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A Constituição do Sujeito Ético

Rui de Souza Josgrilberg

Resumo

O artigo parte da conceituação de sujeito ético


como “uma autonomia alcançada através da
alteridade”. Descreve como constitutivo do sujeito
ético o seu envolvimento “numa trama de
interpelação e resposta”, “entre a unidade de um
mundo e a pluralidade dos muitos mundos
culturais”. Um “sujeito ético cristão” inclui, na
trama de interpelação e resposta, a narrativa
bíblica que estabelece um diálogo crítico com os
mundos ao redor. A sua “experiência encontra sua
expressão mais plena e mais significativa
eticamente como sujeito ético eclesial”.

Palavras-chave

Sujeito – sujeito ético – sujeito religioso – ética


cristã.

Reitor e professor da FaTeo e


do Programa de Pós-
Graduação em Ciências da
Religião/Umesp. Ênfase de
pesquisa: Teologia Sistemática
e Fenomenologia. Doutor em
Ciências da Religião pela
Université des Sciences
Humaines de Strasbourg,
França. Endereço eletrônico:
rui.josgrilberg@metodista.br

Revista Caminhando v. 13, n. 21, p. 41-59, jan-mai 2008 73


The ethical individual’s constitution

Rui de Souza Josgrilberg

Abstract

The article is based on the notion of the ethical in-


dividual as “an autonomy achieved through
alterity”. It describes the involvement in a “weft of
interpellation and answer “ as constitutive part of
the ethical individual, “between the unity of a world
and the plurality of the several cultural worlds”. An
ethical individual” includes, in the weft of
interpellation and answer, the biblical narrative that
establishes a critical dialog with the worlds around.
His “experience finds its fullest and most ethically
meaningful expression as an ecclesial ethical
individual”.

Keywords:

Individual – Ethical individual – Religious individual


– Christian ethics.

Dean and Professor at the


Theological Faculty and at
Postgraduate Program of
Religious Study/Umesp. Re-
search: Systematic Theology
and Fenomelogy. Ph.D. in
Religious Studies, University
of Human Sciences, Stras-
bourg, France. Email:
rui.josgrilberg@metodista.br

74 Rui de Souza JOSGRILBERG. W esley e a experiência cristã


La Constitución del Sujeto Ético

Rui de Souza Josgrilberg

Resumen

El articulo parte del concepto de sujeto ético como


“una autonomía alcanzada a través de la alteridad”.
Describe como constitutivo del sujeto ético su
envolvimiento “en una trama de interpelación y
respuesta”, entre la unidad de un mundo y la
pluralidad de los muchos mundos culturales”. Un
“sujeto ético cristiano” incluí en la trama de
interpelación y respuestas, la narrativa bíblica que
establece un dialogo crítico con los mundos
alrededores. Su “experiencia encuentra su
expresión más plena y más significativa
éticamente” como el sujeto ético eclesial.

Palabras-clave

Sujeto – sujeto ético –sujeto religioso – ética


cristiana.

Profesor de la FaTeo y del


Programa de posgraduación
en Ciencias de la Reli-
gón/Umesp. Énfasis de inves-
tigación: Teología Sistemática
y Fenomenología. Doctor en
Ciencias de la Religión por la
Université des Sciences
Humaines de Strasbourg,
Francia. Correo eletrônico:
rui.josgrilberg@metodista.br

