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SERMÕES SOBRE A SANTA MISSA NO RITO ROMANO TRADICIONAL - Pe Luiz fernando Pasquotto

Primeiro Sermão – 30/01/2017:

A maioria dos fiéis que assistem à Santa Missa no rito romano tradicional, infelizmente, não
conhecem o que assistem a cada domingo. Por isso, nos pareceu necessário explicar a origem
história das orações e ritos da Santa Missa, os gestos e vestes do sacerdote, para ajudar os fiéis a
rezar melhor durante a Santa Missa, entendendo do que estão fazendo parte.

O Rito romano tradicional é, na sua origem, o rito da missa tal como celebrado na diocese de
Roma. Há muitos outros ritos da missa na Igreja Católica: o rito dominicano, o rito carmelita, o rito
lionense (rezado na arquidiocese de Lyon, na França), o rito malabar (na Índia), o rito bizantino, o
rito maronita, etc.

As diferenças entre os ritos são o resultado de várias causas, que se uniram em cada rito,
produzindo um resultado final: a cultura de um povo, as heresias que existiram em um lugar e que
foram combatidas de modo particular pelo próprio rito da missa, a importância do bispo ou
patriarca que tinha influência na região em que aquele rito se originou, as verdades de fé que
deviam ser mais destacadas diante dos fiéis daquele lugar, etc. Por exemplo, o bispo de Roma não
é qualquer bispo. Ele é o chefe da Igreja Católica, e isso deve ser deixado claro. Evidentemente, o
rito do bispo de Roma não será semelhante ao rito usado pelos outros bispos...

O rito de Roma não é nem a obra de um só homem nem a obra de um só dia. É uma obra anônima
na qual trabalharam numerosos operários quase todos desconhecidos atualmente, e cuja
conclusão demorou séculos. É uma catedral construída em diferentes momentos e que tem as
marcas de épocas sucessivas.

Mas vejamos de perto o que acontece no rito da Santa Missa, e aos poucos entenderemos melhor
o que queremos dizer que a cada domingo assistimos aqui o rito de Roma, e como ele foi sendo
construído com o passar dos séculos.

Atualmente a Santa Missa começa com as orações ao pé do altar. Nelas, o sacerdote recita o Salmo
42, pede perdão a Deus pelos seus pecados, recitando o Confiteor, e termina recitando uma parte
do Salmo 84. Só então sobe ao altar.

Antes da codificação do Missal Romano feito por São Pio V, durante a Idade Média, o Salmo 42 era
recitado regularmente por todos os padres antes de rezar a missa, na sacristia, ou de memória
durante a procissão para chegar ao altar. Ainda pouco antes da edição do Missal feita por São Pio V
uma edição do Missal Romano de 1550, feita pelo Papa Paulo III, diz que o padre deve recitá-lo
sozinho, em voz baixa ou em silêncio, antes de chegar ao altar. É o que fazem até hoje os religiosos
do Carmelo no rito carmelita.
Porém, é na sacristia, imediatamente antes da missa, que os padres menos tempo têm para se
preparar. Pessoas andando, pedindo favores, querendo um conselho rápido ou fazendo um
convite, acólitos atrasados, ou mesmo o padre atrasado, tudo isso não ajuda em nada o
recolhimento e a oração do sacerdote antes da missa.

Sabendo disso, São Pio V determinou, na sua edição do missal em 1570, que o Salmo 42 fosse
anexado à missa, para que o sacerdote e os ministros sagrados que o servem (diácono,
subdiácono, acólitos) por mais que tenham tido muito tumulto antes de começar a missa, possam
ter um mínimo de preparação ali, diante do altar. É por isso que hoje ele faz parte do começo
mesmo da Missa Tridentina. Antes elas eram orações recitadas privadamente pelo padre, na
sacristia. Agora são recitadas publicamente, tendo sido integradas ao rito romano da missa.

Como, antes de São Pio V, as orações ao pé do altar eram recitadas pelo padre na sacristia, a missa
começava de fato no Introito. Por isso: a) o padre faz um sinal da cruz ao começar a recitar o
introito da missa; b) o coro canta o introito desde o começo da missa, e não espera o padre
terminar as orações ao pé do altar para começar a cantar o introito.

Esse sinal da cruz que o padre faz no introito, na verdade, era o sinal da cruz com o qual o padre
iniciava a missa. Depois de São Pio V, ele a inicia com as orações ao pé do altar, mas o sinal da cruz
que era feito no introito foi mantido. A Igreja não destrói as coisas que ela sempre fez. Ela as
mantém.

