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Contextos Clínicos, 6(2):117-131, julho-dezembro 2013

© 2013 by Unisinos - doi: 10.4013/ctc.2013.62.05

Prevenção primária à violência no namoro:


uma revisão de literatura1

Dating violence primary prevention: A literature review

Sheila Giardini Murta, Bruna Roberta Pereira dos Santos,


Camila Perna Santos Martins, Brisa de Oliveira
Instituto de Psicologia. Universidade de Brasília. Campus Darcy Ribeiro, L2 Norte, SQN 606, 70910-900,
Brasília, DF, Brasil. giardini@unb.br, brunaroberta19@gmail.com, camilapsmartins@gmail.com, brisa.oli@gmail.com

Resumo. Esta revisão sistemática buscou identificar as características meto-


dológicas e de intervenção de estudos que apresentam programas de pre-
venção primária à violência no namoro. Quinze estudos, publicados entre
1992 e 2010, foram acessados através de bases de dados eletrônicas. Foram
codificados, e os dados foram agrupados e quantificados. Os resultados in-
dicaram que a maior parte dos estudos são experimentais, sem follow-up. De
modo geral, abordaram habilidades sociais, conhecimentos sobre a violência
no namoro, atitudes e crenças relativas a papéis de gênero. Foram encontra-
das evidências favoráveis à eficácia de programas de prevenção multicom-
ponentes, ao passo que programas de prevenção exclusivamente informati-
vos se mostraram pouco eficazes. São discutidas implicações desses achados
para o desenvolvimento de programas preventivos no contexto nacional.

Palavras-chave: violência pelo parceiro íntimo, violência no namoro, pre-


venção.

Abstract. A systematic review was carried out aimed to identify method-


ological and intervention characteristics of the studies that present primary
prevention programs of dating violence. Fifteen studies, published between
1992 and 2010, were searched by computerized databases. They were codi-
fied and their data were categorized and quantified. The results revealed
that the majority of the studies have experimental designs, without follow-
up. They have focused on social skills, information on dating violence, at-
titudes and beliefs on gender roles Favorable evidence on the efficacy of
multicomponent preventive programs was found, in opposition to the ex-
clusively informative programs, which have shown poor evidence of effi-
cacy. Implications of these findings for the development of dating violence
preventive programs in the national context are discussed.

Key words: intimate partner violence, dating violence, prevention.

1
A autora Sheila Giardini Murta agradece ao CNPq pelo apoio concedido ao projeto de pesquisa que originou este estudo
(Processo 402579/2010-0) e à Bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida ao projeto Desenvolvimento de Tecnologias
de Prevenção à Violência no Namoro, do qual esta revisão é a parte inicial (Processo 306975/2010-6). A autora Bruna
Roberta Pereira dos Santos agradece ao CNPq pela Bolsa de Iniciação Científica recebida no decorrer deste estudo.
Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

Introdução ambos os sexos (Randle e Graham, 2011). Pre-


juízos para o desenvolvimento da autoestima,
Pesquisas sobre a violência entre parceiros reações psicossomáticas e estresse pós-traumá-
íntimos adolescentes vêm crescendo nas últi- tico têm sido identificados em vítimas do sexo
mas décadas em diferentes continentes, mar- feminino (Caridade e Machado, 2006). Em uma
cadamente na América do Norte (Cornelius e revisão recente da literatura sobre o impacto da
Resseguie, 2007; Foshee et al., 1998; Hickman et violência no namoro para vítimas masculinas,
al., 2004; Ting, 2009) e, em menor escala, na Eu- Randle e Graham (2011) apontam como efeitos
ropa (Barter, 2009; Caridade e Machado, 2006; negativos mais comuns o estresse pós-traumá-
Matos et al., 2006; Muñoz-Rivas et al., 2007), tico, o alcoolismo e a depressão, advindos de
na América Latina (Aldrighi, 2004; Anacona, repetidas agressões da parceira.
2008; Oliveira et al., 2011; Pick et al., 2010), na A violência no namoro é um fenômeno
África (Salazar e Cook, 2006) e na Ásia (Verma multicausal, para o qual concorrem fatores de
et al., 2006). Uma das razões que explicam o risco culturais, familiares e pessoais. Entre es-
crescente volume de estudos sobre o tema é a tes, citam-se conviver em comunidades sexis-
gravidade do fenômeno, constatada em dados tas (Anacona, 2008; Caridade e Machado, 2006;
reveladores de sua alta incidência e seu impac- Hickman et al., 2004), testemunhar violência
to severo sobre a saúde mental. entre os pais, ser vítima direta de violência pa-
Conforme as estatísticas da Federal Bure- rental (Cyr et al., 2006; Hickman et al., 2004),
au of Investigation’s Supplementary Homici- sofrer abuso sexual (DiLillo et al., 2001), ter
de Reports (Hickman et al., 2004), nos Estados amigos que são violentos com seus parceiros
Unidos, 10% das meninas de 12 a 15 anos e íntimos (Arriaga e Foshee, 2004) e ter poucas
22% das garotas entre 16 e 19 anos foram mor- habilidades sociais assertivas, de manejo da
tas entre os anos de 1993 e 1999, vítimas de raiva e de autocontrole emocional (Anacona,
seus namorados. No Brasil, um estudo (Olivei- 2008; Caridade e Machado, 2006).
ra et al., 2011), realizado com 3200 adolescentes A compreensão crescente sobre as origens
provenientes de dez estados do país, consta- e o desenvolvimento da violência no namo-
tou que 86,9% dos participantes relataram ter ro tem facilitado o planejamento de progra-
tido experiências como vítimas e 86,8%, como mas de prevenção primária, principalmente
perpetradores de violência contra o parceiro na América do Norte (Cornelius e Resseguie,
íntimo, tendo sido a violência verbal e a sexual 2007; Muñoz-Rivas et al., 2011; Murray e Gray-
as mais frequentes. beal, 2007; Ting, 2009). Esses programas são
Diferentes estudos (Aldrighi, 2004; Ana- consideravelmente relevantes, dado que a vio-
cona, 2008; Oliveira et al., 2011; Munõz-Rivas lência no namoro pode ser precursora da vio-
et al., 2011; Sears et al., 2007) apontam que as lência intrafamiliar e seus efeitos podem im-
várias manifestações da violência, em suas pactar as gerações seguintes (Cyr et al., 2006;
modalidades verbal, psicológica, física e sexu- Hickman et al., 2004). Em vista desse cenário,
al, são inter-relacionadas e costumam ocorrer programas preventivos, direcionados a gru-
conjuntamente. Ademais, são recíprocas ou pos de adolescentes em geral (prevenção uni-
bidirecionais, já que os parceiros se alternam versal), a adolescentes expostos a fatores de
nos papéis de vítimas e perpetradores. Logo, risco para a violência no namoro (prevenção
os adolescentes de ambos os sexos podem ser seletiva), ou mesmo com manifestações leves
abusadores. No caso das violências cometidas e iniciais de violência contra o parceiro íntimo
pelas parceiras, a violência psicológica, segui- (prevenção indicada) podem consistir em uma
da pela física, são as mais frequentes, confor- importante via de cuidados em saúde mental
me apontado em uma revisão de Williams et al. na adolescência.
(2008). A violência no namoro tem sido docu- No que diz respeito às bases teóricas, os
mentada tanto em casais heterossexuais quan- programas preventivos para a violência no na-
to em casais homoafetivos (Anacona, 2008), moro tem se fundamentado, majoritariamen-
ainda que este último contexto seja, compara- te, em Teorias Feministas, na Teoria da Apren-
tivamente ao anterior, pouco investigado. dizagem Social e em Teorias sobre Normas e
Ambos os parceiros sofrem os efeitos de seus Atitudes. Em decorrência dessas bases teóri-
relacionamentos abusivos. Dentre as consequên- cas, essas intervenções têm sido desenhadas
cias danosas para a saúde mental associadas a para gerar mudanças comportamentais ou ati-
relacionamentos desta natureza, destacam-se tudinais ou ambas. Usualmente, são dirigidas
as altas taxas de ideação suicida em jovens de às mudanças em crenças estereotipadas sobre

