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Título

André Villas-Boas - Também Especial


Autores
Luís Miguel Pereira e Jaime Pinho
Foto de capa
Getty images
Design e paginação (versão impressa)
Arco da Velha
Paginação (versão digital)
Gonçalo Athias
ISBN
978-989-655-113-1
Todos os direitos reservados
© 2011 Luís Miguel Pereira, Jaime Pinho e Prime Books

www.primebooks.pt
marta.abreu@primebooks.pt
Os autores agradecem a todos quantos se dispuseram a colaborar neste livro.
PREFÁCIO

“Prefiro a transpiração inspirada à inspiração momentânea, o talento


à canela, a acção do esforço à sobreactuação do sacrifício.
Marcelo Bielsa

André Villas-Boas é um treinador impulsivo que parte da ciência, um arquitecto da teoria do caos
aplicada ao futebol, “jogo caótico e emocional”, descodificado em cada 90 minutos pela táctica e
estratégia(s) reveladas em “improvisos preparados”. Nada disto são contradições. Ou, aplicadas ao
mundo do futebol, são factores aparentemente opostos que na mente avançada da abordagem moderna
do jogo, não fazem sentido viverem uns sem os outros. Em conflito e em colaboração. Villas-Boas
cresceu a pensar futebol, as “transições” e os segredos das “organizações”, cada relatório, colectivo
ou individual, era como uma visão “raio x” sobre a equipa observada. A “cabeça táctica” de cada
jogador perfurada e ao serviço de uma equipa técnica feita “empresa do futebol científico”.
A sua concepção própria do jogo cresceu através disso, bebeu influências, aprendeu e questionou
metodologias, seguiu a teoria de Capello do “melhor treinador como o maior dos ladrões”, e, ao
mesmo tempo, moldou a sua filosofia de futebol, sempre, sempre aberta a acesas discussões. É esse o
estilo do treinador-ser humano, “animal futebolístico”, André Villas-Boas. Debater, discutir futebol
“a sério”. Sempre presente no seu pensamento o respeito pela bola que qualquer equipa devia ter.
Ambição táctica como motor para fazê-la mover-se em campo.
A frase transcrita no início deste texto é uma das preferidas de André Villas-Boas. Espelha um
pouco a tal complexidade de factores que falava e foi uma das primeiras que partilhámos em várias
SMS (dentro da nossa admiração mútua por El Loco Bielsa) quando, por fim, teve a oportunidade de
agarrar uma carreira de treinador principal, na Académica. Não se trata de uma inconfidência, trata-
se da certeza que nela está muito da sua ideologia de jogo, no sentido da necessidade de cruzar
elementos como inspiração e transpiração, talento e esforço, sem os tornar inimigos entre si. O jogo,
uma equipa, necessita de todos eles para “viver” em campo.
Falar de André Villas-Boas através de uma estrutura táctica é redutor porque estas não têm vida
por si próprias. Dependem das dinâmicas que se lhe dêem. Por isso, falar da sua devoção pelo 4x3x3
apenas fala na devoção por um desenho. Falta a “personalização” desse sistema. Por isso, ainda
adjunto com visão “raio x”, falava da ida para o Inter com Mourinho como um desafio aliciante de
ganhar em Itália como uma diferente ideia de futebol à defendida pelo “velho testamento”
transalpino. Ganhar com um 4x3x3 em pressão alta em vez do jogo de especulação típico da escola
italiana. Se, depois, foi assim ou não, é outra coisa. O treinador André Villas-Boas ainda estava por
explodir na sua dimensão real.
Durante o seu ano no FC Porto, para além dos resultados que o eternizam, a constante necessidade
e vontade de repetir que aquela era “uma equipa de posse” e colocar as transições como seu
instrumento nos diferentes momentos do jogo, isto é, como meio para segurar as organizações
(defensiva e, sobretudo, ofensiva) que nascem depois delas. Por isso, no fim, dedicou as vitórias a
Robson, pela paixão transmitida, a Mourinho, pelas oportunidades dadas, e a Guardiola, pela
ideologia defendida. É a terceira “dedicatória” que fala, em rigor, da sua ideia de jogo. Ter a bola e
fazê-la circular por todo o campo em organização e expressão de qualidade técnica de uma equipa
paciente na busca e construção de espaços para penetrar na defesa adversária. Mesmo com uma
equipa “média-pequena” como a Académica, lutando por fugir à descida de divisão, procurou que
essas ideias sobrevivessem em campo, mesmo quando a urgência do resultado apelava aos instintos
mais primários.
O seu FC Porto foi, claro, a “alta definição” dessa ideia já presente desde o primeiro dia como
treinador. Ao mesmo tempo que afinava metodologias e poder de comunicação dentro e fora do
grupo, o seu “futebol de posse em 4x3x3” (o sistema sujeito ao modelo) ganhava corpo nas botas e,
sobretudo, cabeça de grandes jogadores. Havia aqueles com quem era preciso falar muito. E aqueles
que bastava uma palavra ou quase nem dizer nada (o mundo de Moutinho).
É impossível fugir à tentação de comparar este seu FC Porto 2011 com o de 2003, o primeiro de
Mourinho, também vencedor da Liga Europa (então ainda Taça UEFA). Existem alguns pontos de
contacto, de facto. Para alguns “estudiosos” aquela foi mesmo a melhor equipa, no plano da sedução
estética, de Mourinho. Concordo com essa teoria. Foi o tempo do 4x3x3 em pressão alta com
criatividade a meio-campo. A época seguinte, a da conquista da Champions League, já se desenhou
num 4x4x2 em losango. No ano de Villas-Boas, a sua “máquina azul-e-branca” expressou-se dentro
do 4x3x3 e também teve um ala/avançado vagabundo que gostava de vir para dentro em diagonais
(como foi Derlei, como é, em muitos traços, Hulk). Jogadores diferentes, no valor e explosão (no
campo e até no mercado), mas que permitem reproduções semelhantes de montar a equipa e suas
dinâmicas ofensivas. O meio-campo não tem um Deco, mas ganhou maior rotação defesa-ataque-
defesa com Moutinho. A importância dada ao pivot é semelhante, mas Villas-Boas procura que ele
“jogue mais” com bola. Os laterais de Mourinho defendiam melhor. Os de Villas-Boas saem mais em
desequilíbrio do que em apoio, mas, neste ponto, penso que as diferenças nascem mais de
características individuais do que opções de “jogar colectivo”. A ponta-de-lança, Falcão
redimensiona a posição, e, atrás, falta o carisma e grito de um defesa-central “à Porto”. Em vez
disso, Villas-Boas trabalhou maior rotina de sentido posicional da dupla de centrais.
Fica a dúvida de saber como seria um segundo ano de Villas-Boas no FC Porto. Não acredito que
evoluísse (ou melhor, transformasse) o sistema para o tal losango, mas alguns indícios vistos em
muitos jogos seus no banco portista, denotavam a preocupação de jogar, em mutos momentos, com…
quatro médios, ou melhor, com quatro homens a meio-campo. Dessa forma, mais do que “dominar”,
procurava (e conseguia) “controlar” jogos. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. No fundo,
com mais homens a meio-campo, dando largura ao losango, esticando os seus vértices laterais, a
equipa podia circular mais a bola de forma tranquila. Era o momento em que Villas-Boas falava da
equipa a “descansar com a bola”. Uma ideia que já vinha dos “livros de Mourinho” que Villas-Boas
soube entender e adaptar ao seu conceito de jogo. Mais do que jogar em sistemas diferentes, o
importante é saber mudar de sistema ao longo do jogo.
Quando o golo não aparece, raramente a solução está em povoar mais a área adversária, senão
que, ao invés, trabalhar melhor a elaboração da jogada desde trás no meio-campo e zonas “entre-
linhas” para criar a oportunidade. A construção antes da definição. No pensamento e, depois, no
jogo. Claro que muitas vezes o problema está mesmo na falta de homens na área, mas, na ideologia
global, é assim deve pensar uma equipa, é assim deve jogar uma equipa no futebol de top.
A necessidade de perceber cada jogador existe na directa proporção de perceber como ele pode
ser importante para a equipa. Nesse contexto, Guarín sentiu um upgrade no seu futebol. Mais do que
melhorar as suas qualidades, o que mudara foi as coisas que lhe pediam para fazer mo jogo. Em vez
de pressionar e recuperar, passou a ter outra amplitude periférica táctica no jogo, subindo em
construção/condução e invadindo depois zonas de remate. Por isso, dentro do seu 4x3x3, o pivot n.º6
deixa de ter um traço à sua frente com a palavra defensivo. Passa a ser pivot, ponto final. Nisso está
subjacente uma concepção de jogo em que para além de o ver como garante de equilíbrios defensivos
indispensáveis à função daquela posição, também lhe entrega outras missões no jogo, como o inicio
de saída de bola, começando por baixar para o meio dos centrais, que alargavam enquanto os
laterais subiam quase para a linha do meio-campo, e, assim sair a jogar com outra qualidade táctico-
técnica.
Na “táctica” do seu 4x3x3, a base era o movimento e a desmarcação entendida como busca de
espaços vazios para dar soluções/ linhas de passe ao portador da bola. Os jogadores serem capazes
de se verem uns aos outros e, com isso, darem soluções uns aos outros sobre o que fazer à bola. É
essa a melhor interpretação dos chamados princípios de jogo (por definição referencias
comportamentais que os jogadores têm em campo sobre o que devem fazer em determinadas
situações ou espaços). Correr sim, mas com critério (“transpiração inspirada” dixit).
No seu decálogo da posse, Villas-Boas prefere, como “mandamento essencial” o protagonismo
com a bola à postura especulativa de esperar a recuperação e sair rápido (as tais transições rápidas)
para a área adversária. Em vez de quatro ou cinco toques vertiginosos e verticais, Villas-boas não se
importa que a sua equipa dê 14 ou 15 apoiados e em largura, até chegar à área adversária, lançando a
profundidade no momento certo. Mais tempo de posse de bola para ter menos necessidade de…
recuperação. Mesmo quando para organizar a equipa sente necessidade de fazer um passe atrasado
ou fazer circular a bola por trás, o publico do Dragão foi percebendo que aquele gesto ou jogo
aparentemente demasiado lateralizado, era, apenas, um meio para começar a…construir. Penso que
conseguir esta paciência do público, por natureza intolerante com uma equipa “grande” que passe
muito tempo sem ter a iniciativa de atacar o adversário, é o maior triunfo que, antes dos resultados,
um treinador consegue obter. É o mais difícil, também. André Villas-boas conseguiu-o, com o seu
“4x3x3 de posse e circulação” e radares de recuperação super-activados em pressão alta quando era
necessária, conquistando, ao mesmo tempo, todos os títulos. A vitória da estética é, nos tempos
resultadistas que vivemos, um “triunfo de autor” prioritário para a saúde táctica do mundo
futebolístico. É o futebol de Villas-Boas.
Luís Freitas Lobo
CAPÍTULO 1

“Ele tinha uma grande vontade de aprender, principalmente a vertente


táctica, e a presença de Robson era muito nítida no seu carácter. Se,
como treinador, ele conseguir combinar a organização de Mourinho
com o futebol ofensivo de Robson, será um caso sério.
George Burley 1

André Villas-Boas ou antes Dom Luís André de Pina Cabral e Villas-Boas? É com este nome
brasonado que o treinador do Chelsea se apresenta na árvore genealógica da família. O título
nobiliárquico – criado pelo rei D. Carlos I, em 1890 – busca raízes no bisavô paterno, José Gerardo
Coelho Vieira Pinto do Vale Peixoto de Villas-Boas (1863-1913), 1º Visconde de Guidhomil.
Alfredo (1825-1906), irmão de José Gerardo, foi Conde do Paço de Vieira – localidade perto de
Guimarães, a norte de Portugal –, juiz e figura influente no governo do primeiro-ministro de então,
Ernesto Hintze Robeiro, trabalhando como ministro das Obras Públicas e como governador civil de
Ponta Delgada, nos Açores. Já o pai de José Gerardo e de Alfredo, José Joaquim Villas-Boas (1825-
1906) foi Barão de Paço de Vieira e governador civil de Braga.
O filho mais novo do 1º Visconde de Guidhomil e avô de André Villas-Boas, Gonçalo, casou-se
com Margaret Neville Kendall cuja família da mãe – os Burns – era de Lancashire e Merseyside. A
ligação a Portugal vem por parte da família dos pais de Margaret, os Kendalls, que estiveram no país
há pelo menos quatro gerações, provavelmente ligados à indústria do vinho do Porto. Foi com esta
avó, Margaret, nascida em Lordelo de Ouro (Porto), que Villas-Boas ensaiou a primeira
aproximação à língua inglesa. O domínio do idioma britânico foi, assim, precoce. Quis o destino que
três décadas mais tarde a vida de André voltasse à casa de partida, o berço da avó Margaret.
A infância do agora treinador dos blues correu abastada. Os pais, Teresa e Luis Filipe, formaram
uma família de classe média-alta, com residência fixa junto à colunável Avenida da Boavista. Luis
Filipe, professor e engenheiro químico, começou os estudos em Portugal antes de se mudar para
Inglaterra, onde concluiu o doutoramento na faculdade de química da Universidade de Kent, em
Canterbury. Actualmente, o pai de André Villas-Boas é docente na faculdade de engenharia química
da Universidade Técnica de Lisboa e trabalha para uma empresa que fornece peças de automóveis
para as marcas Volkswagen, Audi, Seat e Skoda. A mãe, Teresa, tem um negócio próprio, na área do
vestuário, com várias lojas na cidade do Porto.
Teresa e Luís Filipe casaram em 1973 – quatro anos antes de André nascer – e possibilitaram
sempre boas condições académicas aos filhos. Villas-Boas estudou no Colégio do Rosário, uma das
escolas privadas mais caras da cidade e reputada de um ensino de excelência. De fundamentos
profundamente religiosos, o Colégio Sagrado Coração de Maria – agora com o nome de Colégio de
Nossa Senhora do Rosário – nasceu no início do século XX resultado da fusão com o antigo Colégio
Inglês (mais um detalhe britânico no destino de André). Originalmente era gerido por uma freira
irlandesa, Miss Hennessey, e outros membros das Religiosas do Sagrado Coração de Maria. Após a
proclamação da República, em 5 de Outubro de 1910, foi promulgado um Decreto que vedava a
docência às religiosas. Assistiu-se a uma debandada das freiras, mas não o suficiente para retirar os
fundamentos religiosos ao Colégio. Por isso, a infância de André Villas-Boas comungou de
princípios marcadamente religiosos.

FUTEBOL NA PONTA DA LÍNGUA

Desde cedo ficou claro que o menino André não se fecharia na fadada concha aristocrática.
Olhava-se ao espelho e não via um rosto brasonado. Já tinha o cabelo ruivo, responsável pela
alcunha de “cenourinha”, granjeada entre os colegas, mas tudo o resto era comum. Viveu a infância
como qualquer criança. Pacato, quieto e dengoso. De notas escolares positivas, porém pouco
eufóricas. Foi sempre um aluno mediano.
André só perdia o equilíbrio quando o tema era futebol. Aí denotou sempre irreverência e argúcia
fora do padrão. Sabia tudo: jogadores e treinadores, clubes e transferências, promessas e
consagrados. Habilitava-se a qualquer discussão no pátio do Colégio do Rosário, sempre com o
argumento mais valioso na ponta da língua.
O mais estranho é que o tema “futebol” não tinha adeptos fervorosos na família. Tanto
conhecimento vinha da leitura exaustiva de jornais desportivos, das colecções de cromos e de um
precioso jogo de computador: Championship Manager. Foi o seu primeiro banco. Contratava
jogadores, definia o “onze” e fazia substituições. O famoso jogo deixou marca forte nos adolescentes
dos 80, mas no caso de André foi mais profundo: tocou-lhe na vocação. O menino teclava e…
celebrava. Tinha o mundo na ponta dos dedos! Depois transportava os nomes dos heróis para os
cadernos escolares. Rabiscos tácticos em vez de língua portuguesa ou aritmética. Talvez esta
obsessão possa explicar o “mediano” utilizado para catalogar o aluno André.
A paixão pelo FC Porto corria paralela ao fascínio pelo futebol. Testemunhas insuspeitas garantem
que André Villas-Boas levava para a escola relatórios exaustivos – técnicos e tácticos – da equipa
portista. À segunda-feira desenrolava os apontamentos e discutia, com a maior das propriedades, o
jogo do fim-de-semana anterior.
Fez-se sócio dos dragões a 4 de Julho de 1980, com apenas dois anos e meio de idade. Nunca
deixou de o ser – é o número 11.428 – pelo contrário, o tempo só reforçou a paixão. Era presença
assídua no estádio das Antas (antigo recinto do FC Porto), para assistir a jogos ou espreitar os
treinos. Em Maio de 1987, quando a equipa disputou e venceu a primeira final da Taça dos Clubes
Campeões Europeus, André Villas-Boas, com apenas nove anos de idade, festejou a vitória na
companhia da família em casa da avó. Nesse dia, se lhe dessem essa possibilidade, André estava
capaz de extrair um tufo de relva do Prater, tal era o significado daquele título europeu. Mal sabia
que 24 anos mais tarde seria ele próprio a viver sonho idêntico, mas ao vivo e como treinador
principal da equipa predilecta.
RECADOS A BOBBY ROBSON

Dona Teresa Maria e o senhor Luis Filipe seguiam, expectantes, o percurso do segundo de quatro
filhos (duas meninas e dois rapazes). Adivinhava-se impossível travar tão fortes ímpetos. Tirar-lhe o
futebol ou o FC Porto seria colocar-lhe um véu sobre a felicidade e reduzir a escombros aquele
sorriso infantil. Por isso André teve o beneplácito familiar para seguir contratando, vendendo,
construindo e reforçando equipas imaginárias. Em linha de vista estaria uma carreira no jornalismo
desportivo. Talvez.
As construções de castelos no ar sucediam-se, até ao dia em que a realidade veio morar… ao
lado. André teria uns 16 anos. O destino atribuiu-lhe como vizinhos, no mesmo prédio, a família
Robson – Bobby e a mulher Elsie. Nada mais, nada menos do que o então recém-contratado treinador
do FC Porto.
André encarou a coincidência como uma oportunidade de vida. Certo dia, aproveitando um
encontro de circunstância, abordou o treinador britânico com uma questão pertinente. Provocatória,
até. Recorrendo ao inglês leccionado pela avó Margaret, o miúdo perguntou porque razão Robson
não colocava mais vezes em jogo o seu ídolo Domingos, promissor goleador portista. Em vez de
reprovar a arrogância, o velho técnico reagiu com um sorriso, revelando uma abertura de mente
pouco comum.
Os contactos entre o miúdo e o Sir intensificaram-se. André depositava, com frequência, relatórios
e notas tácticas na caixa de correio de Robson. O treinador respondia com incentivos. “Deu-me
oportunidade de presenciar treinos do FC Porto. Eu era um mero adepto e aquilo era fantástico”,
admitiu recentemente André Villas-Boas. O jovem também passou a visitar, com frequência, o Clube
Inglês da Foz e outras tertúlias, sempre convidado por Bobby Robson.
A verdade é que este convívio revelou-se decisivo na opção de vida do adolescente André.
Descontando a impulsividade própria da juventude, Robson viu no rapaz altas doses de paixão e
competência. Por isso deu-lhe crédito, aceitando-lhe o trabalho de casa e conferindo-lhe até algum
uso, sempre de modo muito particular. A restante equipa técnica, onde se incluía o então tradutor José
Mourinho, só conheceu o jovem André muito mais tarde. O assunto ficou apenas entre o sábio
treinador e o jovem curioso.
A decisão estava tomada. André Villas-Boas entraria no futebol pela via da prática e logo pela
mão de uma das maiores figuras do futebol mundial, Bobby Robson. Durante cerca de um ano
frequentou a melhor das faculdades, como num conto de fadas: os treinos, os ídolos, os relatórios, as
estatísticas, as tertúlias… André absorveu tudo, como uma esponja, como se não houvesse amanhã.
Tinha 17 anos quando abdicou do curso universitário e começou a especialização. Iniciou a
formação como treinador em Inglaterra, por sugestão de Bobby Robson. Em lilleshall tirou o
primeiro de vários cursos. Em 1997 prosseguiu os estudos na Federação Escocesa de Futebol (FEF),
realizando paralelamente estágios em clubes profissionais como o Ipswich. George Burley, então
gestor do Ipswich, recorda-se bem do jovem pupilo: “Robson ligou-me e perguntou se eu poderia
receber um jovem candidato a treinador, deixá-lo assistir aos treinos e mostrar-lhe o funcionamento
do clube durante algumas semanas.” A influência de Bobby Robson era flagrante e ficou patente
durante o estágio no Ipswich. “Ele tinha uma grande vontade de aprender, principalmente a vertente
táctica, e a presença de Robson era muito nítida no carácter de André. Se, como treinador, ele
conseguir combinar a organização de Mourinho com o futebol ofensivo de Robson, será um caso
sério”, conclui George Burley.
Na Federação Escocesa de Futebol obteve as licenças de treinador C, B, A e Pro, sempre de uma
forma muito abnegada. “Era muito dedicado e estudioso, devorando tudo que lhe aparecia nas mãos,
nomeadamente livros de psicologia e fisiologia”, conta Jim Fleetin, director do departamento de
formação da FEF. Fez parte de um grupo alargado onde também estavam Ally McCoist, Ian Durrant,
Owen Coyle, Andy Milne e Vraig Brewster. “O André terminou a Pro License em 2008 e no ano
seguinte pedi-lhe para voltar e fazer uma apresentação aos novos alunos” – confessa Fleetin –
“continuo a usar o seu trabalho (análise táctica de um jogo entre a Escócia e a Geórgia) como
exemplo para apresentar aos meus alunos.”
De regresso a Portugal, mais uma vez pela mão de Bobby Robson, integrou o departamento técnico
das escolas do FC Porto. André sentia-se capaz de assumir um lugar no banco, como técnico
principal. Demonstrava gosto pelo desafio e ausência total de medo. Mas a estrutura portista
entendeu ser prematuro entregar o cargo de técnico principal, ainda que das camadas jovens, a um
miúdo com pouco mais de 20 anos.

UMA AVENTURA NAS CARAÍBAS

Ambicioso, atrevido, temerário. Traços de personalidade que levaram o jovem André, então com
22 anos, a responder a um anúncio de jornal: “Procura-se profissional para dirigir o departamento
juvenil da Federação de Futebol das Ilhas Virgens (FFIV)”. Mais inusitado era difícil. “Ele enviou-
nos o seu currículo e, vindo de um grande clube como o FC Porto e sendo amigo de Bobby Robson,
foi suficiente para nos convencer”, diz Kenrick Grant, então dirigente da FFIV.
André ganhou a vaga e partiu para o minúsculo país de 25 mil habitantes e pouco mais de 150
km2, enquanto muitos dos seus colegas de escola optavam pela graduação na universidade. Por lá
permaneceu apenas cinco meses – de Dezembro de 1999 a Abril de 2000 – sem nunca revelar a
idade aos responsáveis federativos. Fê-lo apenas no último dia: “A Federação descobriu que ele
tinha 22 anos quando partiu”, confessa Grant.
O calor era de ananases, as praias paradisíacas… tudo o que um jovem pode sonhar. E no início
até precisou de protector solar: “Nos primeiros tempos estava sempre na praia, como se estivesse de
férias! Mas quando começou a trabalho, surpreendeu-me. Fez um plano para todas as equipas, dos
mais novos aos mais velhos, com manual de tácticas incluído e tudo informatizado”, conta Grant. No
entanto, uma vez mais, o palco revelou-se curto para o tamanho da ambição. “Ele não estava
impressionado com a qualidade dos nossos jogadores e queria ir para um grande clube”, revela
Kenrick Grant. A experiência valeu-lhe a derrota mais pesada da sua carreira: 14-1 foi a cabazada
inflingida pelas Bermudas.
Villas-Boas voltou a sair da zona de conforto, uma marca registada ao longo da carreira.

DISCRETO COM A BOLA NOS PÉS

Falta contar o percurso de André Villas-Boas como futebolista. Seria estranho que um miúdo com
tanta paixão pelo futebol, não tivesse pelo menos tentado o sonho comum a quase todos os
adolescentes: ser jogador profissional. Villas-Boas tentou, mas sem êxito.
Corriam os primeiros anos da década de 90 quando um grupo de alunos do Colégio do Rosário –
entre os quais se incluía André – decidiu formar uma equipa de juniores para representar o
Ramaldense, um modesto clube da cidade do Porto, onde se revelou, por exemplo, Humberto Coelho,
um dos melhores defesas-centrais portugueses de sempre, consagrado ao serviço do Benfica. O agora
treinador do Chelsea era médio, com boa técnica, agressivo a defender e de passe certeiro, apesar de
o campo ser pelado. Joaquim Magalhães, mais conhecido por Quim Espanhol, então treinador do
clube, ainda chamou André à equipa principal, que lutava para não descer no campeonato distrital do
Porto. “Ele era reservado e muito educado”, conta o técnico, “mas já dava ordens aos colegas dentro
do campo, notava-se que era líder.”
O mais curioso é que a carreira de André Villas-Boas começou na baliza. Chegou ao Ramaldense
com apenas 15 anos, proveniente do Ribeirense, clube onde actuava como guarda-redes. Mas sem
grande talento. Tanto assim que foi utilizado apenas em três ou quatro jogos. Quando se mudou para o
clube de Ramalde, insistiu na posição de guarda-redes, durante uma temporada, novamente sem
sucesso. Quim Espanhol puxou-o para o meio-campo. Mesmo assim, nos treinos, Villas-Boas voltava
à baliza sempre que podia.
Ao Ramaldense seguiu-se o Marechal Gomes da Costa (MGC) na curta carreira de André. A
equipa era formada por engenheiros, médicos e estudantes, todos adolescentes de origem social
abonada. Foi uma época delirante no clube, cujo lema era “Tu nunca beberás sozinho” – um
trocadilho com o popular lema do Liverpool “You´ll never walk alone” – que disputava o
campeonato de amadores. A sede era no carro do treinador, Manuel Ribeiro, porque não havia outro
espaço físico disponível. A viatura transportava toda a documentação do clube.
Manuel Ribeiro recorda um jovem “alegre, com grande sentido de humor”. Dentro do campo era
“raçudo” e já orientava os colegas, “usando os ensinamentos adquiridos na função de treinador
adjunto nas escolas do FC Porto.” Havia apenas um detalhe que roubava o sorriso a Villas-Boas, a
derrota: “Convivia mal com os resultados negativos. Ficava triste e cabisbaixo”, conta Manuel
Ribeiro.
Pedro Barros, então capitão do MGC, conheceu André quando ambos jogavam squash no clube
inglês. Coincidiram no clube em 1998. Na memória de Pedro, “André era um jogador forte,
destemido e com grande resistência.” A colaboração no departamento de futebol juvenil do FC Porto
intensificava-se e a falta de tempo foi factor decisivo para André abandonar o MGC no arranque da
temporada 1998-99, “porque já não conseguia ter os sábados (dia de jogo) livres”, explica Pedro
Barros.
CAPÍTULO 2

“O André é, para mim, um elemento fundamental. Merece todo o


dinheiro que lhe pagam!
José Mourinho 2

Provavelmente mais bronzeado, mas seguramente com vontade de abraçar desafios mais
estimulantes, André Villas-Boas regressou do Caribe para ingressar na sua casa “biológica”: o FC
Porto. Retomou o posto no departamento de futebol juvenil, trabalhando directamente com Ilídio
Vale, então responsável máximo da estrutura e actual seleccionador nacional de sub-20.
O regresso de Villas-Boas coincidiu, no tempo, com a entrada de José Mourinho no clube para
substituir o treinador Octávio Machado. O FC Porto ocupava o modesto 5º lugar na Liga, colocando
assim em risco um lugar que assegurasse a participação numa das provas da UEFA. A derrota frente
ao Boavista (2-0), na 19ª jornada, forçou o presidente Pinto da Costa a tomar a rara decisão de
3

afastar o treinador. E, num ápice, contratou Mourinho, que ia mostrando grande qualidade no trabalho
desenvolvido na União de Leira.
Mourinho trouxe de Leiria os adjuntos Rui Faria e Baltemar Brito. Para treinador de guarda-redes,
escolheu o ex-internacional Silvino Louro. Faltava um elemento no seu novo staff, o homem para
observar equipas e jogadores adversários. Já tinha escutado rumores sobre a competência e ambição
do jovem André, aquando da sua passagem pelo FC Porto como adjunto de Bobby Robson, seis anos
antes. Villas-Boas era agora um adulto de 23 anos, bem diferente daquele adolescente “apenas”
curioso a quem Sir Bobby Robson tinha estendido a mão.
José Mourinho juntou dois-mais-dois para concluir que o jovem André Villas-Boas só podia estar
mais forte e maduro do ponto de vista técnico após a bagagem académica e a vertente prática
adquiridas na meia dúzia de anos anteriores. Seguindo essa linha de raciocínio, perguntou a Ilídio
Vale se podia convidar André Villas-Boas para a equipa técnica que estava a formar. Que sim, disse
Vale: “Nós sabíamos que ele tinha qualidades e que era ambicioso”, justifica o actual seleccionador
nacional de sub-20.
A colaboração com a equipa técnica de José Mourinho começou por ter contornos de part-time até
ao final da temporada 2001-02. Pedia-se apenas ao novo treinador chegado de Leiria que
“mascarasse” aquela época com a melhor classificação possível, já que o título era pouco menos que
uma miragem. À 19ª jornada os dragões levavam sete pontos de atraso para o Sporting, que era o
primeiro classificado, e essa distância, em Portugal (numa liga pouco competitiva) é atraso
praticamente irrecuperável. Assim, sob o comando da nova estrutura, o FC Porto realizou 15 penosos
jogos (11 vitórias, dois empates e duas derrotas), saltando do 5º para o 3º lugar e ultrapassando o
Benfica, o que é sempre motivo de regozijo para os dragões.
A integração a tempo inteiro de André Villas-Boas na equipa técnica de José Mourinho
aconteceria no início da época seguinte, em 2002-03, quando o FC Porto realizou uma das melhores
prestações da sua história, fazendo um triplete ao vencer o Campeonato Nacional, a Taça de Portugal
e a Taça UEFA.
O trabalho de Villas-Boas revelou-se de uma utilidade extrema, indo muito para além de tudo o
que já havia sido feito no género. Não deixava absolutamente nada ao acaso. Estabeleceu novos
padrões nos detalhes das suas análises e na profundidade com que as fazia, e criou aquilo que se
tornou conhecido como The Opponente Observation Department.
A capacidade para destacar os pontos mais importantes do adversário de forma sucinta era
especialmente apreciada por Mourinho e pelo plantel. Os processos de jogo da equipa adversária
eram acompanhados por DVDs pessoais para os atletas, nos quais o seu adversário directo era
profundamente analisado.
Conforme referiu posteriormente Ricardo Carvalho, que com Villas-Boas trabalhou no FC Porto
(dois anos), e depois no Chelsea (três anos), “é super minucioso nos relatórios que faz. Consegue
esmiuçar um adversário ao mínimo detalhe. Nada lhe escapa. Sabe tudo sobre jogadores, tudo sobre
as equipas”. Paulo Ferreira, que fez percurso idêntico ao de Ricardo Carvalho, confirmava isso
mesmo a quem o queria ouvir: “É incrível a preparação que temos antes dos jogos. Vou para um jogo
a saber tudo o que o meu adversário faz. Nunca tinha visto nada assim.”

ADVERSÁRIOS “ESQUARTEJADOS”

Exemplo de uma página de um relatório de observação elaburado por André Villas-Boas.


Vejamos, a título de exemplo, e para melhor se poder entender a tão referida qualidade do
trabalho, o relatório que André Villas-Boas preparou para a primeira grande final europeia da
carreira de José Mourinho, a final da Taça UEFA disputada em 2003 contra o Celtic de Glasgow, em
Sevilha. O treinador dos escoceses era, recordese, Martin O’Neill.
São quatro páginas A4 recheadas de informação muito condensada e bem organizada, onde nada
escapa, incluindo 24 esquemas com relvados onde constam todas as movimentações e sistemas
utilizados pelos escoceses ou a análise individual de cada jogador adversário. Tudo valorizado com
muitas sugestões.
ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA
− Equipa organizada em bloco médio/baixo, muita pressão com aumento de intensidade no meio-
campo, seja através de referências visuais, seja pela aglomeração de jogadores, à qual se junta o
facto de as linhas estarem juntas e de não haver espaço entre elas. São muito duros – faltas!
− Defesas centrais vão apertar todos os movimentos de aproximação dos avançados ao portador da
bola, concedem alguma profundidade nas costas que dá para explorar – principalmente quando se
arrasta os centrais para fora do seu espaço e se deixa Balde sozinho. Também há espaço a explorar
nas costas de Agathe e Thompson, obrigando o central desse lado a compensar, deixando buraco para
utilizar. Não fazem fora-de-jogo. No ar são muito fortes e dominam a primeira e a segunda bola. Sem
excepção, todos os centrais são lentos na rotação/reacção. Contra dois pontas-de-lança, Mjalby e
Valgaeren marcam para Balde sobrar.
− Triângulo do meio-campo definido, gostam de pressionar em conjunto, mas revelam-se
“preguiçosos” na circulação de bola do adversário que os obriga a bascular. Lennon é o primeiro a
desistir neste aspecto. É muito forte, mas apenas num raio de acção muito curto. Nas situações em
que Petrov e Sutton não estão encaixados por terem partido em profundidade, ficam em inferioridade
numérica no meio-campo, têm muita dificuldade, a equipa fica muito “fragilizada” e “parte-se”
facilmente.
− Pressão alta é ditada pelos pontas-de-lança, que pressionam os nossos centrais quando estes estão
em dificuldade, os médios também ajudam e por momentos condicionam muito o tempo e espaço do
adversário em determinadas zonas. É muito importante esticar a equipa. No pé eles matam.
− Larsson pode baixar para pressionar o trinco adversário por trás. Muita agressividade e empenho
nas bolas divididas. Espaço nas costas dos laterais/alas. São eles que pressionam os nossos laterais
quando estes têm a bola.
TRANSIÇÃO APÓS PERDA DA POSSE DE BOLA
− Mudança média/lenta de atitude, costas dos alas estão fragilizadas, tal como o meio-campo,
que não está povoado. Na recuperação posicional demoram algum tempo. Dá para sair em contra-
ataque.
− Forte reacção à bola, não há controlo do espaço. O homem mais perto pressiona bem, mas no geral
são lentos na recuperação, têm dificuldade com espaço atrás e estão partidos pois não têm as linhas
juntas.
− Pressão alta de surpresa ou na sequência de momentos emocionais positivos do jogo.
Agressividade no duelo individual. Muitas faltas.
BOLAS PARADAS CONTRA
− Nos livres laterais formam barreira de dois homens (saltam), deixa um homem em zona e todos
os outros marcam homem a homem. Na frente fica Larsson.
− Nos livres frontais formam barreira de cinco homens (saltam), são todos muito altos e à medida
que se vai bater o livre vão aproximando-se cada vez mais da bola. Nos livres indirectos há sempre
um jogador a sair muito cedo da barreira. Avisar árbitro.
− Nos cantos colocam um homem em cada poste, outro jogador em zona entre o primeiro poste e a
pequena área. Todos os outros marcam homem-a-homem. Deixam Larsson na frente para a saída
rápida para o contra-ataque.
− Muita pressão nos nossos lançamentos laterais. Desatentos e vulneráveis nos cantos curtos.
ORGANIZAÇÃO OFENSIVA
− Equipa emocional, está a atravessar um bom momento, forçam bastante e entregam-se muito ao
jogo. Persistentes, agressivos e a acreditar sempre. Organizam-se numa estrutura de 3x5x2 (com
pivot defensivo), dinâmicos, sabem jogar curto ou directo, o jogo é centralizado e vive do eixo dos
dois médios mais o pivot e dos dois pontas-de-lança. Jogam a vários ritmos, com mudanças de
orientação do sentido de jogo, com Lennon sempre em apoio atrasado e com o pivot ofensivo a
cair nos espaços abertos.
− Saída longa do guarda-redes. Muito fortes no ar. Podem tentar duas coisas: 1) um ponta-de-lança
vai ao encontro da bola para fazer flick para trás na deslocação do outro ponta-de-lança; 2) um
ponta-de-lança vai ao encontro da bola, segura e toca para o triângulo do meio-campo (sempre perto
e a “cheirar” a segunda bola), que mete em profundidade nos alas que estão o mais fundo possível.
− Os médios são muito posicionais. Lennon é fixo. É uma linha de passe atrasada e garante
equilíbrio. Lambert tem mais projecção ofensiva, mas ambos dão cobertura à projecção dos alas.
Atenção a Lambert, que gosta de sair a conduzir a bola e vai tabelando com os pontas-de-lança.
Petrov acelera o jogo. Tem drible, mas na selecção de espaços é mortífero e aparece com facilidade
e sempre no timing certo. Muitas tabelas também com os pontas-de-lança.
− Os alas têm comportamentos padrão. Em 2ª fase estão em máxima amplitude. Quando recebem a
bola, Agathe gosta de solicitar o ponta-de-lança, que se desmarca nas costas do nosso lateral que o
vai pressionar, para depois se deslocar para dentro e permitir nova linha de passe ou conduz a bola
para dentro e solicita o ponta-de-lança mais distante, que faz o lay-off para o outro ponta-de-lança,
que se desmarcou na frente dele ou na profundidade. Thompson gosta de estar sempre aberto e
quando recebe a bola vai para o um-contra-um com o lateral. O um-contra-um é característico:
condução de bola para cima do defesa e no limite finta para dentro ou para fora para cruzar de
imediato.
− Hartson tem capacidade aérea, cobre bem a bola e segura em zonas perigosas para fazer
combinação com Larsson. Larsson tem liberdade posicional, vai a um lado e ao outro, cai nas alas,
vai curto e vai em profundidade. Tecnicamente é muito bom. − Na ocupação posicional da grande
área, são excelentes. Um ponta-de-lança está no primeiro poste enquanto o outro está na zona do
penálti. Depois chega Sutton ao segundo poste ou pelo meio e o ala do lado contrário também chega
ao segundo poste ou fora da área.
− Muitos passes da cara dos centrais para os pontas-de-lança (pelo ar e rasteiro) e para Petrov, que
de imediato roda ou solta ao primeiro toque no ponta-de-lança que já se desmarcou.
TRANSIÇÃO APÓS GANHAR A POSSE DE BOLA
− Alívios são os mais perigosos.
− Mudança rápida de atitude. Profundidade é a primeira opção.
− Larsson antecipa a profundidade, “estica” o adversário e está no limite do off-side ou desce na
direcção da bola para sair em pressão e roda para passar ou conduzir.
− Cuidado com os alas. Transição rápida de Agathe, desloca-se para dentro em troca posicional com
o ponta-de-lança e sabe rematar de longe. Thompson fica aberto e cruza de primeira.
− Quando os nossos laterais têm que pressionar, o ponta-de-lança dá sempre saída, movimentando-se
nas costas – colocam lá a bola com facilidade, seja de perto ou de longe.
BOLAS PARADAS A FAVOR
− Os livres laterais são batidos por Thompson de ambos os lados. Pode rematar directo ou pode
cruzar. Cruzamento com muita qualidade para a entrada de cinco jogadores. Movimentações incisivas
a atacar a bola.
− Nos livres frontais, muita qualidade e variedade. Thompson bate quase sempre, seja de curta ou
longa distância. Não tem direcção fixa e pode bater para o lado mais próximo ou mais distante do
guarda-redes.
− Cantos são batidos de um lado e outro por Thompson. Se Petrov estiver em campo, é ele que bate
do lado esquerdo. Petrov bate cantos bem chegados ao guarda-redes. Há um homem no guarda-redes
que ataca a bola ao primeiro poste se o canto for fechado e ao segundo se o canto for aberto.
Posicionamento varia de canto para canto. Muita confusão nos cantos fechados.
− Segunda bola muito perigosa.
− Lançamentos laterais no terço ofensivo são longos para dentro da área, onde Hartson aparece para
cabecear.
OBSERVAÇÕES
− Todas as faltas no meio-campo deles, constroem largo e aplicam os mesmos princípios de
construção a partir do guarda-redes. − Na protecção de bola com o corpo não dão hipóteses, abrem
os braços e é difícil roubar a bola. Cuidado com rotação explosiva de Larsson e Maloney.
− Espertos nas simulações de faltas, principalmente na entrada da grande área.
− Podem inverter o triângulo do meio-campo durante o jogo ou em vantagem no marcador, passando
a jogar com Lennon mais recuado, com Lambert e Petrov na frente.
− Muito perigo nas bolas paradas.
− Em desvantagem no marcador pode entrar Maloney. Muito rápido – cuidado com a profundidade.
Também bate bolas paradas.
− Cartões amarelos e vermelhos – fazem muitas faltas.
APRECIAÇÃO INDIVIDUAL
− 20 Douglas – bom guarda-redes, alto e a sair aos cruzamentos para socar a bola. Algumas defesas
incompletas – procurar sempre segunda bola.
− 35 Malby – bom jogo aéreo, muito limitado tecnicamente. Gosta de jogar em profundidade ou
solicitar Agathe. Aperta e sai da posição quando o ponta-de-lança vem na direcção da bola.
Agressivo, faz muitas faltas.
− 4 McNamara – bom central, sabe jogar o organizar a equipa. Comunicativo.
− 6 Balde – muito alto e muito forte no jogo aéreo frontal. Tem muita dificuldade contra um ponta-de-
lança ágil e explosivo. Muito fraco no um contra um, pois não tem capacidade para rodar e perseguir,
por isso vai tentar sempre interceptar ou fazer falta. Joga como libero e não faz fora-de-jogo.
− 5 Valgaeren – gosta de sair do terço defensivo a conduzir a bola – arrisca, dá para roubar. Bom no
ar. Lento na rotação.
− 17 Agathe – muito bom tecnicamente, joga aberto e em profundidade. Sabe tabelar, mas também
sabe conduzir por dentro. O seu posicionamento em 2ª e 3ª fase compromete a transição defensiva (há
muito espaço nas suas costas). Mudanças de ritmo explosivas.
− 8 Thompson – bom pé esquerdo, coloca a bola com muita facilidade seja em passes longos, nas
diagonais, cruzamentos e remates. No um-para-um vai direito ao lateral para depois sair para dentro
ou para fora. Cruzamentos com direcção e com perigo. Importante nas bolas paradas.
− 18 Lennon – médio com mais preocupações defensivas. Muito forte, mas só na sua zona, é o
responsável pelas coberturas aos médios, aos alas e aos centrais. Quando não está a equipa fica
muito desequilibrada. Atracção pela pela bola e logo espaço por trás. Sabe passar e é muito
agressivo.
− 14 Lambert – médio com mais liberdade. Muito bom tecnicamente. Pode jogar como apoio, sempre
em movimento, mas também gosta de sair da posição para tabelar com os pontas-de-lança ou para
transportar a bola para o terço ofensivo. No passe é impressionante. Tem muita facilidade a curta,
média e longa distância. Por vezes aparece na grande área de trás para a frente e pelo meio.
− 19 Petrov – irrequieto. Na ocupação dos espaços é muito inteligente, aparece sempre muito bem de
trás para a frente. Se os dois pontas-de-lança se movem para o mesmo lado, logo de imediato
aparece Petrov. Bom tecnicamente, gosta de conduzir a bola após recepção orientada. Marca cantos e
livres.
− 9 Sutton – ponta-de-lança, mas adaptado a pivot ofensivo. Joga bem de cabeça e na construção
pelo guarda-redes é essencial pois é um dos que procura fazer o flick para os dois pontas-de-lança.
Tem alguma mobilidade. Tecnicamente não é forte mas sabe jogar ao primeiro toque. Lay-off para
médios. Perigoso nas bolas paradas.
− 10 Hartson – grande porte atlético, poderoso no contacto, vai muito bem de cabeça. É lento e tem
pouca mobilidade, mas quando a bola chega ao seu pé, protege-a muito bem enquanto espera pelos
apoios. É referência na 3ª fase. Remate forte e colocado, média e longa distância.
− 7 Larsson – muito bom tecnicamente. Domina as combinações ofensivas. Sabe jogar ao primeiro
toque, mas também sabe conduzir, cruzar e rematar. Tem muita mobilidade e mexe-se sempre com
intenção táctica – nas costas dos centrais e laterais. Rápido em curtas e médias distâncias.
Inteligente.
− 29 Maloney – ponta-de-lança (tipo Rui Barros ) baixo mas muito perigoso. Muito rápido e com
4

