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PERFORMAR O ECLIPSE: AS AÇÕES ARTÍSTICAS DE

AURÉLIO PINOTTI

Bruno Biasio
Recebido em: 20/10/2017
Aceito em: 22/11/2017

Aurélio Pinotti performance


literatura ultracontemporânea elipse

Constituída por 93 livros publicados em menos de seis meses, a produção artística de


Aurélio Pinotti tem mobilizado alguns textos críticos desde o seu recente aparecimento.
Sua interpretação como obra literária, contudo, desconsidera certos elementos fun-
damentais de seu efeito performativo, que este artigo pretende resgatar por meio da
metáfora do eclipse.

Eclipse, elipse

Nada mais próximo do eclipse que a elipse: além da PERFORMING THE ECLIPSE | Consisting of
semi-homonímia das palavras, ambas partilham o ninety-three books published in less than six
campo semântico da ausência, do ocultamento, da months, Aurélio Pinotti’s artistic production
has mobilised some critical texts since its recent
lacuna. “A elipse é a figuração literária do eclipse”, appearance. However, its interpretation as
afirma Aurélio Pinotti1 num enunciado metonímico a literary work ignores certain key elements
de suas próprias ações e da forma como têm sido of its performance effect, which this article
interpretadas pela crítica até o momento. O objetivo aims to retrieve using the metaphor of the
deste artigo é desvelar essa falsa sinonímia, chaman- eclipse. | Aurélio Pinotti, performance, ultra-
contemporary literature, elipse.
do atenção para as semelhanças, mas também para
as singularidades irredutíveis desses dois termos.

Conheci a obra de Aurélio Pinotti por acaso, em maio deste ano, quando reunia material para minha
pesquisa sobre a arte ultracontemporânea. Depois de descobrir Algumas notas sobre a dramaturgia ul-
tracontemporânea,2 deparei, surpreso, com um conjunto vasto e variado de romances, livros de poesia,
ensaios, biografias e diversos outros livros aparentemente inclassificáveis, escritos predominantemente
em português, inglês, alemão, francês e espanhol (mas havia outros também em italiano, catalão, sueco
e japonês3). Prometi a mim mesmo dedicar mais tempo àquele autor sobre o qual jamais ouvira qualquer

Página virtual da Amazon com livros de Aurélio Pinotti


Edição italiana de Poesia post umana

COLABORAÇÕES | BRUNO BIASIO 179


comentário, mas que parecia criar uma obra múl- Antes que eu pudesse formular uma resposta para
tipla e original; contudo, como estava envolvido a pergunta, ocorreu o segundo eclipse (o segun-
na composição de um artigo, só pude retornar a do de acordo com meu ponto de vista, uma vez
Pinotti dois meses depois, e foi então que presen- que nada posso afirmar sobre o período anterior a
ciei seu primeiro eclipse. maio de 2016, e mesmo entre maio e julho minha
observação não foi tão assídua a ponto de cobrir
Em julho de 2016, quando voltei à página virtual
todos os dias). Um a um, todos os livros disponí-
da Amazon em busca de novos livros de Aurélio
veis na página da Amazon foram sendo retirados
Pinotti, encontrei um autor diferente do que eu
de circulação, e em poucos dias uma obra que era
conhecera dois meses antes. O livro de ensaios O
vasta e multifacetada (em seu momento de maior
que é literatura ultracontemporânea,4 que antes
esplendor, cheguei a contar 41 livros, todos dispo-
eu havia incluído em minha bibliografia, mas que
níveis para compra imediata) tornou-se de repente
deixara para ler mais tarde, já não estava dispo-
nula. O fato de se tratar de livros virtuais torna-
nível para compra. Outras obras de que eu me
va o eclipse mais potente, radical e angustiante:
lembrava perfeitamente − algumas por seu tí-
uma vez que não havia cópias impressas daquelas
tulo sugestivo, como Ubiratan Guimarães, mon
obras, era como se elas jamais tivessem existido.
amour;5 outras porque eu havia lido suas primei-
ras páginas e tinha uma ideia do seu conteúdo Curiosamente, foi nesse momento em que a obra
geral, como Lucas, 14,6 que propunha uma série de Aurélio Pinotti deixou de ser visível que foi
de ações performáticas a ser realizadas no inte- publicado a seu respeito o primeiro artigo aca-
rior do Rio Grande do Sul − simplesmente ha- dêmico.7 Essa coincidência me pareceu sintomá-
viam desaparecido sem deixar rastro, ao mesmo tica não apenas das relações tumultuosas entre o
tempo em que havia dezenas de outros aparen- discurso crítico e a criação artística, mas também
temente inéditos ou, pelo menos, de que eu não do fascínio exercido pelas obras e pelos artistas
me lembrava. eclipsados.8 Embora tivesse lido mais de dez livros
do autor, Ferreira parecia interessada sobretudo
Passei os meses seguintes acompanhando com
na parte obscura e insondável daquela obra: os li-
certo interesse os movimentos daquele escritor
vros em alemão, polonês e japonês, sobre os quais
peculiar e, como os astrônomos que observam
ela não podia tecer qualquer comentário, uma vez
o céu noturno em busca de padrões, acabei por
que não conhecia suficientemente as línguas
detectar certa constância naqueles acréscimos e
em questão; as circunstâncias biográficas que
supressões aparentemente caóticos: a cada se-
haviam permitido ao autor publicar mais de 40
mana, a obra de Aurélio Pinotti era ligeiramente
livros em menos de três meses; os procedimentos
distinta. Se hoje ela era formada, digamos, por
literários que Pinotti havia utilizado para escrever
11 romances, 13 livros de poesia, seis ensaios e
obras coerentes e coesas sem incorrer em mo-
oito programas de ações artísticas, daqui a sete
notonia ou previsibilidade. Em outras palavras,
ou oito dias não só a proporção entre os gêneros
Ferreira tratava o eclipse como elipse.
seria distinta, mas também as próprias obras que
compunham o conjunto seriam outras. O que se Em agosto de 2016, Aurélio Pinotti publicou 61
ocultava sob uma estratégia comercial e artística livros na página virtual lulu.com, trazendo de vol-
aparentemente tão disparatada? ta à luz sua obra eclipsada. Como eu não dispu-

