociedade exige sempre que alguns ajam sobre a ação dos outros.de estar à escuta do mal-estar mobilizado pela desestabilização em nós mesmos. culminaria automaticamente com uma forma de reversão de caminhos que conferem à redefinição de um projeto ético de convivência. 58 . em não "domesticar" as forças de instabilização. 351)(11). uma doutrina. poder que incide sobre o próprio processo de vida.244)12 e não se referindo às estruturas políticas dos Estados. a partir do fortalecimento da liberdade e da autonomia dos sujeitos na situação clínica é bem diferente do discurso da aceitação às diferenças. que este discurso de desconstrução do estabelecido."sujeitos livres" . necessário pensar uma forma de clínica que não seja totalmente capturada pelas instituições de poder agenciadoras de nossa subjetividade. 32)(13). muitas vezes. pensar a situação clínica. e não como um objeto passivo ou puro produto de atitudes terapêuticas. Desta forma. é preciso concebe-la como uma atitude.2007. criando condições para realizar a conquista de uma certa serenidade no sempre devir do outro(p. de instituições ou teorias em que experimentariam distintos graus de dependência. do discurso cristão que prega a igualdade entre todos os homens e também da utopia de uma relação de poder na clínica sem diferenciação entre usuários e profissionais. na situação clínica. portanto. mais capazes de lidar com relações de dependência e para administrar conflitos de forma positiva para si mesmos e para o coletivo(p. como aponta Rolnik(13). 239)(12). Segundo Paiva(5) tal processo de fortalecimento do sujeito. se fortaleceria formas de resistência ao biopoder(j). porém todos destinados a agir sobre as possibilidades de ação" (p. Desta forma. seja. para caracterizar a forma típica de poder que se dá na sociedade contemporânea. Essa aliança depende . Portanto. reações ou diversos modos de comportamento podem acontecer. Ou. 126)(5) Libertação e relações de poder deixam de ser situações antagônicas. além de culminar com o fortalecimento dos sujeitos. J. Isso porque. aquele sobre o qual o poder se exerce. "temos que promover novas formas de subjetividade através da recusa desse tipo de individualidade que nos foi imposta há vários séculos"(p. nem mesmo um corpo permanente de saber que se acumula. o que anularia o papel das relações de saber e das singularidades humanas que diferenciam as pessoas entre si e as fortalecem perante o coletivo. as regras do jogo. Torna-se. I. Governo como "modos de ação mais ou menos refletidos e calculados.

246)(12).. nem autoritário. nunca sonhou com um happy end para a humanidade a partir da clínica ampliada. reescrever-se no cotidiano. este método pode sugerir uma forma individualista de se causar transformações individuais. Quando analisado superficialmente.espaço social complexo com novas condições para o exercício do poder . em termos clínicos. No entanto. ou com o cientificamente aceito. implica que o sujeito se constitua em face de si próprio como um indivíduo que sofre de certos males e que deve fazê-los cuidar. nem que de qualquer modo o "poder" constitua no centro das sociedades uma fatalidade incontornável. inaugurando uma nova estilística da existência. 119)(2). "Não há garantias para este trabalho de autoestilização. a possibilidade de agir-se sobre esses condicionantes. acrescentar à importância de analisar-se reconhecendo necessidades e cadeias que prendem o Sujeito. nem assistencialista. Foucault e imaginamos que nenhum dos autores citados anteriormente. Assim. é o único trabalho que vale a pena. autorizando-se a interferir e questionar as práticas aplicadas sobre o tratamento que passará a interferir em maior ou menor grau em sua vida. do método da roda ou da ética de si. estamos falando sobre a possibilidade de construção de novas figuras de subjetividade.A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico . De acordo com Paiva(5) é preciso sublinhar que esse maciço investimento sobre o eu. é estabelecida uma relação concreta que permite gozar de si como que de uma coisa que ao mesmo tempo necessita e pode usufruir os cuidados oferecidos por outrem. uma perspectiva ativa de trabalhar as necessidades sociais para modificá-las ou administra-las segundo os interesses dos interessados(. ou em termos foucaultianos.a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas. ambos reconhecendo-se mutuamente como sujeitos.Centro Universitário São Camilo . não quer dizer nem que aquelas que são dadas são necessárias. Assim. modificando-os.no dizer de Foucault. para esse eu em estado de mobilização subjetiva permanente"(p. desconstruir o universalmente aceito.) analisar e intervir na produção da própria demanda. propomos uma situação de clínica ampliada. 59 . mas que a retomada da questão das relações de poder e do "agonismo" entre relações de poder e intransitividade da liberdade é uma tarefa política incessante e que é exatamente esta a tarefa política inerente a toda existência social (p. dizer que não pode existir clínica ou sociedade sem relação de poder. 219)(5). pensar e participar ativamente do que é ativamente buscado(p. possibilitando na terapêutica . representa a possibilidade de redefinição da relação consigo. um método centrado no indivíduo olhando apenas para si mesmo. onde profissionais e usuários. reconhecendo pontuais situações de dependência em relação ao profissional de um determinado saber. podemos entender esta estratégia como um potente instrumento de transformação social se. O desafio constitui-se na situação de possibilitar ao usuário uma ampliação de sua capacidade de interferir e negociar com a realidade de seu processo de adoecimento. isso não pode ser utilizado como instrumento argumentativo para a manutenção de relações autoritárias e dominadoras. enfim. É importante sinalizar que. Porém. os primeiros sem se aprisionarem ás suas técnicas e obrigações institucionais e os segundos sem subordinarem-se a elas.. mas mesmo tempo. repensar nossa prática de trabalho. como nos mostra Campos(2) seres com desejos e interesses a serem considerados. no entanto. a ética de si proposta por Foucault. reinventar novas verdades sem aprisionar-se a elas. pois. experimentar-se outro. não mais assentada numa estética da vida em conformidade com o status. com possibilidade de se expressar e de agir e interagir dialeticamente. trafeguem com autonomia.1(1):53-60 Ao mesmo tempo. ou seja.2007.

Phrónesis . Onoko CR. Campos GWS. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Foucault M. São Paulo: Hucitec. Rio de Janeiro: Forense Universitária.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . 19a ed. Passos E. [Curso de Aprimoramento em Saúde Mental]. Campos GWS. 4. Sujeito e laço social: a produção de subjetividade na genealogia de Michel Foucault. Traduzido por: Roberto Machado. 1995. 1997.2007. 2004. In: Rabivow P.A genealogia de Foucault e suas contribuições para a crítica da sociedade e para as políticas de atenção à saúde mental. 29a ed.sobre as práticas clínicas nos serviços substitutivos de saúde mental. São Paulo: Perspectiva. 2. Campinas: Papirus. Trad. 2004 jul. Um método para análise e co-gestão de coletivos./dez. 2a ed. Foucault M. 5. A Psiquiatria alternativa: contra o pessimismo da razão. 2000. Basaglia F. 13(1):89-100. 12. 60 . Rio de Janeiro: Relume Dumará. Clínica: a palavra negada . 7a ed. 2a ed.O sujeito e o poder. Uma insólita viagem à subjetividade: fronteiras com a ética e a cultura. Ferigato S. organizador. Traduzido por: Sônia Soianesi e Maria Celeste Marcondes.O que são as luzes? In: Ditos e escritos: arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamentos. São Paulo: Hucitec.. Petrópolis: Vozes. 2004. O inter "esse" dos programas de aprimoramento: comunicação pessoal . Fortaleza CE: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado. 1979. Rolnik S. Onoko CR. Trad. Foucault. 8. Rio de Janeiro: Graal. 13. A história da loucura. In: Saúde Paidéia. Microfísica do poder.Revista de Ética. Saúde coletiva e promoção à saúde: uma reflexão sobre os temas do sujeito e da mudança. Rodrigues A et al. 2005. 11. Paiva ACS. Foucault MA. o otimismo da prática. 7.Rev Psicol Clín 2001. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. José Teixeira Coelho Neto. Raquel Ramalhete.. 3. Elisa Monteiro. v. 2004. São Paulo: Brasil Debates.1(1):53-60 REFERÊNCIAS 1. São Paulo: Hucitec. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Ortega F.para além do estruturalismo e da hermenêutica. 9.2 Foucault M. Carvalho SR. 2. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1. Foucault M. 2003. 2000. Para uma política da amizade: Arendt. 6. Cultura e subjetividade: saberes nômades.Centro Universitário São Camilo . 10.Uma trajetória filosófica . Dreyfus H. Benevides R. In: Lins D. 2003. Derrida. A clínica do sujeito: por uma clínica reformulada e ampliada. Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo. Campinas: Unicamp FCM. 2005. Saúde debate 2001 maio/ago. 3. Trad. 6(2): 43-55. 2000. 25 (58): 98-111.

sobre todo en nanobiotecnología. é urgente e absolutamente necessário o levantamento das questões éticas e.Benefícios já se fizeram sentir. sanitario. in particular questions linked nanobiotechnology.. la base para una reflexión crítica ulterior. it is urgent and absolutely necessary to survey ethical and mainly bioethical questions that can be raised by technological advances... sanitários. Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. él se debe sin embargo dirigir por la reflexión bioética desde el conocimiento de la problemática. ** Médico. deve ser balizado pela reflexão bioética a partir da conscientização da problemática seguida da devida reflexão crítica. biological. Docente do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. Existen innegables ventajas pero los riesgos comienzan a aparecer y a ser identificados.2007. social. if the advances are inexorable and desirable under some perspectives. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. Tanto riscos como benefícios ocorrem em vários campos das atividades: econômicas. Nanobiotechnology. Bioethics. no sentido pluralístico o mais amplo possível. biológico. Es siempre más evidente la importancia del pluralismo. em particular as questões advindas da nanobiotecnologia. Collected data show an ample gamma of bioethical questions that the revolution of nanotechnology brings to the fore. sanitary. mas os riscos começam a surgir e serem identificados. in the amplest pluralistic sense possible.Os dados obtidos evidenciam ampla gama de questões bioéticas que a revolução da nanotecnologia suscita. the basis for a ulterior critical reflection. Bioética.Centro Universitário São Camilo . 61 . característica essencial da Bioética. se o avanço é inexorável e desejável sob vários ângulos. Such study searched to identify the benefits and risks that this technology presents currently and its perspectives in the future. an essential characteristic of Bioethics. Los riesgos y las ventajas ocurren en varios campos de actividad: económico. Si los avances científicos y tecnológicos son de una parte loables y desiguales. El trabajo fue desarrollado analizando lo que se levantó en la bibliografía técnico-científica disponible presente sobre los riesgos y las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología. PALABRAS LLAVE: Nanotecnología. KEYWORDS: Nanotecnology. that is.Fica cada vez mais evidente a importância do pluralismo.O trabalho desenvolveu-se ao analisar a partir da bibliografia técnico-científica disponível. es urgente y absolutamente necesario examinar cuestiones éticas y principalmente bioéticas que puedan plantear los avances tecnológicos. Doutora em Ciências (Micro-imuno e Ultra estrutura) pela Universidade Federal de São Paulo.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . If on the one hand scientific and technological advances are praiseworthy and unequal under multiple aspects. Tal estudio buscó identificar las ventajas y los riesgos que esta tecnología presenta actualmente y sus perspectivas en el futuro. en el sentido pluralista más amplio posible. en particular las cuestiones vinculadas a la nanobiotecnología. Tal estudo buscou conhecer os benefícios e os riscos que essa tecnologia apresenta no presente e suas perspectivas no futuro. Botucatu. Se de um lado o avanço científico e tecnológico é louvável e desigual sob múltiplos aspectos. Los datos recogidos demuestran una gama amplia de cuestiones bioéticas que la revolución de la nanotecnología trae a la delantera. Bioética. over all of nanobiotechnology. una característica esencial de la bioética. os riscos e questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia. PALAVRAS-CHAVE: Nanotecnologia. * Engenheiro. Nanobiotecnología. The work was developed by analyzing what the available technical-scientific bibliography present about the risks and bioethical questions raised by nanotechnology. si los avances son inexorables y deseables desde algunas perspectivas. it must nevertheless be guided by the bioethical reflection from the awareness of the problematic. RESUMEN: Este artículo pretende presentar una introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología desde el estudio teórico de la bibliografía existente.Ao lado da revolução científica deve ocorrer a "evolução da ética". It is ever more evident the importance of pluralism. Both risks and benefits occur in several fields of activity: economic. La revolución científica debe ter el paralelo de "la evolución de la ética".. Scientific revolution must be paralleled by "the evolution of ethics". Nanobiotecnologia. for the evaluation of advances in nanotechnology. biológica. There have been undeniably benefits but risks begin to appear and to be identified. social. sobretudo bioéticas que possam surgir a partir dos avanços tecnológicos. para la evaluación de avances en nanotecnología. Professor emérito da UNESP.1(1):61-67 Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia Introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions Introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología João Carlos Silva de Lêdo* William Saad Hossne** Margareth Zabeu Pedroso*** RESUMO: O presente artigo objetivou apresentar uma introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia a partir do estudo teórico da bibliografia existente. para a devida avaliação dos avanços da nanotecnologia. es decir. ABSTRACT: The present article aims to present an introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions from the theoretical study of the existing bibliography. sociais. sobretudo da nanobiotecnologia. isto é. *** Bióloga.

Taiwan.PPA . como subsídio ao Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia do PPA 2004-2007": "A nanotecnologia é hoje um dos principais focos das atividades de pesquisa. Conforme descrito por Nazareno(7). Os investimentos na área têm sido crescentes e atingiram. algumas dezenas de nanômetros. Austrália.1mm de diâmetro. Nano (do grego: "anão") é um prefixo usado nas ciências para designar uma parte em um bilhão e. O Brasil tem em seu Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. Japão: 400 milhões de dólares em 2001. respectivamente.1(1):61-67 INTRODUÇÃO Os termos nanociências e nanotecnologias se referem. 252(3). e Indústria Instrumental: U$ 22 bilhões. desenvolver novos produtos e processos fundamentados na crescente capacidade da tecnologia moderna de ver e manipular átomos e moléculas. como Coréia do Sul. incluído no Plano Pluri Anual . "Nano".de 2004-2007. de 2010 a 2015. Indústria química: U$ 100 bilhões.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . ou da ordem de. produtos e processos industriais baseados em nanotecnologia será de 1 trilhão de dólares" Importância econômica A nanociência e a nanotecnologia estão atraindo rapidamente crescentes investimentos de governos e empresas privadas em várias partes do mundo. o mercado mundial para materiais. em ordem decrescente de sua importância econômica. b) apoio às redes e laboratórios (R$ 30 milhões). nanotecnologia indica somente o tamanho envolvido(1). Israel e Canadá também incrementaram substancialmente seus investimentos em nanotecnologia(6).(2) Conforme assinala o documento oficial "Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. Diferentemente de "biotecnologia". desenvolvimento e inovação em todos os países industrializados. crescendo para 800 milhões em 2003. Somente para se ter uma idéia de tamanho.7 bilhões de dólares de 2005 a 2008 pela "Lei do Século XXI da Pesquisa e Desenvolvimento em Nanotecnologia" (excluindo substanciais despesas relacionadas com defesa). Indústria Farmacêutica: U$ 180 bilhões. estima-se que o total de investimento global em nanotecnologia seja por volta de 5 bilhões de euros . Indústria Eletrônica: U$ 300 bilhões. Já há alguns produtos industriais nanotecnológicos e o seu número aumenta rapidamente. Reino Unido: 45 milhões de libras por ano de 2003 a 2009 investidos pelo governo britânico na iniciativa em nanotecnologia em 2003. um nanômetro (1nm) corresponde a um bilionésimo de um metro. ao estudo e às aplicações tecnológicas de objetos e dispositivos que tenham ao menos uma de suas dimensões físicas menor que.2007. A National Science Foundation (NSF) estimava que em um período de 10 a 15 anos haveria um mercado de cerca de US$ 1 trilhão para produtos e processos fundamentados na nanotecnologia e. esperando-se um incremento de 20% em 2004. conforme The Royal Society & The Royal Academy of Engineering(4) sendo que 2 bilhões de euros vêm da iniciativa privada. segundo a mesma organização. Proposta do Grupo de Trabalho criado pela Portaria do Ministério de Ciência e Tecnologia MCT n. EUA: 750 milhões de dólares em 2003 e 3. Outros países menores. reformas de existentes(37) e implantação de redes (R$ 284 milhões). assim. Indústria Aeroespacial: U$ 70 bilhões. o orçamento total previsto até 2007 está assim distribuído: a) implantação de novos laboratórios(6). ou seja. seria: Indústria de Materiais: U$ 340 bilhões. Estima-se que. e divididos entre os grandes setores da economia. 62 . cuja palavra explica que a vida (bios) é manipulada pelo engenho humano (teknê). é uma medida e não um objeto. mundialmente. um valor de 5 bilhões de dólares em 2002. Segundo a European Comission(5) os investimentos públicos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em nanociência e nanotecnologia foram: Europa: 1 bilhão de euros. em 2002 esse mercado já teria atingido a marca de U$ 200 bilhões(6). uma série de investimentos previstos ao lado de dotação orçamentária de porte bastante importante. um fio de cabelo tem cerca de 100x10-6m por 0. que tradicionalmente mais investem em pesquisa e desenvolvimento. sendo dois terços em programas nacionais e regionais.Centro Universitário São Camilo . portanto. O objetivo da nanotecnologia é o de criar novos materiais.000 vezes maior que um nanômetro. Segundo a National Science Foundation(6) a estimativa de mercados para produtos e processos fundamentados na nanotecnologia. é 100.

sobretudo quanto a benefícios e eventuais riscos. cada vez mais complexas e capazes de desempenhar funções também complexas. mas. mas a diferença que ocorre na matéria é muito maior que simplesmente tamanho.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . Importância tecnológica O final da década de 50 do século XX (1959) tornouse o período simbólico do inicio da nanotecnologia. que o Brasil tem possibilidades realistas de competir internacionalmente na área de materiais. quando o físico Richard Feynman (prêmio Nobel. Outros dois setores importantes são os de produtos farmacêuticos e da indústria química. O potencial dos produtos e processos nanotecnológicos e nanobiotecnológicos para o setor de agronegócio do Brasil é vasto e merece atenção. assim. 63 . O agronegócio é um setor que deverá ser de grande relevância para o Brasil. Quando se trata de nanotecnologia é sempre difícil falar sobre limites. Os dados aqui sumarizados traduzem a importância econômica e a perspectiva crescente da pesquisa em nanotecnologia. Um micrômetro (µm) é mil vezes maior que um nanômetro (nm). são previstos. na maioria das vezes.1(1):61-67 c) gestão do programa (R$ 1. Abaixo de 50nm entra em ação o que os cientistas chamam de efeito do tamanho quântico: a mecânica quântica assume as propriedades físicas da matéria. Daí se origina o interesse industrial pela nanotecnologia. De acordo com Silva(6). 1965) proferiu uma palestra no Instituto de Tecnologia da Califórnia intitulada "Há muito espaço lá embaixo" na qual apresentou a possibilidade de projetar e criar novos materiais com propriedades físicas e químicas previamente determinadas mediante a manipulação de átomos. por manipular átomos. associados ao desenvolvimento de novos conceitos que são agregados à nanotecnologia fazem surgir uma nova fase do conhecimento e da tecnologia do homem sobre a matéria. porque já existe na literatura quem afirme que o homem possa manipular as partículas formadoras dos átomos e. a princípio. o desenvolvimento de instrumentais que permitissem esse tipo de manipulação só realmente aconteceu no fim dos anos 70. em termos de mercados. Destacando-se entre eles os instrumentos da nanotecnologia: a microscopia eletrônica de alta resolução. pois ela não seria a mais recente revolução em termos de materiais. Apesar da nanotecnologia apresentarse. As estruturas nanotecnológicas estão cada vez mais sendo desenvolvidas e modificadas pela redução de tamanho quer pela formação de estruturas supramoleculares bem definidas. tais como os microprocessadores dos computadores ou dos lasers semicondutores de nossos CD e DVD "players". apesar de existirem nichos a serem explorados como. porém tem poucas possibilidades na área de eletrônica. porém não é citado nos estudos da National Science Foundation (NSF). as microscopias de varredura (tunelamento e força atômica) e as fontes de luz síncotron. seja pela existência de grandes grupos empresariais nacionais (indústria química). se considerarmos a referência dos padrões internacionais.2007. Devido à mudança de tamanho (escala nanométrica) e sem mudança na substância. por exemplo. existe a limitação de contarmos com apenas uma empresa na área. sim. A nanotecnologia. seja pelas dimensões e demandas de seu mercado interno (indústria farmacêutica). de porte médio. d) P&D (R$ 86 milhões). o limite final para o projeto e a criação de novos materiais. tem propriedades físicas e químicas completamente diferentes das propriedades do mesmo material quando analisada em dimensões nanométricas. como uma nova revolução.4 milhões). o que faz prever a possibilidade do surgimento de questões bioéticas daí decorrentes. características fundamentais da matéria. em princípio. a última. abrangendo desde fertilizantes e defensivos agrícolas menos agressivos ao meio ambiente até embalagens "inteligentes" que informam ao consumidor sobre o estado do produto adquirido(6). E porque na nanotecnologia o tamanho faz tanta diferença? Ocorre que a matéria. setores nos quais o Brasil tem interesses estratégicos. principalmente quando nos referimos aos componentes microeletrônicos. Recentemente. Na área aeroespacial. ainda que de ponto de vista sócio-economico. poderia ser considerada. Entretanto. é importante que seja dito que já existem estruturas nanotecnológicas em nossa vida cotidiana.Centro Universitário São Camilo . chegar a formar novos átomos(1). prevalecendo sobre a mecânica clássica que domina o macro e o micro-mundo(1). sensores. na forma que conhecemos. os investimentos em pesquisa. pois o átomo seria o limite da matéria.

O paleontólogo Gold citado em Silva (2003) enumera 3 grandes revoluções conceituais que mudaram a maneira da humanidade perceber o universo e o lugar da espécie humana a saber: . tornando cada vez mais singela a diferença entre o que é natural e o que é sintético. não tem tais características(1). cujo poder seria recebido diretamente de Deus.a ilusão da racionalidade . evoca suas sinergias. mas produto de uma evolução genética contingente.O ouro normalmente é amarelo. . a nanotecnologia. a nanotecnologia pode ter uma outra dimensão. de um grão de areia a um ser humano. políticos e ambientais para a sociedade em que vivemos(8). Nos dias atuais.1(1):61-67 tais como condutividade elétrica. prometem muito.que seria um passo a frente em relação à biotecnologia.nanobiotecnologia . e no caso. . o "nano" ouro é vermelho. com as capacidades do biomaterial (auto-reprodução. em geral. a Neurociência Cognitiva (Neurônios) e a Biotecnologia (Genes). O fato é que.A revolução copernicana: a remoção da Terra como centro do universo tocou no cerne de um conceito religioso e social da idade média. Ainda que de forma sumarizada. por exemplo. A importância tecnológica da nanotecnologia pode ser fortemente demonstrada por uma de suas especialidades . Busca-se portanto. materializados num organismo híbrido. não raramente. É preciso ressaltar que a nanotecnologia faz parte do grupo de tecnologias que se encontra em processo de convergência de diversos ramos da ciência e da tecnologia. a não ser novo o conhecimento adquirido. aqui apresentadas parecem-nos suficientemente sugestivas da ampla gama de questões bioéticas que podem surgir.2007. controlável e que faça o trabalho das máquinas. as referências de natureza tecnológica. a Nanotecnologia (Átomos). é sabido que a matéria viva ou não-viva é originada na nano-escala. autoreparação.A revolução freudiana: retirou do homem a última muralha que o separa do resto da criação . são acompanhados também de aspectos negativos.Um grama de um catalisador feito de partículas de 10nm de diâmetro é 100 vezes mais reativo que o mesmo material em partículas de 1µm de diâmetro. à vida e ao conhecimento. O carbono puro em escala macrométrica. por exemplo. uma mudança de paradigma. Implicações filosóficas Boa parte das tecnologias. Esta já tinha rompido a barreira das espécies e consolidado a chamada "indústria da vida" dando inicio ao seu comércio(8).ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . . estamos nos referindo à questão de estender o controle humano a todos os objetos.A revolução darwiniana: colocou em polêmica a criação bíblica. . A nanobiotecnologia tem como meta avançar. prometem mudanças geralmente enfatizadas como positivas. por exemplo: . seria feito da mesma matéria prima. a humanidade viu serem retirados seus privilégios sem nenhuma compensação especial.em conseqüência a centralidade da criação no Universo e uma hierarquia de uma sociedade estruturada em castas. o que vemos posteriormente é que os objetivos propostos foram alcançados e muitas vezes até superados. A convergência demonstrada entre estas tecnologias. cobertos por um "verniz" de razão.O carbono puro em escala nanométrica pode ser condutor ou semi-condutor de eletricidade. adaptabilidade). Estas são a Tecnologia da Informação (Bits). particularmente as relacionadas à nanobiotecnologia.Centro Universitário São Camilo . sendo comercialmente viável. O homem não é mais um ser criado "a imagem e semelhança de Deus". Assim. o diamante. segundo Gold citado em Silva(6). o carbonato de cálcio (giz). ponto de fusão. Alguns destes aspectos negativos poderiam ser pre- 64 . desenhar e fundir materiais vivos e não vivos.seríamos movidos por instintos. uma evolução em outro. porém. O impacto que a nanotecnologia poderá ter sobre a visão que a sociedade do futuro terá de nosso lugar no universo deverá ser enorme já que tudo o que conhecemos em termos materiais.Materiais frágeis e maleáveis em escala macrométrica podem ser mais duros que o aço quando em escala nanométrica. previsível. quando as promessas oferecidas pela tecnologia se concretizam. dureza. . podem sofrer mudanças totais. tirando a espécie humana do centro da criação. Conforme descrito por Silva(6). Isto traz importantes impactos sociais. Quando as consideramos todas juntas. Prometem uma vida melhor em um determinado aspecto. seus potenciais de inovações e transformações. bastante intrigante. cor. combinando as capacidades não biológicas da matéria inorgânica (como condutividade elétrica e força).

Assim. uma fonte e um instrumento para o equilíbrio? Riscos e questões éticas Segundo o Action Group on Erosion. com todos os talentos e graça para seduzir os humanos: Pandora. os deuses criaram uma jovem atraente dotada por Atenas. os humanos conheceram a fadiga.2007. Prometeu é o único a desafiar o chefe do Panteão revelando as fraquezas e precariedades dos deuses. Prometeu apresentava uma estratégia fundada na astúcia. a sombra. emblematicamente. só não suspeitavam que no seio de tudo isso se encontrava o germe de desagradáveis surpresas e armadilhas. rouba o fogo do céu e o entrega aos humanos. tentava ajudar. mas. que. em sua audácia. Para estes. simplesmente não são abordadas ou são negligenciadas. o sofrimento. no dia seguinte. acompanhada de conseqüências negativas. Pandora lança no mundo uma ambigüidade. para seu sentido e impacto sobre a vida dos humanos e seus desafios no decorrer da história. deusa da sabedoria. herói civilizador por excelência. mas que em sua inconseqüência trouxe a dor e a morte a essa mesma humanidade que ele. protetor da humanidade contra a ira de Zeus. essa era a melhor proteção e fonte de inúmeras atividades. Prometeu. aplicável portanto à nanotecnologia. irmão de Atlas e de Epitemeu. Os primeiros impactos. inseparáveis"(11). nos remete ao Mito de Prometeu(9) que. uma impressionante série de empresas e centros de pesquisa estavam desenvolvendo uma revolução científica que pode modificar a matéria e transformar cada aspecto do trabalho e da vida neste nosso planeta. de muitos deles só se toma conhecimento após a tecnologia ter alcançado um estágio de maturidade. na esperança de alcançar os grandes benefícios de determinada tecnologia. pois os benefícios seriam consideradas maiores que os malefícios. Para os humanos. aparecerão primeiramente nos países do Norte. abriu a caixa. filho de Jápeto e de Clímene. permitindo aos humanos compensar as insuficiências da natureza. e todos os males que ali estavam encerrados escaparam e se espalharam pela Terra. Mas. a mitologia grega nos fornece uma figura (Prometeu) que serve de emblema para a técnica.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . "Zeus quis que o bem e o mal nascidos do conhecimento fossem não somente misturados. descendente dos titãs que estavam em batalha constante contra Zeus. enquanto a sociedade civil e os governos focavam a atenção nas modificações genéticas e nas questões da biotecnologia (em particular o uso das células tronco). desta revolução prevê-se. Poucos cientistas e um número ainda menor de governos reconheciam em 2003 que a nanotecnologia 65 . deus do fogo e do metal. mas a nanotecnologia. em contraponto. Mais que isso. e ordenou que a levasse à Terra onde foi acolhida por Epimeteu. Prometeu era neto de Urano e Gaia. a mistura: o bem pode trazer consigo. na qual para cada evolução alcançada haverá sempre uma conseqüência negativa que deveria ter sido pensada antes. Zeus deu a Pandora uma caixa que deveria ficar fechada. o mal e a luz.Centro Universitário São Camilo . onde um abutre vinha dilacerar-lhe o fígado durante a noite. tais aspectos negativos poderiam estar mais ligados a uma questão inerente da natureza humana. trouxe dos deuses o fogo que permitiu à humanidade a evolução. como anteriormente ocorrido com a biotecnologia. terá rapidamente conseqüências em termos econômicos e ambientais. A saga de prometeu De acordo com Zuben(10). e na vida dos humanos o contraste. em geral. Deveremos forçosamente vivenciar a revolução nanotecnológica como uma saga prometeica? Não seria a busca do saber enquanto forma de sabedoria (philosophia) aliada à bioética. e tomou partido da Terra e dos humanos que nela viviam sob o olhar invejoso e de desprezo dos deuses. mas indissoluvelmente ligados. Enquanto os Gigantes contavam com sua força bruta na guerra contra o rei do Olimpo.1(1):61-67 vistos e providências para prevení-los poderiam ser executadas. Agindo assim. Prometeu. Esta saga da busca de uma evolução positiva. o acorrentasse em um rochedo no Cáucaso. também nos países em desenvolvimento em escala global. Com o fogo surgiu a cultura. que a desposou. Para castigá-lo. ilustrar as implicações filosóficas das tecnociências em geral. o trabalho árduo como necessidade. Zeus ordenou que Hefáistos. Movida pela curiosidade. a doença e a morte(10). Prometeu rebelou-se abertamente contra o mundo dos Imortais ao qual pertencia. se regenerava. A saga de Prometeu pode. Technology and Concentration(1).

isto é. têm fortes implicações sociais e bioéticas. autonomia. Assim. deve ser balizado pela reflexão bioética a partir da conscientização da problemática seguida da devida reflexão crítica. o respeito à dignidade humana. CONCLUSÃO As considerações até aqui feitas. privacidade e preservação do meio ambiente. Ao lado da revolução científica deve ocorrer a "evolução da ética". se o avanço é inexorável e desejável sob vários ângulos. Já nesta ocasião. um acordo sobre os referenciais éticos. segurança do trabalho. O ETC já afirmava que a nanotecnologia poderia permitir que a indústria monopolizasse as plataformas de manufatura de nível atômico que suportam todas as matérias animadas ou inanimadas. é urgente e absolutamente necessário o levantamento das questões éticas e. no sentido pluralístico o mais amplo possível. Deveria ser exigido. no entanto. que é quem sofre os riscos.Centro Universitário São Camilo . mas nem sempre recebem os benefícios resultantes da nanotecnologia. Entre outros problemas que deveria ter maior envolvimento da sociedade nesta área destacam-se as decisões sobre alocação de recursos para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e a avaliação de projetos e seu monitoramento. O impacto das tecnologias convergentes a nanoescala é desconhecido e foi subestimado no fórum inter-governamental(1). em especial.1(1):61-67 tanto apresentava tremendas oportunidades como sérios riscos sociais e ambientais(12). Como já apresentado. Jacob(11) assinalava que. multi e transdisciplinar. os governos e organizações da sociedade civil deveriam estabelecer uma Convenção Internacional para a avaliação de novas tecnologias. Os riscos inerentes à introdução de novas tecnologias exigem um diálogo constante com a sociedade civil. num sistema de comunicação em duas vias. outras se insinuam e outras certamente surgirão. com base nos dados da literatura evidenciam claramente que a nanotecnologia em geral. Essa reflexão pressupõe um diálogo entre todas as partes envolvidas. sobretudo bioéticas que possam surgir a partir dos avanços tecnológicos. Algumas questões bioéticas já estão sendo postas. Devido ao fato dessas tecnologias serem aplicadas nos mais diversos setores da ciência e da tecnologia. sob enfoque pluralista. e a nanobiotecnologia. A nanotecnologia poderia também representar a criação e a combinação de novos elementos para a amplificação das armas de destruição em massa. a obrigação de não ferir e fazer o bem (riscos versus benefícios). nenhuma agência governamental de qualquer país estaria em 2003 mantendo algum controle sobre as pesquisas. Percebemos ser oportuna uma reflexão sobre essa problemática à luz da bioética.2007. Isto exigiria a promoção e a explicitação de diálogo sobre a escala de valores e as diferentes opções sociais. particularmente nas áreas de saúde. 66 .ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . envolvendo diversos segmentos da sociedade. a maior preocupação. incluindo mecanismos para monitorar seu desenvolvimento. se de um lado o avanço científico e tecnológico é louvável e desigual sob múltiplos aspectos. área acadêmica e o governo deveriam ouvir o público. Também a indústria. a produção em massa de materiais totalmente novos e criação das nano-máquinas auto-replicantes indicam a probabilidade de riscos incalculáveis e até imprevisíveis. A produção de materiais e novas formas de carbono com características não estudadas constituem.

10. 2004.Portaria MCT n. O que é nanotecnologia.org.lu/nanotechnology/actionplan. Sociedade e meio ambiente no Brasil: Perspectivas e Desafios. Nanotecnologia.cordis. Câmara dos Deputados 2004. São Paulo: Companhia das Letras.2007. a mosca e o homem. 2003. ano? 4. 2003. July 2004. O rato.25-55. 10:1. p.comciencia. Cadernos de Estudos Avançados. The Royal Society & The Royal Academy of Engineering. Ésquilo. 2004. 2004.p100. The Big Down: From Genomes to Atoms. Available from: URL: http://www. 2. Nanocience and Nanotechnologies: Opportunities and Uncertainties. A Saga da Prometeu: Ambivalência das Tecnociências e Implicações Éticas.pdf 9. Available from: URL: http://www.gov. Uma Introdução à Nanotecnologia.A invasão invisível do campo: o impacto das nanotecnologias na alimentação e na agricultura. Estabelece subsídio ao Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia do PPA 2004/2007.br/publicacoes/estnottec/tema4 8. Towards a European Strategy for Nanotechnology. p. European Comission.1(1):61-67 REFERÊNCIAS ETC Group . 2. Zuben NA.br/encontro/segundo/papers/GT/GT09/paulo_martins. Consultoria Legislativa. 1:14. 2002. 1. Ministério da Ciência e Tecnologia. Nanotecnologia. Silva CG.Centro Universitário São Camilo . Prometeu Acorrentado.05-16 Silva CG. ETC Group . Jacob F. Brasil. Bauru: Edusc. 1998. Martins PR. 6:6.Brasília:Ministério da Ciência e Tecnologia.br/reportagens/nanotecnologia/nano10. 2006. Available from: URL: http://www2.anppas. In: Bioética e Tecnociências: a saga de Prometeu e a esperança paradoxal.camara.htm 6. 5. 12.31-59 11. 7. Technology and Concentration. 2003. p. 67 .htm 3.Action Group on Erosion. Available from: URL: http://www. Nazareno C.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . Editora Martin Claret.252 .

RESUMEN: El objetivo del actual estudio fue aprender y reflejar sobre qué se está publicando en la literatura científica respecto al tema de la muerte o el morir mirando sus aspectos bioéticos. This is a qualitativedescriptive study based on a bibliographic survey. Cuidado médico. It is indispensable for the health professional to overcome the difficulties inherent in a doctor/patient relationship based on "technological temptation". uno puede percibir que el cuidado esencialmente requiere compartir experiencias con los pacientes que culminan en la extensión del foco de la atención del cuidador. sin perder de vista la comprensión de la persona enferma en su singularidad. to reunite the fragments and recompose the wholeness of the individual. el aislamiento (neutralidad) de sus emociones y las dinámicas de la omnipotencia e la idealización (identificación de los doctores con una imagen de plenitud) son algunos de los factores que afectan negativamente el cuidado médico. entendida como el bien más grande y digno de respecto. the fear of one's feelings. understood as the greatest good and worthy of respect.Centro Universitário São Camilo . a menudo agredido muy violentamente. así bien sobre la manera cómo los profesionales de salud hacen frente y discuten a estos aspectos.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . A dificuldade na comunicação médico-paciente. sem perder de vista a compreensão da pessoa que adoece em sua singularidade e dignidade. Ou ainda. Martins doValle*** Manoel dos Santos**** RESUMO: O objetivo do estudo é conhecer e refletir sobre o que está sendo publicado na literatura científica sobre a questão da morte e o morrer em suas nuances bioéticas. reunir os fragmentos e compor novamente o todo desse indivíduo. através do levantamento bibliográfico. PALAVRAS-CHAVE: Profissionais de saúde. essencialmente. **** Professor Doutor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia. Departamento de Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP). is paralyzed. Es un estudio cualitativo-descriptivo basado en un examen bibliográfico. compartilhar com seu paciente experiências e vivências que culminem na ampliação do foco de atenção do cuidador. Lo qué se observa en la práctica de la salud es un profesional sumergido en este contexto amplio que. Nessa trajetória empreendida a algumas décadas pelo binômio vida/morte.1(1):68-75 Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões Bioethics and health professionals: some reflections Bioética y profesionales de salud: algunas reflexiones Angela Cristina Pontes* Joelma Ana Espíndula** Elizabeth R. because of this. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Health care. bem como o modo como os profissionais de saúde estão enfrentando e discutindo tais aspectos. está paralizado. En esta trayectoria comenzada desde algunas décadas por el binomio vida/muerte. Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia. Es imprescindible que el profesional de salud supere las dificultades inherentes a una relación doctor/paciente basada en la "tentación tecnológica". Bioética. desse modo. estableciendo así un pacto con la vida. o temor dos sentimentos. often so violently aggressed.2007. The difficulty in doctor-patient communication. 68 . What is noted in health practice is a professional immersed in this ample context who. dissociada de seus aspectos humanos mais intrínsecos. adotando uma postura mecânica. tão violentado e. without losing sight of the understanding of the person who falls ill in his singularity. PALABRAS LLAVE: Profesionales de salud. debido a esto. Trata-se de um estudo qualitativo-descritivo. KEYWORDS: Health professionals. with no condition to reflect and to program a sustained action in the presence of the bioethical dilemmas imposed on his/her daily practice. * Doutoranda em Psicologia. Bioethics. In this trajectory followed a few decades ago by the life/death binomial. the isolation (neutrality) of one's emotions and the dynamics of omnipotency and idealization (medical identification with the image of plenitude) are some of the factors that negatively affect health care. percebe-se que o cuidar exige. Bioética. sin condiciones para reflejar y para planear una acción sostenida en la presencia de los dilemas bioéticos impuestos ante su práctica diaria. as well as about the way health professionals face and discuss these aspects. um profissional autômato. Assistência à saúde. entendida como o bem maior e digna de respeito. thus establishing a pact with life. La dificultad en la comunicación doctor-paciente. são alguns dos fatores que assombram a assistência à saúde. ABSTRACT: The objective of the present study was to learn and reflect about what is being published in the scientific literature regarding the question of death or dying in its bioethical nuances. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). *** Professora Livre Docente do Programa de Pós-graduação em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP). muitas vezes. el miedo de sus sensaciones. que junte los fragmentos y recomponga la integridad del individuo. it can be perceived that caregiving essentially requires sharing experiences with the patients that culminate in the expansion of the focus of attention of the caregiver. o isolamento das emoções (neutralidade) e a dinâmica de onipotência e idealização (identificação médica com a imagem de plenitude). estabelecer um compromisso com a vida. ** Doutoranda em Enfermagem. o que é mais perigoso. Faz-se indispensável ao profissional de saúde superar as dificuldades inerentes a uma relação médico/paciente baseada "tentação tecnológica".