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dessas instâncias. Procuraremos precisar
Introdução a constituição do sujeito em seu entrela-
çamento com o desenvolvimento da ca-
Uma das questões mais complexas do pacidade responsiva do ser humano e o
mundo científico, teológico e filosófico progressivo incremento da capacidade de
contemporâneo é oferecer uma boa com- se auto-reconhecer até alcançar uma
preensão do significado preciso de pala- autonomia relativa. O discurso ético afir-
vras como eu, sujeito, subjetividade, ma que somos livres e responsáveis e
pessoa etc... Essas instâncias são ora assumimos em nós mesmos o ato ético e
afirmadas como entidades, ora negadas; suas conseqüências enquanto ações signi-
ora exaltadas como centrais em toda ficativas. Por outro lado, como cristãos,
reflexão humana, ora humilhadas... (con- perguntamos até que ponto podemos ser
forme a expressão famosa de Ricoeur). éticos, livres e responsáveis, numa estru-
Em nossa perspectiva consideramos o tura de pecado e com a constituição de
sujeito um aspecto fundamental para que sujeitos dentro dessa estrutura.
possamos pensar e falar em ética. A ética Nossa abordagem do tema será feita
implica um sujeito que possa assumir a a partir de três perguntas-tema:
responsabilidade por atos praticados 1. Como se constitui o sujeito?
(seja ele pessoal, comunitário, institucio- 2. Como se forma o sujeito ético?
nal, ou outro) diante de outros. Em vista 3. Como se forma o sujeito ético
desse aspecto de nosso tema, daremos cristão?
especial atenção à constituição1 do sujei- Propomos uma breve descrição da
to: como chegamos a constituir um sujei- experiência de “ser sujeito” (acompanha-
to com certa autonomia? O eu e a subje- da de indicações dadas pela análise gené-
tividade não são uma condição inata a tico/generativa da manifestação do sujei-
todo ser humano? Se o “eu” não é inato, to) como pano de fundo interpretativo de
como o “eu” e a “subjetividade” se cons- nós mesmos. Usamos o método enome-
tituem em nós? Como nos tornamos nológico de Husserl e descartamos qual-
seres “responsáveis”? Como se constitui quer explicação prévia, filosófica ou cien-
o que chamamos “liberdade”? tífica. A nossa experiência humana não é
Uma das tarefas primeiras da ética é, vista como confinada aos processos defi-
pois, a de fundamentar o aparecimento nidos como natureza, nem a vida huma-
na pode ser confinada à fisiologia, por
exemplo. Isso indica a distância que
mantemos do chamado naturalismo cien-
1
“Constitutio” – palavra latina que estabelece formas
de unir o separado, de formar o conjunto de uma
tífico. A abordagem originária do ser
variedade, ou formar um complexo de pluralidades. humano nunca é “científica” no sentido
Constituição não é sinônimo de construção; signifi-
ca a formação e a gênese temporal a partir de pólos de objetivismo factual; mais que nature-
interativos. O pólo humano desenvolve um proces-
so de centramento progressivo em torno de um si za, somos também cultura e a sociedade
mesmo e através da intencionalidade do corpo e da é também nossa convivência cotidiana, é
consciência. É essa intencionalidade que nos carac-
teriza como seres responsivos ao mundo em dife- corpo e também é uma abrangência de
rentes níveis na constituição de objetos intencio-
nais. nosso ser humano como um todo. O

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conhecimento não se produz do sujeito humano, é um equívoco consagrado por
para seu entorno, nem do seu entorno Descartes.
para o sujeito, é uma integração com a Há muitos estudos sobre as etapas do
vida. A experiência de ser sujeito é am- desenvolvimento humano. Quase todos
pliada no sentido de abarcar a vida, inte- partem do princípio que o desenvolvi-
grando vida e subjetividade, subjetivida- mento é um processo de unidade da
de e vida. Na correlação2 sujeito e vida pessoa e seu entorno. Quase todos apon-
afirmamos a superação de todo dualismo tam a grande distância entre o que fomos
sujeito/objeto desenvolvido a partir da quando criança e o que somos como
ciência moderna (especialmente depois adultos. A unidade é atribuída a constân-
de Descartes). cias biológicas, psicológicas, sociológicas,
culturais. Entretanto, não podemos mais
1. Como se constitui pressupor uma substância humana em
o sujeito? desenvolvimento que possua em si mes-

