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A VOCAÇÃO

EM UMA PERSPECTIVA
NEOTESTAMENTÁRIA

Paulo Roberto Garcia1

Os textos vocacionais marcam a história bíblica. Sempre que uma destas histórias surge no
relato sagrado a vida de uma pessoa e de um povo muda. Isso acontece porque, embora a palavra
“Vocação” (a partir de sua origem do substantivo latino Vocatione) tenha o sentido de chamar,
convocar, na dinâmica bíblica todo chamado termina em um envio. É por isso que, na Bíblia, os
textos de chamado são paradigmáticos e têm sempre um aspecto fundante no livro em que
aparecem: eles determinam o rumo da vida de um povo.
Para abordar o tema vocação a partir dos relatos bíblicos temos dois caminhos. O primeiro é o
de estudar os relatos que apresentam o chamado de personagens importantes da história do povo
de Deus, os relatos que, como afirmamos acima, são paradigmáticos. O outro caminho é o de
abordar textos que, embora não tratando diretamente os eventos vocacionais, aprofundam o tema.
O primeiro caminho tem sido percorrido por inúmeros estudiosos do texto sagrado. Como desafio
para este texto, vamos pelo outro caminho. Nos propomos a estudar um texto que marca a carta de
Paulo aos Romanos, a partir da perspectiva vocacional.
O texto a ser estudado é o texto de Romanos 8.18-25.

1. O quadro que emoldura a perícope


A abordagem de uma perícope pede um caminho de estudo. Podemos iniciar pela perícope e
perguntar pela relação dela com os textos imediatamente circundantes e o livro como um todo. No
nosso caso, vamos por um caminho diferente. Vamos abordar o capítulo na qual a perícope está
localizada, depois veremos a estrutura da carta aos Romanos para, enfim, abordar a perícope. Isso é
importante pois a perícope tem um papel importante no capítulo e o capítulo 8 é um divisor de
águas na carta de Paulo aos Romanos.

1
Presbítero da I.M., doutor em Ciências da Religião, biblista, professor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (onde é vice-reitor
e coordenador do curso) e na pós-graduação em Ciências da Religião, Umesp.
a)Abordando Romanos 8:
o Espírito como tema central
Uma primeira abordagem necessária para a compreensão da profundidade da perícope é a de
entender a dinâmica do capítulo 8 da Carta aos Romanos. O tema central desse capítulo é o
Espírito. Na língua grega – em que foram escritos os livros do Novo Testamento – a repetição de
uma palavra tem uma função enfática. Deste modo, para se enfatizar um tema repete-se a palavra
várias vezes. A palavra Espírito é usada por Paulo 30 vezes na Carta aos Romanos, o que chama a
atenção é que no capítulo 8 ele a repete 14 vezes2. Com isso, podemos afirmar que a palavra
Espírito exerce uma função especial nesse capítulo. Além disso, a segunda maior ocorrência da
concentração dessa palavra acontece no Capítulo 15 (5 vezes). Isso é importante na medida em que
os capítulos 9-15, como veremos a seguir, formam um bloco que tem relação direta com o capítulo
8.
Deste modo, percebemos que nossa perícope é parte de um capítulo que tem uma profunda
ênfase na ação do Espírito na vida do povo de Deus.

b) Abordando a carta aos Romanos:


