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Da amizade como modo de vida

De l'amitié c omme mod e de vie. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux,
publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39. Tradução de wanderson flor do
nascimento.

– Você tem cinque nta anos. É um leitor deste jornal que existe há dois
anos. O conjunto destes discursos te pa rece algo de positivo?
Que o jorna l exista, é algo de positivo e importante. Ao seu jornal, o
que eu pediria e ra que, le ndo, eu não tivesse que coloca r a questão da minha
idade. Ora, a leitura me força a colocá-la. E e u nã o fiquei muito contente com
a maneira que fui levado a fazê-lo. Muito simplesme nte, eu não te ria luga r a li.
- Quem sabe o problema seja da faixa etá ria dos que colaboram e dos
que lêem: uma maioria entre 25 e 35 anos.
É claro. Quanto mais escrito por pessoas jovens, mais concerne às
pessoas jovens. Mas o problema não é ceder lugar a uma fa ixa etária de um
lado a outro, mas saber o que se pode faze r em relação à quase identificação
da homossexualidade com o amor entre jovens.
Outra coisa da qua l é prec iso desconfia r é a tendência de levar a
questão da homossexualida de para o problema "Quem sou e u? Qual o
segredo do meu desejo?" Quem sabe, seria melhor pergunta r: "Quais re lações
podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da
homossexua lida de?" O problema não é descobrir em si a verdade sobre seu
sexo, mas, para além disso, usa r de sua sexua lidade para c hegar a uma
multiplic idade de re lações. E isso, sem dúvida é a razão pela qua l a
homossexua lida de não é uma forma de desejo, mas a lgo de desejável. Temos
que nos esforçar em nos torna r homossexua is e não nos obstina rmos em
reconhecer que o somos. Isso pa ra onde caminha os desenvolv imentos do
problema da homossexua lidade é o problema da amizade.
- Você pensou isso a os 20 anos ou descobriu no de corre r dos anos?
Tão longe quanto me recordo, deseja r rapazes é deseja r relações com
rapazes. E isso foi sempre, pa ra mim, a lgo importa nte. Não forçosamente sob
a forma do casal, mas como uma questão de existê ncia : Como é possível pa ra
homens esta rem juntos? Vive r juntos, compartilhar seus tempos, suas
refe ições, seus quartos, seus laze res, suas aflições, seu saber, suas
confidênc ias? O que é isso de esta r e ntre home ns "nus", fora das re lações
instituc iona is, de família, de profissão, de companhe irismo obrigatório? É um
desejo, uma inquietação, um desejo-inquietação que existe em muitas
pessoas.
- Pode-se dizer que a relação com o desejo, com o prazer e a relação
que a lguém pode te r, seja depe ndente de sua ida de?
Sim, muito profundamente. Entre um homem e uma mulher mais
jovem, a instituição facilita as dife renças de idade, as aceita e as faz
funcionar. Dois homens de ida des notavelme nte dife rentes, que código têm
para se comunica r? Estão um em frente ao outro sem armas, sem palav ras
convencionais, sem nada que os tra nquilize sobre o sentido do movimento
que os leva um pa ra o outro. Terão que inventar de A a Z uma re lação ainda
sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das
quais um e outro podem se da r prazer.
É uma das concessões que se fazem a os outros de apenas a presentar a
homossexua lida de sob a forma de um praze r imediato, de dois jovens que se
encontram na rua, se seduzam por um olha r, que põem a mão na bunda um
do outro, e se la nçando ao a r por um qua rto de hora. Esta é uma ima gem
comum da homossexualidade que pe rde toda a sua virtua lidade inquieta nte
por duas razões: e la responde a um cânone tranqüilizador da be leza e anula o
que pode vir a inquieta r no a feto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo,
companhe irismo, aos qua is uma sociedade um pouco destrutiva não pode
ceder espaço sem temer que se formem alia nças, que se tracem linhas de
força imprevistas. Penso que é isto o que torna "perturbadora " a
homossexua lida de: o modo de vida homossexua l muito mais que o ato sexual
mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza,
não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e
ai está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a
atravessam, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exé rcito: ali o
amor entre homens é, incessantemente convocado e honrado. Os códigos
instituc iona is não podem validar estas relações das inte nsidades múltiplas,
das cores va riáveis, dos mov imentos imperceptíveis, das formas que se
modificam. Estas relações instauram um curto-circ uito e introduzem o amor
onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.