Agora, se a Santa Missa é o sacrifício do corpo e do sangue de Cristo sobre nossos altares, e o rito
da missa procura indicar isso sem cessar, o que devemos ver nas orações ao pé do altar, e no
Confiteor, que o padre reza profundamente inclinado, pedindo perdão pelos seus pecados,
juntamente com os acólitos, quando se aproximam do altar? Devemos ver Cristo indo para o
Jardim das Oliveiras, junto com seus Apóstolos, e começando a agonizar e a suar sangue, porque se
aproxima a hora de que Ele se ofereça em sacrifício por nós. Um cerimoniário fica junto ao padre,
como um anjo ficou junto de Nosso Senhor para consolá-lo. Os acólitos ficam longe, como os
apóstolos ficaram longe.

E, assim, devemos ter dor sincera de nossos pecados, que fizeram Cristo passar tanta angústia no
jardim das Oliveiras, sobretudo porque via pessoalmente cada um de nós, que não daríamos a
mínima para Ele a cada vez que pecássemos. E, com esse arrependimento sincero, aliviar um
pouco seu Sagrado Coração, que só recebe ingratidão dos homens, sobretudo pela indiferença com
que assistem a Santa Missa, pela indiferença que têm de recebê-lo na Comunhão, pelas
irreverências que os padres e outros católicos fazem ao rezar, servir e assistir a Santa Missa.
Indiferença que vem de muitas décadas, e que nos fez merecer de Deus a punição de termos hoje
missas tão absurdas que passamos do limite do tolerável, por nossa culpa, nossa culpa, nossa
máxima culpa.

Se o sacrifício da missa foi instituído para o perdão dos pecados, como teremos a misericórdia de
Deus se o ofendemos e somos indiferentes a Deus durante o próprio sacrifício da missa? Se até
agora fomos ingratos ao Sagrado Coração, na missas, usemos desse maior conhecimento que
temos do rito da missa para encontrarmos motivos de contrição, e fazermos com que o sacrifício
de Cristo seja eficaz em nós.

Segundo Sermão – 09/02/2017:

No último sermão falamos da origem das orações ao pé do altar, e seu significado espiritual. Hoje
veremos alguma coisa sobre o Cânon da missa. Nossa intenção não é a de seguir uma ordem
rigorosa das orações da missa, mas de explicar, pouco a pouco, certos aspectos mais interessantes
do rito, que nos ajudem a saber do que fazemos parte ao assistir a Santa Missa.

O Cânon da missa é o conjunto de orações que começa nas palavras “Te igitur…“, após o Sanctus,
até as palavras “…per omnia saecula saeculorum“, antes do Pai nosso. Cânon, em grego,
significa regra, algo que é uma referência, uma norma. Ele recebeu este nome porque é o
conjunto de orações que são a regra, a referência de como devemos consagrar. É a forma fixa de
como oferecer o sacrifício do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor, à qual todos devem se
conformar. O Papa São Dâmaso I, que governou a Igreja no século IV, foi um dos responsáveis pela
fixação do Cânon. O padre não tem direito de alterar essa norma, de colocar seu toque pessoal
nessa regra que não é dele, mas da sociedade instituída por Jesus Cristo, a Igreja Católica, para que
Deus receba o culto que lhe é devido.

Todo o Cânon é dito pelo padre em voz baixa. Ninguém ouve o que é dito, a não ser o próprio
sacerdote que reza a missa. Quando começou esta prática, de que o sacerdote rezasse o Cânon da
missa de modo a não ser ouvido por ninguém? É difícil determinar. O imperador Justiniano, no
século VI, publicou uma lei dizendo que todos os bispos e padres deviam oferecer o santo sacrifício
de modo que todos os fiéis pudessem ouvir o que era dito. A conclusão é evidente: já havia
começado dentro do clero, algum tempo antes desse decreto imperial, o costume de rezar o Cânon
da missa em voz baixa, no século VI, talvez antes mesmo. Rezar o Cânon em voz baixa, no início,
era um costume que foi se difundindo, uma tendência no clero, e não uma obrigação. Aos poucos
essa prática se consolidou.

É necessário destacar que rezar o Cânon da missa em voz baixa é um exemplo de algo muito
comum nas cerimônias litúrgicas. Nos ritos orientais, é comum o sacerdote rezar em voz baixa,
enquanto os fiéis, em união com o diácono, fazem outras orações em voz alta.

