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2.

º LIVRO GRÁTIS ABRE-TE ComooMPconfrontouZeinalBava


CÉREBRO! MAIS 96 PÁGINAS TODOOINTERROGATÓRIO
DE QUEBRA-CABEÇAS AOEX-PRESIDENTEDAPT

GRÁTIS
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FASCÍCUL
DA LAGOA
DE ST.ºANDRÉ
A SAGRES
www.sabado.pt N.º 691 – SEMANAL – 27 DE JULHO A 2 DE AGOSTO DE 2017 – €3,20 (CONT.)

ALGARVE
LONGE DAS
MULTIDÕES
Lagoas silenciosas, praias com espaço,
rios calmos, paisagens belas. Refúgios
que se mantêm quase intactos mesmo
nos meses da invasão de turistas

PedrodeAlmeida, 72 anos
Vida e negócios do homem
que quer a Comporta
Sumário 27 JULHO 2017
www.sabado.pt

Entrevista
Sociedade
CathrynRamin Ela tem a solução para as dores nas costas 30

Destaque
Algarve Três oásis longe do turismo de massas 34
Crónica Nuno Júdice escreve sobre o Barlavento 40
Descanso Santa Luzia e as ilhas da ria Formosa 42
Crónica Leonor Pinhão escreve sobre o Sotavento 48

Portugal

FOTOS GONÇALO F. SANTOS


76
Exclusivo O interrogatório a Zeinal Bava no caso Sócrates 51
Pedrógão Dinheiro não chegou ao fundo de reconstrução 58

DESDE A DÉCADA DE 70, O QUE MUDOU Nuclear Preso por exportar material proibido para o Irão 60
História O Verão Quente de 75 visto pela CIA 64
NOS NADADORES-SALVADORES
Mundo
Albino salvava os veraneantes, em Santa Cruz, com uma corda. André Iraque O novo dia-a-dia em Mossul 68
usa um cinto no Guincho. Histórias de quem passa a vida na praia
Dinheiro
Perfil Pedro de Almeida, o novo dono da Comporta 72
Destaque GPS Sociedade

34 Verão pede vinhos frescos


A nossa selecção (e de dois
Reportagem O que mudou na vida dos nadadores-salvadores
Criatividade A fórmula de sucesso inclui sestas e passeios
Turismo À boleia da digressão dos urban sketchers
76
82
84
sommeliers) de brancos, tintos,
rosés e espumantes. E ainda: Saúde A amoxicilina sabe a chiclete e as crianças adoram 87
entrevista a Família
Ahmad Ja- Livro Confissões de um mimado que não sabia fazer nada 88
mal e os
O ALGARVE QUE regressos Social
de Luc Moda Os sete estilistas que desenharam para a Dior 90
ESCAPA ÀS MASSAS
Besson
Desporto
Odeceixe, Estômbar e Fóia no (cinema)
CarlaCouto Ela foi a primeira portuguesa a marcar a Inglaterra 92
Barlavento; Santa Luzia e as ilhas e Bolaño
da ria Formosa no Sotavento (livros) Opinião

Foto de capa: Getty Images

E mais...
José Nuno João
6 Bastidores 14 Ângela Marques 94 Rui Miguel Tovar
Pacheco Rogeiro Pereira
8 Editorial 21 Pedro Marta Santos 96 Do Leitor
Pereira 70 Coutinho
9 A Abrir 27 Octávio Ribeiro
16 98
12 Nuno Costa Santos 28 Obituário

www.sabado.pt

Saúde 20 A 26 DE
10 sinais de que está + LIDAS JULHO
stressado
01. VIDA EM ÁFRICA
O corpo envia sinais –
Aera dourada para osportu-
físicos e psicológicos – guesesantesda independência
que devem ser ouvidos.
Descubra quais
02. CHESTER BENNINGTON
Amortedovocalista dosLinkin
Park
Ar condicionado
O frio é prejudicial 03. CÃES E GATOS
A temperatura no local Venda deanimaisem montras
de trabalho é essencial Oclubedelutapara tem osdiascontados
para produzir bem órfãosnaChina

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Opinião 27 JULHO 2017
www.sabado.pt

B
BASTIDORES
Procurámos, através do
que os locais sabem, desco-
As dicas
briraquilo que, nestaaltura
do ano, é extremamente di-
dos locais
fícil: um Algarve que não poeta e professor Nuno Júdi-
esteja a abarrotar de pes-
soas. E conseguimos O ce nasceu na Mexilhoeira
Grande, Portimão. O jornalis-
ta Carlos Filipe tem mãe algarvia, de
Santa Luzia, e por lá andou sempre.
A jornalista Leonor Pinhão é lisboeta,
mas Cacela é há longos anos, para
ela, uma espécie de segunda terra.
Para Gonçalo Correia, que é bem
mais novo do que todos eles e tem
feito férias na zona de Portimão,
“mas sem sair muito dali”, é que o
trabalho de capa desta semana foi
mais uma descoberta – as dicas de
locais levaram-no a sítios de cuja
existência, em alguns casos, não sus-
peitava. A contrastar com a tranqui-
lidade dos lugares que ia descobrin-
do, foi uma aprendizagem acelera-
da, feita ao longo de muitas dezenas

FOTOS RICARDO PEREIRA


de quilómetros em dois dias e meio.
Isso incluiu andar largos quilómetros
de noite (ia a fotógrafa Marisa Car-
doso ao volante) com as luzes apa-
gadas, por distracção, ao pé de La-
gos, para desespero e muitos sinais
de faróis de outros condutores. E in- B g
cluiu um regresso à infância: há mui- Com fato e com equipamento Lis Watkins e
José Louro
tos anos, Gonçalo tinha ido com os Carla Couto prefere vestir-se de uma andaram sem-
pais ao restaurante O Charneco, em maneira mais informal, mas para a pre agarrados
Estômbar. Agora já não encontrou o SÁBADO aceitou posar de fato com- às aguarelas: até
no carro dese-
patriarca (é a filha que está aos co- pleto para um artigo sobre a selec- nharam Ricardo,
mandos), mas foi com satisfação que ção nacional feminina de futebol. António e
percebeu que o sítio está pratica- Com total disponibilidade, a ex-fute- Raquel
mente igual àquilo de que se lembra- bolista fez uma primeira parte da
va no que é essencial: a qualidade. sessão com bola (meio vazia, quei-
É do encontro entre descobertas re- xou-se) num parque ao pé de onde
centes, memórias e o que se sabe há mora, em Vialonga, e depois foi a
muitos anos que se faz o tema de capa casa, num instante, trocar de roupa.
desta semana, em que procurámos, Apareceu vestida a rigor com um
através do que sabem os locais, in- equipamento da selecção para posar
cluindo chefsque lá trabalham, desco- outra vez para a fotógrafa Raquel
brir aquilo que, nesta altura do ano, é Wise. Veja as fotos e leia a entrevista
extremamente difícil: um Algarve que nas páginas 92 a 94.
não esteja a abarrotar de pessoas. Mas
conseguimos: do Alto da Fóia às praias B
dailhade Tavira, de EstômbaraCacela, Desenhos
convidamo-lo a seguir-nos num per- Lis Watkins e José Louro, do projecto
curso onde a tranquilidade e o silêncio Urban Sketchers, desenham mesmo
continuam aimperar(às vezes, é preci- tudo: até a jornalista, o fotógrafo e o
B so dizê-lo, dentro do possível, e reque- motorista, no carro, a caminho da Ar-
Director Adjunto rendo um extrade paciêncianahorade rábida, uma reportagem para ler nas
João Carlos Silva encontrarumamesa, porexemplo). páginas 84 a 86. W

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Do director 27 JULHO 2017
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E
EDITORIAL com maior independência em rela-
ção ao PS e que este, por outro lado,
O mesmo Estado que há
quase 40 anos viu morrer
O Estado não ficasse refém de todas as agen-
das de BE e PCP. Se uns e outros fos-
um primeiro-ministro, sem
nunca ter apurado se foi
que nunca sem mais autênticos talvez a política
não estivesse transformada no pân-
atentado ou acidente,
não consegue agora
mais se tano em que está. O PCP, em parti-
cular, entra já numa dimensão de
guardar as armas do seu
Exército ou determinar
levantou anedotário político. Não há nada de
mal que aconteça no País cuja culpa
com precisão o número não seja da União Europeia e das po-
de mortos numa tragédia discussão bizantina sobre a líticas de direita impostas por Bruxe-

A lista de mortos do incêndio de


Pedrógão é uma poderosa
metáfora do estado a que chegou o
las. Cassete por cassete, a de Álvaro
Cunhal era muito melhor.

nosso Estado. O mesmo Estado que E


há quase 40 anos viu morrer um pri- O regime de Ricardo Salgado
meiro-ministro e um ministro da O ex-banqueiro foi brindado por
Defesa, sem nunca ter apurado com uma entrevista em dois jornais diá-
segurança se foi um acidente ou um rios que merece ficar nos anais da
atentado, não consegue agora guar- pouca vergonha. Os jornais que têm
dar as armas do seu Exército e nem como patrão o seu próprio advogado
sequer consegue determinar com – sem que as habituais carpideiras
precisão número de mortos numa das redes sociais rasguem as vestes
tragédia. – destacam as suas brilhantes expli-
Um Estado destes é sinónimo de cações para a queda do clã: a culpa
muitas coisas más: desperdiça os im- foi do governador do Banco de Por-
postos que os portugueses pagam, é tugal e de Passos Coelho, cujo gover-
permeável à corrupção, alberga ní- no não salvou a família Espírito San-
veis de incompetência inaceitáveis, to da desgraça.
não está habituado a prestar contas. Ricardo Salgado e os seus cúmpli-
É um Estado dominado por cliente- ces ainda não compreenderam que
las corporativas e políticas, que con- já não é possível tratar as pessoas e
ta com a óbvia cumplicidade dos as instituições com a soberba e a ar-
partidos e dos governos que o toma- rogância próprias de quem mandava
ram de assalto e espalharam as res- em tudo. Como se vê nesta edição,
pectivas fidelidades por todo o lado, em mais um notável trabalho do jor-
incluindo as delicadas áreas onde nalista António José Vilela, Salgado
classicamente se exerce o chamado era o alfa e o ómega de uma casta de
poder do Estado, como a Justiça, Ad- gestores como Zeinal Bava e Henri-
ministração Interna, Defesa e Negó- que Granadeiro, punha e dispunha
cios Estrangeiros. Os critérios de de ministros e empresários, construía
lealdade e confiança, essenciais para maiorias societárias em empresas
o exercício de cargos públicos, como a PT na base do puro tráfico de
confundem-se hoje com vassalagem influências. Esse foi um mundo que
e compadrio perante a complacên- ruiu em 2014 e das poucas coisas que
cia geral, resvalando esta para uma tanto Carlos Costa como Passos Coe-
cumplicidade insalubre no actual lho fizeram bem foi não ser coniven-
quadro da maioria parlamentar. tes com essa podridão que minou os
Não se negam vantagens a algu- alicerces do Estado português. O di-
mas das mudanças operadas pela nheiro que vai para a banca falida
geringonça após a passagem trau- não vai para o Serviço Nacional de
mática da troika e um governo que Saúde, para a Educação, para a pre-
revelou um inaceitável fanatismo venção e o combate a incêndios ou
ideológico em relação à austeridade. mesmo para combater o crime. Sim,
Mas isso já lá vai. Agora, seria muito porque Salgado e os seus amigos
E mais saudável para a vida pública e gostam do Estado. Mas só quando é
Director política se as forças mais à esquerda grande e vampirizável através de ne-
Eduardo Dâmaso cumprissem a função parlamentar gócios como o SIRESP. W

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27 JULHO 2017
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Asemana
A POLÉMICA
A “VIOLENTA” EXUMAÇÃO
DE SALVADOR DALÍ
Depois da extracção de ossos, dentes e unhas do artista, a Fundação Dalí diz que a ordem judicial é “um erro”

ESPANHA de Dalí, no Teatro-Museu Dalí, em rou cerca de hora e meia.


“Um acto de violência”, “improce- Figueras, na Catalunha, onde nas- Depois de analisados pelo Insti-
dente”, “sem fundamento” e um ceram tanto o artista como a sua tuto Nacional de Toxicologia de
“erro judicial” é como os respon- suposta filha. Depois de levanta- Madrid, tutelada pelo Ministério
sáveis da Fundação Gala Salvador rem a lápide de 1,5 toneladas, com da Justiça, a fundação, que gere o
Dalí classificam, em comunicado, uma grua, foram extraídas amos- legado do pintor em nome do Es-
a polémica exumação do corpo tras de ossos, dentes, unhas e tado, exige a devolução dos restos
do pintor espanhol, que ocorreu cabelo – um processo que demo- de Dalí para que o corpo conserve
no passado dia 20, quase 30 a sua integridade.
anos depois da sua morte. Os Ao longo da história, houve
restos mortais foram exu- muitos mais mortos que
mados por ordem de um não descansaram em paz.
tribunal de Madrid para Reza a lenda que no sé-
um exame de determi- culo XIV, D. Pedro I de
nação de paternidade, Portugal desenterrou D.
reclamada por Pilar Inês de Castro, a sua
Abel Martínez, uma amante que foi assassi-
vidente de 61 anos, nada, e sentou-a no
que assegura ser trono, que não chegou
filha do génio do a ocupar em vida, para
surrealismo. uma cerimónia de
Apenas 13 pessoas beija-mão.
– a quem foram re- A Igreja Católica, no
tirados telemóveis tempo da Inquisição,
para que ninguém tinha o hábito de de-
pudesse fotografar senterrar quem tivesse
– estiveram na sala escapado da fogueira
onde está sepultado para lhes queimar os ossos.
o corpo embalsamado Sónia Bento

GETTYIMAGES
AHISTÓRIA

Outras personalidades cujos cadáveres não descansaram em paz...


Quando o corpo de Dois meses depois de Em 2006, 220 anos
Napoleão Bonaparte ter morrido, a 25 de depois da morte do
chegou a França, em Dezembro de 1977, o famoso cantor de
1841 – 20 anos após a corpo de Charlie Cha- ópera italiano Carlo
sua morte, na ilha de plin foi roubado. Os Broschi, conhecido
Santa Helena – foi au- ladrões pediam um como Farinelli, os
topsiado. O pénis do im- resgate de €600 mil à seus restos mortais
perador desapareceu. viúva do comediante foram exumados. O
Em 1927, surgiu numa britânico, mas foram resultado foi descon-
exposição, em Nova apanhados ao fim de certante: Farinelli era
Iorque. Media 3,8 cm. cinco semanas. uma mulher.

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27 JULHO 2017
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SÓNIA BENTO

A ENTREVISTA RenatoLeite
OdirectordaGlobalBlue, amaioropera-
doradomundodetax free (permiteaos
O que tem atraído os norte-americanos a Portugal?
Tem a ver com o facto de Portugal estar a ser bem promovi-
do como destino turístico – pelo bom clima e boa gastrono-
mia – e com a criação de rotas directas de Boston e Nova
turistasextracomunitáriosfazercompras Iorque para Lisboa e Porto. Os EUA são um mercado que
com reembolsodoIVA), revelaquaissão nos últimos dois anos, e sobretudo em 2016, apresentou ta-
osestrangeirosquemaiscompram em xas de crescimento acima de 50%.
Portugal, ondeofazem eoquepreferem

Quais são as marcas portuguesas favoritas dos turistas?


A Boutique dos Relógios é uma das mais procuradas, assim como
a Perfumes & Companhia, a Fashion Clinic e a Worten.

De onde vêm os principais globeshoppers


de artigos de luxo em Portugal?
Os maiores compradores de tax free em Por-
tugal vêm de Angola – que continua com O que é que os angolanos
destacada liderança, com 36% do mercado –, compram?
Brasil, China, EUA e Moçambique. Em 2016, A procura é diversificada: tanto
houve uma alteração no top 5: entraram os compram na Primark ou na
EUA e Moçambique e saiu a Rússia. Zara, como na Louis Vuitton.
Ou seja, compram o barato e o
caro, mas o luxo tem mais
preponderância.

Quais são os turistas com mais


potencial de crescimento?
Os chineses, que são os que mais
compram e gostam do produto ca-
racterístico made in Portugal. Ape-
sar de em 2016 ter havido um au-
mento de 19% destes turistas em
Portugal, ainda não é um número
expressivo – são cerca de 183 mil.
Qual é a marca de luxo pre-
ferida dos globeshoppers?
A Louis Vuitton. Em Portugal
e em qualquer outro país.

Qual é o local mais procurado para compras em Lisboa?


A Avenida da Liberdade, depois o Colombo e o Freeport. A cidade do
Porto também tem crescido, com a abertura de marcas de luxo.

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27 JULHO 2017
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O marginal ameno

A PIRATARIA
O ANO A GuerradosTronos: 90
milhões de downloads

2030
A série da TV é a mais pirateada do
mundo. O primeiro episódio da sé-
tima temporada, que estreou a 16
O de Julho, foi alvo de 90 milhões de
Nuno Costa Santos downloads. Por países, os EUA do-
Escritor
A ALTURA EM QUE PORTUGAL minam (15,1 milhões), seguindo-se
Reino Unido (6,2 milhões), Alema-
Estamos a tratar PRETENDE ACABAR COM A SIDA nha (4,9) e Índia e Indonésia (4,3).
do assunto?
O ambiente político e me-
diático ainda está concen-
trado em Pedrógão Grande.
A SARDINHA
Porquê? Antes de mais, por
causa do Governo, que tem
gerido desastrosamente o
caso. Há relatos, publicados,
de pessoas que tudo perderam
e ainda esperam um apoio
concreto, material, palpável,
não a resposta tão tuga do “es-
tamos a tratar do assunto”. Por
causa da crítica violenta da
oposição, justificada em boa
parte pela forma arrogante
como o Governo a tem tratado
desde o início, mas que traz
consigo algumas fragilidades
evidentes. A primeira é ter co-
meçado demasiado cedo,
quando havia pouca informa-
ção disponível, revelando-se
um ataque furioso e de ética
questionável. A segunda é es-
quecer que o desastre tem raiz
antiga, com múltiplos executi-
vos e parlamentares com cul-
pas no cartório. Querer vender
a ideia de que tudo começou
agora é não ser sério.
Em ambiente de gente politi-
zada à direita, cheguei a ques-
tionar algum do armamento
crítico usado após uma catás-
A CAMISOLA
trofe com um número de mor-
tos suficiente para preocupar Froome ganha sem ganhar
qualquer pessoa com decência. Em 104 edições da Volta a (2006). Froome limitou-se
Agora já não há compreensão França, é a sétima vez que a ser regular depois de con-
nem moderação possíveis. A isto acontece: ganhar a pro- quistar a amarela na 5ª
conversa do “estamos a tratar va sem vencer uma única etapa, na Alta Sabóia, na
do assunto” não basta e torna- etapa. O britânico Chris qual ficou em 3º, e ven-
se ofensiva. Se o Estado não Froome sucede assim a Fir- ceu o Tour pela quarta
ressarcir quem de direito com min Lambot (1922), Roger vez. À sua frente, com
eficácia e rapidez estará a ser o Walkowiak (1956), Gastone cinco triunfos, estão
incendiário de si próprio. W Nencini (1960), Lucien Ai- Jacques Anquetil, Eddy
mar (1966), Greg LeMond Merckx, Bernard Hi-
(1990) e Óscar Pereiro nault e Miguel Indurain.

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PT Empresas, uma marca do grupo

A REDE QUE É PARCEIRA PARA

P
PARCERIA

CRIAÇÃO
NEGÓCIOS

Há projetos e há projetos que, em parceria com a PT Empresas, saem do papel


e se tornam realidade. A PT Empresas é a rede que apoia os empreendedores
portugueses com um conjunto de soluções para a criação e para o crescimento
 
     
   

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27 JULHO 2017
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Bom gosto, mau feitio

A VACA
Qatar resolve a falta de leite OTALENTO
No início de Junho, o chegam de países
Qatar foi alvo de um como Hungria, EUA, Desde 2001, a
bloqueio por parte de Austrália e Holanda. percentagem de
quatro países vizi- chineses que
nhos, que acusaram o
O emirado de apoiar
estudaram no
Ângela Marques grupos extremistas e estrangeiro e
Jornalista
terroristas. Um dos voltaram a casa
problemas criados foi subiu de 15% para
Os campeões a falta de leite fresco,
da pré-época que era importado da
80%. O plano Mil
Arábia Saudita. Para Talentos quer
Quando o dérbi da maré baixa co- acabar com essa si- reverterafugade
meçoueunãoconseguiaverbalizas tuação, um grupo cérebros e ajudar
aocampomas játinhao meu lugarna de empresas do Qatar
central. Num sistema táctico de 1-1- decidiu agora impor-
ao crescimento
-logo-se-vê, aequipados miúdos en- tar 4 mil vacas, que económico.
frentavaos experientes “tio Arnaldo” e
“pai, é falta, pai”. Com dois avançados,
zero defesas e muita manha, os mais
velhos apontavam àgoleada.
Enquanto recebia o troco da bola-
A DROGA
-de-berlim, vi o primeiro golo. A Canábis vendida em farmácias
bola bateu no montinho de areia e O governo uruguaio tor- no Instituto de Controlo de
conquilhas antes de entrar e, acto nou-se o único do mundo Canábis. Cada um deles
contínuo, um dos miúdos correu a plantar, produzir e ven- pode comprar no máximo
atrás do esférico que já corria para der marijuana (uma deci- cinco gramas, no valor de
o mar. Tio Arnaldo 1, Sport Clube são que pretende comba- 187 pesos (6 euros). Estão
Ingenuidade zero. ter o narcotráfico). A medi- ainda registados 6.929 cul-
De drible adolescente, o Afonso e da entrou em vigor a 19 de tivadores (podem ter seis
o primo faziam o que podiam – re- Julho, em apenas 16 farmá- plantas) e 63 clubes (onde
clamavam de cada toque como se cias, e abarca 4.959 cida- cada membro pode consu-
do outro lado estivessem caceteiros dãos uruguaios registados mir 480 gramas por ano).
e alegavam irregularidades a cada
golo sofrido. Os mais velhos sor-
A CIRURGIA

Americanos são os
riam, puxavam dos galões da anti-
guidade e aumentavam a diferença.
Em três jogadas bem conseguidas,
O NÚMERO campeões das plásticas
Os EUA registaram 4.042.610 ci-
contudo, os miúdos empataram.
Numa jogada de mestres, pediram
que o golo seguinte decidisse os
vencedores. Decidiu: o primo do
Afonso fintou o pai, pôs a bola no
Afonso, este rematou do meio da
praia e marcou. Com a cara a en-
675,5
MILHÕES DE EUROS GASTOS POR
PORTUGAL NA IMPORTAÇÃO DE
rurgias plásticas em 2015, o
maior número a nível mundial.
Essas operações levaram a in-
vestir 13,7 mil milhões de euros,
quase tanto como o PIB da Islân-
dia. Em 2º lugar surge o Brasil
(2.324.245 cirurgias), seguindo-se
cher-se de espanto e o peito a en- FRUTA, CITRINOS E MELÕES, EM 2016 a Coreia do Sul (1.156.234).
cher-se de ar, o Afonso correu para
o mar de braços abertos, devolven-
do para terra o grito dos campeões.
Da toalha, vi tudo: a alegria do
miúdo vinha da surpresa de ganhar.
O RESISTENTE
O bicho que aguenta com um asteróide
Ele ganhara ao pai e ao tio, futebo-
listas de tantos Verões, donos da Não medem mais de 0,5 mi- asteróide como o que aca-
bola, heróis. Ele não contava com límetros, mas são os animais bou com os dinossauros. Um
aquilo porque não sabe que a pré- mais resistentes do mundo. estudo feito por um grupo
-época dele já acabou. Agora pode Os tardígrados, ou ursos de de astrofísicos, e publicado
jogar de igual para igual e ganhar. W água, podem sobreviver a na revista Scientific Reports,
272 graus negativos, supor- concluiu que só a morte do
tar 1.200 atmosferas e até um sol acabaria com eles.

14
www.edp.pt

ANÚNCIO AOS INVESTIDORES


DA EDP RENOVÁVEIS
EDP lança Oferta Pública geral e voluntária de Aquisição
sobre o capital da EDP Renováveis

PRAZO LIMITE PARA ACEITAÇÃO DA OFERTA


Os accionistas da EDP Renováveis poderão vender as suas
acções na Oferta até às 15h00 do dia 3 de Agosto de 2017

TERMOS DA OFERTA
• Objecto: Todas as acções da EDP Renováveis não detidas pela EDP
– Energias de Portugal, S.A.
• Preço por acção: €6,75 em numerário (€6,80 no dia do anúncio preliminar
da Oferta já deduzido do dividendo de €0,05 por acção disponibilizado
para pagamento pela EDP Renováveis no dia 8 de Maio de 2017)
• A liquidação da Oferta deverá ocorrer no dia 8 de Agosto de 2017
• A EDP admite requerer a exclusão de negociação das acções da EDP
Renováveis do mercado Euronext Lisbon by Euronext Lisbon caso a EDP
venha a deter, em resultado da Oferta, mais de 90% dos direitos de
voto da EDP Renováveis

Consulte o seu banco para mais informações e para dar as suas ordens de venda.
Não dispensa a consulta do prospecto e da demais documentação da Oferta, disponíveis em
www.cmvm.pt e www.edp.pt
Opinião

O
ALAGARTIXA Sem futebol, o espaço que é preci-
so encher nas televisões é um drama.
E O JACARÉ A época tola Sem parlamento e com os políticos a
banhos, não há política, as fontes es-
Sem futebol, o espaço que é tão a secar ao sol. Sem tragédias, es-
preciso encher nas televi- Lá vamos entrar mais uma vez na pera-se, o exercício da masturbação
sões é um drama. Sem par- silly season, a época tola, ou melhor da dor, a que se entrega ardorosa-
lamento e com os políticos a a época mais tola na sequência de mente a comunicação social até ao
banhos, não há política, as muitas outras épocas tolas. E o me- espasmo final, fica penoso.
fontes estão a secar ao sol. lhor da época tola é a parte que não A estação tola tem pelo menos um
Sem tragédias, espera-se, o esconde o que é: o Quim Barreiros, a mérito, que é mostrar a vacuidade
exercício da masturbação Rosinha, a Ruth Marlene, e os múlti- que existe todo o ano e que fica dis-
da dor, a que se entrega ar- plos clones de cada um deles. Aquilo farçada. W
dorosamente a comunica- ainda é Portugal, a manha campo-
ção social até ao espasmo nesa, a lascívia rural e do subúrbio, a
final, ficapenoso grosseria e o plebeísmo, a graça do O
trocadilho fácil, a juventude da cer-
veja, uma certa boçalidade e bruta-
lidade, aquilo ainda é nosso, porque
Elogio
Portugal ainda é muito assim. Isso
suporta-se razoavelmente e o título
das eleições
destas crónicas veio da habitual re-
ciclagem anual na música pimba,
autárquicas
com o refrão de “quem nasceu para Eu tenho respeito pelas eleições au-
lagartixa nunca chega a jacaré”. tárquicas, tidas por muita gente
Pode merecer uma reflexão sobre o como eleições secundárias em que
que ainda somos, nós e muitos ou- participam uns grunhos que fazem
tros europeus que vêm para o Algar- cartazes a que chamam “tesourinhos
ve, ou Torremolinos, mas não mere- deprimentes”. São as mais democrá-
ce desdém. ticas das eleições, em que participam
Mas o que é insuportável é a silly como candidatos dezenas de milha-
season comunicacional, feita da res de portugueses, muitos dos quais
mais completa falta de imaginação, têm aqui a sua única experiência
os mesmos inquéritos, as mesmas
imagens das praias, a procura dos
famosos em fato-de-banho, as equi-
pas cor-de-rosa atrás dos amores de
Verão, “assumidos” e não “assumi-
dos”, a moda da comida e dos res-
taurantes, o reino das fotos no Insta-
gram e no Facebook , as opiniões e
os comentários raivosos que nunca
vão para férias parecem explodir de
intensidade no Verão. Pensam que
descansam? Engano, a época tola faz
imenso mal à cabeça e a cabeça nos
mamíferos superiores ainda manda
um pouco no corpo. Um pouco, no
Verão menos.

O
Professor
José Pacheco Pereira SUSANA VILLAR

16
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

pessoal e subjectiva da vida demo- nuínos candidatos à margem do sis- O


crática. Tem todos os defeitos das tema partidário. Seja como for, há
outras eleições, clubite, partidarite,
compadrio, corrupção, tráfico de in-
um movimento mais profundo e di-
nâmico de representação, que per-
Trump
fluências, promoção de incompeten-
tes e carreiristas, falta de imaginação,
mite ao eleitor escolher quem quer
com mais liberdade do que nas listas
e o tradutor
mas só o número de pessoas envol-
vidas já mostra o seu mérito. E de-
legislativas fechadas à participação
independente, e com os lugares de
da Google
pois, são muito menos controladas eleição segura já definidos. Isto signi- …estão feitos um para o outro. O
pelos aparelhos partidários dos gran- fica que de eleição para eleição há @realDonaldTrump enviou mais
des partidos que estão todos, PS e cada vez mais listas e mais “produ- uma série de tweets enfurecidos
PSD, dominados por oligarquias. tos” eleitorais, cartazes, programas, com os alvos habituais. Aqui vai um
Candidatos mudam de partido de panfletos, contrariando a escassez exemplo:
uma para outra eleição, ou concor- cada vez maior do discurso político
rem como independentes se o parti- nas legislativas que não seja de puro “It’s very sad thatRepublicans, even
do não os quis candidatar, ou são ge- marketing. W some thatwere carried overthe line
on my back, do very little to protect
theirPresident.”

É muito triste que os republicanos,


mesmo alguns que foram levados
pela linha das minhas costas, fazem
muito pouco para proteger seu pre-
sidente.

Mais:
Os republicanos, de facto, já mostra-
ram que não têm vergonha nenhuma
e deixam-se, assim, humilhar. Salvo
uma ou duas excepções, e uma delas
é McCain que está bastante doente,
engolem estes insultos e pressões e
vão lá a correr dar-lhe o que ele quer.
Até agora ainda não correram bas-
tante, mas quanto mais Trump se es-
força para os humilhar, mais correm.
Não, este não é o Partido Republicano
de Reagan nem de Bush, é o Partido
Republicano que foi quebrado na sua
“linha de costas” pelo Tea Party e que
Trump tomou de assalto. W

17
Asemana

AS FRASES F
Ricardo Salgado, banqueiro, Dinheiro Vivo/DN
“Na primeira vezque foram a minha casa vinham
à procura dos iates, em Monte Carlo. Não há iates,
nunca houve. Ah, e não há castelos na Escócia, também
foi outra coisa que disseram que eu tinha”

F F F
José Soeiro André Ventura Katherine Waterston
“O governo pode e deve intervir “Sem mais PSP, farei um Actriz, uma das protagonistas
de Alien: Covenant,
para travar este comportamento exército com a polícia municipal” The Guardian
abutre da Altice” Candidato do PSD à Câmara
Deputado do Bloco de Esquerda, ARTV de Loures, Sol “Vivemos numa
época hiper-
F F sexualizada
Luís Marques Mendes
Guilherme d’Oliveira Martins mas de grande
“A intervenção do Estado numa “Quem tem de aplicar as leis
empresa privada restringe-se ao são as autoridades e quem puritanismo”
cumprimento das leis” prevarica, evidentemente,
Secretário de Estado das Infra-estruturas, tem de ser punido, seja cigano,
ARTV seja muçulmano, seja um
português qualquer normal”

GETTYIMAGES
Comentador, ex-líder do PSD, SIC
F
Adão Silva
“Foram vocês, socialistas, que
usaram e abusaram de todos nós, F F
em actos de marialvismo Dane DeHaan Ildefonso Falcones
económico que hoje estamos “Quando vesti o fato especial pela “Hoje, não se aceita que um filho
todos a pagar, que desbarataram primeira vez senti-me um herói. morra e a mãe não sofra”
Quando acendi as luzes foi ainda Escritor, autor do bestseller A Catedral
uma empresa num caldo de do Mar, Diário de Notícias
negócios obscuros” mais especial”
Deputado do PSD, ARTV Actor de Valerian, msn.com
F
F William Oldroyd
Nuno Miranda “Talvez as mulheres do século XIX
“Morre-se mal em Portugal. Os não fossem assim tão diferentes
hospitais estão mal preparados das de hoje”
Realizador do filme Lady Macbeth, i
para a fase final”
Médico do IPO de Lisboa, Diário de Notícias
F
F Simone de Oliveira
“Hoje é mais aflitivo eu andar
Miguel Esteves Cardoso
na rua do que era nessa altura
“Passeando de carro por Lisboa [anos 70], por muito estranho que
divirto-me a brincar com a Maria pareça. Às vezes, só de burca”
João ao ‘onde está o lisboeta?’ Cantora, i
São tantos os turistas que é
difícil encontrar figuras
estereotipicamente alfacinhas” F
Cronista e escritor, Público Ney Matogrosso
“Que gay o caralho. Eu sou
um ser humano”
Cantor, Folha de São Paulo
D.R.

20
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

O moralista
F F
Amy Schumer, actriz, Wayne Shorter
The David Letterman Show “Para mim, nem a Nona
Sinfonia de Beethoven
“A minha mãe está terminada”
dá-me péssimos Saxofonista, El País
O
conselhos. F Pedro Marta Santos
Jornalista e argumentista
Mariana Pacheco
Parecem frases “Gosto muito pouco de redes Os louros de César
tiradas de sociais”
Actriz, BI
Ementrevistanopassadosábado
autocolantes. ao Expresso, Carlos César, o me-
lhorservidorda causa pública que
F
Depois de me Maya
este País já conheceu, recusou-se a
comentar os cargos por nomeação
separar “Precisei de me casar ou eleição políticade metade dapo-
várias vezes para pulação açoriana, perdão, de 73,5%
disse-me: perceber que o dasuafamília. “Paramim, o assunto
casamento não era
‘Ama para mim”
está encerrado”, respondeu na cos-
tumeiraprobidade institucional.
como se Taróloga e apresentadora,
TV Guia
Para mim também, não fosse a
coincidênciade terjantado, hácoisa
nunca te de 15 dias, em frente ao presidente
F do PS no balcão do Galeto, o restau-
tivessem Jordi Mestre rante lisboeta de tradição familiar
magoado!’ “Neymar não vai sair este
Verão. Posso garanti-lo
quase tão remotaquanto ade César.
Como o balcão do Galeto dá para
Ou então é: a 200 por cento”
Vice-presidente do Barcelona,
umas boas dezenas de clientes,
lembro-me de me ter posto a pen-
‘Dança como a negar uma suposta oferta
de 222 milhões do PSG pelo
sar na beleza democrática que seria
ver todas essas cadeiras ocupadas
se ninguém jogador, El País
pela família de César, exemplo de
estivesse F
dedicação ao Estado e à felicidade
das populações.
a ver!’” Ricardinho
“Foi lamentável ter sido
De uma Ponta Delgada à outra, o
balcão seria como uma tela viva da
ameaçado no hotel por alegria lusitana, um Malhoa com
adeptos do Sporting, horas pronúncia de Nemésio, feito de
antes da final [da UEFA], brindes à militância cívica entre a
para tentarem intimidar-me” mulher Luísa, ex-líder da missão
Jogador de futsal da equipa para a Casa da Autonomia, o filho
espanhola Inter Movistar, i
Francisco, deputado regional, a
nora Rafaela, chefe de gabinete da
F secretária regional adjunta para os
Octávio Machado Assuntos da Presidência, o irmão
“Bruno de Carvalho Horácio, ex-assessor de Jaime
tem ciúmes do que ganham Gama e ex-adjunto de João Soares,
os jogadores” a sobrinha Inês, técnica da empresa
Ex-director do Sporting, CMTV municipal Gebalis e ex-assessora
da gestão socialista da Junta de
F Freguesia de Alcântara, com Carlos
Bruno de Carvalho ao centro, o sorriso de gato de
“O Octávio foi a terceira escolha” Cheshire emoldurado pela Grã-
Presidente do Sporting, Sporting TV Cruz da Ordem Militar de Cristo
que recebeu em 2013. Desfeita a
GETTYIMAGES

festa, por favor, deixem-no traba-


lhar, que a Nação precisa. W

21
A FOTOGRAFIA

Predadores também na água


Um jaguar persegue um peixe num aquário do Jardim Zoológico de
Pessac, nos arredores de Bordéus, na quinta-feira, dia 20. Dois jovens
felinos, chamados Catalina e Mato, com dois e um ano, respectivamente,
são as novidades do zoo e o seu habitatartificial inclui uma piscina com
cerca de 100 metros cúbicos onde os visitantes podem ver como as suas
capacidades predatórias não ficam diminuídas num ambiente aquático.
FOTO MEHDI FEDOUACH/AFP/GETTY IMGES
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27 JULHO 2017
Asemana www.sabado.pt

DINA ARSÉNIO

INSÓLITO !

Gato de 14 kg faz sucesso


Quando o sr. Bonito – como foi apelidado – chegou
ao abrigo de animais de Chatham County, em Pitts-
boro, nos Estados Unidos, os funcionários não acre-
ditaram que pudesse ter sido abandonado. Razão:
pesava 14 kg. Para tentar encontrar o dono partilha-
ram uma foto do animal no Facebook – que acu-
mulou mais de 14 mil partilhas e 3 milhões de gos-
tos. Fez tanto sucesso que os internautas até pensa-
ram que a imagem tivesse sido editada.

! ! !
Morto reencarna Salsichasnotelhado UM FÃ DA SÉRIE GUERRA DOSTRO-
num bezerro Em Deerfield Beach, na Flórida
NOS, JIM HAMPSHIRE, VESTIU-
Todos os dias, cerca de (EUA), uma família acordou às
100 pessoas visitam 4h da manhã com barulho. Di- -SE A RIGOR COMO WHITE
um bezerro em Kratie, rigiram-se ao exterior da casa e WALKER, UMA PERSONA-
no Camboja. Khim encontraram dois pacotes de GEM MALÉFICA, NA ABER-
Hang, de 74 anos, salsichas de porco italianas.
acredita que o animal Mas havia mais: no telhado es-
TURA DO FESTIVAL COMIC
seja a reencarnação do tavam três pacotes de salsichas. CON, EM SAN DIEGO, EUA.
marido. “Ele faz tudo Ao todo, eram 15 kg – da marca VÁRIAS PESSOAS JUNTAM-
exactamente igual ao William Land Service, uma em- -SE NO EVENTO IMITANDO AS
que o meu marido presa em Alabama. É um mis-
fazia”, conta. tério como ali apareceram.
SUAS PERSONAGENS PREFERIDAS.

! !
€857.000 Destroem carro da mãe Mulhertraídapõe
Walter Fisher, de 36 anos, Um miúdo de 5 anos conduziu o pimentanavagina
jogador profissional de carro da mãe, com o irmão de 2
póquer, pesava mais de 110 anos ao lado. Queriam chegar a ca- 1. Grávida, Ly Chanel, de
quilos. Os colegas desafia- sa dos avós, mas despistaram-se. 23 anos, descobriu que o
ram-no para reduzir em marido, Chien Keo, de 24,
10% a gordura corporal – estava a ter um caso com
em apenas seis meses. A ! outra num motel de Thai
aposta inicial era de 515 mil Marijuana para limpar ruas Nguyen, no Vietname.
! euros, mas depressa subiu Um empresário de drogas medicinais 2. Furiosa, decidiu vin-
Homem cai no lixo para 857 mil euros. Walter criou o programa do “dia da limpeza”: gar-se. Introduziu, com lu-
Os bombeiros de Wa- conseguiu e perdeu mesmo oferece, por cada saco de lixo, marijua- vas de látex, malaguetas
shington DC, nos EUA, 30 quilos. na – que é legal em Maine (EUA). no interior da vagina da
receberam uma chamada amante com a ajuda de
de um homem que se en- mais três amigas, que a
contrava dentro da calha ! agarraram.
de lixo do prédio onde Concurso para avós em biquíni 3. As imagens da tortura
mora. O incidente ocor- Na cidade de Tianjin, na China, realizou-se o terceiro foram publicadas online e
reu quando o homem concurso anual Grandbikini, que juntou mais de 400 geraram indignação junto
deitou acidentalmente o mulheres, com idade superior a 55 anos. Apresenta- dos internautas. Porém,
seu telémovel juntamente ram-se em biquíni e fato-de-banho e foram avaliadas até ao momento não foi
com o lixo. Ao inclinar-se pela presença em palco, sorriso e gestos. A partici- apresentada nenhuma
para o procurar, caiu. pante mais velha, Ma Jin, tem 78 anos. queixa na polícia.

24
FOR THE SERIOUS TRAVELLER

Yanin,
Fashion Blogger

LISBOA - Avenida da Liberdade LEVE E ROBUSTA, VERDADEIRAMENTE.


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Asemana

INDISCRETOS

O CARTOON
A incrível pele
do doutor Coelho
k de Manuel Pinto Coelho e acabou
“REI DAS HORMONAS” impressionada com o aspecto do
O diário britânico Daily Mail apre- médico de 69 anos: “Bronzeado de
sentou-o como “guru do antienve- mogno, pele elástica, olhos bri-
lhecimento” na reportagem de três lhantes, relógio enorme e as mãos
páginas baseada na experiência mais bem tratadas que já vi.” E
pessoal de Jane Fryer. A jornalista mais uma coisa: realça a “impossi-
de 48 anos fez um tratamento hor- bly smooth skin” – pele impossi-
monal de uma semana na clínica velmente lisa.

k
Presidente de volta
e uma velha paixão
“O presidente está de tazes. Mas não nos
volta.” É este o lema equivoquemos: o ca-
sob o qual Valentim rismático ex-presiden-
Loureiro regressa aos te da Liga de Clubes k k
combates autárquicos,
24 anos depois da sua
mantém a velha fixa-
ção por outras tonali-
Com o Algarve Um indicativo
primeira vez. O antigo dades. Basta, aliás, re-
cheio de políti- inadequado
autarca de Gondomar parar no nome que es- cos, muitos “Por uma Lisboa onde se pode cir-
já tem página no Face- colheu para a candida- artistas prefe- cular” – reza um cartaz da candi-
book e adoptou o ver- tura em 2017: “Valen- rem o Alentejo. data do PSD a Lisboa.
de (da esperança?) tim Loureiro – Cora- Há dias, Tim, Não seria melhor “Por
para o fundo dos car- ção de Ouro”. uma Lisboa onde se
dos Xutos, mui- possa circular”? Afinal,
to discreto, o indicativo, diz o
saboreava uns prontuário, “apre-
percebes no senta a acção ou
estado como
Rocamar, para real”. E o con-
os lados do juntivo “apre-
cabo Sardão. senta a acção
ou estado como
possibilidade”.

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27 JULHO 2017
www.sabado.pt

Sobe&Desce

Octávio Ribeiro
Jornalista

g
Nádia Piazza
Mãe do Luís, de cinco anos
A morte do fi-
lho é dor conti-
da pela causa
que está a abra-
çar. Breve sota-
que brasileiro,
olhos profundos,
macerados, pa-
lavra justa, pode
tornar-se um símbolo da re-
volta dos cidadãos contra a
opacidade e insensibilidade
do Estado após a tragédia
de Pedrógão Grande. E pode
apontar-nos a todos o indi-
cador. Depois das mortes de
dezenas de concidadãos te-
mos o dever de exigir me-
lhores respostas aos eleitos.

i
António Costa
Primeiro-ministro
À deriva com
os seus dois cal-
canhares de
k k Aquiles quebra-
Mota in, Júlio Galhofa dos. Está um lí-
der frágil a vo-
out(para já) na Caparica gar nas ondas
José Lopes da Mota, o ex-repre- Na passada terça-feira, a sem rumo. A
sentante português na Eurojust, secretária-geral adjunta dos economia sus-
foi o procurador mais bem clas- socialistas e coordenadora tenta-o à tona? Sim. Mas o
sificado no concurso de acesso autárquica, Ana Catarina resto mostra-se mau de mais
ao Supremo Tribunal de Justiça Mendes, e um grupo de cole- para ser verdade. Verdade, a
(STJ) e vai ocupar uma das pri- gas parlamentares almoça- palavra-chave. Costa está a
meiras vagas de juiz do STJ. Por vam no restaurante Cabana fugir dela desde que se ba-
sua vez, Júlio Pereira, o ainda se- do Pescador, na Costa de Ca- nhou no Mediterrâneo no
cretário-geral do Sistema de In- parica. Muito animados, tira- meio da crise de autoridade.
formações, ficou em quarto lugar ram fotografias e publicaram Inaceitável que o segredo de
entre os procuradores. E como nas redes sociais. Um deles justiça tenha abrangido os
em cada cinco vagas de juiz só disse: “Cuidado, não ponham nomes das vítimas mortais
uma será para procuradores, a localização. É escusado do fogo. Cheira a Fidel.
Júlio Pereira só chegará ao STJ saber-se que viemos almo-
à 19ª vaga. çar à praia.” E todos se riram.