Adentramos. Faz-se necessário aos profissionais de saúde uma maior compreensão sobre os cuidados com a vida e as dimensões da morte. o conceito de cuidados paliativos tem como essência aliviar os sintomas. a dor e o sofrimento. Nas palavras de Pessini(1). nos seguintes termos: "[. integrando os aspectos psicológicos e espirituais envolvidos no cuidado e buscando encarar a morte como um processo normal da vida humana. até mesmo. buscando o controle da dor e de outros sintomas. Essa dimensão valoriza a experiência elementar. assim. Questões limites sobre vida e morte. o campo da saúde. propõe a oferta de um sistema de apoio aos familiares dos pacientes. O objetivo do cuidado paliativo é conseguir a melhor qualidade de vida possível para os pacientes e suas famílias(2). pois. que é o conhecimento da própria experiência. suscitando a discussão e reflexão sobre a legitimidade e. de maneira significativa. constituída de corpo e alma. "[. que procura tomar o ser humano em sua totalidade frente às questões da morte e do morrer.1(1):68-75 INTRODUÇÃO Atualmente. na busca de promover a defesa de todo o bem da pessoa(9). a decisão quanto à prescrição de sedativos ou opióides no alívio da dor. 69 . Doenças que antes eram tidas como brutalmente letais.2007. necessário trilhar um caminho além do mérito existencial. em seus aspectos pessoais. afetivos e culturais. pois se tratam de questões relacionadas com a condição humana. a dor e o sofrimento de pacientes fora de perspectivas terapêuticas. que percebem não encontrar respostas prontas.6). bem como atenção aos problemas de ordem psicológica. O cuidado com a dor e o sofrimento humano figura no grande desafio a ser trabalhado pela área da saúde e um dos objetivos centrais da filosofia dos cuidados paliativos.. em várias regiões do mundo. a mesma organização redefiniu o conceito. sobre o custo desse prolongamento da vida. com seus diversos profissionais. cuja fundamentação é a pessoa humana na sua unidade.Centro Universitário São Camilo .. Na busca de um olhar mais aprofundado. Nesse sentido. ou "Qual o objetivo da medicina: cuidar de índices fisiológicos ou de pessoas?". a vida dos pacientes. destaca-se aqui o modelo bioético personalista de Elio Sgreccia(8). o momento e a forma de informar os familiares sobre esta verdade e. hoje são passíveis de tratamentos e intervenções que prolongam. com o aumento da expectativa de vida e sobrevida dos indivíduos acometidos por doenças crônicas e/ou degenerativas. Visa a uma concepção integral do indivíduo e recusa propostas ideológicas. o morrer. sociais. tornando-se. Mais recentemente. provenientes de sua formação acadêmica. psicossocial e espiritual"(2).]cuidados paliativos é uma abordagem que aprimora a qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados com doenças ameaçadoras de vida.16). a bioética tem sido muito discutida nas questões de humanização e bem-estar total nas relações interpessoais e de cuidado. a partir do desenvolvimento da medicina e da tecnologia nas três últimas décadas.5.. avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas de ordem física. de modo a compreender a complexidade desse tema. em busca de uma compreensão do indivíduo que adoece. principalmente na área da medicina" (p. sua finitude. através da prevenção e alívio do sofrimento. parciais e contingentes. dando ênfase à prevenção do sofrimento. incerteza e transitoriedade(7).]a questão do cuidado da vida humana no seu final tornou-se uma questão de primeira grandeza em nossa sociedade atual. viu-se envolvido em inesperadas e complexas decisões morais e éticas. Diante. por exemplo). dessa concepção. entrar em aspectos da filosofia e da antropologia. Além disso. Em 1990 a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu cuidado paliativo como: o cuidado ativo total dos pacientes cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. como a escolha do tratamento mais vantajoso para o paciente que está diante de uma fase aguda de sua doença. Questões ainda não esclarecidas no âmbito da psicologia e o direito não esclarecem completamente o assunto. Muitos outros problemas bioéticos podem ser levantados. o campo da bioética. e do aprimoramento de sua qualidade de vida (3. pois. se apresentam aos profissionais de saúde (sobretudo ao médico). social e espiritual. "E quando o tratamento causa mais sofrimento do que benefício?".4. o luto e suas perdas.Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . ainda. por meio de identificação precoce.. Trata-se de uma filosofia de cuidados que pode ser empregada em diferentes contextos (instituições de saúde ou na casa do paciente ou estilo hospice. como "Até quando prolongar a vida?". no sentido de lidar com o adoecimento. ou seja.

referências que enfocam como objeto de estudo questões sobre a morte e o morrer no juízo (a)bioético para os profissionais da saúde. psicólogos. em sua característica de estudo bibliográfico. invariavelmente. Desse trabalho emergiram duas grandes temáticas. em sua relação com o outro em situação de profunda angústia (paciente). e profissionais de saúde: principais dilemas enfrentados. conhecer e refletir sobre o que está sendo publicado na literatura científica sobre a questão da morte e do morrer em suas nuances bioéticas. modalidade de produção científica: trabalhos empíricos. que serão desenvolvidas a seguir: bioética: conceitualização e principais discussões. faz-se necessária uma reflexão embasada nesses princípios norteadores da ação. ou seja. foi realizada uma leitura geral. eutanásia e suicídio assistido"(p. estresse e mais sofrimento para ambos da dupla relacional. que exige. Para tanto. não apenas recursos técnicos. os princípios da beneficência (e como uma conseqüência a não-maleficência). morrer com dignidade. especificamente. sob pena de transformá-los em princípios estéreis e confusos(8.13).117). Diante do exposto. Após esse contato inicial. Iniciando-se com uma grande preocupação. Frente aos problemas cotidianos vividos no contexto hospitalar. BIOÉTICA: CONCEITUALIZAÇÃO E PRINCIPAIS DISCUSSÕES O termo bioética foi apresentado pela primeira vez pelo oncologista Potter. distanásia e ortotanásia.1(1):68-75 Um outro modelo de paradigma bioético difundido nos comitês de Ética dos hospitais. bioética e profissionais de saúde. nas discussões dos profissionais e em muitos documentos da OMS. cuidados paliativos e assistência à saúde". Em seguida o trabalho abordará a vivência do profissional de saúde dentro desse complexo contexto. foi realizado por meio do levantamento bibliográfico manual de livros e publicações indexadas e pelo acesso ao banco de dados LILACS (Literatura Latino Americana de Ciências de Saúde) e Scielo. É definida como "o ramo da ética que enfoca questões relativas à vida e à morte. enfermeiros. a serem discutidos mais adiante(11). será tratado o conceito de bioética. De posse dos textos.) no contexto da morte e morrer e seus dilemas éticos. bem como o modo como os profissionais de saúde estão enfrentando e discutindo tais aspectos. autores do livro Principles of biomedical ethics. justiça e autonomia. é o paradigma principialista desenvolvido por Tom Beauchamp e James Childress(10). gerando distanciamento. disponibilizados pela formação acadêmica. utilizando os descritores "bioética.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . com valores humanos. assistentes sociais etc.9). seus dilemas e seus recursos para lidar com as situações limites entre vida e morte. com exceção de alguns livros clássicos. ciências sociais. ou seja. a bioética estendeu-se pela filosofia. intrínsecos ao próprio indivíduo (profissional de saúde). A maioria das referências nacionais citadas datam a partir de 2000. adquiriu um caráter multidisciplinar (direito. o morrer. as questões sobre eutanásia. as leituras foram direcionadas ao objetivo do trabalho e embasadas em uma análise compreensiva dos dados. Método Este estudo qualitativo-descritivo. Para inclusão no estudo foram mencionados os seguintes critérios: meio de publicação: periódicos e livros. sobretudo. artigos teóricos e de revisão. recursos humanos. a fim de se obter um panorama das publicações científicas envolvendo os temas sobre a morte. Em uma terceira fase. preocupou-se com as condutas médicas e a relação médico-paciente.Centro Universitário São Camilo . dentro da teologia. na busca de uma maior compreensão da realidade vivenciada pelos profissionais de saúde (médicos. idioma de publicação: português.2007. As releituras se deram quantas vezes se fizeram necessárias e visaram à detecção de temas relacionados à proposta do estudo(12. em sua obra Bioethics Bridge to the Future(7). as dis- 70 . Angústia esta que. mas. Nas ciências da saúde. propondo discussões sobre alguns temas. seus paradigmas e principais focos de discussão na atualidade. também é vivenciada pelo profissional e que quando não elaborada acaba por contribuir para a despersonalização do atendimento ao paciente e sua família. entre os quais: prolongamento da vida. psicologia e outras). em 1971. Sabe-se que esta não é uma tarefa fácil. antropologia. de modo que não se percam os referenciais ontológico e antropológico do ser humano. o presente artigo tem por objetivo. Este paradigma propõe o que Pessini e Barchifontaine denominaram de trindade bioética.

A eutanásia situa-se. exercer a função de protagonista em seu processo de saúde e doença. ao óbito. ou seja. na busca de decisões sábias diante do paciente em situação limite. Em termos de caracterização. é necessário atenção a um método que direciona para a pessoa humana. Ainda destacando as colocações de Kovács(7). Basicamente são esses três os elementos que constituem o indivíduo. 1998 apud Ramos(2003)(13). Aqueles que não comparti-lham destas características psicológicas não seriam sujeitos. O valor do ser humano advém. livre para escolher e possuidor de um sentido moral. racional. A bioética personalista amplia essa visão ao afirmar que o valor da pessoa provém da própria estrutura ontológica do ser humano. Há que se levar em conta autodeterminação do paciente e sua autonomia. para o autor. não se pode privá-la de sua autonomia. preservadas suas diferenças e singularidades. como efeito secundário.] A dependência faz parte da história da vida das pessoas. sendo dever do médico assim atuar no benefício do enfermo(12). economia e na questão dos excluídos(7).Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . natureza e verdade. Sgreccia(8) cita duas atitudes que impedem o homem de dar sentido à morte. Sgreccia(8) afirma que o ser humano é antes de tudo um corpo espiritualizado. refere-se à pessoa como indivíduo consciente.. A autonomia refere-se ao direito do indivíduo de autogovernar-se. A primeira. é apressada e imediatamente afastada. em 1980.. reconhecendo que todas as pessoas devem ter suas necessidades atendidas. se tornaria possível respeitá-lo em tudo o que ele representa. embora esta possa ocorrer(7). autoconsciência e ser produtivo. sobretudo com relação à beneficência e autonomia do paciente diante de sua própria vida. mas "vidas humanas". tais como. O primeiro (eutanásia ativa) é a ação que causa ou acelera a morte. O princípio da beneficência diz respeito ao fazer o bem e evitar o sofrimento adicional. de seus atos e de seus aspectos psicológicos e empíricos. é importantíssimo se ter claro o conceito de pessoa. Muitas vezes nossa vida termina também na dependência da velhice e na perda das capacidades que tínhamos. Segundo o modelo bioético personalista. 406)(12). Um exemplo disso seria a analgesia e a sedação. beneficência e justiça. [.] Nossa história pessoal começa com dependência . Assinada pela igreja católica. Sobre a questão do respeito aos princípios bioéticos. Cada indivíduo é singular e único e responsável pelos seus atos. Isto pode acontecer até no momento final da vida. Nas palavras de Meilaener.Centro Universitário São Camilo . provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia de duplo efeito consiste em uma ação de cuidados realizada que acaba conduzindo. denominado de “trindade bioética”. em nome da beneficência de cunho "paternalista". Se formos capazes de aceitar que ele pode ser formado por muitos componentes e reconhecermos nesses sua complexidade. portanto. que prioriza apenas a visão do médico e não consegue vislumbrar o desejo do paciente. por sua natureza ou nas intenções. desde que ele esteja consciente de suas decisões. mas vamos nos ater à duas concepções essenciais. tornou-se comum definir a pessoalidade segundo determinadas capacidades. [. Em relação ao respeito pela pessoa doente. isto é. A condição de pessoa não é algo que possuímos em determinado ponto dessa história.primeiramente no ventre materno e depois como recém-nascidos. sendo os dois últimos os mais aceitos na sociedade atual. o doente mental. utilizadas em pacientes sem possibilidades terapêuticas. O princípio da justiça deve ser entendido como eqüidade. a declaração sobre a eutanásia a descreve como "uma ação ou omissão que. Para ser pessoa é preciso ter consciência. da cultura. o desenvolvimento da bioética funda-se em um tripé. um espírito encarnado que vale por aquilo que é e não somente pelas escolhas que faz. 1997 apud Ramos(2003)(15): Em décadas passadas. o segundo (eutanásia passiva) consiste na retirada dos procedimentos terapêuticos que prolongam a vida. evitando a consciência de sua presença.1(1):68-75 cussões bioéticas centram-se na macropolítica da saúde.2007. passivo e de duplo efeito.. discute-se a eutanásia como um tema complexo que tem sido alvo das atuais reflexões na área. sob o referencial principialista. 71 . e não provocar a morte. no nível das intenções e no nível dos métodos empregados"(p. em sua essência. De um lado ela é negada e retirada da consciência. que têm como objeto principal aliviar os sintomas e promover a qualidade de vida. o ato da eutanásia pode ser ativo. Existem diferentes definições. por outro lado. da vida e rejeitada como critério de verdade e avaliação da existência cotidiana. nos princípios da autonomia. a pessoa em estado vegetativa. conceitualizada por Engelhardt Jr.. Frente à questão ontológica do ser humano.

traz ao paciente maior força de vontade para o enfrentamento da doença. Sabe-se que a fé proporciona conforto. ou seja. concluíram que a fé. o desengano da obstinação terapêutica. Diante. 62). no sentido mencionado anteriormente. sobretudo. também. o artigo 56 do Código de Ética Médica(16) autoriza a distanásia ao dizer "que é vedado ao médico: desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas. exclusão e pobreza). consiste em uma profunda afirmação da vida. Pessini(14) define o conceito de distanásia como o prolongamento exagerado da agonia. Breitbart(16) cita em seu artigo um estudo próprio. Para o Papa Pio XII. a eutanásia é vista como um processo que supervaloriza a independência do homem na tomada de decisões. como importante dimensão humana. a ortotanásia busca enfrentar a realidade da existência com aceitação e encarar a morte não como uma doença a curar. no qual constatou que 17% de pacientes com câncer em estágio terminal têm um forte desejo de uma morte imediata. 63). destaca-se o estudo realizado por Teixeira e Lefèvre(20). conseqüentemente.19. diante de uma grave enfermidade. paz. esperança e sentido. soma-se o artigo 133 do Código Brasileiro.] A arte de bem morrer. tornando banal o sofrimento humano e rejeitando o simbolismo religioso da morte. essencialmente biopsicossocial e espiritual. Pessini(17) retoma o conceito de ortotanásia. também no Brasil.20). a saúde poderá se orgulhar de vislumbrar a vida que há na morte. que fala da obrigação do médico em "utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento a seu alcance em favor do paciente[. Trata-se de um conceito novo que adquiriu visibilidade pública na Espanha através de alguns teólogos moralistas e vem crescendo sua aceitação no meio da saúde. Como o resultado dessas reflexões. o alívio da dor é um bem. assim. distanciando-se. que ultrapassa o reducionismo biológico e nos remete a uma concepção humana. pois. tendo como base entrevistas com psicólogos. qualquer que seja a natureza deste. não apenas no cuidado. sofrimento e morrer. mas. assim. até mesmo quando a morte é inevitável. sem cair nas ciladas da eutanásia e muito menos da distanásia" (p. mas muito vinculado à medicina moderna e seu paradigma. Para Sgreccia(8). a tradição médica tem a tendência de validar a prática da distanásia. no artigo 57 do Código de Ética Medica Brasileiro(16). PROFISSIONAIS DE SAÚDE: PRINCIPAIS DILEMAS ENFRENTADOS Os benefícios introduzidos pela tecnologia científica na área de saúde são indiscutíveis.Centro Universitário São Camilo . é reconhecido o valor salvífico do sofrimento humano. de Deus e. quando preciso. Amparando tal atitude médica.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . principalmente para pacientes fora de possibilidades terapêuticas.. que. Assim. Todavia.2007. Trata-se dos profissionais de saúde à exigência de uma especial atenção à realidade da dor e do sofrimento humano.. Na contramão dessa perspectiva. salvo de iminente perigo de vida"(p. no resgate da dignidade humana associada ao cuidado. o aumento progressivo e acelerado das especialidades médicas. impõe-se o aspecto espiritual que. com o desenvolvimento da 72 .. amparada pela lei. Assim.. mas sim como algo que faz parte da vida. No Brasil.]"(p. recentemente.1(1):68-75 Nesse contexto. mas não há nenhum compromisso de deixar de utilizar analgésico. no âmbito de um tratamento "inútil e fútil". 28). reconhecer sua dimensão espiritual. pois o progresso tecnológico está sendo fundamental para a resolução de problemas e para a manutenção da vida das pessoas. Percebe-se que a consideração das questões espirituais. À medida que o objetivo das intervenções em saúde passe a ser focado. sentindo-se obrigados a fazerem tudo pelo paciente e em qualquer circunstância. na medida em que esta lhe traz estímulo para o tratamento. pelo contrário. Não há um culto à dor ou ao dolorismo. definido como: "[. das questões bioéticas envolvendo a vida e morte humana. vida abreviada não apenas de algumas pessoas. pautada na perspectiva de um compromisso com a promoção do bem-estar do doente crônico e terminal. Conclui-se pela necessidade do profissional de saúde estar atento aos sentimentos religiosos do paciente. Sobre essa questão da espiritualidade no âmbito da morte e sofrimento. mas de centenas de milhares por violência. evitando. que prevê crime à omissão de socorro(12). Ocorre que muitos médicos ainda interpretam tais prescrições legais baseados na concepção da medicina moderna (exclusivamente curativa). baseado na "obstinação terapêutica". que rejeita toda forma de mistanásia (morte infeliz. Isso fica evidente. tem sido objeto de estudo por parte de alguns estudiosos(18.

Pensar no profissional de saúde enquanto cuidador traz à tona a questão dos seus aspectos pessoais e profissionais para lidar com a impactante realidade das instituições hospitalares.] a tentação reducionista está presente dentro da medicina. Se por um lado essa "superespecialização" da ciência médica tem a vantagem de aumentar o número de dados sobre a doença. Se por um lado a situação de terminalidade inviabiliza a tão sonhada cura. mais precisamente. paralisado. se supõe na medicina moderna. da dor. sustenta uma idolatria da vida física e busca retardar a morte. mas de forma especial neste contexto crítico de final de vida (p. todas as vezes que a ótica da relação médico-paciente se tornar reducionista. desse modo. ao contrário do que. 89). ainda. dentro do contexto dos cuidados paliativos. em seu artigo sobre os profissionais de saúde que lidam com pacientes portadores de doenças graves ou fora de possibilidades terapêuticas. refere que 73 . 197).]urge discutir o que representam para a vida do ser humano os avanços técnico-científicos e a tecnologização das relações" (p. concebe como fundamentais o alívio do sofrimento e do cuidado. não apenas no momento científico e de pesquisa de base. mas também no momento aplicativo e de assistência ao doente.. Delineia-se. que por sua concepção humanista. bem como a preocupação com a pessoa doente. deveria se caracterizar. sobre o diagnóstico e sobre o tratamento do paciente. Nesse sentido. sem condições de refletir e programar uma ação sustentada frente aos dilemas bioéticos que lhe são impostos em sua prática cotidiana. Waskievicz e Erdmann(22): "[. Trata-se do "reducionismo científico". É o chamado "paradigma do cuidado". inviolável e digna de respeito. em decorrência disso. 188). Apesar disso. Dentro desse contexto. mas.Centro Universitário São Camilo . [. cuja concepção afirma o foco das intervenções na doença e não no indivíduo que adoece.22). são marcadas pelo "paradigma da cura". A relação médico-paciente. entendida como o bem maior. a saber: os paradigmas assistenciais em saúde. por isso. muitas vezes. o que se nota nas práticas em saúde é um profissional mergulhado nesse complexo contexto e. Por outro lado. reunir os fragmentos e compor novamente o todo desse indivíduo tão violentado e. do poder conferido ao fazer do médico e à sua idealização como detentor do conhecimento. ética: o desvanecimento da visão global. reprodutora do perigoso reducionismo mencionado anteriormente.] Não se pode explicar uma casa construída descrevendo-se apenas os tijolos e o plano pela qual eles se justapõem uns aos outros. de maneira direta. por sua vez. eliminando o "espirit".. de maneira cada vez mais nítida. o diálogo e a leitura pluridimensional e não apenas biológica da doença. a setorização do diagnóstico e a despersonalização da doença.. por outro. por isso mesmo. o binômio médicopaciente. da concepção holística e da história pessoal do paciente.2007. tal como nos colocam Bettinelli.. a medicalização da vida e da morte e uma significativa imprecisão entre os limites do viver e do morrer(8. mas se torna por isso filosófico. De acordo com Pessini(22). influenciando. Ou. estabelecer um compromisso com a vida. a díade médico-paciente. Outro aspecto importante marca a vivência do profissional de saúde no contexto hospitalar. numa perspectiva em que a preocupação das intervenções em saúde se dá com a "pessoa doente" e não com a "doença da pessoa". que é tida como uma falha da medicina moderna. Pessini(21) resume com maestria tal concepção ao afirmar que: [. traz como conseqüências o aumento. prioriza o cuidado sobre a cura.]O cuidado é a pedra fundamental do respeito e da valorização da dignidade humana. É no cuidar que mais expressamos nossa solidariedade para com os outros. uma outra posição baseia-se na aceitação benevolente da morte como parte da condição humana e. não está fadado ao fim.. Essa não é uma tarefa fácil. conseqüentemente. Carvalho(23).Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . uma redução da escuta e do diálogo entre a díade. quanto a unidade de consciência no indivíduo doente e. O problema não é mais apenas científico-descritivo. superando o reducionismo e a "tentação tecnológica" e abrindo espaço para a inserção de uma visão mais global e humana da assistência à saúde. Nas palavras de Sgreccia:(8) [. a palavra. o que é mais perigoso. e é por esse caminho que toda relação terapêutica. dissociada de seus aspectos humanos mais intrínsecos e. faz-se indispensável ao profissional de saúde superar essa dispersão.1(1):68-75 ciência médica. assim. acarretando. o eixo da problemática bioética na área da saúde. sobretudo... adotando uma postura mecânica. na atualidade. ela requer maior empenho dos profissionais de saúde para compor tanto o objeto de pesquisa ou de tratamento (a doença). enquanto tal. comporta problemas não só de ordem epistemológico-didática. da morte e da terapia (p. um profissional autômato. cada vez maior. as ações de saúde. por outro ela abre a possibilidade de um aprofundamento dessa relação humana.. imersa e entregue à "tentação tecnológica". a dualidade da relação médico-paciente. sobre o qual tudo o mais deve ser construído.

Espera-se que estes mesmos profissionais se perguntem se não terão o direito de buscar para si mesmos. muitas vezes. ao cuidarem de pacientes graves. pode não ser um verdadeiro desejo de eutanásia. comprometendo. na tentativa de fugir dos sentimentos que a morte provoca. Acreditamos que. protegendo-se. 74 . pais. enfermeiros. sejam médicos. depressão e queixas físicas. que une competência técnico-científica e humanidade.lança mão dos únicos mecanismos de que dispõe: dissociar a doença daquele que a padece. diante dos perigos de um envolvimento que escaparia a seu controle por não dispor de ferramentas adequadas para com ele lidar. se mostrem conscientes e atentos aos direitos da pessoa humana. apesar das possíveis diferenças filosóficas e ideológicas. Torna-se fundamental na assistência à saúde a ênfase nas relações humanas. o isolamento das emoções (neutralidade) e a dinâmica de onipotência e idealização (identificação médica com a imagem de plenitude). sendo que todos são unânimes ao afirmar que se trata de um tema permeado por angústias e inseguranças. um anseio angustiado por ajuda. filhos ou amigos. Por isso. uma "morte suave". Explicam os autores: "[. que justifica a falta de relacionamento com aquele que adoece.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Com efeito. às questões da falta de possibilidades terapêuticas. são alguns dos fatores que assombram a assistência à saúde. riscos ocupacionais e baixa remuneração). irritabilidade.] É que estamos na presença de um ser humano que. do sofrimento frente à morte do outro(24).Centro Universitário São Camilo . Outros autores enfatizam a questão do preparo do profissional de saúde para lidar com a morte em suas várias facetas nas instituições de saúde(24. trata-se da "necessidade imperiosa de cuidado solidário. com espaços reservados para a reflexão e discussão envolvendo questões bioéticas. enquanto profissionais de saúde percebem-se que o cuidar de paciente em estado grave/terminal exige. distúrbios do sono e concentração. os pilares da filosofia dos cuidados paliativos. psicólogos. complexidade tecnológica. podem levar ao surgimento da síndrome da sobrecarga no trabalho. o pedido do paciente para abreviação de sua vida. mas. por essa razão.1(1):68-75 a concepção da morte como um fracasso (paradigma da cura). muitas vezes. CONCLUSÃO Ao longo de toda essa trajetória empreendida nos caminhos traçados pelo binômio vida/morte.2007. Desse modo. Fazendo uma apropriação das palavras de Pessini(22). Dentro dessa dinâmica. que exige dos profissionais uma extrapolação da competência meramente técnica e acadêmica. desse modo. do morrer e do cuidado no hospital(4). ao real significado dos conceitos de saúde e doença. tal como para seus semelhantes. digna. talvez. facilitando a compreensão da pessoa que adoece em sua singularidade e dignidade.26). que transpõe o âmbito dos cuidados médicos físicos e que. deve ser escutado por todos que o cercam. mas. contraditoriamente. que é estar quotidianamente em contato com a morte. o isolamento das emoções é uma forma privilegiada que a medicina encontra para fazer frente a essa armadilha da profissão médica.25. Essa síndrome tem uma expressão denominada pelos profissionais de saúde de Burn-out. o temor dos sentimentos. atenção. à velhice extrema e à morte. essencialmente. compartilhar com ele experiências e vivências que culminem na ampliação do foco de atenção do cuidador. amor e afeto. A dificuldade na comunicação médico-paciente. principalmente em situações extremas na fronteira entre a vida e a morte" (p. 12). caracterizada por fadiga. profissional de saúde acaba por perder a possibilidade de prestar ajuda ao paciente sem possibilidades terapêuticas.. não ser preparado para lidar com ela" (p. que auxiliam a análise frente aos dilemas da prática profissional no contexto da morte. o profissional omite informações do paciente e imprime a si mesmo uma dinâmica de exclusão das emoções. 206). a insalubridade do ambiente e a alta exposição a diferentes fontes de estresse (como indisponibilidade de recursos financeiros.. faz-se necessário que os profissionais de saúde. assim.

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We infer that after three decades of Potter's proposals. Constatou-se também que os estudantes de medicina anseiam por aprender algo mais que a técnica. Medical ethics-teaching. PALABRAS LLAVE: Bioética-enseñanza.como fundamentação do comportamento médico condizente com a arte médica. It was also evidenced that medical students yearn for learning something more than technique. 76 . as a way to surpass a series of peculiar factors present in the traditional model of teaching-learning. It has evidenced that the majority of the works in this area regards medical ethics and even comes to confused bioethics with medical ethics. como campo de conhecimento. PALAVRAS-CHAVE: Bioética-ensino. Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. There is much to do for strengthening bioethics in undergraduate and graduate courses. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo-SP. ** Médica. diz respeito à ética médica. Rosito*** RESUMO: Este trabalho trata do ensino de Bioética nas faculdades de medicina no Brasil. Ética médica-ensino.Objetiva demonstrar a escassez de estudos relacionados à Bioética. Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas-Unicamp. Supervisora no Projeto Tutores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . KEYWORDS: Bioethics-teaching.1(1):76-90 Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil Bioethics teaching in Brazil´s medical schools Ensenãnza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil Homero Januário Caramico* Vera Lucia Zaher** Margaréte May B. nas faculdades brasileiras de Medicina. Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Pretende demostrar la escasez de estudios relacionados con la bioética como campo del conocimiento. Cirurgião e Docente de Bioética no Curso de Medicina. Psicóloga.chegando até mesmo a ser confundida bioética com ética médica. como una manera de sobrepasar una serie de factores peculiares presentados en el modelo tradicional de enseño-aprendizaje. También fue evidenciado que los estudiantes de medicina anhelan a aprender algo más que técnica. RESUMEN: Este trabajo se ocupa de la enseñanza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil. Docente no Curso de Pedagogia do Centro Universitário São Camilo. Coordenadora adjunta do Curso de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. La enseñanza de la bioética en escuelas médicas en el Brasil requiere la construcción de una identidad propia. Bioethics-medicine. Ha evidenciado que la mayoría de los trabajos en esta área mira la ética médico e incluso confunde la bioética con la ética médica.O ensino de bioética nas faculdades de medicina no Brasil necessita da construção de uma identidade própria.como forma de superar uma série de fatores peculiares advindos do modelo tradicional de ensino -aprendizagem. in Brazilian Medical Schools bioethics is treated sometimes as an ethics and sometimes as an autonomous discipline.2007. as the basis for a medical behavior that honors the medical art. It aims to demonstrate the scarcity of studies related to Bioethics as a knowledge field. *** Pedagoga. Bioethics teaching in medical schools in Brazil requires the construction of an identity of its own. buscando sentidos que van más allá de los tradicionales. la bioética en las escuelas médicas brasileñas es tratada a veces como ética y a veces como disciplina autónoma. searching for senses other than traditional ones. Hay mucho a hacer para consolidar la bioética en cursos de pregrado e de postgrado como la base para un comportamiento médico que honre el arte médico. Há muito o que fazer para o fortalecimento da bioética na graduação e pósgraduação.Centro Universitário São Camilo . a bioética ainda é tratada ora como ética ora como disciplina autônoma.indo em busca de novos sentidos do que está tradicionalmente posto. * Médico. Constatou-se que a maioria dos trabalhos nesta área. Ética médica-enseñanza. Depreendemos que após três décadas de Potter. Deducimos que después de tres décadas de las propuestas de Potter. Bioética-medicina. Bioética-medicina. ABSTRACT: This work deals with Bioethics teaching in Brazil's medical schools.

por exemplo. Variabilidades múltiplas. intercultural e que potencializa o senso de humanidade"(5). Crescendo na capacidade de fazer e agir. sabemos como somos. aplicam a esse tema um colorido das mais variadas nuances como iniciar-se-ia a vida na concepção. Busca-se evitar o nascimento de um feto cientificamente sem vida. educacionais e psíquicas do doente. após 35 anos da revolução introduzida pelo termo Bioética por Potter. precisamos nos perguntar: que valor atribuímos à vida? De que modo podemos proteger e tornar melhor esse bem? Como melhorar nossa convivência humana? Eis o verdadeiro sentido do direito à vida(6). quando alunos dos últimos anos de graduação achavam normais e rotineiros problemas éticos que eram detectados por eles nos primeiros anos da faculdade(7). aleijado ou mentalmente débil. "bioética como nova ciência ética que combina humildade. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida. Temas bioéticos. nos quais a influência da sociedade em que se vive acarreta no jovem um confronto em relação a esses desafios que surgem durante o curso de medicina.1(1):76-90 INTRODUÇÃO Os cursos de Medicina. à igualdade. o sentido da vida. foi apoiado pelas fundações privadas americanas e pela AMA (American Medical Association). a busca da verdade e a busca da felicidade. inteiramente desprovido de cérebro e incapaz de existir por si só"(4). que não dão maleabilidade à reflexão ética. pelas ciências. etnia. que estudava a doença para compreender o doente e o presente em que a medicina. Existe a crença de que a sensibilidade de detectar problemas éticos em casos padronizados é maior nos alunos dos últimos anos do que nos ingressantes dos primeiros anos. sem distinção de qualquer natureza. responsabilidade e uma competência interdisciplinar. ampliamos o campo da liberdade nas escolhas. que suscitam as mais diversas afirmações. gerando uma nova característica de relacionamento entre o ensinar-aprender na faculdade de medicina entre médico e paciente. Os próprios limites da doença e da morte são espantados para cada vez mais longe.Centro Universitário São Camilo . 77 . cultura e outras. à liberdade. As questões que angustiam o ser humano são o direito à vida. dia a dia. como o início de vida. à segurança e à propriedade. para defender o direito à vida. Depois. Isto não é um fato novo. encontram-se pontos ético-morais discutíveis.2007. lembramos que o Artigo 50 da Constituição da República Federativa do Brasil reza: todos são iguais perante a lei. Assim. ou como quando o ser humano nasce? tendo entre estas variantes uma gama de pensamentos e correntes a serem discutidas e é nesse momento que se aplica áquilo que a bioética tem de especial. Mas. porém nos Estados Unidos e no Canadá a situação foi detectada inversamente. porém muito menos humanista. Os tempos tecnológicos em que vivemos trazem a sensação de uma liberdade supernutrida. a sua supervalorização implica capitulações graves em relação à atitude humanista. como religião. Como definiu Potter. A vida é o supremo bem pelo qual devemos zelar e entendemos em primeiro lugar que não há direito à vida sem liberdade. Nesse clima de pensamento científico que clama por progresso. sendo uma que eleva o pensamento ético . A valorização da ciência e do cientificismo é um imperativo. porém. com seus médicos-cientistas. a capacidade de abrir horizontes e disseminar o respeito pelas idéias do outro. mais técnica. voltou-se mais para a doença sem a relação com as estruturas sociais. temos no aborto um motivo emergente de discussão. buscamos também técnicas para superar os limites ou exatamente para explorar os interesses que se descobrem neles(3). abrem uma discussão inacabada que se iniciou há séculos. liberdade e evolução. Mas a ciência e a tecnologia são antes um instrumento com o qual exercemos a liberdade ou desenvolvemos a liberdade. em vista que os avanços tecnológicos vêm ocorrendo despidos de qualquer reflexão ética(2). necessita-se conhecer os conceitos vindos com os alunos ingressantes ao curso de Medicina para podermos abrir um leque de discussão sobre esses temas para evitar o maniqueísmo e idéias fixas. como os fetos anencefálicos. antes de tudo. igualdade segurança e propriedade. vem de 1910 quando Flexner(1) encabeçando uma série de relatórios que na ocasião se reportavam contra a criação de faculdades de Medicina nos Estados Unidos. Na medida em que."não se está admitindo a indicação eugênica do aborto com o propósito de melhorar a raça ou evitar que o ser em gestação venha a nascer logo. encaram o desafio de criar uma ponte entre o passado hipocrático.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . Em outro momento.

tendo como caráter principal. No Brasil.3% das faculdades e em 67. Pois segundo Kohlberg as pessoas evoluem conforme seu amadurecimento na participação e tomada de decisões(15).Centro Universitário São Camilo .4%). medicina legal e deontologia são complementares e não excludentes. obrigam-o a buscar uma abertura de visão par estes fatos e interagir de uma maneira direcionada para com esta nova realidade. 78 . literatura ética e boas artes como uma forma de conhecimento ampliado para melhoria no aprendizado médico. foram introduzidos novos currículos escolares nas escolas médicas. gerenciamento de cuidados com a saúde e medicina alternativa ou complementar(17). 4º ano por exemplo. estudo dos deveres profissionais e outro pela bioética. Muñoz e Muñoz(8) realizaram um levantamento sobre o ensino da Ética nas Faculdades de Medicina no país. não havia até então a denominação de bioética. e somente 3 faculdades lecionam em período integral.15). Neste clima atual de desenvolvimento das tecnologias e da bioética. da atividade profissional. um que representado pela deontologia. além do próprio aprendizado escolar na faculdade de medicina(19). Assim pode-se dizer que a formação da Ética Médica se constitui de dois pilares. Hoje a denominação de bioética é utilizada em 26. promovendo os princípios básicos e primários. como devemos entender o ensino da bioética no contexto de uma faculdade de medicina? Desta forma. humana e política que a sociedade se depara pressionam no ensino médico algo mais que somente as disciplinas de medicina legal e deontologia. destacando a grande diferença entre elas em situações como independência como disciplina. que passou a ser vista posteriormente como ética médica. É a partir desta multiplicidade de opções que observaremos o ensino da bioética nas faculdades de medicina. intercultural e que potencializa o senso de humanidade"(10). Surgem metodologias alternativas como trabalhos comunitários e comunidades de apoio humano.2007. observando a ética atualmente como uma reflexão da vida(9). respeito pela dignidade do outro e do meio ambiente(11). As novas experiências vividas pelo médico no seu cotidiano.1(1):76-90 Então. responsabilidade e uma competência interdisciplinar.pois ela avança em conjunto com o conhecimento técnico adquirido e o crescer intelectual do aluno em questão. podemos dizer que a função primordial da bioética é ter como objetivo indicar valores. o autor infere que devemos mudar muito o modelo atual de ensino para que se possa ofertar uma formação ética aos alunos do curso médico. Este pensamento é compartilhado em outros países nos quais. Neste mesmo trabalho. Este mesmo autor infere que os estudos da bioética.algumas lecionam em determinados períodos somente. Assim a bioética tem a função de complementação `aquilo tudo que é explanado na deontologia e medicina legal. Devendo a bioética ocupar toda a grade de ensino médico. prudência e poder de discriminação que lhe é característica(16). já marcada pela deontologia médica. A bioética tem como estrutura a ética.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . associado a uma pluralidade de morais e costumes gerados pela miscigenação de raças e credos. O número de professores difere varia mas existe uma maioria que dispensa o trabalho de dois professores (67. com a tolerância. surgindotermos como a bioética pós-moderna por exemplo. Algumas faculdades enquadram a bioética como uma sucessora da antiga deontologia médica. A bioética abre uma porta para reflexões e atitudes sobre novos problemas na área da medicina que surgem no dia-a-dia devido ao progresso tecnológico e sua interferência no cotidiano das pessoas. o período de em que se leciona a matéria é por demais diferente. Autores tendem a formatar as idéias conforme suas realidades.7% era denominada deontologia. multiplicam-se pensamentos para adaptá-la à realidade do cotidiano. antropologia."disciplina que combina humildade.7%(8). autônoma. Autores de outros países também incluem uma educação médica aprimorada com historia da medicina. e que o desenvolvimento ideológico do caráter moralista da ética passou para uma visão mais abrangente. de 1993 a 2000. Alguns autores relatam que a evolução social. como citado no trabalho publicado por Munõz e Munõz e Siqueira(8. Neste mesmo estudo os autores relatam que há uma década a ética era administrada como disciplina autônoma em 33. a modelagem de virtudes para uma conduta profissional adequada(8). o ensino da bioética tem como conteúdo programático a reflexão ética. com ênfase para bioética. Assim como toda disciplina de área médica. sendo independente em 37. alcançando assim. que procura nortear o médico em seus deveres e direitos. Com isto pretendem que um profissional com maior sentido de humanização poderá traba-lhar melhor o outro nas suas plenitudes de tratamento(18). a bioética vem no intuito de complementariedade com a cadeira de ética médica.7% somente.

Rebuscando no passado. um conceito de interdisciplinaridade para se atingir uma nova sabedoria(1971). A variabilidade de idéias é enorme.15). porém poucos se adiantaram ao tempo e foram ás bases discutir ou ouvir suas necessidades. goze eu. eutanásia. uma matéria de ensino?(23). Existem escolas que entendem que no ensino da bioética deva existir uma formação de núcleo. Agora sua trajetória de interesses entra em conflito com as necessidades e os interesses do outro (o paciente) e como ele responderá a esse apelo? A responsabilidade do professor é fundamental para dar-lhe as ferramentas adequadas para tal momento. o epistemológico e o de geração de novas disciplinas(25). é dever portanto ser observado aquele que é o fator multiplicador de uma arte. Como exemplo de grau de aplicação surge quando transferimos métodos da física nuclear para a medicina. A interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas. pensa-se nos assuntos a serem discutidos com os alunos e as formas de ensino. assim teremos distinguido três graus de interdisciplinaridade. Mas.1 O Ensino da Bioética O ensino da bioética vem abrindo um debate de como se deve realizar a sua ementa e sua metodologia. minha vida e a minha arte de boa reputação entre os homens. Podemos definir interdisciplinaridade como transfe- rência de métodos de uma disciplina à outra. que é imprescindível.2007. mas correm o risco de se esvaziar e não apresentar mais nenhum significado(26). resultando novos tratamentos para câncer. Somado aos fatos acima. ou seja. ou como definiu Potter(24). pois servem como exem-plos para-digmáticos. mas seu objetivo permanece dentro do mesmo quadro de referência da pesquisa disciplinar(25). como veremos a seguir que pode surgir dos conhecimentos interdisciplinares. o professor de bioética se encontra em uma encruzilhada entre a forma interdisciplinar e a disciplinar. Desta forma. absorvem as substâncias que encontram. que tem o propósito de ampliar as discussões e o ensino de bioética em toda a comunidade em que se insere(22). um ramo do conhecimento que se aprende.desde 1970 até 1998. Os dilemas éticos clássicos como aborto. testemunhas de Jeová. mas também alimentá-lo com uma boa base de conhecimento e ideal médico que irão cada vez mais se aprimorarem na medida de sua experiência médica.2 Histórico do Ensino de Bioética nas Faculdades do Brasil Desde o juramento de Hipócrates lemos em suas entrelinhas a deontologia e a diceologia ditas com o ardor de sentimento encarnado na frase "Se eu cumprir este juramento com fidelidade. De esta forma observar somente critérios didáticos para a programação da bioética nas faculdades de medicina é incorrer em submete-la a ser uma disciplina a mais no currículo médico. se eu o infringir ou dele me afastar. 1.. aumentando a carga de conhecimentos progressivamente até os últimos semestres quando seriam observadas suas necessidades de interação com os casos à medida que forem surgindo(21). Alguns docentes preconizam o inicio do curso de bioética no curso de Medicina desde o 1º semestre com ênfase na Antropologia. devem ser analisados sempre.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . Não basta passarmos somente à parte técnica do processo de formação. Este também é o pensamento de ou-tros que a Ética deveria ser lecionada nos seis anos do curso. acompanhando o aluno e discutindo os problemas éticos na medida que surgem(7. as quais poderiam interessar somente à sociedade que as criou ou a uma variedade mais ampla na qual os resultados destas casuísticas abarcassem em seu resultado uma diretriz maior que impingisse um caráter ético à questão.1(1):76-90 1. o de aplicação. como devemos pensar a Bioética? Como uma disciplina. Quanto a gerar novas disciplinas temos como exemplo quando transferimos métodos da física de partículas para a astrofísica assim produzindo a física quântica. suceda-me o contrário" 79 . uma ponte interligando éticas (1970) ou uma nova ciência. se enriquecem dos sentidos atribuídos. cujo resultado levaria a uma reflexão protocolada com normas e casuísticas morais.Centro Universitário São Camilo . Historia da Medicina e etc. existem palavras que são como esponjas. porém não devemos deixar de possibilitar ao estudante a oportunidade de discussão de casos do seu cotidiano e as quais ele tem uma parcela ou totalidade de decisão(20). surge neste momento um aluno que ingressa em uma faculdade de Medicina trazendo em seu bojo a moral adquirida no seio familiar e social até então vividos. o aluno.

