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METROLOGIA – 2003 – Metrologia para a Vida

Sociedade Brasileira de Metrologia (SBM)


Setembro 01-05, 2003, Recife, Pernambuco – BRASIL

MEDIÇÃO DE FORÇA DINÂMICA A PARTIR DA INÉRCIA DE MASSAS

Pereira, J.A.S. M.Sc1 , Cruz, J.A.P. M.Sc2 , Fernandes, J. L. D.Sc3 , Castro, J. T. P. Ph.D1

1 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil


2 Inmetro - Instituto Nacional de Metrologia, N. e Q. Industrial, Rio de Janeiro, Brasil
3 CEFET-RJ Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Rio de Janeiro, Brasil

Resumo. A medição de forças dinâmicas é importante em estas medições, que foi calibrado segundo normas nacionais
muitos casos práticos, como na obtenção de propriedades e internacionais vigentes para forças estáticas. Na ocasião
mecânicas de materiais estruturais, e.g. Mas a calibração de foram realizados alguns experimentos dinâmicos em um
transdutores de força dinâmica não é uma tarefa trivial, e não equipamento servo-hidráulico Instron, modelo 8502, com
está ainda disponível na RBC. Em vários países, experimento uma faixa nominal de escala de 100 kN. Em função da
tem sido realizados empregando-se uma massa calibrada análise dos resultados obtidos identificou-se a necessidade
montada via o transdutor de força sobre um vibrador, para de utilizar um equipamento que possuísse maior rigidez no
através da aceleração da massa obter a força dinâmica pela quadro de reação. Neste trabalho apresentam-se resultados
segunda lei de Newton, f = m⋅⋅ a. Entretanto, na prática é muito de ensaios dinâmicos feitos numa máquina com maior
difícil impor uma aceleração de referência sobre as massas rigidez, um equipamento Instron modelo 8504, com uma
(grandes) necessárias para calibrar transdutores da ordem de faixa nominal de escala com 500 kN.
100kN, como os usados em máquinas de testes de materiais.
Este trabalho experimental contribui para o desenvolvimento
2 – MÉTODOS EXPERIMENTAIS
da tecnologia de medição de forças dinâmicas utilizando um
transdutor de força projetado e construído para este tipo de Um cilindro de aço com 440 mm de diâmetro e 320 mm de
medição. Nos testes usou-se uma massa de cerca de 400 kg, altura foi cuidadosamente usinado para garantir a simetria
que foi acelerada senoidalmente em um equipamento em relação ao seu centro de massa. À massa deste cilindro
servohidráulico de faixa nominal de escala de 500 kN. m1 = 380,7 kg, deve-se somar as massas dos acoplamentos e
da metade superior do elemento elástico do transdutor, o que
resulta na massa total do experimento no valor de 384,9 kg.
Sendo assim, a massa total considerada é mostrada na
1 – INTRODUÇÃO equação 1.

Com o desenvolvimento de máquinas de ensaios mecânicos mt = m1 + m2 + m3 (1)


cada vez mais rápidas, tem aumentado a preocupação com a onde:
qualificação metrológica de transdutores de força dinâmicos. mt = massa total
KUMME (1998) e HUNT (2000), apresentaram estudos m1 = massa principal
sobre as propriedades dinâmicas para diferentes tipos de m2 = massa dos acoplamentos do transdutor
transdutores de força. CRAWSHAW (2002), utilizando um m3 = massa da metade superior do elemento elástico
procedimento de caracterização dinâmica, tem produzido
resultados com grande exatidão baseados na norma BS-EN- Esta massa ficou posicionada sobre o transdutor de força,
ISO 376, para uma faixa de força entre 12 e 20 kN, usando conforme mostra a figura 1, e este conjunto sobre a placa
uma rampa com taxa 100N/s como sinal de entrada. BRUNS das garras inferiores da máquina, de modo que a fixação
(2002) desenvolveu um projeto para calibração de fosse feita diretamente pelos mordentes destas. Para esta
transdutores de força com forças de pulso de 1ms de montagem projetou-se um novo sistema de acoplamento
duração. PEREIRA (2000a e b), vem seguindo uma linha, exclusivo para o equipamento Instron 8504. No
no ITUC-Instituto Tecnológico da PUC-Rio, que visa procedimento de montagem dos acoplamentos atentou-se
contribuir para a implantação da medição de forças para que não houvesse folgas entre todos os componentes,
dinâmicas no Brasil, e que em etapa anterior culminou com utilizando-se dois eliminadores constituídos de arruelas
a construção e caracterização de um transdutor de força para helicoidais bipartidas, conforme mostra a figura 1.
rastreados ao Inmetro, pelo próprio laboratório LEM-ITUC-
PUC-Rio.

