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Interaccionismo Simbólico e Comunicação

LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E INTERACÇÃO SIMBÓLICA

O interaccionismo simbólico, formulação teórica oriunda principalmente do campo da


sociologia, é a mais ampla perspectiva sobre o papel da comunicação na sociedade,
fornecendo um excelente ponto de partida para muitas outras teorias da interacção social. De
facto, os proponentes do interaccionismo simbólico sustentam que muitas das teorias da
comunicação, linguagem e socialização estão realmente incluídas nesse quadro de referência
mais amplo. Na realidade, o interaccionismo simbólico não é uma teoria mas antes uma
problemática teórica que pode englobar numerosas teorias específicas. As teorias inter-
relacionam-se, sobrepõem-se e inserem-se em padrões teóricos e, frequentemente, é difícil
saber onde termina uma teoria e começa outra. No entanto, todas essas teorias aceitam o
princípio fundamental do interaccionismo simbólico, a saber: A comunicação é primordialmente
um processo de interacção simbólica.

PREMISSAS COMUNS. O interaccionismo simbólico baseia-se num núcleo de premissas


comuns sobre comunicação e sociedade. Manis e Meltzer isolaram seis proposições teóricas
básicas do interaccionismo simbólico:

· A primeira premissa diz que a mente, o eu e a sociedade não são estruturas distintas mas
processos de interacção pessoal e interpessoal.
· Em segundo lugar, a interacção simbólica é um ponto de vista que enfatiza a linguagem como
o mecanismo primário que culmina na mente e no eu do indivíduo.
· Em terceiro lugar, a mente é concebida como a interiorização de processos sociais no
indivíduo.
· Em quarto lugar, os interaccionistas simbólicos defendem que os comportamentos são
construídos pela pessoa no decurso da sua acção. O comportamento não é puramente
reactivo, de um modo mecanicista.
· Em quinto lugar, o veículo primário para o comportamento humano é a definição da situação
dada pelo actor social.
· Finalmente, o eu é constituído, na perspectiva da maioria dos interaccionistas, por definições
tanto sociais como pessoais (de natureza única). Nesse sentido, a pessoa contém a sociedade
em si mesma, sem, no entanto, ser apenas um espelho dos outros significativos.

BREVE HISTÓRIA. Cronologicamente, Manford Kuhn dividiu o desenvolvimento do


interaccionismo simbólico em duas etapas principais:

· A primeira, a que deu o nome de tradição oral, foi o período inicial durante o qual se
elaboraram os fundamentos primários da interacção simbólica.
· Depois da publicação póstuma de Mind, Self and Society, da autoria de George Mead,
floresceu o segundo período, que pode ser designado como a idade da indagação.

Obviamente, o conceito de interacção simbólica não surgiu da noite para o dia na mente de
algum pensador solitário. Ele pode ter a sua origem remota na psicologia de William James. Os
principais interaccionistas na tradição primitiva foram Charles Cooley, John Dewey, I. A.
Thomas e George Herbert Mead. Antes da publicação final das ideias de Mead sobre
comunicação, a perspectiva interaccionista foi principalmente animada e sustentada através da
transmissão oral, especialmente nas aulas de Mead. Embora Mead não tivesse publicado as
suas ideias em vida, ele é considerado o grande instigador do interaccionismo simbólico.

TRADIÇÃO ORAL. Foi durante esse primeiro período meadino que se desenvolveram as mais
importantes ideias e conceitos da teoria. Mead e outros interaccionistas separaram-se das
perspectivas sociológicas primitivas que distinguiam conceptualmente entre a pessoa e a
sociedade: Mead via os seres humanos e a sociedade como inseparáveis e interdependentes.
O interaccionismo desse primeiro período destacava a importância do desenvolvimento social,
bem como dos factores biológicos inatos. Além disso, os primeiros interaccionistas simbólicos
estavam menos interessados no modo como as pessoas comunicavam entre si do que no
impacto dessa comunicação sobre a sociedade e os indivíduos. Sobretudo, os primeiros
interaccionistas enfatizaram o papel do símbolo e do significado compartilhado como factor
aglutinante na sociedade. Finalmente, eles preocupavam-se sobremodo com a necessidade de
estudar a relação dos seres humanos com a situação social. Sustentavam que o
comportamento da pessoa não podia ser estudado independentemente do contexto em que o
comportamento ocorria e da percepção que ela tinha do seu meio ambiente. Um resultado
dessa preocupação foi o facto de favorecerem vigorosamente as histórias de casos como
método de pesquisa.

IDADE DA INDAGAÇÃO. Nos anos que se seguiram à publicação de Mind, Self and Society,
durante a idade da indagação, duas escolas divergentes começaram a desenvolver-se no
âmbito do interaccionismo simbólico. As formulações originais de Mead não eram inteiramente
coerentes e deram margem, definitivamente, a interpretações e a extensões divergentes.
Surgiram assim as escolas de Chicago e de Iowa.
A Escola de Chicago, liderada por Herbert Blumer, deu continuidade à tradição humanista
iniciada por Mead. Blumer acredita, sobretudo, que o estudo dos seres humanos não pode ser
conduzido da mesma forma que o estudo das coisas. As metas do pesquisador devem ser
estas: empatizar com o sujeito, penetrar no seu domínio de experiência e tentar entender o
valor ímpar da pessoa. Blumer e os seus seguidores detestavam as abordagens quantitativa e
científica no estudo do comportamento humano. Em vez disso, destacavam as biografias,
autobiografias, estudos de casos individuais, diários, cartas e entrevistas não-dirigidas. Blumer
realçou particularmente a importância da observação participante no estudo da comunicação.
Além disso, na tradição de Chicago, o homem é visto como um ser criativo, inovador e livre
para definir cada situação de um modo único e imprevisível. O eu e a sociedade são
considerados um processo, não uma estrutura. Imobilizar o processo seria perder a essência
das relações homem-sociedade.
A Escola de Iowa adoptou uma abordagem mais científica do estudo da interacção. Manford
Kuhn, o principal progenitor da tradição de Iowa, acreditava que os conceitos interaccionistas
podem ser operacionalizados. Embora admitisse a natureza de processo do comportamento,
Kuhn defendeu que a abordagem estrutural objectiva é mais fecunda para a investigação do
que os métodos “soft” usados por Blumer. Kuhn foi responsável por uma das principais
técnicas de mensuração usadas na pesquisa da interacção simbólica.
Largamente como resultado dessa divisão básica na tentativa de resolver algumas das
ambiguidades deixadas por Mead, numerosos temas desenvolveram-se nos últimos 30 anos.
Kuhn enumerou seis subáreas principais: teoria do papel social, teoria do grupo de referência,
percepção social e percepção pessoal, teoria do eu, teoria interpessoal e linguagem e cultura.
Resta ver se todos esses teóricos prestam obediência ao interaccionismo simbólico, mas é
provável que todas essas áreas tenham sido imensamente influenciadas pelos escritos dos
principais interaccionistas simbólicos.