André Hellegers utilizou a palavra bioética na inauguração do Joseph and Rose Kennedy Institute for the study of human reproduction and bioethics. Na enciclopédia de bioética. Poucos são aqueles que possuem tamanha formação acadêmica para poder discorrer sobre todos assuntos que abrange a bioética e que diariamente se modifica perante uma lei. física e outras. com predominância de ênfase para cadeiras ditas mais importantes em detrimento de um ensino voltado à parte social e ética na medicina. com o paciente tanto quanto o ponto de vista clínico-técnico. aliviar e consolar os necessitados. a dignidade. aqui quero deixar minha preferência em relação às palavras comportamento e postura em relação à ética. Enquanto paises vivem como no passado. a bioética. As sociedades divididas em pobres e ricos. Oscar Freire e outros.2007. a índole para alívio de sofrimentos(8). entre o valor tecnológico agregado ao tratamento do paciente e pensamento médico envolvido no raciocínio diagnóstico e na sua conduta perante o paciente. e com isto criando um sentido bioético mais adequado a suas morais tanto sociais como culturais. transplantes de órgãos. por exemplo. Inúmeras descobertas são realizadas em todos os campos da medicina. e mais ainda fundamental.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . guardando ainda os resquícios da medicina tecnocrata Nossa referência com a bioética data seu inicio na década de 1970. Assim chegamos no ponto de existir um sentimento social de os médicos não terem um comportamento digno e de serem pouco humanos.Centro Universitário São Camilo . a filosofia e a ética. honestidade e coragem. É óbvio 80 . que levou a uma medicina mais científica. Como a própria definição implica a interdisciplinaridade é evidente.Flamínio Fávero citava como estas qualidades à vocação médica. Acompanham este coro de desmandos a formação médica humanitária atual nas faculdades de medicina. criam uma característica própria no ensino da bioética. Esta visão dada por estes pioneiros foi devida aos fatos que sucederam a teoria de Claude Bernard a respeito da biologia experimental associada ao conceito pós-relatório Flexner. lutando por saneamento básico. projetos como o Genoma. biologia. tudo aliado a um espírito de sacrifício enorme ou seja sempre pronto para o bem. racismo e outros males. O ensino da ética médica no Brasil data do final do século XIX com nomes dentro dos anais da medicina legal/deontologia como Flamínio Fávero. que são notificadas e poucos da sociedade têm a felicidade de desfrutar ou aproveitar para seu bem ocasionando assim uma nova característica no relacionamento ciência/benefício humanitário. Com isso houve uma inversão de valores. Assim sendo temos duas correntes iniciais para a bioética(28). A visão de Potter que imaginava a bioética em uma amplitude abarcando o conhecimento cientifico e filosófico e não somente o relacionamento da medicina com a ética. pois a necessidade de todo conhecimento técnico é imprescindível para a formulação de um conceito. que envolveria tanto a ciência como as cadeiras humanas(24). abrindo um caminho de reflexão aberta a respeito de uma visão científica. porém sem uma humanização nos tratamentos realizados. enfim uma ética da vida. a preservação da vida. tornando-se a bioética um estudo revitalizador da ética médica(27). Sob a visão de Hellegers a bioética tem uma ligação estreita e de certa forma herdeira de valores que a própria ética médica não conseguiu se impor até então. um novo conhecimento científico ou mesmo com uma nova abordagem terapêutica. Gomes ampliou estas qualidades associando princípios de Beauchamp e Childress a solidariedade. porém com distanciamento entre a medicina e a ética. Esta conduta médica envolve seu comportamento. hoje conhecido como Bioethics Kennedy Institute. Reich infere que Hellegers procurou relacionar a pessoa como uma ponte entre a medicina. conhecimento novo e sua abrangência pela maioria da sociedade.'' Após seis meses do lançamento do livro de Potter. social e observadora da presença e das necessidades do outro. criando uma tecnocracia médica que resultou em uma formação médica essencialmente baseada em fatos. quanto a ponto de ser o norteador e alicerce de sua psique. quando Potter proferiu a definição de bioética como a ética da terra.1(1):76-90 Portanto. sentimentos e adesão a esta fase de sua vida. contra a fome. não poderia ser de outra forma que não a deontologia/diceologia fosse a partida para o ensino da ética em uma faculdade de medicina. que escreviam sobre as qualidades morais que o médico deveria apresentar para exercitar sua carreira na medicina. A bioética foi criada para se tornar um norteador nos avanços tecnológicos de todas as áreas para o uso em beneficio da humanidade interessando a maioria possível da sociedade. uma ética internacional. Isto acabou se impondo. o sigilo. os países ditos ricos têm problema de ordem bioética quanto à reprodução assistida. uma ética geriátrica.

trouxe mais respeito para com o outro (que para alguns autores é denominada humanização) e o que é muito importante também inter-relacionou as especialidades.2007.7% das faculdades de medicina com a cadeira denominada bioética. revistas e teses. que era de caráter deontológico(30). para propor uma base curricular ao ensino de ética nas faculdades de medicina. já que o fator de humanidade deve ser sempre a liga junto ao respeito e ao conhecimento técnico da arte de ser médico. como por exemplo. de 29 de Janeiro de 2002. assim como as médicas com as médicas. Esta concepção de uma bioética de “fórmulas prontas” vai contra mão aos interesses destes países. ministrando estas aulas. decidiu colaborar com o ensino de Ética Médica e Bioética nas Faculdades de Medicina. médicas e não médicas. o número de horas/aula. Temos cursos com número de professores variados. justificada pela relação entre a lei e o exercício profissional. Em algumas faculdades. não possuindo espaço próprio para ser ministrada. abriu horizontes. assim como. Este cruzamento resultou nas seguintes seqüências: Faculdade de medicina e ensino de bioética e faculdade de medicina e ética. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP). OBJETIVO GERAL Conhecer a literatura científica a respeito do ensino de bioética nas Faculdades de Medicina no Brasil OBJETIVOS ESPECÍFICOS Discutir a implantação do ensino de Bioética nas Faculdades de Medicina Relatar uma experiência de ensino em uma Faculdade de Medicina na cidade de São Paulo e as observações dos alunos. Fontes de buscas: O levantamento de dados utilizados foi através de pesquisas nos portais Bireme. formar profissionais com comportamento ético mais compatível com os ideais da profissão e ensinar as normas que regem a profissão. em um período de 15 anos. no final do século XIX a ética médica era ensinada durante o curso de medicina na cadeira de medicina legal. Faculdades de Medicina. Os objetivos mais importantes do curso de ética na graduação são formar profissionais mais humanos. Cursos com número de professores reduzidos. Na década de 60 houve um crescimento do estudo de ética nas faculdades de medicina. através do Scielo. Até o momento vemos que não existe um padrão de ensino de bioética nas faculdades de medicina. propostas dos países ricos são adaptadas aos países pobres(29). Ética. na maioria das escolas médicas(27). fizeram com que as entidades de classe como os conselhos (em 1975 o Conselho Federal de Medicina) emitissem resoluções no intuito de que o ensino de ética médica fosse ensinado ao longo dos 6 anos. monografias. Atualmente alguns movimentos sociais reivindicatórios à autonomia do ensino.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . outros com mescla de professores médicos e não médicos. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO Tipo de estudo: Esta pesquisa é um estudo bibliográfico. entre outros. e em relação aos alunos que saem de escolas médicas com preparo abaixo da crítica. Como foi exposto acima. o que na década passada era denominada ética médica em 33% das faculdades e em 68% denominada deontologia(8). a ética médica ainda é ensinada junto com Medicina Legal.1(1):76-90 que os interesses nestes casos são inteiramente contraditórios. a uma reunião em 1983. por exemplo. O início do ensino de ética médica nas faculdades de medicina foi gradual e com número de horas/aula reduzido e sempre ligado à cadeira de medicina legal. Scirus. Identificação das fontes: Foram pesquisados artigos científicos. protocolou temas para reflexão. descritivo de um fenômeno com técnica padro-nizadas na coleta de dados. A partir deste instante deu-se a largada para uma pontuação crescente de temas para tornar a medicina uma carreira mais humana. à melhoria do conhecimento pela população. 81 . mediante resolução nº 101.Centro Universitário São Camilo . Scopus e Medline. Hoje já temos cerca de 26. alguns cursos com professores médicos. Os unitermos utilizados foram: Ensino de Bioética. a maioria. o efeito estufa e suas discussões. levando mais tarde. A inclusão da bioética possibilitou uma nova face ao ensino da ética médica. Embase. expandiu e modificou tratamentos médicos. em Dartmouth College. Neste momento impõe-se à medicina o aprofundamento de questões humanísticas.

Achamos somente um trabalho brasileiro indexado que é referido neste estudo. como o de vários outros direcionam-se ao termo “ética” e “não bioética”. DISCUSSÃO O ensino da bioética foi agregado na esteira dos ensinamentos prévios de ética médica que vieram também agregados dos ensinamentos hipocráticos da medicina. teria a dupla função exposta acima? Esta é uma das questões que me intriga. No Scirus foram encontrados 37. por exemplo. tendo em vista o estudo em foco.840 para Teaching Bioethics on Medical Schools. a maioria mencionando ensino de ética ou humanização. se este não fosse coordenado universalmente. foram encontrados 32 trabalhos de bioética em faculdades de medicina de outros países como Sri Lanka. daí a dimensão pluralista. espaço reservado para transcrições selecionadas a respeito dos objetivos já mencionados.000 páginas. E ele relata. no Paraná. de uma maneira passiva. inculcando no comportamento socio-cultural reflexões a respeito do futuro tecnológico. quando cunhou o nome bioética. outros trabalhos foram considerados em sua íntegra. em seu discurso dirigido ao IV Congresso Mundial de Bioética. contudo a própria natureza da bioética não permite somente uma visão de um fenômeno e sim visões que a tornam com o enfoque pluridisciplinar. A bioética veio da preocupação e da angústia de Potter com os acontecimentos tecnológicos. Na PubMed com "Teaching bioethics on medical schools" foram encontrados 131 ítens. É nesse momento afirmamos que a Bioética pode resgatar o tempo perdido pelo avanço tecnológico na tentativa humanizá-lo. espaço reservado para um resumo da obra. Ora. exceto Brasil. Portanto. Cerca de 13 trabalhos referem-se ao ensino de bioética em países. Foram encontrados no Scopus somente 13 trabalhos internacionais a respeito de ensino da bioética nas faculdades de medicina. e problemáticas com conseqüências profundas em futuro próximo. pensou em uma ligação. interdisciplinar mencionada. se refinarmos para "medical education" este número diminui para 50 artigos e não conseguimos visualizar nenhum relacionado com bioética e Faculdade de Medicina no Brasil.Centro Universitário São Camilo . E na tradução deste tre- Organização do material obtido Todo material submetido à leitura foi catalogado uma parte em fichas do software Word Pad com identifi- 82 . que a palavra ponte era usada porque a bioética era vista como uma nova disciplina. Se a disciplina é Ética Médica por que então mencionar a disciplina como Bioética?(8) cação da obra segundo os dados: cabeçalho com referência bibliográfica segundo a ABNT (NBR6023:2002). porém a grande maioria destas refere-se ao estudo de ética nas faculdades de medicina. por várias visões no mesmo problema a ser solucionado. Refinando para Teaching Bioethics on Medical School in Brasil. existe um grande número de trabalhos catalogados como ensino da bioética nas faculdades de medicina. Portanto nada mais lógico que a relação do médico com o campo da bioética também se fizesse.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .1(1):76-90 Obtenção do material O material obtido foi então submetido a uma leitura interpretativa e exploratória no sentido de atender às necessidades dos objetivos do estudo. No Google acadêmico cruzando as informações com "O ensino da bioética nas Faculdades de Medicina do Brasil" encontramos 102.2007. Mesmo Potter quando deu a partida para a discussão da bioética na década de 1970. uma ponte entre a ciência biológica e a ética. suas evoluções. a palavra disciplina aqui utilizada tem o sentido de uma nova ordem que convém ao bom funcionamento de uma sociedade ou o sentido de um nascimento de um ramo do conhecimento como matéria de ensino? Ou melhor ainda. Como ele cita neste discurso a bioética ponte teve a função de ligar várias disciplinas. sendo os 131 da pesquisa acima também mencionados. porém dentro do texto é mencionada a ética médica como bioética ou como se esta estivesse integrada dentro da ética. este número cai para 227. Como se trata de um buscador generalista tem pouco valor científico. tome-se como exemplo o efeito estufa em nossa atmosfera. Quando cruzamos "teaching ethics in medical schools" resultaram 315 ítens. fato já definido pela maioria. Siqueira(16) da Faculdade de Medicina de Londrina. mesmo assim o título do trabalho "The teaching of ethics in medical schools". Com isto Potter pretendia retomar um rumo mais controlado e humano. via de regra.

formação de profissionais que observassem com capacitação e respeito. formulando protocolos que tentam criar ferramentas para facilitar as decisões sobre os casos que vão surgindo no dia a dia da comunidade biológica. quer científica como social. ora transdisciplinar para outros. que é a orientação de um padrão ético de trabalho para as ciências e para aqueles que com elas coexistam. Assim sendo notamos que a bioética se torna ora multidisciplinar para alguns autores. no sentido de evitar agressões. temos a necessidade de conhecer os conceitos vindos com os alunos ingressantes ao curso de Medicina para podermos abrir um leque de discussão sobre esses temas para evitar o maniqueísmo e idéias fixas. devido à multiplicidade de disciplinas envolvidas. proporcionando um caráter mais ético para a casuística final. Este sistema tem como função a definição e desenvolvimento em longo prazo de uma ética para sobrevivência humana sustentável(32). que são a americana e a européia. 83 . social. protocolar uma ementa de ensino para a bioética? Podemos e devemos orientar valores que. a pessoa torna-se o fundamento metafísico da ordem ética e a antropologia o fundamento da Bioética(14). união. porém sem desvios de conduta respeitosa para com o futuro. autonomia. justiça e não-maleficência. Atualmente.1(1):76-90 cho do discurso temos como função principal da bioética ponte a sobrevivência da espécie humana. teoricamente. Com estes direcionamentos a bioética americana caminha para uma Bioética de fundamentação baseada em princípios. dentro de um padrão de respeito tanto pelo outro como pela natureza que o cerca. tanto na sua profissão como no seu dia a dia? Como poderemos então. já por si só. de fusão. aumento progressivo de novidades tecnológicas com novos casos surgindo diariamente. progressista. Partindo desta premissa devemos ter em mente que a bioética implica em responsabilidade. baseada na filosofia Ocidental. ou seja: o principialismo de Beauchamp e Childress. que por dar uma grande ênfase à beneficência.2007. Até este momento a bioética tinha um caráter orientador. orientação. Veatch (contratualista) baseado no relacionamento médico-paciente-sociedade. Já na Europa predomina um modelo baseado em raízes contemporâneas. Então como devemos entender o ensino da bioética no contexto de uma faculdade de medicina? Seria mais uma disciplina isolada ou uma disciplina que agregaria outras disciplinas ao seu redor formando um núcleo de pensamentos voltados ao ensino. Ao sistema aqui mencionado Potter classificou como a bioética global. arroubos de egoísmos científicos que atinjam a ordem maior que é a sobrevivência da humanidade. para um direcionamento dentro dos ditames dignos de uma sociedade científica progressista. Porém outros modelos coexistem como o de Engelhart (liberalismo). agir destas ciências biológicas. pois os membros que refletem sobre um caso a solucionar compõem um comitê. Sendo assim a chance de se tomar atitudes mais direcionadas. tanto pela pessoa humana como pelos seus valores em virtudes. numa forma descente e sustentável de civilização. Talvez neste ponto devemos buscar na filosofia oriental o elo entre o homem e a natureza que existe de uma forma forte e contundente nesta linha filosófica.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . Pellegrino e Thomasma (virtude). A americana tem como tendência a tecnização. pois seus membros são convidados ou eleitos por um período determinado e não somente convidados para opinar determinado caso. Porém esta dicotomia de abordagem de um mesmo fenômeno. objetivando a dignidade do ser humano. exigindo o desenvolvimento e manutenção de um sistema de ética(32). independente da situação evolutiva. Aqui notamos um direcionamento da palavra disciplina para uma forma de comportamento. Joonsen e Toulmin (casuístico). A bioética européia espelha um compasso menos técnico. A tendência da cultura americana quanto à presença de normas e protocolos volta-se sempre a uma indicação de resultado que tende a uma moralização da ética. contudo o pensamento bioético permite que se façam conjunturas para ampliar sua reflexão a respeito do fenômeno em questão. que não dão maleabilidade à reflexão ética. portanto com visões múltiplas de um mesmo fenômeno. colocando-o no centro das atenções. concepção nossa à junção entre ser humano e meio ambiente. sem acarretar dano ou destruição ao ambiente de vida. de criação de um novo comportamento nas áreas biológicas. a bioética tem como propostas duas vertentes próprias de suas morais e culturas. tem uma aceitação quase que universal como modelo na prática médica(33). Assim. permitam uma atitude correta. cria uma linhagem de pensamento que pode ser entendida como uma divergência no seu conteúdo e talvez na elaboração da finalização. que difere de uma comissão. mais reflexivas sem dualidade de resultados é maior.Centro Universitário São Camilo . para uma nova ordem no pensar.

assim como. fazendo parte de uma cadeira de humanização médica? Além de que.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Mas seria esta a função primordial da Bioética? Apresentar os conceitos aos alunos. ética. sendo que no começo de cada primeiro semestre existe um contato com o aluno no sentido de demonstrar a existência de um diferencial importantíssimo na carreira que estão iniciando e que o norteamento deste diferencial tem no seu conteúdo um conhecimento além do curar/cuidar. como ensinar bioética? O que ensinar em bioética? Quando ensinar a bioética no curso médico? Existe a crença de que a sensibilidade de detectar problemas éticos em casos padronizados é maior nos alunos dos últimos anos do que nos ingressantes dos primeiros anos. 84 . religião. Tal necessidade levou à formação de clínicos para suporte na matéria. filosofia. quando submetidos `a liberdade de escolha em uma situação de reflexão. Percebe-se foram educados com obediência `a moral da família. seus benefícios sociais e de saúde.1(1):76-90 Quanto ao ensino da bioética. a resposta pode ser o momento de libertação de toda a moral adquirida. como um programa a ser ministrado para grupos menores de alunos. os casos paradigmáticos. Flamínio Fávero e outros. sua amplitude no seio da sociedade. quando alunos dos últimos anos de graduação achavam normais e rotineiros problemas éticos que eram detectados por eles nos primeiros anos da faculdade(7). sendo necessário acrescentar também conceitos de artes e literatura a fim de alcançar objetivos mais ampliados nestas áreas. a bioética. Em agosto de 2003 foi iniciado o curso de medicina em uma Universidade na cidade de São Paulo. com isso foi observado que não havia professores em número suficiente para tal. No Canadá em todas as escolas médicas é ensinada a matéria de bioética. Experiência como docente A reflexão da experiência como professor de bioética passa pela análise da opinião dos alunos percebida no seu conteúdo explícito e implícito de carga moral e ética na respostas dadas no questionários aplicados com os alunos do Curso de Medicina. às vezes. como priorizar necessidades? Como ensinar virtudes? É possível ensiná-las? Os alunos. soma-se a esta diversidade um aluno que já traz uma moral familiar que difere de outras tantas que coexistem na mesma sala de aula e ambiente de trabalho. Hoje já temos 26. como foi dito. que é dicotomizado como vimos acima e que conceitos básicos originam-se de diferentes fundamentos filosóficos e que estes possuem várias correntes de pensamentos. a humanização de procedimentos dentro da sua ciência médica. os países com legislações pertinentes ou não com problemas como a liberação do aborto? Como o aluno confrontará estes novos conceitos. que é o respeito pelo outro. antropologia cultural e social e jurisprudência. Portanto.7% das faculdades de medicina com o curso denominado Bioética no seu currículo. ou seja. história da medicina. sendo que neste momento é que entra o conhecimento da matéria em questão. Algumas escolas preconizam que somente ensinar bioética e cuidados médicos não conseguem passar ao aluno conceitos de humanização suficiente. apresentam um sentido comunitário mais desenvolvido e outros não. Assim sendo. a vivência do profissional e principalmente seu respeito para com o outro. Escolas de outros continentes ampliam seu espectro de informação e colocam a bioética juntamente com cuidados humanos em seu currículo nas faculdades de medicina. uma demonstração de que o passado fala mais forte nos seus julgamentos ao trazê-lo à tona.2007. porém nos Estados Unidos no Canadá a situação foi detectada inversamente. como ensinar a bioética como uma disciplina única como em algumas faculdades. como parte de um todo maior denominado ética médica. fato que não existia há 10 anos passados(8). Trabalhos de abrangência maior nos mostram que as faculdades de medicina ainda organizam seus cursos na maioria dos casos com a denominação Deontologia. Portanto. com abordagem de temas como literatura. ou seja. organizando assim o que é chamada educação humanizada. este ainda resquício do início do ensino da Ética Médica ensinada anteriormente nos cursos de medicina por mestres como Oscar Freire.Centro Universitário São Camilo . a prioridade de cada reflexão a ser realizadas. Neste início de curso a cadeira de bioética foi programada para ser administrada no 4º semestre (2º ano) segundo a ementa aprovada pelo MEC. essa submissão aos pensamentos dos familiares foram acatados sem sequer uma discussão. neste primeiro contato procuramos mostrar que esta carreira escolhida tem uma história milenar e que desde seu início foi pautada por situações que devem ser vistas como um momento de reflexão.

Cada um traz dentro de si uma carga de sentimentos. a sua possibilidade econômica de subsistência para sua formação profissional. quando partimos para a introdução da bioética como matéria curricular. E então nos pedem coisas mais concretas. imaginam a carreira médica das mais variadas formas possíveis. ou melhor. transgênicos e outros. Começamos a instigar a necessidade do aprimoramento técnico como médico. Quando nos foi dada a incumbência de ministrar bioética para os alunos da faculdade de medicina. não existe diferença dos tempos atuais. Falamos sobre o início da bioética com Potter e suas intenções quanto ao futuro da ciência se não houver um norteador para as pessoas que trabalham com ela. não só com ênfase de uma melhoria clinica para seu paciente. Alguns indagam o porque dos médicos terem que observar os preceitos éticos e outros profissionais nem tanto. o mundo atual. mas princípios como utilitarismo. que em cada momento histórico. ou opinar sobre o fato. que de certa forma moldou seu caráter até então. nos perguntam por que marcamos o "final da vida" como a morte cerebral.1(1):76-90 Passeamos pela história médica e seus períodos no tempo. tentando resgatar para o aluno o principal do pensamento. Ao mesmo tempo. considerando até onde esta disciplina pode influenciar suas carreiras. Ao demonstrarmos o início das leis no código de Hamurabi. a sua inserção em um mundo que age de uma forma e o cobrará de outra. e que darão rumo à sua vida desde então. outros de famílias que fazem verdadeiro malabarismo para custear seus estudos. posições sociais. mas de uma necessidade de conhecimento para poder confortá-lo além do curar. próprio ou em parte semelhante e que no período de formação como ser humano social será submetido a uma maratona de matérias. por vezes tentando impor seu ponto de vista ao invés de abrir uma discussão a respeito. ou apresentar todas as possibilidades e deixar que ele forme sua opinião para depois conversar o direcionamento da questão? Ou então ainda. e neste 85 . uma vez que iniciamos a reflexão do ponto de vista do aluno. tudo isto tentamos discutir com eles para a verificação da importância na sua escolha profissional. com os ditames de Harvard (protocolo de morte cerebral) e não marcamos o "início da vida" quando se completa o sistema nervoso ao redor da décima segunda semana? As indagações se avolumam à medida que seus conhecimentos vão crescendo e que sua moral entra em rota de colisão com algo novo e que nunca tinha sido observado daquela forma e que nunca tinham tido a percepção de que neste momento estariam se defrontando e tendo que agir. passam a se reunir com uma série de outros alunos que também possuem este tipo de modo de vida. outros não têm este aparato na sua formação. religiosas. Então como trazer para estes jovens das mais variadas formações um pensamento que os faça refletir de uma maneira mais coletiva possível em relação à carreira médica. os alunos observam que apesar do tempo passado. cada descoberta. seja de nova patologia ou nova terapia. marcando o seu princípio nas mais variadas fases do desenvolvimento embrionário. Então daremos ao aluno armas para se equilibrarem na reflexão de um problema. leva a uma nova reflexão em relação ao advir desta situação. de uma diferenciação médica na qualidade profissional. ou seja o universo formado tem uma gama fenomenal de pensamentos. começamos a pensar e vivenciar o quão é difícil esta missão.2007. Alguns vêm de famílias abastadas. seus credos. Ao discutirmos "início de vida". não somente a teoria principalista de Beauchamp e Childress. sua cultura.Centro Universitário São Camilo . Explanando sobre a democracia e Péricles e depois o seu final.a ética? A formação social deste aluno. transplantes.os alunos encontram-se em uma fase de auto-afirmação importante. Exatamente como estamos passando agora com células tronco. a sua visão da área médica atual. ou seja. notam que desde então existia nítida diferença entre ações médicas em escravos e gentios. aproveitar de seu pensamento e daí cultivar as diretrizes da bioética? Aproveitar a moral para direcionar para algo maior. políticas e culturais estabelecidas e vividas no seio da família e. Introduzimos os conceitos de princípios.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . tolerância e outros. sabendo dos limites da medicina atual. Estes vêm de lares com uma moral de certa forma já estabelecida. pois vêm de um lar com pais médicos e portanto com um norteador muito forte ou para ser seguido. com forte caráter curativo às vezes e outras com grande penetração social e ascensão social. Após este inicio voltamos a nos encontrar no 4º semestre. importantíssimas. Aí então foi nosso primeiro impacto com o ensino da bioética: deve o professor interferir no pensamento do aluno e tentar modifica-lo. o respeito pelo outro. Muitos já trazem uma carga genética forte para a arte médica. assinalando cada época com seus dilemas e instantes reflexivos.

Portanto se os próprios seres humanos diferenciam em alguns mais humanos que outros. o crescente aumento de conhecimento pelo aluno de sua imensa responsabilidade social. sem discussão prévia de problemas sociais como miséria. mas que em poucas vezes durante sua vida acadêmica foi mostrada a importância da sua opinião e até onde ela pode acarretar conseqüências importantíssimas na vida de um outro ser humano. de varias partes do mundo e que por sua enorme simplicidade e pela enorme gama de "centrismos" do ser humano.Centro Universitário São Camilo . verificamos que desde o início dos pontos citados na ética. Neste momento vemos a dificuldade que existe para raciocinarem sem terem sido apresentados às escolas filosóficas e seus pensamentos ou pensadores. mediante o progresso cientifico-tecnológico. Partindo desta proposição devemos ver o ensino da bioética considerando variáveis que se multiplicam dia-adia. final de vida e outros. como em grupos de análise. sentidos e "conceitos" mais simplistas. abarca tudo e todos. tanto nas escolas. conhecimento em artes. os novos aspectos religiosos. e com isso a ética. e demais cadeiras que são necessárias para a formação profissional. prolongamento de estado vegetativo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após esta explanação acima. Associa-se a tudo isto um aluno que chega na faculdade de medicina sabidamente ávido para os conhecimentos médicos e trazendo dentro de si uma moral que até então foi inculcada durante anos e que nesse momento vai se defrontar com morais de outros alunos.pensamos que devemos encarar a bioética como uma parte em um todo muito maior. a grande quantidade de alunos que chegam. pois são tabus difíceis de serem conversados sem causarem mal estar ou constrangimento. que é o congraçamento entre as disciplinas técnicas. Vivemos em um mundo que diariamente surgem situações conflitantes de interesses. Então como poderão conversar com familiares de paciente nestas condições? Explicarão somente os dados clínicos da patologia e seu desenrolar estatístico. Avolumam-se fatos nos quais a morte de uma pessoa se tornou uma banalidade. procurando o não envolvimento com a situação emocional dos envolvidos? Temos então o primeiro óbice a transpor. Neste momento fazemos a observação de um pensamento ético universal para que eles compreendam o que é multidisciplinaridade na chamada "lei de ouro". como poderemos viabilizar uma regra universal de conduta (postura) ética neste caso? nações têm culturas diferentes. uma guerra se tornou uma banalidade! Como fazer este aluno pensar nisto sem ocasionar uma mudança nos conceitos já embargados? Até o momento utilizamos estudo em grupo. que foi explanada de várias formas. fome. como no próprio lar. na sua vida social e mesmo espiritual. solicitando a participação ativa. com regras médicas-legais estabelecidas e codificadas.2007.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . o progresso cultural. mesmo assim. discutindo os temas éticos à luz destas premissas. seu semelhante em todos aspectos e esperanças. dando a ele condições de vivência médica. mesas e discussão com outros profissionais das áreas correlatas à ementa de bioética. pelos mais variados iluminados. bem ou mal informados. o cuidar depois de cessado todas possibilidades terapêuticas. exemplo Estados Unidos e Iraque.1(1):76-90 momento temos que observar e iniciarmos um trabalho para que eles entendam que existe algo acima do pensamento material do maniqueísmo do certo e do errado. os quais demonstram cada vez mais o poder da força e do poder econômico na vida das pessoas. porém com uma grande coerência lógica. que devem ser compreendidas e respeitadas. Mas. Sem saberem como pensam seus familiares mais próximos sobre patologias limitantes. Um segundo ponto é tentar mostrar para o aluno a importância de observar as alterações ao seu redor e filtrar aquelas que por ventura possam distorcer sua convivência com o outro no seu trabalho. como código de Hamurabi por exemplo. e ainda com situações conflitantes com sua moral 86 . é impossível de ser aplicada "Não faça ao outro o que não quer que lhe façam". e estamos obtendo um gratificante retorno de idéias.entre outras. uma simplicidade que é peculiar à ética. houve diferenciações nas diversas sociedades em relação à classe social dos indivíduos e às suas implicações referentes à conduta a ser tomada perante fatos similares e julgamentos diferenciados. algo que traduz o conhecimento humano com todas suas linhas de pensamento e que se chama filosofia.

Centro Universitário São Camilo . seu engajamento com a ética médica. a complementação entre a técnica e a ética a ser observada. no qual em certas escolas o tema ética médica é fundido com o tema bioética. se acima foi dito que será praticamente impossível fazê-lo? A resposta está no preparo da ementa do curso de bioética. A aplicação da ementa deve ser progressiva e embasadora. assim como com aqueles que surgem diariamente com o progresso científico. Canadá.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . como não médicas. Neste momento temos algo que é comum. O docente deve manter um rol de colegas de cadeiras médicas. ampliando com suas indagações e abrindo novas perspectivas de reflexão. Em alguns países. bioética deveria fazer parte de um complexo maior de disciplinas englobadas em um bloco. sem deixar de considerar elementos que permitam introduzir a filosofia. no meu entender. até certo ponto. pois assim sendo o aluno terá mais uma vertente para observar e refletir. Sob este prisma o docente deve observar o conteúdo programático. religião. apresenta uma vida pulsante. na mídia e com o contato com os pacientes. o que se caracteriza como praticamente impossível devido à complexidade de informações em cada especialidade. porém pontos de reflexão que dêem uma visão pluralista ao fato em questão. Em algumas escolas internacionais a bioética faz parte de um contexto maior. a inserção da bioética dentro de um contexto muito maior e não vê-la de uma maneira isolada. no qual iniciar-se-ia uma estruturação no comportamento do aluno. como de biólogos.1(1):76-90 prévia. sociólogos. Mas não vejo isso como algo desanimador. que tenham um pensamento em comum em relação às virtudes contidas na bioética. filósofos. a bioética é ministrada desde o primeiro ano do curso de medicina. 87 . várias especialidades.2007. Um contexto em que se aplicam outras facetas que se tornarão importantíssimas após não haver mais solução técnica para o fato. a participação dos alunos.27). a ação do cuidar na medicina. as artes relativas com a especialidade e a religião. abrindo um leque maior de conhecimento para suas reflexões. Portanto mais vários óbices para uma regra universal de ensino. O relacionamento entre o corpo docente. penso que seja mais um fator de diferenciação das escolas médicas entre si. ao referirse ao caráter multidisciplinar da bioética. história e penetração ampliada em relação à ética médica. possuindo currículo próprio. antropologia social e humana. aproveitando a moral trazida consigo. para ampliarmos as fronteiras da aceitação mais abrangente possível para fatos novos e situações inusitadas. sobretudo quando da constatação de que é praticamente impossível alguém deter todos os conhecimentos necessários para o ensinamento de bioética. envolvendo em seu bojo. ética A formação do docente é de suma importância. literatura. o que não é de se estranhar pois desde a sua concepção a bioética tem para alguns a impressão digital da ética com uma roupagem nova que veio para reavivar esta última. vibradora e reflexiva que constantemente deve ser reavaliada. um fator importante na qualificação de uma faculdade. porém tiveram que ministrar curso de bioética para outros médicos que se identificaram com a disciplina para suprir professores médicos nestas faculdades. pois uma mesma aula em dois grupos diferentes pode ter um desfecho mais abrangente em um que outro por sua participação. um conjunto de aprendizado que passa pela filosofia. Mas como isto poderá ser realizado. sua vivência e suas experiências profissionais.reafirmado em Potter.uma vez que bioética em sua dimensão e pela própria definição é de caráter interdisciplinar. Mas em que tempo deveria ser ministrada a bioética? Neste ponto temos até o momento uma variada gama de instantes que a ética/bioética é ministrada nos cursos de medicina como foi demonstrado(8. O docente teria que ser um expert em diversas especialidades. muito pelo contrário. pois o ensino de bioética muito bem direcionado formará profissionais com uma visão clinico e cuidadora mais moldada às necessidades do ser humano em todas as fases da sua vida. No meu ponto de vista. em um ir e vir.entre outros. Para outros a bioética tem um caráter mais especifico dentro da cadeira de Ética Médica dentro da faculdade de medicina. Ao planejar um cronograma de bioética propomos mesclar conhecimentos clássicos da bioética aos conhecimentos que os alunos desejam refletir. propiciando ao aluno um constante e enriquecedor alicerce para seu futuro. médicos. a solidariedade no campo social. Será. Isto vem de encontro com a proposta da World Medical Association que recomendou a inclusão da ética médica no currículo das faculdades de medicina. artes. Outra resposta está na formação do corpo docente da matéria. assim criando uma nova cultura na profissão médica.

talvez faz com que dêem valor maior para as cadeiras com enfoque utilitarista. simpósios via internet. até a tradicional aula magistral. com seminários. mas que ao se ver na situação referida se recorde e aplique de uma maneira correta o aprendizado reflexivo adquirido. A forma que deve ser ministrada a bioética é outro ponto a ser muito bem elaborado. pois para um bom profissional sempre haverá o reconhecimento pelo outro. o comércio não tem local na profissão de médico(37). às formas de publicidade. do que aquelas menos diferenciadas. em vista de que professores de outras áreas já ministram aulas nestas casas. Outra condição que geralmente ocorre é que a maioria dos alunos é jovem e não tiveram contato ainda com pacientes. Porém os tópicos fundamentais devem ser mantidos. Hoje contamos com uma vasta gama de recurso para ilustração de aulas. A filosofia e suas correntes principais relacionadas com o pensamento humano e com a medicina. não dão um devido valor à matéria. que além de podermos observar o conteúdo do fato podemos observar o sentido de criatividade e a força com que o fato está atingindo o representante. as mudanças comportamentais relacionadas à evolução social fazem com que sejam revistas as condições sob as quais o comércio deva ser considerado. Quanto mais diferenciada economicamente a região terá diferentes problemas para se resolver. acrescentando reflexões com novos conhecimentos. cuidados humanos. aos preços fixados pelo trabalho. Ao passar dos anos e com contatos com pacientes e com fatos sabidos de outros colegas que tiveram problemas junto aos conselhos de medicina. desde filmes. não ligadas a uma universidade.entre outros. Apesar desta variabilidade de recursos devemos ter sempre em mente que devemos suscitar no aluno a importância de sua reflexão para o fato em questão. na deontologia e confirmado pela maioria dos professores médicos de todo o mundo. deveria ser introduzida e acompanharia o aluno até o final do curso com ênfase ao que é chamado de bioética ao lado do leito. história da medicina. Em algumas localidades o mesmo professor ministra aula de ética médica nas duas faculdades existentes no local(27).1(1):76-90 associando-a a um estudo desde o início do curso até o final da residência médica.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . deontologia e diceologia. não existe número suficiente de professores de bioética com preparo adequado para tal.e as resoluções e leis que advieram após o aumento das reflexões bioéticas no mundo. neste momento devemos orientá-los que como profissionais devem pensar nesta ascensão como uma conseqüência e não um objetivo a ser incansavelmente perseguido. Então chegaríamos no ponto mais difícil desta troca de informações entre professor e aluno. prova subjetiva. relacionando-o. etc.2007. Como avaliar essa passagem de informações entre os dois? O primeiro desafio é aquele que muitos estudantes. Até em países ditos de primeiro mundo para um curso mais próximo do ideal. O aproveitamento de docentes de outras áreas não aumentaria o ônus da universidade.. A avaliação do aprendizado pode ser realizada de várias formas como por exemplo. em conseguir o número de professores necessários. com reciclagem em congressos e cursos de atualização da especialidade (não como um curso somente de bioética). em detrimento a cadeira subjetiva como é a Bioética. Fisiologia. para conhecerem os deveres e direitos médicos. Como dito anteriormente. com conseqüente valor agregado de seu trabalho. Aí teríamos alcançado nosso objetivo. para outros uma forma de ascensão social com melhoria de proventos. sua sociedade responderá diferentemente à fenômenos culturais. Esta proposta de ensino parece ser viável. por exemplo. diapositivos eletrônicos estáticos ou dinâmicos. seminários. chegando até à drama- tização. aqueles que irão salvar vidas. como Anatomia. procuram objetivar suas atenções para os fatos citados nas aulas de ética/bioética anteriores(27). os casos paradigmáticos. pois em suas concepções o curso é para formar médicos. As artes. no início do curso. literatura. que acompanhe o aluno desde o seu ingresso na faculdade de medicina. A ementa neste caso pode e deve variar quanto a regionalidade da faculdade de medicina. antropologia seriam ministrados com especialistas e em formato de mesas redondas dirimir dúvidas.Centro Universitário São Camilo . provas objetivas e trabalhos realizados com consulta em biblioteca e via on-line. porque os problemas locais têm uma razão direta de ocorrência com a qualificação do local vivido pela sociedade nativa. Porém. discussão em grupos. que na maioria das vezes não surge naquele instante. paciente e familiar. conferências simultâneas. como por exemplo a história da bioética. mas devemos levar em consideração as dificuldades administrativas que as faculdades ou as localidades onde estão situadas as faculdades. raciais e outros. os princípios. haja vista o Canadá como mencionado acima.em conformidade a um padrão ético-social adequado. porém sempre de difí- 88 .

mas existe também o ato de aprender com o aluno. conforme os critérios de Harvard. ementa única de ensino. como a morte encefálica de um paciente.2007. Portanto falar em universalização da bioética. Principalmente quando esta lei vai de encontro à nossa moral e ditames da nossa profissão. o que foi muito divulgado na obra de pedagogia conscientizadora de Paulo Freire. Nosso intuito maior é abrir um espaço dentro de toda a enxurrada de informações médicas que são expostos estes alunos para uma ilha. cumprí-las.Centro Universitário São Camilo . sem observar a moral dos alunos e compreende-la. onde poderão encontrar algo que os apóie e conforte nos momentos mais importantes de sua carreira profissional: Curar sempre que possível. por exemplo. Feito isso observamos como seria esperada uma variação de respostas para o mesmo fato. que seria tido como uma lei para aquela turma em relação aos demais fatos que pudessem vir após a concepção como os embriões excedentes. devem ser muito bem estruturadas estas ações. inicio de vida. Nesse momento eles observaram como são feitas as leis.1(1):76-90 cil quantificação pois é de caráter subjetivo muitas das ações bioéticas até o momento. pois aquela minoria que não teve sua opinião aceita como a decisão final. sempre é de difícil aceitação desta realidade. mas algumas outras ações são objetivas. assim como na pós-graduação. dividindo-os em 5 grupos de 10 alunos e solicitando para que eles refletissem. como a discriminização do aborto. pois não somente existe o ato de ensinar. Após as explanações pedimos que os 5 representantes se reunissem e deliberassem um momento para o inicio de vida. como por exemplo caracterizar com exatidão o início da vida.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . ou seja a arte de ser médico. Posteriormente cada grupo traria sua classificação e nomearia um representante do grupo que faria a exposição dos motivos que levaram o grupo àquela escolha. “Bioética nada mais é do que os deveres do ser humano para com outro ser humano e de todos para com a humanidade”. (André Comte-Sponville) 89 . lembrar que sempre é possível cuidar e fazê-los sempre com respeito e conhecimento. cada grupo. Certa feita realizamos um trabalho em grupo com 50 alunos do 4º semestre da faculdade de medicina. ensiná-la como outra matéria do currículo médico. sem a observância do período contínuo do 1º ao 6º ano do curso. a respeito de que momento. como é difícil fazê-las para satisfazer a todos e o que também é muito difícil. desde a concepção até o nascimento. sem observar fatores como a regionalização da faculdade. haveria vida no ser humano.