muita mobilidade. Pode entrar com desvantagem no marcador. Explosivo e com um-para-um no
espaço. Tem boa impulsão – cuidado.
O FC Porto venceu o jogo no prolongamento por 3-2, numa final ainda hoje muito recordada pelos
adeptos do clube dada a enorme expectativa que a antecedeu, o fantástico ambiente que o rodeou e,
claro, a incrível emoção da vitória final. Uma emoção que, não há um adepto que não o reconheça,
foi mesmo superior à sentida um ano depois quando a mesma equipa venceu a Champions League.
No domínio público da internet caiu a dada altura um relatório de 2005 sobre uma observação
feita por André Villas-Boas ao Newcastle, onde se podiam ler, entre muitas outras, considerações
como as que se seguem:
“Equipa em bom momento. Motivada e finalmente a encontrar equilíbrio. Importante manter
atenção à intensidade de jogo. | Muita rapidez e alerta nas segundas bolas – depois de ganharem a
bola têm soluções e tentam meter no Owen em velocidade. | Más transições defensivas e bolas
paradas. Deixam jogadores atrás para terem superioridade, mas não conseguem lidar com o contra-
ataque no espaço. É ainda mais evidente do lado do Babayaro – podemos matá-los por aqui. |
Substituições não implicam alterações do sistema. Mas o losango pode sempre ser opção para eles. |
Jogadores do banco têm qualidade técnica e podem decidir o jogo. Kieron Dyer e Lee Bowyer são
dinâmicos e assumem sempre os papéis que fazem uso da mobilidade. Ameobi é uma ameaça no ar e
bolas paradas. Luque tem técnica. Owen persegue bolas perdidas e os passes atrasados para o
guarda-redes (grande perigo!).”
Mas mais interessante ainda, especialmente numa altura em que Villas-Boas regressa a Inglaterra
para dirigir o Chelsea, e mesmo tendo em conta o tempo que entretanto passou e o facto de os
jogadores já não serem os mesmos – só Giggs se mantém na equipa e a espaços –, é tomar
conhecimento da forma como observava o Manchester United de Sir Alex Ferguson, porventura o
adversário mais difícil com que vai ter que se bater na Premier League. Um relatório sistematizado,
como sempre, tendo em conta a organização ofensiva e defensiva do adversário, as transições
ofensiva (após ganhar a posse de bola) e defensiva (após perder a posse de bola), as bolas paradas a
favor e contra, a análise individual aos jogadores e observações de carácter geral. Vejamos então,
algumas (elucidativas) notas do que transmitiu a José Mourinho.
Villas-Boas considerava o Manchester United uma equipa “ofensivamente rápida, com forte
organização colectiva e extremamente objectiva, tanto na posse de bola como no jogo directo. Alto
nível do talento individual sempre ao serviço da equipa. Forte espírito de entreajuda e ritmo intenso
durante todo o jogo. Muita dinâmica, muitos movimentos de penetração sem bola e muita eficácia na
última acção”. E chamava particular atenção para as movimentações dos pontas-de-lança: “Jogo
fantástico na grande área. Van Nistelrooy segura de costas para a baliza e combina com os apoios.
Diferentes combinações tipicamente inglesas. Movimento do ponta-de-lança feito em função do
portador da bola: na diagonal, a abrir linha de passe para receber e rematar ou os falsos movimentos
de aproximação à bola para depois partir na profundidade. Saha excelente a organizar jogo de costas
para a baliza, baixa ao meio-campo – libertando o seu espaço para Giggs ou Nistelrooy –, roda e vai
em profundidade.” Considerava ainda a “ocupação posicional muito forte. Giggs pode aparecer ao
primeiro poste nos cruzamentos do lado contrário. Ataca a bola pela frente e antecipa-se aos
centrais. Scholes a chegar de trás (em grande velocidade – forte impulsão e qualidade de
finalização). Van Nistelrooy nunca se dá à marcação, coloca-se sempre por trás do central de modo a
que este nunca veja a bola e ele ao mesmo tempo. Normalmente finge que vai ao primeiro poste e cai
para o segundo ou vice-versa (ou está parado e ataca de surpresa a bola). Saha está na zona de
penálti”.
Do ponto de vista defensivo, fez notar que os defesas-centrais eram “um pouco permissivos e
expectantes”, principalmente se a dupla fosse Brown-O’Shea. “Na marcação ao adversário directo
deixam-se arrastar ao meio-campo – importante arrastar fora para criar buraco. Brown passivo
permite que adversário rode sobre ele”. E observou ainda que “no terço defensivo é raro aplicarem o
fora-de-jogo e há situações em que o central está 15/20 metros recuado em relação ao lateral – bola
pode entrar entre posições”. Outra vulnerabilidade que Villas-Boas detectou tinha a ver com o
posicionamento defensivo dos dois médios-centro, Scholes e Keane: “Sempre posicionalmente bem,
mas se Scholes não recuperar posição após perda, Keane está só para toda a amplitude. Nos
movimentos de penetração do adversário, há situações em que se deixam arrastar no homem-a-
homem.” Se o adversário saísse de bola longa, toda a equipa se aglomerava no meio-campo, “num
espaço de 30 metros”, havendo, por isso, “espaço em profundidade” que podia “ser aproveitado com
um pontapé forte”.
Quando o Manchester United perdia a bola, André Villas-Boas notava-lhe uma “mudança rápida
de atitude” com “pressão alta e ‘asfixiante’ na primeira fase de transição do adversário”. A equipa
apertava as linhas porque os centrais arriscavam, “encurtando até à linha do meio-campo”, abrindo
“espaços na profundidade, mas pondo jogadores off-side”. Para o observador da equipa técnica de
Mourinho no Chelsea, os médios-centro faziam “pressão forte junto às linhas laterais”, provocando
uma “boa redução de tempo e espaço ao adversário”, mas deixavam a “zona central descoberta”.
Nas transições ofensivas, considerava haver muito perigo se o Chelsea perdesse a bola no seu
próprio meio-campo. Destacava ainda o “ritmo de bola, mais velocidade de deslocamento dos
jogadores, muita profundidade dos atacantes, mas também dos médios.
No terço ofensivo, resolução rápida com cruzamentos e chegadas de trás para a frente”. Para
André Villas-Boas, Giggs e Nistelrooy eram referências porque tinham “transição individual muito
forte”. O primeiro fazia movimentos “nas costas do nosso lateral para receber”, ao passo que o
segundo, ou vinha “entre linhas para receber e progredir”, ou queria “profundidade imediata para
esticar o adversário”, mesmo que não recebesse a bola.
Outro ponto de muito perigo para que chamou a atenção tinha a ver com o facto de “todas as faltas
a meio-campo” serem “marcadas de imediato. Sofrem falta, levantam-se e rapidamente põem em
jogo”, saindo pelo “lado exposto do adversário”. Por outro lado, evidenciou também a “grande
pressão à segunda bola do nosso guarda-redes”, pelo que seria importante protegê-lo nessas
situações. Os livres laterais eram batidos por Giggs ou Scholes, “bem na direcção da baliza, para a
entrada na diagonal de cinco jogadores”, ficando Keane à entrada da área “para controlo da segunda
bola”. Explicou também que os cantos levavam a “bola sempre chegada à baliza”, sendo os
movimentos “diagonais e explosivos”. Tudo ilustrado com atractivos esquemas a cores, retratando a
zona do relvado em causa e as movimentações dos jogadores adversários, devidamente “equipados”
de vermelho.
Para André Villas-Boas, o Manchester United denotava “muita passividade na marcação
defensiva” às bolas paradas do adversário, particularmente Brown e O’Shea. Na generalidade destas
situações, a equipa optava pela marcação homem-a-homem, deixando quase sempre Nistelrooy na
frente e Giggs na zona intermédia. “Têm transição muito forte após a conquista da bola – ligam por
Giggs ou por um dos jogadores que sai da grande-área e transporta.”
Curiosamente, Cristiano Ronaldo ainda não constituía naquela época grande preocupação para
André Villas-Boas. O extremo português não é praticamente referido ao longo de todo o relatório, se
não quando o competente observador entrou nas apreciações individuais. Aí, considerava que o CR7
recebia na posição e ia “para cima do lateral-esquerdo no um-para-um”, chamando a atenção para o
facto de ele ser “muito rápido e explosivo”. Registou também que tinha “finta e recepção orientada”
e que eliminava facilmente “a pressão ‘cega’” do adversário.
De resto, as ditas apreciações individuais, sempre muito pormenorizadas, confirmavam o que tinha
referido relativamente aos movimentos ofensivos e defensivos da equipa. Por exemplo, entre várias
outras observações, considerava que Keane tinha um “ritmo alto durante todo o jogo”, era “muito
forte posicionalmente” e disputava “com extrema agressividade os duelos pela bola”. Scholes, com
um futebol dinâmico, era a “referência em todas as fases de jogo”, tinha um passe “incrível, seja
curto, longo ou de penetração” e “remate de meia distância muito perigoso”. Fletcher “parece lento,
mas tem passada larga, parece trapalhão, mas é coordenado e executa rápido”, além de que, sendo
um jogador de passe curto, dava “sempre continuidade”, não entregava a “bola à sorte”. Grandes
elogios para Ryan Giggs – “jogador fantástico por fora ou por dentro” –, sobre quem escreveu que
“se se fixa na ala, vai para cima do lateral-direito” para cruzamento ou para remate, ou “pode vir à
procura do espaço interior, assumindo o transporte de jogo para o terço ofensivo, tabelando com os
pontas-de-lança na progressão”. Considerava-o “perigoso na transição ofensiva” pois fazia “a
transposição para o ataque com facilidade”. Van Nistelrooy foi outro jogador muito apreciado, sobre
quem escreveu várias linhas, e entendia ser um “concretizador incrível”, que “nunca se dá à
marcação” e que dominava o off-side, posicionando-se “atrás da nossa linha defensiva” e depois,
“com movimentos circulares ou diagonais”, recuperava “para uma posição válida”. Saha, não sendo
alto, tinha “uma impulsão incrível” e gostava de “baixar ao meio-campo para ajudar colegas e sair
da pressão”.
As observações menos positivas ficaram para dois jogadores do sector recuado dos red devils.
O’Shea era visto como um defesa “central ou lateral, pesado e pouco móvel” e, não obstante ter um
bom timing de intervenção, não era um jogador rápido e tinha “dificuldade na rotação”, sendo
“trapalhão com e sem bola”. Brown, apesar de alto e bom posicionalmente, errava “muitas vezes” e
era “muito passivo, principalmente nas bolas paradas”. Considerava o guarda-redes Tim Howard
“bravo, muito ágil e comunicativo”, com “defesas completas” e boa “transição ofensiva”, Gary
Neville era “eficaz no tackle” e, recuperando bem o seu espaço, não deixava de jogar “duro”, de se
irritar “com facilidade” e de fazer “excelentes cruzamentos”, e o seu irmão, Phil Neville um
polivalente que cumpria posicionalmente e que era “bastante eficaz na marcação”, mas tinha “visão
de jogo limitada”.
Através destes exemplos se pode observar a minúcia e o cuidado que André Villas-Boas colocava
na observação dos adversários – para os analisar em profundidade precisava de observar quatro a
cinco jogos com o objectivo de perceber se as coisas aconteciam ao acaso ou se, pelo contrário,
eram fruto de movimentos-padrão – e, depois, na compilação dos dados que permitiam a Mourinho
preparar a equipa para tantas e tão significativas vitórias. Mas não se deve exacerbar demais o seu
trabalho, por muito valioso que fosse – e era! Afinal, na época em que André Villas-Boas
“abandonou” Mourinho (2009-10), o Special One fez um triplete absolutamente “impossível” ao
serviço do Inter: venceu a Liga italiana, a Taça de Itália e a Champions League!

007 – MISSÃO “UNITED”


Os relatórios não se limitavam a descrever com toda a minúcia a forma de jogar do adversário.
Villas-Boas deslocava-se, disfarçado, aos campos de treinos dos opositores, para colher impressões
sobre o estado de espírito dos jogadores, ambiente da equipa e movimentações mais frequentes.
Depois, elaborava DVD’s com imagens dos jogos, destacando bolas paradas, movimentos ofensivos
e defensivos, etc. Tudo isto há 10 anos.
Com a perspicácia e supervisão de José Mourinho – é preciso dizê-lo –, Villas-Boas inaugurou um
novo capítulo na área do scouting. Ao ponto de Mourinho dizer que André era os seus “olhos e
ouvidos.”
Foram quase sete anos de convivência profissional e diária entre os dois. É verdade que no início
Mourinho “inventou” Villas-Boas, mas depois Villas-Boas soube “reinventar-se”, acrescentando
valor em cima de valor à actividade desempenhada.
O treinador bicampeão europeu detectou bem cedo a importância de um departamento de scouting
numa equipa técnica de topo. Terá percebido isso logo na preparação do primeiro jogo como
treinador principal, no Benfica. O adversário era o Boavista e, como sempre acontecia, o clube
enviou um dos seus olheiros para efectuar o relatório. Nas notas recolhidas o observador esqueceu-
se de mencionar a presença de Erwin Sanchez, “apenas” o jogador mais influente da equipa. Perante
um erro tão grave, Mourinho decidiu chamar para sempre a responsabilidade dessa área à sua equipa
técnica e debaixo da sua própria orientação. Até porque era um tema que o técnico português
conhecia como poucos, fruto do trabalho desenvolvido em Barcelona como adjunto de Louis van
Gaal. Pagou do próprio bolso a um colaborador externo, mas da sua confiança, para observar os
adversários do Benfica. Depois de recebida a informação, era o próprio Mourinho quem esmiuçava e
apresentava a síntese aos jogadores, num painel de folhas gigantes colocado em cima de um cavalete
no balneário.
Durante as passagens pelo Benfica e União de Leiria, nos primeiros dois anos de carreira, José
Mourinho recorreu a colaboradores “avulsos” para preencher o departamento de scouting. A
estabilização e desenvolvimento sustentado só aconteceram em 2002, no FC Porto, com a integração
de André Villa-Boas. O clube já tinha um departamento de observação, que até funcionava de forma
eficiente, mas Mourinho – por intermédio de Villas-Boas – introduziu-lhe uma pequena revolução:
mudou radicalmente a forma de observar os adversários, sistematizar a informação e apresentar o
trabalho. Os resultados viram-se no campo.
Após o notável trabalho realizado no FC Porto – que culminou com a conquista de duas ligas
portuguesas, uma Taça de Portugal, uma Supertaça portuguesa, uma taça UEFA e uma Champions
League, em apenas duas épocas – o universo do futebol lançou muitas interrogações sobre como
resultaria o trabalho de José Mourinho no Chelsea. O escrutínio estendia-se aos seus colaboradores:
resultariam em Inglaterra – o país da vanguarda futebolística – os métodos utilizados com tanto
sucesso em Portugal, um país com um futebol de segundo plano europeu?
Na área específica do scouting a surpresa foi total! O trabalho planeado por José Mourinho e
desenvolvido por André Villas-Boas andava muito à frente do que era feito na Premier League. E os
portugueses fizeram questão de o demonstrar logo na preparação da primeira temporada, em 2004-
05. Chelsea e Manchester United coincidiram numa digressão de pré-época aos Estados Unidos. Por
essa altura já se sabia que os caprichos do sorteio tinham ditado um encontro dos dois clubes, logo
na primeira jornada do campeonato.
Mourinho tinha a perfeita noção de que o sucesso em Inglaterra passava, em primeiro lugar, por
desfazer o compulsivo domínio da equipa de Ferguson. Mourinho também sabia que uma vitória
sobre o principal rival, logo na abertura do campeonato, representaria uma vantagem psicológica
gigantesca. Não perdeu tempo. Pediu a André Villas-Boas que realizasse uma missão de verdadeiro
007. Uma missão impossível: observar à lupa todos os passos dos red devils nos Estados Unidos.
Treinos, estados de espírito, lesões, humores… tudo passou pelo bloco de notas de Villas-Boas. Foi
um trabalho notável, digno de entrar nos compêndios sobre observação de adversários.
O resultado mais visível desta estratégia foi o próprio jogo, realizado a 14 de Agosto de 2004, em
Stanford Bridge. O Chelsea venceu por 1-0 (Gudjohnsen, 15’), em 90 minutos pensados ao detalhe.
Não é possível quantificar a importância deste resultado na conquista do campeonato 2004-05 por
parte do Chelsea. Certo é que naquela tarde os blues espetaram a primeira bandeira num território de
domínio dos red devils.
Numa entrevista dada pouco tempo depois de entrar para o Chelsea como parte da equipa técnica
de Mourinho, Villas-Boas admitiu que arranjava formas de assistir secretamente a treinos dos
adversários do seu clube para, desta forma, obter informações ilícitas: “O meu trabalho permite ao
José saber exactamente quando um jogador da equipe adversária está provavelmente no seu melhor
ou no seu pior. Viajo para ver treinos dos nossos adversários, muitas vezes incógnito, e observo o
seu estado físico e mental antes de tirar as minhas conclusões.”
Os métodos de José Mourinho, e de modo particular a importância dada à área da observação de
adversários, deixaram boquiabertos os responsáveis do Chelsea. Nem o clube nem os ingleses
estavam habituados a semelhante tipo de trabalho. Brian McDermott, manager do Reading, cruzou-se
várias vezes com Villas-Boas na observação de adversários por todo o país. O técnico diz ter
aprendido muito com André e recorda-se de o ver compilar os relatórios no Blackberry. “Agora é um
treinador sem medo. Fala muito bem inglês, é um tipo simpático e é um treinador que fala sempre dos
jogadores, colocando-os à frente dele. Isso convence os atletas”, garante McDermott.

NO OLHO DO FURACÃO

As equipas de Mourinho – as que vão para o relvado jogar, mas também o staff técnico que o
apoia – são conhecidas pelo espírito de grupo que patenteiam e pela luta intensa que todos estão
dispostos a travar em prol dos objectivos comuns. Não há ali meios-termos: ou se está dentro ou se
está fora do barco.
Quando o Chelsea visitou o Camp Nou para os oitavos-de-final da Champions League, em
Fevereiro de 2005, Mourinho já apresentava uma folha de serviços com alguns atritos
protagonizados com a UEFA. Ao intervalo, o Chelsea vencia por 1-0, mas na segunda parte, após a
expulsão de Didier Drogba (aos 56 minutos), o Barcelona deu a volta ao resultado e acabou
vencendo por 2-1 (golos aos 67 e 73 minutos). No final, Mourinho acusou o treinador do Barcelona,
Frank Rijkaard, de ter estado durante o intervalo na cabine do árbitro Anders Frisk e, por
conseguinte, não lhe ter provocado surpresa a expulsão (decisiva) de Didier Drogba na segunda parte
do jogo. Colaborador da extinta revista semanal Dez do jornal Record, Mourinho escreveu na sua
coluna que “quando vi Rijkaard a entrar na cabine do árbitro não queria acreditar”.
A acusação de Mourinho caiu muito mal em diversos sectores do mundo do futebol e fez
despoletar um sem número de reacções ao nível das organizações dos árbitros (que chegaram a
ponderar uma greve), da UEFA e até da própria FIFA. Mas o mais grave foi ter levado o árbitro
sueco, um dos mais prestigiados a nível europeu, a colocar um ponto final na sua bem sucedida
carreira ao mais alto nível. Frisk abandonou porque, disse, temeu pela segurança da sua família após
ter recebido diversas ameaças de morte por alegadamente ter facilitado a vitória do Barcelona sobre
o Chelsea.
Mas o mais curioso desta história, e é por isso mesmo que ela é aqui relatada, é que foi André
Villas-Boas – já naquela altura conhecido por ser um dos mais voláteis colaboradores de José
Mourinho, porventura mais controverso até do que o próprio chefe – e não Mourinho, quem reclamou
ter visto Rijkaard entrar na cabine de Anders Frisk por três vezes durante o intervalo daquele jogo. O
facto faz todo o sentido, uma vez que é natural que durante o intervalo Mourinho estivesse fechado no
balneário a dar instruções à sua equipa. O próprio Mourinho o confessou pouco tempo depois:
“Rijkaard esteve reunido com o árbitro no seu balneário durante mais de cinco minutos. Sei isto
porque os meus adjuntos estavam à porta durante a reunião.”
Na segunda mão, disputada em Stamford Bridge, o Chelsea venceu por 4-2 e foi apurado. Um jogo
memorável, que o Chelsea vendeu depois, sob a forma de DVD, aos milhares. Mourinho foi suspenso
pela UEFA em consequência do episódio do Camp Nou e não pôde dirigir a partir do banco de
suplentes os blues nos dois jogos dos quartos-de-final contra o Bayern de Munique, que foi, ainda
assim, eliminado pelo Chelsea. Para além disso foi multado pela estrutura que dirige o futebol
europeu, o mesmo acontecendo ao clube.

COMENTADOR DE SERVIÇO

No final da segunda época no Chelsea (2005-06) – mais uma com boas condecorações para a
equipa técnica de Mourinho com a conquista da Premier League e da FA Comunity Shield – o mundo
do futebol apontou atenções para o Campeonato do Mundo, que teve lugar na Alemanha.
Por essa altura, o jornal espanhol Marca publicava uma reportagem exaustiva sobre o modo de
funcionamento da equipa técnica liderada por José Mourinho. Entre os vários factores evidenciados
no texto, saltava à vista o trabalho realizado pelo observador André Villas-Boas. A minúcia, o
detalhe, a riqueza de informação e utilização das novas tecnologias chamaram a atenção dos
responsáveis da SIC, um dos quatro canais de televisão abertos em Portugal.
A SIC tinha adquirido os direitos do Mundial 2006 e procurava profissionais à altura para
enriquecer o quadro de comentadores. Depois da reportagem da Marca, André Villas-Boas foi
referenciado pelo canal. Era um ilustre desconhecido que vivia longe dos holofotes – quase sempre
em viagem pelo mundo ou fechado em gabinetes construindo relatórios – e nem sequer era presença
regular nos treinos do Chelsea. Também não tinha experiência na área dos comentários televisivos.
Mas reunia potencial de sobra para realizar um trabalho competente e, sobretudo, diferenciado
daquilo que se fazia até aí na televisão portuguesa.
O canal avançou para a contratação de André Villas-Boas que se mostrou imediatamente receptivo
e entusiasmado. Aquele jovem, permanentemente inconformado e ambicioso, encontrava uma janela
de oportunidade preciosa naquele convite. Era a possibilidade de aparecer e dar visibilidade a um
trabalho por definição “invisível”. Como confessava o próprio Villas-Boas em 2005, numa entrevista
à Chelsea TV e cujo vídeo foi largamente divulgado na internet, “passo a maior parte do meu tempo
ao computador a fazer relatórios para este senhor (José Mourinho). E para ele ficar satisfeito tenho
de os fazer o melhor possível.”
A palavra final para a participação de Villas-Boas na SIC pertencia a José Mourinho, na qualidade
de chefe de equipa. O treinador português nunca foi muito receptivo ao protagonismo dos seus
colaboradores. Por outro lado preferia que os segredos sobre o modo de funcionamento da equipa
técnica ficassem entre as quatro paredes do seu gabinete. Mas a verdade é que o próprio Mourinho já
tinha um histórico – pontual, é verdade – de comentador televisivo (na SportTV, o único canal
português exclusivo de desporto), acumulado com a função de treinador. Além disso, o desafio então
proposto a Villas-Boas realizar-se-ia durante a época de defeso, em pleno gozo de férias e fora do
período laboral no Chelsea. Mourinho não tinha muitos argumentos para dizer não. Anuiu.
Villas-Boas apareceu assim, pela primeira vez publicamente, a fazer comentários em estúdio antes
e após os jogos da selecção portuguesa no Mundial‘06. Claro, conciso, esclarecido, perspicaz e –
não menos importante – dono de uma imagem televisiva muito cativante. Surpreendeu. No entanto, a
pedra de toque nos comentários do jovem foi a utilização de um tablete para explicar, com o sistema
de touch-screen, os movimentos tácticos das equipas. Uma inovação completa na televisão
portuguesa e uma ruptura total com o que era feito até então.
Os colaboradores da SIC ficaram impressionados com o trabalho de Villas-Boas: “Ele pedia-nos
para isolar imagens aparentemente banais, que não tinham qualquer pormenor interessante, mas que
depois de explicadas por ele faziam todo o sentido. Via coisas que mais ninguém via.”
O sucesso televisivo de André Villas-Boas terá causado algum incómodo a José Mourinho.
Consequência ou não, o treinador aceitou o convite, também da SIC – até aí permanentemente
recusado – para comentar em estúdio o jogo dos quartos-de-final do Mundial entre Inglaterra e
Portugal (1-3 após g.p.).
Após a colaboração na SIC, Villas-Boas regressou ao anonimato… até Novembro de 2007. No dia
20 de Setembro desse ano a equipa técnica de José Mourinho e o Chelsea chegaram a acordo para a
rescisão de contrato, colocando ponto final numa relação de três anos. Villas-Boas ficou
tecnicamente desempregado e não perdeu tempo. Dois meses mais tarde aceitou o convite para
comentar jogos na SportTV, após a necessária autorização de José Mourinho.
A relação de Villas-Boas com a SportTV durou até Abril de 2008, ou seja cinco meses. Durante
esse período comentou exactamente 10 jogos do futebol português, inglês, italiano e Champions
League. Curiosamente começou (25 de Novembro de 2007 – FC Porto vs. V. Setúbal) e acabou (27
de Abril de 2008 – V. Guimarães vs. FC Porto) com jogos do seu clube do coração e aquele em que
haveria de brilhar três anos mais tarde. Não menos curioso foi o penúltimo jogo que André Villas-
Boas comentou para a SportTV, a 29 de Março de 2008: Lázio vs Inter de Milão (1-1) para a Serie A
do campeonato italiano. Passados 36 dias, a 2 de Junho, a equipa técnica de José Mourinho – onde
Villas-Boas ainda se incluía – assinava contrato, precisamente com o Inter de Milão.
A crispação com José Mourinho terá começado nesta fase. Villas-Boas era claramente o mais
inconformado dos adjuntos e aquele que procurava, com insistência, encontrar outros desafios fora
do âmbito da equipa técnica. Algo em que os restantes elementos – Rui Faria, Silvino ou Baltemar
Brito – nem ousavam pensar, quanto mais pedir autorização para fazer. A relação entre Mourinho e
Villas-Boas desgastou-se por caminhos sem retorno. Foi o princípio do fim.
A ROTURA COM MOURINHO

Em Abril de 2009, André Villas-Boas trabalhava na equipa técnica de José Mourinho há quase
sete anos. Tinha acabado de tirar mais um nível do curso de treinadores da federação escocesa.
Quem conhece a sua personalidade e o seu percurso recente percebe as razões por que tinha outras
ambições para além das de observar adversários e produzir valiosos relatórios informáticos. Afinal,
como interrogou um dia Hellen Keller : “Porque nos contentamos em viver rastejando quando
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sentimos vontade de voar?”


André Villas-Boas abordou Mourinho e apresentou as suas pretensões: queria estar mais próximo
da equipa, ir para o banco e, sobretudo, desenvolver trabalho no campo. Segundo corre nos
chamados mentideros, mas que não nos foi possível confirmar, Mourinho ter-lhe-á respondido:
“Queres trabalhar no campo? Boa… então vai lavrar, porque aqui eu é que decido.” E ainda o terá
aconselhado a que não se esquecesse da enxada…
O jovem observador fazia parte do pequeno núcleo duro de colaboradores que José Mourinho
levou do FC Porto para o Chelsea e, posteriormente, do Chelsea para o Inter de Milão. Os outros
foram Rui Faria – considerado o verdadeiro braço direito de Mourinho, o único que o Special One
verdadeiramente não dispensa, e que tem recusado convites para assumir funções de treinador em
vários clubes – e Silvino Louro – o competente treinador de guarda-redes, fiel amigo e frequente
companheiro de viagens dado que ambos vivem em Setúbal. Do FC Porto para o Chelsea foi também
Baltemar Brito, mas este já não seguiu para Milão. Rui Faria e Silvino Louro transitaram
posteriormente para Madrid e fazem parte da actual equipa técnica do Real.
Diz-se que Mourinho, adepto do diálogo, mas senhor absoluto das suas decisões, não terá
perdoado a “ousadia” de André Villa-Boas e que a partir daquele momento o jovem observador
ficou com os dias contados como elemento do seu staff. A imediata contratação de outro português,
José Morais, para efectuar o mesmo tipo de trabalho, veio confirmar plenamente esta versão. Na
verdade, Mourinho nunca apreciou particularmente os desejos de protagonismo do seu colaborador.
O primeiro caso terá surgido, como vimos, quando André Villas-Boas aceitou ser comentador do
canal de televisão SIC para o Mundial’06 que decorreu na Alemanha. Vários outros casos se
seguiram e as pretensões apresentadas em Abril de 2009 terão sido a gota de água que fez
transbordar o copo.
Para Luís Freitas Lobo , André Villas-Boas “foi o homem, o único à face da Terra, que desafiou
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Mourinho e com quem este se zangou, furioso, quando, altivo, lhe disse que queria ir embora do Inter
porque se sentia treinador e não um simples observador como Mourinho insistia que fosse.”
Há, no entanto, quem próximo do actual técnico do Real Madrid afirme que a “dispensa” do
observador da equipa técnica teve apenas como base o facto de o treinador considerar que tinha
melhores soluções para aquele tipo de trabalho de observação. Segundo esta versão, Villas-Boas
tinha como principal ponto forte, não uma capacidade extra para observar equipas e jogadores, mas o
bom domínio das… técnicas informáticas. Passara quase sete anos sem permissão para entrar em
campo e treinar, circunscrito às viagens de observação e aos gabinetes. Nunca foi adjunto de
Mourinho no plano técnico.
Mas, é bom de lembrar, nesses quase sete anos teve oportunidade de acumular um conjunto de
conhecimentos muito importantes, na medida em que era sua função tratar todo o tipo de informação e
depois passá-la para o computador. Teve assim acesso a planos de treino, esquemas de exercícios,
formas de preparar a equipa em função dos adversários, etc. Um verdadeiro curso prático tirado
junto daquele que muitos consideram o melhor treinador do mundo e que prima pela inovação e
criatividade nos seus métodos de trabalho.
André Villas-Boas, com contrato por mais três anos com o Inter, não aceitou a “guia de marcha”
que lhe foi oferecida e, esvaziado de funções, deixou-se ir ficando numa autêntica “prateleira
dourada” durante todo aquele final de época 2009-10 – em que o Inter se sagrou campeão de Itália –
e no início da temporada seguinte. Até que em Outubro de 2009 acertou finalmente a rescisão com o
clube italiano a troco de um valor correspondente a um ano de ordenados.
Contrariamente a tudo o que acontece ou que esteja relacionado com José Mourinho, este episódio
passou completamente despercebido dos media portugueses, que a ele não fizeram praticamente
nenhuma referência. Compreensível pelo facto de Villas-Boas ter sido sempre um personagem
“invisível” na equipa técnica de Mourinho. O que foi confirmado publicamente pelo próprio quando,
a propósito de uma pergunta sobre a saída de José Mourinho do Chelsea, esclareceu: “Na altura, eu
era só uma peça de uma máquina de muito sucesso criada por Mourinho. Não estive envolvido nessa
decisão. Vi tudo muita à distância.”
Embora considerando o trabalho de observação de equipas e jogadores como um factor
fundamental no futebol moderno, André Villas-Boas entende que esse trabalho pode fazer a diferença
mas ninguém, segundo ele, sabe até que ponto é decisivo nos jogos. Umas vezes sim, outras não. Era
normal, também por isto, que quisesse dar o salto, que quisesse colocar-se à prova. Sentia ter mais
para dar e queria começar a treinar. Se pudesse ter trabalhado mais próximo de Mourinho, tanto
melhor, mas assumiu com naturalidade que o chefe não sentisse essa necessidade.
CAPÍTULO 3

“É preferível ser primeiro numa aldeia do que segundo em Roma.


Júlio César 7

Entre Abril e Outubro de 2009, enquanto esperava na tal “prateleira dourada” em Milão, André
Villas-Boas viu serem-lhe fechadas, bem na frente do nariz, as portas de alguns clubes. Um dos casos
foi, segundo se diz, o Sporting de Braga, com quem teve tudo praticamente acertado, mas foi
ultrapassado em cima da meta por Domingos Paciência. A verdade é que o jovem observador
acreditava muito no seu futuro como treinador e junto de pessoas próximas chegou a desabafar que
“estes gajos não sabem que daqui a uns tempos estão a falar com o treinador do FC Porto!” – contou
Luís Freitas Lobo na sua habitual coluna no semanário Expresso de 25.06.2011.
Em Coimbra, no centro do país, mora um dos clubes mais simpáticos do futebol português. Após
anos de fulgor, em que formou nas suas escolas alguns dos melhores jogadores portugueses, passou
épocas e mais épocas no sobe-e-desce entre a primeira e a segunda ligas, tendo permanecido na
divisão secundária durante várias temporadas até se fixar novamente na primeira em 2002-03. Teve
as suas melhores classificações na Liga em 1966-67 (2º lugar) e em 1968-69 (4º lugar). Data de
1939 o único título oficial do seu palmarés, quando venceu a primeira edição da Taça de Portugal.
Foi ainda finalista vencido desta competição em 1951, 1967 e 1969.
Em Outubro de 2009, a Académica arrastava-se penosamente pelo fundo da tabela classificativa
do campeonato. Com a saída de Domingos Paciência, no final da época 2008-09, rumo ao Sporting
de Braga, o presidente José Eduardo Simões tinha contratado um treinador da escola tradicional –
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Rogério Gonçalves – para o substituir. Mas o futebol da equipa estava longe de corresponder aos
objectivos traçados pelo clube, que passam normalmente pela manutenção na primeira Liga
portuguesa: 3 pontos em 7 jornadas, fruto de 3 empates e 4 derrotas, 5 golos marcados e 11 sofridos.
O ambiente não era, pois, o melhor e a contestação dos adeptos ia subindo de tom, chegando ao
próprio presidente do clube, que não se livrou de ouvir insultos vários no final da derrota caseira (2-
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Seguindo um hábito muito próprio do futebol português, que é o de trocar de treinadores, se
necessário logo numa fase inicial da época, quando as coisas não correm como o projectado, José
Eduardo Simões decide-se então pela tradicional “chicotada psicológica”, demitindo Rogério
Gonçalves e partindo em busca de um técnico com um perfil na linha de Domingos Paciência – que
tinha obtido excelentes resultados no clube –, isto é, um treinador jovem, ambicioso e com uma visão
moderna do futebol.
O presidente da Académica não conhecia pessoalmente André Villas-Boas. Tinham um amigo
comum que transmitia a José Eduardo Simões informações várias e referências – extremamente
positivas – sobre o jovem observador da equipa técnica de Mourinho. Não era, portanto, uma pessoa
totalmente desconhecida para José Eduardo Simões. Para além das suas qualidades, “sabia que se
tratava de alguém que tinha uma forma diferente de estar e que estava disponível porque queria
arrancar com a carreira”, explica-nos o presidente da Académica.
Tinha já havido uma tentativa de encontro no passado, mas a dificuldade de conciliar agendas fez
abortar essa possibilidade. Desta vez, porém, José Eduardo Simões estava decidido a “agarrar”
André Villas-Boas e solicitou-lhe que se encontrassem em Coimbra. André viajou de avião de Milão
para o Porto e, depois, de automóvel até Coimbra, onde se encontrou com o líder da Académica na
casa deste. Em menos de duas horas José Eduardo Simões pôde avaliar, não só o carácter de Villas-
Boas, como a sua competência técnica, sobretudo através da forma especialmente detalhada como o
ex-observador analisou a equipa da Académica. E ficou completamente convencido. “Ele trazia um
projecto estruturado, assente numa estratégia muito bem delineada e em objectivos muito bem
definidos.” Falou dos pontos fracos e dos pontos fortes da equipa e do que era necessário fazer para
melhorar o seu desempenho e os seus resultados. Impressionou ainda o seu interlocutor pela forma
assertiva e profissional como apresentou o modelo de jogo que queria implementar e a confiança que
manifestou no sucesso do clube e dele próprio. E José Eduardo Simões concluiu: “Mostrou
conhecimentos sobre o clube e o plantel, deu para ver que ele tinha feito trabalho de casa, um
trabalho profundo, aquilo não era documento que pudesse ter sido produzido à pressa durante a
viagem de avião…”
A postura de Villas-Boas era em tudo idêntica à de José Mourinho, que no primeiro encontro com
responsáveis do Chelsea lhes apresentou um dossier completo sobre o que pensava do clube e o que
dele pretendia, deixando-os completamente convencidos e relegando o sueco Sven-Goran Ericksson
– que com ele supostamente concorria para o lugar – para uma posição de imediata e definitiva
desvantagem.
Relativamente aos valores a auferir pelo técnico, o entendimento com a Académica foi, segundo o
presidente do clube, “muito fácil”, uma vez que o interesse em chegar rapidamente a um acordo era,
de facto, mútuo.
Após o encontro pessoal com André Villas-Boas, José Eduardo Simões ficou de tal forma
convencido que não sentiu qualquer necessidade de obter esclarecimentos junto de terceiros que
conhecessem bem o jovem técnico, nomeadamente José Mourinho. Estava, portanto, absolutamente
decidido na sua aposta.
E André Villas-Boas, sem qualquer experiência como treinador, mas muito bem referenciado e
com a vantagem de ter trabalhado vários anos na equipa técnica de Mourinho, foi, então, rapidamente
contratado e imediatamente apresentado, a 13 de Outubro de 2009, como novo treinador principal da
Académica de Coimbra. Abriu-se, finalmente, a primeira porta.
O então ex-observador deu, na realidade, um passo arriscado, o primeiro de muitos passos
arriscados de uma carreira ainda curta, mas já marcada por essa capacidade ímpar de assumir
desafios difíceis. “Aos 31 anos troquei a confortável posição de observador do Inter, um salário
incrível e um contrato que se prolongava por mais três anos, pela Académica que estava no último
lugar da Liga portuguesa. Porém, senti-me bem com o que fiz”, confessou mais tarde.
Na apresentação oficial, mostrou-se reconhecido a Mourinho – “Tenho que agradecer-lhe a
oportunidade que me deu” – e apresentou um discurso que revelou forte personalidade e espírito
ambicioso. Assinara contrato até Junho de 2011, mas projectava ficar para além disso – o tempo que
fosse necessário para lançar a sério a sua carreira.