OS FUNDAMENTOS: GEORGE HERBERT MEAD. Embora seja um equívoco atribuir todas as


ideias básicas subentendidas no interaccionismo simbólico a uma única pessoa, George
Herbert Mead foi, indubitavelmente, o gerador primordial do movimento. Nesse sentido, Mead
pode ser muito bem chamado o “pai” do interaccionismo simbólico. Como quase todos os
teóricos, Mead foi um produto do seu tempo. No período pós-darwiniano, nos começos do
século XX, Mead acompanhou outros no tipo de pensamento necessário nesse ponto da
história das ideias. Mead era simultaneamente pragmático, psicólogo social e behaviorista.
Entretanto, em aspectos fundamentais, afastou-se dos seus predecessores e contribuiu para
muitas ideias deles.
Depois da teoria da evolução biológica de Darwin, filósofos em diversas disciplinas afins
voltaram o seu pensamento para a perspectiva evolucionista. Passou a ser tarefa do
pragmático conjugar ideias da biologia, psicologia e sociologia, a fim de estudar a pessoa como
um ser evolucionário. Mead era, desde longa data, um colaborador de John Dewey, um dos
principais pragmáticos norte-americanos. Depois de se conhecerem na Universidade de
Michigan, Dewey e Mead tornaram-se, social e profissionalmente, grandes amigos.
Leccionaram juntos na Universidade de Michigan e depois na de Chicago. Como todos os
pragmáticos, Mead não se deixava iludir pela conduta humana. Tentou explicar o indivíduo e a
sociedade em termos significativos e, em última instância, observáveis.

PSICÓLOGO SOCIAL. Profissionalmente, Mead considerava-se um psicólogo social. Não era


primordialmente um pesquisador, pois não considerava tarefa sua colectar novos dados.
Preferiu trabalhar com as provas facilmente acessíveis à sua volta para formular explicações
da conduta em questões humanas. As suas obras estão repletas de ilustrações comuns, não
para provar mas para demonstrar. As concepções de Mead eram compatíveis com as de
outros interaccionistas do seu tempo, mas criticou-os por não desenvolverem os conceitos de
mente e eu como produto da interacção social. Como psicólogo social, Mead não evitou os
factores biológicos na sua teoria; de facto, ele considerou o potencial biológico herdado de uma
pessoa um antecedente para o processo inteiro de socialização que culmina no eu e na mente.

BEHAVIORISTA. Mead também era um behaviorista. Mas, ao usarmos este termo, devemos
ser cuidadosos na especificação do sentido em que Mead aceitava o behaviorismo social. Tal
como os behavioristas psicológicos do seu tempo, nomeadamente Watson, Mead respeitava a
importância de se investigar a real conduta humana. Entretanto, Mead estava disposto a
ultrapassar os níveis infrahumanos que preocupavam os behavioristas watsonianos. Para
Mead, o organismo entre estímulo e resposta, a pequena caixa negra, não era inatingível. Por
conseguinte, a psicologia de Mead era distintamente humana, e ele usou o acto social como
unidade básica de análise. Esse acto social, como veremos, inclui uma área manifesta ou
pública, e um domínio encoberto ou privado.
Mead rompeu com o behaviorismo mais rígido e limitado ao proclamar que o comportamento
humano é qualitativamente diferente do comportamento sub-humano. Ao contrário do que
acontece com o rato num labirinto, a conduta humana deve ser basicamente explicada em
termos sociais. Outra manifestação do behaviorismo de Mead foi a sua convicção de que o
mundo físico estudado pela ciência é sempre mediado pela experiência humana. Os objectos
só se tornam objectos por causa da percepção e experiência deles por uma pessoa.

As obras de Mead foram compiladas e editadas após a sua morte em 1931. Em consequência,
os livros de Mead parecem episódicos, em certos trechos, e nem sempre bem organizados. De
facto, o seu mais conhecido livro, Mind, Self and Society, foi compilado a partir de
apontamentos feitos pelos seus alunos. The Philosophy of the Present, publicado em 1932, é
um conjunto de lições sobre filosofia da história. Mind, Self and Society, a “bíblia” do
interaccionismo simbólico, foi editado em 1934. Movements of Thought in the 19th century,
conferências sobre a história das ideias, veio a lume em 1936. E, em 1938, publicou-se
Philosophy of the Act.

TEORIA DE MEAD. Os três conceitos cardeais na teoria de Mead, expressos no título da sua
obra mais célebre, são sociedade, eu e mente. Entretanto, mostraremos que essas categorias
não são distintas. Pelo contrário, são ênfases diferentes sobre o mesmo processo geral: o acto
social. Básica no pensamento de Mead é a noção de que o homem é um actor e não um
reactor. O acto social é um conceito abrangente sob o qual podem abrigar-se quase todos os
outros processos psicológicos e sociais. O acto é uma unidade completa de conduta, uma
Gestalt, a qual não pode ser analisada em subpartes específicas. Um acto humano pode ser
breve, como amarrar um sapato, ou pode ser a realização de um plano de vida. Os actos inter-
relacionam-se e estruturam-se uns sobre os outros, em forma hierárquica, ao longo da vida da
pessoa.
Os actos começam com um impulso; envolvem percepção e, atribuição de significado,
repetição mental e ponderação de alternativas na cabeça da pessoa, e consumação final. Em
sua mais básica forma, um acto social é uma relação triádica que consiste num gesto inicial de
um indivíduo, uma resposta a esse gesto por outro indivíduo (encoberta ou abertamente), e
uma resultante do acto, a qual é percebida ou imaginada por ambas as partes na interacção.
Num assalto à mão armada, por exemplo, o assaltante indica à vítima o que pretende fazer. A
vítima responde entregando dinheiro e, no gesto inicial e na resposta, ocorreu a resultante
definida (um assalto).

SOCIEDADE. Com essa noção básica em mente, examinemos mais de perto a primeira faceta
da análise meadiana: a sociedade. Basicamente, a sociedade ou vida em grupo é um
aglomerado de comportamentos cooperativos exibidos por parte dos seus membros. Os
animais inferiores também têm sociedades, mas estas diferem da sociedade humana em
certos aspectos fundamentais. Sociedades animais como as da abelha baseiam-se na
necessidade biológica. Elas são fisiologicamente determinadas. Logo, uma sociedade animal
comporta-se o tempo todo de maneira previsível, estável e inalterada. O que é que distingue,
pois, o comportamento cooperativo humano?
Existem duas importantes funções na cooperação humana.
 Em primeiro lugar, uma pessoa deve chegar a entender as intenções do outro
comunicador.
 Ela deve perceber as acções do outro, mas, num sentido mais importante, deve
imaginar o que o outro pretende fazer no futuro. Uma vez que «reflectir mentalmente» ou
pensar é um processo de imaginar que acções serão empreendidas pela pessoa no futuro
próximo ou distante, parte do processo de «sondar» o outro consiste em tentar avaliar como o
outro planeia responder a seguir. Assim, a cooperação consiste em «ler» as acções e
intenções da outra pessoa e em responder de um modo apropriado. Isso é a essência da
comunicação interpessoal, e essa noção de resposta mútua com o uso da linguagem faz do
interaccionismo simbólico uma teoria vital da comunicação.