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papéis de gênero e em informação sobre vio- as variáveis utilizadas para avaliar essas inter-
lência de gênero, promoção de habilidades de venções e (c) identificar os resultados produzi-
autorregulação das emoções e negociação de dos por elas.
conflitos e redução em atitudes de aceitação da
violência (Salazar e Cook, 2006). Método
No Brasil, a prevenção à violência no na-
moro é um foco de estudos incipiente, ao con- Critérios de inclusão
trário da violência de gênero em geral, que
é amplamente estudada no país, de acordo Nesta revisão, foram considerados critérios
com revisão de Aquino (2006). Os estudos de inclusão: (i) artigos publicados em periódi-
nacionais sobre violência no namoro datam cos científicos nas duas últimas décadas (1990-
da última década e têm sido voltados para a 2010), (ii) de língua portuguesa, inglesa ou es-
descrição e a compreensão do problema (Al- panhola, (iii) que apresentam intervenções de
drighi, 2004; Antonio et al., 2012; Nascimento prevenção primária em violência no namoro,
e Cordeiro, 2011; Oliveira et al., 2011), à exce- (iv) que possuem uma descrição e avaliação
ção de iniciativas recentes dedicadas ao de- da intervenção (v) acerca de indivíduos ado-
senvolvimento de intervenções preventivas lescentes (vi) em situação de namoro.
para adolescentes (Murta et al., 2011, 2012,
2013). Há, portanto, necessidade de avanços
rumo ao planejamento e condução de ações Procedimentos de busca
preventivas embasadas em evidências. Estas
poderiam ser úteis em programas e políti- Os artigos foram localizados através
cas públicas destinadas ao fortalecimento da das bases de dados eletrônicos: PsycINFO,
equidade de gênero, à saúde do adolescente, MEDline, EBSCO, ProQuest Psychology Jour-
à prevenção da violência entre jovens e à pro- nals, LILACS, Scielo e Pepsic. As palavras-
moção dos direitos humanos. chave utilizadas foram “dating violence”, “in-
Diversas revisões da literatura sobre pro- timate partner violence prevention”, “violence
gramas de prevenção primária à violência no prevention”, “safe dating and prevention” e
namoro têm sido publicadas e se caracterizam “gender violence prevention”.
por serem narrativas, sem critérios explícitos
de busca e procedimentos sistemáticos de Procedimentos de análise
análise dos resultados (Cornelius e Resseguie,
2007; Hickman et al., 2004; Muñoz-Rivas et al., Os estudos foram codificados em 12 crité-
2011); adotam procedimentos meta-analíticos rios, definidos na Tabela 1: estudo, delinea-
para análise da efetividade dos programas, mento, participantes, contexto, tipo de preven-
omitindo a descrição das intervenções (Ting, ção, foco, formato da intervenção, conteúdo
2009); e focam apenas em aspectos metodoló- da intervenção, avaliação de necessidades,
gicos ou de avaliação dos programas (Murray avaliação de processo, avaliação de resultados
e Graybeal, 2007). Em complementação às re- e resultados. Os dados de cada artigo foram
visões anteriores, no presente estudo, optamos transcritos para uma folha de codificação pa-
por conduzir uma revisão sistemática da lite- dronizada que foi posteriormente inserida
ratura em prevenção primária à violência no numa planilha eletrônica de cálculos (Micro-
namoro, voltada também para a identificação soft Office Excel). As análises foram feitas por
das características da intervenção, em adição meio de frequências e porcentagens (quando
às características metodológicas, com publica- variável quantificável), bem como de análises
ções buscadas de maneira abrangente e siste- de predominâncias e tendências (quando vari-
mática e analisadas com critérios claramente ável não quantificável).
definidos. Esta ênfase na identificação e na
descrição das características da intervenção foi Resultados
assumida com vistas a subsidiar o desenvol-
vimento futuro de tecnologias de prevenção Nesta revisão, foram encontradas 19 publi-
primária à violência no namoro no contexto cações que correspondiam aos critérios previa-
nacional. Assim, foram três os objetivos des- mente estabelecidos. Tais artigos descreviam
ta revisão: (a) descrever os formatos e conte- 15 diferentes estudos, publicados entre 1992 e
údos abordados em programas de prevenção 2010. Foi usado como universo de análise os 15
primária à violência no namoro; (b) identificar estudos identificados.

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Tabela 1. Definição dos critérios de codificação.


Table 1. Definition of coding criteria.