129.Interdisciplinary approaches to environmental education. 23. 22 (6):370-374.11(2):34-42. 2006. (Discurso de abertura). Potter VR.Centro Universitário São Camilo . Tong R.Don`t cry for us argentinians: two decades of teaching medicals humanities. Thailand. p. Palestra apresentada em vídeo no IV Congresso Mundial de Bioética. O Mundo da Saúde.1910. Grisard N.Eisele RL. Bioética e longevidade humana.Carnegie Foudation for the advancement of teaching. (Environmental Education. São Paulo 1998. 5.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . 15.348-55. 6.Bioética. A formação ética dos médicos: saindo da adolescência com a vida ( dos outros) nas mãos.14 :127-153. London 2003.2007.Ética para os futuros médicos: é possível ensinar? Brasília: Conselho Federal de Medicina. Siqueira JE. 26. Minidicionário da lingua portuguesa. Rio de Janeiro 2003. 8. Patrão. Medical education.In: Barchifontaine CP.91-102. 10. Bioética 1996.Japão.Japão. Paris: Unesco. Chicago2002.2002. Muñoz DR. Flexner A.) Bioética: alguns desafios. Barr DA.Hiromi M.Problemas atuais da bioética. Brasília. 18. 4-7. Bankok. p. Pessini L.O ensino da ética nas faculdades de medicina do Brasil. p.Interdisciplinary approaches to environmental education. Acuña LE. Nicolescu B.1999-2007 Potter VR. 1987.51(1). 12. Bioética 1996.Pessini L. 22. 25 (4) :428-432. Potter VR.(Orgs. 14).Rev Assoc Méd Bras 2005. Rego SA. 24.Situações eticamente conflituosas vivenciadas por estudantes de medicina. Felice J. 16. São Paulo 2005. Cohen C.4(1) :47-51. Barchifontaine CP. Conselho Regional de Medicina de São Paulo.Teaching in spanish medical schools. 90 . Lenoir N.26 (2): 66-70. Tóquio.São Paulo:Cremesp. Massachusetts. 19.Pessini L. Bioética 2002. Perspectives in Biology and Medicine. 20. Neves MC. 2.(Orgs. 30. Barbosa de Deus B.Souchon C. Palestra apresentada em vídeo no IV Congresso Mundial de Bioética. 11. Bioética 2003. Muñoz D. 32. 28.Bioética e Direito. 1985. São Paulo: Loyola/Centro Universitário São Camilo. Medical Teacher. 34.Giordan A. Chicago 1970. Discurso gravado no IV Congresso Mundial de Bioética. 2006.29 (3): 438-43.Giordan A.4 (1): 7-16.P Promover o ensino de bioética no mundo. 4-7. 5.Bioethics. Princípios de ética biomédica. Siqueira JE. Journal of Medicine and Philosophy.2004. Felice J. In: Congresso Internacional A responsabilidade da Universidade para com a sociedade.).Ética médica e bioética: a disciplina em falta na graduação médica.Como ensinar bioética. Camargo MCA. 4. the science of survival.A evolução transdisciplinar na universidade: condição para o desenvolvimento sustentável.Language scientifique et discours politique.2001. Ferreira ABH.Bioética 1993. Jacquard A. São Paulo: Departamento de Informática da Codage/USP.Rio de Janeiro: Fiocruz.Muñoz DR.1998. p.). 14.Souchon C. O ensino da bioética nas escolas médicas. 1985. Bioética. New England Journal of Medicine. nov.1:91-95.11-30.ed.Teaching bioethics in the new millennium: holding theories accountable to actual pratices and real peolple. In:Congresso Mundial de Bioética. 7. 13. Waltham.Dallari SG. São Paulo: Centro Universitário São Camilo: Loyola. 1998. Garrafa V. Paris: Hachette.639. Revista Brasileira de Educação Médica.140. poder e injustiça: por uma ética de intervenção. São Paulo: Centro Universitário São Camilo/Loyola. p. Bioética e longevidade humana.Resolução n 101. 21. Medical Humanities. O Mundo da Saúde. de 29 jan 2002.1(1):76-90 REFERÊNCIAS 1. 27 (2):114-124. cidadania e controle social. Potter VR. Bioética. 4 (1): 65-70.In: Barchifontaine CP. 6. Anjos MF. Sistema Júpiter. (nov 12-14).2003.10 (1): 97-114. Tóquio. p. 17. Bioética 1996. 31. Stella R et al. 2007. Cohen C. Bioética 2002. 22 (6):370-374. Neves NC. A fundamentação antropológica da bioética. In: Barchifontaine CP. 337-47. London 2000. São Paulo 2005. 27 (4): 417-432.2002. 6. 2001. Bombi JA.10 (1):85-95. O Mundo da Saúde 1998.Pessini L(Orgs. 2006.Medical education i United States and Canadá. 29. O ensino da ética médica e o horizonte da bioética. nov. 25. Paris: Unesco. 1997. 3. 9.profissionalism. O ensino da bioética no curso médico. 33. 27. O Mundo da Saúde. O ensino da ética no curso de medicina: a experiência na Universidade Estadual de Londrina.ed.Childress JF. São Paulo:Loyola. Beauchamp TL.29 (3):432-37.2002. São Paulo: Centro Universitário São Camilo/Loyola. Curitiba: Posigraf. Disciplina: MLS0413.

tienden a ser más eficientes mientras que se crean oportunidades respecto a la discusión de la práctica y de los estudios profesionales.Moving towards the observance of beneficence. It aimed to show how participating nurses interpret the reality of their practice.br ** Professora Assistente Doutora. Faculdade de Medicina de Botucatu . Faculdade de Medicina de Botucatu . Pretende demostrar cómo los enfermeros participantes interpretan la realidad de su práctica. A organização dos dados registrados e análise foi feita à luz da Grounded Theory. Teve os objetivos de apreender como os enfermeiros participantes do estudo interpretam a realidade da sua prática.com.Dealing with situations that frustrate the practice of beneficence and 2 . Faculdade de Medicina de Botucatu .UNESP. Departamento de Enfermagem. RESUMEN: Se estudiaran referencias de la beneficencia y su práctica según enfermeros recién-graduados que trabajan en un hospital del Estado. * Professora Assistente Doutora.UNESP. Beneficência. Las acciones hacia la beneficencia. PALABRAS LLAVE: Enfermería. ABSTRACT: This study examined beneficence references and its practice as followed by newly graduated nurses that work in a State hospital. también identificó y problematizó aspectos de la práctica social respecto a los principios bioéticos de la beneficencia y de la non-maleficencia y precisó las trayectorias para superar los problemas identificados. Beneficence.UNESP. however timid.El ocuparse de las situaciones que frustran la práctica de la beneficencia y 2 .UNESP.marchando desde el deseo a la práctica de la beneficencia. Departamento de Enfermagem. Bioética.2007. La asociación de los dos fenómenos levantó la categoría central .1(1):91-98 Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência Moving from the desire to the practice of beneficence Marcha desde el deseo a la práctica del la beneficencia Heloisa Wey Berti* Eliana Mara Braga** Ilda de Godoy*** Wilza Carla Spiri**** Silvia Cristina Mangini Bocchi***** RESUMO: O estudo enfocou o referencial da beneficência e sua observância por enfermeiros recém formados que se encontram trabalhando em um hospital público estadual. Este estudo evidenciou alguns fatores que impedem os enfermeiros de praticar a beneficência. This study brought up some factors that hold back nurses efforts to practice beneficence.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . identificar e problematizar aspectos da prática assistencial frente à observância dos referenciais bioéticos de beneficência e não-maleficência e apontar caminhos para a superação dos problemas identificados. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem. tendem a se tornar mais eficientes à medida que forem criadas oportunidades para problematização da prática profissional. seus envolvimentos e suas atitudes de resistência.Marchar hacia la observancia de la beneficencia. Se utilizó un método cualitativo de análisis. Beneficencia. Os movimentos em direção à beneficência. and the focal group technique was the tool chosen for collecting data. Bioética. Este estudio revela algunos factores que perjudican los esfuerzos de los enfermeros en practicar la beneficencia. **** Professora Assistente Doutora.Centro Universitário São Camilo . Departamento de Enfermagem. utilizando-se a técnica de grupo focal para coleta de dados.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência. Faculdade de Medicina de Botucatu . Two different phenomena were observed: 1 . su involucración y sus actitudes de resistencia. y la técnica del grupo focal fue la herramienta elegida para recoger datos. Departamento de Enfermagem. their involvement and resistance attitudes. embora ainda tímidos.Moving from the desire to the practice of beneficence. Foram identificados dois fenômenos: Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência e Movendo-se em direção à observância da beneficência. E-mail: weybe@uol. tend to become more efficient as opportunities regarding the discussion of professional practice and studies arise. Grounded Theory was the method used for data organization and analysis. Departamento de Enfermagem. A qualitative analysis method was used. aunque tímida. Se observaran dos fenómenos fueron observados: 1 . *** Professora Assistente Doutora. O método foi qualitativo. ***** Professora Assistente Doutora. La Grounded Theory fue el método usado para la organización y el análisis de los datos. Actions towards beneficence. Bioethics.UNESP. O inter-relacionamento desses dois fenômenos fez emergir a categoria central . 91 . KEYWORDS: Nursing. Faculdade de Medicina de Botucatu . it also identified and problematized aspects of social practice regarding the bioethical principles of beneficence and nonmaleficence and pointed out paths for overcoming the identified problems. The association of the two phenomena raised the central category .

e uma ética utilitarista. Os participantes selecionados para comporem o grupo foram 15 enfermeiros que se encontravam atuando em diferentes áreas da instituição e que concordaram em participar da pesquisa. Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência. consideramos que os profissionais devam se pautar por práticas responsáveis e solidárias. Neste estudo.Movendo-se em direção à observância da beneficência. "é a base do que se poderia chamar de moralidade de assistência social e solidariedade" (p. maximizando benefícios e minimizando prejuízos(5). O referencial bioético da beneficência diz respeito ao bem comum e à solidariedade humana que. significa atenção. A atitude de cuidado pode provocar "preocupação.Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência . utilizou-se a técnica de grupo focal para coleta de dados. à luz da Grounded Theory. utilizando os referenciais bioéticos da beneficência e nãomaleficência. que nem sempre questiona a ordem estabelecida. Foram obedecidas as seguintes etapas: a) após as apresentações dos participantes. Neste estudo. c) foi apresentado o relatório do estudo aos participantes e discutido o tema: "Caminhos para a superação dos problemas evidenciados". assinando o Termo de Consen-timento Livre e Esclarecido. Procedimentos Metodológicos Adotou-se a abordagem metodológica qualitativa indutiva de exploração. Grupo focal é um grupo de discussão informal. Movendo-se em direção à observância da beneficência Foi possível a identificação de dois fenômenos: 1 Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência e 2 . a vida. Entendendo a vida como um valor ético. revelando as percepções dos participantes sobre os tópicos em discussão.1(1):91-98 INTRODUÇÃO Os referenciais bioéticos têm sido instrumentos importantes para análise de dilemas e conflitos morais que surgem no cotidiano dos profissionais de saúde(1). bom trato. solicitando e obtendo autorização para o desenvolvimento do estudo. ainda persiste uma ética alienada. Os códigos de ética que orientam o agir dos profissionais de saúde contêm grande número de prescrições referentes à promoção de benefícios e prevenção de danos à saúde. fim em si mesma e não meio. o grupo foi convidado e estimulado a falar sobre sua prática assistencial e suas experiências na instituição e em seguida a refletir sobre essa prática. inquietação e sentido de responsabilidade"(p. até com o objetivo de alcançar a própria salvação(4). dos objetivos do estudo e dos referenciais da Bioética. ao menos.7). tendo sido aprovada sua execução. o enfoque será dado ao referencial da beneficência e sua observância por enfermeiros recémformados que se encontram trabalhando em um hospital público estadual. de tamanho reduzido. Apreender como os enfermeiros participantes do estudo interpretam a realidade da sua prática. Foram seguidas as seguintes etapas: encaminhamento do projeto ao diretor do hospital. as autoras deste estudo propõem a apropriação destes por enfermeiros de um Hospital Estadual para análise problematizadora da sua prática assistencial. encaminhamento do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP. segundo Engelhardt(2). transversal e qualitativo. 91). de acordo com Boff(3).ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . com o propósito de obter informações de caráter qualitativo e em profundidade. decisão e descoberta(8). organização dos dados registrados e análise. desvelo. respeitando diversidades. O registro da discussão foi feito por escrito pelos observadores e por meio de gravação em fitas cassete(6.Centro Universitário São Camilo .2007. 160). não causar danos".serão apre- 92 . identificar e problematizar aspectos da prática assistencial frente à observância dos referenciais bioéticos de beneficência e não-maleficência e apontar caminhos para a superação dos problemas identificados. A origem do princípio da não-maleficência encontrase em Hipócrates: "cria o hábito de duas coisas: socorrer ou. Embora esses códigos destaquem o compromisso dos profissionais com a transformação da realidade. que prevê o alívio dos sofrimentos. sendo ela. Socorrer ou cuidar. cujo valor íntimo é a dignidade. Entendendo que o exercício da enfermagem deve fazer uso dos referenciais bioéticos nas reflexões sobre sua prática. Os temas que compõem o fenômeno . o qual não permite equivalente. A finalidade deste trabalho foi a de criar espaços comunicativos e de reflexão ética sobre a beneficência e nãomaleficência no exercício profissional. Exploratório. b) os autores se reuniram para transcrição dos diálogos. solicitude.

.Impedimentos à beneficência Percebendo dificuldades decorrentes da desorganização do sistema A falta de diversos especialistas em serviços de prontosocorro gera complicações maiores no estado de saúde dos pacientes.....]o médico plantonista do PS era de outra especialidade sem experiência no diagnóstico de enfarto[. "[. sendo necessário. a úlcera de decúbito poderia ser prevenida se houvesse colchão de ar para todos os que necessitam.]para muitos pacientes seria possível tomar algumas medidas preventivas.... sendo que as escolhas feitas em benefício de um paciente poderão ser em detrimento da atenção a outro paciente. "[.. mas não há".Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência . porém nem sempre existe esta possibilidade".. "Muitas vezes o melhor seria o encaminhamento dos pacientes para serviços com mais recursos.]nossa principal dificuldade é a escassez de pessoal de enfermagem porque impede a assistência adequada".. A ... "A gente prioriza os cuidados. mas isso pode não contemplar todos os necessários". "[.2007.. Percebendo que a falta de material impede a adoção de medidas de prevenção aos agravos O número insuficiente de alguns materiais leva o enfermeiro a ter que escolher qual o paciente será beneficiado pelo usodesses materiais.Centro Universitário São Camilo . impedindo a realização de todas as atividades necessárias".]a família observa a necessidade do paciente e nos critica porque não podemos dar conta em razão do reduzido número de funcionários". "[..]" "São muito freqüentes as faltas e licenças de funcionários e isso tem prejudicado a assistência". "Temos. com prejuízos para os pacientes.]é freqüente a gente receber paciente enfartado procedente do PS sem uso de medicação específica já tendo desenvolvido complicações. dificuldades para prestar assistência pela falta de responsabilidade por parte de certos funcionários".]então será necessário fazer uma escolha de pacientes e isto não vai atender a todos os que necessitam" Constatando que as ausências de funcionários ao trabalho e escassez de pessoal dificultam a assistência e impedem a beneficência A falta de funcionários gera a necessidade de se estabelecer prioridades para as decisões relacionadas à assistência.]" "[. auxílio ao paciente nas deambulações...]se houvesse o especialista o atendimento seria adequado e erros seriam evitados". "[.. com isso. "Nessas situações de excesso de pacientes e falta de pessoal de enfermagem há também prejuízos do ponto de vista psicológico".]existem ainda as situações onde se abrem leitos extras sem o aumento de funcionários e isso impossibilita a adequada assistência". a beneficência fica comprometida. e isso é que é o pior"..1(1):91-98 sentados a seguir nas letras "A". o adiamento de alguns cuidados. não contribuindo.]por exemplo.. O encaminhamento desses pacientes para serviços com mais recursos nem sempre é possível. que não consideram as necessidades de cuidados de seus pacientes. Observando a falta de comprometimento de funcionários com a assistência Há dificuldades para a prestação de assistência devido à falta de responsabilidade por vezes observada entre o pessoal auxiliar.. "Quando abrem leitos extras a gente não consegue fazer as mudanças de decúbito conforme as necessidades dos pacientes". 93 ... "Temos funcionários que são indiferentes ao trabalho[. "C" e "D" e respectivas categorias. "[..]a ausência de funcionários no plantão dificulta a assis-tência aos pacientes.. "[. como mudanças de decúbito. muitas vezes. para a beneficência. ainda. Refletindo sobre a incompatibilidade entre número de leitos e número de funcionários Abrir leitos extras sem o número de funcionários necessários para os cuidados impede a prestação de assistência adequada.]com a falta de pessoal preciso estabelecer prioridades para tomada de decisão sobre o cuidado".. "B"... mas a gente não consegue colocálas em prática[. causando malefícios". Com isso.]" "Também há funcionários displicentes que não consi-deram que os pacientes necessitam de cuidados[.. que faltam ao serviço e tiram licenças freqüentes. O enfermeiro convive muitas vezes com funcionários indiferentes e displicentes.]" "[. suscitando críticas pelos familiares que percebem a relação entre as necessidades dos pacientes e a falta de pessoal. "[.. os quais são internados já apresentando comprometimentos devido ao atendimento inadequado..]qualquer escolha que eu faça poderá beneficiar um paciente em detrimento de outro.. "[. "[.

os banhos são dados na UTI depois da meia.. para evitar isso.. "[. até porque minha presença nem sempre é necessária". "Deixo de realizar atividades de contato direto com o paciente para fazer outras coisas que consideram mais importantes".. "[.Envolvimentos do enfermeiro com a não observância da beneficência Delegando o cuidado do paciente a outro membro da equipe por não poder fazê-lo.1(1):91-98 Percebendo a dependência que o médico tem do enfermeiro e suas implicações Há médicos que exigem a presença constante e nem sempre necessária do enfermeiro ao seu lado. causando prejuízo ao paciente pela demora do atendimento e prejuízos para o hospital".]desejando oferecer alimentação para o paciente ou minimamente conhecer se este tem condições para se alimentar. três conjuntos de materiais para uso em respiradores foram abertos e não puderam ser usados. com isso.. "[. burocracia". acabei solicitando aos funcionários da equipe de enfermagem para darem a assistência porque eu não poderia fazê-lo" "[. Muitas vezes..Centro Universitário São Camilo .]o cuidado acaba sendo é deixado de lado". resolução de problemas.]esta é uma situação que nos deixa em conflito. entendidas pela instituição como prioritárias. e acabamos delegando as atividades assistenciais para auxiliares e técnicos de enfermagem". certos cuidados são adiados e isso não beneficiará o paciente. "[. Observando desperdício de material e implicações para a beneficência Situações de imperícia profissional levam ao desperdício de materiais. "[. entendem certas situações como desumanas...]temos que desempenhar muitas atividades administrativas/burocráticas".. "[..2007. B . "[.]entre mudar de decúbito e introduzir sonda para alimentação a prioridade é a sondagem".]essas coisas acontecem por imperícia do profissional e comprometem a assistência". dificultando o trabalho desse enfermeiro que. os enfermeiros acabam delegando a assistência aos técnicos e auxiliares de enfermagem.noite em situação difícil porque o paciente está apresentando dor". podendo trazer prejuízos ao paciente. "Muitas vezes temos que priorizar o banho diurno para os pacientes conscientes e o noturno para os pacientes entubados e isto é desumano"[. "[.. "Caso eu me recuse a permanecer ao lado do médico quando ele me solicita.. mas sentindo-se em conflito consigo mesmo Ao serem solicitados a realizar múltiplas atividades e tendo que resolver problemas burocráticos diversos. "[. Percebendo que rotinas estabelecidas impedem a prática da beneficência e invertem prioridades Os enfermeiros são cobrados por atividades administrativas e burocráticas. devido a essas prioridades. sentindo-se.]mesmo que a gente explique que está fazendo outra atividade há insistência por parte dele (médico) em ser atendido"..]um médico utilizou para o procedimento de entubação sete cânulas".. Em Unidades mais complexas.]a UTI tem pacientes complexos e é necessário estabelecer prioridades para os cuidados"[. Tendo que estabelecer prioridades nas unidades mais complexas. em conflito. "A rotina na UTI estabelece que o banho deve ser no plantão noturno e isso é ruim para o paciente".. com freqüência.. pois se assumirmos o cuidado direto da alimentação do paciente deixaremos de atuar em uma outra situação problemá-tica para a qual estamos sendo solicitados". "Sou cobrada para realizar atividades consideradas prioritárias pela instituição". as rotinas estabelecidas nos impedem de praticar a beneficência e isso pode causar sofrimento ao paciente".]somos muito solicitados a resolver os mais diversos problemas. como as UTIs. "Às vezes. podendo caracterizar uma situação desumana e maleficente.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .. vai gerar um grande conflito..]às vezes o médico me pede que o ajude em tarefas burocráticas que são dele".] 94 .. "Muitas vezes... "Outro dia.]como enfermeiros temos que realizar múltiplas atividades: assistência.. opta por atender o médico para não gerar conflitos. verificam que são estabelecidas prioridades de cuidados.. "[.. especialmente os burocráticos. deixo de fazer outras coisas para atendê-lo". abdicando o enfermeiro do contato direto com o paciente. "Existem médicos que exigem minha presença permanente ao seu lado e isso dificulta meu trabalho. então....

"Como coordenadora de unidade. apenas o mínimo. Percebendo-se angustiado quando não pode fazer o bem Angústia. Percebem que é preciso gostar do que se faz para se estar mais envolvido e compromissado com a profissão. fica muito angustiada". "Sou tida como chata por permitir a entrada de vários membros da família para a visita.2007. o enfermeiro não é bem visto Enfermeiros ficam "mal vistos" em situações de quebra de rotinas ou normas da instituição em favor de pacientes.Atitudes de resistência do enfermeiro e enfrentamento de julgamentos Percebendo que alterando rotinas pré-estabelecidas em benefício dos pacientes.Centro Universitário São Camilo . Pessoas que optaram pela enfermagem como profissão pela facilidade de se conseguir emprego envolvem-se mais com as atividades burocráticas. quando tenho que optar"[.. frustração. o que possibilita uma percepção ampliada das necessidades do paciente.. mas sentem-se impotentes quando o profissional solicitado não considera seus pedidos e observações.. preciso escolher entre participar de reuniões ou visitar os pacientes. mas isso gera importante consumo de tempo. "[. 95 . ficando sujeitos a certos julgamentos caso não compareçam..]o gostar do que se faz permite ampliar a percepção das necessidades do paciente". "Os profissionais que têm esta visão só do emprego não se preocupam com o atendimento das necessidades bio-psico-sócio-espirituais dos pacientes.Sentimentos expressados pelos enfermeiros.Movimento do enfermeiro em direção à beneficência e não maleficência Percebendo a necessidade de cobrar de outros profissionais o cumprimento de suas obrigações e suas limitações profissionais O enfermeiro cobra dos outros profissionais da equipe de saúde o cumprimento de atribuições. Exercem um papel fiscalizador.] "[. rotineiramente. serei considerada não participativa e se a escolha for deixar a assistência haverá problemas com a minha consciência". "Tem muitas situações do nosso cotidiano profissional que impedem o benefício aos pacientes com conseqüente angústia. revolta e impotência são sentimentos decorrentes das impossibilidades de no dia-a-dia fazer o bem.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência ... e passar visitas aos pacientes internados para avaliar necessidades de cuidados têm a ver com a segurança da permanência do profissional na instituição. "[. "[. D .. porém sempre há como melhorar e não apenas realizar uma obrigação".]não é reconhecida a beneficência quando se faz o mínimo".]tenho conflitos sobre o que fazer para contribuir mais com a assistência. porém necessário ao benefício do paciente.1(1):91-98 Percebendo o envolvimento do profissional com o seu trabalho como condição para a beneficência e para sua própria satisfação Entendem que o envolvimento do profissional com a sua profissão tem uma dimensão ética....movendo-se em direção à observância da beneficência . não fazer o bem. O fenômeno . Percebem que esse estado emocional acaba tendo reflexos nos seus relacionamentos familiares e/ou sociais.]a confiança vai depender de se sentir seguro na instituição".. frustração e revolta da gente". "É a empregabilidade no setor da enfermagem que conduz pessoas a esta profissão". "Os pacientes internados na minha unidade incomodam outras pessoas de outras unidades porque têm mais liberdade".é apresentado no tema "A" e suas categorias. há profissionais sem envolvimento com a profissão". contrariando normas do hospital". a seguir: C .]a gente tem dificuldades para se sentir confiante A . Se a escolha for não comparecer a reu-nião.. "A falta de envolvimento com o trabalho e com o paciente leva à falta de percepção".. "A gente. mas apenas com as atividades burocráticas". "Vocação é uma questão ética pois quando se faz aquilo que a gente gosta o benefício é maior. no entanto. "[.]existem diferentes métodos de trabalho. decorrentes do seu envolvimento em práticas que não observam a beneficência Questionando escolhas e prioridades que lhes são impostas Os conflitos que surgem entre escolher participar de uma reunião para a qual foram convocados. quando estou sozinha. "[.. "A gente se sente impotente e isso vai ter reflexo no nosso relacionamento pessoal e familiar".

"Acho que resolver o que não ficou adequado é minha função.. as carências de recursos humanos e materiais.. porém no aspecto burocrático precisa haver uma reor-ganização". agregando intervenções específicas (cuidar dual). A instituição está muito atenta à aquisição de equipamentos de alto custo.. de acordo com Ide(9). em determinadas situações. Existe demora excessiva para consertos de materiais e equipamentos.. se sentem impotentes para praticar o bem e impedir o que se considera mau para o doente sob seus cuidados.2007. Delegam suas atribuições ligadas ao cuidado do doente para outros membros da equipe de enfermagem sem o mesmo preparo e estabelecem certas prioridades para dispensar sua atenção. equipamentos mais simples para a prestação de cuidados de enfermagem estão sempre em falta". porém é função das pessoas realizar suas atividades corretamente". "[. em diversas situações ou condições do cotidiano profissional. existem equipamentos para cateterismo cardíaco que quebram e necessitam aguardar um período prolongado para o conserto causando demora e adiamento da cirurgia". mas também para uma 96 . atender telefone.]". A angústia em ter que fazer sua escolha entre as opções que lhes são apresentadas surge do conflito íntimo entre proporcionar o bem ou omití-lo. na qual muitos enfermeiros com certa freqüência se percebem. pode ser conceituado como"seqüência dinâmica e sistematizada de ações necessárias e suficientes para a construção. Nessas situações assumem seu papel de coordenador do processo de cuidar que. 159).].movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência. a disposição para fazer o bem e agir de forma correta podem. porém. Atuando nesse cenário. em outras situações.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . que são importantes para a assistência. para que corrijam etc. Os profissionais de saúde de maneira geral. pois eles se esquecem de tomar suas condutas". aponta não apenas para uma condição profissional frágil. agem de maneira ambígua.. A observância das regras morais sobre o agir profissional estabelecidas nos códigos de ética. Discutindo a temática A identificação desses dois fenômenos e seu inter-relacionamento fez emergir a categoria central . frustração e culpa pelo não realizado.Centro Universitário São Camilo .. mas que poderão ter conseqüências nefastas para o seu futuro na instituição.[. advogando em favor do doente ao exigirem dos demais profissionais envolvidos com a assistência para que cumpram com seus deveres e obrigações perante o doente. Porém. com certa freqüência. serem dificultadas e até mesmo inviabilizadas. os enfermeiros comportam-se passivamente. os quais são de custos bem menores.]por outro lado.... podendo causar prejuízos ao doente." (p. "Nesta instituição existem equipamentos de alta tecno-logia e de alto custo.1(1):91-98 "Perco muito tempo correndo atrás do médico e do serviço de nutrição para que prescrevam.]e a gente ainda se sente impotente quando não consideram as informações e pedidos que estamos fazendo pelo paciente". porém essa preocupação não é percebida em relação aos materiais de uso mais rotineiro para o cuidado. Nesta pesquisa.]muitos consideram isto como fiscalização do trabalho deles". as quais eles mesmos questionam. Isto faz emergir sentimentos de impotência. Ao mesmo tempo em que se percebem tímidos em suas atitudes.. "A gente nota que nesta instituição há mais organização.. "[. Em tais circunstâncias. o despreparo e a falta de compromisso social e ético de alguns profissionais foram fatores apontados como responsáveis pelos impedimentos à beneficência. "[. desempenho e validação do trabalho em equipe de enfermagem. temendo atitudes mais coerentes..]entendo que muitas vezes necessito exercer este papel fiscalizador. executam movimentos em direção à beneficência. atribuindo-se funções burocráticas a um oficial administrativo e não ao enfermeiro. escolhendo a opção mais próxima dos centros de poder.o cuidado. "[. explicados pelas dificuldades com o trabalho em equipe multiprofissional e pelo seu reduzido espaço de governabilidade. "Muitas atividades poderiam ser feitas pelo oficial administrativo ou mesmo por outro membro da equipe como receber documentos. a desorganização do sistema de saúde regional. atrasando o tratamento e a recuperação do doente. receber recados[. os enfermeiros vão se envolvendo com a não observância do princípio da beneficência. Avaliando criticamente a instituição onde trabalham Há a necessidade de uma reorganização administrativa da instituição. não pelo enfermeiro". ações complementares e interdependentes do conjunto multiprofissional (assistir-cuidar) desenvolvidas em contextos institucionais peculiares. inclusive alienando-se do seu objeto . A situação de baixa auto-estima e essa posição subalterna na equipe multiprofissional.

não se descarta que os demais membros da equipe de saúde e a administração sintam-se desamparados sem a atuação cuidadosa e preparada do enfermeiro. se revelou bastante eficiente para a criação de espaços comunicativos e de reflexão. O poder de resistência dos enfermeiros se mostra ainda pequeno e estes se sentem em desvantagem em relação a outros membros da equipe e às instâncias administrativas superiores da instituição. evidenciou fatores que impedem os enfermeiros de praticá-la. Como docentes de um curso de graduação em enfermagem. por meio do desenvolvimento de sua força moral e das competências necessárias à atuação profissional centrada na coordenação do processo de cuidar. tendem a se tornar mais eficientes à medida que forem criadas oportunidades para problematização da sua prática. embora ainda tímidos.Centro Universitário São Camilo . profissionais de saúde e doentes hospitalizados. da instituição e dos profissionais que nela atuam. para uma condição de cidadãos submissos a uma dada realidade. se compartilhada. ou seja. durante toda a fase de formação do enfermeiro. 97 . a vulnerabilidade de todos: instituição hospitalar. Nesse sentido. a estratégia de grupo focal. sua autoestima. ao contrário. por nós utilizada. acabam por se envolver com práticas que ferem a moral e a dignidade.1(1):91-98 cidadania comprometida. Essa vulnerabilidade. embora sejam capazes de avaliálos criticamente. assim. sentem-se excluídos do sistema e submetidos a uma ordem estabelecida. poderá encorajá-los a buscar condições adequadas para otimizar a beneficência do cuidado a todos os doentes e a promover a integridade e dignidade do doente. Seus movimentos em direção à beneficência. Por outro lado.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência . Observa-se.2007. passo importante para a superação das dificuldades. CONCLUSÃO Este estudo possibilitou-nos compreender a experiência de enfermeiros frente à observância do referencial da beneficência. Nesta realidade. seus envolvimentos e suas atitudes de resistência. seu senso de cidadania e de poder. na qual a vontade humana se submete. este estudo nos trouxe como contribuição o despertar para a necessidade de fortalecer ainda mais. Estes não se vêem como sujeitos de processos de mudanças.

Carlini-Cotrim B. Engelhardt Jr HT. Pessini L.2007. Problemas atuais de Bioética. Nietsche. 2006. 30(3): 285-293.ed. Barchifontaine CP. São Paulo: EPU. 1998. Beck. MLC. André MEA. Petrópolis: Vozes. 2. Rev. A ética e o ensino de ética na enfermagem do Brasil.1(1):91-98 REFERÊNCIAS 1. Pereira MLD. Os princípios bioéticos e os direitos dos usuários de serviços de saúde. Saúde Pública.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . 3.Centro Universitário São Camilo . 1993. 2001. Ide CAC. 6. 7. Santa Maria: Palotti. 4. 30(3): 448-454. Potencialidades da técnica qualitativa grupo focal em investigações sobre abuso de substâncias. O Mundo da Saúde. In: Ide CAC. 3 Boff Fundamentos da bioética. Leopardi MT. 98 . 1996. 1986. 7ª ed. A coordenação do processo de cuidar. 141p. 518p. 551p. São Paulo: Loyola. Lüdke M. E A. Metodologia da pesquisa na saúde. São Paulo: Atheneu. L. 2001. São Paulo: Cortez. Domenico EBLD. 9.2001. Spiri WC. São Paulo: Loyola. Saber cuidar. 5. 8.199p. Ensinando e aprendendo um novo estilo de cuidar. Germano RM. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. Berti HW. 1996.

