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METÁFORA E METONIMIA

A tradição de estudos sobre o sentido formou base sólida por sobre a noção de referência estendida à função
referencial da linguagem e expressa por intermédio de proposições linguísticas. A tradição linguística, que no
nascedouro foi comparativista, amadureceu valorizando a referência no sentido proposicional.

Na história dos estudos da metonímia consta, antes de tudo, a visão de que a linguagem corresponde a uma relação
direta entre os objetos e as coisas. Visão que está presente nas abordagens tradicionais acerca da metonímia e dos
processos figurativos, em geral. A substituição de um nome por outro, por exemplo, enquadra-se nas considerações que

defendem a linguagem enquanto um espelho da realidade, como se a significação fosse restrita a uma troca de palavras.

Entretanto, constatou-se que temos um sistema conceptual metafórico e metonímico complexo que está subjacente ao
nosso modo de categorização e que perpassa pelas nossas experiências corpóreas, pela nossa racionalidade imaginativa.
A metonímia afasta-se, portanto, do referencialismo da linguagem para se aproximar do modo como se pensa o

mundo, tendo como base a própria experiência humana. Admite-se, assim, que a metonímia tem base referencial, mas
ela é, sobretudo, de natureza inferencial. Ao se mudar a concepção, muda-se a consideração sobre o objeto: a
linguagem é considerada um processo, e a metonímia, base de pensamento.

Consequentemente, o foco sai da função referencial da linguagem e recai na possibilidade inferencial, demonstrando
que a metonímia é um fato de compreensão/entendimento da linguagem/ cognição humana em seu aspecto
inferencial. Sendo assim, a função referencial da linguagem é suficiente para explicar a metonímia

considerada sob os moldes tradicionais cuja abordagem se limita à relação entre termos

produzindo um quadro taxonômico de tais realizações. No entanto, a relação entre linguagem e referência é insuficiente
para as nuances do processo metonímico em sua rica abrangência.

A metonímia, tão conhecida como “figura de linguagem” ou mais especificamente

“figura de palavra”, dentro da tradição aristotélica de estudos da linguagem, hoje tem

merecido um tratamente menos reducionista à palavra e aos fatores de estilo, usos

especiais da linguagem, para ser encarada como processo cognitivo ou processo de

produção de sentido, que produz efeitos de sentido social e historicamente bem

demarcados, como os acima apresentados.

Segundo Lakoff e Johnson (2004: 92-3):

“Metáfora e metonímia são processos de natureza diferente. A

metáfora é principalmente um modo de conceber uma coisa em

temos de outra, e sua função primordial é a compreensão. A

metonímia, por outro lado, tem principalmente uma função

referencial, isto é, permite-nos usar uma entidade para representar

outra. Mas metonímia não é meramente um recurso referencial. Ela


também tem a função de propiciar o entendimento.”

O que fica bastante firmado, dentro das abordagens mais recentes, é que a

metonímia embasa esquemas representacionais, que se estruturam em linguagem, e que

são altamente dependentes de fatores histórico-culturais. Desse ponto de vista, não pode

analisá-las somente a partir de uma relação de contiguidade entre palavras, já que são

altamente dependentes dos processos de significação que se estruturam na dependência

dos contextos de que participam. Ao mesmo tempo, a substituição que provocam, no nível

do significante, não são casuais. Para muitos autores, trata-se de uma relação prototípica,

pois o falante identifica determinado elemento como mais representativo, em detrimento

de outro, como o teto, no caso da casa, ou o chão, no caso da propriedade rural. Mas

nem sempre esses esquemas prototípicos são obedecidos e nem por isso a significação

deixa de se efetivar. Brandão (1989:83) afirma mesmo que “a possibilidade praticamente

infinita de se encontrar um termo que englobe outros dois torna o processo metonímico

um recurso extremamente produtivo de significação”.

Os processos de significação promovidos pela metonímia possuem a força do

específico, do particular, provocando no leitor\ouvinte um olhar para a materialidade, para

o imediato. A metonímia seleciona o específico como modo de olhar e isso quase nunca

passa por escolhas pessoais e sim culturais, sociais. Nesses momentos em que o homem

se localiza a partir do específico, do particular, ele alicerça na realidade objetiva a sua

referencialidade.

Desse ponto de vista, a metonímia é aqui percebida como uma construção de

realidade, um modo de representação em linguagem, que nem sempre passa pelo

consciente, mas que estrutura olhares e sujeitos, a partir da linguagem que os instauram

como tais. Afinal, os indivíduos se constituem em sujeitos porque participam de processos

simbólicos, que se fazem em linguagem.

Estamos entendendo, portanto, que os processos de significação, ao mesmo

tempo que estruturam realidades, são por elas estruturados. Assim, as metonímias não

são consideradas como mecanismos de manipulação do código operados por indivíduos

autônomos e totalmente conscientes, tendo a linguagem como mero instrumento de


comunicação. Se entendemos que os sujeitos são constituídos em linguagem, que vivem

nela e por ela, eles não são autônomos em relação aos processos de significação, pois

estes estão inseridos dentro da cultura. Portanto, tal como outros processos de

significação, as metonímias estrururam-se a partir de concepções de realidade histórica e

socialmente articuladas e podem ser identificadas a partir de formações discursivas

específicas.

Portanto, quando utilizamos metonímias estamos a articular a linguagem, dentro

das possibilidades previstas pelo código, mas cabíveis dentro da história e conforme às

condições socias de uso da linguagem. Assim se articulam os processos de produção de

sentido em linguagem, pois estruturam-se a partir de sujeitos historicamente

determinados em função de um momento histórico específico, mas dentro das

possibilidades que o sistema lingüístico oferece. Os indivíduos são porém responsáveis

por provocar determinados efeitos de sentido pouco previstos ou inusitados, ainda que

possíveis. Desse modo, constituem-se em suporte para os processos de significação.


METÁFORA E METONIMIA

Transcorridos mais de trinta anos do trabalho seminal realizado por Lakoff e

Johnson (1980) sobre metáfora conceptual, estudo que teve um grande impacto na

linguística cognitiva, tem tornado-se cada vez mais aparente a importância do processo

metonímico como fenômeno cognitivo que subjaz nosso pensamento ordinário e que é

considerado por muitos autores como sendo mais básico que o processo metafórico.

Porém, mesmo com o aumento significativo de estudos dedicados à metonímia, a

metáfora ainda encontra-se no centro dos estudos voltados à produção de sentido. Como

advoga Al-Sharafi (2004) os estudos metonímicos apresentam dois tipos de

reducionismos: o teórico, já que sua natureza é reduzida a mera substituição,

negligenciando suas dimensões cognitivas e pragmáticas; e o prático, que a reduz ao

nível da substituição lexical, negligenciando seu potencial ao nível do texto.

De acordo com Al-Sharafi (2004) a falta de interesse, por parte dos filósofos e

retóricos, no estudo da metonímia na retórica ocidental decorre do fato de que, como

eles estavam voltados para o uso poético da linguagem, consideravam a metáfora como

processo primário para o domínio figurativo e negligenciavam a metonímia, já que esta

não envolvia simbolismo e unidade dupla de significação. Diante disso, a metáfora

passou a ser colocada no centro dos estudos, deixando a metonímia à margem. Por outro

lado, de acordo com o autor, quando havia alguma discussão sobre a metonímia essa era

fragmentada e limitada.

A metonímia foi tratada dessa forma até 1950, quando Jakobson promoveu um

estudo no qual metáfora e metonímia são abordadas como duas figuras distintas,

baseadas em diferentes tipos de relações. De acordo com o autor, o discurso se