Critério Definição
Estudo Autores, ano, periódico e país onde a intervenção foi implementada.
Experimental (estudo com grupo controle ou de comparação randômicos),
quase-experimental (estudo com grupo controle ou de comparação não
Delineamento randômicos) ou não experimental (estudo com pré e pós-teste, sem grupo de
controle ou comparação). Número de follow-ups, tempo (em meses) transcorrido
entre a intervenção e o primeiro follow-up.
Número de participantes que concluíram a intervenção (total de todos os grupos)
Participantes
e idade.
Tipo de ambiente onde a amostra foi recrutada (escola, educação profissional,
Contexto
universidade ou outros).
(1) Universal - participantes selecionados independentemente da exposição ao
risco para violência entre parceiros íntimos e da manifestação inicial da violência
entre parceiros íntimos (por exemplo, estudantes de ensino médio, sem critérios
de seleção para participação no estudo descritos).
Tipo de (2) Seletivo - participantes selecionados por estarem expostos a riscos para
Prevenção violência entre parceiros íntimos (exemplo: adolescentes filhos de pais violentos).
O critério de seleção é apresentado.
(3) Indicado - participantes selecionados por já estarem manifestando sinais
iniciais de violência (por exemplo: adolescentes presos por terem cometido
crimes contra mulheres - mas não em situação de namoro).
Pessoa (mudança em estratégias de enfrentamento do adolescente) ambiente
Foco (mudança em comportamentos de outros significativos, como professores ou
pais) ou combinado (adolescente e outros significativos).
Formato da Frequência das sessões, duração da sessão (em minutos), duração da intervenção
intervenção (em semanas), número total de sessões, número total de horas de contato.
Natureza da intervenção, incluindo temas discutidos (ex: relações entre papéis
Conteúdo da de gênero e violência no namoro), técnicas usadas (ex: treino assertivo) ou ações
intervenção implementadas (ex: discussões sobre como construir rede de suporte social). A
intervenção dada ao grupo de comparação está também incluída.
Avaliação prévia à intervenção visando a identificar alvos para a intervenção.
Avaliação de
Incluir técnicas de coleta de dados usadas, como escalas, observação do
necessidades
comportamento, análise documental etc.
Recrutamento: adequação de fontes e procedimentos usados para abordar e
atrair participantes em potencial para que se tornem participantes de fato.
Contexto: características do contexto que interferem diretamente na
implementação da intervenção, explicitado na opinião do autor, incluindo
aspectos físicos, sociais, históricos ou econômicos.
Exposição ao programa: comparecimento à intervenção.
Avaliação de Dose fornecida: a quantidade fornecida dos componentes da intervenção em
Processo relação ao planejamento feito.
Dose recebida: a extensão na qual os participantes usam o material, os recursos
ou as técnicas recomendadas pelo programa.
Fidelidade: a qualidade do programa implementado em relação ao programa
planejado ou à integridade do tratamento.
Atitudes dos participantes: atitudes subjetivas dos participantes frente às sessões,
à intervenção (ex.: satisfação e percepção de credibilidade da intervenção).

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Tabela 1. Continuação.
Table 1. Continuation.

Estratégia de coleta de dados e tipo de variável dependente avaliada, como


Avaliação de
crenças sexistas, conhecimento sobre direitos sexuais e reprodutivos, habilidades
resultados
de manejo de raiva etc.
Resultados pós-teste sobre as variáveis dependentes medidas, resultados de
Resultados
follow-up, ou mudanças do pré-teste para o pós-teste.

Contextos de implementação Schwartz et al., 2004), enquanto que a maioria


das pesquisas (40%) relatou amostra entre 100
Grande parte dos programas foi desenvol- e 500 participantes (Antle et al., 2011; Avery-
vida na América do Norte (80%), seguida pela leaf et al., 1997; Pick et al., 2010; Matos et al.,
Europa (13%) e pela América Latina (7%). A 2006; Mcgowan, 1997; Wolfe et al., 2003). Entre
escola foi o principal contexto de aplicação os estudos com as maiores amostras, 13% de-
(N = 10, 66%). Os programas com foco no ado- les tiveram participação na faixa de 500 a 1000
lescente eram 60% (N = 9) e o restante (40%) pessoas (Jaffe et al., 1992; Lavoie et al., 1995),
teve (N = 6) foco combinado (envolvendo ado- 13% , entre 1000 e 2000 participantes (Foshee
lescente, pais, professores ou comunidade). et al., 2005, 2004, 1998, 2000; Taylor et al., 2010),
O tipo de prevenção foi predominantemente e o estudo com a maior população atingida re-
universal (N = 10; 67%), com 20% do tipo se- latou ter trabalhado com 2540 pessoas (Jaycox
letiva (N = 3) e 13% do tipo indicada (N = 2). et al., 2006), correspondendo a 6% do total das
A idade dos participantes das interven- investigações realizadas.
ções foi classificada nos seguintes intervalos: Menos da metade das intervenções (N = 6,
entre 11 e 15 anos, presente em 33% dos estu- 40%) realizou avaliação de follow-up. No entan-
dos; entre 16 e 20 anos, em 20%; acima de 20 to, apenas uma delas (Foshee et al., 1998, 2000,
anos, em 7%. Esse dado não foi informado em 2004, 2005) o fez em longo prazo e mais de uma
40% dos estudos. vez (1 mês, 1 ano, 2 anos, 3 anos e 4 anos após
a intervenção). O tempo entre a intervenção e
Características da avaliação o primeiro follow-up variou de um mês a seis
meses nos estudos que apresentaram esta ca-
O delineamento dos estudos foi experi- racterística. Os follow-ups foram aplicados, no
mental em 53% (N = 8), quase-experimental mínimo, um mês após a intervenção (Foshee
em 7% (N = 1) e do tipo pré e pós-teste em et al., 1998) e, no máximo, quatro anos depois
40% (N = 6). Aproximadamente metade dos (Foshee et al., 2005).
estudos fez uso de grupo controle (53%, N = A maior parte dos estudos (60%) se ateve à
8). Um número significativo de estudos utili- avaliação de resultados, com pré e pós-teste,
zou grupo controle inativo (N = 6, 40%), dos e não realizou qualquer tipo de avaliação de
quais metade ofereceu lista de espera (20%) necessidades e de processo. Apenas no estu-
e, na outra metade, o tratamento foi nulo (au- do de Gómez (2007) foi conduzida avaliação
sência de tratamento) (20%). O grupo controle das necessidades dos participantes, a qual
ativo ocorreu em 20% das experiências (N = 3). também serviu como instrumento para ava-
O conteúdo desses grupos, em duas das in- liação de pré e pós-testes. Algum tipo de ava-
tervenções, consistiu em aulas do currículo de liação de processo foi conduzido em 40% dos
saúde da própria escola e, na outra, em ativi- estudos (N = 6). Os critérios de processo uti-
dades comunitárias (serviços para adolescen- lizados foram avaliação da satisfação/atitu-
tes em relacionamentos abusivos e treinamen- de dos participantes para com a intervenção
to para prestadores de serviço). (N = 4; 26%), fidelidade do programa (N = 3;
O tamanho das amostras foi considerado 20%) e elementos do contexto que afetaram a
de acordo com o número de participantes que intervenção (N = 1; 7%).
completaram todas as avaliações. Os estu- Na avaliação de resultados, a grande maio-
dos com as menores amostras, entre 28 e 100 ria dos estudos fez uso exclusivo de escalas
participantes, corresponderam a 27% (Ball et e questionários e uma pequena parte (Ball et
al., 2009; Goméz, 2007; Salazar e Cook, 2006; al., 2009; Goméz, 2007) usou também grupos