27
27 JULHO 2017
Asemana www.sabado.pt

ALEXANDRE R. MALHADO

OBITUÁRIO
Chester Bennington (1976-2017)
Tornou-se uma das maiores vozes “Isso destruiu totalmente a minha AOS 7 ANOS vidado para uma audição. De um
da sua geração ao cantar sobre os autoconfiança”, confessou em COMEÇOU dia para o outro, o rapaz de Phoe-
seus traumas de adolescência. 2008 à revista Kerrang! Com me- A SER nix voou quase 1.000 quilómetros
Arrastou milhares e ganhou do de represálias, acabou por não VÍTIMA DE até à Califórnia e, em frente aos
prémios, mas nunca largou os dizer a ninguém que estava a ser VIOLAÇÃO. seus futuros colegas de banda, can-
seus fantasmas. Um dia, cedeu vítima de violação, e os abusos OS ABUSOS tou aos berros, sem medos, intimi-
continuaram até aos seus 13 anos. CONTINUA- dando os outros candidatos à vaga.
m 2000, aos 24 anos, Ches- Para piorar tudo, aos 11 anos atra- RAM ATÉ Assim nasceram os Linkin Park.

E ter Bennington tinha chega-


do ao topo do mundo. Pouco
mais de um ano depois de entrar
vessou um violento processo de se-
paração dos pais. Ficou sob custó-
dia do pai, que o deixava muitas
AOS 13 ANOS Sete discos depois, com mais de
70 milhões de cópias vendidas, os
Linkin Park conseguiram levar “a
nos Linkin Park, a banda califor- vezes sozinho em casa colisão do hard rock e do hip-hop
niana havia atingido o sucesso glo- para ir trabalhar dois ao seu auge comercial e estético”
bal com o seu disco de estreia, turnos. Foi nessa al- – palavras de Jon Caramani-
Hybrid Theory. O álbum entrou di- tura, quando estava ca do The New York Times.
rectamente para o pódio das tabe- entregue a si pró- Se a história da adoles-
las norte-americanas e um ano de- prio, que desenvol- cência de Bennington
pois de ser editado já tinham sido veu vícios de mari- conta o nascimento dos
vendidas mais de cinco milhões juana, álcool, seus traumas, a trajec-
de cópias – é, ainda hoje, o disco ópio, cocaí- tória dos Linkin Park
de estreia mais rentável do século na, metan- narra a sua batalha.
XXI. Além disso, o single Crawling fetaminas Através da sua voz
venceu um Grammy em 2002 e e LSD. À re- rouca, que tanto tem
os poderosos berros de Bennin- vista Metal de doce como de agres-
gton tornaram-se um dos símbo- Hammer, Ben- siva, cantou para afastar
los maiores do movimento nu- nington explicou a os seus males – mas aca-
-metal, género que mistura o rotina que criara em bava por curar os demónios de
heavy metal e o rap. casa do pai: “Costuma- quem o ouvia. “Se eu não cantar
Ninguém diria que em 1998, dois va fumar crack ali, para abertamente sobre os meus as-
anos antes da estreia dos Linkin depois meter metanfetami- suntos, a minha mente não é um
Park, Bennington esteve prestes a nas acolá. Sentava-me e lugar seguro”, disse à revista Rock
desistir da música, frustrado com o entrava em pânico. Depois, Sound. “Sabe bem deitar tudo cá
insucesso das bandas por onde acalmava-me com ópio”. para fora”, acrescentou.
passara. Vivia com a mãe e traba- No dia 21 de Julho, Chester Ben-
lhava num Burger King. Mas Ches- Curar demónios nington morreu por enforcamento
ter precisava da música e da sua No meio de tudo isto, escrevia auto-infligido, confirmou o Depar-
poesia, locais de refúgio dos trau- poesia e desenhava. Também tamento Médico-Legal de Los An-
mas que desenvolvera durante a ouvia muita música, e era espe- geles. Tinha 41 anos. Além de seis
infância e adolescência, marcadas cialmente obcecado pelos De- filhos e uma mulher, a voz dos
pela toxicodependência, pela rejei- peche Mode e os Stone Temple Linkin Park deixou um legado
ção do pai e por abusos sexuais. Pilots. Em 1993, aos 17 anos, foi de compreensão: não só foi o
“Crescer foi, para mim, muito as- viver com a mãe e começou a frontman de uma das bandas
sustador e muito solitário”, afirmou ter as primeiras bandas. Os ver- mais determinantes da sua ge-
em 2014 à revista Metal Hammer. sos que escrevera sobre as suas ração, como também foi o
Filho de Susan Elaine Johnson, dores de crescimento transfor- porta-voz de legiões de fãs
uma enfermeira, e Lee Russell maram-se em canções. Acabou que se identificavam com o
Bennington, um detective que se- por perceber que queria viver que ele escrevia.
guia casos de pedofilia, o vocalista da música. Tristeza, solidão, insegu-
dos Linkin Park nasceu e cresceu A vida de Chester Bennington ranças, isolamento, depres-
em Phoenix, Arizona, onde viveu o mudou quando enviou uma casse- são... Bennington cantou so-
início da deterioração emocional te para Mike Shinoda, Brad Delson bre todos esses demónios
quando, aos 7 anos, um adulto co- e Rob Bourdon, que procuravam – afinal viveu-os a todos
meçou a abusar dele sexualmente. um vocalista. Acabou por ser con- intensamente. W
LUIS GRAÑENA

28
PORTO.
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Entrevista

Escreveu o primeiro livro aos 40, preocupadacom o que acontece ao cérebro


nameiaidade. Dez anos depois, em Maio de 2017, publicou o segundo,
Crooked, OutwittingtheBackPain IndustryandGettingon theRoadto
Recovery, inspirado nasuaexperiênciacom dor nas costas. Por LucíliaGalha

CATHRYN JAKOBSON RAMIN

“Cuidardeum cão
éboaterapiapara
asdoresnascostas”
e 7 em cada 10 pessoas so- F -frontal, responsável pela função

S frem de dores nas costas


em Portugal, é bem prová-
vel que seja esse o seu caso.
Existem boas e más notícias. As
más: “Há um número enorme de
“Muitas
pessoas têm
excesso de
trabalho e
desequilíbrio
executiva, e o núcleo accumbens,
que tem a ver com a motivação e
com o sistema de recompensa. O
que significa que estas pessoas,
além de terem dificuldade em to- Comecei a ter dores nas costas aos
agentes nesta indústria e todos eles muscular, mar boas decisões, também têm di- 16 anos, caí de cavalo – era uma óp-
querem um pedaço de ti para man- não fazem ficuldade em recuperar. Não se tima cavaleira –, e essa lesão nunca
ter viva a indústria e as portas exercício que conseguem lembrar do tempo em se resolveu totalmente. Comecei a
abertas”, diz, sem rodeios, Cathryn as fortaleça” que eram funcionantes e falta-lhes ter dores nas costas e espasmos e
Ramin. A autora e jornalista de in- a motivação para mudarem. experimentei várias terapias: fui a
vestigação americana, que falou quiropráticos, fiz ioga, Pilates, fisio-
com a SÁBADO ao telefone a partir A dor nas costas é uma das 10 terapia, etc. Tudo sem sucesso. Em
da sua casa, na Califórnia, refere-se principais causas de incapacida- 2008, fiz uma ressonância magnéti-
a cirurgiões, farmacêuticas e tam- de ao nível mundial. O que explica ca e uma pequena cirurgia que não
bém aos quiropráticos – que, neste a dimensão do problema? foi bem-sucedida. Depois da cirurgia
caso, não são a solução, diz. Inves- Tornámo-nos uma sociedade procurei outro fisioterapeuta, espe-
tigou o assunto durante seis anos, sedentária, com falta de exercício, cialista em problemas ortopédicos, e
falou com 600 pessoas (entre pro- maus hábitos (especialmente na for- ele pôs-me finalmente no caminho
fissionais e pacientes) e descobriu ma e no tempo em que estamos sen- certo: indicou-me um especialista
que a solução para a dor nas costas tados) e uma má postura. Muitas em exercício que equilibrou o meu
é mais simples do que parece. “A pessoas têm excesso de trabalho e sistema musculoesquelético.
dor não significa dano e é possível Back desequilíbrio muscular, não fazem
recuperar.” Saiba como. whisperer nenhum tipo de exercício que os Como?
É alguém que fortaleça. Temos a ideia de que Fortalecendo os músculos que es-
Porque é que as pessoas com compreende podemos ir ao ginásio duas ou três tavam enfraquecidos e libertando
dores são más a tomar decisões? como o corpo vezes por semana e que isso vai aqueles que estavam tensos. Resul-
funciona, em parti-
Os estudos científicos mais recentes cular a estrutura
resolver o problema, mas não. tou, e eu continuei a ver esse espe-
mostram que, em pessoas com dor das costas, e faz a cialista e a treinar regularmente:
crónica, há regiões do cérebro que reabilitação atra- Quando e por que razão come- nado duas vezes por semana, faço
são afectadas. Como o córtex pré- vés do exercício çou a investigar este assunto? passeios todos os dias com o meu

30
www.sabado.pt

cão – recomendo vivamente que músculos, mas não é com isso que g lação à questão da dor. Todos res-
pessoas com dores nas costas, que eles ganham a vida. Também as in- Cathryn Ramin é ponderam que não, excepto um.
casada e tem dois
tenham meios para cuidar de um jecções de esteróides epidurais não filhos. Divide o Isso diz muito sobre aquilo que é
cão, vão a um abrigo, adoptem, e têm evidência científica. Qualquer seu tempo entre preciso saber sobre este assunto.
dêem um passeio com ele várias abordagem que envolva mãos (acu- a Califórnia e
Nova Iorque
vezes por semana. É uma boa punctura, massagens, etc.), sem o Como foi o processo de investi-
terapia para as dores nas costas, e é acompanhamento de um programa gação para este livro?
bom para o cão também. de exercício supervisionado, não vai Foi exaustivo, a maioria das entre-
resolver o problema, é um remendo. vistas foram feitas pessoalmente.
No seu livro diz que existem pelo Implicou muitas viagens (Polónia,
menos 22 formas de tratar as do- A medicação para a dor também Inglaterra, Espanha, Coreia do Sul,
res nas costas, mas poucas são não é uma boa solução? etc.), o que não é fácil para uma
realmente eficazes. A medicação permite um alívio pessoa com dores de costas, mas
A artrodese [imobilização da coluna imediato da dor, mas hoje sabe-se durante o processo de escrita fui-me
através de qualquer forma de fusão], que o uso de altas doses de opiói- apercebendo melhor da mecânica
por exemplo. As pessoas que fazem des no tratamento da dor crónica do corpo e consegui controlar a dor
esta cirurgia continuam a ter dores conduz a uma hiperalgesia induzi- fazendo exercício regularmente.
nas costas. Frequentar um quiroprá- da por opióides, ou seja, estes me- Tecnologias
tico durante meses, ou anos, tam- dicamentos, em vez de tirarem as O uso excessivo Houve histórias de doentes que
bém não é eficaz: não há evidência dores ainda as aumentam. de telemóveis, em a marcaram?
de que a manipulação quiroprática vez das idas ao No livro descrevo a história de uma
previna as dores nas costas ou que Fez um inquérito a 100 médicos, parque infantil, mulher de 60 anos que fez uma in-
pode ter como
resolva as dores crónicas. Se a pes- com a pergunta: “Faria uma ci- consequência
jecção epidural de esteróides [uma
soa tiver um problema de início re- rurgia à coluna?” uma fraca das terapêuticas para a dor lombar]
cente, por vezes, uma visita pode Foi uma questão dirigida só a cirur- estrutura muscu- para aliviar uma dor ciática.
resolver e relaxar os espasmos dos giões que operam a coluna, em re- loesquelética Quando a dor voltou, pensou que Q

31
27 JULHO 2017
Entrevista www.sabado.pt

Q seria útil fazer outra. Não estava rua para passear o seu cão come-
incapacitada, era uma mulher activa, çar a sentir uma dor nas costas, o
andava 8 quilómetros por dia, mas mais provável é que não tenha um
estava a chegar o Natal e os netos e problema médico.
ela queria garantir que se sentia bem.
Depois da nova injecção, ficou para- Como é que o design de um es-
lisada da cintura para baixo. Pensa- paço, como um local de trabalho,
mos que estas terapias são seguras, pode intervir positivamente
mas não é bem assim. Estas situa- neste problema?
ções são extremas. A maioria são A ideia é movimentarmo-nos tanto
pessoas que já experimentaram quanto possível e, quando nos sen-
muita coisa e não melhoraram ou tamos, adoptarmos uma posição
aquelas que estão confusas sobre o intermédia, entre o sentado e o le-
que devem fazer. Escrevi este livro vantado, para que o peso passe
para as ajudar. para as pernas e faça menos pres-
são sobre a coluna. Em Sillicon
Conte-me alguns episódios Valley, as empresas estão determi-
importantes nestes seis anos. nadas em aumentar a mobilidade
A minha viagem a Espanha, em No- dos seus trabalhadores. Em alguns
vembro de 2009, para conhecer casos, construíram-se trilhos pe-
Francisco Kovacs, que tem um pro- destres e as pessoas têm reuniões
grama bem-sucedido e financiado enquanto dão um passeio com os
pelo Governo que trata as dores nas seus chefes. Também há empresas
costas sem medicamentos e sem ci- que construíram uma espécie de
rurgia. Fui a Maiorca, onde fica uma balcões, cantinhos onde se pode
das suas clínicas. Passei o dia a ver estar de pé e apoiar o portátil, e
pacientes. Um deles era um homem g Pensa que o exercício pode noutras já nem é preciso usar o
muito velho, que trabalhou ardua- O primeiro livro resolver a maioria das situações computador porque há monitores
que publicou,
mente toda a vida. Quando entrou, Carved in Sand de dor nas costas? por todo o lado.
mal conseguia andar. Foi tratado (2007) tornou-se Sim, e talvez se deva deixar de
com uma terapia chamada neurore- um bestseller do pensar neste problema como uma Como está agora?
New York Times
flexologia – um tipo de acupunctura. condição médica e começar a tra- Estou bem, tenho um sério com-
Envolve colocar grampos, como os tá-lo como um problema de falta promisso em não me sentar por
de um agrafador, nas costas ao lon- de mobilidade, em que há uma períodos muito longos ou ir mu-
go de certos pontos nervosos. Curio- progressiva falta de cuidado com dando de posição, porque a melhor
samente, apesar de parecer que dói os músculos e com a estrutura es- posição é sempre a próxima.
muito, não é bem o caso: este ho- quelética.
mem, que mal conseguia andar Mesmo quando está sentada?
quando entrou, saiu pelo seu próprio Como se faz a distinção entre Sim. Tenho uma cadeira ergonómi-
pé. Fiquei muito bem impressionada. uma dor nas costas comum, que ca Herman Miller e uma secretária
pode ser tratada sem ajuda que se adapta ao meu corpo, tem
Diz que “não há ninguém que médica, e um problema grave? uma abertura que permite muita
nos vá consertar, cada pessoa é As situações de dores nas costas flexibilidade na forma como me
que se conserta a si própria”. O que realmente exigem ajuda médi- sento. É uma embody desk. Tam-
que é que isso quer dizer? ca são fraqueza progressiva, como bém tenho uma coisa chamada
Cuidarmos de nós é essencial, de- o foot drop [quando uma pessoa backmax, que consiste em três col-
senvolver um programa de exercí- arrasta o pé ao caminhar e com- chões em forma de triângulo que
cio e mantê-lo e não ser ingénuo pensa levantando o joelho mais me permitem reclinar e trabalhar
pensando que se pode viver sem alto do que o costume], falta de ao mesmo tempo. Tenho o cão, que
ele. A rapidez com que se resolve o sensibilidade que se vai agravando, resgatei, e que insiste que o leve a
problema depende de muitas coi- um trauma (causado por um aci- passear a cada três horas, aconteça
sas mas, segundo a minha expe- dente), infecção, um cancro ou um o que acontecer, e também faço
riência, mais do que quatro dias Limitação problema chamado síndroma da exercício quatro vezes por semana.
sem fazer exercício significam vol- Mais de 400 mil cauda equina, que é uma compres- Outra coisa que uso é um backjoy,
portugueses
tar a ter dores nas costas. A dor nas faltam ao trabalho,
são de nervos na medula e que uma espécie de assento ergonómi-
costas não é algo que se cure, é pelo menos uma pode causar disfunções na bexiga e co que levo comigo sempre que
uma condição crónica e episódica vez ao ano, por nos intestinos. É uma emergência saio de casa. Ajuda-me a ter uma
que nos vai afectar sempre, de uma sofrerem de médica. O resto tem de ser visto boa postura esteja onde estiver e a
maneira ou de outra. dores nas costas caso a caso mas, se depois de sair à não sentir dores nas costas. W

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Todos os dias 700 novos clientes
escolhem o Banco CTT
O Banco que começou do zero, não pára de crescer e já conquistou 200.000
clientes. Os portugueses perceberam que um banco jovem, com ideias novas,
pode ser mais competitivo. Por isso agradecemos a confiança que diariamente
depositam no Banco CTT e assumimos o compromisso de continuar a fazer
a diferença com produtos e serviços simples, transparentes e sempre próximos
da vontade dos nossos clientes.
Porque o que nos move é o que move os portugueses.

Valor apurado com base na média diária de novos


clientes, entre 1 de janeiro e 13 de julho de 2017.
Destaque

h
Odeceixe,
mesmo
na fronteira
com o Alentejo
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

ALGARVE. O QUE AINDA ESCAPA À GRANDE VAGA DO TURISMO

TRÊS OÁSIS A
BARLAVENTO
Odeceixe, Estômbar, Fóia. Três nomes que não rimam com o Algarve
tomado de assalto pela grande migração de Julho e Agosto. Aqui ainda
é possível estar longe da multidão. PorGonçalo Correia (texto) e Marisa Cardoso (fotos)

A
estatística é esmagadora: a popu- O MUSEU DA centro da vila, quando o tempo começa a descobrir,
lação do Algarve, perto de 500 mil BATATA- após os habituais inícios de manhã nublados.
pessoas, triplica nos meses de Ju- -DOCE, QUE Pequeno paraíso balnear, afastado da azáfama das
lho e Agosto. Passa a milhão e É TUDO ME- grandes cidades algarvias, a freguesia do concelho de
meio, ou mais. Sendo assim, pare- NOS MUSEU, Aljezur ganha turistas no Verão – de famílias a surfis-
ce que o sossego se torna impossí- É UMA DAS tas e bodyboarders que procuram a beleza natural das
vel. Mas, na verdade, não. Há oásis. ATRACÇÕES praias do concelho, como as de Odeceixe (considera-
Siga-nos em três viagens a um “outro Algarve”, calmo LOCAIS da uma das sete maravilhas balneares de Portugal e
e com espaço: na fronteira com o Alentejo, num re- melhor praia de arriba portuguesa), Arrifana, Monte
canto fluvial semiescondido e mesmo no alto da serra Clérigo ou Amado. Muitos destes turistas ficam nas
de Monchique. E, a rematar, uma crónica do poeta Casas do Moinho, conjunto de habitações típicas e re-
Nuno Júdice, sobre o Algarve que faz parte dele. cuperadas, situadas ao lado do Moinho de Vento da
vila, que dinamizam o turismo rural na freguesia.
É no Verão, aliás, que muitos dos locais “fazem o
seu pé de meia para o Inverno”, conta Fábio Glória,
1 ODECEIXE, APRIMEIRA Qualoproduto
pescador e bodyboarder, 31 anos, que fornece peixe
a alguns restaurantes da região e com quem a SÁBA-
VILADO ALGARVE algarviodeque DO conversou. Há muito conhecedor de Odeceixe –
maisgosta? “uma vila muito calma”, onde nasceu, cresceu e se
sto é óptimo para famílias. É lindo, muito calmo e O meu ingre- tornou pescador, primeiro a acompanhar o pai, de-

I as pessoas são extremamente simpáticas. A foz
do rio, que desagua no mar, é óptima para as
crianças brincarem, para estar em família. Foi tam-
diente favorito
este ano é o ou-
riço-do-mar.
pois sozinho –, Fábio quis seguir a paixão pelo mar:
“Ia com o meu pai e já gostava. Depois acabei os
estudos, o 12º, e ou ia para a faculdade ou seguia a
bém por isso que quisemos vir para cá.” Felix e Encontra-se em pesca…”, conta.
Kathrin, 41 e 40 anos, estão entre os muitos turistas quase todos os
que, de Verão, trocam os países do Norte da Europa mercados locais. Do amendoim à batata-doce
por Portugal. Vindos de Colónia, Alemanha, voltaram O pescador-bodyboarder, que se tornou conhecido
este ano – “pela quarta ou quinta vez” – a passar fé- Hans Neuner, fora da vila por ter ajudado a salvar duas crianças in-
rias em Portugal. Escolheram a primeira vila costeira chef do Ocean, glesas do mar, na praia de Odeceixe, em 2015 (“estava
do Algarve, Odeceixe, que faz fronteira com Odemira duas estrelas cá fora, com um amigo, e vi-as em dificuldades. Fui
e o Alentejo, para trazerem o filho mais novo, ainda Michelin buscar a prancha e os pés de pato e fui auxiliá-las”),
bebé, com quem passeiam depois de almoço, no passa ali os Invernos e os Verões e conhece bem a Q

35
Destaque

h
No Sítio das
Fontes, junto
a Estômbar, os
Q diferença entre as duas estações: “De Inverno Ode- passeios de caia-
ceixe fica muito envelhecida e com muito poucas pes- que são gratuitos
até 25 de Agosto
soas. Já não é a vila de há 20 anos, com negócios pró-
prios. Hoje vive-se do turismo no Verão. E isso tem um
lado bom e um lado mau”, acrescenta.
“De Inverno vive-se muito da agricultura e da pesca,
não há muita gente”, corrobora Raul Gonçalves, dono
do restaurante Dorita, cujo terraço-esplanada fica
mesmo sobre a praia de Odeceixe, por entre as casas
de praia, sobretudo brancas e azuis, muitas com flores
à entrada, e já a alguma distância da vila. Lá, junto ao
mercado, entre o Largo do Povo e a Rua Estrada Na-
cional, vêem-se muitas crianças a brincar, à hora de
almoço. Uma delas canta, ininterruptamente, Cindere-
la de Carlos Paião.
Raul vive ali desde pequeno, altura em que o pai de-
cidiu rumar a Odeceixe para abrir um restaurante, que
já não existe, junto à praia também. E tem boas me-
mórias da região: “Lembro-me de ir ajudar o pai da
minha namorada na apanha do amendoim”, recorda,
sorridente. Um produto outrora “muito conceituado”
na região, hoje mais conhecida por ser a capital da
batata-doce, cuja variedade local (lyra), produzida

PÃO DO ROGIL A BATATA- entre Odemira e Aljezur, tem fama internacional.


-DOCE LYRA, Tal como o amendoim, também a batata-doce che-
Na freguesia do Rogil, Aljezur, está um dos me- VARIEDADE gou, contudo, a estar ameaçada. Alvo de muitas imi-
lhores segredos do Algarve: a padaria-pastela- QUE SÓ SE tações e falsificações, foi com a formação da Associa-
ria Pão do Rogil. Fica junto à EN 120, a meio ca- ENCONTRA ção de Produtores de Batata-doce de Aljezur que o
minho entre Odeceixe e Aljezur, a escassos EM ALJEZUR, produto, sazonal (colhido após o Verão, preferencial-
metros do quiosque Já Disse, local de afama- TEM FAMA mente entre Setembro e fim de Outubro ou início de
dos percebes. Quem gere o espaço é Anabela INTERNA- Novembro) e regional (o clima ameno e a proximida-
Claro, filha dos pioneiros Manuel e Isabel, que CIONAL de do mar favorecem a produção), conseguiu ganhar
abriram uma padaria no Rogil em 1965 – quan- a Indicação Geográfica Protegida (IGP), atribuída pela
do os sacos de farinha ainda vinham “em bur- União Europeia.
ros, do moinho”, conta a actual dona. Podendo acompanhar pratos de carne e de peixe e
Além de muitos produtos de venda para fora sendo usada em pastelaria e padaria (ver caixa ao
– que distribuem já para todo o País –, há pão lado), a batata-doce de Aljezur é um ingrediente que
artesanal cozido em forno de lenha, de vários muitos locais não dispensam e com que muitos turis-
sabores (aveia, batata-doce e batata-doce com tas se deparam em cafés e restaurantes, como o Cha-
noz); empadas (de espinafres e mozarela, de parro ou a Taberna do Gabão, mas também no Mu-
alheira de caça e grelos e de cozido algarvio) e seu da Batata-Doce, localizado na freguesia do Rogil
ainda pastéis de nata de batata-doce, alfarroba e que, na verdade, é mais café, restaurante, pastelaria
e beterraba. e loja de produtos do que museu. Também o festival
anual celebra o produto. Decorre em Novembro, em
Aljezur, e recebe mais de 30 mil visitantes por edi-
ção, sendo ali vendidas, em média, mais de 20 tone-
Melhor sítio ladas de batata-doce lyra por ano.
paracomer
umxerém?
Restaurante Mi-
2 UM PARAÍSO FLUVIAL
gu’s, em Tavira. EM ESTÔMBAR
São deliciosos.
ste é um outro Algarve.” Sentados em cadeiras
Albano
Lourenço,
chef do Vistas

E de praia, sobre a relva, com um grupo de ami-
gos, Carlos Martins e Ana Paula, 65 e 55 anos,
respectivamente, apreciam a paisagem do Parque Mu-

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www.sabado.pt

O CHARNECO
Restaurante pequeno, familiar
e sem ementa (o cliente não
escolhe os pratos, só se deli-
cia com eles), o Charneco ser-
ve um dos melhores menus
de degustação do Algarve,
por €25 e composição variá-
vel, consoante a estação.
Fundado pelo patriarca ho-
mónimo, que tem pelas pare-
des desenhos e fotografias
suas ao lado de alguns famo-
sos que por ali passaram (de Rosa Mota a Paulo Portas e a Álvaro
Cunhal) –, o espaço mudou há três anos para as mãos da filha, Mar-
ta, quando o pai sofreu um acidente que o incapacitou.
“Só podia ser eu a assumir, porque cresci aqui: conheço o vende-
dor de peixe, o produtor de tomate…”, explica Marta Charneco, 36
anos. Em Estômbar, Lagoa (a 2 km do Sítio das Fontes), e só ao jan-
tar, é provável que ali encontre patanisca de raia, carapaus alima-
dos ou ovas de choco. No Inverno, chegarão “os enchidos ou o co-
zido de couve”.

nicipal do Sítio das Fontes, um paraíso natural semies- Cenário bem diferente vive-se a oito quilómetros
condido (ver foto acima), que fica a 5 km de Estômbar, dali, em Ferragudo, uma vila do concelho de Lagoa,
concelho de Lagoa, e junta uma paisagem idílica a um onde fica a Única – Adega Cooperativa do Algarve,
ambiente familiar. que tem vindo a reposicionar a região como zona vi-
O cenário é de fim de manhã e vêem-se já muitas Qualo melhor nhateira, ganhando prémios com vinhos como Por-
famílias e grupos de amigos a preparar o almoço – sítio para ches Rosé 2013 e Reserva Lagoa Branco 2013, e que
uns de cerveja e sanduíches na mão, junto às mesas e comprar pão inclui uma galeria artística com mais de 3 mil metros
aos bancos de madeira do parque, outros perto do no Algarve? quadrados, no piso superior da adega, que também
churrasco, disponível para quem preferir um pique- No restaurante, justifica a visita. Além, claro, das mais de 40 praias
nique mais elaborado. Um pouco abaixo, junto a uma temos produção do concelho (entre balneares, naturais e selvagens) e
própria de pão,
pequena lagoa, que parece uma piscina natural, há do Algar de Benagil. Esta imponente gruta está situa-
mas para casa
quem aproveite para dar os últimos mergulhos matu- compramos da numa pequena praia de água azulíssima, em Be-
tinos enquanto outros aproveitam para fazer um pas- sempre na Casa nagil, também no concelho de Lagoa, apenas acessí-
seio, gratuito, de caiaque (até 25 de Agosto, a câmara do Pão, em Faro. vel por barco e com uma vista arrebatadora.
de Lagoa garante o material e os monitores) pela Mal se entra na vila piscatória, os barcos e as muitas
margem do rio Arade, que se cruza com a lagoa. gaivotas, a voar ou a repousar na água, ocupam a pai-
Leonel Pereira,
O espaço amplo, com cerca de 18 hectares, tem aco- sagem. As embarcações turísticas transportam pes-
chef do São
lhido múltiplos acontecimentos, exposições (montadas soas à marina de Portimão, a Silves e às rochas e gru-
Gabriel, uma
num antigo edifício rural ali existente, hoje restaura- estrela Michelin
tas próximas. As pequenas embarcações de pesca re-
do), concertos (há um anfiteatro ao ar livre que aco- gressam a terra depois de uma manhã de trabalho.
lheu, recentemente, um festival de música, o Lagoa Como aconteceu com Paulo Ventura, 27 anos, que,
Jazz Fest) e eventos de actividade física (o espaço in- quase de sardinha na mão, conta que a pesca é “o ne-
clui um percurso com vários pontos para exercícios), gócio que sustém a zona”, onde se apanha muito “sa-
além dos já referidos, e mais mundanos, piqueniques e fio, também salmonetes mas um pouco de tudo” e
excursões de banhistas. que a actividade no Inverno é “para arriscar a vida. O
NO ALGAR mar está sempre revolto, passa-se mais tempo em
“Arriscar a vida” em Ferragudo DE BENAGIL terra do que em mar”.
Enquanto algumas crianças brincam no parque infantil ENCONTRA- Vítor, 56 anos, ainda a mexer no anzol e no peixe
ali existente – sob o cuidado dos pais, que vão toman- -SE UMA DAS apanhado, tem outra ideia: “No Inverno apanha-se
do banhos de sol, sentados ou deitados na relva –, PAISAGENS mais peixe, vende-se é menos. No Verão o peixe vale
ouve-se, a interromper a tranquilidade, um cântico: MAIS o dobro; no Inverno somos roubados”, queixa-se.
“Mão direita, mão direita, é penálti.” Com sotaque al- BONITAS DO Na zona ribeirinha da vila – que, afirma Luís Alber-
garvio, pois claro. ALGARVE to (presidente da junta de freguesia eleito pelo PS Q

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27 JULHO 2017
Destaque www.sabado.pt

100% HAPPY
Dizem que são filhas da laranja algarvia e que
foi ela que lhes mudou a vida. Mara Santos e
Miriam Ferreira, 35 e 36 anos, respectivamente,
estavam “com muita vontade de mudar, cansa-
das dos trabalhos”. Formadas em Psicologia e
efectivamente “filhas da laranja” – o pai da pri-
meira é produtor, o da segunda dirige a Coope-
rativa Agrícola de Citricultores do Algarve –, co-
meçaram a desenhar a 100% Happy em 2016.
Idealizaram um quiosque, mas acabaram por
desenhar uma carrinha móvel, onde vendem
os seus sumos de laranja (a €1,50 o copo, de
250 ml) mas também de limão, além de outras
bebidas, como os granizados, os gins e os chás.

Q e a cumprir o terceiro, e último, mandato), tem “sa- g tem medo de andar aí pelo campo.” Antigamente, con-
bido manter as suas tradições”, apostando “na pesca, Fóia é o ponto ta, “as pessoas viviam do campo e da agricultura. De-
mais alto da serra
no turismo e no comércio” como sectores centrais –, de Monchique e pois, para vender, passaram a ter de estar colectadas.
os restaurantes começam a encher, à hora de almo- do Algarve. Fica Iam-se colectar para vender duas sacas de batatas e
ço. Desde logo o A Ria ou o Sueste, onde se come um a 902 metros três quilos de feijão?”, pergunta, retoricamente.
de altitude
óptimo xerém, prato típico algarvio.
Mágoas portuguesas, encantos estrangeiros
3 O CUME DO ALGARVE Há 23 anos que Florenço ali vende produtos – o que
consegue arranjar, a julgar pelo aspecto pouco sofis-
ainda mal amanheceu, é cedo, avistam-se ticado da banca. “Comecei na altura em que tive um

A poucos turistas, mas num dos pontos de


subida para a Fóia, o ponto mais alto do
Algarve, bem no cimo da serra de Monchique, José Ondecomprar
produtos
acidente que me deixou com 80% de incapacidade.
Trabalhei 46 anos e descontei 42 anos – mas o meu
patrão ficou-me com o dinheiro de uma data de
António Florenço, de 86 anos e boné na cabeça, anos de desconto. É assim…”, acrescenta, ressentido.
típicos?
monta o seu estaminé de produtos regionais para No mercado de Stefan, 53 anos, e Ingrid, 54, não parariam ali. Se-
venda – dos licores à fruta, bolos, potes de mel Portimão, há o guiram directos para o cume da Fóia e para o mira-
e bolachas de amendoim. melhor peixe de douro cimeiro, situado mesmo à frente do snack-
“Daqui a pouco não há aí sítio para estacionar”, dirá, Sagres, fruta do bar/cafetaria Planalto, onde alguns turistas repousam
falando dos muitos turistas que sobem aos 902 me- Sotavento, legu- na esplanada. Vieram da Bélgica e passam férias em
tros de altitude e param no caminho, para fotografar a mes do Barla- Portugal há quatro anos. “Já fomos à Madeira, a
imperdível vista, onde o verde dos montes de serra vento, enchidos, Coimbra, ao Porto e a Lisboa”, contam.
substitui o azul e o creme tipicamente algarvios – e milhos e outros Desta vez, quiseram descer ao Algarve e subir à ser-
balneares. E voltará ao assunto: “Se o turismo acabas- grãos da serra. ra. “É o ponto mais alto, é único. Tem uma vista lin-
se morria aí tudo à fome.” da”, diz Stefan. No País e na região, uma das galinhas
Antes, porém, José António Florenço começará por Rui Silvestre, chef dos ovos de ouro do turismo nacional, só vêem coi-
olhar os montes: “Moravam aí dezenas de pessoas… do Bon Bon, uma sas boas: “É bom para andar de bicicleta, jogar golfe,
desapareceu tudo. Não se vê ninguém. Uma pessoa até estrela Michelin fazer caminhadas, nadar… para tudo.” W

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Watch Planet SA - 21 342 83 08

MODELO COLAR SIN


MODELO PULSEIRA SERPENT
MODELO RELÓGIO MATCHCORD STYLE
# POLICELIFESTYLE
Opinião

CONVIDADO
Não sou dos que dizem mal de tudo: o
tempo tem as suas consequências, boas e
más, e muito se aprendeu com o mau para
restituir qualidade à vida que continua. O
que não muda, porém, é a natureza e a
paisagem deste Barlavento; e quanto mais
se avança para oeste, ou se sobe para o in-
terior, mais o intocado nos surge

Este é
o Algarve
que faz parte
de mim
O Barlavento estende-se de Albu- menor gosto, sobre antigos casais Lagos que é, com Silves, uma das
feira a Sagres, passando pela mi- do tempo em que havia agricultura mais bem preservadas cidades do
nha cidade, que é Portimão. Era aí e quinteiros. Barlavento, embora quase só se
que eu ia, nas férias de Lisboa dos ouça falar estrangeiro nas suas
anos 60, ver cinema, jogar bilhar e Duas direcções se podem tomar: ruas, lojas e restaurantes, até Sa-
esperar pelos jornais da manhã a que sobe até Monchique, poden- gres. Mas não podemos ir sem pa-
que só chegavam no comboio da do seguir-se a estrada que vai da rar em Vila do Bispo com um te-
tarde, trazendo as inaugurações do Penina até à Senhora do Verde, souro barroco nos azulejos da
venerando. O mundo é outro, hoje, passando pelos túmulos pré-histó- igreja quase sempre fechada e, de-
e o turismo transformou muita coi- ricos de Alcalar, hoje bem recupe- pois do almoço na Pensão Correia,
sa, a começar pelo mercado que rados, mas onde ainda entrei ras- apanhar a estrada para o Castelejo.
deixou de ser um belo edifício da tejando até ao interior. Eram aven- A paisagem faz-nos sair deste
arquitectura regional do século XX turas que se faziam a partir da Me- mundo, como se uma natureza
para se deslocar para um novo lo- xilhoeira Grande, onde mantenho que tenta resistir ao vento nos im-
cal, mas onde se continua a sentir a casa do meu bisavô, construída pedisse de avançar. Ali havia fi-
a vida do campo e da pesca nas em 1902. A partir da Senhora do gueiras quase deitadas, com os
bancas de fruta e legumes e no es- Verde, onde havia uma capela ar- troncos dobrados pela força das
paço do peixe e dos mariscos, a ver ruinada da época manuelina, nortadas; hoje é uma vegetação
de terça a sábado, quando chegam abre-se uma estrada por vezes ín- rasteira, e arbustos que mal saem
frescos dos barcos ou da pesca ar- greme, levando aos Casais e daí às do chão. Antes do Castelejo, com
tesanal. Não sou dos que dizem Caldas e a Monchique. São terras as suas falésias e pedras de ardósia
mal de tudo: o tempo tem as suas que a interioridade conservou, a evocar o princípio do mundo,
consequências, boas e más, e mui- cruzando a arquitectura algarvia podemos virar por uma estrada de
to se aprendeu com o mau para de muros de cal e platibandas terra até atingir um miradouro so-
restituir qualidade à vida que con- mouriscas com vivendas que lem- bre longas extensões de areia e ro-
tinua. O que não muda, porém, é a bram chalés suíços, aparentemen- chedos quase virgens, ao longo de
natureza e a paisagem deste Barla- te contrários à imagem de um Al- um oceano que nos desafia com a
vento; e quanto mais se avança garve quente: mas o Inverno des- imponência de ondas que atraem
para oeste, ou se sobe para o inte- ses tempos em que se procurava os surfistas e os apanhadores de
O rior, mais o intocado nos surge, cura nas águas vulcânicas das Cal- percebes: os primeiros resistem à
Poeta apesar dos indispensáveis parques das era bem frio, o que explica água, os outros vão caindo, de vez
Nuno Júdice eólicos e das residências de foras- essa importação arquitectónica; a em quando, e nem a memória se
teiros construídas, com maior ou outra direcção é que nos leva de lhes aproveita, mas talvez fosse

40
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

PUB
j
Meia Praia,
Lagos

lançam a cana, a queda de algum


mais ousado.
Se o regresso for a horas de jan-
tar, pode optar-se pela Comidinha,
à entrada de Lagos, ou pelo São
Roque, onde começa a baía de La-
VIRGÍLIO RODRIGUES

gos. Nesta, já sem as cubatas onde


se alojava, antes do 25 de abril,
uma comunidade desses que só
sobrevivem na canção de Zeca
Afonso chamada Os Índios da
bom lembrar a habilidade que é Meia Praia, falando uma língua
preciso para apanhar esse marisco própria e vivendo do que lhes vi-
que nos faz sentir o sabor primitivo nha à rede, ainda se pode ir a pé
do oceano. até onde se abre a ria de Alvor,
cortando a meio a baía com o que
Em Sagres começa-se por uma já foi uma linha de água que, na
fortaleza cujas muralhas, outrora maré baixa, dava para passar qua-
de pedra, foram restauradas há se a pé de um lado ao outro. Hoje
umas décadas como se de uma são dois molhes, um de cada lado,
vulgar parede se tratasse, e pode- que permitem a passagem dos
mos vagamente evocar um Infante barcos do mar até à ria e ao anco-
cuja lenda ali ficou colada, embora radouro de Alvor, com o que feliz-
nos lembre com mais certeza o pi- mente resta do que foi o seu mer-
rata Francis Drake que, em 1587, a cado, mas apagaram da memória
tomou e destruiu tudo o que ali es- essa paisagem de areia e água que,
tava. O que vale a pena é avançar de um e outro lado da baía, evoca-
até ao farol do cabo de São Vicente va um cenário de origem da Terra
e, aí, olhar para as falésias a pique, aonde acompanhei, em muitos
onde começa a costa vicentina, e verões, os longos passeios diários
para as aves que nos desafiam, de Maria Barroso e Mário Soares
num voo que lhes permite ver cada que ali encontrava essa energia vi-
recanto dessas rochas cortadas por tal que fazia parte da sua persona-
um escultor de precipícios, e bre- lidade. E, apesar desses molhes,
vemente acompanham alguns ia- ainda vale a pena fazer esse pas-
tes ou traineiras que por ali do- seio, a partir da Restinga, do lado
bram o cabo. No farol, a sul, olhan- de Alvor, e enquanto se caminha à
do para o cimo das falésias, pode- beira da rebentação ver como, em
mos ver pescadores lançando as cada dia, as cores do mar e do céu
suas linhas praticamente no limite encontram novas tonalidades,
do rochedo, talvez tentando adivi- numa renovação surpreendente.
nhar com os olhos o sítio preciso E é este o Algarve que faz parte
em que o peixe espera a queda do de mim, e ao qual volto sempre
anzol, e nos leva a recear, quando que posso. W

41
Destaque

ALGARVE. O QUE AINDA ESCAPA À GRANDE VAGA DO TURISMO

SEGREDOS DO SOTA
Com epicentro em Santa Luzia, uma deambulação pela ria, numa zona a que investidores
também como “o segredo mais bem guardado” da região. Ainda que no auge do Verão já se

H
á luz e sol com fartura e o sino da
igreja paroquial, que honra a sicilia- Na época alta, a
travessia de Santa
na Santa Luzia, protectora dos doen- Luzia para a Terra
tes dos olhos, anuncia as 10 horas. Estreita faz-se de
Sibila um motociclo eléctrico e sen- 15 em 15 minutos
te-se uma fresca brandura na espla-
nada sombreada do Café da Vila que
lhe fica na lateral. O lugar de estacionamento para a viatu-
ra do pároco é o único que permanece vago. A mais pe-
quena e recente freguesia do concelho de Tavira tem
1.400 residentes, mas no Verão a população duplica. (O Umbar para
beber umcopo
povo será agradecido e fará uma festa que a todos con-
ao fimdo dia?
tentará – haverá o pau de sebo, e os moços depois ati- O Mezzanine –
ram-se à ria para apanhar leitões que nadam.) Bar & Vinoteca,
Fala-se muito de estrangeiros e da sua incessante procu- em Faro. Ópti-
ra de casas – e, em surdina, sobre o valor a cobrar. No mas tapas, uma
Café da Vila, há sorrisos holandeses, franceses, ingleses, boa selecção de
simpáticos, na maioria jovens casais que chegam com um vinhos, e fica
bebé no carrinho. Já andaram pelas ruas frescas, já se mis- num prédio
turaram com os locais, compraram fruta e água no mini- com mais de
mercado. Sem montras para distrair a atenção, aprecia- 200 anos.
ram as portas de reixas, mas torceram o nariz às novas
“arquitecturas”. Eumbombar
de praia?
Neste dia está quente e faz sueste, há Levante no Sota-
O Havana, na
vento (para onde sopra o vento), fenómeno meteorológico Praia de Faro.
vulgar no Algarve, que pode ocorrer uma ou duas vezes
por mês, razão pela qual os pescadores não têm ido ao Depois de uma
mar – o que significa menos dinheiro para o orçamento saídaànoite,
familiar. A sirene da lota voltou a não tocar. O polvo é a onde se pode ir
alma da terra e o povo de Santa Luzia diz, apropriada- comer qual-
mente, que é a sua “capital”. A população que está ligada à quer coisa?
faina compensa-o, nos meses de Verão, com o aluguer de A Padaria Lisbo-
casas aos turistas. É uma necessidade. Para outros, sem li- nense (Faro) é
gação à terra, tem sido um investimento. Um imóvel à um clássico que
venda muda de dono rapidamente e as agências imobiliá- nunca falha. Óp-
rias mexem. Tanto que na festa de Agosto até marcam timo sítio para
comer uma fatia
presença com standes de promoção. O valor de um T2
de pizza ou um
novo oscilará entre os 200 e os 250 mil euros. pão com chouri-
“Não tenho medo de descaracterização de Santa Luzia, ço acabado de
pois a pesca nunca se perderá e o turismo faz falta. Neste fazer.
momento, andamos pelos 50/50, mas não perderemos a
pesca, que é a alma e a história desta terra, temos 40 em- Diogo Piçarra,
barcações e não podemos voltar ao tempo dos subsídios músico e cantor

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AVENTO
e agentes turísticos se referem como “sem brilho”, mas
exija alguma paciência. PorCarlos Filipe (texto)eMarisa Cardoso (fotos)
AGOSTO
A
AG
GOSTO
O
10
0 QUINTA-FEIRA
QUINTA-FEIRA

para abate de barcos, como aconteceu nos anos 80 e 90”,


diz Carlos Belhy, presidente da junta de Freguesia vai para
12 anos.
“Eh, Norberto!”, grita-se e acena-se de terra ao homem
que vai à roda do leme do Terra Estreita, uma das em-
barcações da carreira da praia. Desde o início de Maio
que leva os banhistas de hora a hora para a ilha. Agora,
em Julho e Agosto, faz isso de 15 em 15 minutos, com re- AGOSTO
forço de uma segunda embarcação. Do outro lado está a
Terra Estreita. 11 SEXTA-FEIRA

