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Sexta-feira, 04/08/2017, às 07:26, por Helio Gurovitz

Vitória da Operação Estanca Sangria


Consolidou-se, com o arquivamento da denúncia contra o presidente Michel Temer pela Câmara, a
reação de Brasília contra a Operação Lava Jato. Foi a última na série de vitórias que os políticos
têm obtido desde o início do ano contra juízes, procuradores e policiais. O povo, como revela a
imagem do Congresso durante a votação , não esboçou reação.

Da boca para fora, quem votou em favor de Temer afirma estar preocupado com a estabilidade e
com o crescimento econômico. Falso. Querem é deter o avanço das investigações sobre os
parlamentares. Defendem a própria sobrevivência política e nada mais. Foi a vitória do baixo clero
clientelista, o tal “centrão”. Temer hoje depende mais dessa geleia invertebrada que dos grandes
partidos.

A Lava Jato não é apenas uma ameaça ao crime – mas ao modo de vida da casta parlamentar,
sustentada à custa de privilégios, do clientelismo e da relação espúria com interesses privados.
Mesmo que “apenas” 59% dos que votaram com Temer estejam formalmente entre os alvos da Lava
Jato, é possível vislumbrar neles os contornos de uma operação adversária, a Operação Estanca
Sangria.

A Estanca Sangria obteve desde o início do ano vitórias sucessivas no Supremo Tribunal Federal
(STF): a libertação do ex-ministro José Dirceu, os habeas corpus em favor do senador Aécio Neves
e do ex-deputado Rodrigo Loures (carregador da mala de propina, segundo a denuncia, destinada a
Temer) e a possibilidade de anular delações premiadas – sob o argumento genérico das
“ilegalidades”.

Até quarta-feira, a maior vitória se dera no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a absolvição
vergonhosa da chapa Dilma/Temer, mesmo diante das provas eloquentes de uso do dinheiro do
petrolão na campanha de 2014 – para quem já esqueceu, basta lembrar que propinas pagas pela
Keppel-Fels caíram na conta que João Santana, marqueteiro da campanha, mantinha no exterior.

À vergonha do TSE, acrescenta-se agora a da Câmara. A Estanca Sangria predomina também no


Senado, sob a liderança de Aécio – aliado inseparável de Temer depois de ser gravado pelo
empresário Joesley Batista pedindo R$ 2 milhões. Ele contou com benevolência no STF, mas
enterrou suas esperanças presidenciais. Em contrapartida, tornou-se o maior articulador do garrote
contra a Lava Jato.

É profundo e incontornável o racha no PSDB. De um lado, o grupo ligado a Aécio, leal a Temer. Do
outro, o grupo do governador paulista, Geraldo Alckmin, e do senador Tasso Jereissati, que
defendem a ruptura com o governo. A votação de quarta feira – 22 deputados a favor de Temer; 21
contra – demonstra a extensão da fratura. Cresceu nesse vácuo o baixo clero que fez de Temer seu
refém.
O objetivo é manter o mandato em 2018, pois a sobrevivência política está associada ao foro
privilegiado. O importante é manter no poder alguém como Temer, cujo objetivo é segurar o garrote
e evitar o estouro dos coágulos que já se formam em torno das feridas Lava Jato.

A próxima tacada da Estanca Sangria, ao que tudo indica, será a substituição do procurador-geral
Rodrigo Janot. Dificilmente sua substituta, Raquel Dodge, deixará de lado as investigações, afinal
ela também é procuradora. Mas a a indicação do nome dela despertou entre os políticos uma
sensação de alívio para lá de suspeita.

Janot não tem tempo hábil para que uma nova denúncia contra Temer prospere. No Congresso,
embora seja duvidoso o apoio às reformas, é inequívoca a força da Estanca Sangria – ela poderá em
breve resultar em anistia a caixa dois ou em novas leis prejudicando as investigações. No STF, a
maré garantista promete dificultar o andamento dos processos.

Não parece haver saída. O garrote tem funcionado. Em vez de a Lava Jato fazer sangrar os
corruptos, é a Estanca Sangria que tem mantido nosso sangue a pingar entre os dentes afiados dos
mesmo vampiros de sempre.