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RECURSO ADMINISTRATIVO

Trata-se do disciplinamento do recurso administrativo no âmbito


federal o qual se encontra disposto nos arts. 56 a 65 da Lei n.
9784/99.

Todas as decisões administrativas estão sujeitas a


questionamento por parte dos interessados, o chamado recurso
administrativo, que pode tratar de questões de legalidade e de
mérito da decisão administrativa.

Esse regramento fixa a forma e a tramitação do recurso


administrativo.

A Lei n. 9784/99 regula o processo no âmbito da administração


pública federal.

Apesar do disciplinamento legal, o que se verifica na prática é


que a própria Administração Pública, os administrados e muitos
profissionais atuantes na área não dão a importância que a
norma legal apresenta e terminam por dar causa a nulidades em
processos administrativos.

Com isso, uma decisão administrativa pode acabar por ser anulada,
ainda que tenha sido tomada de forma correta e motivada.

Aqui pretendemos sistematizar as regras do recurso no processo


administrativo federal, visando contribuir ao bom andamento das
atividades da UNIFESP.

Trataremos especialmente no que diz respeito a seus fundamentos,


legitimidade, requisitos, autoridade a quem deve ser dirigido, prazo
para a interposição, para as contrarrazões, para a reconsideração e
para a decisão, efeitos em que é recebido e admissibilidade.
Antes da abordagem desses tópicos é importante ressaltar que há
outras leis que trazem recursos administrativos e que tais leis
apresentam aplicabilidade nos processos administrativos a que se
referem. Assim, as regras relativas ao recurso administrativo
previstas na Lei 9784/99, objeto do presente estudo, têm aplicação
residual, ou seja, aplicam-se apenas quando não haja
disciplinamento legal específico para o recurso administrativo em
questão.

Os fundamentos do recurso administrativo

O fundamento principal do recurso administrativo é de índole


constitucional e repousa em dois incisos do artigo 5º da Carta
Constitucional: o inciso XXXIV e o inciso LV do artigo 5º, da
Constituição Federal de 1988. Referidos dispositivos apresentam a
seguinte redação:

“Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e
à propriedade, nos termos seguintes:(…)

XXXIV – são a todos assegurados, independentemente do


pagamento de taxas:

a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos


ou contra ilegalidades ou abuso de poder;(…)

LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos


acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes.”

Este último dispositivo garante o contraditório e a ampla defesa


inclusive no processo administrativo e o recurso tem exatamente este
mister.

José dos Santos Carvalho Filho escreve que:

“O texto deixa claro que o princípio da ampla defesa não estará


completo se não se garantir ao interessado o direito de interposição
de recursos. Com efeito, hipóteses de arbitrariedades e condutas
abusivas por parte de maus administradores devem ser corrigidas
pelos agentes superiores, e para que o interessado leve sua
pretensão a estes certamente se socorrerá do instituto recursal.
Cercear o recurso, portanto, é desnaturar indevidamente o
fundamento pertinente ao próprio direito de defesa”[1].

Já o artigo 5º, inciso XXXIV, a, da Constituição Federal de 1988,


prevê o direito de petição e o recurso é uma faceta deste direito.

Acerca do direito de petição, Maria Sylvia Zanella Di Pietro aduz o


seguinte:

“O direito de petição (right of petition) teve origem na Inglaterra,


durante a Idade Média. Ele serve de fundamento a pretensões
dirigidas a qualquer dos Poderes do Estado, por pessoa física ou
jurídica, brasileira ou estrangeira, na defesa de direitos individuais ou
interesses coletivos”[2].

Quanto ao direito de petição como fundamento do recurso


administrativo José dos Santos Carvalho Filho escreve:

“Também é fundamento dos recursos administrativos o direito de


petição, previsto no art. 5º, XXXIV, “a”, da CF. Quando o examinamos
neste mesmo capítulo, destacamos ser o direito de petição um dos
meios de controle administrativo. Aqui é propícia a extensão do
sentido em ordem a ser esse direito considerado como fundamento
dos recursos, porque os recursos não são senão um meio de
postulação formulado normalmente a um órgão administrativo
superior. Ora, a noção que encerra o direito de petição é ampla e
logicamente abrange também os pedidos revisionais, como são os
recursos administrativos. Podemos, assim, concluir que os recursos
são uma forma de exercer o direito de petição, não podendo os
indivíduos, em consequência, encontrar óbices para sua
interposição”[3].