Poluição rigorosamente zero


A praia da ilha de Tavira fica a este da Terra Estreita e a do
Barril a oeste, sensivelmente equidistantes, 1.500 metros
de caminhada. À de Tavira acede-se de barco, tem parque
de campismo e grande área de restauração. O programa
Polis da Ria Formosa anda com uns anos de atraso, mas já
tratou da requalificação da estrada de acesso ao embar-
que nas Quatro Águas e prepara agora os procedimentos
para a empreitada do novo cais do lado da ilha.
Já a do Barril, que serve o aldeamento de Pedras d’el Rei,
tem o canal da ria tão estreito que dispõe de ponte pedo-
nal (uma nova estrutura, assente em estacaria de aço,
AGOSTO
12
substitui a velha passadeira sobre flutuadores), e depois os SÁBADO
turistas são levados por uma locomotiva de mina que
atrela duas carruagens. Ali funcionou, durante a primeira
metade do século passado, uma armação para a captura
do atum. Os edifícios foram readaptados para áreas de
restauração. O cemitério de âncoras cravadas na areia,
que ajudam a fortalecer o cordão dunar, e uma barca (ca-
noa) usada para o copejo do atum, ainda ali presente, são
já considerados legados arqueológicos.
“Gosto de dizer aos clientes que isto não tem nada, mas
que tem tudo. Acima de tudo, sossego. Não há barulho,
apenas o do mar, não há motos de água a incomodar,
mas quilómetros de areal e água de qualidade”, diz Eduar-
do Marques, concessionário da praia da Terra Estreita. www.osoldacaparica-festival.pt osoldacaparica
A associação ambientalista ZERO dá-lhe razão, quan-
Bilhetes à venda e locais habituais
do aponta que cinco daquelas praias do Sotavento – PROMOTOR

Fuzeta e Armona, Terra Estreita, ilha de Tavira e Caba-


nas – estão entre as 31 zonas balneares costeiras e duas PARCEIROS MEDIA

interiores do País que nos últimos três anos não tiveram


qualquer registo de poluição das águas, segundo da- Q APOIO

PARCEIROS INSTITUCIONAIS
43
Destaque

1 2

1 Q dos da Agência Portuguesa do Ambiente.


O cais de embar- Depois do Barril há muito mais areal até à barra da Fu-
A VIDA CONTINUA BELA que na maré baixa
em Santa Luzia zeta, e de caminho a praia do Homem Nu, que faz jus ao
Na Terra Estreita, a travessia da língua de areia é nome, pois ali é autorizado o naturismo. Esta ainda menos
mesmo a mais estreita, não mais que 200 metros. 2 tem, sem bar, concessão ou nadador-salvador, mas para
Uma pista à beira
Eduardo Marques anda por ali há 12 anos. É reco- da ria, no caminho evitar a longa caminhada também pode aceder-se de bar-
nhecível à distância: uma pele tão curtida será resul- do aldeamento de co, às suas costas, através da ria e pelo canal da Fuzeta.
tado de quase um ano de praia. É verdade: “Estou Pedras d’El Rey Idênticos percursos são feitos para outras praias já no con-
até Santa Luzia
aqui de Maio a 15 de Outubro, e pouco depois co- celho de Olhão – Ilha, Barras Nova, Barra Velha e Armona.
meça a época de Verão no Brasil”, explica o empre- Na Fuzeta assa-se peixe no carvão pela tarde dentro, ob-
sário, de 53 anos. A praia está concessionada à Jun- serva-se a frota de pesca artesanal e joga-se petanca ao
ta de Freguesia de Santa Luzia, a quem faltavam os entardecer diante do parque de campismo. E se há “bou-
meios para a explorar. António Quina, fundador de les”, há sempre franceses a jogar.
A Vida É Bela (marca de vouchers de experiências “Os franceses surgem há cinco anos através das imobi-
que colapsou em 2012), tinha esses meios e fez do liárias. Dois ou três casais compraram casas na avenida
deserto da Terra Estreita uma praia de glamour. marginal. Atrás desses vieram outros. Passaram palavra.
Para ali levou a beach experience, das massagens à Hoje, há entre 40 a 50 casais a viver aqui permanente-
prática de desportos aquáticos não motorizados, mente”, diz o presidente da junta de Santa Luzia, Carlos
até às tão faladas travessas de ostras acompanha- Belhy, também ele já tentado a vender o seu tecto. “Há
das de champanhe para degustação ao pôr-do-sol. gente a vender as suas casas, uma minoria. E quando ven-
Com ele estava Eduardo Marques. “Estive e de aplica o dinheiro em nova habitação, mas em Santa
estou. Sou sócio dele no Brasil. Em Angra dos Reis Luzia, na nova urbanização a norte da freguesia, ganhan-
temos um bar flutuante, o sea lounge, chama-se do algum dinheiro no negócio”, diz o autarca. Segundo
Terra Estreita e um dos portos de acesso chama-se Carlos Belhy, a empresa Royal Ibéria, de Luís Filipe Vieira
Santa Luzia.” [presidente do Benfica], tem licenças para construir à saí-
da de Santa Luzia, no lugar do Pinheirinho, e que todos
os anos tem renovado tais autorizações. Com essas cons-
truções e com dois novos loteamentos já aprovados, no
caminho para as Pedras d’El Rei (um bloco de apartamen-
tos e outro para vivendas), a médio prazo haverá mais
2.000 fogos na vila.
JOGA-SE “Acaba de abrir mais um restaurante de franceses, o Ba-
PETANCA AO rouf”, anuncia Carlos Belhy, antecipando uma nova vaga
ENTARDE- de interesse do Norte da Europa: “Os suecos estão a abrir
CER, AO PÔR- o apetite e desde que têm um consulado em Tavira que
-DO-SOL. começaram a mexer-se por aqui.”
E ONDE HÁ Há anos já abrira um outro restaurante francês, o Vin-
PETANCA HÁ cent, numa lateral adjacente ao portuguesíssimo Cape-
FRANCESES lo, há muito considerado uma instituição de Santa Luzia

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e do Algarve, e diante da esplanada do único cocktail que ainda recentemente considerou o Sotavento algar-
bar, o Meia Pipa, gerido desde 1985 por Álvaro Reguei- vio como uma região “sem brilho”, mas com “mais va-
ra. Outra instituição. Há música ao vivo e ecrã gigante lor para investimento”.
para as soirées de desporto. O Vincent só abre para jan- O jornal cor-de-rosa referiu a prática do golfe na re-
Nasua
tar tal como o spot dos ingleses (Canto Azul), porventura gião mais calma e rural do Algarve como atractivo extra
opinião, qualé
com a localização mais aprazível da terra, diante da ria o melhor sítio para o potencial investidor, que poderá encontrar resi-
e num primeiro andar em açoteia. paracomer dências nas redondezas a partir de 250 mil euros. No
Carine e Gilbert não frequentam os muitos restauran- umatípica concelho de Tavira existe um campo (Benamor, em Ca-
tes de Santa Luzia. Autocaravanistas que são, de longa cataplana banas), mas há outros cinco não muito distantes: Quinta
data, fazem o jantar no fogão do veículo. Ambos fran- algarvia? da Ria, Quinta de Cima, Monte Rei (Vila Nova de Cacela)
ceses e reformados, há anos que conhecem o local, in- Na Eira do Mel, e Castro Marim Golf & Country Club e Quinta do Vale
dicado por outro companheiro de estrada. Antes do em Vila do Bis- (Castro Marim).
Verão parqueavam sempre diante da ria junto ao al- po… com batata-
deamento Pedras d’El Rei e ali ficavam uma semana. -doce, uma Dormirna escola,subiraocerro,moldarobarro
“Um dia chegámos e era um estacionamento interdito delícia! Andreia é educadora de infância, Jorge é estudante de
a caravanas”, diz ele, lamentando a ausência de par- Engenharia Civil na Universidade do Algarve, são ainda
ques apropriados no Algarve. Daí terem ocupado um Dieter Koschina, muito jovens mas suficientemente maduros para sabe-
lugar, informal, à saída da vila, ao lado de outros cara- chef do Vila Joya, rem como andar na crista da vaga de turismo. Recolhe-
vanistas, quase todos franceses. “O que importa é que duas estrelas ram fundos familiares, pegaram em poupanças, procu-
gostamos disto. Há sítios de luxo no Algarve, mas tam- Michelin raram o resto no banco compraram uma antiga escola
bém muita ostentação e vaidade. Aqui, tudo é simples primária (inaugurada em 1961, obra do Estado Novo).
e calmo. E tem as aves da ria”, diz Carine, viajante ex- Mantiveram grande parte da estrutura, a placa com o
perimentada e birdwatcher. Carine certamente não foi ano e o suporte do pau da bandeira e adaptaram o edi-
beber às expressões utilizadas pelo Financial Times, fício com arquitectura discreta e térrea. Perto de Si- Q

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e um pacote de confiança.
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Destaque www.sabado.pt

Q nagoga, algures entre Tavira e a Luz, no lugar de Ber-


nardinheiro, nasceu há um ano o Tavira Monte, uma
country house a dois passos da praia, na franja entre o
litoral e o barrocal. Ali, o maior desassossego são os
voos rasantes das andorinhas. Há cheiro a laranjal, al-
farrobeiras e oliveiras frondosas. (Não longe, no aldea-
mento de Pedras d’El Rei, pode ser visitada uma famosa
oliveira bimilenar.) Com apenas 10 quartos, amplos e
climatizados, não prepara refeições, apenas o pequeno-
almoço. De lá se pode partir para passeios de fim de
tarde, a começar pelo litoral, acompanhando a ria. Tor-
re de Aires, à saída da Luz de Tavira, é um hino à calma.
É ali que também se encontra o Fialho, restaurante bas- g Miguel, de onde se avista quase todo o Sotavento. Com
tante informal que honra o peixe fresco grelhado no As artes da pesca, uma altitude máxima de 410 metros, no cume encon-
bem visíveis, lem-
carvão. Quase sempre cheio. bram que Santa tram-se inúmeras antenas de telecomunicações, radares
De novo na EN 125, flectir-se-á para o interior na di- Luzia é uma aldeia militares e meteorológicos, e retransmissores da RDP e
recção de Moncarapacho para aceder ao Cerro de São de pescadores PT. Toda a costa é visível, do farol de Vila Real de Santo
António à pista do aeroporto de Faro, tal como o intrin-
cado sistema lagunar da ria e a planura da paisagem
NEGÓCIO PÃO-DE-FORMA agrícola. Nas costas, o acidentado contraste serrano das
serras de Tavira e do Caldeirão.
Para passeios pelas serras, um casal inglês tem
uma proposta diferente. Lloyd e Claire, originá- E agora, as bolas-de-berlim do Carlos...
rios da chuvosa Brighton, ele, designer gráfico, Depois, também há espaço para um momento de com-
ela, professora, chegaram a Santa Catarina da pleta decadência – as bolas-de-berlim do Carlos. Gran-
Fonte do Bispo no fim da última década e insta- des e com muito creme, até mesmo de alfarroba. Só fa-
laram-se com dois filhos pequenos. Foi depois brica de Junho a Setembro e fica no Laranjeiro. Depois
de uma viagem de campismo à Cornualha, do doce, um refresco, na Praça da República, em Mon-
onde em sete dias caiu toda a água do mundo, Umalivraria carapacho, nas esplanadas frescas da lateral da igreja,
que se decidiram mudar para o calor da serra, e que aconselhe: bem no centro. Ou então, se de regresso à cidade, no
montaram a Siesta Campers. Partiram em bus- A Caravana, em Tavira Lounge, junto à estação de camionagem, na es-
ca das Volkswagen pão-de-forma do fim dos Loulé, e a Pape- planada sobre o rio Gilão, à esquerda mesmo antes da
laria Aleixo, em
anos 60 e até foi de Nova Iorque que chegou a ponte romana. O melhor gin da terra.
Quarteira.
primeira. Após longo trabalho de recuperação, O sector agrícola, com tecido muito envelhecido, de-
equiparam-na para alugar. Deram nomes às Onde se pode senvolve-se no barrocal e pelos sopés da serra e é no
carrinhas que se sucederam – Fern, Apple, comer bons meio desta que o vasto barreiro de São Brás de Alportel
Martha e The Bubble. Sete anos depois, os escri- doces típicos? e Santa Catarina potencia uma indústria transformadora
tórios de S. Brás de Alportel e de Lisboa agitam- Na pastelaria em desenvolvimento. É aqui que encontramos parte da
-se muito nesta altura. “Apostámos nos T5/6 Amendoal, em cultura local, visível nos telhados de tesoura e quatro
[modelos actuais], mais confortáveis e fiáveis de Loulé. Aconse- águas do casario algarvio e pelos pavimentos que se
mecânica. Mas o nosso público-alvo não mu- lho os Dom Ro- adaptam às grandes assimetrias térmicas, do extremo
dou. Continuam a ser famílias da classe média, drigos e o touci- calor no Verão ao frio no Inverno.
que tanto se interessam pelo surf como pelas nho-do-céu. “Somos regularmente visitados por estrangeiros que
viagens culturais”, explicam Lloyd e Claire. pretendem inteirar-se das características dos nossos pro-
Ideiadepas- dutos para utilizarem nas suas casas. E a exportação já co-
seiobonito?
meça a ser uma realidade, principalmente para França,
A viagem entre
Messines, a al- Alemanha e Reino Unido”, explica Ângelo Martins, sócio-
deia de Alte (lin- gerente da Terracota do Algarve, em São Brás de Alportel.
díssima) e Salir. Da argila se faz o barro, extraído e preparado com o au-
Em Messines, xílio de maquinaria, sendo artesanal o posterior processo
pergunte pelo de fabrico, incluindo a cozedura, em forno a lenha. “Já os
Azeite Guerrei- antigos romanos sabiam das vantagens das telhas e dos
ro: é delicioso, pavimentos de terracota em termos de longevidade. A ter-
puríssimo, e racota é resistente à luz solar, mantendo a sua cor inalte-
só se encontra rada com o passar dos anos, mesmo em locais de grande
por lá. exposição. É resistente ao choque e às mudanças de tem-
peratura e à prova de fogo”, assegura. W
Lídia Jorge,
escritora Depoimentos recolhidos por DiogoLopes

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Crédito Pessoal
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Porque o orçamento
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Um crédito claro. No Cetelem.


1
O valor inclui comissão de processamento de prestação de 1,50€. Seguro
de crédito facultativo de 7,23€ não refletido no MTIC e na TAEG. Montante
Total Imputado ao Consumidor para o exemplo apresentado: 6.690,36€.
Crédito sujeito a aprovação pelo Cetelem – marca do Banco BNP Paribas Marktest Reputation Index. Este prémio
Personal Finance, S.A. é da exclusiva responsabilidade da entidade que o atribuiu.
27 JULHO 2017
Opinião www.sabado.pt

CONVIDADO
Quando chega o calor logo desperta o odor
áspero-enebriantedaestevaeporaquidiz-se
que, finalmente, estáo Verão instalado. Não é
o calendário que define a estação. É o cheiro
daesteva

Bolos na
serra e
mouros
na costa

STILLS
Há quem vá do mar que o petisco da doçaria tradicional do Algarve. lante. Muito me deu uma vontade de
pode ser uma “iguaria que se serve Bolos de amêndoa, de alfarroba, de perguntar à senhora imaculadamen-
antes do prato principal de uma re- figo, bolos do que a terra dá fizeram te fardada que me vendeu meia dú-
feição; acepipe, aperitivo” – o que o do Azinhal um local de peregrinação zia de churros se a família Napier era
aproxima daquilo a que a “nova cozi- para desmandos de açúcar. Não dei- porventura descendente do almiran-
nha” chama amuse-bouche, ou seja, xa de ser incrível como um cafezinho te Napier, o mercenário inglês que se
pequenas porções de comida geral- num lugar perdido nos confins da pôs do lado da causa liberal contri-
mente não pedida pelos comensais, barragem de Odeleite consegue ser buindo para o retumbante êxito que
mas que dão uma ideia do mundo um marco gastronómico e um su- foi o desembarque na praia de Cace-
em que estamos: o da invenção culi- cesso de público e de crítica há qua- la do duque da Terceira à frente de
nária em que é necessária uma lupa se 30 anos. No último fim-de-sema- um contingente de 2.500 homens
para nos sentarmos à mesa. na do mês que passou, o Azinhal no dia 24 de Junho de 1833. Mas
Há quem vá do mar à serra só para montou a sua feira anual, Terra de achei por bem não perguntar e foi
comer bolos no Azinhal. Só e não só, Maio, e a aldeia veio para a rua co- melhor assim.
convenhamos, porque o passeio é mer e beber, bailar até às tantas e
bonito e a estrada é boa. Os 30 quiló- vender de tudo um pouco. E, tam- Numamanhãdestas, um forasteiro
metros do IC 27, que liga Castro Ma- bém, ensinar diligentemente aos fo- vindo do Norte da Europa fotografa-
rim a Alcoutim, fazem-se num virote rasteiros as maravilhas do “produto” va cerimoniosamente a placa da Rua
cruzando aquela mancha ondulante animal mais único e mais amado da Abû Al-Abdarî em Cacela Velha. Rua
de cerros paralelos à linha da costa, a região, a lindíssima cabra algarvia. O Abû Al-Abdarî, poeta do século XI
paisagem única do barrocal algarvio. queijo está visto que nunca falta na nascido em Cacela, é basicamente o
Quando chega o calor logo desperta Terra de Maio. Aliás, nada lhe falta. que lá está escrito contra um esplen-
o odor áspero-enebriante da esteva Nem sequer uma carripana a vender doroso fundo de cal. Feita a fotogra-
e por aqui diz-se que, finalmente, farturas à porta do recinto da festa. À fia o homem juntou-se à mulher que
está o Verão instalado. Não é o ca- hora que lá passei não estavam com o aguardava na esplanada do café da
lendário que define a estação. É o muita saída, o que não admira por- Isabel, sentaram-se a uma mesa,
cheiro da esteva. O Azinhal é uma al- que ainda era cedo para tudo, espe- pediram sumos de laranja que não
deia na serra. Tem igreja matriz, tem cialmente para fritos. FAMÍLIA NA- demoraram a chegar. Mas demorou
casa do povo, tem escola de acor- PIER, podia-se ler em letras bem de- algum tempo até que os forasteiros
O deão, tem centro hospitalar (de cui- senhadas, no topo da carripana. Tra- se interessassem minimamente pe-
Jornalista dados continuados) e tem A Prova, ta-se de uma empresa familiar que los sumos de laranja que encomen-
Leonor uma pastelaria que desde 1991 impôs percorre todas as festas e arraiais do daram tendo em conta que nem
Pinhão o Azinhal como lugar de referência Sotavento com o seu negócio ambu- um nem outro tiravam os olhos do Q

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Coca-Cola, Coca-Cola Zero, Coca-Cola Light e a garrafa contour são marcas registadas de The Coca-Cola Company

Produzida e apreciada
em Portugal desde 1977.
A Coca-Cola em Portugal contribui para a criação de mais de 5 mil postos de trabalho diretos e indiretos
e participa ativamente na cultura e junto da comunidade.
As nossas bebidas não só fazem parte do dia-a-dia dos portugueses há décadas como também criam
valor local: 90% destas bebidas são produzidas na nossa fábrica, localizada em Setúbal.

www.cocacolaportugal.pt
27 JULHO 2017
Opinião www.sabado.pt

Q visor da máquina onde, diligente- mente a esplanada porque era a risco de colapso levando na sua ruí-
mente, o fotógrafo fazia desfilar para hora do mata-bicho. na a extensão final da Ria Formosa
a sua cara-metade o rol de imagens Entre 1998 e 2007, foram realiza- que hoje tem o seu termo na Manta
de uma manhã de feitios arabizados das escavações arqueológicas que Rota mas que num passado não
no Sul da Ibéria. trouxeram à luz do dia estruturas muito distante se prolongaria até
Notando o interesse que eu via no habitacionais de uma antiga e es- Huelva em plena orla andaluza.
interesse deles, a mulher perguntou- plendorosa Cacela islâmica. O que “A reabilitação do cordão dunar é
-me sem rodeios: hoje é uma aldeia com meia dúzia fulcral para a preservação dos domí-
– Não têm medo? de habitantes foi, há mais de mil nios da Ria Formosa tal como a Natu-
– Medo de quê? anos, um importante centro da ocu- reza a impôs ao longo de séculos no
E, apontando para a placa toponí- pação árabe no Al-Gharb andaluz, quadro natural da costa marítima”,
mica de homenagem ao poeta Abû tal como já tinha sido da ocupação diz-nos Teresa Patrício que foi fun-
Al-Abdarî, explicou-se melhor: romana. Cacela foi tomada pela co- dadora da ADRIP-Associação de De-
– Dos árabes. Não têm medo de roa portuguesa em 1240, foi perdida fesa, Reabilitação, Investigação e
que tentem voltar? É que estão tão e depois recuperada por Paio Peres Promoção do Património Natural e
perto… – e, dito isto, apontou com Correia em 1242 e, em 1283, recebeu Cultural de Cacela. Assim, actual-
veemência para o outro lado do mar. foral do Rei D. Dinis outorgando a mente, a ameaça maior a Cacela não
Era uma sueca bem aprumada que todos os seus habitantes e comer- vem dos “mouros na costa”, como te-
trabalhara na organização Médicos ciantes as mesmas regalias concedi- mia a nossa simpática turista sueca
Sem Fronteiras, disse-me depois. das à cidade de Lisboa. Cacela foi sugestionada pelos traços arabizados
Parecia uma mulher do vasto mun- brutalmente danificada pelo terra- da aldeia e pela conjuntura global,
do, sem falhas na educação e sabe- moto de 1755 e, em ruínas, perderia mas da acção destruidora da mão do
dora de muitos assuntos ponderosos todos os seus poderes e regalias homem moderno portucalense. Em
porém, naquela precisa manhã, pos- para Vila Real de Santo António, 2003, a abertura de uma barra artifi-
ta pelas circunstâncias num lugar acabada de construir pelo Marquês cial em frente ao forte de Castela “de-
exótico da “pobre e desgraçada” Eu- de Pombal segundo o modelo revo- cidida sem estudos de impacto e sem
ropa viu-se tomada de medo de que lucionário que viria a inspirar a pos- jurisdição que a suportasse” não só
os “árabes” desembarcassem ali em terior edificação da nova cidade de matou a maior parte dos viveiros de
baixo na Ria Formosa e reclamas- Lisboa. ostras como transformou lamenta-
sem o que já fora seu. velmente aquilo que era uma sólida
– Não tenha medo, os árabes so- No seu primeiro século já como língua de areia escorada num exten-
mos nós… – respondi-lhe cheia de parte integrante do território portu- so cordão de dunas num inóspito
uma boa vontade pró-turística que guês, Cacela foi inúmeras vezes ata- areal imenso que, na maré baixa, se
a divertiu sobretudo quando, cada por mar por “piratas” vindos atravessa pacatamente caminhando
olhando pela primeira vez em re- do Norte de África, certamente in- sobre o leito da ria que, neste estado,
dor, teve finalmente o ensejo de ob- consoláveis com a sua perda. No seu se apresenta extraordinariamente
servar cara a cara a tipologia domi- poema A Conquista de Cacela, Sofia convidativo para “um turismo de
nante dos homens nativos que, na- de Mello Breyner (1919-2004) diz- massas com o seu imparável cortejo
quele momento, enchiam ruidosa- nos que, ao contrário de outras de agressões ambientais”, prossegue
“praças-fortes” e “cidades do mar” Teresa Patrício.
que foram conquistadas pelo seu Defronte a Cacela, a Ria está hoje
poder e pela sua “riqueza”, Cacela entregue aos cuidados de uns quan-
“foi desejada só pela beleza”. Opi- tos indefectíveis seus defensores
nião bem diferente teve da paisa- que, sazonalmente, se organizam
gem da Ria Formosa o jornalista e romanticamente para recolher ma-
escritor Raul Proença (1884-1941) nualmente o lixo que os seus visi-
quando a visitou nos anos 20 do sé- tantes deixam a céu aberto e sem
culo passado: “Oferecem muito pinga de remorsos. Cacela transfor-
pouco interesse as praias do Sota- mou-se num êxito de multidões,
vento, separadas do mar por uma num tema apelativo para as revistas
cortina de ilhas arenosas e banha- especializadas em lazer e em via-
das por uma água azul-cobalto a gens exóticas e num ponto turístico
que falta o rebentar das ondas e o excitante para os seus autarcas. Mas,
babujar da espuma.” A “cortina” na realidade, Cacela e a sua Ria For-
monótona a que Proença se referia, mosa olham com pavor não para os
com algum desdém, na sua obra berberes do outro lado do mar, mas
Guia de Portugal publicada em 1927 para mais um Verão que se apresta a
pela Imprensa Nacional, está nesta chegar trazendo consigo as suas
STILLS

segunda década do século XXI em hordas fatais. W

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Portugal 27 JULHO 2017
www.sabado.pt

OPERAÇÃO MARQUÊS. ZEINAL BAVA DIZ QUE VAI DEVOLVER O DINHEIRO


20 de Fevereiro deste

BAVA, A ano, o Ministério Público


(MP) contactou por tele-
fone e por fax o advoga-
do José António Barrei-
ros. O objectivo era avisá-lo que o
cliente, o “suspeito” Zeinal Bava, anti-

AMARIONETA
go administrador e presidente da Co-
missão Executiva da Portugal Telecom
(PT), SGPS, estava notificado para ser
interrogado como arguido no âmbito
da Operação Marquês. A data anuncia-
da pelo MP não deixava margem para

DE SALGADO dúvidas sobre a urgência do acto judi-


cial a realizar nas instalações do De-
partamento Central de Investigação e
Acção Penal (DCIAP) em Lisboa: 24 de
Fevereiro, a partir das 10h.
Nesse dia da notificação de Bava, o
No interrogatório, o Ministério Público acusou o antigo procurador Rosário Teixeira fez duas
gestor da PT de se deixar instrumentalizar por Ricardo outras diligências: convocou também
Salgado e de receber 25,2 milhões de euros. Para dar Henrique Granadeiro, tendo especifi-
cado que o antigo chairman e presi-
muitos milhões a ganhar ao BES. Por António José Vilela dente-executivo da PT seria interroga-
do também quatro dias depois, mas da
parte da tarde; e mandou pedir várias
informações e documentação à PT
ZEINAL BAVA Prestações, nomeadamente os dados
sobre as participações detidas ou geri-
“Não é pagar! Sr. procurador, das por aquela entidade no ex-BES e
permita-me corrigir o termo.” as aquisições realizadas nos aumentos
de capital social daquele banco, “com
ROSÁRIO TEIXEIRA datas e montantes de subscrição”.
“É outro termo que a gente Após receber a notificação, o advo-
gado contactou Bava em Londres –
tem de perceber.” o gestor de 51 anos, e natural de Mo-
O EX-GESTOR A RESPONDER AO PROCURADOR SOBRE
çambique, vivia em Hyde Park, em
A TRANSFERÊNCIA DE 6,7 MILHÕES DE EUROS RECEBIDA South Kensington – e respondeu
DE RICARDO SALGADO EM DEZEMBRO DE 2007 logo na tarde do dia seguinte. Fê-lo
também através de um fax e por car-
ta entregue pessoalmente no DCIAP,
tendo informado o procurador Rosá-
rio Teixeira que o cliente, apesar de
viver no estrangeiro, iria comparecer
“voluntariamente na data fixada”. E
foi isso que sucedeu, tendo o gestor
sido constituído arguido por crimes
de corrupção passiva para acto con-
trário aos deveres do cargo, bran-
queamento de capitais e fraude fis-
cal qualificada. Na altura, Bava foi
interrogado por cinco investigado-
res: os procuradores Rosário Teixei-
ra, Inês Bonina e Filipe Costa e os
inspectores tributários Paulo Silva e
António Ferreira. Foi um confronto
explosivo, que durou mais de quatro
horas e que SÁBADO resume nas pá-
ginas seguintes. W

51
Portugal

C omo já se tornou habitual nos inter-


rogatórios da Operação Marquês, o
procurador Rosário Teixeira sentou-
-se em frente ao novo arguido e
anunciou que ia começar por lhe “ler
os factos”. Mas à indiciação judicial,
que continha a referência a inúmeros
actos suspeitos do visado e a enume-
ração da eventual prática de três ti-
pos de crimes, o magistrado do Mi-
nistério Público (MP) começou por
chamar apenas um “resumo da ma-
téria que a gente aqui tem” e uma
nhou os negócios Vivo/Oi], bem
como devido a depoimentos incrimi-
natórios de testemunhas e documen-
tos de contas bancárias suíças, o MP
reservou-se no direito de não apre-
sentar a listagem exacta das provas
durante o interrogatório. Mas revelou
a Bava o que pensava: “(…) aquilo que
está aqui em causa é a proximidade
entre determinados actos e o accio-
nista BES, que coincide com uma sé-
rie de pagamentos que vão ser rece-
bidos por si em diversas contas, entre
“definição do objecto da nossa con- estes anos 2007 e 2012 (…)”
versa e não uma posição final nossa Já no fim da indiciação, Rosário
relativamente aos factos”. Teixeira acrescentou mais um dado
A estratégia do MP era que Zeinal em tom informal: “(…) aquilo que está
Abedin Mahomed Bava, o antigo po- aqui em causa é a ligação entre uma
deroso presidente e administrador coisa e a outra e daí a imputação que
do grupo Portugal Telecom (PT), lhe é feita. Penso que terá mais ou
aceitasse falar sobre os intervenien- menos percebido.” O procurador re-
tes e as conversas de bastidores de Segundo esta tese que está a ser in- feriu-se aos já citados negócios da
vários negócios polémicos da PT e g vestigada há longos meses na Opera- PT e a três transferências recebidas
O antigo
que também pudesse defender-se, banqueiro Ricardo
ção Marquês, são vários os alvos sus- por um offshore de Bava com contas
sobretudo de uma suspeita principal: Salgado é suspei- peitos da prática de crimes: a come- na Suíça e em Singapura. O primeiro
que teria aceitado ser instrumentali- to de corromper çar pelo próprio Ricardo Salgado, pagamento aconteceu a 5 de De-
Zeinal Bava e
zado pelo banqueiro Ricardo Salgado José Sócrates
que terá também corrompido o en- zembro de 2007: 6,7 milhões de eu-
a troco de um pagamento total de na Operação tão primeiro-ministro José Sócrates ros. Outro, de 8,5 milhões de euros,
25,2 milhões de euros. Marquês para que este autorizasse em 2010 a ocorreu a 19 de Janeiro de 2011. O úl-
Em troca, o gestor terá ajudado o venda da Vivo à operadora espanho- timo foi a 20 de Setembro de 2011 –
BES a ganhar centenas de milhões de la Telefónica, gerando dividendos 10 milhões de euros. O remetente foi
euros entre 2006 e 2012 (no interro- milionários para os accionistas da PT, sempre uma entidade que não surgia
gatório a que a SÁBADO teve acesso, que detinham metade da empresa no organograma oficial do grupo
o MP não quantificou com exactidão brasileira. Ao mesmo tempo que ale- BES/GES: a ES Entreprises, com conta
estes valores). Precisamente quando gadamente subornava Sócrates, Sal- no Banque Privée Espírito Santo.
decorreu a OPA falhada da Sonae à gado terá distribuído milhões de eu- Depois de uma pausa para Bava
PT, a cisão da PT Multimédia (depois ros a Bava e a Henrique Granadeiro, reunir com o advogado José António
intitulada Zon e actualmente Nos) e os homens que mandavam na PT. Barreiros, o interrogatório recome-
os negócios de compra e venda das No interrogatório de 24 de Feverei- çou praticamente com uma declara-
operadoras de telecomunicações O MINISTÉ- ro passado, o MP centrou-se apenas ção do arguido: “(…) do vosso docu-
brasileiras, respectivamente, a Tele- RIO PÚBLICO num destes antigos gestores: “Os mento e que do meu ponto de vista
mar/Oi e a Vivo. INDICIOU montante recebidos em 2007 e 2011 precisa de vários esclarecimentos,
De resto, para o MP, o domínio da ZEINAL BAVA pelo arguido Zeinal Bava com ori- porque acho que há inverdades, há
PT pelo BES/GES será até bem mais POR COR- gem na ES Entreprises, depois desi- pressupostos que, face àquilo que eu
antigo, tendo começado com um RUPÇÃO, gnada Entreprises Management Ser- posso dizer, podem-vos levar a pen-
acordo assinado em 2000, uma par- FRAUDE FIS- vices, num total de 25,2 milhões de sar as coisas de outra forma. OK?”
ceria usada pelo “arguido Ricardo CAL E BRAN- euros, não lhe eram legitimamente A frase fazia supor que a sessão de
Salgado, em representação do accio- QUEAMENTO devidos destinando-se a compensar perguntas e respostas decorreria por
nista BES”, para “instrumentalizar a a sua actuação indevida em adesão temas ou seguindo uma linha tempo-
PT em benefício do Grupo BES”. aos interesses do BES na administra- ral, mas isso acabou por não suceder.
Através disto, Salgado terá consegui- O ANTIGO ção da PT e em oposição aos seus Durante as cerca de quatro horas de
do “implementar na PT uma política GESTOR DA deveres profissionais, designada- interrogatório, foram muitos os saltos
de aplicações financeiras da PT no PT É SUSPEI- mente à defesa dos interesses co- temporais e as tentativas do MP de
Grupo BES, que beneficiou financei- TO DE RECE- merciais e financeiros do Grupo PT.” retomar os assuntos mais polémicos:
ramente este accionista, por ser con- BER 25,2 Depois de especificar que os indí- Salgado, Sócrates e o dinheiro.
trária à gestão racional das disponi- MILHÕES DE cios contra o gestor resultavam de
bilidades financeiras da PT e não as- EUROS DO várias apreensões de documentos ao RosárioTeixeira (RT): “Pronto? Pri-
sentar na concretização dos interes- BES ENTRE próprio arguido, à PT e ao BESI [o meiro pagamento?”
ses deste grupo”. 2007/11 banco de investimento que acompa- Zeinal Bava (ZB): “OK, o que é que

52
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

“Tal como o dr. Ricardo me


disse que tinha convidado
isso, então, faz essa transferência’.
pessoas, não é? Antes de eu ser Essa transferência não foi dinheiro
presidente da PT (...), por isso que me foi dado, essa transferência
era dinheiro [os primeiros 6,7 mi-
não me estava a dar nada que NO INTER- lhões de euros], se quiser, confiado,
não tinha oferecido a outros!” ROGATÓRIO, era dinheiro que tinha um propósito
ZEINAL BAVA específico, que era comprar e criar
ZEINAL BAVA SOBRE OS MAIS DE 25 MILHÕES DE EUROS RESPONDEU uma participação na PT, quando a
QUE RICARDO SALGADO LHE TERÁ MANDADO TRANSFERIR A TODAS AS empresa ficasse privatizada (...)”.
PARA CONTAS DE UM OFFSHORE
PERGUNTAS Nessa altura, segundo Bava, o di-
DOS CINCO nheiro foi-lhe transferido pelo
acontece? Nós, em 2007, a OPA [ten- achou uma boa escolha e nos con- INVESTIGA- BES/GES sem qualquer contrato es-
tativa de compra da PT pela Sonae- tactos que eu mantive com o dr. Ri- DORES crito, com o gestor a garantir ao MP
com] fica resolvida e, nessa altura, cardo Salgado (...) disse que via com que nunca se sentiu bem com a si-
coloca-se a questão de se eu vou fi- bons olhos que eu – e quem eu es- tuação e que sempre insistiu com
car na PT Multimédia, se eu vou ficar colhesse – pudesse ficar mais com- Salgado para que tudo ficasse regis-
na PT (…) E o dr. Henrique Granadei- prometido com o projecto (…) Eu E GARANTIU tado no papel. O que só terá aconte-
ro, nessa altura, convida-me… ah… não fui a primeira escolha, não sei QUE TINHA cido vários anos depois e com outras
para ficar como vice-presidente da quem foram as outras pessoas, mas INTENÇÃO transferências. O procurador Rosário
PT, com a vontade que eu passasse a aparentemente houve outros convi- DE Teixeira vincou: “Este dinheiro está
ser presidente [no ano seguinte], até tes que tinham sido feitos e essa DEVOLVER na sua posse desde 2007! Os 6,7 mi-
porque, como disse, foi uma exigên- questão de dar a hipótese às pes- O RESTO DO lhões de euros.”
cia física e pessoal muito grande p’ra soas de poderem ter uma participa- DINHEIRO ZB: “Sr. Procurador, eu acabei de lhe
ele acumular as funções (…) Ah, natu- ção na PT já tinha sido aflorada e, RECEBIDO dizer a si, que eu fiquei desconfortá-
ralmente, o dr. Ricardo Salgado… ah… então, eu disse ‘olhe, vamos fazer DO BES/GES vel, pedi p’ra formalizar e p’ra Q
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DE MANHÃ, BEBO SEMPRE


UMA DOSE DE CONFIANÇA.

PRODUTOS
OS É À CONFIANÇA
CONTINENTE
TE

53
Portugal

Q mim a formalização englobava, se h


você quiser o relacionamento (...)” José Sócrates era
o líder do Governo
RT:“Compreenderá que é diferente quando a PT, lide-
pagar uma remuneração por fora a rada por Zeinal
um funcionário, que não deixará de Bava e Henrique
Granadeiro, ven-
ser grave, a um qualquer colaborador deu a operadora
do BES, do que pagar a um CEO brasileira Vivo
duma empresa...”
ZB: “Não é pagar!”
RT:“... participada.”
ZB: “Não é pagar! Sr.
Procurador, permita-
-me corrigir o termo.”
RT: “É outro termo que
“E só houve essa
a gente tem de perce- reunião em S. Bento?
ber.”
ZB: “Não é pagar!”
Não houve uma outra
RT:“O que é que era em que tenha ido a casa
p’ra ser feito com este
dinheiro?”
do eng.º José Sócrates?”
ZB: “É exactamente PERGUNTA DO PROCURADOR ROSÁRIO TEIXEIRA
aquilo que está no A QUE ZEINAL BAVA RESPONDEU “JAMAIS”
contrato! Que era eu,
num determinado mo-
mento...”
RT: “Fica como fiduciário...”
ZB: “Eu, num determinado momen-
to, iria transformar isto num investi-
mento na PT, OK? E iria agregar à ZB: “Sim.” FilipeCosta (FC): “Telefonou-lhe,
minha volta um grupo de pessoas e IB: “Antes disso não […]” na altura, a perguntar...”
nós iríamos ter exposição através de ZB: “Mas eu não recebi o dinheiro. O ZB: “O dr. Ricardo, naquela altura,
derivativos [um derivativo é um con- dinheiro foi-me confiado” [...] você já... você, veja lá, quando é que
trato entre várias partes, que se pode IB: “Mas como é que tem um contra- estamos: estamos em Outubro de
transaccionar e cujo preço está de- to com um accionista sobre a PT?” 2014 [Salgado já tinha sido afastado
pendente do valor de um ou mais ZB: “Foi-me confiado! (...) Tal como o pelo Banco de Portugal da liderança
activos], tal como acontece em múl- dr. Ricardo me disse que tinha convi- do BES].”
tiplas outras situações no mundo...” dado pessoas, não é? Antes de eu ser FC: “Mandou-lhe a carta p’ra onde?”
InêsBonina (IB): “Porque é que não presidente (...), por isso não me esta- ZB:“Mandei-lhe... acho que foi p’ro
fizeram isto claramente?” BAVA va... não me estava a dar nada que banco [sede do BES], também.”
ZB: “Diga?” REVELOU AO não tinha oferecido a outros!” FC: “P’ro banco?”
IB: “Em empresas normais, sem ser FISCO QUE IB: “Mas o facto de ter oferecido a ZB: “Mandei p’ro banco. Como já lhe
em offshores, e às claras? Porque é TINHA MAIS outros não torna a conduta lícita, an- disse a si, a casa dele eu só fui o quê?!
que isto foi uma coisa escondida?” DE 11 tes pelo contrário...” Uma, duas vezes ou três.”
ZB: “Não é uma coisa escondida!” MILHÕES De seguida, Zeinal Bava garantiu
IB: “Então, porque é que o sr. recebe ESCONDIDOS OsencontrosdeBava eSalgado várias vezes que sempre teve a in-
este dinheiro numa conta e o titular é NO ESTRAN- No interrogatório, Zeinal não se can- tenção de devolver todo o dinheiro,
uma empresa, que nem sequer ‘tá li- GEIRO sou de dizer que era inocente, insistiu tal como acabou por fazer com os
gada a si?” que lhe tinham dado a “confiança” 18,5 milhões de euros também rece-
ZB: “Eu declarei desde logo... assim de um “valor” e optou por entrar nas bidos do BES/GES. Os investigadores
que levantaram o tema, eu disse que tentativas que terá feito para devol- aproveitaram e voltaram à carga.
era o beneficiário único da empresa.” O DINHEIRO ver os milhões a Ricardo Salgado: “Mas se é esse o propósito, se era de-
IB: “Assim que levantaram o tema DECLARADO “Tentei devolver! ‘Tou-lhe a dizer volver tudo, porque é que o sr. engº.,
[Bava fez uma regularização fiscal ex- NA REGULA- que, em 2013, eu mandei uma carta a sabendo que tem seis ponto sete [mi-
traordinária em Maio de 2012, tendo RIZAÇÃO FIS- dizer...” E ainda salientou que fez lhões de euros] em Singapura...”, co-
declarado que escondera no estran- CAL DE 2012 nova tentativa, mas quando concluiu meçou a perguntar-lhe Paulo Silva.
geiro €11.545.860 e, em 2016, devol- NÃO INCLUIU a explicação, os investigadores pare- Mas o advogado José António Barrei-
veu outros 18,5 milhões de euros, que OS MILHÕES ceram ainda mais desconfiados. ros reagiu de imediato e cortou a fra-
tinha nas contas de um offshore, à SUSPEITOS ZB: “A minha carta p’ra ele? [Salgado] se ao inspector tributário – “Não!
massa insolvente do GES].” DO BES/GES Sim, foi a título privado. Não foi...” Não!”, disse. Paulo Silva insistiu:

54
UM MUNDO DE ESPETÁCULOS 27 JULHO 2017

A PENSAR EM SI!
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M/6 M/6

“O eng.º Sócrates, a
mim, nunca me
transmitiu nada.
Nada! Porque eu
não falava com o 17 AGOSTO
eng.º Sócrates.” COLISEU LISBOA
BENHARPER.COM
DURANTE O INTERROGATÓRIO,
ZEINAL BAVA DISSE QUE
M/6
O INTERLOCUTOR DO PRIMEIRO-MINISTRO
NA PT ERA HENRIQUE GRANADEIRO

“Porque é que não os entregou?” [...]