Ora, os animais podem comunicar-se mediante processos elementares; mas é esse


comportamento único do uso de símbolos que distingue a comunicação do homem em
sociedade. Diz-se que as espécies sub-humanas realizam uma conversação de gestos. Mas
esses gestos são apenas sinais, pois evocam respostas instintivas programadas e previsíveis.
Por exemplo, uma galinha pode cacarejar e os seus pintos correrão para ela. Ou um cão
rosnará e arreganhará o focinho quando deparar com outro cão hostil. Mas não existe um
significado interno nesses actos para os animais em questão. Os animais não atribuem um
significado consciente aos gestos; eles não «reflectem» sobre as suas respostas. Esse tipo de
comunicação de sinais nas espécies infra-humanas realiza-se rapidamente, sem interrupção.
Por outro lado, os seres humanos fazem uso de símbolos na sua comunicação. As pessoas
levam a efeito conscientemente um processo de manipulação mental, demorando a resposta e
atribuindo significado aos gestos de outras. O símbolo é interpretado pelo receptor.
Vejamos um exemplo: Suponhamos, por um momento, que dois homens estão sentados lado a
lado em bancos de um bar. O primeiro homem, acidentalmente, apanha a bebida errada. O
outro homem enfurece-se; fecha o punho, leva o braço ligeiramente atrás e diz: — Eh, você...
—. O primeiro homem percebe o gesto. Em sua imaginação, calcula a intenção do outro: dar-
lhe um soco no nariz. Interpreta os símbolos, atribui-lhes um significado e planeia a sua própria
resposta. Num momento, responde: — Oh, não me agrida. Foi um acidente —. A sua
explicação ao outro, nesse momento, evita uma experiência sumamente embaraçosa e, diga-
se de passagem, dolorosa. É claro, isso é um exemplo muito simples de um acto social, mas
ilustra a natureza cooperativa, adaptativa e receptiva do comportamento consciente que
recorre ao uso de símbolos. Se os nossos dois personagens fossem cães e um tivesse violado
o território do outro, o desfecho teria sido muito mais previsível.
Há outro aspecto importante nessa ideia da sociedade como uma série de interacções
cooperativas, fundadas no uso de símbolos. Os símbolos usados devem possuir um significado
compartilhado pelos indivíduos na sociedade. Na terminologia meadiana, um gesto com
significado compartilhado é um símbolo significante. Em suma, a sociedade nasce nos
símbolos significantes do grupo. Em virtude da nossa capacidade para vocalizar símbolos
significantes, podemos literalmente ouvir-nos e, assim, responder a nós próprios como os
outros nos respondem. Podemos imaginar o que é ser o receptor das nossas próprias
mensagens, empatizando assim com o ouvinte e assumindo o papel de ouvinte, completando a
resposta do outro nas nossas próprias cabeças. Essa interacção entre responder a outros e
responder ao eu é uma concepção extremamente importante na teoria de Mead e fornece uma
excelente transição para o segundo membro da tríade: o eu.
EU. Afirmar que uma pessoa tem um eu sugere que o indivíduo pode actuar em relação a si
mesmo, tal como pode actuar em relação aos outros. Uma pessoa pode reagir favoravelmente
a si mesma, pode sentir-se orgulhosa, feliz, encorajada; ou ficar furiosa consigo mesma,
punitiva ou revoltada. O modo primário como um homem passa a ver-se tal como os outros o
vêem (isto é, possui um conceito de eu) é a adopção de um papel. Evidentemente, isso seria
impossível sem linguagem (símbolos significantes), visto que, através da linguagem, a criança
aprende as respostas, intenções e definições dos outros, incluindo as definições que eles lhe
atribuem.
Mead descreveu duas fases explícitas de desenvolvimento do eu e uma fase inicial implícita,
ou seja, três estágios através dos quais uma pessoa aprende a desempenhar papéis adultos:

 O primeiro estágio é o preparatório (1-3 anos). Nele, a criança pequena imita as


pessoas à sua volta, reproduzindo os gestos delas de um modo desprovido de significado.
Durante este estágio, a criança imita o comportamento adulto, sem entender realmente o que
está a fazer, como quando a menina abraça a boneca e depois usa-a como um bastão para
bater no irmão. O bebé pode apanhar um jornal ou calçar os sapatos do papá, ou espetar um
pedaço de carne com um pequeno garfo. Isso é uma fase puramente preliminar, em que a
criança não possui significados para os actos que imita.
 Mais tarde, porém, no estágio teatral ou de actuação (3-4 anos), a criança representa
literalmente o papel de outros significativos no seu meio ambiente. Ao representar mamã e
papá, ou o doutor, ou o bombeiro, uma criança no estágio teatral fingirá ser outra pessoa e
actuará em relação a um receptor que, na realidade, é ela própria. O estágio teatral desenrola-
se em sequência, na medida em que cada papel é adoptado separadamente, à semelhança de
um actor representando papéis prescritos. É marcado pela desorganização e pelo movimento
esporádico de um papel para outro. Não se mantém um ponto de vista unitário e, assim, a
criança não desenvolve uma concepção singular de si mesma. Embora tenham um certo
entendimento do comportamento, as crianças passam de um papel para outro erraticamente.
Num dado momento, o menino é um construtor, empilhando blocos, e, no momento seguinte, já
é um astronauta.
 Finalmente, vem o estágio de jogo ou da actuação de acordo com as regras do jogo (4-
5 ou mais anos), quando o comportamento de papel se torna coerente e deliberado, com uma
habilidade para perceber o papel dos demais jogadores. O indivíduo passa a responder
simultaneamente, de um modo generalizado, a muitos outros, mais precisamente ao outro
generalizado que é, no fundo, a própria sociedade. Mead forneceu a analogia do jogo de
beisebol, em que cada jogador deve possuir uma visão simultânea de todos os nove papéis e
adaptar-se (responder) em conformidade com eles, ou seja, precisa interiorizar o seu próprio
papel, bem como o dos demais jogadores. O que ocorre nesse estágio é que a pessoa deve
generalizar um papel compósito das definições dela por todos os outros. Assim, através da
brincadeira infantil, a pessoa desenvolve a habilidade para ver o seu próprio comportamento na
sua relação com os outros e sentir a reacção das pessoas envolvidas.

