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A LARANJA MECÂNICA NA (ANTE) SALA DE MÁQUINAS DO “SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL”.

Uma piada explicada é uma piada não compreendida. Nesse caso, o que pode fazer alguém rir - embora com uma ironia dramática - é a audácia ou a arrogância da tentativa de se escrever uma filosofia do humor”. 3

Thiago Aguiar de Pádua 1

Jefferson Carús Guedes 2

Resumo: Trata-se de ensaio que busca refletir sobre o déficit democrático do sistema de justiça criminal através do diálogo com a literatura distópica da obra Laranja Mecânica, do escritor Anthony Burguess, especialmente a narrativa sobre o sistema Ludovico, considerado como mecanismo de influência e controle social assemelhado à mídia, num diálogo com Muniz Sodré e suas notas para uma teoria do acontecimento. Nos interessa também o diálogo interativo entre a “influência da mídia” e a categoria metafórica da sala de máquinas, cunhado pelo jurista e sociólogo argentino Roberto Gargarella. Neste particular, encontramos campo privilegiado para a incursão reflexiva a partir de missiva escrita em 1924 por Monteiro Lobato ao então presidente da república, Artur Bernardes, destacando-se o pensamento da época avesso à democracia popular, às vésperas do Golpe de Estado de 1930 e do Golpe do Estado Novo de Vargasde 1937, bem como revisita- se famoso e esquecido artigo do jurista e então professor da Universidade de São Paulo, Goffredo da Silva Telles Jr., publicado às vésperas do Golpe de Estado Civil-Militar de 1964, focalizando-se fragmento crítico do pensamento político-jurídico-ideológico sobre o modelo liberal de democracia. Tais reflexões se destinam à reflexão sobre a sala de máquinas do sistema de justiça criminal, com a proposição de ajustes.

Palavras-chave: Sistema punitivo. Distopia. Laranja Mecânica. Sala de Máquinas.

Sumário: Introdução; 1. Laranja Mecânica do “Sistema de Justiça Criminal”; 2. Sala de Máquinas do “Sistema de Justiça Criminal”; 3. Considerações Finais; Referências Bibliográficas;

1 Mestrando em Direito e Políticas Públicas (PPG/Direito UniCEUB). Pesquisador-Discente do Centro Brasileiro de Estudos Constitucionais (CBEC). Advogado. Bolsista Capes. Pesquisador dos Grupos de Pesquisa Justiça Processual e Desigualdade (ISO) e Teoria (s) do Direito e Seus Sentidos Contemporâneos. E-mail: tsapadua@gmail.com

2 Doutor e Mestre em Direito das Relações Sociais (PUC/SP), Professor Doutor do PPG/Direito (Mestrado e Doutorado/UniCEUB). Advogado da União. Líder do Grupo de Pesquisa ISO - Justiça Processual e Desigualdade. E-mail: professor.carusguedes@gmail.com

3 CRITCHLEY, Simon. On Humor. New York: Routledge, 2002, p. 2.

INTRODUÇÃO

Este artigo, ou seus autores (o que dá no mesmo), assumem a perspectiva de que o “sistema de justiça criminal brasileiro” é uma espécie de charge ou um cartoon 4 , uma caricatura realizada por um cartunista ou chargista a partir de suas observações da realidade, as vezes a troco de soldo, as vezes pelo prazer de provocar, as vezes movidos pelo flerte casual de quem camufla um interesse na sedução do outro, ou na imposição de um ponto de vista, mas sempre produto de um agir preponderantemente isolado e solitário, que busca imprimir seus próprios traços nos desenhos que produz. 5

Diferentemente da charge, possuidora de traços hereditários franceses tendentes a uma renovação inusitada e burlesca de reverter os conceitos impostos pela aristocracia de poder6 , o sistema de justiça criminal atual (e diríamos: desde sempre) perpetua justamente uma aristocracia de poder, bem entendido: um alto déficit democrático na seleção e incriminação de condutas, mas assim como a charge, representa uma poderosa ferramenta de comunicação discursiva, num contexto construtivo da imbricação entre “o discurso jornalístico, político e artístico”. 7

Este quadro pintado ganha tônus de maior sensibilidade e complexidade quando observamos que a charge e o cartum travam um diálogo entre o humor e a crítica, numa situação em que o humor acaba se transformando nos dutos pelos quais são transmitidas determinadas visões sociais 8 , e portanto, ao menos neste aspecto, as normas penais incriminadoras representariam não apenas uma poderosa ferramenta de tentativa de controle social, mas especialmente um grande riso ou sarcasmo que os habitantes da “sala de máquinas” 9 do sistema de justiça criminal transmitem à população, especialmente porque constatada a utilização de estereótipos na incriminação das

4 Reconhecemos a distinção e as peculiaridades existentes entre “charge” e “cartum”, mas utilizamos as expressões em contexto específico.

5 A influência inegável aqui são as 4 imagens do direito penal descritas por Winfried Hassemer: 1) o direito penal mal, 2) o direito penal puro, 3) o direito penal curativo, e, 4) o direito penal protetor, tratados ao longo do presente texto. Cfr. HASSEMER, Winfried. Direito Penal Libertário. Trad. Regina Greve. Belo Horizonte: Del Rey, 2007, p. 67-79.

6 ALBUQUERQUE, Diego Luiz Silva Gomes de; OLIVEIRA, Thiago Azevedo Sá de. A anatomia da charge numa perspectiva de revolução sociohistórica. 2º Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação. Anais Eletrônicos, 1ª ed., Universidade Federal de Pernambuco, 2008.

7 QUADROS, Cynthia Morgana Boos de. ZUCCO, Fabrícia Durieux; MORETTI, Sergio Luiz do Amaral. Com a Palavra, a Charge: Entre o Jornalismo, a Política e a Arte. Comunicação & Informação, v. 12, n. 2: p. 48-62, jul./dez., 2009.

8 Sobre o diálogo entre o humor e a crítica na charge ou no cartum, confira-se: ROCHA, Paraguassu de Fátima. Charge e Cartum: Diálogos entre o humor e a crítica. Revista Uniandrade, v. 12, n. 1, 2011.

9 Sobre a metáfora “Sala de Máquinas”, confira-se a discussão sobre sua utilização pelo jurista e sociólogo argentino Roberto Gargarella.

condutas 10 , e ainda, as representações que as pessoas e os profissionais do direito fazem do “bandido”. 11

O chamado “sistema de justiça criminal”, assim como a palavra “democracia”, é uma expressão empolada e aplicada a “alguma coisa inexistente”, não sendo uma construção coletiva ou democrática, no seu mais estrito sentido de participação plural. 12 Portanto, o título do artigo não precisaria ser explicado, pois assim como a piada referida na epígrafe, só deveria sê-lo se não fosse compreendido.

Contudo, sempre é possível a existência de um ruído na comunicação. Por isso, expliquemo-lo, embora sem a audácia e sem a arrogância, pois não se trata de pretensão de elaboração de uma filosofia do humor, mas de algo mais banal e menos nobre: algumas reflexões sobre o déficit democrático do sistema de justiça criminal brasileiro, refletindo a partir da sala de máquinas” do sistema de justiça criminal, como observado por Roberto Gargarella 13 , e a partir de uma incursão nos domínios da literatura distópica da “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess. 14

Neste sentido, a realidade em que vivemos pode ser observada através do prisma da distopia 15 , tendo como background a violência diária a que somos submetidos,

10 Confira-se as observações de Eugenio Raul Zaffaroni sobre a utilização de estereótipos na escolha de condutas criminalizadas: Cfr. ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em Busca das Penas Perdidas. Trad. Vania Pedrosa e Amir Conceição. Rio de Janeiro: Revan, 1991, p. 245-246.

11 Neste último aspecto sobre as “representações” sobre os criminosos, a interessante tese de doutorado de Júlio César Pompeu, investigou as representações sociais relativas aos criminosos, em particular aquelas comuns ao campo social dos juízes, promotores e advogados, que acabou por apontar uma "relação direta entre feiura, pobreza, poder e atribuição de periculosidade", indicando a existência de mais de uma representação de crime entre os juristas, com “perfis” de criminosos diferentes entre os crimes e consequências variadas nos julgamentos criminais, ajudando a compreender melhor os processos de incriminação judicial: “Os rituais típicos da justiça criminal, que envolvem a atenção a regras procedimentais que tem por finalidade a garantia da ampla defesa e do contraditório, assim como as censuras explícitas a julgamentos que violem os princípios procedimentais da impessoalidade e da imparcialidade, por visarem eliminar a influência de critérios subjetivos do juiz, podem interferir positivamente no sentido de evitar que as representações sociais dos criminosos interfiram de forma negativa nos julgamentos criminais, facilitando que se julgue alguém segundo as representações do juiz sobre o acusado seja ele um bandido segundo o senso comum ou segundo as representações dos criminalistas - e não segundo os fatos por este cometidos”. Cfr. POMPEU, Júlio César. Cara de Bandido:

Representações Sociais dos Criminosos para Juristas e Não-Juristas. 222f. Tese de Doutorado (Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade do Espírito Santo). UFES, Vitoria, 2013, p.

201.

12 Sempre tendo em mente as afirmações de Giovanni Sartori sobre a democracia: “Democracia, de modo paradoxal, pode ser definida como um termo empolado aplicado a alguma coisa inexistente. Essa afirmação é, naturalmente, provocante, e seria mais hábil dizer-se que democracia é uma palavra confusa em relação ao que pretende designar. Conquanto esse modo de situar a questão ainda se mostre de alguma maneira indevido, creio que isso nos dá uma chave para as dificuldades de nosso problema”. SARTORI, Giovanni. Teoria Democrática. Trad. Francisco Rocha Filho e Oswaldo Blois. Rio de Janeiro/Lisboa:

Editora Fundo de Cultura Brasil/Portugal, 1965, p. 17.

13 GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism: Social Rights and the “Engine Room” of the Constitution. Notre Dame Journal of International & Comparative Law: Vol. 4: Iss. 1, 2014; GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism (1810-2010) The Engine Room of the Constitution. New York: Oxford University Press, 2013.

14 BURGESS, Anthony. Laranja Mecânica. Trad. Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph, 2004.

15 Há uma muito rica possibilidade discursiva nos limites temáticos da chamada “Democracia e Literatura Distópica do Século XX”, que permite vasta exploração de temas e autores, como H. G. Wells (“A máquina do Tempo”), Eugene Zamiatin (“Nós”), Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”), George Orwell

permitindo a reflexão sobre hipóteses e categorias a partir do sistema “Ludovico” 16 , presente na já referida obra “Laranja Mecânica”, e adaptada para linguagem da 7ª arte por Stanley Kubrick.

Somos submetidos diuturnamente a um ambiente permeado pelos mais diferentes tipos de violência 17 : a fome, a arbitrariedade 18 , as notícias veiculadas pela mídia (reais, inventadas ou ampliadas), os crimes 19 tipificados (pela ultraseletividade criminal) ou cometidos (de sangue ou de colarinho branco), a corrupção (privada ou pública), os discursos dos membros de poder dissociados do liame fático que efetivamente lhes suportam, a arte, a aplicação da pena 20 , a impunidade, as condenações injustas, os jornais e os programas de televisão que exploram a miséria e o punitivismo ao tempo em que utilizam como pano de fundo a sonoplastia que comove, dentre tantas outras.

Podemos recordar neste breve ensaio, a título de violência pela arte, dois episódios do livro Hannibal, de Thomas Harris, também adaptado para a linguagem cinematográfica. 21 O primeiro episódio seria a observação de que a fuga e o paradeiro do

(“1984”), Ray Bradbury (“Fahrenheit 451”) e Antony Burgess (“Laranja Mecânica”), entre outros, em que é possível buscar, em tais obras, as referências à democracia e à sua ausência, na supressão do individualismo, na supervalorização do Estado e sua força opressora.