Coordenador do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo.2007. e também porque é uma liberdade para opção.ponte para a liberdade Bioethics . porque tiene solamente la ética como factor limitador.1(1):99-104 Bioética . Bioética-liberdade. PALAVRAS-CHAVE: Bioética-referenciais. which has bioethics as a bridge. Universidade Estadual Paulista. embora não absoluta. Ésta es la belleza y la especificidad de la libertad. UNESP. exige liberdade. and also because it is a freedom for opting in terms of values. São Paulo. aunque es no absoluta. é uma liberdade categorizada especial. Esta é a beleza e a especificidade da liberdade. es una libertad organizadora especial. * Médico. Bioethics-freedom. although not absolute. which by definition demands freedom.Centro Universitário São Camilo . RESUMEN: La libertad en el conocimiento bioético. KEYWORDS: Bioethics-guidelines. porque tem como fator limitante apenas a ética. que por essência.un puente para la libertad William Saad Hossne* RESUMO: A liberdade na bioética. Bioética-libertação. is a special categorizing freedom. que tiene la bioética como puente. Membro do Comitê internacional de bioética da UNESCO. Bioética-libertad.a bridge to freedom Bioética . que tem a bioética como ponte. This is freedom's beauty and specificity. ABSTRACT: Freedom in bioethics knowledge. 99 . opção de valores. Bioethics-liberation. y también porque es una libertad para optar en términos de valores. because it has as a limiting factor only ethics. Botucatu.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Bioética-libertación. y esta por definición exige la libertad. PALABRAS LLAVE: Bioética-pautas. Professor emérito da Faculdade de Medicina.

cria outro qualificativo para liberdade . também. Mesmo aqui. pois liberdade é apresentada como "supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal. Com a libertação pode-se vir a ter a faculdade da liberdade... tornar livre". significa: "caráter ou condição de. como condição. De acordo com o dicionário. segundo a própria determinação (novamente. Este poder agir. Por essa rápida intromissão no campo do dicionarista. aqui. digamos. em seu livro "Caminhos para a liberdade". liberdade seria equivalente a autodeterminação. pois "liberdade é poder agir". pois. ainda. A liberdade permite exercer um poder.Centro Universitário São Camilo . tem condicionantes. Contudo.. 100 . livrar(se) da influência de(2). de imediato. mas este poder. Esta acepção será retomada mais adiante ao falarmos de bioética. "imoral". de acordo com o dicionário. um ser que não está impedido de expressar. Libertação é o ato ou efeito de libertar-se. pela negativa. A liberdade aparece.2007. libertar-se. analisemos. vemos que liberdade.faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação. e libertar significa "dar liberdade a. "ilegítima". mas que. antes de mais nada. bem político. quer na definição das potencialidades". alguns aspectos relativos à liberdade. poder. estendeu-se este princípio para o indivíduo que goza de liberdade. implica "estabelecer limites". Bertrand Russel(3). condição. como forma de poder. Continuando a utilizar como ponto de referência o dicionarista. Em outras palavras. agora não pela afirmação "positiva". que liberdade é uma faculdade para decidir ou agir segundo a própria determinação. por outra. intimamente associadas. no sentido filosófico. mas estabelece limitações ao conceito de absoluto. o problema consiste quer na determinação dos limites. vale enfatizar.a liberdade é um bem. ou por ambas (liberdade e libertação) ao mesmo tempo. obviamente. porém. e continua: "quanto à liberdade humana. Pelo uso comum.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . mas têm significado próprio. ainda que de passagem. não tudo. começando por uma. pode ser entendida. Prosseguindo nesta linha. liberdade traz associadas faculdade e poder efetivo (praticar. repetindo os dicionaristas(2). algum aspecto de sua essência ou natureza". outra acepção para liberdade. Para tornar mais explícita a proposição. Neste sentido.. ainda. isto é. Mas livre para o quê? Dissemos. na medida em que tem limitação "anormal". além de ser ponte para o futuro. sem entrarmos na avaliação de cada um destes termos. quando não se tem liberdade é preciso.1(1):99-104 INTRODUÇÃO Creio que. a expressão liberdade.Generalidade Libertação e liberdade estão. pois é faculdade para praticar. mesmo nessa condição a liberdade tem limitantes. mas desde já fica assinalada a expressão "autodeterminação". ela nunca é tida como "absoluta" (que não depende de outrem ou de uma coisa. Mas. assinalada como facul- dade. associação com a idéia de ser livre. conseqüente à libertação. o dicionarista assinala. se verifica que a liberdade também não é absoluta. tem limites e condicionantes "normas definidas". mas sempre com alguns limites. prática. mas pela "negativa". poder agir. faz-se. Quando se fala de liberdade.). em sua própria essência. É evidente que para se ter liberdade é preciso libertar-se.1 Liberdade e libertação . O dicionarista dá. a autodeterminação). ilegítima. consistem em restrições à liberdade" e continua "e a liberdade é o maior dos bens políticos". não é absoluto. A bioética pode ser ponte para se obter liberdade por meio da libertação e pode ser a ponte para o exercício da liberdade já existente ou conquistada pela libertação. segundo ele: "o governo e o direito. determinação e autodeterminação). na seio de uma sociedade organizada. imoral". autodeterminação seria "princípio segundo o qual um Estado tem o direito de escolher sua própria forma de governo ou ideologia". independente). a bioética é uma ponte para a liberdade e para a libertação. ou que efetivamente expressa. como preconizava Potter (1971)(1). temos aqui. Contudo quando se consegue a libertação é preciso ter condições para exercer a liberdade. verificamos que liberdade está associada à noção de "faculdade. 1. dentro dos limites impostos por normas definidas". Ao passo que liberdade é uma faculdade . Aqui. livrar(se). mas o que não é proibido por lei fator limitante. que liberdade pode ser entendida como faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei.

não roubes). ampla. E. b) liberdades estas que seriam: . disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem. não é absoluta. liberdade de crença. condição. vale indagar se liberdade. Vale assinalar. .Centro Universitário São Camilo . a Declaração dos Direitos Humanos estabelece: a) a existência de liberdades fundamen- 101 . ao homem foi ainda concedida uma liberdade enorme. Já o artigo 29 reza que "no exercício de seus direitos e liberdades. sobre os animais domésticos. não aparece a palavra liberdade. não é absoluta. Assim. A Declaração Universal dos Direitos Humanos faz várias referências explícitas quanto a liberdade. total ou restrita.de locomoção. Ai estão. em cada uma dessas esferas ou áreas determinadas pelo adjetivo ou pelas expressões "de" e "para". de certa forma são disposições limitantes ou condicionantes da liberdade. Mais adiante. sempre foi assim. Deus disse: "A toda árvore do jardim comerás livremente. mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás". fala em "liberdades fundamentais do homem". No artigo 18. o mandamento não seria somente imperativo (ou mesmo recomendativo) se o verbo fosse colocado no presente (não mates. bem. ainda que. poder de agir. grupo ou pessoa não pode praticar qualquer ato destinado à destruição de qualquer direito e liberdade aqui estabelecidas". No artigo 2º. "liberdade financeira" e o mais comum: "liberdade de pensamento. ou de Locke. Tomemos como ponto de referência a Declaração Universal dos Direitos Humanos. parcial. consciência e religião. além de faculdade. ainda no Prêambulo. desde o surgimento do ser humano. reduzida. se expressa o direito à liberdade de pensamento. com limitações. de liberdade) imenso. ao que tudo indica. Cometido o pecado de Adão e Eva. A liberdade não é absoluta. liberdade de religião. de crença e de liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade. pois em Gênesis 2 (2:17)(4). É verdade que. Em seu preâmbulo. . Assim. Mas também sem caráter absoluto. conforme nossa semelhança. se expressa o direito à liberdade de locomoção e residência. Em suma. No artigo 19. de limitantes ou condicionantes. A esta altura. pois. a liberdade pode ser plena. dos 10 mandamentos 8 são absolutamente restritivos ou proibitivos. os 10 mandamentos que. Portanto a liberdade concedida por Deus ao homem. um limite ao domínio (à liberdade). Note-se. liberdade de reunião e associação pacíficas. "liberdade provisória". . "liberdade didática". prática. afirma o "advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra. e sua enunciação se inicia com NÃO. o caráter nitidamente restritivo. sempre.. para ilustrar. Os adeptos das idéias. o homem surge dotado de domínio (vale dizer. Finalmente no artigo 30 se estabelece que "Estado. liberdade de imprensa. sejam de natureza contratual. não roubarás. criatura à imagem de Deus. pois. sobre a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra". e no artigo 20. tenha ele domínio sobre os peixes do mar. sobre as aves dos céus. é também um direito. ao estipular "Ninguém será mantido em escravidão ou servidão". No artigo 14. "liberdade vigiada". o "de" é substituído ou sub-entendido como "para" (liberdade para falar. é liberdade para algo ou alguma esfera. legal ou moral. importante-a do livre-arbítrio. não apenas pelo NÃO mas pelo uso do verbo no tempo futuro.1(1):99-104 Não é.. de Hobbes tais do ser humano. exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem". 1948(5).de residência. mas afirma-se que "todos os homens nascem livres". hão de convir que a noção de liberdade embutida nas idéias desses autores é também acompanhada. Ele é taxativo: não matarás. Em Gênesis 1 (1-3)(4).de pensamento. liberdade de linguagem. liberdade de opinião e expressão.de consciência. sem razão que a expressão liberdade é quase sempre adjetivada ou seguida das expressões "de" e/ou "para". a idéia aqui contida é melhor explicitada no artigo 4º.2007. é colocado que "todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração. todo homem estará sujeito apenas (grifo meu)? às limitações determinadas pela lei. "liberdade comercial". Assim. liberdade para viajar). liberdade da associação e não raramente. seja de Rousseau. ainda. porém não absoluto. Vale repetir.Bioética: ponte para a liberdade . Em seu artigo 1º. Há.

não absoluta. é indispensável. Ao passo que ética. fazer opção.de opinião. Mas liberdade para o quê? Liberdade para se poder. antes de mais nada. d) esta limitação é apenas restrita àquelas determinadas pela lei e exclusivamente para o fim de assegurar o devido reconhecimento às liberdades (o direito) de outrem. direito. e) em vários artigos. exige liberdade e. coerção e/ou falsidade. como tal. se a mesma é examinada.de religião. distingue-se de moral.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Em outras palavras. em que valores podem estar em conflito. não se pode confundir ética (e bioética) com códigos moralistas. exercitar ética. Por outro lado. Esta elaboração obriga a revisão e reflexão crítica de valores. prática. de crença etc. bioética é ética e. completa ou pode ser restrita (mesmo após limites). . exigem algumas condições importantes para o devido processo de avaliação e opção. . além do seu campo de atuação. de qualquer preconceito. é. Mas valores morais são valores consagrados pelos usos e costumes. fazer opção. estatutos de direitos e deveres (deontologia). expressando a liberdade como direito. Mas não é absoluta. levando cada um de nós a "mergulhar" para dentro e para fora de si. Na ética. deve ser "elaborada". Diante de situações de conflito entre valores.bioética como ponte E o que tudo isso tem a ver com Bioética e como Bioética pode ser ponte para liberdade e libertação? Antes de mais nada há que. tanto quanto for humanamente possível. mas sempre vinculado à determinada área e. poder. acatá-los. se não definir. bem. liberdade como direito. como condição sine qua non. A angústia da opção. em determinada situação. Em primeiro lugar. enquanto cidadão daquela sociedade. isto é. trabalhada. ética implica avaliação. de novo: liberdade. mas sempre seguida de algum fator ou condição limitante. livremente. liberdade pode ser entendida como faculdade. antes de mais 102 . diferente da antigamente denominada "neurose de angustia" freudiana. longe de ser camuflada. "preconceitual" e/ou "preconceituoso". uma contrapartida: a liberdade se acompanha de "angústia" e de responsabilidade. Assim. vale repetir.Centro Universitário São Camilo .de expressão. salutar) abrir-se mão da liberdade. nem bioética. Pode ser plena.1(1):99-104 c) essas liberdades são amplas. avaliada e/ou anali-sada com juízo pré-concebido. O exercício da bioética pressupõe. condição. mas estão sujeitas a limitação. próprias da ética (bioética). mesmo porque a liberdade de um pode interferir na liberdade do outro. de locomoção. no exercício da bioética. o juízo e/ou a reflexão crítica. levando à opção e não à obediência pura e simples de normas de moralidade. escamoteada. E a liberdade é "de" ou "para". que cada um de nós. no que se refere à sua essência. cabendo a cada um de nós. é muito mais complexo do que simplesmente obedecer a Códigos de moral e/ou a disposições legais segundo padrões já estabelecidos. A ética (e a bioética) é livre. nada. . cabendo a "escolha" a cada um de nós. à qual se soma a angústia da responsabilidade. A Declaração é clara. Fazer opção entre valores tem. para poder equacionar os conflitos de valores que estão em jogo e ao fim realizar a opção". pois. constitui um processo de reflexão e de juízo crítico sobre situações. livremente.2007. faculdade. A "angústia da opção". fazer opção.de reunião e de associação. ao menos caracterizar a bioética. A expressão pré-conceito deve aqui ser entendida em Liberdade e libertação . A ética (e a bioética) não admite restrição à liberdade de opção. Sem liberdade não há. Não se deve em nome da angústia (repita-se. São valores que devem ser introjetados. no exame do conflito de valores. parcial ou reduzida. Pelo contrário. nem ética. condição. portanto. Em suma. Moral e ética têm em comum o fato de lidarem com valores. Não são "escolhidos" individualmente e sim pela sociedade. e daí bioética. para o quê? Para se poder. A ética (e a bioética) não admitem coação. porém. Em sua essência. aprender a elaborar essa "angústia" é um processo de libertação. poder. É incompatível a liberdade de opção. procure se despir. o "valor" é extrojetado. porém. ao se referir à liberdade de pensamento. juízo de valores. . total. reflexão crítica.

mas podem ser "limitantes". do ponto de vista bioético. Assim posta a questão. do comunitarismo e outras tantas. Como força de expressão. Qual liberdade. também. tais como agradar ou desagradar a quem quer que seja.1(1):99-104 suas diversas acepções. plena. a não maleficência. Na verdade. creio válido incluir uma outra forma de preconceito. credos.Bioética: ponte para a liberdade . uma ponte para libertação. melhor "condicionantes". A liberdade da ética também tem limitantes. têm papel relevante na ética as correntes do utilitarismo. do pragmatismo ou do individualismo ou do comunitarismo etc. como já referido no início do texto. para o equacionamento de conflitos de. Esta liberdade. como libertação. a eqüidade. do utopismo. pré-concebida. Neste último sentido. Por que não é absoluta? O que lhe tira esse caráter? Existem condicionantes ou elementos limitantes? Existem e. logo. a beneficência. a opinião do outro e obviamente o outro. "limitantes éticos". A meu ver. "princípios" ou "referenciais conceituais e doutrinários da própria bioética". ela não é absoluta. este preceito é forte fator para libertação. o "parti-pris". suspeita. O respeito judicioso ao pluralismo e a outro são também outros processos ou mecanismos fundamentais de libertação. no caso.Centro Universitário São Camilo . em conseqüência. Além do mais. na verdade. o juízo de valor. A expressão se aplica pois ao preconceito no sentido pejorativo de intolerância. o processo de desprendimento ou despojamento do pré conceito. ser exclusivamente elaborado à luz do utilitarismo. religiões etc. aversão a outras raças. também. Liberdade "de" ou "para" o quê? Liberdade para opção. esta da bioética. dizendo que em matéria de bioética deve-se adotar a máxima "Penso. isto é. Contudo. Assim. pode-se parodiar Descartes. verifica-se que tais "condicionantes" são. do individualismo. lidando com valores humanos. a opção de valores deve levar em conta a autonomia (autodeterminação) do ser humano. É o "porti pris" atuando como fator limitante. é um processo e/ou mecanismo de libertação. a priori. Não deixa de ser uma espécie de préconceito. absoluta? Também esta liberdade não é absoluta. não pode subordinar-se a questões espúrias. Mas libertação para quê? Para. ainda que não tenha caráter pejorativo. da liberdade de opção. É preciso ter-se humildade para respeitar e levar em conta. por isso. parece um jogo de palavras. os limitantes ou condicionantes" são os "fundamentos". por isso mesmo preferimos denominá-los de referenciais(6) e não de princípios. O exercício da bioética nos leva constante e continuamente a nos "revermos". Sem dúvida. os elementos guias. a solidariedade. o estado de vulnerabilidade. sem dúvida. A bioética é. a justiça. a bioética exige. intolerância. Que condicionantes e limitantes existem? De que natureza são? São todos de natureza e de essência ética (e bioética). Ora. a prudência. levando à opção. do pragmatismo. A bioética. a ética (e a bioética) pressupõe outra condição essencial. em nossa opção. Aprender e desenvolver tal preceito da "grandeza" é um bom processo de libertação. antes de mais nada. estar vinculada e/ou subordinada a "conclaves". 103 . a alteração da opção se a mesma se evidenciar equivocada ou a menos adequada. Pode soar como paradoxal tal afirmação. 1: idéia pré concebida. o exercício ético. como condicionamento prévio. por outro lado. seja qual for o significado da palavra. o outro existe". Além disso. a rever valores e daí à busca de mais "sabedoria". conquistar liberdade. é um processo de libertação. para a opção. abre-se mão. a ideologias partidárias e nem pode servir de instrumento a qualquer outro fim que não seja ético. diferentemente do que foi dito a respeito das outras formas de liberdade. como também à qualquer idéia de opção. conflito de valores com a idéia preconcebida ("parti pris") de que o equacionamento deverá. A opção não pode. a priori. seria. respeito ao outro e à opinião do outro.2007. Os condicionantes e os limitantes não são para a bioética em si. analisar. Isso. como opinião fechada. É uma liberdade especial. pois. a austeridade. prevê "grandeza" por parte de cada um de nós para refazer e reconhecer a inadequação da opção realizada. mas não é. porque dela fazem parte. Mas deve ser liberdade ampla. pois. o respeito ao pluralismo e.

Direitos Humanos no Cotidiano. 3. Ferreira ABH. ela é uma liberdade sublime. 1986.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Russel B. Caminhos para a liberdade. a liberdade para opção. uma biografia. A bioética é. 2ª ed. São Paulo: Editora Ministério da Justiça/ Secretaria Nacional dos Direitos Humanos/UNESCO/Universidade de São Paulo. digamos. 104 . PotterVR. 2. opção de valores. ponte para libertação e ponte para a verdadeira liberdade. USA: Prentice. Bioética: Princípios ou referenciais? O Mundo da Saúde 2006.1995. p. 4. 6.Centro Universitário São Camilo . 5. p. São Paulo: Companhia das Letras. REFERÊNCIAS 1. Deus.2007.1(1):99-104 A liberdade na bioética. Bioetics: bridge to the future. pois. 30:673-676. exige liberdade) e é especial porque é uma liberdade para opção.1971.São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Nova Fronteira. Miles J.41-43. Especial porque tem como fator limitante apenas a ética (que. Hossne WS. de categoria especial.101. por essência. Hall. Esta é a beleza e a especificidade da liberdade que tem a bioética como ponte. embora não absoluta é uma liberdade. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.1998.2005. Ela é muito mais do que liberdade para isso ou para aquilo.

ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .Escola Paulista de Medicina. the author makes a reflective analysis on concepts and philosophical aspects involving bioethics and spirituality. Espiritualidad. as patients present legal arguments to interrupt pregnancy or plead to undergo unnecessary medical procedures such as pre-arranged C-sections. como son las actuales indicaciones jurídicas de interrupción del embarazo o procedimientos médicos innecesarios tales como cesarianas concertadas. Clínica médica. como pacientes que apresentam indicações juridicamente legais de interrupção da gestação. Espiritualidade. Spirituality. RESUMEN: En el ensayo. seus conceitos e aspectos filosóficos. Coordenador adjunto do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo. Hace también reflexiones acerca de cómo la bioética puede ayudar en la evolución de la ciencia y los profesionales que se ocupan de las células-tronco y de la fertilización asistida. He also approaches reflections on how bioethics can help in the evolution of science and lead professionals dealing with stem cell researches and assisted fertilization. * Doutor em Medicina pela UNIFESP . PALABRAS LLAVE: Bioética. Ética médica. ou procedimentos médicos desnecessários como cesárea a pedido. 105 . ABSTRACT: In the essay. Medical clinic.1(1):105-112 Bioética e espiritualidade Bioethics and spirituality Bioética y espiritualidad Júlio Cesar Massonetto* RESUMO: O autor faz uma análise reflexiva sobre bioética e espiritualidade. He briefly describes some of bioethics historical aspects and approaches real cases in the exercise of the medical profession tracing a parallel between them and the fiction in the movies to illustrate conflicts faced by health professionals when confronted with bioethical concepts and spirituality's own values. Describe brevemente algunos de los aspectos históricos de la bioética y acerca a casos verdaderos en el ejercicio de la profesión médica y a ejemplos de la ficción de cine para ilustrar los conflictos de los profesionales de salud cuando están enfrentados con conceptos bioéticos y a valores de su propia espiritualidad. el autor refleja en los conceptos y los aspectos filosóficos que implican la bioética y espiritualidad. KEYWORDS: Bioethics.tronco e fertilização assistida. Aborda também reflexões sobre como a bioética pode auxiliar na evolução da ciência e nortear os profissionais envolvidos em pesquisas com células.Centro Universitário São Camilo .2007. Descreve brevemente alguns aspectos históricos da bioética e aborda casos reais do exercício da profissão médica e a ficção do cinema para ilustrar conflitos vividos por profissionais de saúde frente aos conceitos bioéticos e aos valores de sua própria espiritualidade. PALAVRAS-CHAVE: Bioética.

as condutas médicas empregadas devem estar sempre baseadas nas melhores evidências científicas. diferença e preponderância em relação ao corpo material. O espiritualismo é uma doutrina que nos remete à origem grega da filosofia. caso a opção do paciente resultasse em resultado negativo (como óbito). que estabelece que a ação do médico sempre deve causar o menor prejuízo ou agravos à saúde do paciente e é universalmente consagrado através do aforismo hipocrático primum non nocere (primeiro não prejudicar). dependia do desenvolvimento e manutenção de um sistema ético. religiosos. de dar a cada um o que lhe é devido. Como marco conceitual. publicou o livro Bioethics: bridge to the future. para quem o ser humano tem obrigação de ser ético.1(1):105-112 INTRODUÇÃO Segundo dicionários.2007. esse fato é destacado pelo princípio da não maleficência. Nos pensamentos modernos. pois ao contrário das suposições materialistas. Princípios da ética biomédica. publicada sob o título Principles of biomedical ethics. nenhum com unanimidade. ninguém está habilitado como autoridade a definir o que é bioética(4). seja por serem vastos demais(3). a beneficência. Assim. Potter pensava que a sobrevivência de grande parte da espécie humana. Oxford University Press. para a preservação de nossa própria espécie. numa civilização decente e sustentável. das ciências da vida e da saúde. Há diversos conceitos descritos para a bioética. A esta chamamos de teoria principialista. seus direitos e nossos limites ("trate os outros da mesma maneira que você gostaria de ser tratado"). culturais. Podemos dizer que quando agimos ou pensamos com base em conceitos harmônicos de respeito ao ser humano. evitando ao máximo que aspectos sociais. a não maleficência e a justiça. que define a bioética como o estudo sistemático das dimensões morais. por ser racional . em artigo publicado pelo médico e cientista norte-americano Van Rensselaer Potter(1). como no bergsonismo. No exercício da Medicina contemporânea. os profissionais de saúde devem tratar cada indivíduo conforme o que é moralmente correto e adequado.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . poderíamos construir uma ponte para o futuro construindo a bioética como uma ponte entre as duas culturas" (Potter. teve como conseqüência funesta a criação de autorização de qualquer procedimento pelo paciente ou seu responsável.as ciências e as humanidades . 1994. 106 . porém. 1971)(2). a alma não pode ser reduzida a um mero epifenômeno do corpo. Nascido em 1911. Em 1978. Em 1971. estamos vivendo a espiritualidade. utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar. New York. chamando assim a bioética de "ciência da sobrevivência humana". sua essência e seus atributos. com o objetivo de proteger as equipes médicas de potenciais processos judiciais. Como valioso referencial moderno. O princípio da autonomia refere-se ao direito que toda pessoa tem de decidir por si própria ou o que deseja ou não para si. Como o princípio da beneficência proíbe causar dano deliberado. O princípio da beneficência refere-se à obrigação ética de maximizar o benefício e minimizar o prejuízo. seja por serem parciais. onde escreve na introdução: "Se existem duas culturas que parecem incapazes de dialogar . espiritualidade significa qualidade do que ou de quem é espiritual. são distintos e incondicionados em relação ao caráter mecânico da matéria exterior. O profissional deve ter a maior convicção e informação técnica possíveis que assegurem ser o ato médico benéfico ao paciente (ação que faz o bem).e se isto se apresenta como uma razão pela qual o futuro se apresenta duvidoso. Na visão de Duran. que consiste na afirmação da existência de Deus e na realidade substancial do espírito. Uma das definições mais abrangentes é a da Encyclopedia of Byoethics(5). O princípio da justiça estabelece como condição fundamental a eqüidade. A importância da Bioética está patente em seu enorme sucesso mundial com pouco mais de 30 anos de vida(7) e reflete a necessidade urgente das sociedades atuais de discutirem e imporem limites para o comportamento e desenvolvimento humanos. Tradução da 4th edição americana. Devemos atuar com imparcialidade. o neologismo bioética foi cunhado pela primeira vez em 1970. possivelmente.Centro Universitário São Camilo . A Bioética reconhece a pluralidade de opções morais presentes nas sociedades e propõe o estabelecimento de * Beauchamp TL & Childress JF. então. Beauchamp e Childress consagram em seu livro*(8) o uso de quatro princípios na abordagem de dilemas e problemas éticos: a autonomia. conseqüentemente nos remete ao célebre filósofo alemão Immanuel Kant(9). tais como a liberdade e o pensamento. financeiros ou outros interfiram na relação médico-paciente. e de sua autonomia. Na visão de Kemp bioética é o cuidado das formas de vida em seu ambiente(6).

Logo. a conduta médica segue os princípios descritos e não deveria criar conflito com nossa espiritualidade.(11) consagrado bioeticista brasileiro. Marcos Segre se refere freqüentemente e que nos coloca em situações clínicas conflituosas no exercício da medicina. os conceitos profundamente enraizados por Forrest através de sua educação materna e dos ensinamentos do Exército nortearam sua ação no salvamento do tenente. Na visão do tenente. reflete que a visão pragmática da autonomia (quase sempre utilizada pelos profissionais de saúde). grávida por ter sido vítima de violência sexual dentro da própria família? Como ser justo e escolher uma entre duas vidas quando esta escolha for necessária? O princípio. Já a visão filosófica de autonomia é indefinível. Já em 1957. Como aplicar os princípios básicos da bioética na vida diária pessoal e profissional? Até onde vai a autonomia de um paciente sem ferir nossa própria espirituali- dade? É possível aplicar os princípios da beneficência e da não maleficência frente a uma jovem adolescente com retardo mental severo e deficiência auditiva. a condição de ser autônomo. ou seja. e não o efeito mau.Centro Universitário São Camilo . a interrupção de gestação. mesmo que a conseqüência possa ser a morte do ser humano. que efeito bom não deva ser produzido por meio do efeito mau. a engenharia genética. embora condene a eutanásia. exigise quatro condições necessárias para a sua aplicação: a) que o ato em si deva ser moralmente bom ou ao menos indiferente. caso esta trompa sofra uma rotura e cause uma grande hemorragia abdominal). implorou a Forrest para que o deixasse morrer lá. o tenente Dan passa grande parte de sua vida revoltado e inconformado pelo fato do soldado Forrest tê-lo salvo no Vietnã. são ações que possuem 'duplo efeito'. motivo pelo qual não deve ser acelerada ou provocada (eutanásia). o Direito deverá estabelecer os limites para o que é permitido(10). após um sangrento combate entre eles e os vietnamitas. descrita por Beauchamp e Childress.1(1):105-112 mínimos acordos. o Marco Segre. Porém. o contador de histórias. Os procedimentos que permitam decisões consensuais têm uma importância fundamental. ou seja. eu quero tomar esta decisão"). Refiro-me a este episódio para ilustrar a teoria da reflexão autônoma a que o prof. independente da autonomia do tenente. Este princípio tem sua origem na Summa Theologiae de São Tomás de Aquino(12). que significa a morte digna. e ter que viver sem suas duas pernas. Sob esta perspectiva. um sociólogo ou uma psicóloga analisam e concluem se um paciente é capaz de tomar decisões em relação à sua vida ou sua saúde e lhe conferem. no tempo e lugar corretos. Um médico psiquiatra. nem evitada a todo o custo (distanásia)(3). Destaca a importância da intenção da ação e que necessariamente não deve haver vínculo causal entre o processo de minimização da dor e a morte. Tal tese funda-se na Ética das Virtudes e é referencial para a grande maioria dos estudiosos que defendem a ortotanásia. O princípio do duplo efeito é proposto e defendido pela Santa Sé(13) que. admite a utilização de medicação com o efeito de minimizar a dor e o sofrimento. Ao diagnosticar uma gravidez na trompa de uma mulher. citamos a clonagem humana. Anos após. a manutenção da vida e a ortotanásia. Embora estejamos interrompendo uma vida. Geralmente. o tenente Dan emocionadamente agradece a Forrest por ter salvo sua vida no Vietnã.Bioética e espiritualidade . Como exemplos de conflitos modernos. ou não. o Papa Pio XII declara a aceitação do uso de medicação para dores 107 . como o paciente Testemunha de Jeová que não aceita a transfusão de sangue em situações críticas. vem "de fora". d) que haja uma razão proporcionalmente grave para a permissão do efeito mau. Forrest não havia respeitado sua autonomia quando ele. ou doutrina do duplo efeito é uma regra ética que se refere à permissibilidade de ações das quais dois efeitos seguem-se simultaneamente. perdidas neste episódio. deva ser objeto da intenção. com objetivo único de preservar a vida materna (que pode estar em risco. b) que o efeito bom. mas não necessariamente da temporalidade). c) que ambos os efeitos devam fluir simultaneamente (na ordem da causalidade.2007. que o efeito bom deva compensar o efeito mau que o acompanha. a fertilização assistida. É o encerramento de uma vida plena. Quando não há este acordo. Com base nesta reflexão. vem "de dentro" ("eu posso tomar uma decisão. podemos dizer que a autonomia do paciente é limitada e deve ser confrontada com evidências científicas e até mesmo com nossa espiritualidade e nossos códigos de éticas profissionais. já utilizando duas modernas próteses de membros inferiores. sendo um bom e outro mau. ferido no campo de batalha. No filme Forrest Gump. mesmo correndo risco de morte. Em uma de suas entrevistas. a morte é parte integrante da vida. a conduta é a interrupção desta gestação. que se dá de forma digna e humana. teoria.

e evoco de forma simples e objetiva o princípio da não maleficência.Partos normais ou cesareanas? . interrogatório no plantão a uma gestante com dor: . variam de 7 a 12%.Dna. resguardando a paciente de qualquer risco desnecessário. eu os demais profissionais de saúde nos sentimos dentro de conflitos indissolúveis. pois em maternidades privadas de São Paulo atingem 90%). trabalhando com protocolos de atendimento bem definidos e desenvolvimento profissional permanente.2007. escreveu que ". vivenciei diversas situações onde.Tenho dois. a maternidade e a feminilidade.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . A Mulher sem passagem Começo de carreira. Nossa obstetrícia deve acompanhar esta direção e transformar o modelo existente de assistência ao parto centrada no obstetra privado para trabalho de equipes multiprofissionais (com médicos e enfermeiras obstetrizes) adequadamente remunerados. Além disso. a senhora já tem filhos? . o segundo. submeter as mulheres a este risco sem uma indicação técnica precisa fere severamente o princípio da não maleficência. .. pois revela o zelo que se tributa à mãe e ao futuro cidadão. Mas a senhora entrou em trabalho de parto? . à primeira vista. Por causa da ansiedade e medo da dor associados ao trabalho de parto. leituras e trocas de experiências.No primeiro. com experiência na área da gestação de alto risco e medicina fetal. incentivadas ou não por seus médicos.1(1):105-112 consideradas insuportáveis ao ser humano. assim. o trabalho de parto e o parto normal completam. Tânia não entrou em trabalho de parto. Tânia. Após reflexões.Não. Eu havia aprendido sobre a tal "prova de trabalho de parto" a que toda paciente deveria ser submetida se nunca tivesse dado à luz. como alguns médicos alegam. quando necessário. a senhora foi operada no primeiro parto porque não tinha passagem. sendo assim. não sei! Comecei a observar que muitas pacientes submetidas à cesárea anteriormente não tinham "passagem". para a melhoria social e cultural. eu teria parto normal e marcou a Cesárea. de 15 a 25% e no Brasil aproximam-se dos 40% (média nacional entre serviços públicos e privados. foi porque eu não tinha "passagem". Em nome da autonomia da paciente.A senhora sabe por que? . Como médico. com recursos humanos e tecnológicos da mais alta expressão? A cesárea é uma cirurgia indicada quando o parto normal não é possível por razões maternas ou quando há risco de vida ou agravo à saúde fetal. Eduardo Gaspar Siebold (15). de forma aguda ou crônica...". afirmando que a redução da dor pode levar a morte. de maneira incomparável. Por que não tinham "passagem" ? Será que o que eu tinha aprendido estava errado? Ia mais a fundo em meu interrogatório: .Dna. e não pode ser banalizada e seus riscos e consequências serem subestimados. Por que esta perversão se praticamos no país obstetrícia de altíssima qualidade (uma das melhores do mundo). Se a Dna. é um proce-dimento de extrema valia. com alguma freqüência estarão de frente a situações. historiador de obstetrícia. muitas mulheres optam pela cesárea. mas certamente nossos números são elevadíssimos e refletem uma perversão da assistência obstétrica brasileira. Os profissionais de saúde que trabalham diariamente com o ser humano fragilizado pela doença. Um pouco desta experiência pessoal e alguns conflitos vividos pela ciência procurei trazer para esta leitura (os nomes citados não são reais). no mínimo. Há evidências científicas suficientes na literatura médica demonstrando que as complicações da cesárea são maiores que as que ocorrem após um parto normal. estes conflitos iniciais foram resolvidos e transformados em soluções para outras pessoas em oportunidades futuras.Duas cesáreas.. nos Estados Unidos. muitas vezes sem perspectiva de cura. 108 . Márcia. não há por que temer este momento. a passos largos. Com as modernas técnicas de analgesia de parto e com os avanços na monitorização do bem estar do feto durante o trabalho de parto. sob seu amplo aspecto psíquico.Centro Universitário São Camilo . .o grau de civilização e moral de um povo é refletido pela obstetrícia. Na Europa. reflexivas. Acredito que o Brasil caminha. teríamos o direito de submetê-la a "cesárea a pedido"? Acredito que não. mas não deve ser a sua causa. como o médico poderia saber que ela não "teria passagem" para um parto normal? Não existe índice considerado normal de partos resolvidos por cesáreas. dificilmente. o médico do Pré-Natal disse que.

O código penal brasileiro. mas respeitei a decisão do casal quando optaram pela redução embrionária ao estarem grávidos de quatro embriões.358. ainda. nos baseamos no princípio da autonomia (no caso. procurando maximizar o bem destinado a ela e. Com base nesta conduta. levando-se em consideração a angústia de poder perder a vida dos quatro. podemos evocar o princípio da beneficência. com o intuito de não aumentar os riscos já existentes de multiparidade" (gravidez múltipla) e que em caso de gravidez múltipla decorrente do uso das técnicas de reprodução assistida. publicou em Diário Oficial a resolução 1. reduzir o mal a ela causado. iniciamos todos os procedimentos técnicos e jurídicos para a interrupção daquela gestação. OK. aquele feto era como qualquer outro que nasceu naquele dia. mesmo com dúvida se estava tendo uma atitude correta. Francisca e preparação do esperma do Sr. Transpondo este caso para hoje e tendo como base os atuais princípios bioéticos. mas nossa espiritualidade estava em conflito. Embora estivéssemos interrompendo uma vida sem transgredir o código penal brasileiro. a Renata está grávida. Sem dúvida. o Conselho Federal de Medicina(16). referir-nos ao princípio da não maleficência para justificarmos a interrupção daquela gestação para evitarmos todos os danos sociais e psicológicos previsíveis à Renata e dona Maria. após a coleta de oócitos de Dna. . os conceitos bioéticos atuais ainda não existiam em nosso meio. entre outros princípios. também estaríamos tranqüilos e confortáveis em nossa conduta.Como grávida. .Olha colega. uma pessoa humilde e trabalhadora que. não há fiscalização suficiente 109 .E como se faz? . Iremos implantar cinco no útero da Dna. tem retardo mental. sobre as Normas Éticas para a utilização das Técnicas de reprodução assistida. milhares de embriões humanos têm sido "gerados" nos laboratórios de fertilização assistida e depois "retirados" nas clínicas especializadas em medicina fetal ao longo dos últimos vinte anos. normatizou que "o número ideal de oócitos e préembriões a serem transferidos para a receptora não devem ser superior a quatro. Nesta.1(1):105-112 A Interrupção da gestação da jovem adolescente Também começo de carreira: . o casal optou por aumentar a chance de dois dos embriões. ao reconhecermos o valor moral de Renata.Dona Maria. da responsável pela Renata) para justificarmos nossa conduta de interrupção. realmente estava grávida (depois viemos a saber que foi de um tio que freqüentava a casa esporadicamente). em seu artigo 128. Poderíamos. deixava Renata sendo cuidada por uma moça em sua casa. Mas. não fala. como está grávida? Dona Maria era funcionária do serviço de higiene e limpeza do Hospital. A Redução embrionária na fertilização assistida Com alguns anos de carreira: . cobrí-lo com uma compressa e pedir licença para deixar o procedimento.Pode-se fazer a redução embrionária. Sabíamos que aquele procedimento técnico era um alívio para dona Maria e provavelmente para Renata também. enquanto seus auxiliares terminamos a cirurgia. Nesta época a que me refiro. pois estatisticamente sua chance de gravidez irá aumentar. Francisca. ficará para sempre em minha memória seu semblante ao retirar aquele feto do útero materno. pois Renata já se encontrava entre o 4º e o 5º mês de gestação. considera o aborto impunível em apenas duas situações: quando não há outro meio de salvar a vida da mãe (como em algumas pacientes com doença cardíaca grave) e quando a gravidez resulta de estupro. Paulo. trazendo este caso para os nossos dias. não escuta. em todas as situações semelhantes pelas quais passamos. por conseguinte. Por mais experiente e frio que fosse o cirurgião (meu chefe e professor) que liderou todo o processo e a cirurgia. Apesar desta resolução.Bioética e espiritualidade . Após alguns dias. A pedido de dona Maria. foi uma decisão dificílima para o casal e tentei causar certa resistência. Porém.Provoca-se a morte dos dois embriões mais próximos da agulha de punção para preservar os outros dois. Mas. apesar de pouca comunicação com as pessoas a seu redor.E se houver uma gravidez com mais de dois embriões? .Centro Universitário São Camilo . a gestação foi interrompida por uma microcesárea. este conflito com nossa espiritualidade foi revivido. como tantos outros brasileiros. de 11 de Novembro de 1992. E a situação estava caracterizada como violência sexual. fizemos a fertilização "in vitro" e foram gerados oito embriões. Renata.2007. Para coibir esta conduta. Eu ainda não conhecia os princípios bioéticos descritos acima. Além disso. ela tem apenas 13 anos. é proibida a utilização de procedimentos que visem à redução embrionária. devido ao retardo mental severo e à sua idade. .

A grande discussão é que os tipos mais úteis de células-tronco até agora descobertas eram originárias de embriões humanos especialmente criados para isso. os "clientes" que procuram estas clínicas conhecem as técnicas. alguns cientistas já teriam clonado humanos aos milhares. nervos. As células-tronco. traumas da medula espinhal e nefropatias. Nos primeiros dias de 2007. Até onde pode chegar a autonomia do ser humano? Aplicar a redução embrionária com o argumento de salvaguardar a vida dos outros embriões conflita com os resultados práticos em nossas maternidades (mesmo nas públicas). país que mais investe em pesquisa no mundo. Se não fosse por isso. Os resultados foram encorajadores. eliminando o risco da gestação múltipla e a potencial redução embrionária(18). Em Julho de 2006. as células-tronco são potencialmente úteis em tratamentos de combate a doenças cardiovasculares neurodegenerativas. Bush ofereceu resistência à pesquisa com células-tronco. Porém. como no cordão umbilical. Bush vetou um projeto de lei que permitiria o uso de verbas públicas federais para pesquisa com células-tronco.Centro Universitário São Camilo . enquanto estas questões não forem discutidas com a sociedade e diretamente com os pais nas clínicas de fertilização assistida. há outra questão a ser refletida: com tanta informação disponível atualmente. como ossos. No atual governo republicano dos EUA. Existe então justiça quando se escolhe entre os embriões quais serão "sacrificados" e quais permanecerão vivos? Definitivamente. mas a prática gerou temores de ordem ética porque eles eram destruídos no processo. os descrevem que extraíram estas células de amostras do líquido retirado como parte de exames regulares feitos durante a gravidez e fizeram uma cultura em laboratório.2007. Mas todo o mundo não diz que estas células-tronco serão a futura cura para as doenças degenerativas (como a doença de Parkinson e o mal de Alzheimer). embora ainda seja conduta controversa entre os especialistas. sempre houve uma posição conservadora em relação aos atuais assuntos científicos. no fígado e na placenta. que ocorre atualmente em pelo menos 25% dos casos de fertilização assistida(17). sua chance de gravidez e as potenciais complicações dos procedimentos. permitem a implantação de mais de quatro embriões para "aumentar a chance de gravidez". São encontradas em células embrionárias e em vários locais do corpo. pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Wake Forest. transplantaram-nas para ratos de laboratório e realizaram mais testes para observarem como reagiam quando incorporadas a um ser vivo.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . pois as células-tronco se propagaram e começaram a produzir substâncias 110 . cientistas e conservadores republicanos. medula óssea. são células que possuem a capacidade de se dividir dando origem a células semelhantes às progenitoras e de se transformar (num processo também conhecido por diferenciação celular) em outros tecidos do corpo. conseguiram extrair as células do líquido amniótico que envolve o feto no útero de mulheres grávidas e cultivaram-nas em laboratório. no sangue. por exemplo. Porém. músculos e sangue. o presidente norte-americano George W. Felizmente. à clonagem e à fertilização assistida. O uso de células-tronco É muito saudável o equilíbrio entre espiritualistas. nos últimos anos os cientistas desenvolveram técnicas que aumentam a chance de gravidez com a implantação de apenas um embrião. seus riscos. Devido a essa característica. acidentes vasculares cerebrais. diabetes insulino dependente (tipo 1). Após constatarem seu potencial de transformação em ampla variedade de células.1(1):105-112 e sabemos que diversos profissionais ainda não respeitam o mais elementar dos princípios éticos: o respeito à vida. o governo George W. entre eles a gravidez múltipla. doenças hematológicas. também conhecidas como células-mãe ou células estaminais. onde se consegue preservar a vida de recém-nascidos com mais de 750g em mais de 80% das vezes. princípios bioéticos estarão sendo omitidos ou utilizados de maneira distorcida justificar tais procedimentos "científicos". no Estado americano da Carolina do Norte. não. Mesmo assim. O principal objetivo das pesquisas com células-tronco é usá-las para recuperar tecidos danificados por essas doenças e traumas. para pacientes com lesão de tecidos como traumas na medula espinhal ou infarto do miocárdio? Então por que criar barreiras à evolução da ciência? O veto obrigou os cientistas a correrem atrás do prejuízo. Em artigo na publicação Nature Biotechnology(19). muitas vezes esgotados física e psicologicamente por já terem sido submetidos a outras tentativas de gravidez. Uma das maiores descobertas da ciência na última década foi o uso terapêutico das células tronco.

desde que seja tudo o que possa ser universal. na prática. e nisto coincide com o surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista.. Os milhares de embriões congelados nas clínicas de fertilização assistida do mundo poderão descansar em "paz". Temos. Cada uma pode e deve ajudar a outra com uma dimensão diferente de uma mesma cultura humana e nenhuma deve assumir que constitui premissa necessária para a outra. até a obrigação de tudo fazermos para ser felizes. Todos os profissionais de saúde devem viver a espiritualidade em sua vida pessoal e no exercício da profissão. Papa João Paulo II. A teoria principialista abordada anteriormente não tem unanimidade. A ciência não pode parar de evoluir.cada uma possui seus próprios princípios. mas pode ser um grande referencial para nossas vidas. "A religião e a ciência hão de preservar sua autonomia e seu caráter distintos.. Porém. É a ética do homem empreendedor. A oportunidade que temos hoje é a de uma relação interativa comum". não precisaremos mais nos preocupar com a morte dos embriões para conseguirmos o tratamento de tantas doenças no futuro. sua diversidade de interpretação e suas próprias conclusões. Então.Centro Universitário São Camilo . Estas células se mostraram tão boas quanto as embrionárias! Pronto. a fim de realmente contribuir para melhorar a saúde das pessoas. pois.Bioética e espiritualidade . suas formas de proceder. acentuando privilegiadamente os deveres. Apesar de ter sido escrita há pouco mais de duzentos anos. E ao falar também na busca dos bens materiais. novos Bushs terão assumido cargos de presidência para novos vetos! CONCLUSÃO Os profissionais que trabalham nas unidades de terapia intensiva e nos pronto socorros vivenciam diariamente dramas semelhantes e conhecem. na sua razão e na sua liberdade.pelo menos até a próxima descoberta científica que utilizem embriões.2007. dentro do respeito aos demais. A felicidade de que Kant fala é a da consciência do dever cumprido. uma vez que um homem frustrado faz mal a si e aos outros. a dificuldade de se utilizar os princípios bioéticos em todas as situações. na medida em que não dá grande valor ao gozo dos prazeres. por isso. Sua ética do dever é moderna porque confia no homem. porém os aspectos éticos e espirituais não podem deixar de ser discutidos e referenciados. 1988 111 .1(1):105-112 importantes no cérebro e fígado. a necessidade de que tenhamos compaixão (nos coloquemos sempre no lugar do paciente). é porque considera que ser feliz é um dever do homem. a ética kantiana é extremamente moderna(13). é estranha ao capitalismo consumista. Que tenhamos a sabedoria de usar estes referenciais no dia a dia com nossos pacientes.