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Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

focais. As variáveis utilizadas na avaliação ciais: assertividade, negociação, tomada de


foram: (a) habilidades quanto à identificação decisão, solução de problemas interpessoais,
de sinais de violência ou de violência de gê- resolução de conflitos, manejo da raiva e ex-
nero; adoção de estratégias para resolução de pressão de sentimentos de forma saudável; (b)
conflito, comunicação e manejo da raiva; (b) conhecimentos: tipos de violência, prevalên-
conhecimento: com relação à violência no na- cia, manifestações, consequências, recursos de
moro, aspectos envolvidos (comportamentos, enfrentamento (incluindo serviços de ajuda),
sinais e causas de violência, consequências le- controle abusivo, informações sobre aspectos
gais, onde e como buscar ajuda) e sobre rela- legais envolvidos na violência no namoro e
ções saudáveis; (c) atitudes e crenças: grau de qualidade de relacionamentos saudáveis; (c)
aceitação quanto ao uso da violência ou atitu- atitudes e crenças: diferenças de gênero, cren-
des relacionadas a ela (namoro, casamento ou ças sexistas, atitudes em relação ao uso da vio-
contra mulher), crenças que justificam o uso lência; e (d) outros: autoatribuição de direitos.
de comportamentos violentos e o ciúme; (d)
intenção comportamental: de pedir ajuda, de Evidências de eficácia
prática de violência no namoro (em situação
de risco ou não), de ajudar outras pessoas que Os resultados encontrados nos programas
estão sendo agredidas no namoro, de envol- são, predominantemente, positivos. Uma aná-
ver-se em estereótipo de gênero; (e) práticas lise dos resultados dos estudos indica que a
violentas: emissão de comportamento violen- maior parte deles (80%; 12 estudos) apresen-
tos, vitimização ou perpetração de violência tou evidências favoráveis à eficácia das inter-
no namoro ou doméstica, testemunho à vio- venções avaliadas, em oposição a apenas três
lência doméstica, violência sexual infantil. estudos (Jaycox et al., 2006; Salazar e Cook,
2006; Taylor et al., 2010) que tiveram resultados
Conteúdo e formato das intervenções negativos no pós-teste e/ou follow-up. Nesses
estudos, as intervenções foram informativas e
A duração da sessão foi analisada em inter- prescritivas, sem o ensino de habilidades in-
valos de minutos. Em sete intervenções (47%), terpessoais para manejo de conflitos.
a duração da sessão variou entre 45 e 90 mi- As variáveis nas quais houve aumento da
nutos. Em outras quatro intervenções (33%), a capacidade em fazê-las, representando resul-
sessão durou entre 120 e 150 minutos. Um es- tados positivos, foram: (a) habilidades: iden-
tudo realizou encontros de quatro horas cada, tificar sinais de violência, adoção de estraté-
e outro não descreveu essa informação. gias para resolução de conflito, comunicação
Não houve similaridades entre os estudos e manejo da raiva; (b) conhecimento: sobre
quanto ao período em que as intervenções violência no namoro e aspectos envolvidos
ocorreram, variando desde um dia a um ano. (comportamentos, sinais e causas de violên-
Isso, em horas totais de contato, significou um cia, consequências legais e onde e como buscar
mínimo de 2,5 horas e máximo de 36 horas de ajuda) e relações saudáveis; (c) intenção com-
intervenção. A duração mais frequente entre portamental: de pedir ajuda, de ajudar outras
os estudos que descreveram esse componen- pessoas que estão sendo agredidas no namoro;
te da intervenção (N=11, 73%) foi 7,5 horas de (d) outros: autoconfiança. As variáveis em que
contato com os participantes, que constava em houve declínio na sua ocorrência após a inter-
47% das intervenções. Duas intervenções tive- venção, representando resultados positivos,
ram até 3,5 horas de contato; 5, entre 5 e 7,5 ho- foram: (a) crenças e atitudes: grau de aceitação
ras; 1, 12 horas; 2, 22 horas e 1, 36 horas totais. ao uso da violência ou atitudes relacionada a
O número mínimo de sessões por progra- ela (namoro, casamento ou contra mulher),
ma foi 1 e o máximo 24, sendo que a maioria crenças que justificam do uso de comporta-
das intervenções (N = 10, 67%) teve, no máxi- mentos violentos e o ciúmes; (b) intenção com-
mo, cinco encontros e apenas quatro estudos portamental: de prática de violência no namo-
(27%) aplicaram mais de dez sessões. Entre es- ro (em situação de risco ou não) e de adotar
tes, estão as três intervenções com os números papéis de gênero estereotipados; e (c) práti-
totais de horas de contato mais altos: duas com cas violentas: vitimização ou perpetração de
22 horas (Goméz, 2007; Ball et al., 2009) e uma violência no namoro. Portanto, os resultados
de 36 horas (Wolfe et al., 2003). encontrados apontam que, em sua maioria, os
Os conteúdos trabalhados nos programas programas avaliados afetaram positivamen-
incluíram, basicamente: (a) habilidades so- te variáveis cognitivas (intenções e crenças) e

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Sheila Giardini Murta, Bruna Roberta Pereira dos Santos, Camila Perna Santos Martins, Brisa de Oliveira

Tabela 2. Características de programas de prevenção à violência no namoro e principais resulta-


dos (N = 15 estudos).
Table 2. Characteristics of dating violence prevention programs and main results (N = 15 studies).