16 Tratamento Lodovico, é uma “terapia” fictícia presente na obra “Laranja Mecânica”, cuja palavra remonta ao “Ludwig” de Beethoven, e a terapia consiste em buscar submeter o paciente (no caso, Alex, protagonista do livro e do filme), a imagens de ultraviolência, através de mecanismo que mantém seus olhos permanentemente abertos, associado a ingestão de medicamento que induz a náusea, a paralisia e o medo, enquanto cenas de enorme violência são reproduzidas com o pano de fundo da sonoridade da Sinfonia n. 9 de Beethoven. O elemento musical é parte importante da narrativa, e está presente também em uma das cenas mais refinadas em que Alex e sua gangue invadem uma casa, enquanto Alex espanca brutalmente o dono da residência cantando “Cantando na Chuva”. É ainda marcante a presença da música de Henry Purcell, “Music for the Funeral of Queen Mary” durante parte significativa do filme dirigido por Stanley Kubrick.

17 A lógica do xadrez da violência observado por Hanna Arendt permanece válido é aqui invocado: “O jogo de xadrez ‘apocalíptico’ entre as superpotências, quer dizer, entre aqueles que manobram no mais alto plano de nossa civilização, está sendo jogado de acordo com a regra de que ‘se alguém vencer’ é o fim para ambos”. Pensamos que o mesmo tem valido para a política cotidiana, e o enfrentamento da criminalidade. Cfr. ARENDT, Hanna. Sobre a Violência. Trad. André Duarte. 4ª Ed. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2013, p.17.

18 A arbitrariedade é um especial elemento da violência, uma vez que a categorização “meio-fim” rege a substância da ação violenta, e o fim corre o risco de ser suplantado pelos meios que justifica, e, ainda conforme Hanna Arendt, “a violência abriga em si mesma um elemento adicional de arbitrariedade”. Cfr. ARENDT, Hanna. Sobre a Violência. Trad. André Duarte. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p.18.

19 Há que se observar, com Alexandre Bizzotto, que tem havido indevida redução do crime à violência:

Convém salientar que gradativamente tem ocorrido indevido uso do termo crime para identifica-lo com a violência. Esta é um fenômeno muito mais amplo e complexo do que o crime. O crime representa apenas uma pequena parcela da violência”. Cfr. BIZZOTTO, Alexandre. A mão invisível do medo: e o pensamento criminal libertário. Florianópolis: Empório do Direito, 2015, p. 74.

20 Sobre a aplicação da pena como violência, conforme Alexandre Bizzotto, “há uma provocação de dor, porquanto ao se selecionar alguém na condição de condenado criminal, move-se a engrenagem da exclusão social com consequências impagáveis para a vítima do sistema”. BIZZOTTO, Alexandre. A

violência da aplicação da pena a um ser humano: os necessários limites constitucionais. In. SILVA, Denival

e cárcere.

Francisco da; et all. Violência

e exclusão social

e mídia

e sistema de justiça

e polícia

Goiânia: Editora Kelps, 2014, p. 46.

21 O filme Hannibal, de 2001, dirigido por Ridley Scott, é a continuação de “o Silêncio dos Inocentes”.

famoso personagem principal, Dr. Lecter, despertaram uma intensa curiosidade no submundo do ciberespaço, fazendo crescer um comércio de “souvenires odiosos”, que só perdiam em popularidade para a execução de Fou-Tchou-Li. 22 O segundo episódio seria a recordação de uma das primeiras vítimas ainda vivas de Dr. Lecter, o pedófilo Mason Verger. Ambos os episódios, de alguma forma, conectados.

No caso verídico da evocação da morte de Fou-Tchou-Li, uma das últimas aplicações da pena de morte através do cruel método “Lingchi”, ou “morte por mil pedaços”, ocorrida em 1905, que representava uma forma de tortura e de execução utilizada na China, em que o apenado era amarrado a um pedaço de madeira, ao tempo em que o carrasco removia, com uma lâmina, pedaços bastante pequeninos da carne do condenado, em uma morte longa e dolorosa, enquanto uma multidão de populares observava tudo bastante atentamente, não muito diferente da curiosidade e da participação ativa nos linchamentos públicos ocorridos recentemente no Brasil em que o “Lingchi23 se converte no não menos bárbaro e cruel “justiçamento” com as próprias mãos, nos linchamentos de jovens amarrados em postes, Brasil afora. 24

De certa forma, tal registro está ligado às recordações de uma das vítimas do Dr. Lecter, numa relação médico-paciente, em que o personagem Mason Verger rememora o primeiro contato com seu agressor: o convite até a sua casa, seguido pelo uso de drogas uma substância excitante e causadora de suscetibilidade, ocasião em que o médico psiquiatra lhe entrega um pequeno caco de vidro, pedindo que ele mostrasse o mesmo sorriso que fazia para conquistar as crianças que vitimava, sugerindo concomitantemente que Mason cortasse pequenos pedaços de seu próprio rosto e alimentasse os cachorros, motivando sua deformação permanente. 25

22 HARRIS, Thomas. Hannibal. Trad. Alves Calado. 7ª ed. São Paulo: Editora Record, 2001, p. 59.

23 Contemporaneamente, a morte através do “Lingchi” foi recordada no anime japonês “Deadman Wonderland”, baseado num Mangá de mesmo nome, escrito por Jinsei Kataoka e ilustrado por Kazuma Kondou, lançado em 2007 (o Mangá) e 2011 (o anime), referente a história de sobrevivência dentro de uma

prisão japonesa futurista, chamada de “O Paraíso dos Mortos”, uma cadeia privada que serve de local turístico em que os detentos entretém os visitantes, e cujo lucro é utilizado para reformar a cidade, destruída por um terremoto. Na recordação do macabro “Lingchi”, no 9º episódio do anime, a personagem Hibana Daida trava o seguinte diálogo com o adversário que sofrerá o despedaçamento: - Nós vamos praticar o

) – O “Lingchi”, ou

“fatiamento lento”, era um método artístico de execução que os chineses usavam até o final da dinastia

Qing. Eles cortavam pessoas publicamente em pedacinhos, como forma de punição por seus crimes.

Primeiro, eles retalhavam a região do peito. Depois os braços, a barriga, a virilha, as coxas, as nádegas

)” (

24 Segundo dados do Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo, entre 1980 e 2006 foram cometidos 1179 (mil ce nto e setenta e nove) casos de linchamentos no Brasil, e em números recentes nos fornece o impressionante número de 1 linchamento por dia no Brasil, país em que o mais antigo linchamento conhecido foi o do índio XX, e que nos últimos 60 anos, aproximadamente um milhão de brasileiros já participou um ato de linchamento, tentado ou consumado, segundo o sociólogo José de Souza Martins. Confira-se, respectivamente: <www.nevusp.org/downloads/linch_brasil.htm>, acesso em

19.10.2015; MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015; MARTINS, José de Souza. [Entrevista]. Brasil tem um linchamento por dia, não é nada excepcional.

El País, Maria Martí,

25 A substância entorpecente ministrada foi o denominado “Pó-de-Anjo”, misturada com nitrito de amília, anfetamina e um pouco de ácido”. HARRIS, Thomas. Hannibal. Trad. Alves Calado. 7ª ed. São Paulo:

Editora Record, 2001, p. 64-81.

“Lingchi”. – Que? Mas que diabos é isso? Você nunca ouvir falar disso antes? (

(tradução livre). Cfr. Deadman Wonderland, EP. 9.

8

de julho de 2015. Disponível em:

O autor da obra de ficção joga com imagens e palavras, explorando

discursivamente o pagamento do mal com o mal, transformando um assassino em série fictício num dos personagens mais icônicos da cinematografia mundial, explorando (e de certa forma, estimulando ou alimentando) o amplo desejo público por retribuições cruéis e reações de violência com violência, que estaria presente nas imagens do “direito penal mal”, do “direito penal puro”, do direito penal curativo” e do direito penal protetor” descritos 26 por Winfried Hassemer. 27

A divisão entre o bem e o mal, presente na primeira categoria (direito

penal mal) foi retratada como a característica específica da imagem do direito penal malencarregado da execução da pena, ligada não à ciência, mas a sua prática, vinculada ao “aparecimento” da legislação contra terroristas, as doutrinas de retribuição e de culpa presentes no código penal, cujos traços refletiriam a imagem do direito penal “como instrumento da reação e da repressão, do desprezo aos seres humanos e da frieza, realizando o “trabalho sujo” (dirty work) da sociedade, retribuindo “o mal com o mal”. 28

Por outro lado, a segunda imagem (direito penal puro), de certa forma foi uma amenização contraposta à primeira imagem, trazendo as cores de uma dogmática penal pura, que estaria presente na parte geral do código penal, e ocorreria “sem o derramamento de sangue”, num universo em que a imputação da pena, a execução da pena, a criminologia, e a política criminal” não eram parte da formação dos juristas penais, e quase nunca eram objeto da literatura científica penal, na dogmática dos anos 1950 e 1960 que influenciaram a teoria finalista da ação. A naturalização de tal pureza acabou por fazer com que se perdesse o sentido no questionamento da relação entre o direito penal e o mal, para que o jurista não precisasse ficar envergonhado. 29

Mas a terceira imagem (direito penal curativo), no entanto, propunha a transformação do direito penal mal, que passaria de carcereiro à médico, apontando-se 5 vantagens desta “apropriação” do “direito penal male sua utilização discursiva de maneira diferenciada. A primeira vantagem apontada foi a de que esta imagem pintada teria levado a sério a crítica fundamental e contemporânea do direito penal, numa relação de apropriação e fortalecimento. A segunda vantagem apontada foi a de que através dessa imagem se poderia deduzir exigências de reforma, entre outras, mas aponta-se que “o direito penal curativo é uma ilusão”, e por isso deve ser observado com cautela e distanciamento crítico, representativo de uma cópia de um modelo utópico, trazendo de

26 HASSEMER, Winfried. Direito Penal Libertário. Trad. Regina Greve. Belo Horizonte: Del Rey, 2007, p. 67-79.

27 Embora a descrição de Winfried Hassemer esteja ligada ao contexto alemão, até por isso mesmo nos é bastante importante a partir das reflexões da aula magna proferida por Nilo Batista nos cursos de Direito da UERJ em 25 de setembro de 2013, a qual denominou de “As Penas de Um Penalista”, evocando famosa aula de Roberto Lyra publicada em 1957 (Penitencia de um Penitenciarista), em que se confere especial destaque para antigo escrito de Tobias Barreto sobre os fundamentos do jus puniendi, e sobre a origem alemã da invenção da dogmática jurídica. Cfr. BATISTA, Nilo. As Penas de um Penalista. In: MACHADO, Bruno Amaral. Justiça Criminal e Democracia II. São Paulo: Marcial Pons, 2015, p. 418-431.

28 Op. Cit. p. 70-72.

29 Op. Cit. p. 73.

negativo o apaziguamento onde a crítica se faça necessária, bem como harmonizar onde

a discussão também seria necessária. 30

As três imagens anteriores, afirma Winfried Hassemer, são três imagens parciais e fragmentadas do direito penal, e a soma de todas as imagens anteriores, com aproveitamento de seus melhores traços e de suas melhores cores, daria origem a quarta imagem (direito penal protetor), que não seria composto apenas e tão somente de ameaças de punição e de proibições, mas também da “segurança nos processos”, e da “promessa de garantias” para aqueles que nele atuam e para os que estão sujeitos a ameaças de punição, ao processo penal e à execução da pena 31 , embora o autor repudie a pretensão de que “o direito penal tenha que se transformar em um pai”. 32

São exemplos, em parte reais e em parte fictícios, que também poderiam estar presentes na reação a “velha ultraviolência”, como é chamada por Alex, personagem principal de “Laranja Mecânica”, e que é utilizada como elemento catalizador durante toda a obra, inicialmente quando Alex e sua gangue agridem, assaltam e estupram suas vítimas enquanto cantarolam “I sing in the rain”, ou assobiam a Sinfonia n. 9 de Beethoven.

Depois, quando Alex é preso e transformado em um número, e jogado no

presídio, quando ele se oferece para participar do programa experimental do governo que era a sua plataforma eleitoral para promover “a lei e a ordem”, consistente em submeter

o paciente, criminoso condenado, a uma máquina extremamente curiosa que grampeia

seus olhos, mantendo-os abertos, enquanto o paciente, utilizando uma camisa de forças,

é obrigado a observar cenas de ultraviolência, ao tempo em que também é submetido a medicamentos que induzem o mal-estar e a náusea, para que tais sensações sejam associadas às imagens de violência, numa verdadeira “lavagem cerebral”.

