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BARBOSA, Raoni Borges.

O olhar teórico-metodológico do GREM sobre a cultura emotiva da cidade


de João pessoa: Uma resenha.. Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia, v.1, n.3,
p. 178-181, novembro de 2017. ISSN 2526-4702.
Resenha
http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

O olhar teórico-metodológico do GREM sobre a cultura emotiva da cidade de João


Pessoa: Uma resenha

The theoretical-methodological perspective of the GREM on the emotional culture of the city
of João Pessoa: A review

PONTES, Williane Juvêncio. Medos corriqueiros e cidade: Uma análise institucional


do Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções / UFPB. Coleção
Cadernos do GREM N° 12. Recife: Bagaço; João Pessoa: Edições do GREM, 2017.

A presente obra de Pontes (2017), originalmente um trabalho de conclusão de


curso de graduação em ciências sociais, intitulada Medos corriqueiros e cidade: Uma
análise institucional do Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções
/ UFPB, caracteriza-se pela exposição bastante didática dos seus elementos
constituintes. A autora conseguiu apresentar ao leitor um quadro teórico-metodológico e
temático claro e coerente sobre o seu objeto de pesquisa, isto é, os processos de
formação e os sentidos do olhar da instituição acadêmica GREM Grupo de Pesquisa em
Antropologia e Sociologia das Emoções sobre a cidade de João Pessoa, e também o
sobre o seu universo de pesquisa em análise, que vem a ser a história registrada em
arquivos da instituição GREM.
A obra de Pontes, com efeito, foi construída com base em uma proposta teórico-
metodológica de análise compreensiva e processual desta instituição acadêmica, de
modo a poder abordar as memórias, os projetos, os mapas simbólicos, as trajetórias
temáticas e conceituais, o processo de refinamento teórico-metodológico, a produção de
questões relevantes, a formação de quadros de pesquisadores, a organização de redes de
interlocução e de visibilidade, a participação nos eventos acadêmicos, e a produção do
material acadêmico do grupo. A partir de então enfatiza, ato contínuo, como o GREM
percebe a cidade de João Pessoa enquanto laboratório de pesquisa, enquanto cultura
emotiva e códigos de moralidade e enquanto sociabilidade urbana em acelerado
processo de modernização durante o século XX, mas, principalmente, desde os anos de
1970 (KOURY, 2017).
A pretensão da obra foi, em síntese, a de produzir um mosaico científico
(BECKER, 1993) sobre a cidade de João Pessoa através do olhar do GREM,
acompanhando os trabalhos desenvolvidos pela equipe do grupo, docente e discentes,
em um projeto guarda-chuva ainda em andamento, intitulado Medos Corriqueiros, a
partir do cruzamento analítico de etnografias, dados estatísticos, bancos de imagens,
entrevistas e cartografias produzidas, na cidade, sobre os mais diversos temas do
cotidiano urbano. Temas estes como a vida noturna e boêmia da cidade de João Pessoa;
os registros fotográficos de suas, ruas, avenidas, praças e parques; e a evolução da
paisagem humana e urbana de seus bairros nobres e populares e de seus lugares
históricos de maior visibilidade urbana.
Este mosaico científico sobre o urbano local, a partir de um apanhado e balanço
institucional e acadêmico de um conjunto de pesquisas acopladas ao projeto Medos
Corriqueiros em desenvolvimento no GREM, buscou enfatizar a tensão entre indivíduo,
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cultura e sociedade como eixo teórico organizador e condutor da crítica aos modos e
estilos de vida dos moradores da cidade de João Pessoa, cuja cultura emotiva tem