Variáveis
Estudo Conteúdo do programa Resultados
dependentes
Antle et al. Tratamento: padrões Aprendizado/conhe- Os participantes experienciaram altos níveis
(2011) saudáveis e não-saudáveis cimento sobre relacio- de satisfação com o programa e apresen-
de relacionamento, habili- namentos, satisfação taram um aumento significativo no co-
Prevenção dades comunicativas para com a intervenção, nhecimento sobre relacionamento. Houve
Seletiva resolução de conflitos, habilidades comuni- uma melhora em habilidades de resolução
solução de problemas e cativas, habilidades de conflitos e comunicação, além de uma
violência no namoro. Não de resolução de con- diminuição no engajamento em situações
houve grupo controle. flitos e atitudes frente violentas. Por fim, reduziram-se as atitudes
a situações violentas. favoráveis à violência no namoro.
Pick et al. Tratamento: habilidades de Habilidade para As habilidades de identificar violência e
(2010) vida (assertividade, nego- reconhecer violência, suas causas apresentaram progresso no
ciação, tomada de decisão); seus sinais e causas; pós-teste, assim como o reconhecimento
Prevenção conceitos de sexo, sexu- aceitação da violência de expressões saudáveis do amor. Atitudes
Universal alidade e gênero e como e atitude em relação favoráveis em relação à não-violência ocor-
se relacionam à violência; à não-violência; e reram tanto no pré quanto no pós-teste.
o que é e como reconhe- reconhecimento de As meninas foram mais habilidosas para
cer violência, seus tipos, comportamentos e reconhecer sinais de violência, suas causas
papéis de gênero e estere- sinais de expressão e maneiras saudáveis de expressar o amor.
ótipos; e como expressar saudável do amor. Elas também foram mais favoráveis à não-
amor de forma saudável. violência.
Não houve grupo controle.
Taylor et al. Tratamento 1: estabeleci- Vitimização e perpe- Estudantes dos dois grupos de tratamento
(2010) mento de limites e comu- tração de violência tiveram melhores atitudes sobre espaço
nicação na relação; noção sexual, física (pares pessoal que o grupo controle, o que se
Prevenção de espaço pessoal, distin- e namoro) e assé- manteve no follow-up. O grupo de trata-
Universal ção de comportamentos dio sexual; atitudes mento 2 teve melhores resultados nas vari-
permitidos ou não; conse- (de aceitação de áveis de conhecimento que o grupo con-
quências em não obedecer comportamentos trole, o que se manteve no follow-up. Neste,
os limites e o papel do violentos relacio- verificou-se que a intervenção favoreceu
espectador como um inter- nados a crenças de menor vitimização e perpetração de violên-
ventor. Tratamento 2: leis, gênero; relacionadas cia sexual entre pares no grupo de trata-
definições, informações à redução do assédio mento 1. A perpetração da violência no
sobre penalidades para sexual e à violência namoro aumentou no pós-teste e permane-
assédio sexual e estupro, de gênero; sobre o es- ceu no follow-up do grupo de tratamento 2.
consequências para os paço pessoal próprio Porém, esse grupo teve melhores atitudes
perpetradores desses tipos e de outros); conheci- sobre prevenir assédio sexual e menor
de violência, aplicação das mento (leis, definição aceitação de comportamentos abusivos ou
leis considerando o gênero, de abuso e assédio violentos relacionados com as crenças de
mitos e fatos sobre assédio sexual, recursos de gênero. No follow-up, houve melhora signi-
sexual e espaço pessoal. ajuda e mitos de assé- ficativa nas atitudes em reduzir violência
Grupo controle: aulas dio sexual), dados de gênero e assédio sexual no grupo de
do currículo de saúde da sociodemográficos e tratamento 2. A intervenção não modificou
escola. participação prévia a vitimização e a perpetração de assédio
em programas com sexual em ambos grupos de tratamento. Os
conteúdos similares. meninos estiveram mais envolvidos com a
violência tanto como vítimas, como perpe-
tradores, entre pares e no namoro.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 123


Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

Tabela 2. Continuação
Table 2. Continuation.

Variáveis
Estudo Conteúdo do programa Resultados
dependentes
Ball et al. Tratamento: habilidades Mudanças em pen- Participantes relataram percepção de su-
(2009) de comunicação, caracte- samentos e atitudes, porte social no grupo, melhora das habili-
rísticas e habilidades de comportamentos dades de comunicação, controle da raiva e
Prevenção relacionamentos saudá- desenvolvidos com percepção de alternativas à violência. Maior
Indicada veis, definição de abuso e o programa, expe- conhecimento sobre relações saudáveis,
respeito, papéis de gênero, riência no grupo de identificação de sinais de violência, consci-
identificação de abuso de suporte. ência dos próprios comportamentos, maior
poder e relações abusivas. motivação para confrontar amigos abusivos
Não houve grupo controle. e dar suporte a vítimas. Um grupo de garo-
tos em detenção juvenil relatou mudança no
modelo que tinham sobre relacionamentos.
Goméz Tratamento: violência de Mitos e crenças sobre Houve uma queda nas falsas crenças
(2007) gênero e crenças errôneas a violência de gênero, relacionadas à violência de gênero, mudan-
relacionadas a ela, habili- conhecimento sobre ças em atitudes que justificam a violência
Prevenção dade de resolução de con- violência, seus sinais, no namoro, aumento na capacidade de
Universal flito, recursos para enfren- causas e recursos reconhecer sinais de violência, aumento do
tar situações de violência. para enfrentá-la. conhecimento de onde e como buscar ajuda
Não houve grupo controle. em caso de violência.
Jaycox et al. Tratamento: aspectos legais Conhecimento sobre O grupo de tratamento apresentou maior
(2006) sobre violência no namoro, violência no namo- conhecimento sobre os aspectos legais
prevalência de violência ro e seus aspectos envolvidos na violência no namoro, me-
Prevenção doméstica e no namoro, legais, vitimização de lhor percepção da utilidade e da probabi-
Seletiva tipos de abuso, ciclo de violência no namoro, lidade de buscar ajuda, menor aceitação
violência, sinais de abuso aceitação à violência da agressão de mulheres contra homens
e informações sobre como e intenção compor- (não mantido no follow-up). Melhora no
pedir ajuda. Controle: tamental em buscar conhecimento e na percepção de utilidade
aulas do currículo de saúde ajuda. na ajuda de um advogado (mantido no
da escola e lista de espera. follow-up). Não houve diferença nas taxas
de vitimização e perpetração de violência
no namoro do pós-teste até o follow-up.
Matos et al. Tratamento: conceito de Grau de tolerância/ Redução global da tolerância à violência
(2006) maus tratos, ciclo da vio- aceitação do sujeito pelo parceiro intimo. Os meninos eram em
lência e suas causas, fatores quanto à violência todas as condições mais legitimadores da
Prevenção de risco, consequências da pelo parceiro íntimo, violência do que as meninas. Os alunos
Universal violência, crenças que justi- nível socioeconômi- mais novos manifestaram um maior grau
ficam a violência e recur- co. de legitimação da violência íntima que os
sos para enfrentá-la. Não mais velhos. Os resultados mantiveram-se
houve grupo controle. no follow-up.
Salazar e Tratamento: crenças Conhecimentos e O grupo experimental apresentou maior
Cook sobre violência de gênero, atitudes relacionadas nível de conhecimento e menor atitude fa-
(2006) sexismo e aspectos legais à violência de gênero, vorável à violência de gênero. Adolescentes
da violência de gênero. aceitação da violência que testemunharam violência doméstica
Prevenção Controle: lista de espera. contra mulher, teste- (homem contra mulher) apresentaram me-
Indicada munho da violência nor atitude favorável à violência de gênero
doméstica, prevalên- no grupo experimental. Esses resultados se
cia de comportamen- mantiveram 3 meses após a intervenção.
tos violentos.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 124


Sheila Giardini Murta, Bruna Roberta Pereira dos Santos, Camila Perna Santos Martins, Brisa de Oliveira

Tabela 2. Continuação
Table 2. Continuation.