O falecido jurista argentino Carlos Santiago Nino, certa feita, valeu-se de uma obra da literatura distópica, embora não seja a mesma que estamos utilizando neste momento, para fundamentar uma reflexão sobre a filosofia do direito penal em um de seus livros mais importantes: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, comprovando o potencial discursivo da chamada literatura distópica, que possui muitas contribuições a fornecer ao imaginário jurídico. 33

30 Op. Cit. p. 76.

31 Op. Cit. p. 77-79.

32 Ao responder à pergunta sobre o fato de o cidadão desejar um Estado forte a tal ponto de colocar escutas telefônicas em suas casas, a troco de proteção contra a criminalidade organizada, Winfried Hassemer respondeu: “As pessoas exigem do Estado proteção em uma amplitude, a qual eu, como cidadão, leitor de jornais e ouvinte de rádio, jamais havia vivenciado. O Estado se converte, nessa expectativa, em um pai. Isso é uma exigência demasiada para ele? De fato, eu acho que é exigir demais”. Op. Cit. p. 238.

33 Carlos Santiago Nino observou, acerca das aspirações que o desenvolvimento do seu livro propunha: No fundo de quase todas as discussões sobre a fundamentação filosófica do direito penal se oculta um enfrentamento entre, por um lado, uma concepção geral que muitas pessoas consideram intrínsecas a um enfoque liberal e racional da responsabilidade penal, e por outro lado uma série de convicções intuitivas, compartilhadas pela maioria de todos nós sobre quais são as condições e distinções que um sistema de responsabilidade penal justo deve tomar em conta. Tais convicções incluem a ideia de que um inocente jamais deve ser apenado, e que tampouco deve sê-lo quem não podia agir de outra maneira, e que algumas atitudes subjetivas devem ser requisito da responsabilidade penal, que um ato intencional deve ser mais severamente apenado que o correspondente ato de negligência, que a tentativa merece menor castigo que o delito consumado, que um delito com resultado mais danoso deve ser mais severamente apenado que um

A perspectiva deste artigo observa que a força da mídia, no contexto de

indução da criminalização de condutas, pela propagação e disseminação de informações produzidas por um seleto e reduzido número de “produtores da notícia” é similar ao “sistema Ludovico”, submetendo a população a uma lavagem cerebral, de modo a realizar

traços caricaturais, que conduziriam ao segundo passo não necessariamente prévio, qual seja, da criminalização de determinada conduta pelos agentes que possuem o acesso VIP

à sala de máquinas do sistema de justiça criminal, ou induzindo a população a tomar

determinada reação com relação a determinados fatos ou condutas noticiadas, mesclando

a notícia de um evento com a opinião sobre ele.

É inafastável a observação de que a narrativa jornalística representa apenas uma das várias atividades do conceito europeu de “esfera pública”, espaço em que a racionalidade burguesa ou a ideologia se materializava em variadas instituições (como os clubes, as revistas, os cafés e os jornais), capazes da geração de um discurso político democrático e crítico, mas a palavra “pública, neste contexto, também é capaz de gerar equívocos, uma vez que não se cuida de um “mero espaço de comunicação” (que é apenas

a sua superfície imediata), mas sim de uma exterioridade dinâmica, num terreno

conhecido pela presença de “linhas de força”, muitas vezes não visíveis ou públicas, descentralizadoras das subjetividades sociais, e que provocam seu deslocamento para além de “suas posições físicas, transformando-as por meio da circulação transitiva de ideias”. 34

O jornalismo, assim considerado, é apenas uma das atividades dentro de

tal esfera, não sendo dotado de homogeneidade no seu percurso europeu, vale dizer, sendo

reconhecíveis períodos em que ele não gozava da boa reputação posteriormente atribuída pelo espírito liberal, quando Hegel via na leitura matinal do jornal “a prece do homem moderno”, e Balzac se mostrava muito cáustico com relação à leitura jornalística, proferindo a célebre frase: “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. 35

Tendo emergido historicamente a partir da transição do Estado absolutista para o Estado de direito, como uma espécie de porta-voz dos direitos-civis, a imprensa trouxe consigo “a novidade ideológica da liberdade de expressão”, embora sem o abandono de alguns recursos mitológicos, como uma construção narrativa sobre si mesma, a “entidade mítica” administradora da verdade dos fatos sociais, bem como a “retórica encantatória” da narrativa sobre fragmentos da atualidade. 36

delito cujas consequências sejam relativamente triviais, etc. Tais intuições não parecem estar justificadas pela concepção geral que concebe o direito penal como um instrumento para minimizar os danos sociais e postula que suas operações devem manter certa neutralidade a respeito dos juízos morais acerca da reprovabilidade dos autores de atos antijurídicos. Ao invés disso, tais convicções intuitivas parecem corresponder a uma concepção retribucionista e moralizadorado direito penal. Frente a este dilema, alguns pensadores se mantêm fiéis a suas intuições, recusando a aceitar uma concepção geral que apesar de seu atrativo inicial, parece nos aproximar de um Admirável Mundo Novo”. (Tradução Livre). Cfr. NINO, Carlos Santiago. Los límites de la responsabilidad penal: Una teoría liberal de delito. Buenos Aires: Editorial Astrea de Alfredo y Ricardo Depalma, 1980, p. 31.

34 SODRÉ, Muniz. A Narração do Fato: Notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 11.

35 Op. Cit., Loc. Cit.

36 Op. Cit., p. 12.

Tal narrativa, estofada pelo compromisso histórico com a ética liberal, acaba por repetir o encantamento de que caberia a imprensa realizar o asseguramento da palavra do cidadão, fundada no pacto implícito entre os meios de comunicação e a sua comunidade receptora da informação, em que o dever do jornalista é “noticiar” uma verdade, assim estabelecida pela aceitação do senso comum, quando o enunciado deverá corresponder a um fato. Assim, se o narrador (jornalista) não se identifica como um “comentarista” (pois o “coment” é algo distinto de “news”), tal enunciado “noticioso” está obrigado a explicitar a diferenciação entre o que seria informação e o que seria “opinião”, vale dizer, a diferença entre um “relato supostamente imparcial, dotado de objetividade, com relação a um acontecimento noticiado e seguido da tomada de posicionamento subjetivo acerca da natureza dos fatos. 37

Observe-se como singelo exemplo a aprovação da Lei de Crimes Hediondos, e suas quatro modificações, todas elas profundamente influenciadas pela cobertura jornalística sobre a ocorrência de crimes, em sua maioria, contra pessoas política e economicamente influentes. A aprovação da Lei n° 8.072, de 25 de julho de 1990, foi antecedida pelo sequestro do empresário Abílio Diniz, em 11 de dezembro de 1989, e de Roberto Medina, em 6 de junho de 1990.

Conforme rememorado por Aldenor da Silva Pimentel, “sob pressão, o Senado Federal aprovou o projeto, que tramitava em regime de urgência, em 34 dias, contados da data de apresentação da matéria. Já a Câmara Federal aprovou um substitutivo em dois dias. 38 E mais do que isso, embora tenha sido apurado que no caso do empresário Abílio Diniz o crime teria conotações políticas, praticado para obter fundos para guerrilha socialista no Chile e em El Salvador pelo grupo guerrilheiro MIR - Movimento de Izquierda Revolucionária do Chile, a pena aplicada foi a do código penal (muito maior 39 ), e não a da Lei especial específica de Segurança Nacional, tendo o STF chancelado a interpretação mais gravosa. 40

A imprensa nacional, ou o sistema “Ludovico”, estaria interagindo com à prévia seletividade criminal, operada por quem efetivamente ocupa os comandos daquilo que Roberto Gargarella denomina de “a sala de máquinas”, aqui vislumbrada com o

37 Op. Cit., Loc. Cit.

38 PIMENTEL, Aldenor da Silva. Morte Bandida e Cidadania Virtual: circulação discursiva em jornais on-line sobre a execução sumária de suspeitos, acusados e sentenciados por crimes hediondos. 180f. Dissertação de Mestrado (Faculdade de Informação e Comunicação - UFG). Goiânia, 2014, p.26; PIMENTEL, Aldenor da Silva; ALMEIDA, Edileuson Santos. A cobertura jornalística sobre crimes hediondos e o comportamento violento entre presidiários em Roraima. Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação Natal, RN 2 a 6 de setembro de 2008.

39 Observe-se que a pena do art. 20 da Lei Federal nº 7170/1983 é variável entre 3 e 10 anos para quem Devastar, saquear, extorquir, roubar, seqüestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas”, mas a denúncia e a pena aplicada foram a do art. 159, § 1º, do CP, variável entre 12 a 20 anos. Confira-se no STJ as discussões ocorridas no âmbito do REsp nº 39734/SP, rel. min. José Cândido, DJ. 21.03.1994, e do Ag 25684/SP, rel. min. José Cândido, DJ. 11.10.1993.

40 No STF, confiram-se os votos e manifestações dos Ministros Sepúlveda Pertence, Maurício Correia, Francisco Rezek, Ilmar Galvão, Marco Aurélio e Celso de Mello sobre a discussão da “competência”, cujo pano de fundo, no caso, era o cometimento (ou não) de crime político no caso do sequestro do empresário Abílio Diniz, no RE nº 160.841/SP, Rel. min. Sepúlveda Pertence, DJ 22.09.1995.

complemento do “sistema de justiça criminal”, vale dizer, aqueles que efetivamente determinam, escolhem, medem, selecionam a criminalização das condutas e determinam o agir dos agentes oficiais do Estado, num triangulo quase amoroso: mídia, seleção e criminalização, sob a perspectiva reflexiva permissiva da literatura distópica.

Como observado por Eugenio Raul Zaffaroni, tão interessante é o poder seletivo do sistema penal que ele acaba elegendo alguns “candidatos à criminalização”, além de desencadear tal processo, submetendo-o ao poder decisório da “agência judicial”, que decide se este “carro pomposo” deve prosseguir com a ação criminalizante ou se ela deve ser suspensa, e o “bom candidato” é escolhido com base em um estereótipo. 41

A este propósito, ao traçar as matrizes ibéricas do sistema penal brasileiro, Nilo Batista inicia sua trajetória no período da queda do império romano, seguindo uma trilha muito bem definida, que, dentre outras pegadas, focaliza o “sistema penal contra o estranho” (direito penal germânico antigo), o “sistema penal contra os servos e judeus” (direito penal visigótico), e o “sistema penal contra o herege” (direito penal e penitencial canônico), numa clara demonstração da ultraseletividade criminal. 42

Fazendo coro à ácida observação de Zaffaroni, para quem “o” delito não existiria, vale dizer, tal afirmação seria quase um equívoco linguístico, uma vez que do ponto de vista ôntico só existiriam conflitos arbitrariamente selecionados em um universo no qual em muitos países, inclusive no Brasil, a parte especial do código penal reúne uma vasta quantidade de ações conflitantes absolutamente heterogêneas quanto ao seu significado social, o que devido a sua disparidade de hipóteses e reações, não poderia dar lugar a alguma coisa unitária, mas tal fato é ignorado pelo discurso jurídico-penal, que oferece um conceito unitário de delito, geralmente denominado de “teoria do delito”, numa “complexa elaboração teórica, que com algumas variantes, geralmente é concebida como “ação típica, jurídica e culpável”. 43

A caricatura da seletividade criminal poderia ser vislumbrada por dois prismas, um fictício e outro real. Um tipo penal inusitado seria o de “amar alguém”, com preceito incriminador secundário com pena prevista de 1 à 2 meses de detenção, que em sua forma qualificada pelo uso de roupas demasiado confortáveis tornariam essa pena um pouco maior, embora seja possível imaginar também a previsão de haver uma “forma privilegiada”, que ainda poderia ser mesclada como ações que acabariam legitimadas por causas exculpantes ou justificantes (como, inexigibilidade de conduta diversa do amor, exclusão da ilicitude do amor por estado de necessidade, legítima defesa do amor, etc).

41 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em Busca das Penas Perdidas. Trad. Vania Pedrosa e Amir Conceição. Rio de Janeiro: Revan, 1991, p. 245-246.

42 BATISTA, Nilo. Matrizes Ibéricas do Sistema Penal Brasileiro I. Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia/Freitas Bastos Editora, 2000.