o capítulo 8 como uma dobradiça
A carta de Paulo aos Romanos possui uma estrutura muita bem montada. Nela encontramos a
defesa dos temas mais apreciados do apóstolo (Lei, Graça, Pecado, etc).
A carta pode ser dividida em dois blocos. O primeiro bloco, que abrange os capítulos de 1 a 7,
aborda o tema da vida vivida na dependência da Lei (tanto da lei natural, para os gentios, como da
Lei de Deus, para os judeus). A ênfase está na demonstração da impossibilidade do ser humano,
por si só, cumprir a Lei. Mesmo sendo boa, ao não cumpri-la, a Lei acaba apontando o pecado e
transformando-se em juízo para o ser humano. Tanto os gentios como os judeus acabam, portanto,
presos à morte. A pergunta que fecha esse bloco é: “Miserável homem que eu sou: quem livrará o
corpo desta morte?” (7.24). Este bloco termina em uma melancólica visão do fracasso da existência
humana.
O segundo bloco, que abrange os capítulos 9 a 15, aborda o tema da vida vivida na
dependência da Graça. Nele há uma ênfase nos aspectos relacionais da vida cristã. A partir do
corpo oferecido em sacrifício vivo e agradável a Deus (12.1-2) a relação com todos os seres
humanos muda. Essa mudança aborda a relação com os inimigos e, de modo enfático, com os mais
fracos.
Entre esses dois blocos, Romanos 8 aparece como uma dobradiça. Ele apresenta a transição
entre a vida vivida na dependência da Lei para a vida vivida na dependência da Graça. A ação do
Espírito é o que possibilita essa transição. Deste modo, o ingresso na vida regida pela graça de Deus
só é possível através da ação do Espírito. Isso enfatiza a gratuidade da ação de Deus e o necessário
aceite dessa Graça pelos seres humanos. Nesse ponto, encontramos a possibilidade de aproximar a
discussão da perícope com o tema da vocação. O capítulo 8 é o capítulo de passagem da vida
debaixo da Lei para a vida debaixo da Graça. Essa vida é marcada pelo desafio relacional. Portanto,
o capítulo 8 apresenta os desafios para viver a vocação cristã. Essa vocação, de acordo com este
capítulo, não se esgota no indivíduo, mas ganha uma conotação mais ampla, que atinge a todos os

2
Em Romanos 8 a palavra aparece nos versículos: 2, 4, 5, 6, 9, 10, 11, 13, 14,15,16,23,26,27. As demais ocorrências são: Romanos
1.4,9,11; 2.29; 5.5; 7.6,14; 9.1; 11.8; 12.11; 14.17; 15.13,16,19,27,30. Para facilitar a visualização, colocamos os capítulos em negrito.
seres humanos, passando pelos inimigos e chegando aos mais fracos. Temos então os dois
elementos de relatos vocacionais: a vocação – que chama para a vida vivida na dependência do
Espírito – seguida do envio – que coloca o desafio relacional. Essa perspectiva marcará a
abordagem à perícope, que faremos a seguir.

2. A perícope
Romanos 8.18-25 é uma perícope com uma estrutura densa e muita bem trabalhada. A seguir
apresentamos uma tradução da perícope, marcando as divisões da estrutura destacando as frases
que tem como abertura a conjunção pós-positiva “pois” (gar). Os números sobrescritos são nossa
divisão em versículos. Percebe-se que a divisão em versículos que encontramos em nossas Bíblias
não representa, necessariamente, a estrutura do texto3:
18Pois considero que não são dignos os sofrimen tos do presente tempo,
diante da vindoura glória revelada para nós
19Pois o desejo profundo (expectativa profunda) da criação (ktiseos) espera a revelação dos filhos de

Deus
20Pois à transitoriedade (inutilidade) a criação
(ktísis) foi submetida.
Não voluntariamente, mas devido àquele que a submeteu.
21Em esperança que também a própria criação será libertada

desde a escravidão do que é perecível


para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
22Pois sabemos que toda a criação (ktisis)
conjuntamente geme e conjuntamente sofre dores de parto até o momento
23E não somente (ela), mas nós mesmos – os possuidores das primícias do Espírito

também nós mesmos interiormente4 gememos aguardando a filiação,


a redenção de nosso corpo
24Pois em esperança fomos salvos,

mas, esperança que se vê não é esperança


Pois, aquilo que se vê, quem espera?
25Mas, se aquilo que não vemos, esperamos,

por meio da paciência, aguardamos.

a) problema de tradução em nossa perícope


A palavra criação (ktísis) pode ser traduzida de várias maneiras e apresenta um grande desafio
para os pesquisadores5. De uma forma muito resumida, podemos apontar duas possibilidades de
compreensão desta palavra. A primeira possibilidade é a de entender ktsís como tudo o que foi
criado – animado ou inanimado – ou seja, o universo, o Cosmos (incluindo ou não os seres
humanos). A segunda possibilidade é a de entender ktísis, como criaturas que foram feitas por
Deus. Por exemplo, em Romanos 1.20 o poder de Deus é manifesto através da criação do mundo
(ktíseos kósmou) sinalizando o sentido amplo da palavra. Já em 1.25 há a acusação que eles adoraram