Variáveis
Estudo Conteúdo do programa Resultados
dependentes
Foshee et al. Tratamento: normas sobre Vitimização e per- Adolescentes que participaram do progra-
(2005) violência no namoro, petração de compor- ma reportaram diminuição significativa de
estereótipos de gênero, tamentos violentos, perpetração de violência psicológica, física
Prevenção habilidades de resolução atitude em relação a (moderada) e sexual, quando comparados
Universal de conflito, crença em normas, percepção ao grupo controle em todos os follow-ups.
necessidade de ajuda, ser- de consequências Aqueles que reportaram perpetração de
viços de ajuda e atividades negativas e positi- violência física moderada ou nenhuma o
comunitárias (serviços para vas de violência no fizeram, significantemente, menos ainda
adolescentes em relaciona- namoro, estereotipia nos follow-ups.
mentos abusivos e treina- de gênero, atitude
mento para prestadores de em relação à neces-
serviço). Controle: somente sidade de ajuda,
as atividades comunitárias. conhecimento sobre
serviço para vítimas e
perpetradores, busca
de ajuda, habilidades
de comunicação e
manejo da raiva.

Foshee et al. Tratamento 1: normas Vitimização e per- No follow-up de 3 anos após intervenção,
(2004) sobre violência no namoro, petração de compor- encontraram-se menores taxas de agressão
estereótipos de gênero, tamentos violentos, física, sexual e psicológica no grupo expe-
Prevenção habilidades de resolução atitude em relação a rimental comparadas ao grupo controle.
Universal de conflito, crença em normas, percepção Os que já haviam se envolvido com abuso
necessidade de ajuda, ser- de consequências físico reportaram menos vitimização neste
viços de ajuda e atividades negativas e positi- aspecto. Adolescentes que possuíram esco-
comunitárias (serviços para vas de violência no res altos de perpetração de violência psico-
adolescentes em relaciona- namoro, estereotipia lógica na primeira avaliação (Foshee,1998)
mentos abusivos e treina- de gênero, atitude tiveram escores maiores ainda com a intro-
mento para prestadores em relação à neces- dução do tratamento 2. Pessoas previamen-
de serviço). Tratamento 2 sidade de ajuda, te envolvidas com violência no namoro de
(3 anos após a interven- conhecimento sobre modo intenso relataram mais vitimização
ção): parte das pessoas do serviço para vítimas e sexual e física após o tratamento 2.
tratamento 1 receberam perpetradores, busca
um boletim informativo de ajuda, habilidades
com informações e exer- de comunicação e
cícios sobre estratégias manejo da raiva.
de comunicação efetiva,
sinalizadores de relações
abusivas e dicas para um
namoro saudável. Contro-
le: somente as atividades
comunitárias.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 125


Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

Tabela 2. Continuação
Table 2. Continuation.

Variáveis
Estudo Conteúdo do programa Resultados
dependentes
Foshee et al. Tratamento 1: normas Vitimização e perpetra- No follow-up de 1 mês, o grupo experimen-
(1998); sobre violência no namoro, ção de comportamen- tal reduziu significativamente a perpe-
Foshee et al. estereótipos de gênero, tos violentos, atitude tração de abuso psicológico e a violência
(2000) habilidades de resolução em relação a normas, contra o parceiro atual. Esses participantes
de conflito, crença em percepção de conse- também perceberam menos consequências
Prevenção necessidade de ajuda, ser- quências negativas e positivas no uso da violência, usaram mais
Universal viços de ajuda e atividades positivas de violência habilidades comunicativas e? construtivas e
comunitárias (serviços para no namoro, estereotipia respostas construtivas à raiva, mostraram-
adolescentes em relaciona- de gênero, atitude em se menos propensos a se envolver em es-
mentos abusivos e treina- relação à necessidade tereótipos de gênero, e foram mais cientes
mento para prestadores de de ajuda, conhecimento quanto a serviços para vítimas e perpetu-
serviço). Controle: somente sobre serviço para ví- adores. No follow-up de 1 ano, permanece-
as atividades comunitárias. timas e perpetradores, ram as mudanças em aceitação à violência
busca de ajuda, habili- no namoro, conhecimento sobre serviços,
dades de comunicação percepção de consequências negativas na
e manejo da raiva. escolha pela violência e constatou-se menos
uso de respostas destrutivas a raiva.
Schwartz et Tratamento: papéis de gêne- Conflitos de gênero, O grupo experimental demonstrou re-
al. (2004) ro e seus conflitos, autoatri- crenças sexistas, ma- dução nas crenças sexistas e dificuldades
buição de direitos, manejo nejo da raiva, auto- de demonstrações emocionais e afetivas.
Prevenção de raiva, táticas de resolução confiança e autoatri- Houve aumento na habilidade de manejo
Universal de conflitos, comunicação buição de direitos. de raiva e queda de respostas negativas às
assertiva e identificação e situações de conflito. Houve aumento de
expressão de emoções. Con- autoconfiança e declínio na autoatribuição
trole: tratamento nulo. de direitos.
Wolfe et al. Tratamento: comporta- Experiências passa- Inicialmente, as meninas mostraram maiores
(2003) mento abusivo, relações das de maus-tratos, taxas de perpetração de violência física e emo-
de gênero, resolução de problemas dos pais cional e de vitimização por abuso emocional.
Prevenção conflitos, assertividade e com alcoolismo, No entanto, no pós-teste, elas apresentaram
Seletiva recursos sociais de ajuda. perpetração de abuso um maior declínio nesses comportamentos.
Controle: tratamento nulo. e vitimação, angús- Houve uma redução significativa em abuso
tias emocionais e físico e em todas as formas de vitimização. Jo-
traumas, habilidades vens com altos índices de maus-tratos também
de relacionamento apresentavam altos níveis de vitimização por
saudável. abusos físico e emocional, mas apresentaram
mudanças na vitimização por abuso físico.
Houve redução nos sintomas de traumas e
angústias emocionais. Não houve mudança
significativa nas habilidades de relacionamen-
to saudável e de abuso emocional.
Avery-leaf Tratamento: diferenças de Estratégias usadas Redução global de atitudes que justificam
et al. (1997) gênero, violência, atitudes para resolução de violência no namoro como forma de resol-
sobre uso da violência, conflito, atitude em ver conflito no grupo experimental.
Prevenção habilidades para resolução relação ao uso da
Universal de conflito (comunicação e violência, crenças que
negociação) e fornecimento
justificam a violência
de suporte a vítimas de
agressão. Controle: trata- e o ciúme.
mento nulo.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 126


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Tabela 2. Continuação
Table 2. Continuation.