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nha de uma lista dos livros antes disponíveis na tirar livros de circulação sem aviso prévio. Há um
Amazon, não pude estabelecer uma comparação eclipse deliberado também da figura do autor,
minuciosa entre os dois conjuntos; de qualquer que se recusa a fornecer explicações biográficas,
forma, minha memória sugeria que havia vários a dar entrevistas, a participar das redes sociais ou
acréscimos e supressões.9 O que é literatura ul- mesmo a disponibilizar informações em páginas
tracontemporânea, por exemplo, não voltou a ser pessoais. O paradoxo entre a superexposição lite-
disponibilizado. Por outro lado, a proporção de rária, mediante uma obra prolífica e plurilíngue,
livros escritos em inglês me pareceu muito maior e a discrição biográfica, que parece recusar qual-
nessa segunda aparição do que na primeira. À quer identidade definida, seja ela nacional, lin-
primeira vista, poderíamos imaginar que se tra- guística ou mesmo de gênero, é corporificado no
tasse de uma estratégia comercial com o intuito paradoxo entre o alcance global das plataformas
de potencializar as vendas ou os lucros; no entan- em que suas obras são publicadas e o número
to, as práticas do autor são tão heterodoxas que conscientemente limitado de leitores a que esses
se torna difícil vislumbrar uma coerência lógica livros parecem se destinar.
inquestionável. Tomemos como exemplo o valor
Sobre as explicações biográficas, é preciso abrir
dos livros: as obras de Pinotti são quase sempre
um parêntese: não faltam, ao longo dos livros de
vendidas a um preço muito mais alto do que as
Pinotti, pormenores, narrativas e alusões a fatos
de tamanho e formato similares. Mais do que
supostamente ocorridos com o autor. Contudo, é
uma estratégia comercial, a prática de cobrar
impossível reconstituir uma biografia una e coe-
oitocentos reais por um livro de poemas de 30 e
rente a partir desses textos. A simples dispersão
poucas páginas escrito em italiano ou polonês por
geográfica de sua ambientação (há narrativas que
um autor obscuro parece uma estratégia artística
se passam em Brno, Budapeste, Cuzco, Lagos,
que coloca em xeque os processos tradicionais de
Liubliana, Neuquén, Paris, São Paulo, Vigo e Vla-
atribuição de preço e valor e nos faz questionar a
divostok) já aponta para uma identidade fantas-
legitimidade desses processos. Tampouco se deve
magórica e imprecisa. Há relatos de crimes e atos
descartar o fenômeno da reprodutibilidade das
abnegados; confissões de experiências mutuamen-
obras digitais contemporâneas: uma vez que um
te contraditórias; ideologias e preferências sexuais
livro virtual é comprado, torna-se relativamente
conflitantes; metáforas evidentes e metonímias
fácil produzir um número ilimitado de cópias des-
oblíquas. Para nos ater à questão que nos mobiliza
sa obra. Aurélio Pinotti parece propor um novo
neste artigo, como interpretar a afirmação seguin-
tipo de jogo entre o escritor e o leitor: a partir do
te, apresentada em Entrevista número 7?
momento em que este último paga um valor ele-
vado pelo simples direito de baixar um texto em
Segundo van Soldt e de Jong, o registro mais
seu dispositivo de leitura, pode-se imaginar que
antigo de um eclipse de que se tem notícia faz
ele o possa difundir livremente sem custos adicio-
referência a um obscurecimento do sol ocorrido
nais. Paga-se, enfim, pelo direito de ler em primei-
no dia 5 de março de 1223 antes de Cristo, ou
ro lugar, e não mais pelo simples acesso ao texto.
seja, exatamente 3197 anos do meu nascimen-
De qualquer forma, as estratégias de desapareci- to. A descoberta desse fato foi um dos elemen-
mento de Pinotti não se limitam à prática de re- tos determinantes da minha atuação artística.10