43 Em todo o caso, um conjunto de requisitos, segundo Zaffaroni, não chegaria a constituir um conceito, pois assim como seria muito atrevimento afirmar-se que o atestado de óbito aliado à condição de representante da família (requisitos exigidos pela autoridade administrativa para o sepultamento em um cemitério) seriam o bastante para se extrair um “conceito de morto” apropriado, bem como não se poderia alegar que a coleira, a vacinação e a focinheira poderiam representar um conceito de cão adequado à administração municipal. Cfr. ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em Busca das Penas Perdidas. Trad. Vania Pedrosa e Amir Conceição. Rio de Janeiro: Revan, 1991, p. 245-246

Assim, quando a mídia, ou o “sistema Ludovico”, providenciam uma especial relação de ódio contra um determinado crime ou criminoso, ela simbolicamente criminaliza o amor, agindo por meio da inversão do discurso, que poderia muito bem ser observado como protótipo nas pregações teóricas do jurista inglês influente nas colônias americanas: James Fitzjames Stephen, a quem se atribui, ainda hoje, a influência sobre o ódio ao crime ao criminoso nos Estados Unidos da América. 44

Não menos curiosa, embora duplamente real, foi a histórica criminalização mais gravosa (dobrada) por injurias e calúnias irrogadas à pessoa do Imperador, conforme previsto no Código Criminal do Império 45 , em que havia uma tal municia descritiva a ponto de se estabelecer que “o abuso da liberdade de comunicar o pensamento” atingia também, criminalmente, “o editor”, “o impressor”, ‘o autor”, “o vendedor”, “o distribuidor” e “os que comunicassem mais de 15 pessoas os escritos não impressos”. 46 Também se recorde a justificação que excluía o crime de “castigo moderado” que os pais dessem aos seus filhos, ou os senhores aos seus escravos, ou os mestres aos seus discípulos. 47

44 Este autor afirmou que “é moralmente correto odiar os criminosos, sendo altamente desejável que os criminosos sejam odiados, e que a vingança é empoderada pelo ódio, no sentido de que os criminosos devem ser odiados, pois senão não haverá pressão forte o bastante para aplicação da lei criminal”. Já se comparou a figura de James Fitzjames Stephen ao “Grande Inquisidor”, de “Os irmãos Karamazov”, de Fiódor Dostoiévski, observando-se, ainda, que ele seria o protótipo dos Neoconservadores americanos, sendo o molde original de Robert Bork e outros autores da direita, e que os juízes deveriam se reconhecer em sua figura, além de observar que o ódio aos criminosos e a recusa da sociedade americana em aceitar melhorias de qualidade de vida nos presídios estaria atrelada ao ideário do ódio ao criminoso propugnado por James. Cfr. MORSE, Stephen J. Thoroughly Modern: Sir James Fitzjames Stephen on Criminal Responsibility. Ohio State Journal of Criminal Law, vol. 5, 2008; DEGIROLAMI, Marc O. Against Theories of Punishment: The Thought of Sir James Fitzjames Stephen. Ohio State Journal of Criminal Law, vol. 9, 2012; POSNER, Richard. The Romance of Force: James Fitzjames Stephen on Criminal Law. Ohio State Journal of Criminal Law, vol. 10, 2012; POSNER, Richard. The First Neoconservative. In:

Overcoming Law. Cambridge: Harvard University Press, 1995, p. 259-270; FITZJAMES STEPHEN, James. A History of the Criminal Law of England, v. 2, 1883, p. 81-82; FITZJAMES STEPHEN, James. Liberty, Equality, Fraternity and Three Brief Essays, Chicago: University of Chicago Press, 1991, p.

152.

45 Art. 242 do Código Criminal do Império, de 1830: “Art. 242. As calumnias, e as injurias contra o Imperador, ou contra a Assembléa Geral Legislativa, serão punidas com o dobro das penas estabelecidas nos artigos duzentos e trinta, e duzentos e trinta e tres”.

46 Art. 7º do Código Criminal do Império, de 1830: “Art. 7º Nos delictos de abuso da liberdade de communicar os pensamentos, são criminosos, e por isso responsaveis: 1º O impressor, gravador, ou lithographo, os quaes ficarão isentos de responsabilidade, mostrando por escripto obrigação de responsabilidade do editor, sendo este pessoa conhecida, residente no Brazil, que esteja no gozo dos Direitos Politicos; salvo quando escrever em causa propria, caso em que se não exige esta ultima qualidade. 2º O editor, que se obrigou, o qual ficará isento de responsabilidade, mostrando obrigação, pela qual o autor se responsabilise, tendo este as mesmas qualidades exigidas no editor, para escusar o

impressor. 3º O autor, que se obrigou. 4º O vendedor, e o que fizer distribuir os impressos, ou gravuras, quando não constar quem é o impressor, ou este fôr residente em paiz estrangeiro, ou quando os impressos,

e gravuras já tiverem sido condemnados por abuso, e mandados supprimir. 5º Os que communicarem por

mais de quinze pessoas os escriptos não impressos, senão provarem, quem é o autor, e que circularam com

o seu consentimento: provando estes requesitos, será responsavel sómente o autor”.

47 Art. 14, n. 6, do Código Criminal do Império, de 1830: “Art. 14. Será o crime justificavel, e não terá

lugar a punição delle: (

os senhores a seus escravos, e os mestres a seus discipulos; ou desse castigo resultar, uma vez que a

qualidade delle, não seja contraria ás Leis em vigor”.

)

6º Quando o mal consistir no castigo moderado, que os pais derem a seus filhos,

Feitas tais observações, passemos ao desenvolvimento discursivo referente a “produção” do mal-estar criminal, através da abordagem do “sistema Ludovico” ou da reprodução midiática do noticiário criminal, para sequencialmente observarmos o déficit democrático da produção da legislação criminal conforme raciocinado por Roberto Gargarella.

1. Laranja Mecânica do “Sistema de Justiça Criminal”

Nossa intenção neste item é tão somente realizar uma reflexão distinta sobre o sistema Ludovico, presente na obra Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, considerada uma das maiores obras da literatura distópica do século XX, possuindo grande relevo para o direito penal, conforme afirmado pelo prof. Salo de Carvalho, que atribuiu a obra o status de ser “praticamente um tratado de criminologia, e tão importante quanto o “Vigiar e Punir”, de Foucault. 48

Sobre a categoria narratológica (literatura distópica), observamos que a primeira referência conhecida de uso da expressão distopia, como referida no Oxford English Dictionary, se deve a John Stuart Mill, quando em 1868 na British House of Commons criticou a política fundiária irlandesa ao dizer que: “It is, perhaps, too complimentary to call them Utopians, they ought rather to be called dys-topians, or caco- topians. What is commonly called Utopian is something too good to be practicable; but what they appear to favour is too bad to be practicable”.

Desde o princípio a expressão aparece ladeada de outras, mas sempre com um nítido sentido antônímico à utopia. A escolha pelas expressões Literatura Distópica e distopia ocorre de maneira deliberada, por encerrarem em uma só expressão (distópica e distopia) o conceito inteiro, que nas demais denominações compostas vem associado aos radicais anti, contra, caco ou à expressão auxiliar negativa. Todas elas podem ser encontradas em autores de diversas línguas, sem que isso seja um ponto de relevo, uma vez que representam sempre um mesmo objeto.

a) Distopia é a expressão escolhida neste trabalho, pela capacidade de síntese conceitual e vocabular enquanto antônimo de utopia; 49

48 O programa televisivo, Direito e Literatura, transmitido pela UNISINOS, realizou em 08.11.2009 um programa especial dedicado a análise de “Laranja Mecânica”, apresentado pelo prof. Lenio Streck, tendo como convidados os professores Salo de Carvalho, e Ricardo Barberena. O prof. Salo de Carvalho afirmou que o texto “é praticamente um resumo das teorias criminológicas do século passado, transitando da chamada primeira modernidade penal, baseada nos discursos de retribuição, de intimidação, das funções da pena, para um novo modelo de punição, que vai reorientar todos os sistemas penais até o final do século passado, até a grande crise da década de 1980, que são os métodos corretivos, os métodos de tratamento, que gera, no filme, a maior imagem que se tem quando se lembra do Laranja Mecânica, que é exatamente o Alex passando por esse processo, esse tratamento Ludovico, sendo condicionado à partir de imagens e a partir de sons, à não cometer o mal.

49 COLOMBO, Arrigo. L’utopia, il suo senso, la sua genesi come progetto storico, Utopia e Distopia, item n. 1, p. 12, onde afirma que essa é a expressão ‘melhor modelada’ e aproximadora do fenômeno distópico. LÓPEZ KELLER, Estrella, Distopia: outro final de la utopia. Reis: Revista Española de Investigaciones, n. 55, Jul.-Sep., 1991, p. 7, que argui tratar-se do termo que se vem afiançando.

b) Anti-utopia é a expressão composta, antepondo o prefixo ‘anti’ para

designar a oposição, a contrariedade, o choque, se utiliza como antônimo de utopia, encontrável em línguas do ramo latino ou germânico; 50

c) Contra-utopia é também expressão composta, antepõe o prefixo ‘contra’ para designar a oposição, a antinomia, o choque, que pode ser encontrada em várias obras e autores, podendo ser encontrada em línguas neolatinas ou germânicas;

d) Cacotopia é expressão de menor uso, mas presente no discurso original

de John Stuart Mill na British House of Commons, em 1868, para significar o mesmo ‘favorecimento ao mal’, presente na política por ele criticada. 51

e) Utopias negativas é a expressão também presente na obra As Utopias,

de Jerzi Szachi, 52 que descreve o conceito de utopia e a diversidade existentes entre elas,

tais como utopias de tempo, de lugar, a ‘Ordem Eterna, monásticas, políticas e, por fim, as utopias ditas pelo autor como ‘negativas’.

Há ainda outras denominações de menor curso, tais como ficção prognóstico, 53 utopia negra 54 , reveladora da multiplicidade de nomes dados para essa espécie de literatura política.

No que importa para os fins da presente narrativa, observamos que a obra de Anthony Burgess nos mostra a narrativa em primeira pessoa, realizada pelo personagem principal, Alex, cujo nome não é inocente pois utiliza a composição referente a lei (lex), mas de alguém que seria fora da lei (a-lex), líder de uma gangue de delinquentes (os groogs), que obtém o prazer através da ultraviolência. Isabella Roberto, discorrendo sinteticamente sobre a obra, realiza uma excelente compactação da narrativa, abaixo retratada:

“Alex diverte-se espancando mendigos, lutando com gangues rivais, roubando automóveis para provocar acidentes nas estradas, invadindo casas para violentar mulheres e outras práticas reprováveis. O seu prazer é viver por viver, na filosofia de um dia após o outro, entremeando a sua rotina de ultraviolência com a paixão pelas músicas de Beethoven. Na sequência de uma luta interna no grupo, Alex é atraiçoado pelos companheiros e é preso pela polícia, sendo condenado a 14 anos de cárcere pelo assassinato de uma mulher. Ao saber que está a ser ensaiado um novo método de recuperação de prisioneiros (“Reclamation Treatment”) que garante a sua liberdade imediata, Alex

50 BALASOPOULOS, Antonis. Anti-Utopia and Dystopia: Rethinking the Generic Field, Utopia Project Archive, 2006-2010; KUMAR, Krishan. Utopia e antiutopia: Wells, Huxley, Orwell. Ravenna: Longo, 1995; GALDÓN RODRÍGUEZ, Ángel. Aparición y desarrollo del género distópico en la literatura inglesa:

Análisis de las principales antiutopías. PROMETEICA - Revista de Filosofía y Ciencias, n. 4.

51 A expressão cacotopia ou aco-topia é mais comum em língua inglesa.

52 SZACHI, Jerzy. As utopias ou a felicidade imaginada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, item n. 8, p.

111.