Variáveis
Estudo Conteúdo do programa Resultados
dependentes
Mcgowan Tratamento: violência na Conhecimento sobre Houve uma diferença significativa entre
(1997) sociedade e nos relacio- relacionamentos o grupo experimental e o controle, nos
namentos, tipos de abuso, violentos, atitude pré e pós-testes. Ocorreram avanços em
Prevenção relacionamentos fortes sobre violência física, conhecimento sobre violência no relaciona-
Universal e fracos, comunicação sexual e emocional, mento e em atitudes sobre a violência não
assertiva, resolução de atitude sobre violên- física. Não houve melhora na atitude sobre
problemas e identificação cia no namoro. violência física e sexual. Quando conside-
de recursos. Controle: lista rado o nível acadêmico, meninos de turmas
de espera. avançadas demonstraram maiores avanços,
enquanto os meninos de turmas regulares
foram os que menos obtiveram ganhos.

Lavoie et Tratamento 1: distinção Conhecimento e ati- Os dois tratamentos geraram mudanças


al. (1995) entre autocontrole, controle tude relacionados à positivas. Os adolescentes de ambos os
sobre os outros e controle violência no namoro. tratamentos tiveram um ganho similar
Prevenção abusivo; gravidade do em atitude. Houve diferença de atitude
Universal problema da violência no entre meninos e meninas antes e depois do
namoro; direito dos pares programa. Meninos e meninas obtiveram
no relacionamento e respei- ganhos equilibrados em atitude no trata-
to entre eles. Tratamento mento 1. No tratamento 2, a evolução das
2: o mesmo do Tratamento meninas foi maior. Os efeitos do programa
1 acrescido de exposição no grupo com maior índice de conhecimen-
de filme sobre violência no to no pré-teste (tratamento 1) foram melho-
namoro e redação de uma res na variável conhecimento em compara-
carta a um agressor ou ção com o grupo de menor conhecimento
vítima. Não houve grupo prévio, mesmo este tendo recebido a maior
controle. intervenção.

Jaffe et al. Tratamento: tipos de abu- Conhecimento sobre No pós-teste, verificou-se mudança signifi-
(1992) so, violência contra mulher violência no namoro cativa no conhecimento, nas atitudes positi-
e no namoro, conhecimen- e contra a mulher, vas e na intenção comportamental.
Prevenção to sobre onde buscar ajuda. vitimização de vio- A maioria desses resultados se manteve no
Universal Não houve grupo controle. lência no namoro ou follow-up. Foram encontradas diferenças de
doméstica, atitude gênero nas respostas à intenção compor-
em relação à agressão tamental e atitudes positivas: as mulheres
à mulher e ao homem apresentaram maior mudança em ambos
no namoro e intenção os casos.
comportamental de
violência no namoro
em situações de risco.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 127


Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

comportamentais (habilidades comunicativas nero) e comportamentais (prática de violência


e práticas violentas). As mudanças identifica- e habilidades sociais) representam um alicer-
das no pós-teste, de modo geral, se mantive- ce promissor para a área (Murray e Graybeal,
ram nas avaliações de follow-up (Foshee et al., 2007). Entretanto, avaliações de necessidades
1998, 2000, 2004, 2005; Jaffe et al., 1992; Jaycox dos participantes e de processo dos programas
et al., 2006; Matos et al., 2006; Taylor et al., 2010). de intervenção foram pouco realizadas nesses
estudos, permanecendo a prática de avaliações
Discussão de pré e pós-teste. Portanto, um aspecto rele-
vante para o desenvolvimento da área seria a
A produção científica sobre programas de expansão da avaliação destes programas, com
prevenção primária à violência no namoro em a inclusão de avaliações para identificação das
adolescentes é ainda escassa, considerando os necessidades e dos recursos dos adolescentes
achados desta revisão. Esses resultados estão (avaliação de necessidades) e o monitoramen-
de acordo com os de revisões prévias, que to da qualidade das intervenções durante sua
também identificaram um pequeno número execução (avaliação de processo).
de publicações: Ting (2009) identificou 13 estu- Avaliações de processo nestes programas
dos e Murray e Graybeal (2007), nove estudos. poderiam lançar luz sobre preditores de seu
Esta baixa produção aliada à sua concentração sucesso ou fracasso. Dos estudos investigados,
na América do Norte, em detrimento de outros três tiveram resultados negativos, em oposição
continentes, sugere a necessidade de expansão à grande maioria dos estudos. Contudo, pouco
dos estudos de implementação e avaliação de se sabe sobre as razões deste insucesso. Chama
programas de prevenção à violência no namo- a atenção o caráter eminentemente informativo
ro. Na América Latina, no período investiga- destes programas, centrados em variáveis cog-
do, foi identificado apenas o trabalho de Pick nitivas, como conhecimento sobre tipos de vio-
et al. (2010), realizado no México. No caso do lência e seus efeitos nas relações. Uma hipótese
Brasil, pode-se supor que uma das razões para é que os programas de conteúdo mais abran-
a negligência a este foco de pesquisa esteja re- gente, que ensinam habilidades relacionais e
lacionada à tolerância da sociedade para com de manejo das emoções e questionam crenças
a violência entre parceiros íntimos e para com sexistas, sejam mais eficazes do que os estrita-
as desigualdades de gênero. Apenas no ano de mente informativos. Tal hipótese se baseia no
2006, foi decretada a Lei Maria da Penha (Lei conhecimento alicerçado na última década so-
nº 11.304; Brasil, 2006), no ano de 2003, foi cria- bre os fatores de risco para a violência no namo-
da a Secretaria de Políticas para as Mulheres ro (Anacona, 2008; Arriaga e Foshee, 2004; Ca-
(Lei nº 10.683; Brasil, 2003) e, em 2009, a Políti- ridade e Machado, 2006; Hickman et al., 2004;
ca de Atenção à Saúde do Homem (Portaria nº DiLillo et al., 2001; Cyr et al., 2006). Tomando-se
1.944; Brasil, 2009). Mesmo os estudos descri- esses conhecimentos como norteadores para o
tivos nesta temática, com amostras brasileiras, planejamento de programas preventivos à vio-
ainda são poucos (Aldrighi, 2004; Antonio et lência íntima juvenil no Brasil, o conteúdo das
al., 2012; Nascimento e Cordeiro, 2011; Olivei- intervenções deve ser o mais amplo possível,
ra et al., 2011) e os estudos de desenvolvimen- abarcando competências que possam minimi-
to de intervenções preventivas foram iniciados zar o impacto dos diferentes tipos de fatores de
apenas recentemente (Murta et al., 2011, 2012, risco, relativos à cultura, à família, aos pares e
2013). Por outro lado, deve ser lembrado que aos déficits em habilidades sociais.
as fontes consultadas nesta revisão foram ex- No que diz respeito às características das
clusivamente artigos científicos. Permanece, intervenções, nota-se o uso de formatos ten-
portanto, a chance de estudos publicados em dendo a intervenções breves (e ainda assim
livros, teses e dissertações não terem sido loca- com bons resultados), em grande parte com
lizados, bem como publicações em periódicos em torno de sete horas de duração, e conteúdos
não indexados nas bases de dados utilizadas. multicomponentes, centrados em três eixos:
Ainda que pequena a produção, apresenta construção de habilidades sociais, de manejo
rigor metodológico, com uso predominante de das emoções e resolução de conflitos; ques-
delineamentos experimentais e quase-expe- tionamento de papéis tradicionais de gênero
rimentais em mais da metade dos estudos, e e informação sobre a violência no namoro. A
follow-up em aproximadamente metade deles. inclusão de habilidades sociais assertivas, de
Esses cuidados somados ao uso de variáveis manejo de raiva e solução de problemas inter-
cognitivas (como crenças sobre papéis de gê- pessoais se encontra alinhada ao recomendado