JoséAntónioBarreiros(JAB): “Isso
são duas coisas completamente dis-
tintas. Uma é o vosso ponto de vista e
é ‘porque é que tu só pagas isto e não M/6

pagas y?’”
Como Bava regressou por breves
instantes à conversa, isso foi aprovei-
tado pelos investigadores para cana-
lizarem as perguntas para o gestor.
“O dinheiro que tinha de devolver
não eram 18 milhões, o dinheiro que
tinha de devolver eram 24 milhões”,
afirmou o procurador Filipe Costa. O
advogado de Bava insistiu nos 18 mi-
lhões, mas o magistrado de Coimbra M/6 M/6

não desistiu e, mais adiante, insistiu


na questão: “O que eu queria ouvir,
até da boca do arguido, era porque é
que resolveu devolver apenas 18,5
milhões quando sabia que tinha 24,5
milhões?” O inspector Paulo Silva
corrigiu de imediato: “25,2.” E Zeinal
Bava lá acabou por responder: “Pelas COLISEUS
mesmas razões... pelas mesmas ra- 13 NOV PORTO
zões que eu não devolvi o dinheiro
em Maio [2015], porque não tinha a 14 NOV LISBOA
segurança jurídica para.”
PauloSilva (PS): “Ai, teve segurança
p’ra 18 e meio e não tinha p’ros 25 e M/6
meio?” […]
ZB:“O valor foi pago... uh... manteve-
-se... o diálogo está em aberto, não é?
Ou seja, não é um processo que se
encerrou, é um diálogo que está em
aberto (…)”
FC:“O sr. engº nunca lhes disse [aos
gestores da insolvência do GES]
‘olhe, mas eu não tenho 18 mi-
lhões e meio, tenho 20, 20 e tal’. Q
SAIBA MAIS SOBRE ESTE E OUTROS ESPETÁCULOS EM EVERYTHINGISNEW.PT
BILHETES: FNAC, WORTEN, EL CORTE INGLÉS E WWW.EVERYTHINGISNEW.PT 55
Portugal

Q Eles provavelmente diziam ‘então,


dê-nos cá os 25’” […]
ZB: “Eu devolvi aquilo que eu, legal-
mente, senti que fazia sentido devol-
ver com as garantias que tinha. Se
me disser ‘está disposto a devolver o
resto?’, absolutamente disposto a re-
solver... a devolver o resto.” […]
JAB:“Esta resposta é um bocado...
convinha sublinhá-la. A última frase.
Estou disposto a devolver mais...”
ZB:“Exactamente! Não tenho pro-
blema nenhum!”
JAB: “Isso é importante. Esse
princípio.” […]
ZB:“Provavelmente voltaremos a fa-
lar, mas de qualquer maneira, eu di- g
ria o seguinte e queria deixar isso
muito claro: entendo que isto pode
Os procuradores
Carlos Filipe e “Sr. eng.º, diga-me só uma
ter interpretações, mas eu devolvi o
Rosário Teixeira
(ao centro) e o coisa? (...) Tem conhecimento
dinheiro. Eu devolvi os juros. Eu te-
nho um recibo. Eu ‘tou aberto a re-
inspector Paulo
Silva (à dir.ª) que de algum outro elemento
solver o resto (…)”
integram a equipa
da Operação da Administração da PT
RT: “Sr. engº, diga-me só uma coisa?
(…) tem conhecimento de algum ou-
Marquês
que recebeu igual proposta
tro elemento da Administração da PT do investidor...”
que recebeu igual proposta por parte
PROCURADOR ROSÁRIO TEIXEIRA A QUESTIONAR
do investidor...” ZEINAL BAVA SOBRE O DINHEIRO RECEBIDO DO BES/GES.
ZB: “Não, não tenho. Não tenho.” O GESTOR DISSE “NÃO”
O procurador Rosário Teixeira conti-
nuou a insistir na relação financeira
entre Bava e Salgado. O inspector tri- nenhuma intervenção, o sr. engº com na OPA, foi: ‘esta decisão tem de ser
butário Silva ajudou-o a dar o passo o dr. Ricardo Salgado?” dos accionistas’”, recordou Bava
seguinte: “O seu presidente daquela ZB: “Sim, senhora.” alertando que a decisão final da ven-
altura [Henrique Granadeiro] ficou a da tinha de ser dos donos da PT.
conhecer este acordo seu...” AintervençãodeSócrates O negócio não avançou e a Telefó-
ZB: “Não! Não, porque o contrato Durante a atribulada sessão nas ins- nica chegou a uma oferta de 7,050
era confidencial. Eu não tinha, não talações do DCIAP, Zeinal Bava falou biliões de euros. Bava garantiu aos
tinha autorização p’ra falar com ZEINAL BAVA de forma pormenorizada de inúme- investigadores que a empresa tinha
ninguém (...)” RECONHE- ros encontros confidenciais verifica- pareceres jurídicos a dizer que na-
RT: “O dr. Henrique Granadeiro não CEU QUE dos durante o complexo processo de quele caso a golden share do Estado
sabia disto?” RECEBEU 6,7 venda da operadora de telecomuni- não se aplicava e que também julgou
ZB: “Não! Nem o Granadeiro, nem MILHÕES DE cações brasileira Vivo. Por exemplo, que o Governo não teria qualquer re-
ninguém (…)” EUROS SEM contou um jantar “desagradável” serva sobre aquela matéria. Só que o
A questão do segredo manteve-se QUALQUER ocorrido em 2010 no Hotel da Lapa negócio não passou por vontade do
durante algum tempo nos diálogos, CONTRATO com o homem-forte da espanhola Governo. “(…) saímos de lá completa-
com Zeinal a salvaguardar-se no ESCRITO Telefónica, César Alierta, em que os mente estarrecidos, a pensar ‘mas e
que estaria previsto nos contratos espanhóis lhe fizeram uma oferta agora?’, não é?”, disse Bava com o
assinados com o BES/GES. Paulo inicial pela Vivo: 5 mil milhões de inspector Paulo Silva a lembrar-lhe
Silva não ficou convencido e lem- euros. Esta terá sido a primeira licita- que, porventura, a decisão até iria ao
brou-lhe que em 2007 não havia O GESTOR ção, tendo depois ocorrido novas encontro daquilo que o antigo gestor
qualquer contrato sobre os 6,7 mi- GARANTIU propostas em discretos encontros da PT dizia que defendia: a Vivo não
lhões de euros. Zeinal não hesitou QUE ESCRE- realizados em Marrocos e em Lisboa, deveria ser vendida.
na resposta: “O compromisso de VEU PARA A numa luxuosa suíte do Hotel Ritz. “E ZB: “Vou-lhe dizer uma coisa! A mi-
confidencialidade é independente SEDE DO BES dessa reunião, o que é que sai? Nós nha posição era, se quer que lhe diga,
de a gente assinar o papel ou não. A DIZER QUE vamos aumentar o preço para seis bi essa – não vamos vender! Mas a de-
Se você me disse assim ‘isto é con- QUERIA e meio e vocês obrigam-se a convo- cisão é dos accionistas! Uma coisa é
fidencial’, é confidencial! (...)” DEVOLVER car uma Assembleia-Geral porque a o que eu acho, outra coisa é quem
PS:“Isto foi directamente sem mais OS MILHÕES posição do Conselho da PT, tal como manda. ‘Tá? E quem manda não é

56
27 JULHO 2017
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um accionista, desculpe lá! São os o conteúdo da conversa com o pri- se tinha tido outras reuniões com
accionistas (…) A partir daí cai o Car- meiro-ministro. “(…) o tema é o se- Sócrates, algumas semanais e uma
mo e a Trindade. Como é que a gente guinte… o tema… o tema… o tema da delas na casa do líder do Governo:
vai tratar deste assunto? A Telefónica conversa com o sr. primeiro-ministro “E só houve essa reunião em S.
dá-nos 15 dias…” foi dizer como é que estavam as coi- Bento? Não houve outra em que te-
A conversa sobre o tema prometia ZEINAL BAVA sas e agora ‘tou-lhe a falar de memó- nha ido a casa do engº José Sócra-
alongar-se, mas Rosário Teixeira SALIENTOU ria. Ah… quer dizer, os espanhóis ti- tes?”, perguntou Rosário Teixeira.
estava mais interessado em voltar à AOS PROCU- nham de pagar mais…”, disse por fim “Jamais”, respondeu Bava e garan-
questão da golden share e a uma RADORES Bava com Rosário Teixeira a insistir tiu que nem sequer sabia exacta-
eventual reunião que o gestor teria QUE NÃO SE se Sócrates teria realmente insistido mente onde morava Sócrates e que
tido com o Governo e José Sócrates. ARREPENDE num aumento do preço da venda da nem tivera “grande intervenção” no
Bava pareceu protelar a resposta, DE NADA DO Vivo e na eventual sugestão da com- encontro em S. Bento.
disse que não, antes da golden share QUE FEZ pra da Oi. “O engº Sócrates, a mim, O inspector Paulo Silva impacien-
de 2010, não. O procurador insistiu e NA PT nunca me transmitiu nada. Nada! tou-se – “Ó sr. dr…” Muitos minutos
quis saber se teria estado logo depois. Porque eu não falava com o engº Só- depois, Bava concluiu o testemunho:
E Bava confirmou que tinha ido com crates”, disse Bava. “(...) mas queria deixar claro que, em
Henrique Granadeiro ao Palácio de S. NO FIM DO Durante longos minutos, os inves- relação a tudo que a gente falou so-
Bento, para uma reunião com Sócra- INTERROGA- tigadores não se deram por satisfei- bre decisões da OPA, na venda da
tes e o ministro Pedro Silva Pereira. TÓRIO, FOI tos com as respostas e ficaram im- Vivo, no reajustamento da Vivo, etc,
“O que é que se passou , então, nessa DITO A BAVA pacientes quando julgaram que o em nada, em nada eu faria diferente
reunião?”, perguntou o procurador. QUE AINDA gestor era pouco ou nada claro. A do que aquilo que fiz. OK? Em nada.”
As explicações do gestor foram PODERÁ SER mesma pergunta, com variações, Rosário Teixeira fechou a sessão
confusas, quase atabalhoadas, com NOVAMENTE sucedeu-se: “Qual foi o objectivo da anunciando que era provável que
os dois inspectores tributários e os CHAMADO reunião com o primeiro-ministro…” Bava fosse de novo interrogado.
três procuradores a insistirem sobre AO MP Bava chegou até a ser questionado “Para continuarmos”, concluiu. W
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Noronha
da Costa
modos
do olhar
CENTRO
CULTURAL
DE CASCAIS
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10 DE SETEMBRO ‘17
Apoio: Organização:

Centro Cultural de Cascais de terça a domingo das 10 às 18 horas


Av. Rei Humberto II de Itália, 16 - 2750-800 Cascais 57
Tel. 214 815 660 - E-mail: geral@fdl.pt - www.fundacaodomluis.pt
Portugal

ro angariado pelo Millennium bcp


(420.000 euros), o Santander Totta
(500.000) e o apoio anunciado
pelo Governo de Timor Leste (1,3
milhões). Sem que assinem os ter-
mos de adesão com o Revita, esses
montantes não poderão ser desblo-
queados. No caso da Fundação Aga
Khan, a doação de 500.000 euros
destina-se à atribuição de bolsas
para estudantes.
A este problema ainda se somam
as burocracias. O regulamento do

LUSA
Revita prevê que a concessão do
apoio careça da apresentação de
PEDRÓGÃO GRANDE. UM MÊS APÓS OS FOGOS um requerimento num formulário
próprio devidamente preenchido e

O DINHEIRO QUE assinado pelo proprietário ou pelo


usufrutuário. E ainda mais papela-
da variável em função do tipo de
intervenção: comprovativos de ti-

TARDAACHEGAR tularidade da casa, orçamentos (um


para obras até 5.000 euros; três
para as que excedam essa quantia),
memórias descritivas, prazos de

AQUEM PRECISA execução e alvarás de licença.

A resposta imediata no terreno


Para que o dinheiro chegue mais
As misericórdias e a Gulbenkian assumem a primeira fase de rápido a quem precisa, foi assinado
reabilitação de casas. O fundo do Estado ainda aguarda por a 17 de Julho um protocolo entre o
Instituto da Segurança Social (cujo
donativos recolhidos pelos bancos. Por Octávio Lousada Oliveira representante, Rui Fiolhais, preside
ao Revita), a UMP e a Gulbenkian
para que as necessidades imediatas
de reabilitação e apetrechamento
das casas (mobiliário, electrodo-
a pergunta que muitos fa- g de reconstrução e cerca de 2,5 mi- mésticos, utensílios) sejam assegu-

É zem: porque é que o dinhei- Segundo Rui lhões para reabilitação, isto é, para radas, bem como aquelas que se-
Fiolhais, 185
ro para a reconstrução e casas de primeira intervenções mais simples. Porém, jam consideradas indispensáveis à
reabilitação tarda a chegar a residência foram ainda existe uma diferença subs- subsistência das famílias, como al-
Pedrógão Grande, Castanheira de atingidas pelas tancial entre os valores dos donati- faias agrícolas. O presidente da
chamas
Pêra e Figueiró dos Vinhos, os con- vos anunciados publicamente por UMP, Manuel Lemos, explica à SÁ-
celhos mais afectados pelo incêndio várias instituições e os que entra- BADO a metodologia de interven-
de 17 de Junho? A resposta é um ram nas contas do Revita e dos ção adoptada: “Combinámos que
misto de burocracia, incumprimento parceiros, como a União das Mise- nós e a Gulbenkian fazíamos as
de promessas e falta de vontade. ricórdias Portuguesas (UMP) e a pequenas e médias intervenções e
O Instituto da Habitação e da Rea- Fundação Calouste Gulbenkian. o Revita fazia as grandes.”
bilitação Urbana (IHRU) e a Comis- Veja-se o caso do fundo público. O processo, sustenta, torna-se
são de Coordenação e Desenvolvi- “Temos uma conta aberta com 1 mais simples: agiliza-se a parte bu-
mento Regional (CCDR) do Centro O REVITA milhão em depósitos. Mas a minha rocrática e o pagamento. Basta, re-
concluíram o levantamento das ha- TEM NESTE expectativa é que ultrapassem os fere, “que a factura-recibo seja
bitações atingidas, mas muitas vão MOMENTO 4 milhões nas próximas duas se- emitida em nome da União”. “A
ter de esperar que donativos avul- 1 MILHÃO DE manas”, adianta Rui Fiolhais, sem nossa fiscalização [a consultora
tados cheguem ao fundo criado EUROS PARA detalhar as entidades que envia- Galbilec] diz ‘sim, senhor’ e paga-
pelo Governo, o Revita. E não só. APLICAR NAS ram verbas nem os prazos para mos de imediato”, indica Lemos,
O presidente do Revita, Rui Fio- CASAS ATIN- que a ajuda esteja no terreno. que nota ainda que as 24 habita-
lhais, esclarece que serão necessá- GIDAS PE- No entanto, a SÁBADO apurou ções – das 209 inventariadas pelo
rios 8 milhões de euros para obras LOS FOGOS que ainda está por chegar o dinhei- IHRU e pela CCDR Centro – atingi-

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segue, contudo, precisar o dinheiro anunciou que vai reconstruir 66


Estatística polémica que já foi gasto. Dos 1,8 milhões casas, revela no seu último reporte
Incerteza no número de que diz ter arrecadado (1,1 milhões que as doações ascenderam a
mortos domina debate político foram conseguidos graças ao con- Rui 1.695.455 euros, embora desse
certo Juntos porTodos, em Lisboa) montante ainda só tenha recebido
Numa altura em que a morte especificamente em donativos, Fiolhais 427.681 – a parcela mais expressi-
da 65.ª pessoa – atropelada en- nada foi gasto. diz que vai ser va, 191.953 euros, chegou do Novo
quanto fugia do incêndio de Do lado da Gulbenkian, uma fon- criada uma bol- Banco. E há ainda a Santa Casa da
Pedrógão – está a ser investi- te oficial realça que “só esta sema- sa de arquitec- Misericórdia de Lisboa: a institui-
gada, a Procuradoria-Geral na” a instituição recebeu a infor- tos e engenhei- ção liderada por Pedro Santana Lo-
da República foi ao encontro mação sobre as obras a financiar, ros para traba- pes vai construir casas, mas os par-
das pretensões de PSD e CDS- pelo que ainda não tem estimativas lharem na ceiros não têm indicações de quan-
-PP e divulgou a lista (que o do que possa vir a desembolsar. recuperação to será aplicado.
Governo recusava revelar, ale- “De imediato, temos previstas as de Pedrógão Rui Fiolhais mostra-se “convicto”
gando estar em segredo de primeiras intervenções ao nível de que o objectivo geral dos 10,5
justiça) das 64 vítimas mortais. mais superficial e estamos a anali- MISERICÓR- milhões para obras “seja largamen-
sar as propostas de reabilitação DIAS E GUL- te ultrapassado” e considera que
mais profunda”, sublinha. Quanto a BENKIAN dificilmente o Estado será chama-
donativos, a Gulbenkian avançou VÃO RE- do a entrar com mais dinheiro. No
das pelas chamas nos concelhos de com 500.000 euros próprios e tem CONSTRUIR entanto, não exclui em absoluto
Sertã, Góis, Pampilhosa da Serra e em sua posse igual valor oriundo CASAS DOS esse cenário: “Se essas necessida-
Penela serão reparadas pela UMP e da Altri e da Navigator. A CGD CONCELHOS des não forem satisfeitas, o Gover-
Gulbenkian. transferiu 2,3 milhões. MENOS no já assumiu publicamente que
O responsável pela UMP não con- A Cáritas de Coimbra, que já AFECTADOS intervirá para as assegurar.” W

PUB

59
Portugal

NEGÓCIO. ENGENHEIRO ESTÁ PRESO NOS ESTADOS UNIDOS

DOS EUAPARAO IRÃO, VIA


Uma firma portuguesa terá recebido milhares de euros para contornar o embargo americano ao

Q
uando João Fonseca ater-
rou no aeroporto de Min-
neapolis, nos Estados Uni-
dos, a 26 de Março de
2016, não estranhou ser chamado
para uma entrevista adicional. Como
não viajava sozinho, pediu aos agen-
tes que estavam à sua frente para o
funcionário com quem viajava, S.R.,
se juntar à conversa. Eles não se
opuseram. Queriam deixá-lo des-
contraído para responder a pergun-
tas aparentemente banais: o que es-
tava a fazer nos EUA, o que fazia ou
por que países tinha viajado.
O português disse ser engenheiro
electromecânico e trabalhar como
consultor para a Firstfield – Enge-
nharia e Sistemas de Segurança, de
cujo dono, Paulo Vicente, era amigo.
Estava ali para testar uma máquina
de “meio milhão de dólares” produ-
zida pela Ideal Aerosmith, uma firma
do Dakota do Norte, que podia ser
usada em aviões, mas que eles iam
usar para fabricar uma câmara com
lentes múltiplas. g terá sido através dessa busca elec-
Perante essa resposta, o agente O português foi trónica que as autoridades recolhe-
preso em Abril Várias empresas
lembrou-o que os EUA têm em vigor de 2016 por Das quatro firmas de João ram provas para acusar o engenhei-
embargos que impedem que esse conspirar para
Fonseca, só uma está activa ro português – mencionando outros
tipo de material chegue a países enviar tecnologia cúmplices –, de conspirar para ex-
dos EUA para
como a Síria, Sudão ou o Irão. João o Irão O engenheiro preso nos portar tecnologia para o Irão. Essas
Fonseca disse que compreendia. Tal EUA tem quatro empresas. provas serviram de base à detenção
como garantiu não ter viajado nos Uma está insolvente, outra de João Fonseca, a 3 de Abril de
cinco anos anteriores para os mes- extinta e uma terceira inactiva. 2016, e levaram-no, a 17 de Julho
mos países – o que o impediria de A única que ainda funciona, passado, a assinar um acordo em
entrar nos EUA sem um visto. a Tratoscope, tem sede em que confessou os factos e aceitou
No fim, João Fonseca entrou nos ENQUANTO Condeixa-a-Nova e uma uma pena de 20 meses e deportação
EUA. Não fazia ideia, mas há meses CONVERSA- sócia que a SÁBADO não para Portugal. A 7 de Setembro sa-
que os seus passos eram seguidos VA, O COM- conseguiu contactar. berá se o juiz ratifica o acordo.
pelo agente especial Robert Pinches. PUTADOR DE Em 2016 teve resultados A SÁBADO tentou contactar o ad-
Nem que, enquanto conversavam, o JOÃO FONSE- líquidos negativos vogado americano de João Fonseca,
seu computador e telemóvel esta- CA FOI VAS- de 13.500 euros. mas não obteve resposta até ao fe-
vam a ser vasculhados. CULHADO cho desta edição.
De acordo com os documentos ju- PELAS AUTO- Segundo a documentação judicial
diciais a que a SÁBADO teve acesso, RIDADES americana, para contornar o em-

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PORTUGAL
país do Médio Oriente. Por NunoTiagoPinto

bargo de mercadorias para o Irão,


as empresas tentam exportar bens
dos EUA para países terceiros sem
embargo ou onde é mais fácil obter
licenças de exportação – como é o
caso de Portugal.

Treinocom câmarasocultas
A informação encontrada no com-
putador pessoal de João Fonseca
serviu para o Departamento de Se-
gurança Interna concluir que, através
deste plano, ainda em 2014, a em-
presa portuguesa concordou em ad-
quirir material de alta tecnologia que
terá sido enviado através da China
ou da Turquia para uma empresa
iraniana, com sede em Isfahan, iden-
tificada apenas por KSP. João Fonse-
ca tinha uma missão essencial: rece-
bia formação no fabricante para
usar, instalar e calibrar as máquinas
e depois instalava-as no Irão e dava
formação aos utilizadores finais.
A primeira operação terá envolvido
a compra de cinco máquinas. As
duas primeiras, destinadas a produ-
zir lentes de alta tecnologia, foram
adquiridas à firma alemã Optotech. E
entre 15 e 19 de Junho de 2014 João
Fonseca esteve em Isfahan a instalar
os aparelhos. No seu email foram
encontradas a carta convite para ob-
ter um visto junto da embaixada ira-
niana em Lisboa, bem como os bi-
lhetes de avião para o Irão.
A terceira máquina foi adquirida à
PARA CON- empresa de tecnologia de ultrapreci-
TORNAR O são, Taylor Hobson. Ao contrário do
EMBARGO que sucedeu anteriormente, os en-
PARA O IRÃO, genheiros americanos instalaram o
AS EMPRE- aparelho no armazém da Firstfield e
SAS TENTAM deram a formação em Portugal. No
EXPORTAR entanto, segundo os documentos
PARA PAÍSES judiciais, a empresa portuguesa, a
TERCEIROS pedido da iraniana, instalou câma- Q

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Portugal www.sabado.pt

Q ras ocultas no armazém para fil- O PROPRIE- usado em “actividades nucleares”.


mar todos os passos do treino. A 2 de TÁRIO DA Provas em tribunal Após a formação, João Fonseca re-
Fevereiro de 2015, o vídeo dessa for- FIRSTFIELD Os documentos revelam gressou a Portugal. Os emails indi-
mação foi colocado numa cloud para NEGA a investigação e a confissão cam que nessa altura a firma irania-
ser visto pelos iranianos. QUALQUER na já tinha pago 788 mil euros pelo
EXPORTA- 1 aparelho. No entanto, a maquinaria
OscrimesnosEUA ÇÃO PARA Queixa não saiu dos EUA: em Fevereiro de
A tentativa de aquisição da quarta O IRÃO Apresentada a 25 de Abril de 2016 foi retida em Nova Iorque.
máquina terá sido a primeira infrac- 2016, enumera os passos do Sem saber dessa apreensão, João
ção cometida por João Fonseca nos agente especial Robert Pinches Fonseca voltou aos EUA a 26 de
EUA. A 17 de Outubro de 2015 entrou Março de 2016 para testar um novo
nos EUA pelo aeroporto de Boston. O plano 2 aparelho na Ideal Aerosmith. Duran-
Iria passar duas semanas em Swan- Segundo as au- Acusação te a formação, o português assinou
zey, no New Hampshire, a visitar a toridades ameri- Deduzida em Maio de 2016, uma carta a certificar que o equipa-
Moore Nanotechnology Systems canas, a empre- enumera os crimes de conspi- mento seria usado nas instalações da
(MNS) onde ia testar uma máquina e sa portuguesa ração, violação do embargo ao Firsfield em Portugal, não seria usa-
receber formação sobre o seu uso no adquiria a ma- Irão e de mentir ao Governo do para aplicações nucleares, nem
fabrico de lentes de alta precisão. quinaria por um desviado, exportado ou revendido a
As negociações para a compra valor e revendia 3 um utilizador proibido pelos EUA.
desse aparelho por parte da First- por muito mais Proposta A 3 de Abril de 2016, João Fonseca
field decorriam há meses. A 31 de O acordo proposto a João e o seu funcionário foram abordados
Março, segundo as autoridades, Fonseca tinha 15 de Julho como pelo agente especial Robert Pinches
Paulo Vicente enviou à MNS uma data limite para a sua aceitação no aeroporto de Minneapolis. Às
carta a confirmar a compra, por i 9h35 leram-lhes os direitos. O portu-
352 mil euros, e a 6 de Maio uma O conjunto de 4 guês começou por negar ter estado
outra em que certificava que o mes- documentos Declaração no Médio Oriente ou que a maquina-
mo “não seria vendido, transferi- judiciais obtidos Assinada por João Fonseca, ria tivesse como destino final o Irão.
pela SÁBADO
do ou exportado de Portugal”, ex- enumera os passos reconhece os crimes cometidos Mas perante as provas encontradas
cepto para os EUA, e que não seria da investigação no seu computador e telemóvel con-
fessou e admitiu que a Firstfield ser-
3 via de intermediária.
Confrontado pela SÁBADO, o pro-
prietário da Firstfield, Paulo Vicente
– que é apresentado nos documen-
1 tos judiciais como “co-conspirador”
–, nega esta versão e garante não ter
2
clientes no Irão: “Exportamos para
vários sítios, mas para esse não.” O
4
responsável começou por se mani-
festar surpreendido pelo contacto e
disse não querer “falar no assunto.”
No entanto, admitiu que João Fonse-
ca foi, através da sua empresa, “sub-
contratado para fazer um serviço”,
que conhece a situação dele e que o
tentou ajudar. “O advogado dele veio
cá, clarificou-se o que era preciso.
Até enviámos carta para a embaixa-
da para esclarecer a situação. Mas
não sei o que ele andou a dizer”, diz.
A SÁBADO apurou que ao longo da
investigação a justiça americana re-
cebeu a colaboração informal das au-
toridades portuguesas. A Procurado-
ria-Geral da República não esclareceu
à SÁBADO até ao fecho desta edição
se foi aberto em Portugal algum in-
quérito às actividades do português
e da firma para a qual trabalhava. W

62
PT Empresas, uma marca do grupo

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Portugal

Segredos da CIA
sss

A SÁBADO publica o último de três artigos com revelações de Portugal Visto pela CIA, do jornalista Luís Naves.
O livro, que a Bertrand editará em Setembro, revela documentos inéditos sobre a actividade dos espiões
americanos em Portugal. Os relatórios da agência dedicados à revolução e ao Verão Quente sugerem que
esta falhou em momentos cruciais, provavelmente em consequência da pior crise da sua história

ACIAE
AREVOLUÇÃO
Os políticos americanos dividiram-se sobre o que fazer em
1975: no ano anterior, tinham abandonado Spínola, no auge
do Verão Quente esperavam uma guerra civil. Por LuísNaves

agência de espionagem são são pouco claras, mas podem

A americana levou algum


tempo a compreender
que o golpe militar de 25
de Abril de 1974 era na realidade
controlado por oficiais de patente
27
de Abril
Os espiões nor-
te-americanos
estar ligadas ao calendário do es-
cândalo Watergate, à incompreen-
são do problema por parte do Presi-
dente Richard Nixon e do seu secre-
tário de Estado, Henry Kissinger, ou
intermédia, cujas intenções os es- redigem um ex- à profunda crise interna na própria
piões americanos aparentemente tenso relatório agência de espionagem, que um
desconheciam. Apesar de haver in- em que o MFA pouco antes do golpe em Portugal
dícios de instabilidade política em apenas é referi- tinha sido alvo de uma purga em
Portugal nos meses anteriores ao do uma vez larga escala.
golpe, a CIA foi apanhada de surpre- Se a revolução portuguesa tivesse
sa e continuou a julgar que se trata- acontecido no ano anterior, a actua-
va de um movimento liderado por ção de Washington teria sido prova-
generais. Como sugerem os relató- velmente diferente e a radicalização
rios desclassificados da agência, os PORTUGAL do Verão Quente de 1975 talvez
espiões americanos levaram sema- CAÍA NO nunca tivesse acontecido, como não
nas a compreender que o general CAOS E A CIA, teria acontecido se a revolução
António de Spínola estava longe de IMPOTENTE ocorresse um pouco depois, a exem-
controlar a situação e que a sua PARA INTER- plo da relativamente tranquila tran-
eventual queda daria origem à radi- FERIR, PRO- sição espanhola. A mudança em
calização inevitável do País. Os Es- DUZIA RELA- Portugal surgiu no pior momento mendações de acção política.
tados Unidos tiveram oportunidade TÓRIOS COM possível. Washington limitou-se a Além dos telegramas com os factos
de ajudar o Presidente Spínola, mas PREVISÕES observar com estupefacção o agra- iniciais emitidos nos dias 25 e 26 de
nunca o fizeram. As razões da omis- SOMBRIAS vamento da situação e os seus su- Abril, a agência de espionagem
cessivos episódios: o 28 de Setem- americana produziu no dia 27 de
bro, o 11 de Março, a descolonização. Abril de 1974 um extenso relatório
Portugal caía no caos e a CIA, impo- secreto, The Coup in Portugal, no
tente para interferir ou com as mãos qual os espiões explicavam as ra-
atadas, produzia relatórios com pre- zões da acção militar e as perspecti-
visões sombrias e escassas reco- vas imediatas do novo regime: “A
subida [do general António] de Spí-
nola ao poder é uma notável de-
j monstração do poder, em simultâ-
As razões neo, da caneta e da espada. O herói
1974 de guerra mais condecorado do País
Os espiões da CIA reconheciam foi também autor de um livro que se
EDUARDO GAGEIRO

como motivações para o golpe a atreveu a dizer que é impossível


guerra colonial e o fracasso de uma solução militar para o proble-
Caetano em liberalizar o regime ma da insurreição em África e que é

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j numa futura abertura à Europa. Um


A revolução dos subtítulos é sobre “a oligarquia”,
1974 mas todas as referências a essa pala-
O golpe militar conduzido por vra foram rasuradas pelos censores,
oficiais de patente intermédia por motivos desconhecidos, embora
apanhou a CIA de surpresa: a palavra oligarquia se mantivesse
a agência pensou que este no sumário, com o elenco dos temas
fora liderado pelos generais e das respectivas páginas. O relató-
rio dava ainda conta do desconten-
tamento entre muitos sacerdotes ou
termédia apoiam as ideias de Spíno- entre a juventude, mas não conse-
la. Alguns ficaram ainda mais des- guia grandes conclusões sobre o que
contentes com o seu afastamento e se iria passar nas colónias, nomea-
Vacina com a demissão dos seus apoiantes”, damente com a população branca.
Visto de Wa- podia ainda ler-se no documento No plano económico, não constava
shington, o Ve- secreto, que atribuía o golpe militar neste primeiro memorando da CIA
rão Quente de a este descontentamento, mas sem qualquer referência ao papel que
1975 parecia o nunca perceber que os generais que Portugal tivera na ajuda de emer-
início de uma pareciam estar no poder eram, na gência ao governo de Israel, durante
guerra civil que realidade, figuras de proa de um a Guerra de Outubro de 1973, que
alastraria a Es- movimento mais vasto e complexo valera a Lisboa um boicote de forne-
panha. O secre- que incluía dezenas de oficiais muito cimento de petróleo: as dificuldades
tário de Estado mais novos. No resumo inicial (nos de abastecimento, o aumento do
Henry Kissinger documentos de espionagem as con- custo da energia e a inflação daí re-
defendia a tese clusões estão no início), Spínola era sultantes tiveram sério impacto na
da vacina: isolar elogiado e os espiões americanos instabilidade que antecipou o 25 de
Portugal consideravam que o novo líder por- Abril, mas o assunto é totalmente
tuguês poderia manter as clivagens ignorado.
militares sob controlo. Estas não ti-
nham a ver com as facções políticas Àbeira da guerra civil
que viriam a criar-se dentro do MFA, A informação parecia relativamente
mas a CIA estava neste caso a refe- pobre ou até incompleta, como se o
rir-se ao conflito entre conservado- relatório de 27 de Abril de 1974
res e liberais. tivesse sido preparado um pouco à
Além da guerra colonial que esta- pressa. Como interpretar a total au-
va a consumir os recursos do País, sência de informação sobre os mili-
os espiões da CIA reconheciam que tares que tinham executado o golpe,
as razões do golpe remontavam ao nenhuma explicação sobre o MFA
fracasso de Marcello Caetano de ou sobre as consequências em Áfri-
proceder a uma liberalização do re- ca? O facto é que a perplexidade da
preciso encontrar uma solução polí- gime, algo que estivera em cima da CIA continuou nos meses seguintes,
tica”, podia ler-se no documento. O mesa entre 1969 e 1971, mas que os como mostram alguns dos docu-
MFA era citado apenas uma vez, e os sectores mais conservadores ti- mentos da época, retirados de uma
seus líderes eram “praticamente nham vetado. vasta colecção de relatórios da
desconhecidos, quase de certeza ofi- A leitura do relatório de dia 27 de agência de espionagem e do Depar-
ciais de patente intermédia devota- Abril, que tem ainda parágrafos ra- tamento de Estado (diplomacia
dos a Spínola”. surados, coloca vários problemas, americana), material analisado com
Neste memorando, a CIA contava por exemplo na parte sobre análise mais detalhe no livro Portugal Visto
detalhadamente a história da crise WASHING- da economia portuguesa ou da Igre- pela CIA, que a Bertrand publicará
política dos meses anteriores, com TON ja Católica. Os espiões americanos em Setembro.
os problemas entre Marcello Caeta- LIMITOU-SE descreviam o regime português A falta de espaço obriga-nos a dar
no e os generais Spínola e Costa Go- A OBSERVAR como tendo uma economia fechada um pequeno salto no tempo, sem
mes, que tinham sido demitidos dos COM ESTU- e pobre, controlada por um pequeno entrar no período de radicalização
seus cargos, respectivamente, de PEFACÇÃO conjunto de famílias. Segundo a CIA, revolucionária que levou ao chama-
vice e chefe do Estado-Maior. Spí- O AGRAVA- que não adiantava uma boa explica- do Verão Quente, um período de
nola publicara entretanto o livro ci- MENTO DA ção neste ponto, os grupos econó- oito meses, entre Março e Novembro
tado no relatório, Portugal e o Futu- SITUAÇÃO micos portugueses controlavam os de 1975, em que Portugal mergulhou
ro, que na altura abalou o regime. EM negócios africanos, mas podiam numa crise política e social profunda
“Muitos jovens oficiais de patente in- PORTUGAL eventualmente estar interessados que, vista da América, parecia o iní-Q

65
Portugal

Q cio de uma guerra civil capaz de PARA A CIA, exigia que fosse respeitada a Assem-
alastrar a Espanha. A administração A SUBSTITUI- bleia Constituinte, que resultara das
Ford estava dividida em relação ao ÇÃO DE VAS- primeiras eleições livres, em Abril de
que fazer: o secretário de Estado CO GONÇAL- 1975, e que os comunistas preten-
Henry Kissinger (que durante algum VES POR diam substituir por assembleias po-
tempo teve imenso poder) defendia PINHEIRO pulares, ao estilo dos sovietes que ti-
a tese da vacina, que implicava o DE AZEVEDO nham sufocado a primeira república
isolamento de Portugal, enquanto o ERA MAIS UM russa. A analogia, aliás, não escapara
embaixador em Lisboa, Frank Car- PASSO PARA a Henry Kissinger, que considerava
lucci, subordinado de Kissinger, A GUERRA Mário Soares o equivalente portu-
apostava no apoio às forças mode- CIVIL guês de Alexander Kerensky (chefe
radas. Carlucci acabou por vencer o de governo derrubado pelos bolche-
debate, provavelmente com ajuda viques em Novembro de 1917). Muito
da CIA, como parece sugerir o con- em resumo, o memorando de 29 de
teúdo de um extraordinário memo- Agosto contava que o embaixador
rando da agência de espionagem, Carlucci tivera contactos regulares
datado de 29 de Agosto de 1975, com os moderados e que alguém
Portugal: A Step Closerto Civil War, nesse grupo, cujo nome não era re-
assinado pelo tenente-general Ver- ferido, teria garantido que os demo-
non Walters, que fora enviado a cratas estavam dispostos a avançar
Portugal para observar o que se pas- sobre Lisboa e a “empurrar os co-
sava. Referindo-se à substituição do munistas para o mar”, frase que no
primeiro-ministro-general Vasco documento aparecia entre aspas, dos oficiais moderados “afirma ter o
Gonçalves pelo almirante Pinheiro tendo pois sido pronunciada por al- apoio do general Carvalho, chefe
de Azevedo, o então director em guém ligado aos moderados do MFA das forças de segurança interna”. A
exercício da CIA considerava que e que os americanos consideravam referência só pode ser a Otelo Sarai-
Portugal acabara de dar um passo uma fonte credível. va de Carvalho, na altura um dos
adicional na direcção de uma guerra É Otelo? Existia outro grande mistério neste membros do triunvirato de generais
civil, mas considerava que era possí- Um memoran- memorando, o ponto 3, onde se di- que dominava a política portuguesa
vel gerir a situação: “A facção [mili- do de Agosto zia, preto no branco, que o grupo (formado pelo Presidente Costa Go-
tar] anticomunista de Melo Antunes de 1975 referia mes, por Vasco Gonçalves e o pró-
terá agora de decidir se derruba a que os oficiais prio Otelo). No fim de Agosto, Otelo
nova situação, como anteriormente moderados i estava à frente do Comando Opera-
disse que ia fazer, ou se perde a tinham o apoio Descrença cional do Continente (Copcon) e era
oportunidade de mudar a direcção do “general 1975 considerado um dos oficiais mais ra-
para que o País se encaminha.” Carvalho”, consi- O embaixador Carlucci com Soares: dicais do MFA. O facto é que a radi-
Vasco Gonçalves fora elevado a derado um dos Henry Kissinger equiparava-o a Ke- calização continuou por mais três
chefe do Estado-Maior e estava mais radicais rensky, o chefe de governo derruba- meses, até 25 de Novembro, quando
agora em condições de afastar to- do pelos bolcheviques em 1917 ocorreu uma movimentação militar
dos os oficiais que se opunham à
radicalização, mas isso não era ine-
vitável, apesar de Walters ter ava-
liado mal a posição do almirante
que chefiava o governo, apontado
no relatório como provavelmente
próximo dos radicais, mas que se
revelou democrata.
O memorando da CIA enunciava
uma recomendação geral de apoio
aos oficiais anticomunistas do MFA, “OS DEMO-
que semanas antes tinham feito um CRATAS ES-
ultimato à facção radical do movi- TÃO DISPO-
mento das forças armadas. Os mo- NÍVEIS PARA
derados teriam apoio de unidades ‘EMPURRAR
militares no Centro e no Norte do OS COMU-
País e queriam que a revolução se NISTAS PARA
JORGE PAULA/CM

mantivesse democrática. Isto não O MAR’”,


estava explicado no memorando, DIZIA FONTE
mas o chamado Grupo dos Nove DO MFA

66
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melhante à seguida no Chile. O ex-


-agente trabalhara 15 anos na CIA,
16
espiões
mas fizera toda a sua carreira em
países da América Latina. Desiludi-
da CIA em do com aquilo que vira no Uruguai
Lisboa viram e no México, abandonou a agência
os seus nomes e decidiu escrever um livro onde
revelados pelo denunciava os abusos da espiona-
antigo agente gem. Depois, transformou as de-
Philip Agee núncias em campanha política, mas
numa revista foi acusado pelo antigo empregador
britânica de ser agente duplo. O facto é que a
estratégia americana em relação a
Portugal foi diferente da seguida no
Chile, como demonstra o resultado:
a radicalização chilena foi inter-
rompida em 1973 por um golpe mi-
litar que instalou uma ditadura fe-
roz, mas no caso português o resul-
tado foi um regime democrático. As
acusações de Carta ao Povo Portu-
guês podem ter contribuído para a
que, dispondo do pleno apoio dos g criação de um clima ainda mais pa-
partidos democráticos, travou o fre- O general Livro ranóico e perigoso nas clivagens in-
nesim em que caíra a sociedade 1974 Portugal ternas da sociedade portuguesa. Se-
portuguesa, permitindo a criação, É pouco claro porque é que os EUA Visto Pela CIA gundo a denúncia de Agosto de
sem mais violência, de uma demo- não ajudaram Spínola. Foi o Water- 1975, a CIA tinha duas dezenas de
cracia de tipo europeu. gate, a crise na CIA ou a incom- Autor agentes em Portugal, mas muitos
preensão do que se passava por cá? Luís Naves outros que se dedicavam, em várias
O espiãoincendiário Editora capitais europeias, a difamar e de-
O memorando de Vernon Walters Bertrand sestabilizar “a revolução popular”.
de 29 de Agosto de 1975 foi prova- dos agentes da CIA em Lisboa, inse- Havia também dinheiro para os
velmente decisivo para mudar a rida num panfleto, Carta ao Povo partidos e para a Igreja, infiltrações
opinião de Kissinger (e do Presidente Português, publicado por Agee nas instituições revolucionárias e
Gerald Ford) sobre o rumo da revo- numa revista britânica de extrema- operações que visavam agitar a po-
lução portuguesa, mas o próprio do- -esquerda, e que o jornal português pulação, dividir os militares e inti-
cumento reconhecia que o embaixa- citava abundantemente. midar as forças progressistas. A car-
dor em Lisboa era o americano que Por razões desconhecidas, a notí- ta defendia o abandono da via elei-
melhor compreendia a situação. cia do DL não teve sequência, talvez toral, que o ex-espião considerava
Nesta altura, a CIA esteve sob inten- por surgir num momento de enorme ter sido manipulada, e a defesa de
so escrutínio do Congresso e da opi- delicadeza política, mas as opera- órgãos populares que substituíssem
nião pública e, em 1975, tudo correu ções da CIA foram completamente os eleitos.
mal aos espiões americanos. Um dos queimadas. O panfleto Carta ao Philip Agee acabaria por ser desa-
grandes símbolos do descalabro é a Povo Português seria mais tarde tra- creditado. Perseguido até ao obituá-
história de um agente chamado Phi- duzido e publicado na íntegra, como rio pela CIA, como alguém escreveu,
lip Agee, que abandonara a agência aliás foi publicado, dois anos depois, viria a morrer no exílio em Cuba, em
no início dos anos 70 e que ajudou a o livro de Agee, Diário de um Agente 2008, com 73 anos e fama de trai-
desbaratar as operações da CIA em da CIA, grande êxito de vendas PARA OS dor. Embora esteja hoje esquecido, o
Portugal. Foi, aliás, a maior denúncia mundial, ainda hoje considerado um ESPIÕES, ex-espião lançou gasolina para a fo-
colectiva da história da espionagem dos melhores manuais da actividade PORTUGAL gueira da revolução portuguesa, difi-
americana, com a divulgação de de espionagem. TINHA UMA cultou o olhar da espionagem ame-
operações e agentes. As revelações de Agee em Agosto ECONOMIA ricana sobre Portugal, mas é difícil
A 8 de Agosto de 1975, (três sema- de 1975 afectaram as operações da FECHADA E perceber se teve impacto: até que
nas antes do relatório de Walters), o agência de espionagem americana POBRE, ponto o medo de um cenário chile-
Diário de Lisboa publicou, com des- um pouco por todo o mundo. Em CONTROLA- no aconselhou prudência aos revo-
taque de primeira página, a história Portugal, o efeito das denúncias foi DA POR UM lucionários no momento decisivo? E
de uma denúncia feita em Londres sobretudo o criar a convicção, na PEQUENO talvez as dificuldades da CIA tenham
pelo ex-agente da CIA, Philip Agee: extrema-esquerda, de que a estraté- CONJUNTO dado uma oportunidade inesperada
tratava-se da lista, com 16 nomes, gia americana seria aqui muito se- DE FAMÍLIAS aos diplomatas. W

67
Mundo

IRAQUE. O DIA-A-DIA APÓS A DERROTA DO ESTADO ISLÂMICO

VINGANÇA,
IMPUNIDADE
E CORRUPÇÃO
EM MOSSUL
Na segunda maior cidade iraquiana, as leis da guerra não
estarão a ser cumpridas: supostos jihadistas são atirados de
prédios ou executados por soldados iraquianos. Por Sara Capelo

ra de noite quando o lojis- AMINA, QUE por militares iraquianos: de cinco pressupõe que foi o que aconteceu.

E ta ouviu múltiplos tiros


num edifício abandonado.
Se em qualquer cidade do
mundo este som não passaria des-
percebido, em Mossul, onde a paz
APARENTA
TER 3 ANOS E
FALA RUSSO,
EXPLICA
QUE A MÃE
homens amarrados ao capô de um
Humvee num dia de 48 oC a outros
atirados do topo de prédios.
Num vídeo, posto no Facebook por
um alegado habitante de Mossul,
São três os motivos por que as
leis da guerra não estão a ser cum-
pridas, afirma à SÁBADO Belkis
Wille, investigadora da HRW para
o Iraque e Qatar: a certeza de im-
fora alcançada dias antes, ainda E O PAI SÃO vêem-se homens vestidos com ca- punidade, um desejo de vingança e
menos. O primeiro-ministro Haider “MÁRTIRES” muflados (que a HRW diz serem o medo da corrupção vigente no
al-Abadi anunciara a 10 de Julho a membros do Serviço de Contraterro- país. “Parte deve-se à ideia de que,
expulsão do Estado Islâmico (EI) e rismo Iraquiano) a baterem num ou- assim que foi possível dizer que a
o fim dos combates depois de oito tro; alguns segundos depois, esse ho- operação tinha terminado, a aten-
meses e meio. As ruas da segunda i mem está inerte no chão, três ou ção [internacional] mudou e o sen-
maior cidade do Iraque eram agora Os soldados “têm quatro andares abaixo do local onde timento é que ‘nós soldados decidi-
território controlado por soldados, lutado por tanto os soldados disparam sobre ele e um mos como limpar porque ninguém
como os da 16ª divisão que o lojista tempo, estão outro cadáver. Não se viu ninguém a está a ver’.” Por outro lado, “estes
exaustos e querem
por ali vira horas antes dos dispa- vingança”, diz empurrá-lo, mas a organização que homens têm lutado por tanto tem-
ros. O que teria acontecido? uma observadora monitoriza os direitos humanos po, estão exaustos, zangados e
Quatro dias depois, o mesmo querem vingança”. Por fim, os ira-
lojista conduziu um grupo de ob- quianos temem a existência de cé-
servadores internacionais até aos lulas adormecidas do Estado Islâ-
17 cadáveres dispostos em fila e ro- mico em Mossul ou a fuga dos seus
deados por poças de sangue no in- soldados dos campos-prisão em
terior do edifício. Tinham sido exe- troca de dinheiro.
cutados, possivelmente pelos mili- O ex-ministro das Finanças ira-
tares da 16ª divisão, por suspeita de quiano, Hoshyar Zebari, um curdo
filiação ao EI. Estavam vestidos à nascido em Mossul e ele próprio
civil, a maioria deles vendados e destituído em Setembro de 2016 por
com as mãos atadas atrás das cos- suspeitas de corrupção, revelava há
tas. O caso foi reportado pela Hu- dias que um jihadista consegue pas-
man Rights Watch (HRW), organi- sar os postos de controlo pagando
zação a que têm chegado outros 855 euros e que por 1.283 euros pode
relatos de tortura e assassinatos levar o carro.