53 CUNHA, Rafael. Crítica à modernidade nos romances distópicos de Aldous Huxley e George Orwell, Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha,

54 LÓPEZ KELLER, Estrella, Distopia: outro final de la utopia. Reis: Revista Española de Investigaciones, n. 55, Jul.-Sep., 1991, p. 7.

aceita ser submetido à experiência. A solução proposta é associar a violência a um extremo desconforto físico, pelo que o resultado final é a transformação de Alex numa nova versão do cão de Pavlov. 55

A utilização da técnica Ludovico na obra é utilizada como forma de

condicionar a pessoa submetida ao “tratamento”, verdadeira lavagem cerebral realizada,

ligada ao sentido do título, pois o título da obra trilha a mesma lógica do título do manuscrito do personagem F. Alexander, escritor que tem a mulher assassinada pelo protagonista Alex. O manuscrito representaria a tese principal e mais controversa do autor, presente na defesa também realizada pelo personagem do capelão da prisão, qual seja, a de que “qualquer restrição à liberdade de escolha transforma os humanos em máquinas, ou, numa análise mais imagética, o lado mais doce e sensível do ser humano é transformado num mecanismo automático e determinista”. 56

Vale dizer, o título remonta a uma expressão “cokney” da East London (associação social e geográfica com um logradouro de Londres), e gíria as queer as a clockwork Orange” (que poderia ser traduzida como “tão bizarro como uma laranja mecânica”), na sugestão de um ser estruturalmente bizarro, embora com aparência comum e humana, com aproximação direta à palavra “orangtang” que alude a um ser quase humano (orangotango), mas que não possuiria totalmente a liberdade de escolha, razão pela qual seria passível de ser “amestrado ou condicionado”. 57 O estranhamento provocativo começa desde o título. 58

Na obra, a técnica Ludovico é descrita como a submissão de Alex a medicamentos provocadores de náusea e mal-estar quando submetido a imagens de ultraviolência, num arranjo em que o paciente era submetido a um “horrorshow”, conforme diálogo entre Alex e um dos enfermeiros, quando seus olhos foram mantidos abertos com grampos, e ele preso a uma cadeira, atado a fios e sem poder deixar de assistir aos filmes que eram passados, na assistência obrigatória das imagens. Conforme a linguagem nadsat, que permeia todo o livro, Alex era obrigado a ficar “videando” as imagens de horror enquanto seu organismo era levado a náusea por meio do uso de drogas. 59

O presente ensaio utiliza o sistema Ludovico, utilizado para manipular

Alex e amestrá-lo ou condicioná-lo de determinada maneira, para transportar essa

55 ROBERTO, Isabella. Crime e Castigo em ‘A Laranja Mecânica’, de Anthony Burgess: Abordagem criminológica dos usos da Violência. Via Panorâmica: Revista Eletrônica de Estudos Anglo- Americanos, vol. 2, S.1, 2008, p. 59.

56 Op. Cit., p. 61.

57 Op. Cit., Loc. Cit.

58 Ao apresentar a obra, o tradutor Fábio Fernandes observa: “O estranhamento em Laranja Mecânica Começa pelo título (A Clockwork Orange, no original), retirado de uma gíria cockney: “as queer as a clockwork Orange”, uma expressão que significa algo de muito estranho (quase sempre de cunho sexual:

queer, em inglês, significa ao mesmo tempo estranho e homossexual). Essa sensação de estranheza continua ao longo de todo o livro por intermédio da linguagem nadsat, a gíria das gangues adolescentes que Burgess acabou criando para substituir as gírias reais dos Mods e dos Rockers, e que provoca no leitor, pelos menos nas primeiras páginas, uma certa desorientação que, para Burgess era fundamental”. FERNANDES, Fábio. Apresentação. In. BURGESS, Anthony. Laranja Mecânica. Trad. Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph, 2004, p. 13.

59 BURGESS, Anthony. Laranja Mecânica. Trad. Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph, 2004, p. 144.

categoria para as comuns referências jornalísticas sobre o crime e a corrupção, na tentativa de manipulação da opinião pública, confundindo-se narrativa da notícia com opinião, a partir das observações de Muniz Sodré, uma vez que “coment” é diferente de news60 , que pode ser exemplificado no caso da cobertura dos fatos que influenciaram na elaboração da Lei de Crimes Hediondos. 61

E isto porque, embora reconhecido historicamente que a liberdade de imprensa seria a única das liberdades que não poderiam ser suprimidas, por ter sido construído um discurso de que ela seria “condição de todas as outras liberdades”, a partir da leitura liberal de Benjamin Constant, esse artifício teria permitido que “a imprensa livre pudesse ser reconhecida como obra do espírito objetivo e moderno”, construindo um pano de fundo político e ético “que tornaria escandaloso para a consciência liberal, em qualquer parte do mundo, o fenômeno do jornalismo sensacionalista”, ou ensejaria a condenação do falseamento ou o encobrimento da verdade. 62

Entretanto, uma vez ultrapassada a chamada fase artesanal e publicista da imprensa, esta teria passado a oscilar entre os seus próprios interesses empresariais, muito dificilmente neutros com relação às tentações da corrupção política e da manipulação, e os fatos inerentes a realidade sociopolítica de seu público consumidor, fazendo com que a procura pela transparência narrativa ou ideológica, embora suportadas pelas opacidades de seu próprio mito, caracterizasse a natureza ambivalente do jornalismo. 63

De fato, o conceito de notícia hodierno, tal como é entendido e praticado pelo menos no mundo ocidental (“a narração do acontecimento, racionalizada como uma commodity”) é produto anglo-saxônico, importado pelo Brasil, e o disfarce de neutralidade permitiria que esta mercadoria fosse sustentada por pretensão dos coeficientes de “confiabilidade pública nos relatos”, que pode ser depreendida de uma breve frase de um editorial jornalístico: “Notícia não tem ideologia nem partido. Ela fala por si para os verdadeiros profissionais de imprensa e a mídia profissional. Reduzir o destaque de um fato por conveniências políticas só em diários oficiais, no antigo Pravda soviético e no Granma cubano” (O Globo, 04.08.2007). 64

Conforme observado pela crítica de Moniz Sodré, o texto do editorial acima recordado finge desconhecer que onde existe discurso, um “produto básico do mercado simbólico da comunicação”, haverá uma disputa pela produção de sentido, e portanto, haverá ideologia, um mercado que é composto por diferentes posições, com

60 SODRÉ, Muniz. A Narração do Fato: Notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 11-12.

61 PIMENTEL, Aldenor da Silva. Morte Bandida e Cidadania Virtual: circulação discursiva em jornais on-line sobre a execução sumária de suspeitos, acusados e sentenciados por crimes hediondos. 180f. Dissertação de Mestrado (Faculdade de Informação e Comunicação - UFG). Goiânia, 2014, p.26; PIMENTEL, Aldenor da Silva; ALMEIDA, Edileuson Santos. A cobertura jornalística sobre crimes hediondos e o comportamento violento entre presidiários em Roraima. Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação Natal, RN 2 a 6 de setembro de 2008.

62 SODRÉ, Muniz. A Narração do Fato: Notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 13.

63 Op. Cit., Locl Cit.

64 Op. Cit. p. 14.

distintos pontos de vista doutrinário e preferências políticas, também carregadas de cargas ideológicas. 65

Neste particular, os programas televisivos cuja linha de atuação é permeada inteiramente pelo noticiário do cometimento de crimes (como o Cidade Alerta, da Record, e o Brasil Urgente, da rede Bandeirantes, e.g), que não são apenasnoticiados de maneira objetiva, mas caracteristicamente vem acompanhados de pedidos e opiniões pessoais dos apresentadores, que espetacularizam ao máximo a notícia, clamando pelo recrudescimento das penas e o endurecimento no tratamento das pessoas que supostamente teriam cometido os crimes noticiados.

Funciona exatamente como o sistema Ludovico, procurando induzir o mal-

estar e o medo na audiência cativa, buscando influir na maneira como as leis são criadas ou aplicadas, e de certa forma buscando adestrar ou condicionar o público, uma vez que

a narrativa jornalística está protegida pela aura da objetividade, muito embora seja

inegável que em tais programas esteja mais presente a subjetividade do que a objetividade da notícia. Também por este motivo Moniz Sodré observa que há a necessidade de repensarmos a “velha ideologia da objetividade do relato jornalístico”, em termos de uma objetividade chamada de fraca, acarretando a revisão da pretensão de espelhamento de uma verdade absoluta “do real histórico”, em detrimento do acolhimento de uma “verdade meramente probabilística”. 66

Estamos diante de uma ação com pretensão de pressão determinada, que busca impulsionar as pessoas que estão na “antessala” de máquinas, e não na “sala de

máquinas”, propriamente dita. Busca-se com isso, a toda evidência, a produção de efeitos

e construção de modelos, através da caricatura que pinta, causando a replicação e à reprodução de estereótipos.

A interação entre essa espécie de pretensão, ao menos, de lavagem cerebral, tal qual o sistema Ludovico, tem destino certo: os donos do acesso à sala de máquinas do sistema de justiça criminal, denunciando não apenas o joguete com o público, mas o alto déficit democrático de nosso sistema. No item subsequente realizamos a incursão por esta última temática.

2. Sala de Máquinas do “Sistema de Justiça Criminal”

Discorrer sobre o déficit democrático do sistema de justiça criminal a partir das reflexões do jurista e sociólogo argentino Roberto Gargarella parece recomendar que, antes, recordemos o literato Jorge Luis Borges, que disse que a “democracia é um abuso da estatística”, por ocasião do discurso que proferiu ao receber uma alta comenda do governo chileno na década de 1970. 67

65 Op. Cit., Locl Cit.

66 Op. Cit. p. 135.

67 Conforme a narrativa de Katherine Singer Kovacs, escritor argentino odiava o presidente militar Juan Domingo Peron por causa de sua demagogia e pela prática de torturas aliada a supressão das liberdades civis, além de ter se tornado um convicto apoiador de um regime que não era substancialmente distinto. Na década se 1970, quando ele esteve no Chile para receber a condecoração mais alta deste país, disse: Dentro e fora, a ditadura, propriamente dita, não parece repreensível, e você precisa considerar as circunstâncias

A opinião de Jorge Luis Borges sobre a democracia é similar àquela expressa por Monteiro Lobato, em termos de repúdio ao suposto mal que a decisão da maioria poderia conduzir. Este escritor brasileiro expressou toda a sua verve de desconforto com a possibilidade de todas as pessoas poderem votar, especialmente os

pobres e menos instruídos”, (e hoje, provavelmente, os representantes majoritários da audiência de programas jornalísticos” como “Cidade Alerta” e “Brasil Urgente”) ao escrever uma missiva ao então presidente Arthur Bernardes, datada de 09 de agosto de

1924. 68

Tal missiva é um verdadeiro monumento contra o voto dos “menos instruídos”. Lobato, escrevendo ao então presidente no dia de seu aniversário, dizia ter realizado uma fotografia do estado de espirito do povo brasileiro” em momento chamado de “doloroso”, afirmando ter “sondado” gente de todas as classes sociais (“ricos e pobres, patrões e operários, gente de baixo e gente de cima”), tendo atentado ainda para

o fato de que, “como a maior parte dos homens tem duas opiniões, uma de uso social e outra íntima), sua narrativa descartou a primeira e ficou com a segunda. 69

Afirmou ter constatado o estado de espírito de franca revolta, que segundo sua mensuração, abrangeria aproximadamente 90% dos entrevistados. A decorrência desta revolta era o “completo divórcio entre a política e a opinião pública”, num quadro em que as opiniões mais comuns supostamente refletiriam o horror à política e à classe política, respectivamente tidos como “a arte de explorar o tesouro” e “usurpadores indignos”, o que seria a causa do “completo desinteresse da nação pela política”. 70

Segundo as afirmações tendenciosamente preconceituosas de Monteiro Lobato, a elite da nação seria a melhor parte dela, descrita como “rica e culta”, (o cérebro pensante), e, portanto, segundo afirma, “nobre por excelência”, e, a ojeriza desta classe pela arte da política seria a razão da perplexidade do escritor, que teriam motivado sua procura pelas “causas mais profundas” de tal situação. 71

Não menos causadoras de perplexidades, hodiernamente, seria o diagnóstico de Monteiro Lobato, transmitido ao presidente Artur Bernardes. As causas

seriam um vício tão grave”, que se não fosse corrigido levaria o país a total ruína: seria

o “regime eleitoral de censo baixo, pois segundo ele, na história da humanidade, a

particulares. Os impérios não parecem errados. O império Romano e o império Britânico fizeram muitas

coisas boas

não no meu país. Talvez em outros países a democracia possa ser justificada, mas na República Argentina

Ninguém supõe que

uma maioria de pessoas pode possuir opiniões válidas sobre a literatura ou sobre a matemática, mas há a crença de que qualquer pessoa pode possuir opiniões válidas sobre a política, à qual é muito mais delicada

do que quaisquer outras disciplinas

tende a permitir que seja abusada de muitas maneiras. Existem certas liberdades que constituem uma forma de impertinência(Trad. Livre). Cfr. KOVACS, Katherine Singer. Borges on the Right. Boston Review, 1º de setembro de 1977. Disponível em: <http://bostonreview.net/kovacs-borges-on-the-right>, acesso em

20.10.2015.

