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Guia Prático da

Língua Portuguesa
Patrícia Martins
Origem e Conceito de Literatura
Escolas Literárias e Autores:
da Idade Média ao Modernismo
Trechos e Análises de Obras
pedidas nos Vestibulares
Questões de Vestibulares
Teresinha de Oliveira Ledo
Formação da Literatura Brasileira:
das Origens à Época Contemporânea
Trechos e Análises de Obras
pedidas nos Vestibulares
Questões de Vestibulares
Editor
Raul Maia
Produção Editorial
Departamento Editorial DCL
Produção Gráfica
Nelson Pastor
Capa
Antonio Briano
Diagramação
Thiago Nieri
Revisão
Caio Alexandre Bezarias
Sumaya de Souza Lima
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Ledo, Teresinha de Oliveira
Manual de literatura : literatura portuguesa,
literatura brasileira / Teresinha de Oliveira
Ledo, Patrícia Martins. -- São Paulo : DCL,
2001. -- (Guia prático da língua portuguesa)
Bibliografia.
ISBN 85-7338-428-X
1. Literatura brasileira 2. Literatura
portuguesa I. Martins, Patrícia. II. Título.
III. Série

CDD-869.9
01-0290 -869.87
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura brasileira 869.9
2. Literatura portuguesa 869.87
Proibida reprodução total ou parcial
Direitos exclusivos desta publicação:
© Difusão Cultural do Livro Ltda.
Rua Manoel Pinto de Carvalho, 80
CEP: 02712-120 – São Paulo – Brasil
dcl@editoradcl.com.br
Introdução

No mundo atual, escrever é sempre im- estudo das obras literárias, mas também com-
portante, necessário e freqüente. Mostrar que preender e avaliar a evolução da nossa pró-
você sabe comunicar-se (bem), usando a es- pria língua e as diferentes estéticas que dela se
crita, é um dos fundamentos da capacidade de apossaram para, ou permitir a manutenção das
ser e realizar, da cidadania e da competência. normas sociais vigentes, ou sutilmente relatar
A tão propalada era do computador que, muitos suas agruras ou, mais freqüentemente rebater
afirmavam, iria diminuir drasticamente a ne- e revolucionar essas normas a partir da escri-
cessidade de papel e de escrever, fez o inver- ta. Houve e há diferentes “estratégias” de ex-
so: nunca tanta informação e conhecimento pressão da língua, que enriqueceram e inseri-
circularam entre tantas pessoas e de modo tão ram essa cultura literária no contexto mundial,
rápido, nunca as pessoas se comunicaram desde os primórdios da literatura portuguesa
tanto (via e-mails, chats, impressos etc), fa- até finalmente chegarmos a uma literatura de
zendo com que todos escrevamos mais e mais. caráter efetivamente brasileiro.
Apesar de tantas inovações trazidas pela Foi pensando em levar ao seu conheci-
era da modernidade, algo certamente perma- mento toda a trajetória de nossos principais
nece incólume nos dias atuais: a relevância da autores e obras de língua portuguesa que ela-
tradição literária em língua portuguesa. A partir boramos esse prático e indispensável Manual
de dois países, Portugal e Brasil, unificados de Literatura, para auxiliá-lo na análise e com-
pela expansão marítima e econômica iniciada preensão do contexto em que se manifestaram
no século XV, edificou-se uma gama forte e os principais movimentos e escolas literárias,
admirável de obras que revelaram, literaria- no Brasil e em Portugal, e quais suas contribui-
mente, os costumes, as angústias, as con- ções e influências na literatura do século XX.
quistas e derrotas de conjuntos sociais que Através de uma visão concisa, mas sólida e
igualmente ascenderam e decaíram ao longo bem fundamentada, este guia vai ajudá-lo a
da história. enfrentar as questões de vestibulares das prin-
É certo que não apenas esse descompro- cipais faculdades e universidades do país.
missado caráter documental torna relevante o Aproveite o estudo e boa sorte!
Índice

LITERATURA PORTUGUESA Arcadismo ................................... 43


Resumo do Arcadismo .......... 50
Introdução ..................................... 1
Romantismo ................................. 51
Panorama da Literatura
Primeira Geração ................... 52
Portuguesa .................................... 2
Segunda Geração ................. 60
O que é Literatura? ...................... 3
Terceira Geração .................. 63
Onde se iniciou a Literatura? ....... 6
Resumo do Romantismo ........ 65
Antigüidade Clássica ............... 6
Realismo ...................................... 66
A Ilíada e a Odisséia ............. 6
Resumo do Realismo-
Principais autores .................... 8 Naturalismo ............................ 84
Idade Média ................................. 10 Simbolismo .................................. 85
As cantigas ............................ 10 Resumo do Simbolismo .......... 94
Novelas de cavalaria ............. 14 Modernismo ................................. 95
Resumo do Trovadorismo ..... 18 Primeira Geração
Humanismo .................................. 19 (1915-1927) ........................... 96
A poesia palaciana ................ 21 Segunda Geração
(1927-1940) ......................... 109
O teatro popular .................... 21
Terceira Geração
Resumo do Humanismo ......... 26 (1940 até os dias atuais) ..... 111
Renascimento ............................. 27 Resumo do Modernismo ...... 115
Resumo do Renascimento .... 34 A Narrativa do Pós-Guerra ...... 116
Barroco ....................................... 35 A Poesia do Pós-Guerra .......... 122
A estética barroca ................ 35 Questões de vestibulares ........ 123
Resumo do Barroco .............. 42 Respostas ................................. 158
LITERATURA BRASILEIRA Resumo do Realismo-
Naturalismo .......................... 239
Introdução ................................. 160
Parnasianismo ........................... 241
Quinhentismo ............................ 161 Resumo do Parnasianismo .. 248
Literatura Informativa .......... 161 Simbolismo ................................ 249
A literatura jesuítica ............. 165 Resumo do Simbolismo ........ 253
Influências posteriores da Pré-Modernismo ........................ 254
literatura informativa ............ 167 Resumo do Pré-
Resumo do Quinhentismo ... 168 Modernismo .......................... 253
Barroco ..................................... 169 Modernismo ............................... 259
Poesia .................................. 170 Antecedentes e a Semana de
Arte Moderna ....................... 259
Prosa .................................... 174
Conseqüências da Semana de
As Academias ..................... 177
Arte Moderna ....................... 260
Resumo do Barroco ............ 178
Primeira Geração do Modernismo
Arcadismo ................................. 179 (1922-1930) ......................... 261
Resumo do Arcadismo ........ 192 Segunda Geração do Modernismo
Romantismo ............................... 193 (1930-1945) ......................... 267
Terceira Geração do Modernismo
Poesia .................................. 194
(1945 até a atualidade) ......... 279
Primeira Fase:
Nacionalista ou Resumo do Modernismo ...... 291
Indianista ......................... 195 Tendências Contemporâneas
Segunda Fase: (1960 até a atualidade) ............ 292
O Mal-do-Século ou Poesia .................................. 292
Geração Byroniana ........ 199 Prosa .................................... 294
Terceira Fase: Leituras Obrigatórias
Condoreira ...................... 211 (Literatura Brasileira) da
Prosa .................................... 214 UNICAMP 2001-2002-2003 ....... 295
Teatro ................................... 225 Questões de Vestibulares ....... 314
Resumo do Romantismo ...... 225 Respostas ................................. 344
Realismo-Naturalismo ............... 226 Bibliografia ................................ 345
— 1 —

LITERATURA PORTUGUESA

Introdução
A pesquisa realizada sobre Litera- as obras épicas de Homero – a Ilíada e
tura Portuguesa tem como primordial a Odisséia, de origem grega, que servi-
objetivo retratar as estéticas que existi- ram de incentivo a autores portugueses
ram durante um longo período de gran- importantíssimos como é o caso de Ca-
des transformações por todo o mundo e, mões, com sua obra Os Lusíadas, e
em especial, em Portugal. Fernando Pessoa, com Mensagem. Am-
Por todo o livro, poderão ser cons- bas as obras possuem traços idênticos
tatados os principais fatos históricos so- às duas obras citadas de Homero.
fridos pelos estilos literários e suas de- Outros autores sofreram influên-
terminadas conseqüências para a ela- cias de obras francesas e americanas;
boração das mais belas obras portu- nossos saudosos artistas portugueses,
guesas. no entanto, enriqueceram obras que vi-
Esta viagem por todo o universo li- eram a surgir depois destes – refiro-
terário português poderá ser abarcada me à Literatura Brasileira.
por alunos do ensino médio, vestibulan- É claro que muitos estudiosos e
dos e por estudantes de nível superior. professores acreditarão que trabalhar
Preocupei-me, em primeiro plano, somente com esta obra será incompleto
em explicitar o que é Literatura, e citar devido à complexidade do tema, mas
os primeiros registros encontrados no poderá servir de base a estudos mais
mundo a respeito do que viria posterior- aprofundados.
mente a se tornar essencial à vida de Para moldar este livro, dispus-me a
estudantes e literatos. pesquisar literatos importantes de nos-
Segundo Van Loon, a Literatura “é sa história: baseei-me em Salvatore
universal, mas não está ligada em par- D’Onofrio, Massaud Moisés e José An-
ticular a este ou àquele país ou período tônio Saraiva.
histórico. É de fato tão antiga quanto a Por fim, agrupei certas questões
raça humana e é inerente ao homem, apresentadas por faculdades e univer-
como são parte dele os olhos ou os sidades em seus vestibulares e proces-
ouvidos, a fome e a sede”. sos seletivos para fixar os estudos e
Como marco inicial à Literatura Por- preparar estudantes para uma nova eta-
tuguesa, tomei como ponto de partida pa de suas vidas – o ensino superior.
Panorama da Literatura Portuguesa

Trovadorismo Humanismo Classicismo Barroco Arcadismo Romantismo Realismo Simbolismo Modernismo

Século XI XV XVI XVII XVIII XIX XIX XIX XX

Era Medieval Era Clássica Era Romântica Era Contemporânea

Teocentrismo Rev. Francesa


— 2 —

Feudalismo Antropocentrismo Contra- Iluminismo Positivismo Psicologia Neo-Realismo


Reforma
— 3 —

O que é Literatura?
A Literatura teve sua origem mais Então, o autor cria ficção, ao fugir
ou menos paralela ao surgimento da da realidade, mas não da contextuali-
escrita, há milhares de anos atrás, cria- dade. Em sua obra literária, são encon-
da pelo homem com o objetivo de con- trados os elementos essenciais – con-
servar a sua história através de epopéi- teúdo, que é a mensagem da obra, as
as e lendas, e controlar a natureza, cri- idéias que o autor quer transmitir; e for-
ando-se os mitos e religiões. ma que é como o autor empregou a pala-
vra para elaborar seu texto.
Em recentes pesquisas de estudio-
sos e historiadores, descobriu-se que a Diante destas colocações, é neces-
Literatura é anterior à escrita. Certas len- sário ressaltar que a Literatura se cons-
das e canções eram feitas oralmente e, titui de três gêneros literários, neste ca-
neste caso, não existia um autor espe- pítulo brevemente definidos, mas sem-
cífico – a literatura era oral, anônima e pre retomados ao longo deste trabalho.
coletiva. Somente com o surgimento da
• Gênero lírico – trata-se de uma re-
escrita é que a Literatura tomou forma e
velação subjetiva de uma exposição
ganhou a figura do autor.
dos sentimentos humanos, como a
Literatura nada mais é do que uma alegria, a tristeza, o amor, a inquieta-
combinação de palavras com uma inten- ção, a fatalidade etc. Este gênero
ção estética, cujos gêneros podem ser apresenta-se em versos.
classificados em epopéia, poema e teatro. Exemplo de um texto lírico:
Ao combinarem-se as palavras, al-
cança-se novos significados (metáfo-
Motivo
ras), sobre os quais o escritor acaba Eu canto porque o instante existe
criando sua própria realidade através E a minha vida está completa
da imaginação. Portanto, dizemos que
a Literatura é invenção, e o autor culti- Não sou alegre nem sou triste:
va essa realidade imaginária através Sou poeta.
de situações básicas da vida, sua vi-
são do mundo, seu talento e sua sensi- Irmão das coisas fugidias.
bilidade. Não sinto gozo nem tormento.
É pelo contentamento (ou não) com Atravesso noites e dias
realidade que o autor procura descre- No vento.
ver a vida através de uma linguagem
pessoal, porém se preocupando com a Se desmorono ou se edifico,
compreensão do leitor. Se permaneço ou me desfaço,
— 4 —

– não sei, não sei. Não sei se fico digo. Confiança – o senhor sabe – não
ou passo. se tira das coisas feitas ou perfeitas:
ela rodeia é o quente da pessoa. E
Sei que canto. E a canção é tudo. despaireci meu espírito de ir procurar
Otalícia, pedir em casamento, mandado
Tem sangue eterno e asa ritmada.
de virtude. Fui logo, depois de ser cin-
E um dia sei que estarei mudo: za. Ah, a algum, isto é que é, a gente
– mais nada. tem de vassalar. Olhe: Deus como es-
MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. 3ª. ed. Rio de condido, e o diabo sai por toda parte
Janeiro: Ed. Do Autor, 1963, p. 7. lambendo o prato... Mas eu gostava de
Diadorim para poder saber que estes
• Gênero épico – trata do mundo ex- gerais são formosos.
terior e das relações do homem com ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 8ª ed.
este mundo. Este gênero é mais ob- Rio de Janeiro: J. Olimpio, 1972, p. 45.
jetivo e há a predominância de um
narrador que conta um fato, num am- • Gênero dramático – trata-se do gê-
biente dotado de elementos como: nero em que os personagens falam di-
tempo, espaço, personagem e ação. retamente, expondo seus dramas e con-
O personagem, na sua totalidade, é flitos. O texto dramático é feito para a
um herói que exemplifica todo o he- encenação teatral, ou seja, é represen-
roismo e qualidades de um povo. tado por atores, que encarnam os per-
sonagens.
Exemplo de um texto épico:
Exemplo de um texto dramático:
Grande sertão: veredas
(fragmento) A Ceia dos Cardeais
Esbandalhados nós estávamos, (fragmento)
escatimados naquela esfrega. Esmo-
recidos é que não. Nenhum se lastima- Cardeal Rufo, acercando-se também
va, filhos do dia, acho mesmo que nin- do Cardeal Gonzaga
guém se dizia dar por assim. Jagunço é Em que pensa, cardeal?
isso. Jagunço não se escabreia como
perda nem derrota – quase que tudo Cardeal Gonzaga, como quem
para ele é o igual. Nunca vi. Para ele a acorda, os olhos cheios de brilho, a
vida já está assentada: comer, beber, expressão transfigurada
apreciar mulher, brigar, e o fim final. E Em como é diferente o amor de Por-
todo mundo não presume assim? Fa- tugal!
zendeiro, também? Querem é trovão em
outubro e a tulha cheia de arroz. Tudo Nem a frase sutil, nem o duelo san-
que eu mesmo, do que mal houve, me grento...
esquecia. Tornava a ter fé na clareza É o amor coração, é o amor senti-
de Medeiro Vaz, não desfazia mais nele, mento.
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Uma lágrima... Um beijo... Uns sinos Se amei! Se amei — Eu tinha uns


a tocar... quinze anos, apenas.
Um parzinho que ajoelha e que se Ela, treze. Um amor de crianças pe-
vai casar. quenas,
Tão simples tudo! Amor, que de ro- Pombas brancas revoando ao abrir
sas se inflora: da manhã...
Em sendo triste canta, em sendo Era minha priminha. Era quase uma
alegre chora! irmã.
O amor simplicidade, o amor delica-
Bonita não seria... Ah, não... Tal-
deza...
vez não fôsse.
Ai, como sabe amar, a gente portu-
guêsa! Mas que profundo olhar e que ex-
pressão tão doce!
Tecer de Sol um beijo, e, desde ten-
ra idade, Chamava-lhe eu, a rir, a minha mu-
lherzinha...
Ir nesse beijo unindo o amor com a
amizade, Nós brincávamos tanto! Eu senti-a
Numa ternura casta e numa esti- tão minha!
ma sã, Tôda a gente dizia em pleno po-
Sem saber distinguir entre a noiva voado:
e a irmã... “Não há noiva melhor para o se-
Fazer vibrar o amor em cordas mis- nhor morgado,
teriosas Nem em capela antiga há santa
Como se em comunhão se enten- mais santinha...”
dessem as rosas, E eu rezava, baixinho: “É minha! É
Como se todo o amor fôsse um amor minha! É minha!”
somente... Quanta vez, quanta vez, cansados
Ai, como é diferente! Ai, como é di- de brincar,
ferente!
Ficávamos a olhar um para o outro,
Cardeal Rufo a olhar,
Também Vossa Eminência amou? Todos cheios de Sol, ofegantes
Cardeal Gonzaga ainda...
Também! Também! Numa grande expressão de dor:
Pode-se lá viver sem ter amado Era feia, talvez, mas Deus achou-a
alguém! linda...
Sem sentir dentro d’alma — ah, po- E, uma noite, a minha alma, a minha
dê-la sentir! —
luz, morreu!
Uma saudade em flor, a chorar e BRANDÃO, Raul. A Ceia dos Cardeais, 40ª ed. Lisboa:
a rir! Liv. Clássica Editora, 1950, pp.41-45.
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Onde se iniciou a Literatura?


A Literatura Portuguesa teve seu No princípio, a literatura narrava os
início durante a Idade Média, porém, é feitos de personagens heróicos – suas
primordial salientar a importância das li- derrotas e vitórias. Este gênero ficou co-
teraturas grega e latina, pois foi através nhecido como gênero épico. Posterior-
delas que muitos autores portugueses mente, deu-se lugar aos deuses para
se engajaram no caminho literário e se protagonizarem histórias de amor e ciúme;
fixaram na história das artes. ganharam aspecto humano e passaram a
Em Os Lusíadas, de Luís de Camões, sentir e agir como mortais; e configurou-
observamos a grandiosidade dos feitos se o gênero lírico. E, por fim, surgiu o teatro
e a exaltação do herói, que desbrava com o objetivo fundamental de emocionar
aventuras mágicas e percorre caminhos o público através dos aspectos cômicos e
de vida ou de morte. Tal como o astucioso trágicos – o gênero dramático.
Ulisses e o bravo Aquiles enaltecidos por
Homero, ou do nobre Enéas de Virgílio,

A Ilíada e
Vasco da Gama ora enfrentará a fúria de
deuses e outros seres fantásticos, ora
por outros será protegido e mantido aler-
ta sobre os perigos que estão por vir. a Odisséia
Todos são, por fim, figuras imaginárias
que servem de modelo ao homem, seja
ele antigo ou medieval. Estas duas obras representam os
dois maiores modelos de epopéia e têm
Interessante conhecermos algumas
como principais características a narra-
manisfestações literárias da Grécia An-
tiva em grandes dimensões, que retrata
tiga e, em seguida, entraremos no per-
o tema de modo heróico, na maioria das
curso da Literatura Portuguesa.
vezes, sobrecarregando-o de elemen-
tos fantásticos e sobrenaturais.

Antigüidade A presença do mito tem papel fun-


damental, pois, este irá mostrar outra
Clássica forma de ver o mundo e estreitar a dis-
tância entre o humano e o divino.
Teve seu inicio no século IX a.C., Suas narrativas focalizam episó-
com o surgimento, na Grécia, das pri- dios ocorridos durante a guerra de gre-
meiras manifestações da arte literária, gos e troianos e têm, como persona-
através das obras Ilíada e Odisséia, de gens principais, os heróis lendários Aqui-
Homero, e estendeu-se até o final do les e Ulisses, cruéis e sanguinários, po-
século V d.C. rém justos e generosos.
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Ilíada e Odisséia mão de París e filho do rei Príamo. Pátro-


clo, o mais próximo amigo de Aquiles,
Os acontecimentos da Ilíada e da
vai lutar no exército para ajudar os gre-
Odisséia se passam durante e depois
gos, mas é morto por Heitor, Aquiles
da Guerra de Tróia, guerra esta ocorrida
retorna à guerra em busca de vingança,
entre a Grécia e a cidade de Tróia, apro-
e concretiza seu intento fora de Tróia:
ximadamente no século XII a.C. Muitos
Heitor é morto, e seu funeral finaliza o
acreditam que os poemas foram escritos
poema.
entre 800 e 700 a.C. Baseia-se a data em
referências, encontradas nos poemas, A Odisséia
às condições sociais da época.
A Odisséia é formada por 24 capí-
A Ilíada tulos e tem lugar em um período de dez
anos, no séc. XII a.c.. O poema começa
É o mais antigo poema grego, entre
quando grande parte de sua ação já
os que sobreviveram. Foi escrito por
havia ocorrido.
Homero por volta do séc. VIII a.c. e des-
creve acontecimentos do último ano da É a obra mais influente e popular da
guerra de Tróia, que durou cerca de dez antiga literatura grega. Figura entre as
anos. maiores histórias de aventuras da lite-
ratura de todos os tempos, servindo de
Inicia-se a guerra devido ao rapto modelo para obras posteriores do mes-
de Helena, de Esparta, por Páris, her- mo gênero.
deiro do trono troiano. Em busca da
filha de seu irmão Menelau, Agamênon A Odisséia foi composta pelo poe-
chefia o exército de heróis gregos, den- ta grego Homero e tem como persona-
tre eles, o orgulhoso guerreiro Aquile. gem principal Ulisses, rei de Ítaca. A
obra descreve as aventuras de Ulisses
A história cobre 54 dias, e a ação ao tentar regressar a sua terra natal,
ocorre, em sua maior parte, em campo depois da vitória da Grécia na guerra de
grego, mas também dentro dos muros Tróia.
de Tróia e nas áreas próximas.
A história começa na ilha de Igígia,
Uma disputa ocorre entre Agamêm- onde Ulisses cai prisioneiro da ninfa
non e Aquiles, o mais forte dos jovens Calipso durante sete anos. Durante um
heróis gregos: Aquiles reclama por mai- conselho de deuses no Olimpo, Zeus
or recompensa devido aos seus servi- decide que é chegada a hora de Ulisses
ços aos gregos; Agamêmnon, por sua voltar para sua esposa Penélope, em
vez, acha que Aquiles não demonstra Ítaca, onde seu palácio encontrava-se
respeito bastante a sua posição como ocupado por um grupo de jovens no-
comandante do exército. O conflito faz bres e desregrados. Os nobres pressi-
Aquiles abandonar a guerra e, sem seu onam Penélope a admitir a morte de seu
auxílio, os gregos são expulsos pelas marido e a casar-se com um deles, es-
forças troianas lideradas por Heitor, ir- colhendo assim um novo rei para Ítaca.
— 8 —

O filho de Ulisses, Telêmaco, alertado O barco de Ulisses passa por mui-


pela deusa Atena, viaja em busca de tos perigos e parece pronto para atingir
notícias de seu pai, e suas viagens tor- Ítaca sem mais problemas. Porém, al-
nam-se parte da história. guns de seus homens haviam roubado
e comido o gado sagrado do sol na ilha
Enquanto isso, o deus Hermes faz
de Trinácria, e, como punição, um raio
Calipso libertar Ulisses, que mais tarde
destrói a embarcação e se afogam.
naufraga em alto mar devido à ira de
Ulisses consegue se salvar, mas é pre-
Poseidon. Ao fim da tempestade causa-
da pelo deus dos mares, o herói é en- so na ilha de Calipso, onde a história
contrado por Nausícaa, filha do rei dos começou.
Feacos. Quando Ulisses termina de narrar
Ulisses descreve aos Feacos suas sua história, os Feacos o conduzem a
aventuras desde a guerra de Tróia, con- uma praia deserta de Ítaca. Lá, Atena
ta sua visita à terra dos comedores de conta-lhe sobre os nobres em seu pa-
lótus, flor cujos poderes mágicos fa- lácio e o aconselha a retornar disfarça-
zem as pessoas esquecerem a sua ter- do, para sua própria segurança. Vesti-
ra natal. Vencendo a resistência de do como mendigo, Ulisses chega a seu
seus homens, que não desejavam con- palácio, onde os nobres participam de
tinuar a viagem, Ulisses e sua frota aca- um concurso: desposaria Penélope
bam capturados em uma ilha por Poli- quem conseguisse usar o arco do rei
femo, um dos Ciclopes, gigantes de um desaparecido. Ulisses ganha o concur-
olho só. Conseguem escapar, mas o bar- so, mata os nobres e é reconhecido por
co em que estavam é desviado de seu Penélope.
curso pelo vento. Chegam à ilha da fei-
ticeira Circe, que transforma em porcos
os homens de Ulisses e o torna seu
amante.
Principais Autores
Advertido de que, para regressar
a seu país, precisava descer aos infer- Encontramos, na Antigüidade Clás-
nos para consultar o profeta Tirésias, sica, diversos autores que fizeram his-
ele faz o que lhe é aconselhado, e nos tória na arte literária, tais como:
infernos, Ulisses vê a alma de sua mãe • Homero – viveu entre os séculos IX
e dos heróis da guerra de Tróia, além de e VIII a C, na cidade de Esmirna e
testemunhar a punição dos pecadores. recolheu a poesia que, até então, era
Tirésias indica-lhe o caminho de volta e oral. Escreveu as duas maiores poe-
Circe lhe ensina a evitar os monstros sias épicas: Ilíada e Odisséia.
marinhos Cila e Carible. Adverte-o, ain-
da, com relação às sereias, ninfas do • Hesíodo – descreveu a origem do
mar que utilizam seu belo canto para mundo e dos deuses, reunindo-os
atrair os viajantes para a morte numa em sua obra Teogonia. Preocupa-
ilha mágica. va-se com as emoções do homem e
— 9 —

desprezava a guerra. Foi ele o res- • Ésquilo – precursor da dramaturgia.


ponsável pelo surgimento da poesia Escreveu mais de 80 obras e foi o
lírica. primeiro grande autor trágico.
• Píndaro – poeta dos Jogos Olímpi- • Sófocles – deu continuidade à obra
cos, foi o símbolo do amor dos gregos de Ésquilo e escreveu Édipo Rei,
pelo esporte e pela beleza do corpo considerado o “drama de todos nós”
masculino. (segundo Sigmund Freud, pai da psi-
canálise).
• Esopo – autor quase lendário, viveu
em Atenas no século V; escreveu • Eurípedes – revolucionou a técnica
fábulas que ensinavam sobre o bem teatral. Preocupava-se com a refle-
e o mal, através de figuras de ani- xão sobre controvérsias intelec-
mais que assumiam as virtudes e os tuais, políticas e éticas. Escreveu
defeitos do ser humano. Medéia.
— 10 —

Idade Média
Inicia-se no final do século V, com des de Besteiros, Fernando Esguio, João
o avanço do Cristianismo, estendendo- Garcia de Guilhade, João Zorro, Airas
se até o século XV. Neste período há Nunes de Santiago e Nunes Fernandes
uma preocupação com os ideais gregos Torneol.
e judaicos em relação ao Novo Testa-
mento. Surgem a literatura cortesã e as A novela de cavalaria teve como pre-
novelas de cavalaria. Este período da cursor o francês Chréstien de Troyes,
literatura fica conhecido como Trova- autor de Lancelot. Em oposição à primei-
dorismo (1198 – 1434). ra, as novelas de cavalaria desenvol-
veram-se sob a forma de narrativas e
O Trovadorismo foi o primeiro movi- retratavam o amor concreto e mais rea-
mento literário no mundo ocidental e apre- lista. As relações amorosas se davam
sentou a realidade da época. Suas poe- entre nobres. De caráter pagão, os poe-
sias eram acompanhadas por instrumen- tas exaltavam a valentia, a aventura e a
tos musicais como a lira, a harpa, a ra- capacidade de conquista. Surgiram, en-
beca, o alaúde, a flauta, o tamborete, o tão, as narrativas centradas no rei Artur
címbalo e outros. e seus cavaleiros da Távola Redonda.

O primeiro documento literário de que


se tem notícia em Portugal é a Cantiga da
Ribeirinha, escrita por Paio Soares de
As cantigas
Taveirós em 1198. Tal obra é dotada de
lirismo e sátira, porém, é classificada como Criadas por trovadores, poetas das
cantiga de amor. Esta cantiga é ofereci- cortes feudais, retratavam sentimentos
da a Maria Pais Ribeiro (Ribeirinha), amante amorosos entre cavalheiros e damas da
de D. Sancho I, então rei de Portugal. nobreza (cantigas de amor) ou entre uma
jovem compesiva e seu amante distante
A literatura cortesã se desenvol- (cantigas de amigo).
veu no sul da França, na Provença, en-
quanto que as novelas de cavalaria se • Cantigas de amigo – de origem ga-
desenvolveram no norte da França. Sur- laico-portuguesa, são marcadas por
giu com Guilherme de Aquitânia, que um eu-lírico feminino, uma donzela
criou o amor idealizado, ou seja, seu que fala sobre seu problema amoro-
objetivo era centrado no amor impossí- so, seja através de um monólogo ínti-
vel entre a mulher amada e o poeta (tro- mo, seja através de um confidente,
vador). Entre os autores de cantigas simbolizada pela figura da mãe, irmã,
destacam-se D. Dinis, Paio Soares de amiga ou até mesmo algum elemento
Taveirós, Martim Codax, D. Afonso Men- da natureza (flores, árvores...).
— 11 —

A cantiga de amigo possui um as- Ondas do mar levantado,


pecto folclórico, pois retrata um determi- se vistes meu amado!
nado ambiente ou costume repleto de
sentimento amoroso burguês. Desse mo- e ai Deus, voltará cedo?
do, pode ser uma bailada, romaria, barca-
Se vistes meu amigo,
rola, pastorela ou alba. De caráter nar-
rativo e descritivo, retrata as relações aquele por quem suspiro,
afetivas entre pessoas de níveis sociais e ai Deus, voltará cedo?
inferiores. O amor é singelo e espon-
tâneo. Se vistes meu amado
Normalmente, estas cantigas narram que me pôs neste cuidado,
a partida do namorado para combater os e ai Deus, voltará cedo?
mouros, surgindo, assim, aspectos como
CODAX, Martim. Cantares dos trovadores galego-
a solidão, a tristeza e a saudade. Os ver- portugueses. Seleção, introdução, notas e adaptação de
sos apresentam musicalidade e ritmo, Natália Correia. Lisboa: Editorial Estampa, 1970, p. 76.
com repetição total ou parcial do refrão.
No poema acima, o poeta assume a
Cantiga de amigo fala da mulher enamorada.

Ondas do mar de Vigo, Cantiga de amigo


se vistes meu amigo! (Aires Nunes)
e ai Deus, se verá cedo!
Bailemos nós já tôdas três, ai
Ondas do mar levado, [amigas,
se vistes meu amado! so aquestas avelaneiras frolidas,
e ai Deus, se verá cedo! e quen for velida, como nós, velidas,
[se amig’amar,
Se vistes meu amigo, so aquestas avelaneiras frolidas
o por que eu suspiro! [verrá bailar.
e ai Deus, se verá cedo!
Bailemos nós já tôdas três, ai
Se vistes meu amado [irmanas,
por que hei gran cuidado! so aqueste ramo destas avelanas,
e ai Deus, se verá cedo! e quen bem parecer, como nós
[parecemos, se amig’amar,
(adaptação)
so aqueste ramos destas avelanas
Ondas do mar de Vigo, [verrá bailar.
se vistes meu amigo! Por Deus, ai amigas, mentr’al non
e ai Deus, voltará cedo? [fazemos,
— 12 —

so aqueste ramo frolido bailemos Cantiga de amor


e quen ben parecer, como nós Quer’eu a Deus rogar de coraçon,
[parecemos, se amig’amar, com’ome que é cuitado d’amor,
so aqueste ramo so lo que nós que el me leixe veer mia senhor
[verrá bailar. mui ced’; e se m’el non quiser’ oïr,
logo lh’eu querrei outra ren pedir:
• Cantigas de amor – originária de que me lon leixe mais eno mundo
Provença, sul da França, a cantiga [viver!
de amor chegou a Portugal através
de casamentos, peregrinações, cru- E se m’el á de fazer algum bem,
zadas entre os reinos, dando início oïr-mi-á questo que lh’eu rogarei,
às primeiras manifestações do liris- e mostrar-mi-á quanto bem
mo subjetivo, reunidas na coletânea
[no mundo’ei,
Cancioneiro da Ajuda.
E se mi-o el non quiser “amostrar,
Sua característica principal revela logo lh’eu outra ren querrei rogar:
sempre a fala de um homem a uma se- que me non leixe mais eno
nhora da nobreza – é o chamado amor [mundo viver!
cortês. Os ambientes desta poesia são
os arredores do palácio, campo ou vilas E se m’el amostrar’a mia senhor,
em construção. Mostra uma diferença que am’eu mais ca o meu coraçon,
de classe social, e neste caso, o ho- vedes, o que lhe rogarei enton:
mem está sempre abaixo da camada
que me dê seu Ben que m’é
social da amada. O amor baseia-se na
[mui mester;
relação vassalo/senhor, refletindo o sis-
tema feudal e a divisão de classe social: e roga-lh’ei que, se non fezer’,
nobreza – clero – povo. que me non leixe mais eno mundo
[viver!
A cantiga de amor é marcada pelo
eu-lírico masculino e sofredor, sua ama- E roga’-lh’ei, se me Ben á fazer,
da é chamada por ele de “mia senhor”, que el me leixe viver en logar
de novo um reflexo da relação vassalo/ u a veja e lhe possa falar,
senhor feudal.
por quanta coita me por ela deu;
Não se revela o nome da dama, se non, vedes que lhe rogarei eu:
cultivando seu amor em segredo. Des- que me non leixe mais eno
sa forma, a mulher é idealizada, inatingí- [mundo viver!
vel e sempre colocada num plano eleva-
TORNEOL, Nuno Fernandes. MENDES dos
do. Essa relação é conhecida por “coita Remédios. História da Literatura portuguesa. Coimbra:
d’amor”(amor-sofredor). Atlântida Livraria Editora, 1930, p. 64.
— 13 —

No poema acima, o trovador dirige- Cantiga de maldizer


se à dama, que, quase sempre é indife-
Ai dona fea! foste-vos queixar
rente às suas súplicas.
porque vos nunca louv’ en meu trobar,
Cantiga de amor mais ora quero fazer un cantar
(Bernardo Bonaval) en que vos loarei tôda via;
e vêdes como vos quero loar:
A dona que eu am’e tenho por
[senhor dona fea, velha e sandia!
amostrade-mh-a Deus, se vos en Ai dona fea! se Deus me perdon!
[prazer fôr,
e pois havedes tan gran coraçon
se non dade-mh-a morte.
que vos eu loe en esta razon,
A que tenh’eu por lume dêstes olhos vos quero já loar tôda via;
[meus e vêdes qual será a loaçon:
e por que choran sempre
dona fea, velha e sandia!
[amostrade-me-a Deus,
se non dade-mh-a morte. Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar; pero muito trobei;
Essa que Vós fezestes melhor
[parecer mais ora já um bon cantar farei
De quantas sei, ai Deus, en que vos loarei tôda via;
[fazede-me-a ver, e direi-vos como vos loarei:
Se non dade-mh-a morte. dona fea, velha e sandia!
Ai Deus, que me-a fizestes mais ca GUILHADE, J. Garcia de Apud Amora, A S. Et alli.
Presenca da Literatura Portuguesa. São Paulo: Difusão
[mim amar, Européia do Livro, 1961, p. 52.
Mostrade-me-a u possa com ela
[falar, No poema acima, a linguagem é sim-
Se non dade-me-a morte. ples, direta, agressiva; predomina a zom-
baria aberta.
Neste período também surgiram can-
tigas satíricas, nas quais os trovadores Cantiga de Maldizer
portugueses criticavam ou ridicularizavam (Duarte da Gama)
situações do cotidiano. Esse tipo de can-
tiga divide-se em cantigas de maldizer, na Nam sey que possa viuer
qual se falava mal de pessoas conheci- Neste rreyno já contente,
das, através de um vocabulário de baixo
Poys a desorden na gente
calão; e cantigas de escárnio, onde se
fazia crítica às pessoas, de maneira irô- Nã quer layxar de creçer.
nica, porém, sem citação de nomes. A qual vay tam sem medida,
— 14 —