sofrido um considerável processo de transformação em decorrência do crescimento
demográfico e urbano exponencial da cidade nas últimas cinco décadas, vindo a
conformar-se como um lugar de medos generalizados e banais, os medos corriqueiros, e
de estranhamento do outro, sentido como vetor de ameaças. O universo de pesquisa
trabalhado por Pontes, o GREM, - concebido a partir do trabalho e da ação acadêmica
de seus pesquisadores docentes e discentes, - foi analisado como instituição acadêmica
situada em três contextos históricos bem marcados. Primeiramente, o contexto de
consolidação dos estudos em Antropologia e Sociologia na UFPB, que abarca o período
de 1983 a 1994, - anos de gestação do Projeto GREM, - e que tem como eixo temático a
análise da desigualdade, da pobreza urbana, da transformação urbana dos espaços rurais,
da exploração do trabalho assalariado e das lutas e resistências em torno da
sindicalização de trabalhadores rurais, entre outros.
Nesta primeira fase de organização institucional, as categorias-chave de análise
da relação entre indivíduo, social e da cultura partem de noções como homem comum
pobre e trabalho, no sentido marxiano do termo, e são ainda influenciadas por uma
abordagem estruturalista dos fenômenos sociais. O segundo contexto de produção
acadêmica e de ação institucional do GREM perfaz um movimento de transição para
uma postura teórico-metodológica mais interacionista, pragmatista e processual, tendo
como eixo de análise a construção social da individualidade e da subjetividade no
urbano contemporâneo.
Este segundo contexto institucional abarca o período de 1994 a 1999 e
desenvolve como categorias-chave de análise as noções de homem comum e de
subjetividade, sofrendo forte influência da leitura simmeliana do papel e do lugar da
individualidade e dos processos intersubjetivos na construção da modernidade
capitalista ocidental. O terceiro contexto GREM de fazer pesquisa acadêmica, - já
fortemente marcado por pesquisas sobre a cidade de João Pessoa enquanto cultura
emotiva, - compreende o processo de afirmação da Antropologia e da Sociologia das
Emoções no cenário local, regional e nacional, com a maturação de projetos GREM
sobre emoções específicas, - como os sentimentos de luto, de medos corriqueiros, de
pertença e de vergonha cotidiana, - e sobre a construção social do self, da
intersubjetividade e de culturas emotivas.
Este é também o contexto de fundação da RBSE – Revista Brasileira de
Sociologia da Emoção e da organização de Grupos de Trabalhos em eventos pelo país e
pelo exterior. Essa terceira e última fase de produção acadêmica se estende de 1999 até
os dias atuais e desenvolveu categorias-chave de análise como homem comum urbano e
como emoções.
Pontes logrou apresentar ao leitor um recorte temporal bastante interessante do
GREM, situando as preocupações e trajetórias teórico-metodológicas e temáticas do
grupo, sintetizadas nos conceitos analíticos centrais de cada contexto de maturação
acadêmica da instituição sob análise. Uma vez delimitado historicamente o universo de
pesquisa, a autora situa o seu objeto empírico: a produção acadêmica do GREM sobre a
cidade de João Pessoa a partir do projeto de pesquisa guarda-chuva GREM Medos
Corriqueiros: A construção social da semelhança e da dessemelhança entre os
habitantes urbanos das cidades brasileiras na contemporaneidade (KOURY, 2002).
O objeto de pesquisa, com efeito, é trabalhado da mesma forma cuidadosa com
que se expôs o universo de pesquisa: Ao descrever o seu objeto, a autora descreve e
analisa a história acadêmica e a trajetória teórico-metodológica e temática do projeto de
pesquisa Medos Corriqueiros. Descobre e apresenta analiticamente suas três fases