Eliminadores
Aparato de Medição
Massa

Transdutor

Figura 1 - Montagem mecânica da massa sobre o transdutor


e duas arruelas helicoidais bipartidas, para eliminar toda e
qualquer folga entre os componentes.

Visando garantir a amplitude e minimizar o ruído do sinal


do transdutor de força, ele foi alimentado por duas baterias
automotivas convencionais de chumbo-ácido ligadas em
Equipamento 8504
paralelo com uma fonte de 12V CC estabilizada, as quais
foram permanentemente monitoradas por um voltímetro de
5 1/2 dígitos, HP modelo 3468A.
Figura 2 – Na montagem do aparato experimental de
Usou-se um acelerômetro ENDEVCO modelo 752-100, com medição das acelerações.
sensibilidade de 106,08 mV/g, um osciloscópio digital HP
modelo 54501A e um analisador espectral Agilent-HP
modelo 35670A, para monitorar a aceleração da massa e As tabelas 1 e 2 apresentam os resultados obtidos na
medir o sinal do transdutor de força, como mostra a figura 2. calibração do transdutor de força para esforços de tração e
comp ressão, respectivamente. Nestas tabelas também são
O acelerômetro foi instalado sobre a superfície superior da
mostrados a média de quatro séries de leitura (1), valores
massa metálica, através de um furo rosqueado previamente
ajustados pelos métodos dos mínimos quadrados da curva
usinado para este fim. Cuidou-se para que este ficasse o
força versus sinal de saída (2) e a incerteza padronizada
mais próximo possível do eixo de simetria vertical do
(Up) com fator de abrangência 2 (dois), calculada conforme
conjunto.
ISO GUM-98.
Uma vez montado e testado o aparato experimental, foram
A execução do experimento foi conduzida através do painel
realizados ensaios nos quais o conjunto massa-transdutor
de comando da máquina, onde foram introduzidos
oscilasse com diferentes valores de freqüências e amplitudes
parâmetros de freqüência e amplitude de deslocamento do
de deslocamento, por meio do equipamento servohidráulico
pistão no equipamento servohidráulico Instron 8504. Por
Instron 8504, de modo, a gerar diferentes valores de
uma questão de segurança o experimento iniciou com
aceleração e conseqüentemente valores de força atuantes
valores bem pequenos de freqüência de forçamento, em
sobre o transdutor.
torno de 0,5 Hz e amplitude de deslocamento em torno de
Inicialmente os resultados das medições dos sinais no 0,05 mm.
osciloscópio apresentaram ruídos muito altos, que
impediram uma leitura segura do sinal de saída do
acelerômetro. Devido a este fato houve a necessidade de se
introduzir um novo instrumento de medição do sinal de
saída, um analisador espectral de sinais que eliminou o
problema identificado.
Antes de submeter o transdutor de força ao experimento
dinâmico o mesmo foi calibrado seguindo a norma ASTM E
74-01. Utilizou-se como referência um transdutor de força
que é componente da máquina Instron 8502, cuja faixa
nominal de escala é de 100 kN, que por sua vez foi calibrado
por comparação com padrões de referência devidamente
Tabela 1 - Resultados da calibração do transdutor de força tabela 3. Nesta tabela os valores de saída da aceleração da
em tração. massa são lidos diretamente no analisador espectral em
milésimos do valor da aceleração da gravidade convencional
Sinal de saída do
Faixa de medição Instrumento Incerteza (mg c) e o transdutor de força fornece o valor de em
de força Valores Up voltagem (mV/V). Porém como não se dispõe dos valores de
Leituras (1) mV/V do acelerômetro utiliza-se um cálculo inverso. De
Ajustados (2)
(kN) (kgf) (mV/V) (mV/V) (kN) posse do valor da força em kgf calculado com o valor da
10 1020 0,132 0,131 ± 1,7 E-01 aceleração obtido pelo acelerômetro em mg c, aplica-s e a
20 2039 0,264 0,263 ± 5,3 E-01 equação de calibração estática do transdutor de força em
30 3059 0,396 0,399 ± 7,4 E-01 tração (figura 3) para calcular o valor de mV/V, obtido pelo
40 4079 0,528 0,527 ± 9,2 E-01 acelerômetro.
50 5099 0,660 0,662 ± 1,0 E+00
60 6118 0,792 0,790 ± 1,1 E+00 A partir da comparação dos valores dos erros obtidos nas
70 7138 0,924 0,921 ± 1,2 E+00 duas calibrações pode-se observar que o comportamento do
80 8158 1,057 1,056 ± 1,2 E+00 transdutor não sofreu alteração. Isto constata que não foram
90 9177 1,189 1,190 ± 1,2 E+00 introduzidos erros no experimento dinâmico devido à
100 10197 1,322 1,321 ± 1,2 E+00
possíveis alterações causadas pelo forçamento a que foi
submetido o sistema de medição do transdutor de força,
durante o próprio experimento dinâmico.
Tabela 2 - Resultados da calibração do transdutor de força
em compressão.