Q se não pode soffrer cálice, conforme diz a lenda, teria sido


Nam há hy quem possa ter levado à um castelo na Inglaterra. Simbo-
Boa vida. licamente falando, esta busca nada mais
(...) é do que a luta do homem em busca de
uma verdade metafísica.
outros vão trazer atados
hus lençinhos no pescoço A Demanda do Santo Graal
q cõ gram pedra nu poço
A novela A Demanda do Santo Graal
deuiam de ser lançados. inicia-se em Camaalot, reino do rei Artur. É
Outros, sem ser mãçypados, dia de Pentecostes, e os cavaleiros estão
Sendo menores dydade, reunidos à volta da “Távola Redonda”.
Andam já cõ vaydade Galaaz chega, ocupa o assento reserva-
Agrauados. do para o “cavaleiro escolhido” e tira a
(...) espada fincada no “padrom” (pedra de
mármore) que boiava na água. Durante a
em qual quer aldeazinha
refeição, o Graal (cálice com que José de
achareys tal corruçam, Arimatéia colhera o sangue derramado por
ca molher do escriuam Cristo na cruz) perpassa o ar, nutre os
ccuyda q he hua rraynha. presentes com o seu manjar celestial e
E tam bem os lauradores desaparece. No dia seguinte, após ouvir a
Com suas maas nouydades missa, os cavaleiros saem na “demanda”
Querem ter as vaydades (procura) do Santo Vaso. Daí por diante,
vão-se entrelaçando várias aventuras, que
Dos senhores.
culminam quando Galaaz é beneficiado
(...) com a aparição do Graal enquanto cele-
bra o ofício religioso. O episódio a seguir
Novelas de cavalaria transcrito corresponde ao capitulo XXV.
Adaptação do texto transcrito in Moisés, Massaud. A
Literatura Portuguesa através dos textos. 3. ed. , São
Paulo: Cultrix,1970, pp. 36 e 37.
Posteriormente, a Igreja passa a acei-
tar tais obras em sua doutrina e, com isso,
(fragmentos)
surgem as primeiras novelas de cavala-
ria, nas quais encontramos aspectos mís- Véspera de Pinticoste foi grande
ticos, ou seja, as aventuras dos cavalei- gente assüada em Camaalot, assi que
ros têm significado religioso. Podemos podera homem i veer mui gram gente,
destacar, como exemplo A Demanda do muitos cavaleiros e muitas donas mui
Santo Graal, uma lenda baseada na bus- bem guisadas. El-rei, que era ende mui
ca incessante do cálice sagrado pelos ledo, honrou-os muito e feze-os mui bem
cavaleiros da Távola Redonda, onde José servir; e toda rem que entendeo per que
de Arimatéia recolheu o sangue de Jesus aquela corte seeria mais viçosa e mais
quando este ainda estava na cruz. Este leda, todo o fez fazer.
— 15 —

Aquel dia que vos eu digo, direita- veerem ca por al – deles por vos veerem
mente quando queriam poer as mesas – e deles por averem vossa companha?
esto era ora de noa – aveeo que üa
– Senhor, – disse el – nom vou
donzela chegou i, mui fremosa e mui bem
senam a esta foresta com esta donzela
vestida. E entrou no paaço a pee, como
que me rogou; mais cras, ora de terça,
mandadeira. Ela começou a catar de üa
seerei aqui.
parte e da outra, pelo paaço; e pergun-
tavam-na que demandava. Entom se saío Lançarot do Lago e
sobio em seu cavalo, e a donzela em
– Eu demando – disse ela – por Dom
seu palafrem; e forom com a donzela
Lançarot do Lago. É aqui?
dous cavaleiros e duas donzelas. E quan-
– Si, donzela – disse üu cavaleiro. do ela tornou a eles, disse-lhes:
Veede-lo: stá aaquela freesta, falando
– Sabede que adubei o por que viim:
com Dom Gualvam.
Dom Lançarot do Lago se irá comnosco.
Ela foi logo pera el e salvô-o. Ele, Entam se filharom andar e entrarom
tanto que a vio, recebeo-a rnui bem e na foresta; e nom andarom muito per ela
abraçou-a, ca aquela era üa das don- que chegarom a casa do ermitam que
zelas que moravam na Insoa da Lediça, soía a falar com Gualaz. E quando el vio
que a filha Amida del-rei Peles amava Lançarot ir é a donzela, logo soube que
mais que donzela da sua companha i. ia pera fazer Gualaaz cavaleiro, e leixou
– Ai, donzela! – disse Lançalot – sua irmida por ir ao mosteiro das donas,
que ventura vos adusse aqui, que bem ca nom queria que se fosse Gualaaz
sei que sem razom nom veestes vós? ante que o el visse, ca bem sabia que,
pois se el partia dali, que nom tornaria i,
– Senhor, verdade é; mais rogo- ca lhe convenria e, tanto que fosse ca-
vos, se vos aprouguer, que vaades co- valeiro, entrar aas venturas do reino de
migo aaquela foresta de Camaalot; e Logres. E por esto lhe semelhava que o
sabede que manhãa, ora de comer, avia perdudo e que o nom veeria a
seeredes aqui. meude, e temia, ca avia em ele mui gran-
– Certas, donzela – disse el – mui- de sabor, porque era santa cousa e san-
to me praz; ca teúdo e soom de vos ta creatura.
fazer serviço em tôdalas cousas que Quando eles cheguarom aa aba-
eu poder. dia, levarom Lançarot pera üa camara,
e desarmarom-no. E vëo a ele a aba-
Entam pedio suas armas. E quando
dessa com quatro donas, e adusse con-
el-rei vio que se fazia armar a tam gram
sigo Gualaaz: tam fremosa cousa era,
coita, foi a el com a raïa e disse-lhe:
que maravilha era; e andava tam bem
– Como leixar-nos queredes a atal vesådo, que nom podia milhor. E a aba-
festa, u cavaleiros de todo o mundo dessa chorava muito com prazer. Tanto
veem aa corte, e mui mais ainda por vos que vio Lançarot, disse-lhe:
— 16 —

– Senhor, por Deos, fazede vós eu venho; e metuda ei minha sperança


nosso novel cavaleiro, ca nom que- em Nosso Senhor. E por esto vos rogo
riamos que seja cavaleiro por mão dou- que me façades cavaleiro.
tro; ca milhor cavaleiro ca vós nom no
E Lançalot respondeo:
pode fazer cavaleiro; ca bem crcemos
que ainda seja tam bõo que vos acha- – Filho, pois vos praz, eu vos farei
redes ende bem, e que será vossa hon- cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a
ra de o fazerdes; e se vos el ende nom el aprouver e o poderá fazer, vos faça
rogasse, vó-lo devíades de fazer, ca tam bõo cavaleiro como sodes fremoso.
bem sabedes que é vosso filho.
E o irmitam respondeo a esto:
– Gualaaz – disse Lançalot – quere-
– Dom Lançalot, nom ajades dulda
des vós seer cavaleiro?
de Galaaz, ca eu vos digo que de bon-
El respondeo baldosamente: dade de cavalaria os milhores cavalei-
ros do mundo passará.
– Senhor, se prouvesse a vós, bem
no queria seer, ca nom há cousa no E Lançalot respondeo:
mundo que tanto deseje como honra de – Deos o faça assi como eu queria.
cavalaria, e seer da vossa mão, ca dou-
tra nom. no: queria seer, que tanto vos Entam começarom todos a chorar
auço louvar e preçar de cavalaria, que com prazer quantos no lugar stavam.
nenhüu, a meu cuidar, nom podia seer (...)
covardo nem mao que vós fezéssedes
cavaleiro. E esto é üa das cousas do Como os da Mesa Redonda
mundo que me dá maior esperança de houveram da graça do Santo
seer homem bõo e bõo cavaleiro. Graal

– Filho Gualaaz – disse Lançalot – (trecho adaptado ao português moderno)


stranhamente vos fez Deos fremosa Grande foi a alegria e o prazer que
creatura. Par Deos, se vós nom cuidades os cavaleiros da Távola Redonda tiveram
seer bõo homem ou bõo cavaleiro, assi naquele dia, quando se encontravam to-
Deos me conselhe, sobejo seria gram dos reunidos. Nunca, nem antes nem de-
dapno e gram malaventura de nom seer- pois do início da Távola Redonda todos os
des bõo cavaleiro, ca sobejo sedes fre- cavaleiros assim se reuniram.
moso. Ao cair da noite, quando se sentavam
E ele disse: às mesas, ouviram um trovão tão grande e
assustador, que lhes pareceu que todo o
– Se me Deos fez assi fremoso, palácio tremia. E, logo após, uma imensa
dar-mi-á bondade, se lhe prouver; ca, claridade o iluminou inteiramente. Então,
em outra guisa, valeria pouco. E ele todos os cavaleiros foram tomados da gra-
querrá que serei bõo e cousa que se- ça do Espírito Santo e começaram a con-
melhe minha linhagem e aaqueles onde templar uns aos outros e viram que esta-
— 17 —

vam muito mais formosos. De tão maravi- percebesse quem o conduzia nem por
lhados que estavam não conseguiam falar. qual porta saíra. Então os cavaleiros reto-
Apenas se olharam. E nesse momento en- maram a voz e começaram a dar Graças a
trou no palácio o Santo Graal, envolto por Nosso Senhor, que tão grande e honra lhes
um veludo branco, sem que ninguém con- dera, confortando-os com a graça do San-
seguisse ver quem o trazia. Tão logo o to Vaso. Mas, mais alegre que todos esta-
Santo Graal penetrou no palácio, este se va o rei Artur, porque maior graça lhe pro-
cobriu de um odor tão agradável como se porcionara Nosso Senhor que a qualquer
os mais finos perfumes aí tivessem sido outro rei que anteriormente houvesse rei-
derramados. E ele percorreu o palácio de nado sobre Logres. E disse aos que com
ponta a ponta, detendo-se ao redor de ele estavam:
cada uma das mesas. E estas, à sua pas-
sagem, cobriam-se dos mais deliciosos — Amigos, devemos nos conside-
manjares, despertando o apetite e o pra- rar imensamente felizes, pois Deus nos
zer de todos. Depois que cada um se ser- mostrou tão grande sinal de amor, ali-
viu, o Santo Graal desapareceu da mesma mentando-nos, nesta festa de Pentecos-
forma como entrara: sem que ninguém tes, de seu santo celeiro.
— 18 —

Resumo do Trovadorismo
Momento sócio-cultural De escárnio (crítica pessoal e/ou social
indireta, irônica)
• Idade Média De maldizer (crítica pessoal e/ou social
direta)
• Feudalismo: sistema de poder basea-
do na posse da terra • Prosa medieval: novelas de cavala-
ria (o heroísmo de influência religio-
• Supremacia do clero (teocentrismo)
sa e feudal).
e da nobreza (senhores feudais, pa-
triarcalismo)
Autores e obras
Características literárias
• Trovadores (poetas-cantores)
• Predomínio da literatura oral, associa-
Paio Soares de Taveirós, autor
da à música e à dança, as cantigas
da Cantiga da Ribeirinha, cantiga de
• Tipos de cantiga: amor homenageando uma dama da corte
(D. Maria Paes Ribeiro)
De amor (eu-lírico masculino, pres-
tando “vassalagem amoro- D. Dinis: rei-trovador e mecenas
sa” à mulher, à senhora: o (protetor das artes).
amor cortês)
Novelas de cavalaria (criações po-
De amigo (eu-lírico feminino, sensual pulares): O rei Artur e os cavaleiros da
e popular, o lamento pela au- Távola Redonda, Carlos Magno e os
sência do amigo/amante) doze pares da França.
— 19 —

Humanismo
Período de transição entre a Idade esferas do Paraíso, até que São Bernardo
Média e o Renascimento, marcado por (a Mística) lhe permite desfrutar da pre-
diversas transformações, nas quais po- sença de Deus”.
demos citar a expansão marítima, as in- Resumo elaborado por Help! Sistema de Consulta
venções como a bússola e a pólvora, o Interativa – Técnicas de Redação e Literatura. São
Paulo: O Estado de S. Paulo, 1996. p. 99.
aperfeiçoamento da imprensa, o desen-
volvimento do comércio, o mercantilismo, • Francisco Petrarca – é o criador do
além do desaparecimento do misticismo Humanismo. Escreveu Canzoniere,
medieval, compreendendo-se o homem obra que contém canções, badaladas,
com mais naturalidade. sextinas, estâncias e sonetos que,
posteriormente, vieram a ser imitados
Foi um movimento que tinha por ob-
por toda a lírica européia.
jetivo principal a contestação do teocen-
trismo, dando espaço ao antropocen- • Giovanni Boccaccio – escreveu
trismo. Decameron, obra repleta de lingua-
gem expressiva e rica inventividade.
Num cenário como este, surgiram
vários autores como Dante Alighieri • Fernão Lopes – foi o primeiro cro-
(1265 – 1375), Petrarca (1304 – 1373) e nista-mor de Portugal, responsável
Boccaccio (1313 – 1375). pela tarefa de registrar a História de
seu país. Lopes foi o iniciador da his-
• Dante Alighieri – nascido em Floren- toriografia portuguesa. Utilizava-se
ça, estudou clássicos latinos e dedi- de um estilo elegante e coloquial nas
cou-se à filosofia. Sua obra principal suas narrativas e descrições e acre-
foi A Divina Comédia, que se dividia ditava que o povo era o agente das
em “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. transformações sociais.
A Obra: “Perdido numa selva (o Crônica de D. Pedro I
Pecado), Dante é auxiliado pelo poeta
Como foi trelladada Dona Ines
latino Virgílio (a Razão), que o guia atra-
pera o moesteiro Dalcobaça, e da
vés do Inferno: para ele, um grande lo-
morte delRei Dom Pedro
cal afunilado, situado no centro da Terra,
onde os condenados sofrem enormes tor- Por que semelhante amor, qual el-
mentos. Acompanhado de Virgílio, o poe- Rei Dom Pedro ouve a Dona Enes, rara-
ta visita depois o Purgatório, uma monta- mente he achado em alguuma pessoa,
nha de nove estágios, ao final dos quais porem disserom os antiigos quc nenhuum
desaparece Virgílio e aparece Beatriz (a he tam verdadeiramente achado, como
Teologia). Junto desta, Dante avança en- aquel cuja morte nom tira da memoria o
tre os coros dos anjos, ao longo das nove gramde espaço do tempo. E se alguum
— 20 —

disser que muitos forom ja que tanto e ca ella viinha em huumas andas, muito
mais que el amarom, assi como Adriana bem corregidas pera tal tempo, as
e Dido, e outras que nom nomeamos, quaaes tragiam gramdes cavalleiros,
segumdo se lee em suas epistolas, acompanhadas de gramdes fidalgos, e
respomdesse que nom fallamos em amo- muita outra gente, e donas, e domzellas,
res compostos, os quaaes alguuns au- e muita creelezia. Pelo caminho estavom
tores abastados de eloquemcia, e muitos homeens com çirios nas maãos,
floreçentes em bem ditar, hordenarom de tal guisa hordenados, que sempre o
segumdo lhes prougue, dizemdo em seu corpo foi per todo o caminho per
nome de taaes pessoas, razoões que antre çirios açesos; e assi chegarom
numca nenhuuma dellas cuidou; mas ataa o dito moesteiro, que eram dalli
fallamos daquelles amores que se con- dezassete legoas, omde com muitas mis-
tam e leem nas estorias, que seu sas e gram solenidade foi posto em aquel
fumdamento teem sobre verdade. Este muimento: e foi esta a mais homrrada
verdadeiro amor ouve elRei Dom Pedro trelladaçom, que ataa aquel tempo em
a Dona Enes como se della namorou, Portugal fora vista. Semelhavelmente
seemdo casado e aimda Iffamte, de gui- mandou elRei fazer outro tal muimento e
sa que pero dela no começo perdesse tam bem obrado pera si, e fezeo poer
vista e falla, seemdo alomgado, como açerca do seu della, pera quamdo se
ouvistes, que he o prinçipal aazo de se aqueeçesse de morrer o deitarem em
perder o amor, numca çessava de lhe elle. E estamdo el em Estremoz, adoeçeo
emviar recados, como em seu logar de sua postumeira door, e jazemdo
teemdes ouvido. Quanto depois traba- doemte, nembrousse como depois da
lhou polla aver, e o que fez por sua mor- morte Dalvoro Gomçallvez e Pero Coe-
te, e quaaes justiças naquelles que em lho, el fora çerto, que Diego Lopes
ella forom culpados, himdo contra seu Pachequo nom fora em culpa da morte
juramento, bem he testimunho do que de Dona Enes, e perdohou-lhe todo quei-
nos dizemos. E seemdo nembrado de xume que del avia, e mandou que lhe
homrrar seus ossos, pois lhe ja mais emtregassem todos seus beens; e assi
fazer nom podia, mandou fazer huum o fez depois elRei Dom Fernamdo seu
muimento dalva pedra, todo mui sotillmen- filho, que lhos mandou emtregar todos,
te obrado, poemdo emlevada sobre a e lhe alçou a semtemça que elRei seu
campãa de çima a imagem della com padre comtra elle passara, quamto com
coroa na cabeça, como se fora Rainha; dereito pode. E mandou elRei em seu
e este muimento mandou poer no testamento, que Ihe tevessem em cada
moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada huum ano pera sempre no dito mosteiro
hu jazem os Reis, mas demtro na egreja seis capellaaens, que cantassem por el
ha maão dereita, açerca da capella moor. e lhe dissessem cada dia huuma missa
E fez trazer o seu corpo do mosteiro de oficiada, e sahirem sobrel com cruz e
Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho augua beemta: e elRei Dom Fernamdo
mais homrradamente que se fazer pode, seu filho, por se esto melhor comprir e
— 21 —

se cantarem as ditas missas, deu de- Cantiga sua partindo-se


pois ao dito moesteiro em doaçom por (João Ruiz Castelo Branco)
sempre o logar que chamam as Pare-
des, termo de Leirea, com todallas ren- Senhora, partem tão tristes
das e senhorio que em el avia. E leixou meus olhos por vós, meu bem,
elRei Dom Pedro em seu testamento que nunca tão tristes vistes,
çertos legados, a saber, aa Iffamte Dona outros nenhuns por ninguém.
Beatriz sua filha pera casamento cem
mil livras; e ao Iffamte Dom Joham seu Tão tristes, tão saudosos,
filho viimte mil livras; e ao Iffamte Dom tão doentes da partida,
Denis outras viinte mil; e assi a outras
tão cansados, tão chorosos,
pessoas. E morreo elRei Dom Pedro
huuma segumda feira de madurgada, da morte mais desejosos
dezoito dias de janeiro da era de mil e cem mil vezes que da vida.
quatro cemtos e cimquo anos, avemdo Partem tão tristes os tristes,
dez annos e sete meses e viimte dias tão fora d’esperar bem,
que reinara, e quaremta e sete anos e que nunca tão tristes vistes
nove meses e oito dias de sua hidade, e outros nenhuns por ninguém.
mandousse levar aaquel moesteiro que
dissemos, e lamçar em seu muimento,
que esta jumto com o de Dona Enes. E O teatro popular
por quamto o Iffamte Dom Fernamdo seu
Em 1502, o teatro praticamente não
primogenito filho nom era estomçe hi, foi
existia em Portugal. Apenas haviam re-
elRei deteudo e nom levado logo, ataa
presentações religiosas nas festas da
que o Iffamte veo, e aa quarta feira foi
Igreja, onde encenavam-se a vida de
posto no muimento. E diziam as gentes,
Cristo com o intuito de educar os fiéis.
que taaes dez annos numca ouve em
Somente mais tarde é que surgiu o tea-
Portugal, como estes que reinara elRei
tro de Gil Vicente com a sua encenação
Dom Pedro.
mais popular: Monólogo do Vaqueiro.
Seu teatro era chamado profano, por
ser representado nas praças públicas.
A poesia palaciana
O autor português mais importante do
período é Gil Vicente (1460 – 1536), que
Refere-se à poesia que surgiu no viveu a maior parte de sua vida em Lisboa,
século XV nos palácios, ou seja, na vida centro comercial e cultural de Portugal, au-
aristocrática. Garcia de Resende, poeta tor de Monólogo do Vaqueiro, primeira
que costumava freqüentar a Corte, reu- peça dentre os mais de 44 títulos que es-
niu toda a sua produção poética pala- creveu, retratou a sociedade da época e
ciana no Cancioneiro Geral. Este tipo sua sátira atingia todas as classes sociais
de poesia possui uma linguagem mais como frades, bispos, fidalgos, plebeus, ci-
rica do que a poesia trovadoresca. ganos, etc., criticando sua postura moral.
— 22 —

Trecho de Auto da Lusitana, (Ninguém para Todo o Mundo)


de Gil Vicente E agora que buscas lá?
Entra Todo o Mundo, homem como Todo o Mundo
rico mercador, e faz que anda buscan-
Busco honra muito grande.
do alguma cousa que se lhe perdeu; e
logo após êle um homem, vestido como Ninguém
pobre. Êste se chama Ninguém, e diz: E eu virtude, que Deus mande
Ninguém que tope co ela já.
Que andas tu aí buscando?
(Belzebu para Dinato)
Todo o Mundo Outra adição nos acude:
Mil cousas ando a buscar: escreve logo aí, a fundo,
delas não posso achar, que busca honra Todo o Mundo,
porém ando perfiando, e Ninguém busca virtude.
por quão bom é perfiar.
Ninguém
Ninguém Buscas outro mor bem qu’êsse?
Como hás nome, cavaleiro?
Todo o Mundo
Todo o Mundo Busco mais quem me louvasse
Eu hei nome Todo o Mundo, Tudo quanto eu fizesse.
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro Ninguém
e sempre nisto me fundo. E eu quem me repreendesse
Em cada cousa que errasse.
Ninguém
E eu hei nome Ninguém, (Belzebu para Dinato)
e busco a consciência. Escreve mais

(Belzebu para Dinato) Dinato


Esta é boa experiência! Que tens sabido?
Dinato, escreve isto bem.
Belzebu
Dinato Que quer em extremo grado
Que escreverei, companheiro? Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.
Belzebu
Que Ninguém busca consciência, VICENTE, Gil. Auto da Lusitânia. In Saraiva, Antonio
Jose. Teatro de Gil Vicente. 4. ed. Lisboa: Portugal,
E Todo o Mundo dinheiro. 1968, p. 303.
— 23 —

O poeta critica o comportamento hu- Eis que chega a primeira alma para
mano com finalidade moralizadora, em- a viagem. É Dom Henrique, o Fidalgo,
bora de maneira cômica, com o uso de acompanhado por um criado que trans-
prosopopéias (Todo Mundo e Ninguém), porta uma cadeira e carrega um manto
satirizando o comportamento humano. para seu Senhor. Assim como outros
personagens, o Fidalgo argumenta con-
Auto da Barca do Inferno tra sua ida para o Inferno, considera
Publicado em 1517, foi encenada que a barca não é digna de sua nobre
pela primeira vez na câmara da rainha D. pessoa. O Diabo procura ironizar os
Maria de Castela, na presença do rei D. diversos argumentos do nobre, dizendo
Manuel I e de sua irmã D. Leonor, a Rainha que uma vida cheia de prazeres e peca-
Velha. O Auto da Barca do Inferno tem dos só podia resultar em punição.
como cenário fixo duas embarcações, num
porto imaginário para onde vão as almas O Fidalgo reporta-se à barca do
no instante em que morrem. Uma barca é Anjo. Alega direito de embarcar por per-
representada por um Anjo, simbolizando tencer a uma boa linhagem, mas era
o Paraíso e a outra é representada pelo muito tirano e vaidoso. Seu esforço foi
diabo, simbolizando o Inferno. A ação se em vão e, retornando à barca do Infer-
desenrola a partir da chegada dos perso- no, quer demonstrar força moral ao re-
nagens no porto, procurando encontrar a conhecer que vivera erroneamente.
passagem para a vida eterna. Na peça,
Chega o Onzeneiro, carregando
os personagens serão julgados segundo
as obras que realizaram em vida. seus bolsões de dinheiro. Recusa-se a
embarcar quando toma conhecimento do
A obra apresenta-se com versos destino da barca, mas o Diabo, sarcás-
redondilhos, rimas, símbolos e metáfo- tico, se faz de espantado e ironiza o
ras. Os personagens são considerados fato de o dinheiro do Onzeneiro não ter
tipos sociais – a nobreza, o clero e o servido para salvá-lo da morte. Procura
povo. Além da oposição do Bem X Mal,
então a barca do Anjo, pedindo-lhe que
Céu X Inferno, o Anjo e o Diabo assu-
o deixasse entrar, pois queria mesmo
mem posturas também opostas, fazen-
era o Paraíso. Seu pedido é recusado
do com que a simpatia e a ironia do Dia-
quando o Anjo vê seus bolsões, afir-
bo domine toda a peça.
mando que estavam tão cheios de di-
(resumo) nheiro que tomariam todo o espaço do
navio. Desconsolado, o Onzeneiro en-
Num braço de mar, onde estão an- tra na barca infernal, cumprimentando
coradas duas barcas, chegam as almas com respeito o Fidalgo, que lá já estava,
de representantes de várias classes so- aguardando a triste partida.
ciais e profissionais. Uma das barcas di-
rige-se ao Purgatório ou ao Inferno; a Joane, personagem caracterizado
outra, ao Paraíso. A primeira será tripula- como o Parvo, conversa com o Diabo e
da pelo Diabo e seu Companheiro; a ou- começa a praguejá-lo quando descobre
tra, por um Anjo. o destino de sua barca; entra em territó-
— 24 —

rio do Anjo porque - assim lhe haviam quanto representante da Santa Madre
dito - o reino do Céu seria dos pobres. Igreja, mas nada consegue, nem sequer
Para o Anjo, os atos do bobo eram fruto uma resposta do Anjo. Volta à barca do
de uma doença, sendo provas de ino- Diabo ridicularizado pelo Parvo, que lhe
cência e não sua sagacidade. Irá ao pergunta se furtara o facão.
Paraíso, portanto, o Parvo, passageiro
Assim que o Frade e sua amante
do barco que vai à Glória! Mas antes de
são embarcados, chega uma alcovitei-
entrar, mantém-se ao lado do Anjo, para
ra, Brísida Vaz, que se recusa a entrar
ajudar na avaliação dos próximos pas-
na barca. Representa a mais terrível das
sageiros.
almas penadas, passara a vida alician-
Chega ao barco do Inferno um Sa- do meninas para padres.
pateiro, com suas ferramentas de ofí-
A Alcoviteira dirige-se à barca do
cio. Aparentemente, um bom trabalha-
Anjo, que se nega ouvi-la, alegando que
dor. Quando é convidado pelo Diabo a
é uma pessoa inoportuna. Brísida, en-
embarcar, tenta repeli-lo com o argumen-
tão, volta à barca do Diabo, pedindo-lhe
to de que morrera comungado e con-
a prancha e embarcando nela.
fessado. Que bom cristão parece ser!
Mas o Diabo responde que foi excomun- Depois da Alcoviteira, chega o Ju-
gado por omissão de seus pecados, pois deu com um bode às costas. O Diabo
roubava seus fregueses ao cobrar pe- nega-se a embarcar o animal, mas o
los serviços prestados. Não contente, Judeu tenta suborná-lo com alguns tos-
dirige-se à barca do Anjo e é barrado; tões, sem muita discussão, é rebocado
explicação: o lugar de quem rouba na pela barca do Inferno.
praça é no barco que vai ao Demo. De
nada adiantava ter ido à missa se ao Então chega a vez do Corregedor;
mesmo tempo havia roubado, cobrado carregado de processos, aproxima-se
preços extorsivos. Assim, o Sapateiro da barca do Inferno. Recusa-se a rumar
se dirige a outra barca, aceitando seu para destino tão cruel, tentando defen-
destino. der-se, mas é desmascarado pelo Dia-
bo, que expõe o recebimento de propi-
Chega então um Frade, trazendo nas através de sua mulher. Para se de-
uma moça pela mão: sua amante, Flo- fender, o Corregedor culpa sua própria
rença. Com ela, traz um broquel, uma esposa, mas o esforço é em vão.
espada e um capacete, representando
sua paixão pelo esporte. Enquanto o Corregedor conversa
com o Diabo, chega um Procurador cheio
O Frade tenta convencer o Diabo de livros; ambos se recusam a entrar no
de sua inocência, ensinando-lhe a arte barco do Diabo, chamando pelo Anjo e
da esgrima, mas seu esforço é em vão. dirigindo-se até ele. O Anjo roga praga
Não contente, busca a barca do Anjo aos documentos jurídicos que carregam
para tentar defender seus direitos en- e os manda de volta.
— 25 —

Nova alma vai se aproximando: o Falado:


Enforcado, que se julga merecedor do Inês – Renego deste lavrar
perdão por ter tido uma morte cruel. É o E do primeiro que o usou!
próximo personagem a entrar na barca Ó diabo que o eu dou,
do Diabo, que não se comove com o Que tão mao é d’aturar!
sofrimento de um homem que tantos fur-
Ó Jesu! Que enfadamento,
tos cometera em vida. O Enforcado sim-
E que raiva, e que tormento,
boliza o ladrão que rouba sem vanta-
Que cegueira, e que
gens, sendo manipulado por outros de
[canseira!
posições mais privilegiadas.
Eu hei-de buscar maneira
Dirigem-se agora à barca do céu D’algum outro aviamento.
os Quatro Cavaleiros, empunhando a Coitada, assi hei-de estar
cruz de Cristo. Lutaram pela expansão Encerrada nesta casa
da Fé Católica e ganham a vida eterna Como panela sem asa
como recompensa por terem sido mor- Que sempre está num lugar?
tos pelos mouros. Prosseguiram na bar- E assi hão-de ser logrados
ca do Anjo, cantando e sentindo-se ali- Dous dias amargurados,
viados por terem cumprido corretamen-
Que eu posso durar viva?
te suas missões.
E assi hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
Farsa de Inês Pereira
Antes o darei ao diabo
Esta peça foi representada em 1523
Que lavrar mais nem
e é considerada a mais famosa de Gil
[pontada.
Vicente. Trata-se de uma moça sonha-
Já tenho a vida cansada
dora, cansada do trabalho doméstico e
De jazer sempre dum cabo.
que resolve fugir de toda essa monoto-
nia. Casa-se com um escudeiro, consi- Todas folgam e eu não
derado malandro, porém, este morre du- Todas vêm e todas vão
rante a guerra. Viúva, casa-se novamen- Onde querem, senão eu.
te, com um homem que faz todas as suas Hui! E que pecado é o meu,
vontades. Ou que dor de coração?
Esta vida é mais que morta.
(fragmento da obra)
São eu coruja ou corujo,
Entra logo Inês Pereira, e finge que Ou são algum caramujo
está lavrando só em casa, e canta esta Que não sai senão à porta?
cantiga: E quando me dão algum dia
Licença, como a bugia,
Canta Inês:
Que possa estar à janela
Quien com veros pena y muere É já mais que a Madalena
Que hará cuando no os viere? Quando achou a aleluia.
— 26 —

Resumo do Humanismo
Momento sócio-cultural • Teatro popular, de influência medie-
val, mas crítico, satírico, polêmico –
• Transição do feudalismo para o mer- Gil Vicente.
cantilismo.
• Crônicas e histórias dos reis e do
• Desenvolvimento de práticas comer- povo português (desenvolvimento da
ciais por uma nova classe social: a prosa) – Fernão Lopes.
burguesia.
• Crise do teocentrismo e ascensão Autores e obras
do racionalismo humanista, com a
laicização da cultura. • Fernão Lopes, criador da historio-
grafia portuguesa: Crônica d’El Rei
Características literárias D. Pedro, Crônica d’El Rei D. Fer-
nando e Crônica d’el Rei D. João I.
• Divulgação doa clássicos da antigui-
• Gil Vicente, criador do teatro por-
dade greco-latina.
tuguês: Auto da visitação ou Monó-
• Poesia palaciana recolhida por Gar- logo do vaqueiro; Farsa de Inês Pe-
cia de Resende no Cancioneiro Ge- reira; Auto da Barca do Inferno, Auto
ral (poesias de amor, sátira e reli- da Barca do Céu; Auto da Barca do
giosa). Purgatório.
— 27 —

Renascimento
Teve seu início no século XV e es- logo. Além do poema épico, Camões fi-
tendeu-se até meados do século XVI e cou conhecido por seus poemas líricos,
é marcado pela supervalorização do ho- em que buscava o amor espiritual e ex-
mem e pelo antropocentrismo, em opo- punha as contradições do coração. Sua
sição ao teocentrismo e misticismo. poesia lírica toma dois sentidos: popular
(redondilhas) e erudita (sonetos).
Há uma retomada das idéias greco-
romanas; o artista não se contenta em
apenas observar a natureza, mas pro- A poesia lírica de Camões
cura estudá-la e imitá-la; valoriza-se a
individualidade do artista, em contraposi- Soneto
ção à coletividade das obras clássicas. Transforma-se o amador na
O Renascimento em Portugal deu- [cousa amada,
se no período de 1527 a 1580, com o Por virtude do muito imaginar;
retorno do poeta Sá de Miranda após seus
Não tenho logo mais que desejar,
estudos na Itália, trazendo inovações de
poetas italianos. Porém, foi com Luís de Pois em mim tenho a parte desejada.
Camões que ocorreu o aprimoramento
Se nela está minha alma
dessas novas técnicas poéticas.
[transformada,
Este período ficou conhecido como
Que mais deseja o corpo de
Classicismo e os escritores introduziram
[alcançar?
em suas obras temas pagãos, além do
ideal do amor platônico, a exaltação do Em si somente pode descansar,
antropocentrismo, a imitação de autores Pois consigo tal alma está liada.
clássicos, a predominância da ciência e
da razão, o uso da mitologia, clareza e Mas esta linda e pura semidéia,
objetividade, uso de linguagem simples e Que, como o acidente em seu sujeito,
precisa, o culto da beleza e da perfeição.
Assim com a minha alma se conforma,

Luís Vaz de Camões Está no pensamento como idéia;


E o vivo e puro amor de que sou feito,
(1524 – 1580)
Como a matéria simples busca
[a forma.
Publicou em 1572 Os Lusíadas, po-
ema épico organizado em: Proposição, In MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através
Invocação, Dedicação, Narração e Epí- dos textos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1980, p. 76.
— 28 —

Nesse soneto, podemos perceber No soneto anterior, Camões con-


que o autor retrata explicitamente a ques- ceitua o significado do amor através de
tão platônica do amor, pois este passa a paradoxos, que se encadeiam no de-
idealizar tanto a amada que acredita tê-la correr dos versos até chegar ao ponto
em si mesmo, no seu próprio corpo. Portan- máximo do soneto, onde o poeta ques-
to, como já diz o poema: aquele que ama se tiona o próprio caráter contraditório do
transforma na amada; logo não tem mais o amor.
que desejar, pois já tem em si mesmo o ser
que deseja (versos 1 a 8). “Quantos sentidos diferentes po-
dem emergir da semelhança sugerida
Podemos ressaltar também neste entre amor e fogo nesta conhecida me-
soneto o valor da mulher ante a figura táfora? Alguns exemplos, provavelmen-
masculina. Esta é idealizada, inacessível, te desnecessários: o amor, como o
vista como uma semidéia (metade mulher, fogo, queima. É intenso. Ilumina. Deixa
metade deusa), ou seja, é colocada num marcas. Consome. Não se pode mexer
plano superior ao do poeta. De caráter nas suas cinzas, que renasce... e mui-
discursivo, Camões pretende argumentar tas outras significações. Linguagem cri-
a questão acerca do Amor e da Mulher. adora: signos que geram signos. Sím-
bolos que geram símbolos.”
Soneto
(Cursos Práticos Nova Cultural para Vestibular -
Amor é fogo que arde sem se ver; SP, 1998.)