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Podemos considerar a afirmação confiável, e não necessidade de abordar as ações artísticas de Au-
apenas estabelecer o dia 5 de março de 1974 rélio Pinotti a partir de uma perspectiva distinta,
como data de nascimento do autor,11 mas tam- que as considere também como eclipse. Para isso,
bém considerar o eclipse como um símile ou uma é necessário que recuperemos a citação do autor
metáfora da sua prática artística? Ou se trata de sobre o fenômeno celeste observado suposta-
uma simples boutade, a despeito de a referência a mente 3197 anos do seu nascimento: parece-nos
van Soldt e de Jong ser autêntica? Independen-
12
sintomático que Pinotti não se refira à sua “obra”,
temente do suposto valor de verdade do trecho mas sim à sua “atuação artística”.
acima, um elemento chama a minha atenção: Pi-
A partir dessa nova perspectiva, a publicação de
notti não se refere a seu trabalho como “obra”,
93 livros num período de seis meses15 não deve
mas sim como “atuação artística”. Talvez nessa
ser interpretada apenas como um fenômeno
referência se encontre a base para uma distinção
literário, mas também como um gesto perfor-
definitiva entre elipse e eclipse.
mativo16 que, a despeito do valor que possamos
atribuir a cada obra individual, tem suas próprias
A performance do eclipse
implicações artísticas. Ao deslocar nosso olhar das
Não obstante seu caráter ultracontemporâneo, obras supostamente estáticas e estéticas para as
um conjunto amplo de livros como os publicados ações concretas e voláteis de publicação, eclip-
por Pinotti não demorou a suscitar o interesse da se, nova publicação, mudança dos textos e dos
crítica. Contudo, embora os estudos de Ferreira, valores atribuídos a cada livro, criação de gêne-
Gagliardi13 e Pitigrilli abordem questões pertinen- ros literários inéditos17, apresentação de teasers
tes do ponto de vista literário, todos eles parecem semiautomáticos sobre livros que já não podem
partir do pressuposto implícito de que se referem ser adquiridos,18 novo eclipse, criação de livros a
a um opus no sentido tradicional do termo: um partir de programas cibernéticos e vários outros
conjunto de objetos artísticos com características procedimentos que não se limitam à prática dis-
relativamente determinadas (ou, ao menos, deter- cursiva, abre-se espaço para que consideremos o
mináveis por uma análise suficientemente acura- efeito performativo dessas ações.
da). A partir dessa perspectiva, as “estratégias de
Entendido como performance, o conjunto de
desaparecimento e deslocamento”14 do autor são
ações artísticas de Aurélio Pinotti adquire um sen-
interpretadas como elipses, ou seja, como lacunas
tido mais amplo, de experimento contínuo e im-
que apontam para uma totalidade recuperável
previsível que coloca em xeque vários pressupos-
pela reflexão crítica.
tos vigentes nas práticas de leitura e interpretação
Ainda que não desconsideremos as qualidades es- contemporâneas. A consideração dos livros virtuais
téticas de um livro como Poesia post umana, em como mera transposição digital dos livros impres-
que recursos técnicos que remontam à poesia tro- sos é questionada por um procedimento que os
vadoresca são apropriados a partir de uma pers- explora artisticamente como vetores de sentidos
pectiva contemporânea, ou de um roman fleuve múltiplos e mutáveis; uma vez que todos os livros
como Der Stall des Augias, que mescla comentá- estão abertos a revisões e retificações radicais, a
rio e narrativa de uma forma absolutamente ori- possibilidade de se emitir um juízo definitivo (ou
ginal e surpreendente, queremos salientar aqui a mesmo minimamente estabilizado) sobre uma