“PERIODIZAÇÃO TÁCTICA”

Dentro do clube, o novo técnico foi de imediato muito bem aceite por toda a gente. “Apesar da sua
juventude e da sua inexperiência, teve um óptimo acolhimento e gerou, desde logo, expectativas
muito positivas”, conta José Eduardo Simões. Impressionado como estava, o presidente apostou
consigo mesmo sobre o tempo de que Villas-Boas precisaria para conquistar também todo o grupo de
trabalho que iria liderar.
A única referência que os jogadores tinham sobre André Villas-Boas era igual à de todas as outras
pessoas: o trabalho realizado na equipa técnica de Mourinho. Facto que gerava, não obstante, alguma
expectativa junto do grupo de trabalho. Mas quando “ele chegou ao auditório da academia para o
primeiro encontro com o plantel, com uma apresentação em power point onde explicou as regras de
trabalho, os seus objectivos para o projecto Académica, o que realmente pretendia, etc., os jogadores
sentiram um discurso forte e claro, nada repetitivo, que entrava muito facilmente”, conta-nos um ex-
jogador do clube. As expectativas de José Eduardo Simões tinham-se confirmado. “Ele não precisou
nem de meia-hora para convencer todo o plantel”, confidenciou o presidente.
Os primeiros treinos agradaram sobremaneira aos jogadores, que reconheceram em Villas-Boas
enormes diferenças relativamente ao seu antecessor, nomeadamente na importância de trabalhar a
posse de bola, na grande variedade dos exercícios – muito relacionados com situações de jogo – e na
intensidade e elevado ritmo colocado nos treinos, que tinham uma duração mais curta. Bem à imagem
do que faz José Mourinho, registe-se.
O jovem técnico, tal como o treinador do Real Madrid, segue os princípios daquilo a que se chama
“periodização táctica”, método que tem estado na base do sucesso de uma nova geração de
treinadores portugueses e cujo principal mentor foi (e é) Vítor Frade . Mourinho e Villas-Boas nunca
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frequentaram as aulas de Vítor Frade na Universidade do Porto, mas Rui Faria – o principal adjunto
de Mourinho – foi um dos seus alunos mais brilhantes e com quem o “mestre” mantém contacto
regular. No entanto, Mourinho teve oportunidade de conhecer bem Vítor Frade quando ambos fizeram
parte da equipa técnica de Bobby Robson no FC Porto e nutre por ele uma admiração enorme, ao
ponto de já lhe ter dedicado, na descrição dos bastidores, algumas das suas conquistas mais
significativas.
Contrariamente ao sistema tradicional – em que os aspectos físicos, técnicos, tácticos e
psicológicos são treinados em sessões particulares de trabalho ou, no limite, em sessões físico-
técnicas ou técnico-tácticas – na “periodização táctica” o treino deve abranger estas quatro
componentes em simultâneo e de uma forma indissociável. Mourinho confirma-o em absoluto quando
afirma: “Eu não faço trabalho físico. Defendo a globalização do trabalho. Não sei onde começa o
físico e acaba o psicológico e o táctico.” E Villas-Boas, no já ido ano de 2004, observava
exactamente isso: “Alguns treinadores preferem concentrar-se mais no trabalho físico ou mental, mas
o José gosta de combinar todos os aspectos do treino.”
Na “periodização táctica” todas as sessões de treino são realizadas com bola, de forma que o
atleta pense permanentemente no jogo. Dá-se, por isso, ênfase aos treinos baseados nas situações de
jogo, com a componente física inserida nesses exercícios. É essa a razão pela qual se costuma referir
– e o próprio, aliás, o admite, como vimos em cima – que nas equipas técnicas de Mourinho não
existe o chamado preparador físico, elemento fundamental das equipas técnicas convencionais.
Conceito muito bem explicado numa frase proferida pelo professor Manuel Sérgio : “Para aprender
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a tocar piano, o pianista não anda às voltas ao piano, simplesmente toca piano!”
Os aspectos mais importantes da “periodização táctica” podem ser elencados de acordo com os
seguintes tópicos:
− A componente táctica comanda todo processo de treino. As outras componentes (física, técnica e
psicológica) deverão surgir em função das exigências do modelo de jogo adoptado pelo treinador.
− O trabalho é realizado com intensidades altas.
− O volume (tempo de execução) nunca prejudica a intensidade (velocidade de execução) dos
exercícios.
− Os exercícios são criados como um espelho das situações de jogo.
− Os exercícios devem ser motivadores e lúdicos, sempre com um espírito competitivo de modo a
promover os níveis de concentração dos jogadores.
− Estar em forma significa cumprir com as exigências do modelo de jogo adoptado e não, apenas,
estar bem fisicamente.
− A planificação táctica semanal é concebida em função do próximo adversário.
Há que referir, no entanto, que este tipo de metodologia de treino exige muito da imaginação do
treinador. Obriga-o a criar permanentemente exercícios, em quantidade (para não cansar os
jogadores) e em qualidade (para que o treino seja o mais possível orientado em função do próximo
adversário), exercícios esses que, como vimos, englobam as quatro vertentes do treino Mas, para
além dos treinos, outro aspecto que impressionava os jogadores da Académica era a enorme
dedicação do novo técnico ao trabalho. Villas-Boas chegava ao centro de treinos do clube pelas oito
da manhã e só abandonava as instalações entre as 19:00 e as 20:00. Sabendo-se que apenas
ministrava uma sessão diária de treinos, normalmente por volta das 10:00, percebe-se que investia
muitas horas do seu dia a tratar e preparar ao pormenor tudo o que dizia respeito à equipa. “Quando
tinha que me deslocar ao centro de treinos da parte da tarde, por exemplo, para tratamento de uma
lesão, lá estava o carro dele estacionado. Vive para o trabalho”, revela um dos jogadores com quem
o técnico trabalhou em Coimbra.
A nova motivação de que os jogadores iam dando mostras não se alastrava ainda aos adeptos, que
não se apercebiam do trabalho que estava a ser realizado e, por isso, continuavam divorciados da
equipa. De tal forma que a estreia oficial de Villas-Boas como treinador não teve mais do que 866 –
leu bem, oitocentos e sessenta e seis! – espectadores nas bancadas do estádio Cidade de Coimbra. A
Académica recebeu o Portimonense, da segunda Liga portuguesa, venceu por 2-1 e deu um passo em
frente rumo à eliminatória seguinte da Taça de Portugal. Foi a primeira vitória da equipa em jogos
oficiais na época 2009-10 e, mais do que isso, foi a primeira vitória de André Villas-Boas como
treinador de futebol. Uma estreia, vamos dizer, auspiciosa. José Eduardo Simões conta que, apesar
de poucos, os adeptos presentes no estádio “receberam o André de forma efusiva. Foram
extremamente acolhedores e muito carinhosos. Recebeu uma grande salva de palmas quando entrou.
A expectativa era enorme, no bom sentido.”
Mas quis o destino que o primeiro jogo de André Villas-Boas na Liga fosse precisamente contra o
seu clube do coração, e logo no estádio do Dragão. Apenas dez curtos dias depois de ter iniciado o
trabalho em Coimbra, tinha já ideias muito concretas de como a equipa se deveria posicionar no
campo. O facto de ir jogar contra o “grande” FC Porto, cheio de vedetas, significava que a
“pequena” Académica ia optar pelas marcações individuais tão típicas do futebol português? “Nem
pensar. Para mim não existem marcações individuais. Não acredito nesse tipo de marcação. Prefiro
zonas de pressão e limitação de espaços.” E o discurso do técnico continuou simples e afirmativo
naquela conferência de imprensa: “Se a minha equipa pressionar como pretendo e limitar as zonas de
acção dos jogadores adversários, então percorremos meio caminho para conseguir um resultado
positivo.”
O jogo terminou com uma vitória tangencial do FC Porto por 3-2, com o último golo dos dragões a
ser obtido em fora-de-jogo. Apesar da derrota, a capacidade de resposta demonstrada pela equipa
deu alento ao treinador, que, seguindo fiel à sua máxima segundo a qual, com ele, todos os jogadores
partem do zero, concedeu logo nesse jogo oportunidades a vários atletas menos utilizados pelo
anterior técnico.
O futebol português começava a conhecer um novo personagem e começavam as inúmeras (e
inevitáveis…) comparações com José Mourinho, nesta fase ainda muito circunscritas às prestações
de Villas-Boas nas conferências de imprensa: a mesma forma de vestir, a mesma barba rala de três
dias, o mesmo tipo de abordagem e de linguagem, a mesma postura, a mesma segurança. Um discurso
interessante, inteligente, bem-humorado mas, ao mesmo tempo, muito pragmático.
E a equipa ia dando nota dessa evolução. Na jornada seguinte da Liga, recebeu o “europeu”
Vitória de Guimarães, em Coimbra. Precisava de uma vitória como de pão para a boca, e venceu,
sem margem para dúvidas, por 2-0. A equipa impressionou, sobretudo, pela tranquilidade e
segurança demonstradas. Facto particularmente significativo para quem ocupava (ainda) o último
lugar da tabela.

O SPORTING… JÁ?!?

Por esta altura (Novembro de 2009), a cerca de 200 quilómetros de Coimbra, estalava mais uma
crise num dos três “grandes” do futebol português, o Sporting (de Lisboa). Demitiram-se, em
simultâneo, o treinador Paulo Bento (é hoje o seleccionador de Portugal), o director para o futebol
Pedro Barbosa (carismático ex-jogador do clube) e ainda o principal administrador da SAD, Miguel
Ribeiro Telles. Pouco mais de três semanas depois de ter assinado pela Académica e com apenas
três jogos oficiais na direcção de uma equipa de futebol no curriculum, o técnico da Briosa foi o
treinador escolhido pelo presidente leonino, José Eduardo Bettencourt, para suceder a Paulo Bento.
Foram referidos outros nomes na imprensa – nomeadamente, o argentino José Pekerman, o holandês
Co Adriense ou o espanhol Juande Ramos –, mas o objectivo do Sporting era mesmo chegar a acordo
com André Villas-Boas.
Conta-se que esta não foi a primeira vez que o Sporting pensou no jovem técnico. O anterior líder
do clube, Filipe Soares Franco, terá equacionado a possibilidade de apostar em André Villas-Boas
se concorresse e ganhasse as eleições de Junho de 2009 e Paulo Bento não estivesse disposto a
continuar como técnico do clube para além do final dessa época. Soares Franco acabou por não
concorrer ao acto eleitoral, José Eduardo Bettencourt avançou e venceu de forma esmagadora – mais
de 90% dos votos – e Paulo Bento permaneceu como técnico do clube.
Em Novembro de 2009, quem mais decisivamente influenciou o presidente Bettencourt para que
apostasse definitivamente em André Villas-Boas foi Ricardo Sá Pinto . Os dois conheciam-se, de
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forma superficial, há alguns anos, mas estreitaram muito as relações de amizade quando Sá Pinto
estagiou uma semana com José Mourinho em Milão, procurando aprender com o trabalho
desenvolvido pelo Special One no Inter. A ponto de André Villas-Boas ter depois convidado o ex-
jogador do Sporting para a sua equipa técnica quando esteve prestes a assinar contrato como
treinador do Sporting de Braga.
Logo que o interesse do Sporting foi publicamente conhecido, o técnico fez questão de informar
que queria que o assunto fosse tratado “à inglesa”. A saber: o seu contrato com a Briosa tinha uma
cláusula de rescisão no valor de 500 mil euros, mas só poderia ser accionada no final de cada época,
pelo que não bastava ao Sporting pegar em 500 mil euros e depositá-los na conta bancária da
Académica para obter a sua desvinculação. O treinador pretendia, portanto, que o clube de Lisboa
contactasse primeiro o clube com quem tinha contrato e garatisse o respectivo acordo.
O entendimento entre o Sporting e André Villas-Boas não foi difícil de atingir. As reuniões, em
que pelo lado do treinador participou o seu agente FIFA, Carlos Gonçalves , permitiram que quase
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tudo ficasse acertado, incluindo o vencimento do técnico, que passaria dos cerca de 100 mil euros
anuais que auferia na Académica para um valor a rondar os 300 mil euros oferecidos pelo Sporting.
Apenas alguns pormenores ficaram, na altura, por acertar.
Segundo relatava a imprensa, a decisão estava então nas mãos do presidente da Académica. O
técnico, por seu lado, dizia-se lisonjeado com o interesse do clube de Alvalade e já procurava
adjuntos para o acompanharem na mudança de Coimbra para Lisboa.
José Eduardo Simões, dizia a mesma imprensa, queria um milhão de euros e ainda três jogadores
do plantel do Sporting, dois por empréstimo e um a título definitivo (Saleiro). Segundo a versão que
correu, o Sporting não cedeu e o acordo por Villas-Boas esfumou-se, tendo o clube de Alvalade
optado por contratar Carlos Carvalhal, um treinador que estava no desemprego e fazia comentários
televisivos.
Mas José Eduardo Simões não confirma esta versão da história dada a conhecer pela imprensa e
esclarece que “houve na realidade acordo entre a Académica e o Sporting. Entre o Sporting e André
Villas-Boas é que não houve total sintonia de objectivos e posições.”
André Villas-Boas, que já tinha a equipa técnica praticamente acertada, recuou na decisão de se
mudar para Alvalade e deixou, segundo contou a imprensa, Sá Pinto “pendurado”, tendo este tentado
contactar telefonicamente o treinador, mas em vão. Foi Carlos Gonçalves que deu conhecimento ao
novo director de futebol dos leões que o técnico tinha decidido permanecer em Coimbra,
manifestando, no entanto, sentir-se “muito honrado com o interesse do Sporting.”
Fontes próximas de Sá Pinto defendem que a ida de Villas-Boas para o Sporting não chegou a
concretizar-se porque Bettencourt achava que o investimento no técnico era demasiado elevado, mas
também porque André terá decidido permanecer em Coimbra, “talvez por questões emocionais” ou
porque terá pensado que “era ainda demasiado cedo para dar um passo daquele tamanho na sua
carreira”.
Entretanto, o clube de Coimbra, fruto do bom trabalho desenvolvido por André Villas-Boas,
deixou o último lugar e foi subindo paulatinamente na tabela classificativa, fechando a primeira volta
do campeonato, em Janeiro, num confortável 10º lugar (15 jogos, 4 vitórias, 4 empates e 7 derrotas,
20-27 em golos). Apresentava um futebol personalizado, um estilo de jogo bem definido e bem
trabalhado, que Luís Freitas Lobo definia desta forma na sua coluna semanal no prestigiado diário
desportivo A Bola: “A base está na organização, o factor que transformou o jogo posicional do onze.
Jogadores mais próximos, mais passe curto, mais posse. Perdeu rapidez a esticar o jogo em contra-
ataque porque não busca, por princípio, espaços longos para o soltar. Percebeu que com isso perdia
a bola mais rapidamente.”

O FACTOR HUMANO

Manuel Sérgio, o professor que atrás referimos como autor da frase sobre o treino do pianista a
propósito da “periodização táctica”, foi quem primeiro antecipou o sucesso que José Mourinho iria
ter como treinador de futebol. Foi seu professor no Instituto Superior de Educação Física e marcou
de tal forma o futuro treinador que este não hesitou em escolhê-lo para prefaciar o seu único livro
oficial, intitulado precisamente “José Mourinho” . Nesse prefácio, Manuel Sérgio escreveu – numa
13

altura em que Mourinho não tinha ganho ainda absolutamente nada como treinador, embora estivesse
prestes a consegui-lo no FC Porto – que “José Mourinho está, para mim, como treinador de futebol,
ao nível de um Maradona ou de um Pelé! Estou a exagerar? Só o tempo (o grande mestre!) me dará
razão. Mas eu aguardo, com paciência!”. Não se enganou e não precisou de esperar muito. O tempo
tem-se encarregado de lhe dar razão.
Acompanhando à distância, a partir de Lisboa, o trabalho que Villas-Boas estava a desenvolver na
Académica, Manuel Sérgio resolveu escrever-lhe uma carta onde sustentava que, num clube com as
condições necessárias e suficientes, o jovem André surgiria como um treinador de excepcional
relevo. Villas-Boas ficou surpreendido com o conteúdo da carta, sobretudo por vir de quem vinha,
alguém que já foi até internacionalmente apresentado como um dos “gurus” de Mourinho, e foi lesto a
telefonar ao professor:
— Gostava de saber por que me vê com um futuro brilhante na profissão de treinador de futebol. É
que eu sinto que tenho tanto para aprender!
— Porque o meu amigo sabe liderar uma equipa, sabe comunicar com os jogadores que a
constituem, sabe ler um jogo e vive de uma tensa e intensa vontade de vitória. Está aqui a base do
êxito de um treinador de alta competição. Isto o que se vê, mesmo pela televisão.
Com o apoio estrutural de um grande clube e com o que aprendeu com o José Mourinho, o meu
amigo decuplicará o talento que mostra. — respondeu o “velho” professor, que, tal como aconteceu
com José Mourinho, não se enganou em relação ao futuro de sucesso de André Villas-Boas.
Deste primeiro contacto nasceu uma relação entre os dois e uma vontade de André Villas-Boas em
dialogar mais com Manuel Sérgio para compreender o que este vem defendendo desde 1979: a teoria
da complexidade aplicada ao desporto. No fundo, o que esta teoria diz é que tudo funciona em rede,
tudo tem a ver com tudo, nada pode ser olhado em separado. Se nos lembrarmos do que atrás se
explicou sobre “periodização táctica”, facilmente se perceberá que este conceito de treino se baseia
fundamentalmente no conceito da complexidade.
Manuel Sérgio teve, ao longo de contactos telefónicos vários, oportunidade de explicar a Villas-
Boas que, na base de tudo, está o entendimento de que esta área do conhecimento, mais do que uma
actividade física, é uma actividade humana. Ou seja, o factor humano é sempre o mais importante. E,
assim, o treinador, qualquer treinador, nos seus momentos de reflexão, deverá levantar, no mais
íntimo de si mesmo, esta questão: qual o tipo de pessoa que eu quero que nasça dos jogadores que
lidero? Reside aqui, no entender de Manuel Sérgio, o momento essencial do treino. “Porque em
futebol um jogador deve desenvolver-se em equipa, sem ser reduzido à equipa.”
“Daqui resulta que o jogador deve acreditar no que faz e transformar-se na expressão da fé que
anima todo o clube, desde o mais humilde associado e funcionário até aos membros da direcção”,
reforça Manuel Sérgio, adiantando: “A crença gera biologia. O jogador que acredita que é um dos
aspectos fundamentais da alma de um clube tem mais força e mais velocidade e mais resistência e
mais impulsão, etc.”
Que importância tiveram estes “ensinamentos” de Manuel Sérgio no processo de desenvolvimento
do treinador André Villas-Boas? O leitor tirará as suas conclusões à medida que for lendo este livro
e puder aperceber-se melhor sobre a forma como o técnico trabalha e se relaciona com os seus
jogadores, isto é, a relevância que dá ao factor humano. Mas também da importância que dá à
liberdade que sempre quer que os jogadores tenham para se desenvolverem dentro da equipa.
Sobre o factor humano, sustentou Villas-Boas quando instado a comentar a concludente vitória de
Portugal sobre a Espanha campeã do Mundo, por 4-0, uma vitória baseada numa Selecção que,
partindo do mesmo lote de jogadores, se vinha mostrando muito diferente desde a substituição de
Carlos Queiroz por Paulo Bento. “Eu só posso comparar o que aconteceu na Selecção com a
experiência que tive na Académica. Tem a ver com um lote de jogadores que é o mesmo, mas que se
reencontra na motivação, numa nova forma de liderar. Como o professor Manuel Sérgio escreveu em
A Bola, esta é uma actividade das ciências humanas e talvez por isso é que este mesmo grupo de
jogadores, salvo um ou outro, que foi eliminado ainda há pouco tempo pela Espanha, lhe ganhou
agora por 4-0. É um grupo que se encontra no equilíbrio, que passa a olhar para si de uma forma
diferente, que se passa a transcender e encontra na imagem do líder um homem de referência, o que
se calhar não acontecia. Isto é, não sei se aconteceu ou não, o que sei é que isso aconteceu comigo na
Académica, onde não foi só o meu trabalho diário a revolucionar.”
Sobre o papel que gosta de ver os jogadores desempenharem, afirmou recentemente ao Sunday
Mirror que “não sou um ditador pois encorajo a liberdade de escolha aos meus jogadores. Eles só
conseguirão encontrar o seu verdadeiro potencial se não estiverem presos. A criatividade nos meus
jogadores é importante. Amo a parte imprevisível do futebol. Acredito fortemente que os jogadores
têm de se expressar por eles próprios, têm de ser capazes de tomar decisões durante o jogo”.
Numa das conversas telefónicas que manteve com Manuel Sérgio quando já se adivinhava o
sucesso que iria ter ao serviço do FC Porto, André Villas-Boas reconheceu perante o “velho”
filósofo: “O professor acreditou em mim antes até de eu acreditar!” E é verdade.

ATMOSFERA MUITO POSITIVA


Todos os que rodeavam André Villas-Boas na Académica podiam constatar que o jovem treinador
ia construindo, de facto, uma peculiar relação de proximidade com os jogadores. Falava muito com
eles mas não apenas sobre assuntos relacionados com o futebol. Preocupava-se com questões da sua
vida privada, mostrando interesse por tudo o que lhes dizia respeito. Promovia almoços e jantares
com todo o grupo de trabalho, pagando algumas vezes a conta!
Os convívios realizavam-se habitualmente no restaurante Telheiro. Situado a menos de 500 metros
da Academia onde a equipa de Coimbra treina, junto à estação velha da cidade, é propriedade do
jovem e simpático Miguel Lopes. Serve basicamente grelhados, sendo muito afamada e procurada a
picanha brasileira.
Villas-Boas frequentava o Telheiro muito para além das refeições de grupo. Almoçava ali com
muita frequência depois dos treinos matinais, normalmente acompanhado pelos seus adjuntos. Comia
quase sempre peixe grelhado – que o restaurante cuida de encomendar diariamente a fornecedores da
Figueira da Foz –, acompanhado de vinho, e fechava com uma sobremesa. Sempre muito
comunicativo, mostrava-se especialmente brincalhão com o dono do restaurante, com quem se metia
por causa da preferência clubística deste, o Benfica. Enfim, revelava-se uma pessoa simples e
simpática, cativando todos os que com ele ali conviviam.
Fruto ou não da frequente visita de profissionais do clube, mas seguramente pela enorme qualidade
do serviço e dos grelhados que serve a preço económico, a verdade é que o Telheiro é hoje um dos
mais populares restaurantes de Coimbra, sendo necessário esperar por mesa se a mesma não tiver
sido previamente marcada. E ostenta numa das paredes, devidamente emoldurada, uma vistosa
camisola 6 do Chelsea, assinada e dedicada por Ricardo Carvalho, mas oferecida com toda a
amizade por… André Villas-Boas!
Para além do Telheiro, o jovem técnico da Académica frequentava também outro restaurante, o
Moinho Velho, situado junto ao estádio e ao apartamento que adquiriu na cidade. Várias vezes lá
almoçou com o presidente na companhia de outros elementos da equipa técnica. A forma simples de
se relacionar com qualquer pessoa que ali estivesse ou entrasse era uma característica muito
apreciada por todos.
Voltando ao trabalho propriamente dito, o técnico ia-se afirmando e procurando passar informação
aos jogadores de forma muito resumida e sistematizada, evitando as extensas prelecções e os longos
e cansativos vídeos que tanto lhes desagradam. “Costumava fazer duas palestras de preparação para
cada jogo. Na quinta ou sexta-feira dedicava-se por completo à análise do adversário contra quem
íamos jogar. Através de um vídeo com cerca de 30 minutos, dava-nos toda a informação sobre o
nosso próximo opositor. No próprio dia do jogo falava só sobre a nossa equipa”, confidencia um ex-
jogador do clube.
Por outro lado, interrogava frequentemente os jogadores, procurando saber se eles se sentiam
confortáveis com o esquema táctico que pretendia utilizar. Algo muito próximo daquilo a que
Mourinho chama de “descoberta guiada”.
Mas a criatividade e a imprevisibilidade que Villas-Boas tanto aprecia não significavam menor
cuidado na preparação dos treinos ou dos jogos, bem pelo contrário. Conforme confidenciou
Berger , “cada sessão de treino era muito específica no sentido de nos preparar para o jogo seguinte.
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Nunca treinávamos duas vezes por dia, apenas de manhã, mas era uma sessão sempre muito intensa.”
Segundo Berger, os níveis de exigência de Villas-Boas eram muito elevados. “Ele exigia cem por
cento dos jogadores e ainda um pouco mais. Queria de nós a máxima concentração e preparava cada
treino com uma enorme qualidade. Nós sabíamos tudo ao pormenor sobre os nossos adversários. Ele
fazia tudo de forma a simplificar a vida aos jogadores, identificando os pontos fortes e fracos da
defesa, meio-campo e ataque dos adversários, bem como quais os jogadores adversários que podiam
fazer a diferença. E lia muito bem o jogo.”
No capítulo do passe, a que Villas-Boas dava já naquela altura tanto relevo, o jogador austríaco
conta um pormenor curioso: “Punha-nos muitas vezes a treinar em espaços muito curtos, onde não se
pode ter a bola muito tempo na nossa posse. Como defesa-central, encorajava-me a trocar a bola e
falava com cada um acerca do tipo de passes que queria que eles fizessem.”
Os jogadores da Académica iam apreciando os métodos de Villas-Boas, especialmente a forma
discreta como os chamava à atenção quando erravam, nunca dando reprimendas públicas nem
procurando réus nas derrotas. Chamava-os à parte e transmitia-lhes tranquilamente o que pretendia
para que eles o entendessem bem. Muito humano e compreensivo, exigia, no entanto, o máximo deles.
E nunca se mostrava satisfeito, ambicionando sempre mais e mais. Aumentava-lhes muito a auto-
estima e subia-lhes os níveis de confiança através de uma fortíssima capacidade motivadora. Como
confidenciou o presidente do clube: “Criava uma atmosfera de trabalho muito positiva em seu redor.”
A tal ponto que mesmo os jogadores que não faziam parte das suas opções se mostravam satisfeitos.
Coisa muito rara no mundo do futebol.
O único caso de indisciplina verdadeiramente sério que teve – o jogador Diogo Gomes foi
apanhado na noite – resolveu-o dentro do grupo de trabalho. André Villas-Boas não castigou o
jogador, mas confrontou-o com a situação em frente de todo o grupo de trabalho. Não queria que
aquilo se voltasse a repetir. Mais tarde explicou em entrevista ao Diário de Coimbra: “Dentro da
nossa liderança, também por sermos uma equipa técnica jovem, a liderança aberta é fundamental e
isso passa por responsabilização directa, muita frontalidade e passa pelos jogadores terem uma
opinião válida sobre a gestão do grupo e neste particular cenário houve opinião do grupo e
reprimenda do grupo para a situação do Diogo. Foi uma coisa resolvida internamente, dentro do
grupo, sem qualquer tipo de sanção disciplinar por parte da direcção, onde o grupo recriminou e
decidiu o que havia de fazer naquele cenário. Nem sempre este tipo de liderança é possível, mas é
uma liderança com a qual nos identificamos.”
Outra forma muito peculiar de interagir com os seus jogadores era através de SMS. Villas-Boas é
um verdadeiro viciado em SMS. Por exemplo, um dos jogadores soube em primeira mão pelo
treinador que tinha sido chamado para a selecção através de uma SMS onde o técnico aproveitava
também para lhe dar os parabéns pela convocatória. Outro jogador, que estava com um problema nos
joelhos, recorda-se de ter recebido uma SMS a solicitar-lhe o seu sacrifício para os dois jogos que
faltavam disputar.
Fruto da relação pessoal que estabeleceu com os atletas, mesmo depois de ter deixado o clube de
Coimbra continuou a trocar mensagens com eles. Pode não responder na hora às mensagens, mas não
as deixa sem retorno. Ainda hoje. Sempre colocou os jogadores à vontade para o contactarem por
qualquer tipo de questão.
Mas o jovem treinador, que todos reconhecem ser alguém que pensa obsessivamente no futebol 24
horas por dia, teve também oportunidade para mostrar a sua faceta humana e de verdadeiro líder
quando o infortúnio bateu dramaticamente à porta de um dos seus jogadores: o avançado Miguel
Pedro perdeu dois filhos de parto prematuro e Villas-Boas não se poupou a esforços para o tentar
confortar e ajudar. Foi de imediato ao hospital para acompanhar in loco a situação e auxiliar o
jogador. Colocou médicos das suas relações à disposição de Miguel Pedro e, após a tragédia, foi
incansável no apoio ao atleta. “Disse-lhe que fosse para casa e regressasse quando quisesse.
Enquanto o Miguel Pedro esteve fora, manteve o contacto permanente e chegou até a falar com
pessoas suas conhecidas de uma clínica para que a mulher do jogador pudesse voltar a engravidar o
mais rápido possível”, explica um colega da época.
O caso de Miguel Pedro não foi único: um jogador madeirense, a quem morreu um familiar,
recebeu de Villas-Boas indicações para viajar para a ilha e voltar apenas quando entendesse que se
sentia em condições. “Ele defende que se o jogador não estiver com a cabeça ali, então é preferível
ir para onde estão as suas preocupações e voltar apenas quando se sentir em condições de se
concentrar no trabalho, quando tiver a cabeça limpa”, explica-nos o mesmo jogador.
Na defesa do grupo de trabalho e do clube, tomou posições de força. Ficou célebre o
desentendimento que teve com o treinador adjunto de Jesualdo Ferreira no FC Porto, José Gomes,
com quem trocou palavras mais acesas no intervalo do jogo entre a Académica e o clube azul-e-
branco. Só a rápida intervenção de vários elementos das duas equipas técnicas evitou males maiores.

NOVAMENTE O SPORTING

No início de Fevereiro de 2010, a Académica de André Villas-Boas obteve, finalmente, a primeira


vitória fora de portas para a Liga. E não foi num estádio qualquer. Não foi no estádio de uma equipa
modesta, daquelas que eram concorrentes directas da Académica na luta pela manutenção na primeira
Liga. Não. A vitória, surpreendente sim, mas inteiramente justa, foi obtida no campo de um dos três
“grandes” do futebol português, exactamente em Alvalade, a casa do… Sporting!
“Ao intervalo o resultado era de 1-1, excelente para nós. Mas, ao contrário do que se podia
esperar, Villas-Boas apareceu furioso no balneário. Deixou bem claro que preferia perder por
quatro, mas a equipa tinha que jogar como ele queria. E ele queria basicamente mais posse de bola.
Resultado: fizemos uma segunda parte extraordinária e vencemos o Sporting por 2-1!”, confidenciou
um dos jogadores titulares nessa noite de sábado. O clube leonino estava mergulhado numa tremenda
crise de resultados desportivos e Villas-Boas ajudou a projectá-la, ainda mais, para níveis
absolutamente insustentáveis.
José Eduardo Bettencourt decidiu, então, que Carlos Carvalhal não veria o seu contrato renovado
no final da época. Na verdade, o presidente leonino tinha afirmado publicamente que a continuação
do técnico Carlos Carvalhal, que tinha sido contratado interinamente, dependia unicamente dos
resultados da equipa. E voltou-se de novo para André Villas-Boas no sentido de garantir a sua
contratação para a época 2010-11, resultando esses contactos num acordo escrito entre as partes.
Carvalhal, por seu lado, soube por alguém da sua confiança que o Sporting tinha estabelecido
contacto com Villas-Boas e não gostou. Principalmente porque todo o processo decorria numa altura
crucial da época, com jogos absolutamente decisivos para disputar. Chegou até a cancelar uma
conferência de imprensa por considerar que não tinha cara para enfrentar um grupo de jornalistas
carregados de perguntas sobre o futuro – o seu e o do clube.
Mas, no início de Março de 2010, um comunicado conjunto do técnico e da direcção da
Académica, com o objectivo, segundo José Eduardo Simões, “de fazer uma barragem de informações
que não eram correctas e que foram postas a circular”, desmentia que houvesse qualquer acordo com
o Sporting. No entanto, percebia-se que pelo trabalho que estava a desenvolver e pela visibilidade
que os resultados da equipa lhe proporcionavam, Villas-Boas não iria continuar como treinador da
Briosa para além de Junho de 2010.
No penúltimo dia do mês de Março, o clube de Alvalade assumiu finalmente a não continuidade de
Carlos Carvalhal para lá do fim da época, e enviou um comunicado para a CMVM , oficializando a
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futura saída do treinador.


Recomeçou, então, a forte pressão mediática sobre o jovem técnico da Académica, a ponto de na
conferência de imprensa que antecedeu o jogo com a União de Leira, ele ter afirmado, em tom
irónico: “Vejo com gozo toda esta presença de vários jornalistas para um jogo com o Leiria, sei
quem vem cá de semana a semana.” E atirou a finalizar: “Os outros só estão aqui para alimentar a
palhaçada!”
O acordo escrito entre o treinador e o Sporting tinha sido estabelecido com a intermediação do
poderoso agente FIFA e patrão da Gestifute, Jorge Mendes, que já tinha ajudado o clube leonino na
reabertura do mercado. Diz-se até que o técnico, que tem revelado ao longo da sua curta carreira uma
forte auto-confiança, aceitou que os seus prémios por objectivos incluíssem até uma alínha
relacionada com a evolução do número de espectadores dos jogos da equipa no seu estádio. Feito o
acordo, a única preocupação do lado do treinador seria a de manter tudo em sigilo enquanto se
iniciavam os trabalhos de preparação da época 2010-11.
Mas Villas-Boas, com a anuência de José Eduardo Bettencourt, acabou por romper tudo de um dia
para o outro. Ao que parece porque tinha divergências (em relação a vários assuntos) com o antigo
médio do FC Porto, Costinha, acabado de ser nomeado para o lugar de director de futebol do clube, e
também porque terá começado nessa altura o interesse do FC Porto nos seus serviços.
O Sporting voltou, assim, a dirigir-se à CMVM, desta vez a 5 de Abril, para comunicar que André
Villas-Boas não seria o treinador do clube para a época 2010-11, dando a entender que tinha sido o
clube a romper com o acordo – e não Villas-Boas – e considerando que não tinha gostado do termo
“palhaçada” com que o técnico se tinha referido à hipótese de treinar o Sporting.
A Académica finalizou o campeonato em 11º lugar, com 8 vitórias, 9 empates e 13 derrotas, 37-42
em golos. Ou seja, em 23 jogos ao comando da equipa, Villas-Boas obteve 8 vitórias, 6 empates e 9
derrotas. Nada mau para uma equipa que estava em último lugar e que todos pressentiam ter o destino
traçado: a descida de divisão.
O presidente da Académica diz estar convencido de que se Villas-Boas tivesse começado a época
em Coimbra, provavelmente a equipa teria acabado nos cinco primeiros lugares da classificação. E
não regateia elogios ao técnico a quem deu a oportunidade de se tornar treinador principal: “Depois
do nosso primeiro encontro, percebi imediatamente que ele é um grande ser humano e um líder
natural.”
Sobre o que dele retém da meteórica passagem pelo clube, esclarece: “Tem talento, é uma pessoa
com quem é muito fácil trabalhar. Cria um bom ambiente. Comunica bem, tem uma mensagem clara e
bem estruturada, gosta de mind-games e faz deles bom uso. Sabe o que quer e como consegui-lo.” E
mais acrescentou, explicando que “não é de berros nem de chicote. É muito bom psicólogo, sabe
como conquistar a confiança, entra em cada indivíduo a trá-lo para dentro do grupo.”
Como estava sozinho em Coimbra, tinha “grande disponibilidade” e “cativava muito as pessoas
para além das do próprio clube”, remata José Eduardo Simões. “Desde a ida dele para Londres,
tornei-me num ‘especialista’ em André Villas-Boas!”, ironiza o presidente sobre o assédio de que
tem sido alvo desde que o técnico foi anunciado como substituto do italiano Ancelotti no Chelsea.
O jovem técnico considerou recentemente o salto que deu – de observador para treinador principal
– um passo natural. “A oportunidade de treinar surgiu quando estava no Inter. Senti que queria
desempenhar outro tipo de funções, enfrentei o desafio e fui para a Académica, deixando o José
[Mourinho]. Treinar não era uma obsessão, tão pouco usei Mourinho para seguir este caminho. Foi
algo que aconteceu com naturalidade”, declarou.
A Académica deixou em André Villas-Boas marcas que jamais se apagarão. “Como homem
sentimental que sou, gera-se em mim uma série de emoções quando regresso a Coimbra. (…) Desde
que começou a época [2010-11] fui lá três vezes. Não deu para estar com todos, mas estive com
pessoas que significam muito para mim e sobre quem tenho um sentido agradecimento”, reconheceu
quando, já na pele de treinador do FC Porto, se referiu ao clube onde se estreou como treinador
principal.
CAPÍTULO 4

“Sabia que íamos festejar [o título de campeão] porque o conhecia,


porque o vi nascer para o futebol e conhecia a sua capacidade. Sabia
que tinha tudo o que é preciso para ter sucesso como treinador, e ainda
juntava a tudo isso o facto de ser tão Dragão como todos nós.
Jorge Nuno Pinto da Costa