Curva de calibração do transdutor de força

Sinal de saída do
Faixa de medição Instrumento Incerteza 1,400
Sinal de Saida (mV/V)

y = 0,0132x - 0,001
de força Valores Up 1,200 2
Leituras (1) R =1
Ajustados (2) 1,000
(kN) (kgf) (mV/V) (mV/V) (kN) 0,800
10 1020 0,131 0,130 ± 1,3 E+00 0,600

20 2039 0,262 0,260 ± 1,3 E+00 0,400

30 3059 0,393 0,391 ± 1,8 E+00 0,200

40 4079 0,525 0,526 ± 2,4 E+00 0,000


0 20 40 60 80 100
50 5099 0,656 0,658 ± 3,1 E+00
60 6118 0,786 0,781 ± 3,6 E+00 Força (kN)

70 7138 0,918 0,920 ± 3,5 E+00


80 8158 1,049 1,051 ± 3,2 E+00
90 9177 1,180 1,185 ± 3,0 E+00 Figura 3 – Figura correspondendo a curva de calibração
100 10197 1,312 1,313 ± 3,0 E+00 estática em tração do transdutor de força.

Os valores de freqüência e amplitude de deslocamento


Curva de calibração do transdutor de força
foram combinados entre si, para obtenção de velocidades de
deslocamento do conjunto e acelerações cada vez maiores.
Prosseguiu-se com esta progressão até obter-se valores de 1,400
y = 0,0131x - 0,0001
Sinal de saida (mV/V)