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 128


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em revisões prévias (Cornelius e Resseguie, ainda não violentos com seus parceiros. Em
2007; Muñoz-Rivas et al., 2011; Ting, 2009), no segundo lugar, o tempo decorrido entre a in-
sentido de capacitar os adolescentes, não ape- tervenção e a avaliação dos resultados pode
nas a reconhecerem relações abusivas, mas a ser relevante, já que Salazar e Cook (2006) re-
manejarem conflitos interpessoais sem agres- alizaram o follow-up três meses após o progra-
são e a fortaleceram a qualidade de seus vín- ma, enquanto Foshee et al. (2000) o fizeram
culos afetivos. um ano após a intervenção, tendo tido então
A grande maioria dos programas descritos mais tempo para observar mudanças decor-
nesta revisão foi realizado em ambiente esco- rentes da intervenção. E, por fim, o conteúdo
lar, o que provavelmente ocorreu devido à fa- da intervenção implementada por Foshee et al.
cilidade de acesso à população adolescente. A (1998, 2000) foi multicomponente, ao passo
inserção dessas intervenções nas escolas brasi- que a intervenção de Salazar e Cook (2006)
leiras pode se configurar como um importante foi informativa, centrada apenas no reconhe-
desafio. Por um lado, vê-se a necessidade de cimento de relações abusivas.
ampliação de equipes de apoio (incluindo o Em linhas gerais, a presente revisão apon-
psicólogo) para uma educação integral nas es- ta resultados consistentes quanto à eficácia
colas e, por outro, tem-se algumas possibilida- dos programas de prevenção à violência no
des já instituídas em escolas públicas, como o namoro, vistos em mudanças positivas em
Programa Saúde na Escola, que também aborda variáveis cognitivas e comportamentais, ava-
temas relacionados à saúde sexual e reprodu- liadas no pós-teste e follow-up, em alguns dos
tiva e poderia incluir ações de prevenção à vio- estudos. Nota-se que esta área de investiga-
lência no namoro. ção vem avançando, tendo em vista que a
A grande maioria dos programas foi do tipo primeira revisão da área, feita por Hickman
prevenção universal, em oposição à prevenção et al. (2004) há quase uma década, constatou
indicada e seletiva, e adotou como foco ape- inconsistência dos resultados dos programas
nas os adolescentes, em contraste com o foco preventivos à violência no namoro e seus
no ambiente (pais e/ou professores e/ou pares) achados foram considerados inconclusivos.
ou foco combinado (adolescente e ambiente). Os resultados ora identificados são encora-
Devido ao baixo número de estudos em cada jadores no sentido de propor o desenvolvi-
categoria, os achados desta revisão não nos mento de programas multicomponentes de
permitem comparar a eficácia de intervenções prevenção à violência no namoro, ainda que
focadas no adolescente e focadas no seu entor- sejam restritos ao adolescente e de curta du-
no, bem como prevenção universal versus indi- ração, para implementação em escolas de en-
cada versus seletiva. Revisões futuras poderão sino médio ou fundamental.
se ocupar dessa tarefa, na medida em que a Embora avanços tenham sido registrados,
produção de programas preventivos à violên- ainda são poucos os estudos de follow-up lon-
cia no namoro sejam ampliados. gos e escassos os que realizam avaliações de
Em relação aos resultados obtidos, em to- necessidades e de processo. Estudos mistos de
dos os estudos, ocorreram ganhos com a in- avaliação, com múltiplos informantes e medi-
tervenção, pelo menos em parte das variáveis das, antes, durante e após a intervenção, ten-
medidas. A variável “emissão de comporta- derão a trazer novas contribuições para a área.
mentos violentos” apresentou resultados con- Essas avaliações mais abrangentes deverão
traditórios, sendo considerada positiva em investigar as variáveis moderadoras e media-
um estudo e negativa em outro. Em um dos doras do sucesso dessas intervenções. Neste
estudos, a taxa de emissão de comportamen- sentido, sugere-se a avaliação das habilidades
tos violentos não modificou (Salazar e Cook, sociais (assertivas, empáticas e de autorregu-
2006) e, em outro, ocorreu redução (Foshee lação da raiva) como possíveis mediadoras
et al., 1998, 2000). Três hipóteses podem ser dos resultados. Essas informações poderão
adotadas para explicar esta diferença: em pri- ser guias valiosos na formação de profissio-
meiro lugar, é possível que intervenções uni- nais que atuam em saúde na adolescência, no
versais (Foshee et al., 1998, 2000) sejam mais desenho de programas preventivos à violên-
eficazes do que a prevenção indicada (Salazar cia pelo parceiro íntimo e danos associados
e Cook, 2006). Neste último estudo, os adoles- (Randle e Graham, 2011) e no fortalecimento
centes já encontravam-se envolvidos em rela- de políticas públicas nas áreas da educação,
cionamentos violentos e, portanto, apresenta- da saúde, de gênero e de direitos humanos no
vam necessidades distintas de adolescentes contexto nacional.

Contextos Clínicos, vol. 6, n. 2, julho-dezembro 2013 129


Prevenção primária à violência no namoro: uma revisão de literatura

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