É ferida que dói e não se sente;


É um contentamento descontente; Tanto de meu estado me acho
incerto
É dor que desatina sem doer.
Tanto de meu estado me acho
É um não querer mais que bem querer; [incerto
É solitário andar por entre gente;
Que em vivo ardor tremendo estou
É nunca contentar-se de contente; [de frio
É cuidar que se ganha em se perder. Sem causa, justamente choro e rio;
É querer estar preso por vontade; O mundo todo abarco e nada a
[perto.
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
É tudo quanto sinto um
[desconcêrto;
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade, Da alma um fogo me sai, da vista
[um rio;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
Agora espero, agora desconfio,
In MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através
dos textos. 9ª ed. São Paulo: Cultrix, 1980, p. 76. Agora desvario, agora acerto.
— 29 —

Estando em terra, chego ao céu Os Lusíadas


[voando;
Numa hora acho mil anos, e é de Constitui-se de dez cantos em 1102
[jeito oitavas de versos decassílabos herói-
cos, com esquema rimático ABABABCC
Que em mil anos não posso achar em denominado 8ª rima, num total de
[uma hora. 8816 versos.
O poeta, no início da sua obra, preo-
Se me pergunta alguém porque
cupa-se em explicar suas intenções em re-
[assim ando,
lação aos feitos heróicos. Em seguida,
Respondo que não sei; porém pede às musas do Tejo para que o ajudem
[suspeito nesta árdua tarefa. Depois, o autor ofere-
Que só porque vos vi, minha ce seus poemas ao rei D. Sebastião e, en-
[Senhora. tão, inicia-se todo o percurso da narrativa.
(resumo)
Sete anos de pastor Jacó servia A ação da narrativa tem o seu iní-
cio quando a frota do herói Vasco da
Sete anos de pastor Jacó servia
Gama ainda se encontra em pleno Oce-
Labão, pai de Raquel, serrana bela; ano Índico. No Olimpo, morada dos deu-
Mas não servia ao pai, servia a ela, ses, acontece uma reunião, na qual es-
tes discutem a situação dos portugue-
E a ela só por prêmio pretendia. ses. Fica Baco na oposição, enquanto
os demais resolvem auxiliar o herói.
Os dias, na esperança de um só dia,
A essa altura, a frota portuguesa,
Passava, contentando-se com vê-la; já em plena viagem, chega a Moçam-
Porém o pai, usando de cautela, bique, na costa ocidental da África. O
deus Baco, que não quer a vitória de
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
maneira alguma, arma uma cilada para
Vasco da Gama; porém, o comandante
Vendo o triste pastor que com português supera o problema. É armada
[enganos outra cilada quando a frota se aproxima
Lhe fora negada a sua pastôra, de Mombaça, mas a deusa Vênus salva
novamente os portugueses.
Como se a não tivera merecida,
Ao atracar em Melinde, a frota é
Começa de servir outros sete anos, recebida pelo rei da cidade, que vem a
bordo e solicita a Vasco da Gama lhe
Dizendo: - mais servira, se não fôra
narre toda a história de Portugal. O herói
Para tão longo amor tão curta a começa descrevendo a Europa, para
[vida! então chegar à fundação da Lusitânia;
— 30 —

fala sobre D. Henrique de Borgonha, pai vência do ideal das cruzadas, a super-
do fundador de Portugal; menciona al- valorização do homem, a exaltação da
guns episódios da história de Portugal, aventura, a busca de novos horizon-
como o de Egas Moniz, a batalha de tes e a presença da mitologia.
Aljubarrota, a tomada da cidade de Ceuta
“As armas e os barões assinalados
no norte da África e outros.
que da ocidental praia lusitana,
Relembra os fatos que antecede-
por mares nunca dantes navegados
ram sua partida de Lisboa, os preparati-
vos da viagem; a conversa com o velho passaram ainda além da Taprobana.
do Restelo; por último as primeiras aven-
E em perigos e guerras esforçados,
turas à beira-mar: o fogo de Santelmo, a
tromba marinha, a aventura de Veloso, o Mais do que prometia a forca humana,
Gigante Adamastor e, finalmente, a che- Entre gente remota edificaram
gada a Melinde. Novo reino, que tanto sublimaram;
Terminado o relato, Vasco da Gama
prossegue em sua viagem marítima. Baco E também as memórias gloriosas
resolve falar com Éolo, deus dos ventos, Daqueles Reis que foram dilatando
para prejudicar a frota com uma forte A fé, o Império, e as terras viciosas
ventania, no entanto, Vênus novamente
De África e de Ásia andaram
protege os navegadores enviando ninfas
[devastando
amorosas para levar a calmaria.
E aqueles que por obras valerosas
Fim da tormenta. A frota portugue-
Se vão da lei da morte libertando:
sa chega à salvo a Calicute, na Índia, e
são recebidos por Samoriam. A bordo, Cantando espalharei por toda
Paulo da Gama recebe o Catual e deci- [parte,
fra-lhe o significado dos desenhos nas Se a tanto me ajudar o engenho e
bandeiras. [arte”.
Começa a viagem de volta a Portu-
gal. Em caminho, fazem parada na Ilha Cessem do sábio Grego e do
dos Amores e são recebidos amorosa- [Troiano
mente pelas ninfas locais. A deusa As navegações grandes que
Tethys mostra a Vasco da Gama a má- [fizeram;
quina do mundo e o futuro glorioso do
povo português. Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
A obra é dividida em:
Que eu canto o peito ilustre
• Proposição – é a apresentação do [Lusitano,
assunto. Transparecem alguns ele- A quem Neptuno e Marte
mentos fundamentais, como a sobrevi- [obedeceram:
— 31 —

Cesse tudo o que a Musa antígua Se tão sublime preço cabe em


[canta, [verso.
Que outro valor mais alto se • Dedicatória – oferecimento do poe-
[alevanta. ma ao rei de Portugal, D. Sebastião.
• Invocação – invocando a presença
E vós, ó bem nascida segurança
das musas para a construção da obra,
o poeta espera que seus cantos sejam Da Lusitana antígua liberdade,
inspirados e se imortalizem. E não menos certíssima esperança
E vós, Tágides minhas, pois criado De aumento da pequena
[Cristandade;
Tendes em mim um novo engenho
[ardente, Vós, ó novo temor da Maura lança,
Se sempre em verso humilde Maravilha fatal da nossa idade,
[celebrado Dada ao mundo por Deus, que todo
Foi de mim vosso rio alegremente, [o mande,
Dai-me agora um som alto e Para do mundo a Deus dar parte
[sublimado, [grande;
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo Vós, tenro e novo ramo
[ordene [florescente
Que não tenham inveja às de De uma árvore de Cristo mais
[Hipoerene. [amada
Que nenhuma nascida no
[Ocidente,
Dai-me uma fúria grande e
[sonorosa, Cesárea ou Cristianíssima
[chamada;
E não de agreste avena ou frauta
[ruda, (Vede-o no vosso escudo, que
[presente
Mas de tuba canora e belicosa,
Vos amostra a vitória já passada,
Que o peito acende e a cor ao
[gesto muda; Na qual vos deu por armas, e
[deixou
Dai-me igual canto aos feitos da
[famosa As que Ele para si na Cruz tomou)
Gente vossa, que a Marte tanto • Narração – é o desenrolar dos fa-
[ajuda; tos. Está dividido em dois planos: míti-
Que se espalhe e se cante no co (em que agem os deuses) e o his-
[universo, tórico (em que agem os homens).
— 32 —

“Oh, que famintos beijos na floresta! Aos montes ensinando e às ervinhas


E que mimoso choro que soava! O nome que no peito escrito tinhas.
Que afagos tão suaves!
(...)
[Que ira honesta,
Tirar Inês ao mundo determina
Que em risinhos alegre se tornava!
O que mais passam na manhã e Por lhe tirar o filho que tem preso,
[na sesta, Crendo com o sangue só de morte
Que Vênus com prazeres inflamava, [indigna
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Matar o firme amor o fogo aceso.
Mas julgue-o quem não pode Que furor consentem que a
[experimentá-lo.” [espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
• Epílogo – são as considerações fi-
nais do poeta. Do furor mouro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?
“Não mais musa, não mais,
[que a lira tenho Traziam-na os horríficos algozes
Destemperada e a voz, enrouquecida, Ante o rei já movido à piedade;
E não do canto, mas de ver que venho Mas o povo, com as falsas e
Cantar a gente surda e endurecida. [ferozes
O favor com que se acende o engenho Razões, à morte crua o persuade.
Não nos dá pátria, não, Ela, com tristes e piedosas vozes,
[que está metida
Saídas só da mágoa e da saudade
No gosto da cobiça e da rudeza
Do seu príncipe e filhos, que
De uma austera, apagada e [deixava,
[vil tristeza.”
Que mais que a própria morte a
Trechos do episódio de [magoava.
Inês de Castro (...)
“Estavas linda Inês, posta em Do teu Príncipe ali te respondiam
[sossego, As lembranças que na alma lhe
De teus anos colhendo doce fruito, [moravam.
Naquele engano da alma, ledo e Que sempre ante seus olhos te
[cego, [traziam,
Que a fortuna não deixa durar muito, Quando dos teus fermosos se
Nos saudosos campos do Mondego, [apartavam;
De teus fermosos olhos nunca De noite, em doces sonhos que
[enxuito, [mentiam,
— 33 —

De dia, em pensamentos que “Eu sou aquêle oculto e grande Cabo


[voavam, a quem jamais vós outros Tormentório,
E quanto, em fim, cuidava e que nunca a Ptolomeu, Pompônio,
[quanto via [Estrabo,
Eram tudo memórias de alegria”. Plínio, e quantos passaram fui
Caracterizado por duas estrofes em [notório,
oitavas, os versos compõem o famoso Aqui toda a Africana costa acabo
decassílabo heróico e sáfico, feitos de
acordo com as convenções literárias do Neste meu nunca visto Promontório,
século XVI. Personagem central do episó- Que para o Pólo Antártico se
dio, Inês de Castro, que teve um romance [estende,
com D. Pedro I, amor proibido, pois este A quem vossa ousadia tanto
era casado e a família de Inês era ligada [ofende!”
aos inimigos dos portugueses. O pai, D.
Afonso IV, manda matá-la. D. Pedro, ao “O Gigante Adamastor” é um dos
saber disso, resolve desenterrá-la e co- episódios mais intensos e importantes
roá-la rainha. dos Lusíadas. Baseado em uma lenda
de origem desconhecida, devido sua an-
Trechos do episódio de tigüidade, narra a história de um gigan-
O Gigante Adamastor te, Adamastor, transformado pelos deu-
Porém já cinco Sóis eram passados ses no Cabo das Tormentas, localizado
Que dali nos partíramos, cortando no extremo sul da África, como castigo
Os mares nunca de outrem por ter se apaixonado por Tétis, esposa
[navegados, do rei grego Peleu, e ter visto-a nua.
Prosperamente os ventos Adamastor revela aos heróis por-
[assoprando, tugueses as desventuras que os aguar-
Quando uma noite, estando dam, num clima solene e trágico. A im-
[descuidados portância desse episódio para a narrati-
Na cortadora proa vigiando, va reside no fato de possuir vários sen-
tidos, que condensam a idéia central dos
Uma nuvem, que os ares escurece,
Lusíadas. O episódio situa-se exata-
Sobre nossas cabeças aparece. mente no meio do texto, o que reforça
(...) sua importância e força trágica.
— 34 —

Resumo do Renascimento
Momento sócio-cultural cas – redondilha menor e redondi-
lha maior) pela medida nova, pro-
• Renascimento: revalorização dos veniente da Itália (versos decassíla-
modelos culturais da Antiguidade bos – soneto).
clássica pela burguesia mercantilista
• Poesia lírica e poesia épica.
• Grandes navegações e desenvolvi-
mento do antropocentrismo (huma-
nismo) Autores e obras
• Reforma protestante: crise da Igreja
• Luis Vaz de Camões, poeta-filó-
católica.
sofo:
• Nascimento da ciência moderna.
Poesia lírica de influência medie-
val e clássica, de temática variada e
Características literárias abrangente (os mistérios da condição
humana, a presença do homem no
• Humanismo, antropocentrismo, racio- mundo, os conceitos e contradições
nalismo (decadência dos valores re- amorosas etc).
ligiosos).
Poesia épica: Os Lusíadas, nar-
• A arte como mimese: imitação de
ração da heróica viagem de Vasco
modelos da Antiguidade – harmonia,
da Gama às Índias e a eternização de
equilíbrio, proporção de formas.
um dos momentos mais gloriosos de
• Substituição da medida velha medie- Portugal, a época das grandes nave-
val (versos de 5 e 7 silabas métri- gações.
— 35 —

Barroco
“É um estilo voltado para a alusão (e restaurar um clima de religiosidade, con-
não a cópia) e para a ilusão enquanto trário às idéias da antigüidade clássica.
fuga da realidade convencional. Se par-
Estes fatores fizeram com que o
tirmos da exegese (interpretação) do
homem conciliasse os valores medie-
estilo barroco em termos de crise defen-
vais (teocentrismo) com os valores re-
siva da Europa pré-industrial, aristocráti-
nascentistas (antropocentrismo).
ca e jesuítica (Espanha e Portugal), pe-
rante o avanço do racionalismo burguês Essa situação contraditória provo-
(Inglaterra, Holanda, França), então en- cou o aparecimento de atitudes igual-
tenderemos o quanto de angústia, de mente contraditórias do artista face ao
desejo de fuga e de ilimitado subjetivismo mundo, à vida e a si mesmo.
havia nestas formas. E entenderemos
também a imagem barroca da vida como
um sonho, como uma comédia, como um
labirinto, um jogo de espelhos, uma festa:
A estética barroca
o triunfo da ilusão”.
(Alfredo Bosi) O Barroco opõe-se à estética clás-
sica: superfície X profundidade, forma
Surgiu no final do século XVII e início fechada X forma aberta, multiplicidade
do século XVIII na Espanha e se expandiu X unidade.
por toda a Europa. O movimento barroco
inicia-se, em Portugal, em 1580, com a O homem barroco foge das coisas
morte de Camões e termina com a funda- e sentimentos contraditórios que envol-
ção da Arcádia Lusitana. Está relaciona- vem a natureza humana, exaltando os
do à Contra-Reforma. valores cristãos – o homem volta-se
para Deus.
O século XVII é um período de gran-
des conflitos e contradições. A situação Podemos encontrar dois tipos de es-
de instabilidade política e a decadência tética barroca: a gongórica e a conceptista.
econômica nos países europeus foram
A estética gongórica está preocu-
fatores importantes para o surgimento
pada com a descrição das coisas. É fre-
deste movimento artístico.
qüente o uso de figuras de linguagem
O Barroco é fruto de um período em como a antítese, a metonímia, o parado-
que o conservadorismo da Igreja se inten- xo, o assíndeto, a metáfora, o simbolismo,
sifica, reagindo contra a inovação da épo- a sinestesia, a hipérbole e a catacrese,
ca e os valores burgueses, como o amor, além do uso de neologismos. Preocupa-
o luxo, o dinheiro etc. Procura-se, então, se com uma linguagem bem trabalhada.
— 36 —

A estética conceptista, no entan- A Lentidão burocrática e a


to, está preocupada em conhecer a es- “preguiça” do Brasil
sência das coisas, ao invés de descre-
Dizem que Hábis, filha d’el-rei Gór-
vê-las (teocentrismo). Utiliza-se mais da
gon, por haver sido criada nos bosques
razão do que da emoção. Há o uso de
com leite de uma cerva, saiu ligeiríssima
antíteses e paradoxos, tornando o ra-
no correr. Estou considerando que leite
ciocínio mais ambíguo em busca da sa-
mamaria uma destas causas ou requeri-
tisfação da inteligência.
mentos na mão dos ministros e seus ofi-
A linguagem barroca é exagerada ciais, que não há remédio a fazê-la cor-
de imagens e figuras de linguagem, rer. Se beberia o leite da preguiça do Bra-
sil (a quem os Castelhanos chamaram
preocupa-se com a aparência e expõe
por ironia perrillo ligero), que gasta dois
assuntos que envolvem a religião pro-
dias em subir a uma árvore e outros dois
blemática da época, através de con-
em descer?
traste de temas, assuntos, motivos e
elementos expressivos como vida eter- Mas não é adequado o símil. Porque
na X vida terrena, espiritualidade X a preguiça do Brasil anda devagar, mas
materialidade, corpo X alma, eu X mun- anda; e a preguiça do Reino e seus minis-
do, cristianismo X Reforma, Deus X tros, a cada passo pára e dorme. Dois me-
homem, vida X morte, religioso X pro- ses para entrar um papel, e parou; outros
fano (erotismo), real X ideal, espírito X dois, para subir a consulta, e tornou a pa-
carne, sensualismo X misticismo, rea- rar; outros dois, para descer abaixo, e
lismo X idealismo, céu X terra – tensão temo-la outra vez parada. Mais tantos me-
provocada pela Fé e pela Razão. ses para se verem os autos, mais outros
tantos para se formar a tensão, mais tan-
Além da religiosidade, o artista bar- tos anos para embargos, apelações, visi-
roco retrata também a sensualidade, tas, revistas, réplicas e tréplicas... Oh
tanto em relação à natureza como ao preguiça do Brasil, já eu digo, não por iro-
corpo humano. nia, senão por boa verdade, que tu em
comparação da preguiça do Reino és
Principais artistas barrocos: perrillo ligero.
In REBELO, Marques, org. Antologia escolar portuguesa.
Rio de Janeiro: FENAME/MEC, 1970, p. 261.

Padre Manuel Bernardes


(1644 – 1710) Francisco Rodrigues Lobo
(1580-1622)
Produziu obras de cunho místico e
moralista (didático) com uma linguagem Poeta bucólico e de influência camo-
simples e espontânea. Sua principal obra niana, escreveu obras como Romanceiro,
foi Nova Floresta. Éclogas, Pastor Peregrino e outros.
— 37 —

Fermoso Tejo meu, quão diferente Se só por ser de mim tão receada,
Te vejo e vi, me vês agora e viste: Com dura execução me tira a vida
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste, Que fará se chegar a ser sabida?
Que fará se passar de suspeitada?
Claro te vi eu já, tu a mim contente.
Porém se já me mata, sendo incerta,
A ti foi-te trocando a Somente imaginá-la e presumi-la,
[grossa enchente Claro está (pois da vida o fio corta)
A quem teu largo campo não resiste;
O que fará depois quando for certa:
A mim trocou-me a vista
– ou tornar a viver, para senti-la,
[em que consiste
ou senti-la também depois de morta.
O meu viver contente ou descontente.
I
Já que somos no mal participantes,
Se apartada do corpo a doce vida,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Domina em seu lugar a dura morte,
Que fôramos em tudo semelhantes! De que nasce tardar-me tanto a
[morte
Mas lá virá a fresca primavera;
Se ausente da alma estou, que me
Tu tornarás a ser quem eras de
[dá vida?
[antes,
Eu não sei se serei quem de antes Não quero sem Silvano já ter vida,
[era. Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a
[morte,
Sóror Violante do Céu
Perca-se por Silvano a minha vida.
(1601-1693)
Ah! suspirado ausente, se esta
Produziu poemas marcados pelo [morte
sentido passional, pelas imagens sutis Não te obriga querer vir dar-me vida,
e pela veemência. Depois de entrar para Como não ma vem dar a mesma
o convento, impregna suas poesias de [morte?
cunho religioso. Sua principal obra foi
Rimas Várias. Mas se na alma consiste a própria
[vida,
Amor, se uma mudança imaginada Bem sei que se me tarda tanto a
É já com tal rigor minha homicida, [morte,
Que será de passar de ser temida, Que é porque sinta a morte de tal
A ser, como temida, averiguada? [vida.
— 38 —

II
Frei Luís de Sousa
Se era brando o rigor, firme a
[mudança,
(1555 – 1632)
Humilde a presunção, vária a Historiador rigoroso, escreveu Histó-
[firmeza, ria de São Domingos e Anais de D. João III.
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a
[confiança.
Sóror Mariana Alcoforado
(1640 – 1723)
Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza, Escreveu Cartas Portuguesas em
Lhana a ficção, sofística a 1669, atribuídas a um amor proibido, uma
[lhaneza, paixão violenta, incontrolada e não cor-
respondida por um militar, o capitão Cha-
Áspero o amor, benigna a milly.
[esquivança;
Nestas cinco cartas, a consciên-
Será merecimento a indignidade, cia moral é suplantada pelo sentimento
Defeito a perfeição, culpa a amoroso e pela ânsia de esquecer uma
[defensa, relação pecaminosa, mas que ainda as-
Intrépido o temor, dura a piedade, sim era ardentemente desejada.

Delicto a obrigação, favor a ofensa, Transcrição da primeira carta:


Verdadeira a traição, falsa a
Vê lá tu, meu amor, como foste te
[verdade,
iludir!
— Antes que vosso amor meu
[peito vença. Ah! Coitado de ti enganaste-te e
enganaste-me com esperanças menti-
(...)
rosas.
Tantas esperanças de gosto nos
Francisco Manuel de Melo dava o nosso amor, e causa-nos agora
(1608 – 1667) o mortal desespero que só pode com-
parar-se à crueldade desta separação.
Era voltado para a poesia lírica, a Pois que! A tua ausência, para que
historiografia, o teatro e a prosa filosófi- a minha dor não acha nome bastante
ca e moralizante. Sua principal obra foi triste, há de privar-me para sempre de
Carta de Guia aos Casados, que retra- me mirar nos teus olhos, onde eu via
ta as relações conjugais de forma irôni- tanto amor, que me enchiam de alegria,
ca e humorística. que eram tudo para mim?
— 39 —

Ai de mim! Os meus olhos perde- Suas principais obras são: Sermão


ram a luz que os alumiava e não fazem da Sexagésima (fala da arte de pregar)
senão chorar. e Sermão de Santo Antônio ou Sermão
aos Peixes (fala a respeito da escravi-
(...) dão indígena) e são divididas em: intro-
Mil vezes em cada dia lá te mando dução, argumentação e peroração.
os meus suspiros; e não me trazem para
Sermão da quarta feira de cinzas
alívio de tantos males senão este ajui-
zado aviso à minha desventura, que (fragmento)
estou sempre a ouvir:
Ora suposto que já somos pó, e não
— Deixa, pobre Mariana, deixa de pode deixar de ser, pois Deus o disse: per-
querer àquele que atravessou o mar para guntar-me-eis, e com muita razão, em que
te fugir, que está em França no meio dos nos distinguimos logo os vivos dos mor-
prazeres, que não pensa um instante tos? Os mortos são pó, nós também somos
no que sofres, nem te agradece, e que pó; em que nos distinguimos uns dos ou-
te dispensa de o amares tanto... tros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos,
assim como se distingue o pó do pó. Os vi-
vos são pó levantado, os mortos são pó
Padre Antônio Vieira caído; os vivos são pó que anda, os mor-
(1608-1697) tos são pó que jaz: Hic jacet. Estão essas
praças no verão cobertas de pó: dá um pé-
Nasceu em Lisboa no ano de 1608. de-vento, levanta-se o pó no ar e que se
Ainda menino, vem para o Brasil e estu- faz? Os que fazem os vivos, e muitos vi-
da no Colégio dos Jesuítas. Ordena-se vos. Não aquieta o pó, nem pode estar
em 1634. Com a restauração portugue- quedo; anda, corre, voa; entra por esta rua,
sa, depois do domínio espanhol, muda- sai por aquela, já vai adiante, já torna atrás;
se para Portugal, porém, não consegue tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo
se adaptar à realidade portuguesa, de- perturba, tudo toma, tudo cega, tudo pene-
vido à decadência do país e à Inquisição. tra: em tudo e por tudo se mete, sem aquie-
Volta para o Brasil e passa a morar no tar e sossegar um momento, enquanto o
Maranhão. Morre em 1697, aos 89 anos. vento dura. Acalmou o vento; cai o pó, e
onde o vento parou, ali fica; ou dentro de
Dividido entre dois mundos – euro- casa, ou na rua, ou em cima de um telhado,
peu e brasileiro – e de estilo predominan- ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na
temente conceptista, o autor estabelece campanha. Não é assim? Assim é. E que
analogias e comparações da época e pó, e que vento é este? O pó somos nós:
passagens bíblicas, apresentando uma Quia pulvis est: o vento é a nossa vida.
grande profundidade de raciocínio. Con- Quia ventus est vita mea. Deu o vento, le-
siderado o maior orador sacro da histó- vantou-se o pó; parou o vento, caiu. Deu o
ria portuguesa, critica os pregadores cul- vento, eis o pó levantado; estes são os vi-
tistas, por possuírem discursos ocos. vos. Parou o vento, eis o pó caído; estes
— 40 —

são os mortos. Os vivos pó, os mortos pó; acaba. Atreve-se o tempo a colunas de
os vivos pó levantado, os mortos pó caído; mármore, quanto mais a corações de
os vivos pó com vento, e por isso vão; os cera? São as afeições como as vidas,
mortos pó sem vento, e por isso sem vai- que não há mais certo sinal de haverem
dade. Esta é a distinção e não há outra. de durar pouco, que terem durado mui-
to. São as linhas, que partem do centro
Sermões para a circunferência, que quanto mais
continuadas, tanto menos unidas. Por
Há de tomar o pregador uma só
isso os Antigos sabiamente pintaram o
matéria, há de defini-la para que se co-
amor menino; porque não há amor tão
nheça, há de dividi-la para que se
robusto que chegue a ser velho. De to-
distingüa, há de prová-lo com a Escritu-
dos os instrumentos com que o armou a
ra, há de declará-la com a razão, há de
natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-
confirmá-la com o exemplo, há de am-
lhe o arco, com que já não atira; embota-
plificá-la com as causas, com os efei-
lhe as setas, com que já não fere; abre-
tos, com as circunstâncias, com as con-
lhes os olhos, com que vê o que não via;
veniências que se hão de seguir, com os
e faz-lhe crescer as asas, com que voa
inconvenientes que se devam evitar, há
e foge. A razão natural de toda esta dife-
de responder às dúvidas e há de satis-
rença, é porque o tempo tira a novidade
fazer as dificuldades, há de impugnar e
às cousas, descobre-lhe os defeitos, en-
refutar com toda a força da eloqüência
fastia-lhe o gosto, e basta que sejam usa-
os argumentos contrários, e depois dis-
das para não serem as mesmas. Gasta-
so, há de colher, há de apertar, há de
se o ferro com o uso, quanto mais o amor?
concluir, há de persuadir, há de acabar...
O mesmo amar é causa de não amar, e o
Neste sermão, há uma enumeração, ter amado muito, de amar menos.
ou seja, uma lista de elementos que ca- O sermão acima mencionado não
racterizam o ato de pregar, através de se enquadra, em princípio, como sendo
um tom de oratória, de pregação. Atra- um texto literário, por não se tratar de
vés do conceptismo, Vieira se utiliza de uma poesia, romance, conto, ou novela.
três recursos para a elaboração do ser- Entretanto há uma literalidade por se re-
mão: a escritura, a razão e o exemplo. ferir ao tema Amor.
Vieira também utiliza-se de textos Carta
bíblicos como referencial – fazendo ana-
(fragmento)
logias com o cotidiano.
Senhor, os reis são vassalos de
Sermão do Mandato Deus e, se os reis não castigam os seus
(fragmento) vassalos, castiga Deus os seus. A cau-
sa principal de se não perpetuarem as
O primeiro remédio que dizíamos, é coroas nas mesmas nações e famílias é
o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz a injustiça, ou são as injustiças, como
esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo diz a Escritura Sagrada; e entre todas
— 41 —

as injustiças nenhuma clama tanto ao servação e aumento do Estado do Mara-


céu como as que tiram a liberdade aos nhão; isto, Senhor, é heresia. Se por não
que nasceram livres, e as que não pa- fazer um pecado venial, se houver de per-
gam o suor aos que trabalham; e estes der Portugal, perca-o Vossa Majestade e
são e foram sempre os dois pecados dê por bem empregada tão cristã e tão glo-
deste Estado, que ainda tem tantos de- riosa perda; mas digo que é heresia, ainda
fensores. A perda do Senhor rei D. Se- politicamente falando, porque sobre os
bastião em África, e o cativeiro de ses- fundamentos da injustiça nenhuma cousa
senta anos que se seguiu a todo o rei- é segura nem permanente; e a experiência
no, notaram os autores daquele tempo o tem mostrado neste mesmo Estado do
que foi castigo dos cativeiros, que na Maranhão, em que muitos governadores
costa da mesma África começaram a adquiriram grandes riquezas e nenhum
fazer os nossos primeiros conquista- deles as logrou nem elas se lograram; nem
dores, com tão pouca justiça como a há cousa adquirida nesta terra que perma-
que se lê nas mesmas histórias. neça, como os mesmos moradores dela
As injustiças e tiranias, que se tem confessam, nem ainda que vá por diante,
executado nos naturais destas terras, ex- nem negocio que aproveite, nem navio que
cedem muito às que se fizeram na África. aqui se faça que tenha bom fim; porque
Em espaço de quarenta anos se mataram tudo vai misturado com sangue dos po-
e se destruíram por esta costa e sertões bres, que está sempre clamando ao céu.
mais de dois milhões de índios, e mais de Este trecho pertence a uma carta e,
quinhentas povoações como grandes ci- também não pode se enquadrar como um
dades, e disto nunca se viu castigo. Proxi- texto literário, por não se tratar de um
mamente, no ano de 1655, se cativaram no romance, poesia, conto ou novela. No en-
rio das Amazonas dois mil índios, entre os tanto, há, também, literalidade nesta, pois
quais muitos eram amigos e aliados dos está dirigida ao Rei de Portugal e começa
portugueses, e vassalos de Vossa Majes- com uma afirmação religiosa. Depois
tade, tudo contra a disposição da lei que Vieira refere-se à causa do tema que vai
veio naquele ano a este Estado, e tudo desenvolver, recorrendo citações das
mandado obrar pelos mesmos que tinham escrituras sagradas. O autor compara as
maior obrigação de fazer observar a mes- tiranias na África com as tiranias e as
ma lei; e também não houve castigo: e não injustiças da colônia: a morte de milhares
só se requer diante de Vossa Majestade a de índios, a desobediência pela coroa de
impunidade destes delitos, senão licença suas próprias leis, a impunidade etc. Con-
para os continuar! (...) Dirão porventura cluindo: o conceptismo amarra as idéias
(como dizem) que destes cativeiros, na relacionadas com uma ética religiosa e
forma em que se faziam, depende a con- política, cuja atualidade não se perdeu.
— 42 —

Resumo do Barroco
Momento sócio-cultural • Predominância de duas tendências,
que se interpenetram: cultismo (re-
• Contra-reforma: reação da Igreja buscamento formal, jogo sensorial
católica. de palavras) e conceptismo (sofisti-
• Os novos valores humanistas, de- cação no plano das idéias e argu-
fendidos pela burguesia, chocam- mentações paradoxais).
se com os valores teocêntricos, re-
presentados pelo clero. Autores e Obras
• Começa em Portugal o domínio es-
panhol, que dura de 1580 a 1640. • Padre Antônio Vieira: maior ora-
dor sacro da língua, escreveu Ser-
Características literárias mões (15 volumes, entre 1679-1718),
História do Futuro (1718) e outras.
• Antítese, dualidade, contradição: o sa-
grado e o profano, a razão e a emoção, • Francisco Manuel de Melo: estu-
o espiritual e o carnal, vida e morte, dou com os jesuítas e seguiu a car-
medievalismo e Renascimento. reira militar. Escreveu Carta de Guia
de Casados (1651), Cartas Famili-
• Literatura baseada em antíteses, pa- ares (1664), Obras Métricas (1665).
radoxos, inversões sintáticas (hi-
pérbatos) e exageros (hipérboles) • Padre Manuel Bernardes: escre-
que expressam a angústia existencial veu Nova Floresta (5 volumes, 1706-
barroca. 1728), Luz e Calor (1696).
— 43 —

Arcadismo
O inicio do século XVIII é marcado ras obras seu estilo satírico e anticle-
pela decadência do pensamento barro- rical, criticando ferozmente a Igreja de
co, cujos fatores básicos são: o exage- sua época. Proclamou ódio pelas mo-
ro da expressão barroca, que havia narquias absolutas e sua admiração
cansado o público; a ascensão da bur- pela monarquia liberal inglesa. Suas
guesia supera o domínio religioso; o sur- principais obras foram: Édipo, A Hen-
gimento das primeiras arcádias, enfati- ríada, Cartas Filosóficas, Cândido ou
zando a pureza e a simplicidade. o Otimismo e o Dicionário Filosófico.
A palavra Arcadismo tem sua origem • Montesquieu – preocupado com a
em Arcádia, uma antiga região da Grécia, renovação, contribuiu com a idéia da
de relevo montanhoso, habitada por pas- divisão de poderes como recurso
tores que conciliavam os seus trabalhos para se evitar o autoritarismo. Em sua
com a poesia, cantando o paraíso rústico obra Do Espírito das Leis, Montes-
em que viviam e simbolizando-o como quieu defendeu a idéia de que cada
uma terra de inocência e felicidade. um dos três poderes (Legislativo,
Executivo e Judiciário), deve estar
O Arcadismo desenvolveu-se ao lon-
em mãos distintas. Em Cartas Persas
go do século XVIII, influenciado pela Revo-
critica os costumes da sociedade.
lução Francesa, movimento revolucionário
de ideologia liberal burguesa, responsável • Rousseau – com sua teoria do bom
pela queda do absolutismo e da economia selvagem, defendeu a natureza vir-
mercantilista e pela extinção do antigo sis- gem e foi admirador do homem sel-
tema feudal. O Arcadismo ficou também co- vagem. Desprezou o otimismo um tan-
nhecido por setecentismo (os anos 1700) to ingênuo dos enciclopedistas. Afir-
e neoclassicismo e refletiu uma época que mou que as artes e as ciências ti-
ficou conhecida como o Século das Luzes nham contribuído para o progresso
ou Iluminismo, movimento filosófico cujo da humanidade, mas também a cor-
objetivo era o de defender a liberdade de romperam. Escreveu Discurso sobre
pensamento e usar a razão como instru- as Ciências e as Artes e Do Contra-
mento de análise e domínio da realidade. to Social. Posteriormente, deu ênfa-
Lutaram contra os excessos do Barroco e se à importância da Educação, com
defenderam uma arte racional e didática. sua obra Emílio.
Dentre os diversos pensadores ilu-
Inspirados nestes pensadores e
ministas, destacam-se:
suas teorias, os árcades voltam-se para
• Voltaire – possuidor de idéias filosófi- a natureza em busca de uma vida sim-
cas e políticas, mostrou em suas primei- ples, bucólica e pastoril, fugindo, assim,
— 44 —

dos centros urbanos. A natureza pas- ras e hipérboles deixadas pela es-
sa a ser, então, um refúgio ao homem tética anterior;
civilizado.
6. utilizam-se da natureza em suas poe-
Sua preocupação prioritária era a sias, tornando-as de aspecto bucó-
de formular uma sociedade mais iguali- lico e ingênuo;
tária. Teve sua fundação no culto das
ciências, da razão e do progresso. 7. dão ênfase à linguagem simples, po-
rém, sem perder a sua nobreza;
De espírito reformista, o Arcadismo
pretende, reformular o ensino, os hábi- 8. possuem uma tendência introspectiva;
tos e as atitudes sociais. Propunha a
restauração da simplicidade na lingua- 9. há o culto excessivo à natureza;
gem, abandonando as figuras de lingua-
gem – antíteses, metáforas, paradoxos 10. a linguagem torna-se melodiosa;
– dando mais ênfase a uma linguagem
11. usam pseudônimos pastoris. Ex: El-
direta.
mano Sadino (Bocage).
Em oposição aos artistas barrocos,
que preferiam a fuga da realidade, o Ar- Este movimento chega a Portugal
cadismo valoriza o tempo presente. em 1756 com a fundação da Arcádia
Lusitana e teve seu término em 1825,
O artista árcade, além de tomar a com a publicação do poema Camões,
vida campestre e suas paisagens como de Almeida Garret.
modelos, incorpora, em suas obras, a
mitologia, usando-se de deuses e he- Com o lema da Arcádia Lusitana de
róis da história grega. cortar as coisas inúteis, os árcades
passam a buscar, então, a simplicidade,
Resumidamente falando, podemos a linguagem mais clara, a metrificação
citar diversas características da arte li- simples e o uso de versos brancos (sem
terária arcadista: rima).
1. volta aos modelos greco-romanos;
Permanece a presença da mitolo-
2. predominam a razão e a ciência, em gia greco-romana e há uma restaura-
oposição à fé e a religião; ção de alguns escritores como Virgílio,
Horácio, Teócrito, Camões e Sá de Mi-
3. há o retorno ao equilíbrio, reagindo randa.
contra os preceitos barrocos quan-
Com o governo de Marquês de Pom-
to ao desequilíbrio;
bal, há em Portugal uma preocupação em
4. buscam a perfeição da forma; modernizar a sociedade portuguesa e ex-
pulsar os jesuítas do sistema educacional
5. procuram um estilo simples de lin- português. Daí o Marquês de Pombal ser
guagem, despojando-o das metáfo- conhecido como déspota esclarecido.
— 45 —

Resumidamente falando, podemos


citar diversas características da arte li- Padre Francisco Manuel
terária arcaica: do Nascimento
1. Volta aos modelos greco-romanos (1734-1819)
e à arte camoniana.
2. Predominam a razão e a ciência, em Destacou-se nos sonetos. Ficou co-
oposição à fé e a religião. nhecido por seus pseudônimos Niceno
3. Há o retorno ao equilíbrio, reagindo e Filinto Elísio.
contra os preceitos barrocos quan-
to ao desequilíbrio.
Luis Antonio Verney
4. Buscam a perfeição da forma.
(1713 – 1792)
5. Procuram um estilo simples de lin-
guagem, despojando-se das metá-
foras e hipérboles deixadas pela es- Pseudônimo de Frade Barbadinho,
tética anterior. publicou O Verdadeiro Método de En-
sinar.
6. Utilizam-se da natureza em suas po-
esias, tornando-as de aspecto bucó-
lico e ingênuo. Frei José de Santa
7. Dão ênfase à linguagem simples, po- Rita Durão
rém, sem perder a sua nobreza.
8. Possuem uma tendência introspec-
(1722 – 1784)
tiva.
É o autor de Caramuru, poema cu-
9. Há o culto excessivo à natureza (ro- jos traços estilísticos imitam os de Ca-
cocó). mões. Nesta obra, o herói é Diogo Álva-
10. A linguagem torna-se melodiosa. res Correia e a obra retrata a subordi-
nação do índio ao colonialismo europeu.
11. Usam pseudônimos pastoris. Ex: Bo-
cage (Elmano Sadino). Canto VI
Podemos destacar, como principais (...)
autores: Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo
Correia Garção [assombrada;

(1724 – 1772) E ignorando a ocasião da estranha


[empresa,
Escreveu sátiras, epístolas, sone- Pasma da turba feminil, que nada:
tos e duas comédias: Teatro Novo e As- Uma, que às mais precede em
sembléia ou Partida. [gentileza,
— 46 —

Não vinha menos bela, do que SADINO – homenagem ao rio Sado,


[irada: que passa por Setúbal, sua terra natal.
Era Moema, que de inveja geme,
Boêmio, conheceu a vida devassa
E já vizinha à nau se apega ao leme em Lisboa, depois de se decepcionar
(...) amorosamente.
Perde o lume dos olhos, pasma e
[treme,
A poesia lírica de Bocage
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o Bocage, ou Elmano Sadino, culti-
[leme, vou a lírica bucólica e amorosa, através
Entre as salsas escumas desce ao de suas odes, elegias, canções, epís-
[fundo: tolas e sonetos. Influenciado por Ca-
mões, podemos encontrar em seus so-
Mas na onda do mar, que irado
netos traços do artista clássico, além
[freme,
de traços pessoais do próprio Bocage,
Tornando a aparecer desde o através de uma linguagem mais prosai-
[profundo: ca e até mesmo coloquial.
“Ah! Diogo cruel!” disse com mágoa,
e sem vista ser, sorveu-se n’água. Soneto
Camões, grande Camões, quão
[semelhante
Manuel Maria Barbosa
Acho teu fado ao meu, quando
du Bocage [os cotejo
(1765 –1805) Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co’o sacrílego gigante;
Integrou-se em 1790 ao Arcadismo
com a publicação de Pavorosa Ilusão Como tu, junto ao Ganges
da Eternidade. Foi considerado o poeta [sussurrante,
mais importante do século XVIII em Por- Da penúria cruel no horror me vejo;
tugal. Escreveu poesia lírica e satírica,
Como tu, gostos vãos, que em
em idílios, odes, epigramas, canções,
[vão desejo,
elegias e, principalmente, em sonetos.
Também carpindo estou,
Sua maior obra foram As Rimas. [saudoso amante.
Por sua sensibilidade e lirismo subjetivo,
foi considerado um pré-romântico. Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Bocage ficou conhecido por seu pseu-
Meu fim demando ao Céu,
dônimo Elmano Sadino:
[pela certeza
ELMANO – anagrama de Manoel. De que só terei paz na sepultura.
— 47 —

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!... Encontrardes alguns, cuja aparência


Se te imito nos transes da Ventura, Indique festival contentamento,
Não te imito nos dons da Natureza.
Crêde, ó mortais, que foram com
BOCAGE, M. M. Barbosa. Sonetos. Lisboa: Bertland, [violência
s d. p. 207.
Escritos pela mão do Fingimento,
Neste soneto o poeta faz um para- Cantados pela voz da Dependência.
lelo de sua vida com a do poeta Camões.
A poesia lírica de Bocage é dividi-
Lusos heróis, cadáveres cediços,
da em:
Erguei-vos dentre o pó, sombras
• Lírica Arcádica ou da 1ª Fase – en- [honradas,
contramos a presença de regras e Surgi, vinde exercer as mãos
convenções trazidas pelo Arcadismo. [mirradas
O poeta adota uma atitude de artificia-
Nestes vis, nestes cães, nestes
lismo poético, dotando sua poesia de
[mestiços.
imagens mitológicas e clássicas. Procu-
ra utilizar o racionalismo, porém, a sua
Vinde salvar destes pardais
sensibilidade o levou a uma expressão
[castiços
mais emotiva, pessoal e sincera.
As searas de arroz, por vós
O artista demonstra o seu “eu” tur- [ganhadas;
bulento em reação à impessoalidade e o
Mas ah! Poupai-lhe as filhas
fingimento da poesia árcade.
[delicadas,
Sonetos Que elas culpa não têm, têm mil
[feitiços.
Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores: De pavor ante vós no chão se deite
Vêde-as com mágoa, vêde-as Tanto fusco rajá, tanto nababo,
[com piedade,
E as vossas ordens, trémulo,
Que elas buscam piedade, [respeite.
[e não louvores:
Vão para as várzeas, leve-os o
Ponderai da Fortuna a variedade [Diabo;
Nos meus suspiros, lágrimas e Andem como os avós, sem mais
[amôres; [enfeite
Notai dos males seus a imensidade,
Que o langotim, diâmetro do rabo.
A curta duração dos seus favores: M. M. B. Sonetos in Moisés, Massaud. A Literatura
Portuguesa através dos textos. 9. ed. São Paulo: Cultrix,
E se entre versos mil de sentimento 1980, p. 226.
— 48 —

• Lírica Pré-Romântica ou da 2ª Fa- Esta alma, que sedenta em si


se – em seus poemas, encontramos [não coube,
um reflexo de si mesmo. Destaca-se o No abismo vos sumiu dos
lado psicológico, através do sentimento [desenganos;
e da personalidade do autor, gerando
um gosto pelo noturno, por formas ma- Deus, oh Deus!... Quando a morte
cabras e tendo a morte como única so- [à luz me roube
lução para os seus problemas:
Ganhe um momento o que
“Ó retrato da Morte, ó Morte amiga [perderam anos,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!” Saiba morrer o que viver
[não soube.
O artista se opõe totalmente à de- BOCAGE, M. M. Barbosa. Sonetos. Lisboa, Bertland,
pendência e ao despotismo, em nome s d . p. 67.
da Razão.
Este soneto foi composto momen-
Em seus poemas, encontramos o tos antes da morte de Bocage.
cultivo a uma vida fúnebre e noturna,
exprimindo sentimentos negativos como
o ciúme, a blasfêmia e a contrição, ge- Ó retrato da morte! Ó Noite amiga,
rados pelo abandono, além de uma lin- Por cuja escuridão suspiro há
guagem pessimista e fatalista: [tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
Sonetos
De meus desgostos secretária
Meu ser evaporei na lida insana [antiga!
Do tropel de paixões, que me
[arrastava: Pois manda Amor que a ti somente
[os diga
Ah! Cego eu cria, ah! mísero
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
[eu sonhava
Ouve-os, como costumas, ouve,
Em mim quase imortal a
[enquanto
[essência humana:
Dorme a cruel que a delirar me
De que inúmeros sóis a mente ufana [obriga.
Existência falaz me não dourava! E vós, ó cortesãos da escuridade,
Mas eis sucumbe Natureza escrava Fantasmas vagos, mochos
Ao mal, que a vida em sua [piadores,
[origem dana. Inimigos, como eu, da claridade!