Gênese do sujeito ma as virtudes centrais desse desenvol-


vimento. Nossa abordagem desloca o
Quando fazemos a pergunta “quem centro formador não para o exterior, mas
somos nós?”, temos a tendência de ten- para a correlação entre o que o outro nos
tar respondê-la a partir da reflexão sobre aporta e nossa capacidade de responder,
nós mesmos. Isso é uma grande ilusão. responsividade que se revela desde a
Essa pergunta só pode ser respondida a nossa mais remota formação como bebê
partir de nossos relacionamentos com os ou mesmo na condição de feto. Se para
outros. Sem o outro não somos nada. o bebê não houver as condições necessá-
Nossa constituição tem o ponto focal na rias relacionais e como entorno de ser
presença do outro. Nascemos da vida dos humano, especialmente outras pessoas,
outros fisiologicamente, psicologicamen- o ser humano não emerge em suas con-
te, culturalmente, e mesmo religiosamen- dições essenciais. Ser pessoa, ser livre,
te (no cristianismo isso é claro se aten- transcender o tempo e espaço, utilizar a
tamos para as expressões de Cristo ou de linguagem, são condições que não se
Paulo que nos vêem como seres de rela- desenvolvem por si. O desenvolvimento
ção com o próximo e com Deus). A ilusão está condicionado à presença de outros.3
de consciência autônoma, que habitaria
em nós desde o início em forma potencial
e natural, como condição inata do ser 3
O caso dos “meninos lobos” é ilustrativo. A criança
privada da convivência humana não desenvolve a
capacidade de expressões faciais, de sentimentos
humanos como o sorriso, não desenvolve a lingua-
gem, não estabelece relações temporais próprias da
cultura humana, não de descola do tempo e do es-
paço circunstanciais, não revela a autonomia de um
2
Correlação implica que um pólo não pode ser isolado sujeito reflexivo. Inseridos na convivência humana,
ou concebido sem o outro pólo. Não podemos con- esses meninos/as recuperam muito parcialmente
ceber objetividade sem o pólo da subjetividade. suas potencialidades humanas atrofiadas pela pri-
Nem podemos conceber o sujeito ou a subjetividade vação. Os estudos de privação na primeira infância
sem o pólo da objetividade constituída na correla- em geral apontam para resultados devastadores em
ção. Toda “co-instituição” implica em alguma forma termos de humanidade, especialmente em casos de
de correlação. abandono.

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O “eu” não se desenvolve pelo cresci- O cenário originário de constituição
mento físico, mesmo que dependa de subjetiva é formado por relações provo-
uma base fisiológica para que isso seja cadoras, interpeladoras e em respostas;
possível. O eu não é uma substância. O estas, acompanhadas das interpelações
sujeito acontece: ele é e existe em atos, formam sedimentos habituais que nos
e ele se forma e se revela em eventos, e permitem reconhecer a nós mesmos.
se dá conta de si por se auto-reconhecer Produz-se uma trama de interpelações e
em atos. O sujeito se forma e se revela respostas. Essa trama é o nosso próprio
na relação de alteridade. O sujeito é pano de fundo. O sujeito revela-se como
constituído como evento, ele acontece na um pertencente à ordem do “evento”
trama que se estabelece em relação com entre pessoas, e não à ordem das coi-
outros seres humanos (mãe, família, sas.4 A constituição de sedimentos espi-
grupos humanos) e como resposta a rituais – em que ocorrem sentimentos,
eventos: o “eu” provém das respostas a linguagens, atitudes, criações culturais do
outro/a. De início, um centramento na espírito (lógicas, estéticas, éticas, religio-
pura corporeidade do recém formado, e sas...) etc. – acontecem no campo hu-
cuja autonomia se constitui progressiva- mano de interações humanas dialógicas.
mente a partir da não-autonomia (quan- O si mesmo (self) se constitui em re-
do a responsividade é ainda uma pura lações concretas de trabalho, relações de
partilha do que recebemos). É uma se- corporeidade, relações de família, onde
qüência de eventos que faz emergir a eu sou testemunha de mim mesmo e
identidade egóica através das respostas e capaz de narrar minha trajetória longa ou
da estrutura que a pessoa vai constituin- curta. Refletividade sobre mim mesmo e
do. O sujeito autônomo emerge de modo minhas relações me permitem dizer “eu”
relativo e descontinuamente, isto é, o como fonte de uma trama com os outros
sujeito autônomo não é uma constante e na qual me encontro (co-) respondido,
linear sem interrupções. A vida testemu- rejeitado, remetido a mim mesmo pelo
nha muitas situações em que não pode- outro e onde me reconheço como sujeito.
mos pressupor o sujeito como plenamen- A trama de aceitação e rejeição é basilar
te autônomo: uma simples febre pode no processo de constituição de si mesmo.
aniquilar ou limitar a autonomia de um Essa trama aparece na narratividade.
sujeito. As obras narrativas como mitos, lendas,
romance, diálogos, novelas, a Bíblia,
Chegamos ao ponto de estabelecermos
uma compreensão de princípio consta- narrativas de aventuras, história e estó-
tado puramente a partir da vivência e rias etc. refletem como tela de fundo
da reflexão retroativas: – sujeito é
essa trama essencial. A narratividade
uma constituição que acontece em
torno de eventos relacionais e respos- encarna a trama de sujeitos. Daí a gran-
tas a esses eventos. Somos interpela-
dos na convivência desde a mais tenra
idade e nos formamos como respon-
dentes.
4
Martin BUBER, especialmente no livro Eu e Tu, nos
brindou com a diferenciação em sua expressão
clássica.