Também é fundamento do recurso administrativo, este de ordem


lógica, a hierarquia existente na estrutura administrativa que
possibilita ao administrado insurgir-se contra a decisão de uma
autoridade administrativa dirigindo um recurso a seu superior
hierárquico.
Vistas do processo administrativo

Respeitando-se os direitos de intimidade dos envolvidos, as


deliberações administrativas têm caráter público e devem ser
publicizadas e acessíveis.
A Lei do Recurso Administrativo dispõe que os interessados têm o
direito a ter vista dos autos, obter cópias de documentos neles
contidos e conhecer as decisões proferidas (art. 3º., inciso II, Lei
9784/1999). Já a Lei de Acesso à Informação fixa que o órgão ou
entidade pública deverá autorizar ou conceder o acesso imediato à
informação disponível. Permitindo-se a consulta, realização de
cópias ou obtenção de certidões (artigo 11 § 1o I, da Lei 12527/11).
Portanto, as pessoas interessadas na decisão administrativa,
(ver tópico abaixo, as mesmas legitimadas para interpor
recursos), terão direito a vista dos autos. Poderão inclusive
fotografar suas folhas, solicitar cópias - que deverão ser
disponibilizadas pelo setor, mediante pagamento das mesmas
via GRU - ou mesmo solicitar certidões a respeito do processo.

A legitimidade para a interposição do recurso administrativo

O artigo 58 da Lei n. 9784/99 afirma que têm legitimidade para


interpor recurso administrativo:

- os titulares de direitos e interesses que forem parte no processo;

- aqueles cujos direitos ou interesses forem indiretamente afetados


pela decisão recorrida;

- as organizações e associações representativas, no tocante a


direitos e interesses coletivos;

- os cidadãos ou associações, quanto a direitos ou interesses difusos.

Assim, para interpor recurso administrativo o administrado


lesado relativamente a interesses individuais deve ostentar a
condição de interessado seja porque é parte no processo ou
porque seus interesses serão indiretamente afetados pela
decisão.
Os requisitos para a interposição do recurso administrativo

São requisitos para a interposição do recurso administrativo:

- Formalização mediante requerimento escrito e protocolado, no qual


o recorrente deverá expor os fundamentos do pedido de reexame,
podendo juntar os documentos que julgar conveniente (art. 60, Lei
9784/99);

- Interposição do recurso perante a autoridade que seja competente


para apreciá-lo;

- Apresentar legitimidade para a interposição do recurso;

- Correto endereçamento do recurso (art. 56, § 1º, da Lei n. 9784/99);

- Protocolização no prazo legalmente estabelecido - dez dias


contados a partir da ciência ou divulgação oficial da decisão
recorrida, salvo regramento específico da Universidade que poderá
fixar outro prazo. (art. 59, caput, da Lei n. 9784/99);

- É dispensável a representação por advogado.

A autoridade a quem deve ser dirigido o recurso administrativo

Conforme o disposto no artigo 56, § 1º, da Lei n. 9784/99, o recurso


administrativo deve ser dirigido à autoridade que proferiu a decisão,
a qual, deve analisá-lo e apresentar nova decisão, mantendo a
anterior por seus próprios fundamentos ou reconsiderando a primeira
decisão de forma motivada.

Mantida a primeira decisão, a autoridade deverá encaminhar o


processo para análise da autoridade superior (conforme previsão nos
regimentos internos da Universidade.
Dos prazos para a interposição, para as contrarrazões, para a
reconsideração e para a decisão do recurso administrativo

A Lei n. 9784/99 afirma em seu art. 59 que, salvo disposição legal


específica, é de 10 (dez) dias o prazo para a interposição de recurso
administrativo, contado a partir da ciência ou divulgação oficial da
decisão recorrida.