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lenço creme e preto empoeirado


(tal como a sua roupa escura com-
prida e a pele) cobria a cabeça da
adolescente que fugiu de casa, em
Pulsnitz, na Saxónia, há um ano,
depois de se radicalizar nas redes
sociais.

As noivas e os filhos do Daesh


Casadas ou noivas de jihadistas, os
serviços de inteligência iraquianos
acreditam, segundo revelaram três
fontes à AP, que estas mulheres de
origens tão variadas como Cheché-
nia, Síria e Bélgica fariam trabalho
de secretariado no departamento
policial do EI. Além de Linda, há
outra cidadã alemã detida, confir-
mou à SÁBADO o Ministério dos
Negócios Estrangeiros germânico.
Com o olhar vazio e uma ferida

FOTOS GETTYIMAGES
de bala na perna, Linda – que per-
deu o marido numa batalha pouco
depois de chegar – pediu para re-
gressar: “Quero ir-me embora da
guerra, das muitas armas, do baru-
lho.” Por ser menor, o seu desejo
Estes militantes do EI fogem de g até poderá ser concedido. À SÁBA-
uma cidade que funciona a dois A ONU necessita DO, o Ministério de Sigmar Gabriel
de mil milhões Comida? Só lá fora
tempos. Mossul Este, a zona mais de dólares (€855 remeteu uma resposta sobre um
O governo já paga os salários
moderna, que sofreu menos ata- milhões) para eventual pedido de extradição para
reconstruir infra- aos funcionários públicos
ques aéreos e foi conquistada no o procurador-geral do país. Mas se,
-estruturas básicas
início do ano, tem negócios a fun- Desde Outubro de 2016, 940 pelo contrário, Linda e as outras
cionar e escolas abertas, onde as mil civis abandonaram Mossul. mulheres forem julgadas sob a lei
crianças têm aulas apesar de os Um terço viverão em campos. antiterrorismo iraquiana, está-lhes
professores não receberem salários Entre os que ficaram, 40 mil destinada uma de duas sentenças:
há três anos. Mas na Cidade Velha, foram mortos em ataques de a vida na prisão ou a morte.
conquistada no início de Julho ao ambos os lados do conflito. As crianças encontradas a va-
Estado Islâmico, falta tudo. Quando Os que sobreviveram e ainda guear sujas e nuas (algumas a ali-
ali esteve, Melany Markham, porta- não têm fontes de rendimento mentarem-se de carne crua) nas
-voz do Norwegian Refugee Coun- Quem é saem da cidade à procura de ruínas de Mossul são um outro pro-
cil (NRC), não encontrou crianças a Linda W.? comida dada pelas ONG e re- blema. A Unicef já conseguiu iden-
brincar nas ruas ou mulheres às Cresceu numa gressam, conta Melany Markham. tificar a família de 1.300. Mas mui-
compras. Nem podia: “Não há es- família protes- tas outras continuam sem saber o
colas, hospitais, energia e a única tante, mas as que aconteceu aos pais. Não é o
água que têm é a do [rio] Tigre”, conversas onli- caso de Amina, uma criança que
descreve à SÁBADO. Três quartos ne com um jiha- do território conquistado e teme as aparenta ter 3 anos: em russo, e
das estradas foram destruídas, qua- dista do Estado bombas colocadas nas escolas. E com algumas palavras em árabe,
se todas as pontes desapareceram. Islâmico motiva- em 15 distritos residenciais 32 mil consegue explicar que a mãe e o
A NRC e outras organizações já es- ram-na a con- casas foram reduzidas quase a pó. pai são “mártires”. Ou o de Khadija,
tão no terreno para lhes devolver verter-se ao is- A reconstrução civil – e o regresso cujo pai morreu em batalha e a
as infra-estruturas básicas. A água lão: vestia-se de da totalidade dos 940 mil desloca- mãe se fez explodir junto a milita-
é uma das primeiras para ajudar os forma conserva- dos – demorará muitos anos, prevê res. Os soldados iraquianos cha-
habitantes a suportarem os dias de dora, levava o Belkis Wille. mam-lhes “filhas do EI”. Não é cla-
45 oC. Só para estas obras, calculam Corão para a es- Linda W., uma alemã de 16 anos, ro o que lhes sucederá, mas os
as Nações Unidas, serão necessá- cola e aprendeu estava escondida com dezena e meios de comunicação internacio-
rios mil milhões de dólares (855 árabe. Aos 15 meia de mulheres numa cave nes- nais apontam para a hipótese de
milhões de euros). A NRC ainda anos, fugiu para sa parte da cidade. Junto a elas ti- serem devolvidas aos países de
não conseguiu entrar na totalidade o Iraque nham armas e cintos-bomba. Um origem dos pais. W

69
Opinião

O tra o Estado português, ou a descober-


RELATÓRIO ta de uma rede delituosa extensa, ou a

MINORITÁRIO A pré- ineficácia ou inconclusividade das in-


vestigações perturbaráo idílio.
Depois da desgraça, parece
que o governo caminha
-campanha Ninguém bem formado querviverde
desgraças, ou vinganças.
outra vez em estado de Mas qualquer indício de negligên-

A
graça. Ou será que a luz ao ntónio Costaregressade férias, cia, incompetência funcional ou des-
fundo do túnel é um e parece que, com asua“coor- coordenação culposas, no inquérito
comboio? E como se gere a denação” modelar, acabam os judicial à tragédia de Pedrógão, alte-
incerteza, em descarada problemas do governo. rará o ar pacífico do oceano que ba-
pré-campanha autárquica? Mas é um falso ambiente de tran- nha o governo.
quilidade. Estes dados podem influenciar, claro,
Naverdade, só aquase total boavon- as eleições autárquicas de Outubro.
tade de Belém, aquase total timidez do Mas há grandes linhas já traçadas, e
PCP, aquase total domesticação do BE, que dificilmente mudam.
a quase total incompetência do PSD e Umadelas relaciona-se com apéssi-
aquase total irrelevânciado CDS criam maescolhado PSD em cidades funda-
esse climaparadisíaco. mentais.
O que mostra que tudo está colado Unido ao CDS no Porto, mas em tor-
com cuspo, alicerçado na mera “co- no de umacandidaturacinzentae ron-
municação” e “imagem”, ou no instinto ceira, desavindo com o CDS em Lis-
de sobrevivência. boa, numa altura em que precisava de
Ninguém de bem quermal àPátria. coligação antifulanista, e de arrepiar
Mas o mínimo uso de armas de Tan- caminho, o partido de Passos pode ca-
cos, ou qualqueracção de vítimas con- minharparaum desastre.
No Porto, o PSD devia ter-se enten-
dido com o actual presidente, ou Q

O j
Trabalhos
de Hércules
Ou a FAP substitui seis C-130, ou Por-
tugal fica sem capacidade táctico-es-
tratégica de transporte. O ideal seria
um avião multiuso, para a paz, para a
guerra e para a incerteza. Isto é, da
vigilância ao reconhecimento, da pa-
trulha marítima à retirada médica, da
largada de pára-quedistas e forças
especiais ao combate pesado aos fo-
gos, do reabastecimento ao apoio ar-
mado terrestre.
As hipóteses são o brasileiro da
Embraer, o KC-390, que custa 85
milhões, o Atlas (Airbus A400 M) de
152 milhões, e o Super Hercules (C-
130J) de 60.
O primeiro é o projecto mais avan-
çado, mas menos provado. O último
JORGE GODINHO

O
Politólogo é o mais testado e popular, mas mais
Nuno Rogeiro antigo. O Airbus é platina, mas patina.
nrogeiro@gmail.com Cabeça precisa-se. W

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Em Lisboa, o PSD diz que não se coli- patéticacicloviaabochechos, no meio


gou, porque Cristas avançou primeiro. da 24 de Julho.
Conversas de recreio infantil. O que é Pela omissão em denunciar a nova
que isso interessaao bem comum? degradação do Intendente, que leva
E o principal fardo do partido, na ca- cada vez mais tolerantes a pedir um
pital, foi o total silêncio, cumplicidade e PinaManique.
capitulação com a parte de Medina Pelo silêncio face ao empobrecimen-
que resultou em desgoverno. E a inca- to dos locais, à sujidade crescente e à
pacidade de elogiar o que naquela degradação do trânsito, face à cobar-
houve de bom senso. dia em não o proibir em períodos se-
Q combatero seu “justicialismo edifi- Conselhos: desistam a favor de Cris- manais, ou em investir realmente em
cador” com um fenómeno igual. tas, se não conseguirem que Cristas transportes públicos dimensionados,
Não quis: parte para a ofensiva an- desistaem favordo PSD. suficientes, racionais e eficazes.
dando paratrás. Face aPéron, o Conse- Ou façam penitência pela omissão No resto do País, o PS pode ter pro-
lheiro Acácio. Não só pode seresmaga- de explicar aos lisboetas que a cidade blemas catastróficos, face acandidatos
do, como sofrero ridículo, o que é pior. cresceu para o turismo, e bem, mas foi independentes, populistas, ou desloca-
Uma recomendação: desistam a fa- encurtadaparaos nativos, e mal. dos das lideranças tradicionais. Em
vor de Moreira, ou demonstrem que Pela omissão em pedir contas pelas muitos sítios, o que vale ainda é a pro-
este se limitou aadministrarbem ahe- obras monumentais, mas supérfluas ximidade àterra, não o favordo minis-
rançajacente de Rio. (como se demonstrará), e em exigir tro-barão-patrão-protector.
Ou surjam mais papistas do que o verdadeiras zonas pedonais onde elas Quanto ao PCP e ao BE, pagarão
Papa, e sejam realistas, pedindo o im- não existem, por exemplo, na Rua São muito provavelmente pelo silêncio
possível: que o Porto se torne, em defi- Pedro de Alcântara. face ao triunfo do capital no Terreiro
nitivo, 50% da capital, em instituições Pela omissão em perguntar porque do Paço, que pode ser menos tolerado
públicas e sedes de governo. não se fez do início da Avenida de naperiferiado que no centro.
Brasília ao fim do Cais do Sodré a É apré-campanha.
grande, continuada e arborizada ci- Que avança, ora envergonhada ora
clovia da cidade, em vez da floresta e desavergonhada. W

O h O
As duas verdades Concertos
desconcertantes
Os dados sobre a economia dos EUA
são excelentes. As sondagens mos- Agosto é jazz na Gulbenkian, em Lis-
tram-no, ao contrário das desastrosas boa. Como sempre. Começa neste
(para Trump) amostras sobre política. fim de Julho: Steve Lehman (28/29,
Face à Rússia, Washington treina, na foto) experimenta o rap, a guitarra
arma e equipa os ucranianos, envia o torna-se vulcão com David Torn (29),
Global Hawk para o Donbass, exerci- e há ambiental inteligente com a
ta manobras anfíbias junto à Crimeia, franca Coax Orchestra (30).
D.R.

reforça as sanções. Depois, dois trompetistas brancos,


Mas o que fica nos ouvidos são os aventurosos, Susana Santos Silva
apartes e os tweets do Presidente, as j acústica (1), Dave Douglas electrifica-
questiúnculas pessoais e partidárias, e do (6), o pseudogospel irónico do
as intermináveis batalhas no Congres- magnífico Starlite Motel (3), música
so sobre a “cumplicidade” Trump- marcial de câmara pelos Human
-Putin. Feel, e o sopro surpresa de Phil Ochs.
Anthony Scaramucci (na foto), o E quem queira subir ao mítico Mar-
novo director de comunicações da vão pode escutar a Idade Média por-
Casa Branca, é suposto ser o super- tuguesa na voz de Sofia Vitória, com
homem que vai racionalizar tudo isto. as grandes cordas de José e Luís Pei-
Mas nem Clark Kent conseguiria. xoto e Carlos Barretto. Dia 29, já sá-
REUTERS

A esquizofrenia está para ficar. bado, num entardecer glorioso. W


É a marca. W

71
Dinheiro

j inha 16 anos quando se

T
Pedro de Almeida, ajeitou à moda da tropa
72 anos, vive em
Portugal desde (farda e cabelo curto)
o dia 28 de Maio – para entrar na escola na-
mudou-se para cá val e deixar de dar des-
para gerir o dossiê
da Comporta pesa à mãe – o pai, médico, morre-
ra subitamente e eram sete filhos
para sustentar, o mais novo com 5
anos. Como ainda não havia ricos
na família, só o salário de uma ana-
lista química, Pedro de Almeida foi
improvisando, vendeu enciclopé-
dias, andou a bater à porta de donas
de casa para saber que detergentes
usavam (e quantas vezes por dia),
arranjou cama e estudos pagos na
Marinha e uma vida militar que o le-
vou à improvisação seguinte: sair
80
accionistas
dela. “Para se ser militar é preciso
ter o chamado espírito militar e ele
Pedro de Almei- odiava aquilo. Foi um calvário”, diz
da assinou um um amigo. “Convenceu o médico
acordo por 59% que o tipo de vida que tinha ali não
do capital; era compatível com a maneira de
a família Espírito ser dele e que, se continuasse, aca-
Santo tem, ain- baria por enlouquecer.” Depois de
da, 26% do capi- várias semanas no hospital, interca-
tal, divididos por ladas com longos períodos em casa
cerca de 80 e com outras tantas conversas com
pessoas o médico (que por sorte estudara
Medicina com o seu pai), o esperado
relatório ficou finalmente pronto:
serviço militar cumprido, baixa por
incapacidade física.
Seriam precisos mais 56 anos e
muitas outras improvisações para
que o empresário, agora com 72 e
ainda workaholic convicto, chegasse
onde está hoje – em Setembro de
TEM GABINE- 2015 montou uma equipa nova (seis
TE JUNTO AO a sete pessoas em permanência); em
CHIADO, Maio do ano seguinte mudou-se
UMA CASA A para Portugal depois de 38 anos a vi-
20 METROS ver fora; já este mês assinou o con-
DALI, OUTRA trato de compra e venda de 59% do
NO ESTORIL. fundo que gere a área imobiliária da
MARISA CARDOSO

ANDA A Comporta. Tem, agora, até Outubro


CAVALO NA para negociar as cláusulas que fal-
COMPORTA tam – a conclusão do negócio de-

PERFIL. PEDRO DE ALMEIDA, O HOMEM QUE CONCORREU SOZINHO AO RETIRO DOS ESPÍRITO SANTO

ELE QUERACOMPO
Não nasceu empresário, nem rico, mas fez-se ambos. Antes disso viveu no campo (odiou), estudou
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pende de autorizações do Luxem-


burgo, Suíça e Portugal, e de acordos Perfil
com grandes credores como a Caixa Nasceu
Geral de Depósitos (reclama uma dí- em Coimbra,
vida de mais de 100 milhões de eu- viveu em Santa-
ros ao fundo que gere o antigo retiro rém. Odiava o
dos Espírito Santo), e ainda deve de- campo
morar pelo menos dois meses.
Entrou na tro-
A mudança para Portugal pa aos 16 anos
Desde que vive em Portugal, o em- porque não pa-
presário divide-se entre o escritório gava estudos
da R. Vítor Cordon, em Lisboa, onde nem quarto
trabalha em open space, a casa que
tem a 20 metros dali (“é muito pre- Aos
guiçoso”, diz o mesmo amigo, por
isso “raramente fica no seu aparta- 32
mento do Estoril, onde tem serviço foi trabalhar
de hotel”), e a segunda casa que fez para Paris. De-
na Comporta, há um ano, com a ter- pois Genebra.
ceira mulher (já tinha deixado outra Esteve fora de
à segunda ex-mulher) – é ali que Portugal 38
gosta de andar a cavalo pelas dunas anos
e praias da região. “Quem vê a fase
final pensa, eh pá, este tipo é um Casoutrês ve-
milionário do petróleo, viveu em zes: aos 23 anos,
Paris, em Genebra, tem casas em aos 34 e há qua-
todo o lado, fácil não é? Mas essa é tro anos
só a parte mais visível”, acrescenta
outro amigo. Uma parte visível que
nem sempre agrada à família – “Oh,
pai, que vergonha, já viu? Discreto e
multimilionário. O pai nem é discre-
to e que eu saiba também não é
multimilionário”, atirou uma das
duas filhas (tem três, um rapaz do
primeiro casamento, duas raparigas
do segundo) quando viu as notícias
sobre a venda da Comporta. E uma
parte visível que esconde o resto. CONVENCEU
Pedro de Almeida, que quis con- O MÉDICO DA
correr sozinho à compra da Com- MARINHA
porta para ter mais liberdade, não QUE SE CON-
teve daquelas vidas planeadas, TINUASSE A
como os amigos que sabiam desde TER VIDA MI-
miúdos que curso iam tirar, o que LITAR IA EN-
queriam ser, com quem iam casar. LOUQUECER.
Depois da Marinha achou que di- SAIU COM A
plomata era a carreira certa para Q TROPA FEITA

RTA SÓ PARA ELE


na Marinha (detestou ainda mais), guardou o pequeno-almoço para almoço e jantar. PorAnaTaborda
73
Dinheiro

Q quem gostava de viajar e apren-


dia línguas facilmente. Licenciou-se
em Ciência Política e “apaixonou-
se” de tal forma pelo professor
Adriano Moreira que continuou a ir
às aulas mesmo depois de acabar a
cadeira. Quando se casou, vendeu-
se ao capital. Depois de uma investi-
gação de seis meses no departa-
mento de marketing da Nielsen, em
Zurique, voltou a Portugal e respon-
deu a um anúncio de emprego na
Sociedade Central de Cervejas, a
empresa onde o sogro era accionista
e administrador. A entrada para a
área comercial, aquilo que sempre
lhe deu mais prazer, foi quase tão
rápida quanto a saída. “Foi posto na
rua no dia em que se separou. Ele e
o sogro nunca se deram muito bem.
O sogro não mexeu uma palha para
o Pedro entrar, mas garantiu que ele
saía”, diz outra fonte próxima.
Um dia depois de deixar a Central,
enquanto tomava o pequeno-almo-
ço na Pastelaria Suíça, outro anún- g não podia viajar mais ao serviço da
cio de jornal chamou a atenção do Osoutrosnegóciose... Quando não está empresa porque tinha contactos
no seu escritório
jovem que tinha ficado sem empre- ...os que vendeu para de Lisboa é prová- com a extrema-direita. Horas depois
go e sem casa – vivia já há algum ir à Comporta sem sócios vel que o encon- saiu de Portugal para Madrid, em
tempo com os sogros porque o 6º trem a brincar com seguida para o Rio de Janeiro. Insta-
os netos. Costuma
andar em Belém, para onde se mu- Doisactivos imobiliários em dizer que se não lou-se no quarto dos fundos de um
dou depois de casar, deixou de con- Portugal e uma empresa de dis- fosse o seu próprio hotel de Ipanema, junto ao Country
vencer o pai da noiva com o sismo tribuição de produtos de petró- patrão, já o tinham Club, onde jogava ténis enquanto
posto na rua
de 1968: se houvesse um novo tre- leo nos Camarões, que vendeu esperava pelo resultado da candida-
mor de terra, a filha não teria eleva- a um francês. Foi com estas tura a uma nova empresa, a Texaco.
dor para descer. Desta vez era a Sa- operações que Pedro de Almeida A selecção, com cerca de mil candi-
cor (hoje Galp) que procurava um garantiu capital para concorrer datos, durou mais de dois meses.
economista para liderar a área de sozinho à Comporta. Em Portu- “Nessa altura, guardava o fiambre
transportes. Pedro não era econo- gal, investiu, além disso, na rede do pequeno-almoço e fazia do
mista, mas era doutor, o que naque- Prego Gourmet e foi um dos ac- buffetas três refeições do dia”, lem-
la altura era parecido, também não cionistas fundadores do Observa- bra o primeiro amigo. Ganhou o lu-
tinha experiência a dirigir transpor- dor. Escolheu o nome da sua pri- gar, mas não ficou muito tempo
tes, mas o seu curriculum, que cozi- meira empresa, Addax (uma ga- como director comercial da petrolí-
nhou à medida do anúncio, incluía o zela africana), à medida do conti- fera para todo o Brasil. Depois do 25
serviço militar feito na Marinha. nente onde queria investir; de Novembro, quando a situação
Mais uma vez, improvisou. E nunca Admar e Ardma são parecidas política em Portugal acalmou, deci-
mais largou os petróleos. porque a primeira correu bem – diu voltar: despediu o funcionário
gosta que comecem pela letra a, que o tinha denunciado e manteve-
Demasiado à direita nos anos 70 para ser mais fácil encontrá-las. FOI PARA -se na Sacor até 1979, quando um
Voltou a sair do País com o 11 de O BRASIL convite de Patrick Monteiro de Bar-
Março de 1975, depois de um traba- COM O 25 DE
lhador da Sacor, militante do Partido ABRIL. DU-
Comunista, o ter denunciado por que chama o “folclore” e à desorga- RANTE DOIS
alegadamente estar próximo do nização da direita, por isso, aplaudiu MESES, FEZ Segunda casa
Exército de Libertação de Portugal de longe o golpe de Estado do ma- DO PEQUE- Quer fazer da Comporta
(ELP). Quem o conhece garante que rechal Spínola – parecia-lhe conde- NO-ALMOÇO a segunda residência
sim, é de direita, mas não de extre- nado ao insucesso. Um dia, um ad- DO HOTEL de estrangeiros ricos. Para
ma-direita. Nunca teve actividade ministrador da Sacor pediu-lhe que ALMOÇO isso, vai construir e vender
política, mas achava piada àquilo a entregasse o passaporte e avisou-o: E JANTAR casas de luxo

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cadeira muito alta – Pedro de Al- que o sócio desrespeitou a ponto


meida, que viajava com mais pes- Natal de organizar um baile de máscaras
soas, fingiu que lhe tinha caído Acabou com os – os convidados disfarçaram-se
qualquer coisa ao chão, baixou-se presentes num com as roupas de Patrick e da sua
e atravessou para o outro lado. O dia 24 de De- mulher, Arlette.
pior foi sair de Libreville, a capital, zembro, quando
para Genebra. Dessa vez não havia se lembrou de As demissões e o FBI
cabana e a improvisação teve de oferecer a cada Ameaçaria demitir-se várias vezes,
subir de nível. Foi ao balcão de in- um dos sobri- até o fazer de facto. No livro Uma
formações e, alegando que havia nhos uma pós- vida à bolina, Patrick diz que Pedro
um problema com um passageiro, -graduação fora. de Almeida anunciou a sua saída no
pediu que fosse chamado com ur- Se chumbas- dia em que a mãe do chefe morreu;
gência o cônsul da Suíça no Gabão. sem, reservava- já Pedro fez saber que nem sabia
Depois fingiu ser ele o próprio côn- -se o direito de que a mãe de Patrick era viva.
sul e apanhou o avião. Nessa altura continuar ou Quando a biografia foi lançada, vol-
já tinha dinheiro para comprar não a pagar taram a falar, depois de anos afas-
um avião privado e um barco. Não tados: Pedro enviou-lhe um SMS,
quer: todos os anos aluga um bar- disse ter gostado de recordar episó-
co, quando vai até África ou à dios de que já não se lembrava (foi
América voa em executiva, na Eu- com Patrick que aprendeu a manter
ropa tanto lhe faz, usa as low-cost um arquivo do que ia acontecendo,
quando o horário é melhor. um arquivo que chegou a ceder ao
Foi também em África que fez o FBI durante uma investigação aos
melhor negócio da sua vida. Mas poços de petróleo de várias compa-
isso só aconteceria depois de se nhias no Iraque, incluindo a sua),
ros o levou para Paris e para a me- afastar de Patrick Monteiro de Bar- Patrick estranhou o gesto, mas ficou
lhor escola de trading que havia en- ros e de criar as suas próprias em- EM ÁFRICA sensibilizado.
tão, a Philipp Brothers. presas (primeiro a Addax, depois a QUASE Até fazer o tal negócio em África,
Foi nessa altura que começou a Admar, agora a Ardma). Primeira FALIU. TAM- que rendeu perto de 6 mil milhões
fazer negócios em África e que en- zanga? Aquela vez em que Patrick BÉM FINGIU de euros, as empresas de Pedro de
trou e saiu do Gabão sem passa- lhe emprestou uma casa em Miami SER CÔNSUL Almeida compravam e vendiam pe-
porte, para não cancelar as reu- e deixou um livro com instruções PARA CON- tróleo, mas nunca tinham estado
niões que já tinha marcado. “Quan- SEGUIR EN- envolvidas na produção. Entrar na
do ia entrar no avião que o levaria TRAR E SAIR exploração era mais ou menos o
dos Camarões [que visitara primei- DO GABÃO mesmo que passar directamente do
ro] ao Gabão, percebeu que tinha Comporta SEM PASSA- Carcavelinhos Football Club para a
perdido o passaporte.” Teve sorte. São 12 km de praia, a uma PORTE Liga dos Campeões – só consegui-
Duas vezes. Primeiro porque no hora de Lisboa, que têm ram subir de campeonato com um
Gabão o controlo de passaportes se atraído estrelas como empréstimo agressivo do BNP Pari-
fazia numa cabana de madeira, Madonna, que este mês bas que, desconfiado, exigiu os acti-
com um funcionário sentado numa andou por lá a cavalo vos da empresa como garantia.
Quase os executou: com a queda do
barril de petróleo para 9 dólares, a
falência esteve por um triz. Mas a
maior improvisação da vida do em-
presário acabaria por correr bem: o
petróleo voltou a subir, primeiro
para os 13 dólares, depois para os
20 e a Addax multiplicou por cinco
Agricultura a capacidade de produção. Resulta-
Pedro de Almei- do: em 2006, a empresa foi coloca-
da também da na bolsa de Toronto e, três anos
quer concorrer depois, vendida aos chineses da Si-
aos 12.500 km nopec por 7,3 mil milhões de dóla-
de área agríco- res (os tais 6 mil milhões de euros).
la, uma das Foi o melhor negócio que fez? “É
maiores do País, impossível fazer outro igual”, disse
famosa pelo várias vezes. E acrescentou: “O me-
cultivo de arroz lhor é nem tentar.” W

75
Sociedade

Albino Martins
68 anos
Cresceu em Santa Cruz,
Torres Vedras. O pai
e o avô também eram
banheiros. Costumava
usar uma corda para tirar
pessoas da água

REPORTAGEM. VIGIAR A PRAIA HOJE E NA DÉCADA DE 70

SÓPRECISEIDEUM
Albino passou por baixo de uma traineira. André fez um curso de 150 horas. Dois nadadores-

lbino Martins tinha 16 traineira. ‘Não me digas que és ca- “Cresci na praia. O meu avô era ba-

A anos quando se tornou


nadador-salvador. “Na-
quela altura (1965) tí-
nhamos de ir a Peniche.
Fazíamos uma demonstração no cais
e o capitão do porto ou um subordi-
nado dizia-nos se estávamos aptos”,
PARA
APRENDER A
NADAR, O PAI
DE ALBINO
ATIRAVA-O
PARA UMA
BAÍA PARA
paz.’ Então mergulhei e ele disse-me.
‘Vai-te embora que já sabes muito.’”
Em menos de 15 minutos, tornava-se
nadador-salvador.
Durante mais de 30 anos vigiou a
praia de Santa Helena, em Santa
Cruz, concelho de Torres Vedras, e
nheiro, o meu pai também e eu se-
gui-lhes as pisadas. Fiz a minha vida
toda aqui.” Aos 7 anos, já sabia atar
às estruturas de madeira os cordões
dos panos das barracas, feitos pela
mãe. Fez a quarta classe e depois
dedicou-se ao areal.
recorda Albino, hoje com 68 anos. VER SE SE apesar de ter deixado a profissão há Não sabe ao certo quantas pessoas
“Dei umas braçadas e perguntei-lhe DESENRAS- 18 anos, em 1999, ainda se mantém tirou da água. “Foram umas deze-
se podia passar por baixo de uma CAVA como concessionário daquela zona. nas”, diz. Já não se lembra de to- Q

76
www.sabado.pt

André Costa
24 anos
É bombeiro. Trabalha
no Guincho, como
nadador-salvador,
desde 2016. Já ficou
preso na corrente

MERGULHO.ETU?
salvadores, um reformado e outro no activo, mostram o que mudou. Por Ana Catarina André

ndré Costa era nada- vítima de volta à praia – tinha le- em terra. “Temos de aprender

A dor-salvador há pou-
cos meses, quando
durante um resgate,
na praia do Guincho,
ficou preso na corrente. “Tinha pé,
mas assim que tentava dar um
passo era puxado pelo mar”, conta
vado pés de pato [barbatanas]; e
eu não. Então, tentei manter-me
calmo e deixei-me levar pelo mar
até à zona das rochas, antes da
praia do Abano.”
Nessa zona, e já com o mar me-
nos violento, conseguiu sair da
NAS PRAIAS
PORTUGUE-
SAS EXISTEM
5.422 NADA-
DORES-SAL-
VADORES,
com os erros.”
Em menos de dois anos – es-
treou-se em 2016 – salvou seis
pessoas das águas turbulentas do
Guincho, em Cascais. “Um dos as-
pectos mais importantes é saber ler
a corrente para perceber quais são
o jovem de 24 anos, que também água. Depois deste “auto-salva- COM IDADE as escapatórias possíveis”, explica
é bombeiro. “Como tinha ido com mento”, como lhe chama, não MÉDIA DE André, que tirou o curso de nada-
um colega, ele conseguiu trazer a voltou a deixar o equipamento 25 ANOS dor o ano passado. Neste mo- Q

77
Sociedade

Q das, mas não esquece a primeira: 1 Q mento há 5.422 nadadores-sal-


uma senhora com uma cicatriz no António vadores a vigiar as praias portu-
Gonçalves Ribeiro,
pescoço, natural de Ponte do Rol, o nadador-salva- guesas, segundo dados do Instituto
uma freguesia do mesmo concelho. dor conhecido de Socorros a Náufragos. A maioria
Albino tinha 13 anos, quando a so- por Tarzan, traba- é jovem – a idade média é 25 anos
lhava na Costa de
correu na praia Formosa, em Santa Caparica – e do sexo masculino.
Cruz também. “Ela estava aflita e pu- André fez o primeiro salvamento
xei-a por um braço. Só gritava: ‘Ai a 2 sozinho, poucas semanas após ter
A praia do
minha mãe, ai a minha mãe.’” Tamariz, no sido contratado pelo concessioná-
Foi o pai que o “ensinou” a nadar, Estoril, sempre foi rio da praia, em Junho de 2016.
muito pequeno. “Atirava-me ali para uma das com mais “Fui buscar uma criança de 6 anos
procura, por isso
uma pequena baía, que se formava à sempre teve que estava a ser puxada pela cor-
beira-mar, para ver se eu conseguia banheiros rente, junto às rochas. Foi só rebo-
desenrascar-me. Eu chorava sempre. 3 cá-la.” E explica: “Normalmente há
Neste aspecto o meu pai era um bo- Os cursos de dois nadadores envolvidos em
cado bruto”, diz. nadadores-salva- cada resgate, mas esta era uma si-
Nessa altura, o pai de Albino não se tomavam banhos sozinhas. Iam de dores surgiram tuação simples.”
na década de 50
limitava a tomar conta do mar e das braço dado com o banheiro, duas a para proteger No Guincho, as ondas chegam
barracas. Alugava fatos-de-banho, duas. “O meu pai até fez um capote os veraneantes muitas vezes aos dois metros e os
“com folhos tipo saia para as senho- para não passar tanto frio.” ventos atingem velocidades eleva-
ras” e “peitilho para os homens”, e das. Há muitas pessoas a praticar
bancos e mesas para piqueniques. Petiscos junto às arribas desportos aquáticos (surf, windsurf
“As pessoas traziam os tachos com Quando Albino ficou à frente da “AS PESSOAS e kitesurf) e muitos turistas afoitos.
comida e enterravam restos de co- praia, na década de 70, já ninguém TRAZIAM O ano passado, em Outubro, já no
mida – ossos, por exemplo – e cas- precisava de ajuda para ir ao banho. TACHOS prolongamento da época balnear,
cas de melão na areia.” Muitas não Ainda assim, “convivia-se muito”. E ENTERRA- André estava com um colega a fa-
“Eu ia apanhar mexilhão, fazia uma VAM RESTOS zer vigilância na esplanada – ponto
fogueira ali junto às arribas e chama- DE COMIDA mais elevado do areal –, quando se
Cursos e material va toda a gente para comer. Em tro- - OSSOS, POR apercebeu que um surfista partira a
A primeira formação ca eles davam-me fruta e legumes EXEMPLO prancha. “A mãe estava à beira-
aconteceu há 61 anos que traziam de casa [a maioria tinha – E CASCAS -mar e entrou logo em pânico. Só
terras de cultivo]”, afirma. DE MELÃO gritava por ajuda.” E acrescenta:
Apesar de o primeiro curso do Q NA AREIA” “As ondas eram muito grandes e
90
alunos participaram no
2
primeiro curso de nadador-
-salvador, que ocorreu em 1956

€180
é o valor mínimo do curso.
Dependendo da entidade for-
madora pode chegar aos 300

3
anos é a validade de cada cur-
so. Passado esse tempo os nada-
dores têm de fazer novo exame

11
objectos (mala de primeiros
socorros, prancha de salvamen-
to e bóias, etc.) compõem o kit
obrigatório por cada 100 m de
área concessionada

78
UM MUNDO DE ESPETÁCULOS 27 JULHO 2017

A PENSAR EM SI!
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M/6
3

M/6 M/6

transportavam uma massa de água


muito forte – foi muito duro tentar
furar a rebentação, muito desgas-
tante fisicamente. No fim, saí
exausto, mas a vítima não sofreu
lesões.” Tift Merritt
Sempre que há uma situação de 19 NOVEMBRO
perigo, André sabe que além dos MUSICBOX LISBOA
pés-de-pato (barbatanas), que aju-
dam a uma deslocação mais rápida
na água, tem de escolher outro
M/6
meio de salvamento: bóia torpedo,
cinto de salvamento, bóia circular
ou vara de salvamento, por exem-
plo. “No Guincho, como há muito
vento, a bóia circular é pouco útil
porque voa. Também não costumo
usar a torpedo (bóia), porque com a
rebentação forte pode bater na ca-
beça da vítima e deixá-la incons-
ciente”, diz à SÁBADO, acrescen-
tando que o cinto de salvamento
lhe parece o meio mais adequado
naquele contexto. E deixa uma críti- M/3
ca: “Aqui não há motas de água,
nem lanchas como existe na zona
das praias de Cascais e Carcavelos.”

Trêssemanasdecurso
Para se tornar nadador-salvador,
André teve de fazer um curso de
150 horas. Em menos de um mês,
aperfeiçoou técnicas de natação e
aprendeu técnicas de resgate e sal-
vamento na praia. “Treinávamos
em piscina e só fomos uma vez à
praia. Isso até pode ser suficiente
para trabalhar em zonas calmas,
mas no Guincho não.” Foi graças à
ajuda de dois colegas brasileiros,
com quem trabalha actualmente,
que melhorou a sua capacidade
de “ler o mar” e adquiriu novos Q
SAIBA MAIS SOBRE ESTE E OUTROS ESPETÁCULOS EM EVERYTHINGISNEW.PT
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27 JULHO 2017
Sociedade www.sabado.pt

Q Instituto de Socorros a Náufragos Q métodos de trabalho. “Nesta área


ter ocorrido em 1956, Albino só se o Brasil está mais evoluído. Eles
inscreveu em 1977. “Treinámos no trabalhavam numa praia com uma
mar e aprendemos algumas coisas torre de vigia de três andares e
sobre suporte básico de vida.” Nessa uma equipa de 15 nadadores – aqui
época um dos nadadores-salvadores somos três”, afirma. “Ensinaram-
mais famosos do País era António -me, por exemplo, uma técnica de
Ribeiro, conhecido por Tarzan: tra- reboque que consiste em mover as
balhava na Costa de Caparica, onde pernas, como se fosse uma tesoura.
terá salvo mais de 400 pessoas. Isso permite contornar a pessoa de
“Hoje é muito mais exigente”, con- forma mais eficaz”, afirma.
sidera. Durante anos, conciliou a ac- André é bombeiro a tempo inteiro
tividade na praia com as actuações na corporação de Algueirão-Mem
no grupo musical Abel Alves, que Martins, e dedica-se à praia nas fé-
animava os bailes. “Tocava de noite rias e nas folgas. “É também uma
e estava na praia de dia. Dormia nos forma de aumentar o orçamento”,
intervalos – na praia nunca.” diz. No Guincho, o dia começa an-
Ao contrário da diversidade de tes das 9h da manhã, com o hastear
equipamento existente actualmente, da bandeira (muitas vezes verme-
o nadador tinha apenas uma bóia lha) e a colocação da sinalização.
circular e uma corda, que usava para “Passamos muito tempo no posto
se manter preso a terra quando en- de vigia para termos uma perspec-
trava na água. Para Albino, o resgate tiva global do que se passa na
mais difícil foi em 1968. “Fui buscar g água.” Terminam por volta das 19h.
um senhor aí a uns 200 metros. O Brenda Silva tirou
A novata do Estoril o curso este ano
outro nadador-salvador que tínha- e é uma das Asurfista tailandesa
A brasileira ainda não fez
mos aqui era velhote e escondeu-se nadadoras mais Apesar de trabalhar numa praia di-
resgates na praia novas no Tamariz
atrás de uma barraca para não ir lá. fícil, André nunca teve de reanimar
Quando cheguei perto do náufrago já Com19 anos, Brenda Silva ninguém. Apenas socorreu pessoas
estava bastante cansado. Ele ora estreou-se como nadadora-salva- com lesões ligeiras, como foi o caso
aparecia, ora desaparecia no meio dora este Verão, na praia do Ta- da surfista tailandesa que entrou
das vagas. Quando já só lhe via o ca- mariz, Estoril. Terminou o curso no mar e foi atirada, pela rebenta-
belo, fiz uma última tentativa e agar- no início da época balnear e ain- ção, para as rochas. “Há muitas tu-
rei-o pelos cabelos.” Conseguiu e da não fez salvamentos no mar. ristas aqui que se aventuram. Essa
trouxe-o para o areal. “Houve um Na piscina, situada junto ao areal, rapariga ainda deu umas camba-
jornalista que publicou uma notícia socorreu uma criança de 2 Os salários lhotas na água, antes de chegarmos
cujo título era Ao menos obrigado, anos. “Começou a descer pela dos nadadores- a ela. Acabou por fazer uma luxa-
porque o homem nem me agrade- rampa e quando vi já estava a -salvadores ção no tornozelo, mas nada mais.
ceu.” Em mais de 60 anos na praia só engolir água. Fui lá e puxei-a. Foi dependem dos Certificámo-nos que não tinha ba-
morreu uma pessoa: um homem en- só um susto”, diz a brasileira que concessionários tido com a cabeça e aconselhamo-
trou no mar com bandeira vermelha vive em Portugal desde os 10 – chegam a -la a procurar uma unidade hospi-
três vezes no mesmo dia e da última anos e que antes trabalhava no 1.000 euros. talar.” Habituado a ter uma profis-
foi engolido pelas ondas. Albino não bar da praia. É a única mulher Em geral, os são de risco, assume com tranquili-
estava de serviço e um banhista ten- no areal do Tamariz. Segundo do Algarve dade que o perigo faz parte do
tou salvá-lo, sem sucesso. o Instituto de Socorros a Náufra- são os que quotidiano. “Há coisas que não
gos, só 20% dos nadadores são ganham mais conto à minha mãe para ela não
Apraia deAlbino do sexo feminino. me prender em casa.”
Ao longo de várias décadas teve vá- Ser nadador-salvador sempre foi
rias fardas: primeiro calções azuis e uma ambição. “Aprendi a nadar
camisola branca, com palavra ba- ANDRÉ aos 3 anos e cresci perto do mar na
nheiro; depois a mesma roupa mas nome passou para outra zona. COSTA zona do Guincho, de Sintra e da
com a palavra nadador-salvador; e Quando fui tirar as licenças anuais APRENDEU A Costa de Caparica”, diz, contando
por fim calções vermelhos e camiso- da concessão, o comandante da ca- NADAR AOS que na adolescência praticava surf.
la branca – Albino não chegou a pitania chamou-me e pediu-me aju- 3 ANOS. VIA “Sempre quis salvar pessoas”, de-
vestir os actuais calções laranja. da para baptizar a praia”, conta. A SÉRIE clara. E a mítica série de televisão
“Usava sempre um panamá branco.” “Lembrei-me da capela de Santa BAYWATCH norte-americana Baywatch teve
Há 20 anos, Albino deu nome ao Helena que há aqui em cima e de E SEMPRE alguma coisa a ver com a escolha?
areal. “No tempo do meu pai, era a uma rocha com esse nome e assim QUIS SALVAR “Sim”, admite. “Era empolgante
praia do centro, mas depois esse ficou: praia de Santa Helena.” W PESSOAS ver aquilo.” W

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Sociedade

CRIATIVIDADE. QUATRO A CINCO HORAS POR DIA CHEGAM

OS GRANDES TRABALH
Sestas, pausas e passeios. Um autor americano estudou a rotina de grandes génios e líderes

lex Soojung-Kim Pang Descanso toria. Tem uma empresa chamada

A não tem dúvidas. A sua


personalidade preferida,
aquela que melhor per-
sonifica os seus ideais de produtivi-
dade e criatividade, é Charles
Livro
Descansar
Autor
Alex Soojung-
-Kim Pang
No seu bunker em plena II
Guerra, Churchill tinha um
quarto onde dormia a sesta,
que considerava essencial
The Restful Company e trabalha em
Silicon Valley, EUA. Falou com a
SÁBADO a propósito do seu novo li-
vro, Descansar– A Razão pela Qual
Conseguimos Fazermais Quando
Darwin. Num artigo que escreveu Editora Trabalhamos Menos, lançado agora
em Março para a revista americana Temas em Portugal.
de ciência Nautilus colocou o se- & Debates “A tese central é que o descanso
guinte título: “Darwin era um pre- desempenhou um papel inesperado,
guiçoso e você também devia ser.” mas essencial, nas vidas de algumas
À SÁBADO, por email, explica esta das pessoas mais criativas e produ-
admiração pelo naturalista inglês: tivas da história”, diz. O livro está
“É provavelmente a mais importan- repleto de exemplos de personali-
te figura na história da ciência, mas dades e do seu método de criação.
só trabalhava 4 ou 5 horas por dia. O nome de Darwin aparece no
Eu nunca escreverei algo como A subcapítulo Quatro Horas [de traba-
Origem das Espécies, mas posso lho por dia], ao lado de grandes no-
aprender com ele como equilibrar mes da literatura (quase todos No-
trabalho e repouso. Tal como nunca bel): Thomas Mann, Alice Mun-
conseguirei correr como Usain Bolt, ro, Mahfouz, Dickens, He-
mas posso aprender qualquer coisa mingway, García Márquez,
pela forma como ele treina.” Bellow, Le Carré, Ballard,
E a rotina de Darwin sabia-se: Somerset Maugham ou
“Após o seu passeio matinal e o pe- Stephen King. Também
queno-almoço, ia para o gabinete às há realizadores, argu-
8h e trabalhava uma hora e meia. mentistas, políticos e
Às 9h30 lia o correio da manhã e matemáticos.
escrevia cartas. Às 10h30, re-
gressava ao trabalho, indo por Andara pé
vezes ao viveiro, à estufa ou a “Para muitas pes-
outro edifício onde realizava as soas criativas, é es-
suas experiências. Ao meio-dia sencial ter uma roti-
declarava: ‘Fiz um bom dia de na, que deve incluir
trabalho’ e iniciava um longo pas- uma paragem, ou
seio. Almoçava e escrevia mais car- fazer coisas que
tas. Às 15h, retirava-se para uma dêem ao subcons-
sesta; uma hora mais tarde, dava ciente tempo e liberdade
mais um passeio e depois regressa- para explorar ideias e resolver
va ao gabinete até às 17h30, quan- os problemas. O mais incrível é
do se juntava à família para jantar. que toda a gente pode fazer
Com este horário escreveu 19 livros, isto, é uma competência que
incluindo o mais famoso livro da se adquire, como aprender
história da ciência.” uma língua”, diz Pang. “Muitas
Alex Soojung-Kim Pang é profes- vezes vemos a rotina como
sor convidado da Universidade de inimiga da criatividade, por-
Stanford, nos Estados Unidos, mas a que a criatividade é caótica e
sua principal actividade é a consul- desregulada. Na verdade, a ro-

82
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

AM POUCO, MAS BEM


mundiais, de Churchill a Darwin e Hemingway, de John F. Kennedy a Steve Jobs. Por Marco Alves

tina ajuda muito. As pessoas muito E andar a pé: Darwin, Kierke- duz-se em mais produtividade,
produtivas não têm uma súbita inspi- gaard, Thomas Jefferson, Dickens, quando na verdade o excesso de tra-
ração e vão a correr para a secretá- Steve Jobs, Tchaikovsky, Beetho- balho é uma fonte de ineficiência e
ria; elas começam a trabalhar e ficam ven. “O princípio da incerteza sur- de erros”. “Recentemente falei com o
inspiradas. Como Pablo Picasso dis- giu a Werner Heisenberg durante criador de uma startup e estava a
se, a inspiração existe, mas tem de te um passeio nocturno em Copenha- implementar a semana de trabalho
encontrar quando estás a trabalhar.” “A ROTINA ga, em 1927”, diz o autor na pág. de 4 dias porque sabia que os seus
O autor diz que há mais segredos. NÃO É 119. “E Erno Rubik chegou à crucial engenheiros, se fossem deixados
Como as sestas. A lista de adeptos é INIMIGA DA inovação do design que resultou no sozinhos, iriam trabalhar demais e
respeitosa: Churchill, MacArthur, CRIATIVIDA- cubo de Rubik enquanto caminhava estoirar. Ele quer grandes resultados
Kennedy, Tolkien, Jonathan Fran- DE. NA VER- pela margem do rio Danúbio.” deles, por isso organiza as coisas
zen, Murakami, Niemeyer, Edison, DADE, AJUDA O grande ponto do autor é o com- para que trabalhem menos, pensem
Allan Poe ou Salvador Dalí. MUITO” bate à ideia de que “mais horas tra- mais, tenham mais energia.” W

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83
Sociedade

REPORTAGEM. ANDÁMOS UM DIA À BOLEIA DA SKETCH TOUR

VOLTA
APORTUGAL
EMPOSTAIS
ILUSTRADOS g
O desenho à beira
da estrada da
serra da Arrábida,
lém não desiste. O lápis heliográfi-
co – que escreve em todas as su-
perfícies – é o melhor aliado.
A nova aposta do Turismo de Portugal com vista para
o convento, foi
Ao lado de Zé, a ilustradora pro-
fissional britânica Lis Watkins en-
faz-se com tintas, papel e 24 artistas. um dos momentos
marcantes saia o último capítulo da sua pas-
Lis Watkins e José Louro são uma das duplas de dia 12 sagem pela Sketch Tour Portugal –
uma parceria entre a associação
que já fizeram 1.000 quilómetros para sem fins lucrativos Urban Sketchers
desenhar a Grande Lisboa. Por Raquel Lito (comunidade internacional de ilus-
tradores) e o Turismo de Portugal
(TP), onde durante uma semana
um sketcher português recebe o
homólogo estrangeiro e pintam
om o caderno A5 pousado tos próximos são desenhados com uma das sete regiões turísticas.