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de importância e sedução da literatura. 2. Como se constitui
Muitas narrativas nos ajudam a constituir o sujeito ético?
a consciência de nós mesmos. Ricoeur
cunhou s expressão “identidade narrati- Vimos que o sujeito ético é uma au-
va” que descreve bem esse processo.5 tonomia alcançada através da alteridade.
Narrativas revelam as tramas que consti- Nele o acontecimento é um e-vento (no
tuem os sujeitos numa cultura, dão o sentido de que ele vem a nós e nos inter-
significado e origens das instituições pela). A decisão ou atitude ética é um
como sedimentação de certa responsivi- modo de ser humano na vida concreta
dade coletiva. entre pessoas. O sujeito ético é parte de
Ainda que o pólo dinâmico da consti- uma humanidade social em que se cons-
tuição de si esteja originariamente locali- titui como indivíduo a partir dela e por
zado na alteridade, no outro, o centra- refleti-la.
mento de si mesmo possui uma dimen- Ser outro-dependente (não confundir
são transcendental de pessoalidade que com subserviência ou dominação) é parte
constitui a intersubjetividade humana. A da autonomia do sujeito ético. A autono-
vida humana intersubjetiva em suas mia se constitui nessa dialética. Todo
muitas sedimentações constitui-se no sujeito possui uma trama narrativa e
solo último e concentra as condições pode testemunhar uma autobiografia.
interpessoais de vida cotidiana. Que a Temos biografia e fazemos história. To-
intersubjetividade e a vida cotidiana pos- dos esses elementos são constitutivos da
suam dimensões transcendentais é uma personalidade ética.
das descobertas axiais do pensamento O sujeito ético, na trama dialógica da
contemporâneo. A unidade além de si interpelação e da resposta, encontra um
mesmo, a significação intersubjetiva, a mundo de validades éticas e é impelido a
fundação não natural, apontam para a agir em consonância com essas validades
dimensão transcendental dessa constitui- específicas. É a atitude e o comporta-
ção. mento face às validades que agregam
Viemos dos outros e geramos outros valor ético à ação: a ação pode ser boa
fisiologicamente, culturalmente, social- ou má. É na medida em que respondo
mente, espiritualmente... O caminho da por essas validades que me torno sujeito
autonomia é, paradoxalmente, outro- responsável eticamente. As validades
dependente. O ser humano não nasce éticas são reconhecidas no outro, na
“naturalmente”, por assim dizer. O ser natureza, na sociedade, no trabalho, nas
humano acontece na dimensão intersub- instituições, no cotidiano, em situações
jetiva da vida humana e na dialética da limites etc. O sujeito ético age, de modo
interpelação e reposta, como caminho geral, em relação às possibilidades que
para atingir a autonomia ética. tem de sustentar e encarnar valores que
são reconhecidos e hierarquizados. Os
valores mais fundamentais são reconhe-
5 cidos de modo a priori e com fundamento
Cf. especialmente O si mesmo como um outro e
Tempo e narrativa.

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transcendental. Assim acontece, por com a filosofia grega. Nossa identidade
exemplo, com o amor, a justiça e a pes- cultural já é – ainda que parcialmente e
soa enquanto reconhecidos como valida- independentemente de nossa vontade –
des transcendentais. Esses valores são meio grega, meio judaica. Em obras re-
descobertos ou encobertos, afirmados ou centes, muitos investigadores do campo
negados, realizados ou falhados. Como de humanidades chamam a atenção para
tais, não são meros produtos de algo ou a importância das estruturas narrativas
de alguém. Valores são, pois, referências na constituição e na memória do sujeito.
transcendentais necessárias à constitui- Todos os estudiosos da Bíblia reconhe-
ção do sujeito ético. cem a importância da memória na forma-
O sujeito ético avalia a partir de um ção do povo de Deus. Devemos salientar
mundo com universalidade abrangente e que a narratividade sedimenta aspectos
a partir de muitos mundos particulares do si mesmo, e com a essência do si
possíveis. Essa dialética entre um mundo mesmo em sua universalidade, que vão
e muitos mundos em correlação é um dos além de um si mesmo individual. Quando
avanços fundamentais proporcionados falamos, é a pessoa como um todo que
por Husserl em sua análise do mundo da fala, e fala ao mesmo tempo de um ego
vida (Lebenswelt). A ética pode ser vista, localizado, mas cuja constituição de iden-
ao mesmo tempo, como a correlação tidade alcança a essência de si mesmo
entre a unidade de um mundo e a plura- em suas raízes transcendentais. Unidade,
lidade dos muitos mundos culturais e articularidade, universalidade são afeitos
pessoais possíveis. da compatibilidade do sujeito.
A narrativa bíblica é uma meta-
3. Como se constitui narrativa no sentido de que forma o solo
o sujeito ético cristão? de constituição de muitos egos através
do tempo e da história. Seu alcance vai
O sujeito ético cristão também deve além da vontade e autonomia de indiví-
ser visto como envolvido numa trama de duo.
interpelação e resposta, mas que na sua A narrativa bíblica, por outro lado,
especificidade possui fundamento na possui uma interpelação que contrasta
narrativa bíblica. Para Buber, a Bíblia é dois aspectos da responsabilidade huma-
um grande diálogo. É nessa dialética de na:
interpelação e de resposta que muitos Sua grandeza e potencialidade,
estudiosos da Bíblia, como Von Rad, enquanto se revela como ima-
Zimmerli, Westermann, entre outros, gem de Deus nessa responsivi-
encontram a chave de interpretação da dade;
meta-narrativa bíblica. É também nesse Sua baixeza e deterioração, en-
horizonte que podemos ver no Novo Tes- quanto responsividade capaz de
tamento a interpelação-chave em Jesus negar a Deus, negar a realidade
Cristo. dos valores originários e criar re-
A narrativa bíblica é um dos textos lações identitárias de pecado
fundamentais da cultura ocidental junto