Interposto o recurso, o órgão competente para dele conhecer deverá


intimar os demais interessados para que, no prazo de 5 (cinco) dias
úteis, apresentem alegações (art. 62, Lei 9784/99).

A Lei n. 9784/99, em seu artigo 56, § 1º, prevê a possibilidade de


reconsideração da decisão pela autoridade que proferiu a decisão.
Esta reconsideração poderá ser feita no prazo de 5 (cinco) dias e, em
não sendo feita, o recurso será encaminhado à autoridade superior.

O prazo para que a Administração Pública decida o recurso


administrativo, quando a lei não fixar prazo diferente, é de 30 (trinta)
dias, a partir do recebimento dos autos pelo órgão competente.
Entretanto, tal prazo poderá ser prorrogado por igual período ante
justificativa explícita (art. 59, §§ 1º e 2º).

Os efeitos em que o recurso administrativo é recebido

O artigo 61 da Lei n. 9784/99 estabelece que, salvo disposição de lei


em contrário, o recurso não tem efeito suspensivo, entretanto,
havendo justo receio de prejuízo de difícil ou incerta reparação
decorrente da execução, a autoridade recorrida ou a imediatamente
superior poderá, de ofício ou a pedido, dar efeito suspensivo ao
recurso.

Assim, enquanto o recurso é analisado, permanece a decisão


antes tomada, exceto quanto a autoridade recorrida e também a
autoridade imediatamente superior, que apreciará o recurso,
entenderem mais seguro suspender os efeitos da decisão
questionada até a decisão final do recurso.
A admissibilidade do recurso administrativo

De acordo com o artigo 63 da Lei n. 9784/99, o recurso administrativo


não será admitido quando:

- interposto fora do do prazo (recurso intempestivo):

se o interessado protocolar o recurso após os dez dias do


conhecimento da decisão questionada;

- interposto por quem não seja legitimado:

pessoa sem interesse na decisão questionada não pode recorrer e,


se o fizer, não terá seu recurso analisado;

- após exaurida a esfera administrativa:

tendo o recurso sido analisado pela autoridade que proferiu a decisão


e também pela autoridade imediatamente superior, a decisão
proferida por esta última torna-se definitiva, não cabendo mais
recurso, exceto quando houver regra específica permitindo análise
de outro órgão ou autoridade máxima.

- dirigido à autoridade que proferiu a decisão:

Quando o de recurso for apresentado perante autoridade


administrativa incompetente, será indicada ao recorrente a
autoridade que tenha competência para tanto, sendo devolvido o
prazo para recorrer (art. 63, § 1º, Lei n. 9784/99).

Assim, antes de ter seu mérito apreciado, o recurso tem que


passar pelo crivo da admissibilidade devendo, para ser
conhecido, a contrário sensu do que disposto no art. 63 da Lei
n. 9784/99, ser tempestivo, ser apresentado perante a autoridade
competente, ser interposto por quem tenha legitimidade e não
pode ser interposto se já exaurida a esfera administrativa.

Cabe aqui observar que mesmo não sendo conhecido o recurso,


nada impede que a Administração percebendo que efetivamente
cometeu um erro, reforme a decisão. Assim, se o ato é ilegal, a
Administração Pública deve revê-lo de ofício, independentemente de
alegação em recurso e ainda que o recurso administrativo não seja
admissível.
Conclusões

O recurso administrativo no âmbito do processo administrativo


federal regulado pela Lei n. 9784/99 é importante meio de controle
das decisões administrativas e quando manejado corretamente é
relevante instrumento preventivo, pois pode em muitos casos evitar
demandas judiciais, as quais na prática costumam ser mais
dispendiosas e demoradas que os trâmites administrativos.

Ademais a lei garante ao administrado o direito de reanálise da


decisão proferida pela administração pública, direito este que
independe de pagamento de taxas e dispensa a interposição e
acompanhamento por advogado, já que o próprio administrado pode
fazê-lo, o que representa grande vantagem e demonstra a
acessibilidade desse tipo de impugnação.