Uma das principais contribuições de Mead é, portanto, o conceito do outro generalizado. É


através desta consciência dos papéis, sentimentos e valores dos outros que toma forma nas
nossas mentes o outro generalizado. Este é aproximadamente equacionado com os padrões
ou valores da comunidade. O outro generalizado é o papel unificado em decorrência do qual o
indivíduo passa a ver-se a si mesmo. É a percepção do indivíduo do modo global como os
outros o vêem. O conceito de eu será finalmente organizado e unificado através da
internalização desse outro generalizado. Tomando repetidamente o papel de outro
generalizado, uma pessoa desenvolve o conceito do eu — da espécie de pessoa que é —, ao
mesmo tempo que aplica repetidamente os julgamentos deste outro generalizado às suas
próprias acções. A falha em desenvolver esta capacidade para adoptar o ponto de vista de
outrem — ou assumir o papel de outrem — parece fazer claudicar o desenvolvimento da
personalidade.
Vejamos um exemplo simples: Suponha o leitor que se vê a si mesmo como uma pessoa
industriosa e criativa. Esse outro generalizado é o seu conceito unificado de como os outros,
em geral, percebem o leitor. Tal conceito foi aprendido ao longo dos anos de interacção
simbólica com outras pessoas na sua vida.
O eu possui duas facetas, cada uma delas servindo uma função vital na vida do ser humano.
Mead designou-as por eu-mesmo e mim.

 O eu-mesmo ou si mesmo é a parte única, impulsiva, espontânea, desorganizada, não-


dirigida e imprevisível da pessoa.
 O mim é o outro generalizado, composto de padrões organizados e consistentes
compartilhados com outros.
 Todo acto principia com um impulso proveniente do eu-mesmo e que passa
rapidamente a ser controlado pelo mim. O eu-mesmo é a força impulsora em acção, enquanto
o mim fornece direcção e orientação. Mead usou o conceito de mim para explicar o
comportamento socialmente aceitável e adaptativo, e o eu-mesmo para explicar os impulsos
criativos e imprevisíveis dentro da pessoa.
MENTE. O eu, ou a capacidade de actuar em relação ao eu, cria uma situação que não é
encontrada nos animais inferiores. A capacidade de usar símbolos significativos para
respondermos a nós mesmos leva à possibilidade de experiências interiores e de pensamentos
que podem ou não ser consumados na conduta manifesta. É esta última ênfase que constitui a
terceira parte da teoria de Mead: a mente.
A mente pode ser definida como o processo de interacção da pessoa com o seu próprio eu.
Essa capacidade, que se desenvolve simultaneamente com o eu, é crucial para a vida humana,
pois é parte importante de todo e qualquer acto. Reflectir envolve hesitação (protelar a acção
aberta) enquanto a pessoa interpreta conscientemente, atribui significado aos estímulos. A
reflexão ocorre em torno de situações problemáticas em que o indivíduo deve ponderar o
futuro. A pessoa imagina vários resultados na sua cabeça, selecciona e examina possíveis
acções alternativas.
O motivo pelo qual a reflexão mental é tão importante para Mead é que ela fornece o
fundamento lógico para ver a pessoa como um actor e não como um reactor passivo. Os seres
humanos constróem literalmente o acto antes de o consumarem. O rato num labirinto passa
por um longo e demorado processo de ensaio-e-erro, mas, nos seres humanos, esse ensaio-e-
erro pode ocorrer de forma encoberta, na mente da pessoa, antes de ela começar sequer a
movimentar-se. Isso constitui, necessariamente, um processo de imaginação, reflexão e
pensamento.
Normalmente, no mundo animal, o organismo é bombardeado por estímulos provenientes do
meio ambiente, mas, na vida humana, o organismo faz objectos a partir dos estímulos. Como
as pessoas possuem símbolos significantes que lhes permitem dar nomes aos seus conceitos,
elas podem transformar meros estímulos em objectos reais. Os objectos não existem
independentemente das pessoas. O objecto é sempre definido pelo indivíduo em termos das
espécies de actos que uma pessoa pode executar em relação ao objeto. Um lápis é um lápis
se posso escrever com ele. Uma paisagem marinha é uma paisagem marinha quando dou
valor ao acto de contemplá-la. Uma garrafa de uísque é uma bebida quando formulo a ideia de
a beber (ou não beber, conforme o caso). Os objectos tornam-se os objectos que são através
do processo de reflexão simbólica do indivíduo e, quando o indivíduo imagina acções novas ou
diferentes em relação a um objecto, este é transformado para ele.
Em suma, Mead viu a pessoa como um organismo biologicamente avançado, com um cérebro
capaz de pensamento racional. Através do uso de gestos significativos e da adopção de
papéis, a pessoa torna-se um objecto para si mesma, isto é, ela vê-se como os outros a vêem.
A pessoa internaliza essa visão geral do eu e comporta-se coerentemente com tal visão.
Através do processo de reflexão mental, a pessoa planeia e repete mentalmente o
comportamento simbólico, preparando-se para a subsequente interacção com os outros.

HERBERT BLUMER E A ESCOLA DE CHICAGO. Herbert Blumer foi, sem dúvida, o mais
destacado apóstolo de Mead. De facto, o próprio Mead nunca usou a expressão
interaccionismo simbólico. Foi Blumer quem criou o termo em 1937. Blumer referiu-se a esse
rótulo «como um neologismo algo bárbaro que cunhei de um modo improvisado. [...] Seja como
for, o termo agradou e tornou-se popular». Embora Blumer tivesse publicado artigos dispersos
ao longo da sua carreira, somente após a sua publicação em 1969 de Symbolic Interactionism:
perspective and method é que se tornou acessível uma visão unificada do seu pensamento. No
primeiro capítulo desse livro, Blumer afirmou claramente a sua dívida para com Mead e a sua
dedicação à ampliação e aperfeiçoamento da perspectiva interaccionista. As formulações de
Blumer foram inteiramente coerentes com as do seu mentor, mas ele não se limitou a repetir
meramente Mead: «Fui compelido a devolver a minha própria versão, tratando explicitamente
de muitas questões cruciais que estavam somente implícitas no pensamento de Mead e outros,
e cobrindo tópicos críticos pelos quais eles não estavam interessados».
Blumer iniciou o seu pensamento sobre interacção simbólica com três importantes premissas:

(1) «Os seres humanos agem em relação às coisas na base dos significados que as coisas têm
para eles»;
(2) «[...] o significado de tais coisas deriva, ou decorre, da interacção social que um indivíduo
tem com os seus semelhantes»;
(3) «[...] esses significados são manipulados e modificados através de um processo
interpretativo usado pela pessoa no trato com as coisas com que se defronta».

Como veremos, Blumer criticava em numerosos aspectos a principal corrente da ciência social
e um desses aspectos era o tratamento do significado. Blumer mostrou como a maioria das
teorias da ciência do comportamento depreciava a importância do conceito de significado.
Muitas teorias ignoram completamente o significado e outras colocam-no na categoria
subordinada geral de factores antecedentes. Mas, no interaccionismo simbólico, o significado
assume um papel central no próprio processo social.
Segundo Blumer, o significado pode ser encarado de três pontos de vista.