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(como, por exemplo, de domina- tos, previstos e imprevistos, altamente
ção, de idolatria etc.). destrutivos e alienantes para a condição
Em termos de narratividade bíblica, humana. A força dessa Máquina Global é
Deus é o Juiz e Senhor absoluto dos valo- potenciada pela sua própria malignidade
6
res originários. Na ética bíblica e teológi- capaz de fazer o bem parecer mal e o
ca nos perguntamos se ainda é possível mal parecer bem.
falar de ética em um mundo estrutural- Podemos representar Máquina Global
mente marcado pelo pecado. assim:
As relações identitárias de pecado
formam uma rede de articulações que
pode ser reconhecida na cultura, na vida
cotidiana, no mundo político, no mundo
econômico, no mundo religioso. A cultura
como um todo, a vida, a política, a eco-
nomia, a religião não são em si mesmas
idólatras e opressoras. Mas, são contribu-
ições sociais que podem servir de terreno
para relações de dissipação da vida hu-
mana em oposição aos valores funda- A Máquina Global encarna um índice
mentais. No meio dessas relações pode- de malignidade, mas não é em si mesma
mos, pouco a pouco ou por uma intuição, a maldade. O importante é percebermos
discernir a figura de um modelo social que a maldade e o pecado pessoal não se
moderno na figura de uma Máquina Glo- constituem num vazio. Antes, trata-se de
bal. A Máquina Global por si mesma não um processo em que o pecado constitui
é aqui identificada com seus aspectos de uma forma dinâmica de relações entre
dissipação e de destruição. Mas, ela con- pessoas e entre as relações institucionali-
cretiza e realiza, em muitos momentos e zadas. Os efeitos benéficos e maléficos
nas suas ações estruturais, uma rede da Máquina Global possuem a sua ex-
identitária de maldade. Temos um exem- pressão mais viva no mercado, sua for-
plo claro de dissipação nos grandes dile- mação que desemboca nas estruturas da
mas que essa máquina provoca, como a vida cotidiana. Nas estruturas da vida
destruição de eco-sistemas, esgotamento cotidiana (que os fenomenólogos cha-
de possibilidades naturais, disseminação mam de o mundo-da-vida ou o Lebens-
de formas de injustiça, de violência etc. A welt) encontramos a arena de confronto
máquina é alimentada pelos atos e inten- do evangelho com as forças do anti-
ções humanas; mas, ela adquire uma evangelho, da vida com as forças da anti-
certa autonomia e passa a produzir efei- vida, das ações e atitudes éticas para o
bem e as ações e atitudes para o mal. A
experiência cristã – em sentido muito
mais amplo e mais profundo do que o de
6
Profundamente descritos por Tillich no livro que leva algumas experiências religiosas puramen-
o título Amor, Poder, Justiça, recentemente traduzi-
do para o português e publicado no Brasil. te pessoais – caracteriza a formação