Em Coimbra, Villas-Boas marcava pontos na sua primeira experiência como treinador principal na
modesta Académica, trabalhando para que a equipa não descesse de divisão, um objectivo
alcançado. No Porto, Jesualdo Ferreira – técnico do FC Porto desde 2006-07 – tomava cada vez
mais consciência de que não iria revalidar o título de campeão de Portugal em 2009-10. Um título
especialmente importante porque permitiria ao clube atingir o segundo “penta” da sua história e da
história do futebol português. O ciclo de Jesualdo Ferreira no FC Porto estava, pois, a terminar,
mesmo sabendo-se que tinha ainda um ano de contrato para cumprir e que, muito provavelmente, iria
vencer mais um troféu, a Taça de Portugal, uma vez que o adversário no jogo da final era uma fraca
equipa da segunda Liga: o GD Chaves.
Nas três anteriores épocas ao comando da equipa azul-e-branca, Jesualdo Ferreira tinha ganho três
campeonatos, duas taças (acabou por ganhar três) e uma supertaça. Curriculum mais do que
suficiente para lhe garantir a continuidade no comando técnico de qualquer clube do mundo. Mas no
FC Porto, onde o normal é ganhar o campeonato e o anormal é perdê-lo. De facto, nos últimos dez
anos, entre 2001-02 e 2010-11, o FC Porto venceu sete Campeonatos; nos últimos 20 anos ganhou 14;
e desde que Pinto da Costa assumiu a presidência, há 28 anos, venceu duas Taças/Ligas dos
Campeões, duas Taças UEFA/Ligas Europa, uma Supertaça Europeia, duas Taças Intercontinentais,
18 Campeonatos, 12 Taças e 16 Supertaças de Portugal. Um curriculum invejável, que faz com que a
grande maioria dos observadores atribua o mérito das vitórias do FC Porto muito mais à
competência da gestão desportiva do seu histórico presidente, e à sólida cultura de vitória que
implementou no clube, do que aos treinadores a quem entrega a direcção técnica da equipa.
Habituado à forma de trabalhar do FC Porto – ia a caminho de cumprir a quinta época ao comando
da equipa –, Jesualdo foi-se apercebendo de comportamentos indiciadores de que, muito
provavelmente, não iria continuar o seu trabalho no clube. O primeiro indicador de um divórcio
eminente aconteceu em Fevereiro de 2010. Em condições normais, por essa altura teriam lugar as
primeiras reuniões para preparar o plantel da época seguinte, atacar reforços e traçar o programa de
pré-época. Mas nem Pinto da Costa nem Antero Henrique falaram com Jesualdo sobre estes
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assuntos. Foi o primeiro sinal, logo confirmado quando se percebeu que o tempo ia passando e
ninguém abordava o professor.
Ao mesmo tempo, nos corredores do futebol, que são fundos, muito fundos, começou a circular o
nome de André Villas-Boas. A sua ainda pequena experiência como treinador principal era
compensada pelas informações que chegavam a Pinto da Costa sobre a qualidade do trabalho que
desenvolvia em Coimbra.
Nunca se ouviu Pinto da Costa falar publicamente do nome de André Villas-Boas. Normalmente,
quando o presidente do FC Porto elogia um treinador é porque está de olho nele. Aconteceu assim
com Fernando Santos, com Jesualdo Ferreira, até com Carlos Queirós, que só não entrou no Dragão
porque, entretanto, se tinha comprometido com a Federação Portuguesa de Futebol para comandar a
Selecção Nacional. Mas o nome de André nunca foi comentado no Dragão… nem para ser negado.
Como, olhando para trás, não havia elogios de Pinto da Costa, muita gente descartou o nome do
antigo observador da equipa técnica de Mourinho.
Em Maio de 2010, na véspera de Jesualdo Ferreira obter mais um feito significativo, vencendo a
sua terceira Taça de Portugal consecutiva, Pinto da Costa ganhava as eleições para a presidência do
clube, sem qualquer opositor e com 98% dos votos. O seu novo projecto para o FC Porto passava
pela implementação de várias mudanças ao nível da SAD e da equipa técnica. A reestruturação
directiva foi ao ponto de atingir um histórico como Reinaldo Teles, fiel escudeiro de Pinto da Costa
de toda a vida, que, apesar se manter no clube, deixou de estar próximo da equipa de futebol. Para o
cargo de treinador, o presidente reeleito tinha traçado o perfil: jovem de idade, portador de uma
filosofia mais científica e com sangue azul. Jesualdo Ferreira, com mais de 60 anos, estava
definitivamente de partida. André Villas-Boas, apaixonado pelo clube desde criança, encaixava
como uma luva no perfil definido pelo presidente azul-e-branco.
Apesar dos inúmeros nomes que a especulação jornalística sempre apresenta nestas ocasiões, o de
André Villas-Boas terá estado sempre na cabeça de Pinto da Costa a partir do momento em que
decidiu não continuar com Jesualdo Ferreira. Outro costume do presidente é o de deixar que surjam
nomes nos media, por vezes até patrocinados por ele. E muitos treinadores, portugueses e
estrangeiros, foram então apontados ao FC Porto. Chegou-se, entre outros, a falar de Domingos
Paciência e de Jorge Costa, dois símbolos do clube, com carreiras de treinador ainda curtas, mas
muito bem sucedidas. Consta, inclusivamente, que Jorge Costa terá chegado a ser abordado para
trabalhar como número dois de Villas-Boas.
Há, como vimos atrás, quem defenda que a nega dada por Villas-Boas ao Sporting, em Abril de
2010, teve como principal razão o interesse do… FC Porto. O presidente da Académica, que na
altura estava naturalmente próximo do técnico, e tinha, afinal, uma palavra a dizer no processo
porque o seu clube era uma parte interessada, tem uma curiosa leitura da situação. “André tem uma
concepção de comunicação muito clara: toda a cadeia, desde o presidente aos funcionários, deve
funcionar a uma só voz. Só em Portugal é que toda a gente fala de futebol. Ele é muito profissional,
muito exigente, quer toda a gente imbuída do mesmo espírito. Neste quadro, a comunicação é muito
importante. Os clubes que funcionam assim vencem, os outros não”, explicou José Eduardo Simões.
Sabendo-se como funciona o FC Porto – exactamente da forma como defende André Villas-Boas – e
como funcionava o Sporting naquela época, facilmente se compreende a opção que o jovem técnico
tomou. Mas se a isto, que já não é pouco, somarmos o seu indiscutível portismo – “O Porto é a minha
cidade, o FC Porto foi, é e será sempre o meu clube”, afirmou aquando da apresentação no Chelsea
–, então só mesmo um louco é que, no seu lugar, teria optado pelo Sporting.
Portanto, a meio de Maio de 2010, André Villas-Boas já tinha tudo acordado verbalmente com o
FC Porto. Um único receio o preocupava: que a notícia se soubesse e o clube, em consequência
disso, recuasse. Por isso negou sempre e até deixou de atender chamadas no telemóvel, excepção
feita a amigos com quem habitualmente falava. O seu cuidado foi ao ponto de nem mesmo os
familiares saberem do acordo que tinha estabelecido com os portistas.
A opção pelo jovem treinador da Académica não terá sido bem aceite por toda a estrutura
portista. Pessoas próximas do presidente gostavam de ver Villas-Boas no clube, mas pessoas ainda
mais próximas de Pinto da Costa não viam com bons olhos essa possibilidade. Havia quem
vislumbrasse em Villas-Boas o sucessor de Mourinho, mas também havia quem desconfiasse dele
por ser demasiado jovem e não ter suficientes provas dadas para se habilitar ao cargo de treinador
de um clube com a dimensão e as responsabilidades do FC Porto.
Por outro lado, havia, no topo da hierarquia do clube, quem fizesse questão de recordar a forma
nada diplomática como André abandonou o clube com José Mourinho, rumo ao Chelsea, no final da
época 2003-04, ou, pior, o facto de se ter feito acompanhar de vários seguranças privados quando
regressou ao Dragão para observar o FC Porto, então futuro adversário do Chelsea na Liga dos
Campeões. E mais ainda: no clube não gostaram que ele, no dia em que partiu com Mourinho tivesse
esvaziado o seu cacifo, apropriando-se dos inúmeros relatórios que, embora feitos por si, eram
pertença do FC Porto. Ou seja, o nome de Villas-Boas estava longe de ser consensual, mas, como
sempre acontece no clube, se Pinto da Costa se decidisse por ele ninguém duvidava de que seria
apresentado e imediatamente aceite por todos os críticos.
Na verdade, no FC Porto, é Pinto da Costa quem sempre toma as decisões sem precisar de apoios
para o fazer. É ele quem escolhe os treinadores, da mesma forma que assume na totalidade os
fracassos em caso de insucesso. Ao longo da história não foi necessário fazê-lo muitas vezes porque
dá-se muito bem com as escolhas. De facto, no seu longo reinado apostou já em 10 treinadores que
não tinham ganho qualquer título quando chegaram ao FC Porto. De entre esses, sete saíram de lá
vitoriosos: Artur Jorge, António Oliveira, Fernando Santos, José Mourinho, Co Adriense, Jesualdo
Ferreira e André Villas-Boas. E três ganharam mesmo títulos internacionais: Artur Jorge (Taça dos
Campeões Europeus em 1987), José Mourinho (Taça UEFA em 2003 e Champions League em 2004)
e André Villas-Boas (Liga Europa em 2011).
Quem conhece Pinto da Costa sabe que, antes de anunciar o novo chefe da equipa técnica, ele
trataria sempre, e com toda a dignidade, da rescisão com Jesualdo Ferreira. Assim aconteceu. Gozou
de um pequeno período de férias e, quando regressou ao Porto, acertou muito rapidamente e em clima
amistoso, como competia, o fim da relação contratual do treinador sexagenário com o clube. Seguiu-
se um “período de nojo”, um silêncio estratégico de alguns dias até à apresentação de André Villas-
Boas como o mais jovem (32 anos) treinador de sempre do FC Porto. A Académica, com quem
Villas-Boas tinha vínculo por mais uma época, recebeu os 500 mil euros relativos à cláusula de
rescisão que constava do contrato entre o clube de Coimbra e o treinador.
Villas-Boas tinha consciência de que iria herdar um fardo muito pesado. Primeiro, pelo passado
fortemente vitorioso do clube – nomeadamente do seu antecessor no cargo – e o quanto isso obrigaria
a apresentar de imediato resultados. Depois, porque o Benfica, o rival mais detestado, parecia ter
iniciado um novo ciclo de domínio do futebol português com a convincente vitória no Campeonato de
2009-10. Era por isso absolutamente fundamental recuperar para o Dragão o campeonato perdido na
época que estava a findar. Finalmente, porque o FC Porto, fiel à tradição de alienar anualmente dois
ou três dos seus mais importantes jogadores , se preparava para encaixar 20 milhões de euros com a
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venda de Bruno Alves ao Zenit de St. Pitesburgo e mais 13 milhões com a ida de Raul Meireles para
o Liverpool FC. Acontece que Bruno Alves era o capitão da equipa – e todos sabemos a importância
absolutamente decisiva que os capitães têm na gestão de equilíbrios do balneário de um clube – e
Raul Meireles um dos segundos capitães. Acresce que Nuno Espírito Santo, o terceiro guarda-redes,
outro dos líderes do balneário, iria pendurar as botas e colocar um ponto final na sua carreira de
profissional de futebol, passando a integrar a futura equipa técnica de Jesualdo Ferreira no Málaga.
A seu favor, André tinha, porém, um ponto muito importante de vantagem em relação a Jesualdo
Ferreira. O professor andara dois anos a falar sozinho em nome do clube, a defender sozinho as
questões relacionadas com o Apito Dourado . Os múltiplos ataques foram repelidos pelo técnico
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porque o presidente não podia falar. A chegada de André Villas-Boas coincidiu com a
despenalização de Pinto da Costa, que passou de novo a atacar as questões fundamentais
relacionadas com as suspeitas levantadas sobre o FC Porto. No entanto, André Villas-Boas, nas suas
conferências de imprensa, mostrou-se sempre um acólito importante, vestindo a camisola e, por
vezes, assumindo uma posição como se de um adepto se tratasse. Mas o simples facto do presidente
poder voltar a falar livremente foi um ponto que jogou, e de que maneira, a favor do técnico. Todos
sabem em Portugal o peso enormíssimo que as palavras públicas de Pinto da Costa têm no decurso
dos acontecimentos relacionados com o clube, e muitas vezes até com os relacionados com todo o
futebol português.
Mas, depois de aparentes avanços e recuos, que chegaram a incluir um politicamente correcto
desmentido de Villas-Boas sobre a sua ida para o clube, no dia 2 de Junho de 2010, pelas 22:09, o
FC Porto confirmou oficialmente a sua contratação por duas temporadas, comunicando-a à CMVM.
Uma aposta de risco que representava uma rotura profunda com o passado recente. Villas-Boas nada
tinha provado ainda, e daí o risco. No entanto, a bem da verdade, José Mourinho também nada tinha
provado até chegar ao clube dirigido por Pinto da Costa. O próprio Mourinho, que melhor que
ninguém conhecia Villas-Boas, descartava as alegadas parecenças com o antigo observador da sua
equipa técnica, questionando mesmo a validade do trabalho de campo que tinha levado à sua escolha
pelo FC Porto.

MOURINHO? NÃO, ROBSON!

No dia seguinte, a apresentação pública teve lugar na sala VIP do estádio do Dragão. André
Villas-Boas e Pinto da Costa, sós, frente a um batalhão de jornalistas. O jovem treinador sabia que a
pergunta óbvia, sobre as comparações com Mourinho, haveria de saltar a qualquer momento. Era uma
questão de tempo. Por isso a resposta surgiu, de forma clara, na ponta da língua: “Não sou clone de
ninguém mas, se falam disso, até acho que sou mais clone de Robson que de Mourinho. Sou de
ascendência inglesa, tenho o nariz grande e gosto de beber vinho…”. Marcou, desta forma e desde
logo, distâncias em relação a José Mourinho – com quem mantém uma relação fria desde que chegou
ao FC Porto – e aproveitou para deixar uma sentida referência a Sir Bobby Robson, o primeiro
treinador a dar-lhe uma oportunidade no mundo do futebol.
De facto, Robson marcou, de forma indelével, o jovem André. O treinador do Chelsea faz questão
de frisar isso mesmo sempre que surge uma oportunidade. “Bobby foi uma pessoa muito importante
na minha carreira e uma grande inspiração para mim. Qualquer outro treinador não teria nunca feito o
que ele fez, nunca teria permitido que um miúdo de 17 anos o confrontasse com decisões tomadas
enquanto treinador. Ele era de uma abertura espantosa. Aconselhou-me, era eu muito novo, a fazer
cursos de treinador. Abriu-me as portas do FC Porto para que eu pudesse assistir às sessões de
treino. Tínhamos uma relação muito boa, respeitava-o muito. O que ele fez não apenas comigo e com
o José [Mourinho], fez com tantas outras pessoas, promovendo-as e inspirando-as a seguirem o seu
próprio caminho”, afirmou em diversas ocasiões. Uma relação que deixou marcas e que ao jovem
técnico só fica bem reconhecer e agradecer. Mas não deixa de causar alguma estranheza a pouca
relevância que deu a Mourinho quando falou da importância que pessoas com quem trabalhou
tiveram na sua formação, no seu percurso e na sua (até agora) meteórica e extraordinariamente bem
sucedida carreira de treinador.
Sobre os riscos que estava a correr ao aceitar o desafio de orientar uma equipa com os objectivos
do FC Porto, André Villas-Boas foi peremptório: “Onde outros possam ver riscos eu vejo sempre
boas perspectivas de obter sucesso. O FC Porto tem há muito tempo essa cultura ganhadora e eu
sinto-me perfeitamente confortável com as exigências.” E para quem insistia em ver nele um novo
Mourinho, explicou que “prometer faz-me lembrar muito 2002, quando um predestinado prometeu
pela primeira vez. Agora promete-se à primeira conferência e há muitas promessas que ficam por
cumprir…” Referia-se, obviamente, à conferência de imprensa de apresentação de José Mourinho no
FC Porto, em 2002 – na qual o então jovem treinador afirmou ter a certeza de que na época seguinte o
clube seria campeão – e ao impacto positivo que essas palavras tiveram, ao ponto de muitos
treinadores, em jeito de imitação, optarem por fazer promessas idênticas, tantas vezes impossíveis de
cumprir, quando são apresentados.
Teve ainda tempo para se dirigir a todos os que duvidavam do seu valor, afirmando: “Há muitos
cépticos em relação a mim? Admito que sim, pois os nomes tornam-se consensuais à medida que
forem ganhando. Mas daqui a quatro ou cinco semanas já serei mais consensual.” Finalmente, sobre o
futuro estilo de jogo da equipa, esclareceu: “Tenho todas as coisas plenamente definidas, quer para
os treinos quer para os jogos, e incompetente é que eu não sou. Está tudo pensado para fazer
funcionar a equipa num certo estilo e sempre com equilíbrio.”
Na véspera, tinha-se despedido publicamente do presidente, dirigentes, funcionários, jogadores e
sócios da Académica. Conhecido por ser viciado em mensagens telefónicas, aos jogadores Villas-
Boas fez questão de mandar uma SMS momentos antes de ser tornada pública a oficialização da sua
contratação pelos dragões. Um gesto que eles muito apreciaram porque souberam em primeira-mão –
e pelo próprio – da sua saída da Académica e porque a mensagem transmitia um sentido
agradecimento de despedida: “Vou deixar-vos para uma nova aventura. Agradeço os momentos que
passámos juntos. Cada um de vocês me marcou neste arranque de carreira e todos de uma forma
diferente e especial. Desejo-vos continuação absoluta de sucesso individual e colectivo e quero que
entendam que estarei sempre disponível para todos. Um grande abraço e um até breve.” Quem
conhece a forma como Mourinho se relaciona com os jogadores através de SMS não poderia
encontrar nada mais parecido.
Se é verdade que muitos duvidavam das capacidades de Villas-Boas para exercer o cargo de
treinador do FC Porto, outros houve que, conhecendo de perto o seu trabalho, imediatamente as
avalizaram. Foi o caso de Ricardo Carvalho, o defesa-central que tinha jogado no FC Porto e no
Chelsea, e que se preparava para, após o Mundial da África do Sul, rumar ao Real Madrid para de
novo trabalhar sob as ordens de Mourinho. Carvalho conhecia muito bem Villas-Boas do tempo em
que este fazia parte da equipa técnica de Mourinho e não poupou nos elogios: “Ele respira e vive
futebol. O futebol é tudo para ele. Às vezes, vive até demais o futebol. É super minucioso nos
relatórios que faz. Consegue esmiuçar um adversário ao mínimo detalhe. Nada lhe escapa. Sabe tudo
sobre jogadores, tudo sobre as equipas. Quem toma a opção que ele tomou, é porque não tem medo
de arriscar. Afinal, ele tinha a sua vida resolvida, estava tranquilo a fazer o que fazia com Mourinho,
mas preferiu trocar essa segurança por algo mais arriscado. Preferiu seguir o caminho sozinho e se o
fez é porque se trata de alguém com uma autoconfiança extrema. É uma pessoa sensata e sincera.
Acreditem: ele sabe muito disto. Fico a torcer pelo sucesso dele. Ele merece.” Ricardo Carvalho,
como se sabe hoje, não se enganou na análise.
No momento em que o FC Porto anunciou a contratação de Villas-Boas, o Belenenses, um histórico
de Lisboa acabado de descer de divisão, apresentou Baltemar Brito como treinador. A coincidência
dos factos originou de Ricardo Araújo Pereira, o mais apreciado humorista português da actualidade,
conhecido pelo seu fervoroso benfiquismo, o seguinte texto satírico, publicado no diário desportivo
A Bola: “Depois de André Villas-Boas (sete épocas de Mourinho), Baltemar Brito (seis épocas de
Mourinho) é o segundo adjunto do Special One a ser contratado para treinar um clube português. O
Belenenses, sem capacidade financeira para sete épocas de Mourinho, teve de se contentar com seis.
(…) Segundo consta, o barbeiro de José Mourinho está nos planos do Trofense. Ora, na qualidade de
cidadão que já trocou quatro SMS com o Special One, aproveito esta oportunidade para fazer saber
ao mercado que não estou disponível para orientar equipas.”

MÃOS À OBRA

Dia 6 de Junho, o primeiro nas suas novas funções, foi passado em observação de jogos das
equipas jovens do FC Porto, de manhã e de tarde. Villas-Boas desde logo começou a marcar pontos
junto dos adeptos do clube que, pelo menos em Portugal, apreciam quando os treinadores observam
jogos das camadas jovens dos clubes, como que reconhecendo que estão ali em busca de futuros
craques.
Depois, partiu para uma curta semana de férias, regressou ao Porto a 13 de Junho e de imediato
começou a trabalhar com Antero Henrique, homem forte do futebol dos dragões, na preparação da
época 2010-11. Na descrição dos gabinetes, sem aparições públicas, sem declarações avulsas, sem
entrevistas de fundo. De resto, Villas-Boas passou pelo FC Porto sem conceder uma única entrevista
alargada. As palavras do treinador ouviram-se apenas nas obrigatórias conferências de imprensa,
antes e depois dos jogos. Neste particular, André espelhou-se em Pep Guardiola que também não tem
sido “amigo” dos jornalistas em Barcelona. Estas e outras ideias sobre o comportamento de
Guardiola – seu ídolo maior entre os treinadores no activo – foram retiradas da leitura de vários
livros dedicados ao treinador catalão.
Voltando ao FC Porto, se alguém pensava que André Villas-Boas vinha preparado para fazer uma
revolução no plantel e, uma vez que estava habituado a observar muitos jogadores, iria sugerir uma
mão cheia de craques ao clube, enganou-se por completo. Como estudioso que é, bem pode dizer-se
que foi cirúrgico na escolha dos atletas. Soube aproveitar muito bem o plantel que lhe deixara
Jesualdo Ferreira, sem exigir grandes contratações. A articulação com Antero Henrique, o grande
responsável por contratações de sucesso como Hulk, Falcao, Guarín, Álvaro Pereira, Fernando, só
para falar de alguns, foi perfeita e a necessidade de reforçar o plantel foi quase nula.
O FC Porto investiu quase só... na renovação de contratos e isso teve uma influência altamente
positiva junto do grupo de trabalho. Seria apenas necessário compensar as saídas de Raul Meireles e
Bruno Alves que, na época anterior, tinham já revelado uma baixa significativa do seu rendimento
originada por uma saturação profunda do clube, agravada com expectativas elevadas de se
transferirem no final da época (o defesa saiu para os russos do Zenit, Meireles para o Liverpool).
Não foi difícil resolver esses dois problemas: da Argentina chegou o mundialista Otamendi; do
Sporting, João Moutinho! De resto, contratação de Moutinho foi uma facada violenta no leão e uma
tremenda força para o FC Porto, já que o ex-capitão sportinguista em poucos dias deu mostras de
uma extrema capacidade de adaptação. Ao ponto de Villas-Boas ter comentado a determinado
momento que Moutinho era, efectivamente, um jogador “à Porto”, tal como o definiu Pinto da Costa
dois anos antes de o ter pescado em Alvalade.
Parecendo que não, essa contratação, para além de resolver no imediato a saída de Meireles,
arrumou psicologicamente com um adversário tradicionalmente rival na luta pelo título.

PEDROTO E… MOURINHO!

Vinte dias depois, no arranque do trabalho no clube, André Villas-Boas apareceu em público, ao
lado de Pinto da Costa, para observar o jogo de juniores entre o FC Porto e o Sporting. O presidente
azul-e-branco pretendia, com estas aparições junto do técnico, reafirmar a sua aposta de risco e,
simultaneamente, dar a Villas-Boas o conforto de o ter por perto. Na verdade, poucos clubes do
mundo se podem orgulhar de dar aos seus treinadores tanta protecção como o FC Porto faz através do
seu presidente. Quem não se lembra da visita que Pinto da Costa fez a casa do técnico Fernando
Santos para, depois de uma derrota complicada e perante a forte contestação da massa adepta, lhe
propor o prolongamento do contrato que ligava o actual seleccionador da Grécia ao clube azul-e-
branco?
Ao mesmo tempo, e para sossegar os adeptos menos convencidos, aqueles que se mostravam mais
relutantes em aceitar a opção de risco do presidente, iam sendo feitas analogias várias com José
Mourinho e comparações com José Maria Pedroto , dado que, curiosamente, o velho e inesquecível
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“mestre” tinha começado a trabalhar como treinador no FC Porto com a mesma idade com que André
Villas-Boas iria iniciar…
Pedroto já não estava entre os vivos para concordar ou refutar as comparações que se faziam entre
a sua pessoa e o novo treinador dos dragões. Mas Mourinho não perdeu tempo a contestar a
legitimidade com que colavam o percurso de Villas-Boas ao seu. E, em entrevista concedida ao
diário desportivo Record, convidado a comentar o facto de André Villas-Boas ter sido a aposta do
FC Porto para substituir Jesualdo Ferreira, afirmou: “Costumo dizer que no futebol já nada me
surpreende. Os resultados é que determinam sempre se as decisões tomadas são as mais ou menos
correctas. Muitos podem perguntar porque é que escolheram alguém que nunca foi treinador na vida,
a não ser nestes dois ou três meses na Académica. Tudo vai depender dos jogos e dos resultados.
Agora não venham fazer comparações comigo, porque quando eu fui para o FC Porto já tinha
trabalho de campo feito, o que é bastante diferente. E ainda assim puseram-me muitos pontos de
interrogação.”
As palavras de Mourinho, entendidas pela generalidade dos comentadores como uma crítica feroz
a André Villas-Boas, não provocaram do lado do ex-observador um contra-ataque ao mesmo nível,
mas apenas uma resposta onde tentava, uma vez mais, demarcar-se da sombra do seu anterior chefe:
“Ainda bem que ele falou, ainda bem que pela voz de José Mourinho perceberam aquilo que venho
dizendo desde o dia 13 de Outubro quando fui apresentado como treinador da Académica. Não sou
um clone de Mourinho. Desde que cheguei a Portugal que tenho tentado explicar isso mesmo, mas
vocês vão sempre insistindo nisso. Pronto, agora temos mais argumentos para fazer valer a nossa
ideia.” E no mesmo fôlego, não deixando que lhe interrompessem o discurso, avançou com mais
algumas considerações: “Não temos o mesmo carácter, não temos a mesma personalidade e temos
maneiras diferentes de comunicar com os jogadores. Portanto, acho que assim ficam esclarecidos.
Bem, nem sei quantos jogos ele fez entre Benfica e União de Leiria antes de chegar ao FC Porto. Ou
temos os mesmos ou deve ter mais quatro ou cinco. Não sei. Não faço a mínima ideia qual a
contagem.”
A imprensa desportiva tratou de esclarecer Villas-Boas, apresentando a contabilidade dos jogos
que cada um tinha como treinador principal à data em que chegou ao FC Porto: José Mourinho,
totalizava, entre as várias competições, 11 jogos oficiais no Benfica e 20 na União de Leiria, ou seja,
um total de 31; pelo seu lado, à frente da Académica, André Villas-Boas tinha disputado 30 jogos.
Uma diferença (mínima) de um jogo, muito pouco significativa, portanto, para merecer aquele tipo de
comentário a Mourinho. O treinador do Real Madrid, provavelmente, queria referir-se ao trabalho de
campo que ele tinha desenvolvido ao lado de Bobby Robson (no Sporting, no FC Porto e no
Barcelona) e de Louis van Gaal (também no Barcelona). Mesmo que Villas-Boas tivesse, não dois ou
três, como afirmou Mourinho, mas praticamente oito meses de trabalho na Académica, o seu passado
não incluía qualquer tipo de trabalho de campo digno desse nome na sua equipa técnica.
A verdade é que este episódio desnudou as relações tensas entre Mourinho e Villas-Boas. Não
eram propriamente os dois melhores amigos. Enquanto estava na Académica, Villas-Boas tinha
frequentes contactos com Mourinho, nem que fosse através de SMS. Há quem diga que até para se
aconselhar. Também contactava muito frequentemente com Rui Faria para levantar questões técnicas
ligadas ao planeamento de treinos. Mas, desde que entrou no FC Porto, as coisas alteraram-se, ao
ponto de o jovem técnico ter mesmo afirmado, mais tarde, em Abril de 2011, que não falava com
José Mourinho. “Não tem nada a ver com a separação, até porque depois de eu sair, enquanto estava
na Académica, falava muito com ele. Rival? Não, eu não posso ser rival daquele que, na minha
opinião, será o melhor treinador de todos os tempos”, esclareceu Villas-Boas.
Manda a verdade dizer que, sempre que a ocasião o proporcionou, referiu-se de forma fortemente
elogiosa a José Mourinho. Em Outubro, ainda antes do Special One ganhar o prémio da FIFA para
melhor treinador do mundo, disse: “O sucesso que continua a acumular é completamente anormal,
mas é fruto da qualidade do seu trabalho e da regularidade impressionante com que ganha. Isso
demonstra de forma clara o grande treinador, líder e comunicador que é. De acordo com o que fizer
no futuro, vai ser, possivelmente, o melhor treinador de todos os tempos, tudo dependendo do tempo
que vai continuar na profissão. Mas não há dúvidas de que caminha para isso.” Quando Mourinho
ganhou o referido prémio, referiu-se à distinção como sendo justa e deixou palavras exactamente na
linha das que se acabam de transcrever.

WORKAHOLIC
O FC Porto regressou ao trabalho no dia 2 de Julho de 2010, como atrás se leu, sem contratações
muito significativas, o que direccionou ainda mais os holofotes para o novo treinador. Perante o olhar
atento de toda a administração da SAD, que assim, com Pinto da Costa à cabeça, tinha mais um gesto
público de claro apoio a Villas-Boas, o jovem técnico ministrou um treino em que a bola esteve
presente do princípio ao fim; de tarde, tiveram lugar os habituais exames médicos.
Os jogadores ficaram a saber que as regras de trabalho de Villas-Boas determinavam a chegada ao
local de trabalho com bastante antecedência relativamente à hora marcada para o treino. Quanto aos
novos métodos, mostrou desde logo que cortava a direito, de forma precisa, sem recurso a grandes
floreados. Os jogadores sentiam-se completamente à vontade para o procurar e Villas-Boas
incentivava essa interacção porque não queria que ninguém tivesse dúvidas relativamente aos novos
exercícios ou ao novo modelo táctico que queria implementar, uma variante do anterior 4x3x3. Ao
contrário do seu antecessor (Jesualdo Ferreira), uma pessoa reservada e que cultivava distâncias
relativamente aos jogadores, a barreira entre André e o plantel era pouco vincada. O que não
invalidava exigir dos jogadores uma atitude cem por cento profissional e responsável.
A exemplo do que tinha acontecido na Académica, os métodos do novo treinador agradaram
sobremaneira e de imediato se começaram a ouvir comentários muito favoráveis, de vários
jogadores, com referências aos treinos “muito dinâmicos e intensos”, “marcados pela originalidade
dos exercícios que o técnico vai desenhando no relvado”, ou ao treinador “novo de idade, mas com
métodos de trabalho muito bons”, percebendo-se facilmente “que é um técnico muito atento e
disponível, que tenta falar muito connosco, que procura perceber-nos em cada pormenor”. Mesmo
Raul Meireles, que teve oportunidade de trabalhar com Villas-Boas apenas antes de partir para
Liverpool, confidenciou posteriormente: “Trabalhei com o André durante um mês no FC Porto e é o
mesmo estilo [de José Mourinho]. Os treinos são excelentes, há mais variedade e treinamos muito
com bola, o que torna o trabalho agradável. Toda a gente sabe: se treinamos bem, jogamos bem.”
A sua dedicação e entrega ao trabalho ia também impressionando os que tinham oportunidade de o
acompanhar mais de perto. Conforme nos conta um elemento próximo da equipa, dando como
exemplo o estágio de pré-época, em Marienfeld, na Alemanha, Villas-Boas começava o dia cedo
pela manhã (08:00) e ficava a trabalhar sempre até bastante tarde (23:00). Digamos que era o
primeiro a acordar e o último a deitar-se.
O seu dia de trabalho começava com uma reunião com a equipa técnica. Objectivo: tratar dos
últimos pormenores relativos às duas sessões de treino do dia. Seguia-se o pequeno-almoço, que não
servia só para se alimentar, já que aproveitava o tempo para colocar em dia a leitura dos jornais.
Chegava ao relvado com meia-hora de antecedência relativamente à hora do treino (que tinha
normalmente lugar às 10:00) para poder ter tempo de verificar se estava tudo preparado de acordo
com o planeado. Depois, o treino propriamente dito, com duração aproximada de hora e meia, muito
intenso, com muitas intervenções no sentido de orientar, corrigir e incentivar os jogadores.
Às 13:00 almoço. Seguia-se uma pausa, não muito longa, porque uma nova reunião, desta vez com
todo o staff, tinha lugar por volta das 15:00 para fazer um ponto de situação em relação a todo o
plantel, com incidência em vários aspectos, como, por exemplo, a vertente clínica dos jogadores.
Depois, nova descida ao relvado com meia-hora de antecedência do treino da tarde (17:00), que era,
à semelhança da sessão matinal, muito vivo e intenso.
A jornada finalizava com o jantar (20:00), seguido da terceira e última reunião do dia para uma
análise pormenorizada sobre o trabalho realizado nesse dia e ainda preparar com minúcia a jornada
de trabalho que o plantel teria pela frente no dia seguinte. Em estágio ou fora dele, André Villas-
Boas vive numa permanente obsessão pelo seu trabalho. Sem dúvida, um wookaholic no sentido mais
lato que o termo pode comportar.

UM GUARDA-REDES, UM CAPITÃO

O dia 13 de Março de 2010 ditou o afastamento por longos meses de Mariano González. Lesionou-
se num jogo em Coimbra, uma lesão grave – rotura de ligamentos – que dois dias depois se
confirmou. Seis meses, foi o tempo mínimo estimado para o regresso de um dos capitães do grupo
então liderado por Jesualdo Ferreira. Esta circunstância, este azar do “patinho feio” dos dragões,
acabou por ter influência na época seguinte. Mariano era um dos líderes, não deixou de o ser com a
chegada de André Villas-Boas, mas a sua ausência dos relvados obrigava o treinador a promover um
novo capitão, uma vez que Bruno Alves e Raul Meireles tinham partido.
Com surpresa – sim, com surpresa para muitos – a escolha recaiu em Helton, que assumiu esse
papel, digamos, como o primeiro capitão de um grupo de quatro onde estavam ainda Falcao, Hulk e,
claro, o ausente Mariano. O argentino nunca deixou de estar perto do grupo e de ter todo o apoio dos
companheiros. Tinha fama de ser aquele que melhor ambiente criava. Jesualdo Ferreira, que muito
teimou com ele mesmo contra a vontade de muitos portistas, via em Mariano o futebolista que mais
batalhava pela saúde do ambiente. E o grupo gostava dele.
André Villas-Boas sabia de tudo isto. Talvez nunca lhe tenham perdoado o facto de não ter inscrito
Mariano na Liga Europa. O jogador lamentou isso um dia. Mas essa circunstância foi resolvida com
a escolha de Helton para capitão, também ele muito bem aceite por todo o grupo.
Na época anterior, o guarda-redes brasileiro tinha tido uma prestação muito irregular e a merecer
até vários comentários negativos e assobios dos adeptos. Ora, nesse momento Villas-Boas voltou a
surpreender: a aposta em Helton resultou em cheio. Os portistas passaram a ver um novo guarda-
redes, mais motivado, mais responsável também, com personalidade suficiente para actuar nas horas
difíceis com sensibilidade e sensatez. O jogador subiu de rendimento e voltou a revelar todas as
muitas qualidades que levaram um dia o FC Porto a contratá-lo ao União de Leiria.
André Villas-Boas ganhou, logo ali, um guarda-redes e um grupo e, digamos, conseguiu destruir
um argumento de Co Adriaanse, antigo treinador do FC Porto, sobre quem deve ser o capitão durante
um jogo de futebol. Vítor Baía, num arranque de época difícil para Jorge Costa, que acabou por
abandonar o clube e rumar a Liége, ficou com a braçadeira de capitão. O treinador holandês, quando
chegou ao clube, acabou por retirar-lha, argumentando que um guarda-redes não podia ser capitão.
Tinha de ser um jogador de campo. Impôs essa ideia, mas André Villas-Boas arrumou com ela.
Helton, que curiosamente ganhou o lugar ao mítico Baía no ano de Co Adriaanse (2006), tornou-se
num capitão ao estilo dos antigos capitães portistas e disse um dia que “a tarefa é fácil, mesmo para
um guarda-redes, quando se é capitão de um grupo disciplinado, que tem prazer de jogar futebol”, e
que se importa apenas com isso.
O jovem técnico tomou, portanto, uma decisão correcta e ganhou aí um guarda-redes, um grupo e
um capitão.
O LADO MAU DOS VENCEDORES

André Villas-Boas tem o lado mau dos vencedores: detesta críticas e críticos. Deu provas disso
ainda na pré-temporada ao serviço do FC Porto, revelando-se muito igual a Mourinho nas reacções.
Apesar da descolagem que tentou fazer logo no dia em que foi apresentado como novo treinador dos
dragões, a verdade é que o técnico mostrou-se sempre muito semelhante ao Special One na forma de
reagir às críticas, pelo menos...
Disputava-se o Torneio de Paris, no início de Agosto de 2010, o último antes do arranque oficial
da época. O FC Porto esteve mal nos dois jogos, com o Paris Saint-Germain e com o Bordéus. Uma
desilusão em duas grandes provas de fogo. Até então a equipa – se bem que vencendo
sucessivamente o Trabzonspor (1-0), o Ajax (1-0) e a Sampdoria (2-1) – não ia convencendo os mais
cépticos.
No Torneio de Paris viu-se um FC Porto muito mole, vagaroso, a denunciar as suas acções de
jogo, tornando-se numa equipa fácil de dominar. Também foi possível ver coisas boas,
nomeadamente nas acções ofensivas, destacadas pela imprensa que acompanhava o torneio. Mas
ficou a ideia de haver ainda muito trabalho pela frente. Falcao foi o alvo dos jornalistas, por não
marcar golos, depois de uma época de estreia fantástica com Jesualdo Ferreira.
André surgiu perante os jornalistas respondendo às críticas, com alguma dureza até, insinuando
ignorância por parte de quem fez as análises. O facto é que uma semana depois o FC Porto
conquistou de forma surpreendente, justa e brilhante a Supertaça. Logo aí, na conferência de
imprensa, Villas-Boas atacou quem escreveu mal sobre o FC Porto que tinha estado em Paris. No
momento de uma grande vitória, Villas-Boas quis aproveitar o mediatismo dessa conquista para se
vingar de quem, na sua opinião, leu mal o que se tinha passado em Paris.
As críticas que então lhe tinham sido feitas acabaram por ajudar quem dizia que Villas-Boas era
demasiado jovem para comandar uma equipa como a do FC Porto. Até porque o clube vinha de uma
época sem glória no campeonato, coisa pouco habitual na última década. Mas essas críticas foram
incómodas para o próprio treinador, que ao longo da vitoriosa temporada, sempre que a circunstância
lhe permitiu, falou do Torneio de Paris e de quem muito se enganou quando viu aí um mau FC Porto.

O VÍDEO QUE MUDOU


O CURSO DE TODA UMA ÉPOCA

A bem da verdade, a preparação para o primeiro jogo oficial da época – a Supertaça, contra o
Benfica, a 7 de Agosto – iniciou-se logo no primeiro dia de trabalho, a 2 de Julho, quando André
Villas-Boas teve o primeiro contacto com o plantel.
O Benfica, inimigo a abater e adversário que nenhum portista quer ver a ganhar o que quer que
seja, tinha – segundo a opinião generalizada dos comentadores – iniciado um novo ciclo no futebol
português, rompendo com a hegemonia dos dragões. À convincente vitória na Liga 2009-10 somava-
se uma pré-época cheia de troféus e goleadas. Exactamente à medida do que tinha acontecido na pré-
época anterior, a que tinha projectado a equipa para o título. Ao mesmo tempo, o treinador do
Benfica, Jorge Jesus, era apontado como o Special Two, e, embalado no seu já famoso auto-
convencimento, acabava de afirmar em directo num programa de televisão que muito dificilmente o
Benfica não voltaria a sagrar-se campeão. Para ajudar à festa encarnada, a última vez que as duas
equipas se tinham encontrado numa final, o Benfica tinha tranquilamente “despachado” o FC Porto
por um concludente 3-0. Foi na final da Taça da Liga, no estádio Algarve, em Março de 2010.
Mas André Villas-Boas, no tal primeiro contacto que teve com o grupo de trabalho a 2 de Julho,
tratou, logo aí, de surpreender os jogadores. Havendo muitas formas de motivar ou de espicaçar uma
equipa, o novo treinador do FC Porto pensou e encontrou uma que teve naturalmente um forte efeito
psicológico em todo o grupo. Enquanto dirigia as primeiras palavras aos jogadores, numa sala do
centro de estágio do Olival, foi projectado um filme – que passava nas costas do treinador – com
imagens dos jogadores do Benfica a festejarem o título da época 2009-10. Nem foi preciso falar
muito sobre o assunto... Os jogadores perceberam imediatamente o que pretendia o técnico. Aquelas
imagens eram as que não podiam ser repetidas na temporada que estava a começar.
Esse vídeo acompanhou todas as palestras de Villas-Boas durante a pré-temporada. Se uma
imagem vale por mil palavras, aquelas imagens tinham mais palavras do que mil palestras! A pré-
temporada tem como objectivo preparar uma equipa, promover um conhecimento mais profundo entre
todos, interiorizar as ideias do treinador, praticá-las em cada jogo, em cada treino. Foi essa a
mensagem que o treinador passou.
Enquanto os benfiquistas iam vivendo de elogios e projectando mais uma época de sonho, os
jogadores portistas iam fixando aquele vídeo dos festejos do Benfica, aqui e ali enriquecidos com
declarações de jogadores dos altetas campeões que de alguma forma mexessem com o orgulho do
grupo de trabalho portista. Um trabalho de pesquisa e recolha feito normalmente por Pedro Emanuel,
treinador adjunto, e por Acácio Valentim, team manager do plantel principal do clube.
Essas imagens entraram no subconsciente dos futebolistas e por isso se disse que na Supertaça o
FC Porto fez um jogo de revolta... Uma revolta em campo que calou os críticos mais severos e, mais
do que isso, fez mossa na equipa orientada por Jorge Jesus. Esse era também o objectivo.
A conquista da Supertaça, a 7 de Agosto, foi, assim, o resultado de um apetite refinado pelo desejo
de vingança. Quebrar aquela alegria do Benfica que se prolongou pela pré-temporada dentro era o
objectivo. E estava conseguido. Jorge Jesus reconheceu por completo o mérito da vitória do FC
Porto por 2-0 – “Foi mais eficaz do que o Benfica e um justo vencedor” – enquanto Villas-Boas
explicou que aquele era “o grito de revolta que o FC Porto tinha de dar. Houve inspiração e
sentimento de responsabilidade, como houve quando o Benfica pensava, no ano passado, que ia ser
campeão onde não devia [no estádio do Dragão] e isso levou à transcendência”.
Depois, na conferência de imprensa que antecedeu o primeiro jogo para a Liga, André Villas-Boas
voltou ao tema da motivação a propósito da retumbante vitória na Supertaça, e foi ainda mais
explícito: “Nunca se pode descurar os factores de transcendência e de motivação. Se calhar, por
parte de alguns treinadores há uma exacerbação do trabalho táctico porque lhes convém e também
serve para determinado tipo de promoção [uma indirecta a Jorge Jesus], mas sempre soube que o
factor motivacional iria influir no rendimento dos jogadores e avisei para isso. Quando uma equipa
organizada junta o factor motivacional, havendo absorção da mensagem na sua totalidade, aparece o
rendimento desportivo. Por isso, antes do jogo da Supertaça falei do factor motivacional, que para
mim conta muito.” E contou.
Mas nesse jogo, que permitiu a André Villas-Boas tornar-se no segundo treinador mais jovem de
sempre a ganhar um título em Portugal, o técnico portista deu também mostras de ser tacticamente
muito forte na forma como, por exemplo, anulou através do posicionamento defensivo de Falcao as
linhas de passe de David Luiz, obrigando a que fosse Luisão (o outro central encarnado, fraco com a
bola nos pés) a iniciar a construção de jogo a partir da linha mais recuada do Benfica; ou na forma
como encarregou João Moutinho de “tapar” as subidas de Fábio Coentrão, fundamentais para o jogo
do campeão; ou ainda como montou a equipa para controlar quase por completo os movimentos da
dupla Aimar-Saviola, que tinha sido decisiva na conquista do título de campeão para o Benfica.
O FC Porto apresentou o mesmo sistema táctico da época anterior – o 4x3x3 – mas muito mais
maleável e privilegiando a posse de bola. O trinco não se limitou à função defensiva e do meio-
campo para a frente a ordem foi a de provocar desequilíbrios através movimentações e trocas
posicionais constantes. Uma equipa que nunca esteve quieta – bem à imagem do seu treinador, diga-
se –, pressionando em bloco logo à saída da área do Benfica. Aplicou ao seu adversário uma
autêntica técnica de “asfixiamento”. E o resultado de 2-0 foi até lisonjeiro para os lisboetas.
Resumindo, uma forma de jogar completamente nova, para melhor, com apenas um jogador novo
no onze: o médio ex-sportinguista João Moutinho. O que denotou, desde logo, a enorme qualidade do
trabalho desenvolvido pelo tal treinador jovem e inexperiente…
O técnico portista continuou a utilizar o vídeo com as imagens do Benfica campeão para lá da
Supertaça. Mudou depois o chip quando o FC Porto agarrou uma vantagem de nove pontos no
campeonato. A partir desse momento, os filmes de motivação passaram a ser outros: do elogio a uma
boa exibição à simples retransmissão dos melhores momentos. O vídeo do Benfica ficou para trás. O
realizador tinha feito um trabalho… perfeito!