Kemp P. Bioética medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. 1997. 7. Eutanásia. 2004. 2. Crítica da Razão Prática. 1985. 2003.bioetica. Roulier R. Cignetti L. São Paulo.htm>. Centro Universitário São Camilo: Loyola. 15. Trans / Form / Ação. Pessini L & Barchifontaine CP. Durand G. 20. 8. 14. Tradução: Adail Sobral. Potter VR. New Jersey: Prentice Hall. Terriou P. 112 . 2003. São Paulo 2004. Acesso em 10/01/2007 in: <http://www. Oxford University Press. Pelotas. Rev Esc Direito. Felberbaum R. Gynecol Obstet Fertil 2006. Fornazari SK. Acesso em 10 de Janeiro de 2007. De HERRGOTT. Maria Stela Gonçalves. 1981. Immanuel. Andersen AN. São Paulo. 5. Essai d'une Histoire de l'Obstétrique.org. Pessini L. 2006. New York. 64. 2nd ed. 17. 1884-1892. Revised edition.2007. 2002. 8(2): 183-93. Sarvier. Principles of biomedical ethics. 2 1. 3. 18. Centro Universitário São Camilo: Loyola. Nygren KG. 2005. 19. Segre M. Paris. Centro Universitário São Camilo: Loyola. Kant I. Tradução: Nicolas Nyimi Campanário. conceitos e instrumentos.org/summa/306407.br/?siteAcao=Entrevista&exibir=integra&id=36. 16. Bioethics: science of survival. Kant. Encyclopedia of bioethics. Bioética e longevidade humana. Giorgetti C.3ª edição. A fluid means of stem cells generation. 27(2). Tradução: Artur Mourão. 4. Georgetown University. 7. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Bioethics: bridge to the future..European Society of Human Reproduction and Embriology. Gianaroli L. 62-3. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Morujão. Hans E. 12. Siebold EG. Centro Universitário São Camilo: Loyola.. Trounson A. Paris: Du Cerf. Sousa AD.1(1):105-112 REFERÊNCIAS 1. Avon C. Ed. Simon & Schuster MacMillan. Charles O. Assisted reproductive technology in Europe. Summa Theologiae.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .358. 11 de Novembro de 1992. Comment améliorer nos résultats en AMP? La France est-elle en retard? Stratégie congélation embryonnaire. Conselho Federal de Medicina. II-II. Lisboa: Edições 70. São Paulo. ¿Por qué bioética y derecho? Acta bioeth 2002. Hum Reprod 2006. 1995.Centro Universitário São Camilo . Potter VR. In http://www. 2007. Nature biotechnology 25(1). a. Drane J & Pessini L. 14: 127-53. Beauchamp TL & Childress JF. 13. Reich WT (editor in chief). 1986. Gonzáles MC . 9. Variáveis conceituais da eutanásia. Trad. In Delascio D & Guariento A. 6. F. Salzmann J. 10. 1971.J. q. por que abreviar a vida? São Paulo. 31-50. 1983. Crítica da Razão Pura. 11. 21(7): 1680-97. Persp Biol Med 1970. 34(9): 786-92. São Paulo. Introdução geral à Bioética: história. de Mouzon J. L'irremplaçable. Steinheil.newadvent. Diário Oficial da União Resolução 1. Fr. Results generated from European registers by ESHRE . Normas Éticas para a utilização das Técnicas de reprodução assistida. 4(1): 505-22.Obstetrícia Normal Briquet .

but a true benefit for each person and community. even economically. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. mas também com uma solidariedade vivenciada até economicamente.Centro Universitário São Camilo . Dignidad humana. ABSTRACT: Bioethics concerns not only sciences advances and techniques. Dignidade humana. com a tolerância que presta atenção real às ações. mas um verdadeiro benefício para cada pessoa e para a coletividade. 113 . empíricas o morales de los otros. Doutor em Direito. empirical or moral explanations and justifications of others. that turns competition not in a barren duel. empíricas ou morais dos outros. Solidaridad.1(1):113-117 Que finalidade unifica a bioética? What Purpose Unifies Bioethics? ¿Qué Propósito Unifica la Bioética? Hubert Lepargneur * RESUMO: A bioética apresenta-se vinculada não apenas com os progressos das ciências e das técnicas. explicações e justificações ideológicas. a la tolerancia que da una atención verdadera a las acciones y a las explicaciones y las justificaciones ideológicas. Solidarity. Solidariedade.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS .2007. PALABRAS LLAVE: Bioética. Human dignity. que torna a competição não um estéril duelo. pero también una solidaridad profunda incluso económicamente vivida. RESUMEN: La bioética se refiere no solamente a avances y técnicas de las ciencias. but also a deeply lived solidarity. * Teólogo moralista. pero en una ventaja verdadera para cada persona y la comunidad. tolerance . KEYWORDS: Bioethics.that gives a real attention to actions and ideological. que convierte la competición no en un duelo estéril.

mas aconteceram rápidos e complexos. Quando se passa do mundo natural ao mundo humano. tanto mais que os instrumentos de conhecimento e de ação eficaz cresceram por seu lado com uma velocidade que ainda não diminuiu. Os próprios valores exprimem um dinamismo espiritual que. isto é.1(1):113-117 INTRODUÇÃO Com o recuo da história percebemos que a bioética integra a globalização que estreita as relações e vínculos dos habitantes desta terra: nesta conhecida evolução. em 114 . As deontologias clássicas não tinham respostas adequadas para inúmeras destas situações. O interior do corpo humano e os mecanismos de suas muitas funções são muito melhor conhecidos. Esta finalidade constitui a invisível força de aglutinação de disciplinas em torno de valores que. Artus e Virard(1) salientam a incoerência francesa de multiplicar para os descendentes uma dívida que cedo ou tarde explodirá. O conceito de ciência que progride independentemente de toda ética não é mais aceitável após o processo de Nuremberg. Sendo harmonização racional.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . a finalidade. Isto significa que o papel e a finalidade da bioética não são destinados a cedo acabar. o que implica a referência a alguma finalização prevalente. característica do ser humano. não pode ser menosprezada: seu papel é fundamental na evolução cultural de nossa espécie. inseridas em regiões e culturas bastante diversas. A priori todos os agentes são bem intencionados para adotar as melhores soluções em cada caso: esta é a finalidade principal e específica da bioética. a bioética não pode admitir este gênero de multiplicação indefinível da hipoteca que muitos países estão egoisticamente engrossando. ainda que não totalmente. o processo da bioética como lugar de trocas de comportamentos e de idéias no campo da biomedicina era não apenas previsível mas inevitável. Como a ética. sendo ética. Práticas e reflexões éticas deram aos poucos emergência à bioética que mobiliza um vasto leque de disciplinas. no qual ele recusa suspeitar uma finalidade natural. no sul do Brasil. pacífica. Qualquer que seja nossa explicação do fenômeno. e consagra nossa responsabilidade. No entanto isto suponha preparações. escolhendo entre as alternativas de meios que cada situação deixa entrever. após ter desempenhado felizmente uma honrável função crítica e mediadora. ainda não julgados após dois anos. Do outro lado inexiste uma autoridade cujo veredicto se imporia sem muita dificuldade no mundo inteiro. em produtos cosméticos. provém do dinamismo da finalidade mais alta ou mais globalizante. Os vários presos. não pode desprezar a finalidade. nem a Organização Mundial da Saúde sonha com tal meta e a diversidade das crenças religiosas sempre constituirá uma barreira instransponível para unificar as soluções sobre alguns pontos delicados. cedo ou tarde. Reparamos algumas das inúmeras incoerências persistentes. em jogo em cada caso. a bioética não passa de um esforço que nunca tocará sua meta final. que caracteriza a espécie humana. representam uma soma superior ao custo que exigiria o acesso ao ensino de todas as crianças do mundo. individual e coletivo. cedo ou tarde. de experiências e das avaliações humanitárias que lhe dizem respeito. No seu livro "Como temos arruinado nossos filhos". Os nove bilhões de dólares gastos nos Estados Unidos. deve buscar sua finalidade.000 reais cada um ao tesouro público. provoque a emergência de uma finalidade como consciência básica do ser humano. a plena e feliz coerência do gênero humano numa terra respeitada. o lugar do sentido está na cabeça humana e se chama finalidade. anualmente.Centro Universitário São Camilo . O universo ético. afinal. reclamam a consciência e a justificação de sua própria função. por deficiência de sadia e corajosa gestão dos políticos. própria a alimentar e suportar a indefinível seqüência das gerações humanas. qual seria? Como meta-ética. espontânea ou refletida. Esta visão de conjunto reclama algumas precisões porque o inevitável conflito dos valores. a bioética se propõe visar o bem do ser humano. aprisionados por furto de um real. entretida. exige uma certa hierarquização. avanços nas situações em que os seres vivos apresentam dificuldades como no pluralismo das soluções propostas.2007. em qualquer área que seja. Por que uma finalidade? Não deixa de ser estranho para um cientista materialista que o cosmo. custam mais de 2. Além de serem indemonstráveis. consciente ou inconsciente. que repercute incessantemente na evolução cósmica. não se sabendo como. Trata-se de processos. A própria complexidade das situações. muitas das quais levantando interrogações éticas. os princípios têm a propensão de suscitar mais oposições do que os valores. legitima as trocas de saberes. Mas.

da decrepitude individual. sua resposta aponta "uma sabedoria do amor". numa extensão que não mais existe. É precisamente a finalidade que cria o sentido." Em toda pendência bioética podemos distinguir uma intenção imediata que. das guerras inúteis. cuja maioria depende direta ou indireta- mente da atuação humana. "Quando a China e a Coréia do Sul o decidirão. propõe uma "doutrina de salvação sem deus". mas de espiritualidade" repete o livre-pensador Luc Ferry. Aliás um valor pode fundamentar vários princípios. portanto. Seriamente problemático é o excesso. Einstein: "Nossa época se caracteriza pela profusão dos meios e a confusão das intenções. Isto valida certa passagem da problemática de princípios indemonstráveis para valores compartilhados pelo coração de multidões. pode se coordenar com outras intenções imediatas para se fundir ou convergir na própria finalidade da bioética. Mas isso exige uma fé religiosa compartilhada socialmente . A força de um valor reside na percepção de seus agentes convencidos e na força de sua atração. de incentivo e ânimo. e a forte necessidade não muda nada disso. se jamais existiu para a humanidade. do que de justificações teóricas repousando sobre filosofias. político aos acionistas agrupados nos maiores Fundos de investimento. "Não carecemos de ética. Multiplicam-se indícios da urgência em fixar uma meta clara à bioética.Centro Universitário São Camilo . agnóstico. em "Vencer os medos". especial e prioritariamente da vida humana. no dia a dia. Neste sentido o filósofo Luc Ferry(2). de porto de salvação . isto é. completada por um poder excessivo dos maiores dirigentes das transnacionais na auto-determinação de seus proventos e privilégios de toda sorte. A própria moral já está a serviço da vida humana situada no seu contexto ambiental social. em princípio. dos outros seres vivos neste planeta.1(1):113-117 nome de qual princípio ou valor estamos chocados por tais ocorrências? Um dos benefícios das religiões é de apontar finalidades tanto para o crente individual quanto para a humanidade. atual e progressivo. a serviço da própria dinâmica dos seres históricos. basicamente financeiros. natural e histórico. A globalização acelera o individualismo e a segmentação entre regiões: nem tanto em nome da raça ou da nacionalidade quanto em razão da posse econômica e portanto política dos cidadãos mais bem sucedidos. mas que a estrada de sua caminhada está livre. sejam eles de pura especulação ou de aposentadoria. assim resumiu o desafio global: "Nenhuma democracia. ex-ministro da educação. o regime do Norte desmoronará". Como a ética. como da construção de um novo humanismo. antes de constituir um princípio ou um valor. cultural. A fraqueza ou o esvaziamento da maioria das religiões tradicionais (mesmo no Japão) não está preenchida pela multiplicação de seitas evanescentes. nesta " inteligência do coração" valorizada por Pascal. O cientista Nicolas Hulot(3). Como super e abrangente ética. mas carente de sentido". da concentração dos recursos de todo tipo. A espiral resultante escapará provavelmente à humanidade". nenhuma economia poderá resistir à combinação do esgotamento dos recursos naturais. que não pode escapar a uma percepção global da bioética. As intersolidariedades são um dado. Na sua procura do enfrentamento do mal e da morte. das convulsões climáticas e da pobreza. Não é a desigualdade que cria problema em si: não apenas ela é universalmente natural. a Bioética tenta resolver os problemas existenciais que a concernem. ou da morte. De fato trata-se essencialmente da vida humana. Que finalidade escolher para a bioética? Vimos que a finalidade capaz de englobar os esforços bioéticos reside mais num valor do que num princípio. na área da defesa e promoção da vida. que asfixia a percentagem crescente da população mundial que carece dos meios de sobrevivência. relativo. O agravamento da situação. nenhum projeto social. sempre existiu e sempre existirá. como um princípio pode justificar várias normas. 115 . Não saímos do contexto de uma bioética amplamente considerada: tudo isso está a serviço da vida.Que finalidade unifica a bioética? . mas sem responder a desafios tais como o sentido da velhice. Neste livro o autor. Afinal sabemos que a Bioética procura mais convergências de normas. a bioética está à procura de um valor que lhe sirva de farol e meta. se origina na última evolução do liberalismo capitalista que confere um crescente poder econômico e. denuncia (talvez com certo otimismo) "uma sociedade cheia de moral. Verifica-se a sentença de A. ideologias ou religiões inconciliáveis. não obstante o valor. de maneiras de agir. na reflexão.2007. Isto não significa que terminou a tarefa da bioética. e menos ainda pelos adeptos de um secularismo que recusa toda afiliação religiosa institucional que lhe imporia soluções pré-fabricadas.

são autônomas cada uma das contribuições e não tanto a própria bioética. Toda pesquisa científica. a ética tout-court. todas bioéticas. não é seguro que a divindade seja uma mulher. A abrangência da bioética. do qual nenhum ser 116 . mas uma porção de intervenções escapam deste temário e são suscetíveis de melhorar a condição humana. o perito pode falar em "Biologia de proteção". mais do que um título honorífico. Ao negligenciar drásticas reformas que se afigurariam como necessárias.2007. Trata-se de operar as melhores escolhas para cuidar da saúde de todos. Sugestões para definir a Bioética Nosso preâmbulo significa que estamos procurando uma definição da bioética que expresse ao mesmo tempo sua essência e sua finalidade. Constituiria uma proposição ao lado de outras. Por que. acumular referências éticas? Parece mais razoável incluir. que ela seja eticamente dirigida para compensar as desigualdades sociais excessivas e cuidar com empenho do caso dos menos privilegiados. combatendo inimigos verdadeiros ou supostos. mas a experiência parece confirmar que toda hierarquização de valores é problemática. a urgência social e sanitária e o crescimento econômico sustentável. segundo uma ordem de urgência adaptada a nossos meios e necessidades vitais. A bioética constitui uma plataforma de escolha para promover mais vida saudável. sobretudo potável. podemos falar em "bioética de libertação". em contra-ataque. para não dizer com a justiça. Assim a bioética pode ser laica ou religiosa. pedindo ajuda de muitas disciplinas conexas. afinal. sem prejudicar aportes de crenças minoritárias. A elevação do nível de CO² e da temperatura parece inexorável.Centro Universitário São Camilo . mas criando equívocos. Se a bioética é divina. na expressão sintética que desejamos. ocultando outros não menos importantes. na discussão global. sem atender à globalidade desta disciplina. por importantes e legítimas que sejam. eliminação de povos. porque ressaltam um aspecto. de qualquer maneira. Nossa opção: o personalismo solidário Com o personalismo está realçada a dignidade da pessoa humana que. isto é. (como toda obra de arte) deve ser autônoma no espaço de sua competência.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . mas o estatuto próprio da bioética lhe atribui o encargo de debates entre proposições incompatíveis. Enfrentamos de fato várias proposições. Falar em "bioética feminina" é privilegiar um ponto de vista que ninguém julgará auto-suficiente e suficientemente abrangente. centro real da preocupação em questão. clausurada num conceito de libertação que tem de deixar clara a visão dos inimigos ou obstáculos de que ela se esforça de se livrar. Como exprimir este dinamismo para o bem vital? Existem várias proposições. que temos também chamado de super-ética. ele pode falar em "bioética de intervenção" ("bioética dura" que deve precisar ainda a direção geral de seu voluntarismo proclamado). O valor-fim procurado deveria servir para hierarquizar tais necessidades vitais individuais e comunitárias. peritos prevêem o que nos espera no fim do século: quatro bilhões de seres humanos com falta de água. Nisso está inscrito sua relação com a ecologia e com a economia. Se não. Se houver entre nós uma preferência. Na esteira da teologia da libertação. sem omitir as necessárias pesquisas suscetíveis de melhorar nossa saúde e a das gerações futuras. elevação perigosa do nível dos mares e da temperatura. mas ficamos aqui no terreno secular. ou apontam uma subdivisão excludente de outras. arriscamos ver bioéticas racistas ou declaradamente machistas. Se o perito achar que há muito para reformar no campo bioético do momento. mas tal temática parece muito ideologizada. Se sua sensibilidade o leva a acentuar a proteção aos seres mais vulneráveis. liquefação das geleiras.1(1):113-117 O cultivo universal do melhoramento da vida não pode prescindir de suas bases econômicas. a referência fundamental ao ser humano que é pessoa. Por isso achamos insuficientes certas qualificações pouco exaustivas. deve ser um princípio de ação. evocando por isso a solidariedade que nos afeta e une. salientando a superação de um individualismo estreito. este bioeticista deverá precisar quem ele entende proteger e de que perigos. mas não define nem sua essência nem sua finalidade. Ponto de vista mais abrangente seria falar em "bioética de referências éticas": a expressão é incontestável. A bioética nos parece antes essencialmente construtiva e não na defensiva. sem dispensar a necessidade de classificar a periculosidade dos inimigos de que se deve defender. que temos demonstrado solidárias. Isto não significa que seja fácil conciliar a luta pelo meio ambiente. em benefício do maior número possível de pessoas. sugere a expressão da "bioética de reflexão autônoma". isto é. então.

normas expressivas dos valores que. A moral é disciplina humana. têm por fim o bem comum. Artus P. 2006. A avaliação requerida da atuação mais conveniente neste contexto faz apelo a juízos de valor. trazendo dilemas que exigem extrema atenção aos dados e fatos. na bioética como no direito. Comment nous avons ruiné nos enfants? Paris: La Découverte. deve aliciar-se sobre três pontos básicos. notadamente porque nenhum desfruta de tanta consciência e assume tanta responsabilidade. Paris: Odile Jacob. resta muito por fazer. Nunca o ser humano pode deixar de ser solidário com seu ambiente e sobretudo com as comunidades às quais pertence. no caso. lembramos que as construções normativas. do regime político vigente. apesar das importantes desigualdades. situações reais de crise ou de alternativas embaraçosas e complexas. Por fim. cuja explicitação não entra nesta exposição de bioética secular. na sua falta. Hulot N. tanto factual quanto normativa. 2. que permanece aberta. Em muitos países substanciais progressos foram realizados.Centro Universitário São Camilo . Todas as pendências com as quais a bioética é levada a tratar repousam sobre dados factuais de nossa história. cultural e moralmente confiáveis.Que finalidade unifica a bioética? . 117 . Le Nouvel Observateur de 20 dez 2006. Como os desafios são concretos. valores e normas. sabemos que as religiões institucionalizadas acrescentam normas às quais aderem ou deveriam aderir os crentes de tais denominações. já incluídas no biodireito já constituído ou em formação. exigem quadros de avaliação que a cultura providencia ou. 2006. como também a bioética. MP. por isso o personalismo implicado na bioética deve ressaltar explicitamente sua dimensão de solidariedade. repetia este eminente sábio. a bioética constitui um instrumento para tentar recuperar os excluídos salváveis. O ser humano é o ser vivo mais importante do planeta e. Virard. que o pesquisador deve montar. Vale conferir esta proposição com a teoria tridimensional do jurista Miguel Reale.2007. que inclui as condições de vida humana dos cidadãos menos providos. REFERÊNCIAS 1. das omissões políticas ou sociológicas. Nenhum outro animal merece tanta consideração e cuidados. Ferry L. 3. Toda instituição do Estado.Vaincre les peurs.1(1):113-117 humano deveria ser excluído. mais exigem respeito e atendimento. A tais normas da sociedade civil. sem excluir nenhum deles: fatos.

PALAVRAS-CHAVE: Bioética.Conferencia proferida no III Encuentro Latinoamericano de Ética y Bioética en Enfermería. como um ser humano necessitado de ajuda.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . como un ser humano necesitado de ayuda. RESUMO: Ética social é a aplicação do equacionamento ético aos problemas sociais. impõe ao hospital o compromisso ético de construir uma imagem ética para a organização que tenha como sua responsabilidade suprema o bem de seus usuários. Doutora em Saúde Pública pela USP. ABSTRACT: Social ethics is the critical application of ethical reasoning to social problems. Este artigo faz uma análise dos serviços de saúde sob a ótica da ética social. Vice-presidente de Bioética (2005-2007).Centro Universitário São Camilo . Cuidar é o símbolo mais poderoso no fundamento de sua ética. Enfoca el rol y la responsabilidad social de los profesionales y de las organizaciones sanitarias en la construcción de un sistema de salud justo. que respeite os direitos humanos e os direitos dos usuários. El enfermo. Nursing and medicine are human and ethical responses to sick people vulnerability. E-mail: elma@usp. A prática da enfermagem tem sido marcada pelo cuidado às pessoas. Membro da Diretoria da Associação Internacional de Bioética (2003-2007) (2007-2010). Nurses' professional ideal must consider the search for community well-being through actions marked by cooperation and solidarity. pois devem cuidado às pessoas. for they have to care for people. Caring is the most powerful symbol of nursing as the basis of its ethics. Los cambios en la forma de organizar y de estructurar los servicios de salud no alteran las expectativas sociales acerca de los profesionales de salud. Professora Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.br 118 . El ideal de profesionalismo de las enfermeras debe contemplar la búsqueda del bien de la comunidad por acciones cooperativas y solidarias. Institutional ethics. A enfermagem e a medicina seguem sendo respostas humanas e éticas à vulnerabilidade da pessoa enferma. Cuidar es el más poderoso símbolo de la enfermería en el fundamentar de su ética. The present paper brings an analysis of health services from the perspective. Las enfermeras deben tomar en serio el reto de aplicar sus conocimientos de expertas de manera a contribuir para el bien estar común de la sociedad. Ética Institucional.2007. Este artículo trae un análisis de los servicios de salud bajo la óptica de la ética social. Enfermería y medicina son respuestas humanas y éticas a la vulnerabilidad de la persona enferma. 29 e 30 de setembro e 01 de outubro de 1999 e promovido pela Escola de Enfermagem e Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. Social responsibility. Ética Institucional. eqüitativo. Sick people as human beings needing help requires from hospitals the moral compromise of creating an ethical character for the organization that includes as its supreme moral responsibility the well-being of sick people. As transformações na forma de organizar e na estruturação dos serviços de saúde não modificaram as expectativas sociais em relação aos profissionais de saúde. La práctica de la enfermería ha sido siempre marcada por el cuidado a las personas.1(1):118-123 Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería?1 Cooperate for the common good: social responsibility of nursing? Cooperar para o bem comum: responsabilidade social da enfermagem? Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli* RESUMEN: Ética social es la aplicación crítica del razonamiento ético a los problemas sociales. Congreso de Ética y Bioética de profesionales de salud . O ideal de profissionalismo da enfermagem tem de contemplar a busca do bem comum da comunidade por meio de ações cooperativas e solidárias. The changes in the ways of organizing and structuring health services do not change social expectations about health professionals. Enfoca o papel e a responsabilidade social dos profissionais e das organizações de saúde na construção de um sistema sanitário justo. KEYWORDS: Bioethics. impone al hospital el compromiso moral de construir una imagen ética para la organización que incluya como su responsabilidad moral suprema el bien del enfermo. PALABRAS LLAVE: Bioética. Responsabilidade social. * Enfermeira. que respete los derechos humanos y los derechos de los enfermos. pues deben cuidar a las personas. 1 . Nurses must take seriously the challenge of applying their expert knowledge to contribute for the common well-being of society. focusing on the role and the social responsibility of professionals and medical organizations on the construction of a fair and equitable health system that respect human rights and the rights of sick people. O paciente. Nursing practice has always been characterized by caring for people.realizado nos dias 28. As enfermeiras devem levar a sério o desafio de aplicar seus conhecimentos de expertas de forma a contribuir para o bem estar comum da sociedade. equitativo. Responsabilidad social.

analisar las acciones posibles que podrían alterar las condiciones entendidas como problemáticas y . la investigación con sujetos humanos. su elemento fundamental y constante es el ser humano que sufre y que clama por cuidados. pues no se puede olvidar 119 . interfiriendo en la relación de cuidados que se establece entre los profesionales de salud y las personas que sufren. En este sentido será dispensada una especial atención al rol de la administración sanitária. Las decisiones tomadas en los límites de la estructura de cualquier organización no afectan solamente su vida. es la aplicación del razonamiento ético a los problemas sociales. . la guerra y la paz. o sea es mediada por este complejo con caracteristicas empresariales y por los actos administrativos en lo cual se han trasformado los servicios de salud. Historicamente las actividades que tienen como reto ganar dinero parecen tener una relación conflictuosa con la ética y esto no ocurre solo en el mundo de la salud. Para esta discusión no se puede olvidar que el hospital al cambiar de abrigo para pobres y viajeros a centro de diagnóstico y tratamiento de alta tecnología necesita cada vez más recursos para su financiamiento y exige cambios en su organización administrativa con la introducción de la forma empresarial de organizar y estructurar el trabajo y la incorporación de profesionales con formación en administración y economía en sus actividades de apoyo administrativo o mismo en su dirección y gestión. Vamos también intentar enfocar el rol y la responsabilidad social de los profesionales de salud como agentes activos para la construcción de un sistema de salud justo. Esto es especialmente importante en las organizaciones hospitalarias. equitativo y que respete los derechos humanos y especialmente los derechos de los enfermos. Aun podríamos incluir en esta extensa relación el sistema de salud y las cuestiones como el acceso a la asistencia médico-sanitaria o el impacto para la salud de una población o una comunidad de las decisones tomadas por los gestores. necesitan de la dirección de personas calificadas para su administración. los derechos de los animales. Sin embargo. Pero la ética social no se resume a la aplicación automática de la teoría a determinados problemas sociales en particular. los consumidores. Entre los temas ubicados como retos de la ética social encontramos la pobreza. administrativas y económicas generales própias de los negocios y como tal.2007. la relación de los profesionales de salud con los enfermos. determinando cuales de ellas son problemáticas a la luz de la justicia o de la equidad. hoy día. no ocurre fuera de una instituición. pues no obstante todos los cambios y trasformaciones por las cuales esta instituición tiene pasado. El rol socialmente aceptado del hospital es el de cuidar a los enfermos. Actualmente el hospital y demás organizaciones sanitarias son instituiciones de servicios con una importante función social y características técnicas. los crímines y las puniciones. eficiencia. ¿Como garantizar la sobrevivencia económico-financiera de la organización sanitaria y al mismo tiempo adoptar principios y valores éticos? Es bien verdad que algunas veces las decisiones administrativas pueden estar en conflicto con aquellas del personal sanitario. Hay una línea demarcadora que pone de un lado los que cuidan directamente a los enfermos y del otro los que dan el apoyo administrativo o proveen los servicios de infraestructura. Afectan también a la vida de todos sus participantes: los trabajadores. A primera vista los conceptos que acompañam las preocupaciones con eficacia y eficiencia parecen oponerse a este rol social. calidad y satisfacción del cliente(2). Sus tareas abarcan: . Pero no se puede olvidar que es justamente la función social del hospital que es determinada por sus orígenes y por su mision que hace esencial el planteamiento de la ética social en los servicios de salud.Centro Universitário São Camilo . Este cambio trae para la cotidianidad de los servicios de salud nuevas preocupaciones como lucro. los inversores y los ciudadanos. en lo cual este conflicto gana proporciones aun más grandes por la misión y finalidad social del hospital.examinar las condiciones sociales.1(1):118-123 Por ética social comprendemos la reflexión sistemática acerca de las dimensiones morales de las estructuras y de los sistemas sociales. su relación con los profesionales de salud y el impacto que las decisiones administrativas pueden ejercer en las actividades asistenciales.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? . En este momento vamos a detenernos en el análisis de los problemas del sistema sanitario y de los servicios de salud bajo la óptica de la ética social. la discriminación. el aborto.prescribir soluciones basadas en el exámen de los problemas y en el análisis de los cursos de acciones posibles(1). la eutanasia. La ética social puede ser pensada como una rama de la ética aplicada.

a la mala calidad. a la falta de equidad y a la ineficiencia. habilidosa. Administrar un hospital no es tarea fácil. pero principalmente en los aspectos médico-asistenciales o sea en el nivel de salud y calidad de vida de la población.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . muchos administradores. bajo el riesgo de él perder su función social. a pesar de todo el movimiento por la ética en los negocios. haciendo imposible conceber su desarrollo institucional y su gestión de manera aislada del enfoque empresarial. Es en este momento que se instala en el servicio de salud lo que se conoce como la perversidad moral de la organización. no se preocupan con la ética. olvindandose que muchas veces la toma de decisiones exige el analisis de una serie de factores que van allá de los números por más exactos que estos sean. Ellos siguen teniendo la misma obligación moral de siempre: buscar la excelencia. Para hacer frente a las dificultades financieras. alegando que hay una imensa área gris entre lo que es cierto o errado.2007. La palabra administración se origina del latín y significa aquel que hace servicios a otro. Por lo tanto lo que se debe buscar es el desarrollo de un servicio de salud eficaz que atienda primeramente a las necessidades de las personas. del médico y del administrador. Esto exige una dirección bien preparada. Este hecho impone a los profesionales de salud dilemas éticos. Es cuando él se retrae de su razón de ser y de lo que es esperado para su tipo de actividad. Esto pone en riesgo la satisfacción de todos: de los profesionales de salud. los hospitales pierden su objetivo social y se tornan poco efectivos. sea individual o colectivamente. Sin embargo. En America Latina esta cuestión adquiere un sentido especial. Cuando esta ordenación se invierte. pues en la mayoria de los países de este continente el sector de salud se vio obligado a reflexionar y cambiar el modelo de "beneficencia-caridad" que los hospitales traían desde su inicio. Es cuando el hospital que tiene la misión social específica de curar en la practica se desvia en la dirección opuesta o se distancia de esta misión y sólo cura cuando el curar representa un negocio rentable(4). Es triste observar que hoy día el hospital y muchos de los profesionales que los dirigen o de los que trabajan en estos servicios no están conscientes de sus responsabilidades humanas.Centro Universitário São Camilo . Lo que cambia es 120 . El hospital abarca un universo de recursos y elementos variados que se articulan en una acción coordinada y hacen de esta organización una de las más complejas de la sociedad actual. El hospital que actua como un organismo ético es aquel que persigue inteligentemente sus metas y al mismo tiempo respeta los valores y los derechos compartidos por la comunidad a que sirve. las decisiones de los administradores que actuan en el área de la salud son actos de naturaleza ética. Administrar es el arte de pensar. tender hacia ella. Los cambios en la forma de organizar y de estructurar los servicios de salud no modifican las expectativas de la sociedad acerca de los profesionales de salud. de la enfermera. con gran capacidad de liderazgo. de actuar. con todos sus componentes funcionando como un equipo para atender primeramente a las necesidades de salud de la comunidad. íntegra y que actue basada en principios y valores éticos. de decidir. Así. La finalidad del trabajo del administrador hospitalario es alcanzar resultados positivos no sólo en el sentido económico. activa. de hacer acontecer y de obtener resultados. de los enfermos y consecuentemente de la comunidad. sociales y comunitarias y tampoco evaluan el impacto que sus actividades ejercen en la sociedad y en la salud o en la calidad de vida de la población. Transfieren la atención de los dilemas éticos para los problemas administrativos. No se espera que ignoren las consideraciones materiales sino que subordinen los ganos financieros a valores más nobles como la responsabilidad con la vida de los enfermos y la responsabilidad con la salud de la comunidad. en segundo lugar a las necesidades de la organización y sólo después a las necesidades individuales de los empleados. sensata. que los desafia a lograr retos de justicia y equidad y los lleva a cuestionar cuales son las responsabilidades sociales de su profesionalismo. el sector salud viene implantando la propuesta del hospital como una empresa social de salud. La impaciencia y la prisa para llegar a los objetivos y a las metas trazadas constituyen factores para la negligencia en el trato de las cuestiones éticas dentro de estas organizaciones. diversificados en razón de la posición que este profesional ocupa en la instituición(3). mismo aquellos que actuan en el campo de la salud. La mayor aspiración de la administración sanitaria debe ser el desarrollo de un servicio eficaz. con autoridad. Un administrador ético es aquel que se conduce eticamente todo el tiempo y no solamente cuando le conviene.1(1):118-123 que ellas lidan con los limiares críticos y preciosos: la vida y la muerte de las personas.

y la sociedad siente estes beneficios como algo entre un derecho y una obligación. La enorme dureza de la actividad asistencial requiere que los profesionales de salud puedan contar con un soporte institucional que promueva la excelencia.Centro Universitário São Camilo . Esto porque los hospitales lidan con beneficios singulares como la salud/ enfermedad y la vida/muerte de las personas. principalmente para los que pertenecen al sector privado de la salud. Así como los gastos aumentan y los recursos son finitos es inevitable hablar de la racionalización de los costes en salud. Es necesario construir una imagen ética de la organización hospitalaria. Sin embargo. de la beneficencia equivale a pedirle para que se olvide del bien interno de su profesión. económicos o comerciales? Estas tensiones entre el rol de servidor de la comunidad y el de negocio son constantes para el hospital. Para la enfermería este conflicto adquiere un sentido especial. A cada día la enfermería es más reconocida como proveedora de cuidados a la salud de las personas(6). la imagen cultivada debe transparentar una actitud de celo en la defensa de las personas con problemas de salud.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? . El bien interno de la enfermería es el cuidado a las personas. Hay una insatisfacción que surge de la expectativa social de que estas organizaciones no deben comportarse como negocios comunes. Fundamenta su ética. y que pasa no solo por la búsqueda del beneficio del paciente. Se impone de esta forma un conflicto de intereses para los profesionales de salud por las amenazas al canon de lealtad . eficiente y efectiva de los recursos(5). La representa. y la mayoria de la sociedad argumentará que ésta no solo es la mejor sino la única solución posible. Es el enfermo como un ser humano necesitado de ayuda quien impone al hospital la obligación de comprometerse moralmente. El hospital no puede correr el riesgo de ser visto como una organización que interpone sus preocupaciones económicas como impedimento para la excelencia del actuar de los profesionales de salud. sea previniendo alguna enfermedad o asistiendo a las personas que ya se encuentran enfermas. Los dilemas morales enfrentados en la cotidianidad de los servicios de salud no son ni pocos ni sencillos. La práctica de la enfermería ha sido siempre marcada por el cuidado a las personas. pues tienen una propuesta superior. 121 . La elevación de los costes es tal que una decisión en la asistencia envolucra grandes cantidades de dinero. La responsabilidad moral suprema del hospital es con el enfermo. ¿El hospital es una instituición social destinada a atender las necesidades de salud de la comunidad? ¿O es un negocio como otro cualquier que cuando se vincula al segmento privado se somete a las presiones del mercado y primeramente se motiva por los lucros y incentivos financieros. Veamos un ejemplo . será conducido hacia la puerta de salida.2007. Los cambios por los cuales tienen pasado el área sanitaria con la incorporación de la tecnología trae muchos nuevos dilemas para los profesionales. El primer objetivo de la enfermera tiene que seguir siendo el cuidado al paciente y no el ahorro.alguien que aparezca en un salón de demostración de una tienda de coches sin un peso y pide por un nuevo coche. no importa cuales sean las razones porque quiere un nuevo coche o cuales sean sus necesi- dades. Los profesionales de salud han siempre buscado su identidad profesional por la vía de la excelencia. Pedir a la enfermera que abandone el reto del cuidado. Debe darse justo el contrario. sólo debe esperar ser atendido. equivale a pedirle para que deje de lado su identidad profesional. sino también por la gestión eficaz. los servicios de salud funcionan mal o no funcionan. Hay muy pocas personas que piensan que debería ser de otro modo. Cuando el gestor desconoce esto las consecuencias en la moral de los profesionales son desastrosas.estos pueden ver su lealtad dividida entre el enfermo y la exigencia de ahorrar. Posiblemente el más fundamental de estes dilemas sea el relacionado con su identidad y misión. En caso contrario. pues la enfermería y la medicina son respuestas humanas y éticas a la vulnerabilidad de la persona enferma. El cuidado es toda la acción que contribuye para promover y desarollar lo que hace viver las personas y la comunidad. El cuidado es todo que contribuye para promover y fomentar la vida y la salud. Este conflicto de intereses tiende a aumentar con la introducción del managed care o medicina gestionada. si alguien necesitando de cuidados de salud que valen el precio de muchos coches nuevos llega al hospital sin un peso y pide para ser atendido. Al adoptaren algunas practicas propias de los negocios tanto los hospitales con ánimo de lucro como aquellos sin ánimo de lucro tienen perjudicado la imagen de benevolencia que la sociedad espera para este tipo de organización social. Se confunde con ella.1(1):118-123 la vía para lograrla que es distinta de épocas anteriores. Cuidar es el más poderoso símbolo de la enfermería.