Prazeres, sócios meus, e Em bandos acudi aos meus


[meus tiranos! [clamores;
— 49 —

Quero a vossa medonha Que ferve esta alma em


[sociedade, [cândidos amores;
Quero fartar meu coração de Longe o prazer de ilícitos favores!
[horrores. Quero o teu coração, mais nada quero.
Bocage procura fazer uma auto-aná-
lise e disso encontramos traços vivos em Ah! Não sejas também qual comigo
sua poesia: confissões, arrependimen- A cega divindade, a Sorte dura,
tos, tensão dramática, sofrimento, luta A vária Deusa, que me nega abrigo!
entre a Razão e o Sentimento, a cabeça e
o coração: Tudo perdi: mais valha-me a ternura
Amor me valha, e pague-me contigo
“Razão, de que me serve
[o teu socorro? Os roubos que me fez a má ventura.
Mandas-me amar, eu ardo, eu amo; BOCAGE, M. M. B. Sonetos. Lisboa: Bertland, s. d., p. 67

Dizes-me que sossegue, eu penso,


Gertrúria = pseudônimo de Gertru-
[eu morro.”
des, o verdadeiro amor do poeta, que se
Observando-se estes dois períodos casou com seu próprio irmão, Gil Fran-
da poesia lírica de Bocage, podemos di- cisco Barbosa du Bocage.
zer que a 1ª fase do artista é mais volta-
da ao seu lado emotivo, refletindo uma
fase romântica de sua vida, quando co- A poesia satírica de Bocage
nheceu seu grande amor, Gertrudes.
Bocage, em suas sátiras, critica o po-
A 2ª fase, no entanto, por sua lingua-
der e ironiza o clero e a nobreza decaden-
gem e expressão mais negativa, reflete a
te. Sua linguagem é obscena e erótica:
sua nova vida, quando descobriu que sua
amada casou-se com o seu irmão; e a par- “Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.
tir daí, passou a levar uma vida errante e Amar é um dever, além de um gosto,
boêmia:
Uma necessidade, não um crime,
Eu deliro, Gertrúria, eu desespero Qual a impostura horríssona apregoa.
No inferno de suspeitas e temores. Céus não existem, não existe inferno,
Eu da morte as angústias e O prêmio da virtude é a virtude,
[os horrores
É castigo do vício o próprio vício.”
Por mil vezes sem morrer tolero.
Neste poema, Bocage renega aos
Pelo Céu, por teus olhos “céus”, associados à visão sensual do
[te assevero. amor, que é a prisão do poeta.
— 50 —

Resumo do Arcadismo

Momento sócio-cultural • Didatismo na literatura: o texto como


forma de ilustração, de “iluminação”
• Iluminismo, enciclopedismo, despo- intelectual (neoclassicismo).
tismo esclarecido: aliança entre os
reis e a burguesia, formação da ide- • Lemas arcádicos: carpe diem (viver
ologia burguesa. o momento), fugere urbem (fugir da
cidade), inutilia truncat (cortar o que
Características literárias é inútil).

• O texto como momento de lazer, de


experiência amena com o belo, de Autores e obras
distração, de idealização de um
mundo pastoril e bucólico (arca- • Correia Garção: um dos principais
dismo). teóricos do Arcadismo. Escreveu
• Uso de pseudônimos pastoris, que Teatro Novo (1766) e Assembléia
remontam à Antiguidade. ou Partida (1770), Obras Poéticas
(1778).
• Fundação de Arcádias, academias
literárias. • Manuel Maria Barbosa du Boca-
ge: o maior poeta português do sécu-
• Revigoramento do racionalismo clas- lo XVIII, e um dos maiores da língua.
sicista (neoclassicismo) em oposição Autor de Rimas (1791), posterior-
ao Barroco. mente acrescida de novos textos.
— 51 —

Romantismo
Movimento artístico que teve seu Principais Características
início em meados do século XVIII, esten-
• volta ao passado para fugir dos con-
dendo-se até metade do século XIX. O
flitos do mundo atual;
tema central desta estética foi a “liber-
dade do indivíduo em relação ao poder • o romântico opõe-se ao modelo clássico;
dominante da aristocracia”. Com isto, ex-
• opõe-se à arte de caráter erudito e
terna-se a emoção e o sentimentalismo.
nobre, tornando-se uma arte de cará-
Os românticos buscam uma arte indivi-
ter popular, que valoriza o nacional;
dualista, em que o “eu” torna-se o cen-
tro de tudo. • o indivíduo passa a ser o centro das
atenções, carregado de imaginação e
O nacionalismo, o sentimentalismo, sentimentos;
o subjetivismo e o irracionalismo são
características marcantes no Romantis- • os românticos cultivavam o naciona-
mo inicial. lismo, que se manifestava na exal-
tação da natureza pátria, no retorno
O Romantismo busca explicar o ao passado histórico e na criação do
nacionalismo e a valorização do passa- herói nacional (o belo e valente cava-
do, voltando-se ao amor medieval, que leiro medieval);
passa a ser o tema de grandes roman- • cultuam-se os ideais da Idade Média;
ces e poemas.
• promove uma volta ao catolicismo me-
Em Portugal, Almeida Garret inau- dieval;
gurou o movimento com o poema Ca-
• supervalorização das emoções pes-
mões, em 1825. Os primeiros anos do
soais – subjetivismo;
Romantismo em Portugal coincidem com
as lutas civis entre liberais e conserva- • excessiva valorização do eu, geran-
dores, acirradas por uma guerra que do o egocentrismo;
durou dois anos. • o sentimento passa a predominar so-
Segundo Alfredo Bosi, em História bre a razão;
Concisa da Literatura Brasileira, “o Ro- • a natureza passa a ser o tema poéti-
mantismo expressa o sentimento dos co para o romântico;
descontentes com as novas estruturas:
• a criação é um ato de liberdade;
a nobreza que já caiu, e a pequena bur-
guesia que ainda não subiu: de onde as • fuga à realidade para um mundo ima-
atitudes saudosistas ou reivindicatórias ginário, criado a partir de sonhos e
que pontuam todo o movimento”. emoções;
— 52 —

• busca-se um mundo perfeito e ideal; encontrada em Flores sem Fruto e Fo-


lhas Caídas, uma obra mais voltada para
• valorização da linguagem popular;
o amor, refletindo as experiências pesso-
• os versos são livres, sem métrica e ais, dores e angústias de seu relaciona-
sem estrofação; há a existência, tam- mento com a Viscondessa da Luz. Re-
bém, de versos brancos (sem rima). trato de Vênus e Dona Branca também
são obras importantes do artista. Garret
O Romantismo português é dividido destaca-se também no teatro com Um
em três gerações: Auto de Gil Vicente e Frei Luís de Sousa.
Primeira geração – permanecem
alguns valores neoclássicos. Frei Luís de Sousa

Segunda geração – é o chamado Adotando a forma da tragédia gre-


ultra-romantismo, onde as característi- ga, Garret constrói o enredo em torno
cas românticas são levadas ao exagero. de um triângulo amoroso: D. Madalena
de Vilhena, Manuel (Frei Luís) de Sousa
Terceira geração – é a transição e Romeiro (D. João de Portugal).
para o Realismo.
Madalena vive num constante con-
flito interior, pois, apesar de ter se casa-

Primeira Geração do com Manuel de Sousa Coutinho, nun-


ca teve certeza da morte de seu primei-
ro marido, D. João de Portugal. Sua pre-
sença permanece viva, graças a pre-
sença de um romeiro que regressava
João Batista da Silva da peregrinação a Jerusalém e que, pos-
Leitão de Almeida Garret teriormente vem a revelar sua identida-
de – era o próprio D. João. A este fato, o
(1799 – 1854) casal resolve se separar, a fim de dedi-
car o resto de seus dias à Igreja.
Foi o iniciador do Romantismo e res-
ponsável pela evolução do teatro portu- O título da peça põe em destaque
guês. Nascido de família enriquecida no a figura de Frei Luís de Sousa, nome
Brasil, foi educado para padre, mas aca- que Manuel tomará ao abraçar a vida
bou formando-se em Direito na faculdade religiosa. Este personagem simboliza o
de Coimbra. Ainda estudante dedicou-se patriota que arrisca a própria vida para
também ao teatro de inspiração demo- se manter fiel aos ideais nacionalistas.
crática e de estilo neoclássico. Depois de
formado, exerceu funções burocráticas Seguindo a forma da tragédia, a
em Lisboa. Suas primeiras poesias apre- ação se desenvolve em clímax, agnó-
sentam características árcades, como em rise e desafio ao destino, presente des-
Camões. A estrutura romântica só será de o início do conflito.
— 53 —

Maria de Noronha, filha de Manuel Madalena (aterrada)


com Madalena, apesar de pouca idade, E quem vos mandou, homem?
age como uma mulher madura. É fervo-
rosa e está intimamente ligada à figura Romeiro
de D. João de Portugal.
Um homem foi, e um honrado ho-
mem... a quem unicamente devi a liber-
Fragmentos da Peça dade... a ninguém mais. Jurei fazer-lhe
Frei Luís de Souza a vontade, e vim.

Madalena Madalena
Deixai, deixai, não importa, eu folgo Como se chama?
de vos ouvir: dir-me-eis vosso recado
quando quiserdes... logo, amanhã... Romeiro
O seu nome, nem o da sua gente
Romeiro nunca o disse a ninguém no cativeiro.
Hoje há de ser. Há três dias que
não durmo nem descanso, nem pousei Madalena
esta cabeça, nem pararam êstes pés Mas, enfim, dizei vós...
dia nem noite, para chegar aqui hoje,
para vos dar meu recado... e morrer Romeiro
depois... ainda que morresse depois; As suas palavras, trago-as escri-
porque jurei... faz hoje um ano... quando tas no coração com as lágrimas de san-
me libertaram, dei juramento sobre a gue que lhe vi chorar, que muitas vêzes
pedra santa do Sepulcro de Cristo... me caíram nestas mãos, que me corre-
ram por estas faces. Ninguém o conso-
Madalena lava senão eu... e Deus! Vêde se me
Pois éreis cativo em Jerusalém? esqueceriam as suas palavras.

Romeiro Jorge
Era: não vos disse que vivi lá vinte Homem, acabai!
anos?
Romeiro
Madalena
Agora acabo; sofrei que êle tam-
Sim, mas... bém sofreu muito. Aqui estão as suas
palavras: “Ide a D. Madalena de Vilhena,
Romeiro e dizei-lhe que um homem que muito bem
Mas o juramento que dei foi que, lhe quis... aqui está vivo... por seu mal...
antes de um ano cumprido, estaria dian- e daqui não pode sair nem mandar-lhe
te de vós e vos diria da parte de quem novas suas de há vinte anos que o trou-
me mandou... xeram cativo”.
— 54 —

Madalena (na maior ansiedade) Jorge


Deus tenha misericórdia de mim! E Se o víreis... ainda que fôsse nou-
êsse homem... Jesus! Êsse homem era... tros trajos... com menos anos, pintado,
êsse homem tinha sido... levaram-no aí digamos, conhecê-lo-eis?
de donde?... de África?
Romeiro
Romeiro Como se me visse a mim mesmo
num espelho.
Levaram.
Jorge
Madalena
Procurai nestes retratos, e dizei-
Cativo?... me se algum dêles pode ser.
Romeiro Romeiro
Sim. É aquêle. (sem preocupar, e apon-
tando logo para o retrato de D. João)
Madalena
Madalena
Português?... cativo da batalha de?...
Minha filha, minha filha, minha filha!...
Romeiro Estou... estás... perdidas, desonradas...
Alcáler-Quibir infames! Oh! Minha filha, minha filha!...

Madalena (espavorida) Este Inferno de Amar


Meu Deus, meu Deus! Que se não
Êste inferno de amar – como eu amo! –
abre a terra debaixo dos meus pés?...
que não caem estas paredes, que me Quem mo pôs aqui n’alma...
não sepultam já aqui?... [quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Jorge Que é a vida – e que a vida destrói –
Calai-vos, D. Madalena! A miseri- Como é que se veio a atear,
córdia de Deus é infinita, esperai. Eu Quando – ai quando se há de
duvido, eu não creio... estas não são [apagar?
coisas para se crerem de leve (reflete,
e logo como por uma idéia que lhe acu- Eu não sei, não me lembra:
diu de repente). Oh! Inspiração divina... [o passado,
(chagando ao romeiro)
A outra vida que dantes vivi
Conheceis bem êsse homem, ro-
Era um sonho talvez... – foi um sonho –
meiro: não é assim?
Em que paz tão serena a dormi!
Romeiro Oh! que doce era aquêle sonhar...
Como a mim mesmo. Quem me veio, ai de mim! despertar?
— 55 —

Só me lembra que um dia formoso dura do mais belo viço e variedade. A


Eu passei... dava o Sol tanta luz! faia, o freixo, o álamo entrelaçam os ra-
E os meus olhos, que vagos giravam, mos amigos; a madressilva, a musqueta
penduram de um a outro suas grinaldas
Em seus olhos ardentes os pus. e festões: a congossa, os fetos, o malva-
Que fêz ela? eu que fiz? – Não no sei; rosa do valado vestem e alcatifam o
Mas nessa hora a viver comecei... chão.
GARRET, Almeida. Lírica incompleta. Lisboa: Arcádia, Para mais realçar a beleza do qua-
1971, p. 368-9.
dro, vê-se por entre um claro das árvo-
res a janela meia aberta de uma habita-
Poema escrito em primeira pessoa,
ção antiga mas não dilapidada – com
retrata uma confissão de forma since-
certo ar de confôrto grosseiro, e carre-
ra. Há o uso de oposições para expor
gada na côr pelo tempo e pelos venda-
sua contradição (amar é um inferno).
vais do sul a que está exposta. A janela
Podemos notar neste poema o egocen-
é larga e baixa; parece mais ornada e
trismo do autor, pois tudo gira em torno
também mais antiga que o resto do edifí-
do “eu”.
cio que todavia mal se vê...
Viagens na minha Terra
Interessou-me aquela janela.
O Vale de Santarém é um dêstes
Quem terá o bom gôsto e a fortuna
lugares privilegiados pela natureza, sí-
de morar ali?
tios amenos e deleitosos em que as
plantas, o ar, a situação, tudo está numa Parei e pus-me a namorar a janela.
harmonia suavíssima e perfeita: não há
ali nada grandioso nem sublime, mas Encantava-me, tinha-me ali como
há uma como simetria de côres, de um feitiço.
sons, de disposição em tudo quanto se Pareceu-me entrever uma cortina
vê e se sente, que não parece senão branca... e um vulto por detrás... Imagi-
que a paz, a saúde, o sossêgo do espí- nação decerto! Se o vulto fôsse femini-
rito e o repouso do coração devem vi- no!... era completo o romance.
ver ali, reinar ali um reinado de amor e
benevolência. As paixões más, os pen- Como há de ser belo ver pôr o Sol
samentos mesquinhos, os pesares e daquela janela!...
as vilezas da vida não podem senão E ouvir cantar os rouxinóis!...
fugir para longe. Imagina-se por aqui o
Éden que o primeiro homem habitou com E ver raiar uma alvorada de Maio!...
a sua inocência e com a Virgindade do
Se haverá ali quem a aproveite, a
seu coração.
deliciosa janela?... quem aprecie e sai-
À esquerda do vale, e abrigado do ba gozar todo o prazer tranqüilo, todos
norte pela montanha que ali se corta os santos gozos de alma que parece
quase a pique, está um maciço de ver- que lhe andam esvoaçando em tôrno?
— 56 —

Se fôr homem é poeta; se é mulher Pescador da barca bela,


está namorada. Inda é tempo, foge dela,
São os dois entes mais parecidos Foge dela,
da natureza, o poeta e a mulher namo-
Ó pescador!
rada: vêem, sentem, pensam, falam
como a outra gente não vê, não sente,
não pensa nem fala. Antonio Feliciano
Na maior paixão, no mais acrisola- de Castilho
do afeto do homem que não é poeta,
entra sempre o seu tanto da vil prosa
(1800 – 1875)
humana: é liga sem que se não lavra o
mais fino de seu ouro. A mulher não; a Foi tradutor de autores clássicos e
mulher apaixonada deveras sublima-se, escreveu A noite do Castelo, Escava-
idealiza-se logo, toda ela é poesia; e não ções Políticas e O Outono.
há dor física, interêsse material, nem
deleites sensuais que a façam descer
ao positivo da existência prosaica. Alexandre Herculano de
Barca bela
Carvalho e Araújo
(1810 – 1877)
Pescador da barca bela
Onde vás pescar com ela,
Foi o introdutor do romance históri-
Que é tão bela, co em Portugal. Devido a sua educação
Ó pescador? literária. Para Herculano, a literatura de-
veria ser popular e nacional (voltada para
Não vês que a última estrela o povo), demonstrando a vida social.
No céu nublado se vela? Escreveu Eurico, o presbítero – obra
de cunho histórico, que vai se opor ao
Colhe a vela,
celibato clerical, enfatizando o amor ro-
Ó pescador! mântico entre os jovens Eurico e Her-
mengarda – O monge de Cister, O Bobo
Deita o lanço com cautela,
e Lendas e Narrativas. Os temas trata-
Que a sereia canta bela... dos pelo artista são: a religião, a pátria e
Mas cautela, a natureza. Sua poesia é rica em símbo-
Ó pescador! los e em hipérbatos, não existindo o li-
rismo amoroso em suas obras, apenas
Não se enrede a rede nela, a afirmação da fé e uma condenação ao
desprezo e ingratidão dos homens. Seus
Que perdido é remo e vela,
versos eram soltos e o poeta utiliza-se
Só de vê-la, de várias estruturas estróficas. Já nos
Ó pescador! romances, em que introduziu a História
— 57 —

de Portugal, pretendia realizar uma his- des, casas, igrejas e conventos. Her-
tória política e social da Idade Média por- mengarda é raptada pelos árabes e
tuguesa, ressaltando o papel da bur- Eurico enfrenta todos os perigos para
guesia. salvá-la.
Herculano nasceu de uma família Em meio às lutas, Eurico e Hermen-
da pequena burguesia, e por falta de garda se reencontram e ela, em sonho,
recursos não pode seguir carreira uni- revela seu amor a ele. Mas a união en-
versitária. Aos 21 anos de idade em- tre os dois se torna ainda mais impossí-
pregou-se como bibliotecário da Biblio- vel, já que ele havia se tornado padre.
teca Pública do Porto. Demitiu-se de
seu cargo público como forma de pro- Após ter participado de uma bem
testo e lançou-se a oposição com o fo- sucedida emboscada contra os árabes,
lheto A Voz do Profeta, que o consa- Eurico permite que seus inimigos o ma-
grou como escritor. Dedicou-se ao jor- tem, pondo fim aos seus sentimentos
nalismo e dirigiu O Panorama. Em 1840, amorosos e ao conflito religioso. Her-
foi eleito deputado e defendeu um pro- mengarda, ao saber de sua morte, en-
jeto de reforma geral e popularização louquece.
do ensino. Participou do golpe de Esta-
do da Regeneração em 1850. em 1867, A religião é o agente complicador
decidiu dedicar-se à lavoura, abran- do conflito sentimental de Eurico. A épo-
dando suas atividades de escritor e ho- ca histórica é a do domínio árabe. O
mem público. narrador é onisciente. O autor ocupa
sempre o primeiro plano, mesmo no di-
Eurico, o Presbítero álogo, onde exprime as suas idéias, co-
O romance relata a invasão árabe mentários misturados com uma certa
na península Ibérica no século VIII e a ironia quase agressiva. A obra apresen-
história de um amor impossível entre ta três partes distintas: a primeira apre-
Eurico e Hermengarda. senta o caos da época; a segunda in-
troduz e caracteriza as personagens na
Eurico é um padre que se refugia ação que, na terceira parte, surge cla-
na vida religiosa para tentar esquecer, ra e em seu pleno desenvolvimento, até
seu grande amor, cuja mão lhe foi ne- a conclusão. A linguagem ritmada, rica
gada pelo pai, o duque de Cantábria, de lirismo e de comparações sugesti-
devido às condições financeiras de vas, permitiria a classificação como poe-
Eurico. ma em prosa. Trata-se de um romance
No momento em que ocorre a in- grandioso, com lances violentos e a uni-
vasão árabe, Eurico torna-se o temido dade de ação e o desenrolar dos acon-
“cavaleiro negro”, que aterroriza os tecimentos fazem de Eurico, o presbíte-
árabes com sua ousadia e valentia. En- ro, um texto aparentado da tragédia.
tretanto, os árabes acabam vencendo MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. Roteiro
a guerra e, com isso, invadem cida- das Grandes Literaturas. São Paulo: Cultrix, 1960.
— 58 —

Trecho da Obra: Prefácio E a romagem do túmulo cumprindo,


Só conhecer, ao despertar na
Eu, por minha parte, fraco argu- [morte,
mentador, só tenho pensado à luz do
Essa vida sem mal, sem dor,
sentimento e sob a influência da im-
[sem termo,
pressão singular que desde verdes
anos fez a mim a idéia da irremediável Que íntima voz contínuo nos
solidão da alma a que a igreja conde- [promete
nou os seus ministros, espécie de am- No trânsito chamado o viver do
putação espiritual, em que para o sa- [homem.
cerdote morre a esperança de comple-
II
tar a sua existência na terra. Supondo
todos os contentamentos, todas as con- Suspira o vento no álamo frondoso;
solações que as imagens celestiais e a As aves soltam matutino canto;
crença viva podem gerar, e achareis
Late o lebréu na encosta, e o mar
que estas não suprem o triste vácuo
[sussurra
da soledade do coração. Daí às pai-
xões todo o ardor que puderdes, aos Dos alcantis na base carcomida:
prazeres mil vezes mais intensidade, Eis o ruído de ermo! Ao longe o
aos sentimentos a máxima energia e [negro,
convertei o mundo em paraíso, mas tirai Insondado oceano, e o céu cerúleo
dele a mulher, e o mundo será um ermo Se abraçam no horizonte. Imensa
melancólico, os deleites serão apenas [imagem
o prelúdio do tédio.
Da eternidade e do infinito, salve!
HERCULANO, Alexandre. Eurico, o presbítero. São
Paulo: Difel, 1963, p.39. III
Oh, como surge majestosa e bela,
A Arrábida
Com viço da criação, a natureza
I No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
[pura
Salve, ó pátria da paz, deserto
Das boninas da encosta estão
[santo,
[contando
Onde não ruge a grande voz das
Mil saudades de Deus, que os há
[turbas! [lançado,
Solo sagrado a Deus, pudesse Com mão profusa, no regaço
[ao mundo [ameno
O poeta fugir, cingir-se ao ermo, Da solidão, onde se esconde o
Qual ao freixo robusto a frágil hera, [justo.
— 59 —

E lá campeiam no alto das Ricas d’encantos, coa estação


[montanhas [propícia;
Os escalvados píncaros, severos, Suavíssimo aroma, que, manando
Quais guardadores de um lugar Das variegadas flores, derramadas
[que é santo;
Na sinuosa encosta da montanha,
Atalaias que ao longe o mundo
Do altar da solidão subindo aos
[observam, [ores,
Cerrando até o mar o último abrigo És digno incenso ao Criador
Da crença viva, da oração [erguido;
[piedosa, Livres aves, filhas da espessura,
Que se ergue a Deus de lábios Que só teceis da natureza as
[inocentes. [hinos,
Sobre esta cena o sol verte em O que crê, o cantor, que foi
[torrentes [lançado,
Da manhã o fulgor; a brisa Estranho no mundo, no bulício dele,
[esvai-se Vem saudar-vos, sentir um gozo
Pelos rosmaninhais, e inclina os [puro,
[topos Dus homens esquecer paixões e
Do zimbro e alecrineiro, ao rés [opróbio,
[sentados E ver, sem ver-lhe a luz prestar a
Desses tronos de fragas [crimes,
[sobrepostas, O Sol, e uma só vez puro
Que alpestres matas de medronhos [saudar-lha.
[vestem;
Convosco eu sou maior; mais
O rocio da noite à branca rosa [longe a mente dos céus se
No seio derramou frescor suave, [imerge livre,
E inda existência lhe dará um dia. E se desprende de mortais
[memórias
Formoso ermo do sul, outra vez, Na solidão solene, onde,
[salve! [incessante,
IV Em cada pedra, em cada flor se
[escuta
Negro, estéril rochedo, que
Do Sempiterno a voz, e vê-se
[contrastas,
[impressa
Na mudez tua, o plácido sussurro A dextra sua em multiforme
Das árvores do vale, que vicejam [quadro.
— 60 —

Segunda Geração Camilo Ferreira Botelho


Castelo Branco
(1825 – 1890)
Antônio Augusto Soares
de Passos Há uma relação entre sua vida e a
(1826 – 1860) vida que ele projeta em suas obras. Filho
bastardo, nasceu em Lisboa. Sua mãe,
Jacinta Rosa do Espírito Santo morreu
Publicou Poesias, em 1855. quando tinha apenas dois anos de idade.
Ela era criada de seu pai, Manuel Joa-
O Noivado no Sepulcro quim Botelho Castelo Branco, que fale-
ceu após oito anos da morte de sua mãe.
Vai alta a lua! na mansão da morte Órfão, é educado pela tia Rita Emilia e
Já meia-noite com vagar soou. vivencia ao seu lado o terror de ter o seu
avô assassinado e a morte de su tio Si-
Que paz tranqüila; dos vaivéns mão. Casou-se pela primeira vez aos 16
[da sorte anos de idade com Joaquina Pereira, po-
Só tem descanso quem ali baixou. rém ela o abandonou. Mais tarde tornou-
se estudante de Medicina, quando teve
envolvimentos com sua prima Patrícia
Que paz tranqüila!... mais eis longe,
Emília, com quem fugiu acusado de adul-
[ao longe
tério. Com a morte de sua primeira espo-
Funérea campa com fragor rangeu; sa, Patrícia passou a ser sua verdadeira
Branco fantasma semelhante esposa até vir a engravidar. Com isso,
[a um monge, Camilo a abandona e, em 1850, conhece
o seu grande amor – Ana Plácido, que se
Dentre os sepulcros a cabeça casou com outro. Deprimido pelo aconte-
[ergueu. cimento, Camilo vai para o seminário, onde
passa a ter um caso amoroso com uma
...................................................... freira. Anos mais tarde, retorna seu ro-
mance com Ana Plácido e são presos
Porém mais tarde, quando foi volvido
por adultério. Em 1890, cego, Camilo sui-
Das sepulturas o gelado pó, cida-se com um tiro no ouvido.
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Sua vida foi um emaranhado de amo-
Foram achados num sepulcro só. res aventureiros, sendo até processado
por adultério. Foi precursor da novela:
In Poesias. Porto: Cuardron, 1925, pp. 12-15 narrativa linear, rápida, objetiva, de pou-
Apud Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa através
dos textos. 9ª ed. São Paulo: Cultrix, 1980, cas descrições, com maior intervenção
pp. 280 e 281. do narrador e pouca profundidade psico-
— 61 —

lógica. A partir da publicação de Amor de A ação da obra gira em torno da


Perdição e Amor de Salvação, Camilo invencibilidade da paixão de Simão e
mostra o contraste entre a mulher fatal e Tereza. O tempo da narrativa é crono-
a mulher anjo, os obstáculos ao amor e lógico, ou seja, há uma sucessão cro-
os personagens voltando à religião. nológica de eventos. A forma é linear,
pois o autor escrevia em 1861 um dra-
Camilo retratou, em suas obras, as
ma vivido em 1801. A narrativa situa-
cidades e a região do norte de Portugal.
se no início do século XIX, quando hou-
Escreveu também Nostalgias, Nas Tre-
ve o inicio da consolidação da socieda-
vas, Agostinho de Ceuta, Memórias do
de romântico-liberal. O tempo passado
Cárcere, O Judeu e Eusébio Macário.
lhe dá maior liberdade no discurso. O
Amor de Perdição espaço é caracterizado pelo ambiente
social (sociedade provinciana que vi-
A família dos namorados Simão Bo- veu na região da beira-alta) e age na
telho e Teresa de Albuquerque estão, há narrativa intensificando os obstáculos
muito tempo, brigadas, e fazem de tudo que se levantam contra o amor de Si-
para separá-los. Simão é mandado para mão e Tereza. Referindo-se aos per-
Coimbra. Teresa, para não aceitar a alter- sonagens, podemos dividi-los em: Fi-
nativa odiosa de casar-se com o primo dalgos jovens (nobreza de caráter), Fi-
Baltazar Coutinho, ingressa num convento. dalgos adultos e religiosos (arrogan-
A parte trágica deste romance co- tes, soberbos) e Plebeus jovens ou adul-
meça quando Simão vai procurar a amada tos (nobreza de caráter, bondade). O
no convento e fere mortalmente a seu ri- aprofundamento psicológico é ausente
val. Condenado, Simão tem de rumar para nos personagens, pois o objetivo prin-
o exílio. Quando o navio começa a largar, cipal do autor é colocar em evidencia
Simão ainda avista a amada de longe, e a apenas o comportamento humano. Den-
cena em que Teresa lhe acena com o tre os personagens, destacam-se: Si-
lencinho, do convento de Monchique, é mão Antônio Botelho, herói romântico e
uma das mais permanentes em toda a de extremismos emocionais (tentativa
história da novela amorosa. de rapto, que gera mortes e, conse-
Trata-se de um romance de explo- qüentemente, seu fim trágico); Teresa,
são passional, em que a razão se mos- a heroína romântica; Mariana, a amante
tra frágil e incapaz de relativizar os even- silenciosa (ideal romântico); João da
tos ou amenizá-los. Esse caráter pas- Cruz, o camponês rústico, protetor de
sional da intriga camiliana não deixa de Simão; Baltasar Coutinho, o burguês in-
lado nem mesmo aquela Mariana que teresseiro, sem moral; Tadeu de Albu-
depositara em Simão um terno e resig- querque, o pai autoritário que, por uma
nado amor. Pois na hora em que o corpo rivalidade particular, impede a felicida-
do herói é jogado ao mar, Mariana opta de da filha com Simão.
por morrer junto do amado, agarrando- MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa em
se ao cadáver de Simão. perspectiva. V.3. São Paulo: Atlas, 1994.
— 62 —

Amor de Perdição – A ironia de freiras especuladoras da vida alheia,


que se embriagam de vinho e até pos-
A ironia romântica é uma das carac-
suem namorados:
terísticas marcantes da obra de Camilo
Castelo Branco, traduzida na sua manei- (fragmentos)
ra particular de expor a vida da socieda-
Esta escrivã não é má rapariga. Só
de portuguesa do século XVIII (entenda-
tem o defeito de se tomar da pingoleta;
se por sociedade, a corte e o povo), cap-
depois, não há quem a ature. Tem uma
tando suas particularidades e criticando
boa tença, mas gasta tudo em vinho, e
seus hábitos e costumes arraigados.
tem ocasiões de entrar no coro a fazer
Tal ironia se desenvolve em três as- ss, que é mesmo uma desgraça. Não tem
pectos: o autor sendo crítico da sua pró- outro defeito; é uma alma lavada, e amiga
pria obra, ou seja, a autoironia; a ironia da sua amiga. É verdade que, às vezes...
com o mundo; e a ironia com os próprios (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos
personagens. dormitórios, e fechou por dentro a porta)
Logo no início do romance percebe- é verdade que às vezes quando anda
mos a ironia nos nomes dos persona- azoratada, dá por paus e por pedras, e
gens, tão grandes que podiam constituir descobre os defeitos das suas amigas. A
uma frase: Domingos José Correia Bote- mim já ela me assacou um aleive, dizendo
lho de Mesquita e Meneses, e D. Rita Te- que eu, quando saía a ares, não ia só a
resa Margarida Preciosa da Veiga Cal- ares, e andava a fazer o que fazem as
deirão Castelo Branco. outras. Forte pouca vergonha! Lá que
outra falasse, vá; mas ela, que tem sem-
Manuel Botelho e o lojista são dife-
pre uns namorados pandilhas que bebem
rentes de Simão Botelho, para quem a
com ela na grade, isso lá me custa; mas,
mulher amada, Teresa de Albuquerque,
enfim, não há ninguém perfeito!... Boa ra-
é tudo. É capaz de mudar o curso da sua
pariga é ela... se não fosse aquele maldito
vida, até então promissora. Há também
ironia crítica em relação ao herói do ro- vício...
mance, Simão Botelho, pois é um herói Ao romper da manhã apagara-se a
romântico que passa necessidades fi- lâmpada. Mariana saíra a pedir luz e ouvi-
nanceiras: ra um gemido estertoroso. Voltando às es-
Não é bonito deixar a gente vulgari- curas, com os braços estendidos para
zar o seu herói a ponto de pensar na tatear a face do agonizante, encontrou a
falta de dinheiro, um momento depois que mão convulsa, que lhe apertou uma das
escreveu à mulher estremecida uma carta suas, e relaxou de súbito a pressão dos
como aquela de Simão Botelho. dedos.