aceleração que gerassem forças condizentes com o valor da 1,200 2


R =1
faixa nominal de escala do transdutor que é de 100kN, a 1,000
0,800
partir dos valores de força gerados.
0,600
0,400
3 – RESULTADOS E DISCUSSÃO 0,200
0,000
A calibração estática realizada pelo laboratório LEM ITUC, 0 20 40 60 80 100
Credenciado pela Rede Brasileira de Calibração–RBC, teve Força (kN)
seus cálculos realizados em planilhas eletrônicas
padronizadas, que usam o aplicativo Microsoft Excel. Os
cálculos destas planilhas seguem prescrições da norma
Figura 4 – Figura correspondendo a curva de calibração
ABNT ASTM E 74-01.
estática em compressão do transdutor de força.
Os valores de freqüência e amplitude de deslocamentos
combinados entre si, bem como os resultados obtidos pelo
acelerômetro e pelo transdutor de força são mostrados na
Tabela 3 - Valores de freqüência e amplitude de 5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
deslocamentos e os resultados obtidos pelo acelerômetro e
pelo transdutor de força.
BRUNS, T., KUMME, R., KOBUSH, M., PETERS, M.,
(2002), From Oscilation to Impact: The Design of a New
Amplitude Freqüência Sinal de saída do Force Calibration Device at PTB, Measurement 32 (1), pp.
(mm) (Hz) transdutor (mV) 85-92
0,2 60 0,128
0,2 70 0,137 CRAWSHAW, A. H. and ROBINSON, A. D. (2002), The
0,2 80 0,165 Calibration of Force Transducers ‘On-the-Fly’, NPL Report
0,2 90 0,203 CMAM 86, September, 11p.
0,2 100 0,269 FUJJI, Y. (2003), Evaluation of momentum transfer
0,3 60 0,180 responses of commercial forces transducers, Measurement
0,3 70 0,205 33 (5), pp. 35-45.
0,3 80 0,246
HUNT, A. (2000) Dynamic force measurement establishing
0,3 90 0,308
the value of dynamic calibration, Dorchester, Andrew Hunt
0,3 100 0,412 Consultant, Proc. XIII IMEKO TC3 World Congress,
0,4 60 0,229 Torino, 5p.
0,4 70 0,281
0,4 80 0,339 KUMME, R. (1998), Investigation of the comparison
0,4 90 0,425 method for the dynamic calibration of force transducers,
0,4 100 0,567 Measurement 23 (4), pp. 239-245.
0,5 60 0,297
0,5 70 0,368 PEREIRA, J. A. S. (2000a), Desenvolvimento de uma célula
0,5 80 0,452 de carga para medições de estáticas e dinâmicas,
Dissertação de Mestrado, Departamento de Metrologia,
0,5 90 0,571
PUC-Rio, 2000, 112p.
0,5 100 0,762
0,6 60 0,374 PEREIRA, J. A. S. e CASTRO, J. T. P. (2000b) Avaliação
0,6 70 0,452 do Comportamento, de Transdutor de Força, Congresso de
0,6 80 0,556 Metrologia 2000, 2000, 10p.
0,6 90 0,715
0,6 100 0,966
0,7 60 0,421
0,7 70 0,516 AGRADECIMENTOS
0,7 80 0,644 Os autores apresentam seus agradecimentos aos engenheiros
0,7 90 0,816 Severino de S. Wanderley, Rogério Regazzi, Alexandre
0,7 100 1,104 Santana e aos técnicos Luciano Crespo e Roberto F. Raposo
0,8 60 0,443 da PUC-Rio.
0,8 70 0,558
0,8 80 0,693
0,8 90 0,875 ___________________________________
Jorge Augusto Salles Pereira, M.Sc - jasp@ituc.puc-rio.br
0,8 100 1,152 PUC-Rio, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ
ITUC, Instituto Tecnológico
22453-900 Rio de Janeiro, RJ, BRASIL
4 - CONCLUSÃO Jorge Antonio da Paz Cruz, M.Sc – jacruz@inmetro.gov.br
Inmetro - Instituto Nacional de Metrologia Normalização e
Verificou-se que a proposta de usar um equipamento Qualidade Industrial, LAFOR, Laboratório de Força, Torque e
Dureza
servohidráulico com maior rigidez no quadro de reação
25250-020 Xerém, Duque de Caxias, RJ, BRASIL
apresentou resultado satisfatório para baixos valores de
força. Vale ressaltar que não se conseguiu a leitura adequada José Luiz Fernandes, D.Sc – jlfernandes@cefet-rj.br
dentro do intervalo de 10% a 90% da faixa nominal da CEFET-RJ - Centro Federal de Educação Tecnológica Celso
escala do transdutor de força. Isto evidenciou a necessidade Suckow da Fonseca, Departamento de Ensino Superior
da continuação das atividades deste grupo de pesquisa, 20271-110, Rio de Janeiro, RJ, BRASIL
visando o desenvolvimento de novos recursos metrológicos
neste campo. Jaime Tupiassú Pinho de Castro, Ph.D- jtcastro@mec.puc-rio.br
PUC-Rio, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ
Departamento de Engenharia Mecânica,
22453-900, Rio de Janeiro, Brasil