El managed care es más agresivo y peligroso en las instituiciones con ánimo de lucro. Se supone la conversión de ellos en gestores de recursos. Costes incontrolables y personas sin ningún tipo de atención a la la salud. Estamos delante de la paradoja del exceso y de la privación. usted debe ser competente para bajar los costes con la asistencia de enfermería. En una situación conflictuosa la ética tiene precedencia sobre la economia. pero usted debe mirar más allá y cumplir integralmente con las obligaciones extraordinarias de cuidados que tiene con sus pacientes y con la sociedad. Los efectos más deletéreos de esto van a ser sentidos donde ellos deberían ser más benéficos: junto a la cama de la persona enferma. En caso 122 . Lo que sí parece necesario es organizar el sistema de tal manera que no se premie directamente el ahorro económico que el profesional logre para el sistema sino su correcto ejercicio profesional. los negocios y el comercio dirijam el sistema de salud. el beneficio personal del paciente. En otras palabras la cuestión es como conciliar los reclamos de la economia y las demandas de la ética. el respeto a las personas y a la justicia conforman un mensaje conflictuoso para la enfermera: Mira. Los recursos son controlados por via de la influencia en los actos asistenciales. Se olvida que una de las pocas justificativas éticas para la racionalización costo/beneficio en los servicios de salud es la justicia distributiva. Bajo la presión y la tensión de la probabilidad de un desastre económico que puede ser provocado por el constante aumento de los costes con la atención a la salud se corre el riesgo de permitir que la economia. Así parece claro que los problemas de coste y acceso deben ser tratados de manera conjunta.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Parece obvio que la enfermera debe preocuparse en usar bien los recursos disponibles. Sin embargo. pues si ahorra cuando no debe hacerlo o despilfarra sin necessidad.Centro Universitário São Camilo . Se le pide a la enfermera que incluya el criterio de asignación de recursos entre los objetivos de la asistencia de enfermería. La medicina gestionada envolucra un sistema de atención a la salud que administra los recursos. la instituición y la sociedad pusieron en ella. Así el managed care es moral solamente si persigue el reto de servir a las necesidades de salud de la sociedad y especialmente de las personas que ya se encuentran enfermas. la economia no debe determinar los fines y los objetivos de las vidas de las personas y de las sociedades ni tampoco debe determinar si estes fines y objetivos son morales o imorales. pues la racionalización de la asistencia a la salud basada solamente en los costes limita el acceso a algunos procedimientos que pueden ser benéficos para el paciente. la calidad y el acceso a los servicios de salud. contrabalancear la eficiencia en el uso de los recursos con las consideraciones acerca de las consecuencias. Hay muchos tipos distintos de managed care y no todos merecen el mismo juicio moral. Su moralidad va a depender de los objetivos propuestos y de los medios usados para conseguirlos.1(1):118-123 pues esta forma de gestionar el sistema de salud trae nuevos elementos para este debate. Sin embargo. Aquí es donde aparece la posible perversión moral de este sistema. poco específicas y que traen un pequeño beneficio a un gran coste. La ética del managed care está en la posibilidad de conciliarse la búsqueda del mejor bien para el paciente con la realidad de perseguir cada último procedimiento disponibilizado por la tecnología. Si el imperativo ético de actuar en el mejor bien del paciente fuera interpretado en su literalidad puede llevar a esfuerzos y tentativas costosas. La sociedad debe trazar políticas públicas determinando unos estándares mínimos para la conducta moral del managed care. Es sumamente importante no imponer el peso moral del managed care exclusivamente a la conciencia individual de los profesionales de salud. el bien de la sociedad o la ganancia en el negocio. pero no puede olvidarla. Esto porque si de un lado tenemos el problema de los costes crescientes de otro tenemos el problema del acceso a la asistencia a la salud. Esto porque ella posibilita a la sociedad lograr las propuestas deseadas con eficiencia por la vía del mejor uso de los recursos. Un sistema de managed care que no plantee conjuntamente estas dos cuestiones impone sacrificios sin la promisa de más equidad en cambio. como ya dijimos el primer objetivo a ser perseguido por la enfermera debe ser el mayor bien del paciente y no el ahorro.2007. Las metas pueden incluir la calidad de la asistencia a un paciente individualmente. los derechos. Sin duda. entonces está faltando a la confianza que el paciente. la contención de los costes. sean estos practicados por las enfermeras. los médicos o los demás profesionales de salud. Algunos de estes objetivos son moralmente sostenibles y otros son imorales.

capaces de decidir acerca de su propia vida y su salud. La actitud solidaria ocurre cuando las personas sienten que comparten la vida en todos sus aspectos. La justicia es necesaria para proteger a las personas como sujetos autónomos que son. pues debemos cuidar a las personas. Powers M. 2 (2).(199-). Como enfermeras debemos tomar en serio el reto de aplicar nuestros conocimientos de expertas de manera a contribuir para el bien estar comun de la sociedad.Entre a moral e a técnica:ambiguidades dos cuidados de enfermagem. cuando sentimos que somos responsables unos por otros. Zoboli ELCP. la ética social para los servicios de salud.1995. como muchos de los que hoy tienen el esencial pueden contar con la probabilidad de tener menos en el futuro(6). Fortes PAC. Nuestro ideal de profesionalismo debe incluir la búsqueda del bien de la comunidad actuando con una relación más cooperativa y solidaria. La justicia postula la igualdad en el respeto y en los derechos de las personas. Managed care: how economic incentive reforms went wrong. Chile:Universidad de Chile. Problemas éticos de la gestión sanitaria. 8. para el placer del cuidado. Leopardi EMT. Pero es igualmente indispensable la solidariedad. Responsabilidade ética do administrador de saúde. 3ª ed. Florianópolis:Editora da UFSC. [material didático del Ciclo de Bioética Clínica del I Magíster en Bioética de la Universidade de Chile y del Programa Regional de Bioética para la América Latina y Caribe OPAS/OMS] 6. Kennedy Institute of Ethics Journal 1997. Responsabilidade ética do administrador de serviços de saúde: a realidade do micro-sistema hospitalar brasileiro.1998.1(1):118-123 contrario no sólo se puede esperar que muchos sigan teniendo el futil antes que haga el esencial para todos.2007. Para hacer frente a la realidad en que vivimos en America Latina. para el sistema sanitario y para los profesionales de salud debe colaborar para la promoción de la autonomia de las personas permitiendo que ellas desarrollen sus capacidades. San Diego: Academic Press. 4. Ética sin moral. Madrid:McGraw-Hill. Cortina A. Santiago de Chile. Debemos cultivar la solidariedad para que pasemos de la obligación de cuidar. Los sistemas perversos y la corrupción institucionalizada. 123 . REFERÊNCIAS 1. AdSaúde Jornal 1994. Ejercicio de la medicina y gestión de la salud. Gracia D. overview In: Chadwick R. 1998. Facultad de Medicina. pues los seres humanos solo pueden reconocer y realizar su potencial completo en la vida comunitaria.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? .(editor). [Tese apresentada a Universidad de Chile. 7. 2. La solidariedad exige preocupación con el bien estar del prójimo(8). 5. Debemos cultivar la solidariedad para que pasemos del deber de hacer el bien para el placer de hacerlo.Centro Universitário São Camilo . Madrid:Tecnos. La doble moral de las organizaciones. Social ethics. Etkin JR. Welch DD.1993.4: 143-151. Facultad de Filosofía para obtención del grado de Magíster en Bioética] 3. Las barreras para el acceso a la asistencia a la salud son aún muchas y para los ciudadanos que son los excluidos hablar de un sistema de salud justo es como hablar de algo irreal y muy distante. 1994. Encyclopedia of applied ethics. 7(4): 353-360.

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Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética1
Evaluation of nursing undergraduate students about emergent subjects in bioethics Evaluación del conocimiento de estudiantes de pregrado en enfermera sobre temas emergentes en la bioética
Pollyana Lira* Maria Angela Reppetto** RESUMO: A bioética é um tema de intensa discussão nas mais variadas áreas do saber e de suma importância no ensino superior. Os três princí-

pios éticos que formam a trindade bioética são: autonomia, beneficência e justiça. Após refletirmos sobre o conceito de bioética, seus princípios e aplicações na prática do enfermeiro, abordaremos os seguintes temas emergentes em bioética: células-tronco, eutanásia e aborto. Este estudo tipo descritivo teve como objetivos: identificar o conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem, sobre temas emergentes em bioética, especificamente células-tronco, eutanásia e aborto; descrever o entendimento dos alunos sobre bioética, sua importância e seus princípios de autonomia, beneficência e justiça; e averiguar o tipo de meio de comunicação utilizado pelos alunos para adquirir informação sobre os temas relacionados. Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa e aceitação dos alunos para participar do estudo, preenchendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi realizada a coleta de dados, por meio de questionários, aplicados aos discentes do 4º ao 6º semestres de um curso de enfermagem, totalizando 53 acadêmicos. Após a análise dos dados, concluímos que: existe pouco conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética, já que a maioria das respostas obtidas foram inadequadas ou em branco, somando 72% sobre eutanásia, 79% sobre células-tronco e 77% sobre aborto; existe um bom entendimento por parte dos alunos por bioética, pois (68%) responderam que têm importância na atitude ético-profissional do enfermeiro, considerando desde o comportamento do enfermeiro, suas atitudes, até o conhecimento das leis para tal atuação. Porém, a respeito dos princípios de autonomia, beneficência e justiça, foi predominante as respostas inadequadas e em branco, obtendo respectivamente 68% , 72% e 75%. O meio de comunicação mais citado foi a internet - 47%, seguida de revista e revista científica. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem. Bioética. Ensino.

ABSTRACT: Bioethics is subject of an intense argument in the most diversified areas of knowledge and it is of utmost importance in superior edu-

cation. The three ethical principles that form the bioethical trinity are autonomy, beneficence and justice. After reflecting on the concept of bioethics, its principles and applications in nursing practice, we will approach the following emergent subjects in bioethics: stem-cells, euthanasia and abortion. This descriptive study had as its aim to identify the knowledge nursing undergraduate students have about emergent subjects in bioethics, specifically about stem-cells, euthanasia and abortion; to describe how students understand bioethics, its importance and its principles of autonomy, beneficence and justice; and to inquire about the type of media used by students to get information on the said subjects. After the approval of the project by the Ethics in Research Committee and the acceptance of participation in the study by students, who filled and signed the Term of Free and Informed Consent, we collected data by means of questionnaires, applied to 53 4th to 6th semester nursing students. After data analysis, we conclude that students know very little about emergent subjects in bioethics, since most either gave wrong answers or simply did not answer - 72% on euthanasia, 79% on stem-cells and 77% on abortion. A good knowledge by students about bioethics exists, for 68% answered that it has importance in nurse's ethical-professional attitude, considering nurses behavior, their attitudes and the knowledge of laws regulating professional practice. However, regarding the principles of autonomy, beneficence and justice, we observed a predominance of inadequate answers and no answers: 68%, 72% and 75% respectively. The most cited media for getting information was the Internet - 47%-, followed by magazines and scientific journals. KEYWORDS: Nursing. Bioethics. Teaching.

RESUMEN: La bioética es tema de discusiones intensas en diversificadas áreas del conocimiento y es de importancia extrema en la educación supe-

rior. Los tres principios éticos que forman la trinidad bioética son la autonomía, la beneficencia y la justicia. Después de reflejar sobre el concepto de la bioética, sus principios y usos en la práctica de enfermería, nosotros acercamos a los siguientes temas emergentes en la bioética: células troncales, eutanasia y aborto. Este estudio de tipo descriptivo tenía como meta identificar el conocimiento que tienen estudiantes de enfermería sobre temas emergentes en la bioética, específicamente sobre las células troncales, la eutanasia y el aborto; describir cómo los estudiantes entienden la bioética, su importancia y sus principios de autonomía, beneficencia y justicia; y investigar el tipo de medios usados por los estudiantes para conseguir informaciones sobre dichos temas. Después de la aprobación del proyecto por el Comité de Ética de Investigación y de la aceptación de la participación en el estudio por los estudiantes, que llenaron y firmaron el Término del Consentimiento Libre e Informado, recogimos datos por medio de cuestionarios, aplicados a 53 estudiantes de enfermería del cuarto e el sexto semestre de curso. Después de la análisis de los datos, concluimos que los estudiantes saben muy poco sobre temas emergentes en la bioética, puesto que la mayoría de los estudiantes o dieron respuestas incorrectas o simplemente no contestaran: 72% acerca de la eutanasia, 79% acerca de las células troncales y 77% acerca del aborto; existe un buen conocimiento de los estudiantes sobre la bioética, porque 68% contestaran que la bioética tiene importancia en la actitud ético-profesional de los enfermeros, considerando su comportamiento, sus actitudes y también el conocimiento de las leyes que regulan la práctica profesional. Sin embargo, respecto a los principios de la autonomía, de la beneficencia y de la justicia, observamos un predominio de respuestas inadecuadas y de ningunas respuestas: 68%, 72% y 75% respectivamente. Lo medio más citado para conseguir informaciones fue la Internet - 47% -, seguido por las revistas y los periódicos científicos. PALABRAS LLAVE: Enfermería. Bioética. Educación.
1 - Artigo resultante do trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Enfermagem. (Escola de Enfermagem da Irmandade da Santa Casa de São Camilo. * Enfermeira. Graduada na FCMSCSP. Docente da Escola de Enfermagem da Irmandade da Santa Casa de São Paulo. ** Enfermeira. Doutora em Ciências. Professor Adjunto do Curso de Graduação em Enfermagem - FCMSCSP.

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INTRODUÇÃO
Diante dos conflitos éticos que vivemos na atualidade em resposta aos avanços científicos, a bioética passou a ser tema de intensa discussão nas mais variadas áreas do saber e de suma importância no ensino superior. E, como não poderia deixar de ser, também na graduação em enfermagem, pois reflete diretamente no exercício profissional do enfermeiro. Segundo Segre(1) "[...] bioética é a parte da ética, ramo da filosofia, que enfoca as questões referentes à vida humana (e, portanto à saúde)". Garrafa(2) refere que, no sentido amplo do conceito que se pretende dar a bioética, seus verdadeiros fundamentos somente podem ser encontrados por meio de uma ação multidisciplinar que inclua, além das ciências médicas e biológicas, também a filosofia, o direito, a teologia, a antropologia, a ciência política, a sociologia, a economia. Assim, o estudo da bioética não pode ser minimizado às ciências biológicas, pois todas as ciências, como as sociais, econômicas, humanas e outras, estão envolvidas nestas questões. Para Drane, Pessini(3), nenhum outro campo de estudo reflete a época contemporânea mais fielmente do que a bioética, um estudo sistemático da conduta moral das ciências da vida e na medicina. A bioética une numa única disciplina os dilemas éticos associados com a pesquisa biocientífica contemporânea e sua aplicação na medicina. Ao refletirmos sobre as diferentes áreas do saber comprometidas com a bioética, enxergamos o ser humano como um ser bio-psico-socio-político-espiritual no universo e a riqueza dessa relação de áreas tão diversas, tão próximas e tão dinâmicas inerentes a ele. Sempre com o objetivo, segundo Siqueira(4), de alcançar no campo da bioética um discurso que aspire ser o mais universal e conseqüente possível. Os três princípios éticos que formam a trindade bioética são: autonomia, beneficência e justiça. Para Massarolo et al(5), autonomia é um termo derivado do grego autos (próprio) e nomós (lei, regra, norma) e referese ao poder da pessoa de tomar decisões que afetam sua vida, sua saúde e seu bem-estar, mediante valores, crenças, expectativas e prioridades, de forma livre e esclarecida, dentre as alternativas a ela apresentadas. O princípio da beneficência, segundo o Informe

Belmont* (1978), reforça a idéia da beneficência com caridade (citado por Pessini)(6). Ainda, Pessini(6) refere que a partir disso foram desenvolvidas duas regras: 1ª) não causar dano; 2ª) maximizar os benefícios e minimizar os possíveis riscos. Para Zoboli(7), por beneficência entende-se "fazer o bem", "cuidar da saúde", "favorecer a qualidade de vida", enfim, dilatar os benefícios, evitar ou, ao menos, minorar os danos. A autora completa, ainda, que no escopo do princípio da beneficência encontra-se um conjunto de regras morais mais específicas, como proteger e defender o direito dos outros; prevenir danos que possam ocorrer a outros; eliminar condições que causarão danos a outros; ajudar pessoas com incapacidades e resgatar pessoas em perigo. O princípio da justiça, segundo o Informe Belmont* (1978), é definido como a imparcialidade na distribuição dos riscos e benefícios, ou seja, os iguais devem ser tratados igualmente. O enfermeiro tem posse de um poder não institucional que lhe é conferido pela sua proximidade com o paciente e/ou sua família. Seu poder é, na verdade, instituído, sendo assim, o enfermeiro vivencia o conflito entre beneficência (médico) e autonomia (paciente), permitindo ao último ter consciência de seus direitos enquanto ser humano e paciente, fortalecendo-o e possibilitando-lhe o exercício de sua autonomia(8). Após refletirmos sobre o conceito de bioética, seus princípios e aplicações na prática do enfermeiro, abordaremos e conceituaremos os seguintes temas emergentes em bioética: células-tronco, eutanásia e aborto. São temas presentes na atuação profissional do enfermeiro, e sua reflexão norteia a tomada de decisão tanto do usuário do serviço de saúde como do enfermeiro. Alonso(9), acredita que, para o que se afirma em ética possa ser levado à prática no exercício profissional, é preciso levar em consideração todos os aspectos da vida profissional relevantes para orientar as decisões, assim a fundamentação das afirmações éticas e o que acontece com a ética quando ela é levada à prática são as duas pedras de toque tanto da ética pensada como da moral vivida, é necessário estar atento com o que acontece com os princípios quando eles são aplicados. Neri(10) sabiamente refere que o problema da bioética começa quando as divergências morais que as pessoas razoáveis podem manifestar sobre várias temáticas se tornam uma questão pública que exige uma solução.

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E, como freqüentemente essas divergências nascem de crenças morais e religiosas mais profundas, a tarefa de encontrar uma solução não é, certamente fácil. A questão da pesquisa com células-tronco é um exemplo disso, mas não o único. Antes de discutir qualquer dilema ético relacionado ao tema das células-tronco é necessário conceituá-las. Células-tronco embrionárias são aquelas provenientes da massa celular interna do embrião (blastocisto). São chamadas de células-tronco embrionárias humanas porque provém do embrião e porque são as células-mãe do ser humano. Para se usar essas células, que constituem a massa interna do blastocisto, é destruído o embrião. As células-tronco adultas são aquelas encontradas em todos os órgãos e em maior quantidade na medula óssea (tutano do osso) e no cordão-umbilical-placenta. No tutano dos ossos tem-se a produção de milhões de células por dia, que substituem as que morrem diariamente no sangue(11). Com relação à eutanásia, Drane, Pessini(12) referem que esse termo é relativamente novo em seu sentido presente. Sua etimologia é simples. Eu em grego significa "bem" ou "bom". Thanatos significa "morte". Eu Thanatos tem o sentido de "boa morte" ou "morte fácil". Os autores continuam afirmando que o termo eutanásia pode ser relativamente novo (séc XVII), mas não as práticas de apressar e de causar a morte. A aceitabilidade moral dessa prática dependeu de crenças religiosas e dos costumes das comunidades que evoluíram com o passar dos anos. As crenças, as atitudes e os costumes culturais passaram por evoluções e o mesmo ocorreu, por consegüinte, com o sentido do termo eutanásia. Etimologicamente, aborto, do latim abortus, significa "privação" de nascimento porque vem de ab, que quer dizer privação, e ortus, nascimento. Distingui-se aborto espontâneo, quele que acontece por causas naturais; e aborto provocado ou induzido, aquele que acontece por intervenção especial do homem(13). Segre(14), refere que contra uma eventual liberação do aborto há os que falam no risco de esterilidade da mãe após a prática abortiva, ou então, retornando-se a uma justificativa ideológica, na perda do senso de responsabilidade da mulher ao entreter uma relação sexual, em decorrência da qual, ela sabe, poderá engravidar. Ainda cita o autor que a respeito da liberação (ou não) do aborto, soa como extremamente traiçoeiro que uma sociedade que oferece à mãe os meios de saber ante-

cipadamente ao nascimento, as características do seu filho, queira negar-lhe a possibilidade de eliminar um filho indesejado. Posição essa questionável do ponto de vista ético, pois o fato da mãe saber das características do seu filho previamente, não justifica moralmente a eliminação de sua vida. Reconhece-se, atualmente, na sociedade, uma forte tendência à aceitação da descriminação do aborto em situações específicas. Já nossa Lei Penal, de 1940, não prevê punição para o aborto praticado quando não haja outro meio para salvar a vida da mãe, ou quando a gravidez tenha ocorrido de estupro(14). Nós, no curso superior, temos a oportunidade de conhecer fontes de informações seguras e até temos subsídios para ter entendimento crítico das notícias que chegam a nós. Mas a pergunta é: será que os graduandos buscam os meios fidedignos para se informarem sobre temas de bioética? É um questionamento que fazemos, pois, na faculdade, percebemos que freqüentemente erramos ao tomar como corretas informações de qualquer fonte, por serem de mais fácil acesso e normalmente persuasivas. Entretanto, como formadores de opinião, não podemos nos permitir tal erro, pois o nosso papel é esclarecer a comunidade da qual fazemos parte e, se não interferirmos não estaremos cumprindo de forma ética o nosso papel na sociedade. Existe a preocupação de estudar essas questões, realizando estudos com vistas a identificar qual o preparo que os graduandos de enfermagem estão tendo em seus cursos para lidar, na prática, com dilemas bioéticos(15). Para Germano(16), a temática a ser abordada nos cursos de ética, não somente na enfermagem, mas na saúde como um todo, precisa ultrapassar os muros do corporativismo (muito bem representado nos códigos e leis) e apontar para questões cruciais que limitam o ser humano e lhe roubam a vida. Neste caso, continua Germano(16), são muitos os autores cujas publicações vêm contribuindo com uma nova dimensão do tema incluindo, diferentes concepções filosóficas acerca da ética, o porquê de agir moralmente e assuntos polêmicos (como aborto, eutanásia, morte, contracepção, entre tantos outros temas da atualidade). Simino, Boemer(17) citam que a enfermagem possui periódicos de grande contribuição para o estímulo e divulgação de sua produção científica. No entanto, não existe um periódico de enfermagem especificamente para temas bioéticos. É importante ressaltar tais periódi-

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CONSIDERANDO OS DADOS LEVANTADOS Neste estudo foi realizada a análise descritiva dos dados e calculadas as freqüências absoluta e relativa. aborto e eutanásia. células-tronco e aborto a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem. obtivemos a respeito da eutanásia 38 (trinta e oito) alunos. a respeito de células-tronco. "parcial". sobre células-tronco: "só trás confusão. descre-ver o entendimento dos alunos sobre bioética. 25 (vinte e cinco) do 5º semestre e 11 (onze) do 6º semestre. nos alunos que aceitaram participar do estudo e após preencherem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. os resultados foram apresentados de forma descritiva.1(1):124-131 cos e. bem como os princípios de autonomia. o conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética. equivalente a 72%: ou não responderam ou deram respostas incoerentes. portanto. Sobre o conhecimento dos alunos questionados a respeito dos temas emergentes em bioética. "média". beneficência e justiça. sobre aborto: "grande". 6º semestre: . Este estudo teve por objetivo identificar o conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética. Boemer(15) acreditam que estudos dessa natureza possam ser realizados nas diferentes regiões do país. "pouquíssimo". sendo que a população inicial era de 75 (setenta e cindo) alunos. é a falta do exercício/prática de reflexão filosófica dos alunos no momento que se deparam com o ato. e a respeito de aborto 41 alunos. serão também o que os alunos compreendem por bioética e sua importância. 5º e 6º semestres. Nesse trabalho. é a falta de motivação dos alunos em responder questões filosóficas de um questionário para uma pesquisa. 77%.CEP. tal observação das autoras. composto por sete questões abertas e quatro questões fechadas. que nos remete mais uma vez à premissa de que o ensino de bioética deve ser transdisciplinar ou pelo menos interdisciplinar.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética . "básico". após sua aprovação. Num total de 53 (cinqüenta e três) alunos. 42 alunos. dos temas emergentes de bioética e sua importância para a enfermagem. será abordado. mas realizada". sendo que somadas tais respostas. sobre células-tronco: "estudo e administração em humano". de forma a podermos ter um diagnóstico da inserção da bioética nos cursos de graduação em enfermagem. o que nos encaminha à aplicação de um instrumento piloto numa próxima pesquisa. Zanatta. Outra hipótese. e sobre aborto: "proibido". Para as questões abertas. sobre o conhecimento de bioética. sobre aborto: "a partir de princípios religiosos". 79%.Centro Universitário São Camilo . uma delas é a não compreensão da questão por parte dos alunos. "total". cursando 4º. obteve-se maior número as respostas inadequadas e em branco. sobre células-tronco: "o problema é ter uma sobrevida muito curta". Algumas hipóteses podem ser consideradas ao analisarmos tais resultados. A amostra foi constituída por alunos da graduação de enfermagem. Por fim. pois muitas vezes tal avanço fica estagnado por questões éticas". especificamente células-tronco. sua importância e seus princípios de autonomia. Após a aprovação do CEP. pois são muitos os meios de comunicação usados pelos estudantes de enfermagem para adquirir informação sobre o assunto. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O estudo foi do tipo survey descritivo/exploratório e foi realizado numa faculdade de enfermagem localizada na região central da cidade de São Paulo. para autorização da Diretoria do Curso e em seguida para o Comitê de Ética em Pesquisa . "polêmica". "importante". porém muitos desses meios utilizados não são fidedignos e acabam por desinformar. os resultados serão apresentados na forma de gráficos.sobre eutanásia: "proibida. "é essencial no curso de enfermagem". averiguar o tipo de meio de comunicação utilizado pelos alunos para adquirir informação sobre os temas relacionados.sobre eutanásia: "não concordo". O projeto foi encaminhado à Comissão Científica. Para as questões fechadas. pelas próprias autoras. ainda a ser considerada. especificamente células-tronco. sendo 17 (dezessete) do 4º semestre. Segue alguns exemplos de respostas incoerentes para melhor ilustrar a discussão: 4º semestre: . num total de 53 (cinqüenta e três) alunos (presentes na sala de aula no dia da coleta de dados) que responderam ao questionário. será verificado o tipo de meio de comunicação usado pelos alunos para obter informação sobre os temas relacionados. eutanásia e aborto. beneficência e justiça. por diferentes pesquisadores. também.2007. "preconceitos acabados".sobre eutanásia: "total". os questionários foram aplicados em sala de aula. Nessa questão foi solicitada a descrição dos conceitos de eutanásia. seguidos da discussão. 127 . 5º semestre: . Outra hipótese.

SP. considerando desde o comportamento do enfermeiro. Sobre o conhecimento de bioética. é o olhar sobre novas questões. consciente e responsavelmente a competência profissional que a formação universitária e técnica lhes outorga. todos já ouviram falar. como a biologia. É oportuno acentuar que toda essa dificuldade decorre. Já na questão que pedia para descrever o conceito de bioética a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem.1(1):124-131 "Na elaboração geral de cursos e currículos. SP. suas atitudes. da tradição histórica de produzir e transmitir conhecimento em pacotes chamados disciplinas.Centro Universitário São Camilo .COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Pessini e Barchifontaine(18) citam que há pouco mais de trinta anos surgiu a bioética como uma "nova área de conhecimento". ou seja. SÃO PAU LO. química. a maior parte dos alunos questionados (51 96. por sua vez. 53 (100%) alunos questionados tiveram algum contato com a bioética. exatamente. com os "emergentes" e os "persistentes". física etc. a multidisciplinaridade é a forma mais simples e freqüentemente usada em qualquer parte do mundo. devido à ausência de conhecimentos profundos em mais de uma disciplina prevista para a integração. SÃO PAU LO. e também com os problemas já existentes. Sem dúvida nos mostra o quanto é uma área atual e emergente. geologia. é um pouco mais difícil. 128 . 36 (68%) responderam que tem importância na atitude éticoprofissional do enfermeiro. que a bioética se preocupa com os problemas dos avanços. mas é também o olhar sobre questões já existentes. Azevedo(19) afirma que o ensino da bioética tornou-se uma nova experiência sem modelo didático definido. 2006.22%) afirmaram existir essa. Referente ao papel da bioética na formação profissional pessoal dos alunos questionados. ainda. Afirmam. Pessini e Barchifontaine(18) cita que a bioética surgiu há pouco mais de trinta anos e que guarda forte relação com o avanço científico. Oguisso(20) afirma que se espera que os enfermeiros e demais membros da equipe de enfermagem possam compreender efetivamente a dimensão do trabalho que executam e. porém é a marca de certas áreas do saber. DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE A EXISTÊNCIA DA RELAÇÃO E N T R E OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS E OS PROBLEMAS ÉTICOS N A ÁREA DA SAÚDE. Gráfico 1 Gráfico 2 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O CONHECIMENTO D E BIOÉTICA.2007. 2006. até ao conhecimento das leis para tal atuação. No que diz respeito à existência de relação entre os avanços tecnológicos e os problemas éticos na área da saúde. assim. E M PORC E N TAGEM. A interdiscilplinaridade. A transdisciplinaridade é considerada extremamente difícil de ser alcançada. 35 alunos (66%) deram respostas inadequadas ou não responderam. a qual traz desafios de ordem acadêmica. os quais descaracterizam a unidade existente na ciência"(19). Assim podemos perceber pelo número de respostas positivas que os alunos demonstraram entender a relação entre avanços tecnológicos e problemas éticos como problemática da bioética.

Fica nítida a necessidade da aplicação de um instrumento piloto numa próxima pesquisa. SÃO PAU LO. 2006 Faculd ade Televisão Palestra Médio Ensino Jorna l Revista m coerênc Se ia Outros 129 . "grande". A questão pedia para descrever os conceitos citados a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem (questão 7 do instrumento de coleta).78%) alunos referiram não existir relação. sobre beneficência: "parcial". 6º semestre: .Centro Universitário São Camilo .sobre autonomia: "moderada". porém é imprescindível que os profissionais estejam em constante atualização sobre os aspectos éticos. "importante". então.22%) alunos responderam que há relação. SP. "influente". "muito". legais e técnicos. Schramm(22) afirma que o foco da bioética é a qualidade das práticas humanas sobre os fenômenos da vida. sobre justiça: "fundamentada na vazão e na ética". a hipótese que falta exercício/prática de reflexão filosófica dos alunos e discutir bioética e seus princípios sem o exercício de reflexão filosófica é incompatível. sobre justiça: "muito importante e deve ser levado em conta". somadas tais respostas. cedeu lugar a um sentimento de angústia pela sua manifesta impotência perante às situações produzidas. desse ambiente marcado por grandes evoluções e sentimentos contraditórios que emerge a bioética como novo domínio da reflexão e da prática. Neves(21) cita que só a fundamentação antropológica da bioética lhe permitirá desenvolver harmoniosamente enquanto reflexão e prática. Segue alguns exemplos de respostas inadequadas para ilustrar a discussão: 4º semestre: . e a respeito da justiça. Neves(21) afirma que a euforia inebriadora de um poder aparentemente infinito conquistado pelo homem por meio dos desenvolvimentos tecnológicos. obteve-se a maioria de respostas incoerentes e respostas em branco.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética . por isso. 40 alunos (75%). beneficência e justiça. Em relação ao entendimento dos alunos questionados sobre os princípios de autonomia. enquanto 2 (dois) (3. Gráfico 4 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O MEIO D E COMUNICAÇÃO N O QUAL ADQUIRIRAM PRIMEIRAMENTE INFORMAÇÃO SOBRE BIOÉTICA.1(1):124-131 Gráfico 3 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O MEIO D E COMUNICAÇÃO N O QUAL ADQUIRIRAM PRIMEIRAMENTE INFORMAÇÃO SOBRE BIOÉTICA. sendo que. mas não é descartada. 2006 Sobre a relação entre o conhecimento de bioética e os dilemas da vida profissional. SP. sobre justiça: "grande". "influência total". As mesmas hipóteses que foram consideradas na análise das respostas a respeito dos temas emergentes serão abordadas aqui. pois é a mesma questão. norteando suas condutas. a respeito da beneficência. Freitas(23) cita que não basta ter exímio tecnicamente. sendo. "empatia profissional". "muito importante e deve ser levado em conta". 51 (cinqüenta e um) (96. 5º semestre: . "importante". posicionando-se de forma crítica e reflexiva diante dos dilemas éticos e morais que permeiam seu cotidiano.2007. sobre beneficência: "entendi na graduação". "parcial". SÃO PAU LO. 38 alunos (72%). sobre beneficência: "muito importante e deve ser levado em conta". tivemos a respeito do conceito de autonomia 36 alunos (68%) que ou não responderam ou deram respostas incoerentes.sobre autonomia: "influente".sobre autonomia: "a importância".

72% (38) e 75% (40). DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4ºAO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SEGUNDO A SEGURIDADE DAS FONTES D E INFORMAÇÕES UTILIZADAS PARA ADQUIRIR CONHECIMENTO SOBRE BIOÉTICA. Tabela 1 na atualidade referente a temas de bioética não observamos reportagens seguram em meios não-científicos. já estão cursando a disciplina de exercício de Enfermagem II. Assim. acreditamos ser desenvolvido o pensamento filosófico reflexivo. Outro ponto a ser colocado é a proposta pedagógica de elaboração geral do curso e do currículo. já que 68% responderam que tem importância na atitude ético-profissional do enfermeiro. Miguel(25) diz que se destaca a presença entre os códigos de conduta do jornalista termos como "verdade dos fatos" como compromisso fundamental do profissional e sem ela o jornalista passaria longe de seu papel social. pois. já que a maioria das respostas obtidas foram incoerentes ou em branco. SÃO PAU LO. É importante observar tal dado. obtendo respectivamente 68% (36). porém o que ocorre é o ensino multidisciplinar e tais questões são discutidas somente no momento da disciplina específica (Exercício de Enfermagem). científica como fonte de informação. a faculdade foi o mais citado. o graduando vivencia em estágios práticos questões éticas que precisam ser discutidas no momento da ocorrência dessa. na prática. assim. considerando desde o comportamento do enfermeiro. e tenha mais cautela em meios como a internet e a revista. 26% (14) dos alunos citaram a revista como meio seguro. pois ilustra a afirmação de Silva. Quanto aos meios de comunicação utilizados pelos alunos. pois para acontecer o entendimento do aluno. as escolas de enfermagem. esses não têm sido meios seguros. Mas infelizmente 130 . a respeito dos princípios de autonomia. foi predominante as respostas incoerentes e em branco.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . é necessário existir um ensino. palestras. 38% (20) dos alunos citaram a revista. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse trabalho concluímos que existe pouco conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética. Quanto à seguridade dos meios de comunicação utilizados pelos alunos. como a revista científica. enquanto 17% (9) referiram como meio não seguro. "não leio". 19% (10) referiram utilizar a revista científica como fonte de informação segura. será feita uma nova pesquisa. somando 72% (38) sobre eutanásia. Então. Fonte de informação Internet Revista Revista Científica Outros* Jornal Livro Televisão Sim N 16 14 10 7 4 3 3 % 30 26 19 13 7 6 6 N 9 6 0 4 2 12 Não % 17 11 0 7 4 23 * Indicações do professor. com isso trazem temas para discussões de situações vivenciadas desde o 3º semestre. com objetivos semelhantes com os alunos do 7º semestre do curso de graduação em enfermagem da mesma faculdade.1(1):124-131 A respeito do meio de comunicação da primeira informação sobre bioética. SP.Centro Universitário São Camilo . sem respostas.2007. 79% (42) sobre células-tronco e 77% (41) sobre aborto. Porém. ao menos interdisciplinar. 2006. até ao conhecimento das leis para tal atuação. 29 alunos (vinte e nove). suas atitudes. beneficência e justiça. Espera-se que na graduação o aluno utilize como fonte de informação meios mais seguros e fidedignos. Esse trabalho nos conduziu a realizar nova pesquisa com os alunos de 7º semestre da faculdade. e 19% (10) referiram utilizar a revista. equivalente a 55%. a internet foi o meio mais citado 47% (25). pois além de terem vivenciado mais estágios. tornando distante a formação de atitude reflexiva para uma ética relacional. 11% (6) como não seguro. com o uso de instrumento piloto para o questionário aplicado. que existe um bom entendimento por parte dos alunos por bioética. a qual conduz a reflexões éticas da prática profissional. em bioética. Silva(24) de que a construção da consciência profissional da(o) enfermeira(o) é intensamente influenciada pelo órgão formador. sem opinião. a internet foi o meio mais citado como seguro 30% (16).

111-115. Ética e bioética: Desafios para a enfermagem e a saúde. Que são células-tronco? Qual a diferença entre células-tronco embrionárias e células-tronco adultas? Para que servem? In: Ferreira AT. Drane J. 2 (2): 127-137. clonagem e saúde humana.na evolução das sociedades.51-55. Brandão DS. 4.Centro Universitário São Camilo . REFERÊNCIAS 1. A bioética em laboratório: células-tronco. In: Pessini L. ética e legal do profissional de enfermagem. 15. beneficência e autonomia. In: Neves MCP. 8.br/revista/bio1v4/fundament.111-135.portalmedico. In: Néri D. Aborto. p. 1999a. Rev Técnico-Científica de Enfermagem 2003. A fundamentação antropológica da bioética. Garrafa V. 57 (1): 40-3. medicina e tecnologia Desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. Segre M. p.371-406. 9. Pessini L. 5(2): 33-38. 131 . Bioética . p. Acta Paul Enf 1998. Questões bioéticas. 2005. p. 24. Problemas atuais de bioética.um ensaio sobre sua inserção nos cursos de graduação em enfermagem.2007. 22.html Simino GPR. Batista CMC. Pessini L. Coimbra: Centro Universitário São Camilo e Gráfica Coimbra. 7(3):351-354. Barchifontaine CP. São Paulo (SP). 2006.136-152.28-45. In: Drane J. Rev Bioética 1996.org. Ética. São Paulo: Centro Universitário São Camilo e Edições Loyola. Revista Eletrônica de Enfermagem 2005. medicina e tecnologia . 2005.1(1):124-131 Também relevante comentar a importância da atitude reflexiva e a busca de fontes seguras pelo enfermeiro. EPU: São Paulo. 2006. Miguel MM. Barchifontaine CP. Drane J. In: Oguisso T. Negligência: fator de risco no cuidar. Vozes: Petrópolis. 10. 18. Alonso HÁ. 2005a.33-34. 25. Loyola: São Paulo. São Paulo: Loyola. Goiânia: Editora Bandeirante. 19 a 22 set. Para finalizar. In: Anais do IV Encontro Luso-Brasileiro de Bioética/ II Fórum Brasileiro de Bioética/ II Encontro Luso-Brasileiro de Enfermagem. Silva EM. 5. 13. ciência e saúde: desafios da bioética. Martins A.ufg. p. In: Segre M. Os princípios da bioética . A eutanásia. Zoboli ELCP. 7ª ed. Lima M. Soares AMM. privacidade e confidencialidade. 19 a 22 set. Fundamentos da bioética.17-35. Ensino de bioética: um desafio transdisciplinar. envolvendo eficiência.Comunicação. 2006a. 2006. 2 ª ed. Zoboli ELCP. São Paulo: Edições Loyola. pois as mudanças na área são contínuas e influenciam diretamente a prática profissional do enfermeiro. O exercício da enfermagem em sua dimensão bioética. Boemer MR. Os valores éticos e os paradigmas da Enfermagem. Cohen C. O que é bioética? In: Drane J. Pessini L.html (14 abril 2005) Schramm FR. 19. 2006. A evolução do ensino da ética para enfermeiros. Neri D. Boemer MR. p. 2.311-331. São Paulo: Paulus. Siqueira JE. Pessini L. Ética das profissões.p. Barchifontaine CP. Pegoraro AO. Apresentando a bioética. EPU: São Paulo. Bioética ou bioéticas . Freitas GF. 2ª ed. Bioética: Gênese.breve nota histórica. Ferreira AT. p. A atitude reflexiva de uma ética relacional é a base que conduz a tomada de decisão frente aos temas emergentes pautada na tríade justiça. In: Oguisso T. p. Bioética. 2 ª ed. enfatizamos o modelo teórico baseado em Barbosa(26). Vulnerabilidade na Prática Clínica na Saúde do Adulto. 2006. p. Boemer MR. 17. Ramos DLP. Interface . 3 (1): 224-27. Por onde andará a verdade dos fatos? Uma reflexão sobre a função social do jornalista à luz de seu código de ética. São Paulo (SP).deontologia e diceologia. In: Palácios M. Disponível em: http://www. In: Pessini L. 3. Pessini L.9-15. 1999. Pessini L.79-101. Bioética. Saccardo DP. Ética e bioética: desafios para a enfermagem e a saúde. que coloca o sujeito como autor da história (considera-se sujeito o usuário do serviço de saúde e a equipe multiprofissional) e centro da prática assistencial. Enfoue bioética na produção científica de enfermeiros: caracterização e análise. 20.fen. In: Oguisso T. Sampaio MA. 6. 7. In: Anais do IV Encontro Luso-Brasileiro de Bioética/ II Fórum Brasileiro de Bioética/ II Encontro Luso-Brasileiro de Enfermagem. 11(2):83-88. Segre M. Barueri: Manole. Prefácio. Rev Latino-am Enf 1997. 21. São Paulo: Loyola. 2002. 4 (1). Definição de bioética e sua relação com a ética. p. Saúde. Oguisso T. 2005. Disponível em: http://www.141-162. Barbosa A. O que são os princípios. In: Segre M. 2005. Zoboli ELCP.Desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. confiança e partilha respectivamente. 12. Silva MAPD. Disponível em: http://www. In: Alonso HÁ. 2005a. Ética e bioética: Desafios para a enfermagem e a saúde. Neves MCP. conceituação e enfoques. 26. Humanidades (UnB) 1994. São Paulo: Centro Universitário São Camilo e Edições Loyola. p. Barueri: Manole.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética .68-90. Educação 1998. Vida: O primeiro direito de cidadania. Problemas atuais de bioética. 16. Pessini L. Cerqueira EK et al.br/revista/bio1v4/evolucao. p.htm (24 outubro 2006) Germano RM. Zoboli ELCP. As diferentes abordagens da bioética.23-29. 14. 2004. p. Bioética. Barchifontaine CP. Cohen C. Barueri: Manole. 9 (4): 322-3. Zoboli ELCP. Zanatta JM. Responsabilidade. p.de Enfermagem 2004.br/Revista/revista7_3/revisao_01. Limites éticos da intervenção sobre o ser humano. 1996. Bioética. Barchifontaine CP. Eutanásia: por que abreviar a vida? In: Pessini L. 11. Revista Bras. Azevedo EES. Autonomia. 23. Massarolo MCKB.portalmedico.101-115.org. 7ª ed.