Percebemos também o tom irônico, Entrou o comandante com uma lâm-


até sarcástico, no episódio do conven- pada, e aproximou-lha da respiração,
to, reduto de senhoras puras à beira da que não embaciou levemente o vidro.
santidade, que é descrito como o abrigo — Está morto! – disse ele.
— 63 —

Mariana curvou-se sobre o cadá-


ver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro Terceira Geração
beijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche
com as mãos erguidas, e não orava
nem chorava. João de Deus Ramos
(...) (1830 – 1896)
Dois homens ergueram o morto ao
alto sobre a amurada. Deram-lhe o balan- Escreveu Campo de Flores.
ço para o arremessarem longe. E, antes
que o baque do cadáver se fizesse ouvir Encanto
na água, todos viram, e ninguém já pôde
Passavas como rainha,
segurar Mariana, que se atirara ao mar.
E eu, que andava como morto,
(...)
Parece que me sustinha
Viram-na num momento, bracejar,
No ar em êxtase, absorto...
não para resistir à morte, mas para abra-
çar-se ao cadáver de Simão, que uma É ela, dizia eu,
onda lhe atirou aos braços. O coman- A minha estrêla do céu!
dante olhou para o sítio donde Mariana
se atirara, e viu, enleado no cordame, o Passavas lançando em tôrno,
avental, e à flor da água, um rolo de pa- Como a lua em noite amena,
péis, que os marujos recolheram na lan- Aquele olhar doce e môrno
cha. Eram, como sabem, a correspon- Que me dava gosto e pena...
dência de Teresa e Simão.
Pena não ser só meu
BRANCO, Camilo Castelo. Amor de Perdição. 8ª ed.
São Paulo: Ática, 1983, p. 117-8. Êsse reflexo do céu!

Após leitura e análise do romance, Mal sabes como em nossa alma,


podemos observar que a sociedade foi a À luz de uns olhos que atraem,
causadora da própria perdição, pois se
A tempestade se acalma
não fossem inimigas as famílias, a história
transcorreria sem tumultos. Ressaltamos E as nuvens negras se esvaem!
que esta perdição referida é tanto do cor- Com a luz de um olhar teu
po quanto da alma, já que antes do herói É uma bênção do céu!
do romance suicidar-se, acarreta a morte
de: dois empregados de Baltasar Coutinho, De tal maneira me encanta,
do próprio Baltasar Coutinho, do ferrador Que até andei, por exemplo,
João da Cruz (que é morto por vingança), Contigo a Semana Santa,
da sua amada Teresa de Albuquerque, de
Sem saber, de templo em templo
Mariana, que se mata junto a ele, e ainda
provoca a destruição das três famílias, Depois é que me ocorreu
indo contra os princípios religiosos. Que esse olhar era do céu!
— 64 —

Nesse traje austero e grave, ingênuo de comadres fofoqueiras.


Tôda de preto, era um gôsto Daniel, ainda menino, prepara-se para
ingressar no seminário, mas o reitor
Ver não sei que luz suave descobre seu inocente namoro com a
A banhar-te as mãos e o rosto... pastorinha Margarida (Guida). O pai,
Era a luz, suponho eu, José das Dornas, decide então enviá-
lo ao Porto para estudar medicina. Dez
Que banha os anjos do céu.
anos depois, Daniel volta para a aldeia,
como médico homeopata e, Margarida,
Se um dia, estrêla dos magos,
agora professora de crianças, conser-
Me abandonares na vida, va ainda seu amor pelo rapaz. Ele, no
Deixa-me uns reflexos vagos entanto, contaminado pelos costumes
Como de estrêla caída... da cidade, torna-se um namorador im-
pulsivo e inconstante, e já nem se lem-
Ao menos verei no céu bra da pequena pastora. Nesse tempo,
Rastro da estrêla que ardeu! Pedro, irmão de Daniel, está noivo de
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através
Clara, irmã de Margarida. O jovem mé-
dos textos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1980, p. 313. dico encanta-se da futura cunhada, ini-
ciando uma tentativa de conquista que
poria em risco a harmonia familiar. Cla-
ra, inicialmente, incentiva os arroubos
Júlio Dinis do rapaz, mas recua ao perceber a gra-
(1839 – 1871) vidade das conseqüências. Ansiosa por
acabar com impertinente assédio, con-
Pseudônimo de Joaquim Guilherme cede-lhe uma entrevista no jardim de
Gomes Coelho (1839 – 1871), é consi- sua casa. Esse encontro é o ponto cul-
derado um dos precursores do Realis- minante da narrativa: surpreendidos por
mo. Escreveu: As Pupilas do Senhor Pedro, são salvos por Margarida, que
Reitor, Uma Família Inglesa, Os Fidal- toma o lugar da irmã. Rapidamente, es-
gos da Casa Mourisca e A Morgadinha ses acontecimentos tornam-se um
dos Canaviais. grande escândalo, o que compromete
a reputação de Margarida. Daniel, im-
pressionado com a abnegação da moça,
As Pupilas do Senhor Reitor recorda-se, finalmente, do amor da in-
(resumo) fância e, agora novamente apaixonado
por ela, procura conquistá-la. No último
A história ocorre num cenário po- capítulo, após muito sofrimento e sem
voado de tipos humanos cuja bondade mais resistir, Margarida aceita o amor
só é maculada pelo moralismo quase de Daniel.
— 65 —

Resumo do Romantismo

Momento sócio-cultural mar e conquistar um público-leitor:


surgimento do romance (folhetim).
• Revolução Industrial
• Revolução Francesa (1789) Autores e obras
• Ascensão da burguesia ao poder,
liberalismo, individualismo, naciona- • Almeida Garret, associa elemen-
lismo. tos românticos e neoclássicos:
Camões (poesia), Frei Luís de
• Consolidação do sistema capitalista.
Sousa (teatro), Viagens na minha terra
(romance).
Características literárias
• Alexandre Herculano (romances
• A literatura procura a libertação das históricos):
formas clássicas e a explosão da Eurico, o presbítero; Lendas e nar-
subjetividade: predomínio da emoção rativas.
sobre a razão, ênfase na imagina-
ção criadora, espírito libertário, na- • Camilo Castelo Branco (técnica de
cionalismo, religiosidade etc. folhetim, transição para o Realismo)
Amor de Perdição; Coração, ca-
• O artista como criador, um “gênio ins-
beça e estômago (obra satírica).
pirado” (valorização da imaginação).

• O fim da proteção oficial às artes • Julio Diniz (afasta-se do ultra-roman-


(mecenato) e a transformação da arte tismo, transição para o Realismo)
em mercadoria: necessidade de for- As pupilas do Senhor Reitor.
— 66 —

Realismo
“É de todos os tempos o realismo É nesse ambiente que os artistas
como o é a arte. Ele existiu sempre, passam a observar e a externar a verda-
porque a imaginação tem necessa- de possível da realidade, colocando-se
riamente por base a observação e a contra o tradicionalismo romântico e pro-
experiência, e porque a arte tem curando incorporar os descobrimentos
sempre por objeto as realidades da científicos de seu tempo. As principais
vida. Na observação da vida, com o teorias realistas são:
propósito de fazer arte, há duas ati- • Teoria determinista: Hipolite Taine
tudes extremas: a da franca subjeti- (1825-1893), doutrina filosófica que
vidade e a dum ardente desejo de afirma que todo evento, mental ou fí-
impassível objetividade. Estas duas sico, tem uma causa, e que, a causa
atitudes de espírito do artista coexis- que é determinada, o evento invaria-
tem, mas como que se doseiam, ten- velmente a segue. Conseqüência de
do o predomínio ora uma ora outra. uma herança, de um meio ou de uma
O artista, que observa, altera, corri- circunstância (momento)
ge a realidade, porque não só re-
produz um fragmento da vida, esco- • Filosofia positivista: Auguste Comte
lhido já de acordo com as suas incli- (1798-1857), sistema de filosofia ba-
nações pessoais, mas também o re- seada em experiência e conhecimen-
produz tal como o viu, isto é, desfi- to empírico dos fenômenos naturais no
gurado. qual metafísica e teologia são consi-
deradas como sistemas de conheci-
E assim, através da concepção artís- mento inadequados e defeituosos.
tica, a verdade real deforma-se para
se tornar em verdade artística”. • Socialismo utópico: Pierre-Joseph
FIGUEIREDO, Fidelino de. História da Literatura
Proudhon (1809-1865), sociedade na
Realista. 3. ed. São Paulo: Anchieta, 1946, p.13. qual as pessoas seriam de natureza
ética e senso de responsabilidade
Movimento que se inicia na segun- moral tão altamente desenvolvidas,
da metade do século XIX com a retoma- que um governo seria desnecessá-
da do racionalismo e se estende até o rio para regular e proteger essa so-
início do século XX. Sua principal carac- ciedade. Seu idealizador rejeitou o
terística é a tentativa de traduzir a reali- uso de força para impor qualquer sis-
dade. O Realismo, portanto, é o reflexo tema a um povo. Num estado ideal de
da desilusão do homem frente à socie- sociedade, o que ele chamou de “or-
dade: miséria das cidades, crise da pro- dem em anarquia”, pessoas agiriam
dução no campo e péssimas condições de uma maneira responsável, ética,
de vida. de livre arbítrio.
— 67 —

• Evolucionismo: Charles Robert por um grupo de jovens estudantes de


Darwin (1809-1882), doutrina funda- Coimbra, atentos à nova estética vinda
da na idéia de evolução e, mais parti- da Europa, e influenciados pela poesia
cularmente, conjunto das teorias social de Victor Hugo e pelas ideologias
explicativas do mecanismo da evolu- de Hegel, Marx e Engels. O líder do grupo
ção dos seres vivos. era Antero de Quental e lutava para di-
vulgar suas novas idéias através de suas
• Fisiologismo: Claude Bernard (1809- poesias revolucionárias. Esta atitude ge-
1882), descoberta de que as doenças rou uma resposta por parte dos artistas
nada mais são que anomalias ou dis- românticos, através da publicação de
túrbios dos órgãos do corpo humano obras criticando a nova estética. De ca-
e não do espírito. ráter anticlerical e antimonárquico, tal po-
• Monismo: tipo de pensamento filo- lêmica ficou conhecida como Questão
sófico no qual foi feita a tentativa de Coimbrã e só teve o seu término em 1871,
eliminar a dicotomia, princípio que afir- quando o governo interferiu e deu vitória
ma a existência única, no ser huma- aos realistas.
no, de corpo e alma. A base do Realismo foi a relação
Dessa forma, o subjetivismo român- indivíduo X sociedade.
tico foi substituído pela descrição da A poesia é voltada ao cotidiano, opu-
realidade externa, na qual o escritor pre- nha-se ao lirismo romântico, pois revela-
tende retratar a realidade como realmen- va as injustiças e desníveis sociais.
te é, criticando e revoltando-se contra a
injustiça e a opressão. Desse movimento deriva o Natura-
lismo, que tem por objetivo central o de
A ideologia do Realismo é: a crítica comprovar as teses cientificas do Positi-
ao tradicionalismo da sociedade burgue- vismo e defender o Racionalismo.
sa, provida da educação romântica (dis-
tante da realidade); crítica ao conserva-
Principais características
dorismo da Igreja (voltada para o passa-
do) que impedia o desenvolvimento natu- • o objetivismo aparece como negação
ral da sociedade; visão objetiva e natural ao subjetivismo romântico, mostran-
da realidade; preocupação com a refor- do o homem voltado ao exterior;
ma da sociedade com o objetivo de de-
• o Realismo reflete a postura do Po-
mocratizar o poder político; e a repre-
sitivismo, do Socialismo e do Evolu-
sentação da vida contemporânea, pro-
cionismo;
curando mostrar todos os seus detalhes
significativos. • o materialismo se opõe ao sentimen-
talismo e à metafísica;
O Realismo português iniciou-se em
1865 e estendeu-se até 1890, com a pu- • o nacionalismo e a volta ao passado
blicação de Oaristos, de Eugênio de Cas- são abolidos, pois o Realismo só se
tro. As idéias realistas foram introduzidas preocupa com o presente;
— 68 —

• há indiferença e insensibilidade quan- tor Hugo e Charles Baudelaire, mostram


to à moral e aos aspectos da realidade em suas obras ricas imagens, metáfo-
que possam ofender o leitor; ras e comparações, dando preferência
a temas históricos e anticlericais.
• a língua é comum, sem grande ob-
servância gramatical;
2ª fase (1871 – 1888): é a fase re-
• os temas são sociais. alista. O Crime do Padre Amaro, O Pri-
mo Basílio e Os Maias formam a trilogia
que ficou conhecida como Cenas da Vida
Principais autores Portuguesa. O autor se preocupa em
mostrar a sociedade portuguesa: cidade
realistas provinciana, influência do clero, peque-
na e média burguesia de Lisboa, intelec-
portugueses tuais, aristocracia e alta burguesia.

O Crime do Padre Amaro reflete uma


cidadezinha influenciada pelo clero. O ro-
José Maria Eça de Queirós mance analisa a corrupção e a deprava-
(1845 – 1900) ção dos costumes, narrando o relaciona-
mento entre um padre e uma moça solteira.
Considerado o precursor do Rea-
lismo português. Revelou em suas obras O Crime do Padre Amaro
a hipocrisia e a moral decadente da so- (resumo)
ciedade do século XIX por meio de uma
análise psicológica. Eça se preocupou “Amaro, filho de criados, nascera em
em criar uma literatura de caráter ideo- Lisboa na casa da senhora Marquesa de
lógico, logo, sua descrição torna-se pre- Alegros. Esta educou o menino após a
cisa e atenta aos detalhes. morte dos seus pais; desejava que o ga-
roto fosse para o seminário aos quinze
O que mais chama a atenção nas anos e se ordenasse padre mais tarde.
obras de Eça de Queiros é a variedade
de sua construção lingüística, na qual O rapazinho vivia cercado de criadas
as frases são diversificadas e dá-se na casa da Marquesa, que o bajulavam;
ênfase à linguagem popular, aos estran- porém, ele não encontrou na residência de
geirismos e neologismos. seus tios, onde ficava antes de se lançar,
definitivamente, na vida eclesiástica, o ele-
Suas obras são divididas em três
mento feminino que costumava ter na
fases:
casa de sua mãe adotiva. Amaro, enfim,
1ª fase (1865 – 1871): são os pri- depois de alguns anos ordenou-se e foi
meiros textos do autor, publicados em nomeado pároco de Feirão, na Gralheira,
forma de folhetins reunidos com o título serra da Beira Alta. Como achava a vida
Prosas Bárbaras. Influenciadas por Vic- na serra monótona, o pároco foi até o Con-
— 69 —

de Ribamar (genro da mãe adotiva de João Eduardo percebia que havia


Amaro) que era um homem influente e so- um interesse do pároco por Amélia, o
licitou a ele que o transferisse de paróquia; que o levou a escrever um comunicado
o conde deferiu o seu pedido, enviando-o no jornal, criticando os costumes degra-
para a paróquia de Leiria, sede do bispado. dantes do clero e advertindo às mães de
família sobre o perigo de ter padres fre-
Quando chegou em Leiria, Amaro
qüentando suas casas. O rapaz, sentin-
foi recepcionado pelo cônego Dias, seu
do-se vingado, pede a mão de Amélia em
mestre de moral no seminário, e algumas
casamento a sua mãe; a jovem aceita a
beatas; o novo pároco hospedou-se na
casa da São-Joaneira por intermédio do proposta por imposição de São-Joaneira,
cônego. O jovem padre conquistou a sim- mas já se sente muito atraída pela pes-
patia de todos na casa da senhora soa do padre.
Joaneira, sobretudo a de sua filha Amélia, O jovem escrevente, para sua ruí-
jovem bonita e atraente, a quem não fal- na, acabou tendo seu nome descoberto
tavam pretendentes. Um deles era João pelo padre Natácio como sendo o autor
Eduardo que era escrevente, bom rapaz do comunicado no jornal. A partir daí,
que Amélia não amava, mas de quem
Amélia desfaz o compromisso que ha-
aceitava cortejos, em princípio.
via com o rapaz; este é excomungado,
Amaro, como um padre sem voca- agride Amaro e perde o emprego.
ção, uma vez que não tinha aptidão para o
sacerdócio e só seguira a vida eclesiás- Tendo o escrevente fora do cami-
tica por vontade da Marquesa, começou a nho, o padre investe contra Amélia, bei-
se interessar, naturalmente, por Amélia, jando-a, e mesmo em um momento em
que é do sexo oposto; a moça, por sua que ela se lamentava por João Eduardo.
vez, também se sentia atraída pelo páro- Tendo em vista o caso entre o pároco e a
co. Um certo dia, quando Amaro passava moça, aquele consegue uma casa para
perto da fazenda de Amélia, esta estava se encontrarem por intermédio de sua
lá e o chamou para conhecer a proprieda- criada Dionísia. O pretexto que o pároco
de; ela teve de pular uma cancela e aca- apresentou a São-Joaneira e aos seus
bou caindo nos braços do padre que a colegas para que Aurélia saísse fre-
beijou vorazmente no pescoço. A moça qüentemente foi o de que ela tinha que
ficou confusa, no momento, e saiu corren- trabalhar em uma causa santa, que era
do. Amaro, acreditando que ela o denunci- ensinar catecismo a uma paralítica e
aria, resolveu pedir ao cônego que conse- muda, filha do sineiro. Os freqüentes en-
guisse uma outra casa para ele se hospe- contros entre os amantes resultaram na
dar; o cônego assim o fez, e o jovem padre gravidez da moça; Amaro, como padre,
se mudou da sua misericórdia para a rua não podia assumir seu filho; aconselhou-
dos Souzas. A bela donzela chega a ado- se com o cônego Dias, e este recomen-
ecer, devido à partida do seu líder religio- dou ao amigo que a casasse com João
so, mas este volta a freqüentar a casa da Eduardo quando ele fosse encontrado, já
São-Joaneira a pedido da moça solitária. que estava desaparecido.
— 70 —

Uma doença providencial da irmã do onisciência neutra, ou seja, o autor se


cônego Dias levou Amélia a ter que viajar posiciona por trás da personagem para
para Ricoça a ficar lá até que a enferma expor seu ponto de vista sobre uma
se recuperasse. Em Ricoça, a gestante matéria. No Crime do Padre Amaro, João
encontrou um abade chamado Ferrão que Eduardo é o personagem que represen-
lhe proporcionou alguma paz de espírito, ta as idéias anti-burguesas e anti-religi-
até que Amaro surgiu, e levou-a a ter uma osas do autor. Além de João Eduardo,
recaída. O abade, sem saber da fraque- encontramos na narrativa outros per-
za de espírito de Amélia, tinha idéias de sonagens de suma importância: Cône-
casá-la com João Eduardo que havia apa- go Dias, São-Joaneira, Dona Joaquina
recido em Ricoça, mas não foi possível. Gansoso, Dona Josefa, Amélia, Agosti-
nho, Doutor Gouveia e, Padre Amaro. O
Amélia foi conduzida a um fim trági- tempo da narrativa gira em torno de apro-
co, morreu vítima de complicações pós- ximadamente dois anos.
parto, não sabendo que seu filho fora
entregue por Amaro a uma ama de leite O Primo Basílio
e que havia falecido. Amaro partiu para
(resumo)
Lisboa e, provavelmente, conquistou al-
guma jovem beata por lá. O Primo Basílio critica a burguesia
lisboeta, suas frustrações familiares e
A linguagem é simples e adjetivada. o adultério.
O detalhismo constitui uma das caracte-
“O pano de fundo da narrativa é um
rísticas importantes da linguagem, uma
caso de adultério. Já no primeiro capítu-
vez que o narrador tenciona traçar a
lo, o autor lança as sementes do conflito
realidade com o máximo de fidelidade
que dá pretexto para o livro. Descreve o
possível (verossimilhança). O tema prin-
marido que viaja, contrariado, a traba-
cipal da obra é a decadência dos valo-
lho; a esposa que descobre que o primo
res da Igreja (reflexo dos valores bur-
e ex-noivo Basílio revisita a cidade e as
gueses) e as temáticas abordadas são:
lembranças que a notícia evoca. Intro-
adultério, crítica política e social. Diante
duz a criada Juliana, ressentida e frus-
dos valores decadentes da sociedade
trada, que terá um papel decisivo no
burguesa do século XIX, o homem é le-
desfecho trágico do romance.
vado a absorver esses valores, uma
vez que ele é produto do meio. Essa No segundo capítulo, o autor apre-
sociedade oprime o cidadão, explora-o, senta as figuras secundárias, enfocadas
o faz mais uma peça de engrenagem, durante breves visitas dominicais à casa
isso tudo em prol da geração de capital. de Luísa e Jorge. A relação amorosa clan-
O foco narrativo centra-se na terceira destina mantida por Luísa e Basílio é desco-
pessoa. O narrador é onisciente, uma berta pela criada, que, de posse de uma
vez que ele tem completo domínio da carta dos amantes, chantageia a patroa.
história que narra. Vale dizer que em Abandonada pelo amante, que foge para
alguns momentos na narrativa ocorre a Paris, Luísa não suporta a tensão e morre”.
— 71 —

Com o processo de industrialização, adultério para fazer chantagem. Jorge,


as cidades cresciam rapidamente, fa- esposo de Luísa, aparece poucas ve-
zendo com que os camponeses passas- zes durante toda a narrativa e mostra-
sem a serem vistos como operários ur- se apenas de forma social. É um perso-
banos. No entanto, a burguesia lisboeta nagem pacato, manso, dividido entre o
continuava apegada à cultura passada. seu amor por Luísa e o papel social de
A obra mostra a intimidade das famílias marido em relação ao adultério. Existem
lisboetas da metade do século XIX. Em ainda os personagens considerados se-
relação aos personagens, estes são cundários, como é o caso do Conse-
considerados planos, ou seja, opõem- lheiro Acácio (intelectual vazio), Dona
se aos personagens de intensidade in- Felicidade (cozinheira), Sebastião
terior e psicológica. São levados e en- (que pretende recuperar as cartas rou-
volvidos pela trama desempenhada pelo badas).
autor. Encontramos Luísa, burguesa da
A linguagem da obra é considera-
cidade baixa de Lisboa, uma senhora
da coloquial, próxima da língua falada.
sentimentalista, mal-educada e sem va-
As frases são curtas, cheias de ritmos
lores morais. Romântica, é esposa de
Jorge, engenheiro de minas que se co- e significados. Encontramos exagera-
nheceram após o rompimento por carta damente o uso de descrições minucio-
dela com o seu primo Basílio. Sua vida sas do espaço físico e da sociedade. O
rotineira é transformada com a viagem narrador na terceira pessoa é oniscien-
de seu esposo e com o retorno de primo te e não tem envolvimento algum com os
a Portugal. Basílio é o primo e ex-noivo personagens.
de Luisa, que retorna a Portugal na au- “Havia doze dias que Jorge tinha
sência de seu marido com a intenção de partido e, apesar do calor e da poeira,
alimentar sua vaidade com uma aven- Luisa vestia-se para ir a casa de
turazinha. Malicioso e repleto de truques Leopoldina. Se Jorge soubesse, não
para atrair a amante, Basílio considera a havia de gostar, não! Mas estava tão
fidelidade como sendo um atraso da so- farta de estar só, aborrecia-se tanto! De
ciedade lisboeta frente à modernização manhã, ainda tinha os arranjos, a costu-
de Paris. Torna-se, durante toda a nar- ra, a toillete, algum romance...Mas de
rativa, o mais cínico dos personagens. tarde!
Juliana é a criada que faz desmoronar
o mundo de Luísa, chantageando-a com À hora em que Jorge costumava
voltar do ministério, a solidão parecia
as cartas escritas pelo amante. Revolta-
alargar-se em torno dela. Fazia-lhe tan-
da pela situação de serviçal, de conse-
qüente fracasso na tentativa de mudar ta falta o seu toque de campainha, os
seus passos no corredor!...
de vida e pelo ódio contra a patroa,
Juliana segura toda a narrativa com os Ao crepúsculo, ao ver cair o dia,
momentos mais intensos na trama amo- entristecia-se sem razão, caía numa
rosa. A empregada tentará tirar proveito vaga sentimentalidade: (...) O que pen-
das circunstâncias, reunindo provas de sava em tolices então!”
— 72 —

Nestes fragmentos há a presença Eça critica as aventuras de amor ro-


do discurso indireto livre, que mistura a mânticas e traça um painel demolidor da
voz do narrador com a consciência da sociedade portuguesa.
personagem, desamparada, mais pro- Help! Sistema de Consulta Interativa. São Paulo:
pensa a ser levada ao adultério com o Estadão, 1996. p.163.
primo.
Considerada das mais importantes
“Servia, havia vinte anos. Como ela de Eça de Queirós, narra a história de
dizia, mudava de anos, mas não muda-
um amor proibido vivenciado por Carlos
va de sorte (...) Era demais! Tinha agora
da Maia e Maria Eduarda, que no decor-
dias em que só de ver o balde das águas
rer de toda a narrativa vêm a descobrir
sujas e o ferro de engomar se lhe em-
que são irmãos. Trata-se de uma tragé-
brulhava o estomago. Nunca se acostu-
dia romântica e, ao mesmo tempo, uma
mara a servir (...)
crônica da alta vida social lisboeta de
as antipatias que a cercavam fa- 1880.
ziam-na assanhada, como um círcu- Segundo pesquisadores e litera-
lo de espingardas enraivece um tos, a obra é desencantada e pessimis-
lobo. Fez-se má; beliscava crianças até ta, indo muito além da situação social
lhes enodor a pele; e se lhe ralhavam, a onde se passa o panorama descrito na
sua cólera rompia em rajadas. Co- obra transparece a melancolia existen-
meçou a ser despedida. Num só ano te numa sociedade considerada civili-
estêve em três casas (...)” zada, ocasionando uma consciência de
Podemos perceber também o dis- fracasso vital. Cabe ressaltar que to-
curso indireto livre. A empregada Juliana das as personagens são consideradas
representa o ódio dos pobres em rela- derrotadas, e esta descrição não se
ção aos ricos. encontra longe da realidade; pelo con-
trário, melancolia e pessimismo são en-
QUEIROS, Eça de. O Primo Basílio. In: Ler é Aprender. contrados, também, no homem do sécu-
São Paulo: Estadão, 1997. p.455.
lo XIX.

Os Maias (fragmentos)

Os Maias é voltado para a alta so- “A casa que os Maias vieram habi-
ciedade com suas jogatinas, corridas tar em Lisboa, no outono de 1875, era
de cavalo, festas noturnas, adultérios e conhecida na vizinhança da rua de S.
incestos. Francisco de Paula, e em todo o bairro
das Janelas Verdes, pela casa do Ra-
Os Maias tem como sub-título “Epi- malhete ou simplesmente o Ramalhete.
sódios da vida romântica”. Através da Apesar deste fresco nome de vivenda
história incestuosa do jovem médico Car- campestre, o Ramalhete, sombrio casa-
los de Maia e sua irmã Maria Eduarda, rão de paredes severas, com um renque
— 73 —

de estreitas varandas de ferro no pri- dade das ramagens silvestres. Além dis-
meiro andar, e por cima uma tímida fila so, a renda que pediu o velho Vilaça,
de janelinhas abrigadas à beira do te- procurador dos Maias, pareceu tão exa-
lhado, tinha o aspecto tristonho de Resi- gerada a Monsenhor, que lhe perguntou
dência Eclesiástica que competia a uma sorrindo se ainda julgava a Igreja nos
edificação do reinado de D. Maria I: com tempos de Leão X. Vilaça respondeu
uma sineta e com uma cruz no topo, que também a nobreza não estava nos
assimilhar-se-ia a um Colégio de Jesuí- tempos do senhor D. João V. E o Rama-
tas. O nome de Ramalhete provinha de lhete, continuou desabitado.
certo de um revestimento quadrado de
Este inútil pardieiro (como lhe cha-
azulejos, fazendo painel no lugar herál-
mava Vilaça Júnior, agora por morte de
dico do Escudo d’Armas, que nunca
seu pai administrador dos Maias) só veio
chegara a ser colocado, e representan-
a servir, nos fins de 1870, para lá se
do um grande ramo de girassóis atado
arrecadarem as mobílias e as louças
por uma fita onde se distinguiam letras e
provenientes do palacete de família em
números duma data.
Bemfica, morada quase histórica, que,
Longos anos o Ramalhete perma- depois de andar anos em praça, fora
necera desabitado, com teias de ara- então comprada por um comendador
nha pelas grades dos postigos térreos, brasileiro. Nessa ocasião vendera-se
e cobrindo-se de tons de ruína. Em 1858 outra propriedade dos Maias, a Tojeira;
Monsenhor Buccarini, Núncio de S. San- e algumas raras pessoas que em Lis-
tidade, visitara-o com idéia de instalar lá boa ainda se lembravam dos Maias, e
a Nunciatura, seduzido pela gravidade sabiam que desde a Regeneração eles
clerical do edifício e pela paz dormente viviam retirados na sua quinta de Santa
do bairro; e o interior do casarão agra- Olavia, nas margens do Douro, tinham
dara-lhe também, com a sua disposição perguntado a Vilaça se essa gente es-
apalaçada, os tectos apainelados, as tava atrapalhada.
paredes cobertas de frescos onde já
- Ainda tem um pedaço de pão, dis-
desmaiavam as rosas das grinaldas e
se Vilaça sorrindo, e a manteiga para
as faces dos Cupidinhos. Mas Monse-
lhe barrar por cima.
nhor, com os seus hábitos de rico prela-
do romano, necessitava na sua vivenda Os Maias eram uma antiga família
os arvoredos e as águas de um jardim da Beira, sempre pouco numerosa, sem
de luxo: e o Ramalhete possuía apenas, linhas colaterais, sem parentelas - e
ao fundo dum terraço de tijolo, um pobre agora reduzida a dois varões, o senhor
quintal inculto, abandonado às ervas da casa, Afonso da Maia, um velho já,
bravas, com um cipreste, um cedro, uma quase um antepassado, mais idoso que
cascatasinha seca, um tanque entulha- o século, e seu neto Carlos que estuda-
do, e uma estátua de mármore (onde Mon- va medicina em Coimbra. Quando Afon-
senhor reconheceu logo Vênus Citherêa) so se retirara definitivamente para San-
enegrecendo a um canto na lenta umi- ta Olavia, o rendimento da casa excedia
— 74 —

já cinqüenta mil cruzados mas desde Afonso riu muito da frase, e res-
então tinham-se acumulado as econo- pondeu que aquelas razões eram exce-
mias de vinte anos de aldeã; viera tam- lentes - mas ele desejava habitar sob
bém a herança de um último parente, tectos tradicionalmente seus; se eram
Sebastião da Maia, que desde 1830 vi- necessárias obras, que se fizessem e
via em Nápoles, só, ocupando-se de largamente; e enquanto a lendas e
numismática e o procurador podia cer- agoiros, bastaria abrir de par em par as
tamente sorrir com segurança quando janelas e deixar entrar o sol.
falava dos Maias e da sua fatia de pão.
S.ex.ª mandava: - e, como esse in-
A venda da Tojeira fora realmente verno ia seco, as obras começaram logo,
aconselhada por Vilaça mas nunca ele sob a direção de um Estevas, arquiteto,
aprovara que Afonso se desfizesse de político, e compadre de Vilaça. Este ar-
Bemfica - só pela razão daqueles mu- tista entusiasmara o procurador com um
ros terem visto tantos desgostos do- projeto de escada aparatosa, flanqueada
mésticos. Isso, como dizia Vilaça, acon- por duas figuras simbolizando as con-
tecia a todos os muros. O resultado era quistas da Guiné e da Índia. E estava
que os Maias, com o Ramalhete inabitá- ideando também uma cascata de louça
vel, não possuíam agora uma casa em na sala de jantar - quando, inesperada-
Lisboa; e se Afonso naquela idade ama- mente, Carlos apareceu em Lisboa com
va o sossego de Santa Olavia, seu neto, um arquiteto decorador de Londres, e,
rapaz de gosto e de luxo que passava depois de estudar com ele à pressa al-
as férias em Paris e Londres, não que- gumas ornamentações e alguns tons de
reria, depois de formado, ir sepultar-se estofos, entregou-lhe as quatro pare-
nos penhascos do Douro. E, com efeito, des do Ramalhete, para ele ali criar, exer-
meses antes de ele deixar Coimbra, cendo o seu gosto, um interior confortá-
Afonso assombrou Vilaça anunciando- vel, de luxo inteligente e sóbrio.
lhe que decidira vir habitar o Ramalhete!
O procurador compôs logo um relatório A Capital
a enumerar os inconvenientes do casa-
A Capital possui uma estrutura de
rão: o maior era necessitar tantas obras
novela e retrata a sociedade, os costu-
e tantas despesas; depois, a falta de
mes, através de sátiras e caricaturas.
um jardim devia ser muito sensível a
quem saia dos arvoredos de Santa Artur Corvello, 23 anos, pertence a
Olavia; e por fim, aludia mesmo a uma uma família burguesa, originaria de Lis-
lenda, segundo a qual eram sempre fa- boa. Seu pai, Manuel Corvello, tinha o
tais aos Maias as paredes do Ramalhe- sonho de ver seu filho estudando em
te, «ainda que (acrescentava ele numa Coimbra e tornando-se um homem ilus-
frase meditada) até me envergonho de tre. Sob este severo regime, o rapaz não
mencionar tais frioleiras neste século se desenvolveu. Era pálido, sensível,
de Voltaire, Guisot e outros filósofos li- chorava por qualquer coisa, era triste e
berais ... » pensava muito no amor e na morte. Nas
— 75 —

férias da Universidade, sua mãe vem a muito adjetivada, fazendo com que o
falecer e, logo depois, seu pai, tendo de leitor perceba claramente estas carac-
voltar para sua cidade natal a fim de ven- terísticas.
der em leilão sua mobília e alguns perten-
3ª fase (1888 – 1900): é a fase
ces da casa. Com a idéia de liberdade,
pós-realista, marcada pela desilusão e
gastou toda a sua herança e teve que
o abandono aos ideais realistas; defen-
pedir ajuda de suas tias. Foi morar em
de a política colonialista, o nacionalismo
Oliveira e passou a trabalhar numa far-
e a vida pura do campo, com as obras A
mácia, sem deixar de lado o seu amor
Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as
por literatura. Nesta época escreveu
Serras e A Relíquia.
“Amores de Poeta”, mas não obteve su-
cesso algum. Tentou fundar um jornal,
mas também foi um fracasso. Fez várias A Ilustre Casa de Ramires
tentativas de se enturmar na sociedade (comentários)
literária, mas só foi cada vez mais ridicu-
A Ilustre Casa de Ramires retrata
larizado. A obra não possui um desfe-
a expansão de Portugal na África. O
cho feliz, pois Artur volta à cidadezinha
personagem Ramires representa Por-
de Oliveira para trabalhar na farmácia,
tugal.
no entanto, sempre sonhando com a ven-
da de seu livro e tornar-se ilustre na vida. O contexto em que decorre a ação
da obra retrata um país decadente, que
Nesta obra, Eça utiliza-se de re-
tenta achar saídas no sentido de recu-
tratos caricaturais de seus amigos ínti-
perar as glórias do passado. Gonçalo
mos e de seu auto-retrato psicológico,
Mendes Ramires é o personagem prin-
encontrado no personagem Artur
cipal, fora da realidade, já que a fidalguia
Corvello. Mostra o lado real e crítico de
e os ideais de honra não faziam parte
uma sociedade portuguesa: o meio po-
lítico e literário de Lisboa – sociedade do mundo moderno.
burguesa totalmente corrompida, sem O termo “casa” no título refere-se
valores morais. Toda a ação gira em a família, ascendência. O passado apa-
torno de uma idéia principal – a busca rece se contrapondo à situação vivida
da fama e de seu reconhecimento na por Ramires. O resultado é irônico, pois
capital portuguesa. O tempo da história a honra e o heroísmo do antepassado
é cronológico, mas aparece também o contrastam com a fraqueza e a dege-
uso de flashback. O ambiente social é
neração moral do protagonista.
caracterizado pela sociedade burgue-
sa de Portugal do século XIX. O foco A Ilustre Casa de Ramires apre-
narrativo encontra-se em terceira pes- senta uma narrativa dentro de outra nar-
soa – narrador onisciente. A narração rativa para contar a história da família
é descritiva, em que o autor consegue Ramires, na casa da Torre de Santa
caracterizar as personagens, espaço Irinéia. A obra é estruturada da seguinte
e ambiente, a partir de uma linguagem forma:
— 76 —