Sim, parece que para destruir a liberdade, é ruim. Mas a liberdade

eu não penso que podemos confiar nela. A Democracia é um abuso das estatísticas

Por muito tempo eu acreditei na democracia. Agora eu não acredito mais nela; pelo menos

68 LOBATO, Monteiro. Carta ao Excelentíssimo Senhor Presidente Artur Bernardes. In: Ferro e o Voto Secreto. São Paulo: Globo, 2010, p. 84-96.

69 Op. Cit., p. 84-85.

70 Op. Cit., p. 85.

71 Op. Cit., p. 86.

experiência demonstraria que o sistema representativo só traria resultados benéficos se fosse acompanhado de “censo alto”, uma vez que neste último caso representaria o “controle da política pela elite da nação”, representada pela metáfora seguinte: “a lei natural de todos os organismos é a parte cérebro desempenhando suas funções de cérebro, e a parte músculo (massa bruta, populaça, gente rural sem cultura nem capacidade de discernimento) subordinada ao cérebro”. 72

Monteiro Lobato afirmou ainda que isso causaria a presença de uma capacidade artificial de voto, pois os votantes de censo baixovotariam não por dever cívico guiado por discernimento, mas pela troca do voto por bugigangas ou dinheiro em espécie, e aqueles que deveriam votar (a elite e os nobres) acabariam se afastando da política, trazendo como consequência disso (chamado pelo escritor de “absurdo”) o fato de que a política acabaria dominada pelos políticos profissionais, que fazem da política um meio de vida, do qual se afastariam a elite e os nobres com base no seguinte fragmento: “o raciocínio geral é este: se meu voto, estudado, ponderado, calculado, livre, tem de ser anulado pelo voto do meu jardineiro, que é um imbecil, sem discernimento nem cultura, prefiro ficar na moita”, o que acabaria por afastar das urnas “os possuidores do direito natural de voto”. 73

O remédio proposto por Lobato, através de um raciocínio evidentemente datado e distorcido, foi a sugestão da implementação do voto secreto e não obrigatório, pois segundo o pensamento deste escritor, eliminaria o voto por pressão e o voto por dinheiro, os únicos dois motivos que, segundo ele, levavam os eleitores de “censo baixo” às urnas. No dizer de Monteiro Lobato, não instituir o voto secreto, e, por conseguinte, afastar o eleitor de “censo baixo”, seria “incubar eternamente o ovo da revolução. 74

Esta carta foi devidamente respondida, em correspondência que Artur Bernardes enviou à Monteiro Lobato, a 6 de setembro de 1924, em que o então presidente disse que recebeu “com prazer”, dizendo concordar inteiramente com as observações sobre a necessidade da adoção de medidas que privilegiassem um “censo alto” dos eleitores. 75 Simplista e antidemocrática a discussão entre o escritor e o presidente, ao dizerem, em termos claros, que o problema da democracia era o povo que a compunha.

No período que vai da proclamação da república, de 1889 aos dias que se seguiram até a ditadura do Estado Novo Varguista, em 1937, são turbulentos e nos quais se presenciou importantes fatos de levante e repressão, como a Guerra de Canudos (1893- 1897), as revoltas dos tenentes (1922, 1924, 1926 e 1930), o levante comunista de 1935, indicadores de “que com a industrialização e a urbanização, as lutas de classes aprofundaram-se, adquirindo novas características nas cidades”, num universo em que

72 Op. Cit., p. 86.

73 Op. Cit., p. 87.

74 Op. Cit., p. 88-90.

75 BERNARDES, Artur. Carta do Presidente Artur Bernardes à Monteiro Lobato. In: Ferro e o Voto Secreto. São Paulo: Globo, 2010, p. 97-98.

a “boa vontade dos políticos” não era suficiente para transformar a massa crescente de excluídos em cidadãos. 76

Convém observar não apenas o fragmento do pensamento da época, através da análise das trocas de cartas entre Monteiro Lobato e Artur Bernardes, em 1924, às vésperas do golpe que representou a Revolução de 1930 e da Ditadura do Estado Novo de Vargas, de 1937. Parece necessário realizar uma digressão sobre a adoção de modelos de atuação de institutos e instituições que nos influenciaram profundamente, antes de realizarmos uma incursão sobre o famoso artigo do jurista e então professor da USP Goffredo Silva Telles Jr, em seu diagnóstico sobre os motivos do golpe de Estado de

1964.

A expressão americana “Split-Ticket Voting” (literalmente: dividir a

cédula eleitoral), tida como efeito do madisonianismo, relaciona-se à justificação da eleição de governos institucionalmente divididos, segundo o qual o eleitor cidadão escolhe o candidato de um partido para a Casa Branca e outro (de outro partido) para o Congresso, sendo constatada sua prática por aproximadamente 20 a 30% dos eleitores americanos como forma de, em alguma medida, buscar estabelecer o fortalecimento do sistema de pesos e contrapesos no governo. 77

Os “truques” de James Madson para esta concepção institucional, que mais

de duzentos anos depois de elaboradas, estariam influenciando as pessoas a acreditarem neste sistema e em suas instituições, especialmente naquelas “formulações” constantes dos Federalist Papers n. 10, 37, 48, 49 e 51, respectivamente sobre a necessidade de afastar a “paixão das massas” e dos “partidos”, na elaboração do sistema representativo de caráter central, e a instituição dos famosos “Checks and Balances”.

Um dos maiores conservadores da teoria e ideologia jurídica constitucional americana, Robert H. Bork, resume um dos problemas centrais que se aponta nas Cortes Constitucionais: a resolução do dilema madsoniano, pois os Estados Unidos foram fundados segundo as bases do “madsonian system”, que significa albergar dois princípios opostos e que necessitariam ser continuamente reconciliados: o autogoverno, segundo o qual as maiorias governariam simplesmente porque seriam a maioria; e, o respeito pela liberdade da minoria. 78

O dilema madsoniano residiria justamente no fato de que nem a maioria, e nem tampouco a minoria, poderiam receber a confiança de definir as esferas da autoridade democrática e da liberdade individual, pois se fosse permitido que qualquer deles (maioria e minoria) definissem tais casos significaria tanto o risco da tirania da maioria quanto o

76 GUILHERME MOTA, Carlos; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: Uma Interpretação. 2ª ed. São Paulo: Senac, 2008, p. 605.

77 LEWIS-BECK, Michel. Split-Ticket Voting: The Effects of Cognitive Madsonianism. The Journal of Politics, vol. 66, n. 1, feb., 2004.

78 BORK, Robert H. The Tempting of America: The Political Seduction of the Law. New York: Free Press, 1990, p. 139-141.

risco da tirania da minoria 79 , razão pela qual a liberdade da maioria se autogovernar e a liberdade dos indivíduos não serem governados permanece em tensão permanente. 80

A Constituição Americana teria optado pela solução federalista que supostamente teria resolvido tal tensão “da melhor maneira”: confiar à conciliação entre maioria e minoria a uma instituição supostamente “não política”, como o judiciário federal, especialmente à Suprema Corte dos Estados Unidos da América, bem como com a limitação dos poderes do governo federal, em arranjo institucional segundo o qual o Presidente, os senadores e os deputados seriam eleitos por diferentes órgãos em períodos diferentes, além da instituição de uma Carta de Direitos, que afetaria mais diretamente as minorias. 81

Não obstante, o mesmo autor alega, observando a atuação prática da Suprema Corte Americana, que ela teria se tornado “um agente do Moderno Liberalismo”, que, embora não seja a responsável por “tudo que vai mal na cultura americana”, seria uma das responsáveis por grande parte dos alegados equívocos, como o declínio da legitimidade democrática das instituições, da anarquia e da licenciosidade na ordem moral, com o avanço da tirania na ordem social. 82 Tal alegação só faz sentido se reconhecermos que a instituição teria sido pensada apenas para manutenção do status quo, e preservação dos direitos criados por um grupo de escravistas travestidos de constituintes.

Uma maneira de observar tais afirmações com certa desconfiança do modelo madsoniano é a partir da identificação que o jurista e sociólogo argentino Roberto Gargarella realiza sobre a leitura da engenhosa criação americana deste modelo representado pela Constituição de 1787 que influenciou boa parte das Constituições da América Latina no Século XIX, que mereceu especial reflexão crítica em três escritos importantes e seminais, os dois primeiros deitando raízes na arqueologia factual da convenção da Filadélfia 83 , e outro que analisa o modelo de desenvolvimento do Constitucionalismo Latino-Americano entre 1810 e 2010. 84

Identifica-se, de uma maneira geral, a desconfiança sobre as instituições públicas, aliado ao desinteresse do cidadão em tomar parte da ação política, em decorrência do modelo político Constitucional desenhado, num quadro geral de “crise de representação política”, pois tais instituições (oriundas do modelo madsoniano) não foram arquitetadas para promover a intervenção da cidadania nos assuntos públicos, antes, em realidade, teria sido desenhadas para promover o seu inverso, pois os chamados

79 Observe-se, entretanto, que James Madson não se preocupava essencialmente com a “tirania das minorias”, pois estas poderiam ser superadas por simples voto majoritário, conforme consta exposto no Federalis Paper n. 10.

80 Op. Cit, Loc. Cit.

81 Op. Cit, Loc. Cit.

82 BORK, Robert H. The Supreme Court as an Agent of Modern Liberalism. In: Slouching Towards Gomorrah: Modern Liberalism and American Decline. New York: Harper, 2003, p. 96-119.

83 GARGARELLA, Roberto. Crisis de la Representación Política. México-DF: Fontamara, 1997; GARGARELLA, Roberto. Em Nome da Constituição: O legado Federalista dois séculos depois. In:

Atílio Boron, Filosofia Política Moderna: De Hobbes a Marx, São Paulo: Clacso, USP, 2006.

84 GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism (1810-2010): The Engine Room of the Constitution. New York: Oxford, 2013.

“pais Fundadores” do modelo temiam a democracia direta, receavam as assembleias populares majoritárias e desconfiavam de toda intervenção ativa da cidadania sobre a política, o que favorecia uma aristocracia de elite. 85

As propaladas virtudes dos “Checks and Balances” não passam indenes de críticas, pois alega-se que elas podem representar justamente o contrário do que prometem, permitindo “a extorsão” de um dos ramos do poder por outro, ocasionando ainda o que se chama de “guerra perpétua” entre diferentes setores da sociedade, pois seria tão factível que os freios e contrapesos favorecessem uma “paulatina depuração” das decisões públicas, evitando opressões mutuas, quanto permitirem um “bloqueio mútuo” entre as diferentes esferas de Poder, inclusive com “rupturas institucionais”, tais como as habituais experiências constitucionais da América Latina. 86

Uma das mais duras críticas ao modelo de “freios e contrapesos”, formuladas pelos Anti-federalistas, residiria no argumento de que se o Poder do Povo encontrava-se fundamentalmente no Parlamento Legislativo, não seria justificável a existência de tantas travas e bloqueios tendentes a diluir a vontade pública, e nem se fazia presente justificativa para presença de tantos “filtros” capazes de “distorcer a voz pública”, quando se passou a realizar muitas críticas aos controles “endógenos”, como a propagação da adoção de controles “exógenos” dos cidadãos frente aos representantes. 87

No Brasil basta que rememoremos a Carta de Monteiro Lobato ao presidente Artur Bernardes, em 1924, as vésperas do golpe de 1930 e de 1937, e ainda, a manifestação realizada pelo jurista Goffredo Silva Telles, então professor da Universidade de São Paulo, ao publicar um “transtornado artigo” poucos dias antes do Golpe Civil-Militar de 1964.