 O primeiro é ver o significado como inerente ao objecto. Esta perspectiva provém do


realismo, uma abordagem mais sobre a natureza do que sobre a sociedade.
 A segunda teoria de significado atribui-o ao «acrescentamento psíquico». Sob este
paradigma, o significado surge como resultado de certas orientações psicológicas internas da
pessoa.
 Mas a terceira perspectiva, nitidamente interaccionista, identifica o significado como
produto da vida social. Seja qual for o significado que uma pessoa tem para uma coisa é
sempre o resultado dos modos como outras pessoas agiram em relação a ela, a respeito da
coisa que está sendo definida. Uma pessoa não pode ter significado para alguma coisa
independentemente da interacção com outros seres humanos.

O que distingue a concepção interaccionista do significado é a sua ênfase sobre a


interpretação consciente. Um objecto passa a ter significado para a pessoa no momento em
que o indivíduo considera conscientemente, reflecte e pensa sobre o objecto, ou o interpreta.
Esse processo de tratamento de significados converte-se numa conversação interna — ou
discurso interior — dentro da pessoa: «O actor selecciona, confere, suspende, reagrupa e
transforma os significados à luz da situação em que está colocado e da direcção que imprimiu
à sua acção». Esse processo interno, recorde-se, é idêntico ao conceito de Mead de reflexão
mental (mind).
Blumer sublinhou a importância dessa noção de significado para toda a perspectiva de
interacção simbólica. Essas três premissas sobre significado são o esqueleto para o
pensamento de Blumer e a carne é fornecido pelo que ele chamou as suas «imagens radicais»
(root images). Essas imagens cobrem os tópicos da vida em grupo, interacção social, natureza
dos objectos, pessoas como actores, natureza da acção humana e interligações das acções
individuais na sociedade. Examinemos, um por um, cada um desses tópicos.

SOCIEDADE E INTERACÇÃO SOCIAL. Blumer reiterou o ponto de vista de Mead de que a


sociedade nasce das interacções individuais. Nenhuma acção humana existe separada da
interacção. Quase tudo o que uma pessoa é e faz é formado no processo de interactuar
simbolicamente com outras pessoas. A interacção consiste num mútuo levarem-em-conta e
responder, e a sociedade resulta de cada pessoa coordenar a sua própria conduta como a dos
outros. Mas a vida em grupo e a conduta individual modelam-se através do processo em curso
de interacção simbólica.

OBJECTOS. O mundo da pessoa consiste em objectos. Blumer tratou os objectos de um modo


essencialmente idêntico ao de Mead. Para Blumer, os objectos eram de três tipos: físicos
(coisas), sociais (pessoas) e abstractos (ideias). Os objectos adquirem significado através da
interacção simbólica. Os objectos podem ter significados diferentes para pessoas diferentes,
dependendo da natureza das acções dos outros em relação à pessoa, no que tange ao objecto
definido. Um agente policial em Watts (bairro negro de Los Angeles) pode significar algo muito
diferente para os cidadãos dessa área do que um agente policial significa para os cidadãos de
Beverly Hills, por causa das diferentes espécies de interacções entre os residentes dessas
duas áreas geográficas imensamente diferentes.

PESSOA E ACÇÃO HUMANA. O tratamento da acção por Blumer foi essencialmente o


mesmo de Mead. Blumer viu o homem como actor, não reactor. O homem é capaz de actuar
porque possui um eu, e, reiterando a concepção meadiana, o homem tem capacidade para
actuar em relação a si mesmo como um objecto. Ao assumir imaginativamente os papéis de
outros à sua volta, uma pessoa vê-se como os outros a vêem. Essa capacidade para actuar
implica que o indivíduo pode lidar com situações problemáticas: «Em vez de ser meramente
um organismo que responde ao jogo de factores sobre ou através dele, o ser humano é visto
como um organismo que tem de lidar com aquilo que observa».
Ora, essa relação entre acção e eu é a característica distintiva da vida humana. A pessoa
defronta-se com uma situação após outra, fornecendo de cada vez indicações a si mesma
acerca das contingências na sua percepção consciente. Ela deve avaliar e interpretar a
situação, e planejar uma resposta apropriada. Como disse Blumer: «A pessoa poderá realizar
um trabalho deplorável na construção da sua acção, mas tem de construí-la». O que é visto
como acção social ou de grupo é meramente o processo ampliado de muitos indivíduos de
ajustamento das suas acções mútuas.

ACÇÃO SOCIAL. Uma das áreas primárias em que Blumer ampliou o pensamento de Mead foi
a acção de grupo ou social. Blumer reconheceu a importância da «acção grupal» e adoptou
medidas concretas para a definir. Uma acção conjunta de um grupo de pessoas consiste na
interligação das suas respectivas acções separadas. Mas a acção grupal é distinta. Não é a
mera soma das acções individuais que a constitui. Instituições tais como o casamento, o
comércio, a guerra e o culto religioso são acções conjuntas. Entretanto, Blumer deu importante
destaque ao perigo potencial no estudo da actividade grupal. Embora a acção de grupo seja
uma Gestalt em si mesma, ela baseia-se, entretanto, em actos individuais e é erróneo
considerar a conduta grupal independentemente das acções individuais dos participantes: «Os
participantes ainda têm de guiar os seus respectivos actos, mediante a formação e uso de
significados».

Blumer formulou três observações básicas acerca das interligações ou interacções.

 Em primeiro lugar, assinalou que a maior porção da acção de grupo numa sociedade
avançada consiste em padrões altamente estáveis e recorrentes. Essas instituições numa
sociedade possuem significados comuns e preestabelecidos. Em virtude da alta frequência de
tais padrões, a tendência dos estudiosos é para tratá-los como estruturas ou entidades.
Contudo, Blumer advertiu-nos que não esquecêssemos que as novas situações decorrem
sempre de problemas presentes que requerem ajustamento e redefinição. Mesmo no caso de
padrões grupais altamente repetitivos, nada é permanente. Cada caso deve começar de novo
com a acção individual. Por mais sólida que uma acção grupal pareça ser, ela permanece
ainda enraizada no eu de cada ser humano: «É o processo social na vida grupal que cria e
sustenta as regras; não são as regras que criam e sustentam a vida grupal».
 A segunda observação feita por Blumer acerca de grupos é a natureza profunda e
ampla de algumas das interligações. As acções individuais podem ser ligadas através de
complicadas cadeias. Actores distantes podem, em última instância, ser interligados de
diversas maneiras, mas, ao invés do pensamento sociológico popular, «uma cadeia ou uma
instituição não funciona automaticamente por causa de alguma dinâmica interna ou requisitos
sistémicos; ela funciona porque as pessoas, em diferentes pontos, fazem algo e o que fazem é
um resultado de como elas definem a situação em que são chamadas a actuar».
 A terceira observação vincula as primeiras duas. Com a compreensão de que os
macrogrupos numa sociedade se baseiam na interacção simbólica individual, podemos
perceber agora que os antecedentes e a formação básica dos indivíduos são de suma
importância para definir a espécie de interacção que irá adquirir existência. O ponto principal,
repetidamente descrito por Blumer, é que os grupos e instituições na sociedade não são
organismos ou estruturas per se. Em primeiro lugar, e acima de tudo, são interligações de
interacções simbólicas humanas básicas.