Seja. momento onde todos os próximos ao enfermo sentem-se vulneráveis e desprovidos de condições para deliberar sobre qualquer assunto. aprender sobre bioética contempla necessariamente duas dimensões: campo teórico e prático. Por qualquer razão. 132 . portadora de miocardiopatia grave. em situação de desumanidade. O procedimento recomendado é a * Médico.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . ao mesmo tempo. Desse modo. Bioética é um sempre movimento de reflexão.2007. culturais. quer sejam as razões: religiosas. adaptado do caso apresentado no Congresso de Cardiologia do E. refletir sobre os pontos positivos e negativos.e agora.1(1):132-137 Bioética . tanto para a mãe. filosóficas.estar de um modo geral. Feminina. Porém. a escolha deve ser feita. Docente e Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. sociológicas. acabam por. uma gestante de oito semanas. a espiritualidade. que se define como um ser especial diante da natureza. gerando alto risco de mortalidade para ambos: mãe e feto. principalmente quando esta decisão é feita a partir da doença. encontra-se diante de inúmeras situações que trazem certa angústia e inconformismo. sobre os riscos e benefícios ao ser determinado certo procedimento. Diante do fato. A pessoa. não sem influência externa. Assim. Por isso. a formação da pessoa. O caso relatado trata-se de um caso comum dos corredores hospitalares.P. A paciente. a tomada de decisão sempre foi um dilema nas discussões nos momentos de grande sofrimento. quanto para o feto. se recusa a ser submetida ao abortamento terapêutico. uma sempre busca pela dignidade do ser nas grandes situações da vida. mas de acordo com a cultura. porém. busca-se olhar o outro e reconhecer nele.Centro Universitário São Camilo . tomar decisões em questões que estão diretamente ligadas ao bem-estar. jovem é portadora de uma enfermidade cardíaca grave.maio de 2006) CNS. Ou seja. à beneficência. Muito se fala na tomada de decisão livre de qualquer influência externa. sem se ater a modelos heróicos ou paternalistas. Professor emérito da UNESP. deve-se sempre lembrar que toda pessoa está suscetível a qualquer situação que implique na escolha do momento da decisão. gestante de oito semanas. Exercer a bioética é uma atitude viva e desejosa de responsabilidade. pois tem-se a preocupação com a dignidade humana. No campo prático. o que fazer? Bioethics: what are we to do now? Bioética: ¿ que hacer ahora? William Saad Hossne (coordenador)* Colaboradores: Gláucia Rita Tittanegro Sueli Gandolfi Dallari Débora Sanches Pedrolo Renata Santinelli (Caso enviado pela mestranda Beatriz Carneiro F. visando sempre o bem . de causa congênita. Qual a conduta do cardiologista? O que fazer? Comentário 1 A pessoa enquanto passa pela vida. muitas vezes não se verem respeitadas em seus direitos básicos. de passar do campo teórico para o campo prático. principalmente. Botucatu. o médico cardiologista indicou a interrupção da gestação. da criação. Segundo o cardiologista há alto risco de mortalidade. à autonomia e à justiça. cuja principal manifestação clínica é cianose. apesar da insistência dos pais e do próprio médico. são questões bioéticas que devem ser tratadas de modo diferenciado na reflexão. e o acesso da mesma à informação a respeito da situação a qual se submete a decisão. .S. como busca de garantir a integridade do outro. Fernandes. do mundo. 16 anos. à dignidade humana.

A beneficência tem seus limites. em segundo lugar. não-maleficência. Ela pauta pelo princípio da busca do que é bom e pela recusa do que é mau. relativamente incapaz devido sua idade (16 anos). porém tem o peso suficiente para decidir prioritariamente em todos os conflitos morais. inclusive a urgência do feito. porém. com problemas cardíacos.Bioética . a de maximizar o número possível de benefícios e minimizar os prejuízos. sugerindo. primeiramente de não causar danos e. Muitas mulheres de 16 anos hoje já assumiram suas responsabilidades e tomaram as rédeas de suas próprias vidas completamente independentes dos pais. a maturidade dos envolvidos (independente da idade). superando este momento de sua história e construindo através deste verdadeiro aprendizado para o futuro. Nenhum dos princípios. A beneficência cria dupla obrigação. É devido a todas as pessoas e envolve abstenção. grávida. Além disso. não tem caráter absoluto e nem sempre terá prioridade em todos os conflitos. incentivado pelo médico e pelos pais da gestante. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. propedêuticas e terapêuticas. a espiritualidade e/ou religiosidade bem como o vínculo dos envolvidos. sua saúde. solicitando do juiz competente uma liminar para o procedimento. Cabe aos pais o ingresso da ação por tratar-se a gestante de menor. que não podem ser ignorados. Do ponto de vista jurídico este é o procedimento mais acertado para que se preserve a vida da gestante.1(1):132-137 interrupção da gravidez. "Todo ser humano na vida adulta e com a mente sã tem o direito de determinar o que deve ser feito com seu próprio corpo. que sempre deveria acompanhar toda atividade e decisão do profissional da saúde. Quanto ao médico deverá ele construir um laudo técnico. mas sim voltar os olhos para a pessoa. a mesma se recusa a tal procedimento. é livre de coações internas e externas para escolher entre as alternativas que lhe são apresentadas. o pai biológico da criança. num primeiro momento. autodeterminação para tomar decisões que afetam sua vida. Já na questão ética. O que fazer? Grande dilema a ser discutido sob vários aspectos. A aplicação correta dos princípios da beneficência e da não-maleficência é o resultado do exercício da prudência. Este laudo servirá de base para que os pais da gestante possam ingressar judicialmente. suas relações sociais. portanto o caso requer alguns desmembramentos para depois sugerir uma solução que melhor traduza a aplicação dos referenciais da bioética: beneficência. os riscos e objetivos. Professora de Ética na Faculdade de Direito e membro da comissão de ética do Instituto Machadense de Ensino Superior. "O consenti- 133 . o primeiro dos quais seria a dignidade individual intrínseca de todo ser humano. a promoção da saúde e a prevenção da doença de forma teleológica. mas não para morrer. detalhado. O fato de ser pai e mãe biológicos não quer dizer que sejam presentes na vida uns dos outros a ponto de decidir ou não pela antecipação terapêutica. Autonomia (auto=próprio e nomos=lei. Não existe a informação se a paciente é casada ou não. e o seu direito sobre a informação sobre o diagnóstico. mas não sobre a vida: ele tem plena autonomia para viver.Centro Universitário São Camilo . Refere-se à capacidade do ser humano decidir "o que é bom" ou "o que é seu bemestar". A constituição garante ao cidadão o direito à vida. buscando não o melhor de um ponto de vista externo. deixando claro os riscos desta gravidez e os benefícios da interrupção prematura da gravidez. O princípio da beneficência tenta. o que fazer? . Comentário 2 No presente caso não é possível tratar apenas a doença. A pessoa autônoma é aquela que tem liberdade de pensamentos. A prudência é a virtude que facilita a escolha dos meios certos para um bom resultado. o que se pode observar? A reestruturação da dignidade desta jovem. regra) autogoverno. É preciso avaliar entre outras coisas.2007. Renata Santinelli Bacharel em Direito. mas o melhor do ponto de vista de preservar sua saúde para que possa ter vida em abundância.e agora. a gestante de jovem idade poderá num futuro buscar outras formas de suprir seu desejo de maternidade. sua integridade físico-psíquica. o constrangimento da vítima deixa de ser crime em função do risco de morte. o que teria também implicação com um terceiro. O princípio da não-maleficência. prognóstico. autonomia e justiça. com suas crenças e valores.

em suas repercussões jurídicas. então. de não malefício profissional-paciente. É preciso aprender a tomar decisões de caráter profissional e moral em situações de incerteza. ela é relativamente incapaz a certos atos. caput). em detrimento de interesse dos "poderosos". o médico proceda à interrupção da gravidez. em razão desta ser relativamente capaz. prima pela integridade física. este desrespeito deve ser visto com ressalvas. Torna-se necessário. sob vários ângulos. a garantia da inviolabilidade do direito à vida e à liberdade. Assim. de fato. ou à maneira de os exercer. da justiça e da responsabilidade. quando o feto já estiver mais desenvolvido e com isto. todos. a informação e a autonomia do cidadão fica de lado. já que o caso é de "risco de vida". Em relação ao médico esse tem resguardado pelo Código de Ética Médica a realização de procedimentos que julgar necessários para salvar a vida dos pacientes. portanto. Ana Paula Pacheco Clemente Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo Comentário 3 A situação proposta deverá ser examinada. da tolerância. o comportamento do médico encontra respaldo na legislação nacional. os grandes códigos. a dignidade humana e principalmente pela defesa do cidadão no que diz respeito à saúde. observando que todos os atos possuem guarida legal e moral. a oportunidade de conversar com a assistente social. deve o médico intervir quando conseqüências serão mortais para o paciente desde que tenha dado ao mesmo direito de escolha. 1º).F.2007. ou mesmo ter um acompanhamento emocional que possa ser um facilitador nas decisões. o exercício da pluralidade. porém. Em conseqüência. cabe a decisão final em cada procedimento. traz menos riscos à gestante que com maior tempo de gravidez. "não se pune o aborto praticado por médico. inclusive aumentando o risco de esterilidade da menor. entre outros a troca de médico e o uso de outras medidas terapêuticas. é isso o que acontece. entendimento e voluntariedade.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . ou seja. evita que seja feito a redução fetal em outra oportunidade. primeiramente. e. a bioética. reconhecer que a sociedade brasileira considera justo que. A beneficência deveria tentar esgotar todos os recursos. se não há outro meio de 134 . a realização da antecipação terapêutica do parto. À luz do nosso ordenamento jurídico deve-se ressaltar a idade da gestante. portanto a vontade dos pais passa a ter um peso maior na hora de solucionar o conflito. por último. Porém. O tempo de gestação também influi já que o aborto nesse caso.1(1):132-137 mento só moralmente aceitável quando está fundamentado em quatro elementos: informação. 16 anos. competência. portanto. No Brasil. Dessa forma apresentando alternativas. Desse ângulo de observação. talvez um desrespeito à autonomia da menor. pois conforme dispõe o Código Penal Brasileiro. À manifestação autônoma da sua vontade.art. faz-se necessário saber qual é o vínculo ou o grau de envolvimento desses com a paciente. então. dando direito a escolhas. também reduz significativamente o custo do seu tratamento (cardiopatia) assim como do controle desta gravidez. Portando.Centro Universitário São Camilo . Ressalve-se que todos esses princípios não são absolutos e. e seus pais serem favoráveis ao aborto. gestante e familiares. Na situação em exame. as 'seqüelas' poderão ser maiores. portanto. entre outros valores igualmente protegidos (C. além da redução dos riscos de morte da gestante e do feto com a manutenção da gravidez. haverá. devidamente esclarecida pelo profissional de saúde. admitem condutas de exceção. No caso de recusa do tratamento pelo paciente. e. Deve-se oferecer aos envolvidos. deve-se notar que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da Constituição da República Federativa do Brasil (art. é preciso. que consagra entre as garantias de direitos fundamentais. com relação ao custo. devem esclarecer os meios e os modos de proteção daqueles valores e. Basicamente. na hipótese de haver risco de morte da gestante. Mas a relação hoje profissional paciente está muito mais embasada na co-responsabilidade o que facilita o processo para todos os envolvidos. Há uma série de situações na prática médica nas quais o princípio da beneficência deve ser aplicado com cautela para não prejudicar o paciente ou as pessoas com ele relacionadas. alcança-se assim a tão sonhada justiça. a organização do Estado implica que toda a legislação infra-constitucional proteja os valores abrigados na Constituição. segundo artigo 4º do Código Civil. traz como benefício a salvaguarda da vida da gestante. 5º. tanto civil como penal. igualmente importantes. da legitimidade.

contudo. 135). em defesa de sua escolha. 15 do Código Civil Brasileiro. Considerando. também. em nada invalida a avaliação jurídica realizada. Faculdade de Saúde Pública. Assim. Ela considera que as pessoas devem ser livres para manifestar sua vontade e que qualquer negócio jurídico deverá respeitar a vontade livremente manifestada.2007. como também. apenas. art. a constatação . Enfocando.se for necessário ser apreciada pelo sistema judicial . Isso significa que a decisão de CNS deve ser respeitada. não poderiam impedi-la. que toda essa situação .depende de prova. I). manifestou.1(1):132-137 salvar a vida da gestante" (art.e agora. realizam os atos decorrentes dessa opção.4º. eles podem . no caso em exame. I). art. 107.C. pudesse causar prejuízos a essas pessoas. art. Isso porque toda a disciplina legal em questão está diretamente baseada na discussão ética a respeito dos comportamentos que mais adequadamente permitem o império do valor dignidade humana na sociedade brasileira. É parte deste cuidado refletir sobre os direitos do paciente e. uma vez que estes só podem "assisti-la".Bioética . importa recordar que nossa sociedade preza sobremaneira o valor liberdade de formação e manifestação da vontade. portanto. mas. Sob outro prisma. os pais não poderiam legalmente impor a CNS a realização da intervenção cirúrgica destinada a interromper a gestação. ajudá-los a compreender todas as implicações dos seus atos. a introdução da preocupação ética. para responder imediatamente à pergunta formulada. 1634.médica . o relacionamento de CNS com seus pais.C. 1. seria prudente e conveniente que o médico obtivesse a participação de mais colegas seus (pelo menos mais dois especialistas) que confirmassem o quadro clínico e certificassem a inequívoca manifestação de CNS. sua não concordância com a adoção do procedimento de interrupção da gestação. apenas. Com efeito. art. Mais especificamente. cujas idades variam entre dezesseis e dezoito anos.Centro Universitário São Camilo .C. de modo inequívoco. é preciso lembrar que a sociedade brasileira julgou conveniente dar uma proteção especial para as pessoas maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. Desse modo.110 e 112). deve-se considerar a própria situação da gestante: trata-se de uma pessoa relativamente incapaz (Código Civil Brasileiro.128. Seria necessária. VII). implica orientar-lhes sobre as possíveis conseqüências emocionais. V). para que eles confirmassem o quadro clínico e certificassem que CNS. emocionais e sociais do prosseguimento da gravidez. portanto.Universidade de São Paulo. o que fazer? . devidamente esclarecida sobre todas as implicações médicas. ainda. impor suas vontades aos filhos. ou seja. Aqui.634. mesmo quando a linguagem expressar coisa diferente da intenção (C. então. 135 .Livre-docente em Direito Sanitário. que decorre exclusivamente da inexperiência. Seria. mas estão legalmente obrigados a respeitar a escolha de sua filha.Diretora do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário. na situação proposta. a adequada compreensão da disciplina jurídica da relação entre os pais e os filhos. dispôs o legislador nacional que seus pais devem assisti-los nos atos da vida civil (C. arts. sobretudo. Os pais não podem. acerca da melhor forma de salvaguardá-los. Sueli Gandolfi Dallari Professora titular. Por outro lado. uma vez que a gestante pode invocar. Comentário 4 Como sabemos. creio que o car-diologista deveria obter a participação de mais dois colegas seus. respeito e os serviços próprios de sua idade e condição" (C. Ainda na ótica do médico. os filhos. o caso de os pais de CNS exigirem que ela se submeta ao aborto em nome da obediência devida? Não me parece. expressamente que compete aos pais exigir que os filhos menores "lhes prestem obediência. Assim. expressa no art. ainda que contra a vontade de seus pais. a garantia de que ninguém poderá ser constrangido a submeter-se a intervenção cirúrgica. Universidade de São Paulo.P.de que a interrupção da gravidez é o meio mais eficiente para salvar a vida de CNS. visando evitar que o despreparo natural para certos atos da vida civil.e devem esclarecer a gestante sobre todas as implicações emocionais e sociais que a decisão de manter a gestação contém. a situação exige que o médico respeite a escolha de CNS até o limite em que possa ser caracterizada a situação de omissão de socorro (C. é importante notar que a sociedade brasileira quis proteger a autoridade dos pais sobre os filhos menores de dezoito anos ao declarar. sociais e legais de suas escolhas e ampará-los enquanto eles. os avanços da Medicina permitem um maior cuidado com o paciente.

ou seja. com o suposto consentimento dos pais ou responsáveis. Assim. o aborto terapêutico deveria. De forma geral.Centro Universitário São Camilo . Mas o verdadeiro ato do respeito da autonomia é uma acolhida e uma assistência ao Outro. Às vezes ele pode ser entendido como um "lavar as mãos" diante do problema do outro. 136 . seria preciso analisar até que ponto. da maturidade para tomar decisões. pensando na saúde materna. com sangramento. acabou nos apresentando uma situação nova. Gláucia Rita Tittanegro Doutora em Filosofia. os profissionais estão propiciando a autonomia dos sujeitos envolvidos na ação. os quais devem auxiliar os familiares na aceitação da decisão da paciente. o respeito à individualidade. O respeito da autonomia é um desafio que se impõe sempre mais aos profissionais de saúde. ele aparece como a impotência do profissional diante da vontade do Outro. se os momentos mais críticos para a gestante pudessem ser contornados pela interação das especialidades médicas. de colocar-se em paz. segundo o relato. considerar a essência do ser. o debate nos comitês de ética. Trata-se de esclarecer sem induzir. E é este respeito que nos faz hesitar diante desta posição. sobretudo no âmbito da pesquisa com seres humanos. e que a pessoa vulnerabilizada enfrente positivamente os seus desafios. enten- demos que este deve convocar os profissionais que possam auxiliar no esclarecimento da situação. a indicação de um aborto terapêutico não se tornaria também um risco para a paciente. de viver o peso da decisão do Outro e. respostas estas que esclareçam e auxiliem na decisão. melhor dizendo.1(1):132-137 O caso de CNS. Em primeiro lugar. a maioridade sanitária. A dificuldade no caso apresentado. O respeito da autonomia é um profundo respeito ao Outro. o aborto terapêutico. que tem apenas dezesseis anos e está grávida de oito semanas. Assim. não seria possível que esta mesma interação auxiliasse também o bebê? Por último. temos um leque de questões que envolvem a interdisciplinaridade. com a conseguinte orientação médica de possível interrupção da gestação. A reflexão bioética parte de um profundo respeito pela pessoa humana. ser induzido? Quais seriam os riscos desta indução? Entendemos que estas questões deveriam ser discutidas entre os vários atores desta cena: o cardiologista. uma profunda Hospitalidade. neste caso. isto é. Outras vezes. o obstetra. A conduta seria clara: CNS é menor de idade e a vontade dos responsáveis legais deve prevalecer. pois. e é portadora de uma miocardiopatia congênita. seria realizado. e por outro lado. posto que a mesma não se encontra. apesar da discordância da paciente. Ao explorar todas as nuances do caso.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . Ainda que não tenhamos um consenso sobre a questão da maioridade ou. a constatação de uma gestação de risco.Coordenadora do Curso de Filosofia do Centro Universitário São Camilo Comentário 5 O caso apresentado demonstra duas situações extremas: por um lado o direito de uma mãe em prosseguir com sua gestação. a paciente e os familiares. indicado pelo cardiologista. Em persistindo a recusa do paciente em se submeter ao abortamento terapêutico.2007. ao mesmo tempo. Qual seria a indicação deste profissional? A interdisciplinaridade não ajudaria a perceber melhor quais seriam os riscos efetivos para a paciente? Os avanços da medicina nos âmbitos da ginecologia e da obstetrícia continuam apontando este caso como um risco de morte ou haveria momentos mais difíceis da gestação que poderiam ser contornados no esforço conjunto entre os profissionais em torno da paciente? Quais seriam estes momentos mais críticos e que conduta tomar? É preciso também verificar quais seriam os riscos para a criança. a humanização dos cuidados em saúde pressupõe. Trata-se de oferecer suporte aos familiares ou àqueles que estão envolvidos na questão do paciente. pois seria oportuno chamar para o seio da discussão a figura do obstetra. entendemos que a sua decisão deve ser acolhida pelos profissionais. por exemplo. ao tomar o tempo necessário para que as questões sejam colocadas e para que se busque respostas a estas questões. seria indiscutível a alguns anos atrás. de instruir sem manipular. Mas é preciso olhar um pouco mais deperto as várias possibilidades que este caso nos oferece. em auxiliar que essa mãe vivencie essa experiência de forma positiva. para responder a questão sobre a conduta do cardiologista.

pode consentir ou não para a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. o que fazer? . e de tomar decisões próprias. que. Se essa gestante for informada de sua situação de risco.Centro Universitário São Camilo . com capacidade mental preservada. aspirações e valores próprios. respeitar a vontade não apenas de uma menor. seguindo o princípio da autonomia. e optar em manter sua gestação em benefício de seu filho passará por um período de extrema angústia. por outro lado. a responsabilidade recai sobre seus familiares (legalmente responsáveis) ou um procurador legal. Portanto. portanto. no caso apresentado por se tratar de uma menor de 16 anos. verificar a situação real da gestante. oferecer o atendimento pré-natal adequado. como será a sobrevivência de seu filho? Quem cuidará dessa criança? Seus pais? O pai biológico? Será que seu filho poderá nascer com alguma deficiência ou seqüela? Além das inseguranças citadas e vivenciadas pela gestante deve ser ressaltada a questão da autonomia. se for vontade dos pais escolher a interrupção da gestação pensando na sobrevivência de sua filha.e agora. mas sim como mulher. se essa menor pode engravidar. O termo autonomia refere-se à condição de quem é autor de sua própria lei. deve ser tratada não como incapaz ou em situação de autonomia reduzida. e que cada um deve tomar suas decisões baseadas em suas crenças. o doente adulto. e acima de tudo. Se falecer. é considerada "incapaz" para tomar tais decisões. entre outros.2007. De forma geral. deve decidir o que será feito com o seu corpo. ou seja.1(1):132-137 encontra-se na questão principal do risco de morte. Porém. essas decisões cabem apenas ao doente adulto e sem complicações psiquiátricas. com vontade própria. sem a interferência dos pais. como capaz de se auto-governar. ou na ausência destes o médico passa a ser o responsável por tomar as decisões. Débora Sanches Pedrolo Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo 137 . mas de uma mulher que prefere abrir mão de sua vida em prol de seu filho. está interrupção poderá ser realizada. O respeito pela autonomia do indivíduo deve considerar que cada um possui pontos de vista e expectativas próprias quanto ao seu destino. Acredito que a melhor decisão a ser tomada estaria baseada em: consultar outros especialistas. possui o direito de receber uma segunda opinião médica.Bioética .

Centro Universitário São Camilo . Daiane Fiorina Spalvieri "Distrofia Muscular de Duchenne: opinião de mães sobre a interrupção da gravidez". Júlio César Batista Santana "Dilemas éticos vivenciados por acadêmicos de Enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva". Análise. Ana Paula Pacheco Clemente "Uso de embriões humanos excedentes de fertilização in vitro como fonte de células-tronco: diálogo entre Bioética. Raul Marino Júnior "Avaliação de métodos confirmatórios e complementares no diagnóstico da morte encefálica". Biossegurança e Direito". Marcelo da Silva Sechinato "Opinião de um grupo de professores de Medicina de uma faculdade privada de Minas Gerais sobre o respeito à autonomia do paciente". Renata Santinelli "A relevância do conceito de dignidade para a Bioética". Adriana Amaral Haas "O direito à saúde nas constituições de 1967 e 1988: uma reflexão a partir do referencial ético da justiça distributiva". José Raimundo Evangelista da Costa "Respeito à autonomia do doente mental no atendimento de auxiliares e técnicos em Enfermagem: um estudo bioético em clínica psiquiátrica". Maria de Lourdes Neves Fonseca Azevedo "Opinião dos profissionais de saúde de uma instituição privada sobre processo seletivo: uma aproximação com a Bioética". João Carlos Silva de Ledo "Questões Bioéticas suscitadas pela Nanotecnologia". sob o olhar da Bioética. Mônica Hussni Messetti "Análise das Resoluções do Conselho Nacional de Saúde (1995 2005) sob a perspectiva da Bioética". 138 . José Marques Filho "A pena máxima: cassação do exercício profissional médico. do morrer e da humanização para enfermeiros que trabalham no processo de doação de órgãos para transplante". Karina Dias Guedes "O profissional de saúde na Unidade de Terapia Intensiva frente ao paciente fora de possibilidades terapêuticas: um olhar da bioética".2007. dos processos de cassação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo".1(1):138-139 Notícias do programa de Mestrado em Bioética A note about the master graduate program in bioethics Informacíon acerca del programa de maestría en bioética Dissertações defendidas: Programa de Mestrado stricto sensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo (agosto 2004/junho 2007) Adriana Aparecida de Faria Lima "Sofrimento e contradição: o significado da morte.NOTÍCIAS DO PROGRAMA DE MESTRADO EM BIOÉTICA . Tânia Heloísa Anderman Silva Barison "Liderança em enfermagem: a justiça como horizonte ético nas relações interpessoais entre o enfermeiro líder e os colaboradores". Conceição Alice Volkart Boueri "Conflitos éticos vivenciados por pais de crianças portadoras de síndromes com prognóstico de vida limitante".

2007. Homero Januário Caramico "O ensino de Bioética nas faculdades de medicina do Brasil". Viviane Hanshkov "Pesquisa Clínica no Brasil: da Bioética à responsabilidade civil". 139 . Débora Gomes "Reflexões bioéticas da atuação da fisioterapia em Cuidados Paliativos". Carlos Luis Benites Canhada "O entendimento dos responsáveis técnicos de enfermagem sobre a aplicação da Bioética na prática profissional".Dissertações defendidas: Programa de Mestrado strictosensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo . Valdomiro Barbosa da Rosa "Ser ou não ser: eis o embrião".a poluição atmosférica como fator determinante para a diminuição da qualidade de vida da população".1(1):138-139 Beatriz Carneiro Ferreira Fernandes "Quando começa a vida? A incoerência da legislação brasileira ao tratar da matéria". Débora Sanches Pedrolo "Estudo qualitativo com pacientes vítimas de trauma raqui medular cervical: perda da autonomia associada a seqüelas físicas". Elvira Barbosa Miranda "Perfil de publicações científicas (ano 2005) referentes às pesquisas clínicas (fase III) à luz da Bioética". Fernanda Maria Ferreira Carvalho "Bioética ambiental: falta de autonomia sobre o ar respirado na cidade de São Paulo .Centro Universitário São Camilo .

Destaca-se que os nomes dos pareceristas permanecerão em sigilo.edu. os autores deverão apresentar uma Declaração de que foi obtido o Consentimento dos sujeitos por escrito (Consentimento Livre e Esclarecido). devendo conter os procedimentos adotados ao desenvolvimento do tema. nome(s) do(s) autor(es) por extenso. 140 . promover a disseminação do conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área no país e na América Latina. Sua extensão limita-se a 15 páginas. A apresentação deve seguir as mesmas normas para artigos originais. da mesma forma que o(s) nome(s) do(s) autor(es) com relação aos avaliadores. Os conceitos emitidos nos manuscritos são de inteira responsabilidade do(s) autor(es). limitando-se a 5 páginas. não refletindo obrigatoriamente a opinião do Conselho Editorial e da chefia de Editoria. CATEGORIAS DOS MANUSCRITOS Bioethikos caracteriza-se por ser uma publicação científica que veicula trabalhos arbitrados relacionados às seguintes seções: artigos originais: contribuições destinadas a divulgar resultados de pesquisa original. documental ou conceitual relacionado a um tema pertinente ao campo da bioética e afins.2007. Neste caso.br Os manuscritos devem destinar-se exclusivamente à Revista Bioethikos. Objetiva contribuir na reflexão dos problemas. Consultar no site: www. resultados e conclusões. artigos de revisão: contribuições resultantes de avaliação crítica sistematizada da literatura ou reflexão sobre determinado assunto. sobretudo emergentes. com destaque para com os pontos mais importantes do estudo. tabelas. comunicações e relatos de caso: estudos avaliativos. e estimular a reflexão por parte dos especialistas e profissionais de diversas áreas do conhecimento que interagem fundamentalmente com a bioética. Resumo: deverá conter até 250 palavras.Centro Universitário São Camilo . Transferência de Direitos Autorais.incluindo o departamento/ setor. Para obtê-los acessar o site www. parcial ou integralmente. SOBRE A PREPARAÇÃO E ENCAMINHAMENTO DE MANUSCRITOS Página de identificação: esta página deverá conter: titulo do artigo e subtítulo(se houver) em português. artigos de atualização e relatos de experiência: trabalhos descritivos e interpretativos.filiação institucional. Declaração de responsabilidade e 2. relacionados à existência e à convivência do ser humano. Os resumos deverão ser apresentados em português. provenientes de investigação experimental. não sendo permitida sua apresentação simultânea a outro periódico. imagens etc. desde que anexados texto em CD-Rom e duas vias impressas. O encaminhamento dos manuscritos e documentação poderá ser on-line ou via correio.1(1):140-143 ORIENTAÇÕES AOS COLABORADORES BIOETHIKOS é um periódico semestral voltado à veiculação de estudos e pesquisas na área bioética.o referido trabalho será reavaliado pelo Conselho Editorial e Editores.scamilo.br/publicações/bioethikos. considerando os avanços tecnocientíficos e as questões ético-ambientais do tempo presente. Sua extensão limita-se a 5 páginas. A publicação dos manuscritos dependerá da observância das normas da Revista e da apreciação do Conselho Editorial e chefia de Editoria que dispõem de plena autoridade para decidir sobre sua aceitação.ORIENTAÇÕES PARA COLABORADORES . incluindo possíveis gráficos.scamilo. contendo dados inéditos e relevantes para a bioética. mencionando objetivos da pesquisa. traduzidas sob o título "Requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos". podendo apresentar sugestões ao(s) autor(es) para as alterações necessárias. com indicação na nota de rodapé da qualificação de cada autor(titulação da graduação e atual. com fundamentação sobre a situação em que se encontra determinado assunto investigado. Pesquisas envolvendo seres vivos: quando a investigação envolver sujeitos humanos. CARACTERÍSTICAS As orientações de Bioethikos baseiam-se nas normas propostas de Vancouver elaboradas pelo International Committee of Medical Journal Editors. bem como sua delimitação. inglês e espanhol. Os manuscritos deverão ser enviados juntamente com a documentação necessária: 1. originais ou notas prévias de pesquisa. procedimentos adotados. Sua extensão deve de ser no máximo 17 páginas. cargo/ função que exerce e endereço de correspondência e eletrônico). inédita.edu. inglês e espanhol. anexado de cópia da aprovação do Comitê de Ética que considerou a pesquisa.

Só então encaminhará cada obra a dois pareceristas que procederão a avaliação com base em informações em instrumento elaborado pela Assessoria editorial e aprovado pela editoria. O processo constitui-se sigiloso com total isenção de identificação de autor e revisor. Encaminhamento dos originais: Centro Universitário São Camilo Setor de Publicações . entendidas como desenhos.discussão e conclusão.apresentadas em ordem seqüencial com algarismos arábicos e legendadas. Assessoria editorial Avenida Nazaré. procedimentos metodológicos. ou em língua inglesa ou espanhola (no caso de autores estrangeiros). AUTORIA O conceito de autoria está consubstanciado na contribuição de cada uma das pessoas mencionadas como autores no manuscrito enviado.at. fotografias etc. com fonte 10.1(1):140-143 Palavras-chave: mencionar três palavras-chave como referência à indexação do artigo. PROCESSO DE APRECIAÇÃO DOS MANUSCRITOS Os critérios de veiculação estabelecidos pela Revista Bioethikos visam garantir a qualidade das publicações.61694066 141 . por escrito. Tabelas. com espaço duplo e possibilidade de impressão em folha de papel A4. Os autores de manuscritos recusados para publicação serão notificados e devolvidos pela assessoria editorial.para artigos originais. Para a atribuição das palavras-chave consultar a listagem dos Descritores em Ciências da Saúde . especificando a sua natureza.São Paulo-SP. análise dos resultados.DECS / LILACS. 1501 CEP:04263-200 . Corpo do texto: o manuscrito a ser submetido deve apresentar as seguintes características técnicas: a) texto redigido preferencialmente em português. Os manuscritos serão considerados inicialmente pela chefia editorial quanto à pertinência e natureza de contribuição de cada obra para a área em questão e o público leitor.2007. Agradecimentos: ao final do manuscrito podem ser mencionados os agradecimentos destacando as contribuições de profissionais por orientações técnicas e/ou apoio financeiro ou material. tabelas etc. Em relação às referências bibliográficas. As normas específicas às referências bibliográficas têm como base as de Vancouver elaboradas pelo International Committee of Medical Journal Editors.edu. elaborada pela Bireme e/ou pelo Medical Subject Heading . Quando da inclusão de depoimentos de sujeitos de pesquisa apresentar as falas em itálico. Referências bibliográficas: apresentadas numérica e consecutivamente à ordem de citação no texto. Notas de rodapé: indicadas por asterisco e apresentadas restritivamente como forma complementar e/ou explicativa à citação enunciada no texto.com extensão máxima de 17 páginas. quadros.br Para mais informações: Fale com a Assessoria Editorial Tel: 55 0**11. Quando da transcrição direta do autor (apresentação ipsis litteris) utilizar aspas e inserir na seqüência do texto.Brasil e-mail: publica@scamilo.Centro Universitário São Camilo . Figuras. A estrutura do manuscrito deve basicamente conter: introdução. As citações no texto devem ser identificadas com números arábicos entre parêntesis e sobrescritas. Manuscritos com mais de cinco autores devem seacompanhados por declaração certificando explicitamente a contribuição de cada um dos autores elencados. b)texto digitado em Times New Roman 12. na seqüência do texto. Diante dos pareceres emitidos pelos avaliadores. devem ser desenhadas por profissionais.Comprehensive Medline. porém com previsão de flexibilidade. dos autores (7. incluindo possíveis gráficos. No caso de haver notas explicativas estas deverão ser apresentadas no rodapé das tabelas e ou quadros e não junto ao título.ORIENTAÇÕES PARA COLABORADORES . com algarismos arábicos e título conciso. figuras e ilustrações: devem ser numerados seguindo ordem seqüencial de apresentação. recomendase o limite de até 15 citações. e 15 páginas para artigos de revisão.. necessidade de reformulação ou recusa justificada.5cm -largura correspondente à coluna do texto). Ilustrações: devem ser enviadas somente mediante a permissão. traduzidas sob o título "requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos". os editores responsáveis tomam ciência dos relatórios e indicam à assessoria editorial os procedimentos em relação aos encaminhamentos relacionados à aceitação do artigo. formatado em Word for Windows.61694045 55 0**11.

Authors are responsible for their opinions and statements.scamilo.1(1):140-143 INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS BIOETHIKOS is a Journal publishing every six months bioethical studies and researches. Manuscripts must be submitted together with the following documents: a Statement of Author Responsibility and a Copyright Cession form of submitted manuscripts. authors must send a Statement that a written Consent form was signed by research subjects (Free and Informed Consent form). and publication in the Journal do not in any way reflect an endorsement by the Editorial Board or the Editor(s). containing non-published and relevant data regarding bioethics. a CDRom copy and two printed copies are mandatory.edu. nor will author names be disclosed to reviewers. including graphs. MANUSCRIPT CATEGORIES BIOETHIKOS publish peer-reviewed scientific papers distributed in the following categories: Original papers: contributions aiming to show results of original.) Manuscripts and the said documents may be sent online or by conventional mail. (See www.DECS / LILACS. such as translated in the document "requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos".br. Review articles: contributions stemming from critical evaluations of the literature or reflections on some topic. In no circumstances will peer reviewers have their identity disclosed. to promote the dissemination of scientific knowledge in bioethics by means of studies and researches that contribute for broadening and consolidating bioethics in Brazil and Latin America. 142 . They must have a maximum 15 pages. Manuscripts must be submitted only to Bioethikos. and must present procedures regarding theme development and delimitation. and encouraging reflections by experts and professionals from the different knowledge fields that fundamentally interact with bioethics. taking into account technoscientific advances and current ethical-environmental questions. in this last case. English and Spanish. it should mention objectives of the research. institutional affiliations. by Bireme. and simultaneous submission of a manuscript or part of it to other publications is not allowed. In these cases. Keywords: three keywords for manuscript indexation. including department/sector. They must have a maximum 5 pages. Publication is contingent on following the Journal rules and the evaluation of the Editorial Board and the Editor(s).Centro Universitário São Camilo . in Portuguese.scamilo. Research Involving Living Beings: when research involves living beings. They must follow rules for original papers except that they must have a maximum 5 pages. or the Medical Subject Heading Comprehensive Medline. manuscripts will be resubmitted to the Editorial Board and the Editor(s). associated with human beings' existence and conviviality. Please see Descritores em Ciências da Saúde . Bioethikos aims to contribute for reflecting on problems. non-published research stemming from scientific experiments and/or documental or conceptual studies about themes related to bioethics or associated fields. methods and conclusions. Communications and Case Reports: evaluative and original studies or working papers about ongoing research. mainly newly emerging ones. as well as a copy of the Ethics Committee approval document of the Institution where research was done. (For getting them. tables. They must have a maximum 17 pages. Updating papers and reports of experiences: descriptive and/or interpretative papers about the stateof-the art condition of some studied problem. CHARACTERISTICS BIOETHIKOS follows Vancouver editorial rules elaborated by the International Committee of Medical Journal Editors. position and mailing and ameial address. Abstracts must be in Portuguese. if any. RULES FOR MANUSCRIPT PRESENTATION AND SUBMISSION Identification Page: this page should carry the following information: the title of the article and subtitle. images etc.2007. emphasizing the most important points of the study.edu.br/publicações/bioethikos. Abstract: up to 250 words. English and Spanish. that have full authority for deciding on manuscript publication and may make suggestions to authors should alterations be necessary.INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS . please see www. full authors' names and a footnote with academic degrees (undergraduate and the highest one).).

presented in Arabic numbers in order of appearance and have legends. Manuscripts must be sent to: Centro Universitário São Camilo Setor de Publicações .61694045 55 0**11. Assessoria editorial Avenida Nazaré. which include eventual tables. No authors or reviewers are identified to each other. who instructs the Editorial Consultancy about procedures for accepted manuscripts. References: must be presented in Arabic numerals in the order of presentation in the text. charts. or English or Spanish (for foreign authors). must be done by professionals. Notes must be presented after the table or chart they refer to and not as part of the title. Illustrations: should only be sent with written permission of their authors (they must up to be 7. in the text sequence.1(1):140-143 Body Text:manuscripts must be prepared according to the following rules: a) text written in Portuguese. Body text quotations must have references indicated by Arabic numerals inside parenthesis and superscript. Acknowledgments: they may be presented at the end of the manuscript and may include contributions of profes- sionals regarding technical instructions and material and financial support. photographs etc. b) Times New Roman 12 font. Tables. graphs etc.edu. double space. Manuscripts must present basically introduction.Centro Universitário São Camilo . the chosen manuscripts will be sent to reviewers for evaluation according to an instrument created by the Editorial Consultancy and approved by the Editor. Figures.INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS . Authors' quotations (ipsis litteris quoting) must be indicated by quotation marks and inserted in the text sequence. Footnotes: indicated by asterisks and only presented when really necessary for supplementing and/or explained something quoted in the text. graphs. MANUSCRIPT EVALUATION Bioethikos have criteria established for assuring the good quality of published papers. in the case of Brazilian authors. The authors of refused manuscripts are informed and the manuscripts are sent back.at. For specific rules see "Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals: Writing and Editing for Biomedical Publications" (Vancouver). Manuscripts having more than 5 authors must present a statement explaining clearly what each author contribution was. AUTHORSHIP Authorship is determined by the contribution of each person presented as authors of some manuscript.br For more information. contact the Editorial Consultancy staff: Phone: 55 0**11. Authors must specify their character.. results. discussion and conclusion.61694066 143 . Reviewers' evaluations are sent to the Editor. figures. A4 paper format using Word for Windows.5 cm wide to fit the Journal columns). manuscripts needing reformulations for being accepted and justifiably refused manuscripts. References must preferentially be no more than 15.Brasil e-mail: publica@scamilo. 1501 CEP: 04263-200 . Research subjects' speech must be quoted in italics. meaning drawings. methods. Latter.2007.. 10 font size.São Paulo-SP. Submitted manuscripts will have a first evaluation by the Editor regarding their relevance and the nature of their contribution both for the field and the readers. illustrations: tables and charts must be numbered by order of presentation with Arabic numerals and concise titles. but there may be exceptions. See the descriptions of the sections of the Journal above for number of pages. by the International Committee of Medical Journal Editors.

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