NOVA FORMA DE COMUNICAR

Entre as várias novidades que implementou com a sua chegada ao clube, André Villas-Boas
instituiu uma nova e peculiar forma de se relacionar com a comunicação social: decidiu que não
daria entrevistas em exclusivo a absolutamente ninguém e que estaria à disposição de todos os
jornalistas através das tradicionais conferências de imprensa.
Nunca o clube teve um treinador a impor-se desta forma. A decisão foi cumprida em absoluto
durante a época à frente da equipa azul-e-branca. Nas conferências de imprensa – num registo por
vezes provocador, mas seguro – nunca recusou uma pergunta, permanecia o tempo que fosse
necessário para responder a todos, assumiu o confronto com os jornalistas sempre que foi necessário.
Colocou-se quase como que “do outro lado”, uma vez que abordou sempre questões novas. Deu até
algumas “aulas”, estabeleceu diálogos curiosos e “forneceu” sempre um título de primeira página.
Nenhum jornalista saía do Olival sem uma história para contar.
Ao que se sabe, o técnico raramente se aconselhava sobre o que ia dizer, e isso, num clube onde a
comunicação é gerida com pinças, não agradou muito a quem o rodeava. Mas como foi
coleccionando sucessos atrás de sucessos, foi também ganhando crédito para falar naquilo que muito
bem entendia.
A dada altura, e porque considerou que as suas declarações não estavam a ser fielmente
interpretadas pelos jornalistas, ou pelo menos por parte de alguns – “por vezes, são retiradas do
contexto ou cortadas frases minhas nas reportagens que se vêm nos jornais no dia a seguir ou nas
manchetes” –, determinou que as conferências de imprensa passassem a ser gravadas e, depois,
disponibilizadas no site do FC Porto. Mais uma originalidade. Muito rigoroso com os horários,
raramente se atrasou relativamente à hora marcada para as conferências de imprensa. E da (talvez)
única vez em que isso sucedeu, quando apareceu às 13:00 para uma conferência de imprensa que
estava marcada para as 12:30, resolveu o assunto com uma declaração que arrebatou a gargalhada
dos que o esperavam, desfazendo até os rostos mais contrariados: “Já sei que lhes estraguei o
almoço… depois pago-lhes um almoço!”
Enquanto André Villas-Boas se predispunha para diálogos longos com os jornalistas e não deixava
questão sem resposta, o treinador do Benfica, fruto da política de comunicação do clube encarnado,
respondia apenas a questões… do canal oficial do clube. Facto aproveitado pelo treinador portista,
que a uma afirmação do rival – “Sabemos que vamos ser campeões outra vez. Vamos ser
bicampeões!” – logo respondeu com mais uma provocação: “A quantos jornalistas é que ele disse
isso? As conferências de imprensa de Jorge Jesus são monólogos porque são em exclusivo para o
canal do clube. Portanto, é muito fácil passar a mensagem sem haver confronto de ideias, sem haver
outras questões pelo meio.”
Os chamados mind games, principalmente nas disputas com o treinador encarnado, foram uma
constante ao longo de toda a época. Mas quando Jorge Jesus começou a ser contestado dentro do seu
próprio clube, André Villas-Boas não deixou de o defender publicamente. “Devo sair em defesa de
alguém que deu tudo por um clube, que revolucionou um clube, transformou o futebol de um clube e
que nesta altura passa pelo homem que tem de ser castigado e penalizado. É uma constatação
chocante do que está a acontecer a um colega de profissão que passou de bestial a besta em apenas
três meses, algo que poderá passar-se comigo”, afirmou de forma sincera.
Nem a presença cada vez mais assídua de jornalistas estrangeiros – que queriam conhecer o
homem que estava a arrebatar tudo e mais alguma coisa à frente do FC Porto, mas muito
principalmente a partir do momento em que, fruto desse sucesso, começou a ser apontado a vários
clubes do velho continente como a Juventus, Inter, Atlético de Madrid, Chelsea, Liverpool ou Roma –
alterou a forma do técnico se disponibilizar a responder a todas as perguntas que lhe iam sendo
colocadas. Mesmo às mais absurdas, como quando o interrogaram sobre a possibilidade de a
Juventus ter enviado dois emissários ao Porto para o observar. “Onde é que já se viu um clube
mandar emissários para observar um treinador? É um absurdo dizer-se que vêm observar-me.
Durante um jogo, o treinador não faz mais nada do que passear o fato junto ao banco e dar uma
corridinha de vez em quando…”
Nas conferências de imprensa, André Villas-Boas jogou sempre ao ataque, mas de forma muito
bem controlada. Tal e qual a equipa ia fazendo dentro do campo.

“LIGA EUROPA É PARA GANHAR”

A estreia de André Villas-Boas na alta roda da Europa do futebol deu-se em Genk (Bélgica),
contra a equipa local, no dia 19 de Agosto de 2010. Na tradicional conferência de imprensa da
véspera do jogo, afirmou, peremptório, que a “Liga Europa é para ganhar”. Mesmo tendo em conta
que o FC Porto é uma equipa habituada a participar na Champions League, sendo mesmo das que
mais presenças tem na competição, a afirmação foi mais uma prova inequívoca de que o técnico, não
obstante ser sempre muito reservado e equilibrado nas declarações que profere, gosta de correr e
assumir riscos. Fez a afirmação antes do jogo, medindo bem as palavras, sem se preocupar com o
facto de ir viver sempre com o peso daquela declaração ao longo de toda a prova.
No dia do jogo, o brasileiro Hulk recebeu uma notícia terrível: a morte de uma sobrinha de ano e
meio, filha de uma irmã, numa piscina de sua casa. Hulk estava a arrancar para uma época
extraordinária, seria um elemento a contar para esse jogo, mas Villas-Boas nem olhou para trás.
Sobrepondo-se a todos os interesses em jogo, mandou os serviços de apoio do FC Porto
providenciarem tudo para que o jogador partisse de imediato rumo ao Brasil, via Porto, onde se
juntou à mulher e filhos. E nem quis que se marcasse o bilhete de regresso, fazendo saber que o
jogador voltaria apenas quando se sentisse emocionalmente seguro. Perdeu um jogador para esse
importante encontro, mas ganhou um futebolista e um defensor para a vida.
O brasileiro mostrou-se grato. Foi ao Brasil viver de perto o drama e acompanhar a irmã na dor
pela morte da filha, e voltou ao Porto apenas quatro dias depois. Foi, naturalmente, alvo de todas as
atenções dos companheiros e do apoio dos responsáveis do clube, principalmente da equipa técnica,
que se preocupou, acima de tudo, com a parte psicológica do jogador após este ter vivido quatro dias
de dor profunda. Aliás, em Genk, numa clara demonstração do espírito de grupo que já imperava na
equipa, os colegas haviam-lhe oferecido a vitória, tendo inclusivamente Falcao exibido a sua
camisola após a marcação do primeiro golo no Cristal Arena.
O brasileiro voltou, e de que maneira! Foi uma motivação com os piores motivos, mas a realidade
traduziu-se em números... Hulk, que tinha falhado apenas o jogo com o Genk, na Bélgica, e depois
com o Beira-Mar, no estádio do Dragão, voltou para o jogo da segunda mão com os belgas e
marcou… três dos quatro golos portistas (4-2, resultado final)!
André Villas-Boas, fiel ao seu princípio de olhar para o homem antes do jogador, mostrou-se
satisfeito pelos três golos apontados por Hulk, no entanto adiantou que “ele precisa de viver
momentos de alegria depois de ter passado por uma enorme tristeza, mas o luto demora a passar e
nós vamos respeitar esse luto”. E Hulk voltou a responder em grande dentro do campo: marcou mais
dois golos, os da vitória (2-0) do FC Porto contra o Rio Ave, em Vila do Conde!
O gesto do treinador caiu bem em todo o grupo de trabalho. Embora a reboque de uma
circunstância tremendamente infeliz, os jogadores ficaram com a certeza de que tinham nele também
um amigo.

A “AZIA” DE HULK

O jogador mais valioso do plantel do FC Porto, que tem uma cláusula de rescisão fixada na
enormidade de 100 milhões de euros, e em relação ao qual o presidente Pinto da Costa afirmou não
aceitar trocar por Cristiano Ronaldo se essa proposta lhe fosse feita, voltou a ser alvo da atenção de
André Villas-Boas pouco tempo depois. Só que, desta vez, por (maus) motivos profissionais.
De facto, Hulk mostrou-se insatisfeito após ter sido substituído em Sófia, no jogo contra o CSKA,
uma vez que também já tinha sido substituído com o Rapid de Viena, em casa, ambos os jogos a
contar para a fase de grupos da Liga Europa. As imagens televisivas não enganaram e o empresário
do avançado brasileiro apressou-se a esclarecer que tudo tinha ficado resolvido com Villas-Boas no
final do jogo. E assim foi, efectivamente.
Ao contrário do que seria de esperar, ou do que se imagina, André Villas-Boas nunca teve
conversas particulares com os jogadores eventualmente contrariados. Falou sempre olhos-nos-olhos
com o grupo sobre cada um deles e foi claro na mensagem que passou: “Aqui o que importa é o
grupo, o clube, e não este ou aquele jogador em particular.” Com esta atitude, que é a mais
aconselhável, marcou bem a sua posição. Ele que, sendo um jovem à frente de um plantel igualmente
jovem, nunca permitiu faltas de respeito num treino ou num jogo.
Quando interrogado sobre se o incomodava o desagrado manifestado por Hulk, respondeu
simplesmente: “Não, em absoluto, desde que não me batam…” E aproveitou para explicar as razões
da substituição do brasileiro, que nada tinham a ver com gestão de esforço, uma vez que tinha feito as
substituições no jogo de Sófia porque “as características do jogo estavam a mudar e necessitávamos
de maior pausa e tranquilidade com a bola, segurar o jogo mais no meio-campo ofensivo, pois
estávamos com uma taxa de insucesso no controlo da bola no último terço do campo. Lancei Varela
porque não rompe tanto como o Hulk e Walter porque segura e troca mais a bola com os médios”. E,
depois, colocou um ponto final no assunto, transmitindo para fora o que já tinha dito lá dentro:
“Jamais será permitido que este ou aquele jogador cumpra objectivos individuais em vez dos
colectivos.”
Aos poucos, os jogadores foram percebendo que não valia de nada fazer cara feia. Os resultados
foram fazendo o resto, porque quando uma equipa ganha é tudo mais fácil e quem não joga fica sem
moral para manifestar o seu desagrado. Ruben Micael, por exemplo, que chegou ao Porto como um
jovem promissor depois de uma batalha com o Sporting pela sua contratação, perdeu o lugar para o
recém-chegado João Moutinho e não encontrou espaço no meio-campo de Villas-Boas porque,
entretanto, o argentino Belluschi começou a revelar toda a sua qualidade. Mesmo sendo
habitualmente suplente, o madeirense acabou por ser chamado à Selecção de Portugal por Paulo
Bento, marcou até na sua estreia os dois golos da vitória de Portugal (2-0) no amigável contra a
Finlândia, e no final desse jogo expressou-se com alguma mágoa pela sua condição de suplente no
clube. Não lhe adiantou de muito…
Fredy Guarín, na era das redes sociais, colou-se ao twitter e, depois de um grande golo na Liga
Europa contra o Sevilha – que acabaria por ser fundamental nas contas finais da eliminatória – e de
outro grande golo em Moscovo, também para a Liga Europa, afirmou: “Não sei o que hei-de fazer
mais para ser titular no FC Porto.” Um desabafo que tinha razão de ser e que era o resultado de mais
uma época sem ser primeira aposta (já acontecera o mesmo com Jesualdo Ferreira). Villas-Boas
falou, como sempre, em conferência de imprensa, e deixou bem marcada a sua posição ao dizer que
“jogam aqueles que entendo que devem jogar”. Ponto final. Não se sabe quem ganhou esta batalha,
mas a verdade é que, por se ter imposto pela sua qualidade, Guarín acabou a época numa forma
tremenda, tendo sido para muitos um dos jogadores mais importantes do FC Porto de André Villas-
Boas.
Outro caso que correu a época foi o do ponta-de-lança Walter, uma das contratações para a época
2010-11. O brasileiro ia jogando poucos minutos, mas marcava golos, afinal o que mais se pede a um
avançado de área. Mas a dada altura, mesmo com Falcao lesionado, o dianteiro deixou de ser opção
de André Villas-Boas, que nem para o banco de suplentes o chamava. O técnico viu-se obrigado a
colocar Hulk na frente do ataque, mas Walter continuava de fora.
Especulou-se muito sobre o comportamento pouco recomendável do jogador na sua vida privada,
mas André Villas-Boas, sempre de uma exigência extrema durante as sessões de trabalho, que queria
que os jogadores treinassem como jogavam e que trabalhassem intensamente o modelo de jogo
definido e que passava muito, no caso dos avançados, pela pressão sobre a defesa contrária, baseou
a sua decisão na atitude do jogador dentro do campo, essencialmente nos treinos. Para o treinador do
FC Porto, Walter não cumpria com o modelo táctico da equipa, nomeadamente no capítulo da
pressão, e, por isso, deixou de contar com ele. Mas não deixou de defender o jogador a propósito
dos boatos de que andava em noitadas no Porto, negando a notícia e insurgindo-se contra quem a
colocou a correr.
Quando o avançado brasileiro disse que podia regressar ao seu país natal, o treinador comentou:
“O desabafo de Walter é natural. Queremos que ele triunfe e ele sabe a mensagem que lhe transmiti
porque o fiz à frente de todos os companheiros.” Confirmado, uma vez mais, que André Villas-Boas
gosta de resolver os casos, olhos-nos-olhos, em frente de todo o grupo de trabalho, para que o recado
que se destina a um possa ao mesmo tempo ser assimilado por todos. Uma forma frontal, eficaz e
pedagógica de ultrapassar eventuais focos de descontentamento.

EU PECADOR ME CONFESSO

A convincente, motivadora e decisiva vitória no primeiro jogo oficial da época 2010-11 lançou o
FC Porto para um início de temporada verdadeiramente avassalador, com vitórias atrás de vitórias e
recordes em cima de recordes.
Mas depois de 11 triunfos consecutivos nas várias competições em que estava envolvido, das
quais seis na Liga, o FC Porto teve o seu primeiro percalço. Aconteceu no estádio D. Afonso
Henriques, em Guimarães, à 7ª jornada da Liga, num jogo polémico, mais pelas reacções dos
portistas – e particularmente de André Villas-Boas – do que pelo que realmente aconteceu no jogo.
Não foi um bom jogo do FC Porto, que empatou a um golo, perdendo pelo meio o lateral Fucile,
protagonista de uma entrada perigosíssima sobre o marroquino Faouzi. O lance foi mesmo junto ao
banco dos dragões e o jovem treinador saltou como uma mola para o relvado, crescendo para o
árbitro da partida, Carlos Xistra, que o expulsou na sequência desses protestos.
Na conferência de imprensa após o jogo, Villas-Boas continuava muito alterado. Surpreendeu
todos os jornalistas ao explicar que a sua reacção fora motivada por um lance em que o árbitro não
marcou grande penalidade de Alex sobre Ruben Micael, aos 77 minutos, momentos antes do lance da
expulsão de Fucile.
Acontece que ninguém tinha visto quaisquer motivos para grande penalidade. Villas-Boas foi
duríssimo com o árbitro Caros Xistra, acusando-o mesmo de ter sido decisivo no desfecho da partida
(que acabou 1-1, mas na altura do tal lance o FC Porto vencia por 1-0). “Houve um erro declarado
que mudou o sentido do jogo”, afirmou.
Ora o treinador falou depois de receber a informação do assessor de imprensa do clube, Rui
Cerqueira, que, por sua vez, se baseou numa mensagem recebida de um amigo. Uma má informação,
portanto. Villas-Boas confiou, o que é natural naquelas circunstâncias.
Isto aconteceu no dia 4 de Outubro de 2010. Um dia depois, e após a transmissão exaustiva de
imagens pela TVI, o canal que tinha assegurado a transmissão directa do jogo, provando que não
houve qualquer grande penalidade no lance referido pelo treinador, Villas-Boas voltou a surpreender,
colocando no site do FC Porto um comunicado onde reconhecia que não tinha havido qualquer grande
penalidade, desculpando-se pela reacção intempestiva que tivera durante o jogo e pelas declarações
efectuadas no final. “Confirma-se que não há realmente caso para grande penalidade. Nessa jogada
as críticas são infundadas e injustas”, podia ler-se no referido comunicado.
Um acto de contrição, um mea culpa que surpreendeu os críticos. Villas-Boas já era acusado de
ter mau perder e vacilar psicologicamente à primeira adversidade. No entanto, aquele era também um
acto arriscado, pouco habitual no futebol português. Acabou por ter um efeito positivo em dois
planos: primeiro, André aprendeu a ter mais cuidado nas afirmações sobre lances (tanto que ao longo
da época raramente comentou qualquer lance polémico sem o observar antes); segundo, o treinador
conquistou simpatias mesmo onde não se pensava, apesar de não ter escapado a algumas alfinetadas
tão do seu desagrado. Mas não deixou de ser um acto de tremenda surpresa para quem já começava a
impressionar no futebol português.

ÓPERA

A vida corria bem a André Villas-Boas…


O jovem técnico portista tinha todas as razões para andar feliz: comemorou um ano de carreira
como treinador principal já à frente de um “grande” de Portugal (o seu FC Porto), foi pai de uma
segunda menina, fez 33 anos (a 17 de Outubro) e a equipa, a crescer de jogo para jogo, aliava
vitórias a espectáculos de qualidade cada vez mais convincente. Na Europa e em Portugal.
Mas, depois da esmagadora vitória na Supertaça em Agosto, vinha já aí o segundo grande embate
da época com o campeão Benfica, que, após um início comprometedor na Liga (três derrotas em
quatro jogos), vinha acumulando vitórias e estava a apenas sete pontos de distância da equipa azul-e-
branca. O jogo, a ser disputado no estádio do Dragão, revelava-se absolutamente decisivo para o
Benfica, mas podia, em caso de vitória deste, colocar em causa o percurso de sucesso do FC Porto
rumo ao título.
André Villas-Boas voltou, tal como no primeiro jogo da época, a colocar ênfase no factor
motivacional, na transcendência do grupo, puxando pelo episódio do túnel da Luz que na época
anterior atirara Hulk e Sapunaru – alegadamente agrediram um steward – para fora da competição
por largos meses, insistindo as hostes azuis-e-brancas ter aquele caso sido fruto de uma espécie de
emboscada armada pelo Benfica para “anular” o melhor jogador dos portistas.
“O FC Porto será uma equipa em permanente estado de revolta pelos objectivos que perdeu na
última época e pelas injustiças que lhe foram feitas em relação a dois jogadores.” Foi assim, tal e
qual, que André Villas-Boas se referiu ao jogo na conferência de imprensa que o antecedeu. E
continuou a bater na mesma tecla, afirmando acreditar “na importância de uma palestra, por muito
que o futebol actual se divirta com o táctico. Convém a muita gente destacar esse aspecto para
esconder as fraquezas. Ter qualidades humanas também é muito importante. Acredito nos valores da
transcendência, da força do balneário. Nesse jogo da Supertaça houve um grito de revolta, e esse
grito continua, pelas injustiças que se cometeram na época passada”.
Sempre que André Villas-Boas destacou a importância que outros dão ao aspecto táctico para
esconder fraquezas várias, referia-se indirectamente a Jorge Jesus, treinador do Benfica, que se auto-
considera um catedrático da táctica, enquanto que, por outro lado, é tido como alguém com uma
liderança de balneário à moda antiga, muito desgastante para os jogadores.
Mas era curiosamente no plano táctico que as especulações à volta do jogo se iam desenrolando. A
saber: como iria Jorge Jesus montar a sua equipa para anular o portentoso Hulk? Iria colocar David
Luiz, o melhor central do campeonato, a jogar a lateral esquerdo, adiantando Fábio Coentrão, o
melhor lateral esquerdo, para o meio-campo? Na época anterior tinha experimentado a mesma
solução em Liverpool, em jogo a contar para a Taça UEFA, e o resultado tinha sido catastrófico: 4-1
favorável aos reds e o Benfica fora da competição nos quartos-de-final.
O técnico do FC Porto não se mostrava impressionado com esta questão e dizia-se preparado para
a eventual alteração na organização defensiva do seu adversário: “Não sei se David Luiz vai jogar a
defesaesquerdo. Se isso acontecer mudam os comportamentos. Já falei com os jogadores sobre isso e
estaremos preparados.”
O Benfica entrou mesmo em campo com David Luiz a defesa-esquerdo e Fábio Coentrão mais
adiantado no terreno. O resultado voltou a ser… catastrófico: à meia-hora de jogo o FC Porto já
vencia por 3-0. André Villas-Boas dissera que estava preparado para as alterações do Benfica e,
pelos vistos, estava mesmo: os três golos tiveram origem exactamente naquela zona de acção. O FC
Porto não abrandou e no final o resultado cifrou-se num histórico 5-0, resultado de uma exibição
portentosa dos azuis-e-brancos.
Sobre a colocação de David Luiz a defesa-esquerdo, afirmou o treinador do FC Porto no final do
jogo: “Sem sentido crítico, é importante perceber que o adversário mexeu na dinâmica com essa
alteração. Se calhar apostou-se demasiado num duelo e acreditou-se que esse duelo podia resolver
todos os problemas, mas passou-se exactamente o contrário. Um jogo é um duelo entre duas
organizações, não entre valores individuais.” E, voltando novamente ao discurso da revolta,
acrescentou: “Demos em campo o nosso grito de revolta em relação ao ano passado, fica assinalado
um resultado histórico contra o campeão nacional.”
Com mais esta vitória, o FC Porto tinha já dez pontos de avanço sobre o segundo classificado,
precisamente o Benfica, e a generalidade dos observadores considerou como encerrada a questão do
título. Ainda estávamos na primeira metade de Novembro… O técnico não alinhou na euforia geral e
explicou porquê: “Eu vivi com José Mourinho uma experiência semelhante no Chelsea, quando
tínhamos 12 pontos de vantagem em relação ao Manchester United. Eram 12 pontos de avanço mas
não deixámos de sentir a pressão.”
Mourinho (sempre Mourinho!) que, por seu lado, considerou que ganhar a Liga portuguesa não era
tarefa difícil. Muitos interpretaram esta afirmação como uma forma de desvalorizar o trabalho que
André Villas-Boas estava a desenvolver. O próprio treinador do FC Porto sentiu necessidade de se
defender, afirmando que discordava em absoluto e que “não há campeonatos fáceis de se vencer. Não
foi fácil ganharmos no Inter, não foi fácil a Mourinho devolver ao Chelsea o título ao fim de 50 anos.
Acho que é ridículo dizer isso”. Mas a verdade é que Mourinho já tinha afirmado exactamente o
mesmo em Novembro de 2004, portanto, muito tempo antes de André Villas-Boas sonhar sequer em
ser treinador dos azuis-e-brancos: “É mais difícil em Inglaterra. Nas duas épocas no FC Porto foi
bastante fácil ganhar a Liga.”
Em Dezembro, antes do fecho do ano, numa altura em que o FC Porto continuava invicto, somando
23 vitórias em 26 jogos oficiais disputados, com 64 golos marcados e apenas 12 sofridos, Pinto da
Costa anunciou a renovação do contrato do treinador, prolongando-o até ao final da época 2012-13,
explicando que aquela era “a única maneira de manifestar confiança no técnico” e mais adiantando
que esperava que fosse “a primeira de muitas renovações com André Villas-Boas”.
A vida continuava a correr bem a André Villas-Boas...

PASSO A PASSO

Nas empresas, os objectivos são traçados e controlados ao mês, às vezes à semana ou até mesmo
ao dia, para que no final do ano o grande objectivo possa ser alcançado. André Villas-Boas seguiu a
mesma filosofia na sua primeira época no FC Porto: foi colocando ao plantel pequenos objectivos,
uns atrás dos outros, por forma a que os grandes objectivos fossem plenamente atingidos ou até
ultrapassados.
Foram muitos os que perguntaram como era possível uma equipa manter sempre tão elevados os
níveis de motivação, demonstrar sempre tanta fome de vitória mesmo quando o resultado de um jogo
não contava para quase nada. Parcelando os objectivos, André Villas-Boas manteve os jogadores
sempre debaixo de pressão, mas uma pressão saudável, que virava motivação.
No final da segunda jornada, ainda a procissão da Liga ia no adro, com a folha do calendário
pousada no mês de Agosto, e já André Villas-Boas, após a vitória caseira sobre o Beira-Mar por 3-
0, observava: “O primeiro objectivo era chegar à liderança”, para depois acrescentar que havia “um
sentimento forte, no balneário, de primeiro objectivo atingido”. O FC Porto já tinha ganho alguma
coisa? Não, à segunda jornada nada podia estar ganho, é verdade, mas a equipa tinha entrado na Liga
sem facilitar, vencendo os dois primeiros jogos e deixando o campeão Benfica, o alvo a abater, a… 6
pontos de distância!
Antes do Natal, por exemplo, e quando já seguia confortável no comando do campeonato, traçou
como objectivo ganhar os quatro jogos que havia que disputar até os jogadores partirem para as
férias natalícias. Para manter distâncias relativamente aos adversários. As suas mensagens foram
sempre passadas primeiro no balneário, mas depois tornadas públicas nas conferências de imprensa,
para não haver qualquer espécie de desvio de ideias.
Antes do último desses quatro jogos, em Paços de Ferreira, o presidente da equipa local afirmou
que seria ali que o FC Porto iria perder a invencibilidade. Villas-Boas agradeceu a ajuda: “Está
criado o ambiente ideal à volta do jogo. Agradeço as palavras do presidente do Paços porque nos
colocou nos píncaros da motivação. Estaríamos da mesma forma motivados sem essas palavras, mas
se podia haver alguma distracção com as férias, o Natal e as compras, a partir daquelas palavras
deixou de haver.” E o FC Porto lá foi para o Natal com mais 4 vitórias no bornal. Em Paços de
Ferreira ganhou por 3-0…
Quem parecia não entender muito bem esta filosofia era o treinador do Benfica, Jorge Jesus. Em
resposta a uma intervenção do técnico portista, que afirmou que o Benfica tinha “levado” 10-1 nos
últimos três confrontos com o FC Porto (3-1 no final da época 2009-10 com Jesualdo Ferreira, 2-0
na Supertaça e 5-0 para a Liga com Villas-Boas), Jesus disse que a contabilidade do Benfica se fazia
“com os títulos ganhos e não com os jogos. Ganhar jogos é importante, mas, no fim, o que contam são
os títulos”. Somos capazes de adivinhar que esta resposta de Jesus foi mais uma ferramenta
motivacional a ser utilizada por André Villas-Boas…
Aliás, o técnico portista teve sempre muita atenção ao que diziam os seus rivais, principalmente o
do Benfica, por forma a poder tirar partido dessas afirmações no processo motivacional do seu grupo
de trabalho. “O que dizem da boca para fora são fait-divers. São comentários que servem para
colocarmos no placard e olharmos para eles durante a semana”, explicou.
A filosofia dos objectivos parcelares teve outro mérito fundamental: obrigou a equipa a olhar
sempre para a frente e a esquecer as euforias que as vitórias provocam. Isto é, não deixaram a equipa
adormecer à sombra dos avanços adquiridos, dos apuramentos garantidos ou mesmo dos títulos
conquistados. Um objectivo alcançado e logo outro estava já no horizonte mais próximo da equipa.
Esta foi, aliás, uma preocupação permanente de Villas-Boas ao longo da época: colocar água na
fervura dos adeptos e da equipa. Logo após a vitória na Supertaça deu o primeiro mote: “É
importante que a equipa não se deixe acalmar perante a quantidade de recentes elogios.” E depois da
gorda vitória por 5-0 sobre o Benfica, que deu um embalo anímico tremendo à equipa, teve
necessidade de controlar a euforia dos seus jogadores, dizendo que o resultado tinha sido fruto de
uma extraordinária exibição, sim senhor, mas que se tratara de um resultado anormal, daqueles que
acontecem uma vez de longe em longe. No virar da primeira para a segunda metade da época voltou a
ser muito claro na mensagem que passou: “Tivemos cinco meses óptimos, mas os próximos cinco é
que são fundamentais.”
Por esta altura já se tinha deixado de dizer que André Villas-Boas era um técnico jovem e
inexperiente, para se passar a escrever que se estava a assistir à revelação de um grande treinador de
futebol, de um novo caso de sucesso, na senda de José Mourinho.
Mais adiantado na época, passos largos a caminho do título, André definiu outra meta: ser
campeão na casa do grande rival, o que, para ser conseguido, obrigaria a que a equipa vencesse mais
cinco jogos seguidos. O arrojo das afirmações deixou muito incomodados os rivais de Lisboa. A
opinião pública começou a falar do nariz empinado de Villas-Boas, mas lá no fundo todos sabiam
que isso era possível. E a ideia do técnico (ser campeão na visita ao estádio da Luz) perturbou o
Benfica, ao ponto do dragões terem chegado mesmo ao título nesse jogo. A vitória foi saborosa, 2-1,
mas os jogadores e restante grupo de trabalho tiveram de festejar às escuras porque alguém do lado
encarnado se lembrou de mandar apagar as luzes do estádio e ligar a rega do relvado mal os portistas
começaram a festejar.
O “apagão” da Luz deu motivo para novas frases de incentivo aos jogadores do FC Porto e André
sorriu no meio da escuridão: ninguém deixou de festejar e estava outro pormenor de motivação
conseguido.
Ganho o Campeonato – principal objectivo da época –, logo outras metas foram determinadas para
o que restava da competição: ser campeão sem derrotas, estabelecer um novo recorde de pontos, de
número de golos marcados e sofridos. A equipa tinha outros importantes objectivos para alcançar no
que ainda restava da temporada, nomeadamente a Liga Europa e a Taça de Portugal, mas o técnico
não prescindiu de colocar novos desafios aos jogadores. E os jogadores foram atrás deles. Ao
“título” de terceiro treinador mais jovem de sempre a vencer um campeonato português, com 33 anos,
o técnico do FC Porto acrescentou o de vencer a competição sem derrotas, coisa de que até aí apenas
o Benfica do britânico Jimmy Hagan se podia orgulhar (28 vitórias e 2 empates na já longínqua
20

época de 1972-73).
No início da temporada, sentado na sua “cadeira de sonho”, Villas-Boas tinha dito o que é natural
dizer-se quando se chega a um clube com as ambições do FC Porto: que entrava em todas as
competições para ganhar. Apenas a Taça da Liga caiu por terra, mas ainda hoje há quem diga que o
efeito desse afastamento – que ficou decidido no dia em que sofreu a primeira derrota, e logo no
estádio do Dragão, com o Nacional da Madeira, no regresso das férias natalícias – foi o melhor que
se podia pedir. Ao contrário do que seria normal, a equipa não se ressentiu por ter ficado longe desse
objectivo; pelo contrário, rumo ao o que havia para ganhar com uma ambição redobrada.
Mas a primeira derrota da época, ao vigésimo sétimo jogo, revelou um André Villas-Boas cheio
de fair play. Explicou, de forma tranquila, que a derrota também faz parte do futebol e que pode
aparecer a qualquer momento. E chamou a atenção para o facto de não ser “uma derrota que vai
colocar tudo em causa. Não se penaliza uma equipa que rendeu muito ao longo dos meses”. Os
adeptos portistas apreciaram a postura do técnico e Rui Moreira, presidente da Associação
Comercial do Porto e eleito Dragão de Ouro em 2010 para “Sócio do Ano”, escreveu mesmo que
21

“ficou a certeza de que há um líder no banco, que assume a derrota, que não procura desculpas
fáceis, que não ‘queima’ os seus jogadores e que não perde o fair play que já demonstrara quando
ganha”. E a equipa também deu uma resposta positiva: no jogo seguinte cilindrou o Marítimo, em
casa, por 4-1 e fechou a primeira volta da Liga com 13 vitórias e 2 empates, 36-6 em golos.
Na outra taça em disputa na época doméstica, a Taça de Portugal, FC Porto e Benfica encontraram-
se no estádio do Dragão para a primeira mão das meias-finais, a 2 de Fevereiro. Com surpresa, o
Benfica venceu por 2-0 e ficou à frente na eliminatória, já que a segunda mão seria na Luz, valendo o
sistema de desempate praticado nas competições europeias, ou seja, um golo fora, em caso de
empate, vale por dois. O FC Porto ficou com um problema para resolver. Teria de desfazer aquela
desvantagem, o que o obrigava a marcar pelo menos três golos em Lisboa. E logo no final desse jogo
no Dragão, Villas-Boas prometeu que ia lutar pela passagem à final da Taça de Portugal: “Atenção, o
jogo para nós não termina aqui. É uma tarefa difícil, mas não inatingível”. Aceitou com fair play o
resultado, não vacilou na sua caminhada e manteve que o seu objectivo era ir vencer por 3-0 ao
estádio da Luz.
Esperou-se dois meses pelo segundo jogo (teve lugar a 20 de Abril), mas para os portistas valeu a
pena esperar: a Luz estava em euforia, André jogou no balneário com todo o clima emotivo que se
vivia à volta do jogo e na palestra o técnico pediu apenas aos jogadores para fazerem o que sabiam,
sem inibições. E adiantou-lhes: “Vamos mudar o destino.” Eles fizeram o que o técnico lhes pediu e o
Benfica foi afastado da final da Taça de Portugal. 3-1 para os portistas foi o resultado final.
Passo a passo, os objectivos, tirando um (Taça da Liga), por sinal o menos importante, foram
alcançados. Tudo o que aqui foi explicado, resumiu-o André Villas-Boas de uma forma simples e
directa: “A equipa do FC Porto foi estabelecendo metas passo a passo, a motivação esteve sempre
presente e isso é fundamental no futebol moderno. Foi tudo o que se passou esta época.”

PALESTRAS

Muita gente tem a ideia de que a palestra que se faz antes dos jogos é uma peça fundamental do
trabalho de preparação para um jogo. Até pode ser, por circunstâncias diversas, mas a verdade é que
para os treinadores modernos vale muito mais o que se vai dizendo aos jogadores ao longo da
semana. Numa época em que a ciência entrou no futebol – é ver a quantidade de técnicos formados
em educação física que ocuparam o lugar dos empiristas –, o jogo começa a preparar-se no primeiro
treino da semana, ou quando o espaço de tempo é curto, fruto das fases em que o calendário está mais
preenchido, nos dois ou três dias que o antecedem.
Era exactamente isso que André Villas-Boas fazia no FC Porto. Começava a preparar os jogos em
pequenas conversas que tinha com os jogadores, abordando pormenores sobre o posicionamento da
equipa e dos próprios jogadores, falando dos adversários e da sua motivação, dos ambientes, etc. O
cuidado redobrava, por exemplo, quando tinha pela frente um adversário mais motivado por uma
série de vitórias. O jovem técnico é uma pessoa especialmente atenta, e isso vale muito, mais ainda
quando se está bem rodeado por uma equipa técnica que anda na mesma linha de pensamento.
A preparação feita nos dias que antecediam um jogo permitiam chegar ao dia do encontro e não ser
necessário dizer grandes coisas nas tais palestras. André Villas-Boas tinha por hábito no FC Porto
falar duas vezes com os jogadores no dia do jogo. A primeira palestra, pela hora do almoço, era uma
palestra mais virada para questões emocionais. Falámos do vídeo que acompanhou o FC Porto nas
primeiras jornadas do campeonato e que os jogadores viram logo no dia da apresentação, imagens
dos jogadores do Benfica a festejarem o título nacional na época anterior. Pois bem, em Dublin, onde
o FC Porto jogou a final da Liga Europa com o SC Braga a 18 Maio, o filme foi outro. A primeira
conversa que teve com os futebolistas foi acompanhada por um vídeo com momentos dos jogos da
Liga Europa, num trajecto absolutamente impecável dos portistas. A colecção de imagens que passou
durante esse encontro deixou os jogadores verdadeiramente emocionados. E a mensagem foi muito
clara: quem fez tanta coisa bonita até ali, só podia mesmo ganhar a final. Os jogadores entenderam
facilmente a mensagem, nem foram precisas muitas palavras do treinador.
O guarda-redes – e capitão de equipa – Helton considerou em entrevista ao jornal O Jogo que a
“palestra mexeu muito connosco… foi maravilhosa. Espectacular. Fez pensar, reflectir. Quando é
mais do mesmo, por exemplo, ‘Vamos lá jogar para ganhar’, não tem grande efeito nos jogadores,
porque estamos sempre a ouvir isso. Ali foi diferente, ele acrescenta sempre uma novidade, e isso é
espectacular.” Não querendo revelar o que é que André Villas-Boas tinha efectivamente dito ao
grupo, não deixou, no entanto, de revelar que o técnico tinha dito “coisas muito boas. E quando digo
muitas, não me estou a referir ao tempo, mas sim ao conteúdo. Ele falou connosco no hotel antes de
sairmos para o estádio. Saímos de lá ainda mais confiantes de que íamos ganhar, daquilo que
tínhamos que fazer para vencer. Esta confiança ajudou-nos bastante. Foi um momento fantástico e
único”.
E o FC Porto ergueu mais uma taça europeia, a quarta da sua história, a saber: uma Taça dos
Campeões Europeus em 1987, uma Taça UEFA em 2003, uma Champions League em 2004 e a Liga
Europa de 2011.
“No final de todas as palestras que ele faz, os jogadores param para pensar. Podem ter a certeza de
que não há nenhuma que não seja assim.” Quem o disse foi uma vez mais Helton, numa outra
entrevista dada meses antes ao mesmo jornal.

SEGUNDAS PARTES DE LUXO

Na fase mais emocionante da época, entre Março e Maio de 2011, quando o FC Porto conquistou,
de forma demolidora, a Liga portuguesa, a Liga Europa e a Taça de Portugal, muitos foram os jogos
em que, com segundas partes de luxo, a equipa deu a volta a partidas menos conseguidas nas
primeiras partes, e algumas vezes até com resultados adversos ao intervalo.
André Villas-Boas procurou sempre desvalorizar a sua intervenção nos intervalos dos jogos,
nunca revelando se tinha implementado alterações na equipa, ao contrário dos jogadores que, aqui e
ali, iam fazendo rasgados elogios às palestras do técnico, no balneário, antes do regresso ao relvado.
“O que ele nos disse ao intervalo foi muito importante”, referiu o colombiano Guarín após a
extraordinária vitória por 5-1 sobre o Villarreal, na primeira mão da meia-final da Liga Europa
disputada no estádio do Dragão. Ao intervalo o resultado era favorável aos espanhóis por 1-0.
Houve quem tivesse notado uma alteração táctica – do 4x3x3 da primeira parte para o 4x1x4x1 da
segunda –, mas o treinador portista negou tudo: “Não houve alteração táctica, não sei onde foram
buscar o 4x1x4x1.” E, na sua tradicional modéstia, esclareceu que “o que mudou na segunda parte foi
a eficácia. Não disse nada de especial… nada do que eu tenha dito foi decisivo para virarmos o
resultado. Não é por um resultado negativo e, depois, por uma viragem, que o treinador é mestre da
táctica”.
No jogo com o Spartak de Moscovo, para a mesma competição, também em casa, o FC Porto
passou de um resultado favorável, mas tangencial (1-0), ao intervalo, para um concludente 5-1 no
final. O que disse aos jogadores na cabine? “Pedi tranquilidade no jogo e critério, porque é com
critério que se chega à melhor forma de jogar.” Só isto? Sim, André Villas-Boas confiava nos
jogadores que, fruto do trabalho desenvolvido nos treinos, sabiam exactamente o que tinham que
fazer e, como tal, nada havia a acrescentar ao intervalo.
E na segunda mão da meia-final da Taça de Portugal, quando ao intervalo empatava a zero, e para
garantir a passagem à final o FC Porto precisava de marcar três golos? “Disse aos jogadores para
manterem a calma. A mensagem de início manteve-se: não entrar em stress se o primeiro golo
surgisse tarde. Na primeira parte o Benfica fez um jogo de contenção, sem aplicar a sua velocidade
característica, e isso tornou-nos passivos. Faltava-nos o clique da agressividade…” No final ganhou
por 3-1, virando a eliminatória a seu favor (tinha perdido em casa por 0-2) e apurou a equipa para a
final. E, como sempre, virou logo o seu discurso para o futuro: “Esta vitória será pouco lembrada se
não ganharmos o troféu.” Nada de euforias.
As segundas partes de luxo permitiram a André Villas-Boas, para além dos espectáculos e dos
golos que a equipa ofereceu, fazer descansar alguns dos jogadores mais desgastados do plantel. O
técnico, sempre concentrado nos seus objectivos, nunca foi muito adepto da rotatividade e foi-o
deixando claro ao longo da época. Como a seguir se verá.
Logo em Outubro, quando já tinha o apuramento na fase de grupos da Liga Europa assegurado e ia
receber o Besiktas em vésperas de jogar com o Benfica, para a Liga, no Dragão, afirmou: “Se eu vou
poupar alguns jogadores na partida com o Besiktas por causa do próximo jogo com o Benfica? Nem
pensar. E por uma simples razão: eu nunca faço poupanças de jogadores.” Não fez mesmo. O porquê
perceber-se-á já no parágrafo seguinte.
Quando o FC Porto foi jogar a Leiria depois de ter jogado em Moscovo para a Liga Europa, tendo
realizado um enorme esforço nesse jogo – longa viagem de ida e volta, relvado sintético, adversário
(CSKA) complicado –, e mesmo tendo um avanço mais do que suficiente na Liga, colocou de fora
qualquer hipótese de fazer poupanças para não dar aos jogadores a ideia de facilidades. “Não tem de
haver relaxamento nem poupanças. Os jogadores sabem muito bem que essa ideia de que tudo está
resolvido pode ser perigosa, tenho a certeza de que não haverá nunca o perigo de relaxamento.” Isto
é, uma decisão técnica com objectivos psicológicos. A tal questão da não separação das várias
componentes do trabalho do treinador tão cara à “periodização táctica” ou à teoria da complexidade,
ambas abordadas no Capítulo 3 deste livro.
E o mesmo respondeu quando, depois de “despachar” o Spartak de Moscovo com 5-1 no estádio
do Dragão, lhe perguntaram se iria fazer gestão de jogadores no jogo da segunda mão: “Não, de
forma alguma. Ninguém dá nada por resolvido. O resultado é confortável, realmente, mas temos de
estar alerta…”
O exemplo mais extraordinário aconteceu, no entanto, quando no jogo da segunda-mão das meias-
finais da Liga Europa contra o Villarreal, depois de ter ganho em casa novamente por 5-1, colocou
em campo no El Madrigal o médio João Moutinho, um dos jogadores mais indiscutíveis e decisivos
da época azul-e-branca, sabendo que se este fosse admoestado com um cartão amarelo não poderia
jogar a final. Mas, mais uma vez, foi peremptório na mensagem que passou: “Não há gestão possível.
A final só existirá para nós se tivermos sucesso aqui em Villarreal.” Assunto encerrado.
Como resolveu então André Villas-Boas a questão da gestão de esforço tão necessária a alguns
dos jogadores mais sobrecarregados de jogos ao longo da época? O recurso à análise de Luís Freitas
Lobo faz aqui, uma vez mais, todo o sentido: “Quando mexe na equipa, mexe, em geral, no meio-
campo. Timing da mudança: entre os 60 e os 75 minutos. Tira um ala do ataque e, assim, faz o
quarteto do meio-campo, base intermédia do 4x4x2 e suas variantes (losango ou 1x3). Evita, assim, o
desgaste e a fadiga táctica que o 4x3x3 pode mais facilmente provocar na equipa (e nos jogadores
individualmente) e evita falar em ‘jogadores cansados’ ou ‘equipa desgastada’. O tempo em que faz a
mudança também não é inocente. No limite, a equipa começa a recuperação para o jogo seguinte
ainda… no jogo anterior. O 4x4x2 permite, claramente, descansar melhor com bola (a posse pela
posse).”