METODOLOGIA. A segunda ampla área em que Blumer foi mais além de Mead é a
metodologia. Como a metodologia constitui a diferença primordial e notável entre as escolas de
Chicago e Iowa, é especialmente importante analisar as ideias de Blumer sobre método. É
impossível ler qualquer trecho mais extenso do livro de Blumer sem nos apercebermos de
como esse tópico era vital para ele. Embora Mead não enfatizasse o método, Blumer sustentou
que a própria natureza do interaccionismo simbólico está contida no seu método. Blumer tinha
algumas opiniões vigorosas sobre esse tópico, mas, depois de lermos alguns dos trabalhos de
Kuhn, percebemos que o ponto de vista metodológico, no âmbito do interaccionismo simbólico,
não é tão singular quanto Blumer nos induzia a crer.
O fundamento mais básico para a ciência do comportamento, segundo Blumer, deve ser o
mundo empírico: «Esse mundo empírico deve ser sempre o ponto central de interesse. É o
ponto de partida e o ponto de regresso no caso da ciência empírica». Entretanto, não podemos
subestimar o papel do observador na verificação empírica. Coerente com a perspectiva
interaccionista simbólica, a realidade só existe através da experiência humana. Nas palavras
de Blumer, «é impossível citar um único caso de caracterização do “mundo da realidade” que
não seja vazado na forma de imagens mentais humanas».
Nesse contexto, existem dois perigos potenciais para a pesquisa. O primeiro é a concepção de
que a realidade no mundo empírico é imutável e existe para ser «descoberta» pela ciência.
Outro perigo afim é a convicção de que a realidade é melhor consubstanciada em termos da
física. Ambas essas concepções já espalharam a devastação no campo da pesquisa da ciência
social: «Forçar todo o mundo empírico a ajustar-se a um esquema que foi criado para
determinado segmento desse mundo é dogmatismo filosófico e não representa a abordagem
da genuína ciência empírica».
A investigação, na sua forma ideal, deve envolver seis aspectos principais.

 Em primeiro lugar, o pesquisador deve possuir e fazer uso de algum quadro de


referência ou modelo do mundo empírico. A pesquisa não pode ser abordada em níveis
abstractos que não incluem um quadro prévio do mundo tal como realmente é.
 Em segundo lugar, o pesquisador precisa formular interrogações sobre o mundo, as
quais devem, em última instância, ser equacionadas como problemas.
 Em terceiro lugar, deve existir uma determinação da espécie de dados a procurar, e
uma avaliação dos métodos pelos quais os dados podem ser obtidos.
 Em quarto lugar, o pesquisador precisa determinar padrões de relações entre os dados
colectados.
 Em quinto lugar, é necessária a interpretação dos resultados obtidos e,
 finalmente, o investigador deve conceituar o que foi descoberto.

Foi nesse ponto que Blumer desfechou as suas críticas mordazes à corrente principal do
método da ciência social:

«A esmagadora maioria do que hoje passa por ser metodologia é composta de preocupações
tais como as seguintes: criar e usar sofisticadas técnicas de pesquisa, usualmente de um
carácter estatístico avançado; construir modelos lógicos e matemáticos, guiados com excessiva
frequência pelo critério de elegância; elaborar esquemas formais sobre como construir
conceitos e teorias; aplicar com valentia esquemas importados, como a análise de input-output,
a análise de sistemas e a análise estocástica; conformismo estudioso aos cânones do plano de
pesquisa; e promoção de um procedimento particular, como a pesquisa sistemática, como o
método do estudo científico. Espanta-me a suprema confiança com que essas preocupações
são proclamadas a substância da metodologia. Muitas dessas preocupações [...] são
grosseiramente inadequadas, na simples base de que lidam somente com um aspecto limitado
do acto pleno de investigação científica, ignorando questões tais como premissas, problemas,
conceitos, etc. Mais sério é o seu fracasso quase universal em enfrentar a tarefa de descrever
os princípios de como esquemas, problemas, dados, conexões, conceitos e interpretações
deverão ser construídos, à luz da natureza do mundo empírico sob estudo».

Através de todos esses métodos tradicionais, quatro procedimentos generalizados são


seguidos, de acordo com Blumer. Essas abordagens fracassam como métodos realistas para
validação empírica. São eles: «(a) a adesão a um protocolo científico, (b) a reprodução de
estudos de pesquisa, (c) a confiança na verificação de hipóteses, e (d) o emprego dos
chamados procedimentos operacionais».
Se os meios usuais de pesquisa são inadequados, o que foi que Blumer propôs como
alternativa? Sustentou ele que os pesquisadores devem desenvolver o conhecimento
participativo em primeira mão dos fenómenos investigados. O cientista poderá chamar “soft” à
observação participativa, mas, na realidade, é um processo rigoroso de descoberta da
verdadeira natureza do mundo. Esse tipo de método consiste em dois estágios:

O primeiro estágio é o que Blumer chamou exploração. A exploração é uma técnica de


sondagem minuciosa e altamente flexível em que o investigador usa qualquer método ético de
obtenção de informações. No estágio de exploração, o investigador deve avançar de técnica
para técnica, de maneira flexível e confortável, a fim de obter um quadro amplo e realista da
área sob investigação. As técnicas podem ir desde a observação directa à entrevista, desde
«escutar» conversações até à análise de biografias, desde a leitura de cartas e diários até à
consulta de registros públicos. Não existem directrizes formais a serem obedecidas, e
quaisquer procedimentos usados têm de se adaptar à situação.

O segundo estágio é mais focalizado. Depois de se determinar a natureza geral do fenómeno,


o pesquisador inicia a inspecção. A diferença primordial entre exploração e inspecção é
profundidade e foco. Segundo Blumer, a inspecção «é um exame concentrado e intensivo».
Esse exame deve ser feito no contexto da área que está a ser investigada.