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Edição alemã de Freie Luft

obra é seriamente problematizada; a própria con- de partitura cênica e crítica para uma conferência
cepção da prática literária como “grande arte” performática num congresso científico.21
reservada a momentos de “silêncio, exílio e astú-
Contudo, não são apenas os livros que se enun-
cia”19 dá lugar a um processo muito mais precá-
ciam literalmente como programas de ação que
rio, ruidoso e prosaico, imerso nas vicissitudes e
podem ser lidos pelo viés performativo. Apesar de
contingências históricas e individuais.
sua estrutura poética, que dialoga com vários li-
Longe de ser um elemento alheio à produção de vros publicados recentemente na França exploran-
Aurélio Pinotti, a performance ocupa um lugar do a lista como dispositivo lírico,22 uma obra como
central no conjunto de seus 93 livros publicados Le 13 mai 2016 J’écris ton nom,23 constituída fun-
até agora. Codex Codax reúne notas preparatórias damentalmente por uma lista com o prenome de
de uma performance interartística a ser realizada cada uma das vítimas dos atentados ocorridos em
na cidade de Vigo, na Galícia, “com o intuito de Paris no dia 13 de novembro de 2015, perde muito
trazer de volta à vida o antigo jogral Martin Co- de sua força se for lida como um poema no sentido
dax, supostamente atuante entre meados do sé- tradicional do termo. A intensidade da experiência
culo XIII e início do XIV”.20 Lucas, 14 apresenta de leitura não reside nos valores sonoros ou visuais
uma série de ações a ocorrer na cidade de Ere- das palavras, mas sim no efeito ritual de sua enun-
chim. Desconcerto número 1 propõe uma espécie ciação − efeito potencializado pelo fato de o livro

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ter sido não apenas escrito, mas também publica- Aurélio Pinotti não apenas desvela o aspecto lacu-
do no dia em que se completavam seis meses dos nar de todo conhecimento, mas também traz para
atentados na capital francesa. o campo literário uma perspectiva astronômica.
Como se dispuséssemos de um potente telescópio
De forma similar, Déconcert numéro 224 se pro-
que nos permitisse enxergar constelações extintas
põe como um registro fragmentário de uma ação
há milhares de anos, somos capazes de contem-
mais ampla: o registro, por parte do autor, de sua
plar, no período condensado de seis meses, um
solidariedade a cada atentado terrorista ocorrido
movimento que habitualmente só podemos obser-
entre 20 de outubro de 1995 e 20 de outubro de
var ao longo de séculos ou milênios (pense-se, a
2016. Nesse livro ilegível não apenas porque escri-
título de exemplo, no que ocorreu com as obras
to em 52 línguas diferentes, mas também porque
de Safo, Sófocles ou Menandro): um autor publica
em perpétua mutação, espécie de metonímia de
um grande número de obras; um número irrisório
toda a ação artística de Pinotti, podemos ver uma
dessas obras é lido ou comentado por duas ou três
materialização dos limites da literatura, e o fato
pessoas; a maior parte do conjunto desaparece
de que o suposto “manifesto solidário” seja vendi-
sem deixar rastros; há uma ou outra redescoberta
do ao preço exorbitante de 150 euros desvela iro-
antes do eclipse final, em que tudo (autor, obra e
nicamente a dificuldade de livrar a criação artística
crítica) é devolvido ao vazio dos astros silenciosos.
dos imperativos mercadológicos.

Também em Disconcert Nummer 3, publicado


em 11 de setembro,25 o gesto artístico me pare- NOTAS
ce mais relevante que o objeto literário que daí
1 Pinotti, Aurélio. Entrevista número 7. Lisboa: Livros
resulta. A simples justaposição de discursos neo-
do Desassossego, 2016: 43.
nazistas contemporâneos a relatos de refugiados
recém-chegados à Europa cria um efeito de caó- 2 Pinotti, Aurélio. Algumas notas sobre a dramaturgia
tica polifonia que nos faz indagar se não estamos ultracontemporânea. Paris: Passage Rauch, 2016.
diante de um novo gênero artístico, em que as 3 Para uma lista quase completa das obras de Pinotti,
noções tradicionais de autoria, criatividade, gêne- ver Pitigrilli, Sandra. A literatura ultracontemporânea
ro e identidade já não fazem mais sentido. em tempos de expansão das mídias digitais: exame
da obra de Aurélio Pinotti, in Kaliope, n. 18, São
A luz paradoxal do eclipse Paulo: PUC-SP, 2016: 17-33.