C nos joelhos, José Louro


(prefere que o tratem por
Zé) recomeça os desenhos
de observação no terreno. Vale
tudo: enganos, sobreposições e es-
cores mais fortes e densas.” Des-
contraído, vai rabiscando o que vê
à volta da viatura de nove lugares
em que viaja. Pode ser uma paisa-
gem com os contornos da janela ou
7
horas
diárias
dedicadas a
Seis desenhos por dia
Os postais ilustrados da Grande
Lisboa ficaram terminados ao fim
do dia 12 de Julho e são a terceira
boços mais ou menos inacabados a outra coisa qualquer, inclusive os desenhar para incursão deste projecto, que arran-
partir de uma carrinha-ateliê em repórteres da SÁBADO, sentados a Sketch Tour. cou com outro grupo de quatro em
andamento. “Ao mesmo tempo que no banco à sua frente. A caixa de Lis e Zé Fátima, no mês de Maio. A marato-
me divirto, tento pôr as proporções aguarelas está prestes a cair, devi- descobriram na vai continuar até 2018, com ar-
que existem à minha volta numa do à trepidação, mas o professor de este anúncio tistas portugueses e estrangeiros e
coisa plana [o caderno]. Os objec- Artes Visuais de um colégio em Be- no centro histó- com novas paragens: Porto e Dou-
rico de Setúbal ro (Agosto), os campos de golfe de
Lisboa e do Algarve (Setembro), o
surfna Costa Alentejana e em Pe-
Lis Watkins José Louro niche (Outubro), Madeira (Dezem-
55 anos 52 anos bro), Algarve (Fevereiro), Alentejo
A ilustradora profis- O professor de (Março), trilhos ainda a definir
sional de Londres Artes Visuais em (Abril) e a zona Centro (Maio).
nunca tinha estado Lisboa prefere o “Cada uma destas regiões será
em Portugal desenho quase abs- O SKETCH explorada através de temas rela-
tracto; desenha sem- TOUR cionados com o património, a na-
pre no caderno A5 PORTUGAL tureza, a gastronomia e os vinhos.
COBRE SETE Se o resultado final for o esperado
REGIÕES em termos de originalidade e de
TURÍSTICAS. gerar mais visibilidade e visitas,
EM AGOSTO será uma parceria para continuar”,
SEGUE PARA explica à SÁBADO Luís Araújo, pre-
O DOURO sidente do TP e também conhece-

84
27 JULHO 2017
www.sabado.pt

cação iniciada no século VIII abre-se


para os estuários do Tejo e do Sado.
Mas não vai acontecer. Para come-
çar, Lis tem medo de alturas. Depois,
tanto um como outro consideram
que a paisagem carregada de ele-
mentos visuais implicaria horas de Petiscos
desenho. Desenho de José Louro à mesa: o couvert, os tre-
moços e a sangria de tinto no restaurante típico
Há metas a cumprir: seis ilustra- D’Bacalhau, no Parque das Nações, 11 de Julho
ções por dia; cerca de uma hora

FOTOS RICARDO PEREIRA


dedicada a cada; e uma exposição
prometida para Julho de 2018, em
local a definir. “É um projecto ino-
vador. Tem raízes nas Grand Tours
que artistas, pensadores e escrito-
res começaram a fazer desde o sé-
dor da área. “Comecei a desenhar Igreja de culo XVII, mas abre um novo capí-
em criança, prefiro caderno e São Julião tulo sobre o modo como se pensa e
A última aguarela de
aguarela.” Lis Watkins para o se quer mostrar Portugal”, contex-
Numa quarta-feira de manhã atra- projecto Sketch Tour tualiza à SÁBADO Mário Linhares,
vessamos a Ponte 25 de Abril em di- Portugal, ao fim da tar- director de educação dos Urban
de de dia 12. A britânica
recção a Palmela, onde supostamen- pintou-a numa esplana-
Sketchers em Portugal.
te irá decorrer, no castelo, o primeiro da do centro histórico A propósito do décimo aniversá-
desenho do dia. O terraço da fortifi- de Setúbal rio da comunidade, fundada no Q

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85
27 JULHO 2017
Sociedade www.sabado.pt

Q site Flickr por um espanhol a h


residir nos Estados Unidos (Gabi A perspectiva de
uma piscina do
Campanario), Mário desafiou o empreendimento
Turismo de Portugal a promover o turístico de Tróia,
País através de desenhos. A fase por José Louro
das negociações, iniciada em De-
zembro de 2016, acabou em Abril
de 2017 com a perspectiva do de-
senho de observação ganhar visi-
bilidade. O grupo português – e
sobretudo o pólo de Lisboa – é um
dos mais dinâmicos ao nível mun-
dial (tem mais de 500 membros, gados. “A malta parava, olhava pela ascensão e queda da Torralta
232 deles sócios registados). PATRIMÓNIO, para nós e perguntava o que está- – um dos empreendimentos turís-
“Como em Lisboa havia um foco NATUREZA, vamos a fazer. Até tiraram fotos”, ticos mais in da Europa nos anos
de interesse nos festivais de Verão, GASTRONO- conta Zé. 70, falido no pós-Revolução. A So-
o país escolhido foi Inglaterra. Era MIA E A escassos metros dos artistas, a nae viria a recuperá-lo a partir de
importante escolher sketchers que VINHOS SÃO guia e o motorista desfrutam dos 30 1997. Agora retoma o glamour de
se sentissem à vontade para dese- OS TEMAS A graus à sombra. Paula espanta-se outros tempos. Lis e Zé estão en-
nhar pessoas”, diz Mário Linhares. DESENHAR, com a rapidez do desenho: meia tretidos a pintar, quase não tocam
A viagem de Zé e Lis continua EXPLICA hora depois já estão a caminho. Mas no buffet do restaurante Aqualuz.
para a serra da Arrábida: luz ideal, O PRESIDEN- logo a seguir mais uma espera na A britânica destaca o azul do céu,
estrada com pouco trânsito e nova TE DO travessia do Sado atrasa o almoço oposto da neblina de Londres,
varanda deslumbrante. Desta vez, a TURISMO DE em Tróia. O ferryboat está cheio, é onde vive com dois filhos, de 22 e
guia-intérprete Paula Colaço Al- PORTUGAL preciso esperar pelo próximo. Lis 19 anos. “É a primeira vez que ve-
meida – contratada pelo TP para instala-se junto a um múpi publici- nho a Portugal. O Mário Linhares
ajudar a dupla a chegar aos ex-lí- tário, Zé prefere a palmeira. Reto- convidou-me, tive muita sorte. Em
bris e a uns quantos paraísos es- mam os desenhos, com o professor cada sítio que estive aqui podia
condidos – é bem-sucedida. a admitir algumas dificuldades de desenhar o dia todo.”
O miradouro da reserva natural escala, lançada pelo primeiro traço.
com vista para o convento fran- “Estou a tentar safar-me. Vai correr Onde está a Lis?
ciscano de Nossa Senhora da Ar- NOS Alive mal. Comecei ao contrário, da direi- Nos últimos momentos da marato-
rábida agrada a ambos. Lis abs- Entre a agitação do ta para a esquerda. Teria sido me- na, no centro histórico de Setúbal,
trai-se do medo das alturas. As- festival, Lis Watkins lhor começar pela esquerda porque dá-se o inesperado. A sketcher
mantinha-se tranqui-
senta arraiais à beira da estrada, la a desenhar o agora tapo com a mão o que já está afasta-se do grupo. Zé detém-se
abrindo o banco de campismo ar- público. Decorria o feito. Todos os erros estão aqui numa santa da igreja do Convento
ticulado e o estojo de pintura. Zé concerto da banda concentrados [aponta para o esbo- de Jesus, a Nossa Senhora do Am-
prende as folhas do caderno com norte-americana Foo ço do frontão de um edifício do paro vestida de noiva. “As devotas
Fighters (dia 7 de
molas da roupa porque o vento é Julho) e os curiosos centro de Setúbal].” ofereciam-lhe os vestidos depois
o seu maior inimigo. Nem se dão tiravam fotos da O ferry está prestes a desembar- de casadas”, explica à SÁBADO a
conta de um turista suíço que os dupla de sketchers car para uma península marcada funcionária Donzília Peixoto, que
interpela – nada de especial para regista as entradas e as saídas de
quem passou a última edição do visitantes – em média 80 por dia.
NOS Alive, no Passeio Marítimo de De Lis nem sinal.
Algés, a ser sistematicamente in- Paula, a guia, começa a ficar preo-
terrompido por festivaleiros intri- cupada. Procura-a pelos cafés junto
ao convento – e nada. Uma hora
depois, encontra-a umas ruas à
frente. A sketcherestá calmamente
sentada numa esplanada da Praça
do Bocage, acompanhada por um
café e um pastel de nata, enquanto
desenha. Diz que avisara Zé que iria
Casa das Azenhas do Mar pintar outra igreja, a de São Julião,
A obra de Raul Lino, construída em de fachada branca. É o seu desenho
1920, é mantida pelos descenden- de despedida do Sketch Tour Portu-
tes. Continua sem electricidade
nem água corrente para manter a
gal, que deu a volta à Grande Lisboa
memória do arquitecto. José Louro com um número redondo: 1.000
desenhou-a a 10 de Julho quilómetros de estrada. W

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SAÚDE. O ANTIBIÓTICO MAIS PRESCRITO A CRIANÇAS

O DOCE SABOR
DE ESTARDOENTE
Aamoxicilinaserve paracurarquase todas as infecções e é a
mais indicadaparacrianças pequenas. Mas averdadeirarazão
porque se gostatanto delaé o saborachiclete. PorLucíliaGalha

ual é a melhor parte de ficar Laranja


Q doente? Hipóteses de res-
posta: a) Faltar ao traba-
lho/escola; b) Poder passar o dia no
O Ibuprofeno
tem aroma de
fruta e sabor
sofá a ver séries em loop; c) Aquele adocicado,
delicioso antibiótico com sabor a pode ler-se
chiclete. Se nasceu antes do segun- na bula Odor de fruta
do milénio e ainda não tem filhos O paracetamol é um líquido
talvez tenha de apelar às suas recor- viscoso, de cor vermelha,
dações de infância. E ao tempo em com odor de fruta e sabor
que, em vez de comprimidos, toma- adocicado
va xaropes. Pode até parecer estra-
nho mas o sabor da amoxicilina – o
antibiótico mais prescrito a crianças tizante para as crianças – e também
– é tão memorável que se tornou para os pais. Mas também pode ser
assunto de discussão (e de nostalgia) perigoso: se forem muito bons, as
nas redes sociais e nos fóruns da In- crianças podem querer tomá-los
ternet. No Reddit, num grupo dedi- quando não precisam, às escondi-
cado à nostalgia, há um postsobre o das, e há o risco de intoxicação.
“medicamento com sabor a pasti-
lha” com mais de 14 mil upvotes Não é um doce, é aspirina
(uma espécie de gostos); e já em Ju- Foi o que aconteceu no fim dos
nho deste ano, o BuzzFeed fez uma anos 40, quando chegou ao merca-
lista de memorabilia dos anos 90 do a chamada aspirina infantil. A
em que a amoxicilina (que chegou Saint Joseph for Children, lançada
ao mercado em 1972) é uma das 45 em 1947, era cor de laranja, tam-
recordações em destaque. bém sabia a laranja e foi anunciada
A amoxicilina é um antibiótico da como “uma aspirina doce”. “Pou-
família da penicilina que é usado no cos anos mais tarde, a incidência
tratamento de várias infecções cau- de intoxicações por aspirina au-
sadas por bactérias, nomeadamente mentou drasticamente, quase
respiratórias (como sinusites), diges- 500%”, disse Cynthia Connoly, que
tivas (amigdalites), urinárias e tam- estuda a história dos cuidados de
bém na pele. É a primeira escolha saúde pediátricos, ao The Atlantic.
dos pediatras, sobretudo para as Depois disso, foi criada uma tampa
crianças mais pequenas, porque de segurança e a companhia farma-
ISTOCKPHOTO

além de ser eficaz para quase tudo, a NO REDDIT cêutica deixou de publicitar o medi-
probabilidade de causar efeitos se- HÁ UM GRU- camento como um doce. “Nos anos
cundários é menor do que com ou- PO DEDICA- 80, o anúncio à aspirina mostrava
tros antibióticos. Também há uma DO AO “ME- uns comprimidos a cantar ‘We’re not
razão para o gosto a chiclete: a peni- DICAMENTO Chiclete candy, even though we lookso fine
cilina tem um sabor muito amargo. COM SABOR A amoxicilina tem odor e sa- and dandy. Too much ofus is dan-
Tornar os medicamentos “saboro- A PASTILHA” bor a pastilha elástica. O me- gerous’ [Não somos doces, embora
sos” faz com que a experiência de COM 14 MIL dicamento em xarope con- pareçamos tão bons. Tomar muitos é
estar doente se torne menos trauma- GOSTOS tém açúcar, avisa a bula perigoso]”, lembra a especialista. W

87
Família

ma das minhas memórias h

U mais queridas é acordar,


nas manhãs de Inverno,
com o aroma a fatias
douradas. A minha avó, no perpé-
tuo pavor de que o neto passasse
Renato Rocha
fotografado
na cozinha
Kiss The Cook,
esta segunda-
-feira (dia 24).
Trouxe os
frio, preparava-me um pequeno-al- ovos da terra
moço reforçado, que incluía a sua da avó, no
Alentejo
especialidade: fatias de pão alente-
jano mergulhadas em gemas de
ovos caseiros, das galinhas da vizi-
nha, fritas durante alguns minutos,
e depois polvilhadas com açúcar
amarelo que, claro, derretia com o
calor, transformando-se numa cal-
da deliciosa. Lambuzava-me com
gosto e ia para a escola de barriga e
alma cheias. Mais tarde tentei conti-
nuar a tradição familiar e repetir a
maravilha. O pão não era o indica-
do, deixei queimar o óleo e o açú-
car espalhou-se pelo chão da cozi-
nha; o resultado final tinha pouco

FOTO MARISA CARDOSO, AGRADECIMENTO KISS THE COOK


de fatia e ainda menos de dourado.
Reduzido à minha insignificância,
liguei à minha avó a perguntar o
que tinha corrido mal. Com o seu
carinho e diplomacia habituais, res-
pondeu-me: “Tudo.”
Claro que a minha avó não ficou
surpreendida. Quando fui viver so-
zinho apercebi-me rapidamente
que o ratinho de biblioteca que
nunca tivera jeito para os trabalhos
manuais também não chegara a
desenvolver o senso comum quoti- LIVRO. GUIA DE UM FILHO MIMADO QUE NÃO SABIA FAZER NADA
diano exigido a qualquer dono de
casa. O leitor pode sorrir com a in-
competência alheia, mas tenho a
certeza de que também conhece al-
guém assim. Um dia típico de uma
pessoa desorganizada, como eu,
CONFISSÕES
DE UM
começa com meia hora de atraso,
uma camisa por passar a ferro, um
pequeno-almoço apressado, um
carro na reserva e um sapato que
pisou materiais biológicos indesejá-
veis. A confusão começa sorrateira,
multiplica-se, arrasta tudo consigo,
distrai-nos do essencial e transfor-
ma o aparentemente secundário
num problema devorador.
ENRASCADO
Como é que um devorador de livros sobrevive na cozinha? O autor
Esta entropia caseira, descobri, é a
verdadeira textura da vida. Viver so- de Desenrasca-te! faz-nos o relato dos seus acidentes. PorRenato Rocha
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zinho, e ainda por cima a trabalhar em pequeno e que, na altura, igno-


em casa, não é a sequência de ma- Estreia aos 25 anos rei, para minha tragédia pessoal. O
ravilhas prometidas, muito menos O guionista estrelou o neto desorganizado não se trans-
sinónimo de liberdade: nada nos primeiro ovo tardiamente formou numa pessoa organizada,
prende como a rotina. No meu caso mas pelo menos aprendeu a de-
em particular o universo hostil não Plano B NasceuemLisboa há 26 senrascar-se.
se preocupava com o guião que ti- para anos, mas só aos 25 estrelou um E agora, está tudo bem? Será que
nha de entregar até às oito da noite, engomar ovo pela primeira vez. Assume consegui reduzir o caos e, final-
muito menos com aquela ideia para Problema: não ter mais queda para letras do que mente, concentrar-me apenas e só
um conto que precisava de ser tra- ter uma camisa para tarefas domésticas. Licen- naquilo a que, tipicamente, chama-
balhada: os acidentes domésticos, engomada para ciado em Cinema, no ramo mos “vida”? Nem por isso. As ses-
mesquinhos e egoístas, rasteiravam- ir trabalhar. Argumento, pela Escola Superior sões de escrita e de trabalho conti-
-me sempre. Afinal, como viver a Solução: seca- de Teatro e Cinema, do Instituto nuam a ser interrompidas por aci-
vida, e vivê-la a sério, se um copo dor do cabelo Politécnico de Lisboa, fez parte dentes que não lembram ao diabo e
entornado em cima das únicas cal- das equipas de guionismo de a casa arrumada acaba sempre por
ças lavadas pode sabotar um dia três telenovelas da TVI: Belmonte ficar desarrumada (juro que a culpa
prometedor? De uma nódoa inespe- (2014), Massa Fresca (2016) e não é minha; acontece). Para al-
rada ao niilismo filosófico vai uma Santa Bárbara (2016). Prepara guém que, como eu, tem o poder de
curta distância. As fatias douradas outra para a estação de Queluz e acelerar essa desarrumação, resta
perfeitas que a minha avó fazia – “AS SESSÕES escreve oito horas diárias. Tem apenas rir-se da desgraça e tentar
sem qualquer dificuldade – deixa- DE ESCRITA um romance concluído na gave- transformá-la em algo diferente. A
ram de ser apenas um sabor de in- E DE TRABA- ta e “45 milhões” de ideias de vida de um enrascado pode ser
fância e tomaram, na minha cabeça, LHO CONTI- narrativas. Desenrasca-te! é a sua mais caótica, mas é, sem dúvida,
os contornos de um verdadeiro mi- NUAM A SER primeira obra, lançada pela Ofici- mais divertida.
lagre. Seria eu um caso perdido? INTERROM- na do Livro no passado dia 19. Há uns tempos, pedi ajuda à mi-
PIDAS POR nha avó para fazer fatias douradas:
Como reduzir os danos ACIDENTES queria descobrir se tinha ignorado
Há duas abordagens típicas para QUE NÃO algum segredo oculto. Estávamos a
lidar com este problema: ou LEMBRAM isso, dizemos que alguém é “desen- meio da preparação dos ovos e
aprender a ser uma pessoa estru- AO DIABO” rascado” apenas quando o quere- lembrei-me:
turada e organizada (impossível, mos elogiar. – Avó, sabes como é que se
no meu caso) ou fazer aquilo a Ora, de criatividade e ideias paler- separa a gema das claras?
que nós, portugueses, chamamos mas percebo eu. Arranquei o botão – Com as mãos.
“desenrascar”. Além de ser uma das calças? Venha o alfinete de – Então vou ensinar-te um
das palavras mais feias da língua dama. Não tenho facas lavadas? truque.
portuguesa, trata-se de um verbo Venha o fio dentário. Entornei água Todo pimpão e orgulhoso muni-
ILUSTRAÇÕES DO LIVRO: TAMARA ALVES

difícil de analisar. em cima do telemóvel? Venha o me de uma garrafa de plástico va-


A definição no dicionário é curta e pacote de arroz. Desligo o desper- zia, apertei-a ligeiramente, encostei
certeira, mas não faz justiça ao seu tador e viro-me na cama sem acor- o gargalo da garrafa à gema, aliviei
potencial expressivo. Informalmen- dar? Escondo-o do outro lado do a pressão na garrafa e a gema foi
te, usamos o verbo “desenrascar” quarto. E, entretanto, envernizei chupada para dentro, perfeitamente
em muitas situações diferentes, móveis com vinagre e azeite, passei inteira e solitária.
com um sentido que é mais ou a ferro com secadores, habituei-me – Essa eu não conhecia — respon-
menos este: algo que podia ter sido a técnicas para memorizar listas de deu a minha avó, divertida.
evitado correu mal e, agora, é pre- compras e aprendi, finalmente, a – Pois é.
ciso encontrar uma solução desele- Puré de fazer um arroz que não fica nem – Mas para esta receita não é pre-
gante, puramente prática e que dê improviso uma sopa, nem um pedregulho. ciso separar a gema das claras.
muitíssimo pouco trabalho. Para Não há crise se Lidar com o stress diário e os aci- – Pois não — respondi, desapon-
quê prevenir se podemos remediar? os legumes co- dentes domésticos transformou-se tado. Continuámos com a recei-
Apesar disso, um “desenrascado” zerem demais. num exercício constante de desco- ta. No fim, provei as fatias doura-
não é visto nem como um negligen- Vão à varinha berta destes pequenos truques; e, das. Estavam iguais às da minha
te, nem como um incompetente. As mágica e con- muitas vezes, claro, reencontrei vá- infância, impossíveis de imitar.
suas ideias palermas são, no fundo, vertem-se num rios bocadinhos de informação que Há coisas que não podemos mes-
exercícios de criatividade e, por delicioso creme a minha avó tentou transmitir-me mo desenrascar. W

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Social

MODA. OS ESTILISTAS DA MAIS FAMOSA MAISON DE COUTURE

O
DIOR
primeiro desfile de moda
“moderno”, com modelos
em vez de cabides, acon-
teceu em 1858, em Paris,
ideia de um inglês, Charles Worth.
Também nasceu aí o termo haute
couture, alta-costura, que os anos e a
indústria transformaram numa espé-
cie de “denominação de origem”,
com protecção legal e tudo. É um clu-
be: não há hoje mais de uma dezena
e meia de maisons e 2017 marca um
ano especial para uma das mais
especiais: a Casa Dior faz 70 anos.
Foi criada em 1947 por Christian
Dior, que tinha então 42 anos e have-
7
4
0 ANOS
CRIADORES
Seis estilistas sucederam ao fundador que dá nome à casa,
criada para uma “clientela realmente elegante”. Foi em 1947,
quando a França emergia da Segunda Guerra Mundial

4
Gianfranco Ferrè (1989-1997)
O italiano com um curso de
ria de morrer precocemente, apenas Arquitectura e conhecido como
10 anos depois. A linha de sucessores O Arquitecto projectou criações
(vai em seis) tem procurado guiar-se diáfanas em materiais de luxo.
pelas suas grandes linhas de pensa-
mento, como arriscar, criar diferente,
fazer sonhar. Claro que a evolução da 5
moda ditou que tivessem de abando- John Galliano
nar outros mandamentos, como (1997-2011)
aquele que dizia que um vestido nun- O polémico britânico
ca poderia ter menos de 20 metros de mostrou ao que ia com
tecido. Eis os sete criadores Dior. W o choque da primeira
colecção, inspirada
3
na tribo Masai.

3
Marc Bohan
(1960-1989)
Rejeitando as ex-
centricidades da
moda contempo-
rânea, o francês
criou modelos
clássicos que hoje
representam a
Dior em museus
de todo o mundo.
Detém o recorde
de longevidade à
frente da casa.

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1
Christian Dior (1947-1957)
O estilista tornou-se especialmente admira-
do pelas formas e silhuetas e dizia ter cria-
do o conceito de “mulher-flor”. Morreu de
súbito, numas férias em Itália, com 52 anos.

2
Yves Saint Laurent (1957-1960)
Viu-se à frente da casa com 21 anos
e foi despedido quando foi chamado
1
para a tropa. Na foto, de 1959, está
com a dançarina Tessa Beaumont

6
Raf Simons (2011-2015) Negócio
O belga sucedeu a Galliano e nunca assumiu No primeiro tri-
as colecções masculinas. Com ele a marca mestre de 2017
regressou ao romantismo e à delicadeza. as vendas atingi-
ram 10.400 mi-
6 lhões de euros,
mais 15% que
no ano anterior

7
Maria Grazia
Chiuri (2016-?)
A italiana de 53
anos trocou
FOI ABANDO- Valentino pela
NADO O Dior e na sua
MANDAMEN- primeira colecção
TO QUE DIZIA completa, este
QUE UM VES- ano, regressou a
TIDO NÃO modelos de 1947.
FOTOS GETTYIMAGES

PODIA TER
MENOS DE
20 METROS
DE TECIDO

91
Desporto

Entrevista
CARLACOUTO
É a mulher-maravilha do futebol português, com 145 jogos pela selecção
(um recorde) e 11 títulos de campeã nacional (outro recorde). Foi também a
primeira a marcar a Inglaterra, que este dia 27 é o adversário de Portugal no
Europeu feminino, a decorrer na Holanda. PorRuiMiguelTovareRaquelWise(fotos)

“Omeupai
pagava-mepara
jogarnoSporting”

arla Sofia Basílio Couto, 43 h va andebol no Passos Manuel. Ado-

C anos. Uma figura nacional.


É a futebolista mais inter-
nacional de sempre (145
jogos), à frente de Cristiano Ronaldo
(143), e é ainda a autora do primeiro
Carla Couto,
43 anos, fotogra-
fada num jardim
em Vialonga, onde
vive. Jogava sem-
pre com o n.º 9 na
rava aquilo e disse que não ao meu
pai. Aquilo foi como uma facada,
porque a família é toda sportinguis-
ta. Em conversa com amigos, a
pressãozinha veio naturalmente.
camisola
golo de sempre da selecção femini- Coisas do género: “vai lá treinar”,
na à Inglaterra, última adversária de “não faças isso ao teu pai”, “é o
Portugal na fase de grupos do Euro- Sporting, o clube do pai, tenta lá”.
peu. Começamos por aí. E foste?
Claro. Ao intervalo do treino, o mister,
Sabias que foste a primeira joga- Mário Romeu, pediu-me para assinar.
dora a marcar à Inglaterra, em E o teu pai?
Abril de 2000 [empate 1-1]? Olhava para mim e dizia-me que
A sério? Não fazia a mínima ideia. era o dia mais feliz da vida dele. Fui Qual?
Não te lembras? uma sortuda. Ver o meu pai assim Era o único clube do País com um
Assim de repente, nem por isso. enchia-me o coração. E ele paga- campo relvado.
Lembro-me é da minha estreia ofi- va-me. O do Estádio José Alvalade?
cial, a 11 de Dezembro de 1993. Foi A ti? Não, aquele em frente, onde a equipa
no Estádio de São Luís, em Faro, e Dava-me dinheiro no final do mês masculina treinava diariamente.
perdemos 1-0 com a França. porque estava a jogar no Sporting. Ias ver os jogos do Sporting em
Jogavas em que clube? O teu pai era mesmo Sporting. Alvalade?
Espera aí, já jogava no 1º Dezembro, F Daqueles ferrenhos. Levava-me Claro, íamos todas. Recebíamos pas-
de Sintra. “Fizmuita sempre a Alvalade. ses livres para a bancada nova.
E só tinhas 19 anos... coisa Para ver futebol? E eles iam ver os vossos?
Comecei cedo, aos 16, no Sporting. enquanto Sim, sim. Lembro-me dos 7-1 ao Isso já era pedir demais, não? [risos].
Porquê o Sporting? jogava: fui Benfica. É o jogo mais marcante, Nunca treinaste com os jogado-
Um dia, o meu pai pergunta-me: carteira, porque não é normal haver muitos res do Sporting?
“Não queres ir lá?” jardineira, golos e tanto desnível num dérbi. Isso só virou moda mais recente-
Onde? tipógrafa, Sporting para sempre, portanto? mente. No 1º Dezembro, aí sim,
Aos treinos de captação do Spor- vogalna Junta Há aqui um outro ponto importante treinávamos com os mais jovens
ting, estávamos em 1990 e eu joga- dosOlivais” na decisão de jogar no Sporting. para nos ajudar a melhorar. O as-

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pecto físico dos homens dá-nos esquecer as seis Taças de Portugal Como é que se concilia tudo
outro preparo. [e as quatro dobradinhas]. isso?
Jogavas com que número no Alguma memória mais presente? Com vontade e paixão, as duas ar-
Sporting? Há um jogo mais memorável, sim. mas para combater a monotonia
Primeiro o 10, depois o 9 em definiti- Uma final da Taça, a primeira de do dia-a-dia [volta a rir-se]. Tens
vo. Fosse clube ou selecção, sempre todas no Estádio Nacional, com o de criar etapas. Por exemplo, na
o9 Boavista. Foi em 2010 e ganhámos selecção, a minha maior motiva-
Saíste do Sporting por opção? 6-0, com quatro golos meus. Foi ção era chegar às 50 internaciona-
Não, o Trajouce chegou-se à frente. imediatamente após a morte do F lizações, depois às 75, a seguir aos
E depois? meu pai e tinha de o homenagear “Lembro-me 100 jogos.
Seguiu-se a aventura no 1º De- na justa medida. da primeira Paraste nas 145.
zembro. O futebol feminino é amador, o vitória contra Queria chegar às 150, paciência.
Vocês eram campeãs a torto e a que fazias na vida? a Itália, em Ao todo, 29 golos. Lembras-te do
direito, qual era a motivação? Uiiiii, fui tanta coisa: carteira, jardi- Carrara. primeiro?
A nossa pica era bater o recorde dos neira, tipógrafa, vogal do assessor Ganhámos Sim, senhor, 2-0 à Finlândia, na
10 títulos seguidos do Boavista. do desporto na Junta dos Olivais. 2-1 e marquei Quarteira, para o Mundialito.
E? Entretive-me com muita coisa um golo. Foi Dos jogos mais emblemáticos,
Conseguimos, ganhámos 11. Sem enquanto jogava futebol. em 1994” vejo aqui uma derrota 13-0 Q

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Desporto www.sabado.pt

Cantinho do Tovar

primeira semana, só comi arroz. E


passava o tempo a ligar à minha
mãe a queixar-me. Ela é que me
dava força.
Nem um benefício?
Há a experiência, claro. E o dinhei- O
ro. Desportivamente, acabámos em Rui Miguel Tovar
Jornalista
terceiro lugar. A campeã foi a equi-
pa da Edite Fernandes [outra inter-
nacional portuguesa]. No ano se-
Cozido à
guinte, a federação chinesa voltou a portuguesa
contactar-nos para outro período de
três meses, só que aí apareceu a gri-
no Verão
pe das aves e anulou-se o acordo. E então, qual é o problema?
E depois? Não brinquem com coisas sé-
Apareceu-me uma proposta do Ar- rias, se faz favor.
senal, um clube conceituado na Jota é cá dos nossos. “Porque é
Europa. O convite era fazer a pré- que não há cozido à portuguesa
época. Fui lá e gostaram de mim, no Verão? Só porque está calor?
até queriam que ficasse. Por favor, não faz sentido chegar
E nada? a um restaurante no dia tradicio-
O contrato do Arsenal era diferente nal do cozido [quinta-feira?] e o
do da China. Em Londres, aquilo dono encolher os ombros como
era por objectivos e tinha de pagar se fosse uma verdade universal:
Q com a Alemanha. g casa. Voltei para Portugal. ah e tal o cozido enche muito, ah
Que impotência, pá. Quando os mais Actualmente, E só voltaste a sair para Itália? e tal o cozido é indigesto no Ve-
Carla é delegada
fortes são realmente mais fortes pa- no Sindicatos dos Um moço meu conhecido colocou- rão, ah e tal o cozido isto, ah e tal
rece que um comboio passou por Jogadores Profis- -me essa hipótese da Lazio e apro- o cozido aquilo.” Está lançado o
nós. Ainda por cima, essa Alemanha sionais de Futebol veitei, aos 37 anos. debate. Finalmente, conheço al-
tinha sido campeã mundial e estava Vivias mesmo em Roma? guém que também é contra esse
cheia de moral. Perto do aeroporto Fiumicino, adorei movimento natura, o das comi-
E vitórias de encher o País de aquilo: as pessoas, a língua, a comida. das leves, o das comidas de Ve-
orgulho? E o futebol? rão, o das quiches, o das saladas
Lembro-me muito bem de um 2-1 O futebol mesmo, sim. O resto, não. com rúcula, o do salmão, o do
em Carrara. Primeira vitória à Itália. O quê? queijo feta, o do tomate-cereja,
Marquei um golo e tudo. Foi em 1994. Salários em atraso, um assunto só o das courgettes. É caricato,
Por falar em Itália, jogaste lá. resolvido pelo Sindicato dos Jogado- ponto. Parágrafo.
Na Lazio, uma época. res em Portugal. Querem mesmo fazer-nos
Que tal? E o resto? acreditar que um cozido no Ve-
Bem melhor do que a experiência Olha, vi o Lazio-Sporting para a Liga rão não é tão bom como no In-
anterior, na China. Europa. E vi o voo da águia. verno? Não dá para imaginar
Quando é que foi essa? A águia? esse cenário, essa distinção
Em 2001, estive lá três meses. Foi A irmã da águia Vitória do Benfica. temporal. É como os bares das
muito complicado e pensava cons- A Lazio contratou-a. No primeiro praias estarem fechados na
tantemente em voltar para Portugal. jogo dela, com o Milan, ela aterrou pré-época de banhos e sol, é
Então? no relvado em vez de em cima do como o futebol da pré-época
Aquilo era um contexto especial: símbolo. Foi divertido passar o ano abrir as portas ao entreteni-
nunca tinha saído de Portugal, a di- a vê-la a actuar porque o público mento. Um cozido é bom em
ferença horária era de nove horas, deixa-se enfeitiçar por aquele mo- qualquer altura, chova ou faça
um tratado para quem quer falar F mento pré-jogo. sol, porque a carne não é sazo-
para o outro lado do mundo, e não “Fuipara E vocês, jogavam no Olímpico? nal. Era só o que faltava agora a
estava à espera de encontrar um aChinae Não, não. Só em estádios espalhados vaca meter uma semana de fé-
país ainda fechado, em que não os ganhava pela cidade de Roma. rias em Agosto e o porco inven-
entendia. Nem eles a mim. Só que 3.000dólares E há adesão popular? tar dias de folga em atraso para
ganhava três mil dólares por mês, pormês. Só tivemos uma boa assistência no juntar aos feriados de Junho.
tinha sido contratada pela federa- Passavao dérbi Lazio-Roma. De resto, é Repetimos, é caricato, ponto.
ção da China e eram só três meses. tempoaligar como em Portugal: os familiares Final. Bom apetite. W
Onde? àminhamãe, das jogadoras e alguns amigos.
Em Quandong, no Sul da China. Na aqueixar-me” Nada mais. W

94
1. BRINCAR AOS
COZINHEIROS.

2. DEIXAR O
FORNO A LIMPAR.

3. PASSAR A TARDE
COM A AVÓ.

FORNOS WISH
SISTEMA DUALCLEAN
LIMPEZA MAIS FÁCIL
20 R E C E I T A S P R É - P R O G R A M A DA S
Do leitor leitores@sabado.cofina.pt

Conselho de Administração Paulo Fernandes (Presidente),


João Borges de Oliveira, Luís Santana e Alda Delgado

Américo Amorim, o implacável Directora Geral de Marketing Isabel Rodrigues


Director Geral Comercial Hernani Gomes
Directora Administrativa e Financeira Alda Delgado
Director de Circulação e Assinaturas João Ferreira de Almeida
Director de Informática Rui Taveira
Director de Recursos Humanos Nuno Jerónimo
Directora de Research Ondina Lourenço

Director Eduardo Dâmaso (eduardodamaso@sabado.cofina.pt)


Director Adjunto João Carlos Silva (joaosilva@sabado.cofina.pt)
Editores Ana Taborda (anataborda@sabado.cofina.pt)
Ângela Marques (angelamarques@sabado.cofina.pt)
Carlos Torres (cstorres@sabado.cofina.pt)
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Editor Multimédia Nuno Paixão Louro (nunolouro@sabado.cofina.pt)
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Grande Repórter António José Vilela (antoniovilela@sabado.cofina.pt)
Redacção Ágata Xavier (agataxavier@sabado.cofina.pt) Ana Catarina
André (anaandre@sabado.cofina.pt); Bruno Faria Lopes
(brunolopes@sabado.cofina.pt); Cátia Andrea Costa
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Cronistas Alexandre Pais (alexandrepais2013@gmail.com), João Pereira
Coutinho (pereiracoutinho@hotmail.com); José Pacheco Pereira (jppereira@
gmail.com), Nuno Costa Santos (falarparadentro@sapo.pt), Nuno Rogeiro
(nrogeiro@gmail.com) e Pedro Marta Santos (pedromartasantos@sapo.pt)
Secretária da Direcção Catarina Gonçalves (catarina@sabado.cofina.pt)
L Ilustração Luis Grañena, Rui Ricardo, Susana Villar
Infografia Ruben Sarmento
Mário Tojal Grafismo Nuno Martins da Silva (editor),
Ana Soares (gráfico sénior), Daniel Neves, Marta Cristiano, Marta Luz,
Porto Tiago Dias, Tiago Martinho (gráfico sénior)
Tratamento de Imagem João Cruz e Ricardo Coelho
Muito há ainda que dizer sobre a vida de Américo Amorim, um homem Consultoria Linguística Manuela Gonzaga (manuelagonzaga@sabado.cofina.pt)
que viveu sempre à frente do seu tempo – que não gostava da mentalida- Documentalista Anabela Meneses (anabelameneses@sabado.cofina.pt)

de do caldo-verde - e que se tornou no mais rico do País. (...). A personali- Estatuto editorial (Leia na íntegra em www.sabado.pt)

dade invulgar e implacável e o empreendedorismo do rei da cortiça, como Os textos da SÁBADO não seguem o novo Acordo Ortográfico
era conhecido, destacaram-se desde cedo. Nunca quis ouvir falar em re- Assinaturas
forma nem tão-pouco deixar de trabalhar. (...). Telefone 210 494 999 Email assine@cofina.pt
Correio Remessa Livre 11258 – Loja da 5 de Outubro – 1059-962 LISBOA
(não precisa de selo) ou escreva para: Cofina-Serviço de Assinantes –
Rua Luciana Stegagno Picchio nº 3 – 2.º Piso – 1549-023 LISBOA
Preços de Assinatura PORTUGAL EUROPA RESTO DO MUNDO
Semestral (26 edições) € 59,90 € 126,40 € 188,70
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L L 2 anos (104 edições) € 200,20 - -
IVA incluído à taxa de 6%
Maria Teresa Campos Luísa B. Afonso Contactos Margarida Matos (Coordenadora), Sandra Sousa, Ana Pereira
e Sónia Graça (Serviço de atendimento)
Setúbal Leça da Palmeira
Venda de edições anteriores
Posições radicais Desassombro Contacte-nos pelo 219 253 248 ou RevistasAnteriores@revistas.cofina.pt

Marketing
Agradeço à SÁBADO a entrevista A entrevista com Manuel Pinto Sónia Santos (gestora)

com Manuel Pinto Coelho. Permi- Coelho mostra uma vez mais Publicidade
Assistente Comercial Irene Martins
te perceber como o ego pode dar como a classe médica se protege Rua Luciana Stegagno Picchio nº 3, São Domingos de Benfica,
cabo de alguém que tinha feito e procura amordaçar quem ousa 1549–023 LISBOA Telefone +351 210 494 102 – Fax + 351 213 540 392
ou + 351 213 153 543 Email publicidade@sabado.cofina.pt
um trabalho notável junto de tan- contrariar os princípios em que
Produção
ta gente que precisava. A sua ati- assentam os seus privilégios. De Avelino Soares (director-adjunto), Carlos Dias (coordenador),
Paulo Bernardino, José Carlos Freitas e Fátima Mesquita (assistente)
tude como clínico jamais deveria um clínico também se exige isto –
ser “vender” posições radicais desassombro. É por isso que tanta Circulação
Madalena Carreira (coordenadora) e Jorge Gonçalves
como o jejum e a toma de suple- gente o lê e segue.
Redacção
mentos em larga escala. Não ad- Rua Luciana Stegagno Picchio nº 3, São Domingos de Benfica,
mira o descrédito junto da classe L 1549–023 LISBOA Telefone +351 213 185 200 – Fax +351 210 493 144

médica e os processos da Ordem. Vítor Colaço Santos Sede: Administração e Publicidade


Rua Luciana Stegagno Picchio nº 3
São João das Lampas São Domingos de Benfica, 1549–023 LISBOA

Árvores “bombeiras”
Correcção
No artigo Ter uma cor diferen- Não podemos controlar as altera- Propriedade/Editora
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te ainda é difícil?, que saiu na ções, mas podemos controlar o Capital Social 22.523.420,40 Euros
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SÁBADO n.º 690, as idades ordenamento florestal, eliminando Contribuinte 502 801 034 Pré-impressão
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Qual é o parentesco do satempos para a exerci-
Fernando com o pai do tar a sua mente de forma
irmão gémeo da filha descontraída.
do Fernando; ou Quan- Abre-te Cérebro!
tas voltas dá um cão vol. 3 Mais livros até
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trar no terceiro volume da colec-
ção Abre-te Cérebro!, que distri-
com as próximas edições, até 17 de
Agosto, têm 96 páginas. Como a Rockport
buiremos gratuitamente com reflectir também se brinca e
a SÁBADO da próxima semana aprende, pegue neste novo Abre-te
Para um estilo casual,
– 3 de Agosto. Cérebro! e tente encontrar resposta sem descurar um andar
Tal como nas duas séries anterio- para os diversos enigmas ou adivi- confortável, estas são as
res de Abre-te Cérebro!, que publi- nhas populares. Se não os conse- sandálias de eleição para
cámos em 2014 e 2015, estes novos guir resolver, pode descobrir as
cinco volumes – elaborados pelo respostas nas soluções – que se
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mais feminino, mas nem por isso menos
prático ou confortável. A marca tem também
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pode começar a completar a menores.
colecção da saga Velocidade
Furiosa. Primeiro lançamos
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culo 7 do Guia das Praias Portu- para o mercado portu-
Velocidade
guesas abarca grande parte da Furiosa 8 e 7 guês. Basta pôr o gelo no
região algarvia, incluindo algu- €12,95 e €4,95 interior para refrescar as
Dias 3 e 10 cervejas em meia hora.
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97
Crónica 27 JULHO 2017
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no, qualquer governo, em qualquer Acontece que não era. O gesto podia
CUIDADOS parte do mundo civilizado, a cometer serconstitucionalmente impoluto. Mas
semelhante torpeza? revelava um desprezo pela nossa tra-
INTENSIVOS A falta de inteligência não explica dição democrática – quem ganha,
Qualquer tentativa de manipular os nú- tudo. O poderexplicamuito mais. Li há mesmo em minoria, tem oportunidade
meros, ou até de os “tratar” com critérios tempos, e escrevi algures, que estudos de governar– que não auguravanada
bizarros(mortesdirectas, mortesindirec- recentes nas áreas da Psicologia e das de bom. Se juntarmos ao cenário cer-
tas) esbarra com coisas básicas, como in- neurociências defendiam que o efeito tos traços de carácter – como, por
demnizaçõesdevidas(enãorecebidas) do poderno cérebro humano eramuito exemplo, enviarmensagens ajornalis-
semelhante acertos tipos de lesão cere- tas com ameaças directas – o retrato
bral. Para Dacher Keltner (psicólogo) e do cavalheiro não era propriamente
SukhvinderObhi (neurocientista), o po- inspirador. O País que ainda pensa,
dertende ainibiros circuitos empáticos. confrontado com tal novidade, per-
Moral dahistória? guntou: “Será que, a partir de agora,
C Esta“doença”, se merece o nome, ali- vale tudo?”
mentano político, e sobretudo no líder,
Mortos umafalsaconfiançanas suas capacida-
des para entender e moldar o universo
SIM,ASTRAGÉDIASACONTECEM.
Nos dias seguintes, governos dignos
e vivos em volta. Com o poder, háumaparte da
massacinzentaque tende adiminuir. A
desse nome começam afazerpergun-
tas simples. Como foi possível? O que
NOSDIAS SEGUINTESà tragédia de única coisa que cresce é o sentimento falhou? E, já agora, quantas pessoas
Pedrógão Grande, um amigo jornalista, de impunidade. morreram – e quantas ficaram feridas?
que andou pelo terreno, dizia-me que o As respostas chegam pararestabelecer
número final e oficial de mortos – 64 – ESTE GOVERNO NÃO DESCONHE- o elo de confiança entre os cidadãos e
não correspondiaàverdade. Pelos seus CE ESSE SENTIMENTO. Leio na im- o Estado.
cálculos, o horroratingiaoutras propor- prensa nativa que há um antes e um No Portugal de 2017, temos esta ori-
ções. “Três dígitos”, suspeitavaele. depois de Pedrógão Grande. Antes de ginalidade: uma catástrofe sem pre-
Lembro-me de rir. E de pensar: em Pedrógão, o Governo caminhava so- cedentes – e ninguém sabe nada de
ditadura, é fácil controlar a realidade. bre as águas, iluminado pelainteligên- nada. Não existe uma explicação. Um
Basta ter uma polícia política e uma cia de António Costa e os milagres da número fiável de mortos. Um número
máquinaeficaz de censuraparamanter economia. Depois de Pedrógão, co- fiável de feridos. Aliás, sobre os feri-
o rebanho nalinha. meçou o naufrágio: Costa, afinal, não é dos, ninguém sabe em que estado es-
Em democracia, a dificuldade au- o “gestor político” que se imagina e tão: se melhoraram, se pioraram, se
menta. As pessoas falam. E, ponto cru- nem os sucessos económicos escon- morreram entretanto. E o dinheiro
cial, as famílias sabem quem perderam. dem afalênciado Estado. das ajudas? Ainda não chegou. Por-
Qualquertentativade manipularos nú- Entendo que estahistóriafaçaas de- quê? Não sabemos. Quanto é ao cer-
meros, ou até de os “tratar” com crité- lícias de muitas crianças. Infelizmente, to? Também não.
rios bizarros (mortes directas, mortes já não sou criança. O Governo que te- No topo do bolo, existe agora a sus-
indirectas) esbarra com coisas básicas, mos depois de Pedrógão é o mesmo peita de encobrimento do número de
como indemnizações devidas (e não que tivemos antes. Paraserexacto, é o vítimas e relatos dispersos de “pres-
recebidas). Para usar as palavras de mesmo que nasceu no dia de uma sões” e “ameaças” aos sobreviventes.
Talleyrand, ocultar a verdade de uma derrota eleitoral. Para os sábios co- Paranão falarem demais.
tragédia como Pedrógão não é apenas mentadeiros, perderas eleições e con- O sr. Presidente da República que
um crime; é um erro. E uma confissão seguirformarGoverno eraaprovade- esteja descansado: é apenas o regular
de estupidez que está para lá do meu finitiva de um António Costa tocado funcionamento das instituições no
entendimento. pelo génio. seu melhor. W
Aliás, continuaaestar. Mas as notícias
dos últimos dias têm provocado tremo-
res no meu optimismo antropológico.
Tudo começou com a 65ª vítima: uma
senhoraque fugiado inferno e foi mor-
talmente atropelada. Não está na lista.
Porquê? Segundo os “critérios”, não
morreu queimadanem asfixiada(pala-
vra de honra). O meu coração parou:
querem verque eu sobrestimei ainteli-
NUNO ANDRÉ FERREIRA

C gênciados nossos governantes?