ERVING GOFFMAN E A AUTO-APRESENTAÇÃO. É impossível apresentar em algumas


linhas tudo o que se ordene em sociologia sob o termo de «interaccionismo», de Blumer ao
grupo de Palo Alto, passando por Goffman... Não são os papéis, as normas e os valores que
comandam a acção social, mas as relações cara a cara nas quais os actores põem em prática
estratagemas e competências que fixam as suas identidades e realizam as de outrem. Ainda aí
as noções de sociedade e de indivíduo estão longe de serem fundamentais, porque aquilo a
que se chama as «realidades sociais» é tão-só o produto dessas interacções.
Sob reserva de se considerar a interacção como um nível microssociológico no qual se movem
os mecanismos centrais do sistema, o que não é, falando com rigor, um interaccionismo, o
objecto do interaccionismo é considerado como uma realidade independente e criadora que
não reclama a ideia de sistema social. É o que muito bem diz Goffman: «Eu não me ocupo da
estrutura da vida social, mas da estrutura da experiência individual da vida social.
Pessoalmente dou prioridade à sociedade e considero os empenhamentos de um indivíduo
como secundários: este trabalho não trata pois senão daquilo que é secundário». Maneira
elegante de dizer que o actor e o sistema estão separados e que o indivíduo não é definido
pela interiorização do social; na verdade, é o sistema que não tem «importância».
O actor de Goffman é definido pela interacção na qual está empenhado; todavia, ele não tem
em vista nem as normas nem os valores derradeiros da sociedade, mas simplesmente o
sucesso que lhe permite ser reconhecido por outrem. O sucesso assenta, não em critérios
objectivos globais, mas na capacidade de manter a interacção e de fazer com que seja nela
aceite com proveito seu. É, por outro lado, esta necessidade de manter a própria interacção
que reclama estratégias de evitação e de civilidade. O problema maior do actor é, pois, o da
«face», da encenação de si no seio de uma vida quotidiana que funciona ela própria como uma
encenação. Esta face não é a expressão do indivíduo clássico e do seu Ego, porque nada há
por detrás da face, e o leitor de Goffman move-se num mundo sem «motivações», sem
«interioridade». Prosseguindo nas metáforas de que Goffman gosta, digamos que não há
pessoa por detrás da personagem, nada para além do «exterior» dos encontros. As
interacções não resultam de acções já organizadas que se cruzam e se harmonizam, elas
desenrolam-se no seu tempo próprio e num espaço de apresentações de si que não tem outra
finalidade que não seja o reconhecimento de outrem. O indivíduo surge como um
«empreendimento de papéis» que tem por finalidade que ele seja credível para os outros. A
interiorização dos papéis só é efectiva na medida em que é necessária a credibilidade; de outro
modo, o actor representaria em falso. A acção não é a unidade primeira, porque ela só existe
na interacção que lhe fixa os limites e aquilo que está em jogo. «A natureza mais profunda das
relações entre as pessoas está à flor da pele, é a pele dos outros. [...] O Ego é o que podemos
dizer do indivíduo quando interpretamos o lugar que ele ocupa na organização de uma
actividade social, interpretação confirmada pelo seu comportamento expressivo».
Compreende-se facilmente por que razão a teoria de Goffman pode ser vista como cínica: «Eis
uma pintura da sociedade na qual existem cenas, mas não intrigas. Do mesmo modo que não
há nem intriga nem história nesta sociologia, tão-pouco há nela “caracteres” (no sentido teatral
do termo): as acções das personagens nada mudam na vida delas. Há somente uma série sem
fim de adaptações». Lapeyronnie sublinha, no entanto, que existe um segundo Goffman, o dos
Asiles, para o qual a instituição total destrói a individualidade. Quando a interacção estigmatiza,
ela não destrói somente o «exterior» do indivíduo, ela atinge aquilo a que há que, de facto,
chamar o seu «Ego». O poder mobilizado por uns e a resistência manifestada por outros
conduziriam então a «ressocializar» a imagem goffmaniana do actor. Mas é forçoso verificar
que não se trata de uma corrente central de uma obra sem indivíduo e sem sociedade, pelo
menos no sentido dado a estes conceitos pela sociologia clássica.
Um dos mais prolíficos sociólogos dos nossos dias é Erving Goffman. Como interaccionista
simbólico da tradição dramatúrgica, ele analisa o comportamento humano como uma metáfora
teatral. O contexto habitual de interacção é um palco. As pessoas são actores, estruturando os
seus desempenhos para impressionar a "plateia". Segundo Goffman, a comunicação
interpessoal é uma representação através da qual são projectados vários aspectos do eu. As
análises de Goffman nos seus vários livros são microanálises em seu âmbito e extremamente
detalhadas. Seria impossível apresentar aqui todos os seus conceitos. Optamos por examinar
as suas principais ideias e premissas.
As observações de Goffman de quase 20 anos estão disseminadas nos seus numerosos livros,
tornando a síntese muito difícil. Felizmente, o próprio Goffman forneceu um quadro de
referência teórico que descreve, em linhas gerais, a sua abordagem global do estudo do
comportamento humano. Depois de recapitularmos esse conjunto inicial de premissas,
retomaremos a algum material que está especificamente relacionado com a comunicação
interpessoal.
Goffman iniciou a sua argumentação com o pressuposto de que a pessoa, ao defrontar-se com
determinada situação, deve atribuir, de algum modo, um nexo ou organizar os eventos
percebidos. O que emerge como um acontecimento organizado para o indivíduo converte-se
na realidade do momento para essa pessoa. Isso é uma premissa fenomenológica, a qual
afirma que o que é real para uma pessoa resulta da definição da situação nessa pessoa. (Isso
constitui um desenvolvimento de um dos conceitos fundamentais do interaccionismo
simbólico.)
Uma reacção típica de uma pessoa a uma nova situação é a interrogação: “O que está a
acontecer aqui?” A definição da situação pela pessoa fornece uma resposta. Com frequência, a
primeira definição não é adequada e poderá fazer-se necessária uma segunda leitura, como no
caso de um trote, um equívoco ou uma interpretação errada. Esta última noção é importante
para Goffman porque ele observou sermos frequentemente ludibriados e enganarmo-nos uns
aos outros nas nossas relações.
Vários termos elucidam essa abordagem geral. Uma faixa (strip) é qualquer sequência
arbitrária de actividade. Uma estrutura (frame) é um elemento básico de organização usado na
definição de uma situação. A análise de estrutura (frame analysis) consiste, pois, no exame dos
processos pelos quais a experiência é organizada para o indivíduo. O que a estrutura (ou
quadro de referência) faz é permitir à pessoa identificar e entender o que, de outro modo, são
eventos desprovidos de sentido; confere significado às actividades correntes da vida. Uma
estrutura natural é um evento não-guiado da natureza, com o qual o indivíduo deve enfrentar-
se. Uma estrutura social, por outro lado, é vista como guiada e controlável por alguma
inteligência. Assim, os seres humanos possuem algum sentido de controle quando ingressam
na estrutura social. É claro, esses dois tipos de estruturas primárias inter-relacionam-se, uma
vez que os seres sociais agem sobre a ordem natural e são, por sua vez, influenciados por ela.
A importância das estruturas primárias para a cultura é demonstrada no seguinte excerto:

«Consideradas no seu conjunto, as estruturas primárias de determinado grupo social


constituem um elemento central da sua cultura, especialmente na medida em que emergem
entendimentos a respeito das classes principais de esquemas, as relações mútuas dessas
classes e a soma total de forças e agentes que esses propósitos interpretativos reconhecem
estar à solta no mundo».