• O narrador onisciente: narrador prin- O protagonista da obra é Jacinto, um


cipal, é o articulador da macronar- homem rico que decide deixar o campo
rativa, de onde se desdobram três para viver na cidade grande. Em sua nova
outras narrativas no desenvolvimen- residência, Jacinto busca integrar-se
to do romance; completamente ao novo mundo burguês,
financista e industrial, através do culto à
• O narrador da novela Torre de D. Ra-
informação e às técnicas modernas. De-
mires: este fala com a voz empresta-
pois de adquirir conhecimento sobre to-
da de Gonçalo Mendes Ramires, per-
das as novidades tecnológicas, o prota-
sonagem protagonista do romance;
gonista fracassa em seus objetivos.
• O narrador do poemeto épico: autoria
Eça de Queirós mostra, através do
do tio Duarte, “O Bardo”, referencial do
personagem Zé Fernandes, o valor de
sobrinho Gonçalo para poder compor
se viver longe do mundo burguês, ten-
a novela, com publicação garantida na
tando fazer com que Jacinto enxergue
Semanário da Vira de Guimarães;
os horrores da poluição gerada pelas
• O narrador do fado: louva os feitos da cidades industriais.
Casa de Ramires, autoria de Videirinha.
O desfecho da narrativa nos suge-
Enquanto o narrador onisciente vai re, com a introdução do telefone – esse
narrando as aventuras e desventuras emblema da modernidade – no paraíso
de Gonçalo, o próprio Gonçalo escreve rural de Tormes, que não existe nessa
uma novela em que relata os feitos herói- novela uma proposta de recusa com-
cos dos seus antepassados que aludem pleta à civilização e aos seus produtos
ao primeiro rei de Portugal. Gonçalo usa tecnológicos, mas sim uma contraposi-
o texto do tio Duarte como fonte de inspi- ção entre o “natural” e o “artificial” e
ração, eliminando deste texto o que não necessária absorção de um pelo outro.
seria próprio, conveniente para estar con- Help! Sistema de Consulta Interativa. São Paulo:
tido numa novela, devido à linha românti- Estadão, 1996. p.163.
ca das poesias elaboradas pelo tio.
(fragmentos)
A Cidade e as Serras
Numa dessas ativas semanas, po-
A Cidade e as Serras, segundo opi- rém, a minha atenção subitamente se des-
nião do próprio autor, “é o texto sobre o pegou deste interessante Jacinto. Hós-
qual podemos ler os julgamentos mais pede do 202, conservava no 202 a minha
radicais e contraditórios”. Isto porque mala e a minha roupa; e, acostado à ban-
Eça de Queirós tinha a intenção de pro- deira do meu Príncipe, ainda ocasional-
por neste romance uma solução reacio- mente comia do seu caldeirão sumptuoso.
nária para Portugal ao elogiar a rurali- Mas a minha alma, a minha embrutecida
dade, o atraso português face à reali- alma, e o meu corpo, o meu embrutecido
dade dos países mais desenvolvidos da corpo, habitavam então na Rua do Hélder,
Europa. nº 16, quarto andar, porta à esquerda.
— 77 —

Descia eu uma tarde, numa leda paz E eu (miserável Zé Fernandes!) tam-


de ideias e sensações, o Boulevard da bém me senti muito sério, trespassado
Madalena, quando avistei, diante da Es- por uma emoção grave, como se nos
tação dos Ónibus, rondando no asfalto, envolvesse, naquela alcova do Café, a
num passo lento e felino, uma criatura majestade de um Sacramento. À porta,
seca, muito morena, quase tisnada, com empurrada levemente, o criado avan-
dois fundos olhos taciturnos e tristes, e çou a face nédia. Ordenei uma lagosta,
uma mata de cabelos amarelados, toda pato com pimentões, e Borgonha. E foi
crespa e rebelde, sob o chapéu velho somente ao findarmos o pato que me
de plumas negras. Parei, como colhido ergui, amarfanhando convulsivamente
por um repuxão nas entranhas. A cria- o guardanapo, e a tremer lhe beijei a
tura passou - no seu magro rondar de boca, todo a tremer, num beijo profundo
gata negra, sobre um beiral de telhado, e terrível, em que deixei a alma, entre
ao luar de Janeiro. Dois poços fundos saliva e gosto de pimentão! Depois, numa
não luzem mais negro e taciturnamente tipóia aberta, sob um bafo mole de leste
do que luziam os seus olhos taciturnos e de trovoada, subimos a Avenida dos
e negros. Não recordo (Deus louvado!) Campos Elísios. Em frente à grade do
como rocei o seu vestido de seda, lus- 202 mumurei, para a deslumbrar com o
troso e ensebado nas pregas; nem como meu luxo: - “Moro ali, todo o ano!...” E
lhe rosnei uma súplica por entre os den- como ao mirar o Palacete, debruçada,
tes que rangiam; nem como subimos ela roçara a mata fulva do pêlo crespo
ambos, morosamente e mais silencio- pela minha barba - berrei desesperada-
sos que condenados, para um gabinete mente ao cocheiro que galopasse para
do Café Durand, safado e morno. Diante a Rua do Hélder, nº 16, quarto andar,
do espelho, a criatura, com a lentidão de porta à esquerda!
um rito triste, tirou o chapéu e a romeira
salpicada de vidrilhos. A seda puída do Amei aquela criatura. Amei aquela
corpete esgarçava nos cotovelos agu- criatura com Amor, com todos os Amo-
dos. E os seus cabelos eram imensos, res que estão no Amor, o Amor divino, o
de uma dureza e espessura de juba bra- Amor humano, o Amor bestial, como
va, em dois tons amarelos, uns mais Santo Antonino amava a Virgem, como
dourados, outros mais crestados, como Romeu amava Julieta, como um bode ama
a côdea de uma torta ao sair quente do uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu
forno. deliciosamente apagava a minha alegria
na cinza da sua tristeza; e com inefável
Com um riso trémulo, agarrei os
gosto afundava a minha razão na den-
seus dedos compridos e frios:
sidade da sua estupidez. Durante sete
- E o nomezinho, hem? furiosas semanas perdi a consciência
da minha personalidade de Zé Fernan-
Ela séria, quase grave:
des - Fernandes de Noronha e Sande,
- Madame Colombe, 16, Rua do Hél- de Guiães! Ora se me afigurava ser um
der, quarto andar, porta à esquerda. pedaço de cera que se derretia, com
— 78 —

horrenda delícia, num forno rubro e rugi- O sobrinho, ao saber disso, pas-
dor; ora me parecia ser uma faminta sou a fazer de tudo para agradá-la, e
fogueria onde flamejava, estalava e se passa, então, a se fingir de beato, mas,
consumia um molho de galhos secos. ao mesmo tempo, não consegue abrir
Desses dias de sublime sordidez só mão dos prazeres da vida e acaba se
conservo a impressão de uma alcova envolvendo com mulheres sem sua tia
forrada de cretones sujos, de uma bata saber.
de lã cor de lilás com sutaches negros,
de vagas garrafas de cerveja no már- Através de um falso comportamen-
more de um lavatório, e de um corpos to beato, consegue conquistar a confi-
tisnado que rangia e tinha cabelos no ança da tia, e esta lhe proporciona uma
peito. E também me resta a sensação de viagem a Terra Santa e pede para que
incessantemente e com arroubado de- Teodorico traga de lá uma relíquia que
leite me despojar, arremessar para um fosse capaz de curá-la de todos os
regaço, que se cavava entre um ventre seus males.
sumido e uns joelhos agudos, o meu re-
Nessa viagem, conhece várias
lógio, os meus berloques, os meus anéis,
pessoas como o historiador Topsius e
os meus botões de punho de safira, e
Mary, que se tornou sua amante. Mary,
as cento e noventa e sete libras que eu
ao se despedir dele, deu uma lembran-
trouxera de Guiães numa cinta de ca-
ça sua, uma camisola com uma dedi-
murça. Do sólido, decoroso, bem forne-
catória dentro: “Ao meu Teodorico, meu
cido Zé Fernandes, só restava uma car-
portuguesinho passante; em lembran-
caça errando através de um sonho, com
ça do muito que gozamos”. A camisola
as gâmbias moles e a baba a escorrer.
foi embrulhada em um papel pardo.

A Relíquia Após sair de Alexandria, Teodorico


(resumo) encontra uma árvore de espinhos, da
qual pressupõe ter saído a coroa de es-
Teodorico, o personagem protago-
pinhos de Cristo; então, decide pegar
nista, inicia a narrativa descrevendo as
um galho dessa árvore para levar como
suas próprias origens: fica órfão aos
relíquia à sua tia. A relíquia também foi
nove anos e é levado pelo Sr. Matias à
embrulhada em um papel pardo.
casa de Titi, sua tia, que morava em Lis-
boa. A casa de sua tia era toda volta- O protagonista almejava a fortuna
da para a religião, já que esta era mui- de sua tia e desejava muito sua morte.
to senhora e muito beata e devota a Com medo que Titi desconfiasse que,
Deus. Titi abominava as coisas munda- durante a viagem havia se envolvido com
nas e não permitia nenhum envol- mulheres, resolve se desfazer do embru-
vimento de Teodorico com “saias” (mu- lho que poderia comprometê-lo, dando-o
lheres). Ela era uma senhora muito rica a uma pobre senhora com uma criança
e sua fortuna era incalculável. no colo, entontecida pela miséria.
— 79 —

Ao retornar a Portugal, Teodorico Não se perdeu teu sangue generoso,


dá o embrulho para a tia, mas quando Nem padeceste em vão, quem quer
esta abre o pacote, encontra a camisola [que foste,
de Mary com a dedicatória.
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Com isso, Teodorico é expulso da Morreste como vil e faccioso.
casa da tia e é também deserdado da
tão sonhada fortuna. Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste...
Teodorico passa a morar em um ho-
tel (Hotel Pomba de Ouro) e para poder Paz aos homens e guerra aos
[deuses! – pôs-te
se sustentar, passa a vender as relíqui-
as da Terra Santa. Em vão sobre um altar o vulgo
[ocioso...
Titi morre e deixa como herança
para o sobrinho apenas os óculos que Do pobre que protesta foste a imagem:
ficavam pendurados na sala de jantar. Um povo em ti começa,
Depois de algum tempo, reencon- [um homem novo:
tra um amigo chamado Crispim e este, De ti data essa trágica linhagem.
após ouvir a história dele, arruma-lhe
um emprego. Por isso nós, a Plebe, ao pensar
[nisto,
Teodorico conhece a irmã de Cris- Lembraremos, herdeiros desse
pim, D. Jesuína, casa-se com ela, tem [povo,
três filhos, torna-se comendador e dono
de mosteiro, passando a viver da re- Que entre nossos avós se conta
[Cristo.
ligião.
A um poeta
Antero Tarquínio de Quental Tu que dormes, espírito sereno,
(1842 – 1891) Posto à sombra dos cedros
[seculares,
Suas primeiras poesias refletem Como um levita à sombra dos altares,
ainda uma postura romântica (Raios de
Longe da luta e do fragor terreno,
Extinta Luz e Primaveras Românticas).
Com Odes Modernas, Antero inaugura Acorda! É tempo! O sol,
o Realismo – é a fase revolucionária. Já [já alto e pleno,
com Sonetos, retrata toda a evolução
Afugentou as larvas tumulares...
de sua vida artística – a juventude do
poeta marcada pelo amor, a época da Para surgir do seio desses mares,
Questão Coimbrã e a fase metafísica e Um mundo novo espera só um
de sentimento pessimista. [aceno...
— 80 —

Escuta! É a grande voz das Odes Modernas


[multidões!
À História
São teus irmãos, que se erguem!
[São canções... VI
Mas de guerra...e são vozes de Se um dia chegaremos, nós,
[rebate! [sedentos,
A essa praia do eterno
Ergue-te, pois, soldado do Futuro, [mar-oceano,
E dos raios de luz do sonho puro, Onde lavem seu corpo os
Sonhador, faze espada de combate! [pustulentos,
Quental, Antero de. In: Sonetos. 6 ed. Lisboa: Sá da E farte a sede, enfim, o peito
Costa, 1979. p. 52. [humano?
Oh! diz-me o coração que estes
O Palácio da Ventura [tormentos
Sonho que sou um cavaleiro Chegarão a acabar: e o nosso
[andante, [engano,
Por desertos, por sóis, por Desfeito como nuvem que
[noite escura, [desanda,
Paladino do amor, busco anelante Deixará ver o céu de banda a
[banda!
O palácio encantado da Ventura!
Felizes os que choram! alguma hora
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Seus prantos secarão sobre seus
Quebrada a espada já, rôta a [rostos!
[armadura...
Virá do céu, em meio de uma
E eis que súbito, o avisto, fulgurante [aurora,
Na sua pompa e aérea formosura! Uma águia que lhes leve os seus
[desgostos!
Com grandes golpes bato à porta e
[brado: Há-de alegrar-se, então, o olhar que
[chora...
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
E os pés de ferro dos tiranos,
Abri-vos, portas de ouro, ante
[postos
[meus ais!
Na terra, como torres, e firmados,
Abrem-se as portas d’ouro,
[com fragor... Se verão, como palhas, levantados!
Mas dentro encontro só, cheio de dor, Os tiranos sem conto – velhos
Silêncio e escuridão – e nada mais! [cultos,
— 81 —

Espectros que nos gelam com o • Poesia do cotidiano de Cesário


[abraço... Verde – Opõe-se ao lirismo românti-
E mais renascem quanto mais co e revela as injustiças e desníveis
[sepultos... sociais, focalizando os esconderijos
e indecências da cidade (corrupção
E mais ardentes no maior
e decadência da classe burguesa).
[cansaço...
Esse tipo de poesia foge às tradicio-
Visões de antigos sonhos, cujos nais regras do jogo estético, pois
[vultos centraliza-se no objeto e não no su-
Nos oprimem ainda o peito lasso... jeito, o que desloca o interesse poé-
tico para fora do “eu” poético.
Da terra e céu bandidos
[orgulhosos, O Sentimento dum Ocidental
Os Reis sem fé e os Deuses
I
[enganosos!
QUENTAL, Antero de. In: Sonetos. 6 ed. Lisboa: Sá da Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Costa, 1979. p. 80.
Há tal soturnidade, há tal
Além de Antero de Quental, desta- [melancolia,
cam-se Gomes Leal e Guerra Junqueiro Que as sombras, o bulício, o Tejo,
com suas poesias de combate à socie- [a maresia
dade e política da época e Cesário Ver-
Despertam-me um desejo absurdo
de e Gonçalves Crespo com suas poe-
sias voltadas para o cotidiano lisbonense. [de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,


José Joaquim Cesário Verde O gás extravasado enjoa-me,
[perturba;
(1855 – 1886)
E os edifícios, com as chaminés, e
[a turba
Nasceu em 1855, na Freguesia da
Madalena, em Lisboa, Portugal. Era filho Toldam-se duma cor monótona e
de um lavrador e comerciante e passou [londrina.
quase todo o tempo atendendo aos inte-
resses dos pais, porém, sem deixar de se Batem os carros de aluguer, ao
interessar pela leitura. Em 1873 freqüenta [fundo,
o Curso de Letras e inicia suas primeiras Levando à via-férrea os que se
produções literárias no Diário de Notícias. [vão. Felizes!
Daí por diante começa a publicar varias
poesias em diversas revistas e jornais da Ocorrem-me em revista
época. Morre em 1886, vitima de tubercu- [exposições, países:
lose, deixando 42 composições poéticas Madrid, Paris, Berlim,
do período de 1873 e 1886. [S.Petersburgo, o mundo!
— 82 —

Semelham-se a gaiolas, com Às portas, em cabelo, enfadam-se


[viveiros, [os lojistas!
As edificações somente
[emadeiradas: Vazam-se os arsenais e as
[oficinas;
Como morcegos, ao cair das
[badaladas, Reluz, viscoso, o rio; apressam-se
[as obreiras;
Saltam de viga em viga, os mestres
[carpinteiros. E num cardume negro, hercúleas,
[galhofeiras,
Voltam os calafates, aos magotes, Correndo com firmeza, assomam
De jaquetão ao ombro, [as varinas.
[enfarruscados, secos:
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Embrenho-me a cismar, por
[boqueirões, por becos, Seus troncos varonis recordam-me
[pilastras;
Ou erro pelos cais a que se
[atracam botes. E algumas, à cabeça, embalam nas
[canastras
E evoco, então, as crônicas navais: Os filhos que depois naufragam nas
Mouros, baixéis, heróis, tudo [tormentas.
[ressuscitado
Descalças! Nas descargas de
Luta Camões no Sul, salvando um [carvão,
[livro a nado!
Desde manhã à noite, a bordo das
Singram soberbas naus que eu não [fragatas;
[verei jamais!
E apinham-se num bairro aonde
E o fim da tarde inspira-me; e [miam gatas,
[incomoda! E o peixe podre gera os focos de
De um couraçado inglês vogam os [infecção!
[escaleres; (...)
E em terra num tinir de louças e IV
[talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis Horas Mortas
[da moda. O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Num trem de praça arengam dois Estende-se ao comprido, ao meio
[dentistas; [das trapeiras;
Um trôpego arlequim braceja numas Vêm lágrimas de luz dos astros com
[andas; [olheiras,
Os querubins do lar flutuam nas Enleva-me a quimera azul de
[varandas; [transmigrar.
— 83 —

Por baixo, que portões! Que E pelas vastidões aquáticas seguir!


[arruamentos!
Mas se vivemos, os emparedados,
Um parafuso cai nas lajes, às
[escuras: Sem árvores, no vale escuro das
[muralhas!...
Colocam-se taipais, ringem as
[fechaduras, Julgo avistar, na treva, as folhas
[das navalhas
E os olhos dum caleche
[espantam-me, sangrentos. E os gritos de socorro ouvir,
[estrangulados.
E eu sigo, como as linhas de uma
[pauta E nestes nebulosos corredores
A dupla correnteza augusta das Nauseiam-me, surgindo, os ventres
[fachadas; [das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos
Pois sobem, no silêncio, infaustas
[bordos sobre as pernas,
[e trinadas,
Cantam, de braço dado, uns tristes
As notas pastoris de uma
[bebedores.
[longínqua flauta.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Se eu não morresse, nunca! E
[eternamente Afastam-se, a distância, os dúbios
[caminhantes;
Buscasse e conseguisse a
[perfeição das cousas! E sujos, sem ladrar, ósseos, febris,
[errantes,
Esqueço-me a prever castíssimas
Amareladamente, os cães parecem
[esposas,
[lobos.
Que aninhem em mansões de vidro
[transparente! E os guardas, que revistam as
[escadas,
Ó nossos filhos! Que de sonhos Caminham de lanterna e servem de
[ágeis, [chaveiros;
Pousando, vos trarão a nitidez às Por cima, as imorais, nos seus
[vidas! [roupões ligeiros,
Eu quero as vossas mães e irmãs Tossem, fumando sobre a pedra
[estremecidas, [das sacadas.
Numas habitações translúcidas e
[frágeis. E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com
Ah! Como a raça ruiva do porvir, [dimensões de montes,
E as frotas dos avós, e os A dor humana busca os amplos
[nómadas ardentes, [horizontes,
Nós vamos explorar todos os E tem marés, de fel, como um
[continentes [sinistro mar!
— 84 —

Resumo do Realismo-Naturalismo

Momento sócio-cultural injusta, apontando seus vícios e hi-


pocrisias.
• Sociedade em crise: revolta dos cam- • Grande influência das teorias cientí-
poneses e soldados. ficas da segunda metade do século
• Dependência econômica da Inglaterra; XIX; o autor escreve com a minúcia
a burguesia portuguesa não assume de um cientista.
o controle do poder que continua nas
mãos dos comerciantes, banqueiros e
setores agrários.
Autores e obras

• Período de Regeneração (1851 – • Eça de Queirós: um dos maiores


1919), com a rotatividade no poder do prosadores da língua portuguesa, e
partido conservador (Partido Rege- expoente máximo do Realismo por-
nerador) e outro menos conservador tuguês. Obras: O Crime do Padre
(Histórico, Reformista, Progressista). Amaro (1875), O Primo Basílio
Adoção de uma política que beneficia (1878), Os Maias (1888), A Ilustre
os proprietários de terra. Crescimen- Casa de Ramires (1900), A Cidade
to de uma classe média urbana. e as Serras (1901).
• Crítica ao tradicionalismo da socie- • Fialho de Almeida: autor afastado
dade portuguesa, compromisso éti- dos meios literários oficiais, escre-
co do escritor com a realidade. veu A Cidade do Vicio Os Maias
(1892), Vida Irônica (1892).
• Crítica ao conservadorismo da Igreja. • Antero de Quental: autor amargu-
• Preocupação política: democratiza- rado e desiludido, escreveu Odes
ção da sociedade. Modernas (1865), Sonetos comple-
tos (1886), Raios de Extinta Luz
(1892).
Características literárias • Cesário Verde: considerado pre-
cursor dos modernistas, escreveu
• Texto objetivo, direto e sem domínio O Livro de Cesário Verde (1887).
da subjetividade; o autor procura re-
produzir a realidade que ele observa. • Guerra Junqueiro: autor simples
e objetivo, escreveu A Velhice do
• Intenção crítica; o autor pretende mo- Padre Eterno (1885), Os Simples
dificar a realidade que ele considera (1892).
— 85 —

Simbolismo
O Simbolismo representa, por um porém, não apenas a evasão a dar
lado, o resultado final da evolução um nome diretamente, mas a ex-
iniciada pelo Romantismo, isto é, pressão indireta de um significado
pela descoberta da metáfora, célu- que é impossível dar diretamente,
la germinal da poesia e que condu- que é essencialmente indefinível e
ziu à riqueza da imaginária impres- inesgotável.
sionista; mas não só repudia o
HAUSER, Arnold. História social da literatura e a arte.
impressionismo pelo seu ponto de São Paulo: Mestre Jou, s.d., t. II, p. 1076-8.
vista materialista e o Parnaso pelo
seu formalismo e racionalismo, Movimento literário que se iniciou
como também repudia o romantis- no final do século XIX e se estendeu até
mo pelo seu emocionalismo e o o início do século XX, o Simbolismo se
convencionalismo da sua lingua- destacou na poesia, inteiramente volta-
gem metafórica. Na realidade, o sim- da para a subjetividade (eu interior do
bolismo pode considerar-se a rea- poeta), opõe-se às propostas do Rea-
ção contra toda a poesia anterior; lismo. Segundo Alfredo Bosi, “Do âma-
descobre qualquer coisa que ou go da inteligência européia surge uma
nunca se conhecera ou a que nun- oposição vigorosa do triunfo da coisa e
ca até aí se dera relevo: a pura do fato sobre o sujeito – aquele sujeito a
poesia – a poesia que surge do quem o otimismo do século prometera,
espírito irracionalista, não concep- mas não dera senão um purgatório de
tual, da linguagem, que é contrária contrastes e frustrações”.
a toda interpretação lógica. Para o
simbolismo, a poesia é apenas a O Simbolismo reflete um movimento
expressão daquelas relações e histórico complexo. As correntes mate-
correspondências que a linguagem, rialistas e racionalistas não evoluíram
deixada a si própria, cria entre o com a nova realidade – industrialismo
concreto e o abstrato, o material e burguês e Segunda Revolução Industri-
o ideal, e entre as diferentes esfe- al. Quando não se consegue explicar o
ras dos sentidos. Mallarmé pensa mundo exterior, os artistas apelam para
que a poesia é a anunciação de a negação deste, voltando-se para uma
imagens suspensas, oscilantes, e realidade subjetiva, interior.
constantemente evanescentes; afir-
ma que nomear um objeto é destruir Representa um movimento de atitu-
três quartos do prazer que reside de pura e subjetiva; importa ao simbolis-
no adivinhar gradual de sua verda- ta o seu estado de alma, a emoção in-
deira natureza. O símbolo implica, terior.
— 86 —

Principais representantes e suas É, através do céu morno de outono,


propostas: O azul desordenado das
• Charles Baudelaire – considera- [claras estrelas!
do o pai da poesia simbolista france-
Porque nós ainda queremos o Matiz,
sa, ou seja, o impressionismo na lite-
ratura. Desenvolveu a teoria das cor- Nada de Cor, nada a não ser o Matiz!
respondências; a doutrina da recu- Oh! O Matiz único que liga
peração da infância; a teoria de que O sonho ao sonho e a flauta
a imaginação é a faculdade essenci- [à corneta.
al do artista (cria a realidade segun-
do um novo enfoque) e teoria de que Foge para longe da Piada assassina,
só a imagem revela a profundidade Do Espírito cruel e do Riso impuro
das coisas.
Que fazem chorar os olhos do Azul
• Paul Verlaine – dá ênfase à músi- E todo esse alho de baixa cozinha!
ca, à musicalidade, à sugestão; eli-
minação das linhas e formas da fi- Toma a eloqüência e torce-lhe
gura – não deve haver idéia clara; [o pescoço!
nada de precisão, razão, porque sem- Tu farás bem, com toda a energia,
pre ocorre o vago dos sentimentos; Em tornar a rima um pouco razoável.
não há precisão do momento, não
Se não a vigiarmos, até onde ele irá?
há precisão do lugar – tudo é indefi-
nido. Oh! Quem dirá os defeitos da Rima?
Arte Poética Que criança surda ou que negro louco
Não forjou esta jóia barata
Antes de qualquer coisa, música
Que soa oca e falsa sob a lima?
E, para isso, prefere o Ímpar
Mais vago e mais solúvel no ar, Ainda e sempre, música!
Sem nada que pese ou que pouse. Que teu verso seja a coisa volátil
Que se sente fugir de uma alma
É preciso também que não vás nunca [em vôo
Escolher tuas palavras sem Para outros céus e para outras
[ambigüidade: [paixões.
Nada mais caro que a canção
[cinzenta Que teu verso seja o bom
[acontecimento
Onde o Indeciso se junta ao Preciso.
Esparso no vento crispado da manhã
São belos os olhos atrás dos véus, Que vai florindo a hortelã e o timo...
É o grande dia trêmulo de meio-dia, E tudo o mais é só literatura.
— 87 —

• Arthur Rimbaud – buscou a fixação • a linguagem é repleta de símbolos.


do inexprimível e procurou de modo Há o uso de figuras de linguagem co-
alucinado a palavra poética, daí o ir- mo as sinestesias e aliterações;
racionalismo da linguagem e as inven-
ções verbais capazes de transformar • o conteúdo está com o espiritual, o
quaisquer realidades. É o mistério da místico e o subconsciente;
palavra – a palavra incognoscível. • há uma concepção mística da vida;
• Stéphane Mallarmé – Para ele, a • há um interesse maior pelo particular
poesia não deve ser nem descritiva, e individual;
nem narrativa; a poesia deve ser um
contexto de palavras pelo seu valor • o tom é altamente poético;
musical; o conteúdo do poema deve
• há uma tentativa de afastamento da
ser uma noção abstrata, emotiva.
realidade e da sociedade contempo-
Em Portugal, o Simbolismo inicia-se rânea;
em 1890, com a publicação de Oaristos,
de Eugênio de Castro e se estende até a • o conhecimento torna-se intuitivo e
proclamação da República em 1910. não lógico;
Nesta época, Portugal passa por uma • dá-se ênfase à imaginação e à fan-
crise na Monarquia (socialismo e republi- tasia;
canismo), crise econômica (deprecia-
ção da moeda nacional e aumento da • despreza-se a natureza em troca do
dívida pública) e plano expansionista, místico e do sobrenatural;
com o Ultimato Inglês.
• arte pela arte;
Principais características • há pouco interesse pelo enredo e
• o Simbolismo nega o Realismo e suas ação na narrativa;
manifestações: passa a rejeitar o
• os personagens são seres humanos
cientificismo, o materialismo, o racio-
interessados no espírito íntimo das
nalismo, valorizando as manifesta-
pessoas;
ções metafísicas e espirituais;
• busca-se a essência ao invés da rea-
• o homem volta-se para uma realidade
lidade;
subjetiva encontrada no Romantismo,
porém busca a essência do ser hu- • a linguagem é exótica e as palavras
mano – a alma. Há, portanto, a oposi- são escolhidas pela sonoridade e
ção entre matéria e espírito, a purifi- ritmo;
cação atingindo o espaço infinito;
• o escritor procura sugerir a realida-
• para os simbolistas, a alma só se liber- de misteriosa do universo e a reali-
ta quando se rompem as correntes dade de seu mundo interior, através
que aprisionam ao corpo – a morte; de simbologias e imagens visuais;
— 88 —

• a razão é substituída pela intuição, O egoísmo, o grande rei, cingira-me


ou seja, há uma viagem ao íntimo da [em seus braços;
pessoa com a finalidade de revelar De ninguém tinha dó, de ninguém
as emoções e os sentimentos; [tinha inveja...
• a linguagem torna-se, portanto, hermé- Contemplando de longe a
tica, obscura e vaga, exprimindo o mis- [sórdida peleja,
ticismo, o nacionalismo e o saudosismo. Esta infrene peleja, a que
[chamamos vida,
Seguia, alheio a tudo e de cabeça
Principais [erguida,
Tendo um único irmão: o meu
simbolistas [gelado orgulho.

portugueses Queimara, rudemente, a flor da


[minha crença;
Em meu peito reinava a fria
[indiferença;

Eugênio de Castro Tinha descarrilado o vagão dos


[meus sonhos;
e Almeida Meus dias eram maus,
(1869 – 1944) [longuíssimos, tristonhos,
Ensopados de névoa e de
Sua obra é dividida em duas fases: [melancolia...

1ª fase (1890): simbolista. Em Oaris- Mas, ao vê-l’A surgir triunfalmente


tos, expõe o uso de novas rimas, alite- [fria,
rações, vocabulário mais rico, poemas
Grácil como uma flor, triste como
marcados por paixão fatal, pessimismo,
[um gemido,
temas macabros e necrofilia.
Meu peito recobrou o seu vigor
Oaristos [perdido,
(fragmentos) Todo eu era contente, e alegre como
[um rei!
Eu era nesse tempo um grande
E, cheio de surpresa, abismado fiquei
[vagabundo,
A olhar o seu perfil e o garbo
Um precoce infeliz, viúvo de ilusões; [do seu colo,
Um sinistro fragor das mundanas Cheio de admiração, como
[paixões [um homem do pólo
Não chegava de há muito a meus Quando, depois de ter suportado
[ouvidos lassos; [os reveses
— 89 —

Duma noite cruel e fria de


[seis meses, Antônio Pereira Nobre
Iluminando enfim os tenebrosos (1867 – 1900)
[trilhos,
No início, suas poesias sofriam influ-
Vê surgir, entre a neve, o sol ências de Almeida Garret; porém, depois
[com ruivos brilhos! vieram as manifestações simbolistas, ri-
cas em musicalidade. Suas poesias reve-
Um Sonho lam profundo pessimismo de forma subje-
tiva e egocêntrica. A morte e os temas
Na messe, que enlouquece, macabros são constantes em sua obra.
[estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, Soneto
[esmorece...
E as cantilenas de serenos Na praia lá da Boa Nova, um dia,
[sons amenos Edifiquei (foi esse o grande mal)
Fogem fluidas, fluindo à fina Alto Castelo, o que é a fantasia,
[flor dos fenos... Todo de lápis-lazúli e coral!

As estrelas em seus halos Naquelas redondezas não havia

Brilham com brilhos sinistros... Quem se gabasse dum domínio igual:


Oh Castelo tão alto! Parecia
Cornamusas e crotalos,
O território dum Senhor Feudal!
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos, Um dia (não sei quando,
[nem sei donde)
Sonolentos e suaves,
Um vento seco de Deserto e spleen
Em suaves,
Deitou por terra, ao pó que
Suaves, lentos lamentos [tudo esconde,
De acentos
O meu condado, o meu condado, sim!
Graves,
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Suaves...
Naquela idade em que se é conde
....................................................... [assim...
Castro, Eugenio. In: Torres, Alexandre Pinheiro. Org.
Antologia da poesia portuguesa – séculos XVII a XX. Lusitânia no Bairro Latino
Porto: Lello & Irmão, 1977. v.II, p. 1351.
Ai do Lusíada, coitado,
2ª fase (século XX): temas volta- Que vem de tão longe, coberto de
dos à Antiguidade Clássica. [pó.
— 90 —

Que não ama, nem é amado, (Que era da minha Torre a


Lúgubre Outono, no mês de Abril! [freguesia)
Que triste foi o seu fado! Batiam as Trindades,
Antes fosse pra soldado, Com os seus olhos cristianíssimos
Antes fosse pro Brasil... olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava
Menino e moço, tive uma Torre de [«Ave-Maria...»
[leite,
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite, Menino e moço, tive uma Torre de
Searas que davam linho de fiar, [leite,

Moinhos de velas, como latinas, Torre sem par!


Que São Lourenço fazia andar... Oliveiras que davam azeite...
Formosas cabras, ainda Um dia, os castelos caíram do Ar!
[pequeninas,
As oliveiras secaram,
E loiras vacas de maternas ancas
Morreram as vacas, perdi as
Que me davam o leite de manhã,
[ovelhas,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Saíram-me os Ladrões, só me
Meus bibes eram da sua lã. [deixaram
António era o pastor desse As velas do moinho... mas rotas e
[rebanho: [velhas!
Com elas ia para os Montes, a
Que triste fado!
[pastar,
Antes fosse aleijadinho,
E tinha pouco mais ou menos seu
[tamanho, Antes doido, antes cego...
E o pasto delas era o meu jantar...
Ai do Lusíada, coitado!
E a serra a toalha, o covilhete e a
[sala. Veio da terra, mailo seu moinho:
Passava a noite, passava o dia Lá, faziam-no andar as águas do
Naquela doce companhia. [Mondego,
Eram minhas Irmãs e todas puras Hoje, fazem-no andar águas do
E só lhes minguava a fala [Sena...

Pra serem perfeitas criaturas... É negra a sua farinha!


E quando na Igreja das Alvas Orai por ele! tende pena!
[Saudades Pobre Moleiro da Saudade...
— 91 —

Ó minha Ó minha capa de estudante, às


Terra encantada, cheia de sol, [ventanias!

Ó campanário, ó Luas-Cheias, Cidade triste agasalhada entre


[choupais!
Lavadeira que lava o lençol,
Ó dobres dos poentes às
Ermidas, sinos das aldeias, [Ave-Marias!
Ó ceifeira que segas cantando Ó Cabo do Mundo! Moreia da Maia!
Ó moleiro das estradas, Estrada de Santiago! Sete-Estrelo!
Carros de bois, chiando... Casas dos pobres que o luar,
Flores dos campos, beiços de [à noite, caia...
[fadas, Fortalezas de Lipp! Ó fosso do
Poentes de Julho, poentes minerais, [Castelo,
Ó choupos, ó luar, ó regas de Amortalhado em perrexil e
[Verão! [trepadeiras,
Onde se enroscam como esposos
Que é feito de vocês? Onde estais, [e lagartas!
[onde estais? Sr. Governador a podar as
[roseiras!
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Ó bruxa do Padre, que botas as
Velhinhas na roca de fiar,
[cartas!
Cabelo todo em caracóis! Joaquim da Teresa! Francisco da
Pescadores a pescar [Hora!
Com a linha cheia de anzóis! Que é feito de vós?
Zumbidos das vespas, ferrões das Faláveis aos barcos que nadavam,
[abelhas, [lá fora,
Ó bandeiras! Ó sol! foguetes! Pelo porta-voz...
[Ó toirada! Arrabalde! marítimo da França,
Ó boi negro entre as capas Conta-me a história da Fermosa
[vermelhas! [Magalona,
Ó pregões de água fresca e E do Senhor de Calais,
[limonada! Mais o naufrágio do vapor
Ó romaria do Senhor do Viandante! [Perseverança,
Procissões com música e anjinhos! Cujos cadáveres ainda vejo à
Srs. Abades de Amarante, [tona...
Com três ninhadas de sobrinhos! Ó farolim da Barra, lindo, de
[bandeiras,
Onde estais? onde estais? Para os vapores a fazer sinais,
— 92 —

Verdes, vermelhas, azuis, brancas, Quem quebrou (que furor cruel e


[estrangeiras, [simiesco!)
Dicionário magnífico de Cores! A mesa de eu cear, – tábua tosca
[de pinho?
Alvas espumas, espumando a
E me espalhou a lenha? E me
[frágua,
[entornou o vinho?
Ou rebentando à noite, como — Da minha vinha o vinho
[flores! [acidulado e fresco...
Ondas do mar! Serras da Estrela
[de água, Ó minha pobre mãe!... Não te ergas
[mais da cova.
Cheias de brigues como pinhais... Olha a noite, olha o vento.
Morenos mareantes, trigueiros [Em ruína a casa nova...
[pastores! Dos meus ossos o lume
[a extinguir-se breve.
Onde estais? onde estais? Não venhas mais ao lar.
Nobre, Antônio. In: Torres, Alexandre Pinheiro. Org. [Não vagabundes mais.
Antologia da poesia portuguesa – séculos XVII a XX.
Porto, Lello & Irmão, 1977. v.II, p. 1331. Alma da minha mãe...
[Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas
Camilo de Almeida [dos casais.
Pessanha (1867 – 1926) (2)
Passou o Outono já, já
Considerado o melhor poeta sim- [torna o frio...
bolista português. Sua poesia apresen-
– Outono de seu riso magoado.
ta imagens fugidias e noção de transito-
riedade da vida. Escreveu Clepsidra, Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
pura abstração onde, acredita o poeta, – O sol, e as águas límpidas do rio.
“tudo é passageiro”. Águas claras do rio! Águas do rio,
Clepsidra Fugindo sob o meu olhar cansado,
(fragmentos) Para onde me levais meu vão
[cuidado?
(1) Aonde vais, meu coração vazio?
Quem poluiu, quem rasgou os
Ficai, cabelos dela, flutuando,
[meus lençóis de linho,
E, debaixo das águas fugidias,
Onde esperei morrer, – meus tão
Os seus olhos abertos e cismando...
[castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os Onde ides a correr, melancolias?
[altos girassóis – e, refratadas, longamente
Quem foi que os arrancou e [ondeando,
[lançou no caminho? as suas mãos translúcidas e frias...
— 93 —

(3) Quando iremos, tristes e sérios,


chorai, arcadas Nas prolixas e vãs contendas.
do violoncelo! Soltando juras, impropérios,
Convulcionadas,
Pelas divisas e legendas?
Pontes aladas
(...)
De pesadelo...
E voltaremos, os antigos
De que esvoaçam, E puríssimos lidadores,
Brancos, os arcos...
(Quantos trabalhos e perigos!)
Por baixo passam,
Se despedaçam, Quase mortos e vencedores?
No rio, os barcos. E quando, ó Doce Infanta Real,
Fundas, soluçam Nos sorrirás do belveder?
Caudais de choro... – Magra figura de vitral,
Que ruínas, (ouçam)! Por quem nós fomos combater...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!... O meu coração desce,
Um balão apagado...
Trêmulos, astros...
Solidões lacustres... – Melhor fora que ardesse,
- Lemes e mastros... Nas trevas, incendiado.
E os alabastros
Na bruma fastidienta,
Dos balaústres!
Como um caixão à cova...
Umas quebradas!
– Porque antes não rebenta
Blocos de gelo...
De dor violenta e nova?!
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas, Que apego ainda o sustém?
Do violoncelo.
Átomo miserando...
Castelo de Óbitos – Se o esmagasse o trem
Quando se erguerão as seteiras, Dum comboio arquejando!...
Outra vez, do castelo em ruína,
E haverá gritos e bandeiras O inane, vil despojo
Na fria aragem matutina? Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Se ouvirá tocar a rebate
Sobre a planície abandonada? Levasse-o na ressaca.
Pessanha, Camilo. Clepsidra. In: Torres, Alexandre
E sairemos ao combate Pinheiro. Org. Antologia da poesia portuguesa – séculos
De cota e elmo e a longa espada? XVII a XX. Porto: Lello & Irmão, 1977. v.II, p. 1331.
— 94 —

Resumo do Simbolismo

Momento sócio-cultural • Busca a essência dos seres e coi-


sas, negando os aspectos exteriores.
• Episódio do Ultimato (1890) – ruptura
do pacto entre liberais e conserva- Autores e obras
dores do período da Regeneração.
Setores da burguesia aderem ao Par- • Eugênio de Castro: considerado
tido Republicano, opondo-se a alta o introdutor do Simbolismo em Portu-
burguesia financista e monárquica. gal, foi um autor criativo e rebelde.
Revoltas no Porto. Assassinato do Escreveu Oaristos (1890), Horas
rei Dom Carlos e do príncipe herdeiro. (1891), Constança (1900), O Filho
• Portugal tenta se consolidar e expan- Pródigo (1910).
dir-se na África, mas suas pretensões • Antônio Nobre: deixou uma obra
são interceptadas pela Inglaterra. em que expressa sofrimento e dor.
Escreveu Só (1892), Despedidas
Características literárias (1902), Primeiros Versos (1921).