Politólogo, escritor
João Pereira ESPEROQUENÃO.Mas, atítulo de hi-
Coutinho pótese, o que poderia levar um gover-

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MÚSICA
Ahmad Jamal
interrompe a reforma
e fala do novo disco

16
CINEMA
Luc Besson volta aos
ambientes espaciais
de O 5.º Elemento

g GOURMET
Número 126 — 27 de Julho a 2 de Agosto de 2017. Este suplemento faz parte integrante da edição n.º 691 da revista SÁBADO e não pode ser vendido separadamente

p PALCO & PLATEIA


S STYLE

4 A SELECÇÃO NACIONAL DE VERÃO

VINHOS QUE
REFRESCAM
ISTOCK
g
9 4 VINHOS
GOURMET

Aos vinhos pede-se muita frescura


no Verão. Estas são as escolhas
do GPS e de dois sommeliers
9 JÁ ABRIU
Este é o novo spot ribeirinho
de Lisboa – o SUD Lisboa não é só
um restaurante. Tem também um bar,
EDITORIAL
ÂNGELA MARQUES EDITORA
uma esplanada e uma piscina infinita

p PALCO E PLATEIA

10 MÚSICA
COPOS DE TRÊS Ahmad Jamal está reformado, mas editou

E WINE GURUS
agora Marseille. O GPS aproveitou o pre-
texto para falar com esta lenda do jazz
16 CINEMA
20
Já ninguém no GPS se lembra do tempo em Luc Besson volta aos cinemas com
que a palavra sommelier entrou no seu dicioná- Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.
rio – não sendo assim tão antigos, somos ópti- Conheça os detalhes deste filme
intergaláctico
mos para línguas. Nenhum de nós esquecerá,
contudo, este tempo em que a expressão wine 20 LIVROS
guru decidiu sair das caves e entrar para a His- No livro Putas Assassinas, do chileno
tória. Temos estado atentos: vimos os rótulos Roberto Bolaño confluem uma série
das garrafas ganharem tiques de mural de de histórias de personagens de outros
livros seus
street art, fomos a centenas de jantares com
milhares de pratos harmonizados com vinhos e
até encontrámos literatura especializada à boca
de estações de serviço. Durante todo este tem-
po fomos escrevendo sobre vinhos. Nunca an-
22 TEATRO & DANÇA
O grupo Byfurcação está a fazer
agora os seus conhecidos espectáculos
de Verão ao ar livre
22
tes, contudo, dedicámos um tema de capa aos 24 ARTES PLÁSTICAS
vinhos mal-amados – os de Verão. Para o fazer- A Culturgest, no Porto, recebe uma das
mos com a seriedade que o tema merecia, ou- instalações-chave de Alberto Carneiro,
vimos vários wine gurus. Um deles, António Lo- artista que morreu em Abril passado
pes, do grupo hoteleiro Anantara, em Vilamoura,
disse-nos uma coisa que nos ia partindo o co-
ração: que essa identidade vinhos de Verão
“não é bem real” (já o suspeitávamos, mas ado-
ramos um bom título). O que existem, continuou
S STYLE
o wine guru, são comidas mais leves, que ten-
dencialmente se comem mais no Verão – os vi-
nhos que melhor pairing fazem com elas é que
costumam ser mais frescos, ácidos e frutados.
28 27 SHOPPING
Estes são os acessórios que vai querer
levar consigo para a praia – alguns de
Percebemos a ideia – ao mesmo tempo que assinatura portuguesa
servimos mais um copo a cada um. 28 FÉRIAS
Passear de burro ou marcar presença
na festa da ria Formosa são algumas
das sugestões do GPS para esta semana
30 PROVADOR
Para sobreviver tem de resolver todos
os enigmas deste Escape Dinner

Director Eduardo Dâmaso Director adjunto João Carlos Silva Editor de fecho Carlos Torres Editora Ângela Marques Editora adjunta Rita Bertrand Redactores Ágata Xavier, Diogo Lopes,
Gonçalo Correia, Inês Mendes Oliveira e Markus Almeida Colaboradores Filipa Teixeira e João Tomé Críticos Ana Maria Henriques e Célia Pedroso (Restaurantes); Carlos Vidal (Artes Plásticas), André Santos,
Eduardo Pitta e Miguel Morgado (Livros), Filipe Lamelas e Pedro Salgado (Música), Gisela Pissarra (Teatro), Tiago R. Santos e Pedro Marta Santos (Cinema) Secretária da Direcção Catarina Gonçalves
Infografia Rúben Sarmento Fotografia Guilherme Venâncio (editor), Alexandre Azevedo (subeditor) Grafismo Nuno Silva (coordenador), Ana Soares (designer sénior) e Marta Cristiano Tratamento de Imagem
João Cruz, Ricardo Coelho e Ricardo Valente Consultoria Linguística Manuela Gonzaga Documentalista Anabela Meneses

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Feito de Encruzado e
Gouveio, com aroma
a lima e limão, é o sa-
bor do Dão todo, den-
tro da garrafa – e en-
velhece bem: pode
guardá-la para o pró-
ximo Verão.
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DAS VINHAS
PARA A
VINHOS BEIRA DA
PISCINA
O que é um vinho de Verão? Aquele
4
cuja frescura vai bem com pratos
leves e churrascos ou... sozinho,
como aperitivo. Aqui fica a nossa
selecção e a de dois sommeliers
TEXTOS RITA BERTRAND E DIOGO LOPES MAGMA MAMORÉ DE
Os enólogos Diogo BORBA RESERVA
Fonseca Lopes e Correu bem a ideia
Anselmo Mendes do enólogo António
descrevem esta sua Ventura de criar este
empos houve em que os rosés eram con-

T
criação como a branco reserva (em
siderados vinhos menores em Portugal, expressão mais pura tempos, parecia que
sendo quase só consumidos por turistas, do terroir de Biscoi- só os tintos eram
tos, na ilha Terceira, dignos de estágio)
olhados com condescendência por quem Açores. É um mono- para a Sovibor.
só descortina nobreza nos tintos. Até os casta (Verdelho) Denso, mas fresco,
muito salino e vai bem com queijos.
brancos eram mal amados, mas foram mineral. €17
ganhando respeito, sobretudo a acompa- €15
nhar peixes grelhados, no caso dos ma-
duros, e a impor-se como parceiro de mariscadas, nos
verdes. Quanto aos espumantes, a cantilena enaltecia
os franceses e relegava os nossos, na Bairrada excelen-
tes, para as mesas de leitão – de onde só saíam entre o
Natal e o Ano Novo, convocados para brindes festivos.
Os tempos mudam – como cantou o Nobel Dylan e
escreveu o lírico Camões –, o que no mundo vinhateiro
se traduziu no resgate de castas autóctones (do Antão
Vaz alentejano ao Encruzado do Dão, passando pelo
Viosinho do Douro) e deu origem a uma maior diversi-
dade (e qualidade) na oferta.
O problema é que os produtores põem marcas dife-
rente no mercado a toda a hora e o consumidor não
sabe como escolher o mais adequado a cada época ou
situação. Para lhe facilitar a vida o GPS provou e elegeu
os melhores vinhos deste Verão, ideais para tardes pre-
guiçosas à beira da piscina, em terraços e esplanadas vi-
radas ao mar, como aperitivo ou companhia de saladas,
mariscos e churrascos – e para todas as carteiras. v
BRANCOS
LYBRA BRANCO QUINTA DE TITULAR: SOALHEIRO 9% RESERVA DO
– QUINTA DO GOLÃES 2015 É no Dão que nasce
Um vinho perigoso. COMENDADOR
MONTE D’OIRO O produtor chama- este fresquíssimo
De tão elegante e BRANCO 2015
Nos arredores de -lhe “o vinho da quin- Titular:, um monocas-
doce, este Alvarinho Maravilhoso branco
Lisboa mora a ta da avó” porque ta de Encruzado (tão
– que, como o nome da Adega Mayor,
quinta vínica de José esta combinação característica da área
indica, tem baixa difícil de encontrar
Bento dos Santos, de equilibrada de Alvari- de onde vem este
graduação alcoólica deste que ganhou
onde vem este bran- nho, Trajadura e Lou- vinho) que é “dese-
– escorrega bem, a medalha de Ouro
co fresco e mineral, reiro é feita segundo nhado” pelos enólo-
graças à sua acidez no Mundus Vini,
que resulta da com- as tradições minho- gos Carlos Magalhães
subtil (muitas notas concurso de prestí-
binação das castas tas. Muito fresco, e Manuel Vieira.
cítricas e tropicais) e gio na Alemanha,
Arinto e Viognier. com notas florais, é €10,90
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QM – BRANCO DA PROCURA 2015 MERUGE 2015 DONA PAULETTE


VINHAS VELHAS GAIVOSA GRANDE Não foi por acaso Branco de luxo, que Do Dão, este delicio-
Medalha de prata que a edição de Ju- até no Inverno apete- so monocasta (En-
RESERVA 2014 ce, este monocasta cruzado) da Quinta
no Wines of Portugal Apenas lançado em lho da revista Wine
Challenge, este Alva- Spectator deu 91 de Viosinho com de Lemos, criação do
anos de qualidade ex-
rinho das Quintas de pontos (em 100), estágio em barrica enólogo Hugo Cha-
cepcional, este branco
Melgaço, feito com a este branco alen- (da Lavradores de ves, é complexo,
do Douro, à base de
uvas colhidas ma- tejano da serra de Feitoria, Douro), foi gastronómico e de
Gouveio, Avesso,
nualmente de uma São Mamede, criado elogiado pela revista nariz delicado e flo-
Malvasia Fina e Arinto
parcela única de pela enóloga Susana inglesa Decanter. É ral. Na boca sente-se
(de vinhas com mais
vinhas com mais de Esteban. Elegante complexo, harmonio- o equilíbrio perfeito
de 20 anos), pede
30 anos, tem notas e complexo. so e vale a pena guar- de doçura e amargor.
peixes gordos.
cítricas e de ameixa. €20 dar. €25,90
Convém decantar.
€17,50 €20
€18,90

h
ESPUMANTES E ROSÉS
h MARQUÊS QUINTA DO SOALHEIRO QUINTA VÉRTICE ELPÍDIO 80
DE MARIALVA ORTIGÃO CUVÉE BRUTO 2015 DOS ABIBES MILLÉSIME Nos 80 anos das
No concurso Vinhos Esta garrafa resume Caves São Domingos,
BLANC DE NOIR SUBLIME BRUTO 2010 expoente dos espu-
Espumante à base da de Portugal, este toda as qualidades Vem da Bairrada, Vem da mesma casa
Cuvée de 2012, feito das jovens e frescas mantes da Bairrada,
casta tinta (e mágica), este espumante mo- do Douro e tem as
de uvas tintas Baga uvas Alvarinho, espe- nasceu (à base de
típica da Bairrada, a nocasta (Arinto) de mesmas castas (Gou-
(as mais famosas cialmente selecciona- Pinot, branco e tinto,
Baga, este bruto da nariz interessante, veio, Malvasia Fina,
da Bairrada) e bran- das das vinhas de colheita de 2011) este
Adega de Cantanhe- onde predominam Rabigato, Viosinho e
cas Bical, Chardon- Melgaço para este Elpídio – nome que
de, de cor salmonada, notas de fruta tropi- Touriga Franca) que
nay e Arinto, foi espumante clássico, homenageia o seu
é cremoso e muito cal. Na boca sente-se o popular Vértice Cu-
eleito o melhor aperitivo perfeito, de fundador – em edição
gastronómico. a bolha fina e uma vée, mas o Millésime
espumante do ano. bolha fina e sabor limitada. Um luxo.
€5,50 frescura intensa. ganha – é reserva.
Vitória merecida. persistente. €28,50
€22,80 €23,50
€7,90 €12,90

VINHOS

POUCA ROUPA LAVRADORES MAR DA PALHA MONT’ALEGRE ASSOBIO VALLE DE


ROSÉ 2016 DE FEITORIA ROSÉ 2016 CLARETE ROSÉ 2016 PASSOS 2016
Aragonez, Touriga Este rosé de 2016 da O Clarete é caracte- De tom salmão e aci- Manuel Vieira e
ROSÉ 2016 rístico da zona de
Nacional e Cabernet Para rosé, é pálido, o Quinta de Chocapa- dez certeira, o mais Carloto Magalhães
Sauvignon dão cor- lha, Alenquer (região Bordéus, França, novo Assobio rosé do são os enólogos
que não equivale a
po a este rosé bem Tejo), feito de Touri- mas este é bem por- Esporão tem vivaci- responsáveis por
insípido: as notas de
doce e fresco da ga Nacional e Tinta tuguês – vem de dade de sobra, com- este excelente rosé
morango e cítricas
casa João Portugal Roriz, recompensa os Trás-os-Montes. É binando Touriga Na- seco, com travo a
deste Lavradores de
Ramos, que perma- cuidados da sua enó- um blend de castas cional, Tinta Roriz e frutos vermelhos,
Feitoria com Touriga
nece demoradamen- loga, Sandra Tavares tintas, tem um travo Cão de vinhas novas, feito à base de
Franca do Douro im-
te na boca. Aperitivo da Silva: revela um a frutos vermelhos e com Rufete de uma Touriga Franca,
põem-se, refrescan-
perfeito, bom preço. equilíbrio perfeito de é uma óptima opção cepa velha da Quinta Tinta Amarela e
do, mais do que o pa-
€3,99 aromas e frescura. para aperitivo. dos Murças, Douro. Touriga Nacional.
lato, a própria alma.
€5,20 €5,99 €6,50 €8
€4,30
TINTOS
TERRAS CONTOS PAPA FIGOS DISCÓRDIA FAZER AS ONZE
DE ERVIDEIRA DA TERRA Este é um vinho po- Este tinto da Herdade É um tinto versátil e
Quem procura con- Da Quinta do Pôpa e pular, talvez por ser Vale de Évora, vizi- elegante, com notas
tenção de custos nas com nova imagem, dos mais equilibra- nha de Mértola, é o minerais, criado pelo
férias, vai encontrar este tinto sabe a Dou- dos na relação quali- que se chama um vi- enólogo António
um amigo neste tinto ro. Torna-se fresco de dade-preço. Para vi- nho de raça, silvestre Ventura em homena-
jovem e aveludado tão frutado, mas exi- nho do Douro que é, e floral, nunca redon- gem a uma tradição
do Alentejo. A colhei- be também robustez tem perfil muito sua- do, tipicamente alen- de Borba, de onde
ta de 2015 foi meda- no seu blend de Tinta ve e é bastante fru- tejano. Feito de Touri- vem: às 11 da manhã,
lha de ouro no con- Roriz e Barroca, Tou- tado. Acompanha ga Nacional e Franca, o povo junta-se nas
curso italiano La Sele- riga Nacional e Fran- tanto pratos de car- Alicante Bouschet e tascas “para tirar um
zione del Sindaco. ca. Pede grelhados. ne como bacalhau. Syrah, é vibrante com petisco e beber um
€4,80 €5,55 €6,49 enchidos no carvão. copo de vinho”.
€6,50 €9,99

VINHOS

BASTARDO ENCONTRO HERDADE QUINTA CHOCAPALHA


Tem o nome de uma BAGA DAS SERVAS DE VALBOM VINHA MÃE 2012
misteriosa casta do Monocasta Baga, da Luís Duarte, o enólo- Distinguido no Mun-
Douro que integra a RESERVA 2013
Quinta do Encontro, Medalha de ouro no go responsável pelo dus Vini, na Alema-
sua composição. com o seu aroma sucesso da Herdade nha, este tinto reser-
Tinto irreverente da grande concurso
intenso a frutos ver- alemão Mundus Vini, dos Grous, no va vem de uma única
marca Conceito, da melhos bem madu- Alentejo, assina este parcela de vinhas
enóloga Rita Mar- é um blend com
ros e ligeiras notas estágio, de Alicante novo tinto do Douro, velhas da Quinta
ques, não é afável, balsâmicas e tosta- com aroma a fruta de Chocapalha,
mas seduz pelo aro- Bouschet, Cabernet
das, sabe a Bairrada Sauvignon, Alfro- vermelha, madura, Alenquer, combinan-
ma e frescura. Quer e pede queijo curado com notas florais, a do Touriga Nacional,
queijo e enchidos. cheiro e Aragonez.
e carnes vermelhas. Festivo hoje, subli- pedir churrascos. Syrah e Tinta Roriz.
€17 €17,80 €18 Inesquecível.
me se o guardar.
€18 €23,25

h
A ESCOLHA DOS SOMMELIERS

h
GARRAFEIRAS
ONDE COMPRAR
QUINTA DA QUINTA
PALMIRINHA DO POÇO DO
“É um vinho
biológico branco
LOBO BAGA LISBOA
com acidez
BAIRRADA
“Um monocasta
elevadíssima, muito
de Baga muito
GARRAFEIRA NACIONAL
fresco e aromático, R. de Santa Justa, 18, Lisboa
fresco”
ANTÓNIO LOPES quase sem açúcar
€7,50 • 218 879 080 • 9h30-19h30
O percurso deste nenhum”
€3,70 (fecha domingo)
sommelier – actual Wine
Guru do grupo hoteleiro
GARRAFEIRA ESTADO D’ALMA
Anantara – começou na
R. João de Oliveira Miguens, 3B,
cozinha do Vila Vita, em Lisboa • 213 621 639 • 10h-20h
2003. A paixão pelos vi- (fecha domingo)
nhos foi crescendo e em
2008 decidiu dedicar-se OS GOLIARDOS
em exclusivo a esse uni- R. General Taborda, 91,
verso. Antes COVELA ROSÉ MERUGE TINTO Campolide
“Os vinhos que mais “É um grande vinho,
VINHOS
de chegar ao gosto de dar a beber • 213 462 156 • 5.ª e 6.ª, 17h-20h
muito elegante,
grupo tailan- no Verão costumam fresco, que fica bem
dês onde ago- ter sempre uma boa
acidez. Com este
tanto com peixe
como com carne.
PORTO
ra trabalha, foi somme- Covela, do Douro, E não só – sozinho
lier principal no Gusto acontece precisa- também funciona GARRAFEIRA TIO PEPE
by Heinz Beck, no Con- mente isso” muito bem”
8 €7,85 €18,90
R. Eng.º Ferreira Dias, 51, Porto
rad Algarve, onde esteve • 226 184 656 • 10h30-13h30h
quatro anos e meio. e 15h-20; sáb. 10h-13h
(fecha domingo)

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R. do Carmo, 17-18, Porto
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sáb. 9h-13h (fecha domingo)

VINHA
R. Pedro Homem de Melo,
ANTHEA QUINTA DA 244C, Porto • 22 616 0129
ALVARINHO MURTA ROSÉ • 10h30-14h e 15h-19h30
“Escolho este vinho “É óptimo para acom- (fecha domingo e 2.ª)
pela sua casta, que é panhar uma degusta-
Alvarinho, uma das ção de petiscos lisboe-
melhores de Portu-
gal. É floral no nariz e
tas. É um vinho fresco
e frutado, fácil de
ALGARVE
RODOLFO TRISTÃO tem um sabor seco e degustar. Tem um
O actual sommelier do refrescante. Acompa- sabor intenso, com GARRAFEIRA SOARES
Belcanto (duas estrelas nha pratos de peixe” bolha fina e final Parque Comercial Vale Santa
€8,95 apetecível”
Michelin) e presidente €8
Maria, Lote 20, Albufeira
dos Escanções Portu- • 289 510 460 • 8h-18h
gueses despertou para o (fecha sábado e domingo)
mundo da restauração
quando era pequeno, no GARRAFEIRA SANTOS
café dos avós, no Carta- R. Diogo Lobo Pereira, 2, Loulé
xo. Deixou de lado uma • 289 417 454 • 10h-19h30
NINFA FITA PRETA
carreira de médico e fu- “Destaco este vinho (fecha domingo)
por ser de uma “TRINCADEIRA
tebolista para se dedi- região [Tejo] que PRETA”
car ao vinho e já soma “Um vinho bastante
ADEGA ALGARVIA – ÁLVARO
tem vindo a recupe-
uma série de estágios rar estatuto no mun- versátil. É um tinto de ABRANTES, LDA.
do dos vinhos. Ele é Verão frutado, com R. Cristóvão Pires Norte, Loulé
em restaurantes de frutado, com um notas de especiarias,
• 289 398 966 • 9h-19h
prestígio, como o famo- ligeiro toque floral, e sabor seco e frescura
so Celler de Can Roca, no sabor prima pela invulgar para um tin- (fecha sábado e domingo)
frescura e pela to. Acompanha carnes
em Girona, por exemplo. acidez” grelhadas e petiscos” * Preços indicativos de venda
€7,95 €9,42 ao público, não vinculativos
JÁ ABRIU!
ge, uma esplanada (coberta ou não, conforme o
tempo) com um jardim suspenso, uma piscina infini-
ta, um pool bar & shisha lounge e um quiosque com
serviço de take-away – e isto apenas no Pavilhão

SUD Lisboa: Poente, identificado como SUD Lisboa Terrazza. O


SUD Lisboa Hall complementa o primeiro, mas rece-
be apenas eventos privados e festas.

todo o sabor Com detalhes em cobre e elementos marítimos, a


inspiração para a decoração do espaço não deixa
margem para dúvidas: os Descobrimentos estive-
mediterrânico ram na base do trabalho do arquitecto português
António Pinto, que assinou o projecto do SUD Lis-
boa. À noite, o espaço ganha nova luz através de pai-
à beira do Tejo néis acrílicos com padrões de algas marinhas que
vão mudando de cor.
Ao leme da cozinha está o chefexecutivo italiano
q INÊS MENDES OLIVEIRA Carlo Di Nunzio, que já trabalhou em várias cadeias
“Ouço dizer muitas vezes que aqui só faltam mesmo hoteleiras e restaurantes independentes, na Holanda,
os quartos”, afirmava, na apresentação da novidade Roménia, Inglaterra, França, Luxemburgo
à imprensa, Salomé Gorgiladze, administradora dele- e Suíça. Do seu currículo destaca-se o res- RESTAURANTES
gada do SUD Lisboa, o novo espaço gastronómico taurante Club Coconut Rimini, em Itália,
(e não só) da capital. Explicou depois que este é o pri- com uma estrela Michelin. É às suas ori-
meiro projecto do grupo SANA que não é um hotel – gens – coincidentes com as da cozinha portuguesa –
o que justifica o comentário. De facto, pondo de par- e à comida da própria mãe que o chefvai buscar ins-
te o alojamento, o SUD Lisboa (dividido entre dois piração para este restaurante mediterrânico com en-
SUD LISBOA 9
TERRAZZA pavilhões, o Hall e o Terrazza), na zona ribeirinha de foque nos sabores italianos. A esta cozinha chegam
AV. BRASÍLIA, Belém, tem de tudo, a começar pela vista desimpedi- três vezes por semana ingredientes de produtores
PAVILHÃO POENTE, da para o Tejo. Redutor seria dizer que é um restau- da Apúlia (região do Sul, ou, como costuma dizer-se,
LISBOA
8h-2h (todos os dias) rante. É mais do que isso – serve pequenos-almoços, no “salto da bota”). Um exemplo é a burrata, servida
• €25 (preço médio) almoços, lanches e jantares; é também um bar loun- com azeite e tomate-cherry.
Para quem gosta de partilhar pratos, há opção de
food sharing ao almoço e ao jantar, podendo esco-
lher-se especialidades italianas, como risoto com la-
gostins, ou outros pratos de carne ou peixe. Para
animar, há ainda uma dupla feminina de música ao
vivo, DJ residente e um saxofonista. v

O SUD Lisboa
deve o nome
à palavra
south, aqui
FOTOS ANTÓNIO NASCIMENTO

usada para
designar a
cultura des-
contraída dos
países do Sul
da Europa
e a comida
mediterrânea
pPALCO &PLATEIA

MARSEILLE
Jazz
• Ed. Jazzbook
Records
€8,99 (iTunes)

MÚSICA

10

FOTOS GETTY IMAGES


os últimos momentos da conver-

N
sa telefónica com Ahmad Jamal –
lendário pianista de jazz que aca-
ba de lançar Marseille, um novo
álbum de originais –, os papéis de
entrevistado e entrevistador alte-
raram-se. “Como é a música tradi-
cional portuguesa?”, “O que gos-
tas mais de ouvir?”, “Quem são os músicos portu-

AHMAD JAMAL: gueses que mais têm dado que falar? O que tocam
eles?” Quase de rajada, este octogenário (celebrou
87 anos a 2 de Julho), que falava de Nova Iorque,

O MOZART comprovava aquilo que uns vinte minutos antes


havia dito: “Sou muito curioso, sabes?”
Depois de lhe serem apresentadas algumas refe-

DE PITTSBURGH rências – do incontornável fado ao mais recente fe-


nómeno Salvador Sobral (que muito o interessou)
–, Jamal despediu-se afirmando que “tecnicamente”
Aos três anos, este norte-americano já tocava já está reformado. Lançou agora este Marseille por-
piano. Com o tempo, tornou-se uma lenda do jazz que amigos seus insistiram que o fizesse e só toca
e recentemente saiu da “reforma” para editar ao vivo “em ocasiões especiais”. Prefere estar em
Marseille, pretexto para esta entrevista casa, “a tratar de outras coisas”.
Não é por causa desta suposta reforma, porém,
TEXTO DIOGO LOPES que a sua carreira deve ser esquecida. Muito pelo
contrário. “Comecei a tocar aos três anos”, conta,
explicando que o seu tio, irmão da mãe, foi o cul-
pado de tudo o que se haveria de seguir – “Foi ele
que descobriu o meu talento [...], costumava sen-
tar-se ao piano, tocava umas coisas e depois per-
acérrimo da minha música”, conta.
O seu nome foi fazendo virar cabeças, de tal for-
ma que em 1952, com apenas 22 anos, Ahmad foi
convidado a participar naquele que descreve
como “o concerto mais memorável” da sua vida:
“Dei por mim em palco com o Duke Ellington, a
Billie Holiday, o Charlie Parker, o Dizzy Gillespie e o
Em 1942, Jamal
tinha 12 anos Stan Getz. Eu tinha 22 anos! Foi muito intimidante,
e já tocava ao acho que qualquer jovem artista sentiria o mesmo.”
vivo – quase
sempre num
Ahmad’s Blues (1951) foi o seu primeiro disco, o úni-
trio. Nesta co que editou pela Okeh: em 1955 trocava de eti-
foto da altura, queta, passando a fazer parte da Argo, a recém-cria-
actuava em
Pittsburgh, a sua da sucursal de Chicago da mítica Chess Records. “O
cidade natal Leonard Chess disse-me várias vezes que o suces-
so da sua editora foi cimentado por quatro grandes
artistas: eu, o Chuck Berry, o Bo Diddley e o Muddy
Waters”, sublinha, a propósito.
Aí editou o primeiro grande sucesso de vendas,
At The Pershing: But Not For Me (o terceiro álbum
para a Argo, uma gravação ao vivo no Pershing
Lounge, em Chicago), “um dos discos mais piratea-
dos de sempre”, segundo o próprio, e ál-
bum que cimentou a sua posição entre os MÚSICA
grandes do jazz.
A partir daí, as vitórias sucederam-se e
para trás foi ficando um património musical tão
11
rico que ainda hoje anda nas bocas do mundo –
Snowfall, por exemplo, foi gravada em 1961 e re-
centemente usada na campanha de lançamento
do iPhone 7. Sobre esta intemporalidade da sua
música, Jamal diz que “não existe música velha,
Jamal (à dir.)
no programa ela ou é boa ou é má” e atira com um exemplo:
Dial M for “Olha o Mozart... Há milhares de estações de rádio
Music, em pelo mundo fora que ainda hoje tocam as músi-
1968, com
B.B. King cas dele. Todos os dias, até!”
(esq.) Será que, quando começou a brincar com um
piano, ainda na sua cidade natal de Pittsburgh,
nos EUA, Jamal sonhava chegar onde chegou? A
guntava-me se conseguia replicar. Eu conseguia, resposta é assertiva. “Sempre senti que haveria
nota por nota, nota por nota!” de ter mais que um ouvinte”, diz, concluindo, em
Assim, de repente, a mãe de Frederick Russell Jo- jeito de piada, que acabou “por ter milhões de-
nes (nome original de Ahmad, mudou-o aos 20 les.” Arrogância? Nem por isso: confiança, muita,
anos, quando se converteu ao Islão) viu o seu pia- atitude que sempre pautou o seu percurso artís-
no vertical, que tinha comprado para aprender ela
AHMAD tico, mesmo quando optou seguir caminhos me-
própria a tocar, passar a ser propriedade do filho, JAMAL JÁ nos óbvios – como, por exemplo, quando decidiu
que desde então nunca mais o largou. CONTA COM fazer uma tournée no Norte de África em 1959,
A história de que tocava de porta aberta, para que MAIS DE 60 algo inédito na altura.
uma editora o descobrisse, é verdadeira? “É, sim”, Actualmente passa muito tempo em França, ape-
responde prontamente. “E para estarmos aqui a fa-
ANOS DE sar de chamar casa a Nova Iorque. A (pouca) músi-
lar, é porque funcionou”, acrescentou, entre risos. CARREIRA ca que ainda faz – como a que está em Marseille – é
De facto, a carreira de Jamal é das mais prolíficas E ACABA editada pela gaulesa Jazzbook Records (“há 15
da história do jazz e começou a florescer muito ce- DE LANÇAR anos que gravo apenas em editoras francesas”, afir-
do e depressa. Já com vários concertos em peque- ma). Apesar desta redução de ritmo, Ahmad diz
nos bares e salas de espectáculo debaixo do cinto, UM NOVO que tenta tocar todos os dias, mas que muitas ve-
Jamal assinou o seu primeiro contrato discográfico DISCO, zes não consegue “sequer chegar perto do piano,
no início da década de 50. A Okeh, uma subsidiária MARSEILLE por estar tão ocupado com outras coisas” Quais?
da gigante Columbia, foi a sua primeira casa, e Ouve “milhares de músicas, todos os dias”. São elas
John Hammond, o homem que “descobriu” Bob que o inspiram e, quando sente que quer compor,
Dylan, foi quem lhe abriu a porta da profissionaliza- anota tudo numa pauta, à mão: “Faço à antiga, com
ção enquanto músico: “Ele era uma pessoa espec- um lápis e uma folha.” Como sempre fez e – diz –
tacular, um verdadeiro patrono das artes e um fã como sempre continuará a fazer. v

o TENHO DITO
Foi a primeira confirmaçãodoEDP
Cool Jazz,festival ondeactuou em
2014,noestádiodeOeirasa quevolta JAMIE CULLUM
nosábado.Na véspera,JamieCullum
vai aoPorto.Antes,falou com oGPS
JARDINS DE SERRALVES, PORTO
6.ª., 28/7, 22h
• €20 a €50


Esta vai ser a primeira vez
que vou actuar em Portugal
PARQUE DOS POETAS
– ESTÁDIO MUNICIPAL DE OEIRAS
Sáb., 29/7, 21h30 (com a portuguesa
Beatriz Pessoa na 1.ª parte)
com os palcos cheios.
• €23 a €65
Vou ter muita gente à minha
volta e do meu piano


Lembro-me de ir a Portugal em

Embora eu seja do jazz,
adoraria ter escrito muitos
2005, com o álbum The Pursuit. dos grandes clássicos do
Tinha acabado uma tournée pop-rock. Acima de tudo,
no Reino Unido e o público gostaria de ter sido eu a
português fez mais barulho compor Jealous Guy... Que
numa só noite, a bater palmas inveja tenho, nesse aspecto,
e a gritar, do que os ingleses do talento de John Lennon!
em dezenas de datas. Não
há plateia mais generosa
MÚSICA


Sou um tipo pacato
12 “
O meu novo álbum é o mais
autobiográfico de sempre.
e caseiro, sempre que não
estou em digressão. Acordo
às 6h, faço café e preparo
Ainda não está pronto, mas o pequeno-almoço, que
estou ansioso por mostrar aos gosto de tomar com
fãs as músicas mais pessoais. as minhas filhas. Depois
Quanto às outras, costumo levo-as, cada uma à sua
decidir os alinhamentos no escola, volto, vou para
momento, conforme me sinto o estúdio tocar e compor
quando começo a tocar e almoço com a minha
mulher [Sophie Dahl,
modelo e escritora]. Vou
buscar os miúdos ao fim


Tenho um projecto de gravação
de covers e adoro interpretar
da tarde e fazemos jogos
ao ar livre. À noite, gosto
de tequila e conversa
canções de outros, incluindo
rock. Não é uma coisa
pensada, simplesmente adoro
rock, cresci a ouvir os Nirvana

Sou um leitor ávido de
romances. Fiquei felicíssimo
quando vi o novo calhamaço
de Paul Auster, 4, 3, 2, 1.
Comecei a lê-lo um dia
depois de sair
D.R.