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constitutivas, conectando este processo de maturação de um projeto GREM aos demais


projetos do grupo e também ao seu desenvolvimento institucional.
Cabe ressaltar, na obra de Pontes, a produção de listagens dos projetos GREM e
de suas respectivas produções e publicações acadêmicas, assim como a síntese das fases
GREM e das fases do Projeto Medos Corriqueiros a partir de quadros sinóticos de
esquemas conceituais, apresentados oportunamente pela autora no decorrer da sua
monografia. A autora verifica e situa o projeto GREM Medos Corriqueiros, um projeto
guarda-chuva, como estratégia central de organização das atividades do GREM.
Os medos corriqueiros, nesse sentido, sintetizam a Antropologia e a Sociologia
das Emoções do GREM e de Koury, seu pesquisador central e membro fundador.
Aponta para uma teoria da ação social intersubjetiva focada na análise da tensão, da
indeterminação, dos desencontros e dissensos, e da criatividade de atores sociais em
jogo comunicacional para o ajustar-se sempre às novas situações sociais.
Diferentemente do ator social habermasiano, que busca o consenso no discurso e
no agir comunicativo; do ator social parsoniano, que desempenha um status – papel
cristalizado em sistemas de ação; ou mesmo do ator social turneriano, que dramatiza da
sua posição o drama social culturalmente sincrônico; Pontes apresenta o esforço do
GREM em construir conceitualmente o ator social como dramatizador crítico e
reflexivo de seus papéis sociais, e como agente social criativo, que deve ser entendido
de uma ótica compreensiva weberiana, mas também conforme um esforço etnográfico
que situa seu ethos e sua visão de mundo (GEERTZ, 1978) enquanto self auto-
espelhado (COOLEY, 2017) partícipe da construção social e cultura do mim meadiano
(MEAD, 1934). Nesse sentido, Pontes conclui sua obra situando, também de forma
bastante didática, a forma como o GREM percebe a cidade de João Pessoa, isto é, como
o grupo de pesquisa vem organizando um mosaico científico sobre a cidade.
A cidade de João Pessoa, assim, aparece como sociabilidade urbana
caracterizada por uma cultura do medo, da banalização da violência e da evitação do
outro, tido como estranho e como ameaça; como sociabilidade urbana periférica e
pobre, em que a vida cotidiana era, e ainda em certa medida o é, organizada em redes
homofílicas, de compadrio, amizade, reconhecimento, lealdade e confiança no outro;
como sociabilidade urbana em processo de modernização conservadora, de modo que a
modernidade é sentida como desejo de individualidade e como ameaça às tradições e
conformações autoritárias e excludentes do espaço urbano, gerando, assim, sentimentos
de amor e ódio à cidade; como sociabilidade urbana caracterizada por disputas morais
em torno do pertencer à cidade e pelos medos corriqueiros, reais e imaginários, da falta
de fé, falta de confiança e receio de errar, e falta de segurança pessoal e receio de errar;
como memórias de uma sociabilidade urbana pessoalizada, pacata e provinciana, em
que a pobreza e a violência urbana eram contidas e controladas nos espaço periféricos
da cidade, tidas pela elite dominante como paisagem urbana; como exercício de uma
nova sensibilidade, pautada na privatização das emoções, no individualismo, na
melancolia e nos medos corriqueiros supracitados, de modo que o morador da cidade
cada vez mais dificilmente se reconhece na cidade, e no outro relacional, como uma
extensão de si mesmo, mas quase sempre se percebe a partir de situações de
estranhamento do outro e de constrangimento de si. Em síntese, Pontes conseguiu
realizar com esta obra a análise institucional do GREM e do olhar do GREM sobre a
cidade de João Pessoal, tal como se propôs quando pretendeu desenvolver uma pesquisa
estado de arte da memória institucional do GREM, compondo um quadro do mosaico
científico e dos mapas simbólicos do grupo sobre a cidade de João Pessoa. A obra é de
grande relevância, ainda, por apontar de forma didática um rico caminho para a
produção de pesquisa sobre o fazer acadêmico de grupos acadêmicos de pesquisa, de

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modo que se possa melhor consolidar a trajetória teórico-metodológica e temática de


linhagens e escolas de pensamento antropológico e sociológico no Brasil.
Raoni Borges Barbosa (GREM-UFPB / PPGA-UFPE)

Referências
BECKER, Howard. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: HUCITEC,
1993.
COOLEY, Charles Horton. O self social: o significado do EU. Revista Brasileira de
Sociologia da Emoção, v.16, n. 47, p. 173-192, 2017.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Medos Corriqueiros: A construção social da
semelhança e da dessemelhança entre os habitantes urbanos das cidades brasileiras na
contemporaneidade. Projeto de Pesquisa, GREM: João Pessoa, 16p.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Etnografias urbanas sobre pertença e medos na
cidade: Estudos em Antropologia das Emoções. Coleção Cadernos do GREM N° 11.
Editora Bagaço: Recife; Edições do GREM: João Pessoa, 2017.
MEAD, George Herbert. Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press,
1934.

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