3
A perícope que estamos estudando é parte de uma estrutura maior no capítulo 8, seguindo a divisão pela conjunção “pois” ( gar)
4
literalmente: nós mesmos em nós
5
Para ver as diversas maneiras de traduzir ktísis veja Wiese, Werner. Dimensões da expectativa e esperança escatológica: uma análise exegética de
Romanos 8.18-27. São Leopoldo, Editora Sinodal. 2004 (Série de Teses e Dissertações – 22). 414p. Veja de modo especial as páginas 55
a 70 e 133 a 225.
a criatura (ktísis) em lugar do Criador, ou seja, um sentido mais estrito. O questionamento que se
faz é se em Romanos 8 temos o sentido amplo ou o sentido estrito.
Percebemos, ao observar a estrutura da perícope, que há um crescente na descrição da situação
da criação: o desejo profundo da criação espera a revelação (v.19); a criação foi submetida ao que é
transitório (v.20); a criação quer ser liberta da escravidão (v.21); a criação conjuntamente geme e
sofre dores de parto (v. 22).
Nesse crescente, surge a pergunta: quem submeteu a criação? A partir do texto de 12.2, que
coloca o desafio de não se amoldar (syskematizsthe) a esse século (aioni - eon), reforça a possibilidade
de que Paulo usa ktísis nesta perícope a partir da perspectiva mais ampla – tudo o que foi criado
(animado e inanimado). Já sobre incluir ou não os seres humanos na descrição da criação de tudo
que é animado, a definição é mais complexa. O que podemos perceber é que há uma distinção entre
ktísis e “os possuidores das primícias do Espírito”. Vamos optar em entender ktísis a partir do
ponto de vista amplo, ou seja, de tudo criado (inanimado, animal e seres humanos), porém, pela
própria dinâmica do texto, vamos excluir os cristãos (os possuidores das primícias do Espírito). Isso
significaria, em nosso texto, que tanto a natureza, como os seres humanos e os animais gemem. Por
isso a dupla ênfase no gemer em conjunto e ter dores de parto em conjunto (as duas palavras
apresentam o prefixo syn que implica em ação conjunta).
Nessa perícope, subtrair do uso de ktísis os cristãos não pode ser entendido como uma
supremacia dos cristãos sobre tudo o demais criado. Isso entraria em contradição com o segundo
bloco da carta aos Romanos. A separação não é privilégio, é desafio. Nesse sofrimento cósmico,
cabe aos cristãos – possuidores das primícias do Espírito – exercer sua vocação de renovação do
cosmos. Deste modo, há um sentido cósmico nessa a vocação cristã. A renovação desejada está
presente entre os cristãos, os seres humanos em geral e, finalmente, em toda a criação. Porém, aos
cristãos há a responsabilidade conferida pelo envio.
Essa responsabilidade nasce da convicção de que toda a criação toda está subjugada à
transitoriedade. As ações humanas, marcadas pelo pecado (o qual, segundo Paulo, tem como
pagamento a morte, ou seja, a transitoriedade, a efemeridade) atingem a tudo o que foi criado, tem
uma dimensão cósmica. O ser humano em seu corpo sujeito à morte, sujeitou, conjuntamente, toda
a criação. Com isso, se a escravidão é cósmica, o desejo de redenção e liberdade é cósmico também.
Podemos, então, apresentar algumas pistas que a perícope apresenta para a vocação cristã.
Uma primeira pista que a perícope nos apresenta, a partir de sua relação com o capítulo em que
está inserida e com a estrutura da carta como um todo, é que a vocação cristã acontece a partir da
ação do Espírito, que, ao proporcionar a passagem da vida vivida na dependência da Lei para a vida
vivida na dependência da Graça, move o ser humano de uma perspectiva egocêntrica de existência
para uma perspectiva relacional, ampla e solidária, de forma especial, para com os mais fracos.
Uma segunda pista é que a vocação cristã aparece marcada pela esperança, por um lado, e por
dores de parto, de outro lado. Porém, isso não é exclusivo dos cristãos. Essa expectativa atinge a
todos os seres humanos e a toda a criação, uma vez que tudo o que há no cosmos sofre as
conseqüências da transitoriedade.
Uma terceira pista é que, a partir dessa expectativa universal, os portadores das primícias do
Espírito necessitam se colocar a serviço do cosmos que espera a redenção. Isso é o que aparecerá
nos capítulos seguintes ao capítulo 8, mostrando as dimensões relacionais dessa nova vida, que
atingem, inclusive, os inimigos.
Estas pistas, se constituem em chamado e envio de todo o povo de Deus. Diante delas, as
tentações à vocação se colocam no cotidiano da vivência cristã. A seguir, vamos abordar as
tentações que se colocam à vivência cristã a partir da perspectiva da vocação pastoral. Isso significa
que a vocação pastoral é um específico dentro da vocação do povo de Deus e depreende dos
conceitos fundantes dessa vocação.