• Subjetivismo, negação da objetivida- • Camilo Pessanha: considerado o


de científica do Realismo; o Simbo- maior nome do Simbolismo português
lismo quer fixar o inexpremível. e um dos maiores poetas da língua.
Deixou apenas Clepsidra (1920).
• Linguagem repleta de símbolos; uso
rebuscado das figuras de linguagem • Raul Brandão: principal nome da
(sinestesias, aliterações). prosa simbolista. Escreveu extensa
obra, onde se destacam A Ceia dos
• Valoriza a musicalidade das palavras, Cardeais (1902), A Farsa (1903), Os
a imaginação e a fantasia do autor. pobres (1906), Húmus (1917).
— 95 —

Modernismo
“Os primeiros anos do século XX, • Cubismo – surgiu em 1907 na pin-
em Portugal, são marcados pelo entrecho- tura, com Pablo Picasso e George
que de correntes literárias que vinham Braque e valorizava as formas geo-
agitando os espíritos desde algum tempo: métricas (cubos, cones e cilindros).
Decadentismo, Simbolismo, Impressionis-
mo etc., eram denominações da mesma • Futurismo – movimento cujo obje-
tendência geral que impunha o domínio da tivo principal era o de abolir o pas-
Metafísica e do Mistério no terreno em que sado, adotando novos temas e téc-
as ciências se julgavam exclusivas e to- nicas da arte. O principal represen-
do-poderosas. tante foi Filippo Tommaso Marinetti.
O ideal republicano, engrossado por
sucessivas manifestações de instabilida- • Dadaísmo – movimento que enfa-
de, vai-se concretizar em 1910, com a tiza a destruição e a anarquia de
proclamação da República, depois dos valores e formas. Seu principal re-
sangrentos acontecimentos de 1908, presentante foi Tristan Tzara. Esta
quando o rei D. Carlos perde a vida nas arte pretendia provocar escândalo e
mãos de um homem do povo, alucinada- surpresa, destruir o bom senso, além
mente antimonárquico. de romper qualquer tipo de equilíbrio.

(...) E é nessa atmosfera de emara- • Surrealismo – movimento artístico


nhadas forças estéticas, que se sobre- que não aceitavam a destruição dos
põe à inquietação trazida pela Primeira dadaístas, pois valorizavam a imagi-
Grande Guerra, que um grupo de rapa- nação, o maravilhoso e o sobrena-
zes, em 1915, funda a revista Orpheu. tural.
São eles: Mario de Sá-Carneiro, Fernando
Pessoa, Luis de Montalvor, Santa Rita Pin-
• Expressionismo – movimento que
tor, Ronald de Carvalho, Raul Leal”.
surgiu na Alemanha e caracteriza-
SARAIVA, José Antônio. História da Literatura Portuguesa. va a arte criada sob o impacto do
São Paulo: Europa-América, 1965. Coleção Saber.
sofrimento humano.
Movimento literário que se inicia nos
primeiros anos do século XX (1915), com Essas vanguardas manifestaram-
a manifestação da angústia diante das se principalmente nas artes plásticas,
transformações socioculturais. É a rup- na música e na literatura, com caráter
tura com a estética tradicional, da qual sur- agressivo, experimental e inovador.
giram várias correntes estéticas, conhe- Opõem-se ao racionalismo e objetivismo
cidas por vanguarda. As principais foram: e valorizam o Simbolismo.
— 96 —

Principais características
Fernando Antônio
• atitude irreverente aos padrões esta-
belecidos; Nogueira Pessoa
• reação ao passado clássico e estático;
(1888 – 1935)
• temática particular e individual; Nasceu em Lisboa em 1888, porém,
• preferência pelo dinamismo; passou parte de sua infância e de sua
mocidade na África do Sul, em Durban.
• busca do imprevisível; Retornou a Portugal e iniciou o curso
superior de Letras, em Lisboa, mas aban-
• desaparece o sentimentalismo;
donou a Universidade. Ao morrer, em
• comunicação direta das idéias: lingua- 1935, com apenas 47 anos de idade, o
gem cotidiana; poeta ainda era desconhecido na soci-
edade portuguesa, porém, pouco antes
• originalidade e autenticidade; de sua morte, chegou a receber um prê-
mio do Secretariado de Propaganda Na-
• interesse pela vida interior (estado de
cional, pela publicação de sua obra Men-
espírito, psíquico e subconsciente);
sagem.
• expressão indireta e sugestiva;
Pessoa foi o introdutor das vanguar-
• valorização do bom humor; das modernistas em Portugal. Em 1915,
com Almada Negreiros e Mário de Sá Car-
• liberdade nos versos e ritmos. neiro, funda a revista Orpheu – marco
Em Portugal, o Modernismo se divi- inicial do Modernismo em Portugal. Aos
de em três gerações: seis anos de idade, criou o seu primeiro
heterônimo: Chevalier de Pás. Posterior-
mente, vieram Alexander Search, Álvaro

Primeira Geração de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caei-


ro. A invenção dos heterônimos foi a res-
posta encontrada por Pessoa a uma rea-
(1915 – 1927) lidade que se mostrava múltipla, oscilan-
te e dinâmica, para nela poder sobrevi-
ver. Aos seus heterônimos, deu uma bio-
Orfismo – artistas que participaram grafia, característica física, personalida-
da revista Orpheu, viravam valores sim- de, formação cultural, profissão e ideo-
bolistas e os reformulavam. Destacam- logia.
se: Fernando Pessoa, com o seu des-
dobramento em várias personalidades A complexidade e o mistério dos
poéticas e sua indignação sobre a exis- heterônimos podem encontrar citadas
tência; Almada Negreiros, Florbela Es- numa carta do próprio Fernando Pes-
panca e Mário de Sá Carneiro. soa a Adolfo Casais Monteiro:
— 97 —

“Eu vejo diante de mim, no espaço É um latinista por educação alheia, e um


incolor mas real do sonho, as caras, os semi-helenista por educação própria.
gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro Álvaro de campos teve uma educação
de Campos. Construí-lhes as idades e vulgar de liceu; depois foi mandado para
as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 a Escócia estudar engenharia, primeiro
(não me lembro do dia e mês, mas te- mecânica e depois naval. Numas férias
nho-os algures), no Porto, é médico e fez a viagem ao Oriente, de onde resul-
está presentemente no Brasil. Alberto tou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio
Caeiro nasceu em 1889 e morreu em beirão que era padre. Como escrevo em
1915; nasceu em Lisboa, mas viveu qua- nome desses três?... Caeiro por pura e
se toda a vida no campo. Não teve pro- inesperada inspiração, sem saber ou
fissão nem educação quase alguma. sequer calcular que iria escrever.
Álvaro de campos nasceu em Tavira, no Ricardo Reis, depois de uma delibera-
dia 15 de Outubro de 1890 (às 1:30 da ção abstrata, que subitamente se con-
tarde, diz-me Ferreira Gomes; e é ver- cretiza numa ode. Campos, quando sin-
dade, pois feito horóscopo para esta to um súbito impulso para escrever e
hora, está certo). Este, como sabe, é não sei o quê.”
engenheiro naval (por Glasgow), mas
agora está aqui em Lisboa em inativida-
de. Caeiro era de estatura média e, em- Os heterônimos de
bora realmente frágil (morreu tuber-
culoso), não parecia tão frágil como era.
Fernando Pessoa
Ricardo Reis é um pouco, mas muito
pouco, mais baixo, mais forte, mais seco.
Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altu- Alberto Caeiro da Silva
ra, mais 2 cm do que eu), magro e um
pouco tendente a curvar-se. Cara rapa- (1889 – 1915)
da todos – o Caeiro louro sem cor, olhos
azuis; Reis de um vago moreno mate; Poeta bucólico, vive em contato
Campos entre branco e moreno, tipo com a natureza e é considerado o mes-
vagamente de judeu português, cabelo tre dentre todos os heterônimos. Filóso-
porém liso e normalmente apartado ao fo, acredita que o homem complicou as
lado, monóculo. Caeiro, como disse, não coisas com a metafísica e religiões. De-
teve mais educação que quase nenhu- fende, portanto, a simplicidade da vida e
ma – só instrução primária; morreram- a sensação (pensamentos do poeta).
lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar
em casa, vivendo de uns pequenos ren- O Guardador de Rebanhos
dimentos. Vivia com uma velha tia, tia-
Num meio-dia de fim de primavera
avó. Ricardo Reis, educado num colégio
de jesuítas é, como disse, médico; vive Tive um sonho como uma
no Brasil desde 1919, pois se expatriou [fotografia.
espontaneamente por ser monárquico. Vi Jesus Cristo descer à terra.
— 98 —

Veio pela encosta de um monte Não era mulher: era uma mala
Tornado outra vez menino, Em que ele tinha vindo do céu.
A correr e a rolar-se pela erva E queriam que ele, que só nascera
E a arrancar flores para as deitar [da mãe,
[fora E nunca tivera pai para amar com
E a rir de modo a ouvir-se de longe. [respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Tinha fugido do céu. Um dia que Deus estava a dormir
Era nosso demais para fingir E o Espírito santo andava a voar,
Da segunda pessoa da Trindade. Ele foi à caixa dos milagres e
No céu era tudo falso, tudo em [roubou três,
[desacordo Com o primeiro fez que ninguém
Com flores e árvores e pedras. [soubesse que ele tinha fugido.
No céu tinha que estar sempre sério Com o segundo criou-se
E de vez em quando de se tornar [eternamente humano e menino.
outra vez homem Com o terceiro criou um Cristo
E subir para a cruz, e estar sempre [eternamente na sua cruz
[a morrer E deixou-o pregado na cruz que há
Com uma coroa toda à roda de [no céu
[espinhos E serve de modelo às outras.
E os pés espetados por prego com Depois fugiu para o sol
[cabeça,
E desceu pelo primeiro raio que
E até com um trapo à roda da cintura [apanhou.
Como os pretos nas ilustrações.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
Nem sequer o deixaram ter pai e
[mãe É uma criança bonita de riso e
Como as outras crianças. [natural.

O seu pai era duas pessoas – Limpa o nariz ao braço direito,


Um velho chamado José, que era Chapinha nas poças de água,
[carpinteiro, Colhe as flores e gosta delas e
E que não era pai dele; [esquece-as.
E o outro pai era do mundo nem era
Atira pedras aos burros,
[pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes Rouba a fruta dos pomares
[de o ter. E foge a chorar e a fritar dos cães.
— 99 —

E, porque sabe que elas não gostam Podemos observar nestes trechos
E que toda a gente acha graça, de O guardador de rebanhos a lingua-
gem coloquial de Alberto Caeiro, muitas
Corre atrás das raparigas
vezes próxima da prosa, algumas ve-
Que vão em ranchos pelas estradas zes muito rítmica. Observamos, também,
Com as bilhas às cabeças que o poeta faz diversas negações das
metafísicas, das transcendências, op-
E levanta-lhes as saias.
tando pela natureza, ou seja, pelo que é
A mim ensinou-me tudo. natural. No primeiro texto, a criança é
divina porque é humana e natural e, as-
Ensinou-me o olhar para as cousas,
sim, é muito mais verdadeira. No segun-
Aponta-me todas as cousas que do texto, observamos a identificação do
[há nas flores. ato de pensar com as sensações físi-
Mostra-me como as pedras são cas, com relação corpo-a-corpo com o
[engraçadas mundo.
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas. Ricardo Reis
(1887 - ?)
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos. Representa o mundo clássico. Mo-
E os meus pensamentos são todos narquista, educado em colégio de jesuí-
[sensações. tas, valoriza a vida campestre e a simplici-
dade das coisas. Deixa de lado a emoção,
Penso com os olhos e com os ouvidos
por desconfiar da felicidade extrema.
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca. Obra Poética

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la Só o ter flores pela vista fora

E comer um fruto é saber-lhe Nas áleas largas dos jardins exatos


[o sentido. Basta para podermos

Por isso quando num dia de calor Achar a vida leve.

Me sinto triste de gozá-lo tanto,


De todo o esforço seguremos
E me deito ao comprido na erva, [quedas
E fecho os olhos quentes, As mãos, brincando, pra que
[nos não tome
Sinto todo o meu corpo deitado
[na realidade, Do pulso, e nos arraste.
Sei a verdade e sou feliz. E vivamos assim,
— 100 —

Buscando o mínimo de dor ou gozo, Morre! Tudo é tão pouco!


Bebendo a goles os instantes Nada se sabe, tudo se imagina.
[frescos,
Circunda-te de rosas, ama, bebe
Translúcidos como água
E cala. O mais é nada.
Em taças detalhadas,

(...) Já sobre a fronte não se acinzenta


Pouco tão pouco pesará nos braços O cabelo do jovem que perdi.
Com que, exilados das supernas Meus olhos brilham menos.
[luzes,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Escolhermos do que fomos
Se me ainda amas, por amor não
O melhor pra lembrar [ames:

Quando, acabados pelas Parcas, Traíras-me comigo.


[formos,
Vultos solenes de repente antigos, Quando, Lídia, vier o nosso outono
E cada vez mais sombras, Com o inverno que há nele,
Ao encontro fatal [reservemos
Um pensamento, não para o futuro
Do barco escuro no soturno rio,
Primavera, que é de outrem,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável Nem para o estilo, de quem somos
[mortos,
Da pátria de Plutão.
Senão para o que fica do que
...................................................... [passa –
“Para ser grande, sê inteiro: nada O amarelo atual que as folhas
Teu exagera, ou exclui, [vivem
Sê todo em cada coisa. Põe quanto E as torna diferentes”.
[és
No mínimo que fazes. Podemos observar o vocabulário
erudito, a essência clássica e a refe-
Assim em cada lago a lua toda
rência aos deuses e ao destino. Cabe
Brilha, porque alta vive. ressaltar, também, que podemos ob-
servar o tema da passagem do tem-
Tão cedo passa tudo quanto passa! po, da transitoriedade da vida, da ne-
Morre tão jovem ante os deuses cessidade de se viver o momento real,
[quanto sem ilusões.
— 101 —

Para a beleza disto totalmente


Álvaro de Campos [desconhecida dos antigos.
(1890 - ?) Ó rodas, é engrenagens, r-r-r-r-r-r
[eterno!
Voltado para o futurismo, procura Forte espasmo retido dos
expressar o mundo moderno. É consi- [maquinismos em fúria!
derado o poeta do “não”.
Em fúria fora e dentro de mim,
Eia comboios, eia pontes, eia Por todos os meus nervos
[hotéis à hora do jantar [dissecados fora,
Eia aparelhos de todas as espécies, Por todas as papilas fora de tudo
[férreos, brutos, mínimos, [com que eu sinto!
Instrumentos de precisão, Tenho os lábios secos, ó grandes
[aparelhos de triturar, de cavar, [ruídos modernos,
Engenhos, brocas, máquinas De vos ouvir demasiadamente de
[rotativas! [perto,
Eia! Eia! Eia! E arde-me a cabeça de vos querer
Eia eletricidade, nervos doentes de [cantar com um excesso
[Matéria! De expressão de todas as minhas
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia [sensações,
[metálica do Inconsciente! Com um excesso contemporâneo
Eia túneis, eia canais, Panamá, [de vós, ó máquinas!”
[Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do Podemos observar o fluxo das idéi-
[presente! as, o vigor do verso livre (sem rima e
sem métrica regular), além da expres-
Eia todo o futuro já dentro de nós! sividade da linguagem coloquial. O poe-
Eia! ta retrata a civilização industrial (lâmpa-
Eia! Eia! Eia! das, rodas, engrenagens).
......................................................
Poema em linha reta
Ode triunfal
(fragmento) Nunca conheci quem tivesse
[levado porrada.
“À dolorosa luz das grandes lâm-
Todos os meus conhecidos tem sido
padas elétricas da fábrica
[campeões em tudo.
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera E eu, tantas vezes reles, tantas
[para a beleza disto, [vezes porco, tantas vezes vil,
— 102 —

Eu tantas vezes irrespondivelmente Quem me dera ouvir de alguém a


[parasita, [voz humana
Indesculpavelmente sujo, Que confessasse não um pecado,
[mas uma infâmia;
Eu, que tantas vezes não tenho tido
[paciência para tomar banho, Que contasse, não uma violência,
[mas uma cobardia!
Eu, que tantas vezes tenho
[ridículo, absurdo, Não, são todos o ideal, se os ouço
[e me falam.
Que tenho enrolado os pés
[publicamente nos tapetes das Quem há neste largo mundo que me
[etiquetas, [confesse que uma vez foi vil?
Que tenho sofrido enxovalhos e
[calado, Arre, estou farto de semideus!

Que quando não tenho calado, Onde é que há gente no mundo?


[tenho sido mais ridículo ainda;
Então sou só eu que é vil e errôneo
Eu, que tenho sido cômico às [nesta terra?
[criadas de hotel,
Poderão as mulheres não os terem
Eu, que tenho sentido o piscar de [amado,
[olhos dos moços de fretes,
Podem ter sido traídos – mas
Eu, que tenho feito vergonhas [ridículos nunca!
[financeiras, pedido emprestado
[sem pagar, E eu, que tenho sido ridículo sem
[ter sido traído,
Eu, que, quando a hora do soco
[surgiu, me tenho agachado Como eu posso falar com os meus
[superiores sem titubear?
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sido vil, literalmente
Eu, que tenho sofrido a angústia [vil,
[das pequenas coisas ridículas, eu
[verifico que não tenho por nisto Vil no sentido mesquinho e infame
[tudo neste mundo. [da vileza.

Toda a gente que eu conheço e que Podemos observar neste poema o


[fala comigo uso de verso livre, repleto de linguagem
coloquial e de estrofação irregular. Além
Nunca teve um ato ridículo, nunca
destas observações, podemos salien-
[sofreu enxovalho,
tar a enumeração de elementos, a lis-
Nunca foi senão príncipe – todos tagem livre e descontínua de idéias, típi-
[eles príncipes – na vida... cos da poesia moderna.
— 103 —

fomentador da expansão ultramarina


Fernando Pessoa portuguesa, e Afonso de Albuquerque,
ele-mesmo dominador português do Oriente; até o
mito de Ulisses, que teria fundado a ci-
dade de Ulissepona, depois Lisboa, é
Mensagem
apresentado:
A obra Mensagem mostra poemas
“O mito é o nada que é tudo.
organizados de forma a compor uma
O mesmo sol que abre os céus
epopéia fragmentária, pois o conjunto
dos textos líricos acaba formando um É um mito brilhante e mudo.”
elogio de teor épico a Portugal. Traçan- A segunda parte, “Mar português”,
do a história do seu país, Pessoa enve-
apresenta as principais etapas da ex-
reda por um nacionalismo místico de pansão ultramarina que levaram Portu-
caráter sebastianista.
gal a ocupar um lugar de destaque no
O livro está dividido em três partes: mundo durante os séculos XV e XVI:
“Brasão”, “Mar português” e “O Enco-
“E ao imenso e possível oceano
berto”. Na primeira, conta-se a história
das glórias portuguesas; na segunda, Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
são apresentadas as conquistas maríti- Que o mar com fim será grego ou
mas de Portugal; por último, é apresen- [romano:
tado o mito sebastianista, um retorno de O mar sem fim é português.”
Portugal às épocas de glória. A primeira
parte de Mensagem, “Brasão”, se es- Já a última parte, “O Encoberto”,
trutura como o brasão português, que é apresenta o misticismo em torno da fi-
formado por dois campos: um apresen- gura de Dom Sebastião, rei de Portugal,
ta sete castelos, o outro, cinco quinas. cuja frota foi dizimada em ataque aos
No topo do brasão estão a coroa e o mouros em 1578. Muitas previsões,
timbre, que apresenta o grifo, animal mi- como a do sapateiro Bandarra e a do
tológico que tem cabeça de leão e asas padre Antônio Vieira, prevêem o retor-
de águia. Assim dividem-se os poemas no de Dom Sebastião para resgatar o
desta parte, remetendo-nos ao brasão poderio de Portugal, criando o Quinto
de Portugal. Versam sobre as grandes Império e marcando a supremacia de
figuras da história de Portugal, desde Portugal sobre o mundo:
Dom Henrique, fundador do Condado “Grécia, Roma, Cristandade,
Portucalenses, passando por sua es-
Europa, os quatro se vão
posa, Dona Tareja, e seu filho, primeiro
rei de Portugal, Dom Afonso Henriques Para onde vai toda idade.
vão ainda até o infante Dom Henrique, Quem vem viver a verdade
fundador da Escola de Sagres e grande Que morreu dom Sebastião?”
— 104 —

O Quinto Império Quantos filhos em vão rezaram!


Triste de quem vive em casa, Quantas noivas ficaram por casar
Contente com seu lar, Para que fosses nosso, ó mar!

Sem que um sonho, no erguer de asa, Valeu a pena? Tudo vale a pena
Faça até mais rubra a brasa Se a alma não é pequena.
Da lareira a abandonar! Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Triste de quem é feliz!
Deus ao mar o perigo e o abismo
Vive porque a vida dura. [deu.
Nada na alma lhe diz Mas nele é que espelhou o céu”.
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura. D. Sebastião, Rei de Portugal
Eras sobre eras se somem “Louco, sim, louco, porque quis
No tempo em que as eras vêm. [grandeza

Que as forças cegas se dormem qual a Sorte a não dá.


Não coube em mim minha certeza;
Pela visão que a alma tem!
Por isso coube o areal está
E assim, passados os quatro
Ficou meu ser que houve, não o
Tempos do ser que sonhou, [que há.
A terra será teatro
Minha loucura, outros que me a
Do dia claro, que no atro
[tomem
Da erma noite começou.
Com o que nela ia.
Grécia, Roma, Cristandade, Sem a loucura que é o homem
Europa – os quatro se vão Mais que a besta sadia,
Para onde vai toda a idade. Cadáver adiado que procria?
Quem vem viver a verdade
Podemos reparar na obra de Fer-
Que morreu D. Sebastião? nando Pessoa – Mensagem – temas his-
tóricos portugueses: as conquistas ma-
O Mar Portuguez rítimas e D. Sebastião. Os dois poemas
apresentam um tom filosófico, épico,
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
heróico. A aventura portuguesa é apre-
São lágrimas de Portugal! sentada de modo transfigurado. As ri-
Por te cruzarmos, quantas mães mas apresentam-se regulares e há a
[choraram, presença de rimas.
— 105 —

Amar! Amar! E não amar ninguém!


Florbela de Alma da
Conceição Espanca Recordar? Esquecer? Indiferente!...
(1894 – 1930) Prender ou desprender? É mal?
[É bem?

Nasceu em Vila Viçosa e realizou Quem disser que se pode amar


seus estudos secundários em Évora, [alguém
onde começou a escrever seus poe- Durante a vida inteira é porque mente!
mas. Seu temperamento forte mistura-
se com sua sensibilidade poética, a qual Há uma primavera em cada vida:
é demonstrada de forma firme, senti-
É preciso cantá-la assim florida,
mental, transparente e vigorosa, dian-
te dos acontecimentos de sua vida. Pois se Deus nos deu voz, foi pra
Muito infeliz nos seus casamentos, de- [cantar!
primida diante da reação da crítica,
Florbela demonstrou claramente as fa- E se um dia hei de ser pó, cinza e
ses dos problemas existenciais que [nada
sentia: angústias, decepções, desva- Que seja a minha noite uma
lorização, tristezas, mágoas, numa
[alvorada,
época repressora, machista e severa
com o sexo feminino. Em 1919 estudou Que me saiba perder...pra me
na Faculdade de Direito, em Lisboa, pu- [encontrar...
blicando seu primeiro livro –Mágoas. Em
profundo estado de depressão, total- Expressa a vontade, o desejo e o
mente abatida e doente, afastou-se de anseio de ter alguém que a fizesse feliz.
uma vez do convívio social com o con-
solo e a amizade de alguns poucos Eu
amigos. Em 1939, faleceu enquanto
Eu sou a que no mundo anda
dormia pelo excesso de barbitúricos.
Suas principais obras foram: Mágoas, [perdida
Sóror saudades, Reliquial, Charveca Eu sou a que na vida não tem norte,
em Flor, Máscaras do Destino e Do- Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
mínio Negro.
Sou a crucificada... a dolorida...
Amar!
Sombra de névoa tênue e
Eu quero amar, amar perdidamente! [esvaecida,
Amar só por amar: Aqui...além... E que o destino amargo, triste e
Mais Êste e Aquêle, o Outro e tôda [forte,
[a gente... Impele brutalmente para a morte!
— 106 —

Alma de luto sempre Fumo beijando o côlmo dos casais...


[incompreendida!...
Serenidade idílica de fontes,
Sou aquela que passa e ninguém E a voz dos rouxinóis nos
[vê... [salgueirais...
Sou a que chamam triste sem
[o ser... Tranqüilidade... calma... anoitecer...

Sou a que chora sem saber Num êxtase, eu escuto pelos


[por quê... [montes
O coração das pedras a bater...
Sou talvez a visão que Alguém
[sonhou,
Expressa sua solidão e o vazio cons-
Alguém que veio ao mundo pra tante em sua vida.
[me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Espanca, Florbela. In: Antologia da poesia portuguesa. Mário de Sá-Carneiro
Porto: Lello & Irmão, 1977. v.2.
(1890 – 1916)
Expressa seus anseios e angústi-
as diante de si mesma.
Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em
Noitinha 1890. Ficou órfão de mãe aos dois anos
de idade. Em 1912 seguiu para Paris,
A noite sôbre nós se debruçou...
intentando cursar Direito. Nesse mesmo
Minha alma ajoelha, Põe as mãos e ano publicou Princípios e iniciou sua
[ora! produção poética. Retornou a Lisboa,
O luar, pelas colinas, nesta hora, em férias, e juntou-se ao grupo que lan-
É a água dum gomil que se çou Orpheu, em 1915. Nesse mesmo
[entornou... ano publica Dispersão e A Confissão
de Lúcio. Retornou a Paris, onde sérios
Não sei quem tanta pérola problemas financeiros o levaram à de-
[espalhou! pressão e finalmente ao suicídio, em
abril de 1916.
Murmura alguém pelas quebradas
[fora... Dedicou-se à prosa, à poesia e ao
teatro. Os seus personagens são ge-
Flôres do campo, humildes, mesmo ralmente voltados para si mesmos, com
[agora,
a personalidade em desagregação, bus-
A noite, os olhos brandos, lhes cando um outro no seu próprio interior
[fechou... que viesse a completá-los.
— 107 —

Dispersão Como se chora um amante,


Perdi-me dentro de mim Assim me choro a mim mesmo:
Porque eu era labirinto, Eu fui amante inconstante
E hoje, quando me sinto, Que se traiu a si mesmo.
É com saudades de mim.
Não sinto o espaço que encerro
Passei pela minha vida
Nem as linhas que projeto:
Um astro doido a sonhar.
Se me olho a um espelho, erro –
Na ânsia de ultrapassar,
Não me acho no que projeto.
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem, Regresso dentro de mim


Não tenho amanhã nem hoje: Mas nada me fala, nada!
O tempo que aos outros foge Tenho a alma amortalhada.
Cai sobre mim feito ontem. Sequinha, dentro de mim.

(o Domingo de Paris Não perdi a minha alma,


Lembra-se o desaparecido
Fiquei com ela, perdida.
Que sentia comovido
Assim eu choro, da vida,
Os Domingos de Paris:
A morte da minha alma.
Porque um domingo é família, (...)
É bem-estar, é singeleza,
Estátua Falsa
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família). Só de ouro falso os meus olhos se
[douram;
O pobre moço das ânsias... Sou esfinge sem mistério no
Tu, sim, tu eras alguém! [poente.
A tristeza das coisas que não
E foi por isso também
[foram
Que te abismaste nas ânsias.
Na minh’alma desceu veladamente.
A grande ave doirada Na minha dor quebram-se espadas
Bateu asas para os céus, [de ânsia,
Mas fechou-as saciada Gomos de luz em treva se
Ao ver que ganhava os céus. [misturam.
— 108 —

As sombras que eu dimano não E fugiste... Que importa ? Se


[perduram, [deixaste
Como Ontem, para mim, Hoje é A lembrança violeta que animaste
[distância. Onde a minha saudade a Cor se
[trava?...
Já não estremeço em face do
[segredo; Obras completas de Mário de Sá Carneiro – Poesias.
Lisboa: Ática, s.d. v.2, p.61-5
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra, A Confissão de Lúcio
E nem sequer um arrepio de medo!
(resumo)
Sou estrela ébria que perdeu os Lúcio vai estudar em Paris, acaba
[céus, conhecendo o poeta Ricardo, que se
Sereia louca que deixou o mar; torna seu grande amigo. Após dez me-
Sou templo prestes a ruir sem deus, ses de confidências, Ricardo, de for-
ma inexplicável, volta a Portugal e eles
Estátua falsa ainda erguida ao ar... passam a se corresponder através de
cartas. Lúcio também volta a Portugal
Último Soneto e descobre que seu amigo havia se
Que rosas fugitivas foste ali: casado com Marta. Passa, então, a fre-
Requeriam-te os tapetes – e qüentar a casa deles e descobre que
[vieste... Marta tem um amante. Lúcio sente ciú-
mes e começa a investigar a vida par-
– Se me dói hoje o bem que me ticular dela, mas torturado pelas emo-
[fizeste, ções conflituosas, deixa Portugal e vol-
É justo, porque muito te devi. ta para Paris. Porém, logo tem que vol-
tar para entregar a sua peça de teatro
Em que seda de afagos me envolvi ao empresário. Reencontra o amigo,
Quando entraste, nas tardes que lhe confessa saber de toda a ver-
[que apareceste – dade a respeito de sua esposa, pois
Como fui de percal quando me ele mesmo a enviava aos seus amigos
[deste para se relacionar. Se arrepende de
ter feito tal coisa, pois queria que Mar-
Tua boca a beijar, que remordi...
ta amasse apenas Lúcio e não os de-
Pensei que fosse o meu o teu
mais. Então, Ricardo leva o amigo até o
[cansaço –
encontro de Marta e dá um tiro nela. O
Que seria entre nós um longo fantástico da narrativa acontece no
[abraço momento em que o corpo cai no chão,
O tédio que, tão esbelta, te pois já não é Marta (que desaparece
[curvava... aos olhos de Lúcio) e sim, o próprio
— 109 —

Ricardo atingido pelo tiro que deu. Lú- através de flash-back, daí para frente
cio é acusado pelo crime e vai preso. seguindo linearmente. O personagem
Após cumprir a pena, retira-se para o Ricardo de Loureiro é um desdobramen-
interior e escreve a sua confissão, a to do personagem Lúcio, que, por sua
sua narrativa. vez, é desdobramento do autor. Nesta
obra, a trama consiste na integração das
Em A Confissão de Lúcio, encon-
duas personagens masculinas através
tramos uma linguagem metafórica. Para
da figura feminina – Marta.
o próprio autor, esta obra pode ser vista
como um registro de sua vida pessoal.
Aparece diversas vezes a problemática
do corpo e da beleza física, com Ricardo Segunda Geração
desejando até ser mulher para ser belo.
Em vida, um dos problemas do autor era
o seu corpo obeso, que o fazia sentir-se
(1927 – 1940)
ridículo e desprezível às mulheres. Dota-
do de uma sensibilidade aguçada, que é Presencismo – artistas que partici-
levada ao delírio, capta as sensações param da revista Presença. No Presen-
inusitadas e as coloca em um estilo bri- cismo, a literatura é viva, ou seja, há
lhante e luminoso, sugestivo e rico de sinceridade. Há a desmistificação do real
ambigüidade. Abusa de reticências para e da realidade aparente das coisas, eli-
criar sensação de insegurança, indeci- minação da objetividade da ação, pois
são e impressão. A obra pode ser en- se mistura com o lado psicológico. Des-
quadrada no gênero fantástico, pois os tacam-se José Régio e Branquinho da
acontecimentos narrados pelo persona- Fonseca.
gem principal Lúcio não podem ser expli-
cados pelas leis naturais. Às vezes su-
gere que tudo é uma loucura, outras, afir- José Régio
ma que está lúcido e que tudo é verdade,
mesmo que pareça absurdo. Podemos
(1901-1969)
destacar algumas características da obra
abarcando a estética simbolista: obses- Suas obras são de estruturas aber-
são da morte e do suicídio como únicas tas, que retratam o mundo psicológico
soluções; traz a marca da frustração; dos personagens. Abrange a poesia, o
obsessão pelo amor pervertido ou sexu- romance, o conto, o teatro e a crítica lite-
alidade ambígua, sempre balançando en- rária. Seu romance Jogo da Cabra Cega
tre a hetero e a homossexualidade (fictí- é considerado o marco da prosa con-
cia); busca da identidade. Narrado em temporânea. Aborda em suas obras a
primeira pessoa, a linguagem caracteri- introspecção e sondagem dos conflitos
za uma narração subjetiva e de estado do homem em relação com o mundo. Re-
de inconsciência do eu-lírico. A narrativa trata também o tema religioso com as opo-
começa pelo fim, quando o personagem- sições entre o bem X mal, espírito X ma-
narrador decide escrever sua confissão téria, Deus X diabo.
— 110 —

Cristo E cruzo os braços,


Quando eu nasci, Senhor! Já tu E nunca vou por ali...
[lá estavas,
A minha glória é esta:
Crucificado, lívido, esquecido.
Criar desumanidade!
Não respondeste, pois, ao meu
Não acompanhar ninguém
[gemido,
Com que rasguei o ventre a
Que há muito tempo já que não
[minha Mãe.
[falavas...
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Redemoinhavam, longe, as turbas
[bravas, Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de
Alevantando ao ar fumo e alarido.
[vós responde,
E a tua benta Cruz de Deus vencido,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Quis eu ergue-la em minhas mãos
[escravas! Prefiro escorregar nos becos
[lamacentos,
A turba veio então, seguiu-me Redemoinhar aos ventos,
[os rastros;
Como farrapos, arrastar os pés
E riu-se, e eu nem sequer fui [sangrentos,
[açoitado, A ir por aí...
E dos braços da Cruz fizeram
[mastros... Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
Senhor! Eis-me vencido e tolerado: E desenhar meus próprios pés
Resta-me abrir os braços a teu lado, [na areia inexplorada!
E apodrecer contigo à luz dos O mais que faço não vale nada.
[astros! (...)
RÉGIO, José. Poemas de Deus e do diabo.
Cântico negro 8. ed. Porto: Brasília Ed., 1972. p. 31.