Este ponto de vista de que uma cultura é definida, em parte, por suas definições de situações é
compatível não só com as ideias centrais do interaccionismo simbólico mas também com
muitas teorias de significado.
O quadro de referência primário é a unidade básica da vida social. Goffman assinalou
minuciosamente os vários modos como as estruturas primárias podem ser transformadas ou
alteradas para que diferentes fins sejam satisfeitos por princípios organizacionais semelhantes.
Um jogo, por exemplo, tem por modelo um combate, mas a sua finalidade é muito diferente.
Assim, uma grande parte dos nossos quadros de referência não são absolutamente primários,
embora tenham por modelo eventos primários. Os exemplos incluem os jogos, o teatro, os
ardis (bons e maus), as experiências e outras invenções. Com efeito, o que acontece na
comunicação interpessoal comum envolve com frequência essa espécie de actividade
secundária, incluindo representações teatrais, invenções e embustes.
E agora, tendo como base essa abordagem teórica geral, chegamos às ideias centrais de
Goffman sobre comunicação. As actividades de comunicação, como todas as actividades,
devem ser consideradas no contexto da análise de estrutura. Começaremos com o conceito de
interacção face-a-face (face engagement). Uma interacção face-a-face ou encontro ocorre
quando as pessoas se entregam a uma interacção focalizada. As pessoas numa interacção
face-a-face têm um único foco de atenção e uma só actividade mútua percebida. Na interacção
não-focalizada, as pessoas em locais públicos reconhecem a presença umas das outras sem
prestar atenção mútua. Nessa situação não-focalizada, o indivíduo é normalmente acessível ao
encontro com os outros. Uma vez iniciada a interacção, existe um contrato mútuo para
continuar a interacção até alguma espécie de término. Durante esse tempo, desenvolve-se e é
mutuamente sustentada uma relação. As interacções face-a-face são verbais e não-verbais, e
as pistas resultantes de um encontro são importantes tanto para significar a natureza da
relação como para a definição mútua da situação.
As pessoas em interacção face-a-face falam cada uma por seu turno, representando pequenas
cenas teatrais uma à outra. Contar histórias, que usualmente é a narração de eventos
passados, consiste principalmente numa questão de impressionar o ouvinte mediante uma
representação dramática. Conforme sugere Goffman:

«[...] frequentemente, o que os faladores se empenham em fazer não é dar informação a um


ouvinte mas representar pequenas peças de teatro para uma plateia. Na verdade, parece que
consumimos a maior parte do nosso tempo empenhados não em dar informações mas em
oferecer shows. E observe-se que essa teatralidade não se baseia em meras exibições de
sentimentos ou falsas demonstrações de espontaneidade ou qualquer outra coisa a que
pudéssemos chamar depreciativamente uma encenação teatral. O paralelo entre o palco e a
conversação é muito mais profundo do que isso. A questão é que, ordinariamente, quando um
indivíduo diz alguma coisa, não a diz como uma declaração franca e desassombrada de um
facto baseado na sua própria convicção e em seu nome pessoal. Ele está simplesmente
recitando. Percorre toda uma faixa de eventos já determinados, para encantar ou cativar os
seus ouvintes».

Ao cativar outras pessoas, o locutor representa determinado personagem diante do público. A


pessoa divide-se em certo número de papéis e, tal como o actor no palco, representa este ou
aquele personagem em determinado papel de interacção. Assim, na conversação comum,
existe o actor e o personagem, ou o animador e a animação, e o ouvinte está perfeitamente
disposto a envolver-se na caracterização que lhe está a ser apresentada.
Existem, é claro, outras situações de contacto à parte a conversação, em que o indivíduo
também tem a oportunidade de apresentar o eu. Mesmo na interacção não-focalizada,
pequenas cenas são apresentadas aos outros. Goffman acredita que o eu é literalmente
determinado por essas dramatizações. Eis como Goffman explicou o eu:

«Uma cena correctamente encenada e representada leva o público a atribuir um eu a um


personagem interpretado, mas essa atribuição — esse eu — é um produto de uma cena que se
representa e não uma causa dela. O eu, portanto, como personagem representado, não é uma
coisa orgânica que possui uma localização específica, cujo destino fundamental será nascer,
amadurecer e morrer; é, outrossim, um efeito dramático que decorre difusamente de uma cena
que é representada, e a questão característica, o problema crucial, é se ela será apreciada ou
depreciada».

Ao tentar definir a situação, a pessoa passa por um processo em duas partes. Primeiro, a
pessoa necessita de informação sobre as outras pessoas na situação. Segundo, ela precisa
dar informações sobre si mesma. Esse processo de troca de informação habilita as pessoas a
saberem o que se espera delas. Usualmente, essa troca ocorre indirectamente, mediante a
observação do comportamento de outros e a estruturação do comportamento próprio de modo
a suscitar certas impressões nos outros. A auto-apresentação é, em boa parte, uma questão de
administração de impressões. A pessoa chega a influenciar a definição da situação projectando
determinada impressão: «Ela pode desejar que os outros pensem muito bem dela, ou que
pensem que ela pensa muito bem deles, ou que percebam o que, de facto, ela sente a respeito
deles, ou que não obtenham qualquer impressão clara; a pessoa pode desejar assegurar
suficiente harmonia, a fim de que a interacção possa ser mantida, ou defraudar, livrar-se,
confundir, ludibriar ou insultar os outros».
Como todos os participantes numa situação projectam imagens, emerge uma definição global
da situação. Normalmente, essa definição geral é bastante unificada. Uma vez fixada a
definição, ocorre uma grande pressão moral no sentido de mantê-la, suprimindo contradições e
dúvidas. Uma pessoa pode ampliar as suas projecções mas nunca contradizer a imagem
inicialmente estabelecida. A própria organização da sociedade baseia-se nesse princípio.

«Por consequência, quando um indivíduo projecta uma definição da situação e dessa maneira
formula uma pretensão implícita ou explícita a ser uma pessoa de um tipo particular, ele exerce
automaticamente uma imposição aos outros, obrigando-os a apreciá-lo e a tratá-lo da maneira
que as pessoas desse tipo têm o direito de esperar que as tratem. Também renuncia
implicitamente a todas as pretensões a ser coisas que ele não parece ser e, por conseguinte,
abre mão do tratamento que seria apropriado para tais indivíduos. Os outros descobrem, pois,
que o indivíduo os informou sobre o que é e sobre o que eles devem ver o “é”».

Se a representação vacila ou é contraditada por outras cenas ulteriores, a consequência para o


indivíduo e para a estrutura social pode ser grave. Goffman usou essa postura básica nas suas
detalhadas análises da vida pública. Ele mostrou como essa noção de auto-apresentação
ocorre no comportamento verbal e não-verbal de todos os contextos públicos. Para nós,
Goffman demonstra a importância da auto-apresentação para a comunicação interpessoal.

http://www.sociologiaonline.com/2016/07/anthony-giddens-sociologia-livro/