O 4X3X3, A POSSE DE BOLA E A PRESSÃO ALTA

“Continuo a defender que todos os estilos são bons desde que levem à vitória. Sei qual é o meu
estilo e que gosto de propor, que é um estilo protagonista, de ter a bola, de saber circulá-la e de criar
um maior número de ocasiões de golo. Mas não tenho dúvidas de que em Portugal está instalado o
pragmatismo e o resultadismo. Muitas vezes a resolução de problemas até está nos lances de bola
parada porque se acha que em Portugal os jogadores não são suficientemente criativos. Respeito, mas
discordo totalmente disso porque o jogador português é criativo por natureza e não faltam casos
desses nos últimos 50 anos. É um facto que o pragmatismo leva a resultados e até ao sucesso
absoluto, mas defendo este estilo.” Quem assim falou foi André Villas-Boas, claro, mas se o leitor
pensa que esta afirmação foi feita recentemente engana-se. Na verdade, o jovem técnico sempre
defendeu os seus princípios de jogo, mesmo quando treinava um clube menos ambicioso como a
Académica, cujo objectivo era o da manutenção, e explicou-os de forma clara, através do excerto
que acima transcrevemos do Diário de Coimbra.
André Villas-Boas, já no FC Porto, assumiu que o 4x3x3 era “cultural” no futebol português e que
nunca abdicaria dessa táctica. Foi isso que fez quando chegou ao clube. O 4x3x3 que implementou
nos azuis-e-brancos ganhou mais preponderância quando se percebeu que ia compor o tridente do
meio-campo com Fernando, um trinco habitualmente preso no apoio à defesa, Moutinho, acabado de
chegar ao clube e Belluschi, um internacional argentino que não tinha tido uma época bem sucedida
quando chegou ao clube no verão de 2009. Talvez não tivesse esperado que este triângulo estava
prestes a receber um reforço importantíssimo: o colombiano Fredy Guarín.
Com Jesualdo Ferreira, na época anterior, Guarín tinha sido fundamental na parte final da época.
Com ele como uma espécie de pivot, o FC Porto limpou o que de mau tinha feito no primeiro terço da
época, sem Hulk. Com Hulk no activo e Guarín a ser uma agradável surpresa, mas num esquema
muito mais próximo do 4x4x2, os dragões recuperaram terreno e acabaram a época em grande,
embora sem chegarem a tempo de entrar na Champions League.
André encantou muitas vezes com o seu 4x3x3, mas vivendo de um grupo de jogadores que
apreendeu a fazer a pressão alta. Falcao, que um dia agradeceria a Jesualdo por o ter ensinado a
jogar de costas para a baliza, era o primeiro defesa de uma equipa disponível, sempre disponível
para atacar. Nas suas palestras, André nunca se cansou de repetir a palavra concentração. Resultou.
A expressão “o futebol é caótico” foi talvez uma das frases mais marcantes de André como técnico
de futebol. Em diversas conferências de imprensa, o treinador foi instado a responder sobre a táctica
a usar num ou noutro jogo. Villas-Boas foi sempre pelo seu 4x3x3, mas também foi dizendo que os
jogadores tinham liberdade para criar. “Não adianta ser rígido tacticamente. Os jogadores têm
liberdade para criar dentro do campo, até porque pode haver necessidade de mudar as coisas durante
um jogo. Nunca abdicarei desse sistema táctico, mas as alterações ao longo de um jogo podem levar
a uma transformação do sistema, mas sempre algo de ocasião.” O futebol é caótico? Claro, porque
vive da inspiração dos futebolistas. Foi isso que André sempre transmitiu, e nem sempre foi
compreendido, e por isso às vezes se escreveu que mudou de um 4x3x3 para um 4x4x2.
Não obstante, André Villas-Boas, como José Mourinho, defende que uma equipa não se deve
descaracterizar perante os adversários. A mudança do sistema de jogo, a acontecer, nunca deve ser
feita em função da equipa contrária, isto é, a sua equipa é sempre a mais importante, nunca a equipa
contra quem vai jogar. Mesmo quando alguns destacaram alterações tácticas que o treinador teria
implementado na equipa de que um bom exemplo foi a (aparente) mudança da primeira para a
segunda parte do jogo com o Villarreal em casa, já atrás referido neste livro -, o técnico portista
encarregou-se de publicamente as negar por completo e defendeu que a equipa se tinha mantido
coerente à volta do seu modelo de jogo.
Vista a táctica, outra característica muito importante que André Villas-Boas defende tem a ver com
a posse de bola. Já quando treinava a Académica, a generalidade dos analistas chamava a atenção
para a capacidade que a equipa demonstrava em ter a bola consigo. No FC Porto essa característica
intensificou-se, talvez pela maior qualidade dos meios (jogadores) que tinha à sua disposição. A
equipa gostava de assumir o jogo através da posse de bola, característica fundamental do futebol
moderno, que é levada à exaustão, quase à perfeição, pelo Barcelona de Guardiola.
Quando lhe observaram que a equipa azul-e-branca marcava poucos golos de bola parada, o que
era um facto, respondeu que “quantos mais golos fizermos em ataque continuado, melhor para nós.
Quantas equipas em Portugal resolvem os jogos de bola parada e esses jogos reflectem-se em tédio
absoluto? Porque as equipas estão à espera de explorar apenas esse momento, por não terem todas as
outras situações, essa não é, sequer, uma preocupação para nós. (…) Quer dizer que o nosso futebol
tem qualidade suficiente para criar oportunidades e finalizá-las. (…) É sinal de que aquilo que se faz
em ataque organizado é bom.”
O FC Porto de André Villas-Boas ficará então para a história como uma equipa que privilegiou a
posse de bola, que baseou o seu futebol na técnica do passe e num futebol de progressão calma e
apoiada.
Outro aspecto que foi muito elogiado ao longo de toda a época, foi a capacidade que a equipa
sempre demonstrou para pressionar o adversário bem subida no relvado, de forma muito agressiva.
Através de uma excelente organização e forte sentido posicional, evitou de forma exemplar os
habituais desequilíbrios tácticos próprios das fases de transição defensiva (quando se perde a bola).
E porquê? “O FC Porto é uma equipa que raramente vemos desequilibrada no momento imediato à
perda da bola. E quando a recupera também está logo bem posicionada para sair a jogar. Tal sucede
porque quanto mais diminuir os tempos de transição, quase levando a que elas (as transições) se
confundam com a organização (e vice-versa), mais uma equipa está equilibrada tacticamente em
campo”, explicou Luís Freitas Lobo. Ou seja, a forma como passo a passo, ou melhor, passe a passe,
ia construindo o seu jogo, permitia-lhe, depois, estar tacticamente muito bem equilibrada e
posicionada para, após a perda de bola, começar de imediato o trabalho para a sua recuperação.
Bem subida no relvado.
RECORDISTA
As extraordinárias performances atingidas pelo FC Porto ao longo da época 2010-11 permitiram a
André Villas-Boas bater uma série infindável de recordes internacionais, nacionais ou do clube. A
que se somaram uma série de outros registos igualmente impressionantes. Vejamos alguns dos
números mais significativos:
− Treinador mais jovem a conquistar uma competição da UEFA – a Liga Europa 2010-11 com 33
anos e 213 dias. Ultrapassou, desta forma, Gianluca Vialli, que em 1998 venceu a Taça das Taças
pelo Chelsea com 33 anos e 308 dias, e Sven-Goran Eriksson, que em 1982 venceu a Taça UEFA
pelo IFK Gotemburgo com 34 anos e 102 dias.
− 11º treinador da história do futebol europeu a conseguir o triplete (liga nacional, taça nacional e
competição europeia em que está envolvido). No FC Porto, só Mourinho tinha já atingido tal feito, na
época 2002-03 (Liga portuguesa, Taça de Portugal e Taça UEFA).
− Maior transferência de sempre de um treinador de futebol – 15 milhões de euros pagos pelo
Chelsea ao FC Porto.
− Primeiro treinador português campeão invicto: o FC Porto terminou a Liga portuguesa de 2010-11
com o incrível registo de 27 vitórias, 3 empates e zero derrotas. Marcou 73 golos (2,43 por jogo) e
sofreu apenas 16 (0,53 por jogo).
− De longe o treinador do FC Porto com maior produtividade pontual no final de um campeonato:
média de 2,80 pontos por jogo. Nesta tabela surgem a seguir José Mourinho com 2,53 (2002-03),
António Oliveira com 2,50 (1996-97) e Bobby Robson com 2,47 (1995-96).
− Campeão com a maior diferença de pontos para o segundo classificado: o FC Porto deixou o
Benfica a 21 pontos de diferença e o Sporting, terceiro classificado, a… 36!
− Época do FC Porto com mais jogos oficiais disputados: 58 (30 para a Liga, 7 para a Taça de
Portugal, 17 para a Liga Europa, 3 para a Taça da Liga e 1 para a Supertaça portuguesa). Seguem-se
as épocas 2000-01 com 56 jogos (Fernando Santos) e 2003-04 com 55 jogos (José Mourinho).
− Época mais vitoriosa de sempre: no conjunto de todas as provas obteve um registo de 49 vitórias
em 58 jogos. – Época mais goleadora de sempre: no conjunto de todas as provas a equipa do FC
Porto marcou o número impressionante de 145 golos, à média de 2,50 golos por jogo.
− Mais jovem treinador do FC Porto a conquistar um troféu: a Supertaça portuguesa, no arranque da
época 2010-11, ainda com 32 anos.
− Treinador do FC Porto com mais jogos europeus disputados numa só época, no total 17, todos
efectuados na Liga Europa, assim distribuídos: dois no play off, seis na fase de grupos, oito na fase
eliminatória (entre os dezasseis avos de final e as meias-finais) e, por último, a final.
− Mais títulos conquistados numa só época: 4. Igualou Tomislav Ivic, que na época 1987-88
conquistou a Liga, a Taça de Portugal, a Supertaça Europeia (bateu o Ajax) e a Taça Intercontinental
(bateu o Peñarol). No entanto, a proeza de André Villas-Boas pode ser considerada superior à de
Ivic, uma vez que venceu a competição europeia que disputou.
− Vitória mais folgada numa final da Taça de Portugal: o FC Porto bateu o Vitória de Guimarães por
6-2 no jogo que fechou a temporada.
− Maior goleada de sempre ao Benfica para o Campeonato: 5-0 no jogo disputado no estádio do
Dragão.
Voltamos a Luís Freitas Lobo. Num artigo intitulado “Ser especial: razão e arte”, depois de
colocar André Villas-Boas numa casta de treinadores de futebol que considerou especiais (como
Herrera, Cruyff, Clough, Mourinho, Michels, noutros locais e tempos), concluiu: “Teria Villas-Boas
conseguido o mesmo sucesso noutro clube português? Claro que não. Mas teria o FC Porto
conseguido o mesmo com outro treinador? Claro que não, também. Porque essa combinação especial
é rara. Como Mourinho ou Villas-Boas, no mesmo local, explicaram nos últimos tempos. Em mais de
30 anos de domínio portista, só esses dois treinadores conseguiram tornar-se maiores que o clube
nos feitos alcançados. O único ponto em que um clube se deve preocupar, quando tem um desses
seres especiais, é em dar-lhe todas as condições para ele criar esse impacto. E tentar aguentá-lo o
maior tempo possível. Essa parte, porém, já é mais difícil. Incontrolável.”
CAPÍTULO 5

“Se eu quisesse um trabalho fácil teria ficado no FC Porto, numa


bonita poltrona azul, a taça da Champions League ao meu lado, Deus
e, depois de Deus, eu.
José Mourinho

A vida de treinador não é nada fácil quando se trata de substituir José Mourinho no comando de
uma equipa de futebol. Que o digam Luigi Del Neri (italiano), Victor Fernandez (espanhol) ou José
Couceiro (português), três técnicos que, em apenas uma época, se sentaram no banco do FC Porto
pós-Mourinho, não deixando qualquer deles saudades aos adeptos do clube. O israelita Avam Grant,
que tomou surpreendentemente o lugar do Special One no Chelsea, limitou-se a orientar a equipa no
que restou da época 2007-08. Seguiu-se em Julho de 2008 o brasileiro Scolari, senhor de um
curriculum invejável e de uma fortíssima personalidade, mas que foi despachado por Abramovich ao
fim de apenas… sete meses. No Inter, a fava coube ao espanhol Rafa Benítez, que em Novembro de
2010 já recebia ultimatos públicos do presidente Massimo Moratti por causa dos maus resultados
que a equipa campeã de Itália e da Europa ia acumulando.
André Villas-Boas foi então referido como tendo sido alvo de uma sondagem do Inter. O facto
originou uma veemente reacção do técnico na conferência de imprensa que antecedeu o jogo para a
Taça de Portugal contra o Moreirense, rotulando a notícia de “um absoluto disparate, fora de tempo e
de sentido. Estive felizmente nesse clube, conheço as pessoas que o lideram e sei o que é uma notícia
especulativa. Além disso, ambiciono estar aqui por muito tempo”, garantiu. Benítez ainda se aguentou
no Inter até Dezembro, mas acabou por ser trocado pelo brasileiro Leonardo, que também não passou
do final da época 2010-11.
Na verdade, fechada a temporada com uma pouco consoladora vitória na Taça de Itália, Leonardo
começou a ser apontado como futuro director desportivo do Paris Saint-Germain – em consequência
da venda de 70% das acções do clube à Qatar Sports Investments, que pretendia reforçar a estrutura
do clube –, provocando do presidente nerrazurri o comentário de que “é melhor que ele siga as suas
aspirações e que nós procuremos um novo treinador”, afirmando ainda que, apesar de toda a “boa
vontade e paixão” de Leonardo, “é óbvio que estar no Inter não é a sua aspiração para o futuro.”
Moratti, com a ajuda do capitão do Inter e da selecção argentina, Javier Zanetti, terá então
contactado Marcelo Bielsa para comandar a equipa na época 2011-12. Tendo deixado a selecção do
Chile em litígio com o recém-eleito presidente da federação daquele país, o treinador argentino, a
quem apelidam de “El Loco” e é reconhecido por apresentar equipas com um futebol
predominantemente ofensivo, deu nega às pretensões milanesas, uma vez que já estava comprometido
com Josu Urrutia, candidato à presidência do Athletic Bilbau (que veio, aliás, a vencer as eleições).
Tudo isto se passou à volta do dia 15 de Junho.
No entanto, no final do mês de Maio, a imprensa italiana tinha já avançado com a possibilidade de
uma reunião eminente de Moratti com André Villas-Boas, a ter lugar na cidade milanesa. “Se Villas-
Boas vier a Milão, não acredito que seja por nossa causa. Nós já o conhecemos. Sabemos que Villas-
Boas tem muita qualidade, mas nós não vamos mudar o nosso treinador [Leonardo]”, esclareceu o
dirigente máximo do Inter.
A recusa de Bielsa, que terá apanhado Moratti desprevenido, fez com que este se voltasse de novo
para Villas-Boas, não obstante os nomes de Fabio Capello (seleccionador de Inglaterra) e de Delio
Rossi (ex-Palermo) terem sido também apontados como hipóteses, para além do sérvio Sinisa
Mihajlovic, ex-jogador e ex-treinador adjunto do clube, que, segundo notícia da Sky Sport 24, viu
recusada pelo seu clube, a Fiorentina, a possibilidade de partir rumo a Milão.
O interesse do Inter no jovem técnico português originou todo o tipo de especulações na imprensa
e no dia 18 de Junho tanto se afirmava que uma suposta deslocação de Villas-Boas a Milão tinha sido
feita a convite do presidente do Inter, como se garantia que os directores Marco Branca e Piero
Ausilio estavam a caminho de Portugal para tentar colocar Villas-Boas no lugar de Leonardo. Ainda
que Villas-Boas estivesse de férias e, portanto, com toda a liberdade para se deslocar onde muito
bem entendesse, o seu empresário, Carlos Gonçalves, de imediato desmentiu a notícia, garantindo
que “isso não faz sentido” e que o técnico não tinha estado em Milão.
A 19 de Junho ponto final nas especulações. O director desportivo do Inter, Marco Branca, negou
que o treinador do FC Porto viesse a ser o próximo técnico dos nerrazurri. “Tenho que esclarecer
isto porque, compreensivelmente, tudo isto surgiu na imprensa”, disse Branca à agência ANSA. E,
colocando um ponto final e definitivo no assunto, explicou: “É sabido por todos no mundo do futebol
da ligação de Villas-Boas ao FC Porto, mas não é só isso, é também o facto de ter uma cláusula de
rescisão muito alta, que o exclui de uma candidatura a treinador do Inter.” Mas, ao que parece, a
principal razão da desistência do Inter teve a ver com o facto de o Chelsea já estar em campo a tratar
da contratação do treinador do FC Porto e de reconhecer no clube inglês capacidade mais do que
suficiente para bater na mesa o elevado valor da sua cláusula de rescisão.

ABRAMOVICH DE NOVO NA HISTÓRIA

Curiosamente, ou talvez não, não se ouviu de Pinto da Costa uma única observação (ao seu estilo)
ao longo de todo este processo, que durou, afinal, pouco mais de dois dias. Nada daquilo que os
adeptos esperariam do presidente portista, algo na linha do que tinha afirmado nos últimos meses,
isto é, uma declaração, mais uma, à volta do clima de absoluta sintonia entre André Villas-Boas e o
clube quanto à continuidade do trabalho conjunto tendo em vista a época 2011-12. Pelo contrário,
Pinto da Costa limitou-se a esclarecer, naquele domingo 19 de Junho, o óbvio: “Villas-Boas tem
contrato e uma cláusula de 15 milhões de euros. Se alguém depositar na nossa conta os 15 milhões e
ele quiser ir, não podemos fazer nada, porque é algo que está contratualizado. Se isso não acontecer,
não sai. Não vamos facilitar em nada as negociações. Só sairá se pagarem os €15 milhões e ele
quiser ir.”
Muito diferente tinha sido a sua declaração em entrevista à RTP, menos de um mês antes, a 23 de
Maio, sobre a mesma questão: “É inegociável. Primeiro, porque não quer sair. Se André Villas-Boas
não tivesse a mesma paixão que eu tenho pelo FC Porto, o que me levou a dizer que está na sua
cadeira de sonho, estou convencido que era capaz de sair. Tem uma cláusula de rescisão de 15
milhões, o que para determinados clubes não é significativo. Mas tenho a certeza que se vierem cá
com essa cláusula, ele não quer sair. É a tal vantagem [de ser portista].”
Quando produziu afirmação de que nada podia fazer se algum clube batesse a cláusula de rescisão
do treinador e este quisesse sair, o presidente do FC Porto não se referia às investidas do Inter. Ele
já sabia da intenção de Villas-Boas em rumar ao Chelsea. Na verdade, tinha sido apanhado de
surpresa, na véspera, sábado dia 18 de Junho, pela comunicação que o treinador lhe tinha feito
relativamente à ida para a capital britânica.
A imprensa inglesa deu conta que Abramovich tinha voado para conhecer Villas-Boas
precisamente nesse sábado, dia 19, mas que o técnico do FC porto não lhe tinha dado de imediato o
sim definitivo. Só no dia seguinte, domingo, assumiu o compromisso junto dos responsáveis do
Chelsea.
Mas os adeptos, desconhecendo por completo o que se estava a passar nos bastidores e, mais do
que isso, habituados à forma como o líder do clube costuma falar sobre estas matérias, interpretaram
a óbvia declaração de Pinto da Costa com a maior das apreensões. Afinal, tudo o que não queriam
era ver partir o treinador que tantas alegrias e glórias lhes tinha proporcionado em apenas uma época
à frente da equipa. Ora, a forma como Pinto da Costa a ela se tinha referido fazia entender que nem
tudo estava bem.
De apreensivos ao estado de choque foi um ápice de muito poucas horas. Efectivamente, a bomba
menos desejada rebentou logo na manhã de segunda-feira, dia 20: “Villas-Boas vai treinar o
Chelsea”, era o título comum à quase totalidade dos sites dos órgãos de comunicação social
portugueses. A notícia, que apanhou praticamente toda a gente desprevenida, começou por ser uma
forte hipótese e acabou num turbilhão de informações que aguardavam apenas por uma oficialização,
algo que só seria confirmado quando Villa-Boas, ou o Chelsea em seu nome, depositasse os 15
milhões da cláusula de rescisão na conta bancária do clube azul-e-branco.
Recordaram-se então as palavras que Pinto da Costa tinha proferido na véspera, bem menos
incisivas do que o costume, e a apreensão dos adeptos não podia ser maior. Além disso, não estando
a transferência consumada, ninguém duvidava da capacidade de Abramovich para pagar uma cláusula
de rescisão que, sendo a mais alta da história do futebol relativamente a um treinador, não passava
do tal valor de 15 milhões de euros, uma verdadeira pechincha para o magnata russo, um dos homens
mais ricos do mundo.
Na verdade, há muito que os adeptos portistas se habituaram a ver o clube londrino vir reforçar-se
no Dragão, pagando elevadas verbas por isso. De Ricardo Carvalho (30 milhões) a André Villas-
Boas, passando por Paulo Ferreira (20 milhões), Bosingwa (20 milhões) e, até, Mourinho (6
milhões), ultrapassa os 90 milhões de euros o valor do investimento que Abramovich fez em activos
do FC Porto.
Nessa segunda-feira, dia 20, ao final da manhã, ao mesmo tempo que uma delegação do Chelsea
tratava em Portugal de todos os pormenores da contratação Villas-Boas, o FC Porto, através da sua
SAD , emitia um comunicado onde formalmente dava conta de que por “solicitação da CMVM, vem
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informar o mercado que o treinador André Villas-Boas, assim como diversos jogadores do plantel,
tem uma cláusula de rescisão. Até à presente data, esta sociedade não recebeu qualquer comunicação
que esta cláusula ia ser exercida, nem o acordo do treinador a tal desiderato”.
Só que o acordo entre André Villas-Boas e o Chelsea estava mesmo fechado. O FC Porto, de
facto, nunca admitiu negociar o valor da cláusula de rescisão, embora isso chegasse a pairar no
espírito do técnico, que teve neste caso um comportamento bem diferente do que quando, pouco
tempo antes, a Roma o tentou convencer com um contrato fenomenal.
Efectivamente, no início do processo, nem André acreditava que o Chelsea fosse pagar os 15
milhões de euros. Ao bater a cláusula sem regatear, o clube do milionário russo ficou dependente da
vontade do treinador e essa já estava expressa. Villas-Boas aceitou o convite, deixou o Porto e
mudou-se por dois dias para Madrid, quando muitos pensavam que estava em casa. Os jornais
montaram guarda à sua residência na Foz, mas em vão, iludidos pela presença de um grupo de
seguranças. André já não estava em casa, seguindo de Madrid para Londres.
Na terça-feira, dia 21, uma vez mais ao final da manhã, um novo comunicado da FC Porto SAD
esclarecia que esta tinha sido naquele dia “notificada da intenção do seu treinador, André Villas-
Boas, de resolver, sem justa causa, o contrato de trabalho desportivo em vigor com esta sociedade,
accionando a respectiva cláusula de rescisão, de imediato. Nesta conformidade, o contrato de
trabalho será considerado, por esta sociedade, resolvido, com o depósito da quantia aí prevista”.
Quem ainda tinha dúvidas ou esperanças de que o jovem técnico pudesse manter-se no Dragão ficou
definitivamente esclarecido. Tinha-se fechado, em apenas uma época, o ciclo de André Villas-Boas
no FC Porto.
Um dia depois do FC Porto, foi a vez do clube londrino confirmar a contratação daquele a que os
ingleses começavam já a tratar por Mini-Mourinho ou Special Two: “O Chelsea Football Club tem o
prazer de anunciar que André Villas-Boas será o novo treinador do clube. Ele assinou um contrato
por três anos e vai começar a trabalhar imediatamente.” Lapidar.

TRAIDOR!

Os adeptos não se conformaram, não só com a partida de Villas-Boas, mas principalmente com a
forma como essa partida se tinha processado: sem dar margem de manobra ao clube, apresentada
como um facto consumado e com a nova época à porta.
O maior problema – e aí quem está próximo do treinador diz que ele falhou – foi continuar a dizer
que estava na cadeira de sonho até poucos dias antes de sair do FC Porto. Para muitos adeptos isso
foi incompreensível. Quem o conhece diz que não foi cuidadoso nesse pormenor, se calhar bastava-
lhe sorrir, como fez tantas vezes, sempre que lhe perguntaram se iria sair do FC Porto e numa altura
em que as notícias sobre a sua eventual saída, ou, pelo menos, do interesse de grandes clubes
europeus, já corriam loucas pelo mundo.
Miguel Sousa Tavares , um dos mais conhecidos adeptos do FC Porto, escreveu a 28 de Junho, em
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A Bola, algo que resumia bem o sentimento dos sócios e simpatizantes do clube campeão português:
“Pessoalmente, desejo que jamais o senhor Abramovich e o Chelsea sejam campeões europeus,
porque gosto de pensar que nem tudo o dinheiro consegue comprar. Por isso, renovo os meus votos
de total infelicidade desportiva a André Villas-Boas, na sua estadia aos comandos do brinquedo
futebolístico do senhor Abramovich. (…) O homem que, ainda há um mês atrás, eu e todos os
portistas cumulávamos de agradecimentos e elogios, não só desertou à primeira oportunidade de ser
coberto de ouro, como ainda se dedicará agora a desmantelar à distância e em benefício próprio a
equipa que comandava.” Miguel Sousa Tavares referia-se aos novos investimentos que o Chelsea,
segundo a imprensa portuguesa, se preparava para fazer comprando vários jogadores do FC Porto,
sendo levantados como hipóteses mais do que prováveis os nomes de João Moutinho (cláusula de
rescisão de 40 milhões de euros), Falcao (30 milhões) e Hulk (100 milhões), alguns dos mais
importantes futebolistas da fantástica época 2010-11 dos dragões.
O jornalista Bruno Prata , por outro lado, em artigo publicado no jornal Público de 21 de Junho,
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reconhecia que, apesar da vitória em Dublin ter catapultado o nome de André Villas-Boas, “os
adeptos portistas tinham motivos razoáveis para acreditar que o bisneto do 1.º Visconde de
Guilhomil não iria abdicar já da sua ‘cadeira dourada’. Pelo seu propalado portismo, pela cláusula
de 15 milhões e pela garantia de que iria ter no FC Porto uma equipa ainda mais reforçada para
vender a imagem do clube (e a sua própria) na Champions, que obviamente tem uma dimensão
diferente da Liga Europa. Multiplicar por cinco o actual ordenado de um milhão de euros e passar a
treinar um dos três melhores plantéis do mundo, como é, de facto, o do Chelsea, acabaram por fazer
Villas-Boas mudar de opinião. É humano que tenha dado o dito por não dito, até porque esta viagem
para Londres permite-lhe manter-se no trilho que levou o seu ex-patrono ao sucesso. E também
porque, no futebol, o comboio nem sempre passa duas vezes”.
A leitura que Bruno Prata fez da decisão de André Villas-Boas acabou por ser confirmada pelo
próprio quando afirmou publicamente, na conferência de imprensa de apresentação no Chelsea, que
“só tinha de aproveitar esta oportunidade e fi-lo contra o desejo de todos, inclusive da minha família,
que se mostrou muito relutante. Foi uma decisão pessoal, dura, mas lúcida”.
A visão de que tinha corrido fundamentalmente atrás do dinheiro – viu o ordenado quintuplicado
com a passagem do FC Porto para o Chelsea, isto é, de um para cinco milhões por época – foi
propositadamente desmentida pelo próprio quando, na mesma conferência de imprensa, afirmou de
forma surpreendente: “Reconheço que houve compromissos, através das minhas palavras, que
aumentaram o sentimento de infidelidade junto dos adeptos do FC Porto. Mas o que disse na altura
foi sincero. (…) Foi difícil, muito difícil, a separação. Os jornalistas portugueses que aqui estão são
minhas testemunhas e têm conhecimento da repercussão que teve a minha saída do FC Porto. O meu
compromisso com o FC Porto era de cem por cento. Mas depois de um ano intenso, doido mesmo,
com muito sucesso, muitos troféus, senti que precisava de um desafio novo. Precisava de arriscar e
de desafiar-me e mim próprio. O FC Porto, no final, fez-me uma contra-proposta muito boa, muito
competitiva, para lá continuar, mas ainda assim preferi sair, até porque, depois de se ganhar tudo,
pode cair-se no erro de nos tornarmos exageradamente confiantes, descurando pormenores que levam
a cometer erros escusados.”
Luís Freitas Lobo resumiu melhor do que ninguém esta questão quando escreveu, de forma lapidar,
que “o mercado, como o conhecemos no seu funcionamento normal, mudou em 2004 com a entrada
nele de dinheiro estratosférico vindo de fora do seu até então circuito normal. O aparecimento de
Abramovich e da oligarquia que o suporta, origem desse novo dinheiro, adulterou o normal
funcionamento dos maiores negócios/transferências. Depois dele, surgiram as fortunas árabes.
Dinheiro fora do gerado naturalmente pela indústria do futebol, irrompeu dentro dela e tornou-se
numa bomba relógio invisível que pode explodir a qualquer momento. Isto é, se antes, com as
normais direcções dos grandes clubes, essas movimentações tinham processos de evolução naturais,
agora, com estes novos magnatas, isso é impossível de prever. A qualquer momento, tudo muda. Até
as juras de amor mais profundas. A insustentável leveza dos seres futebolísticos fica, num ápice,
exposta. Depois de um grande êxito internacional, pensar que o financiamento frágil do futebol
português e seus exemplares de sucesso (treinadores e jogadores) poderiam ficar impermiáveis ou
insensíveis a tudo isto, é viver fora da realidade. Uma guerra perdida.”
“Ambicionei esta posição [de treinador do FC Porto] de uma forma louca, cega. É a posição que
quero, o clube onde cresci e defendo. É a posição máxima que ambicionei. Tive acesso a este
objectivo numa fase prematura da minha carreira, mas com plena consciência de que não vinha
brincar e tinha competência suficiente para manter esta equipa na rota do sucesso. É isso que quero
fazer. O tempo que estarei aqui não me compete a mim dizer. Espero é ter sucesso e estar à altura.”
Foi com frases como estas, proferidas um pouco ao longo de todo o seu percurso no FC Porto – as
acima reproduzidas foram ditas em Janeiro de 2011 – que André Villas-Boas criou nos adeptos um
sentimento forte e afectivo. E que a sua repentina partida o transformou, naturalmente, num traidor.
Até que a raiva dos adeptos passe e o agradecimento por tantas e tão brilhantes vitórias volte a
colocá-lo no lugar que a história azul-e-branca inevitavelmente lhe reservará. Afinal, o mesmo
aconteceu já com… José Mourinho.
Quem não considerou de todo André Villas-Boas como traidor foram os jogadores por si
orientados no FC Porto. Todos os que emitiram opinião foram claros ao solidarizarem-se com a
opção do técnico em rumar a Londres. Bem ilustrada nas afirmações do capitão Helton quando disse
que “toda a gente almeja o melhor para os outros. Nós não nos esqueceremos dele, assim como ele
também não se irá esquecer deste grupo”. E reforçou o que lhe ia na alma, considerando que “temos
de lhe desejar felicidades. Tomou a opção que achou melhor para ele e para o clube. Temos de lhe
agradecer, até por ser um amigo”. Mas não se ficou por aqui. “Acho que Portugal em peso tem muito
a agradecer a André Villas-Boas, porque deixou muitas coisas boas, como aconteceu com José
Mourinho”, considerou o capitão. E o defesa-central Rolando, outra das peças chave da equipa ao
longo da época 2010-11, disse publicamente que André Villas-Boas tinha o seu telemóvel e que se o
quisesse no Chelsea só tinha que ligar… A que mais pode aspirar um líder de um grupo de trabalho
quando deixa esses homens para trás e continua a ter a admiração e a amizade dos que consigo
trabalharam?
“O navio é seguro quando está no porto. Mas não é para isso que se fazem navios.” Esta frase
ilustra, melhor do que qualquer outra, a decisão que André Villas-Boas teve que tomar. E a palavra
porto pode bem aqui ser interpretada em dois diferentes sentidos: porto o porto de abrigo para os
navios a que se referia o anónimo autor da frase; mas também Porto, o clube que é um verdadeiro
garante de estabilidade e sucesso para um profissional de futebol. Acontece que o navio Villas-Boas
estava já preparado para deixar o porto e rumar a outras aventuras no alto mar do futebol europeu…

O FANTASMA DE MOURINHO

Mas para o presidente portista – em tom muito crítico numa entrevista pública que deu à jornalista
Fátima Campos Ferreira, no Casino da Figueira da Foz, pouco mais de duas semanas após a partida
de André Villas-Boas – o jovem ex-técnico dos dragões foi-se embora por outras razões. Pinto da
Costa revelou o diálogo que teve a dois com Villas-Boas após o treinador ter mostrado receio de
perder para o Barcelona a Supertaça Europeia:
— Estás preocupado em poderes levar três ou quatro golos do Barcelona?
— Se eu levar três ou quatro do Barcelona e me correr mal a Champions, para o ano ninguém me
quer.
— Estás com medo de levar três ou quatro do Barcelona, mas o Mourinho levou cinco e nem por
isso deixou de ser o melhor do mundo.
O líder portista passou depois às conclusões, adiantando de forma concludente à jornalista que o
entrevistava: “Portanto, é evidente que [André Villas-Boas] teve receio de que o sucesso não se
pudesse repetir. Ele está sempre com o fantasma do Mourinho, e como o Mourinho ganhou a UEFA e
depois ganhou a Champions, ele não quis arriscar uma segunda época em que pudesse ser comparado
com o Mourinho depreciativamente por só ter ganho num ano e ter perdido no segundo. Isso acho que
foi tão importante como aquele camião de libras que lhe parou à porta.”
Bem disposto, e com aquele à vontade a que há muito habituou os portugueses, adiantou que “se eu
fosse o pai dele, ter-lhe-ia dito o mesmo que lhe disse como presidente e amigo: que ele deveria
ficar mais um ano no Porto. No futebol, quando se fala dos gigantes europeus, a medida não é o
Chelsea, é o Real Madrid, o Barcelona ou o Manchester United.”
Pinto da Costa considera que Villas-Boas teria todas as possibilidades de progredir na sua
carreira se ficasse mais uma época no clube. “Eu disse-lhe que esta deverá ser a última época de
Guardiola no Barcelona e que o Barça é o melhor clube para ele, mas ele estava com medo das
comparações com Mourinho e foi-se embora.”
Para o presidente do FC Porto não houve, portanto, qualquer aposta pessoal. Tratou-se tão-
somente de um fantasma que gera medo, por um lado, e de um monte de libras, por outro.
Instado a responder às afirmações de Pinto da Costa, André Villas-Boas limitou-se a repetir o
discurso que vinha apresentando desde que saiu do Dragão: “Conheço bem o presidente do FC Porto
e respeito-o. Toda a gente sabe que o FC Porto é o meu clube. O que lá deixámos representará
sempre muito para mim e para o próprio clube. Mas é assim, foi uma separação difícil, como sempre
tenho dito…”
O que é óbvio é que se André Villas-Boas vivesse debaixo do fantasma de Mourinho, então o
último clube que escolheria para sair do FC Porto seria o Chelsea. Exactamente porque em Stamford
Bridge as comparações com o Special One vão ser ainda mais inevitáveis e a pressão da sombra de
Mourinho vai necessariamente acompanhá-lo do primeiro ao último minuto dos seus dias em
Londres. Como o próprio o reconheceu na mesma ocasião: “Se tivesse um problema chamado
Mourinho não viria para o Chelsea, com certeza. Porque ele foi extremamente bem sucedido durante
vários anos aqui e é um clube que está à procura do Santo Graal [vencer a Champions League].
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Então, se eu estou a fugir do Santo Graal do FC Porto, estou a meter-me em problemas para tentar
encontrá-lo neste clube que luta por ele há muito tempo?”
Em todo o caso, o esforço financeiro que o FC porto se dispôs a fazer para segurar André Villas-
Boas, e ao qual Pinto da Costa não se referiu, não deixou de ser uma revelação verdadeiramente
surpreendente. Não tanto pela atitude em si mesma, mas fundamentalmente pelo montante em causa,
sabendo-se hoje o que o técnico foi ganhar para Londres. Surpreendente, mas também confirmativa
de que Pinto da Costa estava disposto a quase tudo para não desmantelar uma equipa que acreditava
estar na peugada da de 2003, que depois da vitória na taça UEFA venceu na época seguinte a
Champions. “A vários dos craques foi pedido para ficarem mais um ano, no pressuposto de que
haveria uma equipa (e um treinador) com condições para os valorizar mais”, escreveu Bruno Prata
no atrás referido artigo publicado no diário Público.