O referido artigo certamente influenciou muitos dos resultados, e inequivocamente reflete o espírito da época relativamente àqueles que eram favoráveis ao golpe, alegando imprestabilidade do modelo parlamentar de cariz liberal-democrata, no qual não se fazia presente a identificação entre eleitor e eleito, chamando o voto de “amassadeira do sufrágio universal”, e por isso vale revisitar o histórico artigo, como tentativa de compreensão da “sala de máquinas do sistema de justiça criminal”.

Goffredo Telles Junior, professor formador de inúmeras gerações de juristas que comporiam os quadros do poder paulista e nacional, em texto antigo e esquecido, admitia o uso da força para resistência a governos ilegítimos em casos raros e excepcionalíssimos, desde que a reação fosse, concomitantemente: legítima, necessária, útil e proporcional. 88

Em outra manifestação, essa reação seria mais explicitada, no artigo escrito de 1963 intitulado “Lineamentos de uma democracia autêntica para o Brasil”,

85 GARGARELLA, Roberto. Crisis de la Representación Política. México-DF: Fontamara, 1997, p. 93-

95.

86 GARGARELLA, Roberto. Em Nome da Constituição: O legado Federalista dois séculos depois. In:

Atílio Boron, Filosofia Política Moderna: De Hobbes a Marx. São Paulo: Clacso, USP, 2006, p. 182-

183.

87 Op. Cit. Loc. Cit., p. 182-183.

88 TELLES JUNIOR, Goffredo. Resistência violenta aos governos injustos. Revista de Direito da Universidade de São Paulo, v. 50, 1955, p. 217.

longo, extenso e revelador do ideário de uma geração inteira de juristas, com uma nota de rodapé possuidora do seguinte teor: “Este trabalho foi escrito muito antes da Revolução de Março. A necessidade de recorrer às armas para salvar o Brasil veio confirmar as críticas feitas nestas páginas”. 89

Que críticas foram essas? As de que nenhuma de nossas constituições tinham o “cheiro de Brasil”, em trocadilho atribuído a Lenin sobre a Revolução Soviética, criticando o fato de que os ideólogos de nossas instituições e constituições foram se abeberar das águas europeias de países que estavam em franca transformação e mudança de paradigmas, o que teria feito, segundo Goffredo, com que adotássemos a “doutrina burguesa do liberalismo”, e que ao se atrelar a democracia ao liberalismo acabaria por trazer consequências que iriam caracterizar a democracia como um regime de pressupostos, preconceitos e ficções, falseando a vontade do povo e confundindo este com “massa”. 90

Há crítica pesada aos partidos na sua impossibilidade de transmitir a real e concreta vontade do eleitor, bem como formula-se crítica ao sufrágio universal da democracia indireta, perguntando: “que povo será tão imbecil a ponto de achar que somente por depositar seu voto na urna já pode se achar soberano?”, e a crítica que se segue é incisiva:

Pode o povo, é certo, no dia do pleito, durante algumas horas, devanear e fantasiar-se de soberano. Mas já no mesmo dia, ao cair da noite, uma vez fechadas as urnas, que povo será tão imbecil a ponto de acreditar, que, tendo votado, esteja ele no governo? Poderá o homem da rua, que retorna à sua casa e a seu reles ramerrão, continuar envergando sua fantasia de soberano? Poderá ele crer, que o ‘representante do povo’, é de fato, seu representante?91

O próprio Goffredo, ele mesmo um ex-parlamentar que critica a atividade do “representante do povo” de maneira áspera, praticamente “entrepolegares”, alegando que os deputados, em sua grande maioria, não conhecem a constituição e estão mais interessados em seus próprios interesses. Vai buscar em Rousseau, no contrato social, a afirmação de que a “vontade geral não se representa”, e que toda lei deve ser ratificada pelo povo em pessoa, sob pena de nulidade. 92

Os olhos com que se devem ler tais manifestações não são de acusação, mas de apreensão para compreensão de uma época. Neste sentido, observa-se, tal como hoje, (e mesmo em 1924) extremado desgaste do Parlamento e dos Parlamentares. Goffredo recorda que já naquela época o povo votava por favor, por troca, por graça, como nos casos da eleição de um bode em Pernambuco e de um rinoceronte em São Paulo, na interpretação de que o povo, achando de pouco valor o Parlamento, tenta

89 TELLES JUNIOR, Goffredo. Lineamentos de uma Democracia autêntica para o Brasil. Revista de Direito da Universidade de São Paulo, v. 58, 1963, p. 130.

90 Op. Cit, Loc. Cit.

91 Op. Cit, p. 138.

92 Op. Cit, Loc. Cit.

transforma-lo em um “circo”, e o autor reconhece que quem critique o sufrágio universal será acusado de pecador e de tocar em um “tabu da democracia”. 93

O legislador vai ser colocado em um pote etiquetado por Goffredo de homens vulgares e ignorantes”, lembrando a manifestação anterior de Monteiro Lobato, em 1924, demonstrando a baixa conta em que já se tinha o Parlamento, havendo ainda a dicotomia destacada entre “país real” e “país falso”, bem como acusa-se o legislador de estar a construir um “império da corrupção”. 94

A linguagem de Goffredo é um misto de quase misticismo e simbolismo radical, com toda a força dos espíritos que convoca. Diz ele que naquele país falso, “como que por magia do demônio” haveria desabrochado “toda a escória social”, concluindo:

Animaram-se os desonestos. Estimularam-se os inescrupulosos, os afoitos, os vigaristas. Incentivaram-se os intrujões, que ostentam honestidade, mas somente para melhor ludibriar os incautos. E então, ocupando postos chave, começaram a ser vistas figuras desprezíveis de ladinos, de safados, de venais

Mas a que postos-chave Goffredo se referia? Não há uma menção

expressa, mas é possível inferir. Menciona-se que a moralidade teria sido “amortecida”,

e que “o suborno se fez rotina a tal ponto de tudo ter preço, tudo poder ser comprado”,

momento no qual insere nova nota de rodapé com uma segunda advertência, parecida com a primeira: “repetimos: este trabalho foi escrito muito antes da revolução de março. A Revolução visou banir, da vida nacional, precisamente os erros calamitosos que aqui se apontam”. 95

Repete-se o discurso de que não mais causava espécie “as torpezas cometidas às custas da nação”, acusando-se que “negociatas seriam realizadas a sombra do gabinete presidencial, nas antessalas dos ministérios e nos corredores da câmara”, invocando a necessidade de se inquirir a “pureza e a sinceridade” das leis, acusando o Parlamento de formar bancadas suspeitas de interesses alienígenas, e ainda, que o contrabando estaria sendo praticado escancaradamente, inclusive de armas a interesse de “grupos subversivos”, e que neste estado de coisas a política não teria um lugar para os “homens bons” que seriam atropelados pela “amassadeira do sufrágio universal”, pois os candidatos mais preparados, idôneos e competentes não ganhariam as eleições e a cada eleição o país estaria piorando. 96

Observa-se similaridade entre a carta de 1924, de Monteiro Lobato, e o discurso de Goffredo Telles Jr, em 1963, culpando-se a “democracia liberal”, com fundamentos claramente temerosos da democracia, mas nenhum deles propõe

aprimoramento que fortalecesse a força e a participação popular, antes, propõem críticas

à massa, ora como “não detentoras de um direito natural de voto” (1924), e ora como

“amassadeira do sufrágio universal” (1963): o culpado acaba sendo o sufrágio universal.

93 Op. Cit, p. 139.

94 Op. Cit, p. 141.

95 Op. Cit, p. 141-142.

96 Op. Cit, p. 142-143.

Menciona-se, ainda, na pretensão de exprimir um retrato fiel do sentimento da maioria da nação, que esta assistiria aflita ao retraimento forçado de suas “elites morais” e de sua “aristocracia intelectual” que estaria sendo substituída por “aventureiros”, “malandros”, “desavergonhados”, “trapaceiros” e “larápios”. 97 Neste ponto, também há extremada semelhança com relação a missiva de Monteiro Lobato, em 1924, para o presidente Artur Bernardes.

Sustenta-se que reformismo não seria suficiente para mudar o quadro desenhado, pois um retorno ao parlamentarismo, a delegação de poderes e adoção do sistema distrital seriam meros paliativos, pois segundo o autor, carregamos “cadáver de ideias mortas”, uma vez que o “mal seria profundo” a exigir “remédio heroico”. Fala-se em “reformular a democracia brasileira” que exigiria apenas “ser verdadeiro”, a exigir a afirmação de que “democracia liberal não é democracia”. 98

Neste sentido, Goffredo fala de democracia, fornecendo sobre ela o seu ideário, ingressando no perigoso terreno da legitimidade. Conceitualmente, a propósito, diz que democracia seria o regime político que asseguraria a permanente penetração e influência da vontade dos governados nas decisões legislativas dos governantes. Por outro lado, menciona que a fórmula democrática nacional perpassa pelo encontro de uma “autêntica representação política” que afaste mitos constitucionais, uma vez que uma tal constituição não deve ser inventada, não deve ser imposta de cima para baixo, antes, deve brotar “espontaneamente” de baixo para cima e assim “refletir a ordem própria das coisas”. 99

Em outra passagem reveladora de uma época e de um ideário, admite-se pluralismo jurídico, mencionando-se que a Constituição então em vigor (1946) seria a culpada pelo abismo criado entre o governo e o povo, pois como mencionado, no Brasil

o povo não seria “massa”, e o culpado, mais uma vez seria o sufrágio universal, que não produziria um verdadeiro regime representativo. Aliás, a expressão metafórica é

recorrente: o sufrágio universal seria uma “amassadeira”, partindo do pressuposto de que

o termo “massa” seria uma das “ficções do liberalismo”. 100

Não menos reveladora é a afirmação sobre a “ditadura”, pois segundo Goffredo, a expressão “vontade dos governados” não significaria a vontade deste ou daquele especificamente, pois se assim fosse estaríamos diante de uma ditadura, uma vez que esta se caracterizaria exatamente por ser uma forma de governo que impõe a todos a vontade de determinados e específicos indivíduos.

Dizendo isso em uma das mais prestigiadas revistas jurídicas do país, a Revista de Direito da Universidade de São Paulo, às vésperas do golpe de estado (1963- 64) enviava uma mensagem mais ou menos cifrada da necessidade de um golpe de estado, ao final chancelado, e que estaria anuída pelas duas notas de rodapé mencionadas na qual chama o golpe de “Revolução” que pegaria em armas para salvar o país.