“Vem por aqui”– dizem-me alguns


[com olhos doces,
Branquinho da Fonseca
Estendendo-me os braços,
[e seguros (1905-1974)
De que seria bom que os ouvisse
Sua principal obra foi a novela O
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Barão, de linguagem simples e com nú-
Eu olho-os com olhos lassos, cleos entrelaçados. A obra retrata refle-
(Há, nos meus olhos, ironias e xos inspirados na alma do povo, de for-
[cansaços) ma simples e objetiva.
— 111 —

O Barão prevalece o do sonho, da fantasia sobre o


(resumo) espaço real, o castelo medieval sobre o
mundo moderno, a noite sobre o dia. No fi-
O narrador encontra-se na Serra
nal da narrativa, podemos perceber que a
do Barroso, com uma professora, a qual
realidade prevalece sobre o sonho. A lin-
o apresenta ao Barão, que lhe desperta
guagem é simples, coloquial e as frases
uma primeira impressão negativa. Hos-
são curtas, aproximando-se da oralidade.
peda-se no castelo do Barão e este pas-
sa a lembrar de seu passado, principal-
mente de sua grande paixão, nomeada
apenas por “Ela”, a Bela Adormecida. Terceira Geração
O ambiente vai se intensificando de
lirismo e embriaguez, de tom de confidên-
(1940 até os dias
cia e simpatia, confiança, até culminar
em mistério.
atuais)
O inspetor (o narrador) também apre-
senta suas confidências ao Barão. Seu Nesse momento despontou o Neo-
enredo concentra-se na “viagem” do ins- realismo, que apresenta uma literatura
petor de si a si mesmo, através de um engajada com os motivos sociais e políti-
personagem fantástico, que lhe permite cos: ideais humanitários, homem sofrido e
uma noite repleta de magia, regressando marginalizado. É um movimento ideológico
à nobreza e à beleza de um mundo onírico e eclético. Surgem obras que reproduzem
e poético. a realidade vivida por seus autores. Desta-
cam-se Alves Redol, Ferreira de Castro,
Novela narrada em primeira pessoa, Fernando Namora e Manuel da Fonseca.
com um personagem-narrador pertencen-
te ao corriqueiro mundo moderno – o inspe-
tor de escolas - personagem sem nome, Alves Redol
adaptado ao capitalismo. Outra figura im-
portante é a do Barão, também sem nome,
(1911 – 1969)
oposto ao inspetor, por representar o mun-
do intuitivo e nostálgico, mas sem perder o Considerado como o introdutor do
lirismo. Temos na narrativa a presença da Neo- Realismo em Portugal, escreveu Gai-
personagem Idalina, criada e, ao que tudo béus.
indica, amante do Barão, mulher autoritária Gaibéus
que faz do seu senhor um escravo. Em re-
(comentários)
lação ao tempo da narrativa, há uma reci-
procidade entre o presente (sociedade Gaibéus extrai personagens do povo
moderna), representado pelo inspetor – o e é uma obra que possui uma consciência
dia; e o passado medieval representado muita clara da luta de classes. Relata-se o
pela figura do Barão – a noite, no qual um drama dos trabalhadores alugados (gai-
vem a completar o outro, formando uma só béus), colhedores de arroz do Ribatejo. O
pessoa, um só tempo. Quanto ao espaço, autor procura mostrar que a miséria do po-
— 112 —

bre provém da mesquinhez, da ganância O personagem central é um médico


dos poderosos. Preocupado em registrar o que trata dos doentes incuráveis. A per-
destino trágico do trabalhador, Alves Redol sonagem que desencadeia o romance é
privilegia as massas anônimas em detri- Clarisse (doente incurável). Jorge é um
mento dos indivíduos. O despojamento homem pouco social, um tanto agressivo,
dos traços pessoais dos personagens que mal se relaciona com os colegas de tra-
ilustra a alienação do homem, reduzido à balho; representa o homem em situação
condição de besta de carga, sem cons- conflitiva com seu meio, com sua época.
ciência dos motivos da sua degradação. Vemos no romance a transforma-
ção que as situações vividas operam na
Ferreira de Castro sua personalidade. Jorge, no final da nar-
rativa, é um homem transformado pelo
(1898 – 1974) sofrimento e pela força do amor (perso-
Dá inicio ao Neo-Realismo com a nagem itinerante).
obra A Selva. Domingo à tarde
A Selva (fragmentos)
(comentários)
Por esse tempo, ou já muito antes,
A Selva reproduz a vida do próprio comecei a ser considerado um tipo
autor: a vida no seringal da Amazônia. O insociável. Fumava desalmadamente,
personagem Alberto reflete a dura vida macerando o cigarro de um canto para
dos seringueiros, compara-a mentalmen- o outro da boca, num jeito nervoso
te com a vida dos aldeãos de sua pátria; nada fácil de imitar, roendo a todo mo-
retrata a triste condição de vida dos tra- mento qualquer danação íntima que se
balhadores dos seringais. A obra apre- traduzia nos modos com que fazia crer
senta a vida cruel dos seringueiros e co- às pessoas que a presença delas me
move a sociedade da época pela realida- era insuportável. Tudo me servia para
de que apresenta. exagerar a brusquidão, talvez porque
toda a gente reparasse nela e a cen-
Fernando Namora surasse, e a minha rebeldia agreste
(1919-1989) contra fosse lá o que fosse manifes-
tava-se, provocante, tanto mais quan-
Situa-se entre o Presencismo e o to outros a receavam. Era eu a ajudá-
Neo-Realismo. Preocupa-se com os de- los ao espetáculo, a colocar-me no
serdados, ou seja, com a classe social centro desta arena improvisada que é
média e baixa. a vida... nos outros não admitia, pois é
Em Domingo à Tarde (1961), Fer- o riso o que particularmente me ofen-
nando Namora defende as propostas de nos medíocres. Poderiam, enfim,
neo-realistas, retratando conflitos íntimos. julgar-me um esnobe ou um torturado
A obra procura relatar situações dramá- – e nem eu, ao certo, o saberia tam-
ticas e trágicas de gente simples e sofre- bém... (cap. I, p.3)
dora. (...)
— 113 —

Eu reparava que Clarisse era agora de simples companheiros de acaso não ti-
um dos alvos preferidos dessa intriga me- vesse uma condescendência lamuriosa a
líflua e subterrânea. E ela também o sabia. justificá-la, para que essa vida fosse autên-
No modo como observava as companhei- tica, verídica, e não o fruste delírio de um mo-
ras, acirradas, estou certo, por um instinto ribundo. Era tão urgente o amor dos outros!
de desagravo social (pois não era Claris- Por isso os cortejavam, subornando-os,
se, entre elas, uma burguesinha a quem a atiçando-lhes capciosamente o interesse,
doença e o desespero iam amachucando a presença, o diálogo ou um arremedo des-
a soberba de classe?), via-se que procu- se amor. A simulação, por último, bastava,
rava todo o indício que pudesse dizer-lhe como a ternura das meretrizes. Lembro-me,
quanto as outras a achavam já diferente, por exemplo, daquela velhota ricaça que eu
quanto lhe notavam o emagrecimento ou a internara numa clínica. No último Natal ofe-
palidez. Mas era sobre mim que incidia recera centenas de presentes. Escrevia
mais vezes a sua alertada acuidade: em montes de cartas, todos os dias, mesmo a
todos os estremecimentos da minha face desconhecidos. O importante era que vies-
entediada de médico, ela descobria, ou jul- sem agradecer-lhe, vê-la, que, durante al-
gava descobrir, os agouros da sua ruína. guns minutos, ao pensarem nela, a fizes-
sem viva. Tinha um casal de criados já ido-
Era inútil, aliás, prolongar o Ludíbrio.
sos; obrigava-os a ficarem horas, de pé, ao
Ainda que baralhássemos na mesma en-
fundo da cama - dois macacos decrépitos,
fermaria doentes com moléstias e prognós-
testemunhas de sua existência.
ticos diferentes, e zelássemos por que ne-
nhum deles pudesse averiguar a natureza Quando esses doentes voltavam - e
da sua doença, a verdade escorria não se voltavam sempre -, tinham lido livros, con-
sabia donde, um fio de água sub-reptício sultado outros médicos, e discutiam já as
que, de súbito, encharcava o ambiente. notícias sobre novas e milagrosas drogas
Qualquer deles, ao fim de algum tempo, per- para o seu caso, com que as gazetas lhes
cebia que, sendo apontado pelos outros sacudiam a febre de persistir. Investigavam-
como meu doente, essa identificação equi- se a si próprios, procurando os ardis sob
valia a um ferrete. O rebanho marcado. Re-
que a morte se escondia e, lá no íntimo, es-
agiam, então, de muitos modos: violência,
peravam ser os primeiros a conseguir
pânico, misticismo, náusea, raramente com
dominá-la. Os ardis não eram apenas da
heroísmo e nunca com resignação. Muitos
doença. Eles também os teciam. Apercebi-
saíam do hospital ou desapareciam da con-
sulta e, durante semanas, meses, mistura- am-se da vizinhança da morte, sentiam-lhe
vam-se freneticamente no convívio dos ou- a voracidade e o cheiro, mas, inexorável,
tros, os de lá de fora, os que continuavam a só nos outros. A pérfida ameaça, presença
viver, para lhes enfiar pelos olhos dentro obcecante na vida de todos eles, como um
que estavam vivos também. Era preciso punhal enquistado, e que, na sua injusta e
que os outros não os distinguissem pelo medonha objetividade, se assimilava atra-
horror ou pela compaixão, não os distin- vés da experiência em redor, não lhes dizia,
guissem fosse pelo que fosse, que não os porém, individualmente respeito. No último
diferenciassem de ninguém. Era preciso instante, cada um, de per si, conseguiria li-
que a estima dos familiares, dos amigos ou bertar-se. Velada ou abertamente, falavam-
— 114 —

me então dos tais fabulosos tratamentos - ses seres humanos se faz presente quan-
até mos exigirem, e era-me mais cômodo do eles dividem entre si a comida, num jantar
falsear-lhes as análises do que, como dan- de comemoração pelo nascimento da crian-
tes, evitar que lhes caíssem sob os olhos. ça. Dentre os personagens, todos com difi-
(NAMORA, Fernando. Domingo à Tarde. Porto Alegre:
culdade em se ajustar à sociedade.
Globo,1963) (fragmento)
... era uma espécie de saguão, colado
Casa da Malta
à forja do ferreiro. Em tempos servira de abri-
(resumo) go às manadas de porcos da Granja; mas o
A narrativa inicia-se com o persona- patrão fora-se para a cidade, o portão de
gem Abílio contando sobre suas andanças castanho velho abrira feridas ao sol e às
com o circo e o fim da companhia circense chuvas das bandas do montado, e agora os
ao amigo Ricocas e este o leva à casa da que vinham de longe para roubar, pedir, emi-
malta, lugar onde pessoas que não tinham grar, sabiam que era ali a sua casa. Um resto
para onde ir se estabelecem por lá. Outros de palha da malhada forrava o chão térreo e
personagens são introduzidos na narrati- cada ambulante acamara mais um molho de
va e cada um com um passado trágico que feno, de urze, ou de trapos velhos. Ainda no
os levaram a morar na casa da malta. To- domínio do saguão, em dois metros quadra-
dos vão relembrando o passado até o mo- dos de terreno roubados ao adro, os ciga-
mento do nascimento do bebê da cigana, nos arrumavam carroças e animais e expu-
onde todos se confraternizam como se nham sedas vermelhas ao pessoal da vila.
fosse uma grande família.
A narrativa descreve as ações das Manuel da Fonseca
personagens socialmente desprivilegiadas
e perdidas num mundo de injustiças e misé-
(1911 – )
ria. Podemos perceber claramente nesta Escreveu Seara de Vento.
obra a busca pela interioridade das perso-
nagens, através de suas lembranças, re- Seara de Vento
velando suas angústias, dúvidas, numa (comentários)
analise profunda de sentimentos e rala- A narrativa se inicia com a descri-
ções humanas. Assim sendo, ao passo ção do vento, anúncio de desgraças. Duas
que traduz a individualidade do homem não personagens, Júlia e Amanda Carrusca,
deixa de enquadrá-lo no seu meio social. A dialogam com certa agressividade sobre
ação se divide entre o tempo presente da a situação precária em que vivem: estão
narrativa (casa da malta) e os acontecimen- morrendo de fome. Amanda exige que sua
tos passados na vida de cada um dos per- filha Júlia convença o marido Antônio Val-
sonagens, possibilitando a compreensão murado, o Palma, a permitir que ambas
de como chegaram até aquele casebre. A peçam esmola. Amanda, habilmente, diz
grande metáfora encontrada nesta obra é o que é para curar Bento, um dos filhos do
humanismo, ou seja, há uma grande preo- casal, que é excepcional.
cupação com os valores representativos O romance começa, pois, a partir de
do ser humano. A solidariedade unindo es- uma situação trágica.
— 115 —

Resumo do Modernismo

Momento sócio-cultural Autores e obras


• Proclamação da República (1910). • Fernando Pessoa: o maior poeta
português do século. Ele-mesmo:
• Tensão entre a pequena-burguesia
English Poems (1921), Mensagem
radical que exigia reformas imedia-
tas e os moderados representados (1934). Heterônimos ou persona-
pela alta burguesia. lidades poéticas: Alberto Caeiro:
Poemas (1946); Ricardo Reis:
• Reforma universitária (1911) e a cri- Odes (1946), Poemas Dramáticos
ação da primeira faculdade de Le- (1952) e Álvaro de Campos: Poe-
tras, no Porto (decênio de 1920). sias (1944).
• Primeira Guerra Mundial: Portugal fica • Mario de Sá-Carneiro: autor ator-
ao lado dos aliados, garantindo suas mentado pela busca do eu. Escre-
colônias na África. Após a guerra, veu Princípio (1912), Dispersão
grave crise econômica. (1914), A Confissão de Lúcio (1914).
• 1926: Um golpe de Estado derruba a • José Régio: Jogo da Cabra-Cega
República Parlamentar (1934), Fado (1941).
• 1933-1974: Período do estado Novo; • Branquinho da Fonseca: O Barão
instauração da ditadura. (1943), Porta de Minerva (1947),
Mar Santo (1952), Mar Coalhado
Características literárias (1932).
• Adolfo Casais Monteiro: Sempre
• Negação sistemática e total do pas- e sem Fim (1936), Europa (1946).
sado; desejo de criar uma literatura
que expressasse o novo século. • Alves Redol: Gaibéus (1940), Bar-
ranco de Cegos (1963).
• Fuga das tradições literárias; valori-
• Ferreira de Castro: A Selva (1930),
zação da originalidade e da obra que
Terra Fria (1934), A Lã e a Neve
possui características inéditas.
(1947), A Curva da Estrada (1950).
• Uso da linguagem coloquial. José Saramago: Terra do Pecado
• O Modernismo quer criticar os pa- (1947), Manual de Pintura e Cali-
drões de bom gosto e causar es- grafia (1977), Memorial do Conven-
cândalo. to (1982), A Jangada de Pedra
(1986), O Evangelho Segundo Je-
• Uso dos conhecimentos da psicolo- sus Cristo (1991), Todos os Nomes
gia e da psicanálise. (1997), A Caverna (2000).
— 116 —

A Narrativa do Pós-Guerra
A cultura sofreu uma revolução em 1998 ganhou o Prêmio Nobel de Lite-
após 1940. Encontramos, então, a lite- ratura.
ratura comercial dos best-sellers, opon-
De Saramago destacamos as se-
do-se às narrativas pós 2ª Guerra Mun-
guintes obras: Terra do Pecado, Os
dial.
Poemas Possíveis, Provavelmente Ale-
Destacam-se José Saramago com gria, Deste Mundo e do Outro, A Baga-
Memorial do Convento, José Cardoso gem do Viajante, As Opiniões que o DL
Pires com Hóspede de Jô e Adolfo Cor- teve, O Ano de 1993, Os Apontamen-
reia da Rocha com A Criação do Mundo. tos, Manual de Pintura e Caligrafia,
Objecto Quase, Poética dos Cinco Sen-
tidos, A Noite, Levantado do Chão; Que
José Saramago Farei dom este Livro?, Viagem a Portu-
gal, Memorial do Convento, O Ano da
(1922 – ) Morte de Ricardo Reis, A Jangada de
Pedra, A Segunda Vida de Francisco
José Saramago nasceu em Azinha- de Assis, História do Cerco de Lisboa,
ga, no ano de 1922. Trabalhou como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, In
jornalista em vários jornais, entre eles o Nomine Dei, Cadernos de Lanzarote,
Diário de Lisboa, de que foi diretor, até Ensaio sobre a Cegueira, Todos os No-
partir e fixar-se definitivamente na ilha mes, e A Caverna.
de Lanzarote, arquipélago das Canárias.
A partir de 1975 passou a dedicar-se O Evangelho Segundo Jesus
integralmente à literatura, mas foi após Cristo
a publicação de Levantado do Chão (comentários)
(1980) que passou a ser considerado
um grande nome da literatura em língua Publicado pela primeira vez em no-
portuguesa contemporânea. vembro de 1991, O Evangelho Segun-
Declaradamente comunista e ateu, do Jesus Cristo causou muita polêmi-
suas convicções fizeram-no deixar Por- ca. Saramago foi acusado de investir
tugal. contra o cristianismo, de pretender des-
sacralizar Jesus Cristo, e, principalmen-
É considerado um dos escritores te, de interpretar o Novo Testamento de
portugueses mais lidos e traduzidos no forma abusiva.
estrangeiro. Em 1991, ganhou o Grande
Prêmio APE, com o romance O Evange- A opinião da crítica, que não levou
lho Segundo Jesus Cristo; o Prêmio em conta essa pretensa tentativa de
Camões em 1996 por toda sua obra; e Saramago de desvirtuar os Evangelhos,
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é que, ao ler-se essa obra, devemos Podemos observar que, assim co-
considerar que tudo não passa de ar- mo o poeta Fernando Pessoa (na pers-
tifício literário, de invenção. pectiva fictícia) tem os seus contornos
físicos dissipados ao longo do romance
O Vaticano criticou duramente a
pelo decorrer dos nove meses de fale-
obra, que não foi inscrita pelo governo
cimento, tecendo um paralelo com o
português em um importante prêmio li-
embrião humano que leva nove meses
terário europeu, fato que precipitou a
para ser gerado, o seu heterônimo reto-
saída de Saramago do país, passando
mado vai também dissipando a sua per-
a residir nas Ilhas Canárias.
sonalidade ao longo desse período: “Al-
O ano da morte de Ricardo Reis guma latinação clássica de que já não
fazia leitura regular” (p. 22) “formara,
A obra O Ano da Morte de Ricardo
de enfiada, três versos de sete sílabas,
Reis, de José Saramago, tem como ca-
redondilha maior, ele, Ricardo Reis, au-
racterística marcante a intertextualidade.
tor de odes ditas sáficas ou arcaicas,
No título do livro, que resume o conteúdo
básico e conduz o fio narrativo, podemos afinal saiu-nos poeta popular.” (p. 47).
perceber a retomada de um dos heterôni- O Reis de Saramago deixa-se con-
mos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, tagiar pelas coisas mundanas, já não é
que, na obra, revela-se como narrador tão coerente e objetivo. Surge Lídia, ca-
onisciente, presente em todas as situa- mareira do Hotel Bragança com quem
ções, revendo o passado, prevendo o
ele mantém relações. Sua musa se
futuro e, principalmente, tomando conhe-
corporifica e ele deixa de “fruir o mo-
cimento dos pensamentos e sentimentos
mento que passa” como espectador,
passados no “eu” de cada personagem.
para realizá-lo carnalmente. Aparece
Na retomada de sua personalidade também a personagem Marcenda, por
por Saramago, o personagem perde al- quem Ricardo Reis se apaixona, pas-
gumas características básicas, motivo sando a espectador - aguarda a sua
de cobrança para Fernando Pessoa, que presença de todos os meses, as car-
ressurge do mundo dos mortos: “você tas, e por fim uma decisão de unir-se a
afinal desilude-me, amador de criadas, ele, o que não se concretiza.
cortejador de donzelas, estimava-o mais
quando você via a vida à distância que Ao final do romance, Reis se deixa
está” (p. 183). contagiar totalmente pelos acontecimen-
“gestos que parecem querer re- tos do mundo, quando chora a morte de
compor umas feições, restituí-las aos Daniel, irmão de Lídia: “E entra em casa,
seus lugares de nascença, refazer o atira-se para cima da cama desfeita,
desenho, mas o artista tomou a borra- escondeu os olhos com o antebraço pa-
cha em vez do lápis, onde passou apa- ra poder chorar à vontade, lágrimas ab-
gou, um lado da cara perdeu o contor- surdas que esta revolta não foi sua,
no, é natural, vai para seis meses que sábio é o que se contenta com o espe-
Fernando Pessoa morreu.” (p. 330) táculo do mundo.” (p. 411).
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Memorial do Convento padre Bartolomeu de Gusmão e pelo


músico Scarlatti, e os populares, anco-
Um dos romances mais conhecidos
rados em Blimunda e Baltasar. Padre
de José Saramago é Memorial do Con-
Bartolomeu viaja, enlouquece e morre.
vento (1982), classificado como narrati-
Blimunda, após o sumiço de Baltasar,
va histórica, pois retrata aproximada-
passa a procurá-lo, encontrando-o nove
mente 30 anos da História de Portugal
anos depois em situação trágica.
(época da Inquisição). Nesta obra po-
demos encontrar um cenário rico, regis- (fragmento)
trando não só o fato histórico, mas
Levar este pão à boca é gesto fá-
reconstituindo a vivência popular, numa
cil, excelente de fazer se a fome o re-
viagem a diferentes povoados ao redor
clama, portanto alimento do corpo, be-
de Lisboa. A narrativa segue linear, sem
nefício do lavrador, provavelmente mai-
interrupções, vigorosa e rica. Saramago
or benefício de alguns que entre a foice
procura dar à linguagem o tom das crô- e os dentes souberam meter mãos de
nicas históricas, reveste o vocabulário levar e trazer e bolsas de guardar, e
de termos raros e realiza malabarismos esta é a regra. Não há em Portugal trigo
sintáticos. que baste ao perpétuo apetite que os
(resumo) portugueses têm de pão, parece que
não sabem comer outra coisa, por isso
O rei D. João V necessitava de her- os estrangeiros que cá moram, doridos
deiros, mas o ventre de D. Maria Ana das nossas necessidades, que em mai-
não os concebia. Fez ele, então, uma or volume frutificam que sementes de
promessa de construir um convento em abóbora, mandam vir, das suas própri-
Mafra se a concepção ocorresse. Em as e outras terras, frotas de cem navios
paralelo, segue-se o registro da vida do carregados de cereal, como estes que
povo, primeiro enfocando o soldado que entraram agora Tejo adentro, salvando
perdeu a mão esquerda na guerra con- à torre de Belém e mostrando ao gover-
tra os espanhóis: Baltasar Sete-Sóis, nador dela os papéis do uso, e desta
que em um espetáculo da Inquisição, vez são mais de trinta mil moios de pão
conheceu Blimunda, mulher de poderes que vêm da Irlanda, e é a abundância
mágicos, que enxergava o interior das tal, fome que finalmente deu em fartura,
pessoas e cuja mãe, por ter poderes enquanto em fome se não tornar, que,
semelhantes, havia sido desterrada para achando-se cheias as tercenas e tam-
Angola. Desafiando os rigores da reli- bém já os armazéns particulares, an-
gião, ambos se “casam” através de um dam por aí a alugar depósitos por todo o
ritual de sangue. Baltasar torna-se aju- dinheiro, e põem escritos nas portas da
dante do Padre Bartolomeu Lourenço, cidade para que conste às pessoas que
que, sob a proteção do rei, construía os tiverem para alugá-los, com que des-
uma máquina de voar, a passarola. Sob ta vez se vão arrepelar os que manda-
o signo da máquina de voar, unem-se ram vir o trigo, obrigados pelo excesso
ideais: os cultos, representados pelo a baixar-lhe o preço, tanto mais que se
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fala em próxima chegada de uma frota sequência, dela, da do Senhor, e não da


da Holanda carregada do mesmo gêne- do teu marido, ainda que legítimo, é que
ro, mas desta virá a saber-se que a as- foi engendrado o teu filho Jesus. Ficou
saltou uma esquadra francesa quase Maria muito assombrada com a notícia,
na entrada da barra, e assim o preço, cuja substância, felizmente, não se per-
que ia baixar, não baixa, se for preciso deu na elocução confusa do anjo, e per-
deita-se fogo a um celeiro ou dois, man- guntou, Então Jesus é filho de mim e do
dando em seguida apregoar a falta que Senhor, Mulher, que falta de educação,
o trigo ardido já está fazendo, quando deves ter cuidado com as hierarquias,
julgávamos que havia tanto e de sobra. com as precedências, do Senhor e de
São mistérios mercantis que os de fora mim é que deverias dizer, Do Senhor e
ensinam e os de dentro vão aprenden- de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me
do, embora estes sejam ordinariamente baralhes a cabeça, responde-me ao que
tão estúpidos, de mercadores falamos, te perguntei, se Jesus é filho, Filho, o
que nunca mandam vir eles próprios as que se chama filho, é só do Senhor, tu,
mercadorias das outras nações, antes para o caso, não passaste de ser uma
se contentam com comprá-las aqui aos mãe portadora, Então, o Senhor não me
estrangeiros que se forram da nossa escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a
simplicidade e forram com ela os co- passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia
fres, comprando a preços que nem sa- percebido pela cor do céu, mas reparou
bemos e vendendo a outros que sabe- que tu e José eram gente robusta e sau-
mos bem de mais, porque os pagamos dável, e então, se ainda te lembras de
com língua de palmo e a vida palmo a como estas necessidades se manifes-
palmo. tavam, apeteceu-lhe, o resultado foi,
nove meses depois, Jesus, E há a cer-
O Evangelho segundo Jesus Cristo teza, o que se chame certeza, de que
(fragmentos) tenha sido mesmo a semente do Senhor
que engendrou o meu primeiro filho, Bom,
Passados meses, numa chuvosa e a questão é melindrosa, o que tu estás a
fria noite de inverno, um anjo entrou em pretender de mim é, sem tirar nem pôr,
casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo uma investigação de paternidade, quan-
que se não tivesse entrado ninguém, do a verdade é que, nestes conúbios
pois a família assim como estava assim mistos, por muitas análises, por muitos
se deixou ficar, só Maria deu pela che- testes, por muitas contagens de glóbulos
gada do visitante, que nem teria podido que se façam, certezas nunca as pode-
ela dar-se por desentendida, uma vez mos ter absolutas, Pobrezinha de mim,
que o anjo lhe dirigiu directamente a pa- que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que
lavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, o Senhor me havia escolhido para ser a
que o Senhor pôs a sua semente de sua esposa naquela madrugada, e afi-
mistura com a semente de José na ma- nal foi tudo obra de um acaso, tanto po-
drugada em que concebeste pela pri- derá ser que sim como poderá ser que
meira vez, e que, por conseguinte e con- não, digo-te até que melhor seria não
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teres descido aqui na Nazaré para vires vidado, Agora não sei se estás a falar
deixar-me nesta dúvida, aliás, se que- comigo, ou com o teu filho, Com ele, con-
res que te fale com franqueza, um filho tigo, com ambos, que posso eu fazer
do Senhor, mesmo tendo-me a mim como para emendar o mal feito, Que é que te
mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e aconselharia o teu coração de mãe, Que
quando crescesse teria, do mesmo Se- fosse procurá-lo, dizer-lhe que creio
nhor, o porte, a figura e a palavra, ora, nele, pedir que me perdoe e volte para
ainda que se diga que o amor de mãe é casa, aonde o Senhor o virá chamar, em
cego, o meu filho Jesus não satisfaz as chegando a hora, Francamente, não sei
condições, Maria, o teu primeiro grande se vais a tempo, não há nada mais sen-
engano é julgares que eu vim cá apenas sível do que um adolescente, arriscas-
para te falar desse antigo episódio da te a ouvir más palavras e a levar com a
vida sexual do Senhor, o teu segundo porta na cara, Se tal acontecer, a culpa
grande engano é pensares que a bele- tem-na aquele demónio que o embruxou
za e a facúndia dos homens existem à e perdeu, nem sei como o Senhor, sen-
imagem e semelhança do Senhor, quan- do pai, lhe consentiu tais liberdades, tan-
do o sistema do Senhor, digo-to eu que ta rédea solta, De que demónio falas, Do
sou da casa, é ele ser sempre o contrá- pastor com quem o meu filho andou du-
rio de como os homens o imaginam, e, rante quatro anos, a governar um reba-
aqui muito em confidência, eu até acho nho que ninguém sabe para que serve,
que o Senhor não saberia viver doutra Ah, o pastor, Conhece-lo, Andámos na
maneira, a palavra que mais vezes lhe mesma escola, E o Senhor permite que
sai da boca não é o sim, mas o não, um demónio como ele perdure e prospe-
Sempre ouvi eu dizer que o Diabo é que re, Assim o exige a boa ordem do mun-
é o espírito que nega, se no teu coração do, mas a última palavra será sempre a
não deres pela diferença, nunca sabe- do Senhor, só não sabemos é quando a
rás a quem pertences, Pertenço ao Se- proferirá, mas vais ver que uma manhã
nhor, Pois é, dizes que pertences ao destas acordamos e descobrimos que
Senhor e caíste no terceiro e maior dos não há mal no mundo, e agora devo ir-
enganos, que foi o de não teres acredi- me, se tens mais algumas perguntas a
tado no teu filho, Em Jesus, Sim, em Je- fazer, aproveita, Só uma, Óptimo, Para
sus, nenhum dos outros viu Deus, ou que quer o Senhor o meu filho, Teu filho
alguma vez o verá, Diz-me, anjo do Se- é uma maneira de dizer, Aos olhos do
nhor, é mesmo verdade que meu filho mundo Jesus é meu filho, Para que o
Jesus viu Deus, Sim, e, como uma crian- quer, perguntas tu, pois olha que é uma
ça que encontrou o seu primeiro ninho, boa pergunta, sim senhor, o pior é que
veio a correr mostrar-to, e tu, céptica, e não sei responder-te, a questão no es-
tu, desconfiada, disseste que não podia tado actual, é toda entre eles dois, e
ser verdade, que se ninho havia estava Jesus não creio que saiba mais do que
vazio, que se ovos tinha, eram goros, e a ti te terá dito, Disse-me que terá poder
que se os não tinha, comera-os a ser- e glória depois de morrer, Dessa parte
pente, Perdoa-me, meu anjo, por ter du- também estou informado, Mas que irá
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ele ter de fazer em vida para merecer superior, que parecia mordido de beijos.
as maravilhas que o Senhor lhe prome- Se não fosse a certeza de ter estado ali
teu, Ora, ora, tu crês, ignorante mulher, apenas um anjo conversador, os sinais
que essa palavra exista aos olhos do mostrados por Lísia fariam gritar e cla-
Senhor, que possa ter algum valor e sig- mar que um demónio íncubo, desses que
nificado o que presunçosamente cha- acometem maliciosamente as mulheres
mais merecimentos, em verdade não sei adormecidas, andara a fazer das suas
que é que vos julgais, quando não pas- no desprevenido corpo da donzela, en-
sais de míseros escravos da vontade quanto a mãe se deixava distrair com a
absoluta de Deus, Nada mais direi, sou conversa, provavelmente foi sempre
realmente a escrava do Senhor, cum- assim e nós que não o sabíamos, anda-
pra-se em sim segundo a sua palavra, rem estes anjos aos pares para onde
diz-me só, depois de todos estes me- quer que vão, e enquanto um, para en-
ses passados, onde poderei encontrar treter e fazer costas, se põe a contar
o meu filho, Procura-o, que é a tua obri- histórias da Carochinha, o outro, cala-
gação, ele também foi à procura da ove- do, opera o actus nefandus, maneira de
lha perdida, Para matá-la, Sossega, que dizer, que nefando em rigor não é, tudo
a ti não te matará, mas tu, sim, o matarás indicando que na vez seguinte se troca-
a ele, não estando presente na hora da rão as funções e as posições para que
sua morte, Como sabes que não morre- não se perca, nem no sonhador nem no
rei eu primeiro, Estou bastante próximo sonhado, o beneficioso sentido da duali-
dos centros de decisão para sabê-lo, e dade da carne e do espírito. Maria co-
agora adeus, fizeste as perguntas que briu a filha como pôde, puxando-lhe a
querias, talvez não tenhas feito alguma túnica até à altura do que é impróprio
que devias, mas isso é assunto que já estando descoberto, e, quando a teve
não me diz respeito, Explica-me, Expli- decente, acordou-a e perguntou-lhe em
ca-te tu a ti própria. Com a última pala- voz baixa, por assim dizer à queima-
vra, o anjo desapareceu e Maria abriu roupa, Que estavas a sonhar. Apanha-
os olhos. Todos os filhos dormiam, os da de surpresa, Lísia não podia mentir,
rapazes em dois grupos de três, Tiago, respondeu que sonhara com um anjo,
José e Judas, os mais velhos, a um can- mas que o anjo nada lhe dissera, ape-
to, noutro canto os mais novos, Simão, nas olhara para ela, e era um olhar tão
Justo e Samuel, e com ela, uma de cada meigo e tão doce que melhores não po-
lado, como de costume Lísia e Lídia, mas derão ser os olhares no paraíso. Não te
os olhos de Maria, perturbados ainda tocou, perguntou Maria, e Lísia respon-
pelos anúncios do anjo, arregalaram-se- deu, Ó minha mãe, os olhos não servem
lhe de repente, estarrecidos, ao ver que para isso. Sem bem saber se devia tran-
Lísia estava toda descomposta, prati- quilizar-se ou preocupar-se com o que
camente nua, a túnica arregaçada por se passara a seu lado, Maria, em voz
cima dos seios, e dormia profundamen- ainda mais baixa, disse, Eu também so-
te, e suspirava sorrindo, com o brilho de nhei com um anjo, E o teu, falou, ou tam-
um leve suor na testa e sobre o lábio bém esteve calado, perguntou Lísia, ino-
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centemente, Falou para me dizer que lha, nós não estávamos lá, para o Se-
teu irmão Jesus dissera a verdade quan- nhor não há pais nem filhos, lembra-te
do nos anunciou que tinha visto Deus, de Abraão, lembra-te de Isaac, Ai, mãe,
Ai, minha mãe, que mal fizemos então, que aflição, O mais prudente, filha, é
não acreditamos na palavra de Jesus, e guardarmos estas coisas nos nossos
ele tão bom, que, de zangado, até podia corações e falarmos delas o menos pos-
ter levado o dinheiro do meu dote, e não sível, Então, que faremos, Amanhã man-
o fez, Agora temos de ver como o reme- darei Tiago e José a procurar Jesus,
diaremos, Não sabemos onde está, no- Mas onde, se a Galileia é imensa, e a
tícias não deu, o anjo é que bem podia Samaria, se para lá foi, oua Judeia, ou a
ter ajudado, sabem tudo, os anjos, Pois Idumeia, que essa está no cabo do mun-
não, não ajudou, só me disse que pro- do, O mais provável é teu irmão ter ido
curássemos o teu irmão, que era esse o para o mar, recorda-te do que ele nos
nosso dever, Mas, ó minha mãe, se afi- disse quando veio, que tinha andado com
nal foi verdade que o mano Jesus este- uns pescadores, E não teria antes vol-
ve com o Senhor, então a nossa vida, tado para o rebanho, Esse tempo aca-
daqui por diante, vai ser diferente, Dife- bou, Como sabes, Dorme, que a manhã
rente, talvez, mas para pior, Porquê, Se ainda vem longe, Pode ser que torne-
nós não acreditámos em Jesus nem na mos a sonhar com os nossos anjos,
sua palavra, como esperas que os ou- Pode ser. Se o anjo de Lísia, acaso ten-
tros acreditem, com certeza não quere- do fugido à companhia do parceiro, veio
rás que vamos aí pelas ruas e praças habitar-lhe outra vez o sono, não se
de Nazaré a apregoar Jesus viu o Se- chegou a perceber, mas o anjo do anún-
nhor Jesus viu o Senhor, seríamos cor- cio, mesmo se se esqueceu de algum
ridas à pedrada, Mas o Senhor, visto pormenor, não pôde voltar, porque Ma-
que o escolheu, nos defenderia, que ria esteve sempre de olhos abertos na
somos a família, Não estejas tão certa meia escuridão dacasa, o que sabia
disso, quando o Senhor fez a sua esco- sobrava-lhe, o que adivinhava temia”.

A Poesia do Pós-Guerra
O período pós-Segunda Guerra Mun- criam uma poesia intimista, mas simulta-
dial foi de tristeza e desencanto; o conti- neamente preocupada com o destino pes-
nente europeu ficou profundamente mar- soal e coletivo, adotando um tom de pro-
cado pelo conflito mundial. Foi a época da testo contra as injustiças e arbitrarieda-
Guerra Fria e da ameaça de Guerra Nu- des do mundo. O número de autores e
clear. Mediante esses fatos, os poetas correntes tornou-se muito grande.