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Sobre Resumo e Fichamento

Leandro Siqueira Lima

Muito se discute a respeito desses dois gêneros de produção textual acadêmico/científico. E


normalmente ao aluno lhe é pedido a escrita de um Resumo de citações das partes mais
importantes do texto. Podemos dizer que essa “convenção” é relativamente nova e possui suas
qualidades, já que o resultado do texto será um recorte dos trechos mais bem explicativos que o
autor faz do tema em discussão. Porém, a ideia de se resumir e fichar um texto não se limita a ler e
encontrar as melhores passagens, mas saber também escrever sobre ele e escrever sobre o que se
pensa sobre o texto. A proposta que trazemos em se produzir um Resumo e um Fichamento
procura estimular o aluno a ler o texto e também a escrever criticamente sobre ele. Análise,
portanto, que entendemos complementares entre si. Tanto a leitura e a escrita, como a
compreensão e a criticidade.

Para além desse duplo exercício da leitura e da escrita, procuramos ainda incentivar um exercício
interpretativo de duplo viés. Queremos que o aluno aprenda a se fixar no texto, que ele procure
ater-se ao que se propõe o autor/texto, que consiga “perseguir” e “acompanhar” o seu raciocínio,
ainda que o leitor (aluno) não concorde com suas proposições. O exercício de interpretação do
texto, que chamamos de Resumo, é aquele em que o leitor consegue responder ao que lhe é
perguntado por meio do texto lido. Portanto, em uma questão de interpretação de texto, quem
responde é o texto, que terá o leitor/intérprete como somente aquele que vai encontrar, que vai
recuperar a informação já existente no texto examinado. Por isso, a interpretação que tanto se pede
em provas e concursos nos parece um pouco complicada, pois o que entendemos não é o que mais
importa, mas sim nossa habilidade em encontrar a resposta no texto. Em suma, é isto que devemos
apresentar no Resumo: uma síntese da discussão principal a que o texto se propõe.

Já o Fichamento, que já dissemos é complementar ao Resumo, é o texto onde podemos apresentar


toda e qualquer observação, concordante ou crítica, mas que seja pertinente àquilo que mais tenha
chamado a sua atenção enquanto leitor. No Fichamento, o leitor deve se pronunciar, tentando
recuperar do seu próprio repertório aquilo que já conhece sobre o assunto. Propor uma espécie de
confronto entre o que diz o texto e o que ele próprio entende.

Mas o mais importante, acredito, a respeito da produção do Resumo e do Fichamento é que eles
devem ser produzidos e apreendidos com a intenção de despertar no aluno a sua própria maneira
de organizar seus estudos e seus conhecimentos (que, lembremos, estão em permanente
desenvolvimento). Resumos e Fichamentos não devem ser entregues ao professor apenas como
tarefa avaliativa, mas sim como uma prática para seu próprio aperfeiçoamento. Se durante uma
graduação, o aluno consegue organizar a leitura dos principais textos de sua área de estudo em
Resumos e Fichamentos (ou estruturas textuais similares), ele poderá ao fim dessa etapa reunir
seus escritos e ter a possibilidade de retomar com mais agilidade as principais questões que ele foi
observando durante os anos de estudos. Ele poderá por meio desses escritos rever melhor sua
trajetória, sua evolução, os caminhos que ele foi percorrendo, os raciocínios que desenvolveu, e
que em todo final de ciclo precisam ser redimensionados, a fim de dar a cada um de nós um
resumo do que fizemos durante aquela etapa.

E nessa última hora, em que estamos reavaliando nossos caminhos, basta um fichamento crítico
nosso, para saber onde é que erramos e como podemos reorganizar o que foi produzido em favor
de um novo ciclo. O momento de maturidade de um estudante ou de um estudioso (que é como
nós nos reconhecemos quando passamos de meros espectadores para produtores de conhecimento)
acontece num momento muito claro e decisivo. Este momento é aquele em que descobrimos como
é que devemos nos organizar para estudar. Se é deitado, se é sentado, se é em casa ou na biblioteca
(ou no ônibus, é claro), com fone de ouvido ou sem música nenhuma, se no silêncio ou no
barulho, se é escrevendo o que lemos, resumindo e fichando, ou se é tentando guardar tudo dentro
de uma cabeça só.

Mas devo dizer uma última coisa, respondendo à dúvida que deixei no ar. Comigo só foi possível
acreditar que estudando eu poderia realmente melhorar meu desempenho, realmente só foi
possível quando aprendi que eu precisava estudar em qualquer circunstância, na chuva ou na
estiagem, sem reclamar e sem colocar nenhuma desculpa para não estudar naquele dia, de sol ou
de muita trovoada. Se não escrevi o que li de algum texto importante, foi uma tarefa que deixei de
realizar, e que certamente será necessário fazê-la, hoje ou amanhã, num dia desses, quem sabe
hoje mesmo.