97 Op. Cit, p. 143.

98 Op. Cit, p. 144-145.

99 Op. Cit, p. 154. 100 Op. Cit, p. 158-159.

Mas o ser humano Goffredo justifica a fama de humanista ao fazer, no auge da ditadura, alguns anos depois, uma declaração (Pronunciamento) também publicada pela Revista da Universidade de São Paulo, e lido na congregação dos professores da faculdade de Direito em fevereiro de 1968, defendendo-se da acusação de comunista e de marxista, mas dizendo também que não era adepto do capitalismo, deixando clara a guerra surda que repetia o estado novo de caça às bruxas contra o comunismo, fazendo uma corajosa manifestação no sentido de que era chegada “a hora de um cuidadoso exame de consciência”. 101

Seria também o mesmo Goffredro quem capitanearia a famosa “Carta aos Brasileiros”, lida no pátio das arcadas do Largo de São Francisco no dia 8 de agosto de 1977, um documento que pedia a volta do estado de direito, fazendo distinção entre estado de fato e estado de direito, constrangendo a ditadura e exigindo um retorno à democracia. 102

Muito tempo depois, em 1990, o mesmo Goffredo daria uma intrigante entrevista para Eugênio Bucci, para a revista “Teoria e Debate” nº 12, na qual falaria de seu passado integralista como um dos “camisas verdes”, mencionando a ausência de unidade ideológica entre eles, dizendo que se considerava um socialista e que o socialismo seria a perfeição da democracia. 103

Retornemos brevemente às críticas Anti-federalistas ao modelo madsoniano, após esse breve “atalho sobre reflexão acerca da Democracia Brasileira”. Os críticos defendiam sobretudo quatro propostas alternativas: 1) maior frequência nas eleições, pois quando acabavam as eleições se iniciava a escravidão; 2) possibilidade de os eleitores darem instruções necessariamente obrigatórias aos seus representantes; 3) direito de revogação do mandato para aqueles representantes que não cumprissem suas promessas eleitorais, e, 4) rotação obrigatória nos cargos eletivos, com vistas a impedir a formação de uma “classe política” que fosse isolada da cidadania, para que políticos profissionais não ficassem pelo resto da vida nos seus cargos, e que visasse a favorecer a participação da maior quantidade cidadãos na política. 104

O cerne desta discussão sobre a “democracia” foi focalizada também por José Saramago, ao proferir a conferência denominada “Democracia e Universidade” em 2005, na Universidade Complutense de Madrid, quando recordou Aristóteles e seu tratado de Política, observando que democracia é uma palavra vazia, e que neste caso vale muito mais o que ela carrega “por dentro”, e de que “um governo verdadeiramente democráticodeveria possuir mais pobres do que ricos, pois aqueles formariam a maioria, embora isso provavelmente jamais venha a acontecer. 105

101 TELLES JUNIOR, Goffredo. Pronunciamento. Revista de Direito da Universidade de São Paulo, v. 63, 1969, p. 401-412.

102 TELLES JUNIOR, Goffredo. Goffredo Telles Júnior dá a público a Carta aos brasileiros. Revista de Direito da Universidade de São Paulo, v. 72, n. 2, 1977, p. 411-425.

103 AZEVEDO, Ricardo de; MAUÉS, Flamarion; (Orgs.). Rememória: Entrevista sobre o Brasil do Século XX. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 205-222.

104 GARGARELLA, Roberto. Em Nome da Constituição: O legado Federalista dois séculos depois. In:

Atílio Boron, Filosofia Política Moderna: De Hobbes a Marx. São Paulo: Clacso, USP, 2006, p. 186.

105 Saramago complementa suas palavras da maneira seguinte: “Claro que o que estava implícito, ainda que Aristóteles não o tenha dito, era que devia existir um partido de pobres, mas talvez não tenha falado

Pois bem, o diagnóstico do nosso déficit democrático foi realizado de maneira minuciosa por Roberto Gargarella, que realizou uma vasta pesquisa sobre o Constitucionalismo Latino Americano, entre 1810 e 2010, constatando que a grande maioria dos países Latino-Americanos entraram no século XX com constituições liberais- conservadoras, para dizer com isso constituições que foram resultado de um acordo político entre conservadores e liberais. 106

No caso brasileiro é particularmente verdadeira esta observação, conforme recorda José Afonso da Silva, na composição do acordo entre o Partido Liberal e o Partido Conservador, no Brasil Império, e estas “formações partidárias revezaram-se no poder durante o Segundo Império”, constatando-se ainda que entre eles havia “pouca distinção ideológica”. 107

A maioria de tais negociações foram firmados na segunda metade do século XIX, ao tempo em que o liberalismo e o conservadorismo representavam as duas maiores forças políticas da região, mas seu acordo constitucional, contudo, era inesperado em razão de que ambos os grupos teriam aparecido como candentes inimigos políticos durante a primeira metade do século XIX. Com efeito, após muitos anos de duríssima disputa política, os dois rivais de tais facções políticas uniram às forças para forjar uma aliança que permaneceria intacta durante as próximas décadas. 108

As Constituições forjadas pelo acordo entre liberais e conservadores neste período - apareceram como sínteses imperfeitas de aspirações legais de ambos os grupos, vale dizer, essas novas constituições latino americanas refletiram o pacto por um sistema de pesos e contrapesos e para declarar neutralidade especialmente referente à tolerância religiosa - que pareceu caracterizar as aspirações do grupo liberal, embora por outro lado, tais constituições também tenham representado o compromisso com um sistema de autoridade concentrada - centralização regional e perfeccionismo moral - que caracterizou as aspirações do grupo conservador”, representando a combinação da Constituição dos Estados Unidos, bastante influente entre os liberais, e a Constituição Chilena de 1833, que representou a Constituição de maior influência conservadora durante o século XIX, em modelos constitucionais representativos de tolerância religiosa, mas sem necessariamente afirmarem neutralidade estatal, e definidoras de um sistema de freios e contrapesos, que teria sido, entretanto, parcialmente desequilibrado em favor do

disso porque se deu conta de que um partido de pobres não tem muito para prometer, e se não promete não ganha as eleições. Por outro lado, os partidos ricos sempre encontram uns quantos pobres para que governem na sua maior glória e proveito; dos ricos, do poder, quero dizer. Estes pobres depois acabam por cruzar a fronteira e passam para o lado dos ricos, embora tenham chegado ao governo com os votos dos pobres, como bem sabemos que acontece em todo o mundo”. Cfr. SARAMAGO, José. Democracia e Universidade. Belém: ed.UFPA, 2013, p. 27-28.

106 GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism: Social Rights and the “Engine Room” of the Constitution. Notre Dame Journal of International & Comparative Law: Vol. 4: Iss. 1, 2014; GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism (1810-2010) The Engine Room of the Constitution. New York: Oxford University Press, 2013, p. 34-53.

107 SILVA, José Afonso da. Constitucionalismo Brasileiro: evolução institucional. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 249.

108 GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism: Social Rights and the “Engine Room” of the Constitution. Notre Dame Journal of International & Comparative Law: Vol. 4: Iss. 1, 2014; GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitutionalism (1810-2010) The Engine Room of the Constitution. New York: Oxford University Press, 2013, p. 34-53.

de

organização. 109

Estas constituições liberais-conservadorasteriam ainda rejeitado a incorporação de cláusulas sociais favorecedoras dos menos avantajados, e também se a introdução de iniciativas em favor da participação das massas no espaço público, significando que o pacto liberal-conservadorteria sido um pacto excludente que implicava o deslocamento da maioria das iniciativas institucionais então propostas por grupos radicais - geralmente inspiradas por Anglo-Americanos radicais. Durante esses anos, de fato, grupos radicais avançaram inúmeras propostas constitucionais, as quais incluíram eleições anuais, o direito à revogação do mandato (recall), rotatividade do mandato e instruções obrigatórias. Adicionalmente, grupos radicais promoveram diferentes reformas objetivando alcançar a “questão social”. Contudo, o triunfo do projeto liberal-conservador repeliu implicitamente todas essas iniciativas. 110

presidente,

estabelecendo

ainda

um

modelo

de

federalismo

centralizador

Roberto Gargarella observa que ocorreram muitas e inúmeras mudanças nas constituições dos países da América Latina, seguidos de períodos relativamente bem delineados de Constitucionalismo Social (1910-1950), Multiculturalismo e Direitos Humanos (1950-2010), com inúmeras reformas constitucionais, mas nenhuma delas teria logrado êxito em permitir a grande camada da população o acesso à chamada “Sala de Máquinas da Constituição”, metáfora utilizada para dizer que as reformas foram concessivas de direitos, mas não de acesso aos efetivos mecanismos de controle de poder. Observou o autor que:

“Exemplos como esses, [de reformas constitucionais por direitos] demonstram não apenas a importância, mas também as limitações dos afazeres das reformas constitucionais. Reformadores legais não podiam, ou não queriam ir longe demais para assegurar que as constituições reformadas alcançassem as características

Nos últimos anos (embora - e

isso é um problema - apenas nos últimos poucos anos), os países da América-Latina que tem adotado Constituições socialmente mais robustas desenvolveram uma interessante e imaginativa prática judicial

transformadoras que proclamavam. (

)

de cumprimento dos direitos sociais. 111

No entanto, parece evidente que tais reformas foram, na melhor das hipóteses, bastante limitadas em seu escopo e também nas suas conquistas, e uma das principais razões para isso se explicaria pelo fato de que os reformadores pareceram concentrar suas energias na seção dos direitos, sem levar em conta o impacto que a organização do poder tende a ter sobre aqueles mesmos direitos que então estavam protegidos, vale dizer, os reformistas dedicaram a maior parte de seu trabalho criando novos direitos, mas deixou a organização dos poderes basicamente intocada, pois seguindo o Gargarella:

“Agindo dessa maneira, reformistas legais mantém fechadas as portas da “sala de máquinas” da Constituição: o núcleo da maquinaria

109 Op. Cit, Loc. Cit.

110 Op. Cit, Loc. Cit.

111 Op. Cit, Loc. Cit.

democrática não é modificado. A máquina da Constituição não se transforma no objeto de atenção principal dos reformadores. É como se a sua missão estivesse concluída com o trabalho nas seções dos direitos, como se os controles principais somente pudessem ser tocados pelos aliados mais próximos daqueles que estão no poder. 112

O mesmo vale para o “sistema de justiça criminal”, vale dizer, a grande população está apenas do lado de fora, na antessala, e sem acesso a sala de máquinas do controle da instituição e revogação dos tipos penais incriminadores, embora esteja suscetível ao poder que sobre ela exerce o sistema Ludovico, num arranjo institucional que manipula a população a apenas fazer pressão sobre seus representantes, ou justificando um agir incriminador mais duro tomado pelos congressistas à revelia da real vontade da população.

3. Considerações Finais

Estas breves linhas destinaram-se a realizar algumas reflexões sobre o sistema de justiça criminal, dialogando com a literatura distópica (laranja mecânica, de Anthony Burgess) e com a literatura que aponta alto déficit democrático de nossas instituições (a metáfora da sala de máquinas, de Roberto Gargarella).

Por um lado, observou-se que a mídia realiza tarefa similar ao artefato do sistema Ludovico, buscando influenciar na seletividade criminal, causando mal-estar com relação a determinado crime ou acusado. Também foi possível observar que o acesso à “sala de máquinas” do sistema de justiça criminal é extremamente restritivo, e interage deliberadamente a partir do “sistema Ludovico” de notícias criminais.

A partir destas constatações, temos como premente o reconhecimento destes dois fenômenos seletivos, e a partir de então, que seja minimizada a pretensão de criminalização de condutas ou agir repressivo e punitivista com relação a determinado crime ou acusado, bem como, por outro lado, que sejam oxigenadas a sala e a antessala de máquinas do sistema de justiça criminal, com a consulta popular prévia, precedida de amplo debate público sobre as pretensões de criminalização de condutas, com a minimização da influência da mídia em todos os debates.

Com tais ações, certamente o cidadão poderá decidir sem a nauseante presença do mal-estar, bem como poderá ter acesso efetivo a sala de comandos que decidirá os rumos da embarcação. Tal situação não será fácil, nem rápida e nem indolor, embora sua prática reiterada provavelmente venha a permitir o amadurecimento democrático do povo brasileiro, bem como a paulatina desintoxicação de lavagens cerebrais.

Sem o ódio ao crime, e nem ao criminoso, se permitirá um ambiente de esfera pública menos hostil e mais saudável para as grandes discussões nacionais, dentro de plurais ambientes ideológicos e com a necessária liberdade que transcenderá ao totalitarismo da notícia fabricada e adentrará na efetiva sala de comando da liberdade.

112 Op. Cit, Loc. Cit.

A permanecer como está, urge denunciar que o status quo é violência

naturalizada, e é preciso chamar as coisas pelo nome, ou ao menos descrever a imagem da caricatura: a cidadania nauseada urrando de dor, com os olhos grampeados na imagem propositalmente produzida, artificialmente do lado de fora da sala de comandos, e legitimando que os do lado de dentro tomem as providencias que previamente bem entenderam.

Roberto Aguiar 113 e Amilton Bueno de Carvalho 114 denunciam o lado perverso relacionado à resistência ao novo, ao qual se resiste muitas vezes não por ser injusto, mas porque “desestabiliza a comodidade das reproduções”. Que aqueles que resistem a necessária mudança também usem o nome adequado para que o diálogo prossiga em níveis ideias de cognoscibilidade: medo da democracia e vontade de manipulação.

E isso é uma piada distópica, que acaba de ser explicada, dentre várias

explicações possíveis, diferente daquela que começa da seguinte maneira: Porque o pontinho amarelo atravessa a rua e entra dentro da sala de máquinas

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