RISCOS, DÚVIDAS E… REVOLUÇÕES

O líder que Villas-Boas acabava de deixar (Pinto da Costa) transmite tanta segurança aos seus
treinadores como o que ele ia encontrar (Roman Abramovich) transmite de instabilidade. Em oito
anos à frente do Chelsea, mesmo tendo tornado o clube num dos mais fortes da Europa à custa de
avultados investimentos suportados pela sua fortuna pessoal, o magnata russo já apostou em sete
diferentes treinadores. Algo impensável num país como a Inglaterra, onde os técnicos têm porventura
as mais duradouras relações de trabalho com os clubes e não são despedidos “por dá cá aquela
palha”.
A última vítima de Abramovich foi o italiano Carlo Ancelotti, senhor de um curriculum que fala
por si, sumariamente despedido 12 meses depois de ter dado ao Chelsea a primeira dobradinha da
sua história e de, na segunda época ao comando da equipa, ter deixado o clube no segundo lugar da
Premier League, garantindo, assim, o acesso directo à fase de grupos da Champions League. Foi
informado da sua dispensa pelo director executivo do clube, Ron Gourlay, antes mesmo de deixar
Goodison Park, estádio do Everton, onde o Chelsea jogou no último dia da época 2010-11.
Mas André Villas-Boas sabe bem ao que vai. “O que se espera deste clube é que obtenha sucesso
imediatamente”, afirmou na conferência de imprensa de apresentação no Chelsea. E tirou ele mesmo
as conclusões, afirmando que “ficarei surpreendido se me mantiverem no lugar se eu não ganhar”. Já
José Mourinho tinha dito nos seus tempos de treinador do Chelsea, referindo-se a Rafa Benitez, na
altura treinador do Liverpool: “Três anos sem títulos? Estaria desempregado.”
Em Inglaterra, muito por culpa da sua juventude – passou a ser o mais novo boss a trabalhar na
Premier League –, mas também pelo facto de ter passado quase incógnito pelo Chelsea quando lá
trabalhou como elemento da equipa técnica de José Mourinho, fizeram-se ouvir as maiores dúvidas
relativamente à nova aposta de Abramovich. De facto, os funcionários do clube lembram-se de
Villas-Boas como uma pessoa muito discreta, que vivia na sombra do Special One, e que passava
muito tempo fora a observar jogos, fechando-se depois no seu gabinete de trabalho a produzir
relatórios. Todos os jogadores gostavam de André, ele era até uma figura muito popular no clube.
Nunca se ouviu mesmo uma palavra negativa a seu respeito, mas, a bem da verdade, nunca deixou de
estar na sombra.
Pedro Pinto, um jornalista português que trabalha na CNN em Londres, escreveu inclusivamente
que tinha perdido a conta à quantidade de pessoas que o tinham questionado sobre a forma de
pronunciar o nome do homem que estava muito perto de se tornar o novo manager do Chelsea. E
Paul Scholes, acabado de pendurar as botas, entrando directamente para o staff de Alex Fergusson no
Manchester United, reconheceu, calcule-se, que desconhecia a existência de André Villas-Boas até…
ao mês de Junho, isto é, até ao momento em que ele foi confirmado como treinador do Chelsea!
Aproveitou para acrescentar, diplomaticamente, que “ele apareceu como alguém que sabe
exactamente o que quer e teve uma boa aprendizagem com José Mourinho e Bobby Robson”.
Actualmente treinador, Graeme Souness, figura de proa no meio-campo da grande equipa do
Liverpool que dominou a Europa do futebol no final dos anos 70 / início dos anos 80, foi uma das
vozes que primeiro se levantou para colocar em causa a escolha do jovem técnico português. Souness
trabalhou em Portugal entre 1997 e 1999 como treinador do Benfica, e esse facto deu-lhe porventura
legitimidade para, numa entrevista concedida à Sky Sports, afirmar que Villas-Boas “teve um grande
ano na época passada, mas é um novato, e acho que é um risco enorme. Não é o trabalho mais difícil
do mundo ganhar o campeonato português com o FC Porto. Pela forma como as coisas estão
estruturadas no clube, a partir do presidente, eles têm o sucesso mais ou menos garantido todos os
anos” – e o escocês sabia do que falava uma vez que perdeu em Portugal o campeonato precisamente
para o FC Porto. Mas o raciocínio de Souness foi um pouco mais longe: “Ele merece muito crédito
por ter ganho a Liga Europa com o FC Porto, mas esta competição não é uma prioridade.”
Relativamente ao problema da idade, deu um conselho: “O que ele tem de fazer imediatamente é
conseguir ter os jogadores do seu lado. Com 33 anos, alguns deles serão mais velhos do que ele, e
ele é um novato, independentemente da forma como se olha para a situação.”
Com 26 anos de idade, Berger, jogador de André Villas-Boas na Académica, esclarece a
propósito da questão da juventude do treinador que “nunca houve nenhuma confrontação entre ele e
os jogadores mais velhos. Ele sempre tentou ajudar os jogadores e disse-nos que se alguma vez
tivéssemos um problema que fossemos falar com ele. Isto era muito importante – todos podiam falar
com ele”. E prossegue com uma autêntica profissão de fé no futuro de André Villas-Boas no clube
londrino: “Ele dá muita importância à criação de um grande espírito de grupo, logo toda a gente
trabalha junta e todos puxam pelo grupo. Tem uma grande personalidade e nós sentimo-la enquanto
jogadores. Queremos trabalhar com ele e fazer as coisas bem feitas para ele.”
Algo na mesma linha tinha afirmado o médio brasileiro Souza, que quase não foi opção para
Villas-Boas no FC Porto, quando questionado sobre o facto de o técnico ter idade e cara de jogador:
“Não me causa estranheza. Ele impõe respeito, tem um diálogo muito bom com todos os jogadores.”
Esta visão foi compartilhada também pelo capitão de equipa, o guarda-redes Helton, mais velho
jogador do plantel azul-e-branco, quando afirmou que “muitos poderiam ver a idade como uma
desvantagem. Eu, não. A idade muitas vezes não condiz com a mente. Existem pessoas mais velhas
que muitas vezes não conseguem ser respeitadas pelos mais novos. Quanto às qualidades – e não
quero com isto dizer que as pessoas mais velhas não são assim –, destaco a forma como ele está
sempre em sintonia com os jogadores, para além de conseguir passar mais rapidamente as ideias que
tem”. Ou seja, para Helton, a questão da idade não era vista como uma desvantagem, funcionava
antes como um factor positivo.
André Villas-Boas, por seu lado, não evitou comentar o assunto e, em resposta a uma pergunta do
Sunday Mirror, esclareceu: “Aceito que algumas pessoas possam duvidar da escolha de um
treinador tão novo, mas se eu não acreditasse que podia ter sucesso, qual seria o meu objectivo ao
aceitar?” E na apresentação como novo treinador dos blues voltou a referir-se ao tema,
reconhecendo que “julgar a minha idade é normal. Tudo me aconteceu cedo, dos 18 anos até agora,
de forma natural, com tempo. Os jogadores são profissionais e responsáveis, nunca tive problema
com qualquer um”.
Em resposta a uma pergunta levantada por um jornalista russo, antes do jogo do FC Porto com o
Spartak de Moscovo para a Liga Europa, sobre como é que os jogadores o tratavam, explicou:
“Tratam-me por mister, naturalmente, com o máximo de respeito. Neste grupo de trabalho cada um
sabe o seu lugar, não há quaisquer problemas. Faltas de respeito? Nem podia haver. O treinador
decide, bem ou mal, e os jogadores sabem que é assim. Isso de ser jovem não tem qualquer
influência.”
No fecho da digressão asiática dos blues, comentou, referindo-se ao espírito de grupo que
conseguiu implementar no FC porto com os resultados que se conhecem, que “os jogadores [do
Chelsea] foram capazes de assimilar esse espírito, para se vender ideias os jogadores devem
comprá-las e isso está a acontecer”.
E numa das raras entrevistas que deu em exclusivo na sua carreira, no caso ao Diário de Coimbra
quando treinava a Académica, no final da época 2009-10, o técnico explicou de forma muito clara
como encara a questão da liderança: “Os jogadores medem sempre o seu líder e estão sempre à
procura das fraquezas do seu líder e a testar essas fraquezas. Por outro lado, quando são
confrontados com competência, rigor e organização não andam à procura dessas debilidades, mas
sim de evidenciar essas qualidades.” Sem ter tido oportunidade de ler esta entrevista, o ex-
internacional inglês Gary Lineker, o melhor goleador do Mundial’86, que teve lugar no México, e
comentador respeitado da televisão britânica, alinhou pelo mesmo diapasão ao afirmar que “os
jogadores do Chelsea vão perceber rapidamente se ele tem algo de especial ou não. Se for especial,
vai correr tudo bem. Se não, os jogadores vão notar e os rumores no balneário vão começar a surgir.
André Villas-Boas precisa de ter grande personalidade.”
O manager do Tottenham, Harry Redknapp, uma das vozes mais autorizadas e respeitadas da
actual Premier League, simplificou a questão, apresentando uma visão diferente relativamente à
corrente dominante: “É um trabalho fantástico. Precisas de ser um louco para não fazer um bom
trabalho no Chelsea com todos aqueles jogadores. Vais para dentro do balneário, olhas à volta e vês
grandes jogadores, líderes como John Terry, Frank Lampard, Dider Drogba. Seria difícil falhar.” Ou
seja, só um incompetente – coisa que André Villas-Boas já mostrou não ser – é que pode falhar no
Chelsea. Onde está então o risco que tanto se discutia? Talvez na volatilidade do dono do clube.
Mas, de repente, parece que toda a gente servia para dar uma opinião que fosse sobre o novo boss
do Chelsea. Olivier Dacourt – que em Inglaterra jogou no Everton, Leeds e Fulham – não é
propriamente um opinion maker nem está actualmente, aos 36 anos, a jogar ao mais alto nível. Que
interesse poderia ter, então, ouvir o que pensava sobre André Villas-Boas? Na verdade, o ex-
internacional francês trabalhou um ano com Mourinho no Inter e aí teve oportunidade de privar com o
jovem André. As suas opiniões não podiam ser mais elogiosas. À BBC Sport declarou que “nós já
vimos o aluno a ultrapassar o professor no passado e isso pode acontecer agora com Villas-Boas no
Chelsea. Ele aprendeu muito com Mourinho, mas é bastante diferente, é mais humano”. Reconheceu
que teve problemas com Mourinho e que André – ao contrário do que normalmente acontece com os
elementos do staff de um treinador, que ficam também com as suas relações afectadas pelo que se
passou entre o jogador e o chefe – o tratou sempre como se nada tivesse acontecido. “Ao mesmo
tempo que se está a tornar um treinador de topo, é uma pessoa fantástica. Todos os jogadores
gostavam muito dele”, revelou.
Comparando o plantel do FC Porto, com o qual Villas-Boas trabalhou na época 2010-11, com
aquele que o técnico ia encontrar no Chelsea, Gary Lineker explicou o seu ponto de vista: “Esteve
muito bem no FC Porto, onde tinha uma grande equipa, mas sem nomes com muitos anos de casa. Vai
ser duro entrar num balneário com jogadores que estão no clube há muitos anos.”
Muitos opinaram então que, exactamente para evitar o problema levantado por Lineker, Villas-
Boas iria proceder a grandes alterações no plantel. Chegou-se inclusivamente a falar do nome de
Frank Lampard, o sub-capitão de equipa e um dos históricos e mais carismáticos jogadores do clube.
Mas o técnico, que no FC Porto aceitou trabalhar tranquilamente com todos os jogadores que faziam
parte do plantel, deixou desde logo claro que não seria esse o caminho a trilhar: “Quando aparece um
novo treinador, pensam logo em revoluções, mas num clube que teve sucesso em seis ou sete anos
deve-se ajustar com cuidado e tomar decisões ponderadas.”
O assunto não ficou, porém, morto com este esclarecimento do técnico. Em Kuala Lumpur, na
Malásia, onde o Chelsea fez a primeira de várias paragens na sua digressão de pré-época pelo
Oriente, André Villas-Boas entendeu necessário voltar ao tema, até porque as especulações a
propósito de uma eventual limpeza de balneário continuavam a ser referidas em vários media.
Repisou, uma vez mais, as ideias que defendeu desde o momento em que assinou pelo Chelsea, mas
desta vez, com referências aos três mais importantes jogadores do plantel, lançou algumas perguntas
para os jornalistas: “Os chamados intocáveis? São jogadores que jogam continuamente a alto nível.
Se olharmos para os troféus que ajudaram a ganhar e para o sucesso que tiveram, não serão
futebolistas úteis? Talvez sejam, não?” E continuou com uma explicação que, no fundo, servia para
esclarecer as muitas dúvidas levantadas a propósito da sua capacidade para comandar jogadores
como os três apontados. “O mais importante num líder é ser coerente nas decisões que toma,
princípio de que não abdico. Enquanto mostrarem rendimento que lhes permita lutar por um lugar no
onze, merecem oportunidades.”

SCOLARI E O BALNEÁRIO DO CHELSEA

Apesar de os princípios de liderança enunciados por Villas-Boas serem claros e, pelo menos à
partida, justos, os receios quanto a eventuais dificuldades que poderá sentir na gestão do balneário
do Chelsea levam-nos a recordar a experiência vivida pelo antigo seleccionador de Portugal, Luiz
Felipe Scolari , apesar dos pontos comuns aos dois treinadores serem escassos.
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Quando chegou a Londres, em Julho de 2008, o brasileiro sabia que estava a pisar terreno minado
– como ele próprio reconheceu aos seus mais próximos, mas nunca publicamente. Tudo começou com
o processo da sua contratação. O dono do Chelsea, o russo Roman Abramovich, tinha escolhido o
italiano Carlo Ancelotti, mas não conseguia convencê-lo a sair do AC Milan. Em favor de Scolari
estava Peter Kenyon, na altura o director-geral do clube, que contava com o apoio de Eugene
Tenenbeau, um dos homens de confiança de Abramovich e responsável pela parte financeira dos
blues. A uma semana do começo do Euro’2008, Kenyon e Tenenbeau receberam, finalmente, luz
verde do russo e acertaram tudo com Scolari, na sua casa em Cascais.
No dia da partida da Selecção de Portugal para a Suíça, a 1 de Junho de 2008, o treinador
brasileiro assumiu o acordo verbal com o Chelsea e disso deu conhecimento ao presidente da
Federação Portuguesa de Futebol, Gilberto Madaíl. Mas o que nenhum deles estava à espera foi da
primeira manifestação de “quero, posso e mando” de Abramovich. Ao fim da tarde do dia 11 de
Junho, pouco depois de terminado o jogo entre Portugal e a Rep. Checa, o Chelsea colocou no seu
site da internet a notícia da contratação do treinador brasileiro, o que causou um enorme transtorno a
Scolari e a toda a comitiva da selecção portuguesa. Foi um gesto cirúrgico no timing, porque
aconteceu já depois da conferência de imprensa após o jogo.
Nessa manhã, o director Carlos Godinho questionara o treinador sobre o assunto, tendo o
brasileiro garantido que apesar de o acordo estar assumido, o seu anúncio público só deveria
acontecer depois do fim do Europeu. E quando souberam do que estava a passar-se, os dois homens
procuraram, de imediato, entrar em contacto com Gilberto Madaíl para o informar do
desenvolvimento. Os longos minutos seguintes foram de alguma aflição para os dois, pois Madaíl
estava já no aeroporto de Genebra preparando-se para regressar a Lisboa e tinha o telemóvel
desligado. Finalmente, já na sala de embarque, foi contactado através da sua secretária e de imediato
abandonou o local, dirigindo-se para o hotel de Neuchatel onde estava hospedada a Selecção de
Portugal. Antes de aparecerem lado a lado frente aos jogadores, quase no final do jantar, Madaíl e
Scolari estiveram reunidos algum tempo, tendo o técnico brasileiro procurado desculpar-se da acção
do Chelsea, que não podia ter controlado ou evitado. A situação não era fácil para qualquer dos
homens mas decidiram enfrentar os jogadores da Selecção Nacional com sorrisos nos rostos,
procurando desanuviar o ambiente.
Esse primeiro choque deu a Scolari a certeza quanto à desconfiança que já tinha em relação ao
trabalho que o esperava no Chelsea, especialmente no que se referia ao apoio de Abramovich.
Prevenido, o brasileiro deu ordens expressas ao seu empresário, Jorge Mendes, e respectivos
advogados, para serem intransigentes na defesa dos seus interesses na redacção do contrato que
ligaria as duas partes. A verdade é que durante quase três semanas (os primeiros dias em Cobham e
na digressão pela China e Rússia), Scolari trabalhou no Chelsea sem ter contrato assinado. Mas
quando, finalmente, o rubricou, foi já com a garantia de que o seu esperado despedimento antes do
final do contrato estava salvaguardado em termos financeiros.
Durante os menos de oito meses em que esteve no Chelsea, Scolari esteve com Abramovich em
apenas três ocasiões. A primeira, durante cinco minutos, na véspera de ser apresentado à imprensa, a
segunda num encontro social em vésperas do Natal de 2008 e a última no dia seguinte ao seu
despedimento. Esta, curiosamente, foi a ocasião em que falaram mais tempo e mais a sério sobre o
clube.
“Talvez se aquela conversa tivesse acontecido no primeiro dia e não no último, o despedimento
não tivesse acontecido”, confessou um dos colaboradores mais directos de Scolari. E o brasileiro
traçou um quadro bastante cinzento sobre os bastidores do Chelsea, especialmente as relações dos
diferentes poderes dentro da equipa e a separação em que esta vivia. Scolari não podia ter sido mais
claro: “Enquanto não tirar o poder aos francófonos, você não terá um grupo unido, com toda a gente a
lutar pelo mesmo objectivo,” disse ao russo nessa conversa de despedida.
Numa equipa onde o capitão era John Terry e uma das principais figuras outro inglês, Frank
Lampard, a verdade é que, pela experiência vivida por Scolari, não eram os ingleses que
comandavam o balneário. O verdadeiro líder, para o bem e para o mal, era o costa-marfinense Didier
Drogba, que comandava o grupo dos jogadores francófonos onde estava o seu grande rival, Nikolas
Anelka. Por um motivo ou por outro, a guerra fria entre Scolari e Drogba começou por causa de
utilização de Anelka como primeira opção por parte do brasileiro. Habituado ao estatuto de
indiscutível, Drogba enfrentou o treinador de uma maneira que este não gostou e o caldo entornou-se.
É que o feitio de Scolari não dá espaço ao meio termo ou climas de paz podre.
Em finais de Novembro, o Chelsea começou a acumular maus resultados – depois de uma
impressionante série de vitórias consecutivas no arranque da liga – e com eles agravou-se o ambiente
dentro da equipa. Além de Drogba, Scolari tinha em Florent Malouda e Salomon Kalou dois outros
problemas de disciplina interna, com o grupo francófono a marcar posição de forma ostensiva, ao
ponto de violarem sem qualquer problema a regra interna de que nos treinos toda a gente devia falar
em inglês. Isso causou outros problemas, desta vez junto do grupo lusófono, formado por vários
portugueses e brasileiros, que se sentiram descriminados pelos francófonos.
Além das invejas de Drogba em relação a Anelka (o único francófono com quem Scolari
conseguia manter uma relação não conflituosa), dois outros jogadores também foram importantes na
passagem pouco conseguida do treinador brasileiro pelo Chelsea – o alemão Michael Ballack e o
ganês Michael Essien.
O problema com Ballack passou pela má forma do alemão (também afectado por lesões) e pela
chegada de Deco ao clube londrino, onde disputava com ele um lugar na equipa. Deco foi um pedido
expresso de Scolari e Ballack assumia-se como vedeta intocável, ao ponto de ter questionado
directamente o treinador brasileiro em mais de uma ocasião. Ballack não tinha muitos amigos no
balneário, mas isso não o impedia de reclamar um tratamento diferenciado, que, na maior parte do
tempo, não justificava aos olhos do treinador e dos companheiros. É verdade que em certos
momentos o próprio Deco, através de exibições pouco conseguidas que não justificavam o
investimento feito nele, também ajudou à polémica, porque ficava a sensação de ser utilizado apenas
pela afinidade que tinha com o treinador.
O relacionamento com Essien foi totalmente diferente. Apesar de falar francês, por ter feito boa
parte da sua carreira em clubes franceses, Essien não encaixava no grupo dos francófonos liderado
por Drogba e Malouda. Perdeu quase todos os oito meses da liderança de Scolari no Chelsea devido
a uma lesão e o treinador não tem dúvidas em dizer que essa foi uma das razões do fraco desempenho
da equipa quando chegou o período mais exigente, por altura do Natal e Ano Novo.
“Essien foi um dos profissionais mais empenhados e dedicados à equipa com quem já trabalhei. É
acima de tudo um homem como poucos no futebol,” disse o brasileiro meses depois de ter sido
despedido do Chelsea, numa conversa entre amigos. Scolari recordou, nesse encontro, que o médio
ganês não usou a sua lesão como desculpa para se distanciar do grupo. “Ele podia ficar só no ginásio
ou com os fisioterapeutas, mas passava sempre pelo relvado e pelo balneário, incentivando os
companheiros e apontando o dedo a algum deles quando achava que não estava a dar o máximo pela
equipa”, recordava ainda Scolari.
A tensão entre o treinador brasileiro e parte do plantel foi aumentando a partir de Novembro de
2008 sem que Scolari tivesse sentido qualquer apoio formal da estrutura dirigente do Chelsea.
“Eu sabia que não tinha sido a primeira escolha de Abramovich e que corria o risco de não chegar
ao fim do primeiro ano, mas não podia deixar de aceitar o desafio de treinar do Chelsea”, confessou,
mais tarde, aos seus mais próximos. E o brasileiro recusa a tese segundo a qual o seu limitado inglês
tenha estado na base do falhanço. “Num grupo tão diversificado em termos linguísticos, o que falhou
não foi isso, mas o não ter conseguido impor o meu sistema de ‘família’ dentro da equipa. Foi esse
espírito de ‘família’ que me ajudou sempre em todo o lado, menos no Chelsea, acima de tudo porque
uma boa parte do grupo estava contra e boicotou essa tentativa de construção do espírito familiar”,
acrescentou ainda Scolari no encontro com amigos que acompanharam de perto a sua experiência à
frente da Selecção de Portugal.
Hoje, Scolari acompanha com muito interesse a chegada de André Villas-Boas ao lugar que já foi
o seu. O brasileiro acredita que Villas-Boas tem várias vantagens em relação a si próprio, a começar
pelo facto de ser um homem que já conhece bem a casa e não entra em Cobham como um
desconhecido. Ter trabalhado com José Mourinho não terá sido o aspecto mais importante na escolha
de Abramovich, acredita Scolari, mas precisamente ter sido uma escolha pessoal do russo, contra
várias opiniões de dirigentes do clube. O magnata russo dá muita importância à coincidência
cronológica do sucesso de Mourinho no FC Porto e depois no Chelsea, acreditando piamente que o
mesmo se passará com Villas-Boas. E como agora com Villas-Boas, também Mourinho, em 2004,
não era a escolha dos seus conselheiros na direcção do clube londrino.
Por isso, Scolari acredita que Villas-Boas não terá de enfrentar os problemas por si vividos em
2008 e quando sentir necessidade de fazer alguma “limpeza do balneário” poderá contar com o apoio
incondicional do dono do Chelsea. “Eles vão se dar mal se pensarem que podem brincar com o
André só por causa da sua cara de menino”, confessou o brasileiro, desde São Paulo, quando
confrontado com o desafio do jovem treinador português. “O André é bom e vai prová-lo de novo no
Chelsea”, sublinhou.

SEGUNDA ESCOLHA?

Curiosamente, tal como Luiz Felipe Scolari, que foi uma segunda escolha depois da frustrada
tentativa de contratação de Carlo Ancelotti, também André Villas-Boas, segundo a imprensa
britânica, foi contratado depois do holandês Guus Hiddink não se ter decidido em tempo útil pelo
cargo. “O Chelsea virou-se para Villas-Boas devido à relutância de Hiddink em aceitar um papel
envolvente, o que parece custou-lhe o regresso a Stamford Bridge no curto prazo”, escreveu-se no
The Times. O diário disse ainda que o lugar de treinador dos blues tinha sido oferecido ao actual
seleccionador da Turquia “no mês passado, mas este mostrou reservas e o Chelsea cansou-se das
suas evasivas”.
Outro jornal, o Daily Mail, foi mais longe e explicou que Hiddink tinha primeiro mostrado
vontade de se mudar para Londres, mas, depois, exigiu “um treinador de topo a trabalhar” ao seu
lado, “para partilhar o fardo”. Este jornal avançou que, após as recusas de outros treinadores – o
holandês Marco van Basten e o britânico Steve Clarke –, os blues sondaram Villas-Boas, mas “cedo
se tornou claro que ele só consideraria o trabalho de treinador principal” e nunca o de adjunto. O
Independent confirmou esta versão: “Primeiro [o Chelsea] virou-se para André Villas-Boas como
treinador para trabalhar sob o comando de Hiddink, mas ficou tão impressionado com o técnico do
FC Porto que decidiu oferecer-lhe o posto de treinador principal.”
Os jogadores mais importantes do Chelsea conheceram André Villas-Boas no tempo em que ele
fazia parte da equipa técnica de José Mourinho. Não obstante, foi comentado o facto de futebolistas
como Drogba ou Lampard, apenas uns meses mais novos do que André Villas-Boas, poderem ter
questionado a opção pelo jovem treinador, sobretudo devido à sua falta de experiência no estrangeiro
como técnico principal. Também se disse que, pelo contrário, o técnico tinha sido imediatamente
aceite, muito por influência de John Terry. Segundo informações que circularam, o capitão dos blues
foi confrontado com o nome de André Villas-Boas pelo patrão do clube e não hesitou em aprová-lo.
Na verdade, sabe-se que Terry e Villas-Boas criaram uma relação afectiva e de grande proximidade
quando trabalharam juntos no clube entre 2004 e 2007.
“Terry é o capitão e vai sê-lo por muitos anos. Representa a história de sucesso do clube nas
últimas seis épocas, é uma referência”, afirmou Villas-Boas na primeira oportunidade que teve para
se manifestar como novo boss dos londrinos. “A sua contratação não foi uma decisão ousada, antes
uma excelente decisão. Vi treinadores chegarem e irem, mas tenho a certeza que ele vai ficar por cá
durante muito tempo”, retorquiu Terry na primeira vez que falou em público após a contratação de
André. Lembrou ainda anterior passagem do então observador pelo clube – “Ele era o tipo que
andava pelo mundo à procura de jogadores e já na altura tinha conhecimentos impressionantes. O que
conseguiu fora do Chelsea foi incrível. São poucas as oportunidades dadas a jovens treinadores, mas
ainda bem que Abramovich lhe deu esta.” – e elogiou-lhe os métodos de trabalho – “Sabe o que quer
de cada jogador e é muito inteligente”.
Alguns dos pesos-pesados do balneário tinham saído, entretanto, em defesa da nova aposta de
Roman Abramovich. Petr Cech – que chegou ao clube com José Mourinho, em 2004, portanto com
sete épocas completas em Stamford Bridge – foi uma das primeiras vozes a fazerem-se ouvir. Em
entrevistas ao jornal The Sun e à BBC Radio 5, afirmou: “Ainda não tive oportunidade de falar com
o treinador, mas conheço-o desde os tempos de Mourinho. Na altura, Villas-Boas fez um trabalho
fantástico. As análises aos adversários eram uma grande, grande ajuda. Os conhecimentos que tem do
futebol inglês e do Chelsea também vão fazer a diferença agora.”
Para o guarda-redes dos blues, a juventude do novo treinador não pode ser vista como um
problema. “Já provou que consegue liderar um grande clube até ao sucesso. Ganhou a Liga Europa
com o FC Porto, o que demonstra qualidade. Se todos aceitam que um jogador de 16 anos pode
actuar ao mais alto nível se tiver valor, o mesmo se passa com um treinador.” O internacional checo,
que conheceu seis técnicos diferentes desde que chegou ao clube, mostrou-se esperançado numa
longa estadia de Villas-Boas. “Mais de 25 anos, como acontece com Ferguson no Manchester United.
Uma continuidade desse género seria fantástica!”
Por outro lado, em declarações ao site do Chelsea, o defesa-esquerdo Ashley Cole mostrou-se
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convencido de que o técnico não iria ter problemas em lidar com o plantel. “A idade é só um número.
Ele tem a experiência de ter treinado o Porto, um clube grande. Esperamos que traga glória ao clube,
mas não considero que a idade seja motivo de preocupação. Os jogadores não pensam nisso. É o
nosso treinador agora e temos de lutar por ele no campo.” Esclareceu, depois, que “seja qual for o
treinador que chega, é respeitado. Não somos crianças. Todos dizem que há egos no balneário, mas
não há.” Quanto ao que conhecia do trabalho desenvolvido por Villas-Boas no Chelsea, Cole foi
muito claro: “Era impressionante a forma minuciosa como explicava os pontos fortes e fracos dos
adversários. Ele informava Mourinho sobre todos os jogadores que íamos defrontar.”

DE TREINADOR A MANAGER

Outra das dúvidas que foram levantadas a partir da contratação de André Villas-Boas pelo
Chelsea teve a ver com as funções que ele exercia no FC Porto e as que passaram a fazer parte do
seu job description em Londres.
Efectivamente, no FC Porto as funções do treinador têm fundamentalmente a ver com… o treino.
Villas-Boas foi encontrar no clube uma estrutura completamente montada e preparada para responder
até ao mais ínfimo pormenor. Uma estrutura, aliás, que ele já tivera oportunidade de conhecer quando
fez parte da equipa técnica de Mourinho e que muitos avaliam como tendo uma quota-parte de
responsabilidade muito elevada nos êxitos que os treinadores que chegam ao FC Porto
invariavelmente alcançam.
À cabeça dessa estrutura estão Pinto da Costa, o presidente do clube e da SAD, e Antero
Henrique, o director-geral da SAD, que traçam todas as directrizes. Aos técnicos cumprem as
funções de prolongar o estatuto de campeão da equipa – através das opções tácticas mais adequadas
– e a liderança do balneário.
Em Inglaterra os treinadores têm funções muito mais alargadas – por isso são chamados de
managers. E se se observar bem o empenhamento que Roman Abramovich colocou nos primeiros
dias de trabalho de André Villas-Boas no Chelsea, melhor se perceberá a dimensão e a profundidade
das responsabilidades que o jovem português ia assumir no clube londrino. Scolari queixou-se que
apenas falou três vezes com o magnata russo. A última das quais, por sinal a mais profícua, já depois
de ter assinado a rescisão. Pois André Villas-Boas foi visto algumas vezes na companhia de
Abramovich, ambos vestidos com o mesmo estilo informal – de jeans, com camisa clara por fora das
calças –, acompanhados de seguranças, a entrar para um dos hotéis de quatro estrelas que o clube
possui junto a Stamford Bridge. Aí reuniram numa sala VIP exclusiva para executivos, longe dos
olhares indiscretos dos hóspedes, num tipo de encontro que os próprios empregados do hotel
confessaram não ser nada habitual no patrão russo.
Foram uns dias frenéticos de trabalho – 4ª feira, dia 22 Junho, o primeiro, teve início às 09:30 da
manhã e só acabou ao final da tarde –, a preparar o futuro próximo do Chelsea, com a família (mulher
e filhas) em Portugal, permitindo-lhe desta forma uma concentração absolutamente exclusiva no
muito que havia para fazer no clube.
E as decisões de André Villas-Boas começaram logo a ser conhecidas, como a anulação do
primeiro jogo de preparação com o Vitesse, a ter lugar na Holanda, ou as dispensas de Paul Clement
(um dos adjuntos, há oito anos no clube), de Glen Driscoll (preparador físico) e do doutor Bryan
English (responsável pelo departamento médico).
A última edição do The News Of The World, fechado pelo seu proprietário na sequência do
escândalo das escutas ilegais, revelava um conjunto de regras impostas por André Villas-Boas no
sentido de alterar radicalmente a disciplina no interior do clube. Com o intuito de evitar os
problemas do passado recente e construir uma equipa solidária desde o início da sua experiência nos
blues, tomou uma série de medidas que, aos olhos dos mais desconfiados, começaram desde logo a
mostrar e a demonstrar a forte personalidade do mais jovem manager da Premier League.
Já nos pudemos aperceber ao longo deste livro do quanto é importante para André Villas-Boas o
factor humano e da forma como ele domina a difícil arte da gestão e da motivação de grupos.
Mourinho, talvez o maior mestre nesta arte, com quem André Villas-Boas muito terá seguramente
aprendido, quando chegou ao Chelsea perguntou no balneário quem é que ali já tinha ganho títulos.
Sabendo que, tirando Ricardo Carvalho ou Paulo Ferreira, jogadores que o tinham acompanhado na
viagem do Porto para Londres, ninguém mais podia ostentar qualquer medalha ao peito, e que era
olhado com desconfiança por ser jovem e ter apenas treinado ao mais alto nível o FC Porto, marcou
desta forma a sua posição perante o grupo de trabalho. André Villas-Boas, pelo seu lado, ao entrar
no mesmo balneário sete anos depois, encontrou um grupo de jogadores com vários títulos ganhos ao
serviço do clube. Mandou então, segundo relatou o The News Of The World, retirar do centro de
estágios de Cobham todas as recordações de sucessos recentes, incluindo fotografias das celebrações
da era Mourinho ou Ancelotti. Quis, com esta decisão, que os jogadores interiorizassem a ideia de
que com ele tudo ia começar de novo e, como tal, a equipa não tinha ainda ganho nada.
Mas as medidas reveladas pelo extinto jornal não se ficaram por aqui. Por exemplo,
independentemente do horário do treino, no início dos trabalhos de pré-época os jogadores teriam
que se apresentar em Cobham às 09:00 e as refeições seriam tomadas em grupo.
Por outro lado, procurando evitar a formação de grupos entre estrangeiros a que Scolari fez
referência, instituiu o inglês como a única língua oficial no balneário. Nada de surpreendente para
quem sabe que no FC Porto foi exactamente assim: a única língua permitida era o português. Uma
missão facilitada pelo facto de ter um plantel praticamente bilingue (português e castelhano).
No que diz respeito ao tratamento de lesões, ao contrário do que acontecia nos anos anteriores, os
jogadores ficaram proibidos de ver televisão, falar ao telemóvel ou ler jornais durante os
tratamentos, para que estes possam ser encarados com a maior seriedade. A blindagem do centro de
estágios é outro objectivo explícito do jovem técnico, para o que determinou a proibição dos
jogadores para lá levarem família, amigos, conselheiros, cabeleireiros ou até… os próprios agentes.
Para um jovem manager, relativamente ao qual foram levantadas tantas dúvidas, o início do seu
trabalho em Londres mostrou que o receio de que não tivesse força para se impor num balneário
composto por jogadores pouco mais novos do que ele não fazia qualquer sentido. Retomamos o que
disse Scolari e que já atrás foi referido neste livro: “Eles vão se dar mal se pensarem que podem
brincar com o André só por causa da sua cara de menino.”
CAPÍTULO 6

“Aprendeu muitas coisas com o José e há certos momentos em que nós


pensamos: isto é muito Mourinhesco.
John Terry

Fará sentido afirmar que Neymar é o novo Pelé? Ou que Messi é melhor do que Maradona? É
legítimo comparar o Brasil de 70 com o Barcelona de Guardiola? Provavelmente não. Da mesma
forma que não fará sentido repetir a ideia, já tão “russa” de gasta, de que Villas-Boas é o novo
Mourinho.
No entanto, neste último caso, torna-se irresistível estabelecer pontes de comparação entre o
Special One e o Special Too (como convencionámos chamar-lhe no título deste livro). A causa
dessas pontes é o passado e o percurso que ambos partilharam. Vejamos alguns desses exemplos:
− São portugueses
− Nasceram com uma fortíssima paixão pelo futebol – Foram futebolistas falhados
− Bobby Robson deu-lhes a mão e permitiu que se tivessem iniciado no futebol ao mais alto nível
− Trabalharam como observadores de equipas técnicas
− Deram nas vistas como treinadores ao serviço de clubes modestos e deram o salto muito
rapidamente
− Chegaram ao FC Porto antes de perfazerem um ano de carreira como treinadores
− Arrasaram na primeira época ao serviço dos azuis-e-brancos
− Deixaram o FC Porto de forma inesperada, contra a vontade do clube, e foram trabalhar para o
Chelsea
− Chegaram à Premier League sem outra experiência que não a Liga portuguesa
São, portanto, muito mais os pontos de união entre Mourinho e Villas-Boas do que o fosso que
pode separar os dois treinadores. As opiniões de quem partilhou vivências com ambos ou
especialistas equidistantes provam, nas próximas linhas, a existência de semelhanças nítidas, na
forma e no conteúdo, entre os dois técnicos portugueses.
Comecemos por algo que não é passível de subjectividades, a frieza dos números. Neste domínio,
a única comparação lógica situa-se nas respectivas primeiras épocas completas (a única, no caso de
Villas-Boas) que fizeram ao serviço do FC Porto: o mesmo clube e a mesma estrutura; o mesmo
campeonato, a mesma taça e a mesma competição europeia (Taça UEFA/Liga Europa).
Ambos conquistaram a tripleta (Campeonato, Taça de Portugal e Taça UEFA/Liga Europa). Villas-
Boas ainda lhe acrescentou a Supertaça de Portugal – competição que Mourinho não teve
possibilidade de disputar –, mas também é verdade que falhou a conquista da Taça da Liga – troféu
inexistente ao tempo do Special One. Ou seja, Mourinho ganhou três em três e Villas-Boas ganhou
quatro em cinco.
Permaneceu até muito recentemente, como ideia feita, que José Mourinho terá realizado em 2002-
03 uma época de registos imbatíveis na história do FC Porto. Os números não confirmam isso. Como
podemos conferir de forma mais pormenorizada nos quadros que apresentamos a seguir, Mourinho
teve uma eficácia de 77,3% nos 53 jogos à frente da equipa. Claramente inferior aos 84,4%
alcançados por André Villas-Boas na época 2010-11, ainda por cima com mais partidas (58)
disputadas do que Mourinho.
Por outro lado, se para os registos defensivos os valores são praticamente iguais – o FC Porto de
Mourinho sofreu uma média de 0,74 golos por jogo, enquanto o de Villas-Boas sofreu 0,72 –, nos
registos ofensivos o “aluno” ganha ao “professor” – Mourinho conseguiu uma média de 2,23 golos
marcados por jogo, ao passo que Villas-Boas atingiu o incrível número de 2,50! A fazer jus às
observações mais ou menos consensuais de que implementou no FC porto um sistema de jogo que
privilegiava o futebol de ataque.
Vejamos, então, os quadros de um e outro treinador.
Apesar de todas as semelhanças já descritas – clube, estrutura, campeonato, taça, competição
europeia – as conjunturas e as circunstâncias nunca são iguais, dirão os mais puristas. É verdade. E
neste particular, a história abona a favor de Mourinho: agarrou uma equipa despedaçada, sem rumo e
vinda de uma liderança conotada com o insucesso (nenhum título com Octávio Machado, o anterior
técnico); enquanto que, por seu lado, André Villas-Boas herdou um núcleo sólido, mecanizado e
habituado a ganhar num passado muito recente (três campeonatos nacionais, três taças de Portugal e
uma Supertaça, em quatro anos com Jesualdo Ferreira ao leme).
Qualquer outra comparação de números – nomeadamente sobre a globalidade das duas carreiras –
é aqui desprovida de sentido. José Mourinho leva 11 anos como treinador principal, um curriculum
ímpar e várias mãos cheias de troféus que fazem dele o melhor treinador do mundo; André Villas-
Boas entrou agora apenas na terceira época (segunda completa), com indicadores muito promissores,
é verdade, mas ainda a léguas dos números facturados pelo mestre. Afinal, como o próprio Villas-
Boas admitiu quando Mourinho foi considerado pela FIFA como o melhor do mundo em Janeiro de
2011: “A singularidade e a exclusividade do prémio revelam o que é carreira de José Mourinho.
Com ele, deixa de haver limites. Tudo o que é delineado como objectivo é imediatamente alcançado.
Tem uma carreira insólita, que não tem comparação na história nem terá no futuro”, acrescentando
ainda que “o José Mourinho vai tornar-se o melhor treinador de todos os tempos, sem sombra de
dúvida.”
DONOS DO SEU NARIZ

André Villas-Boas tem menos 14 anos do que José Mourinho. Muito tempo de diferença, algo que
joga a favor do mais jovem pela possibilidade (puramente teórica) que tem de somar ainda mais
sucessos. Além de ser mais novo, Villas-Boas emancipou-se mais cedo: tinha 31 anos quando
abraçou a carreira de técnico principal enquanto o treinador do Real Madrid só deixou Louis van
Gaal aos 37 anos.
Em termos de formação, Villas-Boas tem apenas o 12º ano, complementado depois com cursos de
treinador dos vários níveis estabelecidos pela UEFA. Mourinho, por seu lado, tem percurso
académico: fez o curso de Desporto em Lisboa, no antigo Instituto Superior de Educação Física
(ISEF), actual Faculdade de Motricidade Humana.
O tema das “comparações” incomoda tanto Mourinho como Villas-Boas. Um e outro já deram
sinais disso mesmo em mais do que uma ocasião. A primeira prova pública de desconforto aconteceu
a 3 de Junho de 2010, dia da apresentação de André Villas-Boas como técnico do FC Porto. “Não
sou clone de ninguém mas, se falam disso, até acho que sou mais clone de Robson que de Mourinho.
Sou de ascendência inglesa, tenho o nariz grande e gosto de beber vinho…”. As palavras fizeram eco
na sala VIP do estádio do Dragão e chegaram a Madrid. Mourinho demorou dois meses e dois dias a
dar o troco, mas fê-lo de forma corrosiva, em entrevista ao jornal Record: “Não venham fazer
comparações comigo, porque eu quando fui para o FC Porto já tinha trabalho de campo feito, o que é
bastante diferente.” Estavam inauguradas as hostilidades e ao mesmo tempo explicadas as razões de
um divórcio tão abrupto: é que dois galos não cabem no mesmo poleiro. Menos de um ano passado
sobre esta troca de galhardetes, Villas-Boas vinha confirmar aquilo que já todos consideravam
inevitável: “Não falo com Mourinho.”
O nariz grande de André Villas-Boas – e porventura roborizado pelo efeito dos tintos alentejanos e
do Douro, que tanto aprecia – contrasta, na realidade, com o apêndice vulgar – de quem só gosta de
água e Coca-Cola – de José Mourinho. Mas esse é apenas um sinal exterior das diferenças entre os
dois. Na cara de ambos figura o mesmo tipo de barba “negligente”, rala de três dias. Na cabeça, o
ruivo e crespo cabelo de André não permite muitas variantes no penteado, nem no estilo nem no
tamanho. Já o grisalho de Mourinho sofreu mutações de acordo com a moda: volumoso e carregado
de gel nos tempos de adjunto (anos 90) ou mais clássico e ao natural na actualidade. Isto apesar de o
técnico do Real Madrid já ter jurado numa entrevista ao jornal Expresso, concedida em 2006, ser
tudo involuntário: “Vou ao cabeleireiro da minha mulher, que é um tipo porreiro. Quando ela vai, eu
vou buscá-la e ele guarda uns minutinhos para mim e dá-me um toquezinho. Mas não ligo nada a isso.
No Verão apeteceu-me ficar careca. Havia pessoas que diziam ‘Ai que horrível’, havia outras que
diziam ‘ai que fantástico’. Para mim é igual. Agora vai crescer e depois logo se vê.”
Nas indumentárias não há diferenças substanciais. Sempre fatos cinzentos ou pretos, de corte
moderno e cintado, no corpo de ambos. José Mourinho é bem mais requintado nas marcas. Villas-
Boas usa menos vezes gravata – nem em ocasiões especiais como nos actos públicos de apresentação
como técnico do FC Porto ou do Chelsea – mas quando usa copia do mestre o nó largo, reforçado
com o primeiro botão da camisa desapertado. Uma coisa parece óbvia: Mourinho cultiva muito mais
o estilo e é bem mais preocupado com a imagem do que Villas-Boas. O Special One pede flashes
com frequência, utilizando a aparência como primeiro chamariz. E talvez comece aqui a descolagem,
defendida por Villas-Boas, do estilo on-man-show. “Acho que é importante para as pessoas que não
se foquem em mim. Temos de abrir um pouco as coisas – temos cá grandes jogadores e estivemos em
grandes competições europeias, conquistámos títulos em Inglaterra, por isso esse sucesso a que o
Chelsea está habituado é que deve ser respeitado. Isto não é o trabalho de uma pessoa, mas sim de
todo um grupo de trabalho. Acho que não podemos resumir tudo a uma pessoa, até porque quero
envolver todos neste projecto”, disse o treinador do Chelsea no dia da sua apresentação no clube.
A propósito de gestos iguais, o mais paradigmático de todos terá acontecido com… casacos. Em
Abril de 2006, após o jogo de consagração do título – o segundo de Mourinho ao serviço do Chelsea
– frente ao Manchester United, o treinador português teve um gesto inusitado. Na euforia da goleada
(3-0), quando o Chelsea precisava apenas de um empate para se sagrar campeão, o treinador recebeu
as medalhas e apontou os passos para a claque dos blues que se situa por trás de uma das balizas.
Uma vez lá chegado, arremessou os troféus para a bancada e no mesmo fôlego tirou o casaco e
lançou-o também na direcção dos adeptos, prestando, assim, simbolicamente uma homenagem a todos
os que gritavam o seu nome a plenos pulmões. Exactamente quatro anos mais tarde, em Matosinhos,
André Villas-Boas decalcava o gesto de Mourinho como uma fotocópia. Após uma vitória sofrida e
decisiva para a manutenção da Académica (1-3) – na antepenúltima jornada da Liga portuguesa
frente ao Leixões –, André dirigiu-se para junto da Mancha Negra, a claque da Académica, despiu o
casaco e enviou-o para a bancada. Na entrevista dada ao Diário de Coimbra – já anteriormente
referida neste livro – e depois de questionado sobre a semelhança dos gestos, o treinador explicou
irritado: “Está a ter exactamente o tipo de pensamento dos que andam à procura de gestos iguais. Não
está a ver o espontâneo, nem o momento e a exaltação que se vive numa situação daquelas. Se calhar
anda à procura do momento em que o José Mourinho atirou o casaco ou quando atirou a medalha ou
então quando foi dar a volta ao campo com a Taça UEFA na mão. Espero ganhar um dia uma taça
para poder dar a volta ao campo.” A verdade é que um ano depois Villas-Boas ganhou a Liga Europa
e não deu uma volta ao campo com a taça na mão, como Mourinho o tinha feito, quem sabe
condicionado pelo receio de mais comparações.
A única diferença nos dois episódios do casaco é que, meses mais tarde, a peça de Mourinho foi
leiloado no eBay por mais de 200 mil euros, enquanto o blaser de Villas-Boas ainda deverá estar
arrumado num qualquer roupeiro de Coimbra, porventura aguardando por uma significativa
valorização que o trabalho do técnico no Chelsea pode vir a proporcionar ao seu proprietário…
O lugar conquistado por José Mourinho no coração dos adeptos blues não é fácil de igualar. Foi
uma relação forte, intensa e emocionante. De tal forma que, no final da primeira época, até o
sobretudo de Mourinho era objecto de culto. O treinador português usava-o, apenas, porque tinha
frio. Mas as vitórias endeusaram tanto o manto que foi leiloado na internet, com a receita a reverter
para a CLIC Sargent, uma instituição de apoio a crianças vítimas de cancro, da qual Mourinho era
patrono. O Chelsea recuperou, mais tarde, o sobretudo e colocou-o em exposição no museu do clube.
Até hoje. A marca de Mourinho é sempre profunda, seja através dos títulos ou de um simples
sobretudo. Neste capítulo, André Villas-Boas terá um longo caminho a percorrer.
Outro ponto em que apresentam semelhanças tem a ver com a forma como não gostam de expor as
suas famílias. Mourinho ainda chegou, no início de carreira, a ser fotografado em público com o clã,
por exemplo junto às taças UEFA e da Champions, ou, mais tarde, a festejar o primeiro título do
Chelsea no relvado de Stamford Bridge. Mas hoje em dia, e sabe-se que é uma opção sua, a família
está mais do que nunca resguardada dos olhares do grande público. A André Villas-Boas nunca se
viu uma foto de família, nem mesmo associado às suas vitórias desportivas, pelo que poucos
conhecem as caras da sua mulher e filhas. É, nesta matéria, ainda mais “austero” do que Mourinho.