3. Tentações à vocação cristã:


uma abordagem a partir
da vocação pastoral

3.1. Pastorear os pastoreáveis.


A primeira grande tentação que se coloca ao ministério pastoral é a de exercer o ministério em
função daqueles e daquelas que se enquadram em modelos e posturas que preenchem nossa
expectativa e desejo. A diferença, as posturas e opiniões diferentes não são aceitas. Em muitos
casos, os fracos são colocados em segundo plano. O texto de Romanos 12 a 15 apresenta o desafio
de ter uma prática de amor e de suporte em favor dos fracos. Uma relação de amor e paz com os
inimigos. Deste modo, a vida debaixo da graça coloca uma dimensão de serviço frente aos que não
preenchem nossas expectativas. Os diferentes como objeto de amor e serviço é o primeiro desafio.
Amar e servir somente os que nos amam é a primeira tentação.

3.2. Pastorear a igreja


Embora esse título seja muito positivo, ele pode esconder uma tentação: a de reduzir a ação
pastoral apenas à comunidade de fé, como se apenas ela ansiasse por uma transformação, como se
somente ela desejasse a renovação e a restauração. Porém, de acordo com nossa perícope e com o
texto como um todo, a essa expectativa dos fiéis se soma a expectativa daqueles e daquelas que
circundam a comunidade de fé. Com isso, a vocação cristã tem uma dimensão pública que tem que
ter a contrapartida da vocação pastoral. Pastorear a rua, o bairro, a cidade é o desafio dentro de uma
dimensão pública do ministério. Centrar as atenções pastorais somente na comunidade de fé é a
segunda tentação.

3.3. Pastorear a mulheres e homens


Nesse ponto, a radicalidade da perícope e a discussão da tradução de ktísis apresentam toda sua
profundidade. É comum no discurso missionário e vocacional cristão olhar apenas para os seres
humanos como objetos de nossa ação e, conseqüentemente, espaço possível de renovação e
restauração. Isso, porém, nega toda a tradição bíblica da fé em um Deus que criou tudo o que existe
e, conseqüentemente, a própria natureza criada por Deus, uma vez submetida à transitoriedade,
sofre e espera a redenção e a liberdade. Isso coloca um desafio ecológico ao ministério pastoral, que
é o de pastorear a criação de Deus. Pastorear, no sentido do cuidado com a integridade da criação e
a ação profética em torno das causas ecológicas, buscando preservar toda a criação de Deus é o
desafio que brota de uma fé em um Deus criador. Reduzir a ação pastoral somente aos seres
humanos com suas ansiedades e desejos, ignorando o desafio e as lutas em torno da busca da
preservação da integridade de toda a criação de Deus é a terceira tentação.
Conclusão
O texto de Romanos 8.18-25 apresenta desafios profundos para a vocação cristã. Desafios que
mudam toda a forma de ser e de se relacionar com o mundo que nos cerca. A vida cristã vivida na
dependência da Graça, mediante a ação do Espírito, transforma as relações com a comunidade de
fé, com os inimigos, com os mais fracos e com toda a criação de Deus. O desafio da renovação e da
restauração da integridade da criação de Deus é desafio para todos os cristãos.
O ministério pastoral é uma vocação que surge dentro e a partir da vocação cristã, e que tem o
seu específico no cuidado com todas as dimensões desta vocação. Para esse ministério, o desafio é
o do cuidado com todo o povo de Deus, com os fracos, com os adversário, ou seja, com todos os
seres criados. Porém, a partir do texto, a ação e os desafios não se esgotam ai. Também a ação
pastoral tem de abranger a dimensão pública da fé e o cuidado na busca da preservação da
integridade da criação de Deus. Ou seja, o desafio da vocação pastoral é o de entender toda a
criação de Deus – com a máxima amplitude que esse entendimento permite – como o objeto do
cuidado e da ação do pastoreio. Nesse ponto, a perícope de Romanos lida na perspectiva da
vocação pastoral alcança sua radicalidade e nos desafia profundamente.

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