- Você diz a todo momento: "mais que chora r por praze res esfa celados,
me interessa o que podemos faze r de nós mesmos". Poderia e xplica r me lhor?
O ascetismo c omo renúnc ia ao praze r tem má reputação. Porém a
ascese é outra coisa. É o trabalho que se faz sobre si mesmo pa ra
transformar-se ou para fazer a parecer esse si que, felizmente, não se alca nça
jamais. Não seria este o nosso problema hoje? Nós colocamos o ascetismo em
férias. Temos que avança r sobre uma ascese homossexual que nos fa ria
trabalhar sobre nós mesmos e inventa r – não digo descobrir – uma ma neira
de ser, ainda improvável.
- Isso que r dizer que um jovem homosse xua l deveria se r muito
prudente em rela ção à imagem homosse xual e trabalhar sobre outra coisa?
Isso em que devemos trabalhar, me pa rece, não é tanto em libe rar
nossos desejos, mas em torna r a nós mesmos infinitame nte mais suscetíve is
a prazeres. É preciso, e é prec iso faze r escapar às duas fórmulas
completamente feitas sobre o puro e ncontro sexua l e sobre a fusão amorosa
das identidades.
- Pode-se ver premissas de construções re laciona is fortes nos EUA,
sobretudo, nas cidades onde o problema da miséria se xua l pa re ce resolvido?
O que me parece certo é que nos EUA, mesmo se o fundo da misé ria
sexual ainda exista, o interesse pela amizade está se tornando muito
importante. Não se e ntra simplesmente na relação para poder c hega r à
consumação sexual, o que se faz muito facilmente ; mas aquilo pa ra o que as
pessoas são polarizadas é a amizade. Como chegar, por meio das práticas
sexuais, a um sistema re lacional? É possível c riar um modo de vida
homossexua l?
Esta noção de modo de vida me parece importa nte. Não seria preciso
introduzir uma diversificação outra que não aquela devida às classes sociais,
diferenças de profissão, de níveis culturais, uma diversificação que seria
também uma forma de re lação e que seria "o modo de vida "? Um modo de
vida pode ser pa rtilha do por indiv íduos de idade, estatuto e atividade socia is
diferentes. Pode dar luga r a relações intensas que não se parecem com
nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que um modo de
vida pode da r lugar a uma c ultura e a uma ética. Ser gay é, c reio, não se
identificar aos traços psicológicos e às máscaras v isíveis do homossexua l,
mas busca r definir e desenvolver um modo de vida.
- Não é uma mitologia dizer: "Aí estão, talvez, as premissas de uma
socia liza ção entre os seres, que é inter-classes, inter-ida des, inter-
naciona is?"
Sim, um gra nde mito como dize r: não haverá mais dife renças entre a
homossexua lida de e a heterossexualidade. Por outro lado, penso que é uma
das razões pelas quais a homossexualidade se torna um problema
atualmente. Acontece que a afirmação de que ser homossexual é ser um
homem e que este se ama, esta busca de um modo de vida vai ao encontro
desta ideologia dos movimentos de liberação sexua l dos anos sessenta. Nesse
sentido os "clones" bigodudos têm uma significação. É um modo de
responder: "Não receiem nada, qua nto mais se seja libe rado, menos se amará
as mulheres, me nos se fundirá nesta polissex ualidade onde não há ma is
diferença entre uns e outros." E não se trata, de modo a lgum, da idéia de uma
grande fusão comunitária.
A homossexua lida de é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades
relacionais e afetivas, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexua l,
mas pela posição de "enviesado", em qualque r forma, as linhas diagona is que
se podem traçar no tecido socia l, as quais pe rmitem faze r apa recer essas
virtua lidades.