Um outro motivo, bem mais prático e funcional, é o de buscar encurtar o tempo de missa. Rezando
o Cânon em voz baixa, o sacerdote toma menos tempo para rezar as orações. E é por isso também
que o sacerdote, depois de recitar pessoalmente o Sanctus, já inicia o Cânon, sem esperar que o
coral tenha acabado de cantá-lo. Além disso, como o coral ainda está cantando o Sanctus quando o
sacerdote inicia o Cânon, este precisa ser rezado em voz baixa. Isso tornou-se um costume, que
aos poucos foi se difundindo.
Com o tempo, algumas verdades doutrinárias ficaram contidas no fato do sacerdote rezar o Cânon
em voz baixa: a) de que a Santa Missa é um culto oferecido a Deus, e não um encontro da
comunidade para vivenciar uma experiência pessoal e sentimental de fé; b) de que o sacerdote
não é um membro da assembleia, que somente presidiria a missa, rezada por todos; mas que
somente ele, na missa, tem poder de consagrar e oferecer o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor,
e portanto somente ele reza e ouve as palavras que mais imediatamente se referem à
Consagração; c) de que a Santa Missa não é um ato que está no mesmo patamar das atividades
quotidianas das pessoas, mas o ato mais sagrado e misterioso da Igreja Católica, e que deve ser
realizado com toda gravidade e reverência, o que fica muito bem indicado pelo silêncio que reina
na Santa Missa durante o Cânon.

Por isso o Concílio de Trento afirma, nos seus cânones sobre o Santo Sacrifício da Missa: “Se
alguém disser que o rito da Igreja Romana que prescreve que parte do Cânon e as palavras da
consagração se profiram em voz submissa, se deve condenar, ou que a Missa se deve celebrar
somente em língua vulgar (…), seja excomungado“.

Essa prática tem efeitos profundos na vida espiritual dos católicos. O silêncio é necessário para
subir até as alturas da oração. Este silêncio não é necessário para a oração vocal, mas o é para a
oração mental e os outros sete graus de oração. Santo Agostinho diz que ninguém pode se salvar
se não reza. Ora, é um fato que a oração mental e a oração em geral sofreram um colapso entre os
leigos (e entre o clero, também) nos últimos quarenta anos. Muitos padres têm a opinião de que
isso tem realmente a ver com o ritual da Missa. Atualmente, no rito promulgado por Paulo VI, tudo
gira em torno da oração vocal, e os aspectos coletivos da oração são pesadamente enfatizados. Isto
levou as pessoas a crer que somente as formas de oração vocal e de orações coletivas têm um
valor real. Consequentemente, as pessoas não rezam mais sozinhas e recolhidas.

O rito antigo, por outro lado, realmente promove uma vida de oração. O silêncio durante a missa,
na verdade, ensina as pessoas que elas devem rezar. Enquanto o rito romano tradicional é
realizado, ou a pessoa irá se perder em distrações ou irá rezar. O fiel, porém, se dá conta de que o
recado é claro: “aproveite o silêncio para rezar, não fique distraído na missa”. O silêncio e o
encorajamento para rezar durante a missa ensina as pessoas a rezar por conta própria.
Estritamente falando, os fiéis não estão rezando sozinhos, na medida em que eles devem unir suas
orações e sacrifícios ao sacrifício e à oração do sacerdote. Mas essas ações são feitas interiormente
e de modo mental e, assim, naturalmente, os dispõe para essa forma de oração. Esta é uma das
razões que fazem com que as pessoas sejam naturalmente mais silenciosas e tenham a tendência
de rezar depois, quando a missa é rezada conforme o antigo ritual. Se tudo é feito vocalmente e
em voz alta, as pessoas pensam que quando não ouvem mais alguma voz, que tudo acabou. É
muito difícil conseguir que as pessoas que frequentam o novo rito da missa façam uma ação de
graças adequada, rezando depois da missa, porque foram habituadas a falar em voz alta quando
rezam, e não a se recolher em silêncio.

Aproveitemos o silêncio presente na Santa Missa para adquirirmos o hábito de rezarmos


recolhidos. Esse recolhimento é necessário ao longo do dia, a cada dia. Do contrário, nos deixamos
levar pelo impulso de falar, de agir com precipitação e sem reflexão. Também os animais agem sem
reflexão e oração. Mas nós somos filhos de Deus e devemos considerar todas as coisas na oração, e
sob o olhar de Deus.

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