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cristã que entra na arena do cotidiano e de dissipação da vida humana. Em ter-
de suas estruturas. Nessa arena do coti- mos de fé podemos dizer que habitamos
diano se dá a tensão fundamental entre o uma estrutura mundana idolátrica.
modo de viver cristão e as estruturas Por isso mesmo, a ética cristã exige
concretas da vida. Entender essa tensão um outro tipo de formação de autonomia
é essencial para entendermos a constitui- e responsabilidade. Paradoxalmente po-
ção do sujeito ético cristão. O sujeito demos retomar a expressão tillichiana da
ético cristão vive a tensão entre tudo autonomia teônoma. A conquista da au-
aquilo que o ajuda a constituir-se como tonomia num mundo de pecado só pode
cristão, as forças de interação entre Deus ser ética se houver recurso a uma dimen-
e nós e entre nós mesmos, em relação são divina transcendental da graça e do
com as forças mais impor-
tantes que estruturam nossa
vida cotidiana. Temos que
considerar ainda outras influ-
ências importantes que se
fazem sentir na vida e que,
de certo modo, entrecortam
essas duas polaridades fun-
damentais, a do viver cristão
e a forca estruturante da
Máquina Global. Entre essas
outras forças temos que
considerar as outras religiões
e muitos outros componentes
culturais (ver gráfico).
A constituição do sujeito
em geral, ou a constituição amor ágape. A ética e o sujeito cristãos
do sujeito ético, ou, ainda mais especifi- só se formam no ambiente da gratuidade
camente, a constituição do sujeito ético divina. Este ambiente tem a Cristo no
cristão é dada com a constituição do centro, como fundação, e o próximo co-
mundo que nos unem a todos e dos dife- mo referência.
rentes mundos nos quais nós vivemos. O sujeito ético cristão conforma a ex-
Essa constituição do mundo que nos une periência cristã não apenas como indiví-
a todos e a constituição dos diferentes duo. Essa experiência encontra sua ex-
mundos acontece na seqüência de even- pressão mais plena e mais significativa
tos em que o sujeito é responsivo e deve eticamente como sujeito ético eclesial.
ser progressivamente responsável Em outras palavras, a experiência cristã
A ética cristã não pode ignorar que no deve ser assumida como experiência com
centro da estruturação da vida cotidiana o outro e, em sua melhor expressão,
opera uma estrutura de pecado, uma como experiência de uma eclesialidade
estrutura de dominação, uma estrutura

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de pessoas vocacionadas a respostas ponsabilidade dos sujeitos éticos indivi-
concretas diante do próximo. O ser res- duais e sociais, ambos socialmente cons-
pondente se transmuta em comunidade tituídos, ainda que o endivíduo possa ser
respondente a Deus e ao mundo, como diferenciado e, portanto, com um sentido
resposta à vocação comunitária e social de autonomia mais definida.
do corpo de Cristo. Essa comunidade
responde à ação de Deus no mundo e ao Referências
próximo, com quem Jesus Cristo se iden- Bibliográficas
tificou. Devemos ser, enquanto somos
comunidade cristã, comunidade respon- AGOSTINHO. Confissões. Trad. de Maria
dente ao Deus Criador, ao Deus Juiz e Luiza Jardim Amarante. São Paul,
SP: Paulinas, 1984.
Governador, e ao Deus Redentor.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo, SP:
Editora Moraes, 1982.
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Narcea, 1983.
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da ação subjetivamente responsável é Edição online: <
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ct/Mead/pubs2/mindself/Mead_1
recimento. De qualquer modo, fica claro 934_toc.html >.
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mesma, sem a participação de outros Responsible Self: An essay in
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Luisville, Kentucky: Westminster
dizer que é um mito. Na maioria dos casos
John Knox Press, 1999 (Original:
podemos falar de co-responsabilidade e Joanna Cotler Books – 1963).
não apenas de responsabilidade individual. NIEBUHR, Reinhold. The Self and the
A grande tarefa da ética não se reduz às Dramas of history. New York:
University Press of America, 1988
condições de responsabilidade individual,
[Charles Scribner’s Sons 1955].
mas à criação de uma sociedade respon-
RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um
sável. Em termos de ética cristã devemos outro. Trad. De Lucy Moreira
pensá-la como ética eclesiológica e da César. Campinas: Papirus, 1991.
responsabilidade da Igreja como corpo e _____ . Tempo e Narrativa. Campinas:
como comunidades espalhadas pelo Papirus, 1994.

mundo. Dessas evidências devemos tirar ROGERS, Isabel Wood. In Response to


God. How Christians Make Ethical
as conseqüências para uma ética da res-

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