- As mulheres poderiam objeta r: "O que é que os home ns ganham entre
eles e ganham em relação às relações possíveis entre um homem e uma
mulher ou entre duas mulhe res?"
Há um livro que apa receu nos EUA sobre a amizade entre as mulheres
(Faderman, L. Surpassing the Love of Men. New York: William Marrow, 1980). É
muito bem doc umenta do a partir de testemunhos de relações de afeição e
paixão entre mulheres. No pre fácio, a autora diz que ela havia pa rtido da idé ia
de detectar as relações homossexuais e se deu por conta de que essas
relações não some nte não estavam sempre presentes, mas que não e ra
inte ressante saber se se poderia chamar a isso de homossexualida de ou não.
E que, deixando a relação desdobra r-se tal como ela apa rece nas palavras e
nos gestos, apa receriam outras coisas basta nte essencia is: amores, afetos
densos, maravilhosos, ensola rados ou mesmo, muito tristes, muito negros.
Este liv ro mostra também em que ponto o corpo da mulher desempenhou um
grande pape l e os contatos e ntre os corpos femininos: uma mulher pente ia
outra mulhe r, ela se de ixa maquia r e vestir. As mulheres te riam dire ito ao
corpo de outras mulheres, segura r pe la cintura, abraçar-se. O corpo do
homem estava proibido ao homem de ma neira mais drástica. Se é verda de
que a vida entre mulheres e ra tolerada, é somente em certos períodos e a
partir do séc. XIX que a vida entre homens foi, não somente tole rada, mas
rigorosame nte obrigatória: simplesmente dura nte as gue rras.
Igua lmente nos campos de prisioneiros. Havia soldados, jovens ofic iais
que passaram meses, anos juntos. Durante a gue rra de 14, os homens viviam
completamente juntos, uns sobre aos outros, e, para e les isso não era nada,
na medida em que a morte estava ali; e de onde fina lmente a devoção de um
ao outro, o se rviço fe ito era sa ncionado por um jogo de vida e morte. Fora
algumas frases sobre o cole guismo, sobre a frate rnidade da alma, de alguns
testemunhos muito parc iais, o que se sabe sobre furacões afetivos, sobre
essas tempestades do coração que puderam haver a li nesses mome ntos? E
alguém pode perguntar o faz que nessas guerras absurdas, grotescas, nesses
massacres infe rna is, que as pessoas, apesar de tudo, tenham se sustentado?
Sem dúvida, um tecido afetivo. Não que ro dizer que era porque eles estavam
amando uns aos outros que continuavam combatendo. Mas a honra, a
coragem, a dignidade, o sacrifício, sair da trinche ira com o companhe iro,
diante do companheiro, isso implicava uma trama afetiva muito inte nsa. Isto
não que r dizer: "Ah, está ai a homossexua lidade!" Detesto este tipo de
racioc ínio. Mas sem dúvida se tem ai uma das condições, não a única, que
permitiu suportar essa vida infe rna l em que as pessoas, durante semanas,
rolassem no barro, entre os cadáveres, a merda, se arre bentassem de fome; e
estivessem bêbadas na manhã do ataque.
Eu que ria dize r, enfim, que qua lquer coisa re fletida e voluntá ria, como
uma publicação, deveria tornar possível uma cultura homossexua l, isto é,
possibilitar os instrumentos para relações polimorfas, variáveis,
individualmente moduladas. Mas a idéia de um programa e de proposições é
perigosa. Desde que um programa se apresenta, ele faz lei, é uma proibição
de inventa r. Deveria haver uma inventivida de própria de uma situação como a
nossa e que estas vontades disso que os americanos chamam de comming
out, isto é, de se manifesta r. O programa deve ser vazio. É preciso cavar pa ra
mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual
razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer a parecer o inteligível
sob o fundo da vacuida de e nega r uma necessida de; e pe nsar o que ex iste
está longe de preenche r todos os espaços possíveis. Fazer um verdade iro
desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventa r um jogo?
- Obrigado, Miche l Foucault.