ÍMPETOS DIFERENTES

“Os árbitros deste mundo não devem ficar contentes com a perspectiva de existir um outro José
Mourinho.” A frase veio estampada nas páginas do London Evening Standard, em Março de 2005, e
referia-se a ele mesmo… André Villas-Boas. O comentário veio a propósito de uma reacção
impetuosa do então jovem observador, de apenas 27 anos, no final do encontro entre o Chelsea e o
Barcelona, para a Liga dos Campeões. Os blues eliminaram o Barça em Stanford Bridge (4-2), num
jogo alucinante e a que já fizemos referência nas páginas deste livro e Villas-Boas “cresceu” para
Frank Rijkaard no final do encontro.
O tempo provou que, afinal, foi apenas um acto isolado. Villas-Boas raramente perde o chão.
Festeja os golos com exuberância, vive intensamente as jogadas mas fica-se por aí. Neste campo,
Mourinho é bem mais emocional e, nalguns casos, provocador até. Ficou célebre a imagem de El
Especial numa corrida desenfreada pelo relvado do Camp Nou, festejando euforicamente a passagem
do Inter à final da Liga dos Campeões, depois de eliminar o Barcelona, campeão europeu em título.
Entre saltos e risos, ainda partilhou o momento com a bancada onde estavam os adeptos nerazzurri,
no que foi interpretado como um gesto de provocação gratuita por parte de Victor Valdés, guarda-
redes catalão, que tentou impedir os festejos de Mourinho. Atitudes como estas são de todo
improváveis em André Villas-Boas.
Também não é crível que André Villas-Boas mande calar os adeptos adversários, como Mourinho
o fez ao serviço do Chelsea com os fãs do Liverpool. E não se advinha que o novo treinador dos
blues tenha atitude idêntica àquela que Mourinho teve na visita do Real Madrid a San Siro:
respondeu às vaias dos adeptos do Milan erguendo três dedos para simbolizar a histórica tripleta
conquistada na temporada anterior pelo Inter. A justificação para tudo isto talvez tenha sido dada por
Emílio Butragueño, Director de Relações Institucionais do Real Madrid, quando disse que
“Mourinho não anda no futebol para fazer amigos, anda para ganhar”.
Villas-Boas não pisa estes terrenos. Tal como também não terá discernimento para tomar atitudes
repentistas e geniais em campo, parecidas com as que José Mourinho já protagonizou. Um exemplo:
em 2007, depois de perder com o Arsenal e dizer adeus a qualquer hipótese de revalidar o título
inglês, Mourinho atravessou o relvado, aproximou-se da claque do Chelsea e, com a palma da mão
direita empurrou o queixo para cima, como que pedindo aos apoiantes que saíssem do estádio como
a sua equipa iria sair, de cabeça erguida. Com este gesto, Mourinho já estava a preparar a final da
Taça de Inglaterra que se realizava 14 dias mais tarde. Percebeu-se a eficácia do gesto quando os
jogadores festejaram a conquista desse troféu, empurrando o queixo para cima com a palma da mão.
São actos-reflexo que fazem de José Mourinho um actor único no seu métier.
Perante os jornalistas, “professor” e “discípulo” têm atitudes idênticas, mas características
diferentes. Ambos atribuem muita importância às conferências de imprensa, ambos têm o dom da
comunicação e ambos conseguem passar a mensagem que pretendem de forma eficaz. Como todos os
bons “manipuladores” de informação, tanto Mourinho como Villas-Boas escolhem duas ou três ideias
que pretendem transmitir – assentes num par de frases-chave – e conduzem os jornalistas para esses
objectivos. Quase sempre as manchetes do dia seguinte reflectem as mensagens que os dois queriam
ver destacadas.
Estão preparados para todas as perguntas e surpreendem na maioria das respostas. No entanto, no
conteúdo, um pormenor distingue os dois: Villas-Boas é mais emocional, transparente e genuíno;
Mourinho é frio, calculista e encenado. Por isso, o treinador do Real Madrid tira mais partido dos
encontros com os jornalistas do que Villas-Boas, utilizando cada conferência de imprensa como um
verdadeiro canivete suíço. Tanto passa ralhetes aos seus jogadores, como provoca os técnicos
adversários ou envia recados internos. Tudo assente num guião pré-definido pelo próprio. Neste
plano, Villas-Boas ainda não tem a variedade de truques já exibidos por José Mourinho. E
provavelmente nunca os terá. Acima de tudo porque Mourinho considera, literalmente, que os jogos
começam com a conferência de imprensa de antevisão e só acabam com a conferência de imprensa
de rescaldo.
No que respeita a entrevistas exclusivas, o entendimento dos dois técnicos não podia ser mais
díspar. José Mourinho não coloca barreiras, a não ser a filtragem própria das muitas solicitações que
recebe. Em cada temporada, entre órgãos portugueses e estrangeiros, é capaz de conceder uma
dezena de exclusivos. Villas-Boas ainda aceitou algumas entrevistas no início da carreira, mas desde
que ingressou no FC Porto cortou por completo esse hábito. Só fala na sala de imprensa, local onde
se mostra disponível para todas as perguntas durante o tempo que for necessário. No dia da
apresentação no Chelsea, chocou os jornalistas do seu país ao recusar falar em português, durante e
após a conferência de imprensa. Uma opção oposta à que José Mourinho sempre revelou. Em
Inglaterra, Itália ou Espanha, guardou sempre cinco minutos para falar à comunicação social
portuguesa… em português.
E há ainda a questão do Special One versus Group One. Na conferência de imprensa de
apresentação no Chelsea, André Villas-Boas, sabendo que viverá cada dia da sua estadia em Londres
com a sombra de Mourinho por perto, quis deixar clara uma diferença relativamente ao actual
treinador do Real Madrid. Relembre-se o que José Mourinho afirmou quando foi dado a conhecer à
media britânica: “Por favor, não me chamem arrogante, sou campeão europeu e acredito que sou
especial.” Assim nasceu o Special One. Pois Villas-Boas tratou de explicar que “não sou um special
one. Deixo para vocês a escolha do rótulo e espero ter sucesso para que me coloquem algo de bom e
positivo. O Chelsea não é um one man show”. E depois explicou-se: “Quero criar empatia, estimular
o grupo e o staff que me rodeia, reforçar a ambição e o espírito de vitória da equipa. Bem vistas as
coisas, sou mais um group one. Para mim, o colectivo está sempre acima de tudo.”
Tudo o que André Villas-Boas disse para se catalogar a si mesmo como um group one podia
aplicar-se como uma luva a José Mourinho. A diferença, de facto, está muito mais na embalagem do
que no conteúdo. Efectivamente, Mourinho gosta de ser o centro de toda a atenção enquanto Villas-
Boas é muito mais discreto na forma como faz as coisas e gosta mesmo de enfatizar o contributo de
todos nas vitórias da equipa. “Na época passada ganhei muitas coisas no FC Porto devido a toda a
estrutura: a direcção, a equipa técnica e especialmente devido aos jogadores”, afirmou na mesma
ocasião.
Após a histórica vitória por 5-0 sobre o Benfica no estádio do Dragão, tinha dito algo semelhante:
“Devo dedicar esta vitória à minha equipa técnica, que decide muitas vezes por mim, pois tenho
critério liberal. São pessoas decisivas e essenciais no meu trabalho…” Ou, como disse depois de
outra vitória importante sobre o Benfica, aquela que matematicamente garantiu o título de campeão
no estádio da Luz: “Estes jogadores têm um talento fora do normal. Quero acreditar que sou
simplesmente um líder tranquilo. O mérito tem de ser dados a todos, começando pelo presidente, que
talvez tenha conseguido aqui uma das suas vitórias mais saborosas. Todos merecem parabéns, desde
o departamento médico ao departamento de observação, liderado pelo Daniel Sousa, aos roupeiros e
a toda a gente que trabalha no FC Porto e na SAD.”

A MESMA ESTRADA, DIFERENTES ATALHOS

Os métodos de trabalho de José Mourinho e André Villas-Boas são idênticos. O contrário seria
estranho. Foram quase sete anos de convivência diária em constante troca de experiências,
confidências e partilha de um plano comum. No entanto, apesar das semelhanças de forma, o
conteúdo tem ligeiras nuances.
Villas-Boas não assistiu de forma regular aos treinos de Mourinho. Não era essa a sua função e
nem sequer era esse o espaço físico que ocupava. Mas teve acesso aos rascunhos e participou na
construção de muitos deles. Diz quem trabalhou com os dois que “há semelhanças óbvias, mas
Villas-Boas é muito mais interventivo do que Mourinho.” Uma surpresa, se considerarmos que o
Special One já é uma verdadeira “máquina” de intervenção junto dos jogadores. “Villas-Boas não se
cala com chamadas de atenção permanentes, incentivos e reprimendas”, diz um elemento que
partilhou de experiências com os dois. Uma característica une Mourinho e Villas-Boas: “Nem um
nem outro admitem que seja o adjunto a liderar o treino, são os próprios que o lideram, planeiam e
distribuem as tarefas”, conta a mesma fonte.
O treinador do Chelsea é meticuloso na preparação dos treinos e dos jogos, mas não de forma tão
pronunciada como o treinador do Real Madrid. Villas-Boas tem planos concretos, no entanto guarda
uma margem considerável para a imaginação e o improviso. “Dá liberdade criativa aos jogadores.”
Não foi por acaso que o jovem técnico disse um dia: “O futebol é caótico e isso é que o torna um
desporto especial”, ou seja, a disciplina táctica existe, mas não assume letra de lei. André sabe que o
jogo é um viveiro de surpresas. Um erro inesperado do guarda-redes, um golo no primeiro minuto…
são imponderáveis que deitam por terra qualquer estratégia ou disciplina táctica rígidas. Nestas
circunstâncias entra o plano “B” – previamente conversado no balneário e nos treinos –, a arte do
improviso. “Ele quer que os jogadores cumpram as suas posições, mas apela constantemente à
criatividade”, o que – diga-se – “só resulta com jogadores inteligentes. Foi o que aconteceu no FC
Porto.”
Os famosos relatórios sobre as equipas adversárias, tantas vezes já falados e até mostrados nas
páginas deste livro, também merecem importância diferente e até tratamentos desiguais por parte dos
dois treinadores. José Mourinho surpreendeu os seus jogadores quando chegou ao FC Porto e
começou a distribuir-lhes informação detalhada sobre os opositores. Cada futebolista sabia,
exactamente, as características do adversário que ia ter pela frente. A informação saía da pena de
Villas-Boas. Mas, curiosamente, o mesmo Villas-Boas – agora treinador principal – prefere dar outro
tratamento a este tipo de dados. Não menospreza a área de observação – como afirmou na chegada ao
Chelsea: “São coisas que podem fazer a diferença, mas se isso tem um papel decisivo nos jogos,
ninguém sabe, umas vezes sim outras não.” – mas dá-lhe um tratamento diferente. Em vez de apontar
o foco às características dos adversários, colocando assim os jogadores de sobreaviso, prefere fazer
o exercício contrário: explica aos seus jogadores como é que as suas próprias qualidades podem
anular as capacidades dos adversários. O resultado final será mais ou menos o mesmo, mas no caso
de Villas-Boas há um plus: ao enumerar as qualidades dos seus futebolistas, o técnico lustra-lhes o
brio e a motivação. “O adversário fica sempre para ser analisado na última palestra, a palestra
técnica, que acontece normalmente um pouco antes do jogo”, conta quem já viveu a experiência.
Pedrinho foi um desses jogadores. Treinado por Villas-Boas na Académica, o defesa-direito
destaca a preocupação do técnico em incluir os jogadores nas decisões. “Perguntava-nos se nos
sentíamos à vontade com os esquemas tácticos utilizados”, diz. A proximidade com os atletas é uma
imagem de marca do actual treinador do Chelsea. O próprio confirmou isso mesmo no dia da
apresentação ao novo clube: “Vamos estar abertos aos jogadores, não só aos problemas que têm no
relvado, mas também na sua vida fora do jogo. É essa a abordagem que quero fazer neste clube.”
Orlando, também contemporâneo na Académica, confirma: “Falava connosco de tudo, muitas vezes
assuntos fora do futebol, revelando sempre interesse pelo que nos dizia respeito.”
Foi assim, por exemplo, com Miguel Pedro. O avançado da Académica viveu o drama de perder
não um mas dois filhos que nasceram de parto prematuro (seis meses). Villas-Boas foi inexcedível:
enquanto houve esperança disponibilizou contactos pessoais dos melhores médicos e após a tragédia
manteve apoio constante ao jogador. Um modo de actuar idêntico ao de Mourinho que também
constrói uma relação muito próxima com os jogadores. São públicos os casos de César Peixoto ou
Derlei que, após terem sofrido lesões graves, tiveram a solidariedade incondicional do técnico,
inclusive na sala de operações. Mourinho e Villas-Boas fomentam um certo espírito de família,
considerando-o fundamental para a união do grupo e respectivo sucesso.
John Terry, capitão do Chelsea, após trabalhar algumas semanas com André Villas-Boas, confirma
as parecenças entre os dois: “José Mourinho não gostava que ninguém se aproximasse dos jogadores.
Tínhamos grande relação com ele, mas havia situações em que não nos aproximávamos. Podíamos rir
e fazer piadas com o José e isso podia mudar no dia a seguir. Com o André é basicamente igual.”
A coincidência de critérios já não tem paralelo quando se trata de gerir publicamente o
comportamento dos jogadores. Mourinho não se coíbe de criticar, por vezes de forma muito dura,
utilizando mesmo esse procedimento como um mecanismo de equilíbrios no grupo. Aconteceu, por
exemplo, durante a passagem pelo Inter de Milão, quando questionado sobre o comportamento de
Balotelli: “Se alguém treina ao lado de Zanetti e Cambiasso e não consegue evoluir é porque só tem
um neurónio!” Comentário impensável na boca de Villas-Boas. O treinador do Chelsea não deixa
nada por dizer, mas prefere resolver os problemas em “casa”, optando por conversas discretas e
privadas.

4X3X3 – TÁCTICA COMUM

Caso Mourinho e Villas-Boas trocassem impressões sobre futebol de forma regular, como
acontecia no passado, certamente concordariam num ponto: o sistema táctico mais eficaz é o 4x3x3.
O FC Porto de 2003, o primeiro de Mourinho, jogava assim. O FC Porto de 2011, treinado por
Villas-Boas, também. Ambos venceram a Liga Europa/Taça UEFA. Muitos especialistas na matéria –
entre os quais o comentador Luís Freitas Lobo – defendem que a equipa de 2003 foi a melhor de José
Mourinho, “no capítulo da sedução estética.” Ficou famoso o 4x3x3 em pressão alta, com um meio-
campo encantado pelo talento de Deco. “Villas-Boas não tinha Deco mas ganhou maior rotação
defesa-ataque-defesa com Moutinho. A importância dada ao pivot é semelhante, mas Villas-Boas
procura que ele ‘jogue mais’ com bola”, explica Freitas Lobo.
Elemento fundamental na estratégia de José Mourinho era a existência de um ala/avançado
“vagabundo” que gostava de vir para dentro em diagonais. Derlei era o homem a quem Mourinho
entregava essa tarefa, já Villas-Boas contava com Hulk, “jogadores diferentes no valor e explosão –
no campo e até no mercado – mas que produzem reproduções semelhantes na montagem da equipa e
respectivas dinâmicas ofensivas”, afirma o comentador.
Os laterais de Mourinho defendiam melhor. Os de Villas-Boas saíam mais em desequilíbrio do que
em apoio, “mas, neste ponto, penso que as diferenças nascem mais de características individuais do
que opções de ‘jogar colectivo’.” No FC Porto, Villas-Boas não teve um defesa-central ‘à Porto’
capaz de exercer uma voz de comando idêntica à de Jorge Costa no tempo de Mourinho. “André
compensou isso, trabalhando com mais intensidade a rotina de sentido posicional da dupla de
centrais”, observa Luís Freitas Lobo. No Chelsea o problema da voz de comando à retaguarda já não
se põe com a presença de John Terry.
O que nunca vamos saber é se um segundo ano de Villas-Boas no FC Porto levaria o técnico a
migrar para o 4x4x2 em losango, como fez Mourinho na segunda época, aquela em que conquistou a
Champions League. Freitas Lobo acredita que isso aconteceria: “Alguns indícios, vistos em muitos
jogos seus no banco portista, denotavam a preocupação de jogar, em muitos momentos, com… quatro
médios, ou melhor, com quatro homens a meio-campo. Dessa forma, mais do que ‘dominar’,
procurava (e conseguia) ‘controlar’ jogos. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. No fundo,
com mais homens a meio-campo, dando largura ao losango, esticando os seus vértices laterais, a
equipa podia circular mais a bola de forma tranquila. Era o momento em que Villas-Boas falava da
equipa a ‘descansar com a bola’. Uma ideia que já vinha dos ‘livros de Mourinho’ que Villas-Boas
soube entender e adaptar ao seu conceito de jogo.”
O jogo das meias-finais da Liga Europa, frente ao Villarreal, foi emblemático pelas interpretações
tácticas equivocadas dos comentadores. Após uma primeira parte sofrível, o FC Porto voltou
transfigurado para o segundo tempo. Os analistas apressaram-se a dizer que Villas--Boas tinha
alterado o desenho táctico: de 4x3x3 para 4x1x4x1, com os blocos muito subidos no terreno. André
leu os comentários e sorriu. Dias mais tarde esclareceu os jornalistas que não tinha efectuado
qualquer alteração táctica, “a equipa fez o jogo todo em 4x3x3”, referiu. Os jogadores confirmaram
também que o técnico apenas lhes tinha pedido ao intervalo para jogarem o que sabiam. Essa foi a
única alteração. Como acrescenta Freitas Lobo, “mais do que jogar em sistemas diferentes, o
importante é saber mudar de sistema ao longo do jogo”.

FILOSOFIAS

Manuel Sérgio, ex-professor de José Mourinho e confidente de André Villas-Boas, tem estatuto de
privilégio para analisar as duas personalidades. Partindo de uma base filosófica, que é a sua
formação, o académico lembra uma frase de Roger Garaudy – também ele filósofo – no livro Appel
Aux Vivants para enquadrar o comentário: “Se a concorrência é a lei da nossa sociedade, porque não
seria ela a lei da minha vida pessoal?”
É neste mundo, guiado pela frenética concorrência e lucro, que Mourinho e Villas-Boas se
movimentam. Verdades ainda mais absolutas no universo do futebol. A qualidade dos dois técnicos é
inquestionável mas, segundo o professor, “falta-lhes que se distingam também pelo repúdio de uma
cultura que faz do futebol o reflexo do mundo existente, de ilimitada competição, e não o projecto de
um mundo mais fraterno e mais justo. Falta-lhes mostrarem, urbi et orbi, que não são objectos da
História, mas sujeitos construtores da própria História. E portanto capazes de serem fraternos,
mesmo numa indústria do espectáculo desportivo, onde competição também significa inveja, cobiça e
aborrecimento pelos êxitos alheios e ainda desejo incontrolável do poder e do lucro.” O filósofo
guarda uma esperança: “O José Mourinho e o André Villas-Boas hão-de ensinar aos milhões de
admiradores, que os aplaudem por esse mundo além, que são grandes treinadores porque se
identificam com um novo desporto, onde a lei da concorrência significa, em todas as circunstâncias,
‘jogar com’ e não ‘jogar contra’. No desporto, até o adversário é um amigo. Como o têm de ser José
Mourinho e André Villas-Boas.”
São ambos “homens de estudo” ou seja, treinadores em constante actualização. Uma característica
que Manuel Sérgio considera essencial: “Ou se aprende a teorizar, ou não se consegue ser o treinador
ideal.” Villas-Boas apreendeu a curar o estudo com Mourinho, “mas o André é capaz de fazer o seu
próprio caminho e ser um treinador diferente”, assegura o filósofo. “Até porque”, sustenta, “é o
homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser.” Assim, o que distingue Mourinho de
Villas-Boas é… o homem. “José Mourinho é um homem que tem as qualidades essenciais a uma
liderança: grande leitura de jogo e a sabedoria de comunicar para poder motivar. Quem tem estas
qualidades de forma apurada como tem José Mourinho é um treinador genial”, sublinha o ex-
professor do actual técnico merengue.
Manuel Sérgio considera que André Villas-Boas foi um adjunto “inteligente e diligente” que
procura agora concretizar na prática tudo o que aprendeu com o mestre José Mourinho. E não tem
dúvidas que o novo técnico do Chelsea nasceu para ser treinador de futebol, capaz de chegar ao nível
de Mourinho ou Guardiola: “Os êxitos dos treinadores do Real Madrid e do Barcelona ainda o actual
treinador do Chelsea os não tem, mas parece estar no caminho certo, começando a tomar forma o
nascimento de um dos grandes treinadores da História do Futebol.”
Também no plano filosófico, são mais os pontos que unem Mourinho e Villas-Boas do que os que
os separam. Manuel Sérgio conhece José Mourinho o suficiente para saber que o treinador do Real
Madrid não tolera quem lhe faça sombra. Mas não é menos verdade que Villas-Boas não deve
ignorar a condição de ex-discípulo ou esquecer o que intelectualmente deve ao anterior chefe.
Limadas estas duas arestas, o filósofo não tem dúvidas: “José Mourinho e André Villas-Boas só
podem ser amigos... mesmo em alta competição! É o que deles esperam os portugueses e os que
vêem, no desporto, um espaço pedagógico de inigualáveis virtualidades.” O melhor treinador do
mundo e o sério candidato a esse trono, “dentro em breve, vão encontrar-se (e abraçar-se?) no
Olimpo. Não há estreiteza dogmática que o não veja...”, completa o professor.
EPÍLOGO

“Há dois tipo de futebol: o do Barcelona e os outros.


Didier Deschamps

Setembro de 2007. Culminando um longo percurso de guerras internas entre treinador e patrão,
com outros intervenientes pelo meio, Jorge Mendes, o mais famoso agente FIFA da actualidade,
negoceia com Roman Abarmovich e José Mourinho deixa repentinamente o Chelsea depois de três
épocas recheadas de conquistas. Todas as conquistas possíveis, algumas verdadeiramente únicas
para o clube, menos uma: a Champions League.
Mourinho, tal como depois dele Avam Grant, Luiz Felipe Scolari ou Carlo Ancelotti (a saída de
Guus Hiddink processou-se por razões diferentes), foi vítima da dificuldade que Abramovich tem
mostrado em compreender que todo o dinheiro do mundo não é suficiente para comprar uma taça, por
mais que ele a deseje. De Setembro de 2007 para cá, o magnata russo precisou de quatro anos, quatro
treinadores e para cima de 60 milhões de euros em salários e acordos de rescisão para perceber bem
que, apesar de ter apostado em treinadores conceituados, continuou a não conseguir ganhar aquilo
que mais queria.
A contratação de André Villas-Boas, logo apelidado de Special Two ou Mini-Mourinho pela
imprensa inglesa, e que chegou ao Chelsea, como vimos, com um percurso muito parecido com o de
Mourinho, significa o reconhecimento por parte do bilionário russo de que há quatro anos cometeu
um erro crasso ao despedir o seu treinador mais vitorioso de sempre, considerado hoje
unanimemente como o melhor do mundo? Será André Villas-Boas capaz de retribuir o seu chorudo
salário com vitórias e espectáculo, afinal a ambição máxima de Abramovich?
O desafio é muito difícil, para mais porque, desde que Mourinho deixou Londres, surgiu um novo
treinador – Pep Guardiola tomou conta da equipa principal do Barcelona na época 2008-09 – que
colocou os standards de sucesso de uma equipa de futebol em patamares verdadeiramente
“impossíveis” e inimagináveis há quatro anos. A ponto de ter pura e simplesmente vulgarizado o
campeão inglês, o grande Manchester United, na final da Champions League de 2011 (depois de já o
ter feito em 2009) e de ter ganho de forma clara ao Real Madrid (de José Mourinho!) a última Liga
espanhola. Ao longo da época 2010-11 muitos foram os que consideraram o FC Porto como a equipa
que na Europa mais se aproximou do futebol praticado pelo Barcelona. “O FC Porto apresenta um
futebol rápido e atractivo, com um estilo parecido ao do Barcelona”, afirmou Gjore Jovanovski,
treinador do CSKA de Sófia, após a sua equipa ter defrontado os dragões na Liga Europa. Peter
Pacult, técnico do Rapid de Viena, clube que também se cruzou com os portistas na mesma
competição, tirou conclusões idênticas: “Este Porto é uma espécie de mini-Barcelona, joga muito
bem, circula muito bem a bola...”
Todos sabem a enorme admiração que Villas-Boas nutre por Guardiola, pela forma de jogar da
equipa e pela cultura do clube, nunca o escondendo, aliás: “Eu sou um adepto incondicional do estilo
de jogo do Guardiola, gosto quando ganha aquela equipa porque acho que ela reflecte o modo como
todas as equipas deveriam jogar, o modo inatingível de perfeição, e tenho um sentimento muito
especial por aquela equipa porque jogam um futebol mágico”, disse quando, em Novembro de 2010,
comentou o duelo entre os dois colossos de Espanha, antecedendo a visita do Real a Camp Nou (5-0
para o Barça, maior derrota da carreira de José Mourinho).
A afirmação do jovem técnico dos blues não podia ter sido mais explícita. Mas na conferência de
imprensa após a vitoriosa final da Liga Europa em Dublin, prestou novo e relevante tributo a Pep
Guardiola, afirmando uma vez mais o quanto admirava o estilo de jogo do Barça e quase pedindo
desculpa por ter ganho aquela final de forma tão pouco espectacular. “Guardiola é uma inspiração
para mim, todos os dias. Felizmente tive a oportunidade de finalmente o conhecer em Fevereiro.
Inspiro-me não só mas também na sua filosofia, na filosofia do Barcelona, de Cruijff, de Rinus
Michels. Tenho apenas pena de não ter conquistado o troféu oferecendo um melhor espectáculo.”
Guardiola alinhou na troca de galhardetes e respondeu a esta verdadeira dedicatória com um
elogio ao técnico português: “A partir de agora terei de inspirar-me em Villas-Boas também.”
Mas o pedigree de André Villas-Boas enquanto treinador de futebol sugere que ele terá sucesso
onde quer que vá trabalhar. A grande questão que agora se coloca é a de saber se ele conseguirá
replicar o estilo do Barcelona no seu novo clube, o Chelsea, ampliando aquilo que já conseguiu fazer
com o FC Porto, um clube com menos meios e com um plantel menos dotado em quantidade e
qualidade.
“Nos próximos anos é garantido que o Chelsea ganhará a Champions League. Nos últimos anos
jogou duas meias-finais e uma final. Não vejo porque não podemos vencer.” A afirmação é do
próprio André Villas-Boas e foi feita após alguns dias de trabalho no clube londrino. A expectativa
que rodeia o técnico tomou rapidamente conta dos jogadores também. Bem explícita numa afirmação
do capitão John Terry, efectuada já em Londres depois da digressão de pré-época pelo oriente: “É
atento e rigoroso desde o primeiro dia. Por isso, estamos todos intrigados porque queremos avaliar o
que pode acrescentar às próximas semanas e à nova temporada.”
Conseguirá André Villas-Boas oferecer, finalmente, a Roman Abramovich aquilo que ele mais
ambiciona, um Barcelona de camisolas azuis a vencer a Champions League? Uma equipa que dá
espectáculo e que, ao mesmo tempo, ganha títulos? O futuro próximo dar-nos-á a resposta tão
desejada.
NOTAS DE RODAPÉ

1 George Burley era manager do Ipswich à data em que André Villas-Boas estagiou no clube.
2 “Mourinho – Porquê Tantas Vitórias?” (Gradiva, Fevereiro de 2006).
3 Jorge Nuno Pinto da Costa é presidente do FC Porto desde 1982 e um dos mais, se não mesmo o
mais titulado dirigente da história do futebol mundial. Costuma dizer-se que uma velha frase
proferida originalmente por um treinador (Mário Wilson) que nos anos 70 chegou ao Benfica –
“Quem treina o Benfica arrisca-se a ser campeão” –, se aplica hoje como uma luva ao FC Porto.
4 Rui Barros (nascido em 1965) foi um dos melhores futebolistas portugueses da sua geração.
Emergiu da formação do FC Porto e foi lançado por Tomislav Ivic na primeira equipa do clube.
Depois foi transferido para a Juventus (de Itália) e posteriormente para o Mónaco (de França), onde
foi treinado por Arsène Wenger, e para o Marselha, antes de regressar ao FC Porto. De muito baixa
estatura, fazia da velocidade e da técnica as suas principais armas. Foi 36 vezes internacional por
Portugal.
5 Hellen Keller (1880-1968) foi uma famosa escritora, conferencista e activista social norte
americana.
6 Luís Freitas Lobo, um dos mais conceituados analistas de futebol em Portugal, é colaborador
regular de alguns dos mais importantes media portugueses, tais como RTP (televisão), TSF (rádio),
Expresso (semanário de informação geral) e A Bola (diário desportivo). Conhecido por ser alguém
com uma relação próxima de André Villas-Boas, que aceitou fazer a apresentação do seu livro
“Planeta do Futebol” quando ainda trabalhava com José Mourinho.
7 Júlio César (100 aC-44 aC) foi um famoso líder militar, político e imperador romano.
8 José Eduardo Simões é o presidente da Associação Académica de Coimbra. Tem o hábito de
apostar em jovens técnicos (por vezes sem qualquer experiência) da “escola” do FC Porto, de que
são bons exemplos Domingos Paciência, André Villas-Boas, Jorge Costa, José Guilherme e, mais
recentemente, Pedro Emanuel. As declarações que aparecem ao longo deste livro foram retiradas
(algumas) de uma entrevista que deu à BBC Sport e, acima de tudo, de outra que concedeu em
exclusivo para este livro.
9 Vítor Frade, criador da “periodização táctica”, é um discreto ex-professor da Faculdade de
Desporto da Universidade do Porto, onde teve como alunos alguns dos mais bem sucedidos técnicos
de futebol portugueses. Há muito ligado ao FC Porto, onde trabalhou directamente com vários
treinadores, fazendo parte da equipa técnica ou colaborando simplesmente com eles, ocupa hoje em
dia grande parte do seu tempo no Olival, centro de treinos do clube, onde coordena toda a área de
formação. Pessoa simples e extremamente afável, que ignora por completo os holofotes da fama, é a
maior referência de todos os que trabalham no moderno treino do futebol em Portugal.
10 Manuel Sérgio foi um dos primeiros autores, a nível mundial, a entender o futebol (e o desporto
em geral) como uma ciência social e humana e, como tal, a sublinhar o princípio da complexidade
como a metodologia necessária à compreensão da prática desportiva. O facto de ser um filósofo,
impediu que muitos treinadores entendessem o cerne da sua mensagem. Mas não impediu que José
Mourinho, que foi seu aluno na cadeira de “Filosofia das Actividades Corporais”, adoptasse alguns
dos seus princípios.
11 Ricardo Sá Pinto foi um dos mais carismáticos jogadores do Sporting. De feitio temperamental,
estabeleceu uma relação de grande empatia com os adeptos, muito particularmente com a Juventude
Leonina, a principal claque do clube. Foi director do futebol profissional do Sporting entre
Novembro de 2009 e Janeiro de 2010. Regressou no início da época 2011-12 ao clube para treinar a
equipa de juniores.
12 Carlos Gonçalves é um economista nascido em Lisboa em Janeiro de 1970 e pai de dois filhos.
Dono da empresa Proeleven, onde trabalha também o seu irmão Vítor, é um discreto agente FIFA
desde 2001. A sua relação com André Villas-Boas teve início em Lisboa, quando ambos
frequentaram um curso de dirigismo desportivo patrocinado pelo holandês Johan Cruyff. Tem uma
carteira de mãos de 60 jogadores, mas nenhum que possa ser considerado de topo a nível
internacional.
13 “José Mourinho”, escrito pelo treinador e por Luís Lourenço, seu amigo de infância e hoje
doutorado em liderança com base no case study José Mourinho, foi lançado em Julho de 2003 pela
editora portuguesa Prime Books e está traduzido para várias línguas, entre elas o inglês, italiano,
japonês, turco e o grego. Teve uma actualização em 2004, após a vitória do FC Porto na Champions
League, sendo relançado sob o título “Um Ciclo de Vitórias”.
14 Markus Berger, austríaco de 26 anos, defesa-central da Académica, em entrevista à BBC.
15 CMVM são as iniciais de Comissão Mercado Valores Mobiliários. Os clubes cotados em
bolsa, como é o caso do Sporting, do Benfica e do FC Porto, estão obrigados a comunicar à CMVM
todas as decisões que possam influenciar as cotações das suas acções.
16 Antero Henrique, verdadeiro braço direito de Pinto da Costa, é o director-geral da FC Porto
SAD.
17 Tomando com exemplo apenas os últimos anos, o F C Porto vendeu (valores em euros): 2004
Ricardo Carvalho (Chelsea, 30 milhões), Paulo Ferreira (Chelsea, 20 milhões), Deco (Barcelona, 15
milhões mais Ricardo Quaresma), Derlei (Dínamo Moscovo 8 milhões) e… José Mourinho (Chelsea,
6 milhões); 2005 Maniche (Dínamo Moscovo, 16 milhões), Costinha (Dínamo Moscovo,4 milhões),
Seitaridis (Dínamo Moscovo, 10 milhões) e Luís Fabiano (Sevilha, 2,5 milhões); 2006 Diego
(Werder Bremen, 6 milhões) e McCarthy (Blackburn Rovers, 4 milhões) ; 2007 Pepe (Real Madrid,
30 milhões), Anderson (Man Utd, 30 milhões), Hugo Almeida (Werder Bremen, 6 milhões) e Ricardo
Costa (Wolfsburgo, 5 milhões); 2008 Ricardo Quaresma (Inter, 18,6 milhões mais Pelé) e Bosingwa
(Chelsea, 20,5 milhões); 2009 Lucho Gonzalez (Marselha, 18 milhões), Lisandro Lopez (Lyon, 24
milhões), Cissoko (Lyon, 15 milhões) e Ibson (Spartak Moscovo, 5 milhões); 2010 Bruno Alves
(Zenit, 22 milhões) e Raul Meireles (Liverpool, 13 milhões).
18 Apito Dourado foi um escândalo de corrupção que estalou no futebol português em 2004 e
cujos visados mais conhecidos foram Pinto da Costa (presidente do FC Porto) e o Major Valentim
Loureiro (ex-presidente do Boavista e à data presidente da Liga de Clubes). Tendo sido incriminados
pelas instâncias da disciplina desportiva, foram posteriormente ilibados pelos tribunais civis
19 José Maria Pedroto (1928-1985) foi um dos mais carismáticos jogadores e, especialmente,
treinadores da história do FC Porto. Campeão no clube em qualquer uma das condições – duas como
jogador e duas como treinador –, regressou em força aos dragões quando Pinto da Costa foi nomeado
director do futebol (em 1976) e, depois, eleito presidente (em 1982). Considerado o principal
inspirador da estratégia que levou o presidente portista a atingir os maiores feitos – nacionais e
internacionais – do dirigismo desportivo português, é uma verdadeira lenda do FC Porto.
20 Jimmy Hagan (1918-1998) jogou no Derby Country (1935 a 1938) e no Sheffield United (1938
a 1958) e foi internacional por Inglaterra numa ocasião. Chegou a Portugal para treinar o Benfica em
1970 e em três épocas no clube venceu três campeonatos e uma Taça de Portugal. Em 1972-73,
comandando uma equipa onde pontificava Eusébio, venceu o campeonato sem derrotas (28 vitórias e
2 empates, marcando o número incrível de 101 golos). Abandonou o Benfica, no início da época
1973-74, após problemas com a direcção do clube provocados pela não convocação de Humberto
Coelho e Toni, dois dos mais importantes jogadores do plantel, para o jogo da festa de despedida de
Eusébio.
21 Dragão de Ouro é um prémio atribuído anualmente, da responsabilidade da direcção do FC
Porto, que escolhe os atletas, treinadores, dirigentes, funcionários e filias do clube que se
distinguiram ao longo de uma época. É também atribuído um Dragão de Ouro para um sócio.
22 SAD – Sociedade Anónima Desportiva.
23 Miguel Sousa Tavares é um dos mais prestigiados jornalistas portugueses, comentador
televisivo, escritor de best-sellers e um dos mais influentes opinion makers do país. É conhecido
pelo seu portismo, que expressa semanalmente numa coluna de opinião no diário desportivo A Bola.
24 Bruno Prata é um jornalista e comentador normalmente bem informado sobre matérias
relacionadas com o FC Porto.
25 Santo Graal foi o cálice utilizado por Jesus Cristo na última ceia.
26 Luiz Felipe Scolari chegou ao Chelsea (com 59 anos de idade) portador de um invejável
curriculum como treinador, onde, para além de várias vitórias a nível de clubes no Brasil, incluía
duas Taça dos Libertadores (pelo Grémio de Porto Alegre em 1995 e pelo Palmeiras em 1999), o
título de campeão do mundo obtido à frente da Selecção do Brasil, em 2002, no Mundial da Coreia-
Japão e a melhor classificação da história da Selecção de Portugal ao disputar a final do Euro’04,
que perdeu para a Grécia. É particularmente conhecido por conseguir formar uma verdadeira família
nos grupos de trabalho que lidera e fazer desse espírito de grupo uma arma decisiva para garantir
resultados desportivos positivos.
27 Ashley Cole chegou ao Chelsea em 2006, vindo do Arsenal, como conclusão de um processo
marcado pela polémica. Foi considerado o melhor jogador do clube nas épocas 2008-09 e 2010-11,
e jogador do ano em Inglaterra em 2010.
Table of Contents
PREFÁCIO:COMO O FUTEBOL ANTECIPA A CIÊNCIA
CAPÍTULO 1:O MONARCA DO FUTEBOL
FUTEBOL NA PONTA DA LÍNGUA
RECADOS A BOBBY ROBSON
UMA AVENTURA NAS CARAÍBAS
DISCRETO COM A BOLA NOS PÉS
CAPÍTULO 2:OS OLHOS E OS OUVIDOS DE MOURINHO
ADVERSÁRIOS “ESQUARTEJADOS”
007 – MISSÃO “UNITED”
NO OLHO DO FURACÃO
COMENTADOR DE SERVIÇO
A ROTURA COM MOURINHO
CAPÍTULO 3:FINALMENTE… UMA PORTA QUE SE ABRIU
“PERIODIZAÇÃO TÁCTICA”
O SPORTING… JÁ?!?
O FACTOR HUMANO
ATMOSFERA MUITO POSITIVA
NOVAMENTE O SPORTING
CAPÍTULO 4: SENTADO NA SUA “CADEIRA DE SONHO”
MOURINHO? NÃO, ROBSON!
MÃOS À OBRA
PEDROTO E… MOURINHO!
WORKAHOLIC
UM GUARDA-REDES, UM CAPITÃO
O LADO MAU DOS VENCEDORES
O VÍDEO QUE MUDOU O CURSO DE TODA UMA ÉPOCA
NOVA FORMA DE COMUNICAR
“LIGA EUROPA É PARA GANHAR”
A “AZIA” DE HULK
EU PECADOR ME CONFESSO
ÓPERA
PASSO A PASSO
PALESTRAS
SEGUNDAS PARTES DE LUXO
O 4x3x3, A POSSE DE BOLA E A PRESSÃO ALTA
CAPÍTULO 5: O SENHOR 15 MILHÕES
ABRAMOVICH DE NOVO NA HISTÓRIA
TRAIDOR!
O FANTASMA DE MOURINHO
RISCOS, DÚVIDAS E… REVOLUÇÕES
SCOLARI E O BALNEÁRIO DO CHELSEA
SEGUNDA ESCOLHA?
DE TREINADOR A MANAGER
CAPÍTULO 6: DIZ-ME, ESPELHO MEU…
DONOS DO SEU NARIZ
ÍMPETOS DIFERENTES
A MESMA ESTRADA, DIFERENTES ATALHOS
4x3x3 – TÁCTICA COMUM
FILOSOFIAS
EPÍLOGO: UM BARÇA DE CAMISOLAS AZUIS?