Finalmente, é preciso lembrar que não há um único 4 Pinotti, Aurélio. O que é literatura
sentido para a elipse. Desde o século 17, o termo ultracontemporânea. Lisboa: Livros do Desassossego,
é usado não apenas para descrever uma figura li- 201.
terária, mas também uma figura geométrica. Sob 26
5 Pinotti, Aurélio. Ubiratan Guimarães, mon amour.
esse ponto de vista, elipse e eclipse são elementos
Paris: Passage Rauch, 2016.
complementares: é o movimento elíptico dos cor-
pos celestes que produz o fenômeno do eclipse. Ou, 6 Pinotti, Aurélio. Lucas, 14: Notas para 14 ações.
em outras palavras, o eclipse é um evento que nos Paris: Passage Rauch, 2016.
revela o aspecto elíptico dos corpos em movimento. 7 Ferreira, Ana. 2016. De Babel a Brno: o caso Aurélio
Ao fazer do eclipse seu modo de atuação artística, Pinotti. Revista Gama, Lisboa, v. 4, n. 7, 2016: 11-27.

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18 A propósito, a simples propaganda do livro
8 Ver, a propósito, as atas do congresso Les tragédies
Duchamp e nós já vale como uma instalação
de Sénèque en Europe aux XVIIIe et XIXe siècles:
artística. O efeito de dissonância produzido pelo
éclipse et résistance d’un modèle théâtral, ocorrido
programa de leitura automático que pronuncia
na Université François-Rabelais, em Tours, no dia
com sotaque americano um texto em português
15 de outubro de 2015, há exatamente um ano do
tornado subitamente ininteligível é um exemplo
momento em que escrevo esta nota. Cf. https://www.
de antipropaganda que contraria a própria lógica
fabula.org/actualites/les-tragedies-de-seneque-en-
implícita do processo.
europe-aux-xviiie-et-xixe-siecles-eclipse-et-resistance-
d-un-modele_70612.php. 19 Cf. Kenner, Hugh. The rhetoric of silence. James
Joyce Quarterly, 14.4, 1977: 382-394.
9 Essa impressão foi confirmada mais tarde pelo
artigo de Pitigrilli, 2016. 20 Cf. Pinotti, Aurélio. Codex Codax. Paris: Passage
Rauch, 2016.
10 Pinotti, Aurélio. Entrevista número 7. Lisboa:
Livros do Desassossego, 2016: 41. 21 Pinotti, Aurélio. Desconcerto Número 1:
conferência-performance. Paris: Passage Rauch,
11 O que contrariaria a hipótese de Ferreira (2016:
2016.
15) segundo a qual o autor teria “entre sessenta e
setenta anos de idade”. 22 Cf. Lecolle, Michelle; Michel, Raymond; Milcent-
Lawson, Paris (dir.), Liste et effet liste en littérature.
12 Cf. de Jong, Teije; van Soldt, Wilfred. (1989).
Paris: Classiques Garnier, 2011.
The earliest known solar eclipse record redated,
Nature,  338: 238-240 (16 March 1989); 23 Pinotti, Aurélio. Le 13 mai 2016 J’écris ton nom
doi:10.1038/338238a0. Disponível em http:// (un oratoire). Paris: Passage Rauch, 2016.
www.nature.com/nature/journal/v338/n6212/
24 Pinotti, Aurélio. Déconcert numéro 2. Paris:
abs/338238a0.html, consultado em 14 out. 2016.
Passage Rauch, 2016.
13 Gagliardi, Caio. Problemas da heteronímia digital.
25 Pinotti, Aurélio. Disconcert Nummer 3. Lisboa:
Revista do Centro de Estudos Lusófonos, Lisboa, v. 2,
Livros do Desassossego, 2016.
n. 2, p: 18-34, 2016.
26 Cf. Martinho, Fernando Jorge dos Santos. A elipse
14 Cf. Pitigrilli, 2016: 19.
nominal em português e em francês. Dissertação
15 Conforme a contagem que fiz hoje, dia 20 de (mestrado em Linguística Portuguesa Descritiva).
outubro de 2016; mas certamente esse número é Universidade do Porto. Porto, 1998: 5.
precário e provisório, e pode diminuir ou aumentar
imprevisivelmente nos próximos dias (ou mesmo nas
próximas horas).

16 Cf. Després, Aurore (ed). Gestes en éclats − art,


dance et performance. Paris: Les presses du réel,
Bruno Biasio é crítico e tradutor, doutor em teoria
2016.
literária pela Unicamp. Este artigo é parte de sua
17 Como a infrapoesia, o romance pós-pop e o ram, pesquisa de pós-doutorado intitulada Arte e literatura
entre outros. no contexto da expansão das mídias digitais.

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