A CONVERSA FOI de manhã, an- como o que Ryan Gosling inter- dos Poetas, em Oeiras – sejam êxi-
tes das 10h, e Jamie Cullum já pretou em La La Land – Melodia tos tirados de Twentysomething,
estava fresquíssimo, a falar ao te- do Amor. A propósito, quisemos Interlude ou The Pursuit, sejam co-
lefone com a desenvoltura de saber o que achou: “Ia ser uma vers ou temas novos, como Work
quem está habituado a levantar- desilusão, se visse alguém a to- of Art, single de Março, a incluir no
-se cedo. Confirmou-o, a rir, justi- car piano como ele num concer- novo álbum, quase a sair.Antes
ficando-se com as duas filhas pe- to, mas o filme é bonito e pôs jazz dos concertos, conheça melhor
quenas e resumindo o seu dia-a- no cinema, o que é raro.” o músico inglês, vencedor de um
-dia ao GPS – que contraria a Jazz com abordagem pop é, de Grammy – em discurso directo. v
ideia do músico boémio, a tocar resto, o que traz aos Jardins de
noite fora em caves esconsas, Serralves, no Porto, e ao Parque TEXTO RITA BERTRAND
CARTAZ
FUNDAÇÃO GULBENKIAN
ANFITEATRO AO AR LIVRE
6.ª,28/7,21h30Sélébéyone
– Steve Lehman • Sáb.,29/7,
FESTIVAL
21h30Sun of Goldfinger
JAZZ EM AGOSTO ARRANCA – David Torn • Dom.,30/7,
21h30Coax Orchestra • 2.ª,
EM JULHO NA GULBENKIAN 31/7,21h30Peter Brötzmann
& Heather Leigh• 3.ª,1/8,
21h30Life and Other Tran-
O festival que tantas ve- mic (estrela do hip-hop tra e a solo, na perfor- sient Storms – Susana Santos
zes obriga os fãs de jazz a do Senegal), prolongan- mance Acapulco Redux. Silva • 4.ª,2/8,21h30Sudo
fazer conciliações malu- do-se até dia 6, data de O contrabaixista Pascal Quartet • 5.ª,3/8,21h30Star-
cas com a agenda de fé- encerramento com outra Niggenkemper também se lite Motel • 6.ª,4/8,21h30
Dave Douglas The Fictive Five – Larry Ochs
rias, de modo a não fa- proposta arrojada: High apresenta a solo, explo- • Sáb.,5/8,21h30Human
lharem os momentos épi- Risk, com o trompetista rando os limites do instru- Feel • Dom.,6/8,21h30High
cos que se vivem no Anfi- Dave Douglas a abraçar a mento, e o saxofone de Risk – Dave Douglas
teatro ao Ar Livre da Fun- electrónica. Peter Brötzmann “contra-
EDIFÍCIO COL. MODERNA
dação Gulbenkian, come- Pelo meio, há muita mú- cena” com a pedal steel Sáb.,29/7,18h30Steve
ça, este ano, ainda em sica aventureira, a derru- guitar de Heather Leigh. Lehman • Dom.,30/7,18h30
Julho, mas não é por isso bar fronteiras geográficas Mais? Life and Other Tran- Acapulco Redux – Julien Des-
prez • Sáb.,5/8,18h30EITR–
que muda de nome: a e estilísticas, como dita o sient Storms, o quinteto
Pedro Sousa & Pedro Lopes
34.ª edição do Jazz em jazz contemporâneo. Dois da trompetista Susana
Agosto arranca esta sex- guitarristas encarnam Santos Silva, e Sudo EDIFÍCIO SEDE – AUD. 2
ta-feira, 28, com Sélé- essa ideia na Gulbenkian: Quartet, que junta impro- 6.ª,4/8,18h30Pascal
Niggenkemper
béyone, projecto revolu- David Torn no projeto Sun visadores europeus de re- Bilhetes: €12 a €20
cionário que junta o saxo- of Goldfinger, com os in- nome, como o violinista
fonista Steve Lehman e contornáveis Tim Berne e Carlos Zíngaro, a contra- MÚSICA
os rappers HPrizm/High Ches Smith, e o francês baixista Joëlle Léandre e o
Priest (dos Antipop Con- Julien Desprez, como baterista Paul Lovens. Ora
Steve
sortium) e Gaston Bandi- membro da Coax Orches- espreite o cartaz. v RB Lehman 13
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VOZ ENORME DE GREGORY PORTER FAMALICÃO


EM BRAGA E MATOSINHOS COM ROCK
O heavy metal e o rock al-
q FILIPA TEIXEIRA Gregory Porter está anos – que esteve qua- Jazz Hat – mostrará, ternativo voltam a tomar
Cruza soul, jazz, blues e de regresso depois de se a fazer carreira pro- com a sua banda, no conta da freguesia de
gospel com aquela le- ter ido ao Cool Jazz de fissional no futebol Theatro Circo, o mais Louro nos dias 28 e 29.
veza que está apenas Oeiras em 2014 e de ter americano, não fosse recente trabalho, Take A terceira edição do Lau-
ao alcance dos grandes passado por Lisboa e uma lesão grave a ditar Me to the Alley (2016), rus Nobilis, que abre a 27
intérpretes e, nos dias Porto em 2015, com o o touchdown final – o segundo com selo com um programa gratui-
28 e 29 de Julho, vem a então recente Liquid vem a Braga e a Mato- da Blue Note e que, à to de boas-vindas, junta
Portugal novamente Spirit (2014), um álbum sinhos para dois con- semelhança do ante- várias bandas de peso do
mostrar que a música, que deixou meio mun- certos com característi- cessor, arrecadou o panorama nacional e in-
mesmo que tardiamen- do de boca aberta. cas bem distintas. Grammy de Melhor ternacional.
te revelada, sempre lhe Desta vez, o músico Na sexta, 28, Porter – Álbum de Jazz Vocal. Quase a completar 30
correu na alma. norte-americano de 45 inseparável do seu No sábado, 29, o en- anos de carreira, os finlan-
redo adensa-se, com deses Amorphis são os
a voz enorme de Por- mais aguardados do car-
ter a encontrar-se taz, que conta, entre ou-
com Orquestra Sinfó- tros, com os londrinos
MÚSICA
GREGORY PORTER nica do Porto, num Neon Animal e os portu-
THEATRO CIRCO, BRAGA
6.ª, 28/7 • 21h30 espectáculo especial, gueses Killimanjaro, Holo-
• €30 que pretende enterrar causto Canibal, PAUS e
PÇ. GUILHERMINA
as memórias do mau Linda Martini. Fora do re-
14 SUGGIA, MATOSINHOS
Sáb., 29/7 • 22h tempo que em 2015 cinto, haverá ainda activi-
(com orquestra) obrigou a organiza- dades lúdicas. v FT
• Grátis
ção a passar o con-
certo, com direcção FESTIVAL LAURUS
de Pedro Neves, da NOBILIS
R. COMENDADOR COSTA E SÁ
Praça Guilhermina – LOURO, V. N. FAMALICÃO
Suggia, em Matosi- De 27 a 29/7 • 5.ª, 16h-4h
• 6.ª e sáb., 16h30-4h
nhos, para a Casa da • €15/dia; passe: €25 (com
Música. v campismo); dia 27: €Grátis

FESTIVAL

À NOITE, NO CHOUPAL FESTIVAL FOLK


CELTA
PONTE DA BARCA
É já no sábado, 29, que têm início as Noites do Par- De 27 a 29/7
que, em Torres Vedras. O concerto inaugural é com • 5ª, 22h30-1h
Suzie’s Velvet (na foto), grupo com o dedo de Bruno • 6.ª e sáb., 21h-1h30
• €10/dia;
Pernadas que recupera a música americana das dé- €15/2 dias; passe: €20
cadas de 30 e de 40, do swing aos blues. A 5 de
Agosto será a vez de André Miguel Santos & MOB
Ensemble subir ao palco do Parque do Choupal para e Quique Escamilla (na fo-
um concerto onde a improvisação é rainha. A finalizar to), mexicano em ascensão
o cartaz, a 12 de Agosto, chega o grupo Chão da Fei- na world music, que funde
CONCERTOS
ra, uma banda que mistura as raízes tradicionais por- ritmos tradicionais do seu
tuguesas com sons de todo o mundo. v FT FOLK À BEIRA DO LIMA país com o rock.
Outra das grandes atrac-
De 27 a 29 de Julho, volta- aguardados estão os por- ções – associada à ampla
rá a realizar-se o Festival tugueses Kumpania Alga- área destinada a produto-
NOITES DO Folk Celta em Ponte da zarra, que fazem de cada res da região –, é o cenário
PARQUE Barca, numa edição alar- concerto uma verdadeira que envolve o recinto deste
PARQUE
DO CHOUPAL, gada de três dias a marcar folia, os escoceses Rura, festival com dois palcos, em
TORRES as comemorações do apontados como um dos plena Reserva Mundial da
VEDRAS
Sáb., 29/7 • 22h 10.º aniversário do evento. grupos mais promissores Biosfera, nas margens do
• Grátis Entre os artistas mais do panorama folk escocês, rio Lima. v FT
Cara
Delevingne
e Dane
DeHaan
são o par
romântico
da ópera
espacial

CINEMA
Quem
16
vê caras Christin e desenhado por Jean-Claude Mézières
cativou Luc Besson (mestre de filmes de acção e

também vê de ficção científica), sobretudo o sexto álbum da


série, L’Ambassadeur des Ombres, publicado em
1975. Depois de já ter ido buscar Milla Jovovich às

corações passarelas (5.º Elemento e Joana D’Arc), fá-lo ago-


ra com Cara Delevingne, modelo que desde 2015
procura um lugar na indústria cinematográfica. No
Drama intergaláctico de Luc Besson papel da Sargenta Laureline, faz parelha com o
sobre o amor e a capacidade de Major Valerian para, em conjunto, descobrirem a
perdoar junta Dane DeHaan força misteriosa que se esconde em Alpha, um
e Cara Delevingne no grande ecrã. mundo de 30 milhões de habitantes e com mais
Valerian ea CidadedosMilPlanetas de 8 mil espécies.
estreia-se esta quinta-feira, 27 Vinte anos separam Luc Besson da sua ópera
espacial anterior, o tal 5.º Elemento, e o regresso
TEXTO ÁGATA XAVIER faz-se, mais uma vez, através de um intenso psica-
delismo (“uma perpétua Ibiza na manhã seguinte
à melhor rave de sempre”, escreve o New York Ti-
mes – isto por desconhecerem o Boom Festival,
em Idanha-a-Nova, escrevemos nós).
uas das frases mais relevantes são ditas É impossível não pensar em Guerra das Estrelas,

D por uma personagem improvável, a prin-


cesa do R&B, Rhianna. Primeira: “É um
amor pobre, aquele que se pode medir” (a
legendagem dirá “Pobre é o amor que pode ser me-
dido”), retirada a António e Cleópatra, de William
VINTE ANOS
SEPARAM
O 5.º
ELEMENTO
mas no campeonato das possibilidades infindá-
veis de efeitos especiais e personagens estrambó-
licas que a dupla Disney/Lucas tem conseguido
criar, Besson não se deixa ficar. Tal como não se
coíbe de reunir um elenco improvável para sus-
Shakespeare. Segunda: “O que é a liberdade quan- tentar o par de caras larocas: Clive Owen, Ethan
do se é um imigrante ilegal longe de casa?” – um DESTE Hawke, Herbie Hancock, John Goodman (que dá
pensamento na ordem do dia, mostrando que Bes- VALERIAN voz a Igon Siruss, um Jabba the Hut mais polido)
son, mesmo inventando mundos paralelos, conti- E A CIDADE ou Rutger Hauer (um habitué em filmes de acção
nua atento ao nosso, carregado de injustiças. Rhian- que o IMDB descreve como louro, olhos azuis, alto
na de aparição fugaz é uma das muitas aliadas de DOS MIL e bonito). Gente gira, portanto, alucinações ade-
Valerian, o herói, e de Laureline, a co-heroína em Va- PLANETAS quadas à época estival, duas horas e 17 minutos
lerian e a Cidade dos Mil Planetas. de correria, pancadaria e boas intenções: a de sal-
O clássico da banda desenhada escrito por Pierre var um planeta danificado pelos humanos. v
CRÍTICA
POLINA
PASSOS
EM FALSO
TTSSS
DE VALÉRIE MULLER
E ANGELIN PRELJOCAJ
FRA • Drama • M12 • 108m
Com Anastasia Shevtsova
PEDRO MARTA SANTOS CRÍTICO e Juliette Binoche

k O projecto era prometedor: des- moderna de Aix-en-Provence, Fran- Karl, e o filme teve a realização de “conhecer a vida”, crescendo
crever, com realismo (apesar da ça, depois na liberdade coreográfi- Valérie Muller com o marido, Ange- como intérprete e coreógrafa.
origem na graphic novel de Bastien ca de Anvers, Bélgica, junto de um lin Preljocaj, grande coreógrafo Quando irrompe a beleza de um
Vives) e sensibilidade, a autodes- bailarino de excepção, Karl. moderno francês de origem alba- pas-de-deux na reinterpretação de
coberta de uma artista, Polina, bai- As expectativas eram tanto mais nesa. Mas o cinema não é ballet, e Branca de Neve, pelos oito minu-
larina russa, de acesso garantido altas quanto Polina surge interpre- o par soçobra na verdade emocio- tos finais, é demasiado tarde. Há
ao Ballet do Teatro Bolshoi, que de- tada por Anastasia Shevtosa, do nal da viagem, das enormes cha- aqui um grande filme
cide interromper o percurso clássi- notável Ballet Mariinski de São Pe- minés industriais dos subúrbios algures escondido, mas CINEMA
co para definir uma identidade, pri- tersburgo, Jérémie Bèlingard, estre- moscovitas aos bares de Anvers não chegou a sair do
meiro numa companhia de dança la do Ballet da Ópera de Paris, é onde Polina arranja emprego para espaldar. v
17
PUB
CRÍTICA
k Há uma linhagem con- PEDRAS O sopro sobrenatural
siderável de filmes de ter- SOMBRIAS passa da sugestão do
ror psicológico em am- primeiro acto aos exces-
biente gótico. A Hammer
GRANÍTICO sos do clímax, Emilia TwSSS
fez disso parte da sua car- Clarke parece perdida DE PHIL VOLKEN
reira como produtora, e a sem a cabeleira loira da EUA • Acção • M12 • 108m
Com Eion Bailey e Danny Glover
BBC embebeu muitas das Daenerys Targaryen de
suas adaptações de clás- A Guerra dos Tronos e
CRÍTICA
sicos literários na mesma contratada para cuidar Eric D. Howell deveria re-
atmosfera. do filho silencioso de ver 33 vezes Os Inocen- PESADELO EM FÉRIAS
Pedras Sombrias assu- Klaus, um escultor viúvo tes (1961) para ter noção TORMENTO
me o legado no caso de com mansão na Toscânia do que é um conto as- VOLUNTÁRIO
Verena, uma enfermeira dos anos 50. sombrado. v PMS
k Este filme conta com um dos
TSSSS protagonistas mais estúpidos da
DE ERIC D. história recente do cinema: o mé-
HOWELL dico Kevin vai passar férias às Ca-
EUA/ITA • Thriller
• M16 • 94m raíbas com a mulher e o filho de
Com Emilia Clarke seis anos mas, à falta de barcos
e Marton Csokas na estância de luxo onde se hos-
peda, resolve alugar uma lancha
CINEMA usada a um autóctone – a quem
não se identifica ou informa onde
está hospedado – e arranca feito
louco com a esposa e o miúdo,
18
sem água, comida, protector solar,
telemóvel e roaming, carregando
no pedal durante uma hora, para
longe da costa, num oceano que
não conhece, sem perceber patavi-
na de navegação ou mecânica, até
se deter numa ilha deserta no
meio de nenhures.
A partir daí, Pesadelo em Férias
melhora e revela timing nas peripé-
cias, mas quem se pode importar
com o destino de um canastrão
destes? v PMS

ESTREIA

NICOLAS CAGE TEM UM EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ


q ÂNGELA MARQUES nos Estados Unidos
Nicolas Cage é Gary em 2016, é uma comé-
Faulkner, “o seu faz- dia de Larry Charles,
tudo de eleição”, cheio que também realizou
de opiniões e conse- Borat: Aprender Cultu-
lhos para dar. Um dia, ra da América para Fa-
convence-se de que zer Benefício Glorioso
Deus (Russell Brand) à Nação do Cazaquis-
lhe apareceu com uma tão”, Bruno e O Ditador.
missão: ir até ao Pa- Nas mãos do realiza-
quistão e encontrar e dor que também assi-
matar sozinho Osama nou, como argumentis- Aos 53 anos,
Bin Laden. ta, as séries Seinfeld e Nicolas Cage é
Gary Faulkner,
Exército de um Ho- Doido por Ti, Nicolas que quer matar
mem Só, que estreou Cage faz-se cómico. v Bin Laden
México, Espanha e França) e alguns dos seus tiques
narrativos, como os sonhos, ou a biografia dos auto-
LIVROS res dos livros que as personagens lêem – por vezes,
basta a fotografia na badana. “Preocupo-me com ele
[o autor francês Henri Lefebvre] porque mais nin-
20
Haverá vida guém o faz”, diz B – assim se chama a personagem
do conto Vagabundo em França e na Bélgica, no
que parece uma óbvia referência ao próprio Bolaño,

antes da morte? tal como noutros contos aparece uma personagem


chamada Arturo Belano, que surge noutro livro do
autor, Os Detectives Selvagens. Como se lê na pág.
193, “a arte faz parte da história particular muito an-
Livro de contos inédito de Roberto Bolaño chega tes de fazer parte da História da Arte”.
a Portugal. Um conjunto de histórias de forte É também um mote para a sua habitual reflexão
desencanto e melancolia. E também o habitual sobre o papel dos escritores latino-americanos na
pendor autobiográfico história do subcontinente no século XX. O conto
Dentista arranca com a petulância de um pintor
TEXTO MARCO ALVES numa festa e termina numa zona de barracas, onde
um adolescente escreve contos. Um deles tinha
apenas quatro páginas, “mas quando o acabei tinha
a impressão de ter lido um romance”.
O desencanto, a melancolia, a fragilidade e a soli-
dão atravessam o livro. Bastam algumas frases. “Sen-
utas Assassinas foi lançado em 2001, dois sação de velhice mais irreal que verdadeira” (p. 96);

P anos antes de o escritor chileno morrer e três


anos antes de se tornar alvo de culto mundial
com o lançamento do romance 2666.
Putas Assassinas, nome de um dos contos, é a
história de uma mulher que se interessa por um
“Ao chegar ao hotel vê-se ao espelho. Espera ver um
cão espancado, mas o que vê é um tipo de meia-ida-
de, mais para o magro, um pouco transpirado pelo
caminho, que procura, encontra e desvia o olhar
numa fracção de segundo” (103); “Olhavam a glória e
homem que vê em directo na televisão, sai de casa a felicidade, os desejos saciados e a vitória, essas coi-
até ao local onde ele está, consegue seduzi-lo e de- sas que só existem no reino do futuro e que mais
pois droga-o e amarra-o em casa. É aqui que apare- vale não esperar pois nunca chegam” (123); “Tenho
ce uma famosa passagem de Bolaño: “As mulheres uma boa notícia. Há vida depois da vida” (141); “A cer-
são putas assassinas, são macacos transidos de frio teza de que se vai morrer e morrer por nada, por coi-
que contemplam o horizonte numa árvore doente, sas estúpidas, e que a nossa vida, a vida que estás
são princesas que te procuram na escuridão, cho- PUTAS prestes a perder, é também uma sucessão de coisas
rando, indagando as palavras que nunca te pode- ASSASSINAS estúpidas, é nada. Até a certeza tem falta de dignida-
ROBERTO BOLAÑO
rão dizer” (p. 133). Esta história de “príncipes e prin- Quetzal • 248 págs.
de” (192); “De alguma maneira, ambos procurámos
cesas” dá o mote. €17,70 desinteressarmo-nos do lento naufrágio das nossas
São estórias nas quais se vislumbra a vida errante vidas, do lento naufrágio da estética, da ética, do Mé-
de Bolaño (vários contos têm exilados chilenos no xico e dos nossos sonhos de merda” (202). v
CRÍTICA TTTSS

k O “populismo” está nas bocas do mun- POPULISMO CAS MUDDE


E CRISTOBAL ROVIRA
do, é a categoria política mais repetida e vili- – UMA BREVÍSSIMA KALTWASSER
Gradiva • 160 págs.
pendiada nas democracias ocidentais, res- INTRODUÇÃO €12
ponsabilizada por vários dos males que POPULISMO? NÃO SEI O
nos assolam e até elevada a efeito principal problemático da noção de representação em
dos males que nos assolam. Muitos falam
QUE É, MAS NÃO GOSTO democracia, por exemplo? Ou invocar a von-
do “populismo”, mas poucos falam com tade geral para designar o apelo populista,
acerto e rigor daquilo que o populismo quando a formalidade do conceito de vonta-
efectivamente é, ou pode ser. de geral parece contradizer directamente a
Mudde é uma referência nas conversas apetência “populista” pela informalidade, a de-
MIGUEL MORGADO CRÍTICO
mais recentes sobre o populismo. Mas a cisão flexível e o ódio a regras ou “quadros
sua tese não lança a luz que esperaría- constitucionais” internos ou externos?
mos. O livro começa com a definição pro- o povo, a elite e a vontade geral. Além disso, o livro dedica uma grande
posta de “populismo” e o resto é dedicado Uma das fraquezas do livro reside precisa- proporção ao tratamento da figura do líder
à sua demonstração. mente no desenvolvimento teórico destes populista, ao mesmo tempo que ignora
A definição é a seguinte: o “populismo” é três “conceitos nucleares”. A rapidez e superfi- um dos temas mais relevantes na questão
uma “ideologia de baixa densidade que cialidade com que os três elementos são des- do “populismo”: a sua linguagem e os re-
considera que a sociedade está, em última pachados acaba por levantar suspeitas sobre cursos discursivos.
instância, dividida em dois campos homo- as classificações que se seguem (onde anda É um livro excessivamente disperso quan-
géneos e antagónicos – o “povo puro” ver- o populismo nas várias regiões do mundo?, do se requeria um esforço teórico maior; e
sus a “elite corrompida” – e que defende quais são as suas causas?, quem são os po- demasiado académico onde se desejaria
que a política deveria ser uma expressão pulistas e quem não são? e por aí em diante). uma maior proximidade à práti-
da volonté générale do povo”. Assim, os Como se pode falar na divisão da socieda- ca do “populismo”. Tem a ate- LIVROS
três elementos essenciais do “populismo” de em dois campos – o povo messiânico e as nuante de ser apenas uma “bre-
enquanto categoria e enquanto prática são elites corruptas – sem considerar o carácter víssima introdução”. v
21
PUB
A FESTA
QUINTA NOVA
DA ASSUNÇÃO,
BELAS
Até 30/9
• 6.ª e sáb., 21h30 A CASA DE
• €12 BERNARDA
ALBA
PARQUE DA
LIBERDADE, SINTRA
Até 30/9 • Sáb., 21h30

Clássicos e
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JOÃO EO
PÉDEFEIJÃO

ar livre, uma MUSEU NAC. HISTÓRIA


NATURAL, LISBOA
Até 30/9 • Sáb., 16h
• Dom., 11h30 e 16h

receita de • €8

sucesso
O grupo Byfurcação está
TEATRO & DANÇA a fazer quatro espectáculos
em simultâneo – e enche
todos. Paulo Cintrão, que o O PRINCIPEZINHO
dirige, explica porquê PARQUE DA
22 LIBERDADE, SINTRA
Até 29/9 • 6.ª., 21h30
TEXTO RITA BERTRAND • €15

meira cena comum, escolhe o caminho a seguir,


para descortinar a história original de Mário Abel,
através de enigmáticos corredores, quartos e salas.
De facto, cabem mais no Parque da Liberdade,
ara o grupo Byfurcação, sediado em Mem onde o teatro Byfurcação tem em cena o clássico

P Martins, Sintra, a crise no teatro nunca existiu,


como admitiu ao GPS Paulo Cintrão, funda-
dor e co-director (com a produtora, Sandra
Cruz): “Não nos podemos queixar, temos sempre
muito público, todo o ano, sobretudo nas nossas pe-
A Casa de Bernarda Alba, de García Lorca, e uma
adaptação d’O Principezinho de Saint-Exupèry, ou
na Quinta da Regaleira, onde em breve estreará
uma adaptação de Tom Sawyer, e até no claustro
do Museu Nacional de História Natural, em Lisboa,
ças infantis. E mais ainda sobe no Verão, quando es- “FUGIR DOS onde o grupo instalou o seu João e o Pé de Feijão.
treamos os espectáculos ao ar livre.” Em média, cer- ESPAÇOS Afinal, têm o céu como limite e são verdejantes e
ca de 5.000 pessoas vão ver cada produção, mas místicos, quase dispensando cenografia. O que se
há variações, mais devido às dimensões dos espa- CONVENCIO- poupa nisso, porém, vai para material técnico. “Te-
ços do que à resposta do público. NAIS ESTÁ NA mos de montar muito equipamento. Não se vê,
Por exemplo, O Principezinho, que este Verão está GÉNESE DO mas há cabos por todo o lado”, diz o encenador,
no Parque da Liberdade, já foi visto noutro cenário garantindo que compensa: “Fugir dos espaços con-
mágico de Sintra, a Quinta da Regaleira, em 2011,
GRUPO, DESDE vencionais está na génese do grupo, desde que co-
por 17.000 pessoas, enquanto Alice – O Outro Lado QUE COMEÇOU, meçou, há quase 20 anos, num clube recreativo da
da História, mesmo tendo estado “sempre esgota- HÁ QUASE linha de Sintra. O primeiro espectáculo já não foi
do”, segundo Cintrão, recebeu “apenas” 3.000 es- 20 ANOS, em palco, mas com os actores espalhados pelo edi-
pectadores no Pavilhão 30 do antigo Hospital Júlio fício, a interagir, a ir ao encontro das pessoas.”
de Matos, em Lisboa. Por uma única razão: “Era
NUM CLUBE É o que o grupo faz até hoje – e talvez por isso
uma peça de teatro imersivo, com um percurso por RECREATIVO”, seja tão popular, a ponto de Cintrão confessar que
várias salas e a lotação não podia exceder as 40 LEMBRA já o têm “acusado de ser demasiado comercial”,
pessoas.” Simplesmente, não caberiam. Tal como CINTRÃO mas a verdade é que há uma intenção didáctica de
não caberão às centenas – e por isso se recomenda mãos dadas com o sucesso: “Damos a conhecer
reserva antecipada – na casa da Quinta Nova da As- clássicos, alguns com fama de complicados, como
sunção, onde se desenrola A Festa, um jogo teatral Shakespeare, de que fizemos Romeu e Julieta, por-
imersivo, quase sem texto mas com muita tensão que as pessoas não os conhecem de facto, só têm
psicológica, em que o público, a partir de uma pri- uma ideia vaga das histórias.” v
FESTIVAL CRÍTICA

SEGUNDO A SALTO, CONTOS


EM VIAGEM –
A TOMADA ARTÍSTICA CABO VERDE
DA CIDADE DE ELVAS ESSA ÂNSIA
DE MAIS ALÉM
q RITA BERTRAND Imersão é a palavra
Fala-se muito de um de ordem do cartaz,
certo interior esqueci- que este ano é mais
do, de um Alentejo pro- ousado, por ter um es-
fundo onde nada se pectáculo íntimo de
passa, dos privilégios Mónica Calle – criado GISELA PISSARRA CRÍTICA
da capital – e há quem para a casa-de-banho
não se conforme e crie dos homens do bar-dis- k O Cabo Verde da ari-
projectos artísticos em coteca Lux, com uma dez, do calor, da dança,
pequenas cidades, lon- actriz para cada espec- da música, do sustento
ge do litoral. tador, em cada cubícu- arrancado à terra, da con-
É o caso do Um Co- lo – mas não só: tam- quista pelo mar e da
lectivo, liderado pela bém imersivo será À sôdade é cantado neste
actriz-encenadora Cá- Luz do Contrabando, espectáculo em
tia Terrinca, que há teatro de rua sobre ne- Quarto Escuro, CARTAZ reposição pelos TEATRO & DANÇA
de Mónica
pouco mais de um ano gócios clandestinos de Calle, é uma
6.ª, 28/7 25 anos do
se mudou da Grande outros tempos, com re- 19h,SociedadeInstrução Teatro Meridio-
das propostas
do festival. eRecreioLançamento da
Lisboa para Elvas, onde curso a vídeo-mapping, nal. Com dramaturgia de
Estreou numa Revista Flan A Salto • 22h, 23
de seguida montou pelo grupo de Loures casa-de-banho PedrasdoCasteloPoesia Natália Luiza e encenação
um novo festival, de Artelier?, na Praça da do Lux, em Clandestina • 24h,CAD “O de Miguel Seabra, é um
programação tímida República. Lisboa Elvas”Teatro: T0 puzzle com pedaços de
mas expressiva de um Ao todo, são 22 pro- SÁB., 29/7 boa literatura de mais um
certo gosto contempo- postas artiísticas, das 7h-14,MercadoCasa das dos territórios lusófono
râneo, fora de lógicas quais se destacam, BarcasInstalação: Como a que a companhia tem
vida, o Tempo • 10h e23h
comerciais e com liga- além das já citados, abordado.
Performance: O Museu
ção forte à comunida- quatro escolhidas por Imaginário (Visita A) • 15h, Este contar histórias,
de – com o teatro a do- consulta à comunidade 16h e17h,Cisterna Dança: que aposta sobretudo
minar, mas também elvense: Museu Imagi- Raízes Húmidas da Fumaça no trabalho dos intérpre-
• 15h,Jardim Laranjeiras
com atenção às artes nário, de Rita Sales, El- tes, com grande simplici-
Desenhos-performance:
plásticas, da pintura à vas Al Andar, do mexi- CartografandOSol • 16h, dade de recursos, é bri-
fotografia. cano Fernando Aranda, Cafetaria doMACE, Cinema lhantemente encarnado
Chamou-se A Salto Deslocamentos – Vista de animação: Constrói e pela força visceral da ac-
À Luz do Anima • 18h-21h,Casa da
e fez sucesso no Ve- Sua Existência, da brasi- Contrabando
Joana Teatro-instalação:
triz Carla Galvão – que
rão passado, portanto leira Simone Donatelli; vai juntar narra, representa, dança e
Um Quarto de Penélope •
teatro e vídeo-
volta de 28 a 30 de Ju- e CartografandOsol, -mapping 22h,Pç. República Teatro: canta – e por Fernando
lho à cidade alenteja- de Filipa Pontes. Mais? na Praça À Luz do Contrabando • Mota, que produz o espa-
da República 21h30-1h,Casas-de-banho
na, vizinha de Badajoz. É espreitar o cartaz. v doBarOCastelo,Torre
ço sonoro. A vida de
de Elvas
FernandinaeespaçoALMA quem se reinventa por
Teatro: Quarto Escuro (com conta das dificuldades
reserva) • 24h,Cisterna fica ali, em lugares tão
Música: Sound Surfaces
subtis como um instru-
DOM., 30/7 mento de sopro feito de
10h,PostodeTurismoO uma vassoura e um tubo.
Museu Imaginário • 11h
Tal como as gentes de
Teatro: As Palavras de Jó •
16h,EspaçoAlma Pintura: Cabo Verde, a viagem é
Elvas Al Andar (conversa amorosa e aberta ao mun-
com o artista) • 18h,Acade- do – e a todos convoca pa-
mia deMúsica deElvas
Performance: Vista Sua Exis-
ra uma roda de dança. v
tência • 19h,R.Franciscoda
SilvaArte urbana: O Diabo TTTTS
Também Não ÉMau • 22h, TEATRO MERIDIONAL,
SededaBanda14deJanei- BECO DA MITRA, LISBOA
roMúsica: Da Terra ao Palco Até 30/7 • 4.ª a dom., 22h
• Grátis • €10
Um campo
depois
da colheita
para deleite
O título em cima é só parte
do nome original de uma das obras
fundamentais de Alberto Carneiro.
Descubra o que falta na exposição
que estará na Culturgest,
ARTES PLÁSTICAS no Porto, até Outubro
TEXTO ÁGATA XAVIER

24

A instalação
foi feita entre
1973 e 76
e integra
uma trilogia

or si só, o título já é uma obra de arte. Poéti- Nascido em São Mamede do Coronado, Santo Tir-

P co, longo, a lembrar um haiku japonês. Um


campo depois da colheita para deleite estéti-
co do nosso corpo, como é na totalidade,
reúne, na Culturgest do Porto, uma das três instala-
ções-chave na obra de Alberto Carneiro, escultor
so, em 1937, Carneiro destacou-se pelo desejo de
aproximação à natureza. Depois de concluir o curso
de Escultura na Escola de Belas-Artes do Porto partiu
para Londres, onde estudou na Saint Martin’s School
of Art, ao abrigo de uma bolsa da Fundação Gul-
português que faleceu em Abril passado, aos 79 benkian. Foi lá que contactou com a arte conceptual,
anos. Realizada entre 1973 e 1976, é determinante na com o minimalismo e com o surgimento da Land
carreira do artista, integrando uma trilogia da qual fa- UMCAMPO DEPOIS Art, acabando por desenvolver, no seguimento do
zem parte O Canavial: memória-metamorfose de um DA COLHEITA PARA estudo, a trilogia anteriormente referida.
DELEITEESTÉTICO
corpo ausente, de 1968, e Uma floresta para os teus DO NOSSO CORPO A criação das Notas para um manifesto de uma
sonhos, de 1970 (que actualmente podem ser vistas CULTURGEST arte ecológica, que publicou em 1971, consolidou a
Porto
na delegação da Culturgest em Lisboa, na exposição Até 1/10 • 12h30-19h30
identidade estética de Alberto Carneiro: a fusão da
Simultânea). “As três obras compõem situações telú- • Fecha 2.ª e 3.ª arte e do artista com a natureza. “Uma nuvem, uma
ricas, nas quais a presença do campo, recriado no • Grátis árvore, uma flor, um punhado de terra, situam-se no
espaço expositivo pela rigorosa e cuidadosa organi- mesmo plano estético em que nos movemos, são
zação de elementos do ciclo da natureza, produz parte integrante do nosso mundo, são um manan-
para o espectador máquinas de viajar no tempo e cial de sensações vindas de todos os tempos, atra-
no espaço”, explica a organização. vés duma memória que tem a idade do homem”, vi-
A instalação – que não era vista desde 1991 por ria a escrever. De destacar ainda que a obra que
depender de condições naturais muito específicas agora pode ser vista na Culturgest – sob a curadoria
– só foi possível graças à reserva de um campo de de Delfim Sardo – representou Portugal na Bienal de
centeio, em Outubro de 2016. São Paulo em 1977. v
Para si, um fantástico
SMARTWATCH PRIXTON
com a revista SÁBADO

Um relógio inteligente para


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Processador de 360 MHZ • Ecrã táctil capacitivo TFT com resolução 128 x 128 • Multilingue
Microfone incluído • Bateria de lítio de 3,7V/235mAh • Micro USB • Dimensões: 41 x 40 x 9,8 mm
ECRÃ TÁTIL NOTIFICAÇÕES BLUETOOTH PEDÓMETRO Peso: 42 gr.

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Obey Giant,
que reproduz
um stencil
da cara
do wrestler
André the
ARTE URBANA Giant, é um CRÍTICA
COM 4 LETRINHAS dos traba-
lhos mais
conhecidos
FERNANDA
APENAS SE ESCREVE do artista FRAGATEIRO
– CHÃO COMUM
A PALAVRA OBEY ESCULTURA
Frank Shepard Fairey RECRIADA
nasceu em Charleston,
no Sul da Califórnia, em
1970, e é um dos maio-
res nomes da arte ur-
bana contemporânea.
Se nunca ouviu falar CARLOS VIDAL CRÍTICO
dele é porque o de-
signer do famoso pos- k Retrospectivemos, para
ter Hope, com o rosto chegar a esta intervenção:
de Barack Obama em há, na autora, intervenções
azul, vermelho e ama- públicas (por vezes discutí-
relo, assina com outro veis e de gosto peculiar, di-
nome, mais curto e im- vergindo do essencial da
perativo: sua obra, como as do Par-
ARTES PLÁSTICAS Obey. que das Nações); há uma
O artista infatigável busca de interac-
apresenta Obey está ções com a literatura onde,
Printed Matters – uma envolvido em A exposição de modo interessante, a pa-
26 várias causas encerra
mostra que inclui im- humanitárias durante o lavra (Blanchot ou Joyce)
pressões em papel, ma- mês de ganha forma visual ou es-
deira, metal e colagens Agosto cultórica (subtil); há uma
– na galeria Underdogs, sas na sociedade ac- soas dizem que o papel relação com a arquitectura,
em Marvila, Lisboa. Divi- tual. “Sou um produto vai acabar e ser substi- PRINTED buscando uma compreen-
dida em dois períodos da era da produção em tuído pelos meios digi- MATTERS são do lugar da escultura e
– LISBON
(um que encerra já a massa e do que a cultu- tais, mas eu digo que GAL. UNDERDOGS seu contexto; e, resumindo
29 de Julho e outro ra de massas criou”, ex- não se pode substituir Lisboa (aspecto fundamental), uma
que vai de 1 a 23 de Se- plica o artista no site da a experiência provoca- Até 29/7 e de 1 a 23/9 busca do feminino recalca-
• 14h-20h
tembro), a exposição galeria, garantindo que dora e táctil de uma im- • Fecha dom. e 2.ª do pelo modernismo (recu-
realça a importância da o papel está de boa pressão, na rua ou Grátis perando nomes como Lilly
comunicação de mas- saúde. “Algumas pes- numa galeria.” v AX Reich, que trabalhou com
Mies van der Rohe).
Retomando anterior termo
BIENAL de J. L. Brea, muito feliz, esta
intervenção no Montijo reve-
PAULA REGO HOMENAGEADA EM CERVEIRA la uma forte “beleza impla-
cável”, pois é de uma simpli-
Um ano depois de Os pintores Jaime Azi- The Barn, cidade desarmante: trata-se
de 1994,
atingir a maioridade, a nheira e Ernesto de pertence de refazer o chão de uma
Bienal Internacional de Sousa também serão à Colecção obra setecentista, “retoca-
Arte de Cerveira, na homenageados no Berardo da” por Pardal Monteiro nos
sua 19.ª edição, home- evento, que este ano é anos 40. A cota baixa e, jun-
nageia um dos maio- dedicado ao tema Da to ao altar, uma pequena
res nomes nacionais Pop Arte às Trans-Van- rampa deixa ver restos de
da pintura, Paula Rego. guardas – apropriações azulejos geométricos. A me-
A artista estará em da arte popular, reunin- mória liga a escultura à ar-
destaque com a exibi- do 600 obras, realiza- BIENAL DE quitectura. v
ção de 51 obras, desta- das por 500 participan- ARTE DE
cando-se The Barn, de tes de 35 países, expos- CERVEIRA TTTTS
VÁRIOS LOCAIS ERMIDA
1994, e Lenços dos tas não só em Cerveira, V. N. Cerveira, DE ST.ºANTÓNIO
Amores, de 1968 (de mas também aos con- Paredes de Coura, QUINTA DO PÁTIO D’ÁGUA,
realçar que Rego figu- celhos vinhos de Pare- Caminha, Vigo MONTIJO
e Ourense Permanente • 4.ª e 6.ª, 14h-17h30
rou na primeira edição des de Coura, Caminha, Até 16/9 (confirmar na Junta)
da Bienal, em 1978). Vigo e Ourense.. v AX Vários preços • Grátis
S
d SHOPPING
DC SHOES
Em azul claro e com
uma pala larga, estas
sandálias são uma
óptima solução para
Para quem quem quiser pisar a
gosta de areia com estilo.
chegar cedo
à praia e ir €25,90
adiando a
saída até
STYLE o Sol se pôr,
leve as refei-
ções para
o dia nesta
cesta da WOMEN’SECRET
Anita Picnic Este cesto de palha tem
(€98,50) uma alça entrançada colo-
rida e pompons. Além dis-
so, traz uma alça comprida
extra, para pôr ao ombro.
€20,99

Os acessórios que
são a sua praia SHOPPING

27
Ao trocar a cidade ou o campo por um bom areal
e um mergulho no mar, prepare-se com estilo
TEXTO INÊS MENDES OLIVEIRA ÉNFASIS
Com este apoio para a cabeça, tem aqui
uma opção alternativa para a almofada
em só nos biquínis e fatos-de-banho as ALÉM DOS

N
de praia.À venda no El Corte Inglés.
marcas portuguesas dão cartas. A pai- ACESSÓRIOS, €4,95
xão pela zona litoral faz com que muitos
empreendedores se virem para o mar NÃO SE
em busca de inspiração para novos projectos de ESQUEÇA HAVAIANAS
negócio – fazendo assim nascer novas marcas de DE LEVAR O De uma das mais
acessórios de praia. recentes colecções
Algumas – as de maior sucesso e originalidade –
PROTECTOR de Verão da marca,
estão nestas páginas, ao lado das internacionais SOLAR PARA A chegaram estes
clássicas, todas com acessórios – de chinelos e al- PRAIA E EVITAR chinelos de inspira-
mofadas a toalhas de praia – que, além de cumpri- EXPOR-SE NAS ção marinha, com
rem o seu objectivo, são divertidos e originais. Com riscas vermelhas
eles, preferindo a praia, o rio ou evitando a areia na
HORAS DE e brancas.
piscina, vá a banhos com estilo e qualidade. v MAIOR CALOR €25,90

PÉU VERTTY
Com pintas brancas Com um design único
em fundo vermelho, (e já premiado), esta
este (cha)péu é 100% CAIA toalha de praia, versão
algodão, com acaba- Modelo nacional de almofada im- trendy, da inovadora
mento em franjas. permeável, com vários padrões. Este marca portuguesa
Além de ser de uma é o Fiji, inspirado nas paradisíacas Vertty, está disponível
marca portuguesa. ilhas homónimas. em diversas cores.
€75 €24 €49,90
h 5 COISAS PARA FAZER COSTA ALENTEJANA
EXPOSIÇÃO DE ESCULTURAS DE PAPEL CASA VICENTINA
PORTEL • Capela de Santo António ALJEZUR • Monte Novo – Odeceixe
• Até 30/7 • Entrada gratuita • €125/suíte júnior
João Charrua, autor da exposição, formou-se em Perto da praia de Odeceixe está a Casa Vicentina,
Arquitectura, mas continua a dedicar-se à sua de José Almeida. A propriedade agrícola determi-
paixão: os trabalhos em origâmi. Agora cria os na que seja um agroturismo com 12 suítes. Tanto
seus próprios modelos e são esses que estão as cores como os materiais usados na sua cons-
em exposição em Portel até ao fim de Julho. trução estão em harmonia com a região.

PASSEIOS DE BURRO
ALJEZUR
VALE DA AMOREIRA
• DE 3.ª A SÁBADO
• €35/1H30 COM GUIA

É no Sítio dos Burros que Elsa Ribeiro


e Sofia von Mentzingen conciliam as
suas duas paixões: os burros e a olaria.
A apenas 3 km de Aljezur pode cami-
nhar ao lado dos burricos – a que as
proprietárias chamam “burricadas”,
adaptando o seu ritmo ao do animal
para um passeio pedestre descontraí-
do. O único objectivo é desfrutar
da sua companhia e da paisa-
FÉRIAS gem alentejana circundante. Os
passeios podem ser combinados PASSEIOS DE BARCO FEIRA DO LIVRO E DO DISCO
28 VILA NOVA DE MIL FONTES • Cais da Fateixa SINES • Capela da Misericórdia • Até 29/7,
com outras actividades, como
• €20/adulto das 17h às 2h • Entrada gratuita
meditação, desenho e escrita criativa, Durante 2h a 2h30, deixe-se navegar pelo rio Mira, No âmbito do Festival de Músicas do Mundo,
aulas de ioga ou passeios mais ritma- conhecido como um dos mais limpos da Europa. esta capela recebe uma feira com livros
Com partida de Vila Nova de Mil Fontes, os pas- (raridades e promoções) da livraria A das Artes
dos com carroças. Nestes passeios, seios (12 km) são organizados pela DUCA, empre- e com discos de músicas do mundo, clássicos e
pode esquecer a ideia pré-concebida sa que organiza actividades na Costa Alentejana. contemporâneos da loja alternativa VGM Música.
de que os burros são animais teimo-
sos. Aqui vai descobrir o lado mais afá-
vel e pachorrento destes animais.

TEXTOS INÊS MENDES OLIVEIRA


h 5 COISAS PARA FAZER ALGARVE

XXIV FESTA DA RIA FORMOSA


FARO • Parque de S. Francisco • De 27/7 a 6/8
das 19h à 1h • Entrada livre
Organizada pela Vivmar – Associação dos Viveiris-
tas e Mariscadores da Ria Formosa, esta festa é
uma ode ao marisco da ria, um ecossistema rico
em fauna e flora. Além da gastronomia, a festa
faz-se também de muita animação, com espectá-
culos e exposições a ocupar o cartaz. Tem 11
dias para provar especialidades regionais, confec-
cionadas por quem sabe.

FÉRIAS

29

SALMORA – LIVE KITCHEN & BAR


VILAMOURA • R. do Clube Náutico, Edifício Vila
QUINTA DOS PERFUMES Lusa, Bloco 2B • 17h-1h • €20 (preço médio)
O nome denuncia o conceito: neste restaurante
TAVIRA pode assistir a tudo o que é preparado na cozi-
CONCEIÇÃO DE TAVIRA nha. Na esplanada, experimente alguns dos pra-
tos da nova carta, como o bife de atum à portu-
• €95/QUARTO DUPLO guesa, ou um dos 20 cocktails à disposição.

A poucos quilómetros de Tavira, estende-se


um laranjal quase até ao areal da praia mais
CINEMA AO AR LIVRE
próxima, onde se ergue um agroturismo: a ALMANCIL • Quinta do Lago
Quinta dos Perfumes, que assim foi baptizada • 31/7 e 14/8, 19h • Grátis
As sessões de cinema ao ar livre voltam ao
numa homenagem ao seu passado. É que an- campo de prática da Quinta do Lago, um
tes de ter sido adquirida e renovada por Pe- anfiteatro natural pronto a receber alguns
dos mais recentes filmes de animação. Se
dro Estrela, o proprietário, era uma fábrica de tem crianças, no dia 31 não perca Cantar!,
extracção de essência de malva para fazer de Garth Jennings.
perfumes. Da fábrica, apenas restam os por- EXPOSIÇÃO FREE FORMS
ALMANCIL • Hotel Conrad Algarve
tões de correr. Lá dentro foram construídos • A partir de 27/7 • Entrada gratuita
nove quartos. Os cinco do primeiro andar (um A exposição deste Verão no Conrad
reúne trabalhos de dois conceituados
deles com cama de dossel) partilham o piso artistas britânicos: o pintor John Hoyland
com o rooftop (na imagem), onde pode to- e o escultor Jeff Lowe. Organizada em par-
ceria com a galeria ArtCatto, pode ver-se
mar um copo com vista para o mar. Os res- até ao fim de Setembro.
tantes quartos ocupam o rés-do-chão. Além
das laranjas (que pode provar ao pequeno-al-
moço), a quinta tem uma série de outras plan-
tações: vinhas, medronhos, limões e uma hor-
ta biológica. Por entre as laranjeiras esconde-
-se uma piscina de água salgada, o mais
apetecível cartão-de-visita da propriedade.
a PROVADOR
ESCAPEDINNER
PARCERIA GRAND’IDEIA

RESOLVA & A CASA DO CHEF


WWW.GRANDIDEIA.PT/
ENIGMAS ESCAPE-DINNER
€35(COM JANTARE
AO JANTAR BEBIDAÀDISCRIÇÃO)

Imagine: numa
experiência
de laboratório
falhada, ficou
contaminado
por um vírus
mortal e agora
tem de encontrar
o antídoto.
Como?
A resolver
quebra-cabeças,
no Escape
Dinner

PROVADOR

30

ISTOCK
implorar-lhe por uma sugestão,
uma pista simples. Orgulhosamente
digo que eu e o meu grupo nos sa-
fámos bem e só precisámos dos
conhecimentos da Joana duas ou
três vezes. Porém, não se enganem:
não há nada fácil nos enigmas que
nos foram servidos. O objectivo era
ESTA FOI UMA EXPERIÊNCIA de descobrir seis ingredientes que, no
vida ou de morte – assim que me fim, seriam a chave para o antídoto.
sentei no lugar que me estava des- Quando chegou à mesa o prato
tinado, fui informada num tom ligei- principal, um risoto de cogumelos
ro e pouco preocupado de que a (especialidade do chef), foi severa-
minha vida corria perigo: um vírus mente negligenciado – não pela fal-
mortífero tinha sido acidentalmente ta de fome, mas sim pela ânsia de
libertado. “Como se sente?”, per- nos salvarmos. Pela altura da so-
guntou Joana, responsável por me bremesa, estávamos a um ingre-
ter dado a terrível notícia: “Tem sin- diente do fim. O antídoto foi final-
tomas?” Sem sair do fatídico res- mente alcançado depois de umas
taurante Casa do Chef, na Avenida colheradas energizantes de mousse
de Berlim, e numa corrida contra o de chocolate.
tempo, tive de descobrir a cura. Na realidade, estávamos a um úl-
O mote estava lançado: a produ- timo esforço da morte, que foi evita-
tora Grand’ideia tinha planeado in- gues, em busca da salvação, duran- encontrámos o primeiro enigma: da graças à sincronização de todas
fectar os quatro comensais à mesa, te este jantar especial (só há um “O jogo começa aqui.” “Aqui? Onde as mentes envolvidas. Dica: a reso-
no grupo que me calhou. Única por mês), de nome Escape Dinner. exactamente?”, perguntámos. A tal lução dos enigmas vai exigir a cola-
dica: tudo o que seria necessário A acompanhar os cogumelos sal- Joana, que inicialmente nos tinha boração de todos os sentidos (e de
para chegar ao antídoto estaria em teados numa redução de vinho e dado a má notícia, revelou ser a um smartphone). O próximo jantar
cima da mesa, ou seja, não seria mel chegou também uma folha A4, nossa agente secreta. No caso de o será a 11 de Agosto.
necessário andar a deambular pelo o nosso ponto de partida, e nada enigma nos cortar o fluxo de ideias
restaurante do chef Jorge Rodri- mais. Depois de lidas as instruções, e nos encostar à parede podemos TEXTO INÊS MENDES OLIVEIRA
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pratique neurofitness
para o verão.

GRÁTIS
JJÁ NAS BANCAS

20 Jul 27 Jul 03 Ago 10 Ago 17 